História de um sonho

 

O Barracão de Cultura que a Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA está empenhadíssima em construir é um sonho que tem a sua história. O sonho nasceu, há alguns anos, num daqueles encontros mensais que eu, desde 1988, passei a dinamizar aqui em Macieira da Lixa. Na altura, os encontros decorriam nos baixos da casa do senhor Albano, junto ao edifício das Escolas do ensino básico da freguesia. Eram muitas as pessoas que vinham ali reunir e celebrar a Fé cristã num ambiente alternativo ao da igreja paroquial. Desses encontros, ganhou corpo a Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa e, mais tarde, a Associação. O pároco, na altura, fazia alguma "guerra" a esta experiência. Mas de nada valeu. O entusiasmo das pessoas era grande e os encontros decorriam num clima de muita alegria, de festa, de convívio afectivo e também de muito aprofundamento do Palavra de Deus. Porém, todo esse entusiasmo redundou numa grande crise, quando o Evangelho anunciado e aprofundado passou a fazer sérios apelos à mudança radical de vida de cada pessoa, com particular incidência, na partilha dos bens. Quando passaram a ouvir falar na partilha dos bens, para os colocar ao serviço do desenvolvimento e da qualidade de vida, lá onde eles fossem mais necessários, independentemente, de se tratar de pessoas da nossa família, ou não, a maioria deixou de aparecer aos encontros. A festa acabou e a Comunidade ficou reduzida a muito poucas pessoas. Hoje, quase se contam pelos dedos das mãos. E nem o facto de eu ter vindo morar para a freguesia alterou a situação. Parece até que a agravou. Por mim, não estranho. Os bens e a sua partilha sempre foram a grande pedra de toque para medirmos a autenticidade da fé cristã jesuânica de alguém. Neste particular, os Evangelhos Sinópticos são dramaticamente eloquentes, quando nos apresentam o caso do "jovem rico" que já cumpria todos os mandamentos de Moisés. Jesus olhou-o com particular afecto e logo o convidou a segui-lo, mas só depois dele ter vendido todos os seus bens e de distribuir todo o dinheiro apurado pelos pobres (hoje, Jesus talvez dissesse para vender os bens e investir todo o dinheiro na promoção da cultura dos pobres). O relato, que é paradigmático em relação aos ricos, deixa-nos quase sem respiração, quando, a concluir, reconhece que o rico, "ao ouvir aquelas palavras, retirou-se triste, porque possuía muitos bens". Mas o caso não acaba aqui. O próprio Jesus ficou tão afectado com esta recusa do rico a dar os passos que ele lhe propôs para ser perfeito, que não se conteve e desabafou com profunda dor e muita decepção: "Quão difícil é um rico salvar-se!", isto é, atingir a plenitude do humano, ter entranhas de misericórdia, sentir fraternamente os demais. O que o rico sente é o dinheiro, come dinheiro, adora o Dinheiro. E acaba por se tornar dinheiro, em lugar de se tornar ser humano!

Foi num desses encontros nas instalações da casa do senhor Albano que nasceu o sonho do Barracão de Cultura. Nesse tempo, ainda não se falava em Barracão, mas em Casa de Cultura. A partilha dos bens seria, no imediato, para lhe dar corpo. Recordo-me bem da ideia então lançada: Assim como cada freguesia tem um templo ou igreja paroquial, também deveria ter uma Casa de cultura. E se não possibilidades para ter igreja paroquial e casa ou barracão de cultura, que tenha uma casa ou barracão de cultura, de preferência a uma igreja paroquial. A ideia foi bem acolhida. Quando, nos encontros seguintes, se começou a falar na partilha dos bens para os colocarmos ao serviço da cultura das pessoas, é que se abriu a crise já referida e as pessoas, na sua maioria, deixaram de querer fazer parte da comunidade. Parece que ainda estou a ver as pessoas a cantar com entusiasmo o canto que então corporizou este sonho:

Refrão 

A toda a nossa gente

            queremos hoje anunciar

            que só é feliz na terra

            quem pratica o verbo Amar

1. Somos poucos mas havemos

de a muitos fazer viver

também um pouco de sal

dá outro gosto ao comer

2. Somos pobres mas havemos

de a muitos enriquecer

os bens quando partilhados

fazem o Povo crescer

3. Maltratados por alguns

só sabemos acolher

também o sol quando nasce

a todos vem aquecer

4. Somos gente sem poder

e o mundo vamos mudar

porque um pouco de fermento

faz a massa levedar

5.  Formamos comunidade

no meio da nossa gente

co’a nossa acção e presença

nossa terra é diferente

6 Privilégios entre nós

é coisa desconhecida

quem quiser ser o maior

a todos dá sua vida

7. Frutos do nosso viver

são a paz e a ternura

que se vão concretizar

no Barracão de Cultura.

Nota: Este canto pode ser cantado com a música popular “É mentira, é mentira / é mentira, sim senhor”

Com as pessoas que, entretanto, continuaram na comunidade, foram dados os primeiros passos para tentar concretizar o sonho. Legalizou-se a Associação que ficaria como a entidade responsável pela construção e sua proprietária legal. Um casal que frequentava a comunidade anunciou que oferecia uma tapada para a sonhada construção. Porém, na hora da escritura, a doação só foi parcial e a Associação teve que pagar sensivelmente metade da tapada. Um arquitecto do Porto foi contactado por mim e aceitou fazer gratuitamente o respectivo projecto. Ainda chegou a entrar na Câmara de Felgueiras. Mas depois a Associação, ao ver-se com tão poucas pessoas, caiu na real e deu-se conta que o projecto, tal como estava concebido, atingiria custos muito elevados, incomportáveis para as nossas possibilidades. E tudo ficou em "banho maria".

Até que, poucos anos depois, num outro encontro, já na casa de Maria Laura, que hoje é conhecida como "Casa da Comunidade", o sonho voltou a despertar, não já como casa de cultura, mas como Barracão de Cultura. Os objectivos são os mesmos, mas o projecto será muito mais simples e menos dispendioso. Nem eu sei explicar como, mas a verdade é que estava no uso da palavra, durante mais um encontro mensal e, de repente, saiu-me a frase: em lugar da casa de cultura, por que não pensamos num simples Barracão de Cultura, com um grande palco, e num terreno plano, sem as complicações topográficas da tapada, num local mais central da freguesia, por exemplo, aqui, neste campo a seguir à Casa da Comunidade? Maria Laura, a proprietária do campo e da casa, ouviu este meu improviso e, de imediato, com aquela alegria e aquela disponibilidade que a caracterizam, tomou a palavra para dizer/perguntar: "E por que não?!" Desde então, nunca mais voltou com a sua palavra atrás e passou a ser ela a campeã do sonho. Havemos de ter Barracão de Cultura e no campo que ela doou para esse fim. E assim está para acontecer, agora que vamos entrar no ano 2005. A doação do campo foi concretizada em escritura no Notário de Felgueiras, o projecto de arquitecta foi conseguido gratuitamente e já está aprovado pela Câmara. Faltam os pequenos projectos de engenheiro e, sobretudo, falta iniciar a construção do edifício. O sonho está, pois, em vias de ser concretizado. Ah! Faltam também bastantes apoios financeiros. Porque temos o sonho, não temos a verba suficiente para o realizar.

Lembrem-se então de nós, quantas, quantos vierem a ler este curto relato. Obrigado, desde já, em meu nome e em nome da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA.

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