De Macieira da Lixa para todo o mundo. Mensagens-provocação que convocam ao debate sem fronteiras
Debater, debater, debater. Eis o que faz falta no nosso tempo. Há overdoses de informação, mas evita-se o debate alargado a todas as pessoas e a todos os povos. Quando muito, promove-se um certo tipo de debate entre um pequeno grupo de pessoas, sempre as mesmas. Para consumo da imensa maioria que fica eternamente condenada a ouvir e a assistir. Ora, uma sociedade que evita o debate é uma sociedade infantilizada, acrítica, amorfa. É mais rebanho, do que sociedade. Se as minorias dirigentes estivessem verdadeiramente ao serviço das pessoas e dos povos, seriam minorias maiêuticas. Quer isto dizer que apostariam tudo no debate aberto e permanente, por parte de todas as pessoas e de todos os povos. Para que, no debate e pelo debate, as pessoas e os povos se tornassem progressivamente pessoas e povos conscientes, críticos, criadores, protagonistas. Infelizmente, as minorias dirigentes, ou tomam posturas de benfeitor em relação às pessoas e aos povos, ou tomam posturas autoritárias. Ora, tanto as posturas de benfeitor como as posturas autoritárias infantilizam as pessoas e os povos. Temos, por isso, que remar contra esta corrente infantilizadora das pessoas e dos povos. E atrevermo-nos a promover o debate e a praticar o debate. Com inteligência. E emoção. Também com afecto. Aqui, privilegiaremos o debate bíblico-teológico e eclesial. Mas como cidadãs, cidadãos do século XXI. As mensagens que aqui sucessivamente aparecerem são da minha responsabilidade. E pretendem isso mesmo: convocar-nos a todas, todos ao debate. Entrem nele. Por e-mail. Por telefone. Pessoalmente. Debater é viver. Deixem-se provocar e debatam, debatam sempre.
Mensagem-provocação n.º 1, Abril 2004
Pela Paz contra a paz
Imaginem num mesmo local um número de pessoas pobres de todas as idades e de ambos os sexos correspondente a 130 vezes a população de Portugal continental, exactamente, mil e 300 milhões de pessoas. Nunca império algum do mundo juntou tamanho exército. Mas é este exército de pobres, melhor, empobrecidos, condenados a terem que fazer face à vida com menos de um euro por dia, que todos os dias ameaça a segurança dos países da Europa e do Ocidente em geral, a começar nos Estados Unidos da América e a acabar no pequeno Estado do Vaticano, em Roma. Esta é, hoje, a realidade mais real do nosso mundo, que ninguém pode escamotear. É também a realidade mais obscena. Para cúmulo, com tendência a agravar-se, cada ano que passa. Basta conferir incontornáveis dados do PNUD: Se, em 1960, havia no mundo um rico para trinta pobres, trinta anos depois, em 1990, já havia um rico para sessenta pobres. E apenas sete anos depois, em 1997, a proporção era já de um rico para setenta e sete pobres!
Terá de ser a partir deste dado objectivo – verdadeiro pecado do mundo, verdadeira blasfémia contra Deus, horrendo crime contra a Humanidade, crucifixão silenciosa duma significativa parcela da Humanidade – que havemos de falar de terrorismo e das medidas a tomar contra ele. O que não for assim é ainda mais terrorismo, e do pior, o terrorismo ideológico, feito de mentira, que até consegue converter as reais vítimas do terrorismo em virtuais autores do terrorismo e os verdadeiros autores do terrorismo em suas virtuais vítimas.
O que tem valido aos países do Ocidente e às minorias ricas que os governam e manipulam ideologicamente com as suas economias idolátricas e sacrificialistas e com as suas políticas sem misericórdia, é que os povos empobrecidos do mundo nunca tiveram consciência, como um todo, de que a sua inumana pobreza é o resultado directo da riqueza acumulada e cada vez mais concentrada nas mãos dessas mesmas minorias. Sempre foram levados a pensar, até pelas Igrejas e pelas Religiões que nunca lhes largam o pé, que a sua pobreza é coisa natural, ou fruto da sua inabilidade, da sua incompetência, do seu atraso cultural, ou, pior ainda, uma espécie de maldição e castigo de Deus pelos seus pecados e pelos pecados dos seus antepassados.
Por outro lado, os povos empobrecidos sempre estiveram massivamente confinados aos continentes da fome e nunca conseguiram organizar-se a valer. Por isso, nunca tiveram consciência de que são tantos. Tão pouco tiveram consciência da força revolucionária que a sua fome de comida, de justiça e de dignidade representa. Sempre foram potenciais revolucionários, mas adormecidos, domesticados, resignados. Sempre foram empobrecidos não evangelizados, por isso, mergulhados em religiões que os mobilizam para ritos e práticas inumanas, de costas voltadas às práticas políticas, as únicas que teriam feito deles os grandes protagonistas da Mudança radical da vida e do mundo.
Porém, o mundo deste início de séc. XXI não é mais, felizmente, o mundo do passado. Tudo mudou, ou está em vias de irreversível mudança. Primeiro, foi o 11 de Setembro de 2001 que no-lo revelou de forma violenta e, verdadeiramente, apocalíptica. Agora, é o 11 de Março de 2004 que no-lo confirma, de forma igualmente violenta – um verdadeiro massacre! – mas, pelos vistos, a única linguagem que as minorias ricas dos países da Europa e do Ocidente entendem e que as deixa em estado de choque e de alerta geral.
Inopinadamente, começamos a perceber que este nosso mundo feito de mentira não pode durar muito mais tempo, tal como está. Ou passamos (= Páscoa!) das actuais economias idolátricas e sacrificialistas para verdadeiras economias de partilha segundo as necessidades de cada pessoa e de cada povo, e adoptamos efectivas políticas de cuidado pela natureza e pelas pessoas e pelos povos mais débeis, ou perdemos o futuro.
As minorias ricas dos países do Ocidente e as respectivas maiorias que as suportam, ou até aplaudem e votam nelas para que nos governem, bem podem estrebuchar, em momentos dramáticos como o 11 de Setembro e o 11 de Março, e desdobrar-se em cimeiras e em declarações televisionadas a garantir que tudo está sob controlo; bem podem armar-se cada vez mais até aos dentes, aumentar os efectivos policiais, munir-se de sofisticados aparelhos, instalar câmaras de vídeo por todos os cantos e esquinas. Mas quando menos contarem, tudo isso lhes explode nas mãos e atirará pelos ares tanta arrogância e mentira.
Para tanto, basta que alguns dos seus homens de mão, nos quais são obrigados a confiar, sejam ao mesmo tempo elementos infiltrados, amigos dos empobrecidos, pessoas solidárias com as causas dos empobrecidos, militantes que aceitam trabalhar com as minorias ricas dos países do Ocidente, mas para melhor lhes conhecerem os hábitos e, com isso, ajudarem a derrubá-las mais depressa. Ou que duas mãos cheias de suicidas islâmicos – a quem os seus líderes mentirosamente prometem o paraíso, tal como outrora a Igreja católica de Roma prometeu o perdão de todos os pecados aos cruzados que lutassem pela libertação dos "Lugares Santos" – ocupem aviões em viagem de rotina e os lancem contra ricas e arrogantes torres ocidentais. Ou que alguns militantes islâmicos reúnam uma apreciável quantidade de explosivos, os transportem dentro de vulgares mochilas que depois são propositadamente abandonadas por eles em comboios a abarrotar de pessoas à hora de ponta e programadas, para explodirem em rede pouco depois.
Nunca como hoje foi tão fácil e tão barato aos empobrecidos do mundo perturbarem a segurança e a obscena ostentação em que vivem as minorias ricas nos países do Ocidente. Estas podem não ser directamente atingidas pelas acções políticas violentas dos empobrecidos, mas já é manifesto que começam a descobrir que não há mais país ou zona do mundo onde a sua segurança pessoal e dos seus bens esteja garantida.
"Havia um homem rico, a quem as terras deram uma grande colheita. E pôs-se a discorrer, dizendo consigo: «Que hei-de fazer, uma vez que não tenho onde guardar a minha colheita?» Depois continuou: «Já sei o que vou fazer: deito abaixo os meus celeiros, construo uns maiores e guardarei lá o meu trigo e todos os meus bens. Depois, direi a mim mesmo: Tens muitos bens em depósito para muitos anos; descansa, come, bebe e regala-te.» Deus, porém, disse-lhe: «Estúpido! Nesta mesma noite, vai ser reclamada a tua vida; e o que acumulaste para quem será?»" (cf. Lucas 12, 16-20).
A parábola é atribuída a Jesus, o de Nazaré, que, como sabemos pela história, acabou crucificado às ordens do Império romano e do Templo de Jerusalém, como um perigoso terrorista, depois de o terem prendido e julgado sumariamente, num julgamento faz de conta, já que a sentença estava determinada, antes de o acusado começar a ser ouvido. Nessa noite, deitaram-se descansados. E, no dia seguinte, assistiram no Templo, em aparente segurança, às cerimónias sempre comoventes e solenes da festa da Páscoa judaica.
Não sabiam que, ao matarem o terrorista Jesus, que reclamava pão para todos os povos, justiça para todos os povos, dignidade para todos os povos, vida e vida em abundância para todos os povos, estavam, afinal, a matar o Justo. Para eles, não passava de um reles terrorista. Atentara contra a riqueza acumulada e concentrada deles, contra a segurança deles, contra a vida de luxo deles. E, para cúmulo, ainda se atrevera a dizer que Deus não era com eles que estava, mas com as inúmeras vítimas que as economias e as políticas deles já então inevitavelmente produziam em massa.
Encontramo-nos hoje a dois mil anos sobre estes factos. Dois mil anos praticamente perdidos para as causas da vida e vida em abundância para todos os povos. Sobretudo, por culpa das Igrejas. Nada, porém, voltará a ser como até aqui. O terceiro milénio será – já está a ser – o milénio da Luz e da Mudança. Se, desde Constantino, no séc. IV, as Igrejas desistiram da profecia e optaram por viver em blasfema aliança com o Império de turno e com as minorias ricas dos países onde estão implantadas, o Espírito Santo mostra agora que até das pedras pode fazer filhas, filhos de Abraão, até dos ateus pode fazer militantes revolucionários que põem em perigo e derrubam os poderosos dos seus tronos e mandam de mãos a abanar as minorias ricas que empobrecem a Humanidade (cf. Lucas 1, 51-53). "Nesta mesma noite – diz Jesus – ou mesmo em pleno dia – diz a nossa Actualidade política mundial – vai ser reclamada a tua – a vossa – vida; e o que acumulaste(s) para quem será?"
Acordemos. Porque se, nestes nossos países da Europa e do Ocidente, continuarmos a ser cúmplices das minorias ricas que estupidamente insistem nas suas economias idolátricas e sacrificialistas e nas suas políticas sem misericórdia, em lugar de sermos fecundamente solidários com os milhares de milhões de vítimas que essas mesmas economias e políticas produzem em todo o mundo, depois não nos queixemos. Está nas nossas mãos a decisão política. Decidamos em consciência. Pela paz, que nasce da Justiça e da Riqueza partilhada segundo as necessidades de cada pessoa e de cada povo. Contra a paz terrorista do império.
(Nota: Esta mensagem é o Editorial, do Jornal Fraternizar, edição n.º 153, de Abril/Junho 2004)