2004 SETEMBRO 28 

Neste meu Diário Aberto, nunca mais voltei a falar da Tatiana, a menina de 8 anitos, residente com os pais em Vilar, freguesia de Borba de Godim, próximo desta freguesia de Macieira da Lixa. A mãe, Emília, é aquela que há anos teve um ataque e ficou totalmente paralisada. Desde então, a sua vida tem sido um “calvário” de sofrimento. Hoje, graças à fisioterapia (os católicos fatimistas, fanaticamente diriam: graças a um milagre dos pastorinhos de Fátima!) está bastante melhor, até já consegue caminhar no seu vagar, mas de modo algum consegue assumir as tarefas de casa, pois continua paralisada de um dos lados, braço e mão incluídos. E tem sido a filhinha Tatiana que, na fragilidade dos seus bracitos de 8 anos, tem feito de mãe da mãe, no que toca aos trabalhos de casa, desde cozinhar, fazer limpeza, lavar a louça, até ser a sua dama de companhia, tanto na rua como portas a dentro.

Desde o meu primeiro contacto com esta situação, pressenti, sem chegar a ver claro, que pior do que a situação de carência da mãe, era a situação da sua filha. Hoje, percebo que Tatiana é uma criança em risco. Tomou tão a peito a situação de limitação da mãe, que renunciou a ser criança e fez-se adulta antes do tempo. A mãe, por sua vez, em lugar de se assustar com isso, passou a tirar partido disso. E fala da filhinha com algum orgulho. Não vê o mal que está a fazer à filhinha. Nem vê a mãe, nem vê o pai, nem nenhum dos outros familiares da menina. Parece que toda a gente acha bem e olha para Tatiana, precocemente adulta, com admiração e espanto.

Por mim, ao contrário, desde o primeiro momento que a vi, tenho-me sentido, enquanto permaneço junto dela, inundado de profunda tristeza e mergulhado num estranho silêncio. De todas as vezes que lá tenho ido a casa, não consigo falar, a não ser com grande esforço, nem consigo exteriorizar qualquer sinal de alegria, muito menos quando a mãe ou outro familiar começam a elogiar o brio e a dedicação da menina. Inclusive, tenho querido comunicar, interpelar, mas não me tem saído nada, para além da tristeza. E a menina fica assim também sem jeito para comigo. Ambos nos sentimos mal. Tanto que passei a evitar deslocar-me lá. E, se uma vez ou outra tenho aceitado acompanhar a Maria Laura e a Deolindinha, são sobretudo elas quem tem feito a despesa da conversa. Eu entro mais ou menos mudo e saio calado.

Esta minha postura foi ao extremo da penúltima vez que lá fui com a Maria Laura. Fomos de surpresa e em dia não habitual. Encontrava-se lá uma senhora a passar a ferro (ao que diz Emília, mãe de Tatiana, é uma testemunha de Jeová que, uma vez por semana, pelo menos, vai lá passar-lhe a roupa a ferro, sem lhe cobrar um cêntimo por isso e sem fazer a propaganda da seita); estava também a avó materna de Tatiana. Pois nem assim eu consegui comunicar. Estive presente, mas em grande sofrimento e em incómodo silêncio, mais ainda do que o habitual. As pessoas terão até pensado que eu não devo ser lá muito normal. Mas a verdade é que a tristeza apoderou-se de tal modo de mim à entrada, que nunca mais me deixou, enquanto não me vi cá fora, a respirar o ar da liberdade. A casa da Tatiana e seus pais e irmão tem sido experimentada por mim como uma verdadeira casa de opressão. Senti-o desta vez em todo o meu corpo.

Quando cheguei com Maria Laura, Tatiana estava deitada na cama. Um corpinho que parecia sumir-se dentro duma enorme camisa de dormir. Pelos vistos, tinha-se sentido mal, de véspera, e tinha sido levada à urgência do hospital do concelho que a pôs a soro. Deveria ter ficado internada durante alguns dias em tratamento, mas, com o aproximar da noite, ninguém a segurou. Armou um berreiro e lá acabou por levar a dela avante: deixaram-na vir para casa, depois de terem concluído erradamente que a menina não suportava a ideia de ver a sua própria mãe toda a noite sem ela à sua beira. A mãe contou tudo isto, quase com orgulho, por ter uma filha assim tão dedicada. E eu fiquei aflito, sem fala, numa tristeza de morte, como quem chora por dentro.

Quando saí da casa, disse logo à Maria Laura que, assim, nunca mais lá punha os pés. Ou a vida nesta casa dá uma volta completa de 180 graus, ou eu nunca mais aqui ponho os pés. Dê para o que der, a situação tem que mudar radicalmente. Afinal, não é a mãe que está a necessitar de apoio, é a filhinha. Todos a exploram lá em casa. Podem parecer muito amigos da menina, mas a verdade é que estão a sugar-lhe o sangue como vampiros. E nem sequer têm consciência disso. Tão pouco se importam de estarem a estragar o futuro à menina, comportam-se como se ela fosse já uma pessoa adulta e como se as decisões que toma fossem já decisões acertadas. Ninguém vê ou quer ver a realidade. E a realidade é que se está a cometer um crime contra esta menina. Para cúmulo, com o acordo da própria vítima, uma vez que a menina, na sua ingenuidade e inocência, limita-se a comportar-se como uma adulta precoce, desde que percebeu que é isso que os adultos, a começar pela mãe e pelo pai, esperam dela e é o que mais apreciam nela.

Os elogios são mais que muitos e de todas as bocas. A admiração também. E a menina já nem é capaz de querer outra coisa. Mas, afinal isto que a menina quer acaba por ser a sua própria desgraça, sem que ela própria chegue a ter consciência disso. Vai daí, ou conseguimos mudar radicalmente esta situação, ou tornamo-nos cúmplices deste crime. Assim disse eu à Maria Laura, quando regressávamos a casa, na carrinha. Só então ela percebeu as razões do meu estranho comportamento lá em casa. Mas teme que, a ser assim, ainda acabemos a pôr toda aquela família contra a Comunidade. E ficaremos ainda mais isolados, mais incompreendidos neste meio ainda tão gregário, e quase sem liberdade para cada pessoa poder assumir a diferença. Mesmo assim, concordou que o caminho a seguir é este, mesmo que o preço a pagar seja elevado.

No dia seguinte, de manhã cedo e sem dizer nada a ninguém, nem mesmo a mim, Maria Laura deixou a sua casa a meteu pés a caminho da Segurança Social, em Felgueiras, para tentar contactar a técnica do serviço social do concelho que já está a par de tudo, inclusive, já teve a visita de trabalho duma equipa SOS-Criança, depois desta ter sido alertada telefonicamente há uns meses atrás para a situação da Tatiana. Só que, nesse alerta, a ênfase foi posta mais na mãe da Tatiana, que na própria Tatiana. Parecia então que a Tatiana estava mal, mas em consequência do mal da mãe. A mãe continuava no centro das atenções, como vítima que, por sua vez, vitimizava a filhinha contra a vontade.

Nesta altura, impunha-se esclarecer a técnica social que as coisas não podem mais continuar a ser olhadas assim. Mais do que a mãe, é a filha que está em perigo, e grave perigo. Ou as coisas mudam radicalmente, ou terá que ser feita uma denúncia junto do juiz de menores, para que actue rapidamente e em força, como resgatador da menina. E, se os pais dela não estiverem pelos ajustes, então a solução passará por tirar-lhe a custódia da filha, pelo menos, durante um período de tempo mais ou menos prolongado. Sob a aparência de bons, os pais estão a ser maus pais, uma vez que têm rejeitado todas as soluções que passem pelo afastamento da filha de casa, poucas horas que seja por dia, e pelo fim dos trabalhos domésticos que ela “voluntariamente” assume, bem como pelo fim do seu papel de dama de companhia da mãe.

Foi a própria Maria Laura quem me falou desta inesperada visita ao gabinete da dra. Cristina, quando eu ontem lhe apareci depois do almoço, para irmos de visita a doentes nas suas casas, conforme o programado no plano de actividades da pequenina Comunidade de base. Disse-me que não tinha conseguido dormir toda a noite, pois estava sempre a ver Tatiana à sua frente (para cúmulo, a menina tem o mesmo nome da sua neta de 3 anitos) tal como a havia encontrado na véspera. Ao vê-la, a dra. Cristina deixou outros compromissos do dia para a poder atender, assim sem marcação prévia. Resultado, também ela ficou em estado de alerta e garantiu que, a partir de agora, o acompanhamento irá ser muito mais rigoroso e de olhos postos na menina, ainda mais do que na mãe.

Ao ouvir isto, já não saí de visita a doentes com a Maria Laura. Em vez disso, propus-me voltar de imediato a Vilar, ao encontro da Tatiana e da sua mãe Emília. E assim se fez. Porém, esta não seria uma visita como as anteriores. Seria um ultimato. Dado com autoridade. A autoridade da Justiça e da Verdade. À mistura com muito amor e muita ternura, como só a Verdade e a Justiça sabem fazer.

Ninguém lá em casa contava comigo, nem com a Maria Laura. E ninguém respondeu ao toque da campainha. Uma vizinha que estava a cuidar da roupa dos seus familiares na varanda da casa do 1.º andar, informou que a senhora Emília havia saído com a filha, mas que deveria estar por perto, em casa dum irmão adoentado, não muito longe dali. Meti-me na carrinha e desci o caminho, em direcção a essa casa. E à chegada, já a senhora Emília vinha a caminho com a filhinha Tatiana ao seu lado, carregada de sacos pesados de mais para tão tenra idade. Havia sido a Tatiana que viu passar a carrinha em direcção à casa delas e alertou a mãe, que logo deixou a casa do irmão e se pôs a caminho, para nos poder receber em sua casa. Ambas entraram na carrinha. E depois na própria casa, intrigadas com a inesperada visita.

Todo eu era outro, totalmente outro. Até um cego teria dado pela diferença, em relação às visitas anteriores e mais ainda em relação à visita da véspera. Sentámo-nos na cozinha para conversar, comigo bem determinado a comandar a operação. A tristeza não estava mais em mim. Tomei de imediato a palavra e fui directo ao assunto. Não ia mais como das anteriores vezes. Agora, estava ali para comunicar uma decisão e exigir uma mudança de comportamento. Estava ali para resgatar/libertar Tatiana do amor mal orientado dos próprios pais. Emília deu-se conta da diferença. E comportou-se de modo diferente das outras vezes, longe das habituais lamúrias.

Tatiana, prudentemente, afastou-se da cozinha. Deixou-nos a conversar os três. Foi refugiar-se na sala de jantar, a ver televisão. Mas com os ouvidos na conversa da cozinha. Encarei Emília olhos nos olhos. Determinado. Com a autoridade da Verdade. E da Justiça. Irrefutável, portanto. Disse-lhe que, naquela casa, quem estava em risco, já não era ela, Emília, apesar do “calvário” de sofrimento por que tem passado. Quem lá está agora em grave risco de perder o futuro e até a própria vida é Tatiana, a sua filhinha.

Arregalou-me os olhos de espanto. Mas não me contrariou. Acatou a revelação. Acolheu-a. E, por isso, a operação que ali estava a acontecer sairia coroada de êxito. Quem aceita a verdade, a verdade liberta-o. É do Evangelho de Jesus, na versão de João.

Sublinhei: A menina faz tudo o que faz, porque percebeu que isso é o que os pais esperam dela. Mas os pais não podem continuar a esperar tais coisas da Tatiana. As expectativas dos pais em relação à filhinha têm que ser radicalmente outras: que a menina cresça em idade, em estatura – neste momento, ela já parece raquítica, tão explorada tem sido! – em sabedoria e em graça. Tal como se diz de Jesus, o de Nazaré, quando tinha uns 12 anos. Mesmo que Tatiana insista em fazer todo o serviço de casa, do mais leve ao mais pesado, os pais não podem continuar a aceitar. Tatiana tem que ser menina, tem que ser criança e fazer o que é próprio de criança. Quando ela perceber que os pais esperam dela essas coisas e não mais aquelas que ela tem feito – e vai perceber porque eu vou conversar com ela a sós e fazê-la perceber – ela será a primeira a mudar de comportamento. Num primeiro momento, a mudança não será tão categórica assim. A menina ainda duvidará que seja verdade, tão grande mudança nos pais, sobretudo, na mãe. Irá testar os pais. Quando, porém, constatar que é mesmo a sério, então nunca mais voltará ao comportamento anterior. Os pais de Tatiana têm por isso que mudar radicalmente, na sua relação com a filhinha. Disse-lhe mais: Ou mudam, livre e voluntariamente, ou serão obrigados a mudar à força por quem de direito, que para tanto existem os juízes do Tribunal de menores. Disse-lho assim, sem hesitar, olhos nos olhos. Emília ouviu sem pestanejar. Esclareci também que, a partir de agora, Tatiana tem sobre ela as atenções da dra. Cristina que, por sua vez, tem sobre ela as atenções da equipa de técnicos do SOS-Criança que foi alertada e veio ver/investigar in loco a menina e o seu quotidiano familiar.

Mas para que a mudança dos pais de Tatiana não fique apenas nas boas intenções, há-de materializar-se em decisões muito concretas. A partir de agora – frisei com a autoridade da Justiça – Tatiana tem que sair de casa, todos os dias, de 2.ª a 6.ª feiras, de manhãzinha para a escola e só regressará a ela, ao final da tarde, quando terminar o ATL. Nem sequer vem a casa almoçar. Segue directamente da Escola para o ATL, onde almoça com outras meninas, outros meninos. No ATL, fará os deveres da escola e desenvolverá múltiplas outras actividades próprias da sua idade que “puxarão” por ela e que só lhe farão bem. Irá “esquecer” a mãe e a casa, para melhor poder estar depois com a mãe e a casa, sem voltar a cair nos exageros de adulta antes do tempo em que caiu e que, a continuar por mais tempo, seriam a sua ruína.

Mas não me fiquei por aqui. Disse mais à mãe da Tatiana: Enquanto a sua filhinha estiver na escola (da parte da manhã) e no ATL (da parte da tarde) cá em casa a Emília terá que aceitar que uma mulher a dias, subsidiada em parte pelo Serviço Social e em parte por vocês, venha algumas tardes por semana cuidar da limpeza da casa e das roupas da família. A menina sabe disso e fica descansada, na escola e no ATL. Não têm hipótese de dizer que não. Faz parte das mudanças radicais a introduzir aqui em casa e na família, para salvarmos a Tatiana e o seu futuro.

Aqui, Emília ainda tremeu. Mas por pouco tempo. Quando esbarrou com a minha firmeza e perante a ameaça de ficar temporariamente sem a custódia da filha, logo disse que ia conversar com o marido e convencê-lo de que as coisas têm que ser assim, a partir de agora. Disse-o num tom de alegria. E de mulher muito mais liberta!

Deixei-a na cozinha com Maria Laura, agradavelmente surpreendida e feliz com esta minha postura e com o rumo que a conversa havia tomado, e fui para a sala de jantar ao encontro de Tatiana. Sentei-me no sofá, ao lado dela. Ela está tão pequenina e tão magra, que não resisti e tomei-a nos meus braços e sentei-a no meu colo, como um pai. Os olhitos dela brilham ao encontro dos meus. E emitem luminosos sinais de mudança. A libertação dela já está a acontecer. Repeti para ela algumas das coisas que tinha dito à mãe e que ela, ali da sala, tinha escutado. Fi-lo na linguagem que ela melhor poderia entender. Mas com igual determinação. E com a mesma autoridade da Verdade e da Justiça. Tatiana ouviu e pareceu-me compreender ainda mais rápido que a própria mãe. É uma menina super-inteligente e virá a ser, no futuro, muito provavelmente, uma técnica do serviço social muito mais competente e eficaz que muitas das técnicas de hoje, robotizadas e sem entranhas humanas para acolherem as pessoas em aflição. Aquelas minhas palavras foram de libertação e de salvação para ela. Foram a libertação e a salvação de que ela tanto carece. Quando vi que ela tinha entendido tudo e tinha aderido a esta revolução na sua vida quotidiana, beijei-a e regressei à cozinha, onde encontrei Emília e Maria Laura estupefactas com o que me ouviram dizer à menina. Mas ambas manifestamente libertas e felizes. Disse-lhes: Já podemos ir embora. Tatiana entendeu e nunca mais voltará a ser o que era. Este é, por isso, o primeiro dia do resto da vida dela. E também dos pais dela e do irmão. Esta casa deixa de ser de opressão para passar a ser casa de liberdade, onde cada pessoa que nela vive terá oportunidade de ser e de se realizar, vida fora.

O encontro terminou. Nossos olhos diziam-no abertamente. Por isso, foi com muita alegria que nos abraçámos e beijámos. Saí da casa, a caminho da carrinha, como quem dança e canta por dentro. Em festa. Em Eucaristia. Haverá alguma missa de domingo que dê tanta glória a Deus como esta Eucaristia sem pão nem vinho, sem templo e sem altar que eu havia acabado de protagonizar ali com Maria Laura, com Emília e a pequenina Tatiana? Mas é assim que eu me realizo como presbítero. E que a Igreja da libertação acontece por estas terras.

Bendito seja Deus que sempre me ama primeiro e, por isso, me põe a protagonizar acções políticas de consciencialização e de libertação das pessoas. É assim a missão de Evangelizar os pobres que eu, antes de a ver a acontecer, tão pouco sabia que iria realizar-se assim. Mas que, ao acontecer assim, me deixa profundamente realizado. E feliz.


2004 SETEMBRO 22

O que se tem passado nestes últimos dias em Portugal com a colocação de professoras, professores é intolerável. Mas ninguém com responsabilidades políticas neste país parece ver as coisas com esta gravidade. E, se calhar, ninguém será penalizado por este crime de lesa-educação, de lesa-estudantes e de lesa-professoras/professores. Nem sequer a própria ministra da educação. Aliás, o primeiro-ministro, a fazer turismo político, estes dias, por Nova Iorque, já enviou, via comunicação social, o recado para o país. Antes que lhe exijam a cabeça da ministra, já ele se apressou a dizer que mantém toda a confiança política na senhora. Compreendo que ela só está nesta pasta há uns dois meses. Mas o presente Governo é a continuação do anterior. Os dois juntos fazem o Governo de legislatura da maioria CDS-PP/PPD-PSD. Como tal, a actual ministra não herdou a pasta da educação a partir do zero. É todo o ministério da educação deste Governo de legislatura que está em causa. E a ministra é, neste momento, o rosto mais visível deste ministério. Ao colar-se politicamente a ela, o primeiro-ministro quis dar mostras de solidariedade institucional. Mas então deverá levar às últimas consequências essa colagem política e resignar de funções com todo o seu governo. Se todo o governo está com o ministério da educação e este falhou tão estrondosamente, então é todo o governo que falhou estrondosamente.

Qualquer observador minimamente atento conclui que o actual Governo está inquinado, ferido de morte, não apenas por este escândalo, mas desde o dia em que tomou posse. É um governo ilegítimo. E com o rolar dos dias e das semanas, tornou-se um perigo público. Está a arrastar o país para a ruína. Está a cavar a sepultura do país. É um governo politicamente criminoso, por acção e omissão. Manter-se por mais tempo em funções será o descalabro. Nem sequer como governo de gestão serve. Tem que ser destituído pura e simplesmente. E substituído por um outro, de gestão, que prepare eleições gerais no país.

Aliás, o PR que o viabilizou já não sabe mais o que fazer. Vê-se que anda de cabeça perdida e desesperado. Já se deu conta que se meteu com um bando de politicamente mafiosos, irresponsáveis, incompetentes, infantes, pavões que fazem da política uma montra de vaidades e de proveitos pessoais, e só não os manda para a rua porque tem vergonha e não quer dar o braço a torcer. Mas faz mal, muito mal. Quem o mandou meter-se com garotos políticos? No seu desespero e na sua desorientação, até já se permite comentar na praça pública o desnorte das medidas que o Governo no seu todo toma e destoma, anuncia e desanuncia. Mas a verdade é que esta sua postura institucional só contribui para um desnorte ainda maior. Por isso, ou o país acorda da modorra em que se instalou e põe toda esta gente na rua, a começar pelo PR, ou, de regressão em regressão, acabamos, como país, caídos na ruína e no abismo.

Entretanto, a medida de emergência que a ministra da educação acaba de tomar, para, finalmente, levar a bom porto a elaboração da lista de colocação de professoras, professores, que já deveria estar elaborada e publicada há semanas, não pode ser mais tragicamente eloquente. Decidiu a ministra, perante a incapacidade de resposta do programa informático em que o ministério tem estado a laborar, recorrer ao trabalho manual, durante todos estes dias que restam até final do mês. A medida pode até ser encarada como a mais oportuna, na presente fase em que se encontra o processo, mas não deixa de ser também a mais trágica em termos de imagem de marca deste Governo. Vem dizer, sem mais, que com este Governo CDS-PP/PPD-PSD, o país regrediu cerca de trinta anos. Já éramos o mais atrasado da Europa, o mais subdesenvolvido, o mais inculto, o mais analfabeto. Agora, somos também o mais ridículo. O que hão-de dizer de nós os restantes países, ao verem que para elaborarmos umas simples listas de colocação de professores, tivemos que recorrer ao velho processo de trabalho à mão, já que não fomos capazes, em tempo útil, de arranjar um programa informático eficaz para o fazer? E que, quando o programa adoptado bloqueou, não tivemos o rasgo suficiente para o corrigir, alterar ou substituir em tempo útil? E que tudo o que nos restou foi voltar aos métodos artesanais do antigamente? Pobre país, entregue a incompetentes deste calibre!

Felizmente, o Governo e os ministros que o compõem é que são incompetentes. Não o país. Parece que estes ministros, na sua esmagadora maioria homens, foram escolhidos a dedo, entre os mais incompetentes dos incompetentes. E que actuam como quem sente prazer em desacreditar-nos a todas, todos, perante nós próprios e perante o mundo. Mas não é tanto assim. Pelo contrário. Direi que a constituição deste governo é porventura a mais lograda tentativa de desacreditar a política e os políticos. Para que as portuguesas, os portugueses nunca mais queiram nada com a política nem com os políticos e confiem a condução dos seus destinos locais, regionais e nacionais a burocratas, a técnicos, a robots, a executivos. Não foi esta, aliás, uma ideia lançada há anos pelo executivo-chefe frio e sem entranhas de humanidade, dr. Cavaco Silva? E não continua a ser ele o preferido do PPD-PSD para o cargo de PR? Já pensaram o que seria o nosso país com uma maioria, um governo e um PR tudo CDS-PP/PPD-PSD?

Tenho para mim que está tudo a ser meticulosamente feito para levar as pessoas para bem longe da política, de modo a sermos um país de adormecidos, de apáticos, de alienados, de coisas, de objectos, de menores. Os cérebros do dr. Paulo Portas e do dr. Santana Lopes nunca foram capazes de mais, politicamente. Hábeis, sim senhor, mas para nos infantilizarem, nos diminuírem, nos subdesenvolverem, nos coisificarem, nos reduzirem a simples objectos, a simples consumidores de futebol, de novelas, de cultos de nossa senhora de Fátima e de outras iniciativas pimba do género, que paulatinamente nos despersonalizam, até que acabemos reduzidos a coisas, a objectos, simplesmente.

Maquiavel não faria melhor. A dupla política Paulo Portas/Santana Lopes, na continuação da dupla política Paulo Portas/Durão Barroso mais do que discípula de Maquiavel, é mestra de Maquiavel. O mais impressionante é que, embora sejam muitas as vozes que hoje se erguem contra eles, eles mantêm-se de pedra e cal. São autistas q.b. e até já fazem planos para o futuro. À beira deles, Salazar começa a ser um mero aprendiz. Porque estes, ao contrário daquele, sabem utilizar a televisão como poucos. Já viram a cara de pau e de ódio do dr. Paulo Portas, quando apanha uma câmara de televisão por perto, como ele cinicamente nos olha nos olhos? Mandam as regras que ele fale para o interlocutor que tem diante de si. Mas ele manda o interlocutor que tem diante de si às malvas e fala directamente para quem está do outro lado da câmara de televisão a ouvi-lo nas suas casas. É a nós que o dr. Paulo Portas quer atingir, alcançar, assassinar politicamente. Ainda não se deram conta que ele é politicamente assassino? E que nos quer matar politicamente com aquele seu olhar de déspota, de cínico, de homem sem entranhas de humanidade, mil vezes pior que o executivo-chefe Cavaco Silva?

Já o dr. Santana Lopes tem outro estilo. Quando tem uma câmara de televisão por perto – e tem-na sempre que queira, ou ele não fosse o primeiro-ministro do governo em exercício – apresenta-se com aquele ar de vip despreocupado, descontraído, como quem não quer a coisa, de malandreco, de macho entre muitas fêmeas disponíveis, de galo no poleiro. Parece que não é nada com ele e que está ali, porque o foram buscar para aquela função que ele até nem queria. Mas de facto não quer outra coisa. E assim nos leva de cantiga. Um aparente desapego, que mais não é do que apego doentio.

E são estes dois funcionários-mor do Estado que nos envenenam a vida e a alma. O pior é que se não abrimos os olhos, ainda acabamos a ter pena deles e mantemo-los em funções até que a morte os separe. O que não deverá estar para breve, uma vez que este tipo de animais políticos costuma ter vida longa – lembram-se de Salazar? – a não ser que um acidente político provocado contra eles tenha êxito. O que, com o ditador Salazar, como se sabe, tão pouco resultou. Acidente político provocado houve. Mas êxito é que não. Falhou. E não é que até a hierarquia da Igreja católica da altura veio logo a correr dizer que havia sido um milagre?!... Mas será que Deus é um ditador que protege os demais ditadores?

É na área da educação que o intolerável está a acontecer no nosso país. Mas não só. O que neste momento se está a passar também na área da saúde não é menos intolerável. Estas são, aliás, as duas áreas fundamentais de qualquer ser humano. Sem educação, não há desenvolvimento que se veja. Ficamos um país de analfabetos e de incultos, de subdesenvolvidos, atrasados, entregues à bicharada de um governo de ladrões e salteadores que não entram pela porta (das eleições livres), mas por outro lado indevido (nem que seja o de eleições, realizadas após um período de campanha demoniacamente manipulada, como só os profissionais da Mentira sabem fazer). E que, em lugar de cuidarem das populações, matam-nas, depois de as terem roubado de tudo, até da identidade. Igualmente sem saúde, sem cuidados médicos atempados e eficientes, ou com cuidados médicos de primeira, para quem pode pagar e cuidados de segunda, de terceira e de quarta, para quem pode menos ou não pode nada, o que resta às populações do país? O desespero e o recurso à mentira católica da senhora de Fátima que só está em alta quando as populações do país e do mundo estão em baixo, na condição de escravas, caídas em desgraça, a definhar na fome e no medo.

Num país assim como o nosso país actual, não bastam protestos de rua. Não bastam protestos nos jornais e nas televisões. São precisas insurreições cívicas consequentes que só desmobilizem quando toda esta cambada de politicamente incompetentes que sabem muito bem o que estão a fazer estiver plenamente controlada e reduzida à inactividade. Se os deixarmos à rédea solta, mesmo que fora das instâncias do governo, eles voltam a perturbar o nosso quotidiano e só estão satisfeitos, quando regressarem ao governo, como se fossem os salvadores do país.

Acordemos. E actuemos já. Ai de nós, se adiarmos tudo para daqui a quase dois anos. Nessa altura, ainda haverá país? E, se houver, ainda haverá capacidade de mobilização popular para apear do governo quem tanto nos maltrata? A soberania do povo não tem legitimidade para antecipar as eleições? Tem que ser escrava das próprias leis que aprovou? Não é a senhora das leis? Vamos então a isto, irmãs, irmãos, companheiras, companheiros. Porque cada dia que passa é mais um dia que se vira contra nós.


2004 SETEMBRO 03

1. Enquanto durou o período de férias que agora está a chegar ao fim, o Inimigo fartou-se de fazer das dele no nosso país. Como há já dois mil anos que nos anda a advertir aquela sábia parábola do Evangelho de Jesus, em que se fala de um homem que semeou boa semente no seu campo, mas a verdade é que depois o campo veio a produzir joio à mistura com o trigo. Como foi isso possível? Pelos vistos, sem que ninguém desse por isso, o inimigo do dono do campo tinha andado bem activo a semear joio por entre o trigo que os amigos do dono do campo haviam semeado durante o dia de trabalho. E fê-lo, precisamente, durante a noite, enquanto os amigos do dono do campo merecidamente dormiam e descansavam do trabalho realizado. Também agora, o país foi a banhos, mesmo depois de ter visto e ouvido em directo o PR dr. Jorge Sampaio dar não só uma mãozinha aos partidos de direita no poder, mas as mãos ambas e o corpo todo, cabeça incluída. Perante tão inequívoco golpe de Estado institucional, o país deveria ter partido para uma insurreição cívica nacional que paralisasse o regular funcionamento das instituições e metesse na ordem o PR e os seus novos afilhados políticos. Em vez disso, optou por seguir os imperativos do calendário e foi a banhos, como quem procura esquecer todas as mágoas.

Mas o Inimigo do país não foi a banhos. De modo que os incêndios puderam voltar a atacar em força. Tal como no ano transacto, também este ano foi um tal fartar vilanagem, sem que os governantes mexessem sequer um dedo para lhes pôr cobro. Desta vez, já nem houve os habituais discursos de carpideira. Foi como se não existisse governo. Os actuais ministros já terão percebido que o escândalo dos incêndios de verão é tão grande e que a sua incompetência governativa nesta matéria é tão escandalosa, que quanto mais lágrimas de crocodilo verterem, nestas alturas, diante das populações, mais se lhes vê a hipocrisia e a mentira. São mesmo uns nabos, estes governantes que os partidos de direita ultimamente nos têm imposto. Se não são capazes de acabar com os incêndios (parece que só deixará de haver incêndios de verão, quando já não houver mais nada para arder!); se muito menos são capazes de acabar com a pobreza que hoje já afecta milhões de pessoas no nosso país; e tão pouco são capazes de pôr fim ao desemprego em massa, então para que são governantes?

Mas além de nabos, são cruéis. Estão-se mesmo nas tintas para os dramas quotidianos das pessoas e das populações. Do alto da pirâmide dos seus inúmeros privilégios, defendidos por guarda-costas cada vez em maior número e cada vez mais brutos nos seus métodos, e servidos por uma corte de assessores, sobretudo, vaporosas assessoras oriundas de revistas cor-de-rosa – aquilo é que é gente disposta a arregaçar as mangas e a trabalhar!... – os governantes sabem que, depois, ainda por cima conseguem ter a seus pés as televisões e as rádios e os grandes jornais do país, servidos por um pequeno-grande exército de jornalistas na idade profissional do biberão ou da arrogante e atrevida adolescência, os quais, naturalmente, o que mais querem não é desenvolver a prática martirial de um jornalismo crítico, de denúncia e de anúncio, mas simplesmente poderem aparecer, darem nas vistas e, se possível, evitarem cair no desemprego.

Vai daí, ninguém salta ao caminho destes governantes, façam eles o que façam, ou não façam nada, o que muitas vezes ainda é o menos mau. E a verdade é que eles continuam aí a ser tratados por senhor primeiro ministro, senhor ministro da defesa e dos assuntos do mar, senhor ministro da economia, senhor ministro da administração interna, senhor ministro da educação, etc. Mesmo que digam e cometam verdadeiras aberrações nas suas áreas de governação, continuam a ser reconhecidos e nada lhes acontece. Não são despedidos, não apanham processos, não perdem os vencimentos nem nenhuma das muitas mordomias, nem são desmentidos na praça pública. Até os maiores especialistas nas matérias que eles oficialmente tutelam, fazem de conta que não ouvem nem conhecem todas as suas bacoradas e deixam correr o marfim. Como se ser nomeado ministro do governo do país desse automaticamente ciência e competência, valores morais individuais, credibilidade pessoal, capacidade, responsabilidade.

Dir-me-ão que tem que ser assim, em nome do respeito institucional. Mas então não vemos que respeito institucional, assim, confrangedoramente esvaziado de conteúdo, não passa de hipocrisia e de mentira, de criminoso faz-de-conta? E a prova é que com posturas governativas e políticas destas o país continua a ir a pique para o abismo, enquanto nós, como outrora os ocupantes do Titanic, persistimos em fantasiar que vamos a caminho de um mítico paraíso terreal, ou de míticos amanhãs que cantam.

Pobre povo português que tem sido sistematicamente conduzido por guias cegos, mentirosos profissionais, demagogos sem escrúpulos, funcionários sem entranhas de misericórdia, cruéis e sádicos, frustrados até à quinta casa, os quais, por isso, uma vez no poder – só quem é politicamente estéril, só quem não tem a audácia de viver para fazer viver a muitas e muitos é que se deixa cair na tentação do poder e se agarra a ele como cães esfomeados ao osso, mesmo que o osso já não tenha ponta de carne para trincar – logo desistem de serem humanos, de modo que passam a comportar-se como inimigos das populações, em estreita aliança com o Inimigo que lhes promete este mundo e o outro, se eles, prostrados, o adorarem, o reconhecerem e lhe fizerem todas as vontades.

(Que têm a dizer a este tipo de governantes os nossos psicanalistas políticos? Porque se calam, quando deveriam fazer chegar com assiduidade aos espaços jornalísticos as suas análises, doa a quem doer? Porque não frequentam mais regularmente as televisões com as suas fundamentadas denúncias? Porque não gritam nas praças públicas? Ou será que preferem continuar a ver os seus consultórios a abarrotar de clientes/doentes com razoável poder de compra para lhes pagarem as respectivas consultas, e deixar abandonada à sua sorte a sociedade no seu todo, mesmo que esta, como hoje sucede, seja constituída por mulheres deprimidas, homens oprimidos/agressivos, completamente incapazes de parar para pensarem sobre o sentido ou não-sentido das suas vidas, propositadamente aturdidos pelo barulho, pelo álcool, pela droga, pelo tabaco, pelo futebol, pela senhora de Fátima, pelos cultos sem cultura e sem profecia dos pastores de igrejas com sotaque brasileiro, adoradores todos eles a tempo inteiro do deus Dinheiro e incansáveis servidores do seu inumano reino/império?)

 

2. Infelizmente, é muito assim que se encontra hoje o nosso país. Com o Inimigo à solta, pior, instalado no próprio Governo e nas cúpulas das grandes empresas, sempre pronto a imolar as populações ao seu deus, o deus Dinheiro ou deus Império, o único que os actuais governantes conhecem e ao qual oferecem as populações como vítimas para o sacrifício, numa religião cruel e perversa que continua a contar com o aval, ou, pelo menos, com o silêncio cúmplice da hierarquia da Igreja católica no seu todo, aliás, uma postura que já nem surpreende, uma vez que foi assim que ela também procedeu durante os cruéis anos do regime de Salazar, inequivocamente abençoado por ela e pela senhora de Fátima, mai-la sua alienada “vidente”, sadicamente sequestrada, desde os 14 anos de idade, num convento de rigorosa clausura – uma instituição anti-humana e anti-cristã, farisaicamente disfarçada de santidade – e do qual só sairá quando morrer, para então ser finalmente beatificada e canonizada! (Haja modos, senhores eclesiásticos católicos! Vede até onde é capaz de vos levar a tentativa de perpetuarem a mentira que alguns de vós ajudaram a engendrar em 1917! É assim que glorificais o santo nome de Deus?)

É verdade. As coisas no nosso país estão tão mal, que ainda agora, no primeiro dia deste mês de Setembro, até o PR dr. Jorge Sampaio achou por bem aproveitar a presença de um microfone de televisão por perto para enviar um recado ao Governo que ele próprio teve que empossar (todo o país pôde vê-lo em directo no acto de posse com aquela cara de pau e de poucos ou nenhuns amigos, como quem pedia: Por favor tirem-me daqui antes que me dê alguma coisa e eu desmaie de vergonha...) e que, desde então para cá mais não faz do que arrogantemente ignorá-lo, ainda que outra coisa digam as palavras docemente envenenadas do respectivo primeiro ministro e as suas posturas protocolares.

Envergonhado, certamente, com a figura de parvo e de birrento que o Governo no seu todo, com destaque para o sempre assanhado ministro da defesa e dos assuntos do mar e para o “suave” e “cândido” primeiro ministro, tem estado a fazer perante o país, a Europa e o resto do mundo, no caso do chamado “Barco do aborto”, o PR sentiu-se na obrigação de vir lembrar, todos estes dias depois do regabofe político e televisivo a que tem dado aso, que ele ainda é o comandante supremo das Forças Armadas, apesar de, em todo este episódio que até já envolve fragatas de guerra da marinha, nunca ter sido tido nem achado para nada. Mas será que o PR ainda é efectivamente o comandante supremo das Forças Armadas? Então este não é agora o ministro da defesa e dos assuntos do mar, dr. Paulo Portas? Aliás, não é o dr. Paulo Portas também o primeiro ministro do actual Governo, como já o tinha sido manifestamente no governo anterior do dr. Durão Barroso? Não fossem as coisas assim, acham que até o dr. Pedro Santana Lopes sairia, como saiu, logo a colar-se ao dr. Paulo Portas, numa solidariedade corporativa que tem tudo a ver com os governos do ditador Salazar, quando ser primeiro ministro ou presidente do Conselho como então se dizia, resultava não de eleições livres e democráticas, mas, como no caso deste Governo em funções, da simples indicação/nomeação do PR, na altura, um marechal Carmona qualquer ou um almirante Américo Tomaz qualquer, mas ao qual jamais poderia faltar o comprovado jeito para se comportar perante o tirânico ditador como um mero boneco político articulado, estilo, Ou-fazes-o-que-te-mando-ou-nem-sabes-de-que-terra-és!

 

3. É verdade. Também eu fui de férias como muita outra gente que ainda tem um posto de trabalho devidamente remunerado. E já cá estou de volta. Mas, se bem se lembram, não fui sem antes clamar, aqui, por uma insurreição cívica nacional contra o Inimigo que nos mantém reféns na nossa própria casa e na nossa própria terra, através de governantes que deveriam ser para nós como os nossos pastores, dispostos a dar a própria vida para nos defenderem do Inimigo, quando, na verdade, não passam de mercenários que nos entregam de mão beijada ao Inimigo, o qual, depois de nos comer a carne e os ossos, ainda nos devora a alma.

Eu sei que o meu clamor não caiu em saco roto, mas é também manifesto que não encontrou uma população suficientemente liberta e amadurecida e politicamente mobilizada, capaz de protagonizar um tal feito, com sabor a Páscoa e a um novo 25 de Abril que, desta vez, fosse lucidamente à raiz das coisas, e não se ficasse por  meras mudanças conjunturais, exigidas pelo próprio Inimigo, para assim melhor poder perpetuar o seu domínio.

De novo no meu posto como um mais do povo de Macieira da Lixa, aqui lhes digo mais uma vez que podem continuar a contar comigo. Não precisamos de violência no nosso agir, a não ser a violência da lucidez e do amor, da audácia e da entrega militantes das nossas vidas. O inimigo é poderoso e perspicaz. E ocupa praticamente todo o terreno, inclusive a mente das populações. Havemos, por isso, de enfrentá-lo com armas diferentes das dele. Aquelas armas que ele não tem nem sequer pode conhecer.

Vamos desalojá-lo, antes de mais, da nossa própria mente. Vamos começar por ousarmos ser nós próprias, nós próprios. Por nos fazermo-nos cada vez mais próximos umas das outras, uns dos outros. Vamos tocar outras, outros, como acontece com as bolas num jogo de bilhar.

O tempo urge. O que há a fazer é imenso. Mas o decisivo, aqui e agora, é começar. Ousar dar o primeiro passo. Ousemos dá-lo. Já. Venham daí. Como sabem, sou todo da Paz, mas sempre em revolução. Para que a Vida vença a Morte, a Política vença o Poder, o Amigo desaloje o Inimigo e, se não conseguir acabar com ele – só no final da História – pelo menos, que consiga tê-lo aprisionado e sob controlo.

Reajam. Digam presente. Comuniquem. Contra o poder das trevas, sejamos filhas, filhos da Luz. Contra o obscurantismo, demos toda a oportunidade à Lucidez. Contra o medo, ousemos ser mulheres, homens livres e criadoras, criadores de liberdade.

 

4. Infelizmente, acaba de acontecer o previsível: O massacre na escola do país de Putin. O terrorismo, quando acontece, é um crime hediondo. Mas mais hediondo é o terrorismo de Estado que não tem a humildade/humanidade de se interrogar porque é que há acções como esta dos independentistas da Tchechénia. Quando é que o nosso mundo dá um sinal de que já saiu da selva, ao impedir que tiranos e terroristas de Estado como Putin e Bush continuem como chefes de Estado, reconhecidos pelos outros chefes de Estado? Não nos diz a História recente que os guerrilheiros que lutam pela independência dos seus países andam carregados de futuro? Não são homens/mulheres para matar, como nos quer convencer a demência política de Putin. São homens/mulheres que humildemente havemos de escutar, bem como às mais profundas razões que os movem. A Causa pela qual arriscam a vida e põem em risco a vida de tantos inocentes é uma causa da Humanidade. Matá-los, é matar a Humanidade. Escutá-los e deixar-se interpelar pela sua Causa é garantir futuro à Humanidade. É por aqui que eu vou.

 

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