DIÁRIO ABERTO
2006 NOVEMBRO 30
Bento XVI continua na Turquia. Encontrou-se ontem e rezou com o Patriarca da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I. E hoje assinarão ambos uma declaração conjunta. Vimo-los a pedir a Deus a unidade das duas Igrejas. O gesto pode comover os fiéis de ambos os lados. Mas é no mínimo ambíguo. Porque, se dependesse de Deus, a unidade das Igrejas nunca teria sido rompida. A unidade é o que o Espírito de Deus sempre faz. A desunião e a divisão são o fruto amargo das ambições do Poder. Não há quebra da unidade, lá onde há amor recíproco praticado. Sempre haverá quebra da unidade, lá onde houver Poder cada vez mais absoluto e concentrado. Quando assim é, rezar pela unidade é iludir o problema. É transferir para Deus o que é tarefa nossa, concretamente, das Igrejas, a começar pelos que se têm na conta de seus incontestados chefes escolhidos directamente por Deus. Uma situação, no mínimo, caricata. Mas que revela até onde pode ir a paranóia de alguns seres humanos, que em vez de crescerem em humanidade, preferem crescer em Poder. E, depois, ainda metem o nome de Deus à mistura.
As imagens televisivas que vêm da Turquia mostram-nos os dois chefes das Igrejas lado a lado. Vestidos com todos os símbolos do Poder religioso-eclesiástico. Uma imagem que roça o infantil! Deviam vestir como simples seres humanos, mas não são capazes. Chegados àquele patamar do Poder sagrado, já não se sentem bem senão nestas vestes que usam em exclusivo. Quem os vê assim vestidos, só pode concluir que são dois poderes que medem forças entre si. Mas um, o de Roma, é imperial/global e por isso vê a unidade de que ambos falam, não como uma saudável afirmação das diferenças, mas como a integração pura e simples da Igreja Ortodoxa na Igreja católica romana. E assim não há unidade possível. Só haverá capitulação de uma Igreja à outra. Da menos poderosa à mais poderosa. Semelhante unidade é vassalagem. É concentração do Poder. Não tem, não pode ter a marca do Espírito Santo. A marca do Espírito Santo é a Liberdade, não o Poder.
O que faz então correr o papa Bento XVI? E o que já fez correr o seu imediato antecessor, João Paulo II? Enquanto a Igreja católica não renunciar ao Poder, pode submeter sucessivamente as outras Igrejas mais fragilizadas, mas isso não é ecumenismo, muito menos unidade. É concentração de Poder. E, nesse caso, o mundo que se cuide. A globalização eclesiástica é um sonho que vem desde o imperador Constantino, no início do século IV. E nunca foi deitado fora.
O Poder sempre pensa que é a solução dos problemas que afligem a Humanidade. Nunca reconhece que é ele próprio o problema número um da Humanidade. Um mundo sem Poder é o sonho de Deus, o de Jesus. Não é o sonho das Religiões, nem das Igrejas, menos ainda da nossa Igreja católica romana, hoje, a Igreja de Ratzinger/Bento XVI. Se fosse, esta sua visita à Turquia teria sido pensada e vivida de outro jeito, ao jeito de Jesus, o de Nazaré, a vítima do Poder, não o seu executivo.
Ontem e hoje é-nos dado a ver o Poder religioso-eclesiástico em acção na Turquia. Concretamente, o Poder dos dois chefes das duas Igrejas devidamente vestidos com todos os símbolos do Poder. Não nos é dado a ver dois seres humanos, dois filhos do homem. O que vemos são dois rostos do Poder. E mal vai o mundo, quando dois poderes se namoram e falam em casar. A unidade consumada dos dois Poderes não tem a marca do Espírito Santo. Tem a marca da Besta, na linguagem violenta do Apocalipse ou Revelação. O resultado só pode ser mais Poder e Poder mais concentrado. O que significa, mais vítimas humanas, mais vassalos.
Foi para a liberdade que Cristo, o Crucificado pelo Poder, nos libertou. O grito é de Paulo de Tarso, depois que descobriu e aceitou Jesus e o Evangelho de Deus que ele é, e abandonou o sistema da Lei e do Poder sagrado. É pela Liberdade que vamos. O Poder faz-nos doentes, lacaios, imbecis.
Infelizmente, os media fazem a cobertura desta visita com os critérios do Poder. O que é, no mínimo, ingenuidade. Porque é tomar o cenário, meticulosamente preparado para nos dar a impressão de que é a realidade, pela realidade. O Poder constrói o seu mundo e movimenta-se à vontade nele. Como se esse seu mundo fosse a realidade. Será demasiada ingenuidade tomar essa construção pela realidade. E esta está a ser, para tristeza minha, a postura dos nossos jornalistas, escolhidos a dedo para este tipo de serviços. O Poder não dá ponto sem nó. E tudo faz para não ser desmascarado. É preciso saltar fora deste cenário construído pelo Poder, para tocarmos a realidade mais real. De contrário, ficamos toda a vida a fazer o jogo do Poder. Como seus cúmplices. E, senão cúmplices assumidos, cúmplices ingénuos. Os ingénuos são sempre os mais perigosos. Porque actuam com aquele ar de felizes e de patetas alegres que sempre serve para dar mais poder ao Poder.
Saltar fora do cenário construído pelo Poder, para ver a realidade em directo, é o que fazem os profetas, elas e eles. No meio do cenário muito bem construído, os profetas escutam os gritos silenciados/amordaçados das vítimas. Seguir estes gritos, leva-nos a ver/tocar a realidade mais real. E a pôr em causa o Poder, com todo o seu cortejo de crimes e de vítimas aos milhões.
Mas quem está hoje disposto a ser e a viver como profeta? É verdade que é a única forma de se ser mulher, homem. Mas quem está disposto? O preço é elevado. E poucos são os que entram por porta tão estreita. Por mim, não quero outro caminho. Poderei ficar sozinho, mas é por aí que vou. Na companhia de Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida.
Está visto que nunca encontrarei neste caminho o papa Bento XVI, nem o Patriarca da Igreja Ortodoxa, Bartolomeu I. Só as suas vítimas e todas as inúmeras vítimas do Poder. Mas é na comunhão com elas que serei e permanecerei mais humano. E mais irmão universal.
2006 NOVEMBRO 29
Porque as imagens televisivas valem mais do que mil palavras, tenho de reconhecer, com dor, que o primeiro dia de Bento XVI na Turquia não nos remeteu para Jesus, o de Nazaré, nem para o seu Evangelho século XXI. O que ontem vimos nos telejornais, a partir da Turquia, foram jogos do Poder, salamaleques do Poder, meticulosos paços de dança do Poder. Para cúmulo, o papa ainda disse que não é político e que a missão da Igreja não é política. Mas então se a pastoral que a Igreja faz não é política, isto é, se não é para se ocupar e cuidar, ao jeito do que fez Jesus, o de Nazaré, da saúde integral das pessoas e dos povos e do planeta no seu todo, então para que serve? Com o que todos saímos a perder, a Igreja e os povos da terra, e tem sido assim praticamente desde o início da Humanidade, é com uma Igreja-Poder, como teima em ser também e sobretudo a nossa Igreja católica, na sua versão católica-romana. Com uma Igreja política, não teremos nada a perder e teremos tudo a ganhar. Porque a Política é o cerne do Evangelho de Jesus. O Poder, pelo contrário, é a sua negação. Num mundo que confunde a Política com o Poder, cabe à Igreja viver a Política como sua missão específica e denunciar o Poder como a perversão da Política. Ou esquecemos que Jesus com o que se ocupou em exclusivo foi com fazer presente na História o Reino/Reinado de Deus? E que missão mais política do que essa? Até foi cognominado de “o Cristo” ou “o Messias”, que mais não quer dizer que “o Político”. Foram os do Poder que não suportaram semelhante revelação de Deus, na sua prática libertadora e maiêutica, promotora de autonomias e de protagonismos, e logo o mataram como o maldito. Para que nunca mais algum ser humano retomasse a sua via e actualizasse a sua revelação de Deus. Só que, desde então, ficou revelado para sempre que o grande pecado do mundo é o Poder. E que a salvação do mundo é a Política que, por isso, nunca poderá converter-se em Poder. As próprias religiões têm sido e serão fonte de perversão, porque, ao institucionalizar-se, não resistem à tentação do Poder. Tornam-se elas próprias Poder e é com os poderosos do mundo que sempre se entendem e mutuamente se protegem. E não é que até acabaram a professar a sua fé num Deus todo-poderoso, como se alguma vez Deus fosse o César dos Césares, o imperador dos imperadores, o tirano dos tiranos?! O que vimos ontem nos telejornais foi um papa chefe de estado do Vaticano com o primeiro ministro da Turquia, num entendimento para televisões difundirem, tudo faz-de-conta, tudo ritual, tudo previsto ao milímetro, sem alma, sem coração, sem entranhas de humanidade, sem verdade, mais robots que seres humanos, tudo hipocrisia. É assim o Poder. São assim os poderosos. Não é assim a Política que vem do coração de Deus Criador. Por isso não hesito em dizer que o Poder é o anti-Deus, é o Ídolo, o Demoníaco.
Dói-me que o principal rosto da nossa Igreja católica, que, neste momento histórico, é o papa Bento XVI, tenha dado este contra-testemunho ao mundo. Rasgou o Evangelho de Deus, o de Jesus, quando deveria tê-lo revelado/anunciado ao mundo, a partir da Turquia. O mundo estremeceria de comoção e, quem sabe, se não se converteria à Verdade e entraria na via da salvação? Foi mais uma ocasião perdida. E será sempre assim, enquanto a nossa Igreja católica não desistir de ser Poder entre os poderosos do mundo.
“Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. Convosco não deve ser assim; o que for maior entre vós seja como menor, e aquele que mandar, como aquele que serve. Porque quem é maior: o que está sentado à mesa, ou o que serve? Não é o que está sentado à mesa? Ora, eu estou no meio de vós como aquele que serve.”
São palavras de Jesus dirigidas a todos os que, através dos tempos, o querem seguir. E Lucas tem o cuidado de as colocar no contexto da última ceia, precisamente, quando o Poder instalado em Jerusalém já tinha decidido matar Jesus! Não se pode ser mais claro. Mas o que ontem vimos nos telejornais, a partir da Turquia, foi o contrário deste Evangelho de Jesus. Confirma-se assim, e mais uma vez, que os do Poder são criminosos que se enfeitam e mascaram de benfeitores perante os seus súbditos. Para serem temidos/idolatrados por eles.
Só Igrejas que façam da Política ao jeito de Jesus, o de Nazaré, a sua acção pastoral/eclesial poderão ser uma mais valia na História. Porque não há salvação da Humanidade e do Planeta fora da Política. No Poder, sempre haverá perdição. Quem não vê que é assim?
Neste aspecto, as imagens televisivas de ontem com o papa Bento XVI na Turquia, acabaram por invulgarmente expressivas. Oxalá todos nós, pessoas e povos, saibamos descodificar esta mensagem que os poderosos, sem querer, nos deram. Pela negativa, é certo, mas que nos deram.
2006 NOVEMBRO 28
Que rosto de Igreja e que imagem de Deus é que chega hoje à Turquia, na pessoa do papa Bento XVI? Para mim, esta é a questão teológica e pastoral essencial que está em jogo nesta visita. Ao contrário do Vaticano, entendo que o Poder nunca poderá ser imagem de Deus, o de Jesus. Muito menos um poder monárquico absoluto como o do papa. Mas é como papa-chefe-de-estado-do-Vaticano, que Bento XVI aterra hoje na Turquia, país com uma população de maioria esmagadoramente muçulmana, que considera ofensiva esta visita. E com fundada razão. Deus é amor, escreveu o apóstolo João numa das suas cartas que figuram no Novo Testamento. O actual papa fez sua esta afirmação, ao colocá-la como título da sua primeira encíclica. Mas depois é como chefe de estado que se movimenta, dentro e fora do Vaticano. E aceita que o tratem como tal. O amor não se comporta assim. Por sua vez, Jesus que é a imagem mais acabada de Deus entre nós e connosco, ele próprio Deus à maneira de filho, nunca quis ser César, nem equiparado a César. Nem sequer quis ser sumo sacerdote. Apenas Filho do Homem, o Ser Humano por antonomásia. Logo no princípio, a Carta aos Hebreus abusou, ao atribuir a Jesus o título de sumo sacerdote. E chega ao extremo de dizer que só ele o é, mais ninguém. Felizmente, tem o cuidado de o apelidar assim, mas enquanto crucificado. Por isso, o sumo sacerdote nos antípodas dos sumos sacerdotes das religiões, todos eles rostos do poder sagrado e absoluto, ao jeito de César de Roma, o crucificador de Jesus e de outras inúmeras vítimas.
Depois da trapalhada contra Maomé e o Alcorão, há poucos meses atrás, numa universidade da Alemanha, o papa Bento XVI aparece ainda mais fragilizado, perante os muçulmanos da Turquia, assim como em todos os demais países do resto do mundo islâmico. A visita tem, por isso, algo de agressivo. No estilo, ofendi-vos, não vos pedi desculpa e agora ainda vos imponho esta minha visita. Sou para vós “personna non grata”, mas vede que nem por isso desisto desta visita.
Pelo menos, é assim que os muçulmanos a interpretam. Veremos como Bento XVI se comporta no terreno. Mas o Poder absoluto como o dele não é capaz de dialogar. Nem de pedir desculpa. Impõe-se. É a negação de Deus Mãe/Pai que só tem entranhas de humanidade e de ternura.
Para que a presença do papa fosse boa notícia para a maioria muçulmana do país, Bento XVI deveria renunciar, duma vez por todas, ao título de papa e ao cargo de chefe de estado do Vaticano. E apresentar-se entre os muçulmanos da Turquia como Jesus de Nazaré se apresentou na Galileia e na Judeia, por volta do ano 30. Sem poder. Sem privilégios. Simplesmente humano como os demais.
Para lá de imagem de Deus, no caso, de falso Deus, com mais de demoníaco do que de jesuânico, o papa na Turquia é também o rosto mais visível da Igreja católica. De que modelo de Igreja? Só pode ser o rosto mais visível da Igreja que ajudou a fazer o império de Constantino e que lhe sucedeu, mais tarde, quando o império de Roma caiu. Não é por isso a Igreja de Jesus, que só se encontra lá onde dois ou três se reúnem em nome de Jesus. É bom que se diga que, em matéria de Igreja, tudo o que vai além dos dois ou três que se reúnem em nome de Jesus, começa a cheirar a perverso. O institucional não é do Espírito de Jesus. É do Poder. A instituição eclesial feita pelo Espírito nunca vai na linha do Poder. Vai na da Fé de Jesus e na do carisma. Para o Espírito de Jesus, não há Poder. O Poder é sempre perversão em acto. Há ministérios, serviços, gratuidade. Numa palavra, amor recíproco: “Amai-vos uns aos outros como eu vos amei. Nisto saberão que sois meus discípulos: se vos amardes uns aos outros”.
A Cúria do Vaticano e o Estado do Vaticano e todas as Cúrias diocesanas são o contrário desta Boa Notícia de Jesus. Não há volta a dar-lhe. Onde houver Poder, não há o Espírito de Jesus. Só lá onde houver Liberdade.
Não sei o que poderá resultar desta visita papal marcada pelo rosto de Bento XVI, ex-cardeal Ratzinger. É uma visita do Poder eclesiástico católico romano. Nos antípodas da presença maiêutica, tão indispensável para fazer morrer o poder e fazer viver a originalidade de cada povo e de cada cultura. Só uma presença maiêutica, que o Poder não conhece, muito menos reconhece, é capaz de se alegrar, ao descobrir que, afinal, Deus já precedeu a chegada do papa à Turquia. Não é o papa quem leva Deus à Turquia. Cumpre-lhe reconhecê-lO e adorá-lO em espírito e verdade. Só assim haverá diálogo ecuménico em pé de igualdade. Espevitado pelo Sopro ou Espírito de Jesus. Não se trata de converter os muçulmanos em católicos romanos. Trata-se de todos, muçulmanos e católicos romanos, aceitarmos ser soprados pelo Sopro ou Espírito de Jesus, o de Nazaré, que nos faz constitutivamente humanos. É por aqui que vai o Espírito de Jesus. Não está interessado em fazer cristãos, muito menos católicos romanos. Está interessado em fazer humanos todos os povos, na pluralidade e diversidade de culturas.
Será o papa Bento XVI capaz de entender este Evangelho de Jesus? Alguma vez Roma foi capaz, nestes dois mil anos de Igreja, de entender este Evangelho de Jesus? O Poder nunca entenderá nada do Evangelho de Jesus. Se lhe deita a mão é para o perverter. E pô-lo ao seu serviço e ao serviço dos seus interesses.
Acompanharei com atenção os passos do papa na Turquia. Mas já sei que o Espírito de Jesus não PASSA na Turquia, lá por onde passa o papa Ratzinger. Por aí passa o Poder. O Espírito de Jesus passará, provavelmente, só entre as vítimas da visita do papa. E também entre aqueles que recusam frequentar os cultos aos quais o papa presidirá durante estes dias na Turquia, porque recusam associar o Mistério que é Deus Vivo com o rosto do Poder monárquico absoluto que é o rosto de Bento XVI, chefe de Estado do Vaticano. Discernir é preciso. É Do Espírito de Jesus. O Poder foge. Só se dá bem nas águas turbas.
2006 NOVEMBRO 25
1. O Iraque continua a ferro e fogo. Esta semana, num só dia, foram mais de 200 as pessoas assassinadas. Enquanto nós, na Europa, continuamos a fazer de conta que não é nada connosco. Escrevi 200 pessoas, portanto, 200 seres humanos, mulheres, homens e crianças, em tudo iguais a nós europeus. Com nome. Com rosto. Com sonhos. Com familiares próximos e remotos, que lhes sobrevivem, mas para sempre destroçados pela dor e pela raiva, senão mesmo pelo ódio. Nem sequer o papa de Roma, o rosto mais visível da Igreja católica, tem sido capaz de um gesto simbólico que ajude a pôr fim a esta barbárie. Se não fazemos nada de nada, se nem sequer choramos nas ruas, ainda tem sentido estarmos vivos? Não deveríamos todos deixar cair os braços e parar, dias e noites a fio, nas ruas das nossas cidades e nos caminhos das nossas aldeias, até que a Morte deixe de matar a frio e em massa nas ruas do Iraque? O papa não deveria ter voado já para capital daquele martirizado país e erguer a sua tenda entre aqueles povos? Tem algum sentido estar vivo, na Europa e no resto do mundo, se não fazemos nada para estancar tanto sofrimento, tanto sangue derramado, tantas lágrimas de dor? Ainda podemos falar em Humanidade, se assistimos, dia após dia, impávidos e serenos, a este crime contra todas, todos nós, como se morrer em sucessivos rebentamentos e em sucessivos atentados fosse igual a um jogo de futebol? Não há nada que o mundo fora do Iraque possa fazer, tenha de fazer, para estancar esta maldição? Secaram-se as lágrimas às pessoas aqui da Europa e do resto do Ocidente e do mundo? O que ainda nos faz correr? O Dinheiro? O sucesso? Afinal, o que pretendemos com toda esta pressa com que vivemos? Aonde pretendemos chegar? Não vemos que estamos simplesmente a desaparecer como seres humanos? Não vemos que, por este andar, não temos futuro? Quando a Morte se torna mais real e é mais notícia do que a vida, ainda há esperança para a espécie humana? Que mundo é este em que estamos embarcados? Como pode ser um mundo humano, se tudo é morte e destruição?
Para cúmulo, foi o Ocidente quem criou a presente situação, ao invadir o Iraque. Sem qualquer justificação. E é ainda o Ocidente quem está por trás destas mortes sem sentido. No Iraque, os soldados dos Estados Unidos da América e do Reino Unido são a esmagadora maioria da tropa ocupante. Muitos deles também têm perdido a vida sem glória nesta estúpida e criminosa guerra. Com a cumplicidade das suas famílias. Estão no terreno, mas já não sabem o que fazer. Procuram safar a sua pele, mais do que defender as populações sem defesa. Por isso, é tudo bárbaro nesta guerra. A começar por ela própria. Não temos perdão, nós os europeus. São crimes e crimes sem conta. A Justiça não consente que possa ter futuro quem está apostado em roubar o futuro aos outros povos. As populações eram vítimas de Saddam? Indubitavelmente. Mas desde que ele foi derrubado e feito prisioneiro, as populações do Iraque são vítimas de quem? Do Ocidente que se meteu lá com mira nos poços de petróleo e não tem querido saber das populações. O Ocidente destruiu o país e agora não sabe como há-de descalçar esta bota. O que sabemos é que, mais uns meses desta carnificina em crescendo, e não haverá mais populações para matar. Não nos damos conta? Não reagimos? Encolhemos os ombros? Não é nada connosco? O holocausto perpetrado por Hitler começa a ter aqui uma nova edição. Um dia após outro. Com macabra pontualidade. Bem sei que é um holocausto pensado e executado de uma outra forma. Mas não menos cruel. São seres humanos que supostamente deveriam amar-se uns aos outros e, pelo contrário, matam-se uns aos outros, como se fossem mosquitos. Objectivamente, quem mata não tem nada contra as suas vítimas, mas matam-nas. Pelo simples facto de serem seres humanos. E em obediência cega a poderosos comandos que se alimentam de ódio contra todos os seres humanos. Numa orgia de sangue em que todos nos afogamos e nos tornamos malditos. E que nos deixa sem futuro.
E nós, contemporâneos desta carnificina, nem sequer choramos? Nem sequer obrigamos as nossas cidades a parar? Continuamos a ir ao cinema e à missa ao domingo? E a marcar o ponto na empresa?
2. O país está a regressar à ditadura. E ao Medo. Quem discorda dos governantes que estão descaradamente ao serviço do grande Capital já é ameaçado com processos. Nem que estes acabem arquivados, o simples facto de serem instaurados assinala o regresso à ditadura e ao Medo.
Os ditadores são todos iguais. Têm uma ideia para o país e impõem-na a todo o custo. Acham sempre que têm razão. Confundem os interesses do grande Capital com os reais interesses das populações. E quando perdem a cabeça, é sempre contra as populações que se viram, nunca contra o grande Capital e os seus interesses financeiros. E, se as populações recuam e se metem em casa, o ditador sobe de tom e não pára mais. De ditador em tom brando, acaba igual ou pior que Salazar.
É hora de dizermos BASTA! Nem Sócrates, nem Cavaco. A maioria absoluta foi-lhes dada pelas populações, para que a sua governação nos fosse favorável. Não para que se virasse contra nós e a favor do grande Capital. O grande Capital nunca olha a meios para alcançar os seus fins. Ou reagimos, já, ou regressamos ao Medo. E à senhora de Fátima, já que do Fado e do Futebol, nunca chegamos verdadeiramente a sair. Está, pois, na hora das populações se manifestarem. E obrigarem o grande Capital a recuar. Primeiro, estão as pessoas. Afinal, sem as pessoas, para que serve o grande Capital?
Quando os governantes começam a apelar muito para a lei contra as pessoas, é sinal de que o ditador já está à porta. Porque a lei foi feita para os seres humanos, não os seres humanos para a lei. Todos os ditadores invocam a lei para ameaçar, prender, perseguir, desempregar. E, quando a lei não lhes for tão favorável assim, alteram-na de acordo com as suas conveniências. É dos livros. E da História. Não nos deixemos iludir. Acordemos. Com este Sócrates e este Cavaco, o país vai de carrinho para o Medo. E para o Abismo. Está nas nossas mãos impedi-lo. Quem nos organiza e mobiliza? Lá estarei também. Na primeira fila, se for caso disso.
2006 NOVEMBRO 22
Jesus, o de Nazaré, adverte, em forma de boa notícia, dirigida a todos os seres humanos que vêm a este mundo, que ninguém pode servir a dois senhores, ao mesmo tempo. E, para que não restem dúvidas sobre a identidade dos dois senhores em causa, logo acrescenta: Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro!
Quando a afirmação foi proferida pela primeira vez, ainda não existia o capitalismo, como sistema económico de exploração do homem pelo homem. Hoje, existe e podemos conhecer ainda melhor do que Jesus toda a perversão que é este sistema. A realidade nua e crua que ele produz está perante os nossos olhos. Nenhum outro sistema económico lhe leva a palma em crueldade e em inumanidade. É o sistema científico de produção de pobreza e de pobres em massa. Porque coloca o Dinheiro/Lucro como valor absoluto, como o deus dos deuses, perante o qual as pessoas e os povos são ainda menos do que formigas. Podem morrer aos milhões antes de tempo e não têm de que se queixar. O facto, apesar de inumano, é apresentado como natural e inevitável. Pelo que às pessoas e aos povos só lhes resta assumir-se como vítimas inevitáveis da História, uma espécie de Cristo colectivo, mas às avessas do Cristo que é Jesus, o de Nazaré, que, como se sabe, acabou crucificado, não porque assim estava escrito e era inevitável (as Igrejas mentem, quando afirmam o contrário e revelam que não sabem interpretar a Escritura), mas porque teve a lucidez e a audácia de desmascarar a Mentira que se escondia sob o manto do santo nome de Deus e se fazia passar por Verdade perante as pessoas e os povos.
Ao princípio intrinsecamente criador de vida que proclama: Tudo o que existe ou é produzido pelo trabalho dos seres humanos é de todos, conforme as necessidades de cada qual, o sistema capitalista contrapõe estoutro princípio intrinsecamente descriador: Tudo o que existe ou é produzido pelo trabalho dos seres humanos é dos mais hábeis e dos mais poderosos. O que, levado às últimas consequências, dá o mundo tal como hoje o conhecemos, com minorias cada vez mais reduzidas, cientificamente dotadas de meios altamente tecnológicos, os mais eficazes, cada vez mais ricas; e maiorias cada vez mais alargadas, totalmente desprotegidas e analfabetas em ciência económico-financeira e em competitividade de mercado, cada vez mais pobres/empobrecidas.
O surpreendente, num mundo assim, é haver dirigentes políticos à frente dos países ditos civilizados, que ainda vêm pateticamente apelar ao desenvolvimento do que eles deram agora em chamar de “capitalismo de inclusão”. Na sua ingenuidade/perversidade política e na sua insensibilidade/perversidade social, ainda admitem que o capitalismo possa hoje converter-se e tornar-se num sistema económico com entranhas de humanidade.
Incapazes de irem à raiz do problema, como fez Jesus, o de Nazaré e por isso foi chamado o Cristo ou o Político por antonomásia, estes dirigentes domesticados pelo grande Capital apelam ao seu próprio dono que seja um poucochinho menos cruel e reparta por algumas das vítimas que produz das migalhas que caem das suas fartas mesas, tal como de bom grado costumam fazer com os seus cães de luxo.
Mas o capitalismo é, por sua natureza, o sistema-mor da exclusão. Não só produz vítimas humanas e delapida a Natureza, como faz tudo isso de forma científica e eficaz, num ritmo ainda superior ao da progressão geométrica. Como se pode então pedir a um sistema intrinsecamente inumano que o seja um pouco menos e passe a ter em conta as vítimas que produz? Como pode o capitalismo incluir, se a acção de excluir decorre da sua própria natureza?
Entre nós, o paladino deste sofisma é o actual presidente da República, cada vez mais convertido em caixa de ressonância do primeiro-ministro Sócrates. Os dois porfiam, da boca para fora, em tornar humano o sistema capitalista. São, por isso, os rostos no país do anti-Cristo, pelo menos, daquele Cristo libertador e cheio de misericórdia que pudemos ver um dia na prática e na palavra de Jesus, o de Nazaré. Ao que garantem ambos, o professor católico e o engenheiro ateu morrem de amores por Portugal, mas depois tudo o que fazem é consertar esforços para facilitarem a vida ao grande capital. Deste modo, os seus patéticos e repetidos apelos às populações podem levar o grande capital a ser ainda mais agressivo nos seus objectivos de acumulação e de concentração de riqueza nas mãos de poucos, contanto que habilmente se disponha a deixar cair algumas migalhas das suas mesas fartas. Garantem os dois dirigentes políticos de Portugal aos grandes capitalistas que, se enveredarem por aí, terão a sua vida facilitada. E ainda passarão por benfeitores perante as suas inúmeras vítimas, senão acabam mesmo aclamados por elas.
A receita que ambos propõem em uníssono facilita-lhes a vida e às suas famílias, ao mesmo tempo que escancara as portas ao grande capital. Em lugar de o denunciarem e aos seus crimes, e mobilizarem as populações do país para lhe resistirem, os dois dirigentes máximos preferem fazer de anjos apaziguadores do grande capital junto delas, para que elas renunciem de vez à dignidade de seres humanos e aceitem simplesmente vegetar, todos os dias, num viver sem alma, sem projecto, sem utopia, sem poesia, sem sororidade. Quando muito, apenas com as necessidades mais elementares minimamente satisfeitas, apenas o suficiente, para não chegarem a rebelar-se nunca contra os seus verdugos.
Os dois dirigentes em causa são guias cegos que conduzem as populações para o abismo. Porque o grande capital é inconvertível. A sua existência é sempre conseguida à custa da não-existência dos seres humanos e dos povos. E os poucos seres humanos que ele consente que existam é só para estarem incondicionalmente ao seu serviço e ao serviço do seu anti-projecto de descriação do mundo e dos seres humanos.
A verdade é que não há nada mais cruel à face da terra que o sistema capitalista, em todas as suas múltiplas formas históricas. Pode começar por formas mitigadas, mas o veneno mortal já está lá. E só espera condições para poder medrar. Se as vítimas não se organizam e não se mobilizam contra ele, o capitalismo cresce duma noite para outra noite como um monstro de múltiplas cabeças, uma das quais é a Religião. O sistema capitalista é a Mentira, mas disfarça-se de Verdade. É a Treva, mas disfarça-se de Luz dos povos e das nações. É o anti-Cristo, mas disfarça-se de Cristo. E não é que consegue enganar, inclusive os que se têm na conta de dirigentes dos países e arrastar após si os seres humanos e os povos que se lhe rendem como a um deus?
As Religiões sempre estiveram e estão do lado do Dinheiro e do Poder, mais ainda em tempos de grandes crises estruturais. Hoje, as Religiões estão todas de olhos postos no grande capital, na esperança de que ele salve os pobres e os povos empobrecidos. Mas como, se é ele que os fabrica e mata antes de tempo? Será como esperar que o lobo salve o rebanho, já que se movimenta à vontade no meio das ovelhas. Ou que a raposa vigie e salve as galinhas no galinheiro que foram confiadas à sua guarda.
As religiões sempre existiram para intermediar entre o deus Dinheiro/Poder e os seres humanos em estado de aflição e de fragilidade. Sempre existiram para dizer aos seres humanos e aos povos o que o sacerdote Aarão disse aos hebreus na travessia do deserto, quando com as arrecadas e outros adornos das pessoas fez o bezerro de ouro: Eis aqui o vosso deus, aquele que vos pode salvar; adorai-o e tudo será vosso, se não já aqui, na terra, pelo menos, depois da morte, no céu. E os povos, nos seus medos ancestrais, sempre acatam este sermão e acabam desarmados perante o grande capital e os seus donos. Esperam tudo dele e deles. Até o trabalho de cada dia e o salário ao final da semana ou do mês.
A verdade é que estamos todas, todos chamados a ser criadores, mas depressa desistimos de semelhante dignidade e grandeza e deixamo-nos seduzir pela poderosa voz da Serpente e dos seus sacerdotes. Hoje, a Serpente já não é mais o mítico deus dos cananeus que tentava as mulheres dos hebreus em Canaan. É o deus Dinheiro, mentiroso e pai de Mentira, assassino e ecocida sem escrúpulos.
Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. Não podeis servir aos pobres e aos senhores do grande Capital. A incompatibilidade entre um e outro é total. O sistema capitalista que fabrica pobres e pobreza em massa não poderá nunca incluir/integrar os pobres. Seria cavar a sua própria sepultura. O mais que poderá fazer, como estratégia de mais e melhor dominação e a preço muito mais baixo é aceitar distribuir migalhas pelos pobres que fabrica. Semelhante política é, à distância, genocida. E ecocida. Quando acordarmos, poderá ser tarde demais. Não dizem hoje certas projecções que, a manter-se o actual ritmo de exploração da natureza e dos seres humanos por parte do sistema capitalista, Portugal, no ano 2100, estará mais de metade submerso pelas águas do oceano Atlântico que hoje beija a nossa costa?
Infelizmente, os dois dirigentes políticos que a maioria dos portugueses, ingenuamente, elegeu para ter à frente dos destinos do país estão a entregar o país aos bandidos de colarinho branco, polidos q. b. O sistema capitalista esfrega as mãos de satisfação. Quem viu esta semana o programa "Prós e Contras", da RTP, pode ter dado conta como os poderosos senhores da Banca ouvem displicentemente os clamores dos empobrecidos. Aquele seu constante sorriso de cinismo perante as câmaras de tv é eloquente. E são obscenos os seus chorudos lucros no final de cada ano. São senhores com a faca e o queijo na mão. Porque hoje o sistema capitalista é global. Pela primeira vez na História.
Se nós, os povos todos do mundo lhe não resistimos e não nos atrevemos a criar uma alternativa inspirada no Espírito de Jesus, o de Nazaré, que obrigue o Dinheiro a estar ao serviço da vida e vida em abundância de todas as pessoas e de todos os povos, ficaremos a breve prazo sem garantia de futuro. Porque o Dinheiro à solta gera uma Ordem Mundial intrinsecamente perversa. E a Terra acabará inabitável. Ou regressamos a Jesus, o de Nazaré, e ao seu Espírito, ou acabaremos caídos no buraco negro da descriação! Será que, ao menos, os pobres do mundo se rebelam e invadem as ruas de todas as cidades do mundo? E, sobretudo, recusam as migalhas da mesa dos que os fabricam e fazem morrer antes de tempo, e criam uma Ordem Mundial alternativa à Ordem Mundial do Dinheiro, lucidamente ao serviço da vida das pessoas e dos povos?
2006 NOVEMBRO 18
Inesperadamente, o celibato dos padres voltou ao debate nas rádios e nas televisões do país. O papa Bento XVI convocou esta semana um encontro de alto nível no Vaticano, com cardeais manifestamente misóginos, incapazes de qualquer emoção erótica, e com todo aquele ar de meros funcionários eclesiásticos especialmente preparados e vestidos para se movimentarem à vontade na corte do poder imperial eclesiástico, para com eles debater o magno problema. E não é que logo muita boa gente pensou que o encontro seria para, finalmente, se mexer na lei eclesiástica em vigor? Até o Movimento NÓS SOMOS IGREJA emitiu uma nota a saudar o encontro, o que me fez sorrir, perante tamanha ingenuidade. Mas como é que ainda fomos capazes de imaginar que seria este papa Bento XVI a pôr fim à cruel lei eclesiástica do celibato? Também o Movimento internacional dos Padres Casados alimentou idênticas expectativas em torno deste encontro, o que me espanta e quase escandaliza. Como é possível semelhante ingenuidade da parte destes dois sectores progressistas da Igreja? Então achávamos provável que, de repente, o papa Bento XVI fosse capaz de desacreditar o ex-cardeal Ratzinger? Não é manifesto que o cardeal Ratzinger, antes de ter sido feito papa Bento XVI, foi sempre o braço mais obscurantista do pontificado do seu antecessor, o papa João Paulo II? Não foi ele o seu principal anjo mau, adversário declarado de um Cristianismo com entranhas de humanidade, vivido na liberdade e na responsabilidade de cada um dos seus membros? Não perseguiu ele, com ódio teológico e até à morte simbólica, alguns dos maiores expoentes da Teologia da Libertação? E não é também ele quem, agora, uma vez feito papa Bento XVI, começou logo a ponderar na possibilidade do regresso em força do latim às missas e à liturgia católica em geral? E não é também ele quem, mesmo antes de ser papa, já havia decidido que até Deus, se quiser ter futuro, terá que ser católico romano e acatar como verdade absoluta os seus pessoais pontos de vista teológicos? Que outra coisa pode significar, senão isto mesmo, aquele famigerado documento Dominus Iesus, sobre o ecumenismo das Igrejas, que ele, na sua qualidade Presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, redigiu e obrigou o papa João Paulo II a assinar e, assim, torná-lo doutrina a ter de ser acatada por toda a Igreja?
Pode parecer que estou a caricaturar, mas não estou. Os comportamentos do cardeal Ratzinger/papa Bento XVI é que são mesmo assim. Por mim, limito-me apenas a dar-lhe mais visibilidade, através duma linguagem descodificada, feita de algum humor e muito amor. Aliás, é para isto que existem ou devem existir os jornalistas, elas e eles, quando o são verdadeiramente, e não se resignam nunca a ser simples pés de microfone, ou simples correias de transmissão dos argumentos dos opressores e dos poderosos do mundo, que sempre se têm na conta de deuses infalíveis e sem pecado, ou todos eles não identificassem sistematicamente a acirrada defesa dos seus próprios interesses corporativos com a verdade e a justiça! Mas é óbvio, no que me diz respeito, que sempre recusei ser jornalista do sistema e do regime, e dos interesses instalados. De outro modo, já não seria jornalista, mas um simples escriba contratado pelos poderosos. Os quais, hoje, com os seus grandes media, se constituíram nos novos guias cegos que, 24 horas sobre 24 horas, maltratam e desorientam as populações menos ilustradas, bem como a generalidade dos povos do planeta.
É por isso que eu, quando ouvi aquela notícia do encontro de alto nível convocado pelo papa Bento XVI para o Vaticano, logo pensei cá para mim que a Cúria romana andará em grande aflição com as pressões que lhe chegam de todo o mundo católico e não católico contra uma lei tão absurda, como é esta lei eclesiástica que condena todos os padres católicos ao celibato, para cúmulo, só os padres católicos do Ocidente, uma vez que a mesma Igreja católica romana segue outra disciplina relativamente aos padres católicos do Oriente. E só podem ser pressões em quantidades verdadeiramente esmagadoras e com muito peso moral, por parte de quem as subscreve, e todas elas a exigir ao papa que ponha fim a semelhante lei eclesiástica, objectivamente imoral e anti-natural. A qual, para lá de absurda, também perfaz um pecado grave sem perdão.
Mas, ao mesmo tempo, pensei também que o papa Bento XVI, com esta sua convocatória, mais não pretenderia do que forçar os cardeais das diversas Congregações da Cúria a estarem com ele e com a sua teimosia em manter essa lei eclesiástica, sem a qual – e nisso, tem ele razão, mas para sua vergonha! – o actual modelo de Igreja clerical e de Cristandade, em vigor, desde há uns 16 séculos, nunca mais terá viabilidade.
Nesta sua cegueira (todo o poder cega e o poder absoluto cega absolutamente), o ex-cardeal Ratzinger, hoje, Bento XVI, parece nem se dar conta de que, felizmente, já aconteceu na nossa Igreja católica o Concílio Vaticano II que nos apontou um outro modelo de Igreja, o da Igreja Comunidade de comunidades, sem clérigos a conduzir os seus destinos, menos ainda clérigos celibatários à força, apenas com ministros ordenados e não ordenados, mulheres e homens, indistintamente, e todos animados da mesma fé de Jesus, por isso, um modelo de Igreja tendencialmente sem hierarquia, constitucionalmente mais humana e mais serva e pobre, como bem profetizou no seu tempo o inesquecível Papa João XXIII.
Teria sigo grande a minha alegria, se me tivesse enganado quanto ao desfecho deste encontro de alto nível. O fim do celibato obrigatório, se tivesse sido assumido nesse encontro, equivaleria a um sismo na Igreja católica do Ocidente. Mais que um sismo, seria um verdadeiro tsunami. Nada na Igreja ficaria mais como até agora. Mas, para tristeza minha, tive razão na minha análise e na minha previsão. Três horas terão bastado, para que os cardeais subscrevessem o ponto de vista do seu todo-poderoso chefe (repararam naquela cena horrível, difundida pelas televisões de todo o mundo, do beija-mão protocolar de cada um dos cardeais ao papa Bento XVI? O que há aí de jesuânico? Um encontro assim, com homens tão vassalos em relação ao seu chefe todo-poderoso, poderia, em algum momento, ser atravessado pelo Sopro ou Espírito de Jesus, o de Nazaré? Não se tratou, antes, de um encontro com todos os tiques dos antigos encontros de César de Roma com os seus subalternos das províncias do Império?).
E agora? Será que toda a Igreja se submete a esta conclusão manifestamente contrária aos sinais dos tempos e ao que o Espírito, neste particular, anda, desde há séculos, a dizer/gritar à Igreja? Se nos calamos e obedecemos, não é ao Poder absoluto que obedecemos? E o que mais nos identifica como Igreja, não é aquela garantia de Jesus de que, lá onde dois ou três se reúnem em seu nome, ele está activamente presente no seu meio? E não temos também, como um dos princípios fundadores de Igrejas, aquele que diz aos do Poder: “Importa obedecer a Deus, mais do que aos homens”? (entenda-se, os homens do Poder, o primeiro dos quais, o próprio papa). Por outro lado, já teremos esquecido que uma lei objectivamente imoral, como a lei eclesiástica do celibato dos padres, não pode nunca ser acatada/obedecida por ninguém? E que acatá-la/submeter-se a ela, sem convicção, é pecado grave?
Mas nem tudo, nesta decisão de Bento XVI, é motivo de tristeza. Porque com esta sua teimosia, o papa acaba de dar mais uma machadada no actual modelo clerical de Igreja. Ao querer perpetuá-lo indefinidamente, abalou-o ainda mais. Basta ver que o número de clérigos celibatários será cada vez menor. Chegará dentro em breve o tempo em que não haverá clérigos, em número minimamente suficiente, que alimentem este modelo de Igreja. Só não vê quem não quer ver. E, sem clérigos, este modelo de Igreja clerical implode. Haverá, nesse dia, uma grande alegria no céu! Por mim, já vivo essa alegria no Espírito Santo.
O pior é que, até essa implosão, crescerão ainda mais as dores e as aflições entre os empobrecidos. As populações continuarão aí cada vez mais à mercê dos poderosos sem escrúpulos, cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor. Sem a presença gratuita de companheiros que partilhem das suas alegrias e das suas esperanças, das suas tristezas e das suas angústias. Só poderão contar com mercenários de todo o tipo. E dias virão em que até o nome de Jesus, o de Nazaré, deixará de ter quem o pronuncie e o olhe como o paradigma dos seres humanos, em quem o Mistério invisível de Deus se torna visível e palpável. Ficará em seu lugar um vago e mítico Cristo sem corpo, sem história e sem Reino de Deus, por isso, mais ópio do povo do que o Sopro ou Espírito libertador que derruba os poderosos e os seus sucessivos impérios, e levanta os humilhados. Ainda assim, saibam que, quando a Humanidade chegar a semelhante limite de desumanidade e de sem-sentido, está prestes a rebentar no seu seio, um Novo Começo. Do qual fará parte também um novo modelo de Igreja, mas então no discreto e fecundo jeito do sal da terra, da luz do mundo, do fermento na massa e da parteira. Uma Igreja comunidade de irmãs/irmãos, longe dos templos e dos altares, em redor de mesas partilhadas e comuns, à escuta do seu Senhor que lhe fala nos Sinais dos Tempos e nos clamores das vítimas.
2006 NOVEMBRO 15
A Igreja, nomeadamente, a sua hierarquia maior, volta a ser notícia em Portugal. Pelas piores razões. É quase sempre assim. Está no mundo, mas praticamente quase só remetida ao gueto das sacristias e dos templos. Precisamente, dois dos múltiplos espaços institucionais de que Deus, o de Jesus, menos gosta. Porque do que Ele verdadeiramente gosta é do mundo, este nosso vasto mundo onde respiram e trabalham, combatem e sofrem os seres humanos, seus filhos, suas filhas. E sobre este nosso vasto mundo Deus tem um olhar e um sentir nos antípodas do moralismo das hierarquias religiosas e eclesiásticas. Só a Moral que liberta as pessoas e os povos e lhes reconhece o protagonismo no mundo e na história é que vem de Deus, revelado em Jesus, o de Nazaré. Das hierarquias religiosas e eclesiásticas vem o Moralismo, sempre perverso. Parece muito piedoso, no seu discurso virado para a sociedade; apresenta-se hipocritamente como o maior defensor da vida humana, mas na verdade não tem entranhas de misericórdia. Basta ver que o Moralismo nem sequer é capaz de reconhecer a autonomia da consciência de cada pessoa, nem o seu direito a decidir. Reconhece apenas a autonomia da Norma, da Lei, para cúmulo, criada e interpretada pelas hierarquias religiosas e eclesiásticas. A realidade, tantas vezes dramática, que se vive no mais íntimo de cada ser humano passa-lhe sempre, ou quase sempre, ao lado. Por isso, a Norma, a Lei, só por si, é cruel, e mais ainda quando é ditada pelo Moralismo das hierarquias religiosas e eclesiásticas. Estas, por sua vez, guiadas pelo Moralismo e por ele formadas, comportam-se como lobos disfarçados de cordeiro. Tal e qual como os fariseus, no tempo de Jesus. Sempre prontas, como eles, a atirar a primeira pedra contra quem não for pelas suas maneiras de ver e de pensar.
É deste teor o discurso beato e moralista do presidente da CEP (Conferência Episcopal Portuguesa), Jorge Ortiga, na abertura, dia 13 em Fátima, de mais uma Assembleia Plenária dos Bispos portugueses. Neste discurso, o referendo ao aborto volta a ser focado, mas agora num tom ainda muito mais cínico e cruel. É um discurso que assenta como uma luva ao arcebispo de Braga que Jorge Ortiga também é. Mas ele proferiu-o na abertura dos trabalhos da Assembleia dos bispos e na sua qualidade de presidente da CEP. E a verdade é que, até agora, todos os bispos ouviram o recado proferido em nome deles e baixaram a bolinha, pelo menos, perante a comunicação social.
Por mim, não creio que todos os bispos portugueses se revejam neste discurso/recado ao país, nomeadamente, ao Governo da nação. É certo que todos eles são poder eclesiástico, na respectiva diocese. Mas há uns quantos que têm mais cuidado na escolha das palavras, pelo menos, quando têm pela frente a comunicação social como meio para chegarem às populações do país. Jorge Ortiga, pelo contrário, chegou a ser sadomasoquista no seu discurso. “Podem rotular-nos de retrógrados, mas é assim que somos”, frisou com requinte de mau gosto, e de olhos pregados nas folhas de papel que estava a ler, sem um pingo de alegria e de liberdade no rosto, as duas manifestações que habitualmente brilham no rosto de quem vive como um menino no meio do mundo e comunica/conversa fraternalmente com os demais seres humanos.
Desconhece o Arcebispo que “retrógrado” nunca rimou e jamais rimará com Lucidez, com Verdade, com Boa Notícia, numa palavra, com Jesus, o de Nazaré, a Luz do mundo. Portanto, também não rima com Deus Vivo. Só rima com morte, com tradicionalismo, com legalismo/moralismo, com total incapacidade de acompanhar os sinais dos tempos, nos quais e através dos quais a Palavra de Deus Vivo e Criador chega ao coração e à consciência das suas filhas, dos seus filhos. E ainda disse o arcebispo (pasme-se!), logo a abrir o discurso, que ele e os seus colegas bispos estavam ali reunidos em Fátima, em nome de Jesus. Esqueceu-se (sempre os do Poder se esquecem) que cada um deles na sua diocese e a sua CEP são órgãos de Poder duma Igreja multinacional que funciona ao jeito de sucursais do Estado do Vaticano e da Cúria Romana. Esqueceu-se também que, para as pessoas se reunirem em nome de Jesus e fazerem a experiência da sua presença ressuscitada no seu meio, têm de movimentar-se no âmbito da mesma Fé dele, por isso, fora do âmbito do Poder, e têm de vestir a condição de simples seres humanos desarmados e a viver à intempérie, sujeitos, inclusive, a ter de passar pela cruz, como aconteceu paradigmaticamente com o próprio Jesus, o de Nazaré.
Quem, pois, como os bispos residenciais católicos, veste a pele dos sumos sacerdotes judeus e de César de Roma, do ano 30 da nossa era, em Jerusalém, assume-se na condição de poderoso, de verdugo, de fabricador de vítimas. Como tal, não pode nunca reunir-se em nome de Jesus. Sempre reúnem em nome do Poder. Por isso, bem pode o arcebispo Jorge Ortiga falar muito em Jesus, mas enquanto o fizer desde o âmbito do Poder eclesiástico que faz vítimas e não desde o âmbito das vítimas, as suas palavras não têm o Sopro ou o Espírito de Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou (é esta a maneira que Deus tem de dizer ao Poder e aos poderosos do mundo que está para sempre com Jesus e com as suas posições, e não com os sacerdotes nem com o Império que, coligados, o crucificaram em nome da Lei de Moisés/de Deus e em nome do Império!...).
Não creio que todos os bispos portugueses se revejam no discurso do arcebispo Jorge Ortiga. Desde logo, o senhor cardeal patriarca de Lisboa que, desta vez, na questão do referendo à despenalização do aborto, ousou ensaiar um outro tipo de discurso episcopal, mais na linha da Igreja do Concílio Vaticano II. Por isso, mais conforme à razão e ao coração dos seres humanos que Deus ama. Infelizmente, não se manteve nessa postura por muito tempo e, poucos dias depois – certamente pressionado pelos colegas que se orgulham de ser retrógrados, como o arcebispo de Braga, Jorge Ortiga, acaba de assumir publicamente em nome de todos, e, quem sabe, pelo próprio núncio apostólico, uma espécie de Pide da Cúria Romana em cada país da Cristandade ocidental que segue de perto as intervenções públicas dos bispos residenciais – lá veio às pressas com um comunicado a repor a verdade do seu pensamento. Mesmo assim, ainda conseguiu ficar muito longe das posições agora assumidas pelo presidente da Conferência Episcopal Portuguesa.
Mas está visto que o arcebispo Jorge Ortiga falou como falou, porque sente as costas quentes. Tem com ele, certamente, o grosso da CEP e dos cardeais da Cúria Romana, tudo homens casados com o Poder e, por isso, sem entranhas de misericórdia. Bem sei que cada um deles, fora do exercício do Poder eclesiástico, é capaz de ser sensível e humano, sem ficar nada a dever à generalidade dos seres humanos. O problema é que eles, desde que foram entronizados como bispos residenciais, já não conseguem ser simplesmente humanos e é sempre como Poder eclesiástico que se assumem, na Igreja e perante a sociedade. Ainda não deram conta que essa é a sua desgraça. No dia em que derem conta (será possível? Não é verdade que o Poder cega e desumaniza quem o serve?), renunciarão ao Poder, pedirão perdão às vítimas que tiverem feito e voltarão a ser homens simplesmente. Haverá festa no céu, sempre que tal acontecer!... Mas quando é que acontece?!...
O discurso do arcebispo Jorge Ortiga relança a questão do referendo sobre a despenalização do aborto. É o pior ataque eclesiástico jamais feito em Portugal sobre o assunto. O presidente da CEP vai ao ponto de afirmar que o Estado não tem competência para legislar nesta matéria. É o cúmulo do desrespeito pela autonomia da sociedade civil. É o regresso da Cristandade Ocidental em estado puro, o regresso da Cúria Romana e de cada Cúria Diocesana como outras tantas concretizações do único Sacro Império. Por outras palavras, o arcebispo de Braga e presidente da CEP diz, sem gaguejar, que a sociedade civil é ainda infantil, que as instituições e as leis que criou ou venha a criar à revelia dos Bispos residenciais são pueris. Por isso, é uma sociedade que carece de continuar a ser tutelada pela Cúria Romana e pelo seu papa chefe de Estado do Vaticano, auxiliado pelos braços compridos que são os bispos residenciais em cada país de maioria católica. É o regresso puro e duro à Idade Média, aos séculos do obscurantismo religioso e eclesiástico, em boa hora deixados para trás, a partir da Revolução Francesa e da Modernidade.
Felizmente, a sociedade civil há-de rir-se deste desaforo do presidente da CEP. E nem sequer a maioria católica em Portugal se deixará impressionar por semelhante postura do arcebispo Jorge Ortiga. Mas, como Igreja católica que também sou, na condição de presbítero, não deixo de lamentar semelhante discurso episcopal em nome da CEP. E ainda mais a pública cumplicidade do silêncio dos demais bispos presentes. Decididamente, o Espírito de Jesus não está nesta CEP, nem se revê nas suas orientações pastorais, as quais, por isso, não são de seguir por ninguém, muito menos pela Igreja-povo-de-Deus que está em Portugal.
Na hora de votarmos no referendo sobre a despenalização do aborto, só nos resta avançar para as múltiplas mesas de voto, em todo o país, orientados pela nossa consciência bem formada e votar de acordo com o que ela nos disser. Por mim, já é público, votarei sim à lei, apesar de ser, obviamente, contra o aborto. Tenho para mim que a aprovação da lei não vai abrir caminho ao aborto pelo aborto, porque nenhuma mulher, nenhum casal faz um aborto de ânimo leve. O que a lei vai conseguir, se for aprovada (para isso, temos que ir votar em massa), é contribuir de forma decisiva para pôr fim ao aborto clandestino e aos negócios sem escrúpulos que ele proporciona. E contra este hediondo crime organizado, o arcebispo Jorge Ortiga não disse praticamente uma palavra neste seu discurso.
2006 NOVEMBRO 12
Na noite do passado dia 10, estive num encontro-tertúlia no Centro de Cultura e Desporto dos trabalhadores da Segurança Social e da Saúde de Braga, na abertura duma Feira do Livro, a funcionar naquelas instalações até ao próximo Natal. Os meus livros, editados pela Campo das Letras e pela Arca das Letras estavam lá em grande destaque, logo à entrada. A tertúlia deveria partir duma comunicação feita por mim sobre os meus livros e depois seguiria por onde as pessoas presentes entendessem. Foi uma noite inolvidável para mim e para quem lá esteve. E que mexeu nas consciências e abriu horizontes de paz e de sentido que ninguém estava à espera. Posso dizer que o Espírito de Jesus esteve lá, em grande actividade. E onde o Espírito de Jesus está em actividade, os frutos só podem ser os da Liberdade/Responsabilidade e da Paz, a partir de dentro das pessoas para fora. Mais os da Reconciliação e do Encontro de cada pessoa consigo mesma e com os demais, na dimensão da sororidade/fraternidade. No final, parecíamos todas, todos, desde os mais velhos aos mais novos, como meninas, meninos. A tertúlia teve início pelas 22 horas e já passava da hora e meia da madrugada quando teve de ser dada por concluída. Ninguém tinha pressa em ir embora. Ninguém adormeceu. Ninguém se sentiu cansado. Todas, todos nascemos do Alto. Ateus, incluídos. Ainda tive de autografar livros. Pessoas houve que ainda não possuíam nenhum livro meu e adquiriram aos dois, aos três e mesmo aos quatro títulos, duma só vez. Numa alegria e numa comunhão de afecto que me deixou em mais intensa EUCARISTIA, que é como eu vivo habitualmente.
Partilho aqui as palavras que proferi na abertura e que foram o ponto de partida da tertúlia-encontro. Mergulhem nelas, sem pressa. Verão que são palavras oportunas e que hão-de ser tomadas a sério. Mas tenho de reconhecer que por onde depois a conversa nos levou foi ainda muito mais oportuno. Cada pessoa que esteve lá sabe que assim é. Que falem elas, em forma de testemunho pessoal. Tenho a certeza de que o farão. Não aqui, certamente, mas nos dias que se seguem, entre os seus mais próximos.
Sonho com encontros-tertúlias assim, noutros pontos do país. Com os meus livros também presentes. Quem os quer organizar localmente? Descobriremos a boa notícia que é o Cristianismo de Jesus, o de Nazaré, nos antípodas do Cristianismo eclesiástico e da Cristandade Ocidental que tem por pai o imperador Constantino e os papas-chefes-de-estado-do-Vaticano que ficaram no lugar do Império romano, quando este caiu. É minha convicção que o terceiro milénio terá tudo a perder, se não se abrir ao Cristianismo de Jesus. E tudo a ganhar, se se abrir a ele. Estou confiante que vai abrir-se a ele. Os meus livros podem ser um bom ponto de partida e uma boa base de trabalho. Por isso, as hierarquias eclesiásticas os detestam tanto e não querem que sejam lidos pelas "ovelhas" dos seus “rebanhos”. Sabem que quem os ler concluirá que só o Cristianismo de Jesus tem futuro. Ao passo que o delas está condenado a desaparecer, como o sal que perdeu a força e só serve para ser lançado fora, para ser pisado pelos seres humanos. Vamos a isso? Eis.
Estou à beira de fazer 70 anos de idade e continuo a ser um padre/presbítero da Igreja do Porto sem emenda! Quando me tornei demasiado incómodo – já lá vão mais de 30 anos, ainda estava como pároco de Macieira da Lixa e presidia à diocese o famoso bispo António Ferreira Gomes – este prelado, de quem, apesar de tudo, ainda hoje sou amigo, tomou uma medida disciplinar contra mim que nem o Código de Direito Canónico previa: manteve-me na paróquia, mas retirou-me a Carta de pároco. Fiquei, com o que ele chamou de “jurisdição permissiva”. Isto sucedeu poucos meses após a minha primeira prisão política por causa do Evangelho de Jesus que eu pregava regularmente e de forma destemida na paróquia, e depois da subsequente absolvição no Tribunal Plenário do Porto. De modo que, quando fui preso a segunda vez pela Pide, perdi nesse mesmo instante a paróquia, e os 11 meses que tive de passar na prisão política, já não foi na minha condição de pároco de Macieira, como eu pensava que sim, mas na simples condição de padre Mário que é aquela que ainda hoje tenho na Igreja!
Mais tarde, já sem ofício pastoral oficial, atrevi-me a discordar muito legitimamente duma opinião do Papa Paulo VI sobre evangelização, expressa na sua encíclica “Evangelli Nuntiandi” e, a seguir, ainda presidi ao sacramento do matrimónio da Lina e do M. António, da Comunidade Cristã de Base do Grande Porto, mas propositadamente fora do chamado processo canónico que a paróquia da noiva ou do noivo é obrigada a organizar, por imposição da Concordata ainda hoje em vigor, e então passei da condição de padre sem ofício pastoral à de padre praticamente não existente. O meu nome foi pura e simplesmente banido, até hoje, da lista oficial de padres da Diocese do Porto, actualizada de 2 em 2 anos no Anuário Católico da Igreja em Portugal. E tudo isto por decisão pessoal do mesmo Bispo D. António Ferreira Gomes, sem que, entretanto, ele tivesse alguma vez mandado instaurar contra mim qualquer processo canónico no Tribunal eclesiástico. A partir de então, os sucessivos Bispos do Porto têm-se limitado a manter a situação que o Bispo António criou por sua conta e risco. Comportam-se todos como se tudo o que foi feito contra mim esteja conforme à justiça e ao direito. Mas é manifesto que não está!
Chamo aqui à conversa estes factos, sem qualquer espécie de azedume ou de ressentimento. Apenas como factos históricos indesmentíveis que, em si mesmos, constituem uma espécie de pequeno apocalipse ou revelação da Igreja que somos e temos em Portugal. E que só pode ser uma Igreja em estado de pecado mortal, fabricadora de vítimas, para cúmulo, insensível às vítimas que fabrica. Esperavam, certamente, o Bispo António e os seus conselheiros mais próximos que, com tais comportamentos comigo, eu me aborrecesse, me zangasse e batesse com a porta, como tem acontecido em tantos outros casos semelhantes ao longo da História da Igreja. Poderiam sempre dizer depois: Estão a ver? O que ele queria era ter um pretexto para se ir embora.
Mas eu não fui embora. Como poderia ir, se a Igreja é a minha casa, a minha família e se eu próprio sou Igreja e padre/presbítero por vocação, não um funcionário do sistema eclesiástico?
Sem ofício pastoral que, se o tivesse, me sustentaria, só tinha uma saída: profissionalizar-me, para poder ganhar o pão com o suor do meu rosto, como qualquer outra pessoa que se preze. Foi assim que me fiz jornalista no vespertino República (a carteira profissional n.º 492 foi lá que a consegui). Nessa condição também haveria de vir a trabalhar e a residir aqui em Braga, durante 10 anos, no Correio do Minho. Tornei-me na Igreja padre/presbítero como que em autogestão. E totalmente gratuito no exercício do ministério. Cada vez mais longe dos templos e dos altares. E, como reza o título do meu último livro, até esta data, um padre Na companhia de Jesus e de ateus.
Depois de deixar Braga, fixei residência em S. Pedro da Cova, no seio duma pequenina Fraternidade chamada "Fraternidade Grão de Trigo" e, poucos meses depois, nasceu o Jornal Fraternizar – vai fazer 20 anos, em Janeiro 2007 – e, com ele, a dinamização de um novo modelo de Igreja mais conforme ao Concílio Vaticano II, Igreja-comunidade-de-comunidades, em lugar do velho modelo de Igreja Cristandade, habitualmente casada com os interesses do Dinheiro e do Poder do Estado de cada país, ela própria Poder e o mais perigoso, porque poder sagrado, imposto de cima para baixo aos fiéis em nome de Deus. E que mais não é do que um modelo de Igreja inspirado na divisão administrativa e territorial do antigo Império Romano, em dioceses e paróquias, em que a pertença a ela não resulta, como deveria ser, duma opção livre de cada pessoa, mas do nascimento e da residência no território. Neste modelo, nasce-se católico, como se nasce português ou espanhol ou francês. A única opção possível não é a de tornar-se Igreja na Igreja, mas a de sair dela, ou de forma activa e pública, ou de forma passiva e por força da inércia. O que, neste último caso, nunca chega a ser um afastamento assim tão efectivo, porque, pelo menos, quando as pessoas morrem, os seus familiares ainda fazem questão de que seja o pároco com jurisdição no território a presidir ao respectivo funeral. A menos que as pessoas em causa deixem dito por escrito que se proceda de outro modo. O que, diga-se, continua a ser coisa rara.
Com o Fraternizar, também se desenvolveu toda uma reflexão teológica libertadora, alternativa à teologia do Poder religioso-eclesiástico, e que tem feito o seu percurso junto de muitas pessoas e na sociedade em geral, apesar da arrogância e do autismo da hierarquia católica, da sua universidade católica e da generalidade do seu clero. Todos, ou quase, fazem de conta que semelhante reflexão teológica não existe, apenas eles e as suas rotinas, as suas catequeses e os seus ritos com tudo o que têm de paganismo religioso. Os meus livros, desde Fátima nunca mais inclusive, não existiriam sem o Fraternizar. E agora estão todos aí. Como um grito, um testemunho contra a Igreja Cristandade e como anúncio teologicamente fundamentado de que outro modelo de Igreja é possível.
Dizem muitas vozes eclesiásticas que os meus livros são agressivos. Inclusive, vozes de Igrejas protestantes. E têm razão! São agressivos, não contra a Igreja, mas apenas contra o Poder eclesiástico, contra os privilégios, contra a mentira catequizada em nome de Deus e do Evangelho. De modo algum, são livros contra a Igreja, a do Espírito Santo, a única que devemos ou podemos crer – “Creio a Igreja una, santa, católica e apostólica”. Já a Igreja do Poder eclesiástico não passa duma aberração, pecado institucionalizado, sal que perdeu a força, treva, guia cega que leva os seus para o barranco.
Se me permitem uma confissão pessoal sobre os meus livros, ela aqui fica: Os meus livros são páginas e páginas cheias de afecto e de ternura, de solidariedade, de sororidade/fraternidade. E verdadeiros hinos à Liberdade/Responsabilidade. Por isso, cáusticos q. b. em relação ao Poder eclesiástico que pretende fazer-se passar por Igreja de Jesus e que, nessa mesma medida, mais não é do que anti-Igreja, a do Espírito Santo! Basta terem sido escritos por um padre sem poder, um padre dado como não existente, um padre jornalista que não tem atrás de si nenhuma empresa de poder financeiro ou outro, um padre desarmado e pobre que é assim como um menino. Acontece, porém, que nem as vítimas do Poder eclesiástico ou Igreja Cristandade que os lêem, me tomam a sério, me acolhem. A mentira eclesiástica está tão entranhada no seu inconsciente que nem mesmo elas me lêem como quem se deixa evangelizar por eles. Muitos são os que reagem em relação a mim que os escrevo e publico como aqueles possessos/fanáticos religiosos que frequentavam as sinagogas no tempo e no país de Jesus: “Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos perder? Sei quem tu és: o santo de Deus!”. A mim, não me chamam “o santo de Deus”, mas o seu contrário, um maldito de Deus. E com isso mais me identificam, sem o saberem, com Jesus, o maldito por antonomásia. Não me zango e até compreendo. Afinal, que outra coisa pode esperar um discípulo do maldito Jesus senão ser maldito também? A verdade é que temos tão interiorizado em nós que ser cristão é sinónimo de boa pessoa, de pessoa socialmente correcta, que nem damos conta de que não é assim que Jesus vê os seus discípulos. Ora vejam: “Felizes sereis, quando todos, mentindo, disserem contra vós toda a espécie de mal”. E ainda: “Sereis odiados por todos por causa de mim”. Ora, às pessoas socialmente correctas, quem as odeia? Não as louva toda a gente, a começar pela gente do Poder?
Os meus livros estão aí. Gostava tanto que eles entrassem em todas as casas do país e até dos países do Ocidente católico. Também nas casas dos ateus e agnósticos. Porque se não nos abrirmos, ateus incluídos, à teologia de Jesus, poderemos acabar na teologia do deus Dinheiro, hoje tão em moda, e que nos leva à pior das idolatrias, a do deus Dinheiro. E então acabaremos reduzidos a coisas.
É este o drama dos meus livros: os católicos e protestantes já quase não os lêem, ou lêem cada vez menos, porque me têm na conta de traidor, de louco, de maldito e argumentam contra os meus livros e contra mim, nestes termos: como podem ser bons livros, se até os bispos não confiam ao seu autor qualquer ofício pastoral? Por sua vez, os ateus e agnósticos dificilmente os lêem – excepção feita ao Fátima nunca mais – porque acham que nenhuma teologia, menos ainda a de Jesus, enche barriga ou dá emprego! A teologia eclesiástica ainda dá (basta ver quanto não ganham hoje os párocos com 4, 5, 6 ou 10 paróquias ao mesmo tempo e a receber de todas elas). Além disso, a teologia de Jesus é perigosa e subversiva, leva-nos à cruz, porque nos leva a saltar fora desta Ordem mundial do Dinheiro e do Império de Bush e das multinacionais, ao mesmo tempo que nos leva a assumir viver o resto da vida em deserto, como aconteceu com o próprio Jesus e inevitavelmente acontece com os seus discípulos, muito justamente, chamados testemunhas ou mártires, cruentos ou incruentos. E, no entanto, os meus livros são fundamentais para descodificarmos teologicamente este nosso tempo e para nos tornarmos pessoas constituídas na liberdade/responsabilidade, feita de protagonismo político e de entrega da própria vida pela vida do mundo.
Como fazer os meus livros sair desta situação? Será que, ao menos os ateus e agnósticos chegarão, a breve prazo, a perceber que os meus livros são de leitura obrigatória, mais, muito mais do que os livros de Saramago e de Lobo Antunes, ou do brasileiro Paulo Coelho?
Se os lerem e debaterem (estou disponível para participar nesses debates, se me quiserem presente, juntamente com eles), descobrirão que há por aí um Cristianismo que não interessa e até deve ser denunciado – o Cristianismo eclesiástico, que serve às mil maravilhas os interesses do Império e do Dinheiro e que tem por pai o imperador Constantino e os sucessivos papas de Roma (outra coisa, muito outra é o chamado “ministério de Pedro” nos antípodas dos papas-chefes-de-estado); e há o Cristianismo de Jesus, o de Nazaré, que acabou crucificado pelo Império e pelas hierarquias religiosas do seu tempo e país, o único que é radicalmente libertador e que interessa a toda a Humanidade de todos os tempos.
É deste Cristianismo de Jesus que falam/testemunham todos os meus livros (também falam do outro, mas sempre para o denunciar). Sem dúvida, o mais eloquente de todos é O outro Evangelho segundo Jesus Cristo.
Os seguidores/as seguidoras deste Cristianismo de Jesus vivem, como o próprio Jesus viveu, longe dos templos e dos altares, ao redor de Mesas partilhadas, muito próximos das populações, sobretudo das mais analfabetas, das mais oprimidas, dos chamados Ninguém, hoje cada vez em maior número nas nossas sociedades da globalização. E, numa relação em tudo idêntica à que a parteira mantém com a mulher que está para dar à luz, por isso, uma relação maiêutica que “puxa” as pessoas e as populações até à condição de sujeitos, de protagonistas, de combatentes políticos, armadas apenas com a couraça da Verdade e dos afectos. Quem está disposto a fazer com que os meus livros entrem nas casas das famílias portuguesas? Ou será que até os ateus preferem fazer o jogo das hierarquias eclesiásticas que tudo têm feito para que os meus livros não sejam lidos nem debatidos pelos católicos mais tradicionais?
2006 NOVEMBRO 08
Cresce como um incruento genocídio
à escala global o fosso entre os poucos
muito ricos e os muitos muito pobres. Sem
que os governantes das nações ousem
praticar políticas eficazes que lhe ponham
termo. Terão os muitos muito pobres que
acordar e passar à acção política directa.
Há dois mil anos que Jesus o de Nazaré
está aí a proclamar a boa notícia política
- “Felizes vós os pobres porque é vosso
o Reino de Deus”. Tão certeira palavra de
ordem valeu-lhe a morte na cruz imposta
pelos poucos muito ricos. E não é que até
as Igrejas têm distorcido esta boa notícia?
Têm por isso os poucos muito ricos podido
insistir nas suas políticas vazias de Política
sem que os pobres alguma vez se sublevem
contra a sua Ordem Mundial. Na boca das
hierarquias eclesiásticas ser pobre é virtude
com direito ao céu depois da morte e aos
ricos bastará financiar igrejas para pobres.
São hoje muito mais cruéis os poucos
muito ricos e já nem dos pobres querem
ouvir falar. Têm-se na conta de deuses
ou de poderosos sacerdotes do deus
Dinheiro. Os media são os seus púlpitos
e no Império de Bush têm o poder militar
que transforma os povos em vassalos.
Nem um pequeno país da Europa
como Portugal passa despercebido
ao todo-poderoso Império de Bush. Teve
início o debate do Orçamento 2007 e eis
que à mesma hora avançou rio Tejo acima
o maior porta-aviões nuclear do Império.
Como a dizer aos muito pobres: Quietos!
E não há volta a dar: ou vassalos dentro
da Ordem Mundial dos poucos muito ricos;
ou resistentes e construtores duma Ordem
mundial alternativa – o Reino de Deus no
dizer de Jesus – que coloque as pessoas
e os povos no centro da Política. Esta é
por isso a hora dos muitos muito pobres!
Dois mil anos de Cristianismo das Igrejas
acabam de desaguar nesta perversa
Ordem mundial dos poucos muito ricos. Em
nome do céu foram os pobres desmobilizados
da luta política e martirial. Urge regressar ao
Cristianismo de Jesus. Com os muito pobres
nos combates políticos por um mundo decente.
“Felizes vós os pobres porque é vosso
o Reino de Deus". São as lutas políticas
dos pobres do mundo que darão corpo ao
Reino de Deus - uma Ordem Mundial bem
à medida dos seres humanos - e que os
farão felizes. Passam de objecto a sujeito.
Mas na cruz. Os muito ricos não perdoam.
2006 NOVEMBRO 05
A minha prima Arminda, de Lourosa, morreu ao começo do dia 2 de Novembro 2006 e eu fiz-me à estrada, no dia 3, para me encontrar ao vivo com os seus filhos e filha, e com as pessoas das suas relações e amizade que, nestas horas, continuam a fazer questão de aparecer para apresentar pêsames à família e integrar-se no funeral. Ao contrário de quase toda a gente que já lá se encontrava, não apareci vestido de luto, nem com os tradicionais pêsames. Tão pouco me integrei no funeral, que seria presidido pelo respectivo pároco. Fui vestido de esperança e de paz, com o olhar iluminado pela Fé de Jesus que me faz sentir e ser irmão universal, carregado de futuro. Fui, por isso, na companhia de Jesus e do Evangelho de Deus que se nos manifestou, de forma integral e historicamente definitiva, na sua prática fecundamente libertadora e politicamente subversiva e que, na minha condição de presbítero da Igreja do Porto, me compete anunciar, oportuna e inoportunamente.
Cheguei cerca de uma hora antes do início do funeral propriamente dito. Deparei com o tradicional velório, na sala mortuária que a autarquia local construiu nas proximidades do cemitério e, logo à entrada na sala, comuniquei às pessoas que se encontravam lá dentro, todas de preto vestidas, que desejava fazer um especial momento de oração em comunhão com a minha prima Arminda já ressuscitada. Houve algum ar de espanto nas pessoas que ouviram estas minhas primeiras palavras, mas ninguém se mostrou contrafeito e até quiseram acompanhar-me nessa minha acção profundamente presbiteral e eclesial.
No final, ainda dispus de tempo para conviver sororal e fraternalmente com todas as pessoas presentes, então já em muito maior número do que quando entrei na sala, e também muito mais descontraídas. A informal e afectuosa conversa serviu para as pessoas recordarem comigo alguns outros momentos da minha vida em Lourosa e deixou na sala e no ambiente em redor o ar saudável da vida que continua, em substituição do mórbido ar de morte sem esperança que eu havia topado à chegada, num inequívoco contra-testemunho que as paróquias católicas insistem em dar à sociedade e que prova que elas, no trato com a morte das pessoas, continuam a comportar-se mais como estruturas pagãs do Império romano, do que como comunidades cristãs jesuânicas.
Até parece que, para as paróquias católicas, morrer no Outono da vida, é uma inevitável tragédia humana, a maior de todas as tragédias. Porque sem qualquer saída. A mim, por exemplo, basta este contra-testemunho institucional, para me levar a concluir que as paróquias católicas que temos quase mais não são do que a continuação da divisão administrativa do Império romano que, à queda daquele, a Igreja católica romana fez sua e que manteve até aos nossos dias, numa clara negação da acção do Espírito Santo que, ao contrário do sistema eclesiástico, sempre nos quer livres de todas as amarras e unidos pelos laços do afecto, não pelos do território ou da organização administrativa, típica de todo o poder que sempre oprime e controla as pessoas.
O momento de oração que vivi com as pessoas presentes não teve nada do que as Igrejas mais ou menos paganizadas continuam a fazer ainda hoje, na estafada convicção, como os pagãos, de que é no muito repetir “pai-nossos” e “avé-marias” e outras fórmulas ritualizadas que Deus nos é favorável. Procurei mostrar às pessoas que orar é sobretudo escutar Deus no íntimo da nossa consciência, muito mais do que falar a Deus. Do que se trata é que Deus criador de filhas e de filhos chegue a ser Deus em nós e através de nós. Até nos tornarmos filhas suas, filhos seus, como Jesus, o de Nazaré, mulheres e homens para os demais.
Coloquei-me então à cabeça da urna que continha o cadáver da minha prima Arminda e, em comunhão com ela já ressuscitada, convidei as pessoas a escutarem comigo o Evangelho de Jesus segundo S. Lucas, capítulo 16. Escolhi aquela conhecida parábola, contada por Jesus, do homem rico que se vestia de púrpura e linho fino e todos os dias organizava esplêndidos banquetes no seu palácio; e que tinha ao seu portão, do lado de fora, um pobre chamado Lázaro, coberto de chagas, a quem nem sequer chegavam as migalhas que caíam da mesa do rico; apenas podia contar com a instintiva piedade dos cães que lhe lambiam as chagas.
A parábola é como um soco na nossa consciência e obriga-nos a regressar do além, para onde a morte de alguém parece que sempre nos atira, pelo menos durante algumas horas, para mergulharmos em cheio nos sucessivos aqui e agora da Humanidade e do mundo, sobejamente retratados nela. Percebemos, de repente, à luz de Deus, o de Jesus, que nunca poderemos falar de inferno, como realidade ultra-terrena criada por Deus para os seres humanos, puro delírio de mentes assustadas e sem audácia para se envolverem em imaginativas e inteligentes acções criadoras de humanidade e de mesas partilhadas, alimento de vida de qualidade a que todos os seres humanos temos direito.
Para Deus, o de Jesus, o inferno só pode ser uma realidade criada por seres humanos, nos nossos sucessivos aqui e agora. Uma realidade que temos de encarar e de banir da História. Porque é aqui, na História, que tudo se decide sobre a nossa condição humana. É aqui que nos abrimos ao Sopro criador de Deus e nos tornamos seres à sua imagem e semelhança, ou, ao contrário, nos fechamos ao Sopro criador de Deus e nos tornamos monstros humanos, como o rico da parábola.
No entanto, acabar com o inferno que criamos e mantemos dentro da História é hoje uma acção criadora que parece cada vez mais distante no tempo, uma vez que, nestes primeiros anos do século XXI, continuamos estupidamente a deixar-nos arrastar por forças que nos são totalmente estranhas, em lugar de nos abrirmos uns aos outros e de nos acolhermos na real comunhão de vida e de bens. É, por isso, um combate sem tréguas que temos de travar. O segredo consiste em deixarmo-nos fazer pelo Sopro de Deus, o de Jesus, criador de seres à sua imagem e semelhança, em lugar de nos deixarmos fazer pelo sopro de deus, o do Dinheiro, criador de monstros em forma humana, como o rico da parábola, e como ele, ainda mais insensíveis e cruéis que os próprios animais.
Diz-nos a parábola contada/soprada pelo Espírito de Deus, o de Jesus, que é aqui, na Historia, que tudo se decide. E aponta-nos o caminho da libertação e da transformação. Em linguagem da própria parábola, trata-se de sermos sensíveis e de escutarmos com o coração Moisés e os Profetas, isto é, o Sopro criador e libertador de Deus que historicamente nos fala/grita nos Lázaros de todos os tempos e lugares, concretamente, nas vítimas humanas e outras, fabricadas em série inevitavelmente por quem se deixar tentar e fazer pelo sopro do deus Dinheiro.
A verdade é que as vítimas ou Lázaros a quem nem sequer chega o que cai das mesas dos grandes ricos do mundo são hoje, neste início do novo milénio, a esmagadora maioria da Humanidade. E de duas, uma: Ou o seu clamor é escutado como Palavra libertadora de Deus, o de Jesus, e passamos a praticar economias e políticas outras, as economias de mesas partilhadas e as políticas que nos reconheçam a todas, todos sem excepção seres humanos com voz e vez, ou seremos confrontados, a muito breve trecho, com uma Explosão social global em tudo semelhante à do Big-Bang que deu início ao nosso actual universo. Neste último caso, as dores serão incontáveis, mas ainda assim serão dores de parto que nos abrirão as portas de um mundo finalmente humano, habitado por mulheres e homens criadores de vida e de comunhão.
Foi esta, em síntese, a mensagem politicamente fecunda e desafiadora que escutámos, no decorrer da oração que animei, junto do cadáver da minha prima Arminda já ressuscitada e, por isso, também em intensa comunhão com ela. Depois, e sempre num tom de grande esperança e de muita ternura, dirigi-me, com voz firme e convicta, directamente a ela, não a Deus que é Deus de vivos, não de mortos e, por isso, sabe melhor do que nós o que necessitamos e é até o primeiro a sair ao nosso encontro, quando lhe abrimos a mente e o coração e nos deixamos conduzir pelo seu Sopro criador. Disse-lhe: “Contigo, querida Arminda, e com a paz de Deus que tu, já ressuscitada, agora nos dás, iremos continuar, vida fora, a subverter este nosso mundo de ricos muito ricos, que, na sua crueldade, insiste em fabricar Lázaros aos milhares de milhões. Bendita és, Arminda, porque, num mundo assim, foste capaz, ao teu jeito e à tua medida, de manter-te pobre a vida inteira, na digna condição de mulher operária e combativa. A nossa gratidão e a nossa alegria.”
Para surpresa de muitos dos presentes, não fiquei para o funeral que se seguiria daí a poucos minutos. Tão pouco esperei pela chegada do pároco que viria presidir. Regressei à carrinha e tomei em grande paz interior o caminho de regresso a casa, aqui em Macieira da Lixa, sempre com aquela provocadora palavra de ordem de Jesus no pensamento: “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Tu segue-me!” É o que mais quero: seguir Jesus, ser homem do seu jeito. E não só. Quero também prosseguir, aqui e agora, as suas causas. Como um menino.
2006 NOVEMBRO 01
Enchem-se de gente os cemitérios num
deprimente cortejo de vaidades. O culto
dos mortos é a outra face de quem passa
os dias a atropelar os vivos. Matamos os
próximos com egoísmos e ambições sem
limite. E depois erguemos-lhes túmulos de
luxo enfeitados com flores importadas.
Os mortos não existem em lado nenhum.
Só há pessoas ainda a viver na História e
pessoas a viver já para lá da História. É
estupidez crassa converter em jazigos de
família as campas onde se decompõem os
restos das pessoas que partiram; e deixar
multidões a viver sem tecto e sem afectos.
Morrer é simplesmente nascer para novas
dimensões; como o nascer já foi morrer
para as acanhadas dimensões do útero
materno. Na vida nada se perde; tudo se
transforma. Felizes as pessoas que vivem
abertas a esta boa notícia de Deus e fazem
das suas vidas um dom para os demais.
No cristianismo de Jesus não há culto dos
mortos. Os relatos fundadores aí estão
a gritar desde o princípio: Porque procurais
nos túmulos aquelas aqueles que vivem em
dimensões outras que nem os olhos viram
nem os ouvidos ouviram? Quem agir sem
ter em conta este grito continua a ser pagão.
Igrejas com culto dos mortos são agências
funerárias disfarçadas onde tudo gira em
redor dos mortos. Tirem às paróquias o culto
dos mortos e pouco restará. A originalidade
da Igreja frente ao paganismo é aceitar perder
a vida pela vida. E assim testemunhar que só
há ressuscitados no ressuscitado Jesus!
Quem quiser fazer memória dos familiares
e amigos que já passaram deste limitado
útero que é o planeta ao infinito Oceano de
paz e de liberdade que é o Deus Vivo fonte
de todo o ser-viver não tem que ir a correr
meter-se num cemitério ou numa igreja.
Convide e sente os pobres à sua mesa.
Mesas partilhadas com os pobres onde
cada qual é tratado como irmão e como
amigo têm tudo de Eucaristia e de vida
celebrada. Revelam e anunciam que outro
mundo é possível e querem-no realidade
todos os dias e em toda a terra. São por
isso mesas fecundamente conspirativas.
Experimentem e verão como no decorrer
duma refeição assim a vida de cada qual
conhecerá surpreendente transformação.
No final sentimo-nos bem mais humanos do
que no começo. E com vontade de acolher e
de abraçar até os inimigos. Sinal claro de
que vivem os que tínhamos por mortos.