DIÁRIO ABERTO
2006 OUTUBRO 26
Vem aí mais uma mão cheia de creches
e lares. A garantia acaba de ser dada pelo
próprio primeiro ministro em resposta aos
sindicatos da Função Pública que marcaram
greve geral para Novembro. Não se pretende
acabar de vez com a exclusão social. O que
se pretende é generalizá-la e domesticá-la.
É cada vez menor o número de mulheres
e de homens disponíveis para serem mães
e pais. E mais reduzido ainda é o número
de mães/pais dispostos a assumir a nobre
missão de educar. As creches e os infantários
nunca serão mães nem pais. Só estações de
recolha de crianças com a família por longe.
Educar é acompanhar como parteira cada
novo ser humano que vem a este mundo
para que nunca se torne clone de ninguém.
É despertar e desenvolver o criador único
que dorme em cada recém-nascido. Coisa
que o Poder nunca fará. Ao Poder só lhe
importam seres humanos feitos em série.
Abundam as escolas básicas e do Ensino
superior. E não há governo do Ocidente que
não aposte neste objectivo. As populações
aplaudem e colocam lá as filhas e os filhos.
Como se o Poder ao escolarizar gerasse
pessoas cultas e de olhos abertos. Não!
O Poder só gera pessoas amestradas.
Uma sociedade é tanto mais saudável
quanto menor for o Poder no seu seio.
Mal vai um país quando consente que o
Poder tudo decida e tudo organize. Não
quer outra coisa quem detém o Poder.
Temos de lhe resistir e organizar para
que o Poder diminua e nós cresçamos.
Pode parecer utópico mas a verdade
é que nesta aldeia onde vivo está a ser
erguido um Sinal que o será para todo
o povo do país e do mundo: um Barracão
de Cultura ganha forma por força do crer
e do querer da Associação As Formigas
de Macieira. E sem a bênção do Poder.
A Ternura e os Afectos são o alimento
que servimos a quem nos procura por
soluções. Não temos dinheiro para dar
nem empregos para distribuir. Partimos
o pão com as pessoas e convidamo-las
a partirem também o delas. Acontece a
Liberdade. E com ela a Alegria e a Paz.
Não entendem os do Poder esta Prática
Política que liberta para a liberdade e faz
senhores dos próprios destinos os pobres
que a Caridadezinha ao contrário condena
a viver de mão estendida até que a Morte
os leve. Quem pois quiser viver para fazer
outros viver terá no Barracão a sua casa!
2006 OUTUBRO 21
Um povo que acata decisões de governos
como o do primeiro ministro Sócrates e sua
equipa de ministros e secretários de estado
e que ainda se deixa guiar por bispos que
publicam notas a impor-lhe que vote “não” no
referendo sobre a lei do aborto só pode ser
um povo de menores e sem dignidade.
Já não bastava termos políticos rascas que
dão o dito por não dito com a maior das
facilidades. Temos também agora um
bispo portador de barrete cardinalício
que acaba de dar o dito por não dito na
delicada e polémica questão do aborto. E
não dizemos “Basta!” a tais senhores?
Em Igreja a existência de poder é o que
há de mais contrário ao Evangelho e ao
Espírito Santo. O poder existe mas apenas
como tentação à qual todos os crentes
havemos de resistir até ao sangue. Nem
sequer o poder ao jeito de pai. A advertência
de Jesus é clara: “E vós sois todos irmãos”!
Em sociedade tão pouco há-de existir o
poder. Ministérios e ministros sim. Serão
bem-vindos, se permanecem fiéis ao que
determina o Sopro dos respectivos étimos
– serviços e servos. Governantes-servos é
o que as sociedades e os povos carecem.
Nunca tiranos como os que hoje temos!
Escrevi tiranos e escrevi bem. Podia ter
escrito cruéis que bem estaria também. Ou
estes governantes não sejam meros paus
mandados do tirânico e cruel deus Dinheiro
apostado em edificar uma Europa-império
contra os povos. Os seus e os do resto do
mundo. Para que sejamos apenas coisas!
Ai dos povos que deixam o Poder existir e
funcionar nas mãos de minorias cheias
de privilégios e depois ainda acatam as
decisões económicas e políticas que lhes
impõem. Nunca alcançarão a maioridade.
Porque as minorias que os dominam são
implacavelmente tirânicas e assassinas.
Garantem-nos os media e as universidades
que já passaram os tempos das tiranias e
das ditaduras. E que hoje conhecemos o
tempo da Democracia e da Liberdade. São
as minorias tirânicas e assassinas no poder
que geram esta mentira e fazem-na ensinar
às novas gerações. E assim se perpetuam!
Um povo só é povo quando alcança
a maioridade. E se faz culto e sábio. Pode
e deve criar riqueza mas nunca ser o dono
dela. Apenas usufrutuário em pé de igualdade
com os demais povos do planeta. É longo e
penoso o processo para lá chegarmos?
Mais uma razão para começarmos já hoje!
2006 OUTUBRO 18
Levantar-se contra a pobreza é hoje
o que há de mais imperioso e urgente.
Mas tão bela palavra de ordem não passa
de hipocrisia ou de show mediático se
não começar por um levantar-se colectivo
contra as reais causas da pobreza e contra
quem faz do acumular riqueza o seu ofício.
Produzir riqueza é bom; acumular riqueza
é perverso. Distribuir a riqueza produzida
segundo as necessidades de cada ser
humano que vem a este mundo é a regra
básica do amor ao próximo. E sem amor
ao próximo não haverá sociedade de rosto
humano. Só de monstros e de suas vítimas.
Depois que o Dinheiro se autonomizou da
Economia e passou a valor absoluto com
tudo de um ídolo ou falso deus todos os seres
humanos ficaram em perigo. Quanto mais
correm atrás do Dinheiro mais se perdem
de si próprios e uns dos outros. O dinheiro
poderá crescer mas eles desaparecerão!
Ninguém come dinheiro. Comemos pão
e beleza. Ninguém bebe dinheiro. Bebemos
água e amor. Ninguém respira dinheiro.
Respiramos ar e liberdade. Ninguém edifica
o futuro sobre o dinheiro. Edificamos o futuro
sobre a poesia e o sonho. Ai dos ricos. Felizes
os pobres. É de Jesus – o Homem completo!
Conta o Evangelho que os saduceus do
seu tempo não gostavam nada de Jesus.
Só do dinheiro. Chamados a escolher entre
Jesus e o dinheiro escolheram o dinheiro. E
a Jesus mataram-no com o género de morte
mais humilhante do tempo. Para que nunca
mais alguém olhasse para ele como exemplo.
Mas só os saduceus do século XX realizaram
o feito mais anti-Jesus que foi criar o dinheiro
como valor absoluto com tudo de falso deus.
Deslumbrados com o que podemos fazer com
ele corremos Ceca e Meca para termos mais
e mais dinheiro. Resultado: cresce o dinheiro
e nós desaparecemos como seres humanos.
Diz-me o dinheiro acumulado que tens e
dir-te-ei quanto há em ti de monstro. Por
ora ainda vês os filhos e a mulher/o marido;
mas dias virão – e já estão aí – em que nem
os filhos verás nem a mulher/o marido. Só
o dinheiro. E toda a gama de falsos amores
que ele te deixa adquirir/trocar. Mas… e tu?
Este é o tempo do Dinheiro à rédea solta.
O tempo da perversão e da inumanidade.
Precisa de ser o tempo de Jesus. Ou nos
abrimos ao seu Sopro/Espírito soroal/fraterno
ou acabamos pior que monstros. Levantar-se
contra a pobreza é resistir ao Dinheiro e fazer
corpo com os pobres. É sermos outros Jesus.
2006 OUTUBRO 13
Diz a Tradição que enquanto os bárbaros
invadiam o Império romano os padres
conciliares reunidos em Roma discutiam
o sexo dos anjos. E hoje que o país tem
a Infantilidade na chefia do Estado
e a Arrogância na chefia do governo
o discurso sobre os anjos está de volta.
Decididamente certa inteligência católica
não tem emenda. As suas universidades
mais parecem campos onde ela semeia
o joio da Alienação e promove o culto
do Egoísmo. Para que o reino do Dinheiro
possa continuar aí a impedir o florescimento
do Reino de Deus anunciado por Jesus.
Bem sei que os dois Testamentos bíblicos
estão cheios de referências a anjos. E todas
as Religiões contêm relatos com anjos no
papel de protagonistas. Mas também sei
que esses eram tempos em que o Mito
andava à solta e o Infantil enchia o viver e
o imaginário das sociedades e dos povos.
Admitir que ainda hoje o anjo Gabriel nos
traz boas notícias ou que o anjo Rafael
nos acompanha dia e noite para nos livrar
dos perigos já não é apenas infantil. É
cegueira e crime. Porque é esconder que
hoje o Poder e o Dinheiro nos mantêm
cientificamente sob a Mentira e o Medo!
No tempo dos Mitos e do Infantil os anjos
tinham o seu lugar no imaginário dos pobres
e chegaram a funcionar como símbolos
de Subversão e Resistência aos sacerdotes
e reis com poder absoluto. Mas a prática
de Jesus veio revelar que protagonistas no
Mundo só os seres humanos. Bons e maus.
Não é por défice de inteligência que o mundo
hoje está doente. Pior está indecente. Nunca
como hoje houve tanta e tão desenvolvida
inteligência. O que nos envergonha e degrada
são os projectos que as minorias do Ter-Poder
e Religiões concebem e aplicam de forma
científica. São todos perversos e assassinos.
O Dinheiro quando se autonomiza dos
seres humanos e se perfila diante deles
como o único deus que devem adorar/servir
incondicionalmente torna-se o Inimigo
maior da Humanidade e a Fonte de toda
a Perversão. É o anti-Deus Vivo em toda
a sua luciferina ignomínia. E nisso estamos.
Por mim jamais irei por aí. Dinheiro na
minha vida só como meu servo nunca como
meu senhor. E só ao serviço de Causas que
promovam o ser e o viver das pessoas e dos
povos. Para que sejamos e vivamos em
abundância. O que não for assim é idolatria
que nos mantém no Infantil e no Medo.
2006 OUTUBRO 10
Viram todos nas tvs aqueles senhores bem
vestidos e bem pagos na tomada de posse
do novo procurador-geral da república?
Ouviram os discursos que proferiram
contra a corrupção que grassa no país?
E as garantias que nos deram de que ela
tem os dias contados? E acreditaram?
Eu ouvi e não acreditei. Toda aquela
encenação é a prova maior de que a Grande
Corrupção tem as costas quentes e pode
prosseguir sem sobressaltos. Para isso servem
o D. Quixote e o seu Sancho Pança. Mais os
seus burilados discursos. A plebe aplaude até
às lágrimas e a Grande Corrupção continua.
Como pode o Poder político combater
a Grande Corrupção se ele próprio é fruto
dela e existe para lhe dar cobertura e até
um certo estatuto de legalidade? Será que
somos tão ingénuos que não sabemos que
os burilados discursos anti-corrupção são
o melhor escudo da Grande Corrupção?
É próprio dos ingénuos em Democracia
pensar que são os votos das populações
quem escolhe as minorias privilegiadas que
sucessivamente dão corpo ao Estado e aos
respectivos órgãos do Poder. Não sabem
que os votos de quatro em quatro anos são
o dedo que aponta para a Lua. Não a Lua.
Nunca o Poder aceitaria a Democracia com
os seus sucessivos actos eleitorais se estes
fossem para dotar o Estado de incorruptos
a toda a prova. A Democracia mais não faz
do que dar aos oprimidos a oportunidade de
escolherem os seus opressores. E quando
os tira do Poder não lhes retira os privilégios.
Nenhum Poder subsiste sem a Grande
Corrupção. Poder e Corrupção são duas
faces do mesmo Pecado. Têm por pai
a Mentira e não olham a meios quando se
trata de impor a sua lei. No tempo das
tiranias combatiam a Democracia que hoje
financiam e impõem para melhor reinar.
“Vós sois o sal da terra” – diz Jesus aos
homens e mulheres de todos os tempos e
lugares que o queiram ser a valer. Mas logo
adverte que quem se vende por Dinheiro
salta fora da Humanidade para ser pisado pelas
botas do Poder. Ricos e privilegiados que
sejam não passam de escravos e vassalos!
Esperam-nos tempos difíceis e violentos
no país e no Ocidente. A Grande Corrupção
hoje veste de Estados nacionais e até de
Igrejas. Impõe às pessoas e povos a ditadura
da Mediocridade e aos poucos que lhe resistem
e permanecem sal da terra mata-os na Cruz
do desprezo e da ignomínia. Como loucos.
2006 OUTUBRO 06
É com alegria que partilho aqui o texto de abertura da edição on-line n.º 163 Outubro / Dezembro 2006, do Jornal Fraternizar . Se é daquelas pessoas que ainda não recebe em casa a edição em papel, tem uma oportunidade de a ler no meu outro site: www.padremariodalixa.cjb.net Basta abrir e clicar em "Textos Fraternizar", n.º 163. Eis.
De novo, o referendo ao aborto
Por uma significativa vitória do Sim!
O país vai regressar ao referendo sobre Lei da despenalização do aborto. Como será a posição da hierarquia da Igreja? Para já, o senhor cardeal patriarca de Lisboa aconselha que os bispos e os párocos deixem isso às leigas, aos leigos. O que é um dado novo que se saúda. Finalmente, alguns bispos começam a reconhecer que a Igreja não se esgota nos bispos e nos párocos. E que a Igreja é, prioritariamente, o Povo de Deus, onde os bispos e os párocos também se incluem. Mas a Igreja não é os bispos e os párocos! O ministério ordenado não é a Igreja, muito menos um poder sobre o povo de Deus. É um serviço ao Povo de Deus. E pode existir em múltiplas outras formas, para lá desta que hoje conhecemos e que, felizmente, está em vias de extinção. Pode inclusive integrar mulheres em todos os graus de Ordem. E não apenas pessoas celibatárias, mas também casadas e viúvas.
É novo também que os bispos reconheçam publicamente que, em matéria de lei de despenalização do aborto, sim ou não, cabe sobretudo às leigas, aos leigos, mais do que a eles e aos párocos, a decisiva palavra! Saúde-se este passo em frente! Sinal de que, finalmente, o Concílio Vaticano II começa a aparecer entre nós! Os jornalistas dos grandes media estranham esta linguagem, nova para eles. E ficam um pouco aos papéis. Sem saberem a quem se hão-de dirigir, quando quiserem apurar o que pensa a Igreja. Porque leigas e leigos são muitos. Assim como são muitas também as opiniões. Ser Igreja é ser povo de Deus, numa pluralidade de opiniões e de práticas. Lá se vai então a unanimidade. Ficará a Unidade na pluralidade de opiniões e de práticas. Lá se vai o uniforme. Afirma-se cada vez mais o pluriforme. E a comunhão no Espírito! Alegremo-nos!
Com a questão colocada nestes termos – o que é novo entre nós – é de crer que, desta vez, o referendo diga maioritariamente sim à Lei de despenalização do aborto. As mulheres e os homens que sabem o que é ter filhos de forma responsável – coisa que os bispos e os párocos celibatários mais ou menos à força nunca souberam com um saber de experiência feito – não é de crer que aconselhem as pessoas a votar em massa contra esta Lei. Ninguém, com sensibilidade humana e com entranhas de humanidade, pode hesitar entre abortar nos hospitais públicos, dentro dos parâmetros que a Lei prevê, e abortar clandestinamente, às mãos de habilidosas ou em clínicas privadas sem escrúpulos. Mas esta é a opção que vai a referendo. Não se trata de escolher entre abortar e não abortar. Mas entre abortar com segurança nos hospitais ou abortar por entre os riscos e o ferrete da clandestinidade. Porque abortar sempre se abortou. Com lei, ou sem lei. E ninguém melhor que as mulheres e os homens com famílias concretas ao seu cuidado, para se pronunciarem com equidade sobre esta questão.
Trago aqui esta temática à reflexão, não só pela sua manifesta pertinência e actualidade durante as próximas semanas, mesmo durante os próximos meses, mas sobretudo porque nesta edição n.º 163 Outubro / Dezembro 2006, do Jornal FRATERNIZAR publicamos o texto integral duma conferência sobre os direitos reprodutivos e sexuais das mulheres, que por nada deste mundo podem deixar de ler/divulgar/debater. Foi proferida no XXVI Congresso de Teologia de Madrid, que o nosso Jornal acompanhou. Em nome do Colectivo internacional “Católicas pelo Direito a Decidir”. A questão do aborto é também abordada. Com ciência e fé. De modo a deixar sem fala os bispos e os párocos que, até agora, sempre se comportaram como se fossem os únicos com direito a pronunciar-se sobre esta matéria na Igreja. Cliquem em “Textos Fraternizar” e deliciem-se!
Deixo-lhes a minha Paz. Num abraço e num beijo.
Mário, presbítero da Igreja do Porto.
2006 OUTUBRO 03
O Semanário de Felgueiras, de 30 de Setembro, publica uma extensa entrevista comigo. Procurei ser conciso nas respostas. Mas as perguntas são 14. Felizmente, o jornalista PEDRO ALVES que mas formulou não se assustou com as minhas respostas e conseguiu que a entrevista fosse publicada na íntegra. O facto é digno de registo. A entrevista é ousada. Nela apresento-me de coração aberto. Como um menino. Há quem se mostre escandalizado com tamanha frontalidade. Num tempo que volta a ser dominado pelo Medo, esta entrevista representa um acto de coragem. Sobretudo para o Semanário de Felgueiras. Desde que me conheço, bato-me por Causas. E quem se bate por Causas não frequenta a escola do politicamente correcto. Apenas a Escola da Verdade. Felicito o Semanário. E o meu camarada de profissão. Leiam a entrevista com calma, como quem medita. E deixem-se fazer pela Verdade que a atravessa. Porque só a Verdade nos faz livres. Eis.
1. O seu regresso a Macieira da Lixa foi simbólico, pensado, inusitado ou resultou de um qualquer outro factor?
R. Foi maduramente pensado. Várias razões pesaram para este meu regresso. Desde logo, porque esta terra me crismou ou confirmou no Espírito Santo, razão porque eu passei a ser mais conhecido por “Pe. Mário de Macieira da Lixa”, ou, simplesmente “Pe. Mário da Lixa”. Vejo neste facto uma marca indelével do Espírito Santo que desde cedo me assinalou como padre para a missão principal de todo o presbítero da Igreja, que é Evangelizar os pobres. Há uma segunda razão que decorre desta: Desde que fui aqui pároco, Macieira da Lixa tornou-se, não por méritos meus, mas por inefável Acção do Espírito Santo em mim e neste povo, ao tempo muito pobre e ignorado, num Lugar Teológico do Deus de Jesus que, aqui, se nos revelou e, por nós, à Igreja e ao mundo, como um Deus que gosta de política e não de religião. Esta revelação constitui uma revolução teológica que a Igreja institucional continua a não querer assumir e integrar, porque, desde há séculos, toda ela está organizada para ser e funcionar como uma empresa multinacional de religião, com múltiplas sucursais em todo o mundo que dão pelo nome de paróquias, preparadas sobretudo para produzirem e venderem determinados serviços religiosos, a começar nas missas pelos mortos e a acabar nos casamentos e nos funerais. Por isso, nunca mais fui capaz de me desvincular desta terra, nem de a deixar de vez. Ela continuou e ainda hoje continua a andar colada ao meu nome. Até que tive de regressar, ainda e sempre em obediência ao Espírito Santo, para, a partir duma casinha alugada onde vivo, numa grande contemplação interior, continuar a deixar-me evangelizar por este Deus que gosta de política e, nessa medida, continuar também a anunciá-lo à Igreja e ao mundo. No fundo, vim dar continuidade ao trabalho teológico que foi abruptamente interrompido, por ocasião da minha 2.ª prisão política em Caxias, quando o Bispo António Ferreira Gomes, numa clara cedência aos interesses do poder eclesiástico e da Concordata, e à pressão de alguns párocos da zona pastoral da Lixa (um projecto que chegou a nascer com a minha nomeação para a paróquia, mas que eles fizeram rapidamente abortar), acerca dos quais o próprio Bispo António me confidenciou por mais duma vez que eram os meus piores inimigos, que lhe escreviam regularmente cartas contra mim, e ainda ensinavam certos paroquianos seus ou de outras paróquias vizinhas a escrever-lhe também.
2. Como é que encontrou o concelho de Felgueiras?
R. Encontrei-o bastante melhor do que naqueles tempos. As populações estão hoje muito mais desenvolvidas socialmente, muito mais autónomas, muito mais libertas dos senhores abades e de certos caciques locais. Os problemas são outros, porventura mais graves que então, mas há hoje nas populações mais capacidade para os enfrentar e superar, senão pela via institucional, pela via subterrânea ou paralela. Posso notar menos solidariedade entre as populações de cada freguesia e entre freguesias vizinhas, mas também porque as populações evoluíram e tornaram-se mais habilitadas para se “desenrascarem” por si próprias. Há injustiças estruturais que urge pôr a nu, para que as populações se acautelem delas e não embarquem em tudo o que reluz como sinal de desenvolvimento. Porque o sucesso material de uns poucos tem sempre um pecado mortal escondido no bojo. De resto, o verdadeiro desenvolvimento não se mede pelo sucesso material de alguns, mas pelo desenvolvimento cultural e espiritual de toda a população. Neste aspecto, há ainda um gigantesco trabalho a promover no concelho e não se fará sem as populações. Pelo contrário, têm que ser as populações a protagonizar este esforço, organizadas em associações culturais de base, sem padrinhos do tipo daqueles que, depois de terem subido à custa de atropelarem sucessivamente a verdade e a justiça, ainda se fazem passar por benfeitores!
3. Manteve sempre a ligação à comunidade cristã de base de Macieira de onde surgiu a Associação As Formigas de Macieira da Lixa. Que actividades têm desenvolvido e que projectos têm em mente?
R. É verdade que mantive sempre ligação à pequena Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Fi-lo de forma totalmente gratuita e maiêutica, isto é, libertadora. Nunca quis ser o dono da Comunidade. Por isso, trabalhei, desde dentro, para que, a partir de certa altura, a Comunidade gerasse o seu próprio presbítero. Surpreendentemente, não foi um presbítero, mas uma presbítera. É ela, de seu nome Maria Laura, quem preside à Comunidade e, nos momentos mais significativos no caminhar da Comunidade, Parte o Pão e o Vinho em Memória de Jesus. É, evidentemente, uma presbítera não-ordenada pelo Bispo da Diocese, mas, na sua simplicidade e espontaneidade, não fica nada aquém da generalidade dos presbíteros ordenados que estão por aí à frente das paróquias, com mais de funcionários eclesiásticos e de sacerdotes pagãos do que de presbíteros da Igreja. Em muitos aspectos, ela é até bastante superior em qualidade de serviço, porque tem o jeito feminino de viver o ministério presbiteral e é fortíssima a sua ligação ao povo, sobretudo ao mais empobrecido e desprezado. Ela própria é povo. A actividade da Comunidade consiste fundamentalmente em ser uma presença orgânica com a população e entre a população da freguesia e não só. Há uma ligação com a população ao jeito da que existe entre os membros do nosso corpo. Somos na freguesia uma sentinela dos mais pobres e dos menos capacitados. Na Comunidade todos eles encontram o ponto de apoio de que necessitam para se erguerem e começaram a andar pelo seu próprio pé, sem nenhuma daquelas diversas subserviências que a caridadezinha eclesiástica costuma gerar e alimentar. Os doentes acamados e solitários são os preferidos da missão da Comunidade. A Bíblia é estudada de forma científica e numa dinâmica libertadora que nos alimenta espiritualmente na caminhada e nos habilita a dar razões da nossa esperança a quem se nos dirige com problemas de diversa ordem, onde não faltam também problemas decorrentes de perversas interpretações da Bíblia, que certos pastores e Igrejas criminosamente fazem, para assim terem cada vez mais clientes a pagar-lhes o respectivo dízimo. A reflexão teológica libertadora também tem lugar de destaque na vida da Comunidade. Mais do que orar com fórmulas ou com palavras nossas, procuramos que seja o Espírito Santo a orar em nós, nos liberte de todos os medos e nos empurre para a Missão ao perto e ao longe e para aquelas práticas solidárias e libertadoras que ajudam a curar e a dignificar os mais pobres e os mais desprezados, até que eles se tornem protagonistas e sujeitos e nos dispensem. O canto também tem grande espaço na vida da Comunidade. São cantos que nasceram e continuam a nascer na própria Comunidade. Cada letra tem a sua história. E é até possível contar a história da Comunidade a partir dos cantos que nos nasceram como outros tantos filhos, ao longo dos anos.
4. O vosso grande projecto é a construção do Barracão de Cultura. Em que ponto está esse processo e como tem sido a saga dos apoios?
R. O Barracão de Cultura é o grande projecto da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. Aliás, a Associação nasceu, como um parto da Comunidade, para lhe dar corpo e vida própria. Percebemos que em cada freguesia do nosso país deveria haver um Barracão de Cultura semelhante a este nosso, totalmente independente da paróquia, gerido pela população organizada em associação de base, e sem qualquer interferência do pároco. É nossa convicção que foi muito prejudicial para as populações ter existido, ao longo dos séculos, apenas a igreja paroquial nas freguesias, onde o pároco era prepotentemente rei e senhor. Quando passar a haver paralelamente à igreja paroquial um Barracão de Cultura como o que estamos a erguer aqui em Macieira, as populações serão totalmente outras, e até a Fé cristã, se ainda vier a ter quem a viva, será necessariamente uma fé testada numa prática política feita de entrega da própria vida e também de desmascaramento e de enfrentamento militante contra o chamado Anti-Reino de Deus, cujos mentores maiores, no passado, chegaram muitas vezes a medrar à sombra das paróquias e a ocupar lugares de destaque, por exemplo nas comissões fabriqueiras e nas comissões de festas, sempre com a cumplicidade do senhor abade. E também com o respectivo proveito. Nesta data, o Barracão de Cultura está a terminar a fase de construção em grosso. Apoios? O projecto de arquitecto foi feito de graça. O engenheiro fez as especialidades de graça e acompanha e fiscaliza a obra também de graça. A Câmara Municipal isentou-nos das taxas em todo o processo burocrático. Uma empresa conhecida no mercado ofereceu-nos todos os blocos e tijolos. O dinheiro que eu próprio recebo como direitos de autor pela venda dos meus livros tem revertido integralmente a favor da construção. E há ofertas em dinheiro, umas maiores, outras mais pequenas, de múltiplas pessoas de perto e de longe. Mas a verdade é que ainda não temos dinheiro para as fases que se seguem. Sabemos que há dinheiro por aí, mas não nas nossas mãos. Confiamos que haverá quem se disponha a partilhar com as “Formigas de Macieira”. Até porque o Barracão de Cultura não é uma obra qualquer. É um sinal ou sacramento de libertação levantado nesta freguesia que grita/anuncia ao país e ao mundo que a glória de Deus é que as populações cresçam em cultura e sabedoria, vivam de olhos abertos, pratiquem a Justiça, partilhem a riqueza e sejam donas dos próprios destinos.
5. O senhor diz num dos seus livros que Deus não gosta de religião mas sim de política. E o Padre Mário também gosta de política? Para quando uma participação na política partidária?
R. Se Deus gostasse de religião e não de política, seria um Deus ópio do povo, um instrumento mais de alienação das populações. A religião é o culto do Medo. Ao contrário, a Fé cristã, vivida no jeito de Jesus, o de Nazaré, é a libertação do Medo para sermos livres e responsáveis pelo mundo e pela História. Ora, a responsabilidade pela História é o que eu chamo Política, com maiúscula. Também há política com minúscula, como minúsculos são os que a protagonizam. A essa política que se confunde com lutas fratricidas pelo poder e pelos privilégios, vomito-a, tal como Deus a vomita. Como padre/presbítero da Igreja, procuro viver a Política, não a religião. Por isso ocupo-me com as pessoas e as suas aspirações. Bato-me para que a Terra seja Reino de Deus, um espaço onde floresça a Justiça e as pessoas sejam irmãs e não Caim umas para as outras. Uma participação partidária nunca esteve nos meus horizontes, porque o poder nunca me seduziu. Como padre/presbítero da Igreja, quero ser um homem que toma partido, mas não tem partido. O partido pressupõe exercício do poder. E eu vejo o Poder como uma tentação demoníaca. Do que a Humanidade precisa é de Política praticada desinteressadamente, não de poder. O Poder sempre oprime, infantiliza, diminui e, em última instância, mata. Ora, eu nasci e vim ao mundo para dar testemunho da Verdade e para que todos tenham vida e a tenham em abundância.
6. Como vê a actuação dos nossos políticos?
R. Os políticos profissionais que hoje temos são um perigo público. Não são exemplo para ninguém. Mentem que se fartam. Fazem promessas que sabem bem que nunca cumprirão. São ambiciosos. Querem o poder e os privilégios que o poder garante a quem o serve. São corruptos. Deixam-se subornar. Gostam dos primeiros lugares nos banquetes. Gostam de ser saudados nas praças. Passeiam-se nos seus carros de luxo e não passam cartão aos antigos camaradas. Gostam de subir em vez de descer. E quanto mais sobem em privilégios e em poder, menos humanos são. Que me desculpem os poucos políticos profissionais que tudo fazem para permanecerem honestos, mas não posso deixar de dizer que, na generalidade, os políticos profissionais que hoje temos não são modelo para ninguém. Talvez por isso, as novas gerações nem podem ouvir falar de política. Fossem os políticos profissionais como Jesus, o de Nazaré, avessos ao poder e aos privilégios, os últimos e não os primeiros, servidores desinteressados e não oportunistas, transparentes e não corruptos, companheiros e irmãos das populações e não os seus novos donos e os seus novos caciques, e tudo seria diferente. Assim, como estão as coisas hoje, o país não vai a lado nenhum. E, se vai, só pode ser para a desumanização e para a selva, onde quem tem o poder é rei e os outros são seus vassalos!
7. Que políticas acha que fazem falta ao concelho de Felgueiras?
R. Fazem falta políticas com Política com maiúscula. Não só no nosso concelho de Felgueiras, mas em todos os concelhos do nosso país. E no mundo em geral. As políticas sem Política são arranjinhos, são favores a este e àquele, são compadrios de toda a ordem, são empreendimentos locais a troco de votos em próximas eleições, são compra de votos, são comportamentos tão degradantes que nem é bom dizer. Faz falta uma revolução na Política. Acabemos duma vez por todas com os políticos profissionais e trabalhemos com humildade para que as populações sejam políticas. Sejam populações dotadas de consciência ilustrada, populações organizadas e populações protagonistas. Em lugar de delegarem nos políticos profissionais a resolução dos problemas, sejam elas a tomá-los em mãos e a resolvê-los, num clima de liberdade e de total transparência e, porque não dizê-lo?, num clima de amor mútuo.
8. Como é do conhecimento geral, o Padre Mário mantém um diferendo com a Igreja Católica. Explique-nos lá, em termos genéricos, o ou os porquês desse desencontro?
R. Diz-se por aí que eu mantenho um diferendo com a Igreja católica, mas não é verdade. Como poderia eu manter um diferendo com a Igreja católica, se também sou Igreja Católica? Amo a Igreja como a mim mesmo. A verdade é outra. Quase desde o início do meu ministério presbiteral, que certa hierarquia católica tem tido grande dificuldade em acatar e integrar o meu jeito de ser padre/presbítero e de viver a Fé cristã em Igreja. Para o Bispo das Forças Armadas, por exemplo, ao tempo da Guerra Colonial, fui considerado como “um padre irrecuperável”. Porquê? Porque, enquanto capelão militar na Guiné-Bissau, defendi nas homilias da missa dominical os direitos dos povos colonizados à autonomia e independência e depois, quando “apertado” por um seu assessor que me procurou com ameaças para que eu renegasse do que havia dito, jamais me submeti ou negociei! E fui expulso! Mais tarde, já como pároco de Macieira da Lixa e depois da primeira prisão política em Caxias, o Bispo D. António Ferreira Gomes pretendia que eu não continuasse mais a denunciar a Guerra Colonial, porque poderia voltar a ser preso, como de facto fui. Estava em jogo para a Igreja manter a Concordata, porque, ao abrigo dela, eu, enquanto pároco, não poderia ser preso e, se o fosse, não poderia ser condenado em Tribunal Plenário, desde que fizesse prova de que tudo aquilo de que era acusado caía dentro da alçada do ministério eclesial. E porquê? Porque a Concordata reconhecia à Igreja a liberdade plena para exercer o seu ministério. Como eu não desisti de falar e de denunciar a Guerra Colonial, o que fez o Bispo António? Retirou-me o título de pároco de Macieira da Lixa, embora me mantivesse em funções, sem a Carta de Pároco, com “juridisção permissiva” (palavras dele). E, quando, alguns meses depois, a PIDE me prendeu pela 2.ª vez, nesse mesmo dia, o Bispo decidiu unilateralmente e por sua conta e risco, que eu não era mais o pároco de Macieira. É de bradar aos céus. Pessoalmente, só soube disso, quando, onze meses depois de ter estado na cadeia, fui de novo mandado em liberdade pelo Tribunal Plenário do Porto, no termo do respectivo julgamento. E nessa mesma altura vim a saber também que o Bispo que me tinha armado este laço, de me manter na paróquia sem a Carta de pároco, para, assim, poder retirar-me a qualquer momento, chegou a querer enviar uma Nota episcopal aos jornais da época, a esclarecer que não fora preso o pároco de Macieira, como eles haviam noticiado no dia a seguir à minha detenção, mas sim o Pe. Mário. Para o Bispo António, este pormenor era essencial. Porque a minha prisão já não implicava com a Concordata. Só como pároco, dado o carácter institucional da função. Enquanto padre, simplesmente, a Igreja-instituição já não se sente implicada na minha actuação. Pois bem. Eu sei de tudo isto desde sempre. E nem assim me zanguei nem bati coma porta. Apenas me fiz jornalista profissional, para poder continuar como padre na Igreja, sem ser pesado a ninguém. Viveria daí em diante à custa do meu próprio trabalho. E assim tem sido até hoje. A pequena reforma com que agora vivo é dos anos de descontos que fiz enquanto jornalista para a Caixa de Previdência dos Jornalistas. E digo-o aqui sem que a voz me trema: pode haver quem ame muito a Igreja, mas mais do que eu não haverá. Incompreendido como nenhum outro pelos meus irmãos do presbitério do Porto e pelos sucessivos bispos que têm estado à frente da Igreja do Porto, mas presbítero da Igreja sempre. Sem ofício pastoral oficial, há mais de 30 anos, porque os sucessivos bispos da Diocese assim o entendem, mas presbítero da Igreja do Porto, sempre. E sempre incansável ao serviço do Evangelho de Deus. Mas se, mesmo assim, me quiserem acusar que mantenho um diferendo com a Igreja, não lhes levo a mal. Tudo suportarei por amor do Evangelho de Deus e dos pobres.
9. As posições que tomou acerca de temas que são “sagrados” para uma grande maioria dos portugueses, como por exemplo Fátima, criaram-lhe inimizades?
R. O meu livro Fátima Nunca Mais, já com 11 edições, acabou, sem eu querer, por representar a minha segunda imagem de marca eclesial que me identifica em qualquer lado. A primeira foi, como se sabe, a de padre de Macieira da Lixa. A segunda, é a de padre católico contra Fátima. Esta minha denúncia da mentira de Fátima e do crime que objectivamente essa mentira consubstancia, trouxe-me muitas felicitações e bênçãos, da parte de um sem número de pessoas que nem sequer conhecia, mas também muitos dissabores e até ódios católicos, sobretudo, entre as gentes do Norte do país, oprimidas que vivem nos seus inconscientes medos de deusas e de deuses, que remontam já aos tempos mais primitivos do Paganismo. São populações crédulas, mais do que crentes, que correm montes e vales para irem ver uma imagem que dizem estar a chorar sangue, ou uma doente paralítica neurótica que dizem que só se alimenta com a hóstia que o pároco lhe dá em comunhão. Nas suas devoções e crenças (em deuses e demónios, mais em demónios do que em deuses, ou em deuses que são ao mesmo tempo demónios), tecidas todas elas de medos ancestrais, as populações sempre foram levadas a pensar que as imagens de todas as nossas senhoras que por aí estão nos santuários a sugar-lhes o dinheiro e o ouro de esmolas e de promessas, são representações de Maria, a mãe carnal de Jesus. Os párocos que bem se governam com todo esse dinheiro e todo esse ouro (para mais, está isento de impostos ao Estado!), nunca lhes dizem – seria o fim do seu negócio religioso – que essas imagens não passam de toscas representações, feitas por habilidoso santeiro ou artesão, da mítica deusa virgem e mãe, dos primitivos cultos do Paganismo que continuam aí ainda bem vivos, apesar dos dois mil anos de Cristianismo. As populações procedem assim, porque são vítimas dos seus medos e da sua ignorância teológica. São muito devotas, vão muito à igreja e não faltam nunca à missa aos domingos, mas continuam a ser populações por evangelizar. Digo-o com lágrimas de dor. Os párocos, a quem as populações geralmente acarinham e enchem de dinheiro, não repartem com elas o Evangelho ou Boa Notícia de Deus, como seria de esperar. São mais mercenários do que pastores. Fazem do ministério um modo de vida como outro qualquer, da classe média alta. Chego a pensar que muitos deles nem Fé cristã têm. Pelo menos Fé cristã jesuânica. Pois bem, entre populações assim tão maltratadas pelos sucessivos párocos, esse meu livro caiu como uma bomba. Mas, se virem bem, é uma bomba cheia de ternura, de Verdade, de fraternidade, de carinho, de entranhas de humanidade. É uma bomba cheia de Evangelho de Jesus. E de Espírito Santo. Oxalá, as populações se deixem libertar pela mensagem evangélica que as suas páginas nos oferecem.
10. De que forma o “divórcio” com a Igreja mudou a sua vida?
R. Como já disse, da minha parte nunca houve “divórcio” com a Igreja. Continuo a ser Igreja, mesmo longe dos templos e dos altares. E tomara eu que toda a gente que é Igreja fosse como eu, longe dos templos e dos altares, congregada em pequenas comunidades cristãs de base, a reunir nas casas uns dos outros. Quando me vi sem ofício pastoral e a trabalhar profissionalmente como qualquer outro cidadão que se preze, comecei a perceber que o Espírito Santo me chamava a ser um sinal de contradição na Igreja e na sociedade. Por isso, a alegria e a paz cresceram cada vez mais em mim. E, com o tempo, vi que esta condição de padre sem ofício pastoral me identificava mais com Jesus, que chegou a ser tratado como um endemoninhado e um blasfemo pelos chefes dos sacerdotes do seu país, e me libertava definitivamente do benefício paroquial, para que eu pudesse ser padre com todas as pessoas, onde quer que elas estejam, em especial aquela imensa maioria que, felizmente, também já não frequenta os templos nem vai no discurso moralista da generalidade dos párocos, nem dos bispos residenciais, que mais parecem príncipes da Igreja, do que testemunhos vivos do Evangelho! E foi assim que me vi progressivamente padre na companhia de Jesus e de ateus, ao serviço do Evangelho do Deus de Jesus, que não está interessado em que as populações frequentem templos e missas, mas em que sejam pessoas autónomas, livres, fraternas/sororais, solidárias, e em inteligente guerra aberta contra os privilégios e a Mentira institucionalizada e contra as economias e as políticas egoístas que produzem pobreza e pobres em massa.
11. Esteve em Macieira da Lixa num tempo “quente”. Foi preso pela PIDE e deve ter passado maus momentos. Quer recordar-nos um pouco desse pedaço da sua vida?
R. Foram maus momentos, sobretudo, porque, de repente, me vi afastado do povo que amava e com quem vivia como companheiro de todas as horas. Mas foram sobretudo momentos de muita alegria interior, porque tinha consciência de que estava preso por causa do Evangelho e que as minhas prisões eram então, num país todo convertido em prisão política, a minha melhor maneira de viver o ministério presbiteral. Os meses de prisão foram a minha universidade maior. Estudei muita teologia de libertação. Mergulhei profundamente nos livros da Bíblia, particularmente, os livros dos Profetas, dos Salmos e, é claro, os Evangelhos e as Cartas de Paulo, nas quais o Apóstolo também fala das suas prisões por causa do Evangelho. Muitas vezes dava comigo a cantar, e a cantar alto, ao ponto do guarda prisional me vir repreender à porta da cela. Se a contemplação já antes me dizia muito, posso dizer que, com as cadeias políticas, tornou-se para mim um modo de ser e de viver. Até hoje. Por isso, tudo tenho suportado de cara alegre e de coração misericordioso. E sempre me comporto e reajo como um menino carregado de Futuro.
12. O seu percurso como jornalista é marcado pelas posições frontais e sem papas na língua sobre temas polémicos. Li há dias no seu diário um comentário curioso sobre o que os portugueses viveram no Mundial de Futebol da Alemanha. A sua postura crítica em relação a determinadas matérias que são banalidades mas adquiridas como formas padrão de vivermos, fazem-no sentir, pregar, de algum modo, numa espécie de deserto?
R. Como é manifesto, eu não vivo no deserto. Nem na sacristia. Nem no templo. Vivo no mundo entre as pessoas e com as pessoas, sem fazer qualquer discriminação. E quando a faço, é discriminação positiva, para poder estar mais com os humilhados, os pobres, os escorraçados, os deficientes, numa palavra, os Ninguém. Por isso, vivo no mundo, mas como em deserto, para assim conseguir resistir às seduções do Dinheiro, do Poder, da Religião. Não reivindico qualquer espécie de privilégio. Vivo sempre desarmado e sem guarda-costas. À intempérie. Como os demais pobres. Nem sequer procuro Deus como um abrigo, porque sei que um Deus-abrigo é um ídolo que não me deixaria crescer em autonomia e em responsabilidade perante o mundo e a História. Creio profundamente em Deus, o de Jesus, mas ao mesmo tempo vivo como se Deus não existisse. Jamais me dependuro nEle. Não lhe peço nada. Apenas confio nEle como um menino. Ele e eu somos um só. Daí, toda esta alegria e esta paz que sempre me vestem!
13. Estamos a perder valores, como hoje muitas vezes se diz? Quais são na sua perspectiva os principais?
R. Por mim, não direi que estamos a perder valores. Estamos a perder as formas tradicionais de viver os valores. E também os valores, mas sobretudo aqueles que o eram pouco, que eram sobretudo muita caridadezinha que se praticava à mistura com repugnantes subserviências e atitudes humilhantes de chapéu na mão. Estamos a mudar de paradigma. Em transição para outro paradigma bem mais evoluído e dinâmico. Esta transição dá-nos um certo desconforto, mas é salutar. Tem algo de morte e de ressurreição. O mundo que as novas gerações vão ter nas mãos será muito diferente do dos seus pais e mães. Mas melhor. Mais culto. Mais informado. Mais secular. Mais ateu. Mais humano. Mais desenvolvido. Aparentemente, mais sem Deus, porque mais dos seres humanos. Por isso, mais de Deus, mas daquele Deus que vive e respira dentro dos seres humanos e os potencia para eles serem cada vez mais eles próprios e uns com os outros. Haverá certamente mais catástrofes na Natureza (não! não são sinal de que o fim do mundo está à porta, como nos aterrorizam as Testemunhas de Jeová!). São simplesmente uma das consequências dos maus tratos que temos causado à Natureza, desde o final do século XIX. Mas até essas catástrofes contribuirão para unir e fraternizar mais os seres humanos entre si. Quem não terá grande futuro são os que hoje não abrem mão das grandes transnacionais em que são donos incontestados, nem do Dinheiro cada vez acumulado e concentrado que possuem, e que, por isso, se têm na conta de deuses. Deuses serão, mas com pés de barro. Ou desistem dessa sua monstruosidade e reaprendem a ser humanos com os demais, ou em breve cairão esmagados sob o pedestal que cruelmente ergueram sobre a pobreza e sobre os pobres em massa, que hoje já são cerca de cinco das seis partes da população mundial. Quando eles se levantarem, como um exército em linha de batalha, quem lhes resistirá?
14. Que mensagem gostaria de deixar aos leitores do Semanário de Felgueiras?
R. Esta: Fujam da Mentira. Pratiquem a Verdade. Promovam a Justiça. Partilhem os bens contra a pobreza dos pobres, e não apenas com os pobres. Sejam fraternos. Numa palavra, sejam! E haverá Paz. A todas, todos, dou a minha Paz. Num abraço e num beijo.