DIÁRIO ABERTO


2005 OUTUBRO 31

1. A pequenina Comunidade Cristã das Quartas-Feiras, de S. Pedro da Cova, promoveu sábado passado uma Ceia em Memória de Jesus. A Ceia contou com o apoio logístico e financeiro da Associação Padre Maximino. Também estive lá. Comigo, foram na carrinha mais oito pessoas, seis das quais de Macieira da Lixa. As outras duas constituem o casal de Telões, Amarante, que está a fazer uma grande aproximação ao modelo de Igreja das Comunidades Cristãs de Base. O Convite para a Ceia é digno de registo. Diz assim:

CONVITE

VENHA CEAR CONNOSCO

No sábado 29 de Outubro, venha cear connosco à Casa-sede da Associação Padre Maximino / Jornal FRATERNIZAR. É uma ceia em Memória de Jesus, promovida pela Comunidade Cristã das Quartas-Feiras. Basta que traga a sua alegria e a sua esperança. Também a sua indignação e a sua fome de paz e de justiça. E, se puder, traga um poema para dizer, ou um texto seu ou de alguma autora, de algum autor de quem goste, para ler, ou um canto para cantar / partilhar. Se tiver uma viola ou outro instrumento de música, traga-os também. E traga consigo amigas suas, amigos seus. Só terá que nos dizer até 6.ª feira, dia 28, à noite, quantas são, quantos são, para sabermos a quantidade de comida que havemos de confeccionar. E, já agora, surpreenda-nos com uma sobremesa, em fruta ou em doce ao seu gosto. Verá que só por uma ceia assim, tão sororal, tão fraterna, já vale a pena ter nascido. Confirme a sua participação à pessoa que lhe entregar este convite. Até lá, fique com o nosso abraço companheiro.

S. Pedro da Cova, A Comunidade Cristã das Quartas-Feiras.

Estiveram cerca de 40 pessoas, entre adultos e crianças. A sala da sede da Associação revelou-se pequena para tantas pessoas. Mas conseguimos comer sentados à volta da mesa. Foi uma ceia com Jesus, o Vivente. Todas as pessoas que lá comemos em sua Memória poderemos dar este testemunho. Sabemos que comemos e bebemos com Jesus, pelos efeitos que a Ceia produziu nas nossas consciências. Ninguém teve pressa em ir embora. O clima que se respirou durante as mais de três horas que a Ceia durou e já desde a sua preparação, foi de intensa sororidade/fraternidade, numa confirmação plena do que já havia previsto o Convite. As surpresas perante as sobremesas trazidas pelas pessoas também foram muitas e agradáveis. Houve muita variedade e quantidade. E a alegria foi sem limite. Criou-se um clima de ternura e de comunhão, que só o Amor, na sua expressão mais gratuita e criadora, é capaz de produzir. As crianças, filhas e filhos, netas e netos de vários casais participantes, nunca causaram problemas. Integraram-se perfeitamente. Foram alegria permanente, liberdade e brincadeira, sem nenhuma perturbação do ambiente geral. Depressa se deram a conhecer umas às outras e criaram laços de afecto e de brincadeira que não foi preciso ninguém em especial cuidar delas, ou ocupar-se com elas. A Ceia foi toda delas, tal como foi toda das pessoas adultas. Verdadeiramente, foi uma Ceia em Memória de Jesus, uma Ceia que fez Jesus misteriosamente presente entre nós e connosco. Ele, e mais ninguém, presidiu à Ceia. E também comeu connosco. Qualquer de nós pode agora dizer que comeu com Jesus e bebeu com ele. Nunca vimos o seu rosto. O que é bom sinal. É sinal de que Jesus ressuscitado não é nenhum fantasma. É também sinal também de que os nossos cérebros permanecem saudáveis e não produzem imagens doentias que sempre deixam paralíticas no seu viver quotidiano as pessoas que as produzem e alimentam. O Ressuscitado Jesus não é visível aos olhos. Nunca foi. Nem será. Tão pouco ocupa espaço. Não é um fantasma. Não nos assusta nunca. Muito menos nos substitui. Simplesmente, está presente. E potencia-nos, se nos abrimos ao seu Espírito. Damos pela sua presença, pelos efeitos que ela produz. Efeitos que se fazem sentir em cada uma, cada um de nós. Somos testemunhas disso. Não sei se todas as pessoas que estivemos na Ceia, algumas com posturas agnósticas ou mesmo ateias, ao longo dos anos do seu viver, darão espontaneamente esse testemunho entre os seus conhecidos e amigos. Seria bom que o dessem. Mas que experimentaram esta Presença, não há dúvida. Os rostos de cada uma das pessoas que lá estivemos não me deixam mentir. Todos os nossos rostos eram, nesta Ceia, rostos de meninas, meninos, mesmo os que já são avós, avôs. Mas houve mais sinais que confirmam esta boa notícia: O à vontade com que nos relacionámos umas com as outras, uns com os outros; a disponibilidade para o serviço mútuo, sem que ninguém tivesse sequer que fazer apelo nesse sentido; a progressiva liberdade de iniciativa que cresceu de dentro para fora em todas as pessoas, para ler/dizer/declamar poemas, contar estórias; as conversas entre os mais próximos que foram ininterruptas, como ininterrupta foi também a atenção recíproca, a alegria de estarmos em comunhão; nenhum excesso no consumo de bebidas alcoólicas. E nem sequer ocorreu a ninguém fazer qualquer recomendação nesse sentido. Sinal, por isso de grande sentido de responsabilidade.

E que dizer das pessoas que pela primeira vez viveram uma Ceia assim? Havia pessoas nestas condições, residentes em S. Pedro da Cova e outras freguesias do concelho de Gondomar. Entre elas, foi especialmente saudada a presença de um casal residente em S. Pedro da Cova, trazido por um outro residente em S. Cosme, já nosso conhecido de outras iniciativas e ocasiões. Cristina é técnica formadora de informática e Paulo é arquitecto. Este jovem casal criou grandes expectativas em relação ao futuro da Associação Padre Maximino. Eu próprio permaneci junto dele ambos bastante tempo e aproveitei para lhes falar da Associação e dos fins exclusivamente culturais que ela estatutariamente visa. Disse-lhes que seriam bem-vindos, se decidissem integrar o número de associados. E que, num futuro próximo, poderiam integrar os corpos gerentes, para garantirem continuidade ao projecto que lhe deu origem e para tirarem partido daquela casa-sede de que a Associação dispõe. Percebi que ambos guardaram no seu coração esta partilha que lhes fiz. E a seu tempo saberemos o que decidem. Por mim, o que mais desejo é que digam “sim” ao apelo, para bem da população de S. Pedro da Cova, nomeadamente, da zona em que se situa a casa-sede, ainda tão carenciada de desenvolvimento cultural integral.

Foram muitos os poemas lidos/ditos/declamados no decorrer da Ceia. De vários poetas. Digamos que a Palavra de Deus, desta Ceia em Memória de Jesus, foi feita de poemas, ou o Deus Vivo não seja a Poesia que nos faz poetas e criadoras, criadores. Pessoalmente, estive muito activo, sem nunca sentir qualquer espécie de cansaço. Até recitei um poema tirado da Bíblia hebraica, mais propriamente, do Cântico dos Cânticos. Fi-lo com uma intenção: para que as pessoas descobrissem que na Bíblia também há poesia fortemente erótica, ou o amor humano na sua dimensão erótica não fosse criação de Deus Criador. As Igrejas, quais sinagogas através dos tempos, é que se têm encarregado de silenciar e de esconder esse poema. Cabe às Comunidades Cristãs de Base, como modelo alternativo ao modelo paroquial de Igreja, chamar a atenção para ele e estimular as pessoas todas do mundo a protagonizá-lo responsavelmente nos seus corpos sexuados, como uma das mais belas e mais humanas formas de dar glória a Deus, o Deus que vive e nos faz viver. O extracto, fortemente erótico surpreendeu e alegrou. Não escandalizou. E estou certo que, nos dias após-Ceia, pessoas haverá que irão procurar o poema integral na Bíblia, para o lerem/saborearem sem tabus.

Mas como a Ceia em Memória de Jesus também deve dar expressão à nossa indignação e à nossa fome de Pão e de Justiça em todo o mundo, aproveitei e levei comigo uma Carta Aberta que o meu querido amigo e companheiro Frei Betto, do Brasil, acaba de dirigir ao presidente Bush, dos EUA. O texto, que deverá integrar a próxima edição impressa do Jornal Fraternizar, acabou de me chegar estes dias via Internet. Não resisto a transcrevê-lo aqui, na íntegra, como Palavra profética, bem actual, que nos pode alimentar na caminhada, e fazer de nós militantes lúcidos das causas dos empobrecidos e oprimidos do mundo, seja qual for a sua nacionalidade. Eis:

“WELCOME" MR. BUSH

Presidente Bush: bem-vindo a um país soberano chamado Brasil. Como o presidente Lula já demonstrou, não queremos a Alca e temos um governo solidário com Venezuela de Chávez e com Cuba de  Fidel. Já fomos colónia de Portugal por 322 anos e sabemos o que é produzir riquezas em benefício de outros povos.
Ainda hoje o povo brasileiro trabalha, e trabalha muito, para sustentar a dívida e(x)terna contraída por nossas elites sem que a  população tenha sido consultada. Nossa carga tributária é uma das mais altas  do mundo, 36% do PIB; nossa taxa de juros ultrapassa 19% ao ano; o nosso governo gasta com a amortização dos  juros da dívida, todo ano, mais de dez vezes o orçamento de que dispõe  para novos investimentos. Oficialmente nosso superávit primário é de  4,25%. De facto, passa dos 5%, porque a equipe  económica de nosso governo acredita, religiosamente, que o deus mercado é capaz de operar o milagre do bem-estar da nação sem que haja mudanças de estruturas, como a reforma agrária. Só não digo que isso é problema nosso porque a nossa economia é controlada pelo FMI, no qual o senhor manda. E não conheço um só país que tenha saído da pobreza graças ao FMI.
Venho pedir-lhe a paz. Há 2.800 anos, um hebreu chamado Isaías afirmou que só haverá paz como fruto da justiça. O senhor crê que ela resultará da imposição das armas. Ora, a guerra é o terrorismo dos ricos, assim como o terrorismo é a guerra dos pobres. Não bastou a derrota dos EUA no Vietname? Ali morreram 1 milhão de  pessoas, das quais 50 mil norte-americanos. Cedo ou tarde o seu país terá de deixar o Iraque sem nenhum orgulho, carregando o fardo de milhares de jovens norte-americanos (muitos deles de origem latina e negros) condenados à morte por acreditarem que é bom para o mundo o que é bom para os EUA.
Seu país possui apenas 6% da população mundial. No entanto, controla 50% da riqueza do planeta. Jamais exigiu democracia na Arábia Saudita, onde se situam as maiores reservas de petróleo do mundo,  porque o governo autocrático daquele país é dócil à política de Tio Sam, embora dali tenham saído Bin Laden e os terroristas que puseram abaixo as torres gémeas. Ano passado foram gastos em armamentos, em todo o mundo, cerca  de 900 mil milhões de dólares. Os EUA desembolsaram quase a metade, 390 mil milhões de dólares. E pensar que se necessitam apenas 50 mil milhões de dólares, até 2015, para erradicar a fome do mundo!
Por que será que a morte merece mais dinheiro do que a vida? Não haverá algo muito errado nessa lógica? Por que o capitalismo coloca  a propriedade privada acima de vidas humanas e do bem colectivo? Por que morrem de fome 5 milhões de crianças, com menos  de 5 anos de idade, por ano, sem que as nações ricas destinem mais de 10% dos gastos bélicos em cooperação internacional?
O senhor deve saber que 86 milhões pessoas morreram vítimas da guerra desde 1940. As duas bombas atómicas que o seu país lançou sobre as populações inocentes de Hiroshima e Nagasaki ceifaram cerca de 100 mil vidas e deixaram um lastro de cancro, até hoje, nos descendentes das vítimas. Quase todas jovens. Cerca de dois mil soldados dos EUA foram mortos  no Iraque nessa guerra insana reiniciada  em 2003. Seu pai invadiu aquele país em 1991 e o resultado envergonhou tanto a sua nação que o senhor se sentiu na obrigação de repetir o gesto, na esperança de derrubar Saddam Hussein, o que conseguiu, e a resistência dos iraquianos, que até agora desafia o potencial  bélico de seu país. Entre a população civil, aproximadamente 130 mil iraquianos foram mortos em consequência de ataques das tropas dos EUA em 1991. Saddam, graças às armas, inclusive químicas, fornecidas pelos  Estados Unidos, sobretudo na época da guerra contra o Irão, matou cerca de 200 mil iraquianos.
Estive há pouco em seu país. Em Utah, muitos me perguntaram qual impressão tenho dos EUA. Respondi que a diferença  entre o seu povo e o meu é que o seu está convencido de que não há felicidade sem dinheiro. E o meu é feliz sem dinheiro. Bastam-nos os cinco efes: feijão, farinha, fé, futebol e festa. Essa busca desenfreada de riqueza é que impede o povo dos EUA de se sentir solidário com os pobres do mundo. Vimos todos o que ocorreu aos negros e pobres de Nova Orleans na catástrofe causada pelo furacão Katrina. Ficaram ao desabrigo, até que o senhor reagiu, quando percebeu que, aos olhos do mundo, o rei estava nu. E para completar, um de seus assessores teve o descaramento de propor, como medida para reduzir a pobreza nos  EUA, o aborto às mulheres negras...
Presidente Bush, ”welcome” à nação do futuro. Queremos  ser amigos fraternos do povo dos EUA, sem que a CIA volte a ameaçar a nossa democracia, como em 1964 ajudou a implantar uma ditadura militar que durou 21 anos, e que se alcance reciprocidade nas relações comerciais, com pleno respeito à nossa  soberania.

A Ceia em Memória de Jesus também teve emocionantes momentos de música, acompanhados à viola, por um dos companheiros, sócio da Associação. Intercalaram os momentos dos poemas ditos. José Silva esteve no seu melhor e foi decisivo nesta sua intervenção musical, para que a Ceia fosse o Acontecimento libertador e festivo que foi. Na mesma linha foi a presença e a intervenção de Ninita. Veio propositadamente de Lourosa, Santa Maria da Feira, a convite da sua amiga Olinda Manuela, para partilhar connosco nesta Ceia a sua arte de declamar poemas. Para mim, a sua presença teve especial significado, já que, nos meus tempos de jovem seminarista em férias, ela foi, juntamente com a sua irmã mais nova, uma das crianças e adolescentes que animei e acompanhei de perto, em actividades para-pastorais num salão de festas do Centro Paroquial local. Pelos vistos, o “bichinho” ficou-lhe no corpo e, nos anos seguintes, bastou alimentá-lo, à medida que progredia nos estudos do Liceu e da Universidade. Hoje, como professora, é ela quem desperta em muitos dos alunos da sua escola, elas e eles, o saudável “vício” pelo teatro e pela poesia. Ela própria testemunhou tudo isto no decorrer da Ceia. Para minha alegria.

Mas o mais espantoso da Ceia foi ver pessoas de S. Pedro da Cova a ter o cuidado de criar previamente poemas ao jeito do poeta Aleixo para poderem dizer no decorrer da Ceia em Memória de Jesus. Nunca antes o haviam feito para este fim. E que bem o fizeram. Não esqueceremos as intervenções de Teresa e de Carlos, um casal ainda na força da vida. E Olívia, mulher viúva que, quase a encerrar a Ceia, nos disse de cor uma quadra feita por ela, na qual o 25 de Abril 74 é saudosamente lembrado. E que diz o que de melhor aconteceu nessa histórica noite de Revolução dos Cravos: “Adormecemos todos presos em nossas casas e acordámos libertados!” A Ceia em Memória de Jesus alcançou, nessa ocasião, um dos seus momentos mais altos. Olívia conseguiu desinibir-se, perder o medo, o acanhamento. Ganhou voz e vez. Foi sujeito. Mulher com iniciativa. Protagonista. Ora, para que todas as mulheres, todos os homens cheguemos a ser assim, é que Jesus de Nazaré nos foi dado. E não há outra maneira de glorificar o nome de Deus, senão trabalharmos, dia e noite, para que quem um dia nasceu neste mundo chegue a ser assim, como Olívia foi nesta Ceia promovida pela Comunidade das Quartas-Feiras. Quem dera que todas as Missas fossem Ceias em Memória de Jesus, como esta foi. E que produzissem idênticos resultados na Humanidade. O mundo do século XXI seria muito diferente do que é. Seria um mundo onde já não haveria lugar para Bush, nem para o seu Império. E a União Europeia seria o que dizem as duas palavras juntas. Para alegria e bem-estar de todos os povos do continente e do mundo. Assim, o mundo continua a ser a carnificina que se vê. E que nós nunca choraremos bastante, por mais que choremos!

 

2. Amanhã, 1 de Novembro, os sinos das Igrejas de Lisboa vão tocar todos à mesma hora. Dizem as notícias que é para homenagear as vítimas do terramoto  de 1755. Foi há 250 anos. A tragédia, de proporções gigantescas, ainda hoje nos faz estremecer. Mas o toque dos sinos, perante tamanha tragédia humana, não passa de um gesto com o seu quê de folclórico e de infantil. Para não dizer que ele próprio é uma tragédia. Do que precisamos é de gestos que casem inovação científica e desenvolvimento humano, para que tragédias destas não se repitam nunca mais. Mas a verdade é que ainda no ano passado houve o tsunami, uma espécie de terramoto de 1755 em Lisboa, mas em ponto muitíssimo maior. O que revela que o casamento investigação científica e desenvolvimento humano continua praticamente na fase do namoro, ou pré-namoro. Na altura, há 250 anos, o Ateísmo ocidental, nomeadamente, dos filósofos europeus, encontrou na tragédia de Lisboa abundante alimento para medrar e se desenvolver. E ainda hoje, encontra. Mas o Deus que esse tipo de Ateísmo nega e recusa não é o Deus de Jesus, que as Igrejas, que se confessam suas discípulas, hão-de revelar e fazer presente na História, aquele Deus que, no dizer do próprio Jesus, trabalha continuamente no projecto de criação de seres humanos à sua imagem e semelhança. Quando as Igrejas forem como Jesus, totalmente ocupadas no desenvolvimento integral dos seres humanos concretos, a partir dos últimos e dos mais oprimidos e diminuídos, em lugar de Ateísmo generalizado, haverá salutar anti-Idolatria generalizada. Porque não é Deus Vivo, o de Jesus, que é inimigo dos seres humanos, nem que é obstáculo ao seu integral desenvolvimento, para que a inteligência humana tenha que ser justificadamente ateia. Pelo contrário, Deus Vivo é até quem mais potencia os seres humanos, para que todos e cada um cheguemos a ser como Ele. Inimigos dos seres humanos, neste aspecto, são todas as deusas, todos os deuses que por aí proliferam, criados pelos nossos medos, também pelos medos de muitas, muitos dos que hoje se confessem ateus, e que não têm tido coragem nem audácia para serem consequentemente anti-idólatras. São ateus instalados no Sistema, sempre prontos a filtrar mosquitos (teológicos), sem se darem conta dos camelos que estão continuamente a engolir. Fazem profissão de Fé de Ateísmo, mas para melhor poderem continuar a viver sentados à mesa dos privilégios que o deus-Dinheiro lhes garantem e aos seus, mediante os seus hediondos sistemas económico-financeiros, e à custa da morte diária de milhões e milhões de crianças, bem como à custa de muitos outros milhões e milhões de seres humanos condenados a ter que (sobre)viver com menos de um euro por dia.

E não tenhamos ilusões, nem nos deixemos enganar, porque esta intolerável tragédia humana e social que continua aí a ocorrer todos os dias, é milhões e milhões de vezes pior que o Terramoto de 1755, em Lisboa. É claro que para lhe pôr fim, ou ao menos para nos lembrarmos dela todos os dias, será sempre manifestamente insuficiente mandar tocar os sinos das Igrejas de todo o mundo. O que se exige de todas, todos nós é coragem para acabarmos com as verdadeiras causas estruturais que a provocam. Nesta luta pelo Pão, pela Justiça e pela Dignidade humana, queria eu ver as Igrejas todas empenhadas na primeira linha de combate. Se o não fizermos, somos Igrejas cúmplices dos sistemas-Caim que todos os dias e a toda a hora milhares matam milhões de Abel, de todas as idades.


2005 OUTUBRO 27

O meu amigo e irmão no presbiterado Pe. Carreira das Neves, franciscano, deu há dias a sua última aula, na Faculdade de Teologia da Universidade Católica de Lisboa. Os grandes media praticamente ignoraram o facto, o que já nem é de estranhar. A cultura bíblico-teológica da generalidade dos seus profissionais assim o exige. Como não dominam o assunto, passam adiante. Nesta área, só, ou quase só o que tem dimensão de escândalo é que é notícia. O que é lamentável. Ficaremos, por muitos anos mais, se calhar, por muitas gerações mais, analfabetos em cultura bíblica e em teologia. Dirão muitas pessoas que nem a Bíblia nem a Teologia enchem barriga. Nem contribuem para resolver os problemas da Humanidade. Importantes são a Economia e as Finanças. Também a Medicina e a Ciência. E essas pessoas têm alguma razão. Porque a Bíblia e a Teologia são importantes, mas dentro de outra ordem de grandeza. Na ordem da Humanização do mundo e da vida. Digamos que sem a cultura bíblica e sem a Teologia, até o ambicionado progresso pode acabar por ser descriador do mundo e do ser humano; a Economia e as Finanças podem tornar-se pura idolatria; a Medicina pode transformar-se em tortura humana; e a Ciência pode acabar a transformar-nos a todas, todos em robots.

Os dias que vivemos são dias de crescente e preocupante analfabetismo em cultura bíblica e em Teologia. Duma maneira geral, mesmo entre as camadas sociais com formação universitária, a cultura bíblica e a Teologia não vão muito além daqueles rudimentos que as pessoas receberam nas catequeses que tiveram na infância/adolescência. E quem, hoje, já nem sequer frequenta essas catequeses, nem esse mínimo possui. Corremos por isso o risco de virmos a ter gerações, no próximo futuro, totalmente analfabetas em cultura bíblica e em Teologia. Por mim, poderia até alegrar-me, porque assim os disparates bíblico-teológicos e todas as mentiras que as catequeses eclesiásticas têm incutido nas pessoas e nas populações deixam de continuar a ser incutidos. O que é objectivamente positivo. Mas a cultura bíblica e a Teologia não são monopólio das Igrejas. São património cultural e espiritual da Humanidade. Sem elas, é toda a Humanidade que sai prejudicada. E numa dimensão que é essencial para o seu desenvolvimento e para o seu equilíbrio, para a sua saúde integral.

Podemos estar a fazer bem, ao retirar as crianças e os adolescentes das catequeses eclesiásticas. Mas já não fazemos bem em privá-las por completo do estudo da Bíblia e da cultura bíblica, e da Teologia, particularmente, da teologia jesuânica. Serão gerações que vão crescer cultural e espiritualmente mais desguarnecidas e desprotegidas. Por isso mais à mercê dos grandes ídolos que hoje dominam o mundo. Quando menos esperarmos, lá estarão elas de joelhos a adorá-los e a fazer-lhes cegamente a vontade. Serão seus lacaios, funcionários despojados do sentido dos demais, meros executivos, prontos a ser utilizados como armas de destruição, à semelhança dos homens/mulheres-bomba, e não menos destruidores que os que hoje conhecemos como tais.

É preciso resgatar a Bíblia e a Teologia das Igrejas, das universidades católicas ou de outras universidades confessionais. E restituí-las à Humanidade, de onde nunca deveriam ter saído. A Bíblia e a Teologia são património da Humanidade. A ela devem regressar quanto antes. Nas mãos das Igrejas, são abordadas num contexto acentuadamente moralista e mais ou menos beato. Quando a Bíblia e a Teologia são para ajudar a despertar nos seres humanos os seres criadores, libertadores e solidários que todas, todos estamos chamados a ser e que os grandes Interesses Obscuros ou Ídolos que hoje dominam o mundo não querem nunca que eles sejam. Mas uma coisa são esses grandes Interesses Obscuros, outra coisa é a Humanidade. E a Humanidade tem que estar sempre em guarda, para se defender dos grandes Interesses Obscuros ou Ídolos. Ora, a cultura bíblica e a Bíblia propriamente dita, mais a Teologia jesuânica são meios indispensáveis para conseguirmos tão nobre objectivo.

O que será o estudo da Bíblia e da Teologia, enquanto património da Humanidade, em lugar de património das Igrejas, é o que ainda falta experimentar. Até hoje, uma e outra têm sido monopólio das Igrejas. Houve contribuições muito positivas, ao longo de todos estes séculos eclesiásticos, mas as contribuições foram sobretudo negativas. Urge que a Humanidade tome a Bíblia e a Teologia nas suas mãos e passe a fazê-las chegar às sucessivas gerações que vêm a este mundo. Mas como património seu, nunca mais como arma de arremesso contra si própria, utilizada pelas Igrejas. Deste modo, o analfabetismo em cultura bíblica e em Teologia que hoje é cada vez mais massivo, dará lugar ao conhecimento feito sabedoria. E todos os outros conhecimentos que nos forem dados acabarão por encontrar o seu lugar nas nossas vidas e serão integrados como outras tantas dimensões que nos humanizarão e humanizarão o mundo.

Nessa altura, o que agora se passou, a propósito da última aula do meu amigo Pe. Carreira das Neves, franciscano, já não voltará a acontecer. Com a Bíblia e a Teologia como património da Humanidade, a serem estudadas e aprofundadas em diálogos fecundamente maiêuticos fora do âmbito das Igrejas, os seres humanos tornar-se-ão progressivamente libertos e solidários, sororais/fraternos e teimosamente criadores, políticos e não religiosos. Este trabalho é o que já hoje procuram realizar as pequeninas Comunidades cristãs de Base, nos antípodas das Universidades católicas e outras universidades confessionais, e nos antípodas das catequeses das grandes paróquias territoriais. Mas, como as pequeninas Comunidades de Base não têm conseguido contar com o reconhecimento público das grandes Igrejas nem dos seus líderes, as populações empobrecidas e oprimidas dificilmente se abrem a elas. Para seu mal. Por isso, primeiro será preciso que o velho modelo da Igreja-Cristandade desapareça da face da terra, para que tudo seja diferente e melhor. As pequeninas Comunidades de base estão já a apontar por onde deve avançar a Humanidade de amanhã, na sua relação com a Bíblia e com a Teologia de Jesus. Esse é um serviço de monta que só será valorizado e reconhecido mais tarde. Por agora, ainda é o tempo da perseguição às pequeninas Comunidades e o tempo da sua rejeição. É também o tempo do martírio incruento, semente de futuros muito outros, que já estão em gestação no presente.

Perguntar-me-ão as pessoas: E que dizer da última aula do Pe. Carreira das Neves? O que eu sei é que muitas vezes os mestres académicos aproveitam a última aula para dizerem ao mundo o que não tiveram coragem de dizer antes, durante os anos de exercício de funções, não fosse a sua carreira docente ser prejudicada, porventura, interrompida, cerceada. Não foi assim com a última aula do Pe. Carreira das Neves, apesar dele ter abordado uma temática que foi sempre a menina dos seus olhos e a que deu o título: “Jesus Cristo e a História”. O desenvolvimento deste enunciado desdobrou-se em outros três sub-temas: “Jesus Cristo e a História”; “Jesus Cristo e a Fé”; e “Jesus Cristo e a Igreja”.

O que o mestre franciscano disse, a este propósito, é muito importante e “novo”, pelo menos, aos ouvidos de muitas pessoas, nomeadamente, das pessoas católicas que hoje ainda se mantenham dentro das catequeses eclesiásticas tradicionais, cheias de lendas, mitos e muitas inverdades.

Por mim, acho que foi uma abordagem demasiado eclesiástica. Ousada, dentro deste âmbito, mas eclesiástica por demais. Ora, Jesus Cristo não é das Igrejas. É da Humanidade, também daquela parcela cada vez maior que hoje se assume como ateia e agnóstica. O Pe. Carreira das Neves poderia, por isso, ter aproveitado para dizer o que tem Jesus de Nazaré a dizer aos ateus de hoje. E, sobretudo, o que é que Jesus traz de novo ao combate duélico da Humanidade contra a generalizada idolatria deste tempo. A verdade é que estas duas vertentes nem sequer são afloradas na sua última aula. Sinal manifesto de que o mundo do Pe. Carreira das Neves tem sido sobretudo o mundo da Universidade católica, o mundo da Igreja católica. Com incursões, muitas e de muitos modos, fora dela, mas não muito fora, porque incursões limitadas ao mundo das outras Igrejas, no âmbito do chamado “Movimento ecuménico”, que praticamente não passa de mais do mesmo. O mundo do ateísmo e do Dinheiro, este como o ídolo maior e o mais perverso do nosso tempo, é totalmente diferente do das Igrejas e das Religiões. E o mundo das vítimas humanas nem se fala. Aliás, é junto destas que podemos perceber com toda a clareza o que é o mundo do Dinheiro e o mundo das Igrejas e das Religiões. As vítimas desses dois mundos é que nos dizem bem o que ambos são.

Mas Jesus de Nazaré é da Humanidade, antes de ser das Igrejas. Quando as Igrejas se apoderaram dele, depressa o converteram num ídolo mais, ao qual depois passaram a prestar culto, em liturgias sacrílegas, de costas para o mundo e a História, sobretudo, de costas para as suas vítimas. Ou então em liturgias dirigidas especialmente às vítimas, mas para as manterem adormecidas, as distraírem e as desmobilizarem dos grandes combates políticos que urge levarmos por diante, para darmos um rosto humano ao mundo e à História.

Felizmente, não é por aí que vai esta última aula do Pe. Carreira das Neves. O biblista franciscano é suficientemente lúcido para não se meter por essas alienações. Mas, ao deixar-se enredar quase por completo no labirinto eclesiástico, a sua última aula perdeu acutilância profética, e acabou por ser uma aula mais. Poderia ter sido o rasgar do véu, também o véu do Templo ou Santuário, inclusive, do santuário de Fátima e da sua cruel senhora, e sobretudo o véu da Grande Mentira institucionalizada que mantém a Verdade cativa na injustiça. Não foi. Como última aula, devo confessar que esperava mais, muito mais. Esperava que o meu amigo Pe. Carreira das Neves partisse a louça eclesiástica, nomeadamente, as catequeses que continuam a ensinar-se às crianças, por essas paróquias católicas além. Aprecio evidentemente o muito que diz, nesta sua última aula, mas acho que ele poderia e deveria ter ido muito mais além. Ou não está dito, desde há dois mil anos, pelo mestre dos mestres, que a verdade é para ser apregoada sobre os telhados? Não é para ficar debaixo do alqueire das Universidades católicas, das paróquias católicas, do Sistema eclesiástico.

Uma das falhas monumentais desta última aula do meu amigo Pe. Carreira das Neves é a completa ausência de referências à Morte Crucificada de Jesus, sobretudo, às causas que a provocaram. Ora, esta questão é a essência da Revelação jesuânica de Deus Vivo. É nesse acontecimento que reside o miolo da Revelação de quem e de como é Deus e de quem e de como é o Ser humano, melhor, de quem e de como é o Ser humano, em quem Deus Vivo se nos revelou de modo definitivo e completo. Sobre isto, a última aula, praticamente não diz nada. E no entanto, é preciso saber porque mataram Jesus. Porque é que este homem que passou fazendo o bem, acabou morto na cruz. Porque é que Jesus teve que ser morto da maneira que os quatro Evangelhos canónicos testemunham, e não de outra. Porque é que os seus inimigos fizeram questão de que Jesus fosse morto na cruz. Porque não se limitaram a matá-lo num atentado à maneira dos sicários, coisa comum naquele tempo como hoje, nas martirizadas terras do Médio Oriente. Porque é que Jesus teve que ser julgado pelo Sumo Sacerdote e pelo Sinédrio, em nome do Templo (e do Deus do Templo), e pelo procurador romano Pôncio Pilatos, em nome do Império (e do Deus do Império). Porque é que todos os Poderes da época – o Poder económico-financeiro, o Poder ideológico-religioso e o Poder político nacionalista e imperialista – se puseram de acordo e lhe deram uma morte como a que ele sofreu. Porque é que Jesus foi odiado até ao ponto de os seus inimigos não se contentarem com dar-lhe uma morte à maneira dos sicários – uma punhalada à falsa fé – pelo contrário, fizeram questão que ele fosse preso, julgado pelo tribunal judaico e pelo tribunal do Império romano, fosse condenado à morte na cruz e finalmente crucificado sob Pôncio Pilatos? Não diz o Deuteronómio: “Maldito o que morre na cruz”? Mas então porque é que foi necessário que Jesus fosse apresentado aos olhos do povo e para todo o sempre como o Maldito, segundo a Lei de Moisés, essa mesma que, ao tempo, era considerada a verdadeira Lei de Deus? E que tipo de bem foi o que Jesus de Nazaré fez às pessoas, para, pouco tempo depois dele ter dado início à missão de Evangelizar os pobres, ser preciso tratá-lo deste modo e matá-lo como o Maldito dos malditos?

Estas são questões fulcrais que infelizmente não estão presentes na última aula do Pe. Carreira das Neves. E deveriam estar. Porque, sem estas, as outras que estão lá perdem força, não têm profecia, são mais do mesmo. E deixam o mundo continuar a girar à vontade, sem que o mestre franciscano que acaba de dar a sua última aula venha a ser incomodado, seja olhado e tratado como um maldito, muito menos seja odiado e excomungado pelos actuais “sumos sacerdotes”, pelos Sinédrios e procuradores do Império que hoje estão aí como os continuadores dos que trataram assim Jesus de Nazaré no seu então.

Ao condená-lo e matá-lo do modo como o fizeram, os que estavam constituídos como autoridades e como chefes incontestados do povo (eram-no em nome de Deus e faziam as vezes de Deus na terra!), quiseram dizer, de modo definitivo, que Jesus tinha que ser banido da face da terra, que o seu nome nunca mais poderia ser pronunciado, que a sua memória seria apagada para sempre. O que Jesus havia revelado com a sua prática libertadora e a sua doutrina iluminadora, isto é, com o Evangelho ou Boa Notícia de Deus que ele fez integralmente presente e actuante entre nós, nunca mais poderia ser repetido, tinha que ser totalmente eliminado para sempre, nunca mais a humanidade haveria de ser sabedora. Era o futuro deles, eram os privilégios deles que estavam em jogo, era a Ordem mundial em que eles eram autoridades e chefes, que estavam em jogo. Por isso, não bastava matar Jesus, era necessário matá-lo de forma exemplar. Para que ninguém mais tivesse a veleidade de querer ser homem/mulher daquele jeito que Jesus se havia atrevido a ser, contra o Templo e contra o Império e até contra uma certa imagem de Deus, que, afinal, não passava de um ídolo mais, porventura, o mais perigoso de todos os ídolos. E foi o que fizeram.

Entretanto, coisa estranha, Jesus é hoje conhecido e até adorado em quase todo o mundo. Não é nenhum maldito, como os chefes de então pretenderam que fosse. Porém, que Jesus é que é hoje conhecido e adorado? O de Nazaré, que foi crucificado? O Pe. Carreira das Neves, na sua última aula, sempre se lhe refere como “Jesus Cristo”. Parece evitar chamar-lhe Jesus, simplesmente, Jesus, o de Nazaré. Sabemos que “Jesus” é o nome que lhe foi dado. “Cristo” é o apelido que lhe foi atribuído pelos seguidores, elas e eles. Por sinal, Jesus, o de Nazaré, nunca gostou do apelido que lhe atribuíram; é um apelido que não diz com a sua maneira de ser. Preferiu sempre o apelido de “Filho do Homem”, ou “O Homem”, sem mais. A verdade é que para a posteridade, vingou o apelido de Cristo. Mas se a Cristo não lhe juntamos sempre "Crucificado", Cristo Crucificado, como fez S. Paulo, então podemos estar a referir-nos a um ídolo com o nome de Jesus Cristo, logo abreviado para “Cristo”, sem Jesus, o mesmo é dizer, sem História, sem mundo, sem causas, sem conflitos, sem combates, sem lutas pela causa do Reino de Deus, sem enfrentamentos duélicos com os carrascos ou os verdugos que produzem vítimas humanas e, depois, ainda passam para a História dos vencedores como os maiores “benfeitores” da Humanidade!

Quem nos garante que Jesus Cristo, hoje, ainda é Jesus, o de Nazaré? E que tipo de Jesus é o que as Igrejas hoje invocam e adoram nos seus templos e altares? O de Nazaré, o Crucificado? O Maldito? Aquele cujo nome nunca ninguém mais deveria sequer pronunciar? Não me parece que seja este Jesus, mas o Cristo do Império romano. De resto, o êxito retumbante de Cristo (não confundir com Jesus de Nazaré) no mundo ocidental, vem desde Constantino, precisamente, desde quando o imperador converteu Jesus de Nazaré no único Deus do Império, com direito a culto público, paralelamente com o dele. O que dá para desconfiar, todos estes séculos depois, que podemos andar a falar de Cristo como se fosse Jesus, o de Nazaré, quando não passará de Cristo, o ídolo maior do Império romano.

Por mim, gostava mais que o Pe. Carreira das Neves tivesse conduzido a sua aula por estas profundidades teológicas jesuânicas; que não se tivesse ficado pelas “novidades” de última hora com que a hermenêutica bíblica dos Evangelhos, sobretudo, dos dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas, nos têm trazido entretidos e mais ou menos distraídos das grandes questões do mundo e da História. Aquelas são questões que até podem estar a dar de comer a muito professor-doutor nas Universidades católicas do mundo ocidental, mas não contribuem para libertar a Humanidade oprimida e empobrecida. E esta é a única missão que conta para Deus Vivo, o de Jesus de Nazaré. Porque tudo o que não contribuir para libertar os oprimidos e para arrancar os pobres da pobreza em que nascem crescem, reproduzem-se e morrem, não tem a marca ou o selo de Jesus, o de Nazaré. Só tem o selo, a marca da “Besta”, para utilizar aqui a linguagem do Apocalipse cristão. O selo, a marca do Anti-Cristo, do Anti-Jesus.

Ainda assim, as pessoas não deixem de ler com atenção a última aula do meu amigo Pe. Carreira das Neves, franciscano. Ele é demasiado contido nas expressões que utiliza, pelo que é preciso lê-lo nas entrelinhas. Mas, se possível, ousemos ir muito mais além do que ele vai. Libertemos a Bíblia, os Evangelhos canónicos, Jesus de Nazaré e a Teologia de Jesus de Nazaré das Igrejas e das Universidades católicas. Restituamos à Humanidade todo este património que é dela. E que ninguém deixe de se abrir a este património. Como quem se liberta e nasce do Alto, do Espírito de Deus Vivo.


2005 OUTUBRO 24

Decorreu ontem mais um Encontro de Espiritualidade, na casa-sede da Associação Padre Maximino / Jornal Fraternizar, em S. Pedro da Cova. Foi o 4.º encontro. Até aqui temos reflectido e conversado sobre Jesus no terceiro milénio, sempre com o fenómeno do ateísmo generalizado em fundo. A partir deste encontro, embora continuemos a manter aquela temática, de tão inesgotável que é, passaremos contudo a reflectir e a conversar sobre Jesus, mas agora com o fenómeno da idolatria generalizada em fundo. Dei-me conta, já hoje de manhã, enquanto fazia a minha caminhada diária de 40 minutos pela saúde, que, como Humanidade, não vivemos apenas num tempo de generalizado ateísmo. Vivemos sobretudo num tempo de generalizada idolatria, o que é muito diferente e pior. É certo que o ateísmo tem hoje numerosos cultores, entre as mulheres e os homens do Ocidente, como nunca teve no passado. A par do fenómeno religioso, que também não tem parado de crescer. Se as velhas religiões estão a ficar sem cultores nos países do Ocidente, é também porque estão a ser substituídas por outras novas, tão alienantes ou mais e tão ópio do povo ou mais que as antigas. Mas todas as Religiões são idolatria, ao fim e ao cabo. E nem o próprio ateísmo, embora objectivamente seja mais saudável para a Humanidade do que as religiões, está a salvo de cair na idolatria generalizada. É manifesto que o ateísmo recusa a idolatria religiosa, as deusas e os deuses das religiões antigas e novas, mas já não é assim tão manifesto que recuse a pior das idolatrias que hoje está aí globalizada: a idolatria do Dinheiro, ou da Riqueza acumulada e concentrada.

Já Jesus, no seu tempo e país, alertou as discípulas, os discípulos para esta idolatria, quando concluiu, de forma peremptória: “Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro”, o que hoje podemos e devemos traduzir por estoutra afirmação, mais secular e historicamente mais contundente: Não podeis servir ao Pobre/Oprimido e ao Dinheiro. Ou: Não podeis libertar o Pobre e, ao mesmo tempo, manter o Sistema económico-financeiro que inevitavelmente acumula e concentra o Dinheiro/a Riqueza nas mãos de poucos, quando é da natureza da Riqueza ser de todas as pessoas e de todos os povos, segundo as reais necessidades de cada qual. É impossível servir libertadoramente o Pobre, libertar o Oprimido, e, ao mesmo tempo, deixar em paz um sistema económico-financeiro que hoje fabrica pobreza e pobres em massa, o mesmo é dizer, que fabrica, de forma reiterada e em progressão quase geométrica, vítimas humanas aos milhões. É como querer a quadratura do círculo. Aceitar e cooperar com semelhante sistema é cair na Idolatria mais perversa. Mas é aqui que se encontra a Humanidade deste nosso tempo. Com tendência a progredir mais e mais, até rebentar como a rã da fábula, que pretendia ser do tamanho do elefante e tanto inchou que rebentou.

O pior é que não será o sistema económico financeiro que rebenta. É a Humanidade que desaparecerá. Fica reduzida a coisas, a robots, a objectos, a escravos. E, mesmo assim, cada vez em menor número. Cresce a Riqueza acumulada e concentrada, diminui a Humanidade. E a pouca que restar será robotizada, sem vontade própria, sem um projecto galvanizador, sem utopia, sem festa. Será uma Humanidade que come, bebe, executa o que lhe mandam os robots-chefes, reproduz-se e morre. E quando já nem capacidade tiver para se reproduzir, a reprodução far-se-á por clonagem, como a ovelha Dolly, segundo as necessidades do sistema e para as funções de que ele carece.

Não é o contemporâneo ateísmo generalizado que deve preocupar-me, nem preocupar as discípulas, os discípulos de Jesus do século XXI e do terceiro milénio. O que deve preocupar-nos e a toda a Humanidade é a idolatria generalizada. E desta, deve preocupar-nos ainda mais a idolatria do Dinheiro, da Riqueza acumulada e concentrada nas mãos de poucos. Se a idolatria religiosa, ou das religiões adoece as pessoas e os povos que se deixam arrastar por ela, a idolatria do Dinheiro ou da Riqueza acumulada e concentrada mata as pessoas e os povos à fome e ao abandono. E faz ainda pior. Mata a identidade ou a alma de cada pessoa e de cada povo que se deixe ir pelo seu sopro de morte.

Ora, desta idolatria generalizada e globalizada, nem os ateus, mulheres e homens, estão a salvo. Podem ser até as suas principais vítimas. Basta que se distanciem do Pobre e do Oprimido, que vivam sistematicamente de costas voltadas para o Pobre e o Oprimido, se mantenham surdos ao seu ininterrupto clamor, e passem a concentrar toda a sua atenção nos movimentos da Bolsa e do grande Kapital. Quando derem conta, já nem família têm, nem afectos. Tornam-se criaturas à imagem e semelhança do deus Dinheiro, onde têm preso o coração. O deus Dinheiro, mais ainda que as deusas, os deuses das Religiões, é insaciável. É um vampiro à escala global. Que cresce à custa de um número cada vez maior de vítimas humanas.

É nesta situação de idolatria generalizada que hoje vivemos em todo o planeta. A idolatria é o grande pecado do mundo do século XXI. Se não for erradicada de vez do mundo, pelo contrário, continuar aí à rédea solta e a poder contar com a despudorada conivência das Religiões e das Igrejas, das pessoas religiosas e da generalidade dos ateus/agnósticos – é esta a situação mais aflitiva da nossa actualidade – perderemos cada vez mais os nossos sucessivos presentes e, à distância, hipotecaremos definitivamente o nosso Futuro.

Não creio que tamanha desgraça venha a acontecer. Mais um pouco de tempo, e esta situação de crescente desumanização conhecerá o seu fim. A Humanidade há-de acabar por ouvir/escutar/acolher o clamor do Pobre e do Oprimido, tão massivo e global ele está a tornar-se. E mudará de rumo. Estamos já à beira do limite possível, com o número de empobrecidos e de oprimidos do mundo a bater todos os recordes do passado, de um lado, e com o número de ricos cada vez mais ricos, do outro lado.

Num mundo assim, até as missas que as Igrejas celebram são acções de idolatria. O contrário da Eucaristia. Quanto mais missas se celebram por esse mundo além, mais doentes ficam as pessoas e os povos, mesmo aquelas e aqueles que já não as frequentam regularmente. Só a Eucaristia - não as Missas  que por aí se fazem a granel - pode curar as pessoas e os povos da idolatria religiosa e do Dinheiro acumulado e concentrado. Melhor: Só práticas políticas eucarísticas podem curar as pessoas e os povos da idolatria religiosa e da idolatria do Dinheiro concentrado e acumulado. O problema maior das Igrejas é que elas multiplicam as Missas, mas não fazem acontecer a Eucaristia. Muito menos suscitam práticas eucarísticas entre as pessoas que ainda frequentam os seus cultos.

O mesmo sucede com os partidos políticos. Tal como as Igrejas, também eles estão caídos na idolatria, inclusive os partidos de esquerda, cujos líderes se confessam publicamente ateus ou agnósticos. Ateus serão, mas não de todos os deuses que se alimentam de gente. São ateus das deusas e dos deuses das Religiões, mas não do deus Dinheiro acumulado e concentrado. São capazes de combater por palavras inflamadas o grande Kapital, mas depois adoptam práticas quotidianas que só ele proporciona aos seus seguidores. Aceitam privilégios com a maior das naturalidades, como se isto de ser rico ou de ser pobre fosse uma fatalidade, acontecesse como uma coisa natural. Aceitam instalar-se nos privilégios e beneficiar deles, sem chegarem a perder o sono perante o facto historicamente incontornável que é hoje a existência da pobreza e de pobres em massa. O facto de não fazerem parte desse mundo da pobreza e dos pobres em massa não lhes queima a consciência, nem lhes tira o sono. Pelo contrário, aproveitam ao máximo as suas situações de privilégio e de modo algum aceitam que elas sejam postas em causa. Quando muito, formulam um vago desejo de que toda a gente estivesse ao menos como eles. Só que um tal discurso é intrinsecamente falacioso e auto-enganador, uma vez que a simples existência da pobreza e de pobres em massa não é, nunca foi, um fenómeno natural, como os ciclones ou os tufões, ou como a sucessão das estações do ano. É o resultado mais hediondo do sistema económico-financeiro actualmente em vigor, que quem tem situações de privilégio tem tendência a encarar como uma inevitabilidade, quando, se pensarmos bem, bastará mudar deste perverso sistema para outro mais humano e solidário, e tudo será substancialmente diferente. Por isso a existência da pobreza e de pobres em massa é um crime. Um genocídio. Um holocausto diário, não menos cruel que o programado e realizado por Hitler contra os judeus então residentes na Alemanha.

A solidariedade para com tão grande número de vítimas humanas, exige lutas duélicas contra o Sistema económico-financeiro que as fabrica sem dó nem piedade. Lutas políticas e eucarísticas, que implicam corajosas e oportunas denúncias, enfrentamentos martiriais perante os responsáveis maiores pela manutenção desse sistema, práticas sororais/fraternas e constitutivamente maiêuticas (consciencializadoras e libertadoras ao mesmo tempo), com as vítimas, sem nos importarmos de pôr em risco os privilégios de que porventura dispomos no momento ou que poderíamos vir a dispor num próximo futuro. E não apenas lutas e acções políticas feitas de um modo voluntarista, mais ou menos estéreis e tontas, mas acções e lutas políticas pensadas e realizadas de modo científico e organizado, à escala local, nacional continental e global, até que se consiga derrubar o próprio sistema económico-financeiro que tantas vítimas humanas produz em cada dia que passa, e substituí-lo revolucionariamente por outro menos idolátrico, por isso, mais humano e fraterno.

Tenho que reconhecer que a vida de cada indivíduo é curta demais para tão ciclópica tarefa histórica. Mas cabe a cada uma, cada um de nós dar o melhor de si nesta direcção e deixar aos vindouros o exemplo desta sábia e solidária militância para com as vítimas humanas, e contra o Sistema que cruelmente as fabrica e mata. Metermo-nos, por isso, a desfrutar dos nossos privilégios, isolarmo-nos na ilha dos nossos privilégios, garantir aos nossos mais próximos a herança dos nossos privilégios, sem nem sequer cuidar em despertar dentro deles a consciência revolucionária e solidária, será pactuar com o sistema e ter atitudes idolátricas, por mais que apregoemos o nosso ateísmo aos quatro ventos.

Uma espiritualidade para este nosso tempo, a ser vivida num contexto de generalizada idolatria, como é este em que vivemos, há-de estar possuída de um Sopro capaz de inspirar vidas e práticas quotidianas eucarísticas, por isso, anti-idolátricas, práticas quotidianas que vão até ao limite de darmos a nossa própria vida pelo Pobre e pelo Oprimido, nos pobres e oprimidos concretos que conhecemos mais perto de nós e de quem nos havemos de aproximar, no jeito de Moisés em relação à sarça ardente, a quem foi dito que até as sandálias descalçasse. Fazer-se próximo do Pobre e do Oprimido calçados e vestidos com os nossos privilégios nunca suscitará sentimentos de dignidade em nenhuma das partes, como tal, não passa de estéril caridadezinha que só serve para dar ainda mais força à idolatria e enfraquecer e desmobilizar ainda mais as suas vítimas maiores. São práticas políticas esvaziadas de força libertadora.

Uma espiritualidade para este nosso tempo há-de ser uma espiritualidade sem Deus, pelo menos, sem o Deus das Religiões e também sem o Deus do sistema económico-financeiro que está aí a produzir pobreza e pobres em massa. Terá que ser uma espiritualidade sem o sopro de nenhuma das deusas, de nenhum dos deuses, cruéis e inumanos das religiões, que sempre estão em espúria aliança com o deus Dinheiro, sem dúvida o mais perverso de todos. Terá que ser, por isso, uma espiritualidade com o Sopro que vem do Pobre e do Oprimido, o Sopro que salta do seu constante e desafiador clamor, o qual se identifica com o Sopro de Jesus de Nazaré na cruz, no momento em que expirou, isto é, deu o seu Sopro, o seu Espírito. É uma espiritualidade que faz nascer práticas políticas eucarísticas, fecundamente violentas (não da violência que mata, mas da violência que liberta e possibilita a irrupção da vida, como a violência de um parto), por isso, práticas políticas que rasgam de alto abaixo os antigos e os novos véus dos templos, que só servem para esconder a verdade e mantê-la cativa na injustiça; práticas políticas que derrubam os templos e os altares e todas as babéis da nossa opressão e da nossa alienação. Mas não só. Tem que ser uma espiritualidade inspiradora e geradora de práticas políticas que, como a de Jesus, capazes por isso, de fazer ver os cegos, ouvir os surdos, falar os mudos, integrar os excluídos, erguer os mortos e, sobretudo, consciencializar e mobilizar os pobres contra a pobreza imposta e contra a indignidade humana que ela sempre gera em quem a sofre e em quem a fabrica e impõe.

Efectivamente, não se pode ser de Jesus de Nazaré e continuar a tolerar a existência da pobreza imposta e de pobres em massa. Semelhante comportamento é idolátrico. Como tal, desumaniza quem o protagoniza, confesse-se ateu ou religioso. Não se pode ser de Jesus de Nazaré e não lutar com toda a inteligência, com todas as forças e com todo o coração contra a cruz e o sofrimento humano, nomeadamente, o sofrimento do Pobre e do Oprimido. Nem que, por via desta luta, assumida como um duelo, acabemos condenados à cruz, como Jesus, por quantos vivem e medram à custa do sofrimento que causam aos outros. Não se pode ser de Jesus de Nazaré e não enfrentar nunca cara a cara os verdugos, os agentes históricos que crucificam o Pobre e o Oprimido, não só os verdugos económico-financeiros, mas também os que, hipocritamente, recorrem a uma certa imagem de Deus e oficiam a actos de culto com pompa e circunstância, em seu nome, mas para melhor ajudar a perpetuar o sistema económico-financeiro que fabrica e mata o Pobre e o Oprimido.

Nunca podemos esquecer que Jesus de Nazaré não fez uma cruz para nela se crucificar. Outros se encarregaram de a fazer para nela o crucificaram. A sua prática eucarística foi tão radical que suscitou tantos e tamanhos ódios. E todo o que odeia é homicida e genocida. Não foi em desconto dos nossos pecados que eles o mataram. O que eles fizeram é que foi o mais hediondo dos pecados, que continua aí a ser actualizado em cada tempo e lugar, sempre que matamos o Pobre e o Oprimido, muitos milhões deles cada dia, esses mesmos que antes fabricamos com as nossas economias e as nossas políticas sem coração, sem humanidade. E, se não os matamos directamente, pelo menos, somos cúmplices de semelhante holocausto diário, a pretexto de que nada podemos fazer para o impedir. A verdade é que não estamos nada para aí virados. Nem queremos estar. E por isso tudo fazemos para evitar que o Sopro ou o Espírito de Jesus de Nazaré nos habite e conduza, como o habitou e conduziu a ele. Preferimos deixar-nos conduzir pelo sopro infantilizador das deusas, dos deuses das Religiões. Ou, o que é bem pior, pelo sopro cruel do deus Dinheiro, de quem muito dificilmente chegaremos alguma vez a ser ateus, sobretudo, quando os privilégios que temos são muitos e ainda há no horizonte sérias hipóteses de virem a ser muitos mais!... Neste caso, o ateísmo que professamos em público é um bom pretexto para impedir que qualquer palavra profética nos possa ser dada. E, se mesmo assim, a palavra profética, que sempre pergunta: “Onde está o teu irmão?”, nos chegar a ser formulada, logo poderemos responder como fratricida Caim: “Não sei. Acaso sou guarda do meu irmão?” Só que, nessa altura, já não poderemos evitar a pergunta profética seguinte e a respectiva sentença: “Que fizeste? A voz do sangue do teu irmão clama da terra até mim. De futuro, serás amaldiçoado pela terra que, por causa de ti, abriu a boca para beber o sangue do teu irmão. Quando a cultivares, não voltará a dar-te os seus frutos. Serás vagabundo e fugitivo sobre a terra”. É hora de mudar. Radicalmente. De deixar a idolatria. E abrir-se às irmãs, aos irmãos, para juntos construirmos a sororidade/fraternidade universal.

No decorrer do encontro-conversa, que fui chamado a dinamizar, semeei algumas perguntas que nos haveriam de ajudar a reflectir sobre o Jesus concreto que emerge ou salta do meu livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo”: Eis algumas: Quem é Jesus, afinal, segundo este livro? E como é Jesus? Quais as causas concretas em que ele se envolveu? Qual o seu projecto que deu sentido a toda a sua vida? Ao serviço de quê e de quem viveu Jesus de Nazaré? A quem agradou? A quem desagradou? E, sobretudo, porque o mataram? E porque fizeram questão de matar na cruz, como o maldito dos malditos? Como seria o Cristianismo hoje, se só conhecêssemos este Evangelho assim traduzido e anotado por mim? Ou se, ao menos, este Evangelho tivesse sido o mais lido e o mais vivido pelas Igrejas? O que é que este Evangelho não tem que os outros dois Evangelhos sinópticos têm? Já se deram conta de que este Evangelho não tem natal? Nem aparições do Ressuscitado? Nem virgindade de Maria? Nem sequer o pai José? Nem Igreja? Nem Pedro-pedra sobre a qual a Igreja é edificada? Nem promessas de que as portas do Abismo nada poderão contra ela? Nem tem Maria, mãe de Jesus, como modelo de discípula fiel? Já repararam que este Evangelho é o único que se refere a Jesus como “o carpinteiro, o filho de Maria?” Que homem terá sido o pai carnal de Jesus, para que, segundo este Evangelho, os seus conterrâneos se recusem a nomeá-lo e prefiram apresentar Jesus como “o carpinteiro, o filho de Maria”?

A conversa foi longa e muito participada. Tanto que, no final, um dos participantes que veio com a sua mulher pela primeira vez, não resistiu a vir ter comigo, antes de se ir embora, para me dizer que regressava a casa muito feliz, porque o encontro havia decorrido em ambiente socrático ou maiêutico, o que leva as pessoas a abrir os olhos da consciência e a nunca mais voltarem à antiga cegueira. Por isso – acrescentou com alguma ironia na voz – o pe. Mário não está livre de que qualquer dia alguém o obrigue a beber a cicuta, como sucedeu com Sócrates, na Grécia antiga. Dei uma gargalhada de alegria e de cumplicidade, ao mesmo tempo que respondi: Mas eu, ao contrário de Sócrates, recusar-me-ia a bebê-la. Prezo muito esta vida histórica que me foi dada e jamais aceitaria pôr-lhe termo, sejam quais forem as pressões e as perseguições que me movam e os desprezos a que me sujeitem. A minha vida recebi-a para a dar, nunca para a guardar para mim, muito menos, para lhe pôr termo.

A concluir o encontro, deixei um apelo a todos os presentes: Vivamos permanentemente abertos ao Sopro ou Espírito de Jesus Crucificado, para que seja Ele a viver em nós e nós sejamos outros Jesus, hoje e aqui. Só assim tem sentido reflectirmos e conversarmos sobre Jesus no terceiro milénio, no decorrer de encontros de espiritualidade com a idolatria em fundo. Antes de nos despedirmos, ainda disse um canto do meu livro “Canto(S) nas Margens”, onde sobressaem estes versos logo de entrada:

Dizes que crês em Deus

dizes que crês

mas em que Deus tu crês

se logo enriqueces?

Só crê em Ti, ó Deus

quem usa os seus bens

p’ra pôr fim à pobreza

e às suas causas.

Dizes não crer em Deus

dizes não crer

mas em que Deus não crês

se logo enriqueces?

Feliz de quem, ó Deus

consegue ser ateu

também do deus-Dinheiro

que nos mata a alma. 

P.S. Neste 4.º Encontro, tive uma alegria muito especial. Logo após termos concluído o almoço eucarístico, entrou pela casa dentro o meu amigo e companheiro Pe. Manuel Dias, da Diocese de Aveiro. O Bispo D. António Marcelino retirou-lhe, recentemente, a paróquia de Cacia, onde o Pe. Manuel trabalhou durante 15 anos. Bastou ao Bispo enviar-lhe uma simples carta pelo correio. Nem sequer se deu ao trabalho de o procurar pessoalmente. Ou, ao menos, de lhe telefonar, a avisar que ia seguir a carta de despedimento, perdão, de exoneração. Ao funcionário eclesiástico que envelhece ou adoece, de forma não recuperável, basta este modo de agir. Fôssemos, como Igreja, verdadeiramente irmãos e companheiros de Jesus e outro, muito outro seria o comportamento nestas horas. Mas para isso, também a Igreja teria que ser continuação, no espaço e no tempo, do Movimento libertador e sororal/fraterno de Jesus. Está visto que não é. É uma multinacional de religião, continuadora do Império romano e do seu Paganismo religioso. Só por isso é que ela, nestes momentos, é capaz de agir como aqui se acaba de dizer. Para sua vergonha e arrependimento. Será que se envergonha e arrepende? Como eu ardentemente desejo que sim. Haverá grande alegria no Céu, isto é, entre os empobrecidos e os oprimidos do mundo, cujos corpos maltratados são verdadeira Casa de Deus Vivo.


2005 OUTUBRO 20

1. Pela primeira vez, estive nos estúdios da SIC Radical. A convite do novo programa CONVERSAS RIBEIRINHAS. Foi no início desta semana. Numa entrevista gravada de 30 minutos, que irá para o ar em dia ainda a anunciar. Provavelmente, nas proximidades do Natal. Até lá, as minhas respostas às perguntas formuladas por Pedro Ribeiro são como uma bomba carregada de sanidade mental e de Evangelho de Deus Vivo pronta explodir e a dar muito fruto. Nunca fui tão radical, numa entrevista, relativamente às questões que me foram postas. Voltou à baila o assunto das chamadas aparições de Fátima e da sua cruel senhora branca que desde 1917 lá é adorada pelas populações ainda não evangelizadas, naquela que é a maior acção de idolatria e de mentira promovida pela Igreja católica no nosso país. Mas não só. Há outras questões de fronteira cujas respostas tradicionais dadas pela Igreja católica, de tão antagónicas que são ao Evangelho de Deus, revelado em Jesus de Nazaré, têm que ser desmascaradas com novas respostas alternativas, bem mais conformes ao sentir e ao fazer de Jesus de Nazaré. Os nossos jovens, carregados de futuro mais do que de passado, muito justamente não se revêem nessas respostas tradicionais das Igrejas, tal como Deus Vivo se não revê, por mais que as Igrejas, a católica romana e as outras do ramo protestante, insistam em dizer que estão em consonância com a Palavra de Deus. Não estão. Todas as respostas que resvalem para um moralismo rançoso, que desresponsabilizem as pessoas historicamente situadas, que as dispensem da criatividade e apenas apelem à obediência a normas, a tradições e a leis oriundas do passado, não podem ter a marca de Deus Vivo. São respostas sem Espírito Santo, sem Sopro libertador e criador. Por isso, são respostas demoníacas. E tais são as respostas que as catequeses das diferentes Igrejas continuam hoje a dar às questões de ordem moral, como se os seres humanos fossem para a Moral, e não a Moral para os seres humanos. Ou como se a Moral fosse uma doutrina já acabada, pronta a servir às sucessivas gerações que chegam a este mundo. Ou como se a Moral fosse um código escrito duma vez por todas e agora aplicada a cada caso ou a cada situação. Ou como se a Moral fosse um Decálogo, ou 10 Leis fundamentais, dado por Deus aos seres humanos de todos os tempos e lugares, em torno do qual se têm acrescentado outras leis menores, com o intuito de reforçar as originais 10 Leis fundamentais.

Felizmente, as coisas não são nada assim, pelo menos, no espírito do Cristianismo de Jesus. Também não deveriam ser nada assim no interior das Igrejas que se reclamam do nome de Jesus. Mas as Igrejas, se são velozes em reclamar-se do nome de Jesus, são ainda mais velozes em afastar-se do seu Espírito libertador e criador. Onde as Igrejas se sentem confortadas é com as leis menores que inventam no decorrer dos tempos e que impõem às pessoas como cargas pesadas, quando os seus responsáveis nem sequer com o seu dedo mais pequeno lhes mexem. Em lugar de se baterem para que as pessoas e os povos sejam pessoas e povos progressivamente responsáveis, criadores de caminhos de humanidade que todos haveremos de percorrer, as Igrejas são velozes a criar normas sobre normas sem entranhas de humanidade que, depois, arrogantemente, impõem às pessoas e aos povos que têm o azar de lhes darem a sua adesão.

É sobretudo no terreno da Moral que as Igrejas mais se têm imposto às pessoas e aos povos. Arrogam-se, inclusive, do direito de mães e de mestras da Moral, fazem das pessoas e dos povos seus educandos em estado de menoridade e não suportam que as pessoas e os povos se autonomizem delas e organizem as suas vidas e a vida das sociedades como se as Igrejas não existissem. Felizmente, a Humanidade do século XXI e do terceiro milénio está a dar provas sobre provas de ser uma Humanidade cada vez mais autónoma das Igrejas. Sempre deveria ter sido assim, mas durante os dois primeiros milénios do Cristianismo e de domínio da Cristandade Ocidental a Humanidade não foi capaz de semelhante audácia e deixou-se ficar infantilizada sob o domínio e a arbitrariedade dos clérigos, com destaque para os mais graúdos, a começar no papa de Roma e a acabar nos párocos que os bispos residenciais habilmente mantiveram ao longo dos séculos em cada parcela de território habitado (hoje, ainda mantêm, mas felizmente, em muito menor número, e com tendência a desaparecerem de vez).

A Revolução Francesa deu o golpe de misericórdia neste sistema eclesiástico e neste modelo de organização das sociedades. Entre nós, foi a República de 1910 que abriu o caminho da autonomia da sociedade civil relativamente à Igreja católica romana. O 25 de Abril de 1974 quis consolidar esse caminho, mas não foi capaz. Depressa abortou, por falta de audácia e de frontalidade perante a hierarquia católica. E temos pago caro esta falha. Mas o que não fizeram os líderes da Revolução dos cravos, estão hoje a fazer os jovens do nosso país, na peugada do que fazem os jovens dos distintos países da União Europeia. A verdade é que quase todos eles hoje crescem cada vez mais fora da influência das Igrejas, a começar pela Igreja católica romana. As catequeses moralistas e legalistas, por isso, infantilizadoras, das Igrejas passam-lhes cada vez mais ao lado. E não levará muito tempo que os poucos clérigos católicos que ainda houver por aí ficarão a falar sozinhos no interior dos templos, arquitectonicamente concebidos como estruturas piramidais para dominar as populações que lá entraram, no decurso dos séculos e que foram obrigadas a fazê-lo, sob pena – ensinavam os mesmos clérigos católicos – de perdição eterna no inferno.

As populações assustadas por tais catequeses feitas de mentira, nem sequer se apercebiam que, com medo do inferno eterno, acabavam por viver a sua curta existência histórica num verdadeiro inferno eclesiástico, de horrores de toda a ordem e de castigos e de disciplinas que as mantinham a vida inteira reféns dos párocos e dos bispos católicos residenciais, aos quais, ainda por cima, deviam respeitar e acatar como se fossem o próprio Deus na terra. Exemplo paradigmático destes horrores católicos romanos são as três crianças de Fátima, cujas vidas individuais foram para sempre cerceadas pelos clérigos da sua paróquia e das paróquias em redor. Jacinta e Francisco morreram vítimas desses horrores, no mais completo abandono, por parte dos mesmos clérigos que antes os haviam metido nesse inferno de vida. E a sobrevivente Lúcia não teve melhor sorte, uma vez que esses mesmos clérigos e outros de ordem superior aos párocos nunca mais a deixaram ser ela própria, fizeram-lhe a cabeça de tal maneira que a pobre menina nunca chegou a crescer e alcançou a velhice completamente infantilizada e imbecilizada. As suas Memórias, lidas a esta luz, são o que há de mais imbecil e de mais infantilista, uma das mais repelentes negações históricas do Cristianismo e do Evangelho de Jesus. A infeliz nunca chegou a ser ela própria, sempre foi o que os clérigos que a rodearam quiseram que ela fosse. Tornou-se por isso o protótipo dos horrores que padecem as pessoas e os povos, quando têm o azar de caírem sob a alçada dos clérigos e da sua Moral imoral, feita de normas e de mandamentos concebidos para nos infantilizar.

Estive na Sic Radical. Vi-me, de repente, rodeado de jovens de ambos os sexos, cada qual o mais liberto, descontraído, solto, desembaraçado, rostos acolhedores, a irradiar simpatia por todos os lados. A minha entrada no estúdio foi sentida como uma lufada de ar puro e fresco. O Sopro foi libertador, por isso, do Deus Vivo. Dei-me conta que a minha ida ao programa estava rodeada de grande expectativa. Quantas, quantos fazem a SIC Radical vivem já num outro planeta, o da liberdade e da criatividade. Portanto, no planeta da Humanidade, em que todos havemos de viver. Não são nem imorais nem amorais. São seres humanos, todos, ou quase todos, distantes dos templos e dos altares, tal como eu. Ainda não estarão próximos dos últimos e das vítimas dos sistemas, como eu procuro estar, e isso será o passo que lhes falta dar, para serem da escola de Jesus de Nazaré. Mas, pelo menos, já não frequentam nem acatam a Moral de horrores que as Igrejas todas teimam em ensinar e impor às pessoas e aos povos como se fosse coisa de Deus Vivo, quando é coisa delas, criada e alimentada pela sua arbitrariedade e pela sua arrogância, pelo seu farisaísmo sem coração e avesso à liberdade criadora e à responsabilidade de cada qual.

A entrevista, gravada como se fosse em directo, decorreu sem nenhum tempo morto. Os 30 minutos voaram. As questões que os responsáveis pelo programa gostariam de ver abordadas não foram todas abordadas, por falta de tempo. Mas as respostas que dei às questões concretas que me foram formuladas são suficientemente radicais e alternativas, para logo se perceber e concluir que esta civilização ocidental em que oficialmente ainda vivemos, fundada sobre mitos e mentiras e arbitrariedades e arrogâncias da Igreja católica romana, com mais de Império romano do que de Evangelho libertador de Jesus de Nazaré, tem que ser substituída quanto antes, se quisermos que haja futuro para o Ocidente e para o mundo em geral. Tudo nesta civilização está concebido para impedir as pessoas e os povos de serem, de crescerem, de se autonomizarem, de viverem na liberdade e na responsabilidade. O próprio entrevistador, já quase a encerrar a entrevista, chegou a essa conclusão, de tão evidente que ela é, à luz do que eu respondi às questões que me foram postas. E disse-o sem papas na língua, como quem proclama o fim dum longo período histórico de opressão. As minhas respostas, como terão oportunidade de ouvir e ver, não deixam pedra sobre pedra, nesta casa de opressão que é a civilização ocidental, construída segundo a imoral Moral moralista católica, toda ela nos antípodas do Evangelho de Jesus, e imposta ao longo dos séculos por catequeses sem entranhas de humanidade, por isso, demoníacas e idolátricas.

No final da gravação, nenhum dos jovens que “fazem” o programa conseguiu ficar sem se vir manifestar perante mim, tamanha era a sua alegria, a sua festa interior. Todos se reviram nas minhas respostas, no que elas têm de humanidade e de libertador. Mas toda a minha luta presbiteral em prol da Humanidade, vai na linha da de Jesus e do seu Espírito criador e libertador. Por mim, entendo que tudo o que não for assim sai fora da missão de Jesus e por isso não tem a sua marca. Por isso, ao constatar toda a maravilha que aconteceu no estúdio da SIC Radical, percebi que a Humanidade, nas novas gerações, está a afastar-se das Igrejas, mas porque se está a abrir mais e mais ao Espírito Santo, ao Sopro libertador e criador de Jesus de Nazaré. É este Sopro que hoje habita as novas gerações – o relato lucano do primeiro Pentecostes da Igreja, ao citar palavras do profeta Joel, já foi para este Evangelho que apontou – e por isso a minha alegria é agora ainda mais completa.

O facto leva-me a concluir que, sempre que as Igrejas arrogantemente se comportam como mães e mestras da Humanidade, em lugar de parteiras e servas da Humanidade, Deus Vivo, o de Jesus, salta fora das suas acanhadas e inumanas fronteiras e actua directamente nos corações e nas mentes das mulheres e dos homens, a começar pelos jovens e a acabar nos velhos de todos os sexos. Espantam-se? Mas não é isto que mais salta da prática de Jesus de Nazaré? A Sinagoga e o Templo de Jerusalém, quando perceberam isso, em lugar de correrem a converter-se a Jesus e à Boa Notícia que ele nos traz da parte de Deus, correram a organizar-se contra ele para o matar e arrastaram os demais poderes da época para o seu horrendo crime.

O mesmo insistem em fazer as Igrejas, hoje, autistas que são em relação aos Sinais dos Tempos e às línguas que o Espírito Santo sempre faz falar, nomeadamente quando as Igrejas apenas sabem falar a língua da arbitrariedade e do poder, da Moral moralista, cruel e inumana quanto elas, sempre disponíveis para repetirem “Senhor, Senhor”, nos seus templos e altares, mas incapazes de se alegrarem, quando vêem os seres humanos a crescer em sabedoria e em graça, em liberdade e em responsabilidade, ao ponto de poderem já viver sem precisar delas para nada!

Neste particular, é manifesto que eu continuo a fazer parte da Igreja católica, em que um dia fui baptizado e ordenado presbítero, mas com uma postura totalmente outra da tradicional. Para que, também dentro dela, o Evangelho de Jesus continue a ser anunciado e testemunhado, oportuna e inoportunamente. Como testemunho contra ela. Até que ela deixe de ser para com a Humanidade que não a integra como o filho mais velho da parábola do “filho pródigo” e se abra humildemente a ela, como o Pai dessa mesma parábola se abriu ao filho mais novo, e faça com todos os seres humanos sem excepção a festa da liberdade e da responsabilidade, num banquete eucarístico sem fim, em pleno mundo, onde eles vivem cada vez mais sem templos nem altares.

 

2. Li na edição da “VP-Voz Portucalense”, semanário oficioso da Diocese do Porto, que ontem me chegou pelo correio, que todas as Dioceses de Portugal se preparam para receber e cultuar com pompa e circunstância as relíquias de Santa Teresinha do Menino Jesus. Os restos daquela freira carmelita morta antes de tempo, também devido às penitências, aos jejuns e aos cilícios que foi levada a realizar dia e noite contra a sua saúde, andarão por aí a passear, de catedral em catedral, dentro de um avantajado relicário de ouro, para que as populações católicas do país possam correr a ver o necrófilo espectáculo e se prostrem de joelhos perante o novo “bezerro de ouro”. Leio e pasmo. Os bispos, em lugar de chamarem as populações às lutas e às acções inteligentes e generosas que levantem o país da depressão generalizada em que presentemente nos encontramos, vão ao ponto de escrever uma Carta Pastoral a chamar as populações para esta adoração necrófila. Estou já a imaginar as homilias e as catequeses sacrificialistas que vão ser feitas pelos clérigos católicos às populações, nas quais estará presente um tipo de Cristianismo pagão que a jovem Teresa foi levada a praticar em grau máximo, num exemplo de sadismo e de masoquismo de pôr os cabelos em pé. Estou também a ver as populações a correr em massa para assistir a este espectáculo de anti-humanidade. Sempre os bispos católicos e os respectivos párocos foram sensíveis aos cultos sacrificialistas do Paganismo primitivo. Aliás, só aceitaram Jesus de Nazaré, quando conseguiram paganizá-lo e fazer dele um deus mais, do Paganismo primitivo, o maior de todos, logo a seguir à deusa-mor, a deusa Virgem e Mãe de múltiplos nomes, segundo as necessidades das populações oprimidas (entre nós, a deusa-mor dá sobretudo pelo nome de Virgem ou senhora de Fátima!). Tanto assim, que não descansaram enquanto não converteram a morte de Jesus na cruz no sacrifício dos sacrifícios oferecido a Deus que estava infinitamente ofendido pelo pecado original dos nossos primeiros pais, e que, para se poder reconciliar connosco, foi preciso que o seu próprio filho se imolasse perante Ele, em nosso nome e em nossa vez. E fizeram pior os bispos e párocos católicos: converteram o combate profético-político de Jesus de Nazaré pela libertação para a liberdade da Humanidade caída em idolatria, numa missa repetida milhões de vezes em cada dia, a propósito de tudo e de nada (no culto das relíquias e do relicário de ouro, haverá inevitavelmente mais algumas em todas as dioceses), naquilo que dizem ser a actualização/renovação incruenta do sacrifício de Cristo na cruz pelos nossos pecados!!!

Foi uma catequese destas, anti-boa notícia de Deus e anti-Jesus de Nazaré, que a menina e jovem Teresa de Jesus foi levada a viver e que haveria de a matar antes de tempo. Os seus directores espirituais e confessores a isso a levaram. A sua mestra de noviças a isso a arrastou. E o Carmelo onde ela entrou a isso a condenou. Sem que os Tribunais ao tempo alguma vez fossem chamados a intervir, para impedirem que a jovem Teresa fosse sacrificada e para que a doutrina que ainda hoje continua a arrastar grande número de pessoas a tais desvios contra a natureza humana e contra a dignidade humana fosse publicamente condenada. Os tribunais não puderam fazê-lo, dominados e controlados que estavam pela Igreja. Eles próprios era por essa inumana doutrina que pautavam os seus juízos. Mas hoje bom seria que se levantassem vozes na sociedade civil contra esta catequese medieval e contra a hierarquia da Igreja católica que insiste em perpetuá-la, terceiro milénio além.

Infelizmente, não é isto que iremos ver. As televisões cairão sobre este espectáculo medieval e deprimente e farão directos, como tanto gostam de fazer, quando se trata de exibir a dor, o sangue, os suplícios, os jejuns, os sacrifícios. Em lugar de combaterem, como Jesus, o sofrimento humano e as suas causas até acabarem a sofrê-lo também na própria carne, por imposição dos seus fabricadores, não, evidentemente, em consequência duma opção pessoal que, a acontecer, sempre será manifestação de doença mental, vão atirar-se como aves de rapina sobre semelhante espectáculo da nossa vergonha.

Pobres populações que assim são criminosamente maltratadas, sem nunca chegarem a ter disso consciência. São crimes sobre crimes que todos os dias se cometem contra elas, para que continuem a ser carne para canhão, ou combustível humano que faz alimentar a máquina do sistema, enquanto tal for achado necessário. Porque quando vier a deixar de ser necessário, então nem para isso as multidões servirão e serão pura e simplesmente banidas como excedentárias, a exemplo do que aconteceu aos seis milhões de judeus na Alemanha de Hitler.

Pobre Igreja católica que não há maneira de acertar com o Caminho aberto pela prática libertadora de Jesus de Nazaré. E prefere continuar a dar ouvidos às fábulas e às mentiras que vêm dos sacerdotes do Paganismo primitivo, de quem é continuadora. Vejam, pois, as pessoas e as populações das freguesias com que é que os párocos e os bispos de Portugal as ocupam. Para que acções as mobilizam. São acções alienantes, que as desviam das lutas e dos combates prementes em prol da vida. São acções nos antípodas das de Jesus. Em lugar de mobilizarem as pessoas e as populações contra as economias que nos devoram a alma, a identidade, mobilizam-nas para irem adorar o bezerro de ouro e os restos mortais duma mulher a quem fizeram freira de clausura e a quem privaram do futuro, tudo em honra de um Deus vampiro que se agrada de sacrifícios humanos, sobretudo de donzelas e de mancebos, levados a fugir do prazer de viver, como se o prazer de viver no mundo e com o mundo fosse inumano e um pecado de bradar aos céus. Pecado de bradar aos céus é o que fazem tais doutrinas demoníacas das Igrejas.

Felizes as pessoas e os povos que hoje resistem a estas catequeses demoníacas e, como os jovens que encontrei na SIC Radical, decidem assumir a vida nas próprias mãos, na liberdade e na responsabilidade. E que às Igrejas que insistem em ocupar-se com os mortos e os seus restos mortais, com liturgias por mortos e com iniciativas como a da adoração dos restos mortais da freira Teresa que morreu antes de tempo, como vítima imolada em honra de um Deus do Paganismo primitivo, saudavelmente viram as costas, para que elas fiquem a falar sozinhas como esquizofrénicas que são. Quando menos esperarem, tais pessoas e povos descobrirão que no meio delas e deles está o próprio Jesus de Nazaré e o seu Sopro libertador, ou ele não fosse o primeiro a abandonar os lugares-túmulo, os templos-túmulo onde as pessoas e os povos são demoniacamente estimulados a auto-flagelar-se dia e noite.

 

3. Voltei a passar esta semana pela Comunidade das Quartas-feiras, em S. Pedro da Cova. A comunidade continua reduzida ao mínimo de pessoas. Mesmo assim, é sacramento do Deus de Jesus naquela vila do concelho de Gondomar. Ao contrário da Paróquia, cujo pároco, de tão degradado que se tem revelado na sua relação com a população, e de tão lacaio que tem sido do Major presidente da Câmara Municipal, mais parece ser o sacramento do Mal e da Perversão. O Bispo da Diocese acaba, finalmente, de dar um sinal de que se não revê naquele jeito de pároco mercenário, lacaio do poder autárquico e escravo do dinheiro que faz dele um pequeno monstro humano. Para tanto, instituiu uma capelania com todas as capacidades canónicas de paróquia, na zona de Belói e nomeou para ela um padre do Porto. Mas nem assim o Pe. Mendes se sentiu afectado. Parece que já nem vergonha sente, devido ao estado de degradação humana a que chegou. Digo-o com lágrimas de dor e de simpatia fraterna. E também com raiva, não contra ele, mas contra o sistema eclesiástico que o levou a esta degradação humana. O Pe. Mendes deveria ter-lhe resistido com todas as suas forças. Pelo contrário, entregou-se-lhe com armas e bagagens. E deu no que se vê. No lugar onde devia crescer o Deus Vivo, cresceu o Dinheiro. E onde deveria ter crescido um homem com entranhas de humanidade e de misericórdia, cresceu um funcionário eclesiástico em progressiva degradação humana. Por isso digo: Maldito sistema eclesiástico que leva seres humanos a semelhante degradação. E digo mais: Meu irmão, Pe. Mendes, vê o que fizeram de ti, a que estado te reduziram. Põe de novo os olhos em Jesus de Nazaré e, qual Lázaro de Betânia outrora, ergue-te do túmulo em que hoje vives e vem viver a vida em forma humana, como irmão universal das vítimas que também ajudaste a fabricar com a tua prática anti-jesuânica e insolidária. Deixa que o Humano te vista de novo e faz-te solidário de quantas, quantos também ajudaste a humilhar e a explorar.

No decorrer do encontro, ouvimos, por proposta minha, o Evangelho de Mateus 25, 31-46. E depressa percebemos, em diálogo maiêutico, que ou nós, os seres humanos, ateus que nos digamos, reconhecemos Deus Vivo nos corpos de cada uma das vítimas humanas que os nossos sistemas económicos e políticos hoje fabricam aos milhões e corremos a amá-lO e a servi-lO aí em cada uma delas, ou mais não somos do que idólatras que acabam tão inumanos e insolidários quanto os ídolos que criamos para nós, sob a designação de Deus. Esta tomada de consciência constituiu o momento alto do encontro realizado em nome de Jesus. A revelação atingiu-nos as entranhas. Ao ponto de não hesitarmos em dizer que, a ser assim, as Igrejas institucionais e oficiais mais não fazem do que idolatria. Efectivamente, andam desviadas de Deus Vivo, nas vítimas humanas onde Ele sempre nos espera, e desviam as populações dEle, presente em cada irmã, em cada irmão de carne e osso que passa fome e sofre qualquer tipo de exclusão e de discriminação, ao entretê-las com ritos e com celebrações as mais diversas e as mais rotineiras, as quais só podem ser realizadas em honra dos ídolos, não de Deus Vivo. A este, quem é encontrado por Ele, logo deixará os templos e os altares das nossas idolatrias, para passar a percorrer os caminhos que levam ao Pobre e ao Excluído, para com ele se ocupar até que ele se autonomize e seja senhor dos próprios destinos.

 

4. Dizem os órgãos de comunicação social que Cavaco Silva anuncia hoje a sua candidatura a presidente da República. Depois de Mário Soares, entra Cavaco na corrida ao palácio de Belém. Pobre povo que é chamado a escolher entre um e outro. E que se resigna a este fado. Não me revejo em nenhum. E como eu, muita outra gente no país. As máquinas de propaganda vão degladiar-se no terreno. E as populações, incautas e indefesas, acabarão por votar num deles, no melhor publicitado. Como se eles fossem um produto de supermercado. Fosse o vencedor apenas isso, porque então utilizá-lo-íamos como tal, a nosso bel-prazer. Mas aquele que vier a ser o próximo Presidente da República não será um simples produto, mas as mãos visíveis dos grandes Interesses Obscuros que estão por trás dele e de qualquer máquina publicitária. Daí a nossa desgraça como povo. Votamos em quem depois nos domina e engana. Em quem nos manipula.

É tempo de fazermos um manguito a tudo isto. Em nome da nossa dignidade. A Política, ou é acção de todas, todos nós, ou é caminho para o abismo. Acabemos depressa com os Cavacos e os Soares. Ousemos ser. Só assim garantimos um futuro de paz e de bem-estar a nós próprias, a nós próprios. É dura esta linguagem? Mas que esperavam? Não sabemos que a “vida fácil” é a via mais curta para a prostituição das pessoas e dos povos? E disso já tivemos demais no nosso país. Se então vamos continuar a querer mais do mesmo, não se poderá dizer de nós que, além do mais, ainda somos estúpidos? Olho vivo, irmãs, irmãos!


2005 OUTUBRO 16 

Sexta-feira passada, dia 14, regressei a Braga, por umas horas. A convite do meu amigo César Príncipe, fui apresentar o seu livro Ementas do paraíso, edição Campo das Letras. É sempre com algum sobressalto interior que regresso àquela cidade, onde vivi/trabalhei dez anos, como redactor principal e depois chefe de redacção do diário Correio do Minho. Mas é também com muita indignação na alma, porque não consigo entrar em Braga, sem logo associar à cidade o nome do famigerado Cónego Melo, meu irmão no presbiterado, mas com uma prática eclesiástica e sócio-política que faz dele uma espécie de anti-Evangelho de Deus, pelo menos, do Deus de Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império. Hoje, e porque a idade não perdoa a ninguém, é uma sombra do que foi. Mas no festivo e revolucionário Portugal de Abril foi a grande referência eclesiástica católica contra a Liberdade e a Dignidade, em aliança com os grandes Interesses Obscuros da região.

O que mais me envergonha é que ninguém, na Igreja de Braga e do país, lhe tenha feito frente, em nome do Evangelho. Todos lhe tiveram medo e se encolheram. Naquele contexto, nem sei como foi possível a minha contratação para a redacção do Correio do Minho. Tudo se passou em segredo. E a Igreja de Braga, controlada e subjugada pelo Cónego Melo, só soube da minha presença, quando eu já lá trabalhava, com contrato efectivo. As crónicas que, algum tempo depois de entrar, passei a assinar diariamente na página 3, com as minhas iniciais M. O., depressa chamaram a atenção da cidade. E os grandes Interesses Obscuros da região puseram-se em campo para saber quem é que estava por trás dessas duas maiúsculas. Choveram pressões e mais pressões sobre a administração do jornal e sobre o director para que eu fosse saneado. O director não cedeu. E eu pude prosseguir, durante dez anos, como um espinho cravado na cabeça dos grandes Interesses Obscuros da região, até que o jornal foi abruptamente encerrado “para reestruturação”. Esteve assim um ano. Pagavam os salários aos jornalistas, mas dispensavam o trabalho deles. E o jornal só reabriu, quando decidi abandonar aquele projecto e fundar com outras companheiras, outros companheiros o Jornal Fraternizar. Durante aqueles dez anos fui tolerado, mas vigiado. A minha intervenção na cidade resumia-se ao jornal. Nenhum pároco da região alguma vez me procurou ou convidou para o que quer que fosse. E todos, mais ou menos abertamente, alertaram o rebanho que frequentava os seus cultos de domingo para o perigo que era a minha presença na cidade. De modo que senti à minha volta um grande deserto.

Com dificuldade, consegui ser visita regular de algumas famílias católicas da cidade. Elas próprias mo confessavam que ficariam mal vistas, se me dessem muita entrada. E não davam. Para lá de me abrirem a porta da sua casa. Por exemplo, criar pequenos grupos de cristãs, cristãos, nunca foi possível. O deserto só não foi completo, porque, já então, felizmente, muitas famílias de Braga não se reconheciam no rebanho católico dos párocos. Haviam optado ou pelo ateísmo, ou pelo distanciamento da paróquia católica. Mas foi, sobretudo, entre os ateus que eu encontrei mais acolhimento e reconhecimento. Para a Igreja de Braga, os ateus eram olhados como os pecadores do tempo de Jesus. A Igreja de Braga tratava-os como os fariseus e os doutores da Lei do tempo de Jesus tratavam os pecadores  públicos. Bastava-me a mim comportar-me em relação a eles como Jesus em relação aos pecadores do seu tempo e país. E foi o que fiz. Por isso esses dez anos de jornalista no Correio do Minho foram decisivos para o meu crescimento na Fé. Foram anos turbulentos, mas nunca podemos esperar outra coisa, quando partilhamos/vivemos a Fé de Jesus. Se ela se identificasse com os grandes Interesses Obscuros duma região ou do mundo, a turbulência seria nenhuma. Como, ao contrário, a Fé de Jesus denuncia os crimes e faz-nos solidárias, solidários com as vítimas dos crimes dos grandes Interesses Obscuros, estes não a suportam. E tudo fazem para obstruir, neutralizar e desacreditar quem se revela portador dela.

Não foi assim com o Cónego Melo. A ele, os grandes Interesses Obscuros da região de Braga promoveram-no e apoiaram-no, sempre lhe franquearam todas as portas e engrandeciam o seu nome. Chegaram até a pensar erguer-lhe uma estátua enorme na cidade. A oposição nacional, por parte do bom senso e da inteligência foi tão firme, que o projecto abortou, à espera de piores dias. O que deverá vir a acontecer, quando o Cónego Melo já não fizer parte do número dos vivos da cidade. Então, a estátua subirá do chão da cidade, como já subiu, há anos, a estátua do papa João Paulo II. O que nem é mau. Perpetuará o exemplo de um homem influente da Igreja católica de Braga, que as gerações futuras nunca haverão de imitar. Aliás, é para o que servem os monumentos levantados pelos grandes Interesses Obscuros em honra de algum dos seus mais zelosos servidores: para que as gerações futuras saibam quem foram os seus malfeitores e, ao passarem por perto desses monumentos erguidos em sua memória, possam cuspir para o chão, em sinal de protesto e de indignação. E mais: para que um dia conduzam até junto desses monumentos as suas filhas, os seus filhos e lhes contem as principais acções criminosas que aqueles senhores importantes cometeram contra a Humanidade.

Antes da apresentação do livro, houve um frugal jantar com o autor do livro, numa das acolhedoras tasquinhas de Braga, a convite do promotor da sessão, o amigo comum António Lopes, num passado ainda recente, um conhecido e temido militante comunista da cidade de Braga hoje mais virado para a divulgação/venda de livros de qualidade, um pouco por todo o país, e para a dinamização da respectiva leitura entre as diversas camadas da população. Para que o livro ganhe vida, tenha rosto junto das pessoas e estas sejam despertas para a importância dos conteúdos guardados no interior das suas páginas.

Foi no decorrer deste jantar que fiquei a saber de um interessante pormenor sobre o meu livro O outro Evangelho segundo Jesus Cristo. Em conversa com responsáveis da Faculdade de Filosofia da Universidade católica, na cidade, em ordem a uma exposição/venda de livros, durante um próximo Congresso de Filosofia, organizado por aquela Faculdade, eles quiseram saber de António Lopes quais as editoras fornecedoras de livros. Quando ouviram falar da Campo das Letras, foi visível o seu constrangimento. Também e sobretudo por causa dos meus livros. E um deles deixou escapar este comentário: Pelo menos, o último livro do Padre Mário, O outro Evangelho segundo Jesus Cristo, a Editora do Porto bem escusava de o ter publicado. Fiquei assim a saber que o livro já foi lido por eles e que os incomodou vivamente. Mas não se atrevem a dizê-lo em público, certamente, para não o publicitarem involuntariamente. A verdade é que, se o livro contivesse desvios ao Evangelho de Jesus, eles não deixariam de o denunciar, até para me desacreditarem na praça. Como o não podem fazer, de forma bíblica e teologicamente fundamentada, tentam desacreditar-me em voz baixa, de boca a orelha, o que, infelizmente, ainda resulta junto de muita gente católica, habituada a seguir o que dizem os doutores católicos e os senhores abades das paróquias. Mas por poucos anos mais, a menos que os grandes Interesses Obscuros voltem a conseguir impor o obscurantismo entre as populações e a restaurar a Idade Média neste terceiro milénio do Cristianismo. O que não é de todo impossível, bem pelo contrário. Aliás, já se começa a ver muito trabalho nesse sentido por parte das universidades confessionais, as das Igrejas como as do Sistema neo-liberal, mais os grandes media, com destaque para as televisões e a Internet de banda larga. É manifesto que, nestas áreas, “os filhos das trevas” estão muito activos e levam a palma aos que o Evangelho de Jesus chama “os filhos da luz”. Os quase constantes apelos que estes Meios fazem à irracionalidade humana e ao conformismo estão cada vez mais presentes no quotidiano das populações e são muitas as pessoas que se deixam ir por eles. O que nos vale – e esta é uma das razões da minha esperança – é que basta um pequeno fósforo de lucidez e de sanidade mental aceso na Noite, para que tudo fique momentaneamente desmascarado. E sempre haverá minorias-Luz que resistem às Trevas. E que, assim, garantem futuro a cada presente da Humanidade, nem que alguns dos seus sucessivos presentes sejam densa Escuridão.

Foram muitas as pessoas que apareceram na sessão. O que constituiu uma agradável surpresa. Uma significativa parte era minha conhecida dos meus dez anos no Correio do Minho. Foi uma alegria podermos cair nos braços uns dos outros. Vejo que a minha Passagem por Braga ainda perdura. E que é alimento na caminhada de muitas pessoas.

Quando me foi dada a palavra, falei do meu amigo César Príncipe como de um homem que, ao contrário dos Césares de Roma, integra a saudável e fecunda minoria dos que têm a audácia de serem anti-Império. Dos que cultivam a sabedoria contra a ignorância imposta e cientificamente programada. Dos que seguem a Verdade contra a Mentira, a Liberdade contra o Medo, a Inteligência contra o obscurantismo da Religião, a Humildade contra a Arrogância.

Sobre o livro, disse o que me pareceu ser da mais elementar justiça dizer: Este livro é uma Bíblia, muitos livros num livro, tantas são as sugestões que nos deixa, as portas que nos abre, os caminhos que nos convida a percorrer. Nunca a sátira foi tão longe, no olhar para a Igreja e para as suas múltiplas manifestações e actividades. Nunca foi tão abundante e variada. Nunca foi servida por tantos e variados menus. Nunca foi tão inteligente. Tão profética. Tão salutar. Tão arguta. O livro é uma bíblia, uma biblioteca de Humor e de Amor. Como Deus. Só um ateu assumido, na peugada de Jesus de Nazaré, como é o meu amigo César Príncipe, pode servir-nos todos estes menus de Humor e de Amor. Aliás, só quem ama é capaz de humor. O livro é uma biblioteca que nos faz rir da primeira à última página. Pode parecer blasfémia, mas não resisto a dizer que todo este humor satírico é Palavra de Deus, do Deus de Jesus de Nazaré, que é um Deus que ri. Quão sonoras não hão-de ser as gargalhadas de Deus, diante da Cúria Romana, por exemplo, ou dos cardeais, ou de cada conclave, ou do papado em geral. O livro é tão demolidor, que é legítimo perguntar se, depois dele, ainda fica alguma coisa de pé no Cristianismo da Igreja católica romana. Digo que fica a Igreja e o Cristianismo de Jesus. Tudo o mais é reduzido a escombros. E ainda bem. Nas suas quase 500 páginas em letra miudinha, o livro é um itinerário termal, purificador que, depois de percorrido, nos deixa interiormente purificados, curados dos maus humores, dos medos, dos moralismos, das cirroses provocadas por certas catequeses terroristas, dos pesadelos infernais, das penitências que sempre nos quiseram impor em nome de Deus. Tantas e tão inteligentes iguarias de humor só podem levar-nos ao paraíso, não àquele céu sem Mundo e sem História e, por isso, também sem Deus Vivo, mas ao paraíso que nos cumpre construir aqui e agora, na peugada de Jesus de Nazaré e do seu Deus, que trabalha continuamente para levar por diante a sua criação. O Cristianismo/Catolicismo que aqui se critica e denuncia sob a forma de múltiplas e variadíssimas ementas de comer/beber/reflectir e chorar por mais, não é o de Jesus. O de Jesus tem como ementa comer/beber com os pecadores, os excluídos dos templos e dos clubes de gente bem, com as inúmeras vítimas do mundo. Uma ementa em que nós próprias, nós próprios nos damos a comer e a beber, enquanto mulheres, homens militantes de causas que interessam à Humanidade, contra os templos e os Impérios.

A concluir a minha intervenção, não resisti a transcrever uma ementa do livro, em que nos é proposto o exemplo de um frade que quis chegar a santo através da penitência corporal. Li, em tom jocoso, o texto e foram muitas as gargalhadas das pessoas presentes. E no final, depois de tudo, a gargalhada foi estrondosa, quando me ouviram dizer um sonoro “Porra!”, contra tanta santidade, entenda-se, contra tanta estupidez junta, disfarçada de santidade! Aqui a transcrevo. Leiam-na e riam a bom rir:

Caneca c/ Tremoços à Frei Cristo*

* Frei António de Cristo (1575-1653). Beirão, de Massada. Em petiz, foi menino de coro. Converteu pecadores na Madeira, durante três anos. De regresso ao Continente, foi mestre de noviços em Lisboa & Guardião em Guimarães & Santarém. Recolheu-se em Alenquer. Exaltado como exemplaríssimo cristão & servo de Deus. Verdadeiro faquir seráfico, deixa na penumbra os crucificados das Filipinas, nossos contemporâneos. Com a devida vénia, fielmente se transcrevem, recorrendo a simples adaptações ao Português corrente, passagens das páginas 217/218 da História Eclesiástica da Cidade & Bispado de Lamego, Escrita por Dom Joaquim Azevedo, Fidalgo capellão da casa real, Cónego regular de Santo Agostinho, Abbade reservatário de Sedavim, e Parocho de Vargeas e Continuada e Anotada por um Cónego da Sé de Lamego, Typographia do Jornal do Porto, 1878: Todas as noites tomava disciplinas, já com cordas nodosas, já com cadeias de ferro, já com rosetas de vidro, que o esvaíam em sangue. Trazia cilício sobre a carne, & tinha muitos, cada qual mais áspero de arames & pontas, que causavam horror. Desde os sete anos teve por travesseiro uma tábua, de Verão; de Inverno, cortiça & uma cruz em que reclinava a cabeça. Nas maiores festas se armava com jaquetas de mangas, calções de arames, ou contas de picos, braceletes & ligas de picos de ferro, & dizia que se armava cavaleiro para conquistar o reino dos céus. Alguns dias, em memória das chagas do Senhor, lançava pingos de lacre ou cera derretida nas palmas & nas costas das mãos; como se lhe faziam chagas, que não podia encobrir, trocou este tormento em meter alfinetes pela carne da cabeça, em memória da coroa de espinhos, & mais o atormentavam ao arrancá-los do que ao metê-los na carne. Jejuava a pão & água sete Quaresmas no ano, as vésperas dos santos da ordem seráfica & de outros, os  jejuns da Igreja, o que vinha a ser quase todo o ano. Nada comia sexta-feira Santa, só às vezes metia fel na boca em louvor da amargura que o bom Jesus padeceu. Na última velhice lhe mandaram por obediência comer peixe ao domingo, & caldo nos jejuns; mas nunca consoou. Usava pastilhas de tremoços crus & fel, que tiravam todo o apetite & vontade de comer. Sendo mestre de noviços, ao ouvir as culpas dos outros se prostrava em terra a dizer as suas, obrigava-os a pôr-lhe os pés na boca, & a passar sobre ele. Era o primeiro a acarretar água para a cozinha, limpar & varrer… Se cometia alguma falta oculta, a dizia no refeitório diante de todos, para o prelado o castigar, peado como besta, presos os pés; se falava alto, levava um pau na boca; se faltava ao coro, levava uma pesada pedra aos ombros… O mesmo fazia pelas faltas dos outros… Não se podendo ter em pé, na última doença, na véspera do Espírito Santo, não pôde comungar pelos contínuos vómitos, recebeu a Extrema-Unção; tomou o círio nas mãos, com grande alegria; sentado na cama entre seus irmãos, expirou. Antes de morrer pediu água de porco espinho, para mais padecer. Ao expirar abriu os olhos, que sempre trazia fechados. Sepultou-se com grande concurso & veneração do povo, a 31 de Maio de 1653.

A sessão não acabou logo depois da minha intervenção e da intervenção do autor César Príncipe. Arrastou-se por bastante tempo mais, num debate entre as pessoas presentes, algumas das quais com achegas na linha das apresentadas no livro, carregadas de humor, o que fez da sessão um momento profiláctico invulgar. Soubesse a cidade de Braga que as coisas iam ser assim e ninguém teria perdido pitada. Podem, pelo menos, ler o livro, o que vivamente recomendo.

Mas algumas das questões levantadas pelas pessoas dirigiam-se também a mim. Um dos homens presentes perguntou-me se algum Concílio tinha definido que as mulheres não tinham alma. Respondi, obviamente, que não, mas que por esses obscuros tempos chegou-se a perguntar se as mulheres tinham alma. Entretanto – sublinhei – muito mais grave do que isso é a postura do falecido Papa João Paulo II contra as mulheres, quando, no final do século XX, início do século XXI, determinou que as mulheres jamais poderão aceder aos ministérios ordenados da Igreja, porque, em seu entender, elas não podem presidir à Eucaristia in persona Christi,, uma vez que Jesus é homem, não mulher! Esta esquizofrénica determinação papal é a aberração das aberrações, ao nível da revelação bíblica e da teologia de Jesus. E, no entanto, continua aí em vigor e não sabemos por quanto tempo mais. Ora - concluí - uma Igreja que comete semelhante acto de segregação e de terrorismo pastoral contra as mulheres e ainda por cima se atreve a invocar o Santo Nome de Deus e de Jesus como justificação, merece que as mulheres e os homens lhe virem as costas e se tornem ateias, ateus. Ou, o que é muito mais revolucionário, se façam Igreja, mas ao jeito de Jesus de Nazaré, longe dos templos e dos altares, das Cúrias romanas e episcopais, em total comunhão com as suas vítimas e as vítimas do Império.

Uma salva de palmas, de todas as mulheres e de todos os homens presentes na sala, coroou estas minhas palavras, em sinal de concordância. Eis.


2005 OUTUBRO 14

Ontem, enquanto decorriam no santuário de Fátima as habituais cerimónias do 13 de Outubro – é o espectáculo religioso mais deprimente e mais alienante que a Igreja católica que está em Portugal insiste em repetir todos os dias 12-13 de cada mês, de Maio a Outubro, numa obsessão fundamentalista que atinge as raias da demência colectiva – andei às voltas com certos serviços inadiáveis em prol do nosso Manelzinho, recém-regressado do Hospital de Amarante, mas agora na condição de doente acamado. Da desidratação e da desnutrição com que ele lá chegou, não foi difícil tratá-lo com sucesso. O pior é que Manelzinho revelou-se também gravemente afectado por uma cirrose, de origem alcoólica, e os rins também não estão a responder tanto quanto seria necessário. O regresso do Hospital foi no dia 12 quase ao final da tarde, na ambulância dos bombeiros. Como havia sido previamente combinado com os próprios, Manelzinho foi transportado para casa de Miquinhas e Albininho do Souto, o casal que, desde a primeira hora, se declarou disponível para o acolher. Só que o casal, para lá da idade que já pesa a ambos, está bastante diminuído devido a doenças várias que exigem cuidados especiais, sobretudo ao Albininho. Maria Laura ficou de ajudar todos os dias no que puder. Mesmo assim, esta situação não poderá arrastar-se indefinidamente no tempo. Ninguém de nós, nem mesmo eu, estava à espera que Manelzinho viesse do Hospital neste estado de total dependência, algaliado e com fraldas, a precisar, inclusive, que se lhe meta a comida na boca. Albininho, quando soube que Manelzinho ia regressar neste estado de total dependência, começou logo a dizer e com razão que assim nem ele nem a mulher Miquinhas aguentariam. E passou a falar insistentemente no recurso a uma instituição. Mas Manelzinho, nos seus 74 anos de idade, nunca saiu da sua casa-barraco, nem do Lugar de Felgueiras. E, durante os dias que esteve no Hospital, foi mentalizado a escolher uma de duas casas, ou a de Albininho do Souto ou a de Maria Laura. Levá-lo, agora, para uma instituição, depois de todo este trabalho de mentalização que se realizou, seria acabar com ele de vez. E nunca mais Manelzinho confiaria em ninguém. Por isso, embora eu compreendesse a justeza da posição de Albininho, bati-me para que Manelzinho viesse para a casa que havia escolhido entre as duas que lhe foram propostas. Nem que, mais tarde, a solução da instituição se viesse a pôr, e ele próprio fosse ganho para ela. Albininho acatou o meu argumento, mas com a condição do pleno apoio de Maria Laura e do meu, em complementaridade.

À hora da chegada de Manelzinho à casa de Albininho e de Miquinhas (fui previamente avisado por telefone pela técnica do Serviço Social do Hospital), lá estava eu para o acolher e saudar com alegria. Havia-lhe prometido, da parte de manhã desse mesmo dia, no Hospital, para onde me desloquei como se fosse o seu familiar mais próximo a preparar o seu regresso a casa. Prometi-lhe que estaria à sua espera e fiz questão de cumprir. Para Manelzinho, foi uma alegria. O seu rosto dizia bem que este meu gesto mais parecia coisa do outro mundo. E é. É realidade do mundo da graça, do amor fraterno, da amizade, da gratuidade. Os olhos dele riram-se nas órbitas como dois sóis. E bailaram uma dança incomparavelmente mais bela que a famigerada dança do sol no dia 13 de Outubro, em Fátima, uma mentira de todo o tamanho, encenada pelo clero católico da época, que só serviu para incutir ainda mais terror nas populações oprimidas, analfabetas e infantilizadas.

Acompanhei-o até ao quarto já preparado. E brinquei com ele, como se fôssemos ambos dois meninos. Voltou a sorrir de contentamento, apesar das dores. A doença apoderou-se do seu corpo, mas Manelzinho está a experimentar sobretudo uma dimensão nova da vida até agora totalmente desconhecida para ele. E esta experiência abre-lhe horizontes nunca antes sonhados nem percorridos. E só por isto já valeu a pena a existência do ministério dos doentes na Comunidade de Base de Macieira da Lixa. Bem sei que aparentemente a história do mundo continua a rolar como se nada tivesse acontecido, mas sei também que o futuro da Humanidade não será mais o que seria, se este momento não tivesse acontecido. A Graça é da ordem do Mistério, não tem peso nem medida, e pode não entrar nunca nos telejornais. Mas como Boa Notícia de Deus Vivo que é, sempre há-de ser a realidade mais carregada de futuro. Acontece no efémero, mas é eterna a sua durabilidade.

Antes de me despedir, voltei a conversar com Albininho. E assumi um conjunto de acções inadiáveis a realizar no dia seguinte, precisamente ontem, 13 de Outubro. Tinha duas cartas do Hospital para entregar, uma aos Enfermeiros do Centro de Saúde e outra ao Médico de família. Mas Manelzinho nem sequer está inscrito no Centro de Saúde local. Nem possui cartão de utente. Nunca foi a um médico. Assumiu-se sempre como um marginal e um solitário. Metido no seu mundo. Misantropo. À medida que avançou na idade e perdeu capacidades, isolou-se cada vez mais. Felizmente, no Centro de Saúde encontrei bom acolhimento da parte da funcionária que me atendeu. Bastou contar sucintamente o caso, sem esconder os traços carregados que o tecem. Isto foi da parte da manhã de ontem. E ao início da tarde já estava à fala com o meu médico de família. Entretanto, tive que passar pela Segurança Social, no alto da cidade da Lixa, a requerer uma declaração comprovativa de que Manelzinho é pensionista. Com essa declaração, foi possível abrir o processo no Centro de Saúde, para que lhe seja atribuído o cartão de utente. O meu médico de família leu a carta com atenção e concluiu que a situação de Manelzinho é bastante delicada. A medicação que veio indicada do Hospital é para cumprir à risca, o que já está a acontecer, pois, logo que Manelzinho chegou do Hospital, corri à farmácia para aviar as duas receitas que o acompanhavam. Um agravamento da sua situação, nesta altura, pode tornar-se irreversível. Fiquei preocupado e passei a informação à família de acolhimento e a Maria Laura. O Dr. Pinheiro não se ficou por aqui. Marcou de imediato múltiplas análises que terão de ser feitas ao domicílio. Não me disse explicitamente que aceitaria ficar como médico de família de Manelzinho, mas já começou a comportar-se como tal. E isso é que importa. É pela prática que nos identificamos, não pelos papéis e pela burocracia. De resto, nunca mais lhe largarei a perna, sempre que Manelzinho precisar de médico, apesar de saber que o Dr. Pinheiro está sobrecarregadíssimo. Mas também sei que é um profissional competente e extremamente sensível, mais ainda em doentes nestas condições.

As enfermeiras do Centro de Saúde também foram de invulgar simpatia comigo e sobretudo com o caso tal como lho apresentei. E já hoje, ao final da manhã, farão a primeira visita ao domicílio. Outras visitas se seguirão, porque a situação assim o exige.

A questão da possível ida de Manelzinho para uma instituição continuou a martelar-me na cabeça, durante todo o dia de ontem. Aos meus olhos aparece-me cada vez mais como uma decisão impensável e irrealizável. Mas também não posso deixar de atender à situação de Albininho e de Miquinhas. A boa vontade de ambos é enorme, mas as forças são muito poucas. Olha-se para eles e apetece apoiá-los, mais do que esperar que eles apoiem Manelzinho. No auge da minha preocupação, cheguei até a admitir acolher Manelzinho na minha pequenina casa alugada, se tal viesse a revelar-se necessário. Ocuparia a minha cama e o meu quarto. E eu dormiria na salinha onde trabalho, numa cama estreita que está a fazer de sofá. Contrataria uma pessoa que viesse diariamente acompanhar Manelzinho. Ele próprio dispõe de algum dinheiro e possui algum património que herdou dos pais. Tudo seria colocado ao seu serviço, segundo as necessidades. Já dei a conhecer esta minha disposição ao Albininho e a Maria Laura. Ambos protestaram na hora, como era mais do que previsível. Mas só não avançarei nesta decisão, se vier a ser encontrada uma outra solução melhor, que não a instituição. Pelos vistos, no final do dia de ontem, as coisas já começaram a apontar no sentido de vir a ser encontrada uma solução ideal. Um sobrinho de Manelzinho e seu vizinho acaba de ser ganho para a causa. O exemplo da Comunidade e do casal Albininho do Souto e Miquinhas terá tocado este familiar. Das conversas que já fez com Albininho e, sobretudo, com Maria Laura, declarou-se disposto a fazer de imediato obras de restauro no imundo barraco do tio, para que, dentro de pouco tempo ele possa regressar ao espaço que é seu, mas agora com o mínimo de condições de dignidade. Para Manelzinho será a alegria maior. Depois, é só contratar uma pessoa que assuma a responsabilidade de acompanhar diariamente Manelzinho, certamente, a própria Maria Laura, e que organize em seu redor as boas vontades que se ofereçam para ajudar. Podem não ser muitas, mas algumas serão e criarão uma onda viva de solidariedade e de comunhão. O caminho já aberto pela Comunidade e pelo seu ministério dos doentes nunca mais será fechado. E quem sabe se não continuará, mesmo noutros casos, para lá do caso de Manelzinho.

Quando ontem, ao fim da tarde, já com todas as voltas dadas em prol de Manelzinho, apareci de novo lá em casa, ia feliz e comuniquei felicidade. Informei Manelzinho de tudo. Ainda encontrei lá Maria Laura e Isaurinha. Maria Laura disse-me que tinha passado lá quase toda a manhã e grande parte da tarde. Em trabalhos, os mais difíceis de fazer. Ao que me contou, depois, pelo caminho, já no regresso a sua casa, o seu dia de trabalho começou, manhã cedo, com uma barrela, quase da cabeça aos pés, a Manelzinho. A fralda foi insuficiente para conter as fezes e Manelzinho estava sem conserto. Para cúmulo, revelou grande relutância em deixar-se lavar por Maria Laura. Mas ela acabou por lhe conquistar a confiança, com aquele jeito feminino e alegre que tanto a caracteriza. Fez sair do quarto todas as outras pessoas, para que tudo se processasse na privacidade. Até a roupa da cama estava suja com fezes e teve que ser toda substituída. Tudo Maria Laura fez sem revelar o mais pequeno sinal de relutância, com uma coragem e uma simplicidade que levou Albininho às lágrimas, quando, já depois de tudo conseguido, entrou no quarto e viu o “milagre” acabado de operar. E tudo foi realizado sem luvas nas mãos, por não haver nenhumas ali naquela hora. Manelzinho passou da vergonha inicial à confiança paternal. Desde esse momento, passou a olhar para Maria Laura como a filha que nunca teve. E Maria Laura olha para Manelzinho como um seu outro pai. Num respeito sagrado que tem tudo de sacramento de Deus Vivo.

À medida que ouvia Maria Laura relatar com vivacidade este feito de amor sororal, sem dúvida o mais marcante do seu dia com Manelzinho, não pude deixar de me lembrar que ele ocorreu à mesma hora em que em Fátima milhares de pessoas, sobretudo, mulheres, assistiam às cerimónias do dia 13 – onde se inclui uma missa ritual carregada de moralismo rançoso, uma bênção dos doentes com muito de blasfémia, pois é feita a pensar no milagre, como se Deus Vivo, o de Jesus, fosse Deus de fazer milagres, e ainda a chamada procissão do adeus à Virgem, expressão espectacular de paganismo e de irracionalidade humana – e não pude deixar de reconhecer que o gesto dela é que foi a verdadeira Eucaristia e a verdadeira comunhão com Deus Vivo. Nunca como neste seu serviço ao corpo de Manelzinho, Maria Laura foi tão presbítera não-ordenada da Comunidade de Base de Macieira da Lixa. Enquanto as mãos do cardeal vindo propositadamente de Sevilha, Espanha, para presidir às cerimónias do 13 de Outubro, em Fátima se limitaram a tocar numa hóstia feita de farinha de trigo sem fermento, as mãos de Maria Laura tocaram o Corpo vivo de Jesus, o Cristo, no corpo doente de Manelzinho. “O que fizestes ao mais pequeno dos meus irmãos foi a mim que o fizestes”, diz o próprio Jesus em Mateus 25, 31-46.

À luz deste acontecimento carregado de teologia jesuânica, tenho que dizer, mais uma vez, que o Cristianismo católico romano de Fátima não passa de pura idolatria, de alienação, de blasfémia ao nome de Deus Vivo. Humilha, diminui, aliena, deprime as pessoas e as populações que por lá passam. Leva-as a andar a vida inteira em redor duma imagem de madeira, a percorrer quilómetros e quilómetros em direcção ao santuário onde ela está cruelmente exposta à adoração das súbditas, dos súbditos, e com isso fá-las fugir cada vez mais dos vizinhos, sobretudo de pessoas em situação de total dependência como Manelzinho. A imagem da mítica virgem é coisa morta. Manelzinho, ao contrário, é um ser humano vivo e em completa dependência dos demais. Ou lhe valemos, ou ele morre de solidão e de abandono. Fátima, ao atrair as pessoas para a imagem morta da mítica senhora e ao desviá-las dos seres humanos vivos em situação de dependência, é o caminho inverso do que Jesus de Nazaré abriu e percorreu até ao fim. Com Jesus, por companheiro, sempre nos fazemos próximos dos que precisam do nosso serviço. Ao contrário, os caminhos de Fátima levam as pessoas a fugir do seu próximo e a correr para a imagem de madeira que, como todo o ídolo, converte em coisas todas aquelas pessoas que ingenuamente caminham uma e outra vez para junto dela e para o seu santuário.

Depois que ouvi Maria Laura, também eu fiquei comovido até às lágrimas. E não resisti: Peguei nas suas mãos e beijei-as do lado de dentro, essas mãos que tocaram o corpo de Jesus, o Cristo, no corpo de Manelzinho, o lavaram e vestiram com uma ternura inexcedível. Surpreendida com o meu inesperado gesto, Maria Laura ficou visivelmente confundida e correu a meter-se em casa. Certamente, em Magnificat interior. E eu prossegui, estrada fora, em direcção à minha casinha numa explosão de alegria e de paz. Verdadeiramente, Deus Vivo, o de Jesus, é por estes caminhos de Emaús que anda e passa. Longe dos templos e dos altares. E longe dos santuários da alienação da Humanidade, como o santuário de Fátima, a nossa vergonha, o protótipo contemporâneo mais conseguido do anti-cristianismo de Jesus de Nazaré.


2005 OUTUBRO 11

1. Era dia de eleições, mas nem por isso deixamos de realizar o encontro da pequenina Comunidade, como sempre acontece nas tardes dos segundos domingos de cada mês. As presenças foram muito poucas. Mas o encontro com Jesus vivente foi intenso. O movimento de pessoas e de carros nas imediações da Casa da Comunidade também foi invulgar. O local de votos é na Escola básica que fica uns poucos metros mais abaixo e quase toda a gente da freguesia que vem votar tem que passar diante da Casa da Comunidade. Uma significativa parte das Companheiras e dos Companheiros da Comunidade e da Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA envolveu-se directamente nesta campanha autárquica, no âmbito da lista da CDU, para a Junta de freguesia e, durante a tarde eleitoral, não tinha sossego. Nenhuma, nenhum participou no Encontro propriamente dito, mas, quando se aproximava a hora do fecho das urnas, começaram a concentrar-se na Casa. E o Encontro ainda os atingiu, nomeadamente, através da mensagem de um Canto novo que escutei e escrevi para ele. Cada uma, cada um quis um exemplar da letra e quiseram também que cantássemos para elas, para eles. O que aconteceu e desencadeou algum debate, dada a força profética da mensagem que os versos veiculam.

A expectativa, quanto aos resultados definitivos na freguesia e no concelho, era enorme. A lista do PS venceu com maioria absoluta na Junta, enquanto na Câmara Municipal, a candidatura de Fátima Felgueiras esmagou o candidato do PS, o prof. José Campos. Há uns meses atrás, eu bem me bati para que se organizasse na freguesia uma lista de independentes à Junta, mas as pessoas que mais vibraram com a ideia não foram capazes de dar os passos que se impunham. Pretendiam abrigar-se à sombra do meu nome. Como não alinhei – enquanto presbítero da Igreja do Porto, nunca quis, ao longo destes anos de pós-Abril e de Democracia formal, tornar-me homem de partido; quero ser um sinal vivo de unidade, de comunhão e, por isso, em lugar de ser homem de partido, faço questão de ser homem que toma partido todos os dias ao lado dos mais pobres e das vítimas, em ordem à comunhão de todos os seres humanos, na justiça e na verdade – a ideia abortou poucos dias depois. E quase todas as pessoas que haviam vibrado com a ideia, mas não a levaram para a frente, acabaram a integrar a lista da CDU. Como lista de independentes, as pessoas poderiam ter ganho a Junta de freguesia. Como CDU, nunca tal acontecerá. A população, embora confie nas pessoas que integram a lista, não votam nela em massa. A sigla CDU ainda afasta muitas pessoas do povo, intoxicadas que andam pela propaganda mentirosa anti-comunista. Melhor seria criar uma lista de independentes e estes, uma vez eleitos, dirigirem a Junta à CDU. Mas ainda não foi desta. E é pena. Porque com esta nova vitória do PS na Junta de Macieira da Lixa é mais do mesmo. Os benefícios são sobretudo para os que permanecem nos cargos e suas famílias. Não para as populações. Ainda assim, vou procurar que as pessoas que integraram a lista CDU não desmobilizem e acompanhem, como sentinelas do povo, os passos do executivo. Sejam uma presença vigilante e interveniente. Sem desfalecimentos.

Na Câmara Municipal, não sei o que irá suceder com a (já esperada) vitória de Fátima Felgueiras. Mas não auguro tempos de desenvolvimento integral, tão necessário, nas populações das freguesias do concelho. O discurso de vitória de Fátima Felgue