2004 OUTUBRO 29

Pedro, a caminho dos seus 8 anitos, não tirava os olhos de mim. Nem pestanejava, de tão concentrado que estava na audição do relato do Evangelho que eu fazia, sentado ali na salinha da sua casa alugada feita de pobreza. Chegou mesmo a ficar imóvel e de boca aberta por um significativo espaço de tempo, enquanto escutava o Evangelho que eu proclamava. Aliás, mal me ouviu pronunciar o nome de Jesus, algo mexeu de tal modo por dentro dele, que Pedro logo deixou de lado a correria e as piruetas que fazia com a irmã Cláudia, uns anitos mais nova do que ele, e com as quais ambos pretendiam chamar a atenção das pessoas presentes na casa, para se vir sentar junto de mim, primeiro na cadeira que estava ao meu lado, depois, como ela era demasiado alta para o seu corpo ainda pequeno, singelamente aos meus pés, encostado familiarmente aos meus joelhos, na postura de quem não quer perder pitada da Boa Notícia de Jesus que, pela primeira vez, estava ali a ser proclamada de um modo mais institucional na sua casa. Pedro não estava sozinho, evidentemente, mas pode bem dizer-se que foi ele o principal protagonista do encontro que ontem de tarde lá fui dinamizar, em nome da Comunidade, juntamente com Maria Laura, Deolindinha e Irene. Com Pedro e sua irmã Cláudia, estavam também a mãe, Fatinha Tremoceira, e a avó materna, Miquinhas, que mora numa outra casinha pobre alugada, mesmo ao lado da casinha da filha.

Quando lá chegámos, um pouco antes das três horas, Fatinha ainda não tinha regressado duma saída que teve que fazer com o companheiro, logo a seguir ao almoço. Estavam os filhos dela a brincar no quintalito ao lado da casa da avó que também logo nos apareceu, no cimo das escadas, a queixar-se com dores de um dos lados do peito. De manhã, quando estava a lavar roupa no tanque, desequilibrou-se e bateu desamparada com o peito contra ele e feriu algumas costelas. Ao ouvi-la queixar-se assim, quis logo deixar tudo e transportá-la à urgência do hospital de Felgueiras, mas ela disse-me a mesma coisa que já tinha ao companheiro da sua filha, quando ele, ao meio dia, também a quis transportar: que preferia esperar pelo dia seguinte, a ver se as dores abrandavam, sem ser preciso recorrer ao hospital. A verdade é que, depois, Miquinhas quase esqueceu as dores, só pela alegria de nos ter ali a visitá-la na sua casa e por termos escolhido a casa da sua filha Fatinha, para fazermos um encontro da Comunidade. Andou-nos a mostrar a sua casinha – é tudo muito reduzido e pobre, sem quaisquer sinais de conforto, mas, mesmo assim, Miquinhas não escondeu a satisfação por ali poder viver com o filho ainda solteiro que trabalha e paga a renda em troca dela o alimentar e cuidar das suas roupas. “Daqui, da minha cama – disse com o sorriso nos lábios – posso falar para a minha filha, sempre que é preciso, que ela ouve-me na cama dela e eu ouço-a a ela. É que o meu quarto está mesmo pegado ao dela”. Assim é, de facto. As casas estão tão uma em cima da outra, que a privacidade há-se ser praticamente nenhuma. Mas que querem? Eram casas velhas, os donos fizeram algumas obras de restauro e alugaram-nas por bom dinheiro a três famílias com dificuldades. A terceira família é um casal novo ainda sem filhos que mora mesmo por baixo da casa da Miquinhas. (Por sinal, ainda vi sair os dois da sua casa, pouco depois de ter chegado ao local. Saudei-os, mas como não são naturais da freguesia, não me devem ter reconhecido. Ainda corresponderam à minha saudação, mas sem darem quaisquer sinais de abertura e de acolhimento para o futuro.)

Fatinha chegou algum tempo depois. Com a sua proverbial juventude e alegria. É sempre uma festa quando ela vê Laurinha (na boca dela, Maria Laura é sempre Laurinha. E Fatinha não se cansa de dizer que foi graças ao grande amor dela que conseguiu curar-se da grande depressão em que caiu, há uns poucos anos atrás; que foi graças a ela que também conseguiu libertar-se do marido alcoolizado que a maltratava com porrada de criar bicho, e dum estilo de vida feito de muita indignidade; que foi igualmente graças a ela que conseguiu erguer a cabeça e fazer-se mulher-mãe amiga e briosa dos seus filhos que ela hoje defende como uma leoa acossada por potenciais predadores. Na altura – ambas se lembram disso muito bem – foram muitas as vozes que se ergueram contra Maria Laura, por ela dar atenção e tempo a Fatinha, por a receber na sua casa, a sentar à sua mesa, ser sua companheira nas muitas idas ao médico e à Segurança Social a reclamar os indispensáveis apoios sociais do Estado, enfim, por ser para ela uma espécie de segunda mãe, até fazer dela a mulher feliz e realizada e digna que ela hoje é e que tem tanto gosto de ser. Infelizmente, é certo e sabido que nas nossas aldeias cheias de muita religião e vazias do Evangelho de Jesus, quem mais frequenta a missa aos domingos na igreja paroquial é também quem, depois, sempre faz questão de aparecer na primeira fila, quando se trata de atirar pedras às pessoas vítimas da pobreza e da miséria, nomeadamente, quando alguma delas tropeça na prostituição ou noutros percursos do “pecado”. A religião católica faz de quem a frequenta pessoas sempre prontas a ver o argueiro que está no olho das vítimas da pobreza e da miséria, sem nunca chegarem a ver a trave que está no olho delas próprias. Só por isso é que elas, depois, são pessoas que não suportam quem, como Maria Laura, já não vai mais à missa aos domingos nem frequenta mais as iniciativas alienantes e alimentadoras de farisaísmo da paróquia católica, e prefere, como Jesus de Nazaré, consumir/gastar a sua vida de presbítera não-ordenada no acompanhamento maiêutico/libertador das vítimas da pobreza e da miséria, para que estas, ao experimentar-se amadas, nasçam de novo, do Alto, e se tornem finalmente pessoas libertas/libertadoras, carregadas de futuro.)

Depois dos efusivos abraços que nos deu e recebeu, Fatinha faz-nos entrar na sua casa. A mãe dela desceu devagar as escadas e veio também juntar-se a nós. Os filhotes de Fatinha andam por ali numa roda viva, parecem dançar num pé só. E correm à nossa frente para dentro de casa, logo seguidos por Irene que também está maravilhada com eles. Habitualmente, nunca ninguém os visita na sua casa. Nunca nenhuma daquelas pessoas que os seus olhitos vêem como mais importantes na aldeia lhes liga, lhes dá atenção, lhes faz um carinho na rua. Para essas pessoas eles são os filhos da Fatinha Tremoceira e está tudo dito! São ainda pequeninos, mas já sentem na própria carne o que é ser desprezado, excluído, tratado como os antigos leprosos do tempo de Jesus, que não podiam aproximar-se de ninguém e ninguém se podia aproximar deles. É por isso que neste momento eles não cabem em si de alegria e de festa, ao verem-me, concretamente, a mim ali na sua casa, um padre como os mais, mas a viver nas margens como eles e com eles, e, para mais, acompanhado por aquelas outras pessoas da Comunidade que eles tão bem conhecem e que tanto gostam deles e os acarinham. Ao verem quanto lhes queremos e como os fazemos sobressair entre todos os outros, como fazemos deles os primeiros, quando todos os dias eles estão habituados a ser tratados como os últimos pelo comum da sociedade dominada pelo farisaísmo católico e sobrecarregada por um moralismo que tresanda, ninguém os segura, na sua alegria. No inconsciente deles fica também registado, desde os seus mais tenros anos, que é com eles, antes de mais, que está a Comunidade cristã de base, e com outras, outros como eles. A Comunidade, por sua vez, ao estar assim com eles a sério e com muito amor, constitui-se num sacramento do Espírito Santo que revela/proclama/anuncia ao mundo, também ao mundo da paróquia católica de Macieira da Lixa, no meio do qual ela um dia aconteceu e continua ainda a acontecer, o Deus de Jesus que é também o Deus dos pobres, esse mesmo que todos os dias mantém a sua tenda entre os eles, na esperança de, por eles, chegar a ser o único Deus de todas as mulheres, de todos os homens.

 

“Os pobres quando se unem / mudam seus destinos / com a força da fé”. Os versos foram do canto de abertura do encontro. Cantámo-los a partir do livrinho Canto(S) nas margens. E logo ali, naquele contexto vivo, a mensagem neles contida nos deu que pensar. Pensa-se – e as catequeses da Igreja a isso nos levam – que a fé que nos salva é a fé em Deus. E com isso nos alienam! Escondem-nos que a fé que nos salva começa por ser fé em nós próprias, nós próprios. Quem diz fé, diz fiar-se de, confiar. Confiar em nós próprias, nós próprios é o primeiro passo para iniciarmos o êxodo que nos há-de levar à liberdade e à responsabilidade, ao protagonismo político. Quando ousamos confiar em nós próprias, nós próprios, atrevemo-nos cada vez mais a ser. Perdemos o medo que nos paralisa. Afirmamo-nos. Numa palavra, somos! Perceberemos depois que não somos sozinhos e que será bom ter fé, confiar não apenas em nós próprias, nós próprios, mas também nos demais. Os pobres, sobretudo, temos que começar por confiar em nós próprias, nós próprios, e passar depressa a confiar também nos outros pobres. Quando estes passos forem dados com coerência, mudamos os nossos destinos com a força da fé, da confiança que será tanto mais fecunda e eficaz quanto mais recíproca. Ninguém nos segurará. Será também nesta experiência comunitária, que despertaremos finalmente para a fé em Deus, não o Deus todo poderoso das religiões lá longe fora de nós, que esmaga quem o aceitar, mas o Deus-todo-potência-dentro-de-nós. Descobriremos inclusive que, quando inicialmente começámos a confiar em nós próprias, nós próprios, já era Ele quem nos habitava e potenciava, nos fez sair de nós mesmos e nos encaminhou ao encontro dos outros em reciprocidade.

À medida que ouvia e participava nesta reflexão, Fatinha abanava com a cabeça em sinal de aprovação e testemunhou com alegria que foi assim que sucedeu com ela. Antes de começar a ter fé, de confiar nela própria, nunca foi capaz de sair da indignidade a que a pobreza e a miséria a condenaram. Por isso esta reflexão só pôde acontecer ali em sua casa. Só ali pudemos todas, todos escutar esta Boa Notícia. A vida de Fatinha é o exemplo vivo disto mesmo. Por isso, a Comunidade que foi lá reunir com ela e com os seus não foi levar-lhe o Evangelho de Jesus. Fomos lá revelar-lhe o Evangelho que já anda escondido dentro dela e profundamente actuante. Para que ela tenha consciência dele e viva ainda mais realizada e mais firme no seu dia a dia, contra ventos e marés. Fomos lá como “parteira” ajudar a dar à luz o Evangelho que anda tão profundamente na vida dela, como anda em todas aquelas pessoas que a sociedade bem pensante e bem falante tem como dignas de todo o desprezo e de todo o ostracismo, mas que não se resignam e dão sempre a outra face, isto é, não se resignam ao ostracismo a que as votaram, mas todos os dias saem (= êxodo) à luta, sem terem medo de perder a vida em plena luta. É por isso que quando depois deixámos a casa de Fatinha, nos sentíamos muito mais evangelizados do que quando lá entrámos.

O momento alto do encontro foi a leitura/proclamação do Evangelho. Foi aí que Pedro que começou por se associar ao canto de abertura do encontro, sentado na cadeira ao meu lado, tomou nesta altura a surpreendente iniciativa de se sentar/ajoelhar a meus pés, para ficar bem ao nível dos meus joelhos e melhor ouvir/beber as palavras que saíam da minha boca. (Nesta altura, o menino frequenta o segundo ano do ensino básico, mas já sabe ler, embora ainda o faça muito devagar. Os seus olhitos parecem faiscar, de tão vivos. Percebe-se depressa que é um menino dotado de grande inteligência e com forte inclinação para cálculos matemáticos. A mãe confirmou-o, ao revelar que a professora já a informou que seu filhinho Pedro é o melhor da sala no que respeita a “contas”. Esta é uma maravilha da Natureza e da Graça. Muitas vezes, lá, onde abundam a miséria e a pobreza, também superabundam a inteligência e a alegria de viver. É manifestamente o caso de Pedro e de Cláudia, filhos de Fatinha.)

Nos dias anteriores ao encontro, vivi naturalmente à escuta do Espírito para ver como haveria de o dinamizar. Ontem de manhã, ficou claro dentro de mim que neste primeiro encontro em casa de Fatinha e dos seus filhinhos, deveríamos ouvir o relato do Evangelho de Marcos (14, 1-9), onde se faz memória duma mulher anónima que quebrou e derramou um frasco inteiro de perfume de nardo puro sobre a cabeça e o corpo de Jesus. Fê-lo, quando Jesus estava à mesa em casa de um tal Simão, o leproso, e poucos dias antes de as autoridades máximas de Jerusalém o prenderem e matarem. Sublinha o relato que alguns dos presentes na casa ficaram indignados com este gesto da mulher e acusaram-na de desperdiçar todo aquele perfume. E em seu favor, argumentaram com uma explícita preocupação pelos pobres. Concretamente, disseram que esse perfume poderia ter sido vendido por mais de 300 denários e que o dinheiro da venda poderia reverter a favor dos pobres. Parecia um argumento de peso. Irrefutável.

É então que Jesus intervém com a autoridade da Verdade que ele próprio é, como ser humano integral. É também por isso que a sua palavra, como a de Deus, sempre atravessa ou trespassa como uma espada de dois gumes quem a ouve e acolhe, não, evidentemente, para matar as pessoas que a ouvem e acolhem, mas para matar a Mentira que nos mantém a todas, todos cativos numa Ordem mundial injusta, como é manifestamente esta que o matou e em que continuamos ainda a nascer e a viver. A quem a ouve e acolhe, o Evangelho de Jesus sempre nos liberta de raiz e nos faz livres e autogestionários em comunhão com os demais e com a Natureza. Na sua intervenção, Jesus exalta a mulher e o gesto dela para com ele. Deixa perceber que até ela chegar, aquela casa/comunidade, liderada por um tal Simão, o leproso, estava sem profecia dentro, vivia sem audácia, sem fé em si própria, sem confiança uns nos outros. Era como os leprosos da época. Nem saía ao encontro dos demais, nem era contactada pelos demais. Até que nela entra esta mulher sem nome, e se atreve a realizar com Jesus o gesto profético e político mais subversivo e mais revolucionário de sempre e tudo seria diferente daí em diante. E que Boa Notícia ou Evangelho revelou/proclamou o gesto da mulher sem nome? Revelou/proclamou, duma vez por todas e para todos os tempos e lugares, que o homem Jesus que as autoridades máximas de Jerusalém daí a dias iriam prender e matar, é o único rei, o único líder político que liberta as pessoas e os povos de raiz; revelou/proclamou que, apesar de Jesus ser rotulado como o maldito pelo Império e pelo Templo, é o bendito de Deus por antonomásia; revelou/proclamou que o excomungado pelo Império e pelo Templo é o Pão/Corpo que se dá a comer, e que o assassinado pelo Império e pelo Templo é o Vinho/Sangue que se derrama/dá a beber pela vida do mundo. Nunca tal se vira e ouvira.

E quanto aos pobres, as palavras de Jesus também não podem ser mais politicamente revolucionárias: Elas anunciam que sempre teremos pobres connosco, se continuarmos a pensar que a solução é dar-lhes esmolas em dinheiro, em lugar de lhes fazermos bem. E que bem é esse que podemos e devemos fazer com os pobres que acabará de vez com a pobreza? Não é dar-lhes esmolas indefinidamente, como pretendiam então alguns dos presentes e continuam erradamente a ensinar as Igrejas, ao jeito de Madre Teresa de Calcutá. Isso apenas serve para haja cada vez mais pobres. O bem que havemos de fazer aos pobres é investir o melhor de nós para os promovermos a pessoas ilustradas e criadoras, à imagem e semelhança de Deus criador, à imagem e semelhança de Jesus de Nazaré, que cresceu em idade, estatura, sabedoria e em graça. Para que eles passem a viver por si mesmos e em reciprocidade uns com os outros, de modo a criarem uma Ordem mundial outra que em lugar de continuar a fabricar pobres em massa, promova a vida e vida em abundância para todas as pessoas e para todos os povos, tanto do presente como do futuro.

Foi uma festa este Evangelho que escutámos e acolhemos nas nossas consciências. Fatinha é o exemplo vivo de alguém que já se sente tratada assim pela Comunidade. Da Comunidade não recebeu esmolas em dinheiro. Recebeu acompanhamento maiêutico que a acordou, consciencializou, ajudou a ganhar confiança nela própria, a libertou e fez dela uma mulher com iniciativa, criadora, protagonista, autónoma, capaz de gerir a sua própria vida sem dependências de ninguém, nem sequer da Comunidade. A hora do encontro já ia adiantada e Fatinha, de tão contente que estava, correu à cozinha, preparou uma cevada quentinha e todas, todos comemos com ela e os filhinhos à sua mesa. A sua casa já não é como a de Simão, o leproso. Pelo contrário, Fatinha atreve-se a ser mulher e mãe, vive a sua vida em autogestão e nem hesitou em acolher na sua casa um companheiro, sem querer saber para nada das "bocas" moralistas de certas pessoas formadas pela paróquia católica que ainda vivem possuídas do farisaísmo e, por isso, se pensam melhores do que ela. Como revela o Evangelho de Jesus, pessoas assim estão muito mais atrás no Reino de Deus, do que pessoas como Fatinha. O abraço com que nos despedimos foi profundo. Por vontade de Fatinha, havemos de voltar. Lá mais para diante. Pelo menos, eu preciso muito de encontros como este. Vou para evangelizar e sou evangelizado!


2004 OUTUBRO 27

Era só o que faltava à União Europeia. Já não lhe bastava ter que suportar no seu seio um papa-chefe-de-estado que é apenas escolhido e votado vitaliciamente por uma pequeníssima elite de cardeais, todos de idade bastante avançada (segundo o Código de Direito Canónico que ele próprio aprovou, o papa não resultar duma eleição feita pelos bispos católicos de todo o mundo, muito menos, duma eleição feita pelo conjunto dos membros da Igreja) e que, durante o seu pontificado, se comporta como um monarca absoluto no interior da Igreja e como o chefe supremo de todos os estados do mundo, sempre pronto a impor a sua visão moralista da vida a todos os povos, como se ela correspondesse à vontade de Deus. Ainda vinha agora o Dr. Durão Barroso, presidente indigitado da Comissão Europeia, tentar impor um alter ego do papa, leigo católico e professor universitário, como comissário de uma das mais importantes pastas da União Europeia, a da Justiça! Então não é que o senhor Buttiglione, deputado por Itália, se assume publicamente como “o amigo do papa” e, tal como ele, ou até mais do que ele, condena a homossexualidade como um pecado e quer que as mulheres regressem à vida doméstica, para assim salvar o modelo tradicional de família ?!

Felizmente, os deputados do Parlamento Europeu (PE), na sua esmagadora maioria ergueram-se contra esta pretensão – mais do que pretensão, foi uma estúpida teimosia – do ex-primeiro ministro português, há meses fugido na Europa, e mostraram-se dispostos a não deixar passar a comissão que ele cozinhou ao seu jeito e segundo critérios de puro conservadorismo.

Perante tal cenário, Durão Barroso decidiu, à última hora, retirar a sua lista de comissários, para não ter que passar pela vergonha de um chumbo no PE. Mas a lição ficou dada e a Cúria Romana que está por trás do deputado Buttiglione bem pode limpar outra vez as mãos à parede, perante mais este desaire sem precedentes na União Europeia. O primeiro desaire que a Cúria Romana teve que encaixar foi, como se sabe, o da não inclusão do nome de Deus no preâmbulo do texto da Constituição europeia, bem como o da não inclusão de qualquer referência àquilo que ela insiste em chamar “as raízes cristãs da Europa”. Já então o PE mostrou bem que não é uma gigantesca sacristia e que as centenas de deputados europeus, eleitos pelas populações de cada um dos países que constituem a União Europeia, não são propriamente sacristães do papa, ou dos bispos, ou dos párocos.

Desta vez, a Cúria romana já não pôde jogar o seu trunfo máximo, o papa polaco, nem sequer um qualquer cardeal do Vaticano. Jogou um simples leigo da sua confiança, professor universitário, mas com posturas moralistas típicas de um menino de coro ou de um frequentador de catequeses infantis. Voltou a ter azar na mesma, já que os deputados do PE conhecem o senhor Buttiglione muito bem, nomeadamente, as suas posições moralistas de caixão à cova. O simples facto do homem se auto-apresentar como  “o amigo do papa” diz bem que ele, uma vez eleito, iria bater-se, na Comissão Europeia, pelas mesmas posições moralistas da Cúria romana, da Opus Dei e de outras organizações católicas avessas à liberdade e à responsabilidade dos indivíduos e dos povos.

Em boa hora, pois, os deputados do PE se organizaram e resistiram à teimosia de Durão Barroso. É bom que o ex-primeiro ministro de Portugal, agora promovido a presidente da Comissão Europeia, saiba que a Europa não é Portugal. E, se em Lisboa, enquanto primeiro-ministro, ele dispunha duma maioria parlamentar constituída por deputados sem espinha dorsal, que diziam (dizem) sim, mesmo quando por convicção pessoal queriam (querem) dizer não, o mesmo já não sucede no PE, onde os deputados são em muito maior número e onde por isso é mais difícil vergá-los a todos e fazê-los todos votar contra as suas mais profundas convicções pessoais.

A derrota de Durão Barroso é a vitória da dignidade e da liberdade na Europa. E não se pense que é a derrota da Igreja. Não é. Porque a Igreja, enquanto realidade do Espírito Santo que sempre terá que ser também, só pode existir e estar lá onde a dignidade humana e a liberdade de todas e de cada uma das pessoas são salvaguardadas. Por isso, mesmo que alguns dos deputados que hoje obrigaram Durão Barroso a ter que recuar à última hora, na apresentação da sua Comissão europeia, se confessem publicamente ateus ou agnósticos, foram, nesta postura, muito mais Igreja que o senhor Buttiglione, “o católico amigo do papa” e que a Cúria romana que habilmente o tentou lançar como comissário europeu.

Daí a minha alegria por este recuo do presidente da Comissão Europeia, com sabor a derrota. Onde já se viu uma Igreja que se reivindica do nome de Jesus defender posições moralistas como as do senhor Buttiglione contra os homossexuais e as lésbicas e contra as mulheres em geral? Inclusive, a lei do aborto, sobre a qual ele também não pode sequer ouvir falar, não tem porque continuar a ser olhada como perversão moral. Nas actuais circunstâncias das sociedades e enquanto elas não forem substancialmente alteradas para melhor, de modo a termos garantida qualidade de vida para todas as pessoas e para todos os povos, uma lei do aborto como a que foi referendada no nosso país e não chegou a ter votação suficiente para ser aprovada ou rejeitada, é moralmente melhor e defende muito mais o direito à vida do que a presente situação que deixa como única saída às mulheres ou aos casais em desespero de causa o recurso a abortadeiras ou a clínicas privadas clandestinas mas toleradas que, desse modo, fazem colossais fortunas com o sofrimento e o desespero alheios.

É mais do que tempo de a nossa Igreja, pelo menos ao nível dos seus pastores, entender que Deus, o de Jesus, do que gosta é de mulheres e de homens adultos e responsáveis, capazes de decidirem o que fazer ou deixar de fazer, de harmonia com a sua própria consciência, em lugar de infantilmente procurarem junto do papa ou dos bispos ou dos párocos o que devem ou não devem fazer. Por isso, ou a nossa Igreja aposta tudo na promoção do desenvolvimento da consciência das pessoas e dos povos, para que elas e eles sejam capazes de tomar decisões cada vez mais humanas e mais responsáveis, ou será definitivamente ultrapassada pelas pessoas e pelos povos. E é bem feito. Porque quando quem como ela foi constituído para ser vanguarda e “parteira” da Humanidade, a puxá-la para a liberdade e para a responsabilidade, historicamente se comporta como “carro vassoura”, não é digno do nome que ostenta. Dizer Igreja, é dizer vanguarda da Humanidade, é dizer “parteira” duma Humanidade liberta para a liberdade. Se não tivermos a audácia de sermos o que o nome diz que somos, ao menos não nos queixemos contra a Humanidade. Se quisermos atirar pedras, só pode ser contra os nossos próprios telhados. Não contra os da Humanidade!


2004 OUTUBRO 24

O meu dia de ontem ficou marcado por três momentos especiais. Durante a manhã e parte da tarde, andei a vindimar em casa do Miné, juntamente com Rodrigo Filipe e o próprio Miné. Por volta das 16 horas, vim a casa lavar-me e mudar de roupa e voltei a sair para ir cumprimentar o bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho, que, depois de ter sido agraciado, da parte da manhã, com a medalha de ouro da cidade de Felgueiras, conferida pela respectiva Câmara Municipal, veio presidir, pelas 17 horas, à “bênção” do velho órgão de tubos, recém-restaurado, na igreja/mosteiro de Caramos, freguesia ao lado da de Macieira da Lixa, onde presentemente resido. À noitinha, voltei à casa do Miné, para partilhar a ceia da vindima com ele, o seu irmão Chalana e a mulher deste, Célia, mais a bebé Leonor, de dois anitos, filha de ambos, e ainda o Quinzinho Moira que, apesar de adoentado, passou o dia junto de nós na vindima e transportou na sua carrinha aberta as uvas para a Adega Cooperativa da freguesia. Destes três momentos fortes do meu dia, um deles deixou-me mergulhado numa tristeza de morte: foi precisamente o segundo, o que vivi em Caramos, junto à igreja/mosteiro paroquial.

 

1. A vindima. Ninguém me convidou. Fui eu que decidi aparecer. De surpresa. Sabia da iniciativa e fiz questão de me apresentar pelas 9 horas, já depois da caminhada diária que faço por amor do meu coração e das artérias coronárias que beneficiaram já, vai para dois anos, de um cateterismo. Foi uma maneira de me fazer ainda mais próximo da casa e dos três irmãos, meus companheiros de Comunidade e de Associação, mais conhecidos por aqui como os "Pintinhos". A relação entre nós tem-se esfriado, sobretudo, depois que eu vim morar para Macieira. Mais com o Chalana e com a Leonor, irmã de ambos. Contava que uma e outro também viessem viver o dia da vindima e seria uma oportunidade para respirarmos o mesmo ar e partilharmos a mesma mesa, depois de termos comungado da mesma tarefa a subir e a descer escadas para chegarmos às uvas e colhê-las das altas ramadas para os cestos. Infelizmente, Leonor não apareceu todo o dia. Decidiu, ao que garantiu o próprio Miné, passar o dia com o marido e o filho, na casa que possuem na Apúlia, e assim lá se foi a oportunidade de nos revermos com tempo. O Chalana, às voltas com o mestrado, acabou por aparecer só da parte da tarde. Ainda o cumprimentei antes de me ausentar, mas não deu para partilhar com ele a tarefa da vindima. Ficou a fazer o meu lugar. Foi mais por isso que aceitei o convite dele e do Miné para aparecer na ceia. O que me levou lá foi sobretudo a oportunidade de partilhar a mesma mesa com ambos e com as demais pessoas envolvidas na vindima. Para que a comida partilhada (para mim, é sempre em memória de Jesus que a faço) nos aquecesse os corações e nos deixasse mais próximos uns dos outros. O próximo futuro dirá se sim. Para já, tanto quanto os olhos de todos mostraram, estou em crer que o meu gesto, de todo inesperado por parte de um e de outro, de marcar presença efectiva na vindima e de aparecer para partilhar com eles a ceia, deixou marcas muito positivas na consciência de cada um. O Miné, habitualmente tão do "contra" nas suas posições, manteve-se calmo e feliz no papel de anfitrião. Já depois do jantar, ainda apareceu o Teixeira, outro grande companheiro da Associação As Formigas, há mais de dois anos às voltas com um grave problema de saúde que já o atirou por mais duma vez para a sala de operações do Hospital de Santo António, no Porto. Veio empurrado pela fome de conviver e de conversar. Havia a hipótese de outras presenças mais, mas não aconteceram. Por isso, o ambiente foi de grande serenidade e de partilha de preocupações relacionadas sobretudo com a vida do dia a dia no nosso país e no mundo.

No acto de vindimar, andei todo o dia a meditar na conhecida parábola evangélica dos trabalhadores convidados, a diferentes horas do dia, por um proprietário para trabalharem na sua vinha. Ao contrário desses trabalhadores, a minha participação na vindima do Miné não resultou dum convite dele, muito menos dum contrato. Eu próprio fiz questão de me apresentar. O Miné não me convidou, porque, certamente, no seu entender, um padre não é para estas coisas. Terá também tido em conta, provavelmente, a minha idade de 67 anos. Só mesmo uma concepção elitista e clerical do ministério presbiteral, totalmente à revelia do Evangelho de Jesus, é que tem levado os padres a viver distantes do mundo do trabalho. Podem beber o vinho, mas já não podem ajudar a colher as uvas, nem que seja das videiras dos seus passais paroquiais. Podem utilizar o vinho na celebração da Eucaristia, mas já não podem ajudar a fabricá-lo!... Por mim, nunca alinhei nesta concepção sacralista e clerical do ministério presbiteral. E, quando fui pároco aqui, então ainda na casa dos trinta anos de idade, nunca me escusei a participar em determinados serviços das populações, sempre que as circunstâncias mo proporcionaram. Houve algum escândalo, ao princípio, mas tudo se esclareceu e depressa se aceitou. O que deveria escandalizar as populações é este estatuto clerical de distanciamento dos padres em relação às outras pessoas. Chega quase a parecer que os padres deixam de ser pessoas, para passarem a ser meros funcionários do sagrado, e dum sagrado concebido fora dos espaços frequentados pelo comum dos seres humanos. Como se Deus no Cristianismo não se tivesse feito um ser humano, na pessoa de Jesus de Nazaré, e fosse uma entidade à parte da Humanidade. Ou como se Deus em Jesus de Nazaré não se tivesse feito profano.

O Reino de Deus – reza a referida parábola – é assim como um proprietário que saiu a diferentes horas do dia, a contratar trabalhadores para a sua vinha. Mesmo quando já só faltava um hora para terminar o dia de trabalho, ainda saiu e contratou mais trabalhadores para a sua vinha. “Porque estais aqui todo o dia ociosos?”, perguntou-lhes o proprietário antes de os contratar. Ao que eles responderam: “Ninguém nos contratou”. Contratou-os então o proprietário e eles foram trabalhar para a sua vinha. Os da primeira hora, trabalharam o dia todo. Os da penúltima hora, trabalharam apenas uma hora. A surpresa aconteceu, no final do dia, no acto de pagar: os que trabalharam apenas uma hora receberam tanto como os que trabalharam o dia todo. Estalou o escândalo entre os trabalhadores. Os da primeira hora, porque se sentiam injustiçados, relativamente aos últimos. Os da última hora, porque não contavam receber tanto como os que tinham suportado o peso do dia de trabalho e o calor.

Vindimei e meditei ao mesmo tempo. Por isso, quase nem me dei conta das horas passar. Nem do cansaço em crescendo do meu corpo. Mudava a escada, subia por ela ao encontro das uvas, colhia os cachos, alguns já com uvas apodrecidas de terem permanecido tempo demais na ramada, descia com a cesta carregada e despejava no cesto maior pousado no chão, até o encher. Foi assim até cerca das 14 horas, quando interrompemos para o almoço. Retomámos a tarefa logo a seguir. E a parábola dos trabalhadores contratados não me saía da cabeça. O Reino de Deus é assim como o que estávamos ali a realizar nas ramadas do campo do Miné. Quer então dizer que o Reino de Deus carece do nosso trabalho humano para progredir na História. Se não trabalhamos com afinco e inteligência pelo seu desenvolvimento, o que mais crescerá na História será o anti-Reino de Deus. Infelizmente, este tem sido o maior pecado de todas as Igrejas e de todas as Religiões. Mobilizam as pessoas para os cultos, para os templos, envolvem-nas em estéreis tarefas eclesiásticas em redor de altares e de coros ditos litúrgicos, de catequeses de crianças e de pias uniões, quando deveriam mobilizá-las para a Política, para a entrega da própria vida às causas da Verdade e da Justiça. Ainda pensam as Igrejas que o Reino de Deus tem a ver com religião, com cultos e com templos. Não se dão conta que o Reino de Deus tem tudo a ver com trabalho político, com acções políticas, com economia, com desenvolvimento científico. Foi assim que fez o proprietário da vinha que saiu a diferentes horas do dia a contratar trabalhadores para a sua vinha. Não os contratou para irem para um convento rezar dia e noite, ou para dentro de um templo ou de um santuário. Contratou-os para irem suportar o peso do dia e o calor a trabalhar na vinha, isto é, com o povo de todos e de cada umj dos países do mundo, para que em todos eles cresça a justiça que nos dignifica em lugar de crescer o lucro que nos bestializa, a verdade que nos liberta para a liberdade em lugar da mentira que nos mantém na opressão e faz opressores, o amor que nos faz irmãs e irmãos universais organizados em redor de mesas comuns em lugar do ódio que nos faz feras uns para os outros e nos converte em assassinos por omissão e acção como Caim. Na verdade, quem se perde na religião e vira costas à Política é como Caim. Pode não matar directamente os outros homens seus irmãos, as outras mulheres suas irmãs, mas mata-os por omissão. Só a Política – não a religião – salvará o mundo, edificará este nosso mundo em jeito de Reino de Deus. A religião só serve, na melhor das hipóteses, para anestesiar e consolar as vítimas humanas do anti-Reino de Deus. Porque, na pior das hipóteses, o que a religião mais consegue é alienar as vítimas humanas do anti-Reino de Deus. Basta ver como ela as desvia para os templos e para os deuses e as deusas, nomeadamente, durante os períodos históricos de maior aflição generalizada. Ora, as vítimas do anti-Reino de Deus do que mais precisam é de quem as consciencialize e liberte, para que sejam capazes de se organizar e de protagonizarem insurreições políticas sucessivas, até que a vida humana de qualidade seja tudo em todos! Que fique, pois, claro: Quando conseguimos libertar-nos da religião e nos abrimos à Política ao jeito de Jesus de Nazaré, então a nossa realização humana é de tal qualidade, que nos sentimos inteiramente compensados e felizes. E, se alguma coisa viermos a lamentar só pode ser todos esses anos que perdemos com a religião, com os templos, com os santuários, com os deuses e com as deusas, mais os seus múltiplos altares e os seus repetitivos cultos. Sempre na falsa expectativa de que Deus fizesse por nós o que, afinal, só a nós compete fazer.

 

2. A presença do bispo D. Armindo em Caramos. Como já disse antes, dos três momentos especiais do meu dia, este foi sem dúvida o único que me deixou prostrado numa tristeza de morte. Aliás, devo confessar aqui que foi muito a custo que deixei a vindima, já a caminho do fim, para ir até junto da igreja/mosteiro de Caramos, onde sabia que iria encontrar D. Armindo, o qual, enquanto bispo da Igreja que está no Porto, é também o meu bispo, pelo menos, à luz do que reza o Código de Direito Canónico em vigor.

(Exprimo-me assim, porque, neste momento histórico, uma outra pessoa, mulher ou homem, pode estar a ser o Bispo que o Espírito Santo escolheu e mantém a presidir à sua Igreja que está no Porto. Na verdade, será que há sempre coincidência entre a escolha de um bispo feita pela Cúria romana, por um lado – tudo seria diferente, se a escolha de um bispo fosse feita pela Igreja local que dele carece e pelo Espírito Santo, conjuntamente, como aconteceu com as decisões tomadas durante o Concílio de Jerusalém, no princípio da Igreja! – e a escolha feita pelo Espírito Santo, por outro lado? As coisas são assim sempre tão automáticas e tão fatalistas? Será que os critérios seguidos na escolha de um bispo por parte da Cúria romana, presidida pelo papa-chefe-de-estado, coincidem sempre com os critérios do Espírito Santo? Pelos frutos, diz Jesus, se conhece a árvore. Também as escolhas dos bispos feitas pela Cúria romana. Ora, se seguirmos este critério, teremos que dizer que a maior parte das escolhas de bispos feitas ao longo dos 25 anos de pontificado do papa João Paulo II foram contra o Espírito Santo. E porquê? Só mesmo um cego é que não vê que a maior parte dessas escolhas foram feitas contra o Concílio Vaticano II, nomeadamente, para impedir que o novo modelo de Igreja-comunhão que dele nasceu tivesse pernas para andar. Quem se atreve a desmentir esta minha afirmação?)

Quando me aproximei sozinho da igreja/mosteiro de Caramos, comecei por deparar com um reduzido número de pessoas no seu exterior. Mas não foi isso que me fez sentir interiormente mal, quase numa agonia de morte. O reduzido número de pessoas até me poderia alegrar, pois é deveras revelador de quanto esta Igreja demasiado envelhecida e tão contrária ao Evangelho de Jesus está já a ser manifestamente deitada fora pelas pessoas do século XXI. O que, só por si, constitui um facto positivo, pelo menos aos meus olhos. O que me causou uma tristeza de morte foi constatar que, da parte dos responsáveis maiores da Igreja que está no Porto e concretamente neste concelho de Felgueiras, as coisas continuam cada vez mais sem emenda. O clero local está envelhecido, à excepção de uns dois ou três padres que são ainda novos em idade, mas tão envelhecidos ou mais que os outros, no que toca aos comportamentos pastorais. À falta de outro sinal que os distinga, apresentam-se fardados de colarinho clerical à volta do pescoço e ostentam um ar de superioridade que tresanda. Nem se dão conta de que quase já não têm quem faça monte à volta deles e admire o ar de pavões com que se exibem, quando avançam vestidos com aqueles saiotes brancos sobre a outra roupa, e com que fazem questão de se paramentarem para os actos litúrgicos a que impreterivelmente presidem. Ontem, ainda pude ver alguns deles a darem as suas ordens, como se fossem os “patrões” da Igreja – as leigas, os leigos são uma espécie de impedidos seus, como no exército, nunca chegam a ser Igreja ao mesmo nível deles – mas, felizmente, já não será por muito mais tempo, porque não há pachorra nas populações para aturar indefinidamente esta situação de privilégio clerical.

No meio daquele pequeno ajuntamento de pessoas, lá estava também o bispo D. Armindo com o ar de quem espera que o relógio avance e, entretanto, não sabe bem o que há-de fazer e dizer. Nenhuma comunhão visível entre ele as outras pessoas que o rodeavam. Tudo muito formal. O constrangimento era tão visível, que eu próprio quase tive que me violentar, para conseguir avançar e chegar junto dele para o cumprimentar. Mas não deixei de o fazer. Não quis que o bispo, que passou todo este dia em terras do Concelho de Felgueiras, se fosse embora de cá, sem que eu lhe aparecesse para o cumprimentar. Já que ele não teve a desassombrada iniciativa de me procurar na casinha onde moro neste lugar da Maçorra, tomei eu a iniciativa de lhe aparecer, num dos locais onde ele tinha ficado de estar presente. Até para que ele continue a saber de mim e dos passos que dou. Quando, ao cumprimentá-lo, lhe disse que agora resido na freguesia de Macieira, logo ele contrapôs: “Eu sei”. Mas a verdade é que, se eu o não procurasse, ele teria regressado ao paço episcopal sem se encontrar comigo. O facto leva-me a concluir que, embora ele seja canonicamente o Bispo da Igreja que está no Porto e tenha adoptado como seu lema episcopal “Omnium me servum feci”, “Fiz-me servo de todos”, a verdade é que continua a não dar sinais de estar possuído do espírito do bom pastor, esse mesmo que, tendo cem ovelhas, é capaz de deixar as noventa e nove no deserto, para ir à procura da que se perdeu. Não é que eu me tenha perdido da Igreja, muito pelo contrário, apenas em boa hora me perdi do sistema eclesiástico. E que bom seria que o mesmo já tivesse ocorrido com todos os padres e com todos os bispos, também com o Bispo Armindo Lopes Coelho.

Ora, é precisamente isto que me entristece: quer o bispo, quer os presbíteros da Igreja que está no Porto continuam, duma maneira geral, a fazer de conta que eu nem sequer existo. Aos seus olhos, serei um caso definitivamente perdido, e a prova é que prosseguem nas suas fainas eclesiásticas, sem nunca se colocarem a questão do “para quê” de tudo o que fazem. Bem gostaria de perceber da parte destes irmãos de ministério algum sinal de que a minha vida de presbítero sem ofício pastoral há mais de 30 anos os interpela e questiona as suas estéreis rotinas eclesiásticas; sobretudo, gostaria de ver que eles, desafiados pela minha vida presbiteral tão fora das normas canónicas, mas não fora daquele mesmo Espírito que habitou e conduziu Jesus de Nazaré, finalmente se decidiram a trilhar caminhos ainda não andados na pastoral. Mas nada disto tem acontecido. Humildemente entendo que a minha vida nas margens poderia e deveria ser constante interpelação para eles que, ao contrário de mim, continuam aí ostensivamente a viver no topo da pirâmide eclesiástica, ao nível paroquial e ao nível vicarial. Mas infelizmente não é o que acontece. Bem pelo contrário, quando calha de esbarrarem comigo, como sucedeu esta tarde, logo eles, padres e bispo, parece que até se aprumam ainda mais, como quem quer deixar claro aos meus olhos que eles é que estão na via correcta e não eu, que aos seus olhos, não passo de um infeliz e de um frustrado a viver nas margens.

Pobres funcionários do sistema eclesiástico que não há maneira de arrepiarem caminho e que assim tanto se desumanizam cada dia que passa! Se algum pequeno passo, na linha do Evangelho de Jesus, fosse dado por eles, certamente que esse pequeno passo seria dado em direcção às margens e também em direcção a mim que aí vivo permanentemente há muitos anos. O encontro entre estas duas maneiras tão antagónicas de vivermos o mesmo ministério presbiteral marcaria um novo começo na sua vivência dentro e fora da Igreja, bem mais na linha do Evangelho de Jesus e do Espírito Santo, génese, por sua vez, de um novo modelo de Igreja auto-compreendida como serviço maiêutico à Humanidade e não mais este velho modelo de Igreja cristandade que recebeu já o golpe de misericórdia no Concílio Vaticano II, mas que nem por isso deixa de continuar aí a fazer das suas, qual baleia gigante ferida de morte.

Infelizmente, os anos passam sem que nada aconteça no campo presbiteral da Igreja que me dê alegria. Parece até que cada vez mais os padres fazem gala em comportar-se como funcionários do religioso, tomam-se ares de inchados e de prepotentes, como quem leva o rei na barriga. Em lugar de se atreverem a viver a profecia e o Evangelho de Jesus no interior da Igreja – depressa acabariam nas margens, senão mesmo na excomunhão canónica – dão inequívocos sinais de que preferem continuar no topo da pirâmide eclesiástica e a confundir Igreja com o sistema eclesiástico, do qual são imprescindíveis funcionários que descredibilizam o Evangelho e a Igreja como obra do Espírito Santo.

Por ter visto ao vivo as coisas assim esta tarde, para mais sob a presidência do bispo D. Armindo, todo eu era um homem esmagado por uma tristeza de morte, quando, meio cambaleante, me afastei fisicamente de junto da igreja/mosteiro de Caramos em direcção à carrinha estacionada que haveria de me trazer a casa. O bispo e os párocos, paramentados à Idade Média, lá entraram na igreja/mosteiro, por entre algum povo humilde que ali se juntou, mas sem qualquer relação de comunhão viva com ele e sem qualquer reciprocidade. Iam rezar em conjunto mais uma missa ritualizada sem profecia e por isso também sem Eucaristia. No decorrer dela, iam infantilmente “benzer” um velho órgão de tubos restaurado (quanto terá custado o restauro?), completamente desfasado dos tempos e dos gostos culturais de hoje, como a dizer que o modelo de Igreja que eles representam está de igual modo totalmente desfasado dos tempos que são hoje os nossos e das pessoas que são hoje os nossos contemporâneos. Fui incapaz de ficar para entrar com eles. Espaços como este da igreja/mosteiro de Caramos e rituais litúrgicos infantilizadores como este que eles iam ali protagonizar para o pouco povo que ali se congregou remetem-nos para os tempos da pior das opressões da Humanidade, o tempo da opressão das consciências. Casas assim não são casas de Deus, por mais missas que lá se rezem dentro. São casas de opressão, dentro das quais, por mais que se façam ouvir órgãos de tubos e algumas vozes humanas entoem cantos de louvor, o que sempre mais se ouvirá são os gritos de dor dos muitos milhares de pessoas que, por as terem frequentado e aos seus cultos, ficaram toda a vida impedidas de crescer em graça, em dignidade, em liberdade, em autonomia, em protagonismo, em cidadania, numa palavra, em intervenção política ao jeito de Jesus.

 

3. A ceia. O terceiro momento forte do meu dia foi a ceia em casa do Miné. Eu queria estar sobretudo com o Chalana que já não via, nem ouvia há vários meses. E estive. Estivemos. Evitámos os assuntos mais polémicos, para que o tempo ajude a perceber o essencial e uma certa crispação à volta deles se dilua. Mas conseguimos conversar com simplicidade e preocupação sobre a nossa actualidade social e política. Deixei transparecer a ele e a todos os outros presentes na ceia que o encontro com o bispo e com os párocos do Concelho tinha sido mais uma grande decepção e uma ocasião de profunda dor e tristeza para mim. Tive que reconhecer, mais uma vez, que os funcionários eclesiásticos do tipo clerical são incapazes de amar, de sair ao encontro do outro diferente de si. Não abdicam dos privilégios. Matam constantemente em si a profecia, para melhor garantirem a continuidade dos privilégios de que usufruem desde o dia da ordenação. De resto, esse dia foi para eles a última vez que estiveram prostrados no chão. De então para cá, é sempre a subir, a subir, a fazer carreira eclesiástica, a juntar dinheiro sobre dinheiro, carro novo e de marca sobre carro novo e de marca, privilégios sobre privilégios. Preferem mil vezes ser funcionários eclesiásticos, a serem seres humanos com entranhas de humanidade e de solidariedade. São por isso incapazes de abraçar e de beijar, pois, quando olham à sua volta, só vêem súbditos e vassalos. Ou superiores a quem agradar e servir com subserviência. Do que mais têm medo é de encontrar homens, mulheres com verticalidade. Aí, ficam sem jeito e nem sequer sabem conversar. Como haveriam de saber, se conversar é uma acção só possível entre iguais? O poder não conversa, comunica, pior, faz comunicados.

Mas para mim o momento mais empolgante da ceia foi quando a bebé Leonor, filha da Célia e do Chalana, finalmente ganhou confiança comigo e aceitou sentar-se, por uns minutos no meu colo, a tagarelar e a brincar como se eu fosse outro bebé como ela. Toda aquela sua inocência feita menina fez rebentar dentro de mim uma nova e mais funda vontade de ser sempre como um menino, uma menina. Nunca ser como os grandes e os poderosos. São mulheres e homens como meninas, como meninos que podem mudar o mundo. Porque a Política é como uma menina, um menino, Deus entre nós e connosco. A Política é também como esta bebé Leonor, filha da Célia e do Chalana. O Poder, ao contrário, é como um monstro de múltiplas cabeças que gosta de se travestir de política, mas para melhor a comer e a manipular em seu proveito. Em Jesus, a Política acabou na cruz, crucificada e assassinada. E o Poder foi que a crucificou e assassinou. Assim tem sido sempre através dos séculos. Por isso, me fizeram tão bem aqueles breves minutos que a bebé Leonor brincou e tagarelou comigo no meu colo. Humanizou-me ainda mais. Fez rebentar de novo em mim a alegria e a festa que o poder eclesiástico, materializado no bispo D. Armindo e nos párocos do concelho que com ele oficiaram ontem na igreja/convento de Caramos, havia conseguido, por um tempo, esmagar. Por isso, canto com todas as forças do meu ser: Bendito seja Deus, o de Jesus, que, como tão bem canta o Evangelho de Lucas, todo se delicia em derrubar os poderosos dos seus tronos e em exaltar os humilhados por eles. Na verdade, só mesmo Tu, ó Deus, por seres Deus assim, me fazes ser. Para sempre. E viver com alegria. Nas margens.


2004 OUTUBRO 19

É sem dúvida o mais mediático dos padres católicos portugueses. Desde há muito tempo que é residente no popular programa das manhãs da RTP, Praça da Alegria. O seu rosto figura permanentemente na página oficial da Igreja, www.ecclesia.pt e, paralelamente, só este ano já actuou em mais de 70 concertos. Como já descobriram, é do P.e José Luís Borga, pároco no Entroncamento, que estou a falar.

Hoje, quando abri na internet os principais diários portugueses, encontrei-me inesperadamente com este meu companheiro de ministério presbiteral, nas páginas do Jornal de Notícias (JN), numa entrevista que este matutino sedeado no Porto lhe fez. Nunca me cruzei com o Pe. Luís Borga nos caminhos da vida. Simplesmente, porque isso nunca se proporcionou. Também nunca adquiri nenhum dos seus CDs. É um tipo de música e de mensagem que não nos mobiliza para as grandes causas da Humanidade, nem nos “mete” até aos ossos na política, ao contrário do que sempre acontece com o Evangelho de Jesus e, antes dele, com os Profetas bíblicos, a começar por Moisés, esse mesmo que enfrentou o império faraónico do Egipto e libertou os escravos, no decorrer duma epopeia política que inspirou vários filmes de encher o olho. Basta ver, por exemplo, aquela que pode ser considerada a sua mais emblemática canção, “Põe a mão na mão do meu Senhor da Galileia”. Será muito difícil chegar, através dela, a Jesus, o Crucificado procedente de Nazaré, e às grandes causas políticas que lhe custaram a vida, nomeadamente, a causa do Reino/Reinado de Deus.

Mesmo assim, não resisti a ler a entrevista na íntegra. Quis conhecer melhor este companheiro de ministério presbiteral bastante mais novo do que eu, em particular, os seus pontos de vista sobre as grandes questões que fazem a nossa actualidade. Sei que bastantes adolescentes e jovens têm os olhos postos nele, como uma das suas referências da Igreja deste tempo em Portugal, e quis ver o teor da mensagem que ele veicula em todas as frentes onde actua, e são muitas.

Devo confessar que já ouvi uma ou outra intervenção dele na RTP/Praça da Alegria, mormente, quando estou na cozinha a confeccionar o meu almoço e sintonizo o canal 1 já com a intenção de acompanhar o que ele lá diz e faz e como ele o diz e faz. “Torço” sempre para que ele se saia bem e diga de forma desassombrada e feliz o Evangelho de Jesus nas circunstâncias que são hoje as nossas. Infelizmente, fico (quase) sempre defraudado. Bem sei que o figurino do programa não se proporciona a mensagens sérias e de grande profundidade. Mesmo assim, é legítimo esperar muito mais do Pe. Borga. Aquele médico cardiologista, por exemplo, também residente no programa, quando é chamado a intervir sobre a sua especialidade, consegue, sem ser “pesado”, fazer passar a mensagem com seriedade e grande proveito. Não é o que acontece com o Pe. Borga, o que me deixa triste. Chega a dar a sensação que improvisa, que não se prepara o suficiente para cada programa. E já se sabe, estas coisas do Evangelho soam sempre a oco, quando não vêm do mais fundo da pessoa, duma vivência pessoal e comprometida.

Li a entrevista. E tal como as canções que já tenho visto/ouvido ele cantar na RTP, as suas respostas às questões postas pelo JN não chegam a galvanizar, a mobilizar. A linguagem é ágil, o pensamento é fluente. Mas substância, profundidade, boa notícia, evangelho, é mais difícil encontrar. Para surpresa minha, apercebo-me, mais para o final da entrevista, que o JN lhe formula duas perguntas relacionadas comigo. Ele responde. Revela-se parco em palavras, mas, infelizmente, não na agressão. Embora reconheça que “razão não me falta”, coloca-se, contraditoriamente, do lado do sistema eclesiástico (parece que ainda pensa que este é a mesma coisa que Igreja) contra mim e contra a “razão que não me falta”. Vai ao extremo, indirectamente, de me convidar a deixar a Igreja!!! Ainda não terá percebido que eu amo a Igreja como poucos. Deixa-me por isso desconcertado, quando diz que, ele, no meu lugar, já teria batido com a porta. E, depois, não satisfeito com isto, leva ainda mais longe a sua agressão contra mim. Toma-me como um seu “irmão", mas "doente”, o que, no contexto, só pode significar do foro psiquiátrico. É sempre assim. Quando alguém tem razão, mas incomoda e, por isso, não querem continuar a ouvir a mensagem, muito menos, deixar-se interpelar por ela, sugere-se publicamente o internamento psiquiátrico do mensageiro. Para que este caia em descrédito e os incomodados com a mensagem possam continuar a dormir descansados. (Curiosamente, no início de Setembro último, uma acompanhante de universitárias, universitários que trabalha em Lisboa, procurou numa livraria católica da capital o meu livro QUE FAZER COM ESTA IGREJA? e qual não foi o seu espanto quando perguntou à funcionária de serviço se tinham lá livros do pe. Mário, ela prontamente lhe respondeu: “Livros do pe. Mário? Mas então não sabe que o pe. Mário é um louco?” Felizmente, ela já havia falado pessoalmente comigo e encheu-se de rir. Mas não haverá nada mais por trás de comportamentos deste teor? Eis a questão)

Devo confessar que não contava nada encontrar este tipo de discurso na boca deste meu companheiro de ministério presbiteral, o mais mediático de todos. Mas vou ter em conta o que ele aqui me diz, transformar esta crítica em autocrítica, e procurar ser cada vez mais fiel ao Evangelho de Jesus e ao seu Espírito.

Entretanto, aproveito para esclarecer publicamente que a Igreja não é a minha cruz, como sem hesitar o Pe. Borga afirma na entrevista. Pelo contrário, a Igreja é a comunhão que me alimenta e faz viver feliz nas margens, como homem de causas. A minha cruz são os pecados da Igreja, sobretudo as nossas sucessivas traições a Jesus e ao Evangelho de Deus que nele se fez carne. (Desta minha cruz, fazem também parte, evidentemente, todos os pecados do mundo, a começar pelos do Império e a acabar nos das multinacionais que hoje até a alma nos devoram, se não lhes resistirmos a toda a hora do dia e da noite!). Carrego todos esses pecados, como igreja que sou. Quando os denuncio, é ainda por amor que o faço. Tenho consciência que não são as minhas denúncias dos pecados da Igreja que “sujam” a Igreja. O que “suja” a Igreja são as nossas sucessivas traições à Humanidade mais empobrecida e mais oprimida, bem como todas as nossas muitas traições ao Evangelho de Jesus, nomeadamente, quando, com tanta frequência e tanto descaramento, trocamos o Deus vivo pelos ídolos, seja os ancestrais ídolos dos cultos do Paganismo mais primitivo que ainda entra pelo terceiro milénio além, seja os ídolos do Paganismo da nossa actualidade, com destaque para o deus Dinheiro, “a raiz de todos os males”, no dizer da 1 Carta a Timóteo 6, 10, ao qual nem a nossa Igreja nem em geral as demais Igrejas resistimos a prestar culto. E tudo serve para isso. Até as missas que acabam por ser mais uma fonte de rendimento. Para não falar já da exploração de santuários ditos "marianos", sempre a pretexto, já se vê, de longas orações, pagamento de promessas e coisas que tais.

Mas para que se conheça bem o que pensa o Pe. Luís Borga do nosso tempo e da Humanidade deste neste início de século XXI e de terceiro milénio, nada melhor do que reproduzir a seguir na íntegra a entrevista. Com a devida vénia.

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JN titula a entrevista assim: “José Luís Borga: Estar na televisão não renova a Igreja, mas dá uma achega". E antes das perguntas e respostas, o Jornal apresenta uma curta mas significativa introdução:


«As televisões disputaram-no. Ele poderia não ter sido padre, mas, assegura, "seria sempre um comunicador". José Luís Borga, o sacerdote que pôs o país a cantar "Põe a mão na mão do teu Senhor da Galileia", tem uma utopia: "Se pudesse, ninguém faria abortos". A progressiva legalização dos comportamentos sociais incomoda-o. "A homossexualidade passou de perversão a doença; e daí a opção. Qualquer dia é uma obrigação". Diz que não a julga, mas também não a entende. Como não entende o Vaticano, que desconhece se "será um mal necessário, ou um serviço preciso". Cobra 4000 euros por concerto, cachet que partilha com a comunidade. "A Bíblia pede um décimo - eu dou metade".» Seguem-se as perguntas e as respostas:

[Jornal de Notícias]As suas sucessivas aparições televisivas são uma tentativa de renovar a imagem da Igreja ou fruto de uma opção exclusivamente individual?
[José Luís Borga]Não tomei a decisão de usar a televisão para passar uma imagem da Igreja. Estou perante uma oportunidade que estes meios raramente dão. E não dão a toda a gente. Deram-me a mim. Tenho a humildade de pensar que estar na televisão não renova a Igreja no sentido de ir ao essencial. Ela não fica enriquecida porque apareço; espero que não fique empobrecida. É mais uma achega.

Que leitura lhe merece a presença de três padres nos três programas da manhã? [José Cruz na TVI; Milícias na SIC]
O público alvo da manhã são pessoas reformadas, para quem a Igreja tem um peso significativo. As televisões vêem audiências e percebem o que é estar o padre Borga, ou não; estar uma cartomante, ou não. No início, houve uma certa disputa de mim. A RTP propôs-me exclusividade, e eu aceitei. As outras televisões foram ao encontro do mesmo.

Além da televisão, dá concertos. A que critério obedece a sua agenda?
Primeiro, cortando muitas horas ao sono. Segundo, dentro do possível do que me pedem, tento responder afirmativamente. Terceiro, sendo capaz de fazer entender às pessoas que não sou mendigo, nem escravo, nem dependente dessa situação. Vou porque é bom ir; nunca irei porque preciso de ir. Se me pedem para dar um espectáculo onde estão seis mil pessoas, dificilmente direi que não. Se me pedem para ir a um larzinho, onde estão meia dúzia de velhinhos, terei mais dificuldade em dar prioridade a isso. Faço uma gestão entre qualidade e quantidade. Sou prioritariamente pároco; raramente colido com a minha dimensão de responsável por uma comunidade. Este ano já fiz mais de 70 espectáculos; não me posso queixar muito.

Que destino dá aos 4000 euros que cobra por espectáculo?
Só metade do que ganho fica para mim. A Bíblia pede um décimo; eu dou metade. Nunca fui a lado nenhum para ganhar dinheiro, nem deixei de ir por não ganhar. Tento fazer uma gestão de tudo o que tenho, de forma primeira a que não viva para isso; segunda, que viva apesar disso; terceira, que haja muita gente a ganhar com isso. A minha Igreja tem sido a destinatária, porque houve obras. Se tenho ajudado tanta gente, mau seria que andasse a pedir para a minha paróquia.

Lida bem com a popularidade?
É a minha cruz. (risos) Sou bastante desconcertante. Às vezes, até fico com pena das pessoas. Reconheço que é cansativo, inoportuno, quero passar discreto e não consigo. Mas sou sobejamente grato para pensar que isso acontece porque as pessoas gostam de mim, e são gratas por aquilo que sou. Não tenho o direito de ser frio. E não me preocupa porque sou um homem livre, faço tudo às claras, ninguém depende de mim. O meu celibato dá uma boa ajuda. Lido com a simplicidade e a gratidão que isto supõe e exige. E com os pés no chão, porque tudo é efémero.

O seu protagonismo não pode ser confundido com uma certa falta de humildade que lhe é exigida?
Pode. Mas quem dirá da humildade, ou não, terá que ser a própria pessoa, e os seus amigos. Somos facilmente avaliados por gente que nem sabemos que existe, e que se acha no direito de avaliar só porque conhece uma parcela. Haver gente que fica eufórica ou angustiada porque estou na televisão, não me é particularmente incomodativo. Agora, se tenho um colega sacerdote ou bispo, isso sim. As pessoas são um bocadinho adolescentes nestas matérias: somos óptimos se os servimos; na primeira vez que dissermos que não, revêem logo o nosso estatuto. Passamos de bestial a besta com muita facilidade.

Que avaliação fez da proibição do Governo ao não deixar atracar em território português, o "barco do aborto"?
O aborto é um acto desumano e desumanizante. Fazer disto uma indústria, é pior a emenda do que o soneto. A política não soube lidar com isto, e foi lamentável. Quer-se uma ordem jurídica baseada em princípios de dignidade da pessoa humana, mas só se dá tiros nos pés. Ainda bem que não houve gente da Igreja no cais a pedir para o barco não atracar; seria lamentável.

Defendia a vinda do barco?
Tanto me faz. A realidade, em Portugal, está bem pior do que no barco. Já começo a temer que se legalize a pedofilia. Desde que se faça em condições de higiene, as crianças não se queixem, tenham subsídio depois, e haja rastreio higiénico aos clientes. Já vi legalizar tanta coisa! Estamos na miséria? Citando Kierkgaard, "venham os poetas falar daquilo que é belo". Não temos que morrer todos no esterco da vida. Tenho uma utopia: se a pessoa pudesse, nunca faria aborto.

Numa altura em que se esperava que o Vaticano revisse algumas posições consideradas mais retrógradas, é emitido um documento a reprovar a homossexualidade...
Não é só a igreja que é contra a homossexualidade. Não há nenhuma religião, a não ser que depois haja interpretações pastorais, que diga que essa opção é de ordem divina. Sou da maior compreensão face à homossexualidade, mas sou, também, da maior questão perante ela. Honestamente, acho que masculino e feminino são complementares no masculino e no feminino. Esta visão tem milhares de anos, e não estará assim tão errada.

A homossexualidade não é propriamente recente…
Pois não. Passou de perversão a doença. Agora já não é doença, é opção. Qualquer dia é uma obrigação.

Ou seja, evita julgar, mas não aceita?
Se alguém me vier dizer que tem tendência homossexual, gostava de lhe dizer que está enganado. Não aceito como opção igual a outra qualquer. Tenho dificuldade em compreender. Quer mais uma perversão? Ter relações com animais. Até aqui, ainda achamos que é perversão, mas qualquer dia passa a ser natural casar com cães e gatos. Posso parecer exagerado, mas não sei se sou. Há 40 anos, se dissesse que a homossexualidade era opção, estaria a ser tão exagerado como pareço estar a ser agora. É preciso não esquecer que a sexualidade tem associada a ideia de fecundidade.

Concorda que a imensa riqueza do Vaticano pode afastar as pessoas da Igreja?
Concordo, claro. Como a minha. O poder está sempre associado a uma dimensão visível. A riqueza do Vaticano é algo que não se pode hipotecar. Fui prior no mosteiro cisterciense, numa comunidade paupérrima, em que até para mudar lâmpadas tínhamos que fazer peditórios. O IPPAR gastou lá milhões na restauração. É um património tal, que deixá-lo deteriorar-se, era um crime contra nós próprios, a Historia e a memória. O Vaticano vai vender aquilo a quem? Ao Bill Gates? Ao Estado?

O património do Vaticano não é só arquitectónico.
O que importa não é o que temos, é o que damos. O orçamento do Vaticano, em relação a cidades como Lisboa ou Alemanha, não é comparável. O serviço que presta à comunidade, a grandeza espiritual que tem, a quantidade de organismos de apoio aos mais pobres, à investigação, não tem comparação. A maior pobreza é acharmos que é mau os outros terem. Vivi num seminário, em Santarém, uma casa estupenda. Parece muito rica, mas viver lá é quase um castigo. Meu rico andarzinho no Entroncamento! Só o arranjo do telhado daquilo dava para comprar três andares iguais ao meu.

E todo o mistério que envolve o Vaticano: a moeda própria, os livros a que ninguém tem acesso, não o inquieta?
Tenho mais que fazer do que estar preocupado com o Vaticano. Não é dos sítios mais fascinantes da vida. Não sei se é um mal necessário, ou um serviço preciso. Tem muitas virtudes, mas terá também limitações. Faz parte do mistério disto tudo. Não sou admirador do Vaticano; isso não sou, até porque há muita coisa que não sei como funciona. Os que sabem não ficam muito edificados, os que não sabem passam muito bem sem isso. Pertenço ao segundo plano.

Que reacção lhe suscita o mediatismo de padres como o controverso Mário de Oliveira, autor de livros como "Fátima nunca mais"?
Gostava de ver nele um homem feliz. E lamento que a cruz dele seja esta Igreja. Concordo com algumas coisas que diz. Aliás, razão é coisa que não lhe falta. Mas acho lamentável que se faça passar por servidor da Igreja que abomina. É um fio ao qual tem conseguido ser tão fiel, durante todos estes anos, que até o admiro por isso. Honestamente, se achasse da Igreja o que ele acha, já tinha ido embora.

Ele não é caso único.
Pois não. A igreja ainda não sabe lidar bem com estes casos. Ele pode ser um doente, mas é um irmão no sacerdócio. Era talvez possível, entre os colegas, ir pondo água na fervura. Gostava de o ver mais acompanhado. Sou um espectador dele como toda a gente. Expõe-se muito. Acho que ele não é feliz. Mas, provavelmente, ele acha o mesmo de mim.

O celibato é um dossier que a igreja devia rever?
Está sempre a ser revisto, desde que foi instituído pelo próprio Jesus Cristo. É matéria que vai continuar a ser discutida. Mas será sempre um tesouro complicado de nos desfazermos. O tesouro tem sido, nestes séculos, inestimável. Não poderíamos apresentar serviços de qualidade, de testemunho, de autenticidade evangélica, sem esta opção. Mas vai sofrer alterações. O sacerdócio ministerial, até há pouco tempo, estava vedado a não celibatários; neste momento, já há diáconos permanentes que são casados. Lamento que um sacerdote que por causa do celibato deixa de exercer, não seja, pelo menos, colocado no diaconato. O celibato tem que ser uma opção da felicidade, e se alguém não é feliz porque é celibatário deve deixar de o ser. Mas não deve ser reduzido ao grau zero.

[A terminar, uma pequena “caixa” em rodapé]: Presença assídua na Praça da Alegria, na RTP, o padre Borga fala de tudo o que a Igreja reprova.

"Descobri a vocação com alegria e medo"
O exemplo do irmão, 12 anos mais velho, sacerdote, poderia tê-lo demovido da ideia de ser padre. "Podia fazer-me pensar que já dei para esse ofertório". Aconteceu o contrário. José Luís Borga, nascido numa aldeia de Torres Novas, sentiu o chamamento aos 10 anos. Com alegria e medo. "É aquele misto da profundidade em que os contrários se encontram". Entrou para o seminário de Almada, onde ficou cinco anos e passou para o de Olivais. Foi ordenado em 1990, passando a integrar a diocese de Santarém. "Ser sacerdote é como ser pai ou marido: a teoria não é nada do que temos que fazer na prática". Nunca quis ser padre para criar uma ruptura no padrão de valores estabelecido pela Igreja. "Seria uma ousadia da minha parte. Repenso e reforço as minhas convicções todos os dias". Da música, que toca e canta desde sempre, resultaram já dois trabalhos: "Navegação" e "Cantar é rezar duas vezes". Ultimamente anima a Praça da Alegria, na RTP, e viaja pelo país em digressão.


2004 OUTUBRO 16

“Muito mais do que padres”. É assim que a Revista ÚNICA, do semanário Expresso de hoje, titula uma reportagem sobre seis padres portugueses, para os quais, no dizer da jornalista que coordena a reportagem, “o sacerdócio [que vivem] não acaba na homilia de domingo”. Se lerem a Revista, verão que um destes seis padres ouvidos pela reportagem sou eu próprio, apresentado por ela como “o escritor”. Sou aliás, no dizer do repórter Pedro Neves, do Porto, que assina o trabalho, em parceria com Eduarda Freitas, de Lisboa, o único deste conjunto de seis padres que “continua e continuará a ser padre sem paróquia”. “Essa é a sua missão”, sublinha ainda, com bastante oportunidade, o mesmo repórter, a concluir o seu texto. Como quem confirma, também hoje e aqui, que quando “os de dentro” não vêem nem valorizam o meu ministério presbiteral, é então chegada a hora de “os de fora” gritarem nas ruas, entenda-se, nos “media”, como já de si próprio disse Jesus, o de Nazaré, no seu tempo e país.

Porém, a reportagem parece também insinuar que estes padres são e vivem assim diferente do comum dos outros padres “para ganhar o céu”. Não estranho que isto se insinue e escreva. É este, infelizmente, o pensar e o dizer da maior parte das nossas conterrâneas, dos nossos conterrâneos, mesmo da generalidade das católicas, dos católicos. São hoje muito poucas as pessoas que sabem que, para um padre que se preze, não é nunca o céu que está em causa ou que lhe interessa ganhar, mas sempre e só a terra. E não para a ganhar, conquistar ou dominar. Apenas para a servir maieuticamente até à liberdade mais completa, de modo que a Humanidade que nela, em determinada etapa do seu processo evolutivo, aconteceu possa vir a estar cada vez mais à altura de assumir com responsabilidade a gestão política do planeta na justiça e na paz. É que os padres – infelizmente, ninguém no-lo diz, embora seja essa a correcta doutrina que havemos de viver no nosso dia a dia eclesial – são da Igreja, mas para o mundo e para a humanidade, não propriamente para a Igreja. Quer isto dizer que quanto mais padres forem, mais política e não eclesiástica terá que ser a vida quotidiana de cada um deles. Ou a profecia e o anúncio do Evangelho aos pobres – as duas vertentes complementares da missão presbiteral de qualquer padre – não fossem também uma das mais arriscadas e mais fecundas maneiras de um ser humano viver a política sem poder.

É por isso que um padre que não se auto-compreenda e não se assuma como profeta no seu tempo e no seu espaço e como alguém a quem incumbe prioritariamente a missão histórica de actualizar o Evangelho de Jesus para o anunciar com lucidez e audácia aos pobres, só mentirosamente é que poderá dizer que actua na Igreja e no mundo “in persona Christi”, na pessoa de Cristo, o Crucificado pelo Império da época, em conluio com o Templo do seu país, e a quem Deus, nesse mesmo instante, surpreendentemente, ressuscitou, o mesmo é dizer, a quem Deus, surpreendentemente, deu razão contra esse mesmo Império e contra esse mesmo Templo.

A Humanidade, infelizmente, nunca foi capaz, até hoje, de acolher e sobretudo de digerir esta Boa Notícia de Deus, historicamente realizada na pessoa de Jesus, com foros de verdadeiro escândalo para os senhores do Império e do Templo e para todos quantos, através dos séculos, gostam de se comportar como seus súbditos e vassalos. E a prova é que tanto o Império como o Templo continuam hoje aí a gozar de boa saúde, ao passo que a profecia e o anúncio do Evangelho de Jesus quase desapareceram da face da terra e da História e também do interior da própria Igreja. Para desgraça de todas, todos nós. Porque a verdade é que a Humanidade, enquanto estiver na História, jamais poderá viver saudavelmente sem profecia e sem o anúncio do Evangelho de Jesus devidamente actualizado, tal como não poderá viver sem o ar para respirar. Ora, a profecia e o Evangelho são o ar que manterá a Humanidade progressivamente aberta e a crescer em reciprocidade, rumo ao futuro.

Quando desaparecem os profetas e o anúncio do Evangelho de Jesus é substituído por cultos mais ou menos sumptuosos realizados no interior de imponentes basílicas e catedrais ou de simples igrejas paroquiais e capelas, o Império e o Templo voltam a ficar com o terreno completamente livre para cometerem toda a espécie de crimes contra os seres humanos e contra a própria Natureza, que é a situação global em que hoje manifestamente estamos. Mas então a quem haveremos de responsabilizar e pedir contas? Antes de mais, à Igreja, nas distintas formas históricas em que ela hoje se apresenta. E porquê? Porque quando a Igreja renuncia à profecia e troca o anúncio do Evangelho de Jesus por sessões quase contínuas de culto, ela trai a sua missão na História e converte-se na inimiga maior da Humanidade. Em consequência, por mais grandiosas e confortáveis que sejam as suas catedrais e por mais solenes que sejam os cultos realizados dentro delas, nem assim a Igreja deixa de ser aquele sal que, no lúcido dizer de Jesus, perdeu a sua força. Como tal, só serve para ser lançada fora e pisada/desprezada pelos seres humanos. Eu sei que é muito duro ouvir/ler isto. Mas quem tiver olhos para ler que leia e quem tiver ouvidos para ouvir que oiça!

 

Desde há alguns anos que no interior da Igreja se começou a falar da necessidade duma “nova geração de padres para o terceiro milénio”. Ora, já iniciámos o terceiro milénio e os padres para ele continuam sem aparecer. E o pior é que a Igreja dá manifestos sinais de ser, hoje, uma grande instituição medonhamente estéril e impotente. Não fecunda nem é fecundada. Mais parece uma prostituta e uma adúltera que desde há séculos troca em plena praça pública o seu Senhor crucificado pelo Império e pelo Templo que historicamente o crucificaram e mataram.

Deveria viver permanentemente aberta ao Espírito e deixar-se guiar por ele, a exemplo de Jesus, o seu Mestre e Senhor, mas prefere apresentar-se ao mundo e ao resto da Humanidade como uma poderosa e temida organização eclesiástico-clerical – a fazer lembrar uma multinacional com delegações em quase todo o mundo completamente submetidas à sede-pai em Roma – ditatorialmente dirigida pela Cúria do Estado do Vaticano, presidida pelo seu todo-poderoso chefe de estado, o papa.

Eu sei – todas, todos sabemos – que hoje, o papa, na pessoa do polaco Wojityla, auto-rebaptizado para o exercício da função com o título de João Paulo II, está manifestamente doente, praticamente incapaz de comunicar com normal fluência e também incapaz de dinamizar seja o que for. Mas vejam como ele não dá quaisquer sinais de estar disposto a abdicar do poder monárquico absoluto que o Código de Direito Canónico que ele próprio aprovou e fez publicar lhe atribui (Deus, o de Jesus, deve rir-se a bandeiras despregadas desta vaidade de certos homens da Igreja que vivem convencidos que são representantes dEle na terra, senão mesmo a encarnação dEle na terra!...), nem de todo o protagonismo mediático e idolátrico que esse mesmo poder lhe garante. Seriam necessárias montanhas de humildade para um ser humano – confrangedora e irreversivelmente debilitado como ele desde há anos – ter a lucidez e a audácia bastantes para livremente decidir passar o testemunho a outro na Igreja, sem ser preciso esperar que a morte biológica naturalmente o faça mais cedo ou mais tarde.

Manifestamente, não é o caso do católico polaco Wojityla. Para cúmulo, ainda há muitas vozes – vozes de vassalos eclesiásticos que têm medo de assumir a liberdade dos filhos de Deus na Igreja e no mundo – que hipocritamente vêm louvar em público tamanho apego do papa João Paulo II ao poder monárquico absoluto. É claro que não o dizem nestes termos. Pintam de virtude esta tragédia eclesial e este pecado contra o Espírito Santo, ao ponto de proclamarem que, ao agir deste modo, o papa é um espantoso exemplo de dedicação à Igreja. Não é. A dedicação à Igreja mandaria que ele abdicasse do poder e do protagonismo e passasse com simplicidade o testemunho a outro humanamente mais capaz de a ajudar a responder aos enormes desafios que o terceiro milénio está aí a gritar, até nas pedras da rua! Dizer o contrário, é pura bajulação. E revela total insensibilidade para o novo tipo de mundo que é hoje o nosso mundo, muito para lá, felizmente, do tipo de mundo da Idade Média, quando os papas e a Cristandade ocidental controlavam e oprimiam clericalmente as populações e as consciências. Hoje, o mundo não é mais assim. E a Igreja que deveria estar na vanguarda duma prática de não-poder, mantém-se estupidamente neste tipo de prática inumana herdada directamente do Império romano, e que fez história sobretudo durante os longos, pesados e infantilizadores séculos da Idade Média.

Pois bem. Enquanto não formos capazes de abolir a Cúria romana e os seus estéreis cardeais que fazem lembrar o conselho dos anciãos do país de Jesus que estiveram directamente envolvidos na sua morte; enquanto não acabarmos com o mini-poderoso Estado do Vaticano; enquanto não acabarmos de vez com o tipo de papado monárquico absoluto e patriarcalista; enquanto não tivermos a coragem e a humildade de regressarmos a Jesus de Nazaré e ao Evangelho que é a sua prática política liberta e libertadora e universalmente inclusiva; enquanto não tivermos a lucidez de regressarmos à profecia e ao anúncio desassombrado do Evangelho de Jesus, devidamente actualizado para o nosso aqui e agora; enquanto não formos capazes de abandonar o tipo de ministério ordenado patriarcalista, celibatário à força e quase exclusivamente virado para presidir a sucessivos actos de culto nos templos e nos altares; e enquanto não nos abrirmos a um novo tipo de ministério ordenado, acessível a homens e a mulheres indistintamente, e vivido ao jeito daqueles meninos-servos que Jesus sempre colocou como modelo para todas as suas discípulas, todos os seus discípulos de qualquer tempo e lugar – bem podemos tirar o nosso cavalinho da chuva, que nunca mais teremos a desejada “nova geração de padres para o terceiro milénio”. Continuaremos, pelo contrário, com cada vez menor número de padres, forçosamente condenados a terem que viver numa roda viva como bombeiros chamados a apagar contínuos fogos, a correrem de paróquia em paróquia, de missa em missa, de reunião em reunião, sem nunca chegarem a saborear o prazer e a alegria de um encontro com irmãs, irmãos de fé cristã jesuânica, numa verdadeira Eucaristia que, para o ser, tem que ter o Espírito que habitou e guiou Jesus de Nazaré, como o seu fecundo e misterioso animador.

Os funcionários eclesiásticos, a que os padres de hoje estão reduzidos, não têm alma, não têm coração, não têm entranhas, não têm afectos, não têm ternura. São funcionários. Pouco mais do que robots. Por isso, tudo o que tocam fica estragado, adoentado, paralisado, infantilizado. Jesus tocava as pessoas e elas erguiam-se, sublevavam-se politicamente contra o Templo e contra o Império. Até os que viviam como mortos, saíam dos túmulos em que viviam, porque a palavra de Jesus não era como a dos fariseus e dos doutores da lei: era fecundamente subversiva, surpreendentemente libertadora e universalmente inclusive. Foi por isso que os donos do Templo não lhe perdoaram a ousadia e o atrevimento. E depressa se livraram dele, graças a uma espúria aliança com o Império de Roma, a cidade onde hoje, ironicamente, a Igreja que usa o nome de Jesus tem a sua sede, para cúmulo, no interior de grandes palácios e de luxuosas basílicas que têm tudo do antigo Império que o matou. É esta espúria aliança que a Igreja prolonga no tempo, quando hoje se refugia nos templos, evita a profecia e até persegue os profetas que dentro dela e mesmo à revelia dela procuram, como que às apalpadelas, seguir a Voz do Espírito, exactamente, como as comunidades cristãs do princípio, que não hesitavam em proclamar: “É melhor obedecer a Deus que aos homens [do poder]”.

 

É tempo de, como Igreja, arrepiarmos caminho. Teremos suficiente humildade para o fazer? Hoje, até as próprias pedras nos gritam que mudemos de rumo e nasçamos do Alto, do Espírito. Se permanecermos surdos aos seus gritos, elas cairão sobre nós e despojar-nos-ão com mais ou menos contundência. Decisivo é que, mesmo assim, voltamos a recuperar a inocência perdida e voltamos a ser, de forma actualizada, Igreja pobre e sem poder como nos começos, aquele verdadeiro sacramento que revela ao mundo o rosto sempre novo de Jesus, o mesmo que o Templo e o Império crucificaram e mataram, mas a quem Deus ressuscitou e constituiu modelo de ser humano para todos os demais seres humanos. É de Jesus que a Humanidade do terceiro milénio continua a ter fome e sede. Não da Igreja. Da Igreja, a Humanidade apenas poderá esperar que ela tenha a simplicidade e a coragem de viver todos os dias e de maneira actualizada e inculturada a prática política liberta e libertadora e universalmente inclusiva de Jesus. De modo que, quando tropeçar com ela, não seja com ela que fique, mas com Jesus, para quem ela sempre aponta, como o dedo que aponta para a lua.


2004 OUTUBRO 13

Estive presente em mais um encontro de cristãs, cristãos. Foi no passado domingo, 10 de Outubro 2004, nas instalações do CREU, dos Padres Jesuítas, no Porto. O tema-base do encontro estava formulado em forma de oportuna pergunta: “Que espiritualidade para o mundo de hoje?” Mas para que não ficássemos esterilmente a debater o sexo dos anjos, o Grupo coordenador do encontro convidava-nos a fazer duas incursões muito concretas: “espiritualidade e quotidiano”, e “espiritualidade e compromisso sócio-político”. A animar o debate, esteve como convidado Rui Manuel, um padre dominicano português que há 9 anos vive e trabalha na Nicarágua, América Central, e, por estes dias, está a terminar um período de férias no nosso país.

O dia apresentou-se muito chuvoso, quase de temporal. Mesmo assim, houve três dezenas de companheiras, companheiros – o senhor Américo, já com mais de 80 anos de idade, residente na distante Charneca da Caparica, veio de véspera ficar ao Porto, só para não perder o encontro! – que se atreveram a deixar o aconchego da casa e vieram participar, acompanhadas, acompanhados do respectivo farnel que à hora do almoço singelamente colocámos sobre a mesa comum. Comigo, aqui de Macieira da Lixa, foram apenas Irene e Maria Laura. Deolindinha era também para ir, mas sentiu-se mal de noite e não foi. Sobre a hora, teve a delicadeza de avisar por telemóvel o que se estava a passar com ela. Ninguém mais se disponibilizou para ir.

O que mais mexe comigo, em ocasiões como esta, é constatar que a “malta” mais nova se mostra alérgica a este tipo de iniciativas e a este tipo de temáticas. Creio que o fazem mais por snobismo e por preguiça, do que por profunda convicção. O Sistema está a castrar a olhos vistos os nossos jovens e elas, eles nem se apercebem. Pensam-se muito autónomos em relação às gerações mais velhas, quando, afinal, não passam de seres humanos confrangedoramente dependentes. Já nem para casar em tempo oportuno servem e a prova é que prolongam no tempo a sua permanência na casa dos pais, das mães. Invocam-se, com alguma insensatez, de ateísmo, mas nem se dão conta que são escravos de um dos piores deuses, o deus Preguiça, que os leva a apodrecer na cama até altas horas e lhes retira toda a capacidade de iniciativa política concretizada em projectos que os façam crescer em mais e mais humanidade solidária. Parecem até desconhecer que os seus ídolos preferidos que tanto admiram e aplaudem, nas áreas de certo tipo de música e do desporto profissional, particularmente, o futebol, têm que levar quase sempre uma vida de cão, se querem afirmar-se e ter sucesso. O pior é que estes nossos jovens, nem com causas, como as desse tipo de música e as desse tipo de desporto, se envolvem. Simplesmente, não querem envolver-se com nenhumas causas. São apenas consumidores. Carregam a vida como um fardo e estão sempre com cara de cansados. Será que já nasceram cansados?

Fico sempre sem jeito, quando topo com jovens assim, tão desmotivados, tão castrados. E interrogo-me: Que futuro para este presente? Evidentemente, não é aos jovens, elas e eles, que acuso. Os jovens são vítimas que nem sequer se reconhecem. O que eu acuso é o Sistema que os faz assim tão invertebrados, tão sem espinha dorsal, mais minhocas que seres humanos. Espanta-me, porém, que elas, eles não se apercebam de tudo o que de perverso o Sistema lhes está a fazer. E mais me espanta que elas, eles não se decidam a dar um murro na mesa, como quem, finalmente, rompe com o Sistema e inicia a aventura de se fazer mulher, homem vertebrado e protagonista, em tudo semelhante a Jesus de Nazaré, o Homem que, no seu tempo e país, cresceu tanto em humanidade, que acabou a enfrentar como num duelo o Sistema e, desse modo extremo, mostrou, para sempre, toda a perversidade que ele é e toda a crueldade de que ele é capaz.

Continuarei, por isso, a trabalhar para que chegue depressa o dia da insurreição dos jovens, elas e eles, contra o Sistema. Este não poderá continuar indefinidamente a enganar tanta gente ao mesmo tempo e em tantos países do mundo. Por agora, esta ainda é a hora do Sistema. Mas a hora da Verdade e da Liberdade também há-de chegar. Haja quem trabalhe com entusiasmo pelo seu advento. Por mim, quero estar na primeira linha deste combate. Por amor da Humanidade, a começar pelos que hoje são os seus membros mais novos, elas e eles. Aliás, é também para isso que tem sentido a espiritualidade. Por isso teria ficado a dançar num pé só, se os jovens que vivem em redor da Comunidade e da Associação As Formigas de Macieira tivessem avançado connosco para este encontro no Porto.

 

No decorrer do encontro, procurei estar alegremente aberto e atento ao Espírito. E não apenas às várias considerações sobre espiritualidade que o nosso amigo Rui Manuel veio partilhar gratuitamente connosco. No final do encontro, sentia-me exausto – o Espírito não se dá com preguiçosos de nenhuma espécie, nem com distraídos e dissipados – mas ao mesmo tempo feliz e cheio de festa como um menino. É sempre assim que procuro ser e estar na vida, aberto e atento ao Espírito. E foi também assim que procurei estar neste encontro sobre espiritualidade para o mundo de hoje.

À medida que Rui Manuel desenvolvia os seus pontos de vista, era sobretudo ao Espírito que eu me mantinha atento. Para ouvir o que o Espírito nos anda a querer dizer sobre espiritualidade para o nosso mundo de hoje. Nesta minha postura interior, todo eu me deixei guiar pelo Espírito que sempre sopra onde quer e como quer. As palavras de Rui Manuel tiveram entretanto o condão de despertar a minha consciência e eu comecei progressivamente a entender alguns dos traços mais marcantes daquela que deverá ser a espiritualidade para o nosso mundo de hoje. De repente, dei comigo a escrever, não propriamente o que Rui Manuel dizia, mas o que o Espírito me confidenciava, também a propósito do que Rui Manuel nos dizia. E foi isso que depois, na devida altura do encontro, me senti impulsionado a partilhar com as companheiras, os companheiros presentes, quando a palavra foi concedida a quem dela quis fazer uso.

Durante o período da manhã, não fui dos primeiros a fazê-lo. No período da tarde, sim. Usei da palavra, logo que Rui Manuel acabou de apresentar todos os seus pontos de vista sobre modos e técnicas de aprofundarmos a espiritualidade, segundo a orientação de alguns famosos mestres da dita. A minha terceira intervenção ocorreu durante a celebração eucarística final que Rui Manuel, pelos vistos, havia programado com o Grupo coordenador e à qual, depois já não quis renunciar, se bem que ainda tivesse levantado a questão de viva voz sobre se ela ainda tinha ali cabimento ou não, sobretudo, depois do que se tinha ouvido na minha segunda intervenção. Ele próprio presidiu à celebração. Fê-lo com visível simplicidade, ainda que sem se afastar muito dos esquemas tradicionais (até missal levou com ele para a mesa!) e do que manda o respectivo Ritual. Essa minha terceira intervenção aconteceu na sequência da proclamação do Evangelho e durante o período em que a assembleia foi convidada a dizer da sua justiça, em jeito de breve comentário-testemunho à Boa Notícia de Jesus acabada de escutar.

Devo confessar que, quando fui para este encontro, não contava nada ter que voltar a sujeitar-me ao ritual da missa que já abandonei há anos, precisamente quando mais comecei a crescer na Fé de Jesus. Fui para o encontro com a expectativa de que Rui Manuel nos ajudaria a criar condições para um possível encontro ao vivo com o Ressuscitado Jesus, concretamente, no acto político, não religioso, de partirmos o Pão e o Vinho em memória do Crucificado Jesus. Mas assim não aconteceu. De modo que a “missa” esteve a ponto de “comer” a Eucaristia. Acontece que, desta vez, não fui capaz de abandonar a sala onde ela decorreu, como por mais de uma vez já sucedeu noutros encontros de cristãs, cristãos. Permaneci no meu lugar na sala. Mas sem nunca sintonizar com o Ritual em curso, pelas mãos de Rui Manuel. Nesse ambiente de deserto, continuei a procurar sintonizar e a deixar-me guiar pelo Espírito. E dei comigo, a dada altura, a protagonizar comportamentos que na prática destruíam praticamente o Ritual e davam cabo da missa ali em curso. Mais em concreto: Nunca pronunciei nenhuma daquelas respostas tontas que o Ritual manda a assembleia pronunciar. Apenas verbalizei o “Pai Nosso”, mas recorri ao uso do “Tu”, em lugar do “Vós”, do Ritual. No momento do abraço da paz, senti um impulso interior que me fez sair do meu lugar e acabei por ir ter com cada uma das pessoas presentes, a começar pela primeira à minha direita –estávamos em círculo, o que facilitou este meu acto – até chegar à última, à minha esquerda. O acto, manifestamente demorado, acabou por causar algum embaraço ao andamento do Ritual. Mas eram as pessoas, cada pessoa que ali estava, que me interessavam, não o Ritual. Recebi então de cada uma das pessoas a paz que me davam. E partilhei com cada uma delas a Revolução que me anima, pois é manifesto que num mundo dominado pelo Sistema como é o nosso mundo de hoje, não pode haver paz sem revolução, melhor, a paz só o é, se for permamente revolução não-violenta, evidentemente. De outro modo, o Sistema fartar-se-á de rir com as nossas missas e com os nossos ritualizados abraços de paz!

Mas a minha subversão do Ritual e da missa não ficou por aqui. Quando, logo a seguir ao abraço da paz, o Pão começou a ser Partido para poder ser distribuído e comido, voltei inesperadamente a sair do meu lugar, tomei da cesta que o continha e fui com ela, em clima de festa e quase de dança, junto de cada companheira, cada companheiro para que o partissem e comessem. Ninguém dos presentes me disse para o fazer. Mas mais uma vez, fui incapaz de resistir ao Espírito que a isso me impeliu. Por isso mesmo é que este meu gesto foi fecundamente anti-Ritual, foi encontro densamente humano, olhos nos olhos, com pequenos diálogos descontraídos e festivos, tudo acompanhado de expressivos gestos de ternura, que me brotavam de dentro e que tinham a ver com o ser de cada pessoa em concreto à qual se dirigiam. A verdade é que só depois de tudo isto ter sucedido é que me dei conta que, na prática, havia acabado de subverter o Ritual e terei contribuído decisivamente para que a missa que nos infantiliza e mata desse lugar à Eucaristia que nos faz adultos e protagonistas. Para tanto, bastou que me comportasse como um menino que brinca com coisas ritualmente sérias e assim se liberta e nos liberta para a liberdade e para a vida em comunhão.

Surpreendentemente, ninguém se mostrou perturbado nem assanhado com estas minhas “saídas” não-programadas pelo Grupo coordenador do encontro e, por isso, totalmente inesperadas. Pelo contrário, a alegria, própria de pessoas libertas para a liberdade, rebentava progressivamente em cada rosto, mais nuns que noutros.

A concluir o encontro, cantei com a assembleia, desta vez, a pedido do Grupo coordenador, o canto “Pirâmide”, extraído do meu livro Canto(S) nas margens, com ênfase para o refrão: “Ó povo dos pobres / povo dominado / que fazes aí / com ar tão parado? / o mundo dos homens / tem que ser mudado / levanta-te, povo / não fiques parado!”. Rui Manuel que já tinha tocado e cantado para nós durante a celebração, acompanhou o canto com os acordes da sua viola. Este terá sido o clímax do encontro!

 

Mas então que espiritualidade é essa que o Espírito está a dizer às Igrejas e à Humanidade do nosso mundo de hoje e que tanto as Igrejas como a Humanidade, se tiverem ouvidos para ouvir, não deixarão de ouvir e de viver, para bem de todas, todos nós e do próprio Universo? Aqui deixo a síntese do que eu próprio ouvi e escrevi, neste encontro de cristãs, cristãos, mormente enquanto ouvia o padre Rui Manuel dissertar sobre o tema. Como já disse, são três pequenos retalhos, em forma de evangelho ou boa notícia, acerca da espiritualidade, que se complementam entre si. Partilho-os aqui pela ordem com que os ouvi e redigi no encontro, enquanto ouvia Rui Manuel. Advirto apenas que o terceiro será precedido da transcrição do extracto do Evangelho de João (7, 37-53), proclamado na celebração final e que esteve directamente na sua origem. Aliás, só assim é que ele poderá ser cabalmente entendido. Eis:

1. À medida que ouvia Rui Manuel partilhar connosco a dramática situação da Nicarágua, percebi na minha consciência que a grande pergunta sobre espiritualidade, que hoje havemos de formular deverá ser esta: Que espiritualidade havemos de viver num mundo escandalosamente marcado pela pobreza em massa? Nicarágua não é só ela. Hoje, podemos dizer que o nosso mundo é uma Nicarágua global. Quantos conjuntos de 4 milhões e meio de pessoas – o total da população da Nicarágua – não existem hoje em todos os continentes do mundo, inclusive na Europa e nos próprios Estados Unidos da América? Então que espiritualidade é que havemos de viver num mundo em que cerca de mil e 500 milhões de pessoas estão condenadas a ter que sobreviver com menos de um euro por dia? Só pode ser uma espiritualidade “em deserto”, mais do que “no deserto”. Tal como foi a espiritualidade dos grandes profetas bíblicos e sobretudo de Jesus de Nazaré.

Ao contrário do que sempre nos ensinaram as Igrejas, Jesus não passou 40 dias e 40 noites a jejuar no deserto. Com essa estória teológica, os Evangelhos Sinópticos querem dizer-nos que Jesus, durante toda a sua vida de missão – é o que significa a cifra 40 – viveu em deserto, isto é, viveu num ambiente permanentemente adverso ao seu projecto de vida e, apesar de reiteradamente tentado, jamais capitulou às tentações do Sistema. Conheceu muitas “feras” que fizeram tudo para o contrariar e desacreditar, mas também pôde contar com a cooperação de alguns “anjos” humanos, em feminino e em masculino.

Ora, como a de Jesus, também a nossa espiritualidade num mundo marcado pela pobreza em massa precisa de ser uma espiritualidade de resistência às três grandes tentações do Sistema. Ou assim, ou caímos facilmente no deísmo e na idolatria, com muita religião e muito culto, nenhuma Política, e consequentemente também nenhuma fecundidade que alimente vidas alternativas ao Sistema e faça florescer desertos humanos, inclusive os mais áridos.

Mas não basta que a nossa seja uma espiritualidade de resistência às três grandes tentações do Sistema. Ela tem que ser também uma espiritualidade ininterruptamente aberta àquele mesmo Espírito que historicamente habitou e conduziu Jesus e fez dele o Político do Reino de Deus, em alternativa à Religião oficial que os sacerdotes ininterruptamente consumavam no Templo de Jerusalém, e em oposição frontal ao Poder que os sumos sacerdotes e o imperador do Império romano possuíam, como se este lhes lhes viesse directamente do próprio Deus! Também hoje, este mesmo Espírito habita em nós e guia-nos para fazer de nós mulheres, homens políticos, não religiosos; libertadores, não prepotentes; pobres que partilham os bens produzidos por todos, não ricos que acumulam só para si e para os seus os bens produzidos por todos.

Finalmente, uma espiritualidade num mundo marcado pela pobreza em massa tem que ser, como a de Jesus de Nazaré, uma espiritualidade da maturidade humana, nos antípodas do infantilismo que não nos deixa crescer em sabedoria e em graça, até nos tornarmos filhas, filhos adultos de Deus no mundo e na História, isto é, mulheres políticas, homens políticos bem à altura das responsabilidades de co-criadoras, co-criadores com Deus, capazes, por isso, de cuidarmos responsavelmente da Terra e da vida, quase como se Deus não existisse. Trata-se, pois, duma espiritualidade bem nos antípodas da que cruelmente se promove em Fátima e em todos os mais famosos santuários do mundo erguidos em honra da grande Deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo, por isso, uma espiritualidade que, saudavelmente, faz pessoas e povos desenvolvidos, lúcidos, de olhos abertos, uma espiritualidade que promove protagonismos sociais e políticos, tanto de pessoas como de povos, numa reciprocidade cada vez mais global, sem deixar ninguém de fora.

2. Eis agora o que disse ao começo da tarde, logo após a intervenção de Rui Manuel: Se me permitirem, vou partilhar convosco, não um resumo do que Rui Manuel nos disse, no começo desta tarde, mas o eco que as suas palavras tiveram em mim e que agora mesmo acabei de escrever perante vós.

Num mundo como o nosso marcado pela pobreza em massa, acabo agora de entender ainda mais claramente que a espiritualidade, para não ser alienante, nem evasiva, tem que nascer duma pergunta que me vem de fora e me abre à outra, ao outro: “Onde está a tua irmã, o teu irmão? Que fizeste da tua irmã, do teu irmão?” Deste modo, o centro da espiritualidade não sou nunca eu. É sempre a outra, o outro que, por sua vez, me abre ao infinitamente Outro, a quem habitualmente chamamos Deus. Eu encontro-me tanto mais, quanto mais me encontro com a outra, o outro, melhor, quando mais me faço próximo e vivo de tal modo desarmado e à intempérie que o outro, a outra pode a todo o instante encontrar-se também comigo, para juntos levarmos por diante a vida e a História. Espiritualidade assim não é uma técnica! É encontro vivo de pessoas e de natureza em reciprocidade.

Há hoje por aí certas correntes que confundem espiritualidade com técnicas de espiritualidade. Por sinal, muito úteis para gente bem. E com dinheiro para a pagar. É uma espiritualidade para ricos e para enriquecer os seus promotores. Não é por aí que vai Jesus, o mestre dos mestres da espiritualidade que não aliena nem evade. Vejam como todo ele estremece de gozo, quando, segundo os Sinópticos Mateus e Lucas, os apóstolos regressam contentes da missão libertadora, ou quando, segundo o Evangelho de João, ele próprio avança com a entrega da sua própria vida pela vida do mundo: “Bendigo-te, ó Pai, senhor do céu e da terra, porque escondeste estas coisas aos sábios e aos espertalhões, e as revelaste aos pequeninos” (Mt 25-27; Lc 10, 21); “Pai, chegou a hora! Manifesta a glória do teu filho, de modo que o filho manifeste a tua glória…” (Jo 17, 1 e todo o capítulo).

Das Igrejas e das religiões do passado, vêm técnicas de espiritualidade, mais do que exemplos vivos de vidas habitadas e guiadas pelo mesmo Espírito que habitou e guiou Jesus de Nazaré: fórmulas de orações de múltiplos modos e feitios, técnicas aos montes para se fazer meditação, missas ritualizadas aos milhões cada dia, sacramentos ritualizados sem um pingo de profecia, devoções, mais que alienantes e mais que muitas. Todas essas técnicas o mais que conseguiram foi fazer escravos. Não libertaram quem as seguiu. É que todas as técnicas escravizam, sobretudo, se tomadas como um fim em si mesmas, ou se tomadas como a própria espiritualidade. As técnicas, tal como a letra da Bíblia, matam. Só o Espírito é que dá vida.

No nosso tempo, há a tentativa (tentação) de substituir as técnicas de espiritualidade do passado por outras mais actuais, sobretudo, oriundas de países orientais. Será passar duma ilusão a outra. De um engano a outro. Na verdade, as técnicas que hoje estão por aí mais na moda mais não são que um negócio que dá muitos milhões. Quem não sabe que o português que fundou a Igreja Maná deixou o banco em que trabalhava na África do Sul, para fundar a Igreja que leva este nome? E porque o fez? Porque se apercebeu que ganhava muito mais dinheiro como fundador e como bispo duma Igreja, que com o banco! E que dizer dos santuários de nomeada? Não são todos fonte de grandes receitas isentas de impostos que só os respectivos reitores controlam e mais ninguém? E que dizer também dos chamados “lugares santos” do país de Jesus e outros? O que seria do turismo sem eles? E que dizer dos famosos mestres de espiritualidade, com discípulas, discípulos um pouco por toda a parte com bastante dinheiro para gastarem em viagens e em pagamentos por cada sessão? Sabem quanto cobra, por exemplo, a filha do nosso querido Raul Solnado, por cada sessão realizada no salão de um hotel de Lisboa? Mesmo assim, não lhe faltam crentes/clientes!

Digo-vos: Tudo isto é lixo, esterco. Tudo isto é estorvo. Todas estas coisas são, para utilizar uma imagem que Rui Manuel também já usou aqui hoje, o “dedo” que aponta para a lua, mas não são a “lua”. E a “lua” (= a plenitude do humano), é o que nós sempre mais ansiamos.

Jesus nunca foi nem irá por aí. Mas em nome dele, não tem faltado quem recorra a técnicas e mais técnicas de espiritualidade. Mas não foi ele quem as inventou. Aliás, ele não nos deixou nenhuma técnica, nem sequer como fazer oração. E quando se diz que ele ensinou os discípulos a rezar, nem aí ele nos deixou uma técnica. O “Pai Nosso” não é uma técnica, nem uma fórmula, como as Igrejas o têm dito e feito, uma vez que ainda agora repetem essas palavras como os pagãos sempre gostaram de fazer com as suas fórmulas! O “Pai Nosso” é o convite maior a abrir-nos à fonte da Vida, para que a Vida nos inunde e o amor nos faça fazer uma terra de fraternidade/sororidade. Por outra palavras, é o convite maior a sermos mulheres, homens políticos. Do Jesus histórico, não vem nenhum livro, nem sequer uma linha escrita, muito menos uma regra. E naquele escandaloso diálogo teológico com os samaritanos idólatras, na pessoa duma samaritana sem nome, Jesus chega a ser chocante e demolidor para os que gostam de regras e de técnicas de espiritualidade: “Acredita em mim, mulher! Chegou a hora em que nem neste monte, nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai. […] Chega a hora – e é já – em que os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso os que o adoram devem adorá-lo em espírito e verdade” (João 4, 21-24). Está tudo dito. Nem sequer a técnica do Templo de Jerusalém ou do templo de Garizim servem para alguma coisa, no que respeita à espiritualidade!... Só é preciso recordar aqui uma coisa que salta escancarada da Fé de Jesus: Deus é espírito, mas espírito encarnado, feito carne, feito ser humano, feito mulher e homem, feito pobre (Tive fome… tive sede… estava nu, doente, preso; cf. Mateus 25, 31-46), feito a outra, o outro diferente de mim, feito imigrante, numa palavra, feito política! Sempre me salta ao caminho como um ladrão, sempre me desinstala, me desafia, me faz sair de mim para me tornar progressivamente mulher/homem-para-os-demais, exactamente como se diz que Jesus é. Eis a espiritualidade cristã jesuânica para o século XXI!

Será que queremos avançar por esta via? Ou preferimos continuar atados de pés e mãos, como se diz de Lázaro, irmão de Maria e de Marta, sepultados vivos em túmulos de pedra (as nossas casas-fortaleza com vidros à prova de bala e anti-sismos? Ou os nossos templos onde asfixiamos aos domingos? Ou os palácios episcopais como o da diocese do Porto? Ou os palácios do Vaticano? Ou a Basílica de S. Pedro em Roma com tudo de templo do paganismo?). A Revolução espiritual de Jesus materializa-se nesta palavra de ordem, vigorosamente política: “Soltai-o e deixai-o ir!”

As técnicas de espiritualidade podem ajudar, mas apenas se nos ajudam a melhor e mais eficientemente respondermos com a nossa vida à pergunta “Onde está a tua irmã, o teu irmão? Que fizeste?”, essa mesma pergunta que está na origem da verdadeira espiritualidade que nos liberta e humaniza. Se ficarmos pelas técnicas, seremos simplesmente consumidores de técnicas de espiritualidade, como outros podem ser consumidores de pornografia, de futebol, de cocaína, de café ou de outro produto qualquer do mercado.

 

3 Neste ponto, começo, como já disse, por transcrever o Evangelho que foi proclamado na celebração do encontro e que está na origem desta minha terceira intervenção no encontro.

“No último dia, o mais solene da festa, Jesus de pé bradou: «Se alguém tem sede, venha a mim; e quem crê em mim que sacie a sua sede! Como diz a Escritura, hão-de correr do seu coração rios de água viva.» Ora, ele disse isto, referindo-se ao Espírito que iam receber os que cressem nele; com efeito, ainda não tinham o Espírito, porque Jesus ainda não tinha sido glorificado. Então entre a multidão de pessoas que escutaram estas palavras, dizia-se: «Ele é realmente o profeta.» Diziam outros: «É o Messias.» Outros, porém, replicavam: «Mas pode lá ser que o Messias venha da Galileia?! Não diz a Escritura que o Messias vem da descendência de David e da cidade de Belém, donde era David?» Deste modo, estabeleceu-se um desacordo entre a multidão por sua causa.

Alguns deles queriam prendê-lo, mas ninguém lhe deitou a mão. Depois os guardas voltaram até aos sumos sacerdotes e aos fariseus, que lhes perguntaram: «Porque é que não o trouxestes?» Os guardas responderam: «Nunca homem algum falou como este homem!» Replicaram-lhes os fariseus: «Será que também vós ficastes seduzidos? Porventura creu nele algum dos chefes, ou dos fariseus? Mas essa multidão, que não conhece a Lei, é gente maldita!»

Nicodemos, aquele que antes fora ter com Jesus e que era um deles, disse-lhes: «Porventura permite a nossa Lei julgar um homem sem antes o ouvir e sem averiguar o que ele anda a fazer?» Responderam-lhe: «Também tu és galileu? Investiga e verás que da Galileia não sairá nenhum profeta.» E cada um foi para sua casa.” (Jo 7, 37-53)

Depois de ouvirmos este relato do Evangelho de João, será que conhecemos algum outro exemplo mais acabado de homem que tenha vivido a espiritualidade política até ao limite? Pois bem, Jesus é esse homem. O Homem! Vejam a controvérsia social e política que causam as suas palavras e a sua prática. O conflito sócio-político está no coração da sua vida histórica. Contra ele estão os sumos sacerdotes e os fariseus. Os intérpretes oficiais da Lei. A simpatizar com ele estão muitos do povo, mas não eram de fiar. Dão opinião, mas não se arriscam. Ficam à distância, para não se comprometerem com ele. Nem mesmo Nicodemos vai até ao fim. Prefere ficar pelo caminho. E quem é que aqui surpreendentemente se arrisca por Jesus? Precisamente, os guardas do Templo que tinham sido enviados pelos chefes para o prenderem. Fazem a mais espantosa declaração a favor de Jesus: “Nunca homem algum falou como este homem!” Ora, quando os guardas não executam as ordem dos chefes, é todo o Sistema que entra em derrocada. E derrocada é o que Jesus provoca no Sistema que o quer prender e irá matar.

Por outro lado, vejam também como fica mais do que claro aqui que Jesus não nos dá receitas, nem técnicas de espiritualidade. O que Jesus nos dá é o Espírito, resultante da sua entrega de vida pela vida do mundo. Basta-nos, pois, o Espírito. As técnicas podem até converter-se em estorvo. Podem levar-nos a parar nelas, sem jamais nos abrirmos ao Espírito. Esta postura de Jesus é tanto mais chocante, quanto ele a assume em Jerusalém, durante uma das grandes festas rituais que supostamente alimentavam a espiritualidade do povo e, para mais, no último dia, o mais solene da festa. E que diz/faz Jesus? Chama a atenção do povo para a importância do Templo, da Lei, da observância da Lei? Recomenda orações sobre orações, a reza do terço, por exemplo, ou a recitação diária dos salmos? Recomenda jejuns, penitências e coisas do género, dessas em que as pessoas supostamente espirituais costumam ser férteis, nomeadamente nos mosteiros e nos conventos? Recomenda que depositem dinheiro no tesouro do Templo, ou que ofereçam muitos e dispendiosos sacrifícios cruentos de animais sobre o altar? Nada disso. Para Jesus, tudo isso é lixo, esterco, de que não há-de ficar pedra sobre pedra. A única coisa que Jesus nos pede é que creiamos nele, ao ponto de aceitarmos ser mulheres, homens como ele, isto é, mulheres, homens habitados e guiados pelo seu Espírito. Tudo o mais virá por acréscimo. Esta é a espiritualidade que hoje havemos de viver, a espiritualidade com Espírito, a única que faz de nós mulheres/homens-fonte, em lugar de mulheres/homens-reservatório. Faz de nós mulheres/homens-para-os-demais, como se diz que Jesus de Nazaré foi até ao limite. Tudo o que não for assim, é esterco, lixo, alienação, evasão, droga. Anti-espiritualidade cristã jesuânica que, em lugar de gerar mulheres/homens-para-os-demais, faz mulheres/homens egoístas, fariseus, sempre com o nome de Deus na boca, mas com ódio e crueldade nas entranhas!

P. S. Na segunda feira, dia 11, o país conheceu o canto de sereia do primeiro ministro, dr. Pedro Santana Lopes. Em comunicação ao país, a fazer lembrar as conversas em família de Marcelo Caetano, antes de 25 de Abril 74, prometeu aumentos para a função pública, baixa de IRS e um país cor-de-rosa já ao dobrar da esquina. Se por cada mentira que diz lhe crescesse o nariz como ao Pinóquio do conto infantil, a sua cara já não cabia no estúdio da tv. Mas o mais grave é termos que concluir que ou ele mente descaradamente, ou é o ministro das finanças que nos mentiu há cerca de um mês, quando anunciou precisamente o contrário do primeiro ministro. E quem mente não pode continuar no Governo do país, a menos que a ética política seja uma batata e o país uma república das bananas.

Mais grave ainda é o PR, dr. Jorge Sampaio, ficar cinicamente a assobiar para o ar, perante este estado de coisas. Aos jornalistas, disse que tem o direito de ficar em silêncio, em relação à comunicação cor-de-rosa do primeiro ministro. Como se o silêncio não fosse cumplicidade no crime.

Por outro lado, quando lhe perguntaram o que ia fazer aos muitos milhares de euros que hoje mesmo recebeu pelo Prémio que lhe foi atribuído em Espanha (os grandes sempre se ajudam uns aos outros!...), respondeu ainda com mais cinismo que, desta vez, o dinheiro é todo para ele. E invocou uma justificação: “Isto vai mal”. “Isto” é o país e a sociedade portuguesa. E como vai mal, os pobres que se lixem, porque o que agora importa é engordar ainda mais o seu pé de meia e reforçar a herança dos seus filhos. Perante comportamentos destes, que dizer? Conta-se por aí que quando os ratos abandonam o barco, é sinal de que o barco está a ir ao fundo. Ora, quando o PR de Portugal guarda para ele o dinheiro de um prémio que lhe foi atribuído em função do cargo, e se permite nomear as instituições de caridade, mas para sublinhar que, desta vez, não pensa nelas, é sinal inequívoco que muita coisa está podre no reino da Dinamarca, isto é, em Portugal. Para nossa vergonha. E desgraça. Só falta mesmo que o PR vá a correr depositar o dinheiro do prémio nalgum banco suíço, para ter mais garantias que assim ele estará mais a salvo do que num banco em Portugal.

Pois bem, será que nem assim as portuguesas, os portugueses reagimos e damos corpo, finalmente, à indispensável Insurreição Cívica que há muito tempo se impõe no nosso país? Ou estamos à espera que estes governantes que nos envergonham nos escarrem na cara? Só falta isso!


2004 OUTUBRO 08

1. Dediquei a tarde de ontem ao ministério dos doentes. Comecei por rumar até à Casa da Comunidade, onde já me esperavam Maria Laura e Deolindinha. Irene, filha adoptiva dos meus senhorios, fez também questão de nos acompanhar e já foi comigo para baixo. Ela sabe que as tardes de 5.ª feira são destinadas a este serviço, feito em nome da Comunidade cristã de base e tem conseguido que os pais a deixem integrar o grupo. Não se pense que ela o faz sobretudo para ter uma oportunidade de sair de casa dos pais. De modo algum. Posso testemunhar que ela o faz como quem alegremente responde a uma chamada captada misteriosamente por ela. As pessoas doentes, acamadas ou não, assim como as pessoas portadoras de mais ou menos deficiência como ela, “mexem” positivamente com ela. E Irene, ao seu jeito, responde a cem por cento. Cada vez me convenço mais que as pessoas que habitualmente classificamos de deficientes são, afinal, muito mais ricas em humanidade que nós, que nos temos como pessoas “normais”. Neste particular, deficientes somos nós. Como nos sabemos pessoas mais capazes e mais dotadas, mais ágeis e mais eficientes, quase sempre, quando nos desenvolvemos, fazemo-lo para melhor podermos responder, durante a nossa vida histórica, aos apelos do Sistema dominante, sem sequer cuidar previamente se tais apelos são ou não apelos que nos merecem, se são ou não apelos que, ao serem correspondidos por nós, nos humanizam e humanizam o nosso mundo. Regra geral, desumanizam-nos e desumanizam o nosso mundo. Limitam-se a prometer-nos sucesso a vários níveis. E nós, que quase sempre confundimos desenvolvimento humano com sucesso, logo nos colocamos às suas ordens. O Sistema esfrega as mãos de contente, porque assim nunca deixa de ter com ele, como seus incondicionais servidores, exércitos de pessoas, precisamente, as mais dotadas, mais inteligentes, mais escorreitas, mais bonitas, mais desenvolvidas, mais instruídas. Há excepções, eu sei, mas estas