DIÁRIO ABERTO
2007 OUTUBRO 31
Informa hoje a Agência Ecclesia, da Igreja católica em Portugal, que 80 padres da Diocese de Viana do Castelo (é muito padre junto em diocese tão pequena e quando a espécie clerical se encontra notoriamente em vias de extinção) estiveram ontem reunidos "a reflectir sobre a família e o sacramento do matrimónio, numa abordagem teológica e jurídico-pastoral". A temática, assim formulada, é tipicamente eclesiástica e por isso não atraiu ao local os profissionais da grande informação, para lá dos que voam rasteiro e, subservientes e reverentes, se dedicam aos media da Igreja, todos eles, geralmente, comida sem sal e sem Sopro, o de Jesus que, está visto, se por eles passasse e pelos locais onde eles se concebem e materializam, levaria tudo pelos ares, tão beata é a linguagem utilizada e tão beatos são os conteúdos, moralistas e conservadores também, que habitualmente enchem as cabeças de quem os escreve e/ou diz via rádio e tv, naqueles programas que a RTP2 faz o favor de emitir diariamente, num espaço exclusivo das Igrejas, onde a maior fatia do tempo vai fatalmente para a Igreja católica, ou ela não fosse uma espécie de Império religioso a dominar grande número de consciências, inclusive de ateus ou agnósticos, sobretudo, se estes integram os Executivos do Grande Dinheiro e do Grande Poder. Autocorrijo-me. Quanto a sal, ainda se poderá dizer que os media eclesiásticos têm, mas tão-só daquele que já perdeu a força e nem para a esterqueira serve. E a prova provada disto mesmo que acabo de escrever aqui é a referida notícia da Agência Ecclesia, coisa mais murcha, mais insonsa, mais sem graça, inócua, só mesmo para registar o facto (o óbito?!), que não para nos alimentar e mobilizar para causas que verdadeiramente interessem às pessoas de carne e osso, a começar, no caso deste evento, pelas pessoas que estão constituídas em família. Mas que querem? Dos clérigos - homens a viver à parte dos demais, proibidos de constituir família, de viver afectos, a residir em casas grandes, às vezes com muitos quartos, mas sozinhos, quando muito com uma empregada doméstica ou mulher a dias, numa solidão de meter dó, reduzidos ao papel de funcionários eclesiásticos, párocos carregados de rotinas e de tiques sagrados, fobias em relação às mulheres, rodeados de criancinhas de catequese que, entretanto, nem eles próprios são capazes de dar, e de adolescentes vestidos de túnicas brancas que os tornam efeminados e eunucos, objecto de riso e de escárnio por parte dos seus companheiros que saudavelmente nunca alinharam naquilo, rezadores de Breviários e de Missais, onde constam montanhas de palavras que não são deles e que têm o condão de tornar as suas mentes mais pequenas e obscurecidas, sem assunto para tertúlias, impotentes para debates sobre temas nos quais se joga o presente e o futuro das populações e dos povos, especialistas do sagrado que, nem eles sabem, mas é assim como uma espécie de reserva ou de feudo, não de Deus, o de Jesus, saudavelmente secular e político, mas de Deus, o Demoníaco, cuja glória maior é ter seres humanos castrados, incultos, analfabetos, iletrados, religiosos, domesticados, submissos, subservientes, não-ilustrados, não-evangelizados, assíduos aos cultos sem cultura e sem profecia nos templos e nos santuários, numa alienação sem medida que faz chorar as próprias pedras - que outra coisa há a esperar? Triste sina a deles. O Sistema eclesiástico fê-los assim, à sua imagem e semelhança, para melhor poder dispor deles a tempo inteiro, sempre a troco de nojentas mordomias, de privilégios que são vergonha e ridículo, de honrarias cheias de nada, de poder autocrático que desumaniza e desfraterniza quem o exerce como pequeno monarca absoluto, mas de papel. Sei do que falo, e falo com lágrimas. Também me quiseram fazer assim, que eu cumprisse tão desgraçado papel. Mas, felizmente, desde cedo percebi que ser presbítero ordenado da Igreja do Porto não era de modo nenhum igual, muito pelo contrário, a ser clérigo, pronto para todo o serviço ao Obscurantismo e ao Moralismo eclesiásticos, ambos perversamente empenhados em que as pessoas humanas nunca o cheguem a ser, apenas coisas, minhocas, humilhação ambulante e rastejante. Reagi energicamente a essa orientação, com uma lucidez cada vez mais intensa e com aquela firmeza que a humildade e a pobreza por opção sempre dão a quem faz delas suas companheiras de todas as horas. O Sistema eclesiástico reagiu e defendeu-se e passou a aplicar-me todos aqueles truques e todas aquelas ameaças em que é perito, para ver se me lavava o cérebro. Em vão. Continuei e continuo a reagir e a resistir. E a deixar-me conduzir pela Alegria e pela Liberdade que o Espírito Santo, o de Jesus, sempre realiza em quem não aceita perder a face nem vender a alma. Retiraram-me, então, sem qualquer processo canónico, sumário que fosse, o estatuto de clérigo e de funcionário eclesiástico. Pensaram que com isso me castigavam e, afinal, libertaram-me. O ministério de presbítero da igreja do Porto, não se atreveram a retirar-mo. Pelo menos, por enquanto. Ora, para ser presbítero da Igreja do Porto é que ela, em comunhão com a Igreja universal, um dia e em boa hora me ordenou. Não para ser clérigo. Desde então, não traí, não me vendi, não me reduzi a clérigo. Permaneci o que todos os que, como eu, um dia foram ordenados presbíteros na Igreja deveriam também permanecer. Ainda cheguei a pensar que esta minha fidelidade ao ministério presbiteral de Evangelizar os pobres estava a exigir-me um elevado preço, até que algum tempo depois percebi que não, pois tudo o que eles me retiraram não passa de esterco, lixo eclesiástico, infantilismo, horrores, fétidos odores a cera queimada, bafio, pesadelos e fobias de todo o tipo. Em contrapartida, tenho crescido de dia para dia em liberdade, em alegria, em dignidade e em graça. Deixei as sacristias, os templos e os altares, onde o próprio Jesus nunca esteve a presidir a nada, só a ensinar/subverter e a utilizar o chicote contra os vendilhões que lá enrique(cia)m, e tornei-me presbítero da Igreja do Porto no mundo, nas casas das pessoas e em todos os outros locais onde entrem pessoas, crentes e não crentes. É no mundo que permanentemente vivo, mas sem ser dele. Vivo nele como um pequenino sinal de contradição jesuânico que ilumina/liberta/alegra muitas consciências e desencadeia ódio, muito ódio, em muitas outras, nomeadamente aquelas que ainda estão possessas do Eclesiástico e do Demoníaco que é o Religioso, juntamente com o Dinheiro acumulado/concentrado e o Poder/Império. Sou por isso um presbítero sempre à intempérie, realizado, feliz, irmão univsersal. Nos antípodas daqueles 80 padres, na sua esmagadora maioria, párocos da diocese de Viana do Castelo que ontem estiveram "a reflectir sobre a família e o sacramento do matrimónio, numa abordagem teológica e jurídico-pastoral". Sem que daí resultasse nada de graça e de verdade para eles e para as populações e para os povos. De resto, o que têm teologicamente a dizer sobre o matrimónio aqueles que estão canonicamente proibidos de o realizar nas suas vidas, e que, para cúmulo, ainda se atrevem a presidir, como condição sine qua non para todos eles serem válidos, aos matrimónios canónicos das outras pessoas, quando essa determinação canónico-eclesiástica é um abuso e uma prepotência/intromissão clerical, teologicamente injustificável e indefensável, imposta a partir do século XVI, pelo Concílio de Trento, em muitos aspectos, de má memória? Não sabiam? Pois ficam agora a saber. E, por favor, não se esqueçam de passarem a notícia a toda a gente. Porque, como já sabem, é a verdade e só a verdade que nos faz livres!
2007 OUTUBRO 30
Agora, parece que a preocupação maior dos senhores deputados do Parlamento português e dos demais profissionais da política (diria melhor se escrevesse dos senhores gulosos de Poder e também de Dinheiro, ou, pelo menos, de mordomias quantas mais melhor) tem a ver com as escutas telefónicas. Depois do recente cochicho do Procurador Geral da República a um semanário de Lisboa (então não é que o homem acha que está a ser ilegalmente escutado, não sabe por quem, mas só pode ser por alguém que o queira tramar, ou ter acesso a preciosas informações da sua competência que ele, ingenuamente, faça via telemóvel!!!), os senhores deputados concluíram de imediato que todos os portugueses (e porque não também todas as portuguesas?!) estamos sob escuta. E, pelos vistos, até perderam o sono devido a este magno problema nacional. O obsceno problema dos dois milhões de portugueses, portuguesas em situação de pobreza, também recentemente denunciado, ainda não lhes tirou nem tira o sono, muito menos o apetite do Poder e das mordomias. Só o magno problema das escutas telefónicas! E vai daí decidiram obrigar o Procurador que cochichou ao jornal que ouvia uns barulhinhos esquisitos no seu telemóvel a deslocar-se ao Parlamento e a esclarecer-se perante eles, os senhores deputados da Nação! Hoje é o dia que a Agenda parlamentar fez para isso. E ainda há quem se queixe de que os nossos deputados não fazem nenhum, nem zelam pelo bem-estar das cidadãs, dos cidadãos. Só mesmo gente ingrata e invejosa como nós, os portugueses, que votamos neles e depois passamos o tempo a dizer mal deles até tornarmos a votar neles!... O episódio das escutas pode ter aspectos de alguma gravidade política, mas, posto nos termos em que os senhores deputados o puseram, é sobretudo caricato. Quem não deve não teme. E quem é que, no nosso país, teme ser escutado? Os desempregados? Os doentes sem consulta e sem cirurgia? Os pobres? Os reformados com reformas de miséria? Eu não temo. Bem pelo contrário. Tomara eu ser mais escutado, mais lido, mais procurado, mais acolhido, mais convidado para tertúlias onde nos escutássemos uns aos outros, elas e eles. Tomara eu que mais pessoas se me dirigissem, viessem ao meu encontro partilhar comigo. Tomara eu que conspirássemos mais e cada vez em maior número, que resistíssemos mais e activamente a tanta Banalidade e a tanta Imbecilidade com que nos querem intoxicar a toda a hora, que subvertêssemos esta Ordem Económica Mundial do Dinheiro que mais parece uma gigantesca fábrica de produzir pobreza e pobres em massa, que disséssemos sem papas na língua que os Executivos que nos (des)governam não passam de uns papagaios a vomitar mentiras a toda a hora, a enganar as populações, uns pavões enfeitados que à semelhança daquele rico da parábola do Evangelho de Lucas, se banqueteiam e passeiam à tripa forra, numa azáfama sem fim para que tudo fique na mesma, ou vá de mal a pior, à excepção da situação deles e dos seus familiares e das suas muitas secretárias, cada qual a mais jovem e menos competente. Ó meus irmãos, ó minhas irmãs! Estamos todas, todos sob escuta?! Aproveitemos então para nos rebelarmos, para dizermos tudo o que nos vai na cabeça e no peito, no corpo desempregado e doente, na casa sem mesa com os alimentos necessários e onde os maus tratos diários substituíram os afectos, só porque numa casa onde não há Pão, Saúde, Trabalho com direitos, Dignidade compartilhada, todos ralham e todos têm razão. Estamos sob escuta?! Aproveitemos então para nos queixarmos alto e bom som do Sócrates que nos saiu na rifa socialista para cuidar, não de nós como deveria ser, sempre a partir dos mais fragilizados, mas simplesmente dos grandes interesses instalados das transnacionais. Aproveitemos para denunciar os ministros que temos e que falam do país como se ele fosse o país da Alice, a das mil maravilhas. Sobretudo, denunciemos as suas políticas sem humanidade, habilmente embrulhadas em palavras e em sorrisos de sucesso, quando país real está aí cada vez mais a pique. Confesso-vos: Tomara eu que me escutem, ao telefone que seja, porque não tenho nada a esconder, tenho tudo a denunciar e a anunciar. Escutem-me! E escutemo-nos uns aos outros, não apenas pelo telefone, mas em directo, cara a cara, olhos nos olhos, em encontros que sejam outras tantas experiências de partilha de afectos e de palavras, de projectos e de sonhos, de acções concertadas que levem a transformar o país, a Europa e o mundo. Ninguém fique mudo de medo. Falemos. Comuniquemos. Subvertamos o país. Conspiremos com afectos e Política, muita Política, mas Poder nenhum. Derrubemos todos os muros que nos isolam, todos os diques que não nos deixam avançar até à Dignidade, todos os dias descaradamente roubada e pisada. Basta de tanta humilhação. Basta de tanta mentira. Basta de tanta demagogia. Basta de tanta mordaça. Não protestemos por estarmos sob escuta. Exijamos que nos escutem cada vez mais. A começar por quem de direito. Antes de mais, os Executivos que mais parecem robots em lugar de homens, mulheres, irmãs, irmãos, companheiras, companheiros. Derrubemos toda a burocracia que é a grande arma a que recorrem os cobardes e os instalados nos seus privilégios. Exijamos que nos oiçam, que nos atendam, que mudem as políticas, para que o pérfido Dinheiro que nos devora a alma volte a ser Riqueza, mas Riqueza Partilhada por todos segundo as necessidades reais de cada qual. Volte a ser Pão, Saúde, Cultura, Escola com valores humanistas, Afecto, Comunhão, Poema. Digamos sem papas na língua aos senhores deputados e aos governantes que podem ir todos pentear macacos, se não são capazes de tirar da pobreza, já!, os dois milhões de concidadãos, concidadãs nossos; se não acabam com as listas de espera nos hospitais; se continuam a consentir que o pérfido Dinheiro ande por aí à rédea solta a fazer das dele, a empobrecer cada vez mais as populações e os povos. Basta de tanta obscenidade política e económico-financeira e até eclesiástica-religiosa por essas paróquias católicas fora e por essas Igrejas dizimistas com tudo de demoníaco. Se eles, os nossos deputados e governantes, não são capazes de ser o que devem, sentinelas dos povos que permanentemente os alertam e mobilizam contra o Inimigo que vem até nós disfarçado de Executivos bem falantes e de colarinho branco, então que se demitam e vão fazer algo de útil, para poderem merecer o pão que comem, porque inválidos ainda não são. O que não podem é continuar aí impunemente ao serviço do Inimigo dos povos, em lugar de ao serviço dos Povos. Já que estamos todos sob escuta, aproveitemos o momento e façamo-nos ouvir. É hora, irmãs, irmãos!
2007 OUTUBRO 29
Não pensem que ontem me
alegrei com a beatificação daqueles 498 mártires espanhóis - 462 monges e
freiras, 24 padres, dois bispos, um diácono, um subdiácono, um seminarista e
sete leigos. Não me alegrei. Chorei no meu mais íntimo. O acto juntou milhares
de pessoas em Roma. Mas melhor seria que todas elas tivessem ido lá chorar e
dizer-gritar a sua tristeza, em lugar de terem ido festejar e aclamar. É verdade
que o Papa Bento XVI teve o bom senso de não presidir ao rito de beatificação,
coisa hoje mais sem jeito e completamente desfasada destes tempos que são os
nossos. Mas ainda assim consentiu nele e até delegou no cardeal português que,
no Vaticano, preside àquela "fábrica" de fazer santos que é hoje a Congregação
para a Causa dos ditos e ele, na sua ingenuidade teológica e manifesta ausência
de consciência crítica, continua, pelos vistos, a dar provas de que não consegue
fazer parar a fábrica. Em vez disso, prefere comportar-se como um qualquer outro
empresário, por exemplo, o dono duma fábrica de produção de frigoríficos ou de
automóveis. Digo isto com visível ironia, mas também com dor e mágoa. Porque
actos destes, totalmente à revelia do Evangelho, só contribuem para
descredibilizar ainda mais a Igreja que os faz, embora o nosso cardeal Saraiva
Martins pense que a credibiliza e prestigia. O acto de ontem teve tudo para nos
deixar cobertos de vergonha, antes de mais a nós, católicos, mas também aos
seres humanos em geral. Com ele, a nossa Igreja acaba de beatificar e canonizar
perante o mundo práticas humano-católicas que andam arredadas do Evangelho de
Jesus e das suas práticas politicamente subversivas e conspirativas. Seria como
se a Igreja, hoje, 20 séculos depois, aparecesse a beatificar e a canonizar as
práticas do sumo sacerdote Anás e Caifás e dos príncipes dos sacerdotes que
pontificavam no Templo de Jerusalém, assim como os senhores do Dinheiro que
constituíam o Sinédrio judaico e os doutores da Lei, os quais, todos à uma,
condenaram Jesus à morte e o executaram na cruz, por intermédio de Pilatos, o
prefeito do Império romano em Jerusalém. Com isto, quero dizer que há práticas
humano-católicas, de monges e de bispos que sejam, tão nos antípodas das
práticas politicamente subversivas e conspirativas de Jesus que, embora não
cheguem ao cúmulo de matar os seus opositores como fizeram os chefes da religião
oficial de Jerusalém com Jesus, a verdade é que podem ajudar a criar as
condições sociais e políticas propícias para que outros o façam. Quando os
católicos, nomeadamente, os que estão em lugares de mais destaque, em vez de se
fazerem pobres por opção e permanecerem pobres a vida inteira, optam por
acumular riqueza sobre riqueza, e ainda defendem regimes e ideologias que lhes
garantem os privilégios adquiridos e protegem os seus patrimónios acumulados e
concentrados, e, para cúmulo, também aproveitam os seus púlpitos e os seus
altares para atacarem abertamente correntes de Esquerda e práticas politicamente
subversivas e conspirativas que atentam contra os regimes que defendem os
privilégios eclesiásticos e as suas riquezas acumuladas e concentradas, é
manifesto que se distanciam escandalosamente do Evangelho de Jesus e das suas
práticas politicamente subversivas e conspirativas, o que pode acabar por levar
aqueles que lutam pela justiça e pelas causas da Humanidade, a partir das
maiorias empobrecidas e oprimidas, a confundi-los com os regimes e as ideologias
que eles, nas suas lutas políticas, estão empenhados em derrubar. A perseguição
de que por isso venham indirectamente a ser vítimas, não lhes retirará à
partida a classificação de mártires? Na verdade, podem estar a ser vítimas
simplesmente em consequência das suas práticas em tudo coincidentes com as dos
demais privilegiados e com os regimes instituídos que insistem em oprimir e
empobrecer as maiorias da Humanidade. Ora, pode ser declarado mártir quem foi
historicamente cúmplice de regimes e de políticas que sistematicamente oprimem e
empobrecem a maioria da Humanidade, quando, em nome da Fé que dizem professar
deveriam ter e suscitar práticas politicamente subversivas e conspirativas
contra tais regimes e tais políticas? Não foi assim com Jesus no seu tempo e
país? Não foi assim com o bispo Óscar Romero, de El Salvador? Com os actuais
critérios que estiveram por trás da beatificação destes católicos espanhóis,
alguma vez Jesus, com as suas práticas politicamente subversivas e conspirativas
que manteve contra o Templo e o Império, teria sido beatificado e canonizado
pela Congregação presidida pelo nosso cardeal Saraiva? E O Bispo Óscar Romero?!
Uma Igreja que, nos seus membros mais responsáveis, alinha sistematicamente com
regimes que oprimem e empobrecem os povos e favorecem/protegem os privilégios
das minorias, eclesiásticas incluídas, pode sair por aí a dizer ao mundo que tem
mártires ao jeito de Jesus? Não está, pelo contrário, totalmente com os que se
comportam como carrascos, opressores e exploradores dos povos? É duro escrever
isto, mas mais duro é haver Igreja que, nas suas hierarquias, caminham por esta
via tão nos antípodas da de Jesus. Por isso, em lugar de cantarmos hossanas,
choremos antes os nossos pecados eclesiásticos. E mudemos de vida. Os
verdadeiros mártires, o primeiro e o maior dos quais é Jesus, assim no-lo
exigem. Escutemos as suas vidas. E sejamos dignos da sua Memória sempre
politicamente subversiva, conspirativa e perigosa. E o mundo terá então motivos
para ter esperança e meter-se nos combates em prol da libertação dos povos e da
Paz. Quem tem dúvidas? Infelizmente, não é isto que se pode dizer com a
beatificação ontem realizada. Por isso o acto me deixou triste e em lágrimas.
Será que ainda vamos ser capazes de emendar a mão e mudar de vida? Se sim, a
minha tristeza converter-se-á em alegria.
2007 OUTUBRO 27
Já disse e não hesito em repeti-lo aqui mais uma vez, para que fique bem claro na consciência de todas as pessoas: Vivemos no tempo dos assassinos de Estado. São inclusive eles, mai-las suas políticas e economias nacionais e globais cientificamente planificadas e executadas, que estão na origem do que depois ainda têm o descaramento de chamar de terrorismo e de terroristas. Para que as populações e os povos nunca cheguem a dar-se conta de que os Executivos que conduzem os destinos do planeta são hoje verdadeiros assassinos de Estado. Como poderiam os actuais Executivos assassinos de Estado subsistir, sem essa constante referência ao terrorismo e aos terroristas? Sem tais bodes expiatórios, é óbvio que as populações e os povos veriam depressa que os Executivos que estão à frente dos destinos do planeta não passam de assassinos de Estado. Não me venham dizer que isto que aqui escrevo é um disparate. E que eu só posso estar louco, ao escrever semelhante afirmação. Nem me venham dizer que é o meu olhar sobre o mundo que é esquizofrénico. Acusem-me disso e de muito mais, se quiserem. Tudo suportarei, se for necessário. Mas uma coisa lhes peço: Não deixem de escutar esta revelação, este apocalipse que lhes faço. Vivemos no tempo dos assassinos de Estado. Não andam por aí aos tiros, bem o sei. Que eles não são como alguns dos que já lhes resistem pela violência armada e que eles não hesitam em chamar de terroristas. Os assassinos de Estado são muito mais hábeis e cautelosos. E muito mais eficazes nos seus actos homicidas/genocidas/ecocidas. A inteligência humana pode ser inteligência-demência ou inteligência-sapiência. A dos Executivos que estão à frente dos destinos dos povos, a começar pelos da União Europeia e a culminar nos Estados Unidos da América de Bush, é manifestamente inteligência-demência. Sabe-se que assim é pelos frutos de morte e de destruição que provocam todas as suas políticas e todas as suas economias. Antes fossem analfabetos, os Executivos. Ignorantes. Iletrados. Mas não. São inteligentes, só que de inteligência-demência. O mundo seria outro, totalmente outro, muito mais decente, humano, sororal/fraterno, se os Executivos que estão à frente dos seus destinos fossem inteligências-sapiência. Há séculos que, por exemplo, a pobreza no planeta, teria sido totalmente erradicada. Ou nunca teria sequer começado a existir. O mesmo se diga da guerra, feita de guerras e mais guerras, muito por todo o planeta: nunca teria(m) acontecido. Nem sequer existiria o conceito "guerra". Porque ninguém teria podido inventá-lo, se nunca tivesse havido guerra sobre a terra. Não! Não pensem que foi Deus quem nos criou assim, inteligência-demência. Ou que foi o Diabo. Isso são outras tantas tretas das catequeses das religiões e dos eclesiásticos. E é mais uma das muitas mentiras que a inteligência-demência inventa para justificar os seus nefandos crimes. A inteligência-sapiência nunca dirá semelhantes disparates. Mas então de onde é que vem a inteligência-demência? Quem ou o Quê a criou? Deus, a Sapiência e a fonte de toda a Sapiência, não foi de certeza. O Diabo tão pouco. Porque o Diabo não existe, senão como uma manifestação mais da inteligência-demência. Para respondermos à pergunta, perguntemos quem ou o quê criou os Executivos que sempre têm estado à frente dos destinos do planeta. Ou acham que eles apareceram por geração espontânea? Ou que são uma fatalidade inevitável? O intolerável, nomeadamente, o intolerável institucionalizado como são hoje os Executivos assassinos que estão à frente dos destinos do planeta, nunca foi nem historicamente inevitável, nem espontâneo. Só pode ter sido criado, não por alguém dotado de inteligência-sapiência, mas por Algo, intrinsecamente absurdo e perverso. Algo invulgarmente dotado de inteligência-demência. Chamaram-lhe Deus, uns. Outros, Diabo. Ambas as respostas estão erradas. São respostas míticas, religiosas, por isso, mentirosas que só seres dotados de inteligência-demência são capazes de dar. Para mais e melhor se poderem perpetuar, no tempo e no espaço, e aos seus muitos privilégios. Vou revelar-vos a verdade que nos fará livres, autónomos, emancipados, humanos, sororais/fraternos, sábios, inteligências-sapiência. Aquilo que criou os assassinos de Estado que são hoje os Executivos que estão à frente dos destinos do planeta foi nada mais nada menos do que a intrinsecamente perversa Trindade do Dinheiro, do Poder/Império e do Templo. As três inteligências-demência são uma só. Em linguagem dos Profetas bíblicos, direi que as três juntas são a Puta que pariu os Executivos assassinos de Estado que hoje estão frente dos destinos do planeta. Este é por isso o tempo dos assassinos de Estado, porque nunca como hoje os Executivos foram tão inteligências-demência, tão poderosos, tão sem escrúpulos, tão cerebralmente frios e calculistas, tão cruéis, tão tecnológicos, tão robotizados, numa palavra, tão Executivos assassinos. Não são seres humanos. São Executivos. Organizados e eficientes como nunca. São Executivos em rede, à escala global. Estão todos em toda a parte. Nada escapa ao seu controlo. Servidos por montes de assessores, cientistas, polícias, militares, jornalistas, escritores, professores, especialistas de todo o tipo, numa palavra, inteligências-demência, as mais apuradas. O que há no planeta de mais inteligência-demência está hoje incondicionalmente ao serviço destes Executivos assassinos de Estado. Para que o sejam de forma científica e eficaz. As populações e os povos veneram-nos, ou são levados a isso, como Executivos que são. Adoram-nos. Correm a aplaudi-los, quando por momentos eles pisam as mesmas ruas, protegidos, escoltados por milhares e milhares de seguranças, as mais sofisticadas e as mais eficientes. Não são seres humanos. Parecem. São simplesmente Executivos assassinos de Estado, que é o novo nome da Besta com que outrora as inteligências-sapiência, sempre minoritárias no planeta como o fermento na massa e o sal na comida, que escreveram o Apocalipse com que encerra a Bíblia dos cristãos jesuânicos, chamavam aos Executivos assassinos do seu tempo, nomeadamente ao do Império de turno. Deles, diz também Jesus, o dos Evangelhos Sinópticos: Não temais os que matam o corpo e não podem matar a alma, a identidade de cada qual. Temei antes Aquilo que, depois de matar o corpo, ou mesmo sem chegar a precisar de matar o corpo das populações e dos povos, sempre lhes destrói a identidade, ao reduzi-las reduzi-los a coisas, a lesmas, a consumidores compulsivos, a autómatos, a estatística. Este é o tempo dos Executivos da perversa Trindade do Dinheiro, do Poder e do Templo. É o tempo dos assassinos de Estado. Não o digo como má notícia, para fazer cair no desânimo as populações e os povos. Digo-o como Alerta de sentinela. Digo-o como Evangelho de Deus, o da Vida. Digo-o como Boa Notícia. Quem me acredita e toma a sério? Só os que primeiro se converterem. Isto é, passarem do reinado da Mentira ao reinado da Verdade. Passarem do reinado dos Executivos assassinos de Estado e de toda a sua propaganda que embrutece, cega, anestesia, paralisa e, finalmente, mata, ao reinado das suas inúmeras Vítimas, ao reinado dos Povos oprimidos e empobrecidos que gemem sob o jugo dos Executivos assassinos de Estado e vêem o seu imenso Clamor ser sistematicamente reprimido e silenciado, como se nem existisse. Se (ainda) formos capazes de uma tal proeza, então seremos inteligências-sapiência e haveremos de colocar as nossas mãos, os nossos pés, os nossos braços, os nossos saberes, as nossas capacidades, os nossos teres e haveres, numa palavra, tudo o que somos e temos ao serviço dos Povos e das suas causas, que são as da vida e vida em abundância para todos os povos, as da justiça, as da repartição-partilha equitativa da riqueza, as da defesa da saúde do próprio planeta, as da paz. Seremos indubitavelmente perseguidos pelos Executivos assassinos de Estado e seus incondicionais e fanáticos servidores. Mas logo haveremos de ver/constatar que por cada Flor estrangulada há milhões de sementes a florir. Aliás, não foi assim com Jesus, o Crucificado pela perversa Trindade do Dinheiro, do Templo e do Poder/Império, já então Executivos assassinos de Estado?! Este é o tempo dos assassinos, das inteligências-demência. Este tem de ser também e ainda mais o tempo das Flores que resistem activamente aos Executivos assassinos de Estado, o tempo das inteligência-sapiência. Organizemo-nos, pois, como flores. E avancemos como um só Homem, uma só Mulher. Para que haja amanhã milhões de sementes a florir.
2007 OUTUBRO 26
Putin está entre nós. Vem da Rússia. Não me consta que vá a Fátima agradecer à respectiva senhora (entenda-se, aos gestores eclesiásticos católicos do santuário que hoje rende milhões e milhões de euros, junta quilos e quilos de ouro e ainda contribui eficazmente para estupidificar e manter no medo as populações não ilustradas e não evangelizadas que compulsivamente embarcam naquela Mentira maior e naquele Crime de lesa-Fé cristã jesuânica e de lesa-dignidade humana) o "milagre" da famosa conversão da Rússia que é hoje o seu país, depois que, há alguns anos, aconteceu o desmantelamento, por implosão, da URSS, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas e sem o que ele não seria o presidente assassino de Estado que hoje é. Como é sabido - é hoje um facto historicamente indesmentível - a estupidez fatimista católica pôs a circular, a partir de 1935, mediante a publicação do famigerado livro As Memórias da Irmã Lúcia (alguém letrado, clérigo católico sem escrúpulos e hábil em fabricação de mentiras, o escreveu e a pobre da mulher encarcerada por toda a vida no convento cedeu o seu nome e deu a sua obediente e submissa colaboração, como fazem todos os encarcerados por toda a vida nos goulags de todo o tipo, também os eclesiásticos, a quem previamente roubam o cérebro e a consciência crítica) que se o papa de turno não consagrasse a Rússia socialista/comunista de então - ela ainda não existia em 13 de Outubro de 1917, quando se fechou o ciclo da pantomina das chamadas aparições inventadas e iniciadas pelo clero da região, seis meses antes, em 13 de Maio!... - ao imaculado coração de maria (tudo assim em minúsculas, porque a designação não tem nada a ver com Maria, a de Jesus, é uma designação inventada por certas catequeses terroristas católicas que apresentam Deus como o pior dos carrascos e, depois, para atenuarem o impacto destruidor que tais catequeses, levadas a sério, teriam nas pessoas crédulas que as frequentam, logo inventaram esta piedosa - ou perversa? - mentira, para, desse modo, livrarem do medo as suas vítimas, como quem diz: Deus é mau, absolutamente mau, terrível, absolutamente terrível, mas não se deixem afundar completamente no medo, porque, felizmente, há, ao lado de Deus, ou acima dEle, o imaculado coração de maria que, como mãe de Deus que é, consegue ter mão nEle e não o deixa realizar toda a espécie de castigos que Ele, sem a sua intervenção, constantemente descarregaria sobre os seres humanos pecadores que são todos os que vivem sobre a terra, à excepção, é claro, dos clérigos católicos que ensinam tais catequeses), a Rússia espalharia cada vez mais os seus males pelo mundo. Pelos vistos, o presidente russo é um ingrato e não vai a Fátima agradecer o "milagre". Vem com uma agenda sobrecarregada e por muito pouco tempo. Tudo o que tem a fazer está programado ao milímetro, que são assim os Executivos do Dinheiro e dos poderosos. Pelo menos, é essa a imagem que fazem questão de passar para os seus povos, digo, para os seus vassalos, para que estes permaneçam eternamente reconhecidos a quem trabalha sem descanso para o bem-estar deles!!! A Hipocrisia não pode ser maior. E a Mentira. Mas é assim que as populações que trabalham e auferem salários que as mantêm de geração em geração na pobreza e até na miséria á força, são sistematicamente enganadas e muito dificilmente chegarão a mudar de mentalidade e de postura política. Só a Verdade nos faz livres e Verdade é coisa que os grandes media do Dinheiro e dos poderosos não dizem, sob pena de se autodestruírem. Aliás, todos eles foram criados para salvaguardar os interesses dos seus donos, administradores sem escrúpulos, assassinos de colarinho branco e de mãos sempre limpas, tal e qual como a senhora de fátima toda branca, para melhor esconderem o sangue das suas inúmeras vítimas. Também os crimes de Estado do presidente Putin são mais que muitos. À beira dele, o velho rei David bíblico que fez matar todos os seus opositores à coroa, não passa de um aprendiz de Executivo. Não passa de um quase inocente. Putin é um refinado assassino de Estado. Frio. Calculista. De poucas falas. Olhar vítreo. Rosto feroz. Andar de leão na selva que é o mundo do Dinheiro e do Império, sempre abençoado pelo Templo. Mata tudo e todos em seu redor que se movimentem sem ser para o aplaudir e acatar as suas políticas e os seus megalómanos projectos imperialistas. Vejam como até os Executivos dos 27 Estados da União Europeia se comportam perante ele e como lhe rendem vassalagem. São iguais a ele. Porventura, apenas um pouco mais escrupulosos. Por enquanto. Também eles estão aí cada vez melhor organizados para matar, roubar e destruir os respectivos Povos e os demais Povos do mundo, como fazem todos os mercenários que se disfarçam de Executivos de Estado ou de transnacionais. E que fazem/dizem os gestores do santuário de fátima e a respectiva senhora? Falam da necessidade de todos estes Executivos se converterem? Não! Agora nem sequer têm necessidade de falar da conversão da Rússia, muito menos da conversão da Europa. Porquê? Ora, porque o papão do Comunismo implodiu e, com ele o Ateísmo que ele defendia e pretendia espalhar pelo mundo contra a idolatria/religião do Dinheiro. Agora, é o reinado único do deus Dinheiro e do Poder/Império. E com os seus Executivos assassinos e exploradores de Estado o santuário de fátima e a sua senhora toda branca sempre se deram bem e até se sentem honrados quando os vêem frequentar, pontualmente, os seus ritos litúrgicos e os seus palácios papais ou episcopais. Não hesitam em abençoá-los, nesses momentos. Como fez, há poucos anos, o papa fatimista João Paulo II, por ocasião da sua última viagem ao Chile de Pinochet. Lembram-se? No protocolo oficial o Papa fez questão de ser ele próprio a dar a comunhão, perante as câmaras de televisão de todo o mundo, ao velho ditador e assassino de Estado de milhares e milhares de chilenos, a começar pelo próprio presidente Allende, recém-eleito democraticamente pelo seu povo. Porque era um presidente socialista e recusava-se ser um Executivo do Dinheiro e das suas transnacionais, como fazem todos os outros Executivos de Estado. Para nossa vergonha, é no nosso país que todas estas monstruosidades estão a realizar-se. Com o actual Executivo que nos (des)governa, Portugal é um vassalo incondicional dos demais Executivos da Europa e do mundo do Dinheiro e do Império. E o pior é que nós, povo português, perante tudo isto, em lugar de nos rebelarmos, de fazermos parar o país numa nacional greve de fome, fazemos de conta que não é nada connosco e continuamos a encher os estádios de futebol e a consumir vários jornais diários que se dizem desportivos, mas são sobretudo difusores de overdoses de futebol-ópio que nos adormece e anestesia. O presidente Putin, assassino de Estado, vai-se hoje embora, sem sequer ter sido molestado pelas populações residentes nas zonas por onde circulou. Vai-se embora e poderá continuar a cometer impunemente os seus crimes, que os Executivos da Europa unida estão com ele, como se todos, ele e eles, fossem exemplares estadistas. Ele vai-se embora. Mas preparemo-nos porque, dentro em breve, vêm aí mais assassinos de Estado iguais ou piores do que ele. Este é por isso o tempo dos assassinos. De Estado, obviamente. Porque os outros, são prontamente perseguidos pela mesma polícia que protege os assassinos de Estado. E os Tribunais que vão às grandes recepções oficiais dos assassinos de Estado, aos outros metem-nos na cadeia. Por muitos anos. Não estranho nada que num tempo assim, de assassinos de Estado, certos romances de centenas de páginas cheias de coisa nenhuma vendam centenas de milhar de exemplares, sejam bestsellers no nosso país. Tanto crime e tanto sangue seriam insuportáveis sem overdoses de ópio, ou mesmo de morfina. Literária que seja! Será que, como Povo, vamos continuar a deixarmo-nos levar e conduzir por estes Executivos assassinos de Estado para o abismo? Ou vamos sublevar-nos e fazer parar o país e a Europa, para assim nascermos como Povo de Povos?!
2007 OUTUBRO 25
Ontem viajei propositadamente até Lisboa, só para me encontrar com uma pessoa de idade próxima da minha que está a passar por dificuldades relacionadas com o exercício de uma actividade quase-profissional que mantém, apesar de já se encontrar reformada. Não constituem um intransponível muro na sua vida, mas são dificuldades que se fossem partilhadas, escutadas, acolhidas e reflectidas/dialogadas com uma outra pessoa em quem se confia, e tudo num clima de intimidade e de afecto que a simples conversa telefónica não proporciona e uma carta ainda menos, poderiam encontrar mais facilmente e mais certeiramente a indispensável saída e resolução que a deixem mais livre e por isso também mais humana/sororal. Ora, uma pessoa que se torne mais humana/sororal torna também, indubitavelmente mais humano/fraterno o nosso mundo. E foi o que aconteceu. Conheço a pessoa de ter almoçado/conversado apenas uma vez com ela há uns dois meses em Guimarães, já as dificuldades que hoje a apoquentam a apoquentavam, embora em menor intensidade. O facto de eu por vezes aparecer em certos programas de televisão (hoje manifestamente com muito menos frequência, que as minhas palavras como farpas mas com ternura incomodam muita gente, inclusive certos camaradas de profissão que desde o início da sua vida profissional logo desistiram de ser daquele núcleo de jornalistas de antes quebrar que torcer, perante os grandes do Dinheiro, do Poder/Império e do Templo, tem destas coisas. As pessoas vêem-me nesses momentos televisivos, algumas vibram com a ternura das minhas palavras-farpa, experimentam-se mais elas próprias e em paz consigo mesmas e, inopinadamente, acontece uma comunhão que, nalguns casos, culmina em encontros pessoais, no estilo daquele encontro de Nicodemos com Jesus, exemplarmente imortalizado no belíssimo relato teológico elaborado pelo autor do Evangelho de João. De modo algum, são encontros banais ou de fofoca, para entreter pessoas desocupadas e mais ou menos sedentas de conversas esotéricas, do estilo dos tontos namoros que a Alexandra Solnado, por exemplo, diz que mantém com Jesus, e que também as há hoje por aí aos montes, mas que não fazem de modo algum o meu gosto, nem ocupam o meu tempo. São encontros com o Sopro da Vida, o Sopro libertador de Deus Vivo que, antes de mais, sempre me deixam a mim mais confirmado na via jesuânica que procuro viver e anunciar, ao mesmo tempo que quase sempre fazem nascer de novo, do Alto, do Espírito as pessoas que os solicitam e os protagonizam. A pessoa com quem ontem fui almoçar num restaurante ali próximo da Gare do Oriente, e umas três horas depois de ininterrupta conversa, lanchar numa das confeitarias na mesma localidade, mesmo junto ao Tejo e à vista das cestas rolantes que a Expo-98 deixou a circular para quem quiser ter uma panorâmica da região lá de cima, ficou visivelmente tocada com esta minha disponibilidade para sair da casinha onde vivo em Macieira da Lixa e ir exclusivamente ao seu encontro. Num mundo como este nosso mundo do Mercado, em que tudo se compra e vende e em que até as relações entre pessoas se estabelecem e desenvolvem na medida em que dão lucro e não um qualquer lucro, mas muito lucro, teve nela um grande e inesquecível impacto o facto de eu deixar tudo e ir por aí abaixo de comboio, só para a escutar e lhe dar o melhor de mim, em presença e em afecto, em atenção e em ternura, em palavra escutada e dita que fosse luz e sopro libertador, tanto para ela, como para mim. Era precisamente o que ela mais carecia, neste difícil momento da sua vida, marcada por muito desamparo, bastante incompreensão e alguma solidão à mistura, apesar da sua dedicação a uma pessoa doente com quem vive numa relação que vai muito para lá do mero contrato de trabalho que também as liga. Esta minha disponibilidade, inteiramente gratuita, desinteressada, foi sem dúvida a palavra-gesto que mais a tocou. E que a fez nascer de novo e a deixou mulher-luz e militante, decidida a travar os combates que a situação por que está a passar exige, de modo que a sua própria dignidade e a sua realização como pessoa não sofram um irreparável desastre. Nestas ocasiões, sempre recordo e vivo a parábola do Evangelho de Lucas que nos fala daquele pastor que foi capaz de deixar as 99 ovelhas do rebanho que possuía para sair à procura da única ovelha que se perdeu. E disse-lhe o que sempre digo e convictamente vivo: para mim, uma só pessoa vale a Humanidade inteira. É a Humanidade inteira. Por isso, ao aceitar vir ao seu encontro, vim ao encontro da Humanidade, porque toda a Humanidade está em si, pessoa de carne e osso, pessoa concreta e com uma história concreta e irrepetível. Deslocar-me até aqui para me encontrar consigo foi deslocar-me para me encontrar com uma pessoa que tem fome de presença e de atenção, de ternura e de luz para poder ser e manter-se no ser. E isto realiza-me tanto ou mais como deslocar-me para me encontrar/falar com centenas de pessoas ao mesmo tempo num determinado lugar. É que não é a quantidade que me faz mover. Para mim, cada pessoa é um valor absoluto. A quantidade também é importante, mas quase sempre as grandes mudanças acontecem num encontro a pessoa a pessoa, muito mais do que num grande conjunto de pessoas, onde a palavra nunca chega a ser tão directa, tão pessoal, tão olhos nos olhos, tão carregada de Sopro libertador, tão certeira, tão íntima e, por isso, tão fecunda. Mas é a fecundidade que as palavras com Espírito fazem acontecer e desenvolver que move o mundo, não as muitas palavras, simplesmente, por muito inflamadas e revolucionárias que possam ser. É a fecundidade que move o mundo e o transforma. E só há fecundidade lá onde há afectos partilhados, intimidade, confiança, reciprocidade, um tu e um eu, numa palavra, onde há comunhão sororal/fraterna que o Espírito sempre gera. É por isso que eu me sinto um presbítero da Igreja do Porto tão realizado neste meu estatuto eclesial nos antípodas do estatuto dos funcionários eclesiásticos que a maior parte dos meus colegas com responsabilidades paroquiais/diocesanas têm. Para sua amargura e frustração. Obedecem ao Código de Direito canónico, mais do que ao Evangelho. Dão mais importância à letra do que ao Espírito, o de Jesus. São mais funcionários eclesiásticos do que presbíteros/bispos. Trabalham para amontoar dinheiro, quando deveriam ser voluntariamente pobres com as pessoas e entre elas, a única maneira de serem felizes e de verem as pessoas à sua volta a despertarem e a serem elas próprias, longe das rotinas e dos ritos que eles fazem como quem faz automóveis em série numa fábrica do ramo. É também por isso que eu só posso lamentar os políticos profissionais que correm este mundo e o outro, numa aflitiva esterilidade, para ver se mudam o mundo. Mas como podem fazer mais humano e sororal/fraterno o nosso mundo, se eles próprios se tornam cada vez menos pessoas, cada vez menos próximos, cada vez menos humanos, cada vez menos fraternos, cada vez menos disponíveis para estar/acolher/ouvir/amar as pessoas de carne e osso? Pode um desumanizado humanizar o mundo? Não se torna fermento de desumanização, tanto mais perigoso quanto mais está aparece/intervém/fala em toda a parte, numa roda-viva sem dignidade e sem afectos? Meditem nisto que aqui hoje lhes digo. E façam como eu: regressem sempre a Jesus, não ao das hierarquias eclesiásticas e ao dos pastores das novas Igrejas. Mas a Jesus, o de Nazaré, de quem dá conspirativo testemunho o meu livro O outro Evangelho segundo Jesus Cristo, edição Campo das Letras. É com ele que ficou a pessoa com quem ontem passei grande parte do dia. E que melhor companhia para ela ser cada vez mais ela própria?!
2007 OUTUBRO 23
Finou-se a Cimeira Europeia de Lisboa e de repente ficamos todos às escuras. O seu intenso brilho era intensa Treva. E agora que acabou, a Treva é ainda maior. Os Povos têm de acordar e fugir de todas estas encenações de Mentira. Os Executivos do Dinheiro e dos Privilégios não dão ponto sem nó. Não se reúnem a pensar no nosso bem-estar e na felicidade dos Povos. Reúnem-se com muito alarido e muito brilho, para nos encandearem/cegarem ainda mais. Eles sabem que só com Povos permanentemente encandeados/cegos é que podem continuar a conduzir-nos para o barranco, para o abismo, ao mesmo tempo que tornam mais poderoso e mais global o seu Mercado. A Europa ou é dos Povos, ou não será. Enquanto continuar a ser como até aqui dos Executivos do Dinheiro e do Poder que enganam e oprimem os Povos, Executivos mentirosos e assassinos compulsivos, de mãos sempre muito limpas, mas como as de Pilatos que mandou matar Jesus, os Povos estão condenados a viver um presente de lágrimas e de treva, rumo a um futuro cada vez mais triste e opressivo. Os esgares sorrisos dos Executivos são as lágrimas que havemos de verter. Os manjares deles são a pobreza/miséria que havemos de suportar. As sucessivas viagens deles são as nossas permanentes prisões. As vitórias deles são as nossas sucessivas derrotas. Entre eles e os Povos há um abismo intransponível. E é bom que assim seja, para que nunca cheguemos a ser os monstros que eles são. Só que os Povos são constantemente estimulados a desejar ser como os Executivos. A desejar viver como vivem os Executivos, a possuir o que os Executivos possuem, a desfrutar o que os Executivos desfrutam. O brilho da Treva com que os Executivos sempre se apresentam diante dos Povos leva-os a não verem toda a Mentira e toda a Monstruosidade com que se "faz" e tece todo e qualquer Executivo ao serviço do Dinheiro e do Poder. E se já é um pesadelo ter um Executivo nacional em cima de nós, o que não será ter 27 Executivos unidos na Europa. O pesadelo é esmagador e paralisa-nos por completo. E cega-nos. E só porque somos Povos cegos, melhor, cegados pelo intenso brilho da intensa Treva dos Executivos, é que somos levados a pensar que eles são felizes, que eles são os melhores, que eles materializam o melhor da vida e acabamos até a desejar chegar um dia a usufruir ao menos algumas das migalhas que caem das suas mesas, das suas vidas de sucesso. Não vemos toda a podridão que os Executivos são. Não vemos os túmulos caiados cheios de podridão que os Executivos são. Não vemos toda a Corrupção, toda a Mentira, todo o Nada, todo o Vazio, toda a Infelicidade, todo o Inferno que os Executivos são. Tudo isso fica escondido aos nossos olhos encadeados/cegados. Precisamos de aprender de Jesus e com Jesus, o de Nazaré. Precisamos de ser Povos que deixamos, finalmente, nascer/desenvolver-se em nós a Luz que Jesus, o Ser Humano por antonomásia, é. Precisamos de ser Povos-Luz na Luz que ele é. Precisamos de passar de Povos encandeados/cegados a Povos que vêem, a Povos de olhos abertos, cultos e sábios. De Povos de mão estendida e dependentes, a Povos autónomos, independentes. De Povos enganados e dominados, a Povos-luz das nações e livres. De Povos paralisados e sem iniciativa, a Povos escorreitos e protagonistas. Quando formos Povos-luz na Luz que é Jesus, veremos como ele viu e nos faz ver que os Executivos do Dinheiro e do Poder são todos ladrões e bandidos que existem só para roubar, matar e destruir os Povos. Então, em lugar de os tratarmos como senhores dignos da nossa gratidão, faremos como Jesus diante do Executivo Herodes, do seu tempo e país: Só consentiremos que eles nos ponham a vista em cima, se a Polícia ou a Tropa deles nos levarem à força à sua presença. De contrário, viveremos sempre o mais longe possível deles, para que o seu fermento de Hipocrisia e de Podridão não nos alcance nunca, e nunca nos afecte o cérebro. Dos Executivos como Executivo Herodes, diz Jesus que são todos "raposas", por isso, todos cheios de (arti)manhas, hábeis mas não cultos, espertalhões mas não sábios, com ares de cordeiro, mas lobos vorazes, cheios de brilho, mas densa Treva. Avisados andarão os Povos, todos os Povos, os da Europa e os do resto do Mundo, se fugirmos dos Executivos do Dinheiro e do Poder, se os evitarmos, se os deixarmos a falar sozinhos nos seus palácios-manicómio. E sempre corrermos a darmo-nos as mãos uns aos outros, no afecto e na justiça, na sororidade/fraternidade e na verdade, na partilha dos bens/dos saberes e na paz, para juntos e unidos erguermos a Europa dos Povos, sem Executivos e sem transnacionais, essas mesmas que os pariram. Porque só numa Europa de Povos em que nenhum deles queira ser rico, em que todos decidamos livremente ser pobres é que chegaremos a ser um Continente e um Mundo de abundância para todos e Luz uns para os outros. De contrário, seremos a Europa dos Executivos, a Europa forte, mentirosa, rica, assassina. Densa Treva e Genocídio-em-acção para os demais Povos. Resgatemos urgentemente Jesus e a sua Memória subversiva e conspirativa do controlo dos Executivos das Igrejas e passemos a frequentar com alegria e entusiasmo a sua Via de Libertação que nos faz ser mulheres, homens e Povos em plenitude. Bem nos antípodas dos Executivos do Dinheiro e do Poder.
2007 OUTUBRO 22
Decorreu ontem na sede do Jornal Fraternizar, em S. Pedro da Cova, o 10.º Encontro de Espiritualidade jesuânica com o Ateísmo e a Idolatria generalizados em fundo. Entre as pessoas presentes, havia uma que teve de andar uns 10 mil kms, pois é habitualmente residente em Maputo, Moçambique, e assinante do Jornal desde a primeira hora. Outro participante veio propositadamente de Lisboa, de comboio. E pela primeira vez apareceu uma família, pai, mãe e filho estudante na Faculdade de Engenharia biológica, de Torres Novas. O encontro foi intenso e vivamente participado, sem deixar de ser alegre e cheio de Espírito Santo. A palavra anda à solta nestes encontros. A síntese final há-de ser feita pela consciência de cada participante. Tem-me cabido até agora a responsabilidade de dinamizar/coordenar o debate, na minha qualidade de director do Jornal que organiza o Encontro, uma vez por trimestre. O próximo ficou já agendado para o terceiro domingo de Fevereiro de 2008, dia 17. Pela minha parte, procuro, logo a abrir, situar a temática em debate em cada encontro e enquadrá-la no nosso aqui e agora nacional, europeu e mundial e, depois, manter-me activamente atento ao desenrolar da assembleia, para que cada pessoa tenha a palavra, sem nunca ser atropelado/interrompido por ninguém. E, no momento que achar mais oportuno, eu próprio também uso da palavra sobre o tema em debate. É uma experiência muito rica e fecunda para todas, todos. As pessoas entusiasmam-se e intervêm. Sentem-se pessoas com rosto, voz e vez, acolhidas, escutadas, respeitadas, valorizadas, numa palavra, amadas. Nada do que dizem e fazem se perde. Tudo se recolhe e de todas as intervenções algo de essencial se aproveita. Entre a manhã e a tarde, há pelas 13 horas o almoço eucarístico, em redor da Mesa Comum, e confeccionado a partir do que cada pessoa decidiu levar de casa para ele. É a nossa Eucaristia viva com Jesus Ressuscitado no meio de nós. À sua beira, o esteriotipado rito da missa nos templos paroquiais é veneno que desumaniza as pessoas e as aliena do Mundo e da História. Deixo aqui, como partilha, as palavras com que desta vez abri o Encontro e enquadrei o tema que esteve em debate. É claro que o mais importante não são estas palavras de abertura. O mais importante do Encontro foi o debate que se lhe seguiu. Mas esse, para se poder ter notícia dele, é preciso ir lá fazê-lo/vivê-lo/saboreá-lo. Quem ainda não foi nenhuma vez, procure ir ao próximo. Verá que não se arrependerá, porque é uma experiência viva com o Espírito Santo, o de Jesus que nos faz livres e sororais/fraternos, mais humanos e mais militantes do Reinado de Deus na História. Eis:
Desenvolve-se hoje progressivamente na Europa e no Ocidente em geral um novo tipo de ateísmo/agnosticismo altamente perigoso, frente ao qual há que estar em guarda, mesmo os ateus de tipo clássico, sempre vigilantes e resistentes. É o ateísmo generalizado que esconde e dá guarida a um tipo de idolatria, a mais perigosa e cruel de todas, a idolatria do Dinheiro/Poder. O deísmo generalizado de até há poucos anos, com as suas versões religiosas as mais díspares, ainda cultivava um certo humanismo e respeito pela vida humana e pela vida em geral. O ateísmo de tipo clássico que então lhe fazia frente recusava/negava Deus, o desse deísmo, acabava por ser muito menos nocivo, senão mesmo muito melhor que a crença em Deus, o do deísmo religioso, pois levava os seus praticantes a fazer suas as grandes causas da Humanidade, já que, no lugar de Deus, os ateus desse tipo de ateísmo colocavam o Homem/Ser humano, e no lugar da Religião e do Culto litúrgico nos templos colocavam a luta pela Justiça, a luta política, o serviço solidário com os mais frágeis e pobrese, e os mais radicais, até a Revolução. Era, pois, um tipo de ateísmo com muito de cristianismo jesuânico implícito. Tais ateus não criam em Deus, o do deísmo, mas criam no Homem. Não tinham culto religioso, mas tinham luta política pela Justiça e pela Paz. Não tinham religião, mas tinham solidariedade. Não tinham templos, mas tinham o Mundo. Hoje, este tipo de ateísmo está manifestamente em vias de extinção. Era um ateísmo revolucionário, jesuânico, por isso, perseguido ferozmente pelas cúpulas clericais das Igrejas e pelos governos dos Estados que apoiavam as cúpulas clericais das Igrejas. Era um ateísmo subversivo e conspirativo. Está hoje em vias de extinção e, em seu lugar, está em franca expansão nos países do Ocidente, a partir da Europa rica, um outro tipo de ateísmo que, como o anterior, passa muito bem sem a religião e sem os cultos nos templos, sem o Deus do deísmo e das religiões, embora ainda goste de se dar bem e manter hipócrita diálogo com as cúpulas de todas as religiões que tenham muitos membros com direito a votar nas eleições..., mas já não suporta Jesus, o crucificado pelo Templo e pelo Império, tão pouco suporta a Fé cristã jesuânica, nem a Teologia de Libertação que, como se sabe, é a única verdadeira, pois é também a única que nasce a partir de práticas sócio-políticas libertadoras integradoras, subversivas e conspirativas, revolucionárias e transformadoras dos miseráveis e indignos quotidianos dos pobres e dos povos empobrecidos do mundo, as quais fazem dos indivíduos pessoas lúcidas e protagonistas na História e das massas povos conscientes, organizados, sujeitos, autogestionários e senhores dos próprios destinos. Este novo tipo de ateísmo não suporta nada este tipo de realidades, de cariz profético e carismático, porque é um ateísmo que traz no bojo a idolatria, o culto do deus Dinheiro. Os praticantes deste ateísmo que esconde no seu bojo a idolatria do Dinheiro, são indivíduos (não pessoas humanas!) altamente pragmáticos, ferozes, cruéis, tecnológicos, frios, sem emoções, eficazes, incansáveis, trabalham dia e noite, estão em toda a parte, são programados ao milímetro, não dão ponto sem nó, fazem-se rodear de especialistas nas mais diversas áreas e de hábeis e eficientes administradores sem escrúpulos, a quem pagam bem à vista e ainda por baixo da mesa, tiram o máximo proveito do conhecimento humano e de cada ser humano mais dotado e mais capacitado, espremem-nos ao máximo, enquanto tiverem para dar. A todas as outras pessoas - as maiorias empobrecidas, analfabetas, iletradas, idosas, com deficiência, sobretudo, mental, mesmo as medianamente dotadas, são deixadas à margem, com subsídios ou até sem nada, como se fossem lixo, material excedentário que já não serve para nada, por isso, sem direito a viver, porque em lugar de lucro ainda dão prejuízo. O seu destino final, antes de morrer, só pode ser o inferno que estes novos ateus idólatras do Dinheiro criaram, as trevas exteriores, as favelas, os ghetos, onde há choro e ranger de dentes a toda a hora. Este é o ateísmo do século XXI. Os ateus deste tipo de ateísmo que o são de todos os deuses das religiões menos do deus Dinheiro, têm um único deus que adoram e ao qual se submetem: o Dinheiro. Têm um só Executivo: o Poder/Império. Têm um só culto: o Mercado. Têm um só templo: os grandes centros comerciais, todos muito iluminados para melhor encandearem/cegarem quem lá entra. Têm uma só fé/um só dogma: o neo-liberalismo selvagem à escala global. Têm uma só diversão globalizada que se sobrepõe a todas as outras: o Futebol de milhões e milhões de euros em estádios de luxo. Têm uma só liturgia: as cimeiras do G-8 e, mais recentemente, também as Cimeiras da União Europeia. Acabámos de ver a mais recente de todas elas, a Cimeira de Lisboa, com o nosso primeiro, Sócrates, a brilhar, juntamente com o outro primeiro, também português, Barroso. As transnacionais que nos devoram e têm nos governos dos Estados os melhores executores das suas políticas económico-financeiras e (a)sociais (o nosso voto é um rito vazio, sem consequências e, quando conseguir ser mais do que isso, vereis que deixará de existir; o Referendo ao Tratado Reformador agora aprovado, vai ser, se calhar a primeira prova disto que digo!) conseguiram praticamente tudo o que pretendiam, graças a estes dois robots vaidosos, incultos e troca-tintas, neste momento, ao leme da Europa dos 27. O Tratado de Lisboa aí está a registar e a perpetuar esta vergonha, como, antes, a mini-cimeira das Lajes, nos Açores, que declarou a criminosa Guerra no Iraque, também ficou a dizer ao mundo que Portugal é o grande parceiro do Império, das suas transnacionais, pois os seus executivos de turno deliram servir-lhes de lacaios anfitriões e de capachos bem vestidos, a troco de alguns subsídios, dinheiro fácil que, como todo o dinheiro fácil, tem tudo de prostituição e de ignomínia. Pois bem, é neste momento histórico e neste contexto de idolatria generalizada do Dinheiro/Poder, camuflada por um novo tipo de ateísmo generalizado, que realizamos este nosso 10.º Encontro de Espiritualidade jesuânica, por isso, um encontro com o Espírito/Sopro de Jesus, o Crucificado pelos do Templo de Jerusalém, pelos do Império de Roma e pelos do Dinheiro do Sinédrio judaico. Decididamente, este nosso não é o mundo com que Jesus sonhou, o Reinado/Reino de Deus na História. O mundo com que ele sonhou e para cuja edificação trabalhou continuamente, sábados incluídos, até ser assassinado, é o Reinado/Reino de Deus. Este que hoje temos, bem visível à vista desarmada, é o Reinado/Reino do Dinheiro/Império. Infelizmente, até a generalidade das Igrejas e das Religiões estão hoje ao serviço deste Reinado do Dinheiro/Império, não do Reinado de Deus, o da vida e vida em abundância para todos os seres humanos e todos os povos sem exclusão de nenhum. O mundo que hoje temos bem à vista desarmada é o mundo que tem o Dinheiro por rei, por senhor, por deus, que faz as leis, as políticas económicas e financeiras e até programa a ocupação dos tempos livres das pessoas e dos povos de acordo com os seus perversos interesses, sempre mentirosos e assassinos, onde não chega a haver lugar para os seres humanos enquanto tais, apenas enquanto produtores de lucros cada vez mais exorbitantes e consumidores compulsivos. Estamos metidos nele. Se formos dos de Jesus, estaremos neste mundo do Dinheiro/Poder, mas jamais seremos dele. Será que não somos, qu resistimos a todas as suas seduções e vaidades? É o que vamos procurar ver/concluir com o desenrolar deste debate. Permito-me formular então esta grande questão prática para ele: Como havemos de ser/viver para sermos efectivamente (não apenas de palavras) do Reinado/Reino de Deus Vivo, o de Jesus, e não do Reinado/Reino do Dinheiro/Poder, nem sequer de forma simplesmente passiva? Em que bases, princípios, valores alternativos havemos de estruturar as nossas vidas, os nossos quotidianos para sermos do Reinado de Deus e não do reinado do Dinheiro/Poder? Certamente, as Comunidades cristãs primitivas que escreveram o Evangelho de Mateus e o Evangelho de Lucas já nos deram nos dias que precederem este Encontro e continuarão a dar ao longo deste dia preciosa ajuda neste sentido. Partilhemos então que o já aprendemos com elas, a partir de Mateus 5, 1-11 e de Lucas 6, 20-26. E continuemos a consentir que o Espírito Santo, o de Jesus, nos conduz a faça nascer de novo, para sermos aqui e agora outros Jesus, em feminino e em masculino.
2007 OUTUBRO 20
Ouviram/viram ontem o nosso primeiro, no país e na Europa, dizer uma e outra vez, com aquele seu ar de boneco articulado que o caracteriza, sempre muito polido e muito meticuloso nos seus programados gestos e nas suas mecanizadas declarações cheias de coisa nenhuma - são assim todos os robots, tecnologicamente previsíveis, frios, automatizados, capazes de despertar em nós espanto, nunca afecto - que agora "somos uma Europa forte" e, por isso, estamos em melhores condições para negociar nas próximas cimeiras com a Rússia e as outras potências do mundo? E gostaram do que viram/ouviram? Embarcaram em toda aquela euforia dos pivots dos telejornais e dos seus convidados escolhidos a dedo para ajudarem à festa e à euforia do nosso primeiro? Sabiam que até a Conferência dos Bispos católicos da Europa se apressou a emitir uma declaração, a congratular-se publicamente com a aprovação do Tratado Reformador? (Esqueçam esta estúpida designação oficial do documento e habituem-se a chamar-lhe, de agora em diante, Tratado de Lisboa, porque é assim que ele irá ser conhecido, num preito de reconhecimento por parte das transnacionais europeias à ignóbil cooperação que o nosso primeiro Sócrates e o outro nosso primeiro também, Barroso, que há poucos anos não se importou nada de mergulhar o país numa crise governativa, quando lhe acenaram com a cenoura do cobiçado lugar europeu que desde então ocupa). Como vêem, tudo o que é Poder/Dinheiro na Europa, tudo o que é Executivo, tudo o que é Cúpula saiu a terreiro a saudar a aprovação do Tratado. Ora, quando assim é, os Povos que se cuidem. Se o grande Capital festeja, chorarão os Povos, no caso, os Povos da Europa, antes de mais. Mas não só. Também os Povos do resto do mundo. Porque é sinal de que o grande Capital está aí em força, pronto para matar, roubar e destruir. Do que verdadeiramente precisamos e o resto do mundo também precisa é, não de uma Europa forte, mas de uma Europa de Povos fraternos e solidários entre si e com os demais Povos do mundo. Só a fraternidade/sororidade dos Povos é que nos salva e faz humanos. Não o Dinheiro, nem o Império, nem o Templo. Insistir na via do Dinheiro, do Império e do Templo é insistir na via do genocídio/ecocídio. O Poder nunca libertou nem tornou mais humanos (= salvou) os Povos. Sempre os oprimiu, subjugou, humilhou, desprezou, explorou, e finalmente matou. Com o nosso primeiro ao leme da Europa e o outro que está a revelar-se um bom aluno dele (quem, como ele, fez de histriónico anfitrião na Base das Lajes aos três maiores tiranos imperialistas ocidentais da actualidade - Bush, Blair e Aznar - que, logo no dia seguinte, desencadearam a criminosa e hedionda Guerra do Iraque, hoje ainda sem fim à vista, e já com um cortejo de mortos, de dores, de horrores e de danos de todo o tipo que levarão séculos a cicratizar, se é que não ficarão para sempre uma ferida aberta, pelo menos nos povos que mais directamente a sofrem na pele e no terreno), o resultado da Cimeira de Lisboa só podia ser o que foi. Nunca as transnacionais tiveram tamanha oportunidade para fazerem vingar os seus pontos de vista e garantir êxito aos seus nefandos interesses. Sócrates e Barroso, gémeos na ambição e na vaidade, robots mais do que homens, vassalos mais do que soberanos, executivos mais do que sábios, demagogos mais do que transparentes, hábeis mais do que cultos, troca-tintas mais do que honrados, oportunistas mais do que companheiros-dos-Povos, foram o par ideal para dar à Europa do grande Capital, não, evidentemente, aos Povos da Europa, o Tratado de que ela carecia para se tornar forte. Cuidem-se por isso os povos da Europa e os Povos do resto do mundo. E armemo-nos com a couraça da Verdade, a armadura da Dignidade, e a arma do Discernimento, para resistirmos às mentiras e aos malabarismos dos 27 Executivos que subscreveram o Tratado. Não são nossos aliados, nem nossos servidores/ministros. A Europa forte que eles estão determinados a construir será a nossa desgraça. Preparemo-nos para anos e anos de Resistência e de Insubmissão. De mãos dadas com todos os Povos do mundo. Para que vença a Sororidade/Fraternidade dos Povos, não o Dinheiro, o Templo e o Império. Se o fizermos, logo veremos que não estamos sós nesta Resistência e neste Combate. Connosco está também o Espírito de Deus Vivo, o de Jesus, Criador de vida e vida em abundância para todos sem excepção. Espalhemos sem demora a notícia e o alerta! E corramos a viver todos os dias na trincheira. Com o entusiasmo de quem sabe que tem a razão do seu lado. E o futuro.
2007 OUTUBRO 19
Mas quem é que eles pensam que são? As suas Cimeiras rodeadas de luxo e de segurança(s) - quem não deve não teme e, se eles temem tanto é porque também devem muito, não é?! - são outras tantas afrontas aos Povos que eles "democraticamente" dirigem/oprimem/enganam/exploram/desprezam. Parecem homens, são burocratas. E carrancudos. Com larvares sorrisos para as câmaras de televisão. Cujos profissionais puerilmente se pelam todos por obter um instantâneo com eles, que mais nenhum outro tenha conseguido, ou uma entrevista, ou uma frase boba, das muitas que eles dizem uns aos outros, nomeadamente, quando se sabem sem microfones activados por perto. Também há entre eles uma ou outra mulher. Só que no meio de tantos Executivos machos, é ainda mais difícil a uma mulher manter-se vigorosamente feminina, a dimensão que melhor define os seres humanos, mulheres e homens. Por outro lado, como as suas Cimeiras são obscenas exibições do Poder, uma mulher que aceite entrar por essa via, ou vai lá para destabilizar tudo e mostrar o fatuidade e a crueldade de tudo aquilo, ou acaba igual a eles, executiva quanto eles, por isso, não-mulher, muito menos, feminina. Desde ontem que eles estão no nosso país. Desta vez, a sua Cimeira é em Lisboa, onde, como se sabe, está concentrado o Sistema do Poder que domina todos os portugueses, e para onde estranhamente convergem todos aqueles, elas e eles, que sonham ser Poder, mais tarde ou menos, de preferência, mais cedo do que mais tarde. Infelizmente, não falta por aí quem morra de amores por um tacho, por um lugar na ribalta tecida de Treva e de Hipocrisia do Poder. Quem de entre nós, com alguma desenvoltura, não tem a audácia de ser simplesmente Homem/Mulher, dá voltas e mais voltas, mexe este mundo e o outro para ver se consegue ser Poder. Nem que seja chegar a ser simples Segurança ou Motorista ou Prostituta de um Executivo graúdo, ou ao menos de um qualquer secretário seu. É por isso que o Poder, quando é graúdo, carece de todos esses ridículos rituais/ritos com os quais se "fazem" estas suas dispendiosas e Cimeiras para os Povos verem, não vá acontecer que os povos descubram que todos aqueles que o corporizam e lhe dão rosto, vão nus, são nus, vestem de Nada. Brilham muito, mas é de Treva o seu brilho. É um brilho que cega quem põe neles os seus olhos, sobretudo, os de dentro, os da sua consciência. Ao contrário por exemplo de Jesus que eles todos à uma crucificaram como o maldito dos malditos, e que onde estiver sempre abre os olhos - os de dentro, os da consciência, já se vê - a quem o segue e, sobretudo, prossegue as suas Causas. Ao contrário deles que são Treva que encandeia e faz cegos, Jesus é a Luz que ilumina e faz ilustrados, desperta insurrectos/ressuscitados/dissidentes/insubornáveis/incorruptíveis/protagonistas, numa palavra, seres humanos com entranhas de humanidade, que, depois, até conseguem passar muito bem sem eles, os do Poder que cegam e deixam à deriva e sem norte quantos, quantas se deixam ir por eles. E muitos são, infelizmente, porque os povos, mais ainda do que os indivíduos, são muito lentos no que respeita a acordar, a mudar, a converter-se, a amadurecer, a tornar-se povos de olhos abertos, autónomos, livres, autogestionários. Mais depressa correm a dar o seu aval, o seu apoio, o seu voto a quem mais brilho mostra na Treva em que se movimenta e com que se veste e à sua consciência. Eles, os do Poder, sabem disso, os seus técnicos de markting e de publicidade, pagos a peso de ouro, mantêm-nos informados e amestrados no seu posto de Executivos, uns fantoches de luxo que o Dinheiro e o Poder manobram como querem e sobre-lhes tempo. Ontem e hoje, eles estão em Lisboa. O chefe de turno de todos eles, o nosso tecnocrata Sócrates que se movimenta cheio de desenvoltura no reino da Treva que é o seu mundo, por isso, bem nos antípodas do outro Sócrates, o grego, de quem até o grande Platão chegou a ser discípulo, e que nasceu vários séculos antes de Jesus - vejam como regredimos tanto no tempo em cultura, lucidez e humanidade! - anunciou em plena Noite - às 00h45, precisa o PÚBLICO, num orgulhoso "furo jornalístico" - que foi alcançado acordo entre os 27 para a assinatura do Tratado que irá fazer as vezes da Constituição, já uma vez aprovada por eles, mas depois chumbada pelos Povos da Europa. "É uma vitória da Europa!", proclamou urbi et orbi. Sem querer, fugiu-lhe a boca para a verdade, que a verdade é mesmo assim como um rio que sempre há-de chegar ao Mar, por mais diques que lhe levantem. É uma vitória da Europa. Pode ser. Mas não significa que seja uma vitória dos Povos da Europa. Temos de estar vigilantes, porque eles, os Executivos, são assim, lidam com conceitos, com cifras, com estatísticas, com números, com entidades abstractas. Não lidam com os Povos. Dos Povos de carne e osso têm medo e nunca estão à vontade junto deles. Para lidar com os Povos, sobretudo, quando reclamam por justiça e dignidade, lá estão os polícias e a tropa de choque, sempre que for preciso, com os seus cães e os tanques de água e os jactos de gás lacrimogéneo, senão mesmo helicópteros e aviões de guerra. Estamos fritos com eles, porque eles não são capazes de nos olhar nos olhos. nem de ouvir a nossa voz, menos ainda os nossos gritos e os nossos protestos com propostas. E, pelos vistos, já se preparam para nem sequer nos ouvirem em Referendo europeu sobre o Tratado acabado de aprovar por eles. Deixam isso ao gosto de cada Executivo que, está visto, não avançará, se as sondagens nacionais vierem a dizer que vencerá o NÃO. Estamos fritos, nós, os Povos, que para nos fritar é que Executivos existem e realizam Cimeiras como a de Lisboa. Eles querem ser temidos, porque do amor só conhecem a pornografia e o sexo pago a bom dinheiro. São analfabetos em ternura e em proximidade cordial. Ignoram o que seja companheirismo, afecto, fraternidade, menos ainda sororidade. Só percebem de Poder, de Dinheiro, de Mercado e, mesmo em todas estas áreas, não percebem por aí além, porque são incapazes de se movimentar pelo mundo, de cimeira em cimeira, sem se fazer rodear de assessores e quejandos. Uns estéreis, portanto, pior, uns eucaliptos em forma humana que, se os Povos se não acautelarem, sugam-lhes toda a água - a vida de qualidade - que haja em seu redor. Vejam, por exemplo, se algum deles foi capaz de deixar a Cimeira de Lisboa para se fazer próximo dos 200 mil europeus que ontem à tarde lá se manifestaram a protestar a uma só voz contra a flexisegurança que o Dinheiro e as suas transnacionais querem impor aos Povos. Nem um deles para amostra! E do desprezo e do cinismo com terão comentado entre eles tão grande manifestação dos povos da Europa, os profissionais da comunicação já não se pelaram por registar como manchete e notícia nos jornais, nas rádios e nas televisões onde trabalham. Sabem bem que, se quiserem continuar nos seus postos, têm de respeitar as regras do jogo que eles, os Executivos, ditam e impõem. Porque quem não for politicamente correcto está feito num oito. Mas não é que assim quem renuncia a ser e vai pelo politicamente correcto não acaba também feito num oito, e do pior modo, porque perde a face e deixa de ser Homem/Mulher, para se tornar pé-de-microfone, um funcionário mais deles? E depois onde é que fica o jornalista?!
2007 OUTUBRO 18
Acabo de tomar conhecimento pela última edição do semanário oficioso da Diocese do Porto (17 de Outubro de 2007), de um Decreto Episcopal que me leva a duvidar se estamos já, como reza o calendário em vigor, no século XXI, ou se, pelo contrário, ainda permanecemos nos obscuros séculos da Idade Média, quando as mentes das populações e dos povos andavam enormemente povoadas por fantasmas e horrores, medos de deusas e de deuses, de bruxas e de bruxos, de demónios com-cornos-cauda-forquilhas e de almas penadas, de clérigos católicos vestidos de bispos-senhores-feudais-todo-poderosos e de párocos-abades, pelo menos um em cada diocese e aldeia, os quais, do alto dos altares e dos púlpitos das suas catedrais e igrejas paroquiais e capelas, ameaçavam com infernos eternos de fogo e de enxofre todos os que tentassem escapulir-se do terror da sua jurisdição canónica (quase) sempre absoluta e vitalícia. O Decreto em causa tem, obviamente, a assinatura do novo Bispo do Porto, Manuel Clemente, o mesmo que, há poucas semanas atrás, fez publicar uma Nota Pastoral, na qual se propunha realizar uma mais do que indispensável "revolução" nesta nossa Igreja portucalense. Na altura, já eu me perguntei como iria o Bispo recém-chegado do Patriarcado de Lisboa e da Universidade Católica, realizar essa anunciada revolução e com quem, se ele próprio faz finca-pé de permanecer exclusivamente dentro do modelo clerical de Igreja, para mais acrescido agora do regresso ao latim nas liturgias, um modelo manifestamente à revelia, em meu entender, do Concílio Vaticano II que, na década de sessenta, apontou para um outro bem mais evangélico e jesuânico, comunidade-de-pequeninas-comunidades-sal-da-terra-luz-do-mundo-fermento-na-massa-e-sentinela-na-cidade, sem clérigos e sem hierarquias, animada por ministérios/serviços maiêuticos ordenados e não ordenados, os que já vêm desde o princípio, depois de purificados de toda a ganga e de todo o lixo do Império romano que se lhes colou ao longo dos séculos, e outros novos, mais conformes com as exigências destes tempos da nossa contemporaneidade. Pois bem, a resposta a essa minha pergunta-inquietação parece ser dada, pelo menos, simbolicamente, com este Decreto Episcopal e - digo-o com lágrimas - não pode ser mais desastrosa. Na inconsciência das demoníacas rotinas eclesiásticas em que nasceu, o Decreto diz bem por que conspurcadas águas eclesiais - melhor, eclesiásticas - continua a navegar o nosso Bispo Manuel Clemente e, com ele, os seus bispos auxiliares, mais todos os órgãos institucionais que todos monarquicamente dirigem, reconhecem, contactam e apoiam de forma explícita. Quando seria de esperar um "corte" com as demoníacas rotinas eclesiásticas instaladas na diocese que asfixiam e matam todo o Novo e são avessas a reconhecer no Novo o dedo do Espírito de Deus Vivo, o Bispo Manuel Clemente revela, com este seu Decreto, desde a linguagem utilizada ao conteúdo e às decisões para onde aponta, que, afinal, pouco mais estará a fazer do que a manter o status quo eclesiástico, o que, só por si, materializa um pecado contra o Espírito Santo, como tal, um pecado que asfixia e mata o Novo que o Espírito Santo está a fazer acontecer, aqui e ali. Atentem no teor do Decreto em causa e digam-me, depois de o lerem com sentido crítico e situados neste nosso século XXI, se este não é um decreto de nos deixar os cabelos em pé, pelo menos, a pessoas que amem a Igreja como eu a amo e a querem ver como a noiva/esposa de Deus no mundo e na História, capaz de despertar nas populações e nos povos o gosto, a alegria, a inquebrantável decisão de serem populações e povos do mesmo jeito de Jesus, o Ser Humano integral que todas, todos nós, havemos de chegar a ser também. Eis: "FAZEMOS SABER QUE: tendo o nosso Predecessor, D. Armindo Lopes Coelho, instituído canonicamente a Igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho e da Mão Poderosa, sita na paróquia de Ermesinde da III Vigararia da Região Pastoral Aro Norte, como Santuário Diocesano sob a invocação de Nossa Senhora do Bom Despacho e da Mão Poderosa; Considerando que a este lugar acorrem multidões de fiéis em peregrinação por motivos de piedade e de devoção a Santa Rita de Cássia cuja imagem ali se venera; Considerando ainda que muitos fiéis devotos ali pretendem celebrar os sacramentos do Baptismo e do Matrimónio, HAVEMOS POR BEM: 1 - Decretar que aquele Santuário passe a designar-se Santuário Diocesano de Nossa Senhora do Bom Despacho e da Mão Poderosa e de Santa Rita. 2 - Confirmar a nomeação do Reitor deste Santuário Mons. Cónego Sebastião Martins Luís Brás. 3 - Cometer ao Reitor a responsabilidade pastoral da celebração dos Sacramentos neste santuário, sem qualquer derrogação dos direitos do Pároco de Ermesinde. 4 - Conceder-lhe faculdades equivalentes às de Pároco para celebrar o Sacramento do Baptismo e assistir à celebração do Sacramento do Matrimónio. 5 - Determinar que os assentos relativos aos referidos sacramentos celebrados no Santuário sejam lavrados em livros de registo próprios, a guardar no respectivo cartório. 6 - Determinar que, assinado e por nós homologado o respectivo acordo entre o Pároco de Ermesinde e do Reitor do Santuário, este nosso Decreto entre em vigor a partir de 1 de Janeiro de 2008." Como vêem, é exclusivamente mais do mesmo eclesiástico e de direito canónico que já fedem e dão vómitos. Apenas burocracia católica eclesiástica. Apenas submissão ao Código de Direito Canónico. Nem uma única referência ao Evangelho, nem a Jesus, nem sequer a Deus. Apenas referências à mítica deusa do Paganismo que a Igreja católica do Império romano adoptou e tem mantido e alimentado ao longo destes vinte séculos de Cristandade, e aqui designada com o espantoso título de "Nossa Senhora (= Nossa Deusa) do Bom Despacho e da Mão Poderosa" (se disserem que se refere a Maria, mãe de Jesus, estão a insultar a sua memória e o seu nome!), e também à Santa Rita de Cássia que, para as populações devotas não passa, como se sabe. de outra mítica deusa também, objecto de sucessivas e absurdas promessas feitas por imposição de bruxas e de videntes, que depois são cumpridas segundo um ritual do mais baixo paganismo, coisa indigna de seres humanos, filhas, filhos de Deus, irmãs, irmãos de Jesus. Mais. Apenas preocupações pela manutenção/ampliação de todo aquele Paganismo católico, sem que os direitos, concretamente, os chamados emolumentos pela administração dos sacramentos do baptismo e do matrimónio, do respectivo Pároco de Ermesinde, em cujo território paroquial se situa este novo "Santuário Diocesano" (era simples "Igreja de Nossa Senhora do Bom Despacho e da Mão Poderosa", mas agora, com este Decreto, passa à categoria de "Santuário Diocesano sob a invocação de Nossa Senhora do Bom Despacho e da Mão Poderosa") sejam postos em causa. É então esta a revolução que o Bispo Manuel Clemente está empenhado em levar a cabo na nossa Igreja do Porto?! O sinal - e que sinal! - está dado. Convenhamos. O desastre não pode ser maior. De resto, quem acompanha, pelo semanário da Diocese do Porto, o noticiário oficioso das acções principais do Bispo, facilmente depreende que ele anda aí pelo território como um bombeiro a apagar fogos de verão. Corre aqui e ali, diz palavras/homilias de circunstância aqui e ali, pisa tapetes de flores aqui e ali, preside a ritos sem profecia aqui e ali, crisma jovens aqui e ali, os quais, desse pomposo modo, se despedem oficialmente da Igreja, muitos deles para sempre. Tudo sem que o Bispo tenha a lucidez e a audácia de fazer parar a máquina eclesiástica montada e que o devora a ele e a todos aqueles que a não liquidarem a ela. Está então tudo perdido? Não! Não está, porque, felizmente, temos o Espírito Santo que continua a soprar onde quer, como quer e com quem quer, sem precisar da jurisdição nem dos bispos residenciais que ainda se pensam/comportam como na Idade Média, nem dos párocos que andam aí a correr de paróquia em paróquia como baratas tontas e, depois, nem sabem o que hão-de fazer a tanto dinheiro que arrecadam pela venda dos sacramentos e da Memória de Jesus. Parecem pastores das populações, mas são mercenários, funcionários do Sistema eclesiástico, uns infelizes, uns tristes, homens sem causas, sem um projecto que os galvanize, solitários, numa palavra, uns pobres diabos já sem audácia para mudarem de vida, muito menos, para mudarem de Deus. Fatalmente, acabarão comidos pelo Ídolo ao qual, ingenuamente, devotaram o melhor das suas vidas. Oxalá ainda acordem. Seria a minha alegria maior!
2007 OUTUBRO 17
Dizem que hoje é o dia de luta contra a pobreza. Uma hipocrisia do tamanho do mundo é o que é. Então a pobreza pode existir sem que lutemos contra ela todos os dias do ano, até que ela seja erradicada duma vez por todas?! Não é uma indignidade a existência de pobreza e de pobres em massa, populações e povos inteiros pobres, pior, empobrecidos? Percebo a intenção, aparentemente salutar, que está por trás da criação deste dia. E não posso alinhar nela. A pobreza em massa, estrutural, é o pecado maior do mundo. É a maior vergonha da Humanidade. Consenti-la, coexistir pacificamente com ela todos os dias, inclusive no dia em que oficialmente se luta contra ela, com discursos e mais discursos, com manifestações de rua e palavras de ordem que o vento leva sem deixar qualquer rasto, é um vómito. Somos um nojo de Humanidade, quando nos comportamos assim. Por um lado, damos a entender que a pobreza em massa e estrutural é uma realidade evitável (de contrário, não faria sentido lutar contra ela), mas depois conseguimos viver todos os dias, geração após geração, com ela a esmagar-nos e a dizer-nos que não somos humanos, que somos piores do que as feras, que o mundo que dirigimos é pior do que uma selva, que a Ordem Económico-financeira Mundial é uma monstruosidade. E, para cúmulo da hipocrisia e da insensatez ainda nos assanhamos todos, quando os pobres, os povos empobrecidos do mundo - hoje, a esmagadora maioria da Humanidade - se insurgem com violência, directamente ou por interpostos grupos em seu nome, contra esta Ordem Económico-financeira que os produz em ritmo cada vez mais acelerado, para assim poder continuar a ser o que é, a Ordem Mundial do Dinheiro, da Riqueza acumulada e concentrada, do Império e da Religião, com as suas cúpulas dirigentes, mentirosas e assassinas, que sem descanso se movimentam a zelar e a promover de forma científica e sem escrúpulos os seus interesses e os seus privilégios. São castas que se fazem servir pelas inteligências mais desenvolvidas, munidas da tecnologia de ponta mais refinada, sempre na vanguarda do progresso e do cientismo sem entranhas de humanidade, com olhos e ouvidos em toda a parte, prontas para detectar e desmantelar qualquer tentativa de conspiração e de levantamento contra elas. Seremos infantis, crédulos, ingénuos, se ainda não percebemos que são estas mesmas castas quem cria dias como o de hoje, ditos de luta contra a pobreza. Elas sabem que assim mais e melhor podem descomprimir a raiva e a cólera das populações e dos povos empobrecidos e esvaziar a força de contestação/sublevação das minorias lúcidas de sinal contrário a elas, minorias solidárias, generosas e militantes, ainda que quase sempre ingénuas e crédulas. O dia de luta contra a pobreza foi criado - ou, pelo menos, é tolerado - por essas castas, assim como outros dias de luta contra outros males que elas produzem impunemente no planeta, para que as minorias de sinal contrário a elas, solidárias, generosas e militantes esvaziem ingenuamente a sua potência conspirativa em manifestações autorizadas, muito gritadas ou silenciosas, mas totalmente estéreis, todas muito bem controladas/vigiadas pela Polícia e suas inúmeras câmaras de vigilância, instaladas em pontos estratégicos, pelos satélites que filmam e gravam todos os movimentos dos formigueiros humanos que são hoje as nossas grandes cidades, nas quais já não há espaços para conspirar a sério e com resultados visíveis. Os pobres continuarão aí, depois de tudo passar, cada vez em maior número, milhares de milhões e os ricos continuarão aí cada vez mais ricos e em número cada vez mais reduzido e concentrado, por isso, cada vez mais poderosos. E esta sua perversa Ordem Mundial do Dinheiro, do Império/Poder e do Templo, dirigida por essas castas que não abdicam um milímetro dos seus privilégios e dos seus postos de comando, como se desde toda a eternidade tivessem sido escolhidas por Deus para providencialmente dirigirem a História, prosseguirá aí cada vez mais reforçada, até porque os seus dirigentes não olham a meios para garantirem ao seu incondicional serviço e ao serviço dos seus interesses o que de melhor houver no Planeta em inteligência, em cientismo, em desenvolvimento físico e tecnológico, em gestão e em utilização de recursos humanos e outros. Vejam como pagam milhões e milhões por uns putos ingénuos e ambiciosos que se revelem especialmente dotados para o futebol nacional e internacional (sem eles, como haveriam as castas dirigentes de manter entretidas/alienadas as multidões e os povos empobrecidos do mundo?), como pagam milhões a treinadores que se revelem especialmente dotados para tirar partido desses putos, como pagam milhões a banqueiros que se revelem incondicionais servidores/adoradores do Dinheiro, como pagam milhões a economistas e a universidades, católicas que se digam, que desenvolvam teorias económicas que dêem toda a primazia ao Dinheiro e ignorem por completo as pessoas e os povos, como pagam milhões a cientistas que investiguem medicamentos para as suas indústrias farmacêuticas e para supérfluos cosméticos de todo o tipo que nenhum governo nacional do mundo hoje controla e cada vez menos poderá controlar, como pagam milhões a fabricadores de armamento sofisticadíssimo, como pagam milhões a publicitários de primeira água que convertam as populações e os povos do mundo, incluídos os próprios milhares de milhões de empobrecidos, em consumidores compulsivos e até como pagam milhões para que as religiões mais esotéricas e mais estupidificantes proliferem em todo o lado, especialmente entre as populações da pobreza e entre os povos empobrecidos do mundo. Esta é a realidade cruel do nosso mundo, integrado pela perversa Ordem Mundial do Dinheiro, do Império e do Templo que, de tão poderosa e organizada e vigiada, até se dá ao luxo de organizar um dia de luta contra a pobreza, quando é ela que, de forma cientificamente programada produz a pobreza em massa e os povos empobrecidos, em número hoje verdadeiramente assustador, verdadeiramente apocalíptico. Ou perdemos de vez a ingenuidade, ou acabamos todos a colaborar, como baratas tontas, com esta perversa Ordem Mundial, quando mais pensamos que estamos a lutar contra ela. Felizmente, Jesus, o de Nazaré, não é por aí que vai. A Ingenuidade não morou nunca no seu corpo. Por isso ele é a Luz do mundo que revelou para todo o sempre, a cada geração que nele nasce, que a Ordem Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império, é o Perverso organizado e em acção contínua, dia e noite. É uma Ordem que tem por pai a Mentira e é assassina/genocida desde o princípio. Deixar-se seduzir por ela e pelas suas propostas, e passar a trabalhar para ela é entrar num processo de descriação, como seres humanos e tornarmo-nos coisa, besta, monstro. Uns mais, outros menos. O Pecado que mata e desumaniza é simplesmente este modo não jesuânico de ser e de viver. Ora, com o Perverso, constitutivamente mentiroso e assassino, não há cooperação possível. Ou renunciamos sempre a ir por aí, ou tornamo-nos cúmplices de todos os crimes que ele comete e nunca mais nos chegaremos a encontrar a nós próprias, nós próprios. Perdemos o Norte. Dirige-nos outro Vento, outro Sopro, outro Espírito, que não o de Jesus. E não chega nunca a desenvolver-se em nós a dimensão jesuânica, a única que nos faz verdadeiramente humanos com entranhas de humanidade, mulheres e homens da mesma estatura de Jesus, por isso, nos antípodas das castas que continuam a dirigir o mundo. Muito menos chagamos a ser conspiradores dia e noite contra a sua perversa Ordem Mundial. Utopia sermos mulheres e homens da estatura de Jesus? Sonho irrealizável? As castas e os seus publicitários todos querem convencer-nos que sim. Porque sabem que, quando acreditarmos na Boa Notícia de Deus Vivo, no Evangelho vivo que é Jesus, o de Nazaré, e não mais na sua Publicidade mentirosa e assassina, o seu domínio sobre o planeta passará a ter os dias contados. Será que queremos verdadeiramente ser mulheres, homens da mesma estatura de Jesus? É a única coisa necessária. É a melhor parte que poderemos escolher. Mas para entrarmos por essa porta estreita que conduz à vida, adverte-nos o próprio Jesus, a Luz do Mundo: Convertam-se! Isto é, mudem de Deus (e de Ideologia). E acreditem neste Evangelho, nesta Boa Notícia que a minha vida histórica vos dá. Depois, caminhem comigo todos os dias e prossigam as minhas mesmas causas. Estamos dispostas, dispostos? Por mim, é o que mais quero. E vocês?!
2007 OUTUBRO 16
Ainda a propósito de Fátima e da sua nova basílica, recebi três mensagens que merecem aqui um breve registo. Respondi a cada um dos seus autores, por sinal, todos homens e meus amigos. A primeira, de um amigo da Senhora da Hora, ateu assumido, mas profundo admirador (e também seguidor?) de Jesus, o de Nazaré, antes de me remeter para um anexo onde divulgava extractos duma desgraçada entrevista do actual reitor do santuário, monsenhor Luciano Guerra à revista de fim de semana do DN/JN de domingo último, tecia algumas considerações a propósito deste nosso "mundo criado por Deus, em que uns vivem na escravidão e outros na opulência". Regi aos dois incisos com inteligência e ternura. Sobre este nosso "mundo criado por Deus", deixei dito: Felizmente, meu querido Amigo, não sou ateu. E a Fé cristã jesuânica que procuro viver cada dia e me potencia a ser cada vez mais um-homem-para-os-demais (é uma Presença mais íntima a nós do que nós próprios que também anda nos ateus, só que eles não dão por ela, ou chamam-lhe outra coisa) faz-me ver que o mundo em que uns vivem na escravidão e outros na opulência, foi criado, não por Deus, como insinuas/afirmas, mas pelo Dinheiro, pelo Templo e pelo Império e pelas minorias dos privilégios que se fazem passar por Deus. Sabes bem que até Karl Marx, um judeu que conhecia bem a Bíblia hebraica e em jovem estudante chegou a tirar um 18 num trabalho sobre a Primeira Carta de S. João (já a lestes no Novo Testamento?!) ensina isto. Deus tem as costas largas. E quem lhas atribuiu foram precisamente os do Dinheiro, do Templo e do Império. Porque assim, enquanto os milhares de milhões de vítimas humanas continuarem a culpar Deus e as costas largas de Deus, folgam eles e as costas deles. Essa é que é essa. É por isso, Companheiro, que eu digo que anda por aí um certo ateísmo que na prática redunda em reaccionarismo da pior espécie. Olho vivo! Já sobre os chorrilho de disparates e até obscenidades intelectuais e morais que o reitor do santuário de Fátima disse aos jornalistas que o entrevistaram, a propósito da inauguração/dedicação da nova basílica que ele próprio decidiu mandar construir, fui ainda muito mais sucinto e limitei-me a comentar: Quanto ao meu irmão Pe. Luciano Guerra, está nesta altura, como sabes, reduzido a um pobre diabo que a senhora de Fátima fez tal. Que outra coisa seria entãode esperar de um homem que vendeu a sua alma/a sua vida - o melhor da sua vida - ao Templo e ao Dinheiro?! Uma segunda carta, de um outro amigo que me escreve das terras do concelho de Gondomar, prefere chamar a minha atenção para a tão badalada e propagandeada "arte", de sensibilidade ecuménica, que a nova basílica de Fátima, no dizer da propaganda dos seus próprios mentores, exibe/oferece a quem lá entra. Diz assim: Do que vi em Fátima nestes quatro dias quero exprimir a minha admiração pelo painel da Nova Jerusalém. Penso que é bom que a Igreja medite sobre o que está escrito acerca da Nova Jerusalém e do modo como a sua organização nos é apresentada. Contesto que se continue a pespegar Cristo na Cruz. Cristo esteve lá, mas já não está. A Cruz é um sinal maior da Fé cristã, mas indissociável da Ressurreição. (Ainda bem que na Igreja do Marco de Canaveses não pespegaram Cristo na Cruz do Presbitério)- Sobre outras questões, tenho pensado que, de facto, nos espaços do sentido pessoal se movem energias e densidades capazes de gerar fenómenos subtis. Talvez por isso as visões só possam ser estritamente pessoais. O que faz sentido para uns, não faz sentido para outros. Só se encontra aquilo que se procura. Cada um vê à sua maneira." Pois bem, a esta mensagem, bem mais reflectida e elaborada, enviei a breve reflexão que se segue: Gostei que partilhasse comigo esta sua reflexão. Mas para mim, Fátima faz parte do Perverso e não tem redenção possível. Dela não há-de ficar pedra sobre pedra! O seu Deus, o de Fátima, é o Demoníaco. Por isso, nem a arte a redime. Acaba por ser perversa também. Porque ajuda a esconder, a camuflar o Perverso que, como arte, deveria desmascarar, denunciar, pôr a descoberto em toda a sua fealdade e crueldade. Jesus é a Luz. E garante que só o odeiam aqueles cujas obras são más e ficam a descoberto perante a sua prática/palavra. Em Fátima, até a luz é Treva! Isso é o que os artistas deveriam ter visto e depois fazer os outros ver através das suas obras. Assim, são cúmplices e encobridores do Perverso. Como o Poeta, quando se torna cortesão e come à mesa do rei: acaba a chamar Bem ao Perverso e Liberdade à Opressão. Não vou por aí. E sei que o meu amigo também não vai. Finalmente, refiro-me aqui à mensagem de um outro amigo, agora das terras Distrito de Castelo Branco. Contém uma brevíssima informação sobre a crónica semanal de Frei Bento Domingues no PÚBLICO do passado domingo e faz-se acompanhar de um brevíssimo comentário. Eis: Vejo que hoje o Pe. Mário é referência no texto do Bento Domingues no Público. Percebe-se que ele anda atento aos seus desabafos. Mas a mim parece-me que o que ele escreve continua a ser uma no cravo e outra na ferradura... A esta mensagem respondi também o mais breve que me foi possível. Assim: É também o que me parece. Mas que quer? Não posso mudar-lhe a cabeça. Nem a prática. Diz-me com quem andas e dir-te-ei quem és e o que escreves. Ainda assim, desta vez, parece que o meu amigo Frei Bento Domingues está mais com as minhas posições do que com as do reitor do santuário de Fátima. Mas que ele ainda dá mais na ferradura do que no cravo é manifesto. Para prejuízo da Verdade que nos faz livres. Saibam que é assim o Paganismo católico ou o Catolicismo pagão de Fátima. Um catolicismo carregado de Obscurantismo e de indignidade. Uma obscenidade em sessão (quase) contínua. As populações do mundo tolhidas por ancestrais e contemporâneos Medos continuam a correr para lá. Em vão. Pior, para seu mal. Vêm por redenção e regressam ainda mais perdidas e esmagadas. Vêm por dignidade humana e regressam ainda mais humilhadas. Vêm por saúde e regressam ainda mais doentes no corpo e na consciência. Dali, daqueles sinistros locais de religião, nunca sairão pessoas revolucionárias, dessas que o nosso mundo hoje tanto carece. Pelo contrário. A Lucidez não frequenta aqueles espaços. Tudo ali é obsceno e perverso. Por isso, avisadas andarão as pessoas e as populações, se fugirem de semelhante sítio. E, se não resistirem a passar por lá, num ímpeto de incontida curiosidade, apresentem-se, ao menos, de olhos bem abertos, para verem com os próprios olhos o imenso covil de ladrões que aquilo é, o enorme Mercado do Divino/Demoníaco que aquilo é, todo o Perverso e toda a Obscenidade que aquilo é. Se conseguirem manter-se assim por todo o tempo que lá permanecerem, talvez decidam, depois de regressarem a casa, escrever ao reitor e ao Bispo a dizer da vossa indignação e do vosso protesto. Nessa hora, façam das vossas palavras outros tantos sopros proféticos que derrubem toda aquela Ignomínia e dela não deixem pedra sobre pedra. Não foi assim que fez paradigmaticamente Jesus no seu tempo e país em relação ao Templo de Jerusalém?!
2007 OUTUBRO 15
A Comunidade é pequenina, de pessoas pobres e duas também com deficiência, poucas mais do que aqueles dois ou três aos quais Jesus, o do Evangelho de Mateus, se refere com emoção e dá a garantia de que sempre está no meio deles, quando se reúnem em seu Nome. E ontem, segundo domingo do mês - é sempre assim todos os meses, a partir das 15 horas, e aberto a quem queira integrar-se - aconteceu mais o nosso mais recente encontro ao vivo com Jesus ressuscitado e com o seu Espírito. O encontro teve lugar, como é também habitual há muitos anos, na Casa de Maria Laura e dos seus filhos, também chamada por isso, e bem, a Casa da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Teve tudo de seriedade. De alegria. De paz. De intimidade. De ternura. De afecto. De comunhão sororal/fraterna. De Partilha. Partilhámos com simplicidade as nossas vidas, no que elas tiveram de mais significativo, desde a última vez que estivemos reunidos, antes do interregno de dois meses para férias. Partilhámos a Palavra, a da Bíblia e a nossa. Partilhámos o Lanche. E, sobretudo, partilhámos o Pão Partido em memória de Jesus, sem dúvida, o Momento-Transfiguração mais intenso e fecundo do Encontro, em que o próprio Jesus ressuscitado se nos dirige em discurso directo, íntimo e único, desta vez, na pessoa do presbítero que presidiu maieuticamente à Celebração e que, nesse momento, como que desapareceu dos nossos olhos para só ficar Jesus sacramentalmente presente e interveniente. Ontem, o Pão Partido acompanhado da Palavra íntima e quente de Jesus que o Espírito nos diz nessa Hora, sempre nova e por isso irrepetível, tocou-nos particularmente a consciência até às lágrimas e alimentou em nós a dimensão jesuânica que cada mulher, cada homem, ateias, ateus que sejam ou agnósticos, todos havemos de desenvolver, sob pena de vivermos na História com um confrangedor défice humano, raquíticos, como abortos vivos. Tenho consciência do muito que há de polémico nesta minha afirmação, mas nem por isso deixo de a fazer, porque tenho a profunda convicção de que é uma afirmação soprada pela Verdade que nos faz livres. Com ela, proclamo publicamente a minha profunda convicção de que Jesus é o Dom, a Dádiva, a Graça maior de Deus Vivo à Humanidade, é o seu essencial património, o Homem/Ser Humano que a Humanidade precisa urgentemente de (re)descobrir e de acolher/seguir/prosseguir as suas causas, para chegar a ser o que está chamada a ser. Sei também que, no ponto em que hoje estão as coisas na sociedade ocidental e no mundo em geral, com as hierarquias das Igrejas, bispos e párocos católicos e pastores a viver e a fazer dinheiro à custa do Nome de Jesus e a ter o descaramento de se apresentarem perante os demais como poder sagrado com direito a privilégios sem conta, até dos Estados laicos como o nosso, em Portugal, é muito difícil à Humanidade perceber que, para o poder ser em plenitude, tem que desenvolver ao máximo a sua dimensão jesuânica. Mas a verdade é que ou ela o faz e leva a Criação ao seu termo, à Sororidade/Fraternidade universal, sem que nada nem ninguém, natureza, pessoa ou povo, fiquem de fora da Mesa comum, ou pura e simplesmente regride à pré-História, senão mesmo ao Nada! O encontro aconteceu e acontece regularmente na sala principal da Casa, o mesmo é dizer, num espaço familiar nos antípodas da nova igreja/basílica de Fátima, mais Centro comercial e Mercado religioso, do que pequenina Comunidade, a única onde as pessoas podem chegar a experimentar e a desenvolver a sua dimensão jesuânica de irmãs, irmãos universais. No grande Mercado religioso, ou grande Centro comercial, ou empresa multinacional de religião que é Fátima e a que a nova basílica veio trazer ainda mais enormidade, tudo, até a arte, é demoníaco, tentador, esmagador. Em lugar de ajudar as pessoas a ser e a crescer em ser e em liberdade, em dignidade e em sabedoria, esmaga-as, reduz-las a coisa, a devedoras/pagadoras de promessas, a anónimas, a desgraçadas, a ninguém! Só o Imponente, o Divino, o Poderoso, o Rico, o Obscurantismo, o Inumano, o Massivo, o Mentiroso, o Faz-de-conta, o Rito, o Cerimonial, numa palavra, o Demoníaco, se afirma sobre quem lá entra, lá se ajoelha e lá se experimenta completamente só e perdido no meio de tantas outras pessoas igualmente sós e perdidas, reduzidas a coisa, a mercadoria, a contribuintes, a devedoras/pagadoras de promessas. Em verdade, em verdade vos digo: o Deus da nova basílica de Fátima e do seu enorme recinto a descoberto é a partir de agora ainda mais o Demoníaco, de modo algum é o Deus de Jesus, Pai/Mãe, Filho/Filha e Espírito/Sopro Santo que nos faz irmãs, irmãos universais, livres e iguais. É o Demoníaco que confirma no Medo as suas devotas, os seus devotos e alimenta-os no Medo. Mantém-nas, mantém-nos oprimidos na Mentira. Exactamente nos antípodas da pequenina Comunidade Cristã de dois ou três reunidos em nome e em Memória de Jesus. Nesta, o seu Espírito/Sopro de Jesus sempre passa e alimenta-nos no ser e na liberdade, faz-nos crescer em sororidade/fraternidade e igualdade até à estatura de Jesus. Acreditem neste Evangelho, nesta Boa Notícia. E experimentem fazê-la acontecer na casa de alguma, algum de vós, com mais dois ou três. Em nome de Jesus, isto é, determinados a segui-lo e a prosseguir hoje e aqui as suas mesmas causas. Verão que assim é. Pelos frutos se conhece a árvore. Também Deus, se o Deus de Jesus, ou se o Deus do Demoníaco.
Deixo-vos, a concluir esta Boa Notícia, com o canto que ontem nos nasceu, a partir da escuta da Palavra (Génesis 18 e Lucas 5, 1-11) e que cantámos com música de José Afonso (Dorme, meu menino, a estrela de alva):
Velhos são os trapos
1 Com os teus vinte, trinta ou cem anos
estás sempre em tempo de gerar
basta que o Sopro de Deus Vivo
te consiga sempre fecundar
2 Quem como eu e tu veio ao mundo
vem com uma mui nobre Missão
ser presença viva de Deus Vivo
repartir com todos o seu Pão
3 Quem acolhe o Outro à sua mesa
mesmo sem ter nada p'ra lhe dar
torna mais humano o nosso mundo
pois é Deus quem entra no seu Lar
4 Velhos são os trapos, diz o Sábio
e outro tanto tu deves dizer
quem tornou possível o Presente
não é velho não, está a nascer
5 Nesses olhos teus brilha Futuro
que liga Passado e Presente
insensato é quem te despreza
fica sem Futuro e sem Presente
6 Vives hoje mais longe da Fonte
e cada vez mais perto do Mar
entre uma e outro quanto a lida
quantas lutas, dores, quanto Amar
7 Vestem-te a Ternura e a Paz
não sabes de ódios nem rancor
nem que te atirem para a margem
do teu frágil corpo brota Amor
8 Do teu frágil corpo brota Amor
com que sempre envolves quem te fere
pois já descobriste que esse é o jeito
de poderes ser homem, ser mulher.
2007 OUTUBRO 13
Mas então não é que faz hoje 90 anos que o sol, monumental estrela de fogo que garante a existência da vida no nosso Planeta Terra, saltou da sua órbita e veio por aí abaixo, à velocidade da luz, a bailar e a redopiar como um louco em direcção a Portugal e quase chegou a pousar nos ramos das azinheiras espalhadas pelos pedregosos terrenos, propriedade duma família de Fátima, concelho de Ourém, através dos quais os respectivos filhos, ainda crianças ou adolescentes, tinham todos os dias de levar a pastar os seus rebanhos, tarefa que eles desempenhavam escrupulosamente, mas sempre tolhidos de medo, ou todos eles e as populações da freguesia e das redondezas não estivessem informados pelas catequeses terroristas da paróquia, confirmadas depois pelas pregações ainda mais terroristas da chamada Santa Missão e pelas leituras à noite nas suas casas dos livros Missão Abreviada e Imitação de Cristo, que Deus estava em toda a parte, via tudo o que as pessoas faziam e, ainda por cima, era um Deus medonho que castigava sem dó nem piedade com o fogo eterno do inferno todos os pobres pecadores, concretamente, quem não fosse à missa ao domingo, não rezasse o terço todos os dias, ou se atrevesse a frequentar algum bailarico nas redondezas e a dar às escondidas um beijo à namorada, ao namorado?! Mas o mais espantoso de tudo é que os milhares de pessoas que já se haviam juntado naqueles terrenos cheios de pedregulhos, atraídas pelo fenómeno anunciado meses antes para aquele dia e local pelos mesmos eclesiásticos católicos que haviam concebido e escrito o guião do teatrinho das chamadas aparições da virgem entre os seis meses que iam de Maio a Outubro desse ano de 1917, não ficaram reduzidas a cinza, como teria fatalmente de suceder, se tudo fosse verdade, quando o sol veio a bailar e a redopiar até quase às suas cabeças. Milagre!, gritaram os eclesiásticos que por lá estavam disfarçados entre as populações crédulas e, na sua esmagadora maioria, também iletradas, no que foram logo secundados pelos histéricos gritos das muitas beatas, dos muitos beatos católicos presentes que sempre associam o nome de Deus e a Fé nele, não a muita lucidez e a muito trabalho, feito com inteligência e amor, mas a estranhos e esotéricos fenómenos infantilmente maravilhosos e a milagres-de-trazer-por-casa que os dispensem de trabalhar todos os dias com afinco e de estudar a valer, vida fora. E milagre foi, mas o milagre da estupidez, a mais crassa, que faz de Deus um brincalhão de mau gosto, uma espécie de artista de circo, de palhaço rasca e trapaceiro, de ilusionista sem escrúpulos, de comerciante sujo e corrupto, terrorista da pior espécie que, depois de manter as populações e os povos sob o seu terror, ainda se dá ao luxo de os ressuscitar no fim do mundo, só para ter o sádico prazer de os ver penar eternamente no fogo do inferno! Impressionante e incrível no meio de tudo isto - e também absurdo, o absurdo dos absurdos! - é que, 90 anos depois de toda esta vergonha nacional, todos os bispos do nosso país (vejam que não há sequer um que se atreva a distanciar-se de todo este cinzentismo e de toda esta estupidez, nem mesmo o novo Bispo do Porto que veio de Lisboa com fama de culto e de homem ilustrado, nem tão pouco o cardeal patriarca de Lisboa que durante anos foi reitor da Universidade Católica!), mais os cardeais do Vaticano e o próprio papa Ratzinger que é tido na conta de eminente intelectual e teólogo cristão (jesuânico é que não é, obviamente!) estão todos à uma com esta estupidez, com esta mentira e com este crime. Mas não só. Também alguns jornalistas da nossa praça, munidos de carteira profissional e tudo, continuam aí a reproduzir com enlevo esta demência colectiva, esta pantomina e esta parvoíce, como se Deus e a Fé em Deus fossem fonte de estupidez humana, oceano de obscurantismo, bacoquice servida em doses industriais. Entre estes profissionais de comunicação social, está também e com destaque, a conhecidíssima jornalista Áurea Miguel, da Rádio Renascença, que, como é público e notório, foi uma das jornalistas preferidas do papa fatimista João Paulo II, sucessivamente convidada por ele para o acompanhar de perto nas suas viagens pelo mundo, todas elas tecidas de discursos eivados de rançoso moralismo e de confrangedor anti-comunismo primário, um feito que ela orgulhosamente exibiu e ainda exibe como troféu, quando o facto deveria envergonhá-la, porque diz bem da sua manifesta falta de lucidez e de isenção, de consciência crítica e de coragem - virtudes que sempre devem vestir um profissional da comunicação social que se preze - e só por isso é que ela continua aí a ser incapaz de ver para lá do que os senhores do Império, do Dinheiro e do Templo (e o que é o Papa-chefe-de-estado-do-vaticano senão um dos principais protagonistas deste tenebroso universo que ajuda a manter a presente Ordem Mundial da nossa desgraça, pelos vistos, tão abençoada pela mítica senhora de Fátima e todas as outras míticas deusas e deuses?!) nos mostram quando falam, quando organizam e promovem viagens bem mediatizadas pelo mundo, para jornalistas filmarem e relatarem, como se fossem simples pés de microfone, mentecaptos, funcionários seus, lacaios, subservientes, vassalos, escravos, prontos a adulá-los e a idolatrá-los, por dinheiro, ou então por rastejante bajulação, ou por infantilista devoção. O documentário sobre Fátima na Rússia que ela concebeu/realizou e que a RTP1 exibiu ontem à noite, logo a seguir ao telejornal, é a prova acabada do que aqui acabo de dizer. Do princípio ao fim, um único objectivo: impor a mentira e o crime que Fátima e a sua senhora são desde a primeira hora! Onde a lucidez da jornalista? Onde a verdade objectiva? Onde o seu olhar crítico? Onde a sua audácia? Onde lugar e espaço para representantes da esmagadora maioria das pessoas do mundo que hoje, felizmente, já não se revêem nesta demência colectiva que é Fátima e neste insulto à inteligência humana e à Fé cristã jesuânica e, até, a Maria mãe de Jesus? Então a Revolução de Outubro de 1917 só ocorreu 15 dias depois de ter terminado o teatrinho levado à cena por clérigos católicos na freguesia de Fátima e já a pequenita Lúcia que ali vivia e nunca tinha ouvido falar em semelhante terra (os seus dois primitos, irmãos entre si, Francisco e Jacinta, ainda menos, pois em tudo aquilo foram só figurantes com ela, não actores a sério como ela!...) sabia que essa Revolução iria acontecer, e, sobretudo, sabia que a Rússia iria passar, por via dela, a ter um regime comunista ateu e que, depois iria "espalhar os seus males" pelo mundo?! Haja modos, senhoras, senhores! Não nos atirem carradas de poeira aos olhos. Precisamos de quem nos limpe os olhos e no-los abra, como sempre fez Jesus, o de Nazaré, que nem era jornalista!... E não precisamos nada de quem no-los cegue uma e outra vez. Porque é que a nossa comunicação social esconde sistematicamente - e este documentário ontem exibido também o faz de forma gritante e chocante - que há duas Fátimas, a do teatrinho organizado pelos padres de Ourém em 1917, sem qualquer conteúdo que interesse à humanidade, e a das Memórias da Irmã Lúcia, criada a partir de 1935, pela única sobrevivente do teatrinho que, depois disso, nunca mais pôde fazer uma vida como as outras raparigas, sequestrada que foi pelos mesmos clérigos que a utilizaram em 1917? Aliás, ainda está por descobrir quem escreveu as sucessivas Memórias que levam o nome da Irmã Lúcia, mas que manifestamente não são escritas por ela. Ora, é esta nova Fátima, a das Memórias, que continua hoje a ser imposta ao mundo pelo clero fatimista católico, com o empenhado apoio do Vaticano e do financeiramente poderoso Exército Azul dos Estados Unidos da América, e que mais não é do que uma mentira sem nome e um crime sem perdão! É apenas esta Fátima, inventada/divulgada a partir de 1935, que fala da Rússia, da conversão da Rússia (já eram temidas as suas internacionais e os seus projectos de levar a Revolução a toda a parte), das supostas aparições do anjo antes de 1917, da comunhão que ele teria dado às crianças (mas que bacoquice indecente e abjecta!), da oração absurda à Santíssima Trindade que lhes teria ensinado e que elas logo gravaram nas suas assustadas memórias e que Lúcia, tantos anos depois, quando é forçada a escrever/assinar as memórias, ainda recordava palavra por palavra (mas que prodígio de memória a desta freira carmelita de clausura à força e praticamente analfabeta!), do fogo do inferno que até o papa já disse não existe e que por isso só pode ter existido no perverso e assustado imaginário de clérigos reprimidos, geração após geração, de quase todas as suas dimensões fundamentais de seres humanos, nomeadamente, a da sexualidade e dos afectos, que não a da fome de poder eclesiástico e de dinheiro, muito dinheiro. E porque é que o documentário não disse nem mostrou como viviam as populações, antes da Revolução de Outubro, sob o domínio/terror dos Czares? E como viviam, em contraste com o viver proletarizado e miserável das populações, os próprios chefes maiores da Igreja Ortodoxa, os seus luxos, as suas riquezas, as suas liturgias sem profecia, os seus cultos sem entranhas de humanidade, as riquezas dos seus templos e dos seus mosteiros? Ou será que uma Revolução faz-se sem que haja um contexto social que a fomente e exija, desigualdades gritantes que fazem com que ela ecluda e se expanda? E a que propósito Fátima e a sua mítica imagem de mau gosto entram na Rússia do Comunismo e nunca entraram nos países do Capitalismo selvagem, nos países da miséria imerecida de então e de hoje, em África e América Latina, nem sequer entraram na nossa estúpida e criminosa Guerra Colonial para a denunciar e lhe pôr fim? Foi o ateísmo da República de 1910 e, depois, o ateísmo comunista soviético que meteu medo aos clérigos católicos que sempre têm estado a manipular a mentira e o crime que Fátima é e a aproveitar-se sacrilegamente disso, também e sobretudo, na sua vertente financeira? Mas o que os clérigos católicos mais devem temer, se forem minimamente fiéis ao Evangelho e ao Deus de Jesus, não é a idolatria? Não é a idolatria do Dinheiro que está aí, dia e noite, a espalhar os seus males, os mais inomináveis, pelo mundo? E que fazem os clérigos fatimistas para lhe saírem ao caminho e travarem os seus sucessivos genocídios? Rezam terços todos os dias? Missas em catadupa? Constroem e inauguram novas basílicas por 80 milhões de euros? Razão tenho eu em repetir/orar sem que a voz se me canse: Do Deus de Fátima, livra-nos, Senhor! Porque, sob a capa de Deus, o Deus de Fátima não passa de um poderoso vampiro, um polvo de muitas cabeças, que devora as populações, rouba-lhes o dinheiro e o ouro que lhes faz falta e ainda lhes tira a dignidade de seres humanos cultos e sábios, da mesma estatura de Jesus. Quem não vê que em cada 12-13 de Maio a Outubro de cada ano, Fátima é o altar maior da indignidade humana? Por isso, de tudo aquilo, de toda aquela imponência, como outrora do templo de Jerusalém, ao tempo de Jesus, não há-de ficar pedra sobre pedra. Tamanha indignidade humana não pode ter futuro. Porque a Humanidade, à medida que se tornar ilustrada e evangelizada, saberá afastar-se de lá. Em nome da sua sanidade mental!
2007 OUTUBRO 12
Quando esta tarde os altos clérigos católicos de Portugal e do Vaticano, numa acção conjunta com tudo de religioso/demoníaco (sabiam que o religioso tem tudo a ver com o demoníaco/alienador/desumanizador/desfraternizador que há em cada ser humano ainda não evangelizado, e que nada tem a ver com Deus Vivo, o de Jesus?!), inaugurarem a nova basílica de Fátima, pomposa e sacrilegamente denominada "da Santíssima Trindade", nenhum deles terá infelizmente a lucidez, muito menos a audácia - as duas andam sempre casadas com a humildade da verdade - de fazer escrever no seu frontespício, para poderem vir a ser lidas pelos muitos milhares de pessoas de todo o mundo que, para seu mal, vão cair na tentação de lá ir/entrar, na falsa expectativa de se encontrarem com Deus, aquelas lúcidas e corajosas palavras postas pelo autor do livro Actos dos Apóstolos (7, 48) na boca de Estêvão, o primeiro mártir cristão depois de Jesus: "Mas o Altíssimo [um outro nome de Deus Vivo] não habita em casas erguidas pela mão do homem!" Mas era o que eles de nenhum modo deveriam deixar de fazer lá escrever, se quisessem ser cristãos no seguimento de Jesus. Porque estas são as únicas palavras humanas que mais e melhor dizem/revelam a Palavra de Deus Vivo que a Humanidade pôde ver e ouvir, de modo integral e definitivo, há dois mil anos, na prática política/messiânica libertadora e misericordiosa de Jesus, o de Nazaré, sempre indissoluvelmente unida à sua palavra ilustrada e inspirada, e por causa do que, também ele, acabou por ser escandalosamente preso, julgado sumariamente e assassinado na cruz pelo Império romano e pelos chefes dos sacerdotes, poucos dias depois de ter tido a audácia profética de lhes destruir simbolicamente o Templo de Jerusalém que, desde os tempos áureos do rei Salomão, se fazia passar por santo local de culto, quando na verdade era o maior banco nacional dos judeus, por sagrada casa de oração, quando na verdade era o mais perverso covil de ladrões, por santuário (do povo) de Deus, quando na verdade era o local-mor da exploração dos pobres, onde nem mesmo as viúvas pobres - então, as pessoas mais pobres da sociedade, juntamente com os órfãos menores - escapavam de ser, sacrílega e vilmente, espoliadas do último cêntimo que porventura tivessem acabado de receber de esmola (cf. Marcos 12, 41-44). Aliás, àquelas sábias e corajosas palavras do protomártir Estêvão, poderiam e deveriam ser acrescentadas outras, ainda mais teologicamente lúcidas e libertadoras, por isso, mais inequivocamente de Deus Vivo, ditas pelo próprio Jesus, o do Evangelho de João (4, 21-24), no paradigmático encontro/diálogo teológico com os samaritanos, na pessoa da mulher samaritana, junto ao poço de Jacob. Diz assim Jesus à mulher samaritana/aos samaritanos (e, hoje, às pessoas que venham a ter a tentação de entrar na basílica dita da Santíssima Trindade, em Fátima, ou em qualquer outra basílica ou santuário do mundo): "Chegou a hora em que nem neste monte [Templo de Garizim], nem em Jerusalém [Templo de Jerusalém], haveis de adorar o Pai. (...) Chega a hora - e é já - em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito, por isso, os que O adoram devem adorá-lO em espírito e verda