2007 NOVEMBRO 30
O meu amigo Carvalho da Silva e todos os outros dirigentes da CGTP e da UGT - desta vez, as duas Centrais sindicais puseram-se acordo, coisa rara, mas que se saúda, embora o acordo peque gravemente por tardio, pois chega numa altura em que o sindicalismo tradicional já foi chão que deu uvas - bem podem dizer/jurar que marcar uma greve geral da Função Pública para uma sexta-feira, hoje concretamente, não tem nada a ver com proporcionar aos trabalhadores, elas e eles, que aderirem, a oportunidade de beneficiarem de um fim de semana alargado. Obviamente, que tem. Afirmar o contrário é tentar tapar o sol com a peneira. Há, por isso, nesta decisão e nesta luta, objectivamente justa e por isso legítima, um pecado original que a desvirtua, lhe retira força, credibilidade, o indispensável apoio das populações, ao mesmo tempo que dá força ao Governo que a Greve Geral visa enfraquecer, contestar, porventura, derrubar. Porque, embora seja uma indiscutível forma concreta de luta dos trabalhadores, das trabalhadoras que estão a ser lesados nos seus direitos, não deixa de ser ao mesmo tempo um convite, um estímulo ao egoísmo que hoje descaradamente nos tenta a todas, todos, por todos os lados, também aos trabalhadores, público ou privados. Eu sei que quem está directamente envolvido na Greve Geral, como os piquetes de greve e muitos outros sindicalistas, não beneficiam desta regalia e, hoje, estão muito mais activos e ocupados do que nunca. Mas o grosso dos trabalhadores, das trabalhadoras da Função Pública que aderirem à Greve Geral, sim. O pormenor - de um pormenor se trata -pode parecer caricato, mas é substantivo. E, se quiserem perder a aposta, façam um inquérito às populações directamente afectadas por esta greve, a uma sexta-feira, e concluirão que é isto mesmo que elas retêm dela, muito mais do que o provável elevado número de adesões por parte dos trabalhadores. Ora, um militante, um revolucionário, um sindicalista, um político de esquerda nunca devem, nunca podem dar o flanco ao Inimigo. Muito menos neste início do século XXI, quando o Inimigo é todo-poderoso e global. Entre outras coisas, é o dono da totalidade dos grandes meios de informação em cada país e em todo o planeta. E com a maior das facilidades vira o bico ao prego, que é como quem diz, vira a arma que é apontada à cabeça dele contra quem lha aponta. Ora, decapitar o Inimigo, geração após geração, é absolutamente essencial para que a sua Ordem Económica mundial, causa de todos os males que hoje nos afectam e afectam os povos da terra e o próprio planeta, vá ao fundo, para que, em seu lugar, ganhe corpo uma outra bem à medida dos seres humanos e dos povos, de todos sem exclusão de nenhum. E isso só se consegue, ao longo das sucessivas gerações, mas com as armas da Verdade, da Honestidade, da Entrega da própria vida, juntamente com montanhas de Ternura, de Afectos, de Abraços e de Beijos, de Alegria, numa palavra, com montanhas de Valores, os da vida, não de Interesses. Por isso, nunca com as armas do Inimigo. Porque, se enveredamos por aí, logo ele nos apanha ao dobrar da esquina e nos parte a espinha, quando mais pensávamos que estávamos à beira de o decapitar. E a luta em curso que, porventura, era mais do que justa torna-se não só estéril, mas até contraproducente. Proporciona ao Inimigo uma oportunidade mais de ele se reforçar, de se impor, de dominar. E assim, nunca decapitaremos o Inimigo, pelo contrário, reforçaremos o seu Poder no mundo. Já perceberam, certamente, que, quando falo aqui em Inimigo a decapitar, não estou a falar de pessoas concretas, porque as pessoas de carne e osso, para um militante, para um revolucionário, para um sindicalista, para um político de esquerda nunca podem ser confundidas com o Inimigo. Ainda que estejam abertamente e vergonhosamente ao serviço dele, 24 horas sobre 24 horas, continuam a ser pessoas, não são o Inimigo. São pessoas que o Inimigo conseguiu seduzir e arrastou para as suas fileiras, a troco de suculentos pratos de lentilhas (quem é que nunca experimentou essa sedução e quem é que pode dizer que está sem pecado neste combate tremendamente duélico?). São pessoas que, obviamente, traíram a Humanidade, os povos, o planeta, mas não devem, não podem nunca ser identificadas com o Inimigo, nomeadamente, quando se trata de o decapitar. Porque se confundimos os campos, em lugar de lutar para decapitar o Inimigo, metemo-nos por um atalho e começamos a decapitar as pessoas que ele seduziu e arrebanhou, quando deveríamos resgatá-las e reabilitá-las com o nosso afecto e a nossa dedicação totalmente desinteressada. E o sangue que derramaremos, se formos por aí, será mais do que toda a água dos rios e do mar, porque quem é que, das pessoas e dos povos, pode dizer qure está totalmente livre deste pecado? E, com isso, só daríamos força ao Inimigo, pois a satisfação dele é ver que até os que o combatem recorrem aos seus métodos, às suas armas, utilizam os mesmos meios que ele. Esse seria, é o êxito maior do Inimigo. Aliás, é assim que ele facilmente se perpetua, de geração em geração, porque os que o combatem acabam a proceder como ele, a ser também parte dele. A Greve Geral de hoje não está isenta deste pecado. Se calhar, nenhuma das que se têm feito e se continuarão a fazer, está. Pior ainda, se esta greve (ou outra qualquer) fomenta o Egoísmo dos trabalhadores, das trabalhadoras, ao proporcionar-lhes um fim de semana alargado. Longe das populações afectadas que se verão privadas dos serviços públicos, já de si tão deficientes e mais do que atrasados e inadequados. Pode-se então dizer que é um contributo mais para, à distância, decapitar o Inimigo? Não está a contribuir, antes, para o fortalecer? Não me venham dizer que esta minha reflexão, em forma de crónica, é absurda e moralista. Não é. É teológica, e daquela Teologia que está seriamente empenhada em decapitar o Inimigo, para que as pessoas, os povos e o próprio planeta que vivemos cativos dele e alienados, humilhados por ele, sejamos resgatados, libertados, autonomizados, humanizados e sororizados/fraternizados. É uma Teologia muito pouco conhecida, muito pouco estudada, difícil de digerir e de praticar. Nem a Igreja, nas múltiplas igrejas históricas que a constituem, a conhece bem e a pratica. Muito menos a dá a conhecer ao mundo, embora ela decorra da Boa Notícia ou Evangelho que toda ela, nos diversos países e nas diversas culturas, deve anunciar aos povos e ao universo. É a Teologia de Jesus, a única que reflecte e pratica o Deus Vivo, o de Jesus. É, por isso, a única Teologia que identifica sem errar o Inimigo da Humanidade que urge decapitar e que está na origem da actual Ordem Económica Mundial intrinsecamente perversa e inumana. Esse Inimigo a decapitar é nem mais nem menos o Dinheiro, hoje o deus maior e todo-poderoso que as pessoas e os povos adoram, com que sonham, e por causa do qual se matam e se odeiam, se humilham, se aniquilam, vendem a alma, o seu próprio Eu, a sua identidade, num culto cada vez mais generalizado que acontece fora dos templos tradicionais e que dá pelo nome de Idolatria. É o Dinheiro-deus-ídolo (não estou a falar do dinheiro como uma ferramenta a que recorremos para adquirimos os bens indispensáveis ao nosso dia a dia) que hoje tem praticamente todo o mundo a seus pés, servido por Executivos altamente operacionais e cientificamente organizados. O seu poder de sedução é, parece ser infinito. Igualmente o seu poder de corrupção. Devora a alma, a identidade das pessoas. Subjuga-as. Faz delas gato-sapato. Coisas. Ao contrário do Deus Vivo, o de Jesus que é criador/promotor de vida e vida em abundância, de Liberdade e de Sororidade/Fraternidade, o deus Dinheiro é descriador de vida, é assassino e pai de Mentira, por isso, genocida e opressor. Ora, uma Greve Geral, como a de hoje, ou outras formas de luta que decidamos realizar, nestes nossos dias, têm de ter isto em conta e definirem como objectivo último a alcançar, contribuir um bocadinho mais para decapitar o Inimigo das pessoas e dos povos e do planeta, mas sem nunca esquecermos que ele também pode andar/estar alojado dentro de nós. Por isso, tudo terá de ser repensado por quem se assume como militante, revolucionário, sindicalista, político de esquerda. Sob pena de estarmos atrasados alguns séculos no tipo de lutas que travamos. Porque se quisermos ser verdadeiramente fecundos, temos de andar sempre vinte ou trinta anos à frente do que faz o Inimigo e não séculos atrás. Sob pena de, em lugar de o decapitarmos, estarmos ingenuamente a colaborar com ele, precisamente quando mais pensamos que estamos a combatê-lo. Mais do que paralisar os serviços públicos, temos que arranjar maneira de paralisar os grandes Executivos políticos do Dinheiro, em cada país e no mundo. E ganhar as pessoas concretas que os constituem para a Causa das causas que é decapitar o Inimigo que elas tão afoitamente serviam/servem. O debate teológico e político terá de ser inteligente e audaz. Martirial e duélico. Como foram os debates teológicos e políticos de Jesus com os grandes Executivos do seu tempo e país. Sem esquecer que quem tiver a audácia de entrar por aí, quem trilhar essa via, há-de estar sempre disponível para dar/perder a própria vida, o emprego, o bom nome, mas nunca disponível para tirar a vida a ninguém, seja a que pretexto for. Se crescer em cada país, na Europa e no resto do mundo um exército de pessoas e de povos assim ilustrados/iluminados com a mesma Fé de Jesus e com a sua fibra, que resistam, como ele resistiu, a todas as seduções do Inimigo (o deus Dinheiro) e só o queiram decapitar a ele, a começar em si próprias, então a Humanidade terá futuro. Na Liberdade e na Paz, na Sororidade/Fraternidade e na Alegria. Mas quem é que hoje está disponível para entrar por esta via de "porta estreita"?!
2007 NOVEMBRO 29
Foi no passado domingo. Os leigos (também as leigas, embora o Bispo Manuel Clemente não se lhes refira explicitamente) ouviram a sua homilia do princípio ao fim. E não tugiram nem mugiram, coisa por demais habitual nas assembleias litúrgicas, onde só aquele que preside tem a palavra - o bispo na catedral, e o pároco na igreja paroquial ou numa das capelas espalhadas pela paróquia, todas na sua dependência, já se vê, como se de um feudo se tratasse - e aos demais, elas e eles, dezenas, centenas ou milhares que sejam, pertence apenas ouvir com mais ou menos atenção, quase sempre com pouca ou nenhuma atenção, dado o papel deprimente e passivo, de mero ouvinte ou de mero assistente que o Ritual litúrgico, desde há séculos, lhes atribui. O Bispo Manuel Clemente, desta vez, dirigiu-se (quase) exclusivamente aos leigos, o que constitui uma novidade. Mas tratou-os, não como Igreja que são em comunhão com ele, com as demais Igrejas locais e com o Bispo de Roma, na sua qualidade e responsabilidade petrina (que tem de ser maiêutico serviço na Igreja e com a Igreja, nunca poder ou domínio sobre ela), mas como seus "colaboradores". Cito (o negrito é meu): "Caros fiéis leigos: precisamos – e ainda precisaremos mais, decerto – da vossa colaboração na vida “interna” da Igreja, para sustentar as comunidades paroquiais, que têm poucos presbíteros e diáconos ao seu serviço. Situação que se poderá agravar nos próximos anos, apesar da muita abnegação pastoral de que o nosso clero dá bastas provas. Pedimos e pediremos mais ao “Senhor da messe” muitos e santos ministros ordenados, como pedimos também vocações religiosas e de especial consagração. [Peço perdão, mas aqui não posso deixar de interromper, para perguntar ao Bispo Manuel Clemente se ele ainda continua convencido de que a culpa da falta de ministros ordenados na Igreja é de Deus. Pelo que se depreende das suas palavras, parece que Deus só se chegará à frente com novas fornadas de ministros ordenados na Igreja, se nós lhe pedirmos mais e com mais intensidade! É assim que se passam as coisas? Acha então que é com todo este cruel simplismo que se resolvem os magnos problemas com que a Igreja que somos está hoje confrontada? Mas então de que Deus é que está a falar? Se Ele só lá vai com muitos pedidos dos seus "súbditos", não é um déspota? Um tirano? Um César? Um imperador metido na sua corte imperial?! Haja modos!] Mas teremos de contar com a colaboração de muitos de vós, caríssimos leigos, nos diversos sectores da pastoral, da catequese à liturgia, da liturgia à acção caritativa." Até aqui, as palavras do Bispo na homilia da missa. Ora, manda a verdade que se diga que uma postura episcopal assim, para mais protagonizada com tanta ênfase, representa um verdadeiro desastre em termos eclesiais, de irreparáveis consequências. E porquê? Porque de modo algum suscita verdadeiros sujeitos eclesiais, o que hoje é mais do que premente em Igreja. Apenas suscita, quando muito, colaboradores atentos e reverentes do(s) bispo(s) e dos párocos, os únicos que, neste tipo de discurso, é que são Igreja. Cava, por isso, ainda mais o fosso que dura há séculos entre clero e povo, quando deveria abolir de vez esse fosso e abrir portas à Igreja-comunhão, para onde apontou, timidamente embora, o Concílio Vaticano II, por sinal, ainda sem quaisquer resultados práticos, com lágrimas o digo. Por este andar e com bispos assim nunca mais haverá Igreja-comunhão. Porque, em Igreja, a de Jesus, não há o bispo e os seus colaboradores, mulheres e homens. Há Igreja, Povo de Deus. E, dentro dela, há fiéis leigos/leigas (a esmagadora maioria), alguns bispos, presbíteros, diáconos (faltam ainda mulheres no exercício destes ministérios ordenados e, enquanto não houver, continuaremos a ser uma Igreja em estado de pecado, mais pedra de tropeço do que sacramento de salvação da Humanidade). Mas o bispo (mulher ou homem) ou o presbítero (mulher ou homem) não são mais Igreja do que os fiéis leigos/leigas. Na Igreja-comunhão, a única que tem a marca de Jesus, não pode haver pirâmide. E pirâmide é o que se viu, de forma simbolicamente gritante, nesta missa de Cristo-Rei, na sé catedral do Porto, e nas outras catedrais, por esse Portugal além, regiões autónomas incluídas. Os bispos, também o do Porto, têm de se convencer que ainda transportam nos seus genes episcopais uma concepção de Igreja nos antípodas da Comunidade de Jesus. São ainda bispos do Império romano que implodiu há muitos séculos, mas que se tem perpetuado no papa de Roma, na sua cúria e nos bispos residenciais (hoje, bastante menos, felizmente, mas ainda assim, demais, pelo menos nas vestes talares de que infantilmente eles não abdicam e nos símbolos litúrgicos a que sistematicamente recorrem nas celebrações). Pensam-se a Igreja e tratam os demais como seus colaboradores, a começar pelos próprios presbíteros e a acabar nos leigos (nas leigas, quase nunca falam, embora sejam as mulheres baptizadas quem mais frequenta as missas deles e dos párocos e que assumem quase em exclusivo, mal ou bem, mais mal do que bem, a catequese de crianças/adolescentes nas paróquias). Ora, Igreja há só uma, a de Jesus, convocada e animada/guiada pelo seu Espírito, e levada ao colo pelo nosso Abbá-Deus, Mãe/Pai de todos os seres humanos, de todos os povos, crentes e ateus em pé de igualdade, porque Ele, como o Amor-em-acção que é, e Amor gratuito e universal, não faz acepção de pessoas e também não está nada preocupado em saber se frequentamos os templos e estas liturgias rotineiras e classistas que a generalidade das paróquias e dioceses insiste em promover com pontualidade matemática. Com o que Ele está verdadeiramente preocupado é levar por diante a criação iniciada sem nós e, agora, que já acontecemos no decurso da Evolução, não pode prosseguir sem nós. E, se os que se confessam ateus, mergulhados que vivem no mundo e na História, contribuírem com as suas práticas sororais/fraternas e libertadoras para o avanço da criação ainda em curso na História, darão muito mais alegria a Deus, do que os chamados crentes que pouco mais fazem do que frequentar regularmente os templos em liturgias piramidais e discriminatórias, como esta a que presidiu, no passado domingo, o Bispo Manuel Clemente, do alto da sua catedral. São duras estas palavras, eu sei, mas são palavras necessárias. São duras, mas cheias de ternura, daquela ternura que a verdade que nos faz livres sempre transporta consigo. O Bispo Manuel Clemente e os outros Bispos residenciais têm de entender isto e têm de mudar radicalmente de postura e de discurso. Ou então constituem-se num problema eclesial mais, quando poderiam e deveriam ser importante parte da solução dos muitos problemas com que nós, Igreja, estamos hoje confrontados. E, já agora, o que terão pensado/dito/comentado de tudo o que viram e ouviram na catedral, as leigas, os leigos da Igreja do Porto que no passado domingo deixaram as suas casas e as suas famílias, para irem à missa presidida pelo Bispo Manuel Clemente? Provavelmente, nunca chegaremos a saber, porque até o semanário oficioso da Diocese, VP-Voz Portucalense, quase só divulga, semana após semana, o que diz e faz o Bispo Manuel Clemente; e da Igreja do Porto, pouco ou (quase) nada quer saber. Na missa, elas e eles nada disseram, porque a homilia foi exclusivamente do Bispo, não foi delas, deles. E nela, o Bispo Manuel Clemente nem sequer conseguiu captar e revelar o que lhes ia/vai na alma, na mente, na vida. Foi, por isso, um pesadelo, mais do que Boa Notícia, Evangelho de Deus. Crucificou ainda mais quem já vive tão crucificado, quando deveria ter estimulado e incitado a tirar da cruz os crucificados que nela estão, praticamente desde nascença. Fez a apologia da cruz, quando deveria destruí-la. Insistiu num cristianismo sacrificialista, dolorista, sado-masoquista, típico do Cristo do Império romano e dos sucessivos Impérios de turno, quando deveria ter anunciado a boa notícia que Jesus, o de Nazaré, só foi parar à Cruz que o Império fabricou para ele, porque se meteu até à medula nas Causas do Reinado de Deus, não nas causas do Reinado de César, nem tão pouco pactuou com elas. E, a esta luz, deveria ter deixado bem claro que a Igreja que hoje somos é nas Causas do Reinado de Deus que também nos devemos meter até à medula, não nas causas dos Executivos que dominam e controlam o mundo, nomeadamente, a Economia, a Política e a Religião. Todas, todos nós, os que hoje a constituímos, a começar pelos Bispos que, nestes tempos da Globalização e da idolatria do Dinheiro, só podem ser bispos mártires, testemunhas comprometidas do Reinado de Deus, a viver todos os dias, não nos palácios e nas catedrais, mas nas trincheiras, como Jesus, o de Nazaré viveu. De modo que, como ele, também possam dizer, sem faltarem à verdade: Dei-vos o exemplo, para que assim como eu fiz, façais vós também. O que não for assim, meu querido Bispo Manuel Clemente, e meus queridos Bispos da Igreja que está em Portugal, é Mentira, é Demoníaco, é Poder, é Privilégio, é Hierárquico, é Liturgice, não é de Jesus, não é Evangelho de Deus. Como tal, não muda/transforma/salva/humaniza/sororiza o mundo.
2007 NOVEMBRO 28
Como podem os nossos bispos residenciais testemunhar Jesus, o de Nazaré, se continuam a recusar fazer-se seus discípulos e a prosseguir hoje e aqui as suas causas? Se insistem em em ser sacerdotes, sumos-sacerdotes, nas respectivas dioceses, em vez de bispos ao jeito de Jesus? Se continuam a oficiar em catedrais nas quais Deus Vivo não habita, nem passa? Se nessas liturgias se comportam não como servidores da Igreja, mas como príncipes da Igreja, vestidos com todo aquele baú de roupas exóticas que vêm do Império romano e do Livro do Levítico que Jesus, na sua vida de militante do Reinado de Deus sempre ignorou e, de certo modo, até rasgou? Se o mundo onde eles se movimentam é o dos privilégios e o do Poder, hoje cada vez mais insignificante, mas que eles ainda pensam que continua a ser significante? Se presidem à respectiva Igreja local com a mesma postura de infalibilidade e de autocracia com que o papa-chefe-de-estado do Vaticano preside à Igreja universal? Se fazem das celebrações eucarísticas, perdão, das missas, ritos sem sentido e sem profecia, momentos de depressão generalizada, tristes, formalistas, coisa mais sem jeito, mesmo quando o grupo coral se apresenta bem ensaiado e canta afinado músicas de qualidade, mas de outros tempos, ou de sem Espírito - cantar por cantar - ou demasiado eruditas e totalmente desfasadas dos problemas e das inquietações das pessoas que ainda aguentam deslocar-se até àqueles locais de penumbra, de Idade Média, de esmagamento da alma (entenda-se, da identidade de cada qual) que, desde que lá entram até que de lá saem, nunca chegam a ser, a ter voz e vez, nunca se apresentam às outras e nem lhes são apresentadas, são todas anónimas, juntas mas não em relação, mera multidão sem nome e sem rosto, solitária, ainda que rodeada de muitas outras pessoas, todas igualmente solitárias? No passado domingo, 25, mandou o calendário litúrgico, não a realidade da História, muito menos, a qualidade/intensidade de vida de cada Igreja local, que a celebração fosse da Solenidade de Cristo-Rei do Universo. Como tudo aconteceu por força do calendário litúrgico que assim o determina por igual para toda a Igreja católica, lá onde quer que ela está implantada, fez-se o rito litúrgico, com mais ou menos solenidade ritual, os bispos apareceram em grande destaque sobre o resto da assembleia, como se só eles fossem Igreja e as assembleias espectadoras passivas do espectáculo que está a decorrer, mas a Jesus, o de Nazaré, ninguém o viu. E a prova mais flagrante é que, nem nesse dia, nem no dia seguinte, os órgãos de informação, fizeram qualquer notícia. A festa - de festa se tratava, no dizer eclesiástico - foi sobretudo dos bispos, uma espécie de nova entronização de cada um na respectiva diocese que assim é renovada cada ano por esta altura. Voltará igualmente a renovar-se, daqui a uns meses, na chamada semana da Páscoa, quando as cerimónias litúrgicas - liturgia cristã jesuânica é outra coisa, sem ritos, só com vidas doadas às causas da Justiça e da Verdade, numa entrega sem medo e sem calculismos, desinteressada e sororal/fraterna, capazes de transformar quem as vive/realiza e quem delas beneficia - voltarem a levar os bispos residenciais às suas igrejas-catedrais, a presidir a outros tantos ritos que têm mais de insulto ao nome e à memória subversiva e perigosa de Jesus, do que de alimento de práticas humanas pessoais e comunitárias como a dele. Como tenho dito noutras ocasiões, tudo aquilo é faz de conta. E está concebido para girar em função do bispo (ou em função do pároco, quando é na paróquia). Jesus, o de Nazaré, é sempre o grande ausente. Por duas razões, qual delas a mais determinante: 1. Porque ele próprio não suporta um culto sem profecia que o insulta e reduz a um rito e por isso não entra nesses locais de mentira e de faz-de-conta. 2. Porque - e esta é sem dúvida a razão mais determinante das duas - os bispos não querem nada com ele e, por isso, são os primeiros a querer que ele se mantenha longe dos seus domínios, das suas coutadas eclesiásticas. A sua presença seria fecundamente subversiva e conspirativa, estragaria toda aquela harmonia ritual, escandalizaria a assembleia que vai ali, não para se encontrar com ele, menos ainda para ser encontrada por ele, mas para cumprir o dever de ouvir a missa ao domingo e assim sossegar a consciência que ainda se não libertou de vez dos medos que as catequeses eclesiásticas despertaram e incutiram nos anos da sua infância e adolescência. Se repararem bem, os bispos nestas ocasiões, é que brilham nas suas vestes litúrgicas, na cátedra ou cadeira episcopal onde sentam, no altar lá em cima, inequívoco símbolo do seu poder sobre a assembleia, no báculo que ora tomam na sua mão direita, ora devolvem ao clérigo-servo que anda ali sempre por perto, exclusivamente em função deles, atento e reverente, como quem procura adivinhar-lhes a vontade para de imediato a executar, na mitra sobre a cabeça que ora lhes é colocada pelo clérigo-servo, ora lhes é retirada. Sim, eu sei (embora já não goste, desde há muitos anos, de frequentar esses locais eclesiásticos, porque, como presbítero da Igreja do Porto, prefiro frequentar as casas onde vivem as pessoas e as mesas domésticas ou dos restaurantes onde elas habitualmente se sentam e alimentam e onde Jesus sempre está, quando essas comidas são também Palavra Partilhada e com Espírito que nos levam a prosseguir, hoje e aqui, as mesmas causas dele) que os bispos, nestas solenes ocasiões litúrgicas, costumam falar de Cristo, inclusive, nas homilias que proferem do alto da sua cátedra/catedral. E as pessoas que os ouvem, pensam que eles estão a referir-se a Jesus, o de Nazaré. Puro engano. Não estão. O Cristo de que eles falam e que invocam nas fórmulas de oração que lêem directamente do Missal (não lhes brota de dentro por acção do Espírito Santo, como sempre é a Oração que Jesus fez e que o fez a ele, e que ele nos ensina) é o do Império romano e de turno, por isso, um vago e mítico Cristo sem história e sem causas, sem nenhum daqueles conflitos e duelos teológicos que lhe custaram a vida. E, se repararem ainda com mais atenção crítica - coisa de que as pessoas da Igreja manifestamente não possuem, sobretudo, quando frequentam locais eclesiásticos, onde dominam os clérigos - verão que os bispos, nestas alturas solenes, também gostam de falar da Cruz e até dos Crucifixos que, pelos vistos, todos eles desejam ver cada vez mais espalhados por toda a parte, nas cidades e nas aldeias, nas escolas e nos hospitais, nos quartéis e nas empresas, nas bermas das estradas e no interior os carros, pendentes dos pescoços das pessoas e nas portas das casas, cruzes, muitas cruzes. Mas do que eles não falam, nunca falam é do Crucificado Jesus, muito menos perguntam Porque é que os sumos-sacerdotes e demais clero da época, juntamente com os endinheirados do Sinédrio e o representante do Império romano no seu país, todos à uma, o crucificaram, quando, como testemunha o Livro dos Actos, ele passou a sua vida a fazer o bem, até ao limite e para lá do limite de dar a própria vida pela vida do mundo. Do Crucificado Jesus e do que o levou a acabar historicamente de forma tão ignominiosa e maldita não falam os bispos nas suas liturgias, demoniacamente concebidas para os promover, os entronizar no seu Poder eclesiástico, hoje, felizmente cada vez menos substantivo. E tão pouco gostam que alguém da mesma Igreja fale oportuna e inportunamente. Passam a olhá-lo de soslaio, com desconfiança, como perigoso, conspirativo; a seguir, se ele persiste nesse ministério de Evangelizar os pobres, defendem-se dele e mantêm-no à distância, ao mesmo tempo que tentam tudo para o desacreditar perante os seus súbditos; e, se nem assim resultar, não hesitam em matá-lo, de modo incruento, já se vê, que hoje é a forma mais eficaz e limpa de destruir alguém que se tornou incómodo dentro da instituição-Igreja. Procedem assim, porque desde há séculos dirigem a Igreja como príncipes, como monarcas absolutos, não como discípulos exemplares de Jesus, o qual, como testemunha o Evangelho de João, capítulo 13, lava os pés a todos os seus (= faz-se livremente servo de todos), sem excluir nenhum, nem sequer o arrogante e opositor Simão Pedro, nem Judas, de Simão Iscariotes, que o denunciou por dinheiro ao Inimigo. Mas como haveriam os bispos de ser Jesus, hoje e aqui, se eles nem dele são capazes de falar, nem tão pouco querem que alguém da Igreja fale, apenas falam e aceitam que se fale de um mítico Cristo-Rei-do-Universo, politicamente inofensivo e totalmente inócuo?!
2007 NOVEMBRO 27
O até agora desconhecido jovem Sérgio Miguel morreu esta semana ao serviço da NATO. No Afeganistão. Onde a miséria é mais do que muita. Morreu, ou foi morto? A crónica do DN de hoje reza que, no momento, integrava uma patrulha nocturna, dentro de um blindado que fazia parte duma coluna militar. A viatura blindada saiu da estrada e capotou. Um herói nacional? Um herói da NATO? O que levou este jovem português a escolher ser militar, andar de armas na mão, dentro de carros blindados, num país do fim do mundo, cujas populações estão a morrer de miséria e de doenças curáveis, um inferno vivo sem paralelo, e ao serviço da NATO? O amor ao próximo? O amor às populações sofridas do Afeganistão? O sonho de fazer um pequeno pé-de-meia e melhorar a sua vida pessoal e familiar, porventura, investir na compra duma casa, ou de um carro de marca que dê nas vistas? Afinal, o que é que anda dentro da cabeça de um jovem de 22 anos e que o leva a fazer opções como esta, de ser militar, treinar-se com armas de fogo, matar se for caso disso quem nunca havia visto antes, muito menos conhecido? Que sopro/espírito/ideologia anda por aí a circular no ar que entra dentro da cabeça de um jovem e o leva a opções destas? Que homem/mulher estamos a gerar e a dar à luz no século XXI? Que mundo estamos a construir e a alimentar? O que nos faz correr? Morreu este jovem aos 22 anos. Ao serviço da NATO. Tem honras militares no funeral do seu cadáver. E ele? O que fizeram dele? E o que é a NATO ao serviço da qual ele morreu? Quem está por trás desta organização transnacional armada até aos dentes? Os povos? Todos os povos do mundo? Ou os Executivos que dominam os povos, a pretexto de os governar? E que Executivos? A que interesses é que obedecem? Que causas defendem? A paz? Que paz? A dos Povos? A do Império? A do Dinheiro? A do Ocidente? A dos donos das transnacionais? Não será que a NATO primeiro fomenta a guerra entre facções, entre povos, entre Executivos, entre transnacionais, para depois ir a correr estabelecer a paz, com os seus carros blindados, os seus hélios, os seus aviões, os seus submarinos, as suas bombas, os seus morteiros cada vez mais refinados, os seus mísseis direccionados, e com os seus soldados na flor da idade, cheios de ilusões e de ideologia, de falsos valores e pequenas-grandes ambições, prontos a matar e a morrer, como homicidas e suicidas ao mesmo tempo? E que paz é esta assim conseguida? O que há de sério, de humano, de sororal/fraterno em tudo isto? O que é a NATO? Ao serviço de quê e de quem é que esta profissionalizada organização transnacional está? Da Humanidade? Dos povos do mundo? Não houvesse transnacionais e o Dinheiro hoje cada vez mais cientificamente organizado e ambicioso, apetrechado com todo o poder de amedrontar, dominar, explorar, roubar, matar e destruir, e haveria a NATO? Uma organização militar assim, ideologicamente orientada, pronta a defender interesses que não são os legítimos interesses de todos os povos do mundo, mas basicamente os ilegítimos interesses das transnacionais e seus Executivos políticos e empresariais, não tem tudo de Demoníaco? E, se os mais fanáticos na defesa da chamada civilização ocidental insistirem em dizer que ela tem tudo de Divino, de que Divino se trata? Não é um Divino com tudo de Demoníaco? Quando os nossos projectos não são universais, não vão ao encontro das reais necessidades dos povos, de todos os povos sem excepção, não acautelam os seus direitos, nem satisfazem as suas legítimas aspirações, não são projectos demoníacos? Promovem o Humano dos povos, ou o Inumano dos povos? Deixem-me pôr a questão ainda com mais verdade: O que tem de jesuânico a NATO, ao serviço da qual perdeu a vida este jovem de 22 anos, residente em Vila Nova de Gaia, na freguesia de Crestuma? Se o jovem Sérgio Miguel estivesse a ser educado/formado/desenvolvido como cidadão do mundo, não apenas como cidadão português/europeu/ocidental, teria aceitado ir para o Afeganistão, como militar, integrar patrulhas e colunas militares, utilizar carros blindados, andar de metralhadora de matar nas mãos, andar pelas ruas e caminhos da povoação nesses propósitos? O que o levou a cair na armadilha de ser militar armado, de integrar um exército, ir armado em missão para o Afeganistão? O que está por por fora e por dentro de nós, que nos rodeia/cerca por todos os lados, nos asfixia e nos leva a fazer opções desastradas como a que ingenuamente fez este jovem e tantos outros como ele? Quando o que nos move, nos faz correr não é o amor aos demais, ainda somos humanos? Ainda somos civilizados? Ainda somos heróis? Ainda somos povos da Terra? Ainda somos irmãs/irmãos? Ainda somos universais? Dirão alguns, muitos, que não passo de um idiota, de um sonhador, de um lunático, de um utópico, ao colocar as coisas nestes termos. Incomodam-nos assim tanto estas minhas perguntas? É preciso insultar-me, ridicularizar-me, ostracizar-me, fazer-me passar por destituído de razão e de bom senso, para que as minhas palavras sejam esterilizadas e não fecundem nas mentes dos meus concidadãos, das minhas concidadãs? Porque é que os Executivos que dominam o mundo, também os eclesiásticos, têm tanto medo de um menino desarmado, de um ser humano que opta por ser pobre, que recusa ser rico, que simplesmente quer ser irmão universal e dar-se sem reserva e sem preconceitos aos demais? Porque são eles os sábios? Porque são humanos? Porque querem o bem dos povos, de todos os povos da terra? Porque amam o planeta e o querem ver preservado? Ou, pelo contrário, não é porque, para seu mal e nosso mal, para sua vergonha e nossa vergonha, são compulsivamente mentirosos e assassinos, ainda que vestidos/disfarçados de Executivos, de peritos, de civilizados, de fato e gravata, sempre muito limpos por fora, mas cheios de podridão mental e moral por dentro? Não é porque têm interesses espúrios a defender e a expandir? Não é porque existem para matar, roubar e destruir quem lhes resiste e não vai nas suas liturgias, as sacras e as seculares, todas demoníacas? Como eu gostava que o jovem Sérgio Miguel tivesse conhecido Jesus, o de Nazaré, não o das catequeses da sua infância que as paróquias católicas ou protestantes habitualmente divulgam como uma arma mais da NATO e dos Executivos religiosos, todos ao serviço da NATO e de organizações similares. Para isso, é que essas catequeses existem e nos formatam desde crianças. Se fossem para revelar Jesus, despertar em cada menina, menino o Jesus que trazemos dentro, quando nascemos, seriam catequeses altamente subversivas e conspirativas e teriam sempre à perna a NATO, um braço qualquer da NATO, secular ou religioso, nem que fossem os homens de mão das Cúrias eclesiásticas. E, se, ao crescer, esses meninos, essas meninas persistissem na sua de serem Jesus, hoje e aqui, pobres por opção, irmãs/irmãos universais, determinados a viver desarmados e a amar/dar a vida, nunca a tirar a vida a ninguém, sob que pretexto for, muito menos, para defender os interesses do Dinheiro e das suas transnacionais de morte, poderiam um dia ir viver no Afeganistão, como o jovem Sérgio Miguel foi, mas nunca integrados na NATO, simplesmente entre o povo e com o povo, mão na mão, olhos nos olhos, coração com coração. Para que as suas populações venham a ter vida e vida em abundância. Utopia? Está nas nossas mãos realizá-la já. Em lugar de continuarmos a dar força a todas as NATO que por aí há, militarizadas e civis. Enquanto não formos mulheres/homens Jesus, o mundo continuará a ser um mundo-cão. Inumano. Para nosso mal. E para nossa vergonha! Mas então não digamos que somos racionais. Digamos que somos racionais perversos, porque usamos a inteligência para tornar ainda mais poderosa a Besta que depois nos devora e mata. Aos 22 anos de idade. Num Afeganistão qualquer, que pode ser a nossa própria casa, ou a estrada por onde corremos a velocidades suicidas e assassinas. Como loucos fugidos do hospital psiquiátrico.
2007 NOVEMBRO 26
Que eu saiba, ainda ninguém protestou, mas a publicamente anunciada intenção/decisão de Ramos Horta, o actual presidente de Timor-Leste, em escandalosa panelinha política com Xanana Gusmão, o actual primeiro-ministro - um estranho cozinhado político realizado sob a bênção da poderosa Indonésia ali tão perto e dos omnipotentes e omnipresentes bispos da Igreja católica que têm o rebanho timorense, chefes de Estado e de Governo incluídos, sob a sua astuta batuta - de apresentar a candidatura do português Durão Barroso e a Europa dos 27, a que ele preside, a prémio Nobel da paz é um insulto aos povos do mundo e à própria Paz. Semelhante intenção/decisão anunciada deveria ter recebido de imediato o repúdio das pessoas que ainda continuam a atrever-se a não viver de cócoras perante o todo-poderoso deus Dinheiro, mas a verdade é que ninguém parece ter dado conta da aleivosia e da agressão à Humanidade que ela esconde/revela. Para cúmulo, este nosso homem é o mesmo que há anos, em parceria com o bispo Ximenes Belo - o tal que, quando Timor-Leste foi de novo dizimado pelas tropas da Indonésia, mantinha escondidos nos fundos da sua casa episcopal vários tonéis de vinho de missa que davam para ele beber sozinho na dita, durante mais de cem anos - roubou escandalosamente o prémio Nobel da Paz ao seu Povo em luta pela autodeterminação e independência e teve o desplante de vir fazer este escandaloso anúncio em Portugal, nos dias em que andou por cá de visita oficial/turística, e a mendigar uns euros para o seu empobrecido e explorado Povo, maioritariamente católico, mas daquele desgraçado tipo de catolicismo português sacrificialista e humilhante que tem a sua empresa-mãe em Fátima (como é que com semelhante fé religiosa intrinsecamente idolátrica o Povo de Timor pode algum dia deixar de ser empobrecido e explorado?!). As coisas passaram-se sumariamente assim: Durão Barroso, do alto do pedestal da sua prosápia e da sua vaidade - as mesmas prosápia e vaidade que exibiu há anos, perante o mundo, aquando da Cimeira dos 3+1 (ele próprio), na Base das Lajes, a tal que decidiu iniciar de imediato a Guerra no Iraque - comunicou com trombetas ao pequeno presidente Ramos Horta que a Europa dos 27, da qual ele é o actual presidente, não por eleição directa dos europeus, obviamente, mas por decisão da maioria dos deputados dos partidos europeus com assento no Parlamento Europeu, precisamente aqueles que estão lá ao incondicional serviço do grande Capital e dos seus homicidas/genocidas interesses, irá "oferecer" a Timor-Leste um total de 63 milhões de euros (as aspas no verbo "oferecer" justificam-se, porque os Estados ricos, no caso, os Estado ricos da poderosa Europa nunca dão nada aos povos pobres, o que eles sempre fazem é empobrecê-los cada vez mais, mesmo quando mais parecem ajudá-los; e é por isso que os povos pobres são povos empobrecidos, mais do que povos pobres, simplesmente). Ora, em resposta a esta "oferta", é que o pequeno chefe de Estado de Timor-Leste e nobelado da paz, num gesto de gratidão politicamente correcto, correspondeu com a anunciada intenção/decisão de apresentar ao Comité de Estocolmo a candidatura de Durão Barroso e da "sua" Europa ao prémio Nobel da paz. Convenhamos que o prato de lentilhas de Durão Barroso e da "sua " Europa rica e poderosa é mesmo só isso, um prato de lentilhas, mas também não sejamos assim tão mesquinhos e saudemos semelhante gesto de "generosidade". Porque, afinal, a actual Europa dos milhões anda, desde há mais de 500 anos, a explorar sem dó nem piedade os povos do mundo, rouba-lhes as matérias primas que, depois de transformadas, lhas volta a vender por alto preço, bebe-lhes o sangue e o petróleo, come-lhes o ouro e a carne, e tudo em nome da civilização e do progresso. E, se depois de tanto esforço e há já tantos anos, a Europa e o seu presidente ainda anunciam ao mundo que vão disponibilizar 63 milhões de euros ao Povo de Timor-Leste, uma quantia astronómica que é capaz de gastar do pé para a mão na realização de uma ou duas daquelas muitas cimeiras que ela tem de realizar em cada ano (que digo? Nma ou duas Cimeiras? Se calhar nem para uma chega!...), é óbvio que ela merece um prémio, precisamente o prémio Nobel da paz. Foi isto mesmo que entendeu o pequeno Ramos Horta, presidente de Timor-Leste. Mostrou, assim, ser um presidente à altura do seu explorado e massacrado Povo, pois reagiu com a típica gratidão de todos os humilhados da História, mas só daqueles que, para seu mal e para nossa vergonha universal, ainda continuam, século XXI adiante, longe de chegar ao limiar da consciência crítica e fecundamente ilustrada/iluminada de Jesus, o de Nazaré, a única que, quando neles despertar, os habilitará a perceber que nunca é por essa via humilhada e de mão estendida que um Povo se torna Povo liberto para a liberdade, um Povo soberano entre os demais Povos soberanos. Perdoem-me a muita ironia que vai nestas minhas palavras, que o caso, de tão indigno e obsceno, não é para ironizar, é só para chorar, denunciar, indignar. Mas esta minha ironia ainda pode ser o instrumento que nos leve mais depressa à indignação, à cólera e à conspiração, tanto por palavras como por atitudes políticas lucidamente alternativas, que a humilhação dos Povos, hoje feita cada vez mais às claras pelo grande Capital e pelos seus Executivos mais directos e activos, sempre tem de suscitar em todas, todos nós. E se não suscita, então é porque já estamos no papo do grande Capital e somos cúmplices dos seus crimes, senão mesmo atentos e reverentes funcionários dos seus Executivos. Parte-se-me o coração pelo Povo de Timor-Leste, meu irmão. Nem o sangue das centenas de milhares de mortos derramado no seu chão e por ele bebido está a conseguir fazer dele um Povo-de-pé. Quando os líderes de um Povo em luta pela sua autodeterminação e independência, a partir de determinado momento, confundem entrega da própria vida pela vida do seu povo, com a luta pela conquista do Poder e com os privilégios que o Poder sempre garante a quem o serve, de líderes que porventura foram, passam a lobos do seu Povo. E por mais que se disfarcem de cordeiros, de presidentes da república e de governo, tudo o que pensam e fazem resume-se a cooperar com o grande Capital que está aí para matar, roubar e destruir o povo que neles ingenuamente continua a confiar e a dar-lhes o seu voto nas urnas. É a obscenidade das obscenidades. E o Hediondo dos hediondos, que esta Democracia ocidental inventada e sustentada pelo grande Capital e pelos seus sucessivos Executivos, assessorados pela Inteligência demencial e demoníaca de muitos intelectuais de corte, está aí a realizar, sem nenhuma Oposição que sabiamente lhe resista e desmascare os seus crimes. Só nas Margens, não nos centros do Poder, pode nascer a Luz/Inteligência sapiente capaz de lidar, maieuticamente, com os Povos. E é nas Margens, pelo menos, no dizer dos relatos teológicos do Novo Testamento cristão, que Jesus, o Ser Humano para os demais, um dia nasceu e continuará a nascer, noutros homens e noutras mulheres, para transformar/humanizar/fraternizar o nosso Mundo. Nasceu nas Margens e delas nunca saiu para ir ocupar o Poder e os seus palácios. Viveu toda a vida em Deserto e acabou na Cruz que o Poder/Império sempre dá a quem não o reconhece nem se prostra de joelhos diante dele. É em Jesus que eu tenho postos os olhos e o coração. E com ele, por ele e nele, nas pessoas e nos Povos, sobretudo, os mais sofridos. O que sou e tenho é para elas e para eles que vai. Nunca para os Executivos do grande Capital que, como se sabe, pelo menos, desde Jesus, também existem no interior e à frente da(s) própria(s) Igreja(s). Só os cegos por opção é que não vêem. A esta luz, e perante o comportamento político de Ramos Horta, presidente de Timor-Leste, em conluio político com Xanana Gusmão, chefe de Governo, e tudo cozinhado com a bênção e sob a batuta dos Bispos católicos, o que vai ser do seu sofrido Povo?!
2007 NOVEMBRO 24
O meu amigo Bispo Januário Torgal Ferreira - a amizade já vem dos bancos do Seminário Maior do Porto, quando ele e eu frequentávamos o curso de Teologia, ele um ano à minha frente e já então uma inteligência brilhante que surpreendia colegas e professores - acaba de ser entrevistado pela Antena 1. Li agora mesmo o essencial da entrevista na edição de hoje do JN. E gostei. Apresenta-se muito ao meu jeito. Vai directo ao assunto. Sem papas na língua. Cortante. Profético. Certeiro. Sem os habituais e hipócritas eufemismos eclesiásticos. Pão, pão, queijo, queijo. Como sempre deverá ser entre humanos, mais ainda na Igreja. "Que o vosso falar - diz Jesus, o Mestre - seja sim, sim e não, não". Ambiguidades, nunca. Diplomacia, nunca. Demagogia, nunca. Jogos de Poder, nunca. Isso são vícios e poucas vergonhas que praticam os hipócritas. Entre humanos, e mais ainda entre irmãs/irmãos, não pode ser, não há-de ser assim. O Bispo Januário é, desde há alguns anos, titular das Forças Armadas e da Segurança. Um ministério eclesial difícil. Martirial. Duélico. Duro. Ser Bispo consequente em semelhante contexto, pode custar-lhe a vida. Porque o Evangelho, por que ele, enquanto bispo, é o primeiro responsável nesse universo muito concreto, não é castrense. Nunca foi. Nunca será. Castrense não casa, nunca casará com sororidade/fraternidade universal. Já viram um exército de homens armados até aos dentes, por terra, mar e ar, entrar pelo Iraque além e dizer aos iraquianos assustados e mortos de medo: Aqui estamos como vossos irmãos!? Pode haver sororidade/fraternidade lá onde há Poder, e Poder armado até aos dentes? O Poder, todo o Poder, mais os seus executivos, não vêm senão para matar, roubar e destruir, mesmo quando dizem que vêm para proteger e defender. Quem se atreve a dizer o contrário, sem faltar à verdade do Evangelho?! Eu sei que não tem sido fácil ao Bispo Januário o seu ministério de Homem do Evangelho de Jesus entre as Forças Armadas. As armas nunca são para abençoar pela Igreja de Jesus, a pretexto nenhum. Sempre são para destruir/transformar em arados, assim dizia já o velho Profeta Isaías, quando os tempos eram agrários. Ou - poderão/deverão dizer os profetas de hoje, nestes tempos da Globalização - em casas e em empresas que garantam trabalho com Justiça e Direitos a todos os que nelas trabalham, bem como a todos os povos deste nosso mundo-aldeia-global. Sei que o Bispo Januário tem feito o possível e o impossível para levar a carta, o Evangelho de Jesus, a Garcia, ao mundo castrense. Mas o mundo castrense, entre o qual ele é o Bispo, continua aí. De pé. De pedra e cal. Cada vez mais armado, que os tempos vão difíceis e inseguros e a tentação é apostar no Poder armado sofisticado, quando a solução seria progredir nas vias da Justiça e do respeito dos Direitos Humanos em todo o mundo, independentemente das fronteiras, sempre artificiais. E esta realidade será sem dúvida a sua Cruz, o seu calcanhar de Aquiles, a sua dificuldade, porventura, a sua derrota. Sei por experiência o que isso é. Nunca fui nem serei bispo. Mas sou presbítero da Igreja do Porto, como o meu amigo Bispo Januário começou por ser, um ano antes de mim. E nessa condição de presbítero da Igreja do Porto, fui obrigado em 1967 pelo então Administrador Apostólico da diocese, Florentino de Andrade e Silva, a ser capelão militar em África, mais concretamente na Guiné-Bissau, integrado no Batalhão 1912. Tinha 30 anos de idade e fui requisitado pelo Exército por expressa indicação do Bispo que estava ostensivamente "casado" com o regime de Salazar/Caetano, como de resto, a generalidades dos bispos portugueses de então. Poderia ter-me calado. Poderia ter pactuado com o crime que era a Guerra Colonial. Poderia dizer que a responsabilidade maior era dos bispos e passar a "batata quente" para eles. Poderia fazer de conta, fechar os olhos e deixar correr. Ganharia um bom pé de meia no final da comissão de dois anos. Mas não me resignei a ser, não fui, padre castrense, funcionário eclesiástico ao serviço do Regime. Fui o que ainda hoje sou, desde Agosto de 1962, presbítero da Igreja do Porto. E abri bem os olhos, os ouvidos e, depois, a boca. Vi o sofrimento do Povo africano e de toda a África. Escutei os seus gemidos e clamores. Comunguei a sua fome de Pão, de Justiça, de Liberdade, de Dignidade, de Autonomia e Independência, e a sua fome de Paz. Abri os braços desarmados. Abracei. Acolhi. Chorei. E meti-me, de corpo e alma, ali em plena África, a anunciar o Evangelho de Jesus, que é o Evangelho da Paz sempre desarmada e por isso sempre ou quase sempre crucificada. Quatro meses depois, já era expulso do Exército. Sem processo no Tribunal Militar. Para não dar uma bronca nacional e, sobretudo, internacional. E o bispo castrense da altura, António dos Reis Rodrigues, pactuou com tudo aquilo que o Exército fez e, não satisfeito com isso que era mais do que abominável, ainda se virou contra mim e sentenciou a meu respeito o que nunca ninguém antes havia dito: "Você é um padre irrecuperável". Assim mesmo. Na altura, interpretei esta sentença na chave em que ele próprio a proferiu. E fiquei branco como a cal perante semelhante injustiça e crueldade episcopal. Poderia (deveria?) ter abandonado a Igreja que, na pessoa deste bispo e seus colaboradores eclesiásticos mais directos, me apareceu pior do que uma puta, de pernas sempre abertas ao Poder mentiroso e assassino. Mas felizmente resisti a essa tentação. E hoje, todos estes anos depois, vejo que fiz bem, o melhor. E é por isso que até aquela sinistra sentença episcopal contra mim adquiriu aos meus olhos e entendimento um conteúdo novo, de profecia. Um padre irrecuperável, sim, não para a Igreja de Jesus, não para o serviço do Evangelho de Jesus, mas para o Sistema eclesiástico. Padre/presbítero na Igreja, mas sem ser do Sistema eclesiástico. O que, de resto, todos os presbíteros e bispos e fiéis leigos em geral, elas e eles, haveríamos de ser. E que o meu amigo Bispo Januário, nesta entrevista, está à beira de ser, se é que já não está a ser. Mas então, terá de ser, mais claramente ainda, Bispo nas Forças Armadas, mais do que Bispo das Forças Armadas. Para as fazer implodir. Porque onde está o Evangelho tem de estar a Sororidade/Fraternidade universal praticada. Não pode estar o Poder de Matar, Roubar, Destruir. Onde está o Evangelho exercitam-se práticas de amor solidário e sororal/fraterno a todos os povos, não se exercitam práticas de ataque e de defesa armada. Isso é do reino e da dimensão do Demoníaco que também existe em nós, os seres humanos, precisamente o nosso lado Demencial. Puxar por ele, estimulá-lo, exercitá-lo é inumano. Só o nosso lado Sapiencial deve ser estimulado, puxado, exercitado. A Igreja de Jesus, ou é perita/parteira nesta área, ou é mais do mesmo. E então melhor fora que não tivesse nascido, porque é pedra de tropeço, de escândalo para todas as vítimas do Poder, também do Poder Armado, o seu braço ideológico e sacralizador, quando todo o Poder é mentiroso e assassino. Intrinsecamente Demencial, o Demencial-organizado-em-acção, por isso, o Inimigo da Humanidade, dos povos. Mais um pouco, e o meu amigo Bispo Januário Torgal Ferreira estará ostracizado pelos seus irmãos bispos. Ou - e seria a boa notícia que o país tanto precisa de ouvir e ver praticada - terá com ele todos os outros Bispos, finalmente convertidos ao Evangelho de Jesus e ao Deus de Jesus. É esta conversão que faz falta e que Jesus começa por pedir/exigir a quem queira fazer-se sua discípula, seu discípulo: que comece por mudar de Deus, passe do Deus-ídolo, do Deus Dinheiro, do Deus Poder, para o Deus Vivo, criador de mulheres e de homens, filhas suas e filhos seus, irmãs e irmãos entre si, constituídos na Verdade que nos faz livres e protagonistas, responsáveis na História e por ela, como se Ele não existisse. A entrevista que ele deu à Antena 1, lúcida e corajosa, não pode cair em saco roto, não cairá em saco roto. É a voz de um Bispo, do Bispo Januário, titular das Forças Armadas e de Segurança. Que vai fazer o papa Bento XVI que ele fraternalmente convida a converter-se, a mudar de Deus? Que vão fazer os outros bispos portugueses que ele fraternalmente convida a converter-se, a mudar de Deus? Que vão fazer os homens e as mulheres das Forças Armadas e de Segurança com este Bispo que assim se acaba de expor ao país e à Igreja? E que vai fazer a Igreja no seu todo em Portugal? Eu sei que o Bispo Januário está preparado para ir até ao fim, até ao limite. E, por isso, digo: ou a Igreja toda se converte, muda de Deus, ou o Bispo Januário será sacrificado/crucificado/ostracizado. O que mais desejo é que a Igreja toda se converta, mude de Deus. Mas se, em vez disso, o Bispo Januário for sacrificado/crucificado/ostracizado como Jesus, é com ele que estarei na comunhão e na vida de todos os dias. Porque essa será também a única maneira de eu continuar a ser Igreja universal e, nela, presbítero da Igreja do Porto. O que não for assim, pode ser eclesiasticamente muito sonante e pomposo, mas é tudo mentira, por isso, Demoníaco/Demencial. E nesse peditório, não contem comigo!
2007 NOVEMBRO 23
E ainda dizem eles que se reúnem hoje e amanhã em Roma com o Papa Bento XVI para orar, reflectir a situação actual da Igreja e preparar o próximo futuro dela. Na verdade, os cardeais católicos espalhados pelo mundo, também o nosso José Policarpo, de Lisboa, vão sobretudo exibir-se hoje a amanhã em Roma com todas aquelas vestes trogloditas com que eles tanto gostam de se apresentar perante os demais, particularmente, no decurso de teatrais cerimónias litúrgicas de mau gosto e nenhuma profecia, a que, de tempos a tempos, fazem questão de presidir, quando, em seu entender, a solenidade do calendário eclesiástico assim o exige (uma Igreja católica sem esta estúpida pirâmide hierárquica seria obviamente muito mais conforme ao Evangelho de Jesus e ao Deus de Jesus, mas já não seria mais esta Igreja católica romana que temos e que é cada vez mais olhada pelas novas gerações como instituição obsoleta e até prejudicial aos povos). Conseguem, desse modo, os cardeais lembrar/reafirmar, pela enésima vez, o seu poder e a sua vaidade perante os vulgares e anónimos cidadãos que somos todas, todos nós, seres humanos, simplesmente. Mas não só. Os cardeais também recitarão juntos com o Papa, em alguns momentos do dia, partes do Breviário em latim, a língua que nenhum dos povos do mundo hoje fala, mas que, no entender de Bento XVI continua a ser a língua que Deus melhor entende. É a isso, coisa mais sem jeito e mil vezes já por eles repetida, que eles chamam orar/oração. Confundem papaguear com orar/oração. Mas não são só os cardeais que praticam esta confusão. O mesmo fazem os demais clérigos, educados/formatados pelos seminários, hoje quase todos às moscas, e, por influência deles, a generalidade das pessoas que ainda frequentam as igrejas paroquiais e os santuários, onde os clérigos oficiam sem qualquer espécie de contraditório. E os clérigos fazem-no, não apenas uma vez de longe a longe, mas todos os dias. Várias vezes ao dia. E ao longo de toda uma vida clerical que, por isso, só pode ser estéril, aborrecida, triste, frustrada, irritada, funcionalizada, numa palavra, sem Graça e sem Verdade, o mesmo é dizer, desgraçada e mentirosa. Porque é tudo faz-de-conta, de manhã à noite. Ainda há, eu sei, pois conheço bem todo esse mundo eclesiástico, muitas generosidades individuais, por parte de muitos clérigos, mas até essas acabam perdidas, sem dar fruto de autêntica vida que, para o ser, tem de ser livre e sororal/fraterna, coisa que o Sistema eclesiástico de modo algum permite, muito menos promove, já que é estéril e esteriliza tudo o que toca. E ao que não consegue esterilizar, aborta e mata. Os meus irmãos presbíteros e bispos sabem que não exagero nestas minhas afirmações. E, se não sabem, tanto pior, porque então já estão completamente apanhados por esse mesmo Sistema eclesiástico. Felizes, por isso, os clérigos - presbíteros e bispos - que ainda reagem, resmungam, contestam, protestam, desobedecem, buscam libertar-se de todo aquele túmulo onde vivem como Lázaros mortos, atados de mãos e pés. Aos cardeais já existentes na Igreja católica espalhada pelo mundo e que, hoje e amanhã, estão presentes em Roma, vão juntar-se também outros 23, feitos de novo amanhã por este Papa. São uma fornada de peso, porque é preciso ser hábil e premiar quem dedicou toda uma vida ao serviço atento e reverente do Sistema Eclesiástico, a sua Santidade e à sua Santa Cúria romana. Aliás, o barrete e o anel cardinalícios que o Papa enfiará amanhã na cabeça e no dedo, respectivamente, destes 23 novos cardeais, que outra coisa são senão o "rebuçado" de compensação que o hábil amestrador do circo eclesiástico sempre deve dar aos que mais se distinguiram no seu submundo? (Já leram o livro A SANTA ALIANÇA, editado pela Campo das Letras, do Porto? Então leiam e tirem as vossas conclusões). Porém, o mais pungente é que tudo isto acontece, está a acontecer, na antevéspera e na véspera do último domingo de Novembro, o dia em que a nossa Igreja Católica celebra o que, indevidamente, chama de "Solenidade de Cristo-Rei". Não julguem que é inocente esta designação. Nada no mundo do Poder absoluto e sagrado do Papa e da sua Cúria romana é inocente. O Poder não dorme em serviço e manipula as palavras e os símbolos com toda a perícia. Quem ainda pensa que a Treva é estúpida é um pobre ingénuo. A Treva congrega à volta dela e ao seu serviço a melhor Inteligência - paga-lhe bem e ela deixa-se comprar e torna-se Demente/Demoníaca e é por isso que é compulsivamente perversa e assassina, a fim de manter e reforçar a todo o custo o Poder da Besta/Treva, geração após geração, quando deveria desmascará-la e derrubá-la duma vez por todas, como fez Jesus, a Inteligência-Sabedoria, e como sempre hão-de fazer, através dos tempos e em todos os lugares do Mundo, as suas discípulas, os seus discípulos, pelo seu Mestre muito justamente chamados o sal da terra, a luz do mundo, a sentinela na cidade, o fermento na massa. Com semelhante designação - Solenidade de Cristo-Rei - a presença de tanto cardeal em Roma e a entrada oficial de mais 23 no circo eclesiástico romano, não só não destoa, como até contribuirá decisivamente para a anunciada solenidade. Tanto cardeal, tanto vermelho, tanto barrete, tanto anel, tanta vaidade são bem a corte que o mítico Cristo-Rei precisa para impressionar os respectivos súbditos. Hoje, século XXI, toda esta manifestação de Poder eclesiástico já não impressiona por aí além, porque, felizmente, os povos estão a tornar-se mais seculares e, por isso, mais autónomos em relação ao clero, alto e baixo e médio, e à Igreja que eles ainda pensam que são. Mas a verdade é que no passado a manipulação destes símbolos teve efeitos de sucessivas catástrofes sociais e humanas. Os povos nunca o chegaram a ser. Eram meros súbditos, vestidos e alimentados de medo. Geração após geração. Vejam bem o Demoníaco que são toda esta pompa e circunstância cardinalícia e toda esta Solenidade de Cristo-Rei assim celebrada sem profecia. Não se fala de Jesus, executado na cruz pelo Império romano como "Jesus Nazareno Rei dos Judeus", cuja memória é subversiva e perigosa. Fala-se simplesmente de Cristo. Acrescenta-se-lhe o título "Rei", numa redundância, já que Cristo significa também Rei/Ungido, e "rei do universo", coisa vaga, não histórica, não concreta, abstracta. Por isso, tudo meros conceitos sem qualquer conteúdo histórico, sem pessoas e sem povos de carne e osso. E fala-se de "Solenidade", quando, historicamente, o que aconteceu a Jesus, o de Nazaré, foi a mais hedionda crueldade que, pelos vistos, ainda hoje continua, dois mil anos depois, com estes demoníacos esvaziamentos da Boa Notícia bem concreta, de carne e osso, que é a pessoa histórica de Jesus, assim como as suas Causas em prol do Reinado de Deus, os seus combates sem armas e sem guarda-costas, os seus enfrentamentos duélicos com os dos Privilégios, que comiam e ainda hoje comem os povos em nome de Deus, da Lei e do Estado. Sobretudo, o esvaziamento da sua Espiritualidade, própria de um Homem permanentemente habitado/conduzido pelo Espírito de Deus Vivo, e ainda o esvaziamento de todas as suas controvérsias teológicas com os teólogos oficiais do Templo que mais não eram do que teólogos do deus/ídolo Dinheiro. Nada disto - que afinal é o Essencial de Jesus e do Cristianismo jesuânico - está presente aqui nesta "Solenidade de Cristo-Rei do universo". A Cúria Romana e o seu Papa-chefe-de-Estado, mai-los cardeais e os bispos-atentos/reverentes/obedientes/subservientes à Cúria e ao seu Chefe Supremo e infalível, não suportam que se lhes fale de Jesus, o de Nazaré, Crucificado pelos sumos sacerdotes e seus súbditos e pelo Império romano. Só querem o inócuo e mítico Cristo-Rei do Universo, afinal, o único que lhes convém para eles poderem prosseguir nas suas vaidades e nos seus privilégios. Felizmente, tudo isto hoje já está a cair de podre. Mas não pensem que é a libertação da Humanidade e dos povos que está então a chegar. Não é. Porque, entretanto, a Treva, ao ver que a Igreja católica romana não foi capaz de se actualizar, deixou-a entregue às suas liturgices bacocas e hoje está aí cientificamente organizada e armada como Dinheiro acumulado/concentrado, o deus todo-poderoso e único que compra tudo e todos, também a Inteligência que, assim, se torna Demência Demoníaca, em lugar de Sapiência Jesuânica. Por isso, os povos que se cuidem. Despertem. Organizem-se. Resistam. Sublevem-se Conspirem. Lutem. Enfrentem o Dinheiro acumulado/concentrado. Desmascarem-no e aos seus Executivos. Metam-se, lúcida e corajosamente, nos duelos, armados, não com as armas do Dinheiro e dos seus Executivos, mas com a couraça da Justiça, a espada da Verdade e as Práticas sororais/fraternas a todos os níveis, também o económico. Venceremos como povos. E continuaremos a ter futuro como Humanidade. Porque connosco está também e sempre o Espírito/Sopro de Jesus, o Crucificado que deu cabo da Cruz que o Império - hoje, o Dinheiro - sempre fabricou e fabrica para nela crucificar quantas, quantos se parecem com Jesus e fazem-se suas discípulas, seus discípulos, sobretudo com práticas históricas sócio-políticas iguais às dele. É por aqui, obviamente, e só por aqui que vou, que estou a procurar ir. E que bem me sinto nesta via!
2007 NOVEMBRO 22
E um grande silêncio fez-se! Na Igreja. Por parte da sua hierarquia. O que chama a atenção, por não ser habitual. Os bispos sempre falaram e multiplicam as ocasiões e os pretextos para dizer da sua justiça. Ainda que, manda a verdade que se sublinhe, o que dizem quase nunca chega a ser notícia, uma vez que são assuntos que raramente saltam fora do mundo eclesiástico. E os assuntos meramente eclesiásticos não dizem nada nem sequer à generalidade dos católicos, hoje quase todos não praticantes, muito menos aos demais cidadãos, cidadãs do país. Mas um grande silêncio fez-se. Na Igreja católica em Portugal. Por parte da sua hierarquia. E já começa a ser um silêncio ensurdecedor. Por isso, estranho. Porque, infelizmente, fora da hierarquia, a Igreja católica sempre foi, é, Igreja do silêncio. Os fiéis leigos - é assim que o Concílio Vaticano II chama aos baptizados que não chegam a ser ordenados e que, em boa teologia jesuânica, ou pelo menos, inspirada pelo Espírito de Jesus, é que são a Igreja, uma vez que a hierarquia vem directamente do Império romano, não de Jesus, nem bebe no seu Evangelho a sua inspiração - nunca chegam a falar, a ter voz, nem vez. Tanto assim que referir-se à opinião pública da Igreja é a mesma coisa que referir-se à opinião da sua hierarquia, dos bispos obviamente e, mais ao nível do campanário das paróquias, também dos párocos, ainda que estes, coitados, só são voz no seu pequeno território paroquial e, mesmo assim, quase sempre só para reproduzir o que diz a hierarquia na pessoa do Papa e, só muito depois e muito raramente também na pessoa dos bispos, particularmente daquele que preside à Igreja local em que se insere a paróquia. Um grande silêncio fez-se! Já repararam que, desde que os nossos bispos vieram da visita ad limina, onde se encontraram com o papa e ele se lhes dirigiu como se eles fossem seminaristas do antigamente, nunca mais ninguém os ouviu, nem lhes põe a vista em cima? Será que todos fizeram um pacto de silêncio? Será que ficaram tão humilhados e envergonhados com a visita ao Papa, que agora precisam de muito tempo para se refazerem? Será que estão numa espécie de retiro, a meditar como hão-de dar a volta à situação eclesiástica que, segundo os relatórios que eles próprios enviaram à Cúria Romana, é de anunciado desastre e porisso, condenada ao colapso? Será que estão - coisa mais difícil, mas quem dera! - à escuta do Espírito de Jesus e do que Ele anda a querer dizer às Igrejas, nomeadamente, a eles que deverão ser, na linguagem do Apocalipse, os seus anjos? Por mim, tomara que tão prolongado silêncio e tão inusitado desaparecimento dos bispos significasse escuta do Espírito de Jesus e, consequentemente, a conversão deles ao Evangelho de Jesus, ao Deus de Jesus. Porque sem a conversão dos bispos ao Evangelho de Jesus e ao Deus de Jesus, a Igreja católica em Portugal e no Ocidente continuará em estado de desastre e condenada ao colapso. O ritual litúrgico, concretamente, o ritual da missa, bem lhes chama "nossos pais na Fé", mas é uma mentira e até uma blasfémia, porque na Igreja-comunidade-de-Jesus não há-de haver pais - mães, ainda que vá; pais, não - apenas irmãs e irmãos. E quanto à Fé, se jesuânica - e só essa é digna dos seres humanos, porque libertadora e geradora de práticas sororais/fraternas, enquanto a Fé religiosa é Treva e humilhação/alienação dos seres humanos - a sua fonte é exclusivamente Jesus, o de Nazaré, o Crucificado pelo Poder, irmão universal de todos os povos, qualquer que seja a sua língua e cor da pele ou lugar geográfico. Fé, fora de Jesus, fora da Fé de Jesus, só humilha quem se deixa ir por ela, porque é a mesma coisa que Medo. E onde há Medo, não há Fé de Jesus. Como onde houver a Fé de Jesus não há Medo. E Medo é o que o Poder, também o poder sagrado (= hierarquia) suscita nas pessoas e nos povos. Onde ele está, sempre impede e mata a sororidade/fraternidade. Por isso, a Igreja que há-de ser comunhão de irmãs e de irmãos, animada pelo Espírito ou Sopro de Jesus e alimentada pela sua palavra feita prática sororal/fraterna, não tem pais na Fé. Tem Jesus e o seu Espírito. Pai não tem. Tem Abbá ("Pai/Mãe Nosso") que só o é de verdade, quando também é "Pão Nosso". De contrário, é um ídolo, o pior de todos, por mais que os que se dizem crentes o invoquem como Pai. Por mim, vou "torcer" para que este prolongado silêncio dos nossos bispos seja escuta do Espírito e conversão deles ao Deus de Jesus. Porque se assim suceder, a Igreja voltará a ser notícia, boa notícia, como no princípio, quando até os de fora, particularmente, os pobres reconheciam e testemunhavam com espanto e muito agrado: "Vede como eles se amam". E dela o próprio Lucas, no segundo volume do seu Evangelho, pôde escrever: "Entre eles, tudo era comum, não havia necessitados, porque tudo era repartido segundo as necessidades de cada qual". Ao mesmo tempo que a profecia constituía uma prática corrente, pois a Igreja, tal como Jesus, tinha consciência de que obedecer é só a Deus, não a César. Só aos Pobres, não aos Homens, os do Dinheiro e do Poder que hoje os fabricam em massa.
2007 NOVEMBRO 21
Não é por falta de orações e de missas que a Assembleia Anual dos Animadores Missionários dos Institutos "Ad Gentes" (uma expressão latina que quer dizer "Para os Povos"), a decorrer desde ontem e até ao próximo dia 23 no Centro Pastoral Paulo VI, e cujo tema é "Portugal, vive a Missão, rasga horizontes - Caminhada para o Congresso Missionário Nacional 2008", não vai ser um sucesso, um rotundo sucesso e, por isso, irá pôr o nosso país a viver a Missão e a rasgar horizontes. Orações e missas não faltam no programa de cada dia. O problema que se coloca - pelo menos eu coloco - é a que Deus é que se dirigem todas aquelas orações e todas aquelas missas dos participantes, elas e eles, no decurso da Assembleia. A pergunta só por si pode parecer blasfema e insultuosa. Mas é profundamente teológica e jesuânica. Por isso mais do que oportuna e justificada. Porque, como tenho dito e não me cansarei de continuar a lembrar, não basta crer em Deus e fazer orações. É preciso saber em que Deus é que cremos e a que Deus oramos. Como não basta ser ateu. É preciso saber de que Deus é que alguém se diz ateu. E nem se diga que, no caso em presença, em que os participantes são todos católicos praticantes dos ritos religiosos católicos com que habitualmente se ocupam e se perdem as paróquias e as dioceses, juntamente com os seus bispos e os seus párocos e que manifestamente já não levam a lado nenhum, nem contribuem em nada para mudar mentalidades, muito menos o mundo - esta questão nem sequer deve ser posta. Deve, e até com muito mais acuidade. Porque só o simples enunciado do programa da iniciativa já nos diz que tudo aquilo não passa de mais do mesmo, como se o mundo não tivesse mudado radicalmente e os Povos que o habitamos não estivéssemos todos a PASSAR (as maiúsculos pretendem realçar a dimensão teológica que o verbo tem, pois tem a ver com Páscoa/Passagem, a de Deus Vivo, o de Jesus, pela História, em luta duélica e martirial contra a páscoa/passagem de deus, o do Dinheiro, sem dúvida o Inimigo principal ou único de Deus Vivo e dos Povos) por aceleradas e profundas transformações que tanto poderão levar à total descriação dos seres humanos, cuja criação tem estado em curso na História, como poderão levar à plena realização dessa mesma criação. Está visto que os promotores desta iniciativa eclesiástica, tal como a generalidade dos bispos e dos párocos, ainda não acordaram para a dramaticidade do Momento histórico que os Povos e o próprio planeta hoje estamos a passar/viver. Porque não é com orações de manhã e à tarde e à noite, nem com missas mais ou menos solenizadas, que se enfrenta e desmascara a presente Ordem Mundial do Dinheiro e do seu Poder absoluto que tudo e todos controlam e submetem, até as consciências das pessoas e dos povos. Eu sei - quem é que não sabe?! - que os ritos religiosos sempre estiveram presentes no quotidiano dos povos, desde o princípio, mas - pelos frutos é que se conhece a árvore, por isso, também os ritos religiosos - só tem sido para mais e melhor nos manterem distraídos e desviados do Essencial. O Deus a que esses ritos religiosos se dirigem e invocam, não tem nada de Jesus, o de Nazaré, como tal, tem tudo de ídolo, de Inimigo de Deus Vivo e dos povos. São pura alienação. Por mais que os sacerdotes e os chefes das religiões digam solenemente o contrário, em cimeiras sempre muito mediatizadas de líderes religiosos, cada qual o mais exótico, naquelas vestes que fazem deles pavões armados de vaidade e que - nem eles o sabem - têm o mortal condão de fazer desaparecer os seres humanos que todos eles são, deveriam ser, iguais aos demais, mas que, pelos vistos, já não querem ser, tantos e tamanhos são os privilégios que usufruem. Podem tais líderes religiosos, todos à uma, desmentir-me publicamente ou em privado. Mas mentirão, todos à uma. E se, de entre eles, alguns me desmentirem com convicção pessoal, esses serão ainda mais perigosos do que os outros, porque, na sua ingenuidade e na Treva em que vivem, serão capazes de ir ao ponto de perderem a própria vida na defesa dessa sua convicção feita de mentira e, com isso, tornam-se mártires da Mentira - por isso, nos antípodas de Jesus, que é o Mártir por antonomásia, mas da Verdade - e, assim, ajudarão decisivamente, ainda por muitos séculos, a manter a Verdade que nos faria/fará pessoas e povos livres, cativa na Injustiça, concretamente, na presente Ordem Mundial do Dinheiro e do Poder absoluto e único que hoje nos domina, esmaga, formata e está aí cientificamente determinado a descriar-nos como seres humanos e como povos. Ai, pois, da Igreja, das Igrejas, se não abrimos os olhos. Se não saímos da cegueira em que nos movimentamos, desde há séculos. Se não fazemos o êxodo da Treva para a Luz. Se não mudamos corajosamente de Deus. Se não nos deixamos acolher pelo Deus Vivo, o de Jesus. Se insistimos nos ritos religiosos e nas rotinas eclesiásticas para chegarmos a Deus. Porque o Deus a que chega(re)mos por essa via é um ídolo que nos domestica, cega, aliena, desumaniza, arranca-nos as entranhas de humanidade, torna-nos Igreja, Igrejas cruéis e sádicas, mortas-vivas como Lázaro, irmão de Maria e de Marta, atadas de mãos e de pés nos templos e palácios que são outros tanto túmulos caiados cheios de podridão e que cheiram mal, a bafio, a morte, a depressão, a tristeza, a ave de mau agoiro, a cera queimada, a incenso sem afectos e sem profecia. Mas não é isto que a Igreja, as Igrejas hoje somos? Não é isto que também irá ser/está a ser a referida Assembleia Anual dos Animadores Missionários dos Institutos "Ad Gentes", cheia de tempos de oração e de missas, a decorrer estes dias no Centro Pastoral Paulo VI, e o respectivo tema "Portugal, vive a Missão, rasga horizontes"? Está visto que, por este andar, e com Igreja, Igrejas assim, nem Portugal vive a Missão, nem rasga horizontes. E, se o vier a fazer, será à revelia da Igreja, das Igrejas e, porventura, de Jesus e do Deus de Jesus. Mas então, vive a Missão do deus Dinheiro e do Poder/Império e rasga horizontes ao Dinheiro e ao Poder/Império. Que é o que, de resto, já está a fazer, sobretudo com os sucessivos Executivos políticos que ultimamente tem tido e com as respectivas Oposições à esquerda e à direita. Temos todas, todos de mudar de Deus. Até os ateus têm de o ser, mas apenas do deus Dinheiro e do deus Poder. Ou então somos todos - crentes e ateus - idólatras. E vamos ao fundo! Devorados pela Operação Descriação dos seres humanos, cientificamente programada e executada pelos Executivos do Dinheiro e do Poder/Império, vertiginosamente em curso na História. Mas não esqueçamos uma coisa absolutamente fundamental: mudar de Deus exige MUDAR DE VIDA. Enquanto permanecemos idólatras, comemos os demais. Mas quando nos tornamos praticantes jesuânicos de Deus Vivo somos todos os dias mulheres/homens-para-os-demais-e-com-os-demais. Eis.
2007 NOVEMBRO 20
Quem ontem pousou o seu olhar sobre a capa do Diário de Notícias não pôde deixar de se surpreender com a destacada fotografia - foi a manchete da edição - do bando dos quatro estadistas-assassinos e genocidas, ali postados exactamente por esta ordem, da esquerda para a direita de quem olhava: Durão Barroso, Blair, Bush, Aznar, todos do nosso Ocidente dito civilizado. Não sei o que cada pessoa terá sentido ao ver os rostos de cínica gargalhada destes quatro chefes dos Executivos dos respectivos países e de grande parte do mundo ocidental. Sei o que eu senti: vómitos, muitos vómitos. Foi como se todo o meu estômago e a minha consciência se revolvessem de nojo/indignação/cólera e, ao mesmo tempo, de piedade. Nojo/indignação/cólera, porque, quatro anos depois da Cimeira que os quatro foram realizar nas Lajes (Açores), está hoje mais do que provado - já então estava - que eles são estadistas-assassinos e genocidas. Piedade, porque, por trás de cada um destes quatro executivos, estão outros tantos seres humanos, meus irmãos, mas, para seu e nosso mal, totalmente rendidos/vendidos aos interesses do Grande Capital e ao seu Poder político, como se de um Deus se tratasse. E Deus é, mas falso, o ídolo maior do Planeta, que a generalidade de todos os executivos do mundo adora e cujas ordens assassinas executa. E como eu gostaria que todos eles e cada um vissem isso e mudassem de Deus, dessem a sua adesão ao Deus Vivo, o de Jesus, criador de seres humanos fraternos e solidários, e que tem no deus Dinheiro o seu principal, para não dizer único inimigo. Contra o qual, Ele nada pode, a não ser mostrar à Humanidade e ao Mundo - foi o que fez de uma vez por todas e de forma historicamente plena e integral em Jesus, o de Nazaré - todo o hediondo e todo o perverso que ele, o deus Dinheiro/Poder é, ao ponto de até a Ele, o Deus Vivo e Criador de seres humanos, o crucificar, e com a mesma sem-cerimónia com que diariamente crucifica os povos oprimidos e empobrecidos do planeta. Daí, a minha piedade por estes homens. Pensam-se os maiores e os melhores do mundo, e são monstros. Assassinos. Genocidas. Ecocidas. Como o pai deles, o Dinheiro/Poder. Se dúvidas houvesse, a Guerra do Iraque que eles decidiram desencadear naquela ocasião e desencadearam mesmo, poucas horas depois, aí está para o comprovar. Foi, ainda está a ser, o primeiro grande holocausto do século XXI. Com uma diferença abismal, para pior, em relação ao holocausto planeado e mandado executar por Hitler. Enquanto Hitler que planeou e mandou executar o holocausto contra os judeus, e não só, foi quase de imediato condenado por quase todo o resto do mundo, estes quatro estadistas-assassinos e genocidas do Iraque, não. Continuam aí como estadistas prestigiados e respeitados. Bush até conseguiu a reeleição como presidente dos EUA. Durão Barroso foi nomeado presidente da União Europeia. Blair movimenta-se à vontade num cargo internacional, nomeado pelos seus pares internacionais. E Aznar, a quem há uns dias atrás, o presidente Hugo Chávez chamou "fascista" - e lá tem as suas razões que os ocidentais dificilmente poderão entender - viu sua majestade, o rei de Espanha, de dedo em riste, disparar contra ele esta pergunta, como um tiro mortal dirigido aos seus ouvidos e à sua boca: "Porque não te calas?!" Era uma Cimeira dos países latino-americanos, no Chile, mas sua majestade, o rei de Espanha, herdeiro dos seus antepassados conquistadores, ladrões e assassinos dos índios que então habitavam o chão, a que hoje chamamos países independentes, mas que continuamos a tratar como colónias, e aonde continuamos a ir, via transnacionais, FMI e Banco Mundial e até ONGs, para matar, roubar e destruir, não se conteve, perante as incómodas e politicamente incorrectas - pelo menos, no dizer ocidental - intromissões do presidente da Venezuela, e dirigiu-se-lhe ditatorialmente, tal e qual como os conquistadores espanhóis e portugueses de há mais de 500 anos: "Porque não te calas?" E Hugo Chávez que se dê por satisfeito, porque sua majestade, o rei de Espanha, desta vez, não mandou que lhe cortassem de imediato a língua, como, no mínimo, teriam feito os seus antepassados conquistadores e civilizadores. Estes quatro executivos que o DN oportunamente voltou a exibir, quatro anos depois, na sua primeira página, são bem o rosto do Ocidente, que a respectiva Cristandade moldou ao longo de mais de 16 séculos. Não civilizou, como oficialmente se diz, com o cinismo que nos caracteriza e que ela nos ensinou a praticar como virtude. Moldou. Formatou. Por isso, em lugar de seres humanos, fez bestas humanas, capazes de matar, roubar e destruir, mais, infinitamente mais do que os animais da selva. Em lugar de homens/mulheres-para-os-demais, a Cristandade fez assassinos, genocidas e, mais recentemente, também ecocidas. Em lugar de seres sororais/fraternos, fez cínicos. Cruelmente cínicos. Nunca no-lo disseram, mas eu digo-lhes sem eufemismos: O Ocidente, moldado/formatado pela Cristandade, tem por pai a Mentira - o Diabo, na mítica linguagem utilizada por Jesus, o do Evangelho de João. Não crê em Deus, o de Jesus. É visceralmente idólatra. E ainda os seus chefes religiosos, hoje em franca decadência, porque o Dinheiro, de tão cientificamente organizado que está e actua, já nem precisa de sacerdotes nem de fingir que crê em Deus, pretendem que o Tratado da União Europeia que faz de Constituição, refira explicitamente no seu preâmbulo, as raízes cristãs da Europa. Cristãs, serão, mas do Cristo do Império assassino, crucificador dos povos, não do Cristo que um dia pudemos ver actuante em Jesus, o de Nazaré, e que acabou crucificado pelo Cristo do Império romano. Não nos deixemos levar pela Mentira, feita de múltiplas mentiras quotidianas, dos Executivos do Ocidente, formatado pela Cristandade, hoje, praticamente defunta. O Ocidente não é civilizado. É ídólatra. Por isso, mentiroso e assassino/genocida/ecocida. Tem a civilização do Dinheiro e do Império/Poder que manda matar, roubar e destruir, sempre que os interesses do Grande Capital estiverem em perigo e em jogo. Os seres humanos e os povos não contam para ele. Só o Dinheiro e os seus interesses. Civilizados são os povos empobrecidos e colonizados que, na sua fragilidade, ensaiam resistir-lhe e deitar a perder os seus interesses. Porque tudo o que favoreça o Grande Capital desgraça a Humanidade, os seres humanos, os povos. É óbvio que os Executivos do Ocidente não podem gostar de Hugo Chávez. E tentam tudo para o descredibilizar, derrubar, golpear, calar. Ele que se cuide, porque, nos países do Ocidente, Portugal incluído, onde hoje por sinal vai estar e ser recebido pelo Sócrates da nossa vergonha e desgraça, sempre pisará terreno minado. A qualquer momento, pode rebentar com ele. Nem que seja, com a arma do ridículo, da caricatura. Vejam que até contabilizam as horas em que ele semanalmente fala com o seu povo através das televisões, e não contabilizam as horas que eles próprios gastam todos os dias a estupidificar-nos com novelas em série, com transmissões de missas dominicais sem profecia, com futebóis de todo o tipo, mundial, europeu, nacional, regional. Poemas e tudo o que seja Cultura, é para ir ao fundo. Nunca para aparecer aos olhos e aos ouvidos dos povos, muito menos em horário nobre. Mas que outra coisa podem os povos esperar desta nossa Civilização Cristã Ocidental, perdão, desta nossa mentirosa e assassina Civilização do Grande Capital que a Cristandade Ocidental pariu/formatou/alimentou ao longo de séculos e séculos?!
2007 NOVEMBRO 19
Ontem estive muito pertinho da cidade de Chaves, uns três/quatro quilómetros. Se fosse em simples passeio, como faz a maior parte das pessoas aos domingos, aliás, muito legitimamente, teria ido visitar de novo a cidade, rever os seus monumentos, os seus jardins e as suas gentes a andar pelas ruas. E teria almoçado num dos seus muitos restaurantes, de preferência, nalguma tasquinha mais familiar, como fazem os que, como eu, não gostam de ostentações e ao distanciamento das vaidades optam pela proximidade das pessoas e dos afectos. Mas o meu amigo Ambrósio e a Lurdes, sua mulher-companheira de toda uma vida militante, à frente do Sindicato dos Têxteis, que tudo conceberam e organizaram, em comunhão com o irmão e afilhado Manuel e a Ilda, sua mulher-companheira, mais o filho Zé Maria e a São, sua mulher-companheira, levaram-me, e à Maria Laura que eles muito estimam e reconhecem, no seu ministério de presbítera não-ordenada da Comunidade cristã jesuânica de Macieira da Lixa, até à Curalha, uma pequena freguesia por onde, até há alguns anos, passou uma linha de comboio, hoje totalmente desactivada e já sem vestígios dos trilhos no chão. E não chegamos sequer a passar pela cidade de Chaves, ali tão perto. Vive na Curalha um outro irmão de Ambrósio e de Manuel, o Ilídio, juntamente com Fátima, sua mulher-companheira. Numa casinha que ambos construíram a pulso, numa parcela de terreno que foi da linha do comboio, hoje desactivada. E que ambos, lúcida e corajosamente, fizeram seu, sem mais aquelas. Na penúria do seu quotidiano de trabalhadores braçais - ele hoje até está desempregado e recebe um pequeno subsídio de desemprego - perceberam, e bem (assim percebessem também todos os povos empobrecidos do mundo e ele seria outro, muito outro) que a terra, como todos os outros bens de primeira necessidade são de quem tem necessidade dela e deles. Não de quem ilegitimamente - cruelmente! - os acumula e concentra nas suas mãos manchadas de sangue, o dos povos que, assim, são criminosamente mantidos na miséria e na pobreza extrema. E por isso meteram-se ambos a construir a sua casinha, apenas com a licença que a sua manifesta necessidade de casa lhes passou. E ali estão, há mais de vinte anos a viver, hoje já com o (re)conhecimento da autarquia local que, sabiamente, não se intromete no assunto e até tem facilitado as coisas, uma vez que assim é menos um problema de habitação que ela tem para ajudar a resolver. Outras casas já nasceram à volta desta, quase todos familiares entre si, e amigos. O conjunto faz uma bonita e surpreendente comunidade de vizinhos que chega a ser exemplar, já que todos se entreajudam e mutuamente se apoiam na defesa dos terrenos ocupados e construídos. Parte deles acabou por se juntar a nós, da parte da tarde, depois de os termos espontaneamente contactado e dado a conhecer durante a manhã. A minha ida, juntamente com a de Maria Laura, não foi por isso de turismo, nem de simples passatempo. Foi de Missão. E que Missão! O Ambrósio e a Lurdes fizeram questão de levar comida para todos, os que íamos e os que lá iríamos encontrar, sem prévio aviso, como, pelos vistos, já é costume acontecer de outras vezes que lá têm ido. Comida simples: o Pão e o Vinho, salada de tomate e alface com muita cebola, fêveras prontas a ser grelhadas nas brasas da lareira da casa de Ilídio e Fátima, e fruta variada. Maria Laura surpreendeu-nos a todos, porque fez questão de se apresentar com um bolo de chocolate, que ela própria preparou discretamente em sua casa. Foi, por isso, uma comida na companhia de Jesus e de ateus, já que, pelo menos, Ambrósio faz questão de se assumir como ateu, mas amigo de Jesus, muito mais do que muitos católicos praticantes dos ritos e das tradições eclesiásticas. Um alimento de qualidade e integral que nos deixou mais humanos e sororais/fraternos. A Palavra andou à solta todo o tempo e rimou sempre com alegria e festa. Também interpelação. O espaço era pequeno, mas o coração de cada uma, cada um era do tamanho da Humanidade. Não faltaram anedotas, algumas delas com aquele popular picante, de cunho saudavelmente erótico, que a liberdade que o Espírito de Jesus sempre faz rebentar em nós nos dá. Ri-me a bom rir. E depois de muito rir, aproveitei a deixa para Evangelizar ao meu jeito popular e sem quaisquer formalismos sempre despropositados. Concretamente, disse/declamei alguns dos textos do meu livro FARPAS, MAS COM TERNURA, que ajudaram a situar e a humanizar a conversa, também as próprias anedotas e o seu lado picante e erótico. E cantei, a concluir, o canto "Globalização", do livrinho CANTO(S) NAS MARGENS. O canto, por sinal, bastante extenso - todas, todos se associaram a mim e acabaram a cantar o coro - "Ponha aqui o seu pezinho / devagar, devagarinho / no jeito duma escritura / vamos juntos trabalhar / novo mundo edificar / de partilha e de ternura" - assim como os textos ditos/declamados podem ter funcionado como um saudável murro no estômago das pessoas que pela primeira vez me viam e ouviam ao vivo. Mas a Ternura que atravessa cada uma das Farpas e cada um dos cantos, nomeadamente do que ali cantei/declamei, não só cura as possíveis feridas abertas por elas e por eles na consciência de quem ouve, como deixa as pessoas mais libertas para a liberdade. Ora, outra coisa não faz o Evangelho de Jesus, quando é correctamente anunciado e vivido. Nos rostos das pessoas e sobretudo nos seus olhos a brilhar de luz e de alegria, mais na ternura com que estiveram durante todo o dia e no à vontade com que espontaneamente partilharam/confessaram pedaços das suas vidas, inclusive, algumas das muitas feridas que certas catequeses e práticas clericais dos seus tempos de juventude lhes causaram para sempre, vi libertação humana e muito crescimento em humanidade e protagonismo, os frutos que o Evangelho de Jesus, sempre faz acontecer, lá onde é anunciado/praticado. Nunca mais esquecerei, por exemplo, a pormenorizada confissão diante de todas, todos nós, de Fernanda, uma mulher de idade que me fez lembrar e logo cantar a Maria da Fonte e as outras mulheres do Minho do nosso grande José Afonso, "Viva as mulheres lá do Minho / mulheres de grande valor / armadas de fuso e roca / correram com o Regedor"; muito menos esquecerei o relato dos "trabalhos" e das lutas de um jovem casal, sobrinho de Ambrósio, ainda às voltas, neste momento, com a construção da sua casa nos mesmos terrenos que eram linha de comboio, quando ambos nasceram. Semelhantes frutos de libertação e de combate pela própria dignidade disseram-me inequivocamente que foi Evangelho de Jesus o que ali nos aconteceu a todas, todos. Impressionante, foi também o testemunho de vida presbiteral não-ordenado que Maria Laura deu, no final do almoço partilhado - até a mim conseguiu surpreender, apesar de já a conhecer desde os meus tempos de pároco aqui de Macieira da Lixa - e que muito contribuiu para que o dia fosse mesmo de Missão. As despedidas, ao final da tarde, foram demoradas, e feitas de abraços e de beijos, próprios de irmãs e de irmãos que se amam, de companheiras e de companheiros. Para as pessoas de Curalha, com quem partilhámos o domingo, bem se poderá dizer que o dia de ontem foi o primeiro do resto das suas vidas. E para nós, os que fomos estar com elas, numa reciprocidade que só o Espírito faz acontecer, outra coisa também não foi. Quando, à noite, já de novo na minha casinha, aonde o Manuel e a Ilda me deixaram, depois de antes terem também deixado Maria Laura na casa dela, não pude deixar de pensar, com alguma pena, quão distantes deste tipo de Missão-que-liberta-e-humaniza-o-mundo estão as paróquias católicas e os respectivos párocos, estéril e estupidamente ocupados com ritos sem vida e com formalidades sem sentido, vazios, uns e outras, de afectos e de verdade, essa mesma que nos faz livres, humanos, sororais/fraternos. E foi mergulhado numa em intensa e fecunda Eucaristia que adormeci.
2007 NOVEMBRO 17
Estranham alguns, elas e eles, e até se escandalizam comigo, quando eu digo e repito que a forma mais humana de vivermos a vida na História, nomeadamente, neste nosso século XXI, é vivermos todos os dias em permanente estado de duelo. O escândalo sobe de tom, quando depois ainda acrescento que, embora em permanente estado de duelo, havemos de viver também permanentemente desarmados e sem guarda-costas, como quem está aí inteiramente disponível para perder/dar a sua vida todos os dias pela vida, nunca para tirar a vida a ninguém, seja a que pretexto for. Quando isto digo e defendo, alguns já não só se escandalizam comigo, como também me tomam por louco varrido. E abandonam-me. Ou, se me não abandonam, pelo menos, fazem orelhas moucas ao que eu digo e tento viver todos os dias, e nunca chegam a fazer-se companheiros meus nesta via ou caminho de vida totalmente doada/partilhada, feita Pão Partido que se dá a comer e Vinho Derramado que se dá a beber. E lá tenho eu de avançar cada vez mais sozinho, em boa verdade, apenas aparentemente sozinho, porque só assim é que consigo viver todos os dias na companhia dos milhões e milhões de Ninguém que, mesmo sem quererem, têm de viver todos os dias à intempérie, roubados, espancados, assassinados, mortos antes de tempo pela fome e pela violência dos grandes ricos e dos poderosos que estão aí cientificamente organizados em Ordem Mundial e não olham a meios nem têm quaisquer escrúpulos para alcançarem os seus fins e salvaguardarem e reforçarem os seus interesses, sempre maquiavélicos, mesmo quando se apresentam sob o disfarce de benfeitores. Não há maior ingenuidade humana, por isso política, do que pensar que podemos e havemos de viver todos os dias como as flores, por exemplo. Ou como as árvores. Em estado de paz, em lugar de em estado de duelo. É porque sou a paz, que vivo em estado de duelo, permanentemente desarmado e sem guarda-costas. Uma paz que não seja/viva assim é apenas um disfarce. Uma ingenuidade. Um comodismo. Uma cumplicidade com a Perversão institucionalizada. Porque todas, todos nascemos e viemos ao mundo para darmos testemunho da verdade, a qual, como é manifesto, embora a maior parte das pessoas prefira ser cega e não ver para não ter de tomar partido, está aí permanentemente cativa na injustiça, hoje, nesta perversa Ordem mundial do Dinheiro, do Poder/Império e do Templo e, por isso, tem que ser resgatada/libertada/proclamada/praticada para, finalmente, nos fazer livres a todos - pessoas e povos - também às próprias minorias dos privilégios e aos seus executivos que, enquanto assim se mantiverem, são sempre praticantes da Mentira e assassinos. Legais, mas praticantes da Mentira e assassinos. Enquanto seres humanos que foram, haviam nascido e vindo ao mundo, como os demais, para dar testemunho da Verdade e ser paz entre e com os demais; mas, ao decidirem, em dado momento da sua vida na História, aceitar privilégios que os segregam dos demais e, sobretudo, ao aceitarem tornar-se executivos do Dinheiro, do Poder e do Templo - a perversa Trindade que tem por pai a Mentira, o Demoníaco, que é homicida desde o princípio - passaram a viver - pior, funcionar - não para fazer viver a muitos, mas para roubar, matar e destruir a muitos. Ora, num mundo assim, não há viver humano justo e politicamente correcto que não seja em permanente estado de duelo, mas também permanentemente desarmado e sem guarda-costas. Ao mesmo tempo que cuidamos dos milhões e milhões de vítimas das minorias dos privilégios e dos seus executivos, também enfrentamos com lucidez e audácia essas mesmas minorias e esses seus executivos para lhes dizermos, olhos nos olhos, que são mentirosos e assassinos, pois têm por pai a Mentira, o Demoníaco, que é assassino desde o princípio. Por isso, nunca nos hão-de ver a frequentar os seus banquetes, nem os seus cultos, nem os seus comícios, nem a incorporar as suas comitivas. Nunca estaremos disponíveis para os receber, quando se deslocam pelo país e pelo mundo, muito menos, colaboraremos com eles nos seus múltiplos organismos de Poder, por mais altos que sejam os vencimentos e as mordomias que nos ofereçam. Se pensarem um bocadinho, logo concluirão que, homem assim em plenitude foi Jesus, o de Nazaré. E, com ele, por ele e nele, haveremos de ser nós também, neste século XXI, totalmente dominado e dirigido pela perversa Ordem Mundial do Dinheiro e seus perversos Executivos. Poderemos perder a vida neste duelo. Não porque as minorias dos privilégios e os seus perversos Executivos no-la tirem, mas porque nós a damos livremente todos os dias. É também deste modo que tornamos mais humano o nosso mundo e somos verdadeira paz-em-acção. Sementes de um Futuro plenamente humano, por isso, universal e globalmente sororal/fraterno, que já é Presente no nosso quotidiano viver feito Pão Partido e Vinho Derramado pela vida do mundo. Pensemos nisto. E sejamos audazes! Como um menino, uma menina.
2007 NOVEMBRO 16
Justificar-se-á a existência duma Universidade católica ou de várias universidades católicas num qualquer país do mundo? A Igreja hierárquica e alguns leigos católicos mais afeiçoados ao Dinheiro e ao Poder, que o Dinheiro sempre garante e alimenta, entendem que sim. E por isso também no nosso país nasceu há 40 anos a Universidade católica portuguesa. Curiosamente, ou talvez dramaticamente, pelo menos, para os bispos que hoje presidem às Igrejas locais e que honestamente ainda tentam manter uma réstia de Fé cristã jesuânica (coisa difícil de conseguir, porque onde entra o Dinheiro e o Poder Jesus é expulso do coração e da mente das pessoas e só tem a Cruz para estar!), o país é, desde a criação da Universidade católica para cá, cada vez menos católico, não só ao nível das estatísticas, mas também e sobretudo ao nível das práticas dos portugueses, elas e eles. O que deveria fazer os bispos e os tais leigos católicos mais afeiçoados ao Dinheiro e ao Poder pensar sobre se a existência de universidades católicas traz vantagens para a Humanidade e para a Igreja de Jesus, ou, pelo contrário, traz desvantagens, e muitas. O facto de, desde ontem e até amanhã, estar a decorrer em Lisboa a Conferência internacional da Federação Internacional das Universidades Católicas - como vêem, a inteligência católica mais afeiçoada ao Dinheiro e ao Poder também não dorme, nem brinca em serviço e já está organizada em Federação Internacional e já promove congressos internacionais com todas as suas universidades católicas espalhadas pelo mundo - poderia levar-nos a concluir que a Igreja hierárquica e os tais leigos católicos mais afeiçoados ao Dinheiro e ao Poder estão efectivamente preocupados com esta magna questão. Puro engano. Também o tema em debate neste Congresso internacional - "A Universidade católica: desafios de ontem e de hoje. Construir o futuro" - poderá levar-nos a concluir que sim. Puro engano, também. Digo-lhes aqui com toda a frontalidade que toda esta movimentação da inteligência católica nacional e internacional passa totalmente ao lado do Evangelho e de Jesus, o de Nazaré. Como tal, só pode ter outros interesses, que não os de Jesus e os do Deus de Jesus. Ou acham que os leigos católicos mais afeiçoados ao Dinheiro e ao Poder ainda se interessam pelo Evangelho de Jesus e pelo Deus de Jesus? Com o que eles estão verdadeiramente interessados é com reforçar o seu Poder, a sua influência ideológica, os seus lugares nos centros de decisão económico-financeira e política, ao nível de cada país e do mundo globalizado. O que eles querem, também com estes Congressos internacionais das suas universidades católicas, é assegurar que as elites de amanhã - daí o tema em debate, "Construir o futuro" - sejam elites da sua inteira confiança ideológica e da confiança do Dinheiro e do Poder. Porque para isso existem as universidades católicas nos países onde conseguem implantar-se. Não é Jesus, muito menos o seu projecto de edificação na História do Reino/Reinado de Deus - libertar os oprimidos; abrir os olhos da consciência aos povos; fazer os povos crescer em sabedoria, em autonomia, em protagonismo e em graça; tirar os prisioneiros da cadeia da Alienação do Mercado e do Consumo compulsivo; acabar de vez com a pobreza no planeta e fazer dele uma casa comum com uma única mesa de muitas mesas - que mobiliza a inteligência católica da Igreja hierárquica e de alguns leigos mais afeiçoados ao Dinheiro e ao Poder e a/os leva a criar e manter universidades católicas. Para a inteligência católica, Jesus e o seu Evangelho só estorvam. Por isso, ela reduziu-o rapidamente a um mítico Deus cravado na cruz pelos nossos pecados e, desde então, não se tem cansado de fazer espalhar cruzes com a imagem de um crucificado em tudo quanto é sítio, para que os povos as vejam, venerem, reverenciem, adorem e continuem a manter-se resignados na sua condição de servos da gleba e de sofredores em desconto dos seus pecados. A inteligência católica sabe melhor do que nenhuma outra - e embora ainda não tivesse nascido a sofisticada tecnologia audiovisual que hoje nos invade e persegue por toda a parte, era já verdade que uma imagem, no caso, a cruz com um eterno crucificado nela, valia/vale mais do que mil palavras; e não se esqueça que foi também essa mesma inteligência católica, aliada ao imperador Constantino quem convocou os primeiros concílios ecuménicos da Igreja, aprovou as suas resoluções e realizou toda esta gigantesca operação de espalhar cruzes entre os povos subjugados, primeiro, pelo Império romano e, depois, quando este caiu de podre, pela Cristandade Ocidental que lhe sucedeu - que, deste modo, os povos nunca mais levantariam/levantarão a cabeça, seriam/serão sempre povos submissos, domesticados, conformadamente crucificados, e nunca o que sempre deveriam ser, povos ao jeito de Jesus, lucidamente subversivos e conspirativos, organizados e mobilizados, ressuscitados e militantes. É ainda neste ponto, próprio da idade das cavernas, que estamos como Humanidade. A inteligência católica que cria e mantém em funcionamento universidades católicas nos países do mundo, mesmo que sejam países com fraca percentagem de católicos, é perita, não em humanidade, como mentirosamente faz constar. É perita em economia capitalista neoliberal e finanças e também em combater ferozmente Jesus e o seu Evangelho libertador. Ao mesmo tempo, não deixa de estar presente e activa na política, não a Política messiânica/libertadora/emancipadora de Jesus, mas a perversa e cruel política do Dinheiro e do Poder. Adjectiva-se de "católica", e faz crer que o adjectivo tem tudo a ver com Jesus. E tem, mas só com a sua crucificação, porque a inteligência católica está totalmente na continuação da inteligência dos sumos sacerdotes, dos fariseus e dos saduceus do tempo e país de Jesus que só descansaram quando o mataram como o maldito dos malditos. De resto, é esta inteligência católica que está hoje por trás e pela frente de Fátima e de toda aquela crueldade católica que Fátima é. Ela sabe o que faz. E não se cansa. Por isso, ou as populações e os povos abrimos os olhos, ou estamos-lhes todos no papo. Como aquele pássaro que vai pelo seu próprio pé para a goela envenenada e assassina da víbora que o hipnotiza e atrai com o poder do seu Poder. Mas o que é que o Dinheiro, transformado em Deus, não é capaz de fazer? E Dinheiro e Poder é o que não faltam à inteligência católica. O que ela não tem e, pelos vistos, nunca terá, porque são outros os seus interesses, são entranhas de humanidade e de misericórdia. Por isso, por mais católica que se diga, é inteligência perversa. Tem por pai a Mentira e, como ele, é assassina desde o princípio. Seremos capazes de lhe resistir?! Por mim, nem que me crucifiquem, por ela é que não vou, nem alinho. Na Igreja, sim, mas com Jesus. Não com a inteligência católica totalmente afeiçoada ao Dinheiro e ao Poder. Poderei perder a vida neste duelo, mas não é a inteligência católica que ma tira. Sou eu que a dou. Todos os dias. Porque só a Verdade nos faz livres!
2007 NOVEMBRO 15
A pequenina Comunidade Cristã jesuânica de Macieira da Lixa voltou a estar reunida em nome e em memória de Jesus, como sempre acontece ao segundo domingo de cada mês. Foi no passado domingo, 11 de Novembro. Somos hoje um pequeno resto. Com tendência a desaparecer. Por razões inversas às que levam as igrejas paroquiais a ficar cada vez mais vazias. Nestas, são a Banalidade e a Rotina dos ritos e a total ausência de Profecia e do Espírito criador e libertador de Jesus que leva as pessoas a afastar-se. É sempre mais do mesmo. E para esse peditório, as pessoas já deram anos e anos a fio, geração após geração. Uma alienação pegada, que durou tempo demais. Ao contrário, a nossa pequenina Comunidade jesuânica corre o risco de desaparecer, mas porque cada encontro é encontro vivo com Jesus, o Crucificado/Ressuscitado. E com o seu Espírito subversivo e conspirativo que puxa por nós e quer fazer de cada uma, cada um de nós outro Jesus, agora no século XXI. Uma via exigente. De porta estreita, que nos pretende centrar no Essencial. Ora, se hoje são muito poucos os que estão verdadeiramente disponíveis para serem homem/mulher até ao fim e até ao limite e se assumirem como tal, sem olhar ao preço a pagar por isso, são muito menos ainda os que estão disponíveis para serem Jesus no século XXI e se assumirem como tal, seja qual for o preço a pagar por semelhante audácia. O problema é que a Humanidade só será Humanidade-em-estado-de-salvação, quando chegar a este patamar, a ser Humanidade jesuânica. Parece então que todas, todos nós, seres humanos, deveríamos estar empenhados nisso, com alegria e entusiasmo. Mas é o contrário. E porquê? Ninguém no-lo diz, mas a verdade é que a Ordem Mundial do Dinheiro, assessorada por executivos hoje cada vez mais poderosos e hábeis, sem escrúpulos e por isso intrinsecamente perversos e assassinos, conseguem, como nunca antes na História, seduzir e atrair às suas iniciativas os indivíduos e as multidões em massa, numa sucessão de solicitações cada vez mais velozes e compulsivas, às quais é muito difícil resistir. Sem darmos por isso, deixamo-nos levar como cegos atrelados a outros que vêem. Só que aqui, os executivos que vêem são perversos e estão apostados em levar-nos ao maior número para a o abismo, pior, estão apostados em descriar-nos como seres humanos, para fazerem de nós coisas à sua imagem e semelhança. Parece que somos nós a escolher e a decidir, quando na verdade estamos a ser levados para onde eles querem. Escolhemos o que os poderosos e luciferinos executivos do Dinheiro nos impõem como única escolha, numa obediência aparentemente ilustrada, mas que é simplesmente encandeada. Num Momento histórico assim, de total domínio do Dinheiro, servido por poderosos e luciferinos executivos, mentirosos e assassinos, (quase) não há lugar para o ser humano, homem e mulher, muito menos, para Jesus, o Ser Humano por antonomásia. Este é por isso um Momento histórico de densa Treva, como quando mataram Jesus, naquela tarde de sexta-feira, em Jerusalém. O Dinheiro, mais os seus poderosos e luciferinos executivos, freneticamente activos, estão a matar cientificamente o Homem, o ser humano, nomeadamente, o ser humano jesuânico, dons/dádivas uns para os outros, sororais/fraternos, comunhões vivas, família de famílias. É um genocídio global cientificamente programado e executado ao milímetro. Quase sempre incruento, mas genocídio. Sem que se levantem profetas e intelectuais orgânicos em número suficiente que lhes resistam e, quais sentinelas nas cidades e aldeias, nos alertem a todos, todas, para o que se está a passar. Os campos de extermínio do nazismo de Hitler estão aí de volta e em frenética acção. Agora, incruentos. E muito iluminados, para mais e melhor nos encandearem. Servem-nos a toda a hora e em toda a parte veneno por comida, droga por cultura, demagogia por poesia, diversões compulsivas por tempo livre, discotecas por ternura, prostituição por afecto, futebol altamente competitivo por desporto, novelas por literatura, shows por festa. Será que não acordamos deste sono de morte? É preciso, imperioso e urgente regressarmos a Jesus, não o mítico deus das paróquias católicas, dos pastores dizimistas e das religiões, mas Jesus, o Homem-para-os-demais até ao fim e até ao limite. É o que aqui procura fazer a pequenina Comunidade cristã jesuânica de Macieira da Lixa. Como um simples e frágil farol. Outras pequeninas comunidades cristãs jesuânicas são precisas por outras paragens. Quem está disponível para resistir ao Dinheiro e seus poderosos e luciferinos executivos e se constitui comunidade assim? Felizes os que derem esse passo. A concluir, partilho aqui o Canto que escutei e levei para o nosso último encontro. Pode ser cantado com a conhecida música de José Afonso, "A formiga no carreiro". Titulei-o MUDEM DE DEUS! Do deus Dinheiro que nos descria como seres humanos para o Deus Vivo, o de Jesus, que nos faz outros Jesus, agora à século XXI. Eis:
MUDEM DE DEUS!
1. Quem se deixa conduzir
Pelo Sopro de Jesus
Vive feliz, vive feliz
Nem que passe pela Cruz
Coro
Desce, desce até às margens
Desce, desce até às margens
Numa entrega sem paragens
Numa entrega sem paragens.
E do meio dos mais pobres
Dirige-se à Humanidade
Mudem de Deus! Mudem de Deus!
Vivam a Fraternidade.
2. Quem recusa ser escravo
Do Poder e do Dinheiro
Vive feliz, vive feliz
É de todos companheiro
Coro
3. Quem partilha os seus bens
Com as Causas da Cultura
Vive feliz, vive feliz
É uma fonte de Ternura
Coro
4. Quem faz do seu corpo Pão
E da sua vida Vinho
Vive feliz, vive feliz
Em vez de Casa, é Caminho
Coro
5. Quem a perde todos os dias
É que ganha a sua vida
Vive feliz, vive feliz
Em vez de Droga é Comida
Coro
6. Quem é Paz e é Verdade
É também Revolução
Vive feliz, vive feliz
Em vez de Gelo é Vulcão
Coro
7. Quem faz da vida um duelo
Contra as causas da Pobreza
Vive feliz, vive feliz
Mais que Vida é Beleza.
Coro
2007 NOVEMBRO 14
O meu amigo Pe. Anselmo Borges acaba de confessar publicamente na sua crónica semanal do Diário de Notícias do dia 10 de Novembro último que foi visitar a nova basílica de Fátima, essa tal que custou 80 milhões de euros, pagos a pronto, e diz-se maravilhado com toda aquela beleza que, pelos vistos, lá foi encontrar. Perante tanta e tamanha beleza, confessa igualmente que quase lhes perdoa os 80 milhões que a obra custou. O pronome "lhes" que consta no título da crónica, está obviamente em vez de determinados nomes. É legítimo pensar, entre outros, nos nomes do reitor do santuário e no bispo de Leiria-Fátima que, ao tempo da concepção/aprovação do projecto, consentiu naquela faraónica construção. O meu amigo parece, assim, aceitar, sem mais aquelas, a informação do reitor, no tocante à proveniência dos 80 milhões e até acrescenta que os peregrinos que contribuíram para a construção de tão gigantesco santuário, mereciam/merecem um espaço assim. Por mim, preferia ver o meu amigo Anselmo Borges a questionar-se se foram efectivamente os peregrinos que contribuíram para tudo aquilo e se tudo aquilo corresponde às suas mais profundas aspirações e reais necessidades quotidianas, exactamente, porque, como ele próprio recorda e bem, nem só de pão vivem as populações, mas a verdade é que também de pão elas vivem e, por isso, o pão não lhes pode ser roubado nem extorquido por ninguém, muito menos, por catequeses mentirosas e "aparições" de nossas senhoras, criminosamente produzidas nos cérebros delirantes de crianças tolhidas de medo do inferno e escandalosamente dominadas por catequeses e pregações de clérigos sem escrúpulos que de maneira alguma suporta(va)m perder seculares privilégios e influência assim do pé para a mão, só porque, alguns anos antes, tinha havido no país uma Revolução que pôs fim ao trono da monarquia e visava derrubar também o altar da Mentira/Idolatria eclesiástica, fonte de execrável domínio clerical. Porque ainda não está provado que os milhões e milhões e milhões que entraram e continuam a entrar em Fátima, totalmente isentos de impostos e sem nenhum controlo estranho aos da "panelinha clerical", por sinal, muito poucos, como convém e mesmo esses todos da confiança da empresa eclesiástica, e que estão à frente de todo aquele empório, verdadeira fábrica de fazer dinheiro, sem necessidade de investimento em máquinas, a não ser em cofres espalhados pelo recinto, que sugam o dinheiro das ofertas e o levam automaticamente e já discriminado aos sacos que cada dia vão desaguar ao banco, em carros de alta segurança contra ladrões, são efectivamente milhões e milhões e milhões provenientes dos peregrinos. Falta investigar - é um bom trabalho para a Polícia Judiciária, a par do que é igualmente preciso fazer com o super-propagandeado rapto/morte da menina inglesa no Algarve - se os milhões de Fátima, a sua maior fatia, não são dinheiro sujo que, sob o branco e cruel manto da senhora de Fátima, engorda mais e mais o tesouro do santuário e que, depois, ao sair dele, já pode circular à vontade como dinheiro limpo. Apresso-me desde já a declarar que não tenho quaisquer provas que sustentem esta minha suspeição, e tão pouco tenho vocação para investigador policial. Mas que gostaria que essa investigação se fizesse até ao fim com muita inteligência e muita audácia, não tenham dúvidas. Porque uma coisa eu sei e é esta: as viúvas pobres e os idosos que vão de peregrinação a Fátima, por sua ingénua devoção ou por arrebanhamento de certos autarcas, elas e eles, que organizam piedosas excursões/peregrinações àquele local de obscurantismo e de humilhação humana e, desse perverso modo, tentam e, por vezes conseguem esconder práticas de corrupção e desvios de muitos milhões nas suas gestões municipais (há sempre um padre católico que se presta a entrar no jogo e até preside lá à missa, na capelinha da dita, com o autarca, ela ou ele, em lugar de destaque a fazer a leitura da palavra de Deus, certamente, do demoníaco deus Dinheiro e do Poder e da senhora de Fátima, abençoador de corruptos e de demagogos, que não, obviamente, do Deus Vivo, o de Jesus e de Maria) não têm tanto dinheiro assim para fazer abarrotar os cofres do santuário. De resto, desde que o Templo de Jerusalém, ao tempo de Jesus, servia para esconder no seu bojo o banco nacional do país, e toda a encenação religiosa que lá se realizava dia e noite e toda a arte que lá dentro de exibia serviam sobretudo para manter alienadas e tolhidas as populações, já de si alienadas e tolhidas q. b. e, desse sibilino modo, faziam crescer mais e mais o tesouro que alimentava os 18 mil sacerdotes e suas famílias, a começar pelos sumos sacerdotes Anás e Caifás e seus palácios - covil de ladrões chamou-lhe Jesus ao templo e o mesmo lhe havia chamado o profeta Jeremias, cerca de sete séculos antes - nunca mais poderemos ser tão ingénuos acerca dos grandes santuários que se constroem sobre a terra, quais torres de babel. Se eles se erguem e são financiados sem dificuldades, o dinheiro teve de vir de algum lado, necessariamente escuso. Também lá estará, com certeza, o último cêntimo das viúvas pobres a quem os sacerdotes com toda a sua mentirosa e habilidosa catequese conseguem extorquir para esse fim - é o pecado dos pecados - mas é por demais manifesto que só esses cêntimos são insuficientes para construir esses empórios que depois esmagam as populações que lá entrarem, precisamente quando mais parece que as dignificam. Porque o que dignifica as populações - aprendemo-lo com Jesus, o de Nazaré, crucificado pelos sacerdotes que oficiam nesses grandes santuários - é só a Verdade, essa prática que as fará livres e autogestionárias, não os santuários/empórios de 80 milhões de euros como a nova basílica de Fátima e os sumptuosos estádios de futebol erguidos, uns e outros, em honra do deus Dinheiro e do deus Poder. Bem sei, como o meu amigo Anselmo Borges sabe e até refere na sua crónica, que o Evangelho de João (11, 55-12, 11) nos conta que Jesus aceitou que Maria, irmã de Marta e de Lázaro, a comunidade cristã de Betânia, em oposição ao Templo de Jerusalém, gastasse com o corpo dele um frasco de nardo puro, no valor de um ano de salário de um trabalhador da época. Mas também sei que esta narrativa do Evangelho de João é exclusivamente teológica, não jornalística, nem saiu da pena de um historiador. O facto histórico aparentemente ali narrado nunca existiu tal e qual. A narrativa está construída a partir de elementos literários do grande poema bíblico de amor, na sua expressão máxima que é a gratuidade, conhecido por Cântico dos Cânticos, e com palavras e frases que provêm directamente dele. A narrativa teológica assim tecida o que pretende dizer é simplesmente esta boa notícia ou Evangelho: enquanto os sumos sacerdotes e os fariseus de Jerusalém já tinham decretado que quem soubesse do paradeiro de Jesus o denunciasse às autoridades (eles mesmos) para que fosse morto, como subversivo e perigoso; e enquanto o grupo dos Doze, representado na narrativa por Judas Iscariotes, referido na hora como aquele(s) que haveria(m) de trair Jesus, e como "ladrão" e por isso protesta(m) contra Jesus e contra a sua via messiânica de entrega da própria vida pela vida do mundo (os Doze, com Pedro à cabeça e Judas à rectaguarda, defendiam, em aberta oposição a Jesus, a via messiânica da tomada do poder e do exercício do poder sempre opressor e assassino, já a comunidade de Maria, Marta e Lázaro é a única que reconhece Jesus e aceita a sua via messiânica de entrega da própria vida pela vida do mundo. E por isso é também a única que faz corpo com Jesus e pratica a sua via com todas as consequências. De modo que, o que Jesus louva não é o frasco de nardo puro partido em sua honra, coisa que não ocorreu historicamente, mas a Fé jesuânica daquela pequenina Comunidade cristã que o reconhece e à sua via como o verdadeiro messias, entenda-se, o verdadeiro Ser Humano, aquele que todos os demais seres humanos haveremos de seguir, se quisermos ser salvos, isto é, ser integralmente humanos, integralmente sororais/fraternos. Não se pode, por isso, invocar esta narrativa evangélica para justificar o injustificável, no caso, o demoníaco que é a nova basílica de Fátima e que nem a beleza que possa conter no seu interior conseguirá jamais esconder. De resto, nunca a arte se avilta tanto,. como quando dá cobertura à Mentira e ao Crime, disfarçados de verdade e de bondade. E Mentira e Crime é o que Fátima e a sua senhora objectivamente são. E se insistirem em identificar algo daquilo com Maria, a de Jesus, com Jesus, o de Nazaré crucificado pelos sacerdotes, e com Deus, o de Jesus e de Maria, saibam que cometem um pecado contra o Espírito Santo, do qual Jesus chega a dizer que não tem perdão. Pensemos todas, todos nisto. Também o meu querido amigo Pe. Anselmo Borges. E deixemos que a Verdade nos faça livres. Alegres. Autogestionários. Presenças de paz.
2007 NOVEMBRO 13
No passado sábado, 10, estive na c