Todos os caminhos vêm dar a Macieira da Lixa. Encontros macro-ecuménicos
Assim como outrora, particularmente, depois do meu primeiro julgamento no Tribunal Plenário do Porto, todos os caminhos do Norte de Portugal, e não só, vinham dar a Macieira da Lixa (aos domingos de manhã, chegavam multidões em camionetas alugadas e muitos automóveis, por sinal, mais homens do que mulheres, com frenética vontade de participar na Eucaristia, já então experimentada como um invulgar momento de libertação que nos deixava de olhos mais abertos e de coração mais afogueado em relação às causas da Humanidade), é de esperar que também agora que aqui regressei com o propósito de levar por diante a Missão Evangelizar os pobres, aquela salutar prática volte a ocorrer. Não, não voltarão as excursões, nem as multidões anónimas, como então. Tenho perfeita consciência que, nas actuais circunstâncias eclesiais em que vivo, longe dos templos e dos altares, o Evangelho de Deus que testemunho e anuncio será sentido ainda mais do que então como "porta estreita" e, por isso, será muito menor o número daquelas pessoas que se encaminharão para cá. Mesmo assim, há-de continuar a ser verdade que todos os caminhos vêm dar a Macieira da Lixa. Nem que as pessoas que agora se metam a percorrer esses caminhos sejam, por exemplo, como o Nicodemos do Evangelho de João, que procurou Jesus, mas de noite.
Pelo menos, uma vez por mês - a partir da Páscoa 2004, deixa de ser nas tardes dos segundos domingos de cada mês, para passar a ser nos finais das tardes dos segundos sábados de cada mês - faremos o encontro-celebração da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa, no decorrer do qual actualizaremos para o nosso Hoje e Aqui nacional e mundial a Memória subversiva e perigosa de Jesus, o Crucificado pelo Império, e a quem Deus ressuscitou para sempre. Isto acontecerá no decorrer duma ceia que comeremos e beberemos em seu Nome e em comunhão com o seu Espírito, a qual resulta do pôr em comum as diferentes ceias que as pessoas que vierem participar terão o cuidado de trazer com elas, como num piquenique eucarístico. Como o encontro-celebração abre habitualmente com essa ceia partilhada, tal como acontecia nas comunidades cristãs primitivas, por exemplo, na Comunidade de Corinto (cf. 1Cor, 11), o seu início é por volta das 20 horas e, depois, prolonga-se, noite adiante, pelo tempo que acharmos conveniente. Para já, o encontro-celebração decorre na Casa da Comunidade que é, simultaneamente, residência da respectiva presbítera não-ordenada, Maria Laura, e de dois dos seus três filhos, Andreia Cristina e Rodrigo Filipe (o terceiro filho, Alberto, já casado, vive com a sua família numa casa na cidade da Lixa). Como num coração que ama, também na Casa da Comunidade caberão todas as pessoas que aparecerem, qualquer que seja o seu número.
Fora destas datas, a Casa da Comunidade estará sempre aberta para acolher quem a procurar. E os encontros informais acontecerão, desde que quem vier se apresente com tempo para se sentar à mesa e com fome para comer o Pão da Palavra/Ensinamento de Jesus. E também o outro pão, que haveremos de aprender a partir e a partilhar, em lugar de concentrar e armazenar egoisticamente. Experimentem e verão que assim é. (Eu não moro na Casa da Comunidade, mas depressa chego lá, assim o telefone diga para eu aparecer)
Para lá destes encontros-celebração, outros haverá, de acalorado debate e de convívio partilhado. Chamo-lhes encontros macro-ecuménicos. Juntarão pessoas de diversas Igrejas cristãs à mistura com pessoas assumidamente ateias e agnósticas, para quem Jesus, o Homem Jesus, felizmente, nunca passou despercebido e a Bíblia, nos seus dois Testamentos, continua ainda a despertar alguma curiosidade ou mesmo interesse cultural e espiritual. Serão encontros nos quais pessoas diferentes aceitarão cruzar as suas convicções e as suas vivências com as convicções e as vivências das outras. De modo que os encontros macro-ecuménicos (é um ecumenismo tão aberto que até acolhe ateus e agnósticos no seu seio) acabarão por ser encontros representativos de toda a Humanidade, na sua variedade de culturas, teologias, filosofias, vivências, espiritualidades, políticas, religiões.
Entretanto, não fiquem à espera que eu esteja à frente a comandar estas e outras iniciativas. Nem que eu tome a iniciativa de tudo. Alguma iniciativa terei, evidentemente. Mas a originalidade destes e outros encontros é a iniciativa poder e dever partir de qualquer pessoa. Macieira da Lixa é apenas a referência geográfica e teológica, aonde todos os caminhos vêm dar, devido a ter sido, na ainda recente década de setenta e até ao 25 de Abril de 1974, uma terra onde o Evangelho da libertação para a Liberdade aconteceu e de onde ecoou para todo o mundo. A Luz que então aqui aconteceu - "Eu sou a luz do mundo", diz Jesus; "Quem me segue não anda nas trevas" - ainda hoje brilha. E, se alguma vez deixar de brilhar, há-de prosseguir sob a forma de Memória subversiva e perigosa na consciência da Humanidade. Foi aqui, em Macieira da Lixa, que Deus, o de Jesus de Nazaré, se nos revelou como Aquele que gosta de Política, não de Religião. E este dado teológico faz, desde então, toda a diferença. É também essa diferença que dará sentido aos encontros macro-ecuménicos e outros que fizermos acontecer aqui. Veremos então como todos os caminhos vêm dar a Macieira da Lixa.
Uma coisa posso garantir: à medida que percorrermos os caminhos que vêm dar a Macieira Da Lixa e acabarmos por ser aqui tocadas, tocados pelo Deus de Jesus que gosta de Política, não de Religião, haveremos de nos experimentarmos cada vez mais humanos, até nos tornarmos definitivamente irmãs, irmãos universais. Comecem hoje mesmo a preparar-se para se meterem ao caminho. Por mim, espero-vos sempre de braços abertos. Com tudo o que sou e tenho.