Diário Aberto
2005 SETEMBRO 29
O almoço em casa de Elisa e Marques, o casal que conheci, sábado passado, no casamento civil, em Amarante já aconteceu. Foi ontem. Pelo caminho, ainda me desloquei à casa da senhora Adozinda, avó do André e mãe da Paula. O menino já está matriculado na Escola de Macieira da Lixa, mas faltam os documentos pessoais que estão na posse da avó. Soube que ela se recusa a entregá-los, como vingança por de repente ter ficado sem a guarda do neto e, sobretudo, sem a "mesada" que a Segurança Social lhe estará a dar todos os meses, a pretexto de apoio. E pensei: se lhe aparecer pessoalmente, talvez ela mos entregue a bem. Por isso, antes de me desviar para a freguesia de Telões, onde reside o casal Elisa/Marques, passei pela casa da senhora Adozinda. Não estava. Fiquei desolado. Era quase meio-dia e não estava ninguém. Bati a ambas as portas e nada. Silêncio total. Na hora, lembrei-me e escrevi um dos meus cartões pessoais e deixei-o na porta. Para que ao menos soubesse que tinha passado por lá e ao que ia. E segui para Telões, a pensar que, depois, no final da tarde, ao regressar a casa, voltaria a passar por lá. E assim fiz. Eram quase 8 horas da noite, quando voltei a aparecer. E, desta vez, já encontrei a senhora Adozinda em casa, na companhia do ex-marido que estava com um netinho deficiente ao colo. A senhora Adozinda recebeu-me com quatro pedras na mão. Ainda consegui dar-lhe um beijo à entrada, mas ela, embora o aceitasse, passou logo a altear a voz, furiosa, com a minha presença. O cartão que lhe havia deixado à porta tinha-a perturbado. E atirou-se a mim, num ataque cada vez mais feroz. Mantive-me calmo, conciliador. Repeti que vinha até ela em missão de paz. Pedi que se acalmasse. Em vão. O tom de voz dela subia mais e mais, parecia que os olhos lhe iam saltar das órbitas e que o coração lhe ia sair do peito pela boca. Só faltou levantar a mão contra mim e agredir-me. Não me deixei perturbar, o que a enfurecia ainda mais. Tentei, com calma, dizer ao que ia. Mas, quando lhe falei nos documentos pessoais do André - cédula, cartão de identidade, boletim de vacinas, etc, - ela levou ao extremo a sua fúria contra mim. Disse as coisas mais absurdas contra a filha, mãe do André, e passou a insultar-me com o que há de mais baixo. Nunca consegui dizer até ao fim o que queria, porque ela não se calava, berrava em contínuo e repetia a pés juntos que não entregava os documentos. Quando viu que eu não desistia, nem me alterava, desistiu ela de me atacar. Saiu intempestivamente da cozinha e foi meter-se no quarto. Por momentos, ainda pensei que tivesse ido ao telefone, porque a ouvia falar baixo. Esperei que regressasse, mas ela não havia maneira de aparecer. Concluí que havia fugido de mim. O ex-marido confirmou esta minha conclusão, quando me disse que lá em casa o único telefone que há é o móvel e o aparelho continuava ali na cozinha silenciado. Aproximei-me da porta do quarto e disse à senhora Adozinda que não iria embora sem lhe dizer o que ela precisava de saber. Voltou a ficar furiosa comigo, sem nunca mais sair do quarto. Gritava com quantas forças tinha que não queria ouvir o que eu tinha para lhe dizer. Mesmo assim, eu insisti. E tentei por várias vezes começar a dizer, até que ela se calou e eu pude dizer o que ela precisa de saber. Disse-lhe que o seu neto já estava matriculado na escola de Macieira da Lixa; que a directora da Escola que ele frequentou em Freixo de Cima também estava como ela, a não querer entregar os documentos para se proceder à transferência da matrícula, mas que o Delegado do Tribunal de Menores de Amarante tinha ido lá pessoalmente com Maria Laura, que nesta causa, tem sido como uma leoa a defender os direitos do menino e da sua mãe Paula, e que a Directora, nesse mesmo instante, resolveu o problema que parecia insolúvel. E acrescentei: agora, falta a senhora Adozinda entregar os documentos pessoais do seu neto. Como sei que a senhora se tem recusado a fazê-lo, vim cá em missão de paz, tentar convencê-la a entregá-los a bem. Porque, se não os entregar a bem, terá o Tribunal de Menores à sua porta. O que eu queria evitar, para bem de todas as partes. A senhora Adozinda não tugiu nem mugiu. Manteve-se na dela. Para que eu me fosse embora. Foi o que fiz, não sem antes deixar o meu número de telemóvel ao ex-marido dela, que assistiu a toda esta cena sem nunca abrir a boca, para que, se a senhora Adozinda viesse a mudar de ideias, me avisassem que eu iria lá pelos documentos, sem querer saber para nada dos insultos e dos agravos que ela me tinha feito. Saí. Mas vim de lá intrigado. Que interesses estão em jogo, neste caso, para que, quer a assistente social de Amarante que tem estado destacada para o acompanhar, quer a avó do menino se mostrem assim tão renitentes na busca duma solução digna, que é a entrega do André à própria mãe, agora em vias de manifesta recuperação da sua dignidade de mulher, de esposa e de mãe? Em lugar de se alegrarem com esta reabilitação, tudo fazem para a desacreditar. Para mim, este seria um caso de polícia judiciária. E não sei se o Delegado do Tribunal de Menores de Amarante vai ficar de braços cruzados, depois do que viu e ouviu em directo. Espero bem que não. E não só neste caso. Mas que, a partir deste caso, se proceda a um levantamento nacional do que se passa nos Serviços da Segurança Social do Estado por essas freguesias fora. A corrupção entra em todo o lado, e ao que este caso indicia, nem os Serviços da Assistência Social podem ser considerados excepção. Quando uma avó e mãe recusa o bem do próprio neto e a reabilitação da própria filha, tem que haver obscuros interesses em jogo. Investigue quem de direito. A minha alegria é que as pessoas que andam perdidas se encontrem, se reabilitem. Para isso vivo. Porque os que têm saúde não carecem de médico, só os doentes. Mas se quem deve cuidar em levantar os que estão caídos são os primeiros a atirá-los para o atoleiro, para onde estamos a deixar ir a sociedade?
Para chegar à casa do casal Elisa/Marques, meti pelo entroncamento que leva ao Mosteiro de Telões. Ao avançar estrada fora, não pude deixar de recordar a viagem que fiz, há mais de 30 anos àquela freguesia e paróquia e ao Mosteiro que continua a fazer de igreja paroquial. Ao tempo, era eu pároco de Macieira da Lixa, ainda com muito poucos meses de serviço. O pároco de Telões, Pe. Nelson, hoje, já falecido, convidou-me para pregar um tríduo de preparação para a festa da paróquia. Aceitei, apesar do convite me ter suscitado alguma estranheza. É que a minha ida para Macieira da Lixa, como pároco, foi muito contestada, desde a primeira hora, pelos meus colegas das paróquias em redor, com excepção do Pe. Durães, pároco de Vila Cova da Lixa. Todos me receberam mal na Vigararia, certamente, por a Carta de nomeação, assinada pelo Bispo da diocese, indicar que eu vinha para a paróquia de Macieira da Lixa e para a Zona Pastoral da Lixa (ainda a criar, o que nunca chegou a acontecer, porque os párocos não estavam para aí virados). Os meus colegas mais antigos deveriam ter imaginado que eu vinha para ter algum ascendente sobre eles na região. O que não passava de puro delírio deles. E, por isso, ainda antes de eu tomar posse, já me fizeram uma guerra que nem é bom pensar. Conseguiram, inclusivamente, pôr a população de pé atrás contra mim, de tal modo que, quando me apresentei na residência paroquial, não tinha ninguém à minha espera. E, no primeiro domingo, quando me dirigi para a igreja paroquial, para aquela que seria a minha primeira missa paroquial, parece que toda a gente me evitava, como se eu tivesse lepra! Felizmente, passei pela situação com um sorriso na lapela, ao mesmo tempo que me fazia próximo de quem de mim parecia fugir. E depressa ganhei o coração das pessoas, sobretudo, das mais excluídas e desprezadas.
Mas se essa pregação no Mosteiro/igreja de Telões me ficou na memória, foi por aquilo que o pároco, Pe. Nelson, me fez na altura. Recordo-me como se fosse hoje. Durante três dias, de manhã muito cedo, preguei na igreja paroquial, para um templo repleto de pessoas. O pároco também assistia, mas como quem fiscalizava. Já então, esses sermões eu os entendi mais como conferências/palestras, do que como sermões. E consegui convencer o pároco a aceitar que eu me dirigisse às pessoas vestido como andava na rua, à civil. Também evitei o púlpito e falei a partir do altar. O conteúdo das três palestras, uma em cada dia, de 5.ª feira a sábado, veiculava uma Teologia profética que desmascarava o pecado que se esconde por trás de instituições com fama de boas e até de santas. E anunciava uma realidade nova que haveríamos de edificar e corporizar. Dentro dessa realidade nova, também haveria que estar a Igreja. As pessoas mostravam-se encantadas. E surpreendidas. Nunca ninguém lhes havia falado assim de Jesus e do Evangelho e da Igreja. De um dia para o outro, eram mais as pessoas. E a atenção. O pároco registava tudo, sempre muito calado. Mas dava sinais de impaciência e de incomodidade. Retorcia-se na cadeira paroquial, mas não intervinha. O que eu dizia punha em causa muita da pastoral tradicional, alienante e comercial, que se fazia pelas paróquias católicas, também na de Telões. As pessoas deliravam. Era uma experiência de libertação e de alegria. As referências à política e ao regime fascista que dominava o país, e à guerra colonial em África, também apareciam nas palestras. Como sempre acontece, quando a Teologia é profética. Ou Deus, o de Jesus, não fosse um Deus político, que gosta de Política. Por mim, estava encantado com a experiência. E crescia em alegria e em Eucaristia. Até que chegou o domingo e a missa da festa. Nesse dia, cabia-me proferir o sermão da festa. Para tanto, paramentei-me com alba e estola. O próprio pároco ajudou-me a paramentar na sacristia. Entrei com ele para junto do altar e fiquei a aguardar o momento da pregação, no lugar da homilia. E, quando me dirigi para o microfone, o pároco fez-me sinal de que desejava dizer umas palavrinhas. Estaquei, surpreso. E não é que o Pe. Nelson, sem mais aquelas, começa a fazer o sermão da festa, em meu lugar? Com a agravante de entrar logo a matar contra mim e contra a pregação que eu havia feito nos três dias anteriores. Foi um escândalo de todo o tamanho. Uma prepotência clerical inominável. Fiquei sem pinta de sangue. As pessoas que aguardavam a minha pregação também ficaram sem pinta de sangue, com excepção de algumas que ostentavam aquele ar de cinismo, próprio dos que navegam em águas turvas e corruptas. Esses deliravam com a humilhação pública a que o seu pároco me sujeitou. Quando vi que não havia volta a dar-lhe, abandonei o altar, despojei-me da alba e da estola e regressei a Macieira da Lixa. O pároco, em todos os demais dias da sua vida - e foram muitos em muitos anos, felizmente - nunca mais me procurou, nem pediu desculpa. E o Bispo do Porto, com quem me fui encontrar pessoalmente no dia seguinte na Casa Episcopal, embora achasse que isso não se fazia, ter-se-á limitado a chamar o Pe. Nelson à sua presença e a dar-lhe um raspanete, sem quaisquer consequências mais. Vieram depois para mim as duas prisões políticas em Caxias e os respectivos julgamentos no Tribunal Plenário do Porto. Veio depois a perda da paróquia, tudo ainda antes do 25 de Abril 74. Para o Pe. Nelson não veio mais nada. E só a morte, quando chegou, o tirou de pároco de Telões. Mas é assim a nossa Igreja católica.
Pois bem, foi com todas estas coisas na memória que avancei ontem para a casa dos meus novos amigos, Elisa/Marques. Eles ainda se recordam deste episódio. E são as primeiras pessoas de Telões que me convidam para a sua mesa, depois dele. O facto de ambos se terem passado para uma Igreja cristã evangélica dá-lhes mais liberdade para me convidar. E eu lá fui sentar-me à mesa em casa dos "protestantes". Como Jesus, outrora, em casa dos "pecadores". No olhar dos católicos de Telões, este casal é um casal de proscritos. Deixaram a Igreja católica pela Igreja protestante. E, para cúmulo, vem agora este padre católico comer à mesa deles! Continuam sem saber que Deus Vivo não faz acepção de pessoas. E que não foi ele quem criou as Igrejas. Nem está interessado em nenhuma delas. Todas lhe são indiferentes. Todas são obra de seres humanos. Podem ter tido o Sopro ou Espírito de Deus no seu início, mas depressa o perderam, quando se converteram em empresas de religião e covis de ladrões. Todas elas são hoje mais obstáculo do que meio de salvação. Impedem que as pessoas cheguem a Jesus. Apresentam-se como intermediárias entre as pessoas e Deus, como se Deus alguma vez precisasse de intermediários para comunicar com as suas filhas, os seus filhos. Todas elas, à medida que crescem em número e em influência e em poder, comportam-se como se fossem necessárias para a salvação das pessoas. Todas dão a entender que fora delas não há salvação. Mesmo que digam, no discurso, que só Jesus é o Salvador, comportam-se na prática como se elas é que fossem o salvador. Jesus será o salvador, mas para chegarmos a ele e ele a nós temos que passar a fazer parte delas, de alguma delas. E cada qual diz que é a única verdadeira, em detrimento das outras. Se calha de se envolverem no chamado movimento ecuménico, para a unidade das Igrejas, ainda é na esperança de que todas as outras finalmente reconheçam que a verdadeira Igreja não é nenhuma das outras, mas apenas a deles.
Tive de andar à procura da casa. De perguntar. As pessoas olhavam-me de soslaio, como quem diz: que vais tu fazer a casa dos protestantes? Até que dei com a casa. Humilde. De pessoas que trabalham no campo. O almoço foi simples. Mas a conversa arrastou-se pela tarde além. Deu para perceber que tenho muito trabalho pela frente, se quiser que Elisa e Marques venham a ficar de cabeça teologicamente limpa. Aquilo está cheio de doutrinas sem sentido, de frases bíblicas decoradas que não correspondem a nada. É verdade que a Igreja católica, durante séculos e séculos, ignorou a Bíblia e até proibiu que os seus membros a possuíssem em suas casas. As Igrejas protestantes, ao contrário, fazem da Bíblia a sua principal arma. Mas para matar as pessoas, não para as libertar. O exemplo deste casal é paradigmático. E o das Testemunhas de Jeová muito mais. A Bíblia é utilizada como arma de matar a consciência crítica. É uma Palavra sem Sopro, sem Espírito. É Letra que mata, que oprime, que faz fariseus. Pecadores são todos os outros, os que ainda não aceitaram Jesus na sua vida, através daquela Igreja concreta que lhes fala. São palavras bíblicas e mais palavras bíblicas. Mas quando eu peço licença e pergunto o que é isso de aceitar Jesus na sua vida, a minha interlocutora, o meu interlocutor fica aflito, aos papéis e não sabe o que há-de responder. Limita-se a reproduzir o discurso como se fosse uma cassete gravada. E se pergunto de que é que Jesus nos salva em concreto, a resposta é sempre a mesma, "Salva-nos do pecado". E que pecado é esse de que ele nos salva? Também não sabem. Ou começam a falar de pecaditos, ninharias sem importância. Finalmente, acabam a concordar comigo que, mesmo assim, Jesus só nos salva do pecado, se nós aderirmos àquela Igreja que nos dá esse discurso. Porque só esses, que aderirem, é que deixam de ser pecadores, é que ficam no estatuto de "salvos". Todos os outros estão perdidos. O Salvador, afinal, não o chega a ser. Só a Igreja concreta que anuncia essa mensagem é que efectivamente salvadora!... A paranóia é total. Mas o mais grave e o mais preocupante é que, depois, estas pessoas vivem instaladas na sua salvação e na sua doutrina, com um ar de santidade e de perfeição que enoja. São apenas elas e a sua Igreja, os seus cultos, as suas reuniões. E mais nada. Tenho para mim que isto é o cúmulo da perversão. Melhor fora, por isso, que não houvesse Igreja nenhuma! Ao escrevê-lo, assim, com toda a crueza, nem sequer sou original. O primeiro a não querer Igreja nenhuma foi Jesus de Nazaré. Com o que ele se ocupou e preocupou foi com o Reino/Reinado de Deus, e edificar neste mundo e na História. O resto virá por acréscimo e só na medida em que ajudar à realização deste projecto.
Para ajudar Elisa e Marques a saírem da opressão em que estão caídos, deixei-os com uma pergunta que estendo aqui a todas as pessoas, das Igrejas ou de fora delas: em que lutas concretas é que Jesus esteve historicamente metido e envolvido e por causa das quais foi perseguido e, finalmente, assassinado, ao ponto de se constituir como o salvador da Humanidade? Em que confrontos concretos é que ele se envolveu? Com que situações de desumanidade e de perversão deparou e denunciou/desmascarou? Com que grupos de interesses teve que se enfrentar como num duelo? E como se meteu nesse duelo? Com que acções concretas se ocupou? Que tipo de pessoas é que beneficiaram da sua acção, da sua militância? Podemos dizer que aceitamos Jesus na nossa vida, sem nos metermos a fazer o que ele fez, a denunciar o que ele denunciou, sem promovermos as acções que ele promoveu, sem nos metermos nos duelos em que ele se meteu? Importa ler o Evangelho, com estas perguntas, para encontrarmos respostas muito concretas. De contrário, até a leitura do Evangelho redunda em pura alienação!
Por isso digo: Malditas Igrejas que desviam as pessoas de Jesus, das suas lutas, dos seus combates, das suas causas, numa palavra, do esforço contínuo que ele desenvolveu em prol da edificação do Reino/Reinado de Deus neste mundo, e passam a ocupá-las em sucessivos cultos, em pregações inócuas da Palavra de Deus, em estudos bíblicos sem ponta de Sopro ou Espírito de Deus Vivo, em obras de beneficência e de caridadezinha em prol exclusivamente dos seus membros mais desfavorecidos, tudo muito longe das lutas duélicas e martiriais pela Justiça, pela Verdade, por uma Nova Ordem mundial à medida das reais necessidades e das legítimas aspirações de todos os povos, sem excepção.
Elisa e Marques ficaram em desassossego. O que é bom. Mas pude perceber, no final, que continuam tão cheios da letra da Palavra da Bíblia (e que eles pensam que é a mesma coisa que Palavra de Deus Vivo), que agora será muito difícil encontrar espaço para o Sopro ou Espírito de Deus Vivo. E sem o Sopro ou Espírito de Deus Vivo a Palavra bíblica oprime e mata.
Quando deixei a casa deles, não vinha eufórico. Vinha preocupado. Muito preocupado. Os católicos tradicionais andam agarrados às tradições dos antigos. E são fanáticos na sua defesa e na sua perpetuação. Mas os membros destas novas Igrejas, ditas cristãs e evangélicas, andam agarrados à Bíblia, à letra da Bíblia. Uns e outros continuam longe do Espírito de Deus Vivo. Não sei quem estará pior. Porque os da Bíblia ostentam aquele ar patético de pessoas salvas, desde que "aceitaram" Jesus e têm a Bíblia em casa, sempre à mão. E não há nada pior do que o farisaísmo, a virtude, para nos perdermos como seres humanos. Em lugar de desenvolvermos mais e mais entranhas de humanidade, desenvolvemos o orgulho de estarmos salvos, de sermos diferentes, de não sermos como os demais que são pecadores, adoram imagens, são adúlteros, não lêem a Bíblia, não frequentam os cultos dos pastores. E nem vemos que com essa "salvação" nos perdemos definitivamente dos demais seres humanos, erguemos barreiras insanáveis entre nós e eles, tornamo-nos monstros. Com Bíblia em casa, mas monstros. Porque o que não ama o seu irmão a quem vê, tão pouco ama a Deus a quem não vê!
2005 SETEMBRO 28
No passado sábado, fui a um casamento civil, em Amarante. A convite do pai e da mãe do noivo. Nem sequer conhecia os noivos, Edite e Sérgio, ela uma jovem médica, ele um jovem professor de música do Conservatório. Quando, há várias semanas atrás, os pais do noivo me fizeram o convite, ainda reagi com alguma ironia: Custa-vos que o casamento seja civil e, então, para compensar, convidais-me a mim, para sempre se poder dizer que o casamento teve a presença de um padre católico?!... Eles riram-se com esta minha fina ironia. Mas eu bem sei que não foi por essa razão que me convidaram. Ao invocá-la expressamente, quis apenas brincar com o caso. Bem sei que o que eles quiseram foi, sobretudo, apresentar-me à família, como o padre amigo que os tem ajudado a encontrar sentido na sua vida. Para ver se, deste modo, também entro na vida de muitos dos seus familiares. E, sobretudo, se, comigo, entra o Evangelho libertador de Jesus. É claro que aceitei ir ao casamento sem pestanejar e estive presente do princípio ao fim, durante várias horas, mais propriamente entre as 16 e as 24 horas.
Já não é a primeira vez que aceito ir a um casamento civil. Aqui há uns vinte ou mais anos, aceitei ser testemunha do casamento civil de um afilhado meu de baptismo. E, uns anos antes, já havia sido testemunha do casamento civil de dois companheiros da Comunidade Cristã de Base que então dinamizava no Grande Porto, respectivamente, Carolina e Manuel António. O casamento civil do meu afilhado de baptismo não teve qualquer significado especial para a sociedade envolvente. Já o de Carolina e de Manuel António teve a dimensão de escândalo jesuânico (aquele escândalo que, lá onde se verificar, sempre liberta e humaniza e, por isso, assume a forma de verdadeiro sacramento de Deus Vivo no mundo).
Neste último caso, primeiro houve a celebração do casamento no interior da Comunidade. Comigo a presidir. E sem qualquer recurso ao chamado processo canónico, imposto pela Concordata entre o Estado do Vaticano e o Estado português. Foi um sacramento no seio da Comunidade e com a Comunidade, realizado no interior de uma garagem emprestada, que, na altura, servia de espaço a actividades sociais da Comunidade Cristã da Serra do Pilar. O Bispo da Diocese foi convidado pelos nubentes a vir presidir. Não aceitou, nem delegou em ninguém. E até mandou o seu vigário-geral comunicar aos nubentes que, se atentassem o sacramento do matrimónio, nessas circunstâncias, o casamento não seria válido, e o padre que a ele presidisse incorreria em grave sanção canónica. Nem o bispo da Diocese – na altura, D. António Ferreira Gomes – nem o vigário-geral da Diocese – na altura, Cónego Serafim Ferreira e Silva, actual Bispo de Leiria-Fátima – foram capazes de perceber que o gesto dos nubentes e da Comunidade em comunhão com eles perfazia um gesto profético de rara coragem e de não pouca lucidez eclesial: por um lado, denunciou a mancebia institucional entre a Igreja e o Estado, no tocante ao casamento canónico, uma vez que obriga o pároco que preside ao sacramento do matrimónio a ter que funcionar ao mesmo tempo como representante da Igreja e como representante do Estado; por outro lado, rompeu com essa promiscuidade institucional e apontou à Igreja que está em Portugal qual o caminho a seguir: realizar o sacramento do matrimónio, quando os nubentes são membros assumidos dela e, depois, aconselhá-los a realizar igualmente o casamento civil, com vista aos efeitos/direitos adquiridos no seio da sociedade civil que se deseja secular e, por isso, totalmente liberta da tutela da Igreja. Recordo-me como se fosse hoje, o drama de consciência por que passaram os dois nubentes. Mas recordo também a alegria de ambos, quando, em diálogo com a Comunidade, perceberam o alcance do seu gesto, caso decidissem dar-lhe corpo nos seus corpos. A verdade é que avançaram e a Comunidade com eles. Houve rupturas familiares, da parte dos pais de ambos, felizmente depressa sanadas pouco tempo depois do casamento realizado, mas nem assim os nubentes desistiram do seu gesto. E hoje, todos estes anos depois, ainda estão aí como um casal fecundamente unido, feliz, militante, um casal de causas, com quem se pode contar, quando está em jogo a Humanidade. E eu próprio que presidi a esse sacramento, em nome da Igreja, nunca me senti em ruptura com ela, bem pelo contrário. Nem podia ser de outro modo, uma vez que agi movido pelo amor à Igreja e não contra ela. E só o amor edifica a Igreja, não o direito canónico. O amor vem de Deus, é Deus em Acção. E o direito canónico não passa duma lei eclesiástica, com a qual a Igreja católica pretende impor o seu domínio sobre as pessoas e a sua consciência.
Desta vez, fui ao casamento civil, como qualquer outro convidado. Sem qualquer protagonismo. Como um entre os mais. Cheguei à hora marcada. Alegrei-me, quando percebi que ia ser uma mulher a presidir. Uma Conservadora do Registo Civil e não um Conservador. Logo pensei: Cá está mais um caso em que a sociedade civil já anda à frente da Igreja católica. Já aceita que as mulheres possam ser Conservadoras do Registo Civil, a par com os homens. E, quando o são, que presidam aos casamentos civis, a par com os homens, quando estes também o são. Deveria ser o contrário, deveria ser a Igreja a puxar pela sociedade civil, pois para isso ela é teologicamente constituída sacramento da Humanidade: para a fermentar, para ir à frente, para puxar por ela. Infelizmente, nada disto se vê. A nossa Igreja católica é hoje o carro vassoura na sociedade. Não puxa, é puxada. E, mesmo assim, não sai do sítio, não evolui. É um peso morto. Sal que perdeu a força de salgar e já nem para a esterqueira serve!
Éramos mais de cem as pessoas convidadas. O ritual do casamento civil decorreu ao ar livre, numa bonita casa de turismo rural, sobre o Rio Tâmega, em Amarante. Num recinto que, outrora, pode ter sido a eira da quinta. Com o canastro restaurado a fazer de limite.
A minha alegria inicial deu lugar a uma certa decepção e tristeza, quando percebi que a Conservadora do Registo Civil estava manifestamente nervosa. Como tal, ficou muito aquém das minhas legítimas expectativas. E das dos demais convidados. Fez-me lembrar os párocos tradicionais católicos. Limitou-se a ler o livro de instruções. Não teve criatividade. Não foi mulher, muito menos feminina. Foi funcionária. E não há coisa pior do que topar com uma funcionária, um funcionário, quando esperamos encontrar um ser humano, em feminino ou em masculino. Leu o livro de instruções. E, mesmo assim, sem controlar os nervos. Nem uma palavra mais. Nenhum discurso, por breve que fosse. Nada. Nem um beijo aos nubentes. Nada.
Valeu na circunstância o noivo. Logo que assinou o livro da praxe, juntamente com a noiva, avançou com ela para junto do microfone e cantou pedaços de canções de amor para a sua amada. Foi o momento mais empolgante do casamento. O momento em que o casamento civil se tornou sacramento de Deus Vivo, de Deus Amor. Vi-me, de imediato, transportado até ao Cântico dos Cânticos bíblico. Foram uns minutos intensos. Eternos. Como o Amor que é sempre eterno quando acontece. A noiva estava maravilhada como seu noivo. Em órbita. Em êxtase. Nunca terá estado tão bonita como nesse momento. O Amor tem este condão: revelar o que há de melhor e de mais belo nos seres humanos. Tal como o ódio e o cinismo revelam o que há de pior e de mais feio. Eu próprio senti-me arrebatado até ao seio de Deus Vivo. Numa festa que me deixou ainda mais humano e em mais intensa Eucaristia. Bendito casamento civil este que fez dos nubentes os verdadeiros protagonistas. São assim os verdadeiros sacramentos do matrimónio que hoje acontecem cada vez mais fora dos templos paroquiais, longe dos altares e dos clérigos sem entranhas de humanidade, proibidos de amar e de ser amados. É o cúmulo do surrealismo: Os párocos clérigos têm que presidir ao casamento canónico, pois sem a presidência de um deles não há casamento, diz o Código de Direito Canónico. Mas eles próprios não podem casar, porque a instituição eclesiástica que os ordenou assim o determina. E o mais grave é que os párocos acatam esta injúria, esta tirania e continuam a presidir a casamentos canónicos, como se esta tirania e esta injúria fossem uma decisão de Deus vivo, quando não passa duma decisão do Poder eclesiástico, portanto, uma decisão demoníaca. A partir de então, o casamento libertou-se por completo da Conservadora do Registo Civil e foi todo dos nubentes. Uma festa de humanidade, de maturidade, de adultos com alma de menina, de menino. Comemos, bebemos, convivemos, conversámos, festejámos. Como é próprio de seres humanos, de seres vivos.
Senti-me cada vez mais entre amigas, amigos. As pessoas reconheciam-me da televisão. Aproximavam-se com alguma discrição, numa saudação de estima e de simpatia. Podem não se rever nas minhas posições teológicas e pastorais, mas respeitam-me. Há simpatia. Há estima. Afecto. E isso é muito bom, para quem, como eu, é ostracizado em ambientes marcadamente clericais e eclesiásticos. É claro que também da minha parte houve, como é meu timbre, uma postura de dignidade, de quem se apresenta entre as pessoas de cabeça erguida, olhos nos olhos delas, companheiro e irmão universal de todas elas. Não sei ser de outro jeito. Quando assim é, os muros não se aguentam por muito tempo. Depressa chego ao coração das pessoas. E a relação/comunhão acontece.
Caí numa mesa da familiares do pai da noivo. Daniel não descurou esse pormenor e providenciou que assim acontecesse. Foi bom. Mas logo uma corrente de ar que comecei a sentir nas minhas costas, quando me sentei, obrigou a uma ligeira alteração dos lugares na mesa. Sem sair da mesma mesa, acabei sentado ao lado de um casal, Elisa e Marques, muito marcado pelo resto da família, uma vez que, há bastantes anos, deixaram de ser católicos e aderiram ambos a uma Igreja evangélica. Não fosse a corrente de ar nas minhas costas e eu teria ficado nessa mesma mesa, mas frente a frente com o casal. O que dificultaria a conversa, no decorrer do banquete matrimonial, dado que a mesa era redonda e bastante grande. Assim fui mesmo ficar sentado ao lado do casal, com Elisa ao meu lado esquerdo. O casal não escondia a sua alegria por me ter do seu lado, à mesa. E fartou-se de insistir comigo para que eu vá a casa deles, um dia destes, para comermos juntos e conversarmos com tempo.
Mas a conversa já começou mesmo ali. E durou tanto quanto o banquete matrimonial. E que conversa! Elisa revelou-se muito conversadora, de olhar vivo e inteligente, e já com a escola toda da Igreja evangélica onde foi baptizada. Escutei-a e ao marido, se bem que ela falasse muito mais que ele. Depressa comecei a dar-me conta das contradições teológicas e evangélicas da Igreja de que agora são membros entusiastas e acríticos. Com tanto de entusiastas, como de acríticos. Até lhes disse: Olhem que eu continuo a ser um padre católico, mas muito protestante. Muito mais protestante que vocês. E acrescentei: Se calhar esse é o mal dos católicos que abandonam a Igreja em que os pais os haviam baptizado e vão integrar outra Igreja, do ramo protestante. Deixam a capacidade de protestar à porta de entrada e passam a ser em tudo submissos ao pastor, como se fossem de novo crianças. Inclusive, aceitam voltar a ser baptizados, como se o Baptismo da Igreja católica fosse lixo. Mas então não há um só baptismo? Porque raio as Igrejas que se dizem cristãs evangélicas exigem aos que vêm da Igreja católica que se façam baptizar na nova Igreja? Em que é que o baptismo da Igreja cristã evangélica é mais do que o da Igreja católica? Em nome de quem é realizado? Dentro da linguagem simbólica que são os sacramentos da Igreja, o que tem mais o baptismo duma Igreja cristã evangélica que o da Igreja católica? Afinal, quem é importante para a salvação: a Igreja, ou Jesus? Então não sabemos que Jesus não fundou Igreja nenhuma? Mais: não sabemos que Jesus não quis Igreja nenhuma? Não sabemos que com o que ele se ocupou e preocupou foi com o Reino/Reinado de Deus no mundo? Não sabemos que a Igreja só vale se apontar para Jesus e deixar as pessoas com ele e com o Reino/reinado de Deus? Não sabemos que se a Igreja o que faz é levar as pessoas a ficar com ela e a ocupar-se com ela, não passa de um ídolo mais, de um demónio mais?
A partir de determinada altura, passei a sentir que Elisa começou a ficar perturbada com as minhas perguntas. Parece que nunca havia pensado em tais coisas. Nem nunca se havia dado conta do jogo e do negócio em que tem estado envolvida, desde que aderiu à Igreja cristã evangélica. O discurso que reproduz não é dela, não lhe sai de dentro, não nasce do Alto, do Espírito, do Sopro de Deus Vivo. É o discurso do pastor, reproduz os livros de catequese da nova Igreja. Ela parece uma cassete. Gravaram-lhe aquele discurso no cérebro e ela agora limita-se a reproduzi-lo. Mas não se pense que é só ela. Todos os cristãos evangélicos que conheço, ao nível do povo, são assim. Também são assim as Testemunhas de Jeová. Um povo de alienados. De tristes. De oprimidos. Até as virtudes que exibem são tristes. Quase me apetece dizer: Oxalá fosseis pecadores! Porque Deus ama os pecadores. E vomita os que se têm na conta de virtuosos, de justos. “Não vim chamar os justos, mas os pecadores”. É de Jesus, o de Nazaré. Os pastores das Igrejas, se pensassem bem nestas palavras de Jesus, nem sequer teriam fundado as Igrejas. Saíram da Igreja católica romana? Então que ficassem do lado de fora dela, mas não corressem a fundar outra, porventura ainda pior, mas disfarçada de Igreja virtuosa. É ver o auto-denominado Bispo Tadeu, da Igreja Maná. O empório financeiro que já criou. À custa do nome de Jesus, de palmas e de Aleluias, de falsidades e de mentiras a que chamam milagres! Uns farsantes é o que são. Uns comerciantes de Cristo é o que são. Uns criminosos em nome de Cristo é o que são. E a Polícia judiciária não vê. Ou não quer ver. Ou vê e faz de conta. Em nome da Liberdade religiosa, que é o mesmo que liberdade para roubar, matar e destruir. Mentir e oprimir.
Ontem mesmo, Elisa telefonou-me em seu nome e do marido. Querem que eu vá lá a casa almoçar, se possível, ainda esta semana. Para ficarmos, tarde fora, a conversar. Confessou que não tem conseguido dormir sossegada, desde o casamento para cá. Fiquei feliz. E disse-lhe que contasse comigo. Vou como um menino. Cheio de paz. O Sopro ou Espírito de Jesus já está a trabalhar a consciência deste casal. Se tiverem boa vontade, ambos irão nascer de novo, do Alto, do Espírito. Não terão que regressar à Igreja católica romana. Basta que sejam adultos na Fé. E vivam a mesma Fé de Jesus de Nazaré. Essa Fé e o Espírito de Jesus é que hão-de dizer-lhes os passos concretos que hão-de dar. Não lhes dirão que corram a criar uma nova Igreja. Mas que corram a ocupar-se e a preocupar-se com o Reino/Reinado de Deus neste mundo. Como Jesus. E com Jesus. E, se alguma vez vierem a sentir necessidade de se confrontarem com Jesus, bastará que com simplicidade se reúnam, com mais duas ou três pessoas em nome de Jesus, na casa duma delas, ou num outro lugar qualquer, e logo ele estará no meio delas e com elas. A apontar-lhes o caminho por onde deverão avançar. Como quem vê o Invisível!
É claro que irei lá almoçar. Elisa e Marques são já irmãos e companheiros que o Espírito colocou no meu caminho. Para evangelizar e ser evangelizado. É assim a vida de um presbítero da Igreja do Porto longe dos templos e dos altares.
2005 SETEMBRO 23
Esta semana, retomei o ministério dos doentes, juntamente com as companheiras da comunidade. Também tive que ir à freguesia de Sendim, aqui do concelho de Felgueiras, participar num encontro entre colectividades do concelho e algumas congéneres da cidade de Madrid, Espanha. Fui na minha qualidade de presidente da AG da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. A presidente da Direcção, Maria José, também convidada, não pôde ir, por estar a trabalhar na empresa (o encontro foi durante toda a tarde do dia 20). Mesmo assim, não fui sozinho. Maria Laura, que é da Direcção, também conseguiu ir, apesar de, ultimamente, ter andado numa roda viva com a Paula e o seu filho André, para que o menino viesse a ser matriculado na escola básica de Macieira. Foi difícil arrancá-lo à guarda provisória da avó materna, a viver em Freixo de Cima, concelho de Amarante, e confiá-lo de novo aos seus próprios pais, agora em franco processo de reabilitação e já com bastantes provas dadas. Mas tudo acabou por ser conseguido, depois de muitas discussões acaloradas com a técnica social de Amarante que não havia maneira de perceber que a jovem Paula degradada, que ela conheceu outrora, já não existe mais, agora é uma nova Paula, mulher e mãe cada vez mais exemplar. O Tribunal de Menores de Amarante também teve que ser contactado por mais de uma vez. Felizmente, revelou outra sensibilidade para o caso. O mesmo se verificou com as técnicas sociais de Felgueiras, para cujas mãos o caso do André irá passar, uma vez que os pais dele agora residem no concelho. Foi um combate de vários dias e de muitas horas que Maria Laura teve que travar na linha da frente – por mim, também vivi todo o combate, mas, desta vez, só na rectaguarda – sempre ao lado da Paula e do André, e que acabou coroado de êxito. O menino, de 10 anos de idade, já está definitivamente com os pais na casa que eles alugaram aqui na freguesia e já está a frequentar o 4.º ano de escolaridade, na Escola básica de Macieira da Lixa. Mas nesta semana, também tive que me ocupar quase ininterruptamente com a próxima edição do Jornal Fraternizar que vai 2.ª feira para a tipografia, logo ao começar o dia de trabalho. Por outro lado, o Barracão de Cultura também continuou a ocupar-me, embora, neste capítulo, seja tudo muito lento, muito mais do que eu imaginava. Entre sonhar o projecto e concretizá-lo no terreno, há um abismo de dificuldades e de trabalhos, que nem parece que estamos na época da velocidade e da informação em tempo real. Finalmente, hoje de manhazinha, já no regresso a casa da minha caminhada de 40 minutos, que todos os dias faço pela minha saúde e pelo meu bem-estar geral, tive um encontro inesperado na estrada que me deixou ainda mais mergulhado no Essencial e em intensa Eucaristia interior.
1. Mas do que por estes dias mais se fala aqui no concelho e no país é do regresso de Fátima Felgueiras à sua casa, depois de quase dois anos e meio ter estado fugida à Justiça, no Brasil. O jornal “24 horas” de hoje chama a este episódio, com toda a propriedade e humor, “O milagre de Fátima”. Veja-se. A ex-presidente da Câmara de Felgueiras foi condenada a uma pena de prisão preventiva pelo Tribunal de Guimarães. Avisada a tempo por um juiz amigo, deixou tudo e todos, da noite para o dia, e fugiu para o Brasil, apoiada no facto de ter nascido naquele país e, por isso, gozar do privilégio de dupla nacionalidade. E a verdade é que quando a Justiça portuguesa quis que ela fosse extraditada, para ser detida preventivamente, aquele estatuto de dupla nacionalidade impediu a execução do pedido. A ex-autarca pôde então desfrutar no Brasil, durante todo este tempo que deveria ter sido de prisão preventiva em Portugal, uma vida sem problemas, como qualquer veraneante em férias, numa casa alugada por 40 contos/mês, em condomínio fechado. Decidiu regressar agora, para se apresentar como candidata independente à Câmara Municipal de Felgueiras, nas eleições de Outubro. E, também, ao que ela própria afiança aos jornalistas que a têm promovido a protagonista duma saga já quase lendária, para defender a sua inocência no julgamento, já marcado para logo a seguir às eleições autárquicas. A própria Fátima Felgueiras comunicou às autoridades competentes o seu regresso ao país. Disse o dia e o voo em que viria. E, naturalmente, foi presa no aeroporto, já que contra ela continuava pendente um mandado de prisão, com quase dois anos e meio de emissão, sem ainda ter sido possível executar. A surpresa geral é que a Polícia Judiciária que a prendeu à chegada ao aeroporto de Lisboa, em lugar de ir entregá-la na prisão, de onde esteve fugida todo este tempo, entregou-a à Juíza do Tribunal de Felgueiras, a quem o caso, entretanto, foi confiado para ser julgado. E não é que a juíza, depois de várias horas de conversações com a ex-autarca, chegou à brilhante conclusão de que Fátima Felgueiras ainda deveria ser premiada, por ter andado fugida à Justiça? Vai daí, mandou-a em liberdade, sem qualquer caução, apenas com a proibição formal de se ausentar do país!
Mas isto é um país? Então a quem já fugiu uma vez, ainda se lhe dá agora um crédito suplementar de confiança de que nunca mais voltará a fugir? Bem sei que Fátima Felgueiras sempre repete que está inocente e que irá provar esta sua tese no decorrer do julgamento em Tribunal. Sou o primeiro a desejar que assim seja. Sei também que, até prova em contrário, temos que presumir da sua inocência. Mas haja modos! Então que valor teve a decisão do Tribunal de Guimarães, quando emitiu um mandado de prisão preventiva contra a autarca de Felgueiras? E para que se continua a insistir na farsa do julgamento? Esta posição da juíza que vai julgar o caso não está já a indicar qual vai ser o seu desfecho? É isto um país? Se Fátima Felgueiras está inocente, como foi possível armar todo este processo contra ela? Se, pelo contrário, o processo tem razão de ser e base bastante para que um juiz tivesse emitido contra ela um mandado de prisão preventiva até à conclusão do julgamento, como é possível que um outro magistrado, no caso, uma magistrada, venha agora, dois anos e meio depois, dar o dito por não dito, precisamente, quando tem diante de si a mulher que, habilmente, conseguiu ludibriar o Tribunal, fugir para o Brasil, sem nunca ter chegado a cumprir a pena de prisão preventiva a que havia sido condenada? E, sobretudo, como é possível que a uma mulher assim, que andou quase dois anos e meio fugida à Justiça, ainda se lhe dê, como prémio, a liberdade e a possibilidade de entrar de imediato na corrida às eleições autárquicas, já à porta? Nem sequer lhe impuseram que, por decência ou nojo (luto), esperasse pelas eleições autárquicas, daqui a quatro anos, depois do julgamento ter sido realizado? E é isto um país? É isto uma democracia? Bem sei que as televisões pelam-se todas por casos assim, para garantirem audiências a qualquer preço. Mas para onde nos levam comportamentos “democráticos” como estes? Não estamos a descambar para a tirania do vale tudo e do quanto mais descarado melhor?!
2. Estava hoje a chegar a casa, da minha caminhada matinal, e dei com os olhos nela, no outro lado da estrada. Seguia em sentido contrário ao meu. Eu descia a estrada. Ela subia. Disse-lhe, Bom dia! E levantei a mão em jeito de mais intimidade. O rosto de Júlia apareceu-me excessivamente pesado. Sofrido. Um rosto de dor. Recordei-me logo do marido, meu conhecido e amigo. Este seu rosto confirmou-me que Rodrigo, seu marido, está mesmo mal, como já tinha ouvido dizer. E ela ali tão perto, do outro lado da estrada. Não resisti e atravessei a estrada. Poderia fazer com que ela chegasse um tudo nada atrasada ao trabalho, na empresa, mas o patrão haveria de compreender, quando ela explicasse os motivos. E ficámos a conversar breves minutos. Quis saber por ela, em directo, o que verdadeiramente se passa com o seu marido. Júlia parece que viu um anjo, quando me viu aproximar e interessar-me pelo “seu” Rodrigo. E confessou-me, logo, com as lágrimas contidas a custo nos olhos: Olhe, pe. Mário, eu continuo a crer em Deus, mas tenho que dizer que Deus me abandonou. Primeiro, foi o que se passou comigo (Júlia teve um cancro num dos seios, o que obrigou à sua extracção). E agora acontece esta desgraça toda com o meu homem (terá que ser operado de urgência aos intestinos, nos quais foi detectado um cancro). Acolhi esta dor imensa. E comunguei a infinita incompreensão desta mulher irmã. E disse-lhe com toda a ternura e emoção: Tal como a Júlia, também Jesus, na cruz, passou por essa mesma experiência. Foi ela que o levou a dizer alto e bom som: Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste? Essa será, pois, neste momento, a oração que Júlia há-de deixar que a faça todos os dias. É a oração mais autêntica que lhe rebenta no fundo da consciência, no âmago da dor. Não a silencie. Grite-a. Mas, se possível, dê, depois, o passo seguinte e último que Jesus também deu: “Pai/Mãe, nas Tuas mãos me entrego!”. Como uma menina, como um menino, continue a confiar na Vida e na Fonte da Vida que é Deus Vivo. A vida tem dimensões que nós desconhecemos. Pelo menos, por agora. E vista-se de coragem para a luta que importa travar daqui para a afrente. Com o Rodrigo. E ao lado do Rodrigo.
Júlia escutou-me. E libertou-se. Contou então que Rodrigo já tem data marcada para ser internado no hospital público e operado. Nem ela sabe bem como foi possível tudo ter sido conseguido em tão pouco tempo. Os médicos envolvidos no caso foram sensíveis à pessoa e ao caso que é. Rodrigo é homem ainda na força da vida e certamente isso terá pesado. A esperança é que ainda se vá a tempo de cortar a cabeça ao cancro, para que ele não continue a fazer das dele, noutras partes do corpo. Fico em comunhão com Rodrigo. E com Júlia. E com Ângela, a filha única de ambos. Garanti que acompanharei de perto o evoluir da situação. E Júlia ficou mais confortada. A dor que a esmaga é agora carregada também por mim. E o amor com que os amarei fará o resto. Porque só o amor nos humaniza até à raiz dos cabelos. No amor é que chegaremos a ser. Com cancro. Ou com saúde. Tudo o mais, sem amor, é esterco. É em momentos como este que percebemos o Essencial. Que vemos o Essencial. Quando todos os ruídos esmorecem e fica o silêncio e o vazio, eis que o Essencial emerge e se torna visível. E nós somos.
Gostei da confissão de Júlia. Ela, que no pico da sua própria doença, chegou a pensar – foi público e por isso posso escrevê-lo aqui com carinho – que a senhora de Fátima lhe haveria de valer, agora já me apareceu muito mais madura na Fé de Jesus, por isso, menos crédula e mais crente. Agora, já terá concluído como eu há muito concluí e ensino que a senhora de Fátima é uma invenção da Religião católica (não confundir com o Cristianismo de Jesus!) para manter alienadas e deprimidas as pessoas. E saberá mais. Já saberá, ou está em vias de saber, que até Deus, o de Jesus, não é para nos substituir e, por isso, não faz sentido esperar que Ele opere um milagre para nos curar do cancro. Já saberá que, neste particular, crentes e ateus temos que encarar a vida como se Deus não existisse. Conscientes de que tudo está nas nossas mãos. E o que importa é que as nossas mãos sejam cada vez mais mãos solidárias, criadoras, libertadoras, salvadoras. Mesmo na noite mais escura, do sem-sentido, havemos de ter a humildade e a simplicidade de nos mantermos ligados à Fonte da Vida, ao Mistério. Na humilde confiança de que são os nossos olhos que não conseguem ver o Invisível, sempre connosco e que nos leva ao colo.
Por isso, mesmo na solidão mais completa e no abandono mais total, a nossa será sempre uma solidão misteriosamente acompanhada, o nosso será sempre um abandono misteriosamente acompanhado. De maneira que o máximo de solidão e de abandono é simultaneamente o máximo de comunhão e de acompanhamento. A partir de hoje, quero ser, junto de Júlia e de Rodrigo, marcados violentamente pelo Sofrimento, um sacramento deste Deus Vivo. Para que ela e ele continuem na vida como uma menina, como um menino. Mergulhados no Essencial.
3. Ontem de tarde, regressei ao ministério dos doentes. Na companhia de Irene, Deolindinha e Maria Laura. Isaurinha tinha dito que vinha, mas faltou à última hora. Tem andado adoentada e indisposta e telefonou a pedir escusa. O exercício do ministério teria sido uma cura para ela, mas seria preciso que ela desse o primeiro passo. Acontecerá na próxima semana, certamente.
Fomos a dois doentes acamados, um homem e uma mulher. Já estivemos com eles noutras ocasiões, há várias semanas. O Toninho está de pernas paralisadas na cama. E com dores nos rins. Fomos encontrá-lo sozinho. A porta do quarto dá para o quintal e entrámos de mansinho, não fosse ele estar a dormitar a sesta. Estava bem acordado. Era ao começo da tarde. Ficou contente, ao ver todo o grupo de novo na sua casa. Reconheceu que assim o tempo não custa tanto a passar. Ouvimo-lo. E, depois, propus que cantássemos um dos nossos Cantos nas Margens. Toninho concordou. Recomendou que fosse um canto de Igreja. Com estas palavras, quis dizer que fosse um daqueles cantos que nos alimentam na dimensão mais humana que nós, os seres humanos temos, a dimensão espiritual. E que assim o ajudasse a manter a sua ligação com a Fonte da Vida. Por outras palavras, um canto que, ao cantá-lo, fosse o mesmo que orar duas vezes. Um canto que o libertasse interiormente. Que o deixasse com asas. E lhe abrisse outros horizontes, aqueles que geralmente só vemos, quando deixamos de poder ver os curtos horizontes dos nossos egoísmos e dos nossos interesses mais mesquinhos.
Abri o livro e cantei com a melhor voz que me foi possível. Cantar para um doente é, para mim, um acto sagrado. Uma liturgia viva. Uma experiência única. É um momento de contemplação e de intimidade com a Vida, na sua fonte. A voz saiu-me cristalina. Com vibração. Com Sopro ou Espírito. Toninho como que parou de respirar. O seu rosto ganhou uma expressão de menino feliz. Os olhos brilhavam-lhe nas órbitas como dois sóis. O que viam? A quem viam? O canto prosseguiu até ao fim, estrofe após estrofe. As companheiras cantavam comigo. Na mesma comunhão. Descubro, em momentos como este, que o canto pode ser uma outra forma de Eucaristia. Sem Pão nem Vinho. Mas com Espírito. E já Jesus, o do Evangelho de João, disse que, na Eucaristia, o que conta é o Espírito. O Pão e o Vinho, e até as palavras que ele próprio profere só são Eucaristia se tudo for Espírito e Vida, o sacramento do Espírito. Onde houver comunhão no Espírito Santo, há Eucaristia. Sem esta comunhão no Espírito pode haver ritos. Mas não há Eucaristia. E os ritos, só por si, matam. Apenas o Espírito nos faz viver.
Estava o canto a terminar, quando entrou porta dentro Elisa, pré-adolescente, filha de Júlia e de Fernando e irmã do nosso amigo Nuno. A casa onde vive com o resto da família fica próxima. O canto chegou à sua cozinha. E Elisa veio atraída, puxada por ele. Partilhou a visita connosco. Toninho é avô dela. Integrou-se na fraternidade que ali estava a acontecer. Conversou descontraída. Também ela terá sido beneficiada do Canto com Espírito. E tornou-se mais ela própria, livre de medos e de complexos. Tornou-se mais humana. Alegre. E feliz.
Do Toninho, descemos à casa de Carolininha, onde também já fomos noutras ocasiões. Continua acamada, nos seus 87 anos. Desta vez, estava virada para a parede, para descansar do outro lado. É cega, há já muitos anos. E são os familiares que posicionam na cama. Por ela, já não consegue executar essa operação. A nora estava para os campos a trabalhar. O filho estava na cozinha, à conversa com uma senhora amiga da mãe que também veio vê-la, mas com muito mais tempo do que nós.
Na quarto, tive que me debruçar sobre o leito, para poder falar ao ouvido de Carolininha. Nesta altura, ela é quase só pele e osso. Mas ainda lúcida. Um corpo todo de paz. Reconheceu-me, dos tempos em que fui pároco de Macieira. O meu nome ainda lhe anda na memória. E mostrou-se contente por a visitarmos mais uma vez. Cada companheira falou com ela ao seu jeito, debruçada sobre ela. Até que sugeri que cantássemos para ela e com ela. Carolininha concordou. Por isso, voltei a debruçar-me sobre o seu leito e cantei para ela, muito próximo do seu ouvido. Assim:
No meio de tantas dores
nem sabes o que fazer
Parece tudo perdido
mas está tudo a renascer.
Cantei com a música de “Água leva o regadinho”, que ela cantou e dançou nos tempos de menina e moça pelas campos da freguesia. Acrescentei outras estrofes do livro Cantos nas Margens. As companheiras repetiam, como num coro. Carolininha começou então a despertar mais e mais. Parecia renascer, ressuscitar. Até que deu uma gargalhada com gosto. E outra. E mais outra. E pôs-se a falar com a sua boca já sem nenhum dente. Como uma menina. Foi um momento de intensa alegria no quarto. Que o filho dela perdeu, já que se manteve na cozinha com a senhora, até à nossa saída. Naquela minha posição de debruçado sobre o leito de Carolininha e com o meu rosto junto do rosto dela, fiz-lhe muitas festinhas na sua pele já enrugada e dei-lhe muitos beijos na face. Para que ela me “visse” com a pele do rosto, já que não me pode ver com os olhos. Toda ela se fez luz. E sorriso. Eu próprio senti-me ressuscitar, recriar. É bem como anuncia o mesmo Canto nas Margens:
Dos idosos e doentes
és presença bem festiva
Quando vens de junto deles
tua vida vem mais viva.
Foi um verdadeiro sacramento. Um baptismo e um Crisma, ao mesmo tempo. Tornei-me mais fortalecido interiormente. Mais alimentado para os combates que prosseguem de múltiplos modos. E mais uma vez veio a confirmação do Evangelho de Jesus: O amor vivido é que nos humaniza. Por isso, salva-nos. Garante-nos futuro. Praticasse o mundo esta Sabedoria e tudo seria bem diferente. Mas o mundo prefere praticar o saber que aliena e anestesia e por isso mata em nós as entranhas de humanidade. Tornamo-nos estéreis, secos, indiferentes, mortos que ainda mexem, que ainda se agitam, mas que não criam vida. Só o amor é fecundo e criador. E quanto mais gratuito e desinteressado, melhor.
Quando nos despedimos de Carolininha, ela voltou a falar para dizer: Mas já se vão embora? Prometemos voltar. Para que ela veja a luz em cuja plenitude, um dia destes, não sabemos quando, irá certamente mergulhar e ser. Para sempre. Também estes momentos que fizemos acontecer no seu quarto estarão lá. Porque no Amor, nada se perde, tudo se transforma.
4. O encontro com algumas colectividades do concelho de Felgueiras e de Madrid, promovido pela Associação “Salta Fronteiras”, foi um intenso momento de graça. Pena foi que não tivessem participado todos os corpos gerentes da nossa Associação AS FORMIGAS. Ficariam muito mais confirmados na caminhada. Houve partilha recíproca das Associações presentes, para nos darmos a conhecer umas às outras. Mesmo ao nível do concelho, foi a primeira vez que sucedeu. Terá que acontecer mais vezes. Precisamos de avançar para uma federação concelhia. Vou propor que demos passos concretos e firmes nessa direcção.
Depressa percebi que a partilha da nossa experiência era aguardada com grande expectativa por todos, os de Madrid e os do concelho de Felgueiras. E foi uma explosão. O Barracão de Cultura, tal como está concebido, deixou tudo e todos em polvorosa. A Fé que me anima e que naturalmente passou para todos os presentes, na sua maioria jovens de ambos os sexos, em forma de convicto testemunho pessoal, quase levantou a sala de entusiasmo e de perguntas, as mais pertinentes. As pessoas não estão habituadas a esta dimensão. A fé de Jesus tem sido comida pela religião. E não salta em todo o lado onde estiveram as suas discípulas, os seus discípulos. Tudo decorre dentro da lei e da ordem. Na rotina dos dias. Na dimensão da simples natureza. Sem o Sopro ou Espírito de Deus vivo. Ao contrário, a minha partilha apareceu noutra dimensão, a da Fé cristã jesuânica, da Graça e da Verdade, que é a dimensão da vida com futuro, da vida terna e eterna ao mesmo tempo. Por isso, as perguntas e as questões, no final da minha partilha, completada aqui e ali pelo testemunho de Maria Laura, foram mais do que muitas. Creio que o encontro fica gravado a fogo na consciência de quem nele participou. E há-de dar os seus frutos. A seu tempo.
5. O Barracão de Cultura. Voltei a encontrar-me com o Eng.º Teixeira, de Felgueiras, que será o que vai supervisionar a construção. Para já, apenas em grosso. Ainda não sei quando se iniciarão os trabalhos, porque ainda estamos a aguardar os orçamentos pedidos. Só depois de termos contratado o construtor da obra, é que poderemos levantar a licença ou alvará. A Câmara isentou-nos do respectivo pagamento. Espero que possamos levantá-la ainda este ano. O projecto está muito bonito. Simples, mas conseguiu-se tirar partido das limitações do terreno. Os melhoramentos introduzidos recentemente encarecem um pouco mais a obra. A julgar por um orçamento que já nos foi entregue por um empreiteiro, só para a construção em grosso, tenho que reconhecer que o dinheiro de que dispomos para esta fase não chega. Ou a Partilha em dinheiro vai continuar a funcionar, ou teremos que nos virar para a Partilha em materiais. Estou confiante. Como um menino. O Barracão de Cultura é um sinal, um sacramento. Terá que ser erguido pela Partilha de muitas, muitos. O campo foi doado por uma viúva, mãe de três filhos, para já, apenas um casado. O dinheiro que recebi, a título de direitos de autor, pela venda dos meus livros, foram e estão a ser canalizados para a construção. Houve já a oferta de um teatro e de um concerto, cujo produto das entradas foi para a construção. Tem havido pequenas ofertas em dinheiro. Apostamos em encontrar dez pessoas que dêem, cada uma, o mínimo de cinco mil euros duma só vez. Ainda só apareceram duas. Faltam oito. Parece que as pessoas estão à espera que a obra comece, para acreditarem. Precisarão de ver para crer. E avançar. Felizes os que crêem sem terem ainda visto. A Fé é que faz acontecer o Barracão de Cultura. Sejam mulheres, homens de Fé, da mesma Fé de Jesus, e faremos acontecer o Barracão de Cultura em Macieira da Lixa. Como um sinal, um sacramento para o resto do país e para o mundo. Quando puderem e quiserem, apareçam por cá. Para já, vêem apenas o terreno. Ao lado, está a Casa da Comunidade que é simultaneamente, a casa de Maria Laura e dos seus filhos. Venham com o vosso afecto. O vosso calor. O vosso Sopro, em comunhão com o Sopro de Jesus Ressuscitado. Têm vindo por aí algumas pessoas, poucas, com um sopro de sinal contrário, numa inexplicável tentativa de fazer abortar este Sinal. Mesmo assim, são bem-vindas também. Creiam que até essa postura de “velho do Restelo”, nos fortalece. Mas venham também os que sentem o coração a arder com este Sinal. Aquecer-nos-emos uns aos outros, umas às outras. E experimentaremos a verdade daquele dito de Jesus: se estivermos possuídos da mesma Fé dele, diremos ao Barracão de Cultura: ergue-te neste campo. E ele acontecerá. Aliás, ainda não começou a ganhar forma no campo que foi doado para esse fim, mas já está a fazer com que se revelem os pensamentos e os corações de muitas, de muitos. Pensemos nisto. E confiemos. Como uma menina, como um menino.
2005 SETEMBRO 16
São 23 perguntas e outras tantas respostas. As perguntas vieram do meu camarada de profissão e amigo Viriato Teles. Para que eu lhes respondesse, quase na volta do correio electrónico. Na altura, o mês de Março avançava a passos largos para o fim e eu andava às voltas com a edição do Jornal FRATERNIZAR. Mas não fui capaz de recusar. E respondi. De rajada.
A entrevista integraria, juntamente com outras, um livro em preparação sobre o 25 de Abril, a editar daí a semanas, muito poucas. O livro apareceu com algum atraso. E está aí, desde antes das férias, à espera que as pessoas o adquiram e leiam. Recebeu o título de CONTAS À VIDA. Histórias do tempo que passa.
Para lá da minha, há mais 19 entrevistas. De leitura obrigatória. São estes os nomes das entrevistadas, dos entrevistados (as afirmações que coloco entre parêntesis são da entrevistada, do entrevistado e vêm destacadas nas badanas da capa): Alberto Pimenta (“… aquele a quem a mulher corneava esperava que a revolução lhe resolvesse a mulher e os cornos. E não resolveu…”); Alice Vieira (“À medida que as memórias se vão pondo de lado chega-se a esta comunicação que nós temos hoje, que é uma comunicação sem memória.”); António Pinho Vargas (“Foi um tempo cheio de expectativas, de vontade de participar, de ter opiniões, de discutir, de pôr em causa.”); Baptista Bastos (“Estávamos ali a interpretar e a representar a História. E a fazê-la!”); Edmundo Pedro (“O povo português foi até onde podia ir.”); Fausto Bordalo Dias (“A revolução assomou à janela, chegou à varanda, desceu ao passeio, e chegou mesmo a pôr um pé na rua.”); Fernando Relvas (“Mas houve alguma revolução?”); Francisco Louça (“Toda a política é uma reflexão sobre o poder, mesmo que seja contra o poder.”); Isabel do Carmo (“Não há alternativa senão ser optimista”); João Soares (“Ao nível da esquerda, há falta de gente irreverente e com vontade de dar um salto em frente.”); José Mário Branco (“Vai ser preciso fazer muitos mais vinte-e-cincos de Abril para se recuperar o que se perdeu.”); José Medeiros (“O 25 de Abril foi chegando lentamente aos Açores. E agora a malta não o deixa ir embora…”); Luís Filipe Costa (“Perdemos a dimesnão do que significava a festa que vivemos.”); Manuel Freire (“Acho que praticamente voltava a fazer tudo.”); Maria Teresa Horta (“O 25 de Abril é a demonstração de que o grande sonho se pode tornar realidade.”); Mário Alberto (“… Isto foi uma grande vigarice, o 25 de Abril foi uma grande burla, Olha, tem uma coisa boa: o restaurante lá em cima, no Bairro Alto, a Associação 25 de Abril…”); Padre Mário de Oliveira (“A verdadeira Páscoa, nesse ano de 1974, foi no dia 25 de Abril.”); Odete Santos (“Cada vez estou mais convencida de que é preciso uma nova revolução.”); Otelo Saraiva de Carvalho (“O 25 de Abril, contrariamente ao que muitas pessoas pensam, não foi uma revolução de carácter socialista.”); Vasco Gonçalves (“Os caminhos de Abril continuam bem actuais para a construção duma sociedade de justiça social no nosso país:”). A apresentação do livro é de Tiago Rodrigues (“Contas à Vida é a melhor forma de esquecermos o 25 de Abril de 1974 e podermos começar a pensar na próxima festa.”). A edição é da SeteCaminhos (setecamimhos@iol.pt).
Aqui partilho agora com vocês as perguntas e as minhas respostas. Para que, depois, se ainda não sabiam do livro, nem da sua importância, possam correr por ele e lê-lo de um fôlego. Eis.
1 – Três meses antes do 25 de Abril, o padre Mário estava preso, acusado de «actividades subversivas». Como viveu a revolução?
R. Depois de duas prisões políticas em Caxias e outros tantos julgamentos no Tribunal Plenário do Porto, só podia viver a revolução de Abril 74 com emocionante alegria. Na manhã do dia 25, acordei em casa dos meus pais, em Lourosa, St.ª Maria da Feira. Quando cheguei à cozinha, para o pequeno almoço, liguei o rádio por notícias. Saiu-me aquela música em forma de marcha alegre, só interrompida pela leitura do comunicado do Comando do Movimento das Forças Armadas. Uma e outro foram de imediato interpretados por mim como sinais duma revolução para a liberdade. O meu coração ficou aos pulos, olhei a minha mãe e abracei-me a ela emocionado, enquanto lhe dizia: Mãe, deve ter havido uma revolução libertadora no nosso país. Se assim for, nunca mais serei preso pela PIDE. Acabaram-se os sofrimentos por motivos políticos, quer para vós, quer para mim. Felizmente, as horas e os dias seguintes confirmaram que assim havia sido. Por isso, a quem me queria ouvir, não me cansava de dizer: A verdadeira Páscoa, este ano de 1974, foi no dia 25 de Abril, não no dia em que o calendário a havia previamente fixado. Para mim, aquela foi a madrugada em que o nosso país nasceu como povo de povos e morreu definitivamente como império colonial. Respirei alegria e festa como nunca antes.
2 – A propósito, lembro-me de um livrinho editado por altura de uma das suas prisões, cujo título era uma pergunta: «Subversão ou Evangelho?» Era uma questão pertinente face à sua actividade de então?
R. A questão era e é pertinente. O livro em causa contém as principais peças do processo do meu 1.º julgamento no Tribunal Plenário do Porto. Foi organizado e editado pelo meu advogado de defesa, o meu amigo Dr. José da Silva, então deputado com o Dr. Francisco Sá Carneiro e outros da chamada “Ala Liberal”, na Assembleia Nacional. O título foi da responsabilidade do advogado. Na altura, o Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes, chegou a sugerir, emocionado, um outro título. Exactamente este: “Evangelho no Pretório”. O Dr. José da Silva achou a sugestão muito interessante e muito oportuna, mas não quis ir tão longe, porque entendia que a minha absolvição no Plenário do Porto tinha deixado furiosa uma certa direita católica no país. Um título tão afirmativo como o sugerido pelo Bispo D. António iria, certamente, acirrar ainda mais os ódios teológicos desses católicos do regime salazarista. Por isso, optou por um título mais humilde, em forma de pergunta. Mas a resposta à pergunta do título era óbvia para quem lesse as peças do processo que “faziam” o livro. Aliás, a própria sentença absolutória do colectivo de Juízes apontou na mesma direcção. Contudo, o objectivo do advogado, com o título em forma de pergunta, não foi plenamente alcançado, uma vez que, poucas semanas depois dele ter aparecido, surgiu um outro livro, da autoria oficial de um tal Amadeu C. de Vasconcelos, cujo título afirmativo não deixava dúvidas da parte de quem vinha: “Subversão, sim. Evangelho, não”. Por mim, não fiquei lá muito surpreendido com esta reacção, ou não fosse verdade aquilo que diz o nosso povo: “O pior cego é o que não quer ver”. Ou, dito ainda com mais propriedade: “O pior cego é o que não quer perder os seus inúmeros privilégios”. De resto, era também por aí que ia a tese da PIDE contra mim: os agentes que me vigiavam e controlavam a minha actividade pastoral só viam subversão, lá onde eu só via Evangelho. Felizmente, o Tribunal Plenário do Porto teve o discernimento e a audácia de só ver Evangelho no exercício do meu ministério presbiteral e pastoral na paróquia de Macieira da Lixa. Foi por isso que me absolveu, ao abrigo da Concordata!
3 – Depois do 25 de Abril, o padre Mário continuou a ser «personna non grata» para boa parte da Igreja. Porquê?
R. É que o 25 de Abril derrubou o regime salazarista, mas não mudou o sistema eclesiástico que tão escandalosamente o apoiou e canonizou. A hierarquia católica não foi sequer beliscada pelos que fizeram a Revolução. Ainda houve algumas tentativas por parte de certas assembleias gerais de cristãs/cristãos que “exigiram” que os bispos de todas as dioceses do país resignassem, uma vez que todos tinham sido eleitos com o aval do regime salazarista deposto. Eram bispos do regime, do antes do 25 de Abril. Mas esta “exigência” moral nunca chegou a ter pés para andar. E nenhum dos bispos se incomodou muito com isso. Pelo contrário, depressa os bispos começaram a mostrar alguma arrogância em relação ao novo país que despontava e se manifestava nas ruas, nas empresas e nos quartéis. Por isso, a minha situação de presbítero identificado com a Revolução para a liberdade deixou de ter suporte junto dos bispos que sempre se haviam sentido confortados com o regime deposto e que passaram a sentir-se muito desconfortados, com a sua deposição. A sociedade civil olhava-me com simpatia e gratidão, pelo pequeno contributo que eu havia dado para a queda do regime, mas para a hierarquia e para os católicos de direita, eu era olhado cada vez mais como um “traidor”, um “não-alinhado com a hierarquia”, um “comunista”, um “esquerdista”, um “político”. E a verdade é que nunca mais fui nomeado, até hoje, para qualquer ofício pastoral oficial. Fiquei com o estatuto de “padre vago”, ou sem ofício pastoral, situação que eu aproveitei para me profissionalizar como jornalista, a fim de poder viver o meu ministério presbiteral totalmente de graça. O que ainda hoje acontece!
4 – Durante o PREC, assistiram-se a situações de crispação entre o poder revolucionário e o poder religioso. A Igreja não gostou do 25 de Abril?
R. Quando falamos de Igreja, sempre haveremos de especificar de que Igreja falamos. Posso dizer que, duma maneira geral, a igreja hierárquica (os bispos residenciais e os párocos que funcionam como seus braços compridos nas múltiplas paróquias em que se divide cada diocese) não gostou do 25 de Abril. A igreja hierárquica sempre se identificou com o regime de Salazar, excepção feita ao conhecido Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes que, a determinada altura do seu ministério episcopal no Porto, se demarcou de Salazar, mais do que do regime. É certo que a conferência episcopal saudou em comunicado o 25 de Abril, mas fê-lo com aquela habilidade diplomática em que é perita. Ao contrário, a Igreja povo de Deus, em que já se inclui o conjunto dos fiéis, mulheres e homens baptizados, cantou e dançou a Revolução, em tudo quanto foi ocupações de casas vazias, comissão de moradores, comissão de trabalhadores, manifestações de rua, plenários de empresa, lutas de pescadores, trabalhadores rendeiros, sindicatos. Mas esta Igreja, numericamente grande, continua sem ter consciência da potência que tem e que é. E, por isso, é uma Igreja sem vez nem voz. Limita-se a ouvir os bispos e os párocos e a obedecer-lhes. E a contribuir financeiramente para a sustentação e bem-estar material de todos eles. Quando está nas lutas, praticamente nunca se assume como Igreja, apenas faz valer a condição profissional ou político-partidária dos seus membros. Chega por isso a parecer que a Igreja são apenas os bispos, os únicos, aliás, ou quase, que a própria comunicação social reconhece como tal.
5 – Tendo em conta o que foi o papel da Igreja em Portugal, e o que foi o papel da Igreja na América Latina, por exemplo, podemos dizer que há várias igrejas dentro da Igreja?
R. Podemos e havemos de dizer que há várias Igrejas dentro da Igreja. O mal não é esta pluralidade de Igrejas na Igreja. O mal é a uniformidade. Unidade da Igreja – “Creio na Igreja una”, proclama o Credo – não pode confundir-se com unicidade nem com uniformidade. Há tanto mais Igreja, quanto mais plural ela for, como plurais são os povos e as culturas que fazem a Humanidade. Depois do Concílio Vaticano II, a Igreja deixou de se auto-compreender como a Cristandade que infelizmente havia sido desde o século IV, com o imperador Constantino, para se auto-compreender como uma Comunidade de comunidades, uma Igreja de Igrejas. Por isso, o problema não é a pluralidade de Igrejas. O problema é a Igreja, em alguma ou em muitas das Igrejas que a constituem, deixar de ser fiel ao Evangelho de Jesus, deixar de ser obediente ao Espírito Santo, e converter-se numa religião mais, com sacerdotes como funcionários do religioso. O problema é a Igreja deixar de ser discípula de Jesus e “parteira” da Humanidade, para se converter em poder religioso e eclesiástico sobre as populações e os povos. O problema é a Igreja fazer aliança com os poderosos e os ricos, em lugar de viver incondicionalmente ao serviço do Reino ou Reinado de Deus dentro da História. Neste sentido, o papel da Igreja católica em Portugal, durante o regime salazarista, e o papel da Igreja em muitas partes da América Latina foi tão divergente, para não dizer tão antagónico, que qualquer observador minimamente atento, seria levado a pensar que não se tratava da mesma Igreja. E será sempre assim, enquanto a Igreja, em alguma das Igrejas locais em que ela misteriosamente acontece, deixar de ser o sal da terra e a luz do mundo, presença maiêutica ou libertadora no meio da Humanidade, para passar a ser unha-e-carne-com-o-poder-de-turno. Neste caso, mais do que falarmos em Igrejas distintas, haveremos de falar em traição, por parte de algumas Igrejas.
6 – O Portugal que temos hoje corresponde àquilo que imaginava para o país nessa altura?
R. O que eu possa ter imaginado o que viria a ser o país, 31 anos depois do 25 de Abril de 74, pouco importa. Nem eu hoje me lembra se cheguei a imaginar um qualquer cenário. Provavelmente, não. O que é importante para mim é que o país que hoje temos é incomparavelmente melhor do que era então. A revolução acabou por se fazer carne da nossa carne, não ficou apenas em slogans. Hoje, somos um povo de povos, não somos um império colonial. Somos um povo muito mais secularizado, muito mais autónomo e independente das Igrejas e das religiões. O ateísmo é um fenómeno muito mais generalizado. E creio que continuamos a avançar a passos largos para uma sociedade que nasce e cresce fora das Igrejas, nomeadamente, fora da Igreja católica. O que, a meu ver e no ver do Evangelho de Jesus, é um dado positivo. Enquanto a Cristandade foi rainha – com o trono e o altar, a cruz e a espada sempre juntos – as populações e os povos foram sobretudo súbditos, vassalos, sem vez nem voz. Fomos um Portugal de pequeninos. Felizmente, o 25 de Abril cortou (de vez?) com este passado. Foi um Novo Começo. Nesta altura, ainda andamos à deriva em muitos aspectos, mas é melhor assim do que permanecer na situação de menoridade anterior. Vamos a caminho do que haveremos de ser. E isso é francamente positivo. Ousemos prosseguir, sem nunca ceder à tentação de olhar para trás, muito menos, de voltar para trás. Somos o que seremos. E, se já vamos a caminho, ao 25 de Abril 74 o devemos.
7 – Hoje, «sem paróquia nem altar», como faz para levar por diante o seu trabalho?
R. Desde que me profissionalizei como jornalista e me vi na situação de padre ou presbítero da Igreja do Porto sem ofício pastoral, procurei abrir o meu próprio caminho eclesial fora do sistema eclesiástico, mas sempre dentro da Igreja de Jesus. Hoje, parece-me até que esta minha vivência é muito mais eclesial do que seria, se eu tivesse permanecido na condição de funcionário eclesiástico, como sucede com a generalidade dos meus colegas. Infelizmente, é isso que o sacramento da Ordem costuma fazer: funcionários eclesiásticos, ao incondicional serviço do sistema eclesiástico, na pessoa do funcionário eclesiástico-mor, o Bispo residencial. Mas não é para isso o sacramento da Ordem. Na intenção do Espírito Santo que o faz acontecer na Igreja, o sacramento da Ordem destina-se a suscitar mulheres e homens que venham a ser, no hoje e aqui da Igreja e do mundo, outros Cristo, como Jesus, o de Nazaré, foi. Porque é de mulheres e de homens dessa têmpera, radicalmente libertadores, que a Humanidade carece, não de funcionários eclesiásticos! A verdade é que, a partir do momento em que me vi longe dos altares e dos templos, também me vi a ser cada vez mais presença fraterna e solidária entre os muitos católicos, mulheres e homens, que cada vez em maior número, deixavam e continuam a deixar de frequentar as paróquias. O mais curioso é que logo percebi que a Fé cristã jesuânica sempre se deu bem numa situação como a minha. Nunca devemos esquecer que também Jesus, o de Nazaré, sempre se deu bem longe das sinagogas do seu país e longe do altar do templo de Jerusalém. Não foi sacerdote, nem fez das suas discípulas e dos seus discípulos sacerdotes. Aliás, o Cristianismo de Jesus não é uma religião mais, entre as muitas religiões. É uma via ou caminho de libertação e de partilha que, se for percorrido até ao fim, nos humaniza e fraterniza/sororiza. Deixei então de frequentar os templos e os altares, mas não deixei de frequentar as vidas concretas das pessoas, as suas casas e todos os outros locais frequentados por elas. Progressivamente percebi que o principal serviço de um presbítero, como o de um bispo, não é presidir aos cultos nos altares (coisa que faziam os sacerdotes dos cultos do paganismo), mas anunciar o Evangelho – Evangelizar os pobres – anunciar a Boa Notícia de Deus que um dia pudemos ver em plenitude no ser humano histórico, Jesus de Nazaré. E é esse serviço ou ministério que procuro realizar, com escândalo para muitas e muitos que continuam a pensar que um padre existe para queimar o seu tempo no altar, em missas em série, em actividades eclesiásticas que, na maior parte dos casos, em lugar de contribuírem para humanizar as populações e os povos, contribuem para alienar e oprimir quem insiste em as frequentar com regularidade. O simples facto de hoje já existirem pequenas comunidades cristãs de base, alternativas às paróquias territoriais (felizmente, também contribuí para o nascimento de algumas delas) está a dizer que a Igreja de amanhã só poderá ser uma Igreja de pequenas comunidades de iguais e de irmãs/irmãos, por isso, sem clero e sem qualquer hierarquia, para lá da do serviço maiêutico ou libertador. Hoje, a minha maneira de viver o ministério presbiteral ainda é olhada de soslaio e até com escândalo, por parte de muitos católicos tradicionais, mulheres e homens, mas num futuro não muito distante já será prática corrente. Quando a Igreja deixar efectivamente de ser Cristandade ou poder-com-o-poder-dominante, e for apenas presença-fermento na Humanidade; quando a Igreja perder de vez a excessiva visibilidade que hoje ainda tem como super-estrutura eclesiástica, e humildemente estiver a contribuir, como fecunda presença escondida, para uma maior visibilidade da Humanidade, progressivamente autónoma e protagonista. Por mim, já vejo/experimento este dia. E por isso posso dizer que sou um homem realizado e em paz.
8 - «Fátima nunca mais» é o título de um livro seu. Fátima foi uma fraude? Então o que é que aconteceu em Fátima em 1917?
R. Fátima foi uma fraude. E continua a ser uma fraude. As chamadas aparições da senhora de Fátima são o que há de, cultural e teologicamente, mais parolo e parvo no nosso país. São o obscurantismo em acção. São o exemplo mais acabado do Portugal de pequeninos e de analfabetos que o catolicismo português produziu, em união com a monarquia, desde a fundação de Portugal, ao tempo de D. Afonso Henriques, o qual para ser reconhecido como rei pelo papa de então, teve que pagar quatro onças de ouro. Em Fátima, nada nos lembra Maria, a de Nazaré, a mãe carnal de Jesus. Tudo o que lá se faz é pura idolatria. É puro paganismo, travestido de cristianismo. Ou, se quisermos falar com mais propriedade, é Cristianismo pagão. Não tem nada a ver com o Cristianismo de Jesus, o de Nazaré. As pessoas geralmente não sabem que antes de Jesus, já tinha havido muitos Cristos. A novidade das comunidades primitivas que estão na origem da Igreja é que elas atreveram-se a reconhecer em Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, o Cristo, o Libertador, o ser humano por antonomásia. Em mais ninguém. E foi assim que nasceu o Cristianismo de Jesus, ou o Cristianismo jesuânico. Em Fátima, o que há, desde 1917, é puro paganismo. Nada do que lá se faz tem as marcas de Jesus, o de Nazaré. Tem apenas a marca da mítica Deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo mais primitivo, quando as sociedades foram matriarcais, e que, desde então, nunca mais descolou do inconsciente colectivo dos diversos povos do mundo, também do povo português. As chamadas aparições de 1917, de Maio a Outubro, são um tosco teatro montado pelo clero de então para tentar desacreditar a República de 1910 e que vingou como “aparições”, graças ao obscurantismo e ao terror do inferno que o clero da altura, coadjuvado pelos padres da Santa Missão, explorou até ao delírio e à demência quase colectiva. Era nesse terror que viviam todos os dias as populações das aldeias, também a de Fátima. Acham que exagero? Basta vermos como tudo aquilo foi montado. Nada acontece por acaso. Antes de se iniciar o espectáculo, já se conhecia o guião. Seria apenas de 13 de Maio a 13 de Outubro. Apenas seis vezes. Sempre aos dias 13, à mesma hora. Fez-se constar que a senhora vinha do céu e era posta a falar a três crianças, previamente, escolhidas da mesma família. Mas ninguém da população poderia ver a senhora, nem ouvir o que ela dizia. Apenas as crianças. E destas, nem todas ouvem! Das três crianças, só a Lúcia, a mais velhita, seria autorizada a fazer perguntas à suposta senhora. As perguntas podiam ser ouvidas pelo público presente, não as respostas. As perguntas, postas na boca de Lúcia, são o exemplo acabado da parvoíce. E as respostas que Lúcia diz que a senhora lhe deu, ainda mais. Nunca em parte alguma do mundo, semelhante conversa teria interessado a alguém. Só em Portugal, nesse obscuro tempo da segunda década do século XX, ainda sem um pingo de Evangelho de Jesus e sem um pingo de Modernidade. O programa segue até final. Depois, para que a mentira nunca mais fosse desmentida, deixaram-se morrer as duas crianças irmãs, no auge da peste pneumónica (é caso para dizer: Nem a senhora de Fátima, tão milagreira ao que dela diz a publicidade bem paga que por aí se faz, lhes valeu! Uma infâmia de todo o tamanho, portanto). Pelo menos, a mais novinha, Jacinta, morreu a delirar com dores horrendas, no mais completo abandono por parte do clero. Restava a mais velha dos três. A solução foi encarcerá-la no Asilo de Vilar, no Porto, e convencê-la, através dos confessores, do bispo e de outras pessoas influentes da Igreja, todas interessadas em impor Fátima ao país e ao mundo, que ela era uma menina escolhida pelo céu para ser santa e para difundir no mundo a devoção ao Imaculado Coração de Maria (coisa teologicamente mais parva nunca se viu, mas vale tudo, quando se trata de manter as populações e os povos sob o jugo do clero e do poder eclesiástico!). Mas assim estava programado antes de começar a acontecer, e assim se fez. Lúcia lá partiu para o Porto, numa alta madrugada, sem que ninguém soubesse. E só passou a ter alguma autonomia, quando já nunca mais poderia ser ela própria e “voluntariamente” aceitou ser freira de clausura total, no Carmelo de Coimbra, onde viria a falecer, este ano. E agora que não há mais o perigo de as três crianças dizerem a verdade, Fátima e a sua fraude têm mais do que nunca pernas para andar. A menos que as populações e os povos cresçam em consciência crítica e na sabedoria de Jesus, o de Nazaré. Porque então, renunciarão duma vez por todas à senhora de Fátima, às suas mentiras e aos seus cultos, como coisa demoníaca/idolátrica que tudo aquilo é! A minha alegria maior será ver chegar depressa esse dia! A concluir, digo ainda: Tenho repetido que Fátima não faz parte do Credo. Por isso, pode-se ser católico e não acreditar em nada de Fátima. Mas, agora, vou mais longe e atrevo-me a dizer: Quem quiser ser cristão católico jesuânico não pode acreditar em Fátima. Tudo aquilo é incompatível com a Fé cristã, com o Cristianismo de Jesus.
9 – Se Fátima é uma mentira, e se essa mentira é suportada e incentivada pela hierarquia da Igreja, ao mais alto nível, então eu posso concluir que o Papa é mentiroso?
Não. Não pode concluir que o Papa é mentiroso. O que pode concluir é que a mentira foi e tem estado tão bem montada, que até conseguiu enganar um homem com a estatura e a formação do católico polaco Wojtyla, desde há 26 anos bispo da Igreja de Roma e Papa da Igreja universal. Para mal da Igreja e da causa do Evangelho de Jesus, trata-se de um Papa fatimista q.b., que confunde os cultos em honra da mítica Deusa virgem e mãe, já lucidamente combatidos pelos profetas bíblicos, muitos séculos antes de Jesus nascer, com a mulher história que veio a ser a mãe de Jesus, Maria de Nazaré, de seu nome. Esta confusão redunda numa aberração teológica sem paralelo. E o que a mim mais me impressiona é que as teólogas e os teólogos da Igreja católica e das Igrejas irmãs protestantes se mantenham em cúmplice silêncio. Nunca choraremos bastante, perante este desastre teológico e humano e suas consequências. Mas, infelizmente, não é a primeira vez que um desastre destes acontece. Quem não se lembra, por exemplo, que o judaísmo do tempo de Jesus, na pessoa dos seus líderes maiores, preferiu o Deus que se revelava em César de Roma, ao Deus que se revelava em Jesus de Nazaré? Mas é por causa de desastres destes que a Humanidade progride tão pouco em libertação para a liberdade e o Império que é mentiroso e assassino continua a ter pernas para andar e é saudado pelas populações e pelos povos do mundo como a salvação! Para nossa vergonha.
10 – Por falar no Papa: hoje já quase ninguém fala de João Paulo I, que – na minha modesta opinião de agnóstico – tinha o mais belo sorriso de que há memória na história da Igreja. No fim do seu curto papado, houve quem sugerisse que ele tinha sido assassinado. Acredita nessa hipótese?
R. A esse propósito, escrevi há uns três anos o prefácio para um livro de um padre francês meu amigo que, infelizmente, nunca chegou a ser publicado nem lá nem cá. O livro tentava abordar o problema do assassinato ou não assassinato do Papa João Paulo I. É desse prefácio esta curta passagem que aqui revelo em primeira mão:
“Se não o eliminaram fisicamente, o que é mais do que provável ter acontecido e daí a irrevogável decisão da Cúria em não permitir a autópsia ao cadáver – bastaria para tanto adicionar uma dose fatal de veneno sem sabor nem cheiro, digitalina, por exemplo, ao effortil que ele tinha que tomar todas as noites antes de se deitar e que o ajudava a manter, nos níveis ideais, as suas tensões habitualmente baixas – então mataram-no moralmente, mediante a prática de toda a espécie de golpes baixos que cometeram contra ele, próprios de uma máfia bem montada, bem organizada e bem dirigida, da qual fazia parte um restrito número de cardeais, por sinal, os mais influentes do Estado do Vaticano de então, e que não estavam nada dispostos a perder o poder de que desfrutavam, coisa que teria inevitavelmente ocorrido, se o papa não fosse fisicamente eliminado naquela precisa e fatídica noite de 28 para 29 de Setembro de 1978.”
Infelizmente, a história da Igreja, como a história em geral, feita por homens e mulheres ainda em vias de o serem, tem sido fértil em crimes de lesa-Humanidade e de lesa-Natureza de bradar aos céus. O mais que provável assassinato de um papa tão humano como o Papa João Paulo I – o Jesus do século XX – ao lado desses crimes, é coisa de somenos importância. E a Cúria Romana não teve qualquer dificuldade em abafar o caso. Agora só falta mesmo propor a beatificação e canonização de João Paulo I, para que o crime de que foi vítima nunca mais seja lembrado!
11 - Porque é que a Igreja tem sempre tanta dificuldade em adaptar-se ao que é novo?
Não é só a Igreja. Todas as grandes instituições e a generalidade das populações e dos povos. Os começos são sempre revolucionários. Mas depois as revoluções quase sempre acabam por se devorar a si mesmas. Desde que a Igreja se casou com o Império de Constantino, no século IV, e passou de Igreja a Religião oficial e única do Império, nunca mais pôde gostar do “Novo”, com toda a carga subversiva e provocadora que o “Novo” sempre traz. As coisas agravaram-se ainda mais, depois que a Igreja ficou no lugar do Império, à morte deste. E assim têm continuado até aos nossos dias. Sem lugar para o “Novo” dentro dela, a não ser como dissidente, como herege, como excomungado e, muitas vezes, como crucificado ou queimado na fogueira da Santa Inquisição! Mas, ironia da história, é o “Novo”, por mais reprimido e ostracizado que seja, que faz avançar o mundo e a vida. Felizmente, as coisas alteraram-se substancialmente na Igreja, no decurso da década de sessenta do século que nos precedeu, com o Concílio Vaticano II. Com ele, o “Novo” explodiu dentro da Igreja e nunca mais sairá dela. Tem uma expressão minoritária, é verdade, mas está eclesialmente legitimado. É dele que também eu vivo. E será ele que garantirá futuro ao triste presente da Igreja, tal como a Cúria Romana a tem moldado, sob o comando das hostes da OPUS DEI. A grande instituição sabe que no dia em que deixar o “Novo” à rédea solta, os dias dela estão contados. Ela pensa que isso é um mal e, por isso, tudo faz para o impedir, nem que seja com recurso à morte violenta e à maldição/excomunhão, como fez o Judaísmo com Jesus. Para cúmulo, ao proceder assim, continua a pensar que dá glória a Deus. Não dá. Só se afunda na perversão e na inumanidade. Por isso, também eu digo, como Jesus: Pai, perdoai-lhes, porque não sabem o que fazem!
12 – Ao longo dos tempos, os temas relacionados com o sexo têm sido um tabu para a Igreja. Mas Deus não disse a Adão e Eva «crescei e multiplicai-vos»?
R. Não sei se Deus disse isso. Porque o conhecido relato de Adão e Eva, onde essas palavras aparecem, é apenas um relato mítico das origens. Não é um facto histórico. Nunca existiu, no princípio, um casal com os nomes de senhor Adão e senhora Eva. Adão e Eva são substantivos comuns, não substantivos próprios. E o pecado original nunca existiu num princípio. O que existe desde o princípio é o amor criador de Deus que está a tentar criar-nos à sua imagem e semelhança. Por pura graça. Mas tem sido difícil. Porque se Deus pôde começar a criar-nos sem nós, agora, no ponto em que a criação já se encontra, não pode prosseguir a sua obra sem nós, sem a nossa livre cooperação, uma vez que Ele teve o arrojo de nos criar criadores, como projectos irrepetíveis de liberdade. Entretanto, não posso deixar de reconhecer que o relato de Adão e Eva embora seja um relato mítico, acabou por ter uma influência decisiva na civilização ocidental como nenhum outro. Infelizmente, uma influência maléfica. Para mais, agravada, a partir do século V, com a desastrada intervenção hermenêutica e teológica de Santo Agostinho. Então não é que este bispo católico tomou à letra e como um facto histórico o relato mítico das origens e viu no prazer sexual (que ele conheceu antes de ser feito bispo e que depois doentiamente nunca mais se perdoou por isso) o próprio pecado original que, segundo ele, seria transmitido a todos os seres humanos através da relação sexual, sobretudo, quando esta fosse realizada com prazer por ambos os intervenientes? Esta monstruosidade foi ensinada nas Universidades e nas catequeses através dos séculos, sem que ninguém se erguesse a dizer que era um insulto ao nome de Deus e aos seres humanos. E ainda hoje esta doutrina continua presente nas mentes dos seres humanos, inclusive, nos grandes negociantes do sexo. Ao fazer suas as perversas teorias de Santo Agostinho, a Igreja nunca mais foi capaz de encarar o sexo com a naturalidade com que Deus o olha. E fez dele o pecado do mundo, origem de todos os males. Durante séculos, só o tolerou como necessidade para a propagação da espécie. Mas o que ela gostaria era que fosse possível a propagação da espécie sem ter que se recorrer ao sexo, à relação sexual entre uma mulher e um homem. Por isso, ela não se inibiu de ensinar que a virgindade era superior ao casamento, porque a virgindade não conhecia nunca uma relação sexual. É esta falsa doutrina que está subjacente ao aparecimento de conventos e de mosteiros, que se encheram de frades e freiras, supostamente, virgens, sem qualquer actividade sexual. Foram muitos e muitos milhões de mulheres e de homens em todos estes séculos de Cristandade. Só que esta prática não tem nada a ver com Jesus e o Evangelho de Deus sobre os seres humanos, que Jesus nos revelou. Tem tudo a ver com os cultos idolátricos e sacrificiais em honra da Deusa do primitivo Paganismo. Ela, não o Deus de Jesus, é que se sentia honrada com a castração dos seres humanos. O Deus de Jesus sente-se honrado com a plena realização dos seres humanos, também ao nível sexual, afectivo, relacional, comunitário. Não é assim a Igreja católica e a Cúria Romana. Daí, toda a sua intolerância e toda a sua cruzada contra o prazer da vida, a começar pelo mais humano de todos, o prazer sexual. Fosse a Igreja seguidora, não das perversas teorias de Santo Agostinho, mas do Espírito que sopra e canta no mais belo livro da Bíblia, o “Cântico dos Cânticos”, e outra, muito outra seria a sua posição, neste domínio. Assim como outra, muito outra seria também a Igreja católica. A minha esperança é que ela ainda o venha a ser.
13 – As questões do aborto e da contracepção, por exemplo: a Igreja continua a ser inflexível nestas matérias. Porquê?
R. Aqui, creio que os motivos são ainda mais graves. Acho que a Igreja hierárquica nunca se deu bem com a liberdade e a responsabilidade que decorre da liberdade. Prefere a lei à liberdade. A ordem imposta à responsabilidade. Educar para a liberdade é coisa que a hierarquia da Igreja nem sabe o que seja. Ela tem um medo que se pela da liberdade. O que ela quer é ter súbditos, funcionários, em lugar de seres humanos livres e responsáveis. Por isso faz toda a guerra que se conhece contra uma lei que despenalize o aborto. Ela sabe que há aborto em massa. E nada faz para ajudar a criar condições favoráveis à vida de qualidade que ponha cobro a este flagelo humano. Mas já não suporta que haja uma lei que despenalize o aborto. Uma lei destas pressupõe a existência de pessoas livres e responsáveis, capazes de decidirem sobre os seus actos, mesmo os mais íntimos. Se não houver uma lei dessas, as mulheres em situações de desespero podem fugir do aborto com medo da vergonha e da cadeia. E é nesse mecanismo do medo que a hierarquia da Igreja aposta. Não na liberdade e na responsabilidade de cada pessoa. Para formar pessoas livres e responsáveis, dá muito trabalho. Não é de um dia para o outro que se formam pessoas livres e responsáveis. Pessoas dominadas pelo medo sim. Pode conseguir-se num instante. No meu entender, é aqui que havemos de colocar a questão. Uma Igreja preguiçosa, instalada, superficial, aposta tudo no medo (do inferno, da cadeia, dos castigos, da denúncia na praça pública, da Inquisição, das fogueiras, da espoliação dos bens, da ameaça de morte), em lugar de apostar tudo na liberdade. A lei da despenalização do aborto acaba com o medo da cadeia e com a vergonha da exposição pública nos tribunais. Cria condições de mais liberdade responsável, mas não é por aqui que tem passado o esforço catequético da Igreja. Apenas no medo. Não foi o medo do inferno que levou as três crianças de Fátima a auto-flagelar-se para evitar que os “pobres pecadores” lá caíssem? Ora, se nem inferno existe, o que fica então de toda essa maldita catequese fatimista?
14 – O padre Mário, porém, tem sobre estas matérias (o sexo e sexualidade em geral) uma posição muito heterodoxa. Tem a noção de que é uma voz incómoda?
R. Não direi heterodoxa, mas ortodoxa. Heterodoxa é a posição da hierarquia da Igreja e da Cúria Romana. A minha posição inspira-se na liberdade para a qual Cristo, o de Jesus, nos libertou. Desde cedo me dei conta que a moral sexual oficial da Igreja é imoral. Por isso, tem que ser denunciada e combatida em nome da dignidade humana, da liberdade dos seres humanos, do Evangelho de Jesus. Jesus nunca foi por aí. A via de Jesus, que é a do Evangelho, vai pelo Cântico dos Cânticos. Uma sexualidade humana será sempre uma sexualidade festiva, realizadora dos seres humanos que a vivem de forma livre e responsável. Para tanto, há-de aparecer vinculada a um projecto que diga respeito ao bem da Humanidade. Sexualidade sem projecto de vida é muito redutora. E pode, à distância, contribuir para criar frustradas, frustrados. Não se entenda por projecto de vida, um casamento canónico ou civil. Entenda-se um projecto de vida que envolve e dá sentido a todas as nossas opções e decisões concretas do dia a dia. Creio que hoje tendemos a esquecer esta dimensão da sexualidade humana. Mas a verdade é que nós, os seres humanos, não somos apenas sexo. Somos corpos animados, corpos que se movimentam atraídos por utopias que dão sentido e gosto aos pequenos actos de cada dia. Sem isto, pode haver muita actividade sexual e pouca festa. Pode haver muito prazer, mas pouco crescimento em liberdade e em responsabilidade. Podemos não ir muito além dos animais. Racionais, mas animais. Quando do que se trata é de nos tornarmos humanos e, finalmente, fraternos/sororais. Ver as coisas assim é ser uma voz incómoda? Pois tanto melhor. É bom que se saiba que isto de se ser mulher, homem, tem o que se lhe diga. É, sem dúvida, a obra mais difícil a que Deus meteu mãos, perdão, com que Deus, ele próprio, se comprometeu. Para já, apenas teve um resultado absolutamente positivo: Jesus de Nazaré, o Homem!
15 – Um aspecto que diferencia a sexualidade humana da sexualidade animal é o prazer e a dimensão afectiva. O Reich, por exemplo, foi perseguido por defender que o sexo era uma coisa bela e não um pecado ou um mal necessário. E eu atrevia-me a fazer uma divagação eventualmente herética e a dizer que «fazer amor» é uma expressão que quase remete para o Sagrado. Concorda comigo?
R. Concordo, evidentemente. Fazer amor, mas com amor (o que nem sempre acontece, infelizmente) é tão sagrado como fazer a Eucaristia, por exemplo. “Beijar é orar”, é o título de um livro, cujo autor é pregador de retiros num mosteiro. A afirmação apoia-se no já referido livro bíblico, “Cântico dos Cânticos”, que abre precisamente com estas palavras tão sadiamente provocadoras, quanto humanas: “Beija-me com os beijos da tua boca! Melhores que o vinho, são as tuas carícias!” Mas o mais impressionante é que todo o poema é protagonizado por um casal que o não é de facto, é um casal de amantes, como hoje diríamos. E porque é que as coisas são assim aos olhos de Deus, o de Jesus? Porque a glória de Deus é que o ser humano viva. Poderíamos traduzir: A glória de Deus é que o ser humano atinja o orgasmo, a plenitude, o êxtase, tanto nas suas relações conjugais/sexuais, como nas suas relações sociais e comunitárias. Entenda-se, evidentemente, orgasmo em sentido amplo, como plenitude de vida humana. O raquitismo, todo o tipo de raquitismo não glorifica a Deus, pelo menos, o Deus de Jesus que o que mais quer é que os seres humanos vivam e vivam em abundância. Mas esta abundância está longe de se esgotar na relação sexual, no fazer amor em sentido meramente sexual. Aliás, o amor que não consegue ir além da cama não tem asas para fazer seres humanos. Por isso, pode haver mulheres e homens que, sem nunca fazerem amor, em sentido sexual, o fizeram como ninguém, quando se tornaram dom para os demais, na maior das gratuidades e no maior dos despojamentos. Mas para se chegar aqui, é preciso falar a língua da fraternidade/sororidade universal, coisa que o nosso tempo, infelizmente, parece que nem quer ouvir falar, obcecado que anda com fazer amor na dimensão sexual. Mas é para aí que até o fazer amor em sentido sexual tem que apontar. Pobre de quem não for capaz de o perceber a tempo e não ousar avançar nessa direcção. Porque então não terá chegado a tocar o especificamente humano, por mais actividade sexual que mantenha nos anos de vida propícios a isso.
16 – Já o ouvi dizer que o celibato imposto aos padres é uma auto-castração. E, nos primeiros tempos, os ministros da Igreja não eram obrigatoriamente celibatários. Qual é a razão da teimosia que faz com que se mantenham estas regras?
R. O celibato imposto aos padres é uma aberração. A instituição que isso faz deveria ser considerada fora da civilização e da cultura. Outra coisa muito diferente é o celibato assumido livremente por mulheres e por homens que se experimentam chamados a dar esse testemunho do essencial. O celibato, como opção livre pelo Reino ou Reinado de Deus, é o amor levado ao extremo. Mas deve ser entendido e vivido no clima do Cântico dos Cânticos, não no clima da repressão afectiva e no medo das mulheres ou dos homens. A Cúria Romana mente, quando diz que o celibato dos padres não é imposto, porque os candidatos, quando aceitam ser ordenados, já sabem que só o serão se assumirem o celibato. E assumem-no com essa consciência. Mas, se assim é, então porque é que a Igreja de Roma não acaba com essa disciplina? No princípio da Igreja, o que se exigia é que até o bispo fosse homem duma só mulher! As coisas alteraram-se rapidamente. E uma das razões foi económica. A Igreja não queria que o seu património fosse repartido em herança pelos filhos dos seus ministros ordenados. E proibiu o seu casamento. E aos que já eram casados, proibiu que coabitassem com as respectivas mulheres. Depois, quando alguns padres claudicavam a tinham filhos sem casamento, a primeira coisa que a Igreja lhes exigia é que não reconhecessem os filhos, para que eles não se perfilassem como herdeiros do património eclesiástico. Finalmente, no Concílio de Trento (séc. XVI), a Igreja exigiu que o sacramento do matrimónio fosse feito na presença do pároco da noiva ou do noivo, para evitar os chamados casamentos clandestinos, nomeadamente, os casamentos clandestinos dos padres. Sim, porque havia padres que viviam sossegadamente com uma mulher, porque haviam casado clandestinamente com ela. Hoje, o celibato mantém-se obrigatório, não já por razões económicas, mas por misoginia dos responsáveis maiores da Igreja, todos eles de idade avançada e funcionários eclesiásticos sem entranhas de humanidade. Tantos anos sem afecto, sem a presença do feminino na sua vida, de auto-repressão como que congelaram estes homens e eles tornam-se virtuosamente cruéis e até sádicos. Na sua insensibilidade, imaginam que Deus gosta de ser servido por eunucos, como eles, e então vá de impedir por todos os meios, também por meio duma lei feita por eles (a lei do celibato obrigatório não vem de Deus, nem tem dimensão humana, é pura criação da Igreja católica romana, não da Igreja católica toda, uma vez que a Igreja católica oriental já segue outra disciplina bastante mais humana) que impeça os padres de casar. A proibição é mesmo de casar. Porque se um padre “prevaricar”, mas não casar, basta que se confesse desse “pecado” e poderá continuar a exercer o ministério. Mas se, depois de “prevaricar” várias vezes, entender em consciência que é mais digno casar com a companheira com quem “prevaricou”, aí cai o Carmo e a Trindade. A autoridade eclesiástica é implacável: ou a mulher, ou o exercício do ministério. As duas coisas ao mesmo tempo é que não! O que me leva a ter de concluir que o problema da Igreja católica romana continua a ser a mulher e o prazer sexual, duas realidades que Deus criou e abençoou, mas que a sua Igreja, pelos vistos, não suporta e tudo faz para corrigir o próprio Deus. Bem avisados andarão os padres que queiram casar, se mandarem às urtigas o exercício do ministério que os impedia de serem verdadeiramente eles próprios. Afinal, o exercício da paternidade numa família constituída no amor recíproco dá origem à primeira célula da Igreja de Jesus, a chamada Igreja doméstica. Uma Igreja sem altar, é certo. Mas com mesa comum. E com um leito conjugal, que é muito mais sagrado do que o altar, que tem tudo de paganismo, ao passo que o leito conjugal e a mesa comum têm tudo de dádiva, de graça, de dom, de humanidade. Sem uma e sem outro, a vida humana não teria futuro. O que não se pode dizer do altar que, como se sabe, não faz falta nenhuma, nomeadamente, numa vida feita de liberdade e de responsabilidade.
17 – Ao longo dos séculos, as mulheres foram tratadas, de certo modo, como humanos de segunda categoria, e a Igreja foi sempre uma instituição essencialmente masculina. No entanto, actualmente há cada vez mais há vozes a reclamar, por exemplo, o acesso das mulheres ao sacerdócio. Algum dia isso se concretizará?
R. O que reclamo da Igreja de que faço parte é a radical igualdade entre homens e mulheres e a indissolúvel unidade entre mulheres e homens. Tudo o mais virá por acréscimo. No início, com Jesus e o seu Movimento, as coisas foram assim. Com manifesto escândalo para a época. Mas Jesus não cedeu e afirmou esta radical igualdade e esta indissolúvel unidade, sem querer saber do escândalo. O que, evidentemente, passou a ser constitutivo da Igreja que se reivindica do seu nome. Por isso, a Igreja de Roma, ao não aceitar esta radical igualdade entre homem e mulher, no acesso aos ministérios ordenados, está de certo modo fora do Movimento de Jesus, porque não acata uma das suas dimensões constitutivas. Quanto ao acesso das mulheres ao ministério ordenado (prefiro falar de ministério ordenado, em lugar de “sacerdócio”, já que na Igreja não deve haver sacerdotes, muito menos sacerdotes como casta clericalizada, porque Jesus nunca quis uma tal espécie de funcionários do sagrado junto dele), é vidente que este deve ser total. Onde chegarem os homens devem chegar as mulheres. O que não for assim é discriminação e, por isso, é pecado e pecado que brada aos céus. De modo que as mulheres baptizadas, como os homens baptizados podem e devem exercer o ministério de presbítero e de bispo, e devem estar presentes também no ministério ou serviço de Pedro, que preside e anima a Igreja em todo o mundo. Os séculos para trás foram séculos de pecado e de Mentira que contribuíram para adoecer e oprimir o mundo, quando deveriam ter sido séculos de Graça e de Verdade que teriam curado e libertado o mundo. Por mim, confio que esta Igreja de Roma, tal como está, não tem futuro. Dentro dela, o Espírito Santo já faz sentir a sua acção e presença. E implementar-se-á, em breve, um novo modelo de Igreja, comunidade de comunidades, em que os ministérios ordenados serão protagonizados por mulheres e por homens, casados ou célibes, indistintamente, e em moldes totalmente novos, nada do que hoje por aí se faz, em que aqueles que os exercem são mais funcionários eclesiásticos do que seres humanos. Acabará, então, esta aberração. Em seu lugar, nascerão ministérios ordenados protagonizados por mulheres e homens com coração e sentimentos, por isso, capazes de abraçar, beijar, acompanhar, numa palavra, de sentar-se à mesa dos demais, como uma irmã, um irmão com outras irmãs, outros irmãos.
18 – Sendo, como é, tão crítico em relação à Igreja Católica, alguma vez pensou em deixar de ser padre?
R. Nunca tal ideia me passou pela cabeça. Sempre me experimentei padre/presbítero por vocação. Em mim, ser padre é resposta a um chamamento. Vejo-me muito na linha do chamamento do jovem Samuel bíblico. Chamado para apontar muitos dos desvios históricos da Igreja que me ordenou. E para apontar caminhos alternativos. É uma missão incómoda, mas necessária. Alguém tem que o fazer, o Espírito assim o quer. E quem for chamado a esse serviço será feliz se o realizar. Contra ventos e marés. Porque me experimento assim, creio que a própria Igreja que um dia me impôs as mãos e me confiou o ministério de Evangelizar os pobres também não se terá arrependido de o ter feito. Pode não gostar do que eu faço e do que eu digo, mas não pode deixar de reconhecer a justeza do que eu faço e do que eu digo. Por isso, me acompanha com perplexidade, mas também com atenção. E sei que muito do que eu faço e do que eu digo não tem caído em saco roto. Está à vista de toda a gente.
19 – E alguma vez se arrependeu da «opção de classe» que fez?
R. Opção de classe é coisa que não fiz, senão na medida em que o Evangelho de Jesus também a faz. “O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano de graça da parte do Senhor”. É com estas palavras do profeta Isaías que Jesus de Nazaré se apresenta e ao seu programa na sinagoga da sua terra. É por isso que a Igreja sempre deve começar a sua missão por esta “opção de classe”. É a única maneira de podermos chegar a toda a gente. Fica assim claro que são estes os gostos de Deus, pelo menos, do Deus de Jesus. Só podem ser também os meus gostos. E como é que alguma vez me poderia arrepender de ter feito esta opção, se só ela me faz ser cada vez mais irmão universal?
20 – Fé, esperança, caridade. Das três, qual é para si a essencial?
R. Todas são essenciais. As três são virtudes teologais. Animado e fortalecido por elas, posso viver no Sistema, mas como solidário e irmão dos empobrecidos e excluídos; posso viver no Tempo, mas como cidadão do Amanhã; posso viver no Amor, mas como homem-para-os-demais. Quando falo de Fé, é da Fé de Jesus que falo, mais ainda do que Fé em Jesus ou em Deus. É da Fé que move montanhas, nem que sejam as montanhas do Império. Não falo da Fé religiosa, manifestamente pagã, que leva as pessoas a pedir a Deus aquilo que só elas podem e devem fazer com o seu esforço e com a sua militância. A Esperança faz-me ver o Invisível no visível e para lá do visível. Consequentemente, leva-me a bater-me por causas que vão muito para além dos imediatismos e dos interesses egoístas e mesquinhos do momento. E o Amor faz-me viver os afectos quotidianos, mas como quem se dá às pessoas, não como quem as possui e se serve delas. Enquanto estou na História, estas três virtudes são igualmente fundamentais para mim. Mas só o Amor permanece para lá da História. A Fé acabará. A Esperança acabará. O Amor, nunca acabará. Por isso digo: é pelo Amor que sou e serei. Mesmo que alguma vez, por hipótese absurda, eu chegasse a perder a Fé e a Esperança, seria salvo pelo Amor que é o outro nome de Deus. Por pura graça sua.
21 – O Vaticano é hoje o único estado absolutista da Europa. Mas, e olhando para a agonia pública a que João Paulo II tem estado sujeito, dá vontade de perguntar: até que ponto é real o poder do Papa?
R. O Vaticano é o único estado absolutista da Europa e o Papa é o único chefe de estado com poder absoluto. Concentra nele todo o poder, legislativo, executivo e judicial. Até dispõe de poder sobre Deus, porque se auto-declarou infalível. É claro que as coisas são assim, no dizer do Código de Direito Canónico que o próprio Papa aprovou! Na realidade de todos os dias, não é nada assim. A Cúria Romana é que detém o poder. E quando o Papa dissentir dela, ela lá está para lhe fazer a vida negra até o fazer mudar de ideias. Ainda assim, nunca esquecerei o Papa João XXIII. Com a sua experiência diplomática, foi capaz de fintar a Cúria e convocar um Concílio Ecuménico, sem antes a consultar. Ela bem barafustou, mas a decisão já era notícia em todo o mundo. De modo que o remédio foi aceitar o facto consumado. Mas foi só uma questão de tempo. O Concílio aconteceu – foi o Vaticano II – mas as decisões mais revolucionárias que aí foram tomadas depressa foram metidas na gaveta. A Cúria Romana não descansou enquanto não elegeu um Papa –