O meu regresso a Macieira da Lixa
Desde o dia 15 de Março de 2004, estou de novo a viver em Macieira da Lixa. Numa casinha concebida só para uma pessoa, mas totalmente independente. É uma casa alugada. Tem uma cozinha, onde eu próprio confecciono as minhas refeições (quando alguém me convida a ir comer a sua casa, faço questão de aceitar, não por preguiça em cozinhar, mas pela oportunidade que me é dada de partilhar da intimidade da respectiva família e de nos evangelizarmos ao jeito de Jesus de Nazaré, isto é, de nos despertarmos reciprocamente para o Deus que gosta de Política e não de Religião e de nos decidirmos a cooperar activamente com Ele no nosso dia a dia em acções que tornem mais belo e mais feliz o nosso mundo); tem também um quarto onde durmo; tem uma sala onde trabalho ao computador, onde estudo, leio, medito, oiço música, e onde poderei receber quem me procurar; tem um quarto de banho completo e com água quente e fria. É por isso uma casa com o indispensável para um dia a dia feito de simplicidade, como eu sempre gostei. A casa fica nas traseiras de outra, bem maior, a casa do casal José Maia e da Huguette, meus senhorios, ele paraplégico, em consequência de um acidente de trabalho em França, quando foi lá emigrante nos idos de setenta, ela francesa que se integrou perfeitamente no nosso país. Os dois vivem com a filha Irene (foi adoptada por ambos em pequenina), hoje já jovem mulher, mas com deficiência cerebral que a mantém menina por toda a vida, e que é duma vivacidade, duma alegria e duma ternura contagiantes. São todos meus amigos. Vai para dois anos, os três passaram a frequentar os encontros da Comunidade cristã de base que aqui ajudei a nascer, há uns dezasseis anos atrás e que, desde então, sempre acompanhei e apoiei gratuitamente e com regularidade. Nesta altura, estão inteiramente identificados com o Projecto Barracão de Cultura, da Associação As Formigas de Macieira. Por isso, são companheiros com quem poderei contar, a qualquer hora, assim como eles podem contar incondicionalmente comigo. A casa fica também a cerca de dez minutos a pé da casa da Comunidade, onde reside a Maria Laura, sua presbítera não-ordenada, com os dois filhos ainda solteiros. E a um pouquito mais da casa da Deolindinha Doira que, nos seus oitenta anos, ainda se apresenta cheia de vigor para a missão. Com todos estes pormenores, quero simplesmente dizer que aqui estou integrado num ambiente de afecto e de companheirismo que é muito saudável para mim.
Para vir para cá, tive que deixar a casa da Associação Padre Maximino, em S. Pedro da Cova, concelho de Gondomar, onde residi durante mais de dezassete anos. A situação estava a tornar-se insuportável para mim, dado que é uma casa grande e eu, desde há alguns anos, vivia nela sozinho, depois que a Fraternidade Grão de Trigo, constituída por mim e mais três pessoas, se dissolveu. Por outro lado, estava ultimamente a sentir que a minha presença solitária na casa-sede da Associação constituía um bloqueio às actividades da Associação. Mesmo assim, quando anunciei a minha decisão, foi um choque para as pessoas que me acompanhavam mais de perto.
Deixei a casa em S. Pedro da Cova. Não deixei nem a Associação (sou agora o presidente da Assembleia Geral), nem a direcção do Jornal Fraternizar. E conto poder acompanhar com alguma regularidade a pequena Comunidade cristã de base das quartas-feiras, quer com a minha presença física nos encontros, de tempos a tempos, quer através da assídua correspondência electrónica.
Ao regressar a Macieira da Lixa, tenho um objectivo: prosseguir a missão presbiteral de Evangelizar os pobres, abruptamente interrompida por decisão unilateral do Bispo. Mas agora em moldes completamente outros. Basta dizer que não sou mais o pároco, não tenho templo nem altar, não tenho mandato episcopal, nem nomeação episcopal e nem sequer o meu nome figura na lista de padres da Diocese do Porto, publicada pelo Anuário da Igreja Católica em Portugal. Mas assim é que estou bem. numa situação muito mais semelhante à de Jesus, que nunca foi sacerdote, não pertenceu à tribo sacerdotal, nem integrou nenhum dos grupos dirigentes que oficiavam no Templo de Jerusalém, os quais até acabaram por o condenar à morte.
Uma das razões por que me decidi por Macieira da Lixa tem a ver com o facto de ter sido o pároco daqui, no final da década de sessenta e início da década de setenta. Desde então o nome da terra colou-se para sempre ao meu nome e eu fiquei a ser mais conhecido por "Padre Mário da Lixa", ou, simplesmente, por "Padre da Lixa". É um pormenor que parece caricato, mas não é. Sempre o senti como um desafio. Na verdade, se há mais de trinta anos, me afastei deste povo e desta terra, não foi por minha vontade, mas por decisão do Bispo da Diocese do Porto da altura, D. António Ferreira Gomes. Foi ele que, depois das duas prisões que sofri às mãos da PIDE e dos dois julgamentos no Tribunal Plenário do Porto, decidiu contra a minha vontade e contra a vontade da maioria da população de Macieira da Lixa, tirar-me da paróquia. Na altura, nem sequer me passou pela cabeça rebelar-me contra essa decisão autocrática, educado que fui no seminário à obediência militarista aos superiores eclesiásticos. Vi-me compulsivamente afastado deste povo, mas a verdade é que nunca mais deixei de ser o padre Mário da Lixa. Ao regressar agora, o nome por que sou mais conhecido volta a ser ainda mais verdadeiro. E só espero ser digno dele.