2005 NOVEMBRO 28
1.
A rua é a tua casa
dormes debaixo das pontes
coberto com o frio das noites
arrancas do lixo o teu comer
vestes solidão e desespero
e morres antes de tempo.
Ninguém te olha nos olhos
nem pára a escutar as estórias
que carregas de um país
que te pariu e te lançou
como uma folha de outono
à procura do paraíso europeu
Inferno foi o que achaste
o pior dos infernos onde
não há lar nem afectos
só desprezos à mistura
com a indigna caridadezinha
que nos humilha a todos
Paraíso seria acolhimento
como irmãs irmãos da gente
trabalho com direitos
pão e vinho partilhados
que dessem para ti e ainda
para os que deixaste lá longe
Dou-te a minha mão
e logo sinto um estremeção
percorrer-me todo o corpo
é o sangue da fraternidade
que nos liga na luta e na mesa
por uma Terra sem pobreza
Volta ao teu país lá longe
o paraíso que sonhas é lá
que tens de o construir
em união connosco aqui
faz da fome a tua força
e da Política a tua arma
2. “Et les autres?” E os outros? O meu amigo Pe. Serafim Ascensão continua a sentir-se perseguido por esta pergunta. Quem lha semeou no coração e na consciência foi um outro padre louco de amor solidário e gratuito com os excluídos de tudo, o famoso Abbé Pierre, co-fundador do Movimento Emaús, um monumento vivo de humanidade em quem toda a França se revê e por isso o elege, ano após ano, como a figura n.º 1 do país. A confidência escapou-se-lhe ontem durante a tarde, na abertura oficial da Comunidade Emaús da Rua do Almada, no Porto, durante o acto festivo e solene da sua entrega definitiva a este Movimento internacional que vive de olhos postos nas ruas das grandes cidades, sempre em busca de mulheres, de homens que, num qualquer momento das suas vidas, se viram obrigadas, obrigados a fazer delas a sua casa, por não haver para elas, para eles, lugar nas casas que habitamos e nos palácios que construímos, muito menos nas catedrais que erguemos, seja as velhas como a de Braga ou do Porto, seja a moderníssima catedral da SS. Trindade, neste momento em adiantada fase de construção no recinto do santuário de Fátima. Os ídolos de madeira ou de caco, de ouro ou de prata têm santuários e catedrais, onde pontificam bispos e cardeais com suas exóticas e finas roupas, rodeados e servidos por meninos de coro e por uma legião de eunucos clérigos; o grande Kapital e os seus donos têm luxuosos bancos de alta segurança, paredes grossas à prova de roubos; os governantes têm palácios onde exibem as suas vaidades e concebem políticas ao serviço dos interesses do grande Kapital e do Império, do qual são fiéis vassalos; as minorias ricas têm moradias de luxo, duas, três, quatro, cinco ou mais, e ainda luxuosos hotéis em todos os países do mundo, mesmo nos mais miseráveis, construídos a pensar exclusivamente neles; as famílias, mesmo remediadas, têm as suas casas, umas mais humildes, outras a rivalizar com as moradias de luxo das minorias ricas; as raposas têm as suas tocas e os pássaros os seus ninhos. Só as mulheres, os homens da Rua nas grandes cidades do nosso país e dos demais países do mundo não têm onde reclinar a cabeça. Por isso fazem das ruas e dos beirais a sua casa, do debaixo das pontes os seus abrigos, das geladas noites de inverno a sua roupa e dos restos lançados ao lixo o seu comer. São “les autres”, as outras, os outros, por quem Abbé Pierre, pelos vistos, sempre pergunta a quem dele se aproxima, nomeadamente, a quantas, quantos estão prestes a cair na tentação de o idolatrar ou de ficar a viver à sombra do seu nome, ou à sombra da sua incondicional entrega à causa dos Excluídos, mulheres e homens, em lugar de se se lhes entregarem também, tanto ou ainda mais do que ele. A pergunta é como uma chicotada que logo obriga quem dele se aproxima a olhar para lá dele, até encontrar aquelas, aqueles que foram e ainda são a razão de ser da sua vida de homem-padre-para-os-demais. Parar nele, será uma catástrofe, como é uma catástrofe parar nas hóstias e no cálice das missas que as paróquias católicas celebram a torto e a direito e a propósito de tudo e de nada. O que é próprio dos Sacramentos, também dos sacramentos humanos vivos, como é o Abbé Pierre, é que nos obrigam a buscar a Realidade mais real lá onde menos sonhamos que ela está. Assim como o Pão Partido e o Vinho Derramado/Partilhado nos remetem para os milhares de milhões de mulheres e de homens de carne e osso que estão aí como vítimas das cruéis e assassinas economias que hoje imperam no mundo, também Abbé Pierre nos remete para as mulheres, os homens da Rua. Parar nele é um desastre. Como parar nas hóstias consagradas e no Cálice abençoado. Mas é o que com mais frequência acontece na História, também hoje, e por isso o nosso mundo anda tão doente, tão cheio de religião e tão desprovido de sororidade/fraternidade e de comunhão efectiva e afectiva. Ainda abunda em caridadezinha, é verdade, mas morre à míngua de mulheres, de homens que o sejam para-os-demais. Como Jesus. Como Abbé Pierre. Como agora o Pe. Serafim Ascensão.
Soube antecipadamente de tão solene e tão raro acto de entrega incondicional aos Excluídos de carne e osso, e não pude deixar de estar discretamente presente. Quis associar-me ao acto por inteiro. Escutar a Palavra feita entrega efectiva. Partilhar daquela mesa comum e universal, lado a lado com mulheres e homens de cores e de culturas e de línguas diferentes. Alimentar-me daquele Sopro fecundamente libertador. Sobretudo, quis ser confirmado ainda mais, no decorrer de acto tão profundamente humano, como um homem-padre-para-os-demais, na pobreza dos meus meios e na fraqueza das minhas forças. Não importa o que sou, importa o que o Sopro de Deus Vivo é em mim. Porque não sou eu quem vive, é o Sopro de Deus Vivo que vive em mim. Felizmente, não fiquei defraudado. O Momento foi Eucaristia. O Acto foi sacramento. A Acção foi Apocalipse/Revelação do Invisível. Vimos Jesus. Ouvimos Jesus. Tocámos Jesus. Comemos o seu Projecto (= comemos a sua carne e bebemos o seu sangue). Tornámo-nos Jesus. Por isso, mulheres, homens de olhos postos nas Ruas. Irmãs, irmãos universais. Acolhedoras, acolhedores incondicionais das outras, dos outros. Corações que se deixam aquecer e arder pelos relatos e pelas estórias reais de quem vive à intempérie nas Ruas das grandes cidades, longe dos seus, ou sem ninguém.
É por aqui que está sempre a PASSAR (Páscoa) o Deus Vivo, a Palavra feita Carne humana, Mulher, Homem e se mulher desfigurada, se homem desfigurado, ainda mais é o Deus Vivo que está a passar. A tentação é deixarmo-nos cair na caridedezinha e despachá-los até à próxima ocasião. A solução é acolhê-las, acolhê-los, passar a caminhar com elas, com eles, deixarmo-nos incendiar/queimar pelos seus relatos e corrermos a fazer a Revolução ainda por fazer, que mude de vez as economias e as políticas nacionais e mundiais geradoras de pobreza em massa e de inumanidade. Poderemos não chegar nunca a ver os resultados, mas outras mulheres, outras homens como nós prosseguirão este combate, esta luta de transformação do mundo, um combate, uma luta que neutralize e supere cada vez mais os praticantes da caridadezinha, hoje tão de novo em voga, como convém ao grande Kapital fabricador de pobreza e de pobres em massa.
Estive de corpo inteiro naquele acto. E quase sempre em silêncio. A entrega do meu amigo Pe. Serafim era a grande Palavra. Havia que acolhê-la e deixar que ela me queimasse por dentro, como aconteceu àquele casal do primeiro Emaús, de que nos fala o Evangelho de Lucas. E assim aconteceu. Vim de lá ainda padre-homem ainda mais dos Pobres. Ainda mais padre-homem-para-os-demais. Ainda mais longe dos templos e dos altares. Quando, à despedida, me abeirei do Pe. Serafim, coloquei-lhe presbiteralmente a minha mão sobre a sua cabeça. Desta vez, longe da catedral onde um dia a Igreja nos ordenou. Confirmámo-nos deste modo reciprocamente na Missão. Longe dos Templos. Próximo dos Empobrecidos, dos Excluídos. Ele ainda mais do que eu. Olhámo-nos nos olhos. Sorrimos. E parti. Este é por isso o primeiro dia do resto da vida do Pe. Serafim. E também da minha.
Nenhum bispo, dos vários que há no Porto, esteve presente. E moram todos ali a dois passos da Rua do Almada. O palácio episcopal onde residem tem grossas paredes e os clamores das vítimas humanas não os atravessam. São piores que os muros da cidade de Jericó que outrora as trombetas dos soldados comandados por Josué fizeram cair. O dia em que desse velho e monumental palácio episcopal não fique pedra sobre pedra há-de chegar, mas ainda não chegou. Dos condiscípulos do Pe. Serafim, ainda no activo pastoral por algumas dessas paróquias da diocese fora, apenas um, um apenas, apareceu. E foi interiormente abalado embora. Eles sabem que o Pe. Serafim é definitivamente da Rua, das mulheres, dos homens da Rua. Não dos templos. Suja-se com o lixo humano. Dignifica-se como padre da Igreja de Jesus, mas ficará cada vez mais indigno de subir os altares da idolatria. Viverá permanentemente no altar da Humanidade empobrecida e oprimida, a partir da Comunidade Emaús da Rua do Almada que, desde agora integra e a que preside no Serviço libertador e promotor de autonomias humanas, mas sempre de olhos postos nas outras mulheres, nos outros homens da Rua que não fazem parte dela. Exactamente, como Jesus, o paradigma do Ser Humano, que deixa as 99 no deserto e sai escandalosamente à procura da que anda perdida. Não para a meter nos templos, mas para que também ela se encontre consigo mesma no encontro com as outras, os outros e todas, todos cheguem a ser autónomos, prontos a acolher e a servir os demais que continuam aí sem ter onde reclinar a cabeça. Bendito seja Deus Vivo, nossa Mãe/nosso Pai universal!
2005 NOVEMBRO 23
1. Às minhas irmãs lésbicas, aos meu irmãos homossexuais
E o Criador nos fez iguais e diferentes
heterossexuais umas, uns
homossexuais e lésbicas outros, outras.
Veio depois a Cúria do Vaticano
com os seus hipócritas Moralismos
e estragou toda a Criação. Semeou
a cizânia do Ódio e da Divisão
lá onde apenas havia o trigo da Graça
e da Bondade. Já lhe não bastava
ter afastado dos ministérios ordenados
as mulheres que o Criador fez
à sua imagem e semelhança tal qual
os homens e duma das quais até
fez nascer Jesus a quem reconheceu depois
como o seu Filho Bem-Amado. Ainda afasta
agora desses mesmos ministérios
todos os candidatos homossexuais.
Poderia (deveria?) ter levado mais longe
a sua crueldade e determinar que nenhum padre
nenhum bispo nenhum cardeal homossexual
poderá a partir deste dia prosseguir no exercício
do ministério. Quem sabe se não veria
amanhã os altares da Europa e do mundo
e as dioceses sem muitos
dos seus actuais responsáveis.
São por isso de luto estas minhas palavras
e de pranto estes meus versos pelo homem
de branco do Vaticano que teima
em seguir a via do seu conterrâneo Hitler
que mandou queimar vivos os judeus
e não podia ouvir falar em homossexuais.
Também não esperem ver-me a subscrever
doutrinas como esta que tresandam inumanidade
por todas as letras. Hoje e sempre
farei minha a via ou caminho de Jesus
que em lugar de Vaticanos conheceu a Cruz
e tão pouco gosta(va) de monges
enclausurados e passa(va) a maior parte
do seu tempo sentado à mesa
com Excluídos de todo o tipo
e de todas as tendências. E ainda tem
o atrevimento de dizer que os Excluídos
seja qual for a sua tendência sexual
hão-de preceder os papas
e os bispos no Reino de Deus.
Deixem para lá minhas irmãs lésbicas
meus irmãos homossexuais mais
esta barbaridade papal. Perdoai-lhe
desde já este seu grave pecado
contra a Criação e esta sua agressão
sem nome contra a Humanidade.
Respondei-lhe tão só com a força
da vossa Ternura. Bem ao jeito
do Deus Vivo de quem sois
filhas bem-amadas, filhos bem-amados.
2. Diocese e Universidade do Algarve assinaram protocolo para a criação de capelania
A notícia é da Agência Ecclesia e parece que foi escrita com os pés. Mas dá bem para perceber como os nossos Bispos residenciais e os senhores do Poder do País continuam a entender-se às mil maravilhas, para que as populações permaneçam indefinidamente assim como um rebanho. Que querem? O Estado é laico, mas mantém uma Concordata com o Estado do Vaticano. E isso faz toda a diferença. Rege-se por uma Lei da Liberdade Religiosa, na sua relação com as diversas Igrejas presentes no país, mas na sua relação com os Bispos da Igreja católica continua a fazer de conta que essa Lei não existe. E por isso vale tudo, desde que seja para favorecer os interesses dos Bispos da Igreja católica e os interesses das instituições do Poder. Com lágrimas o escrevo. Porque se há instituição que deveria fugir de situações de privilégio e de favor, nomeadamente, com os homens do Poder, é a Igreja católica. Ou não seja ela, pelo menos oficialmente, discípula de um Condenado à morte pelos homens do Poder e logo barbaramente executado por eles. Mas que querem? Os privilégios pesam mais do que a fidelidade ao Evangelho de Jesus. De resto, já no início, um dos Doze foi ao extremo de trair o Mestre e vendê-lo por 30 dinheiros.
Leiam a notícia na íntegra. E tirem as vossas conclusões. No tocante a pagar as despesas com a capela, é com a Universidade, pois claro. No tocante a nomear e exonerar o padre que ficará a exercer o cargo de capelão, é com o Bispo do Algarve. Tudo muito simples como se vê!... Digam lá se as missas e as rezas esteriotipadas dos padres e dos bispos não continuam a assustar os homens do Poder, inclusive, reitores de Universidades públicas!? Por este andar, mais um pouco de tempo e veremos reitores de Universidades públicas a determinar que os estudantes que as frequentam são obrigados a ir à missa e a confessar-se e a comungar ao menos uma vez cada ano… Felizmente, a esmagadora maioria dos estudantes vê estas coisas, encolhe os ombros de indiferença e passa adiante. Mas cuidado, que água mole em pedra dura, tanto dá até que fura. Olho vivo. E, já agora, se ainda for a tempo, porque não uma posição de força, por exemplo, uma inteligente paródia, por parte dos estudantes da Universidade do Algarve, contra este regresso da velha cristandade à sua Escola?
Eis aqui a reprodução da notícia, tal como ela está a ser divulgada pela Agência Ecclesia:
A Diocese do Algarve e a Universidade do Algarve estabeleceram na passada segunda-feira, dia 21 de Novembro, um protocolo de cooperação geral com vista à criação de uma capelania naquele estabelecimento de educação. A Universidade obriga-se a providenciar um espaço adequado destinado ao lugar de culto próprio da capelania, isto é uma capela, bem como um espaço para o capelão fazer o seu atendimento e também disponibilizará os espaços disponíveis para actividades a desenvolver pela capelania. A nomeção [nomeação?] e exoneração do capelão são da exclusiva competência do Bispo da Diocese, cabendo à Universidade apoiar financeiramente todas as actividades extraordinárias da capelania sempre que sejam revelantes [relevantes?] para a vida de toda a comunidade académica com o apoio da Reitoria. A capela poderá vir a ser utilizada por outras religiões no âmbito de protocolos a celebrar com representantes das mesmas depois de ter sido ouvida a Diocese do Algarve, através do Capelão da Universidade. Adriano Pimpão, reitor da Universidade do Algarve, no decorrer do acto que decorreu na reitoria da instituição, destacou a representatividade da Igreja católica na sociedade portuguesa. “Não podemos esquecer que a Igreja católica em Portugal é a Igreja que maioritariamente é professada pelos portugueses”, por isso “nesta matéria temos de ser objectivos e não criar complexos”, disse. Por outro lado defendeu o reitor “não podemos esquecer que as Universidades não são só centros de instrução, são também centros de formação e educação”. “Essa educação não se limita à componente técnica. Queremos formar cidadãos activos com uma formação integral”, complementou, acrescentando que “a Universidade tem de ser uma instituição activa na defesa dos valores”.Por seu turno, D. Manuel Neto Quintas, Bispo do Algarve, entende que “este acto permite, através do serviço da capelania, proporcionar a quantos o solicitarem a integração no aprofundamento dos valores éticos e espirituais”. O Bispo diocesano congratulou-se aquele acto “pelo que ele tem de inovador dentro do conjunto das demais universidades”, sublinhando “a cooperação no respeito da diversidade”.De acordo com o que está estabelecido, o Bispo do Algarve nomeou o padre Carlos César Chantre como primeiro Capelão da Universidade do Algarve, que na prática vinha já desempenhando essas funções nos últimos anos, embora não de forma oficial. A sede/capela da capelania funcionará no Campus de Gambelas, nos pavilhões de origem da instituição, e no Campus da Penha terá lugar também um gabinete para assistência espiritual dos estudantes.
2005 NOVEMBRO 19
1. Poema
Caminhas. Para onde?
Corres. Ao encontro de quê e de quem?
E se aquilo porque sais por aí à procura
a tão alta e perigosa velocidade
só serve para te afastar ainda mais
do teu vizinho
da tua própria mãe
da tua mulher e dos teus filhos?
Caminhar é amar. É sair ao encontro
de alguém. Não há caminhar humano
sem afectos. Sem proximidade.
Não te rias porque eu disse “afectos”.
Só os robots conseguem viver sem afectos
correr sem ser para se encontrar com
outros seres semelhantes a si
comer sem ser para fazer comunhão.
Caminhas. Corres. Antes que te estampes
na próxima curva pousa a mão direita
sobre o teu coração. Ainda bate? Acelerado?
Se é por mais e mais Dinheiro
que o teu coração bate
e em ritmo tão acelerado deixa-me
chorar inconsoladamente por ti.
2. Acaba de cair o primeiro soldado português na guerra do Afeganistão. O veículo militar em que seguia com outros companheiros era blindado. Não o suficiente para resistir ao engenho explosivo que o matou e deixou os restantes feridos. O ministro da defesa havia estado três/quatro dias antes com ele e seus camaradas de armas. As televisões mostraram. Foi uma imprudente maneira de tirar do anonimato a presença das tropas portuguesas naquele país em guerra. Fez delas um alvo preferencial. E aí está a primeira vítima mortal! O nosso país ainda não sabia o que é perder um dos seus filhos nesta guerra imposta pelo Império de turno aos seus aliados. Agora, já sabe. E pode melhor aquilatar da verdade/mentira e da justiça/injustiça desta guerra.
O discurso oficial veio logo a correr dizer que o soldado morto é um herói que honra Portugal. Ainda não sabe – o Poder nunca sabe nada sobre os seres humanos de carne e osso – que a honra de um país é que todos os seus cidadãos, todas as suas cidadãs vivam e vivam em abundância. Só um país convertido em ídolo e caído em idolatria se pode sentir glorificado e honrado com vítimas humanas.
Constato que nesta dramática circunstância, ninguém se atreveu a levantar a questão de fundo: os homens e as mulheres que se alistaram voluntariamente para operar no distante Afeganistão, são soldados ou mercenários? Qual a causa por que se batem? O que os fez alistar-se, deixar a família e o país e embarcar para o Afeganistão? O amor ao povo afegão? O amor à liberdade? O amor à paz? Ou o Dinheiro que aquela missão, apesar de arriscada, dá a ganhar? Mais. Pode-se integrar as Forças Armadas de um país e, mesmo assim, ser-se mercenário? Agora que o serviço militar é de voluntários, o que leva uma jovem, um jovem a alistar-se nas fileiras militares? Estas seriam, obviamente, boas questões que o Bispo das Forças Armadas poderia e deveria levantar nestes dias junto da consciência de cada militar no activo. Será que encontraria ao menos 50, ou 40, ou 30, ou 20, ou 10 que são militares para ajudar a defender a Humanidade mais sofrida e mais exposta aos tubarões do Império? Mas quem quiser viver semelhante opção corre a alistar-se nas Forças Armadas do seu país, quando é manifesto que elas são parte integrante do Estado e que existem para cumprir missões que interessam ao Poder de Estado e ao Império de turno, do qual cada um dos Estados tem que ser aliado, se quiser subsistir num mundo de súbditos?
Um mercenário nunca será herói de um país, menos ainda da Humanidade, mesmo que venha a perder a própria vida. O mercenário é o contrário do bom pastor, que dá gratuita e desinteressadamente a vida em defesa de vidas concretas que estão aí à mercê do Império e dos seus tubarões sem escrúpulos.
Haveríamos de ter coragem para debater estas e outras questões semelhantes, mesmo no meio da dor que se abateu sobre os familiares do militar morto em missão de patrulhamento no Afeganistão. Infelizmente, preferimos enterrar a cabeça na areia. Outros soldados poderão morrer vítimas de novos rebentamentos explosivos nos dias que aí vêm. Continuaremos a preferir enterrar a cabeça na areia. Tal como fazem os americanos que têm familiares na hedionda guerra do Iraque.
Neste particular, até parece que ainda não saímos da idade da pedra. O sacrificialismo dos cultos politeístas do Paganismo arreigou-se de tal modo nas nossas mentes e nas nossas consciências, que nem que nos matem os próprios filhos na guerra, nos revoltamos e sublevamos contra o Estado e contra o Império que os aliciou. Pelo contrário, tudo sofremos com paciência e resignação. E até somos capazes de pensar que eles morreram em desconto dos nossos pecados. Neste caso, a indemnização em dinheiro que os familiares venham a receber do Estado por esta morte é como aquele dinheiro que os párocos católicos recebem por cada missa a que presidem pela “alma” dos que já morreram. Nunca como aí o mercenário é tão cruelmente mercenário.
2005 NOVEMBRO 16
1. Para começar, dou-vos um beijo e um abraço em forma de Poema:
No princípio era a Palavra
aquela Palavra que faz ser
o que não é e que levanta
o que está caído e morto.
Palavras não são a Palavra
aquela Palavra que faz ser
o que não é e que levanta
o que está caído e morto.
No princípio era a Acção
Política como convém
quando o Sonho é chamar
à vida o que não é e levantar
o que está caído e morto.
No princípio era a Palavra-Acção
E por isso eu sou
tu és ela/ele é nós somos
para sermos Palavra-Acção
Política como convém
Revolução como é preciso
Entrega da própria vida
como só o amor é capaz.
2. Presidenciais. Não haverá quem convença o avozinho Mário Soares a desistir de candidato à PR? Aquela cena, ontem, com as criancinhas, exibida nos telejornais é o que há de politicamente mais confrangedor. Não pelas crianças, obviamente, mas pela Política e pela função de presidente da República. Já nos bastou o avozinho corta-fitas do tempo da outra senhora, quando Salazar era o ditador e o tirano, com a bênção da hierarquia católica e da senhora de Fátima (como se sabe, a senhora de Fátima está aí de novo em força, para impedir que as populações cheguem a ser esclarecidas, lúcidas e protagonistas). Vem aí Cavaco Silva, segundo rezam todas as sondagens. Entrará pela porta larga do voto popular, tal como Hitler, outrora, na Alemanha, e possivelmente ao som de Te Deum’s nas igrejas do país. Os desesperados apostam sempre no ditador e no tirano. Não no avozinho. O avozinho também é preciso, mas apenas para cortar fitas e distribuir prendas de Natal que, pelos vistos, agora é praticamente todo o ano e não apenas na noite de 24-25 de Dezembro. Votem Cavaco Silva e verão o Sócrates ou outro que o substitua (o Marques Mendes já está à espreita!) a cortar fitas. Ou assim, ou iremos assistir a uma guerra institucional, de poleiros, contra o País real.
Haja, pois, quem convença o avozinho Mário Soares a desistir da sua candidatura. Mas não só. Haja também quem convença os outros candidatos das diversas Esquerdas partidárias a conversar entre si o presente momento político que o país está a atravessar, a caminho do abismo, da ditadura e da tirania. Eles não podem continuar por mais dias a dar tiros nos próprios pés e nos pés uns dos outros. Se assim continuarem, Cavaco Silva e os grandes interesses econonómico-financeiros e eclesiásticos que o apoiam e catapultam para a presidência da República (os grandes media são deles, estúpido!) só têm que esfregar as mãos de satisfação. E nem precisam de gastar muita saliva e dinheiro na campanha eleitoral. Aliás, quanto menos campanha fizerem (lembram-se que o ditador e tirano Salazar também não fazia campanha eleitoral e foi assim que se manteve em funções até cair da cadeira), mais folgada será a sua vitória, se entretanto os candidatos das Esquerdas partidárias teimarem em dar tiros nos próprios pés e nos pés uns dos outros. Nesse encontro à porta fechada, sugiro que debatam duas hipóteses e optem por aquela que for achada mais capaz de tirar o tapete a Cavaco Silva e o meter ao fundo, apesar dos apoios dos grandes interesses económico-financeiros e eclesiásticos e seus media:
a) Ou desistem todos a favor de um deles que apareça como o candidato alternativo a Cavaco Silva;
b) ou desistem todos a favor de uma candidatura, de preferência feminina, com estofo moral e político capaz de dar de novo dignidade e eficiência à Política, coisa que os actuais candidatos das Esquerdas partidárias não estão mais em condições de dar, devido a serem todos caras demasiado conhecidas, demasiado expostas, desgastadas, desacreditadas, que as populações que irão decidir a eleição para a presidência da República (não esquecer que, nesta eleição, o sufrágio é directo e universal/nacional) já não tomam a sério.
Ou conseguimos unir as populações em torno duma candidatura verdadeiramente alternativa a Cavaco Silva, ou depois não nos queixemos. Em meu entender, essa candidatura passa por alguém, de preferência, uma cidadã que não está ainda na corrida presidencial, nem estará, enquanto os candidatos das Esquerdas partidárias continuarem aí numa luta de galos, a dar tiros nos próprios pés e nos pés uns dos outros. Primeiro, saiam todos de cena, a começar, obviamente, pelo avozinho Mário Soares. Tenham(os) todas, todos essa humildade pessoal e política.
Regressemos à Política com dignidade. Só ela poderá vencer Cavaco Silva e os grandes interesses económico-financeiros e eclesiásticos que o apoiam. E, se já não formos a tempo de o derrotar, nestas eleições, pelo menos ficará no terreno um Movimento Político de resistência ao seu mandato, para que os estragos que dele resultam para o País não sejam tão gravosos e o ditador e o tirano na presidência da República depressa seja derrubado por uma Insurreição Cívica nacional como nunca houve.
É mais que tempo de sairmos desta apagada e vil tristeza!
2005 NOVEMBRO 11
O ICNE (Congresso Internacional para a Nova Evangelização) que continua a decorrer em Lisboa, foi de peregrinação a Fátima. Não bastou que a famigerada imagem da senhora que ali está exposta permanentemente ao culto, seja amanhã transportada para Lisboa (como sabem, tem que ser transportada por alguns humanos, uma vez que ela não passa duma imagem morta, que não anda, não vê, não ouve, não come, não sente, não fala, não se lava, não se veste), os congressistas, entre os quais estão muitos estrangeiros, fizeram questão de peregrinar até ao local do crime, habilmente convertido em local de peregrinação mundial. Não se deixem impressionar com estes gestos miméticos e de puro paganismo. Também os milhões de judeus do tempo de Jesus que viviam na diáspora, faziam questão de peregrinar, pelo menos, uma vez por ano, ao Templo de Jerusalém e nem por isso Jesus deixou de classificar esse “Lugar santo”, como “covil de ladrões”. E simbolicamente até o destruiu, o que, obviamente, lhe terá valido a morte na Cruz.. O cardeal patriarca de Lisboa também integrou a comitiva e presidiu lá a uma missa. Mais uma. E fez uma homilia, carregada de doutrina eclesiástica e de recados, que comentarei mais abaixo.
Tudo decorreu na chamada Capelinha das Aparições (tantas vezes nos falam de “aparições” em Fátima, que as pessoas, mesmo as mais cépticas e as mais lúcidas, podem acabar por ser levadas a pensar que as houve mesmo. A mim é que não me convencem. Aparições da “Virgem” e Fé no Deus de Jesus de Nazaré são absolutamente incompatíveis. À luz da Fé de Jesus e da Teologia que dela decorre, as chamadas “aparições da Virgem” são uma impossibilidade absoluta. Por mais que o cardeal de Lisboa e os outros bispos nos andem a dizer o contrário. E os últimos papas de Roma. O mais grave é que o cardeal de Lisboa e os outros bispos e os papas de Roma sabem que é assim como eu acabo de escrever. Pelo menos, têm obrigação de saber. Porque o que não for assim, é pura idolatria. E a idolatria é má, não tanto por causa de Deus Vivo, mas sobretudo por causa dos seres humanos. Quem sai prejudicado com a idolatria são os seres humanos, não é Deus Vivo. E, se a Revelação bíblica, tanto do Testamento Hebraico como do Testamento Cristão, é tão feroz contra os ídolos, fêmeas ou machos, não é por causa de Deus Vivo. É por causa dos seres humanos. É que os ídolos – as deusas e os deuses que inventamos nos nossos medos e nos nossos delírios – são cruéis, inumanos, devoram-nos a alma, humilham-nos, fazem-nos viver de rastos, alienam-nos, roubam-nos a História, tiram-nos o Mundo, fazem-nos correr Seca e Meca para subirmos aos seus santuários onde há sempre uma legião de sacerdotes ou clérigos, com um reitor no topo, quando não um bispo ou um cardeal, e um enorme exército de funcionários intermédios (em Fátima, chamam-lhes “servitas”), que vivem à sombra e à custa de toda aquela Mentira organizada e por isso são os primeiros a “acreditar” nas “aparições da Virgem” e a difundi-la. Afinal, é dessa Mentira que vivem, assim como as suas famílias.
Imaginem que, um dia, em cada um desses grandes santuários “marianos”, perdão, da “Virgem” (não, senhor cardeal patriarca de Lisboa, não senhores bispos de Portugal: Maria, a de Nazaré, não está metida nesse embuste de Fátima, nessa Mentira. Como mulher histórica que é, teve enormes dificuldades em entender a missão do filho das suas entranhas, tão radicalmente libertadora e integradora de todos os povos esta missão é, inclusive chegou a ser contra ele, concretamente, chegou a admitir publicamente que ele estivesse louco e quis ter mão nele, isto é, quis controlá-lo e dominá-lo, mas, finalmente, acabou por lhe dar a sua adesão e tornar-se sua discípula exemplar, paradigma das discípulas, dos discípulos), entrava o próprio Jesus de Nazaré. E imaginem também que ele, ao ver toda aquela Mentira e todo aquele negócio que neles se pratica, voltava a pegar no chicote e a derrubar as mesas e os altares, como fez outrora contra o Templo de Jerusalém. Pensam que quem vive de toda aquela Mentira lhe perdoava o atrevimento e que acatava a sua libertadora profecia feita atitude concreta? Eram capazes de continuar, nesse mesmo dia, a fazer missas ritualizadas, em seu nome, assim transformado em mito inofensivo, mas a ele matavam-no, de novo, como fizeram os sacerdotes do Templo de Jerusalém.
É verdade. O poder da Mentira é tão grande, tão grande, que causa calafrios em cada uma, cada um de nós. Não é grande em si mesmo, é grande porque nós, os seres humanos, pensamos que ele é grande e logo procedemos em conformidade. Assim têm sido as coisas. Todas, todos nascemos e crescemos dentro desta Ordem Económica e Política Mundial – a Mentira organizada por antonomásia – que retém a Verdade cativa na Injustiça. E, em lugar de lhe resistirmos com todas as forças, com toda inteligência e com todo o entendimento, corremos a cair-lhe no regaço e pomo-nos de joelhos diante dela e dos seus chefes-mor, ou como cães assustados, de rabo entre as patas, ou como cães com o rabo a dar a dar, de satisfação. Já repararam que os cães sempre saltam de satisfação canina, quando vêem aproximar-se o dono, nem que este seja o pior dos escroques e o pior dos assassinos?! Pois assim nós, os seres humanos, diante desta Ordem Mundial que retém a Verdade cativa na Injustiça, sobretudo, diante dos seus chefes-mor. Em lugar de lhes resistirmos com todas as forças, corremos a cair de satisfação diante dela e deles, e tanto mais quanto os poleiros que ela e eles nos oferecem forem altos e bem remunerados, nos derem muitos privilégios e fizerem de nós uma espécie de deuses para os demais, longe, muito longe dos seres humanos, concretamente, dos pobres, dos oprimidos, dos humilhados, dos "pecadores", dos que têm que rastejar a vida inteira por uma côdea de pão…
Pois bem, através da Agência Ecclesia, pude ler na íntegra a homilia que o senhor cardeal patriarca de Lisboa proferiu nesta peregrinação do ICNE a Fátima. E não resisto a transcrevê-la aqui, de seguida. Para que conste. Leiam-na. Reflictam sobre ela. Vejam se estas palavras aquecem o coração de alguém, hoje. E se nos mobilizam para a ingente e urgente missão de derrubar a Mentira organizada que é a actual Ordem Económica e Política Mundial. Vejam se as suas palavras sintonizam com o Evangelho de Jesus. Se o actualizam para o nosso aqui e agora nacional, europeu e mundial. Eis (o que no texto aparece em itálico, dentro de [ ], são breves comentários meus, obviamente):
. 1. Neste dia em que o nosso Congresso se fez peregrino do Santuário da Virgem, Senhora do Rosário [vejam esta designação “Virgem, Senhora do Rosário”. Está correctíssima, mas enquanto reproduz um dos muitos nomes da mítica Deusa Virgem e Mãe dos cultos politeístas do Paganismo. Como tal, não tem nada a ver com Maria, mãe de Jesus, mulher histórica de carne e osso, em tudo igual às nossas mães hoje], celebramos a Festa da Dedicação da Basílica de São João de Latrão, a Catedral da Igreja de Roma, a primeira entre as Igrejas, porque construída sobre os túmulos dos Apóstolos Pedro e Paulo, a que preside o Bispo de Roma, o Sucessor de Pedro. [Estas designações eclesiásticas todas assentam como uma luva numa Igreja sucessora do Império romano, não numa Igreja-discípula de Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império. E quanto ao Bispo de Roma Sucessor de Pedro – tudo com maiúsculas, pois claro – melhor fora que fosse sucessor de Simão, não de Pedro. Assim, nunca habitaria em palácios, como ela depressa aprendeu com César de Roma. Viveria como Jesus, sem ter onde reclinar a cabeça. Os palácios e as catedrais são símbolos do poder. São Pedra/Pedro/Poder que esmaga sobre quem caírem. O contrário do que fazem as entranhas humanas] Esta coincidência litúrgica convida-nos a meditar sobre a evangelização como construção da unidade da Igreja, [Evangelizar é simplesmente construir a unidade da Igreja? Mas então Jesus que veio Evangelizar os pobres e libertar os oprimidos, e nunca se preocupou com Igreja nenhuma, apenas com a construção do Reino/Reinado de Deus, não encaixa dentro desta doutrina eclesiástica!...] porque toda ela, enquanto anúncio do Evangelho, encontra o selo da sua autenticidade na unidade com o Magistério de Pedro. [Cá está a preocupação do Poder eclesiástico. Assim, nem é preciso o Espírito Santo, o tal que sopra onde quer e que nem a Igreja sabe de onde vem nem para onde vai; hoje, pode estar a soprar forte nos jovens das cidades nos subúrbios de Paris, para derrubar a Mentira que é esta Ordem Económica e Política Mundial que temos. Aos do Poder eclesiástico, importa mais a unidade com o Magistério de Pedro/Pedra/Poder, do que a sintonia com o Espírito que sopra onde quer, sem pedir licença ao Magistério de Pedro] Evangelizar é proclamar a mensagem da salvação [só proclamar? Não é sobretudo fazer acontecer? Não exige entrega martirial e duélica de vidas concretas, como exigiu em Jesus e às apostolas, aos apóstolos no princípio? Acaso a simples proclamação da mensagem de salvação salva o mundo? De Jesus não se diz que “começou a fazer e a ensinar”?] e a sua autenticidade é garantida pela comunhão sincera e obediente com a verdade proclamada na Igreja de Roma, [a verdade proclamada pela Igreja de Roma? Ou com a Verdade, simplesmente? Quantas vezes a verdade proclamada e praticada pela Igreja de Roma matou a Verdade e a Liberdade que a Verdade sempre faz acontecer? Quantas vezes a verdade proclamada e ensinada pela Igreja de Roma oprimiu e aterrorizou consciências, ao longo dos séculos? Aquele “Amai a Verdade que a Verdade vos fará livres”, de Jesus, é a mesma coisa que “a verdade proclamada pela Igreja de Roma?] a que tem a primazia da verdade e da caridade [Tem a primazia? Não sabe o senhor Cardeal que negar a verdade (histórica) conhecida por tal é um dos pecados que bradam aos céus? A primazia não é toda de Jesus, o Mestre?]. Nada enfraquece mais a missão evangelizadora da Igreja do que a quebra desta unidade, garantia da objectividade da verdade, reduzindo a mensagem à verdade de cada um, ao sabor de correntes de pensamento, sujeitando-a aos ditames de uma racionalidade mal compreendida. [será que uma racionalidade mal compreendida só se verifica fora dos seres humanos que não são papas, cardeais, bispos, clérigos em geral? Lá onde há poder absoluto a salvaguardar e a defender, como é o caso do Papa e da sua Cúria Romana, não é também lá onde a racionalidade mais pode ser mal compreendida e até propositadamente manipulada?] Passa por aqui a fidelidade à verdade de todos os anunciadores do Evangelho, em primeiro lugar a nossa fidelidade de Pastores, que unidos ao Bispo de Roma no Colégio Apostólico, somos, com ele, esse templo vivo donde jorra a água viva que recria e transforma. [E Jesus de Nazaré e o Espírito Santo onde é que cabem? Ainda há espaço para eles? A ser assim, Jesus de Nazaré não ficaria de fora desse circuito de poderosos eclesiásticos, como um excomungado?! É isto Evangelizar os pobres?] A nossa fidelidade [a quem? Ao Papa? À Cúria Romana? Ao Bispo residencial? Ou a Jesus e ao Espírito Santo? Em caso de conflito de interesses, entre Jesus e o Papa, a quem havemos de obedecer e ser fiéis? Paulo, no princípio, não resistiu a Pedro, para melhor poder defender a Liberdade do Evangelho?] é a garantia da fidelidade de todo o povo dos crentes, que na adesão sincera à verdade proclamada pela Igreja, constituem aquele “sentido da fé” de todo o Povo de Deus, enquadramento seguro de toda a evangelização
2. Na visão de Ezequiel estão já enunciadas algumas características essenciais de toda a proclamação da verdade: a sua fonte é divina e sacramental, porque brota como água viva, do próprio Santuário [Ezequiel assim escreve, de facto. Mas, depois de Ezequiel, aconteceu Jesus, o de Nazaré, assassinado pelo Santuário/Templo. Tornou-se ele, Crucificado/Ressuscitado, o único Santuário/Templo que não aliena, que não mente, que não oprime, que não assassina. Não ter isto em conta, é faltar à verdade e tirar conclusões que não estão na Revelação bíblica de Deus, que é, definitivamente, Jesus, o Crucificado pelo Templo e o Império]; o seu fruto não é apenas convencer mas recriar, dando uma vida nova a tudo o que é fecundado por esse rio de água viva. Na Igreja esse santuário donde jorram, abundantemente, esses rios de água viva, autêntica “fonte da salvação” é Jesus Cristo Vivo, que se dá à Igreja e ao mundo em cada Eucaristia. O próprio Senhor se considerou a Si Mesmo o verdadeiro Templo, destruído e definitivamente reconstruído na Sua ressurreição. Como o Evangelista São João anteviu, simbolicamente, na água que jorrou do lado aberto do crucificado, é de Cristo morto e ressuscitado que brota toda a água viva da verdade, com a força transformadora própria de um acto criador. No centro desse santuário, tornado fonte inexaurível de vida e de graça, está Maria, pela misteriosa união co-redentora ao seu Filho Jesus Cristo. Em Maria, a co-redenção é o novo rosto e a nova dimensão da sua maternidade. Neste novo e definitivo santuário, Ela, que a Tradição viu figurada na “Arca da Aliança”, que no Antigo Testamento ocupava o centro do santuário, não é apenas a água que jorra e purifica, ela é também a fonte, porque mediadora da graça, a sua ternura maternal é fonte da graça da redenção. [É sabida a tentativa de, desde os primeiros séculos da Cristandade, após Constantino, endeusar Maria, a mãe carnal de Jesus, para encher o vazio deixado pela proibição dos cultos politeístas, nomeadamente, o culto da Deusa Virgem e Mãe. Mas a grandeza de Maria, na economia da salvação, reside precisamente na sua humildade. Tudo o que os Evangelhos dizem dela, nomeadamente, os dois primeiros capítulos do Evangelho de S. Mateus e do Evangelho de S. Lucas, é de Jesus que o dizem, não de Maria. A grandeza de Maria é ter chegado a ser, finalmente, discípula paradigmática de Jesus. O próprio Evangelho de João que tanto parece engrandecer Maria, tem o cuidado de nunca lhe chamar Maria. Sempre se lhe refere como “a mãe de Jesus”. É assim em Canã da Galileia e junto à Cruz, no Calvário. Erradamente, temos ensinado que se trata de Maria. E não é verdade. Neste Evangelho, “a mãe de Jesus” é uma figura bíblico-teológica que está pelo pequeno resto do povo judeu fiel à Aliança e que reconheceu Jesus de Nazaré, como a grande Presença de Deus Vivo e Salvador entre nós e connosco e, finalmente lhe deu a sua adesão, ao ponto de passar a integrar a primeira Comunidade de discípulas, de discípulos. Nosso Deus é, simultaneamente, pai e mãe, não há um Deus Pai e uma Deusa Mãe. Os cultos politeístas do Paganismo religioso é que diziam que sim. E continuam a dizer, pelo menos, no sentir e falar das populações ainda geneticamente marcadas por aqueles cultos politeístas, e nunca verdadeiramente evangelizadas. Fora de Deus Vivo, ninguém é mãe nem pai. E até aquelas, aqueles que o são, por força da natureza, serão simplesmente irmãs, irmãos, quando formos definitivamente ressuscitados.]
3. Quanto acabámos de dizer convida-nos a tomar consciência de algumas qualidades fundamentais de toda a evangelização:
* A sua fonte é divina e sacramental. A fonte donde jorra a água viva, que é Palavra e Sacramento, é Jesus Cristo ressuscitado, que nos dá continuamente o Espírito que vivifica e transforma. O santuário donde brota a salvação, é Cristo e a Igreja, sobretudo no Sacramento da Eucaristia, donde brota a força recriadora da Páscoa. [Não confundir nunca Eucaristia com essas missas a granel que por aí se fazem a propósito de tudo e de nada, em acções de pura magia sacramental e, na maior parte dos casos como ocasião para dar dinheiro a ganhar ao respectivo presidente da assembleia, o que perfaz um acto de repugnante simonia, por mais que a hierarquia lhe chame “esmola”, “emolumento”, “oferta”. É caso para dizer que nem Judas se atreveu a tanto, pois se recebeu os trinta dinheiros da sua traição, eles queimaram-lhe as mãos e a consciência, e por isso terá ido atrás arrojá-los no Santuário/Templo de onde havia sido tirado pelos sumos sacerdotes para lhe pagarem o crime!] Evangelizar não é simples tarefa humana, com os critérios de eficácia que lhe são próprios. A sua fecundidade é a de Cristo ressuscitado, que actua, em ritmo sacramental, através da acção da Igreja. A evangelização é expressão da caridade, do infinito amor redentor de Jesus Cristo.
* Os agentes da evangelização têm de mergulhar, continuamente, na fonte da graça e da verdade. [Onde fica esta fonte? Nos templos e altares? Ou nos lugares teológicos de difícil acesso, que são os empobrecidos e oprimidos do mundo – “foi a mim que o fizestes”, diz Jesus – nos seus clamores e, sobretudo, nos seus silêncios ensurdecedores que nunca conseguem penetrar e fazer-se ouvir nos palácios dos grandes senhores, nem nas suas catedrais, nem nas suas basílicas. E, quando entram em santuários como o de Fátima, ainda é para aí serem comidos, sugados, ludibriados, alienados por todo um cenário e uma liturgia de Mentira e de Medo, demoniacamente bem montada] A capacidade evangelizadora é uma graça baptismal e eucarística e é expressão do anseio de santidade.
* A evangelização exprime o que de mais profundo existe na Igreja, na sua fidelidade a Jesus Cristo, na sua fé que desabrocha em comunhão, no seu desejo de diálogo com o mundo. O anúncio do Evangelho, se visa a salvação das pessoas, é fundamentalmente expressão da vitalidade da Igreja, da sua fidelidade e busca de autenticidade. Quem evangeliza é a Igreja, que cresce na sua autenticidade, evangelizando.
* Por isso a evangelização tem uma dimensão marial. Nossa Senhora [o título, à letra, quer dizer “Nossa Deusa”, por isso, é a negação de Maria de Nazaré e a afirmação da mítica Deusa Virgem e Mãe], que no dizer do Concílio “é um membro super-eminente e absolutamente único da Igreja, [mas exactamente, enquanto mulher histórica, criatura humana como todas, todos nós, não enquanto figura mítica e deusa, que isso já seria entrar pelo Paganismo e desonrar esta mulher histórica e toda a Humanidade que ela representa] para quem é modelo e exemplar admiráveis da fé e da caridade” (LG. nº 53) é parte constitutiva da riqueza da Igreja. “Sede da Sabedoria”, ela ajuda a Igreja [mas não só ela, também e sobretudo os empobrecidos e os oprimidos do mundo, todos esses milhares de milhões de vítimas da História] a mergulhar na Páscoa de Jesus, única fonte dessa água viva que pode recriar o homem e o mundo [Jesus é a única fonte, sim, mas jamais podemos convertê-lo num mito, roubar-lhe a sua humanidade, desintegrá-lo da História, do resto do Corpo, concretamente, daqueles seus membros que continuam aí a ser cruelmente crucificados pelos donos desta Ordem Económica e Política Mundial intrinsecamente perversa e assassina, como o Pai – a Mentira – que a pariu e que, no dizer de Jesus no Evangelho de João, é homicida e genocida desde o princípio].
Aqui aos seus pés, no seu Santuário, dizemos-lhe, com confiança filial, que queremos partir dela e com ela, no anúncio da salvação. [Esta é uma linguagem teologicamente ambígua, a descambar na idolatria e que fica a dever muito ao Paganismo que ainda não nos deixou de vez, o que só acontecerá, quando o Evangelho de Jesus e o seu Espírito ou Sopro nos varrer até aos genes. O que não é nada fácil, sobretudo, quando somos mais poder do que seres humanos, mais privilegiados do que servidores, mais eminentíssimos senhores do que simples discípulos de Jesus, como Maria, a de Nazaré]
Santuário de Fátima, 9 de Novembro de 2005
† José, Cardeal-Patriarca
2005 NOVEMBRO 08
Está a decorrer em Lisboa o Congresso Internacional para a Nova Evangelização (ICNE), numa iniciativa da Diocese/Patriarcado de Lisboa, em cooperação com as dioceses de mais umas quantas grandes capitais europeias. O Congresso assume-se como um grande evento “para a nova evangelização”, mas a verdade é que, em lugar do Evangelho de Jesus, o que os promotores do evento mais estão a tentar meter pelos olhos dentro das pessoas e das populações é a imagem da senhora de Fátima. E não uma imagem qualquer, das muitas imagens de senhoras de Fátima que já existem em Lisboa – cada igreja paroquial católica tem pelo menos uma, à mistura com muitas outras nossas senhoras de outros nomes, consoante as doenças e as necessidades que mais frequentemente costumam bater à porta das pessoas mais carenciadas – mas precisamente a mais tristemente famosa de todas, a imagem que é idolatrada/adorada na famigerada Capelinha das Aparições (?), na cidade de Fátima, em Leiria, a qual, durante os breves dias do Congresso em Lisboa, foi obrigada a trocar de poiso e de cidade. Coisa rara – sublinham, a propósito, os meios de comunicação social – e só mesmo por ocasião de grandes eventos. (Compreende-se que assim seja, pois se a senhora em imagem é de Fátima, porque carga de água é que a hão-de obrigar a ser de Lisboa, por exemplo?!). O ICNE, pelos vistos, é um desses grandes e raros eventos que justifica semelhante transferência.
O problema é que, depois desta operação de markting católico e fatimista – pelos vistos, ninguém terá pensado nisso antes e agora é tarde demais – todas as outras imagens da senhora de Fátima que continuam espalhadas pelos altares das igrejas paroquiais católicas do Patriarcado de Lisboa, bem podem suicidar-se (perdão, uma imagem morta nem sequer suicidar-se pode…), isto é, bem podem ser atiradas pelos altares abaixo e ficarem estateladas no chão dos templos. Então não é que, com esta sua eminentíssima e reverendíssima decisão, o Patriarcado de Lisboa, com o senhor cardeal D. José Policarpo à frente e mais quatro bispos auxiliares e um emérito, e ainda um outro bispo titular que, na capital, se ocupa das Forças Armadas e das Polícias, acaba de passar a todas essas outras imagens da senhora de Fátima um atestado de total ineficácia e de total incompetência?! Embora essas imagens continuem a figurar nos templos da capital de Portugal e tenham sido fabricadas por um molde semelhante ao molde que fez a que continua a ser idolatrada/adorada por multidões acríticas e deprimidas na “sua” Capelinha das Aparições (?), e continuem a ostentar o mesmo rótulo identificativo de “senhora de Fátima”, a verdade é que, neste evento, nem mesmo todas juntas, elas conseguiram chegar aos calcanhares da sua rival na diocese de Leiria. A da Capelinha das Aparições (?), sim, é uma senhora de Fátima que vale quanto pesa e muito mais. Vejam só o dinheiro sem conta e o ouro sem medida que ela dá a ganhar à Igreja católica em Portugal (se é que entre as dioceses católicas do país alguma vez chegou a funcionar a prática da partilha do dinheiro sugado pelo santuário de Fátima às multidões alienadas, coisa que está ainda por provar) e até à cúpula-mor da Igreja que está em Roma, mais propriamente, no pequeno Estado do Vaticano. E não só dá muito dinheiro a ganhar à Igreja. Também lhe dá muitos milhares de clientes-pagadores-de-promessas, todos muito pagãos-católicos, vindos de todas as partes do mundo, num misto de turismo e de paganismo religioso que nos envergonha a todas, todos nós, já que nunca os seres humanos se degradam tanto, como quando correm Seca e Meca para, finalmente, se poderem prostrar e auto-flagelar diante de imagens cegas, surdas e mudas, como a de Fátima, a da Aparecida, a de Lourdes e a de Guadalupe – só para nomear as de maior sucesso para a Igreja católica em todo o mundo – em santuários geridos por clérigos a quem, primeiro, roubaram a liberdade e a consciência crítica, e depois facilmente reduziram à condição de eunucos vestidos de mulher, pelo menos, sempre que têm que presidir às solenes cerimónias, sempre as mesmas, como numa cassete gravada, em honra da “Virgem” ou Deusa.
Já é grave que tudo isto se faça em Igreja e em nome de Jesus. Mas é ainda muito mais grave que tudo isto se faça no contexto de um Congresso internacional “para uma Nova Evangelização”. Com comportamentos destes, fica mais do que claro que nem os próprios promotores do evento sabem do que estão a falar, muito menos, o que estão a fazer. E, se sabem, então os seus propósitos são ainda mais perversos, pois praticam conscientemente a Mentira, sob a capa do Evangelho de Jesus, o que os remete a todos para a dimensão do Demoníaco, do Tentador, e faz deles funcionários que trabalham dia e noite para desviar as pessoas e as populações da Verdade que liberta, para assim melhor as poder perpetuar num estado de alienação generalizada e de infantilismo, o único que lhes dá garantia a eles de poderem prosseguir nos seus seculares privilégios, pelo menos, durante unas quantas gerações mais.
Quando, há mais de um ano, comecei a ouvir falar do ICNE na Europa, ainda acalentei a esperança de que estaríamos na iminência de um kairós ou Acontecimento de Humanização das grandes capitais do velho continente da Cristandade ocidental. A ideia pareceu-me boa e feliz. Dependeria dos conteúdos e das acções em que ela se viesse a materializar. Agora que já está em curso, concretamente na capital do nosso país, tenho que reconhecer que, afinal, não passa de mais do mesmo. Como tal, é um tremendo desastre. Vão-se gastar rios de dinheiro e movimentar milhares de voluntárias, voluntários do país e da Europa, para nada. Tudo se reduz ao já sabido e rançoso folclore religioso, traduzido numas quantas acções de rua mais ou menos ingénuas e parolas, para televisão mostrar, nuns quantos discursos para intelectuais católicos ainda não evangelizados e ainda não ilustrados proferirem (pode-se ser intelectual e não se ser ilustrado, como se pode ser intelectual católico e não se ser evangelizado), numas quantas missas mais, em tudo idênticas às dos domingos e dias santos de guarda que as populações já sabem de cor e salteado e até vomitam, e na recitação de umas quantas fórmulas de oração sem oração, como o terço, ave-marias a granel e pai-nossos q.b. Evangelho de Jesus para o século XXI e para o terceiro milénio, nem vê-lo, nem cheirá-lo. Muito menos uma Igreja disposta a converter-se à Missão de Evangelizar os pobres, que é para o que deve existir a Igreja que se reivindique do nome de Jesus e do seu Espírito.
Perante tão desolador espectáculo eclesiástico (a tudo isto, ainda há que juntar o necrófilo culto público dos restos mortais duma freira francesa, Teresinha de Jesus, a quem o catolicismo sem Evangelho do seu tempo criminosamente levou a morrer de sofrimento aos 24 anos de idade, e que foram trazidos nesta data para o nosso país, numa desesperada tentativa de suscitar nas jovens portuguesas mais “vocações” para freira, e se de clausura, tanto melhor, que é como a mítica “Virgem” ou Deusa mais gosta), terei que concluir que esta nossa Igreja católica romana, com bispos, párocos e fiéis baptizados/crismados assim tão instalados nas rotinas religiosas, eclesiásticas e litúrgicas, só pode ser uma Igreja manifestamente ainda não evangelizada e por isso totalmente incapaz de evangelizar os pobres e os povos. E, o que é pior, é uma Igreja que nem sequer tem a humildade para aceitar ser evangelizada. É uma Igreja cheia de religião, caída em idolatria, vergonhosamente devota da senhora de Fátima, por isso, bem na linha dos cultos idolátricos e anestesiadores que os sacerdotes do Paganismo religioso do Império romano promoviam entre as populações analfabetas e cheias de medo do Além e dos múltiplos deuses inventados, sempre cruéis e vingativos.
É claro que uma Igreja assim, escandalosamente caída na idolatria da senhora de Fátima e de outras deusas e deuses, é fatalmente uma Igreja que vive em aliança – em Concordata – com o Poder de turno, por isso, inimiga do Evangelho de Jesus, e sempre pronta a crucificar de novo Jesus, como fizeram outrora a Sinagoga dos fariseus e o Templo dos sumos sacerdotes de Jerusalém, lá onde quer que ele hoje se manifeste, seja nos jovens das pequenas cidades periféricas de Paris que profeticamente queimam carros, escolas e igrejas, seja nas mulheres católicas que, no interior dela, reclamam igualdade de direitos aos dos homens, inclusive, o acesso a todos os ministérios ordenados, seja nas mulheres empobrecidas e exploradas que, com mais ou menos frequência, se vêem na contingência de ter que recorrer à prática do aborto clandestino, só porque a hierarquia católica não é capaz de aceitar, como menos má que a clandestinidade das clínicas exploradoras, a aprovação duma lei do aborto que regule com sentido de humanidade essa prática de último recurso e tanto mais traumática quanto mais clandestina.
O ICNE, no Patriarcado de Lisboa e noutras grandes capitais da Europa, como Paris, por exemplo, onde também já ocorreu e deixou tudo como dantes, senão mesmo pior, vem, sem querer, revelar que a Igreja católica em Portugal e na Europa é como aquele rei que se pensa todo-poderoso, mas que, afinal, vai nu. Por baixo das vestes talares e litúrgicas dos seus ministros, nomeadamente, dos seus párocos e dos seus bispos residenciais, com anel, mitra, báculo e cruz peitoral mais ou menos escondida, a Igreja vai nua! Nua de Evangelho de Jesus. E de Jesus, hoje tem apenas alguns símbolos e alguns títulos já sem qualquer impacto nas novas gerações. Falta-lhe o essencial: o miolo do Evangelho. E o Espírito.
Por isso, a Humanidade nossa contemporânea, se quiser ser evangelizada, não é no interior das paróquias católicas, nem das catedrais que o poderá ser. Nesses locais, só se serve religião, cultos idolátricos. Queremos ser verdadeiramente evangelizados? Deixemo-nos então evangelizar pelos jovens de Paris e dos subúrbios de outras grandes cidades da Europa e do mundo que vivem em dores de parto - em pé de guerra libertadora - e querem dar à luz um futuro outro para eles e para as gerações ainda por nascer; pelos imigrantes de todas as cores e culturas cheios de fome de Justiça e de Dignidade, e também de Pão e de Trabalho; pelos milhões de crianças que morrem de fome todos os dias no mundo; pelos doentes incuráveis entregues à sua solidão; pelos milhares de milhões de humilhados e ofendidos pelo grande Kapital e seus templos sem entranhas de humanidade; pelos iraquianos em pé de guerra todos os dias pela sua autonomia e independência; numa palavra, pelos empobrecidos e oprimidos do mundo, a começar pelos que estão aqui mesmo à nossa porta. Se formos sensíveis aos seus clamores, se escutarmos os seus gritos; se nos juntarmos solidariamente a eles nas reivindicações pela obtenção do mais elementar para se poder sobreviver; se os sentarmos à nossa mesa; se encurtamos todos os dias a distância que nos separa deles e nos fizermos próximos deles, como o samaritano da parábola do Evangelho de Lucas, estaremos a ser evangelizados, estaremos a ser mulheres, homens companheiras, companheiros de Jesus.
É dura esta linguagem? Mas quem disse que o Evangelho de Jesus é caminho humano de porta larga? Sempre será caminho de porta estreita. É escandalosa esta linguagem? Mas quem disse que o Evangelho de Jesus é canto de sereia que nos adormece, embala e anestesia? O Evangelho de Jesus é escândalo, o maior escândalo à face da terra, que os poderosos e os religiosos não suportam nunca. É o escândalo de Deus vivo que, ao contrário da “Virgem” e senhora de Fátima e das outras deusas e deuses inventados, não gosta de religião, nem de cultos, nem de rezas, nem de missas, nem de novenas, nem de sacrifícios, nem de vítimas humanas auto-imoladas em sua honra. Do que Ele gosta é de Política, é de Misericórdia, é de Militância quotidiana ao jeito da militância martirial e duélica de Jesus pelo Reino de Deus, é de mulheres, de homens que o deixem ser Deus nelas, neles e através delas, deles, para que o Mundo chegue a ser o que Ele, desde o princípio, está empenhado que ele seja, Casa comum para todos os povos, em redor duma única Mesa, feita de muitas mesas em comunhão. É o escândalo de Deus Vivo que, em Jesus, nos está continuamente a dizer que o que fazemos à mais pequena das suas/nossas irmãs, ao mais pequeno dos seus/nossos irmãos, ao ser humano mais insignificante e mais humilhado, é a Ele que o fazemos, ou deixamos de fazer. Sem apelo nem agravo! Perante o escândalo de um Deus Vivo assim, as populações e até as Igrejas preferem a religião e a idolatria, as deusas como a senhora de Fátima e os deuses. Em lugar de se assumirem e comportarem todos os dias como pessoas livres e criadoras, à imagem e semelhança de Deus Vivo, acabarão a assumir-se e a comportar-se como feras assustadas e paus mandados. À imagem e semelhança das deusas e dos deuses que inventaram e a que infantilmente se submetem.
2005 NOVEMBRO 04
1. Chegou-me a notícia de que o casal José Luís / Maria Emília, de Pedra Maria, em Felgueiras, estava doente. E propus às companheiras do Ministério dos Doentes, da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa que fôssemos lá ter com eles. Para que ambos sejam aliviados e curados. Antes, porém, propus que passássemos pelo Lar de idosas/idosos que fica nas imediações da casa deles. E assim aconteceu.
Maria Emília já se encontrava na cozinha, sentada numa cadeira especial e muito agasalhada. Quem saiu cá fora para nos receber foi José Luís. A doença que o afecta não o impede de andar. Por isso, foi ele o anfitrião. Ao ver-nos chegar – já nos conhece de outras visitas anteriores – logo se sentiu outro homem e nunca mais nos deixou até ao final da visita, de quase duas horas. Aconteceu algo semelhante ao que se diz no relato da infância do Evangelho de S. Lucas, a propósito da chegada de Maria a casa da sua prima Isabel, depois que ambas souberam que andavam de esperanças. Bem sei que o relato da infância, do Evangelho de Lucas, como o do Evangelho de Mateus, são relatos teológicos, não históricos, como tais, não ocorreram como lá se diz que sim. Mas a verdade – e é sobretudo isso que eles querem dizer – é que há momentos na vida das pessoas e dos povos em que o Teológico é ainda mais real que o Histórico. O Teológico tem a ver com a intervenção de Deus Vivo na vida das pessoas e na História. O Histórico, sem mais, tem a ver com as intervenções dos poderosos das nações e do mundo, já que são eles, não as suas vítimas, quem sempre, ou quase sempre escreve a História. As vítimas também a escrevem. E podemos até dizer que é a única História que tem dignidade e que permanecerá para sempre, embora nunca chegue a fazer parte dos documentos oficiais, mandados escrever e arquivar pelos poderosos do mundo. Mas é a única História que tem a marca de Deus vivo, ou não fosse verdade que Deus vivo sempre actua nas e com as vítimas dos poderosos.
Infelizmente, esta actuação é muito menos frequente, porque as vítimas dos poderosos muito poucas vezes se insurgem contra os crimes que os poderosos cometem impunemente contra elas. Vivem de tal modo anestesiadas e desmobilizadas da política, que dificilmente chegam a levantar-se contra o sofrimento e as carências de toda a ordem a que estão condenadas, como se isso fosse uma inevitável fatalidade. Poucas vezes – com pena o tenho que reconhecer – a História da Humanidade tem tido Êxodos libertadores como o dos hebreus no Egipto dos faraós. E muito menos vezes tem tido homens, mulheres com a fibra e a lucidez de Jesus de Nazaré, que enfrentou de tal modo o poder dos poderosos do seu tempo, quer com a sua prática radicalmente libertadora e solidária com as vítimas deles, quer com a sua palavra sempre politicamente incorrecta, que eles não tiveram outro remédio senão crucificá-lo como o maldito dos malditos às ordens do Império de então. Para a Bíblia, o Êxodo dos hebreus e Jesus de Nazaré, o ser humano por antonomásia, foram, até hoje, os momentos teológicos mais fortes da História da Humanidade. Digamos, até, que o Êxodo dos hebreus abriu o caminho à intervenção de Deus Vivo e libertador na História, e Jesus de Nazaré, com a sua prática e a sua palavra, levou a intervenção de Deus vivo na História ao seu cume. Um e outro, na perspectiva bíblica, são momentos histórico-teológicos paradigmáticos. Dizem-nos, de forma exaustiva e exemplar, como são as intervenções de Deus vivo na História. Dizem-nos também como o Teológico é, afinal, o que há de mais Histórico na História. Ou Deus Vivo não fosse o Senhor da História.
Só que a intervenção de Deus vivo na História está condicionada à nossa intervenção. Para que Deus vivo intervenha é preciso que nós intervenhamos, especialmente, as vítimas maiores dos poderosos e das suas economias e políticas. Enquanto as vítimas permanecerem anestesiadas sob o jugo da religião, com as suas deusas e os seus deuses, e da resignação, sob a ditadura das novelas e dos futebóis-espectáculo, e permanecerem escandalosamente reverentes e subservientes aos poderosos que, quais faraós do tempo dos hebreus no Egipto, sempre as escravizam e exploram, é sobretudo o Histórico que tem a palavra, muito mais do que o Teológico.
Por isso, o nosso mundo tem tido tão poucos momentos de Luz e de Liberdade, de Graça e de Dignidade. E se há momentos globalizados de Treva e de Alienação, de Lucro e de Aviltamento Humano, este que estamos a viver na Europa e no Mundo é sem dúvida um dos mais tragicamente expressivos. Não está tudo perdido. Ainda vamos a caminho. Mas só andaremos mais depressa, como Humanidade, se as vítimas todas saírem da sua letargia e do seu sentimento de impotência, deixarem a religião, com as suas deusas e os seus deuses, e se abrirem à Fé de Jesus, até se tornarem mulheres, homens, povos como ele, na resistência activa aos poderosos e à sua ideologia e se se entregarem à luta duélica como ele também se entregou contra o poder e os privilégios dos poderosos. Haverá então novos Êxodos como nunca houve. E Páscoas de insurreição como nunca houve. Provavelmente, com muito sofrimento humano à mistura, já que os poderosos nunca desarmam nem renunciam nunca às boas ao poder e aos privilégios. Mas é assim que a História avança em humanidade e em sororidade/fraternidade. Porque só o Teológico é que faz a História progredir em humanidade e em sororidade/fraternidade. O Histórico, enquanto acção/intervenção dos Poderosos, só traz desgraça e inumanidade, mesmo que estas venham embrulhadas em desenvolvimento material e em progresso tecnológico com telemóveis terceira ou quarta geração.
José Luís acolheu-nos efusivamente. Foi como se de repente a doença que o afecta com gravidade tivesse desaparecido. Ela ainda está no seu corpo – tem tudo a ver com a próstata – mas é como se já lá não estivesse. A nossa chegada, em nome de Jesus e da Comunidade Cristã de Base, teve este condão. É sempre uma chegada com tudo de Teológico. É a Comunidade Cristã de Base em Missão. Somos, por isso, um pequeno mas fecundo sacramento de Deus vivo. E tudo o que vem a seguir tem a sua marca e produz os efeitos da sua misteriosa Presença. Verifica-se o que diz o Evangelho de Mateus: Lá, onde dois ou três se reunirem/encontrarem em meu Nome, eu estarei no meio deles. E lá onde estiver Jesus, agora definitivamente ressuscitado, está a Saúde, a Salvação, a Libertação, numa palavra, a Humanidade-com-rosto-sororal/fraterno.
José Luís nunca mais nos deixou. Ainda começou por anunciar que tinha uns biscatos a fazer e que ia aproveitar enquanto a mulher ficava acompanhada por nós. Mas não foi capaz de nos deixar. A sua alegria não tinha limite. A palavra apoderou-se dele e foi ele quem encheu o encontro. Fez-nos sentar, mas ele manteve-se de pé até ao fim, numa alegria incontida. Como um menino. Falou da sua doença, dos incómodos que a próstata afectada lhe tem causado. Dos duros tratamentos a que se tem sujeitado. Mas esta tarde e pela primeira vez depois que a doença se manifestou, fê-lo com alegria, com descontracção, com total controlo da situação. Não é mais a próstata que domina José Luís, é José Luís quem domina a próstata. E isso faz toda a diferença. É bom que seja sempre assim. Até ao fim. Para que sejamos humanos, não farrapos. Seres livres, não escravos. Sujeitos, não objectos. Protagonistas, não lacaios. Lá onde estiver Jesus ressuscitado, está a Dignidade humana em acto. E lá onde estiver a Dignidade humana em acto, está Jesus ressuscitado.
Infelizmente, as Igrejas têm-nos escondido isto. No seu afã religioso, pensam que Deus vivo está lá onde há actos de culto, templos e altares, paramentos, objectos ditos sagrados, imagens de santas e de santos, chefes religiosos que a tudo presidem e a todas, todos silenciam e inibem. Não vêem que lá onde houver tudo isso e outras coisas ainda mais opressivas, só podem estar ídolos que nos escravizam e canonizam a presente Ordem Económica e Política mundial que cruelmente nos oprime e mata. E a prova é que a Religião e tudo o que com ela se relaciona só têm impedido a Humanidade de crescer em idade, estatura, sabedoria e graça, como Jesus de Nazaré cresceu. E a Humanidade tem que crescer até ficar pelo menos igual a Jesus. A Religião, ao contrário do que pensam até muitos teólogos de renome mundial, não faz parte do Teológico. Basta recordar que Deus vivo do que gosta é de Política, não de Religião. A Religião faz parte do Idolátrico, do Demoníaco. Como tal, nem ela, nem o seus cultores gostam de Política, nem de História. Só gostam de Mitos, quanto mais estrambólicos melhor. A Religião é o reino da Treva, de que os Poderosos tanto gostam. O Teológico, ao contrário da Religião, remete-nos para o Deus Vivo, o do Êxodo dos escravos hebreus no Egipto e o de Jesus crucificado, a quem Deus vivo de imediato ressuscitou, numa intervenção sem paralelo e absolutamente paradigmática. É esta intervenção de Deus vivo no viver/morrer/ressuscitar de Jesus de Nazaré que fundamenta a nossa Esperança e nos garante que as Vítimas dos poderosos é que têm futuro, não os poderosos enquanto tais. É nesta Esperança que também eu vivo. É nela que me apoio, melhor, é no Deus Vivo que a suscita, que me apoio, porque é Ele quem me leva ao colo e me faz viver todos os dias como quem vê o Invisível.
Mas não foi só José Luís quem, de repente, se tornou homem-para-os-demais, como se já não tivesse mais próstata a afectá-lo. Maria Emília também ficou logo uma nova mulher, rosto de luz e de beleza, mulher de paz e sorridente como nunca eu a tinha visto antes. A nossa entrada na sua cozinha foi uma lufada de Espírito Santo. Um Pentecostes que tudo transformou, desde dentro de cada um de nós. Pessoalmente, só tive que me dar conta do Mistério. Constatar. Deixar-me surpreender como um menino. E cair em Eucaristia, desde o mais dentro de mim. Por sinal, quando saí de casa para esta Missão, saí quase sem vontade. A Missão aparecia-me como coisa difícil. Felizmente, resisti à tentação de não sair e avancei com as companheiras do Ministério dos doentes. Em boa hora o fiz. Também eu ressuscitei. Também eu fui tocado. Também eu fiquei curado. É entre os pequenos, entre os pobres, entre os da margem, entre os doentes, entre os que se abrem ao Sopro ou Espírito de Deus vivo que nos humanizamos, isto é, que nos salvamos. Quando assim é, o Teológico sobrepõe-se ao Histórico. Há Evangelho, Boa Notícia de Deus vivo, há Presença de Deus vivo a crescer no meio de nós. E por isso há saúde, paz, alegria, confiança, esperança. Numa palavra, há seres humanos em todo o seu protagonismo, capazes por isso de controlar as situações, em lugar de serem escravos delas.
O Pão que levei comigo e coloquei sobre a Mesa, à chegada, tornou-se, no final do encontro, Pão Partido que nos alimentou para nos fazer viver ao jeito de Jesus. Só quando o Pão Partido nos alimenta para nos fazer viver ao jeito de Jesus, é que é Pão Partido em Memória dele. Por isso o que se faz por essas missas rotineiras além é tudo mentira, é idolatria, é magia, é negócio, é puro rito, coisa mítica. Numa palavra, é Religião. As pessoas comem e bebem (pelo menos, os padres que presidem, comem e bebem) a sua própria condenação. Porque comem (e bebem) como escravos de Medos e de Moralismos rançosos, sem nenhuma audácia para serem outros Jesus, nos seus aqui e agora. Apenas querem que Jesus seja um deus mais poderoso que os poderosos que elas conhecem, de modo que lhes valha nas aflições, em lugar de quererem que ele as potencie, para que elas se metam nas lutas e nos combates como Jesus em pessoa se meteu. Até ao limite. Até à cruz. E para lá da Cruz, já que Deus vivo, tão agradado ficou com este Homem tão homem, que logo o ressuscitou e o constituiu seu Filho bem amado!
2. Antes de termos estado em casa do casal José Luís e Maria Emília, entrámos de surpresa no Lar de idosas, idosos de Pedra Maria. Há meses que lá não íamos. Connosco e à nossa frente, entrou o Espírito Santo. Mulheres e homens de idade, mais ou menos parados, rebentaram inesperadamente em sorriso, em festa, em esperança. Vieram os cumprimentos. Aproximei-me de cada uma, com o beijo cheio de afecto, e de cada um com o cumprimento cheio de afecto. Cada pessoa é única. E tem que ser tratada como tal. Ou assim, ou não há Missão em nome de Jesus. Há massificação que avilta quem a faz e quem a recebe. A acompanhar o beijo e o cumprimento, também o gesto de ternura, no rosto, ou nos cabelos. O contacto físico é imprescindível, para haver sacramento que revele a Presença de Deus Vivo no mais íntimo da pessoa e a torne consciente dessa Presença boa-notícia.
A nossa Igreja católica ensina que a matéria dos sacramentos é o óleo da unção, ou o pão e o vinho, ou a água. Mentira. Sem o afecto que nos leva a tocar a outra, o outro, como Jesus fazia questão de tocar até os leprosos, não há sacramento. Há magia. Há rito. Há religião. Ora, a Religião é do domínio do Demoníaco, não do Mistério de Deus vivo. Por isso, as pessoas vão de mal a pior, à medida que frequentam as Igrejas, as missas, os santuários. Só pode ser. Tudo aquilo é do domínio da Treva, não do reino da Luz. “Eu sou a Luz do mundo: quem me segue não anda na Treva”, diz Jesus de Nazaré. Só que as Igrejas, em lugar de despertarem as pessoas e os povos para o seguimento de Jesus, até serem outros Jesus, dão-lhes ritos e mais ritos, entretêm-nas com religião e mais religião. São Satanás disfarçado de Igreja! São Tentação. Como Pedro, um dia, também foi Satanás disfarçado de Apóstolo e de um dos Doze, para Jesus. É terrível isto que escrevo. Mas quem se atreve a dizer que não é assim?
Dei-me por inteiro às pessoas que estavam na sala. Todo o Lar, pessoal técnico e auxiliar incluído e até da direcção, haviam-se dado conta de algo novo e acorreram. Como na manhã do Pentecostes, em Jerusalém. Aqui não houve revoada de vento, nem línguas de fogo. Houve Ternura. Houve Humanidade. Houve Afecto. Houve olhos nos olhos. Depois, foi só deixar-me conduzir pelo Espírito. Ele é quem nos faz falar, ouvir, comunicar. Dei comigo a cantar um dos meus Cantos na Margem. “Quando vim a este mundo / encontrei-o dividido / Tomei partido pelos pobres / P’ra que o mundo fique unido”. As idosas, os idosos cantaram comigo. E quiseram que repetisse. Fizeram seu o Canto. Perceberam que era Luz no mundo. Até palmas bateram, de alegria. Mulheres e homens. Alguns homens costumam estar a jogar as cartas, mas desta vez não foram capazes. Todos os olhares estavam virados para a actividade. Todos se sentiram contagiados. Libertados. Curados da Solidão e da Depressão, os piores demónios que se abatem sobre as pessoas, nomeadamente, as de mais idade.
Li uma estória do Livro dos Actos. Acho que as pessoas de idade, com o passado catequético paroquial que tiveram, são muito sensíveis às estórias com que Lucas nos dá notícia boa sobre a primitiva Igreja. Li a estória referente a Estêvão. Nunca tinham ouvido falar deste homem. Com excepção de um padre casado que também frequenta o Lar de Pedra Maria, da parte da tarde. E até ele estava a seguir a animação que me via fazer, com muita atenção e não menos carinho fraterno. A leitura foi comentada. Para que desse fruto. E deu. Todas, todos compreendemos que as pessoas que passam neste mundo fazendo o bem, como se diz de Jesus que passou, acabam marginalizadas, odiadas, excomungadas, muitas vezes, julgadas nos Tribunais dos poderosos, condenadas à morte e executadas, segundo as leis que eles têm em vigor. As grandes Igrejas institucionalizadas, convertidas em Religiões, costumam ser as primeiras a não suportar quem passa pelo mundo e dentro delas fazendo o bem. Basta pensarmos no Bispo Óscar Romero, de El Salvador. Ou no Bispo de Parténia, antes Bispo de Évreux, em França. E mais do que ninguém, no próprio Jesus de Nazaré. E em Estêvão, seu discípulo e protomártir. Os da Treva não suportam a Luz. Porque são más as suas obras, mesmo quando parecem boas. Passar fazendo o bem não é passar a vida a fazer caridadezinha, não é ser benfeitor. Os benfeitores sempre são idolatrados e adorados. Erguem-lhes estátuas na cidade. A quem, como Jesus de Nazaré, passa fazendo o bem, erguem-lhe uma cruz e crucificam-no nela fora da cidade. Para que nunca mais ninguém se lembre dele. Nem o siga. Passar fazendo o bem é abrir os olhos da consciência aos cegos dela, é fazer andar os paralisados pela Idolatria ou Religião, é soltar os presos de Medos ancestrais, é rebentar com as cadeias que a Mentira ergue e onde mantém as pessoas e os povos a vida inteira… Passar fazendo o bem é ser subversivo como Jesus, é ser libertador como Jesus, é ser paz revolucionária como Jesus, é ser manso e humilde de coração como Jesus, é ser misericordioso como Jesus. E, ao mesmo tempo - é isto que custa mais - enfrentar como num duelo até ao fim os Causantes dos males que afectam as pessoas e os povos, sobretudo quando o fazem sob a capa do Nome de Deus!
Tudo foi belo e simples. Densamente humano. Acho que hoje é o que mais falta nas nossas sociedades e nas instituições. Também nos Lares de idosas, idosos (felizmente, não é o caso do Lar de Pedra Maria). Há tecnologia. Há técnicas, técnicos formados nas Universidades. Mas falta Humanidade. Falta Afecto. Falta Ternura. E só a Ternura, o Afecto, a Humanidade salvarão o mundo. A tecnologia pode ajudar. Mas se fica ela só, depressa deprime e mata. Porque nos reduz a números, a peças duma máquina, a objectos, a coisas. E isso é o crime dos crimes. Como é que não vemos?!
2. Dizem os jornais de hoje – e as televisões mostram imagens a confirmar – que Paris está a ferro e fogo. Poderiam e de veriam dizer que Maio 68 está de regresso em Novembro de 2005. Mas não têm a coragem da verdade. As vítimas da globalização do Kapital estão em pé de guerra de libertação. As acções que desencadeiam são as novas “pragas” do Egipto, agora em versão francesa e neste início do terceiro milénio. Os poderosos não querem ver. Os seus media também não. Preferem a mentira. E então voltam a falar de terrorismo. Tinham obrigação de saber que a fome de Pão, de Trabalho digno e justamente remunerado e de Justiça social rebenta sempre, mais cedo do que tarde, em explosões e mais explosões nas ruas. Benditas explosões, dirão os oprimidos, todos os excluídos da mesa onde estão os bens que deveriam ser de todas as pessoas e de todos os povos do mundo. Maldição, gritam os poderosos e seus funcionários, ameaçados nos seus privilégios de séculos.
Alegrem-se, minhas irmãs, meus irmãos. Se puderem. Se forem capazes. E porquê? É o princípio duma Revolução. A Polícia de choque e a Tropa podem ocupar as ruas, onde acontecem os distúrbios, para já, apenas contra as coisas, os objectos, as viaturas, alguns edifícios da administração pública local. Mas há mais, muito mais ruas em Paris. Em toda a França. Em Portugal. Na Europa. No resto do Mundo. Sonhavam com uma Europa fortaleza? Aí têm a resposta. Hoje, mais ainda do que no passado, não há fortalezas inexpugnáveis. Ou há mesas partilhadas por todas as pessoas e todos os povos em igualdade cada vez mais efectiva, ou há explosões sobre explosões. As cidades ficarão a ferro e fogo. Hoje é Paris. Amanhã, será Lisboa, Madrid, Londres, Moscovo. Como já foi Nova Iorque.
Benditos jovens que não ficam metidos nos barracos a ver novelas a granel, ou jogos de futebol de ricos, ou espectáculos de entretenimento sem o mínimo de cultura. Benditos jovens que saltam para a rua e recorrem aos telemóveis que os poderosos conceberam e produziram para enriquecerem mais e mais, mas que de repente se viram contra eles e mobilizam os famintos de Pão e de Dignidade para as lutas duélicas que não podem parar, enquanto o Pão e a Dignidade não forem de todas as pessoas e de todos os povos. Tenham paciência, mas é com estes jovens que estou. É com eles que sintonizo. Vai para eles o meu afecto. A minha ternura. A minha simpatia. O que fazem tem muito de Teológico. Tem muito de Êxodo bíblico. É um Novo Começo. Pode não ter ainda muito de Jesus de Nazaré. Mas já tem muito de Êxodo. E isso basta, para começar. Ou a Europa acorda e renuncia a mais e mais polícia, a mais e mais poder bélico, para dar passagem (Páscoa) à Justiça e à Dignidade para todas as pessoas e todos os povos que já estão dentro dela ou de fora dela mas com os olhos postos nela, ou ruirá como ruiu o Império romano. Os "bárbaros" só o são porque nós os produzimos com as nossas economias sem coração e com as nossas políticas de mentira. Ando há que tempos a dizê-lo. Juntamente com outras, com outros. Não é com mais polícia que se ganha a paz. A paz ganha-se com mais política feita de verdade e de justiça. E com economias com entranhas de humanidade. Não esqueçamos: Se não queremos ir a bem, vamos a mal. As dores serão muito maiores. Mas o Sopro libertador de Deus Vivo é como o caudal de um rio. Podemos erguer barragens, diques à sua marcha. Ele acabará por cair-nos em cima ainda com mais violência e esmagar-nos-á. Antes que tal aconteça, apressemo-nos a consolidar a Paz, mas aquela Paz que faz par de dança com a Justiça. É esta dança que salvará a Humanidade. Ao contrário, a guerra dos poderosos só destrói a Humanidade e o Mundo. E não deixará pedra sobre pedra!
2005 NOVEMBRO 01
Se o mundo de agora fosse ainda como o da minha infância, o mês de Novembro que hoje se inicia seria o “mês das almas”. Almas já sem corpo. A arder por tempo indeterminado no purgatório, numa inevitável operação de purificação antes de serem achadas dignas de irem ver Deus face a face eternamente no céu. Ou a penar, também eternamente, no fogo do inferno. O céu, como destino eterno das almas que deixavam os corpos no momento da morte, era praticamente inacessível, no imediato, à maior parte das almas, por mais exemplares que tivessem sido as suas vidas neste mundo. Sempre haveria nelas alguma impureza, alguma mancha a limpar e, por isso, primeiro, haveriam que passar pelo purgatório. O céu como destino imediato das almas era coisa reservada apenas a santas, santos, em grau heróico. Pessoas do género frade ou freira de clausura que, neste mundo, já tinham vivido como se não tivessem corpo, como se fossem apenas almas. E quanto mais tivessem torturado voluntariamente os seus corpos, mais garantia havia que, ao morrer, as suas almas iriam directamente para o céu, sem ter que passar pelo purgatório. O mesmo sucedia às poucas pessoas que morressem martirizadas por causa de serem católicas e de não renegarem a sua fé no Deus dos católicos. Porque se as pessoas tivessem sido assassinadas, martirizadas por solidariamente terem feito suas as causas dos pobres e dos oprimidos deste mundo, já não teriam essa sorte. Pelo contrário, poderiam até ir ainda mais depressa para o inferno, porque haviam sido pessoas subversivas, revolucionárias, numa palavra, haviam atentado contra a Ordem estabelecida pelo Deus dos católicos e pelo seu todo-poderoso papa de Roma. Como tal, não poderiam nunca entrar no céu, nem ver a Deus face a face. Só tinham lugar no inferno. Para sempre. Juntamente com todos os outros que não tinham sido baptizados na Igreja católica, nem integravam as suas fileiras. Ou, depois de as terem integrado, se viessem a revelar críticos, evangelicamente dissidentes, jesuânicos, insubmissos, numa palavra, pecadores inveterados!
O purgatório foi, é uma invenção eclesiástica católica. Assim como as missas pelas “almas” dos mortos. Na alta Idade Média, alguns eclesiásticos com fama de santos, monges inevitavelmente, aproveitaram a antropologia platónica, anterior ao nascimento de Jesus de Nazaré, que considera os seres humanos como um composto de corpo e alma, e a morte como uma dramática separação da alma do corpo, e partiram daí para a invenção do purgatório, como espaço de passagem obrigatória para todas as almas que, ao deixarem o corpo, no momento da morte, não fossem condenadas ao inferno eterno e também não fizessem parte daquele reduzidíssimo número de almas santas em grau heróico ou mártires católicos que iam directamente para o céu.
A invenção não foi nada inocente. Tinha tudo a ver com os cultos dos mortos que as populações, apesar de católicas, continuavam a praticar, sem solução de continuidade, desde os ancestrais tempos do animismo politeísta do Paganismo. Tinha também a ver com a crença de que as almas, ao separar-se dos corpos, se convertiam em deuses domésticos, com as quais, por isso, havia que manter boa relação, sob pena de maldições e de desgraças que elas poderiam atrair contra quem lhes não ligasse mais aqui na terra. Nesta concepção, nem a morte era verdadeira morte, uma vez que apenas os corpos é que morriam. Por sinal, a parte menos nobre dos seres humanos, sempre dentro daquela concepção platónica. A alma imortal é que detinha todo o valor. E havia que garantir a sua salvação eterna, custasse o que custasse. Nem que fosse à custa do corpo, enquanto estava dentro dele. Ou à custa de sucessivas rezas, por parte dos seus familiares, quando já eram almas separadas do corpo pela morte.
Mas a invenção do purgatório, dentro da concepção platónica e da crença pagã da sobrevivência das almas separadas dos corpos, no momento da morte, tinha outra vantagem para a Igreja, nomeadamente, para os clérigos católicos, não menos despicienda. Vejamos. Para que as almas permanecessem menos tempo nos purificadores tormentos do purgatório, a Igreja católica, e só ela, tinha um remédio, uma solução eficaz: as missas rezadas pelas almas. Quanto mais missas os respectivos familiares mandassem rezar por elas, sempre contra o pagamento do respectivo emolumento ao sacerdote celebrante (apenas os clérigos católicos são portadores de semelhante poder, não a esmagadora maioria dos membros da Igreja católica, os chamados leigos, as chamadas leigas, muito menos, os pastores das outras Igrejas cristãs!!!), mais depressa essas almas ficariam purificadas e deixariam o purgatório. O céu seria finalmente o seu destino definitivo.
Para lá do dinheiro que dava a ganhar aos sacerdotes católicos, esta invenção do purgatório e das missas pelas almas dos mortos conseguia ainda colocar os clérigos com um poder único sobre todos os demais seres humanos, fossem ricos ou pobres, poderosos ou desgraçados, nobres ou plebeus, letrados ou iletrados: o poder de tirar do purgatório as almas das pessoas falecidas numa qualquer família. Consequentemente, família nenhuma sobre a terra ficava fora da sua alçada, do seu poder, já que todas as famílias sempre têm e terão antepassados, mais próximos ou mais remotos já falecidos e cujas almas – fosse válida semelhante catequese católica – muito provavelmente ainda hoje podem estar a penar no purgatório, à espera que lhes mandemos rezar missas. Que família, catequizada assim, seria, será capaz de resistir e não mandar rezar missas pelas almas dos seus entes queridos? E se o não fizessem, se o não fizerem, quem lhes garante que as almas que estão lá a penar no purgatório se não vingarão, ao verem que eles, seus familiares, são sovinas, e não estão sequer dispostos a financiar os padres católicos para que rezem missas por elas? Por isso, é quase certo que, na dúvida e no medo, as famílias, mesmo que andem afastadas dos cultos dominicais das paróquias onde vivem, acabem quase sempre a mandar rezar missas pelas almas dos familiares que morreram, a começar logo pela chamada “missa de corpo presente”, por ocasião do funeral, e depois pela missa de 7.º dia, ao fim da primeira semana, pela missa do trigésimo dia, ao fim de um mês, e pela missa de aniversário, ao fim de um ano.
O negócio eclesiástico católico, financeiro e honorífico, não podia resultar mais e melhor. E tem sido assim que as coisas funcionam há séculos na nossa Igreja católica. Com vergonha o digo. Por mim, não o faço. Nunca mais o fiz, desde que, logo nos meus primeiros tempos de presbítero ordenado, me dei conta da mentira e do sacrilégio que ele materializa. Passei, inclusive, a denunciá-lo, em catequeses outras, radicalmente libertadoras, que valem como verdadeiras anti-catequeses oficiais. Por isso, os meus irmãos presbíteros, nomeadamente, os párocos, que continuam a viver desta mentira e deste sacrilégio, assim como da simonia que faz deles vendilhões do templo, já não me suportam. E andam muito contentes, por constatarem que o meu nome é sistematicamente saneado, edição após edição, da lista oficial de padres da Diocese do Porto, publicada no Anuário Católico. Como se eu alguma vez tivesse sido ordenado presbítero pela Igreja que está no Porto, para depois passar a vida inteira a ensinar mentiras e praticar sacrilégios. É mil vezes preferível viver a pão e água, do que enveredar por semelhante prática negadora do Evangelho de Jesus, o de Nazaré.
Mas é esta prática que ainda hoje continua na Igreja, apesar dela ser a negação do Evangelho ou Boa Notícia de Deus, praticada e anunciada por Jesus de Nazaré. E esta prática eclesiástica atingiu o seu cume de mentira e de negócio, com a posterior invenção dos chamados “trintários de missas”. Os inventores do purgatório, não satisfeitos com a invenção desse local de tortura das almas dos mortos e da tortura como elemento de purificação das almas impuras, ainda ensinaram, ensinam que quem mande rezar trinta missas, uma por dia, durante trinta dias seguidos, pela alma de uma pessoa falecida (a corrente não pode ser interrompida e, por isso, se o padre em causa adoecer, terá que arranjar um substituto que lhe reze a missa por aquela alma, ou então, ele terá que voltar ao princípio, sem que isso lhe dê direito a receber novo dinheiro), é garantido que essa alma, no decorrer da trigésima missa, deixa o purgatório e é recebida em festa no céu. Para melhor convencerem as populações a acolher e a praticar esta infantilista e criminosa catequese a favor das almas dos seus falecidos, os inventores do purgatório e da eficácia infalível dos trintários de missas chegaram a inventar também estórias sem pés nem cabeça, como por exemplo, que a alma de tal ou tal pessoa conhecida, apareceu a familiares seus a queixar-se que estava a penar no purgatório e que só o referido trintário de missas lhe poderia valer. E quando o trintário é dado por concluído, essa mesma alma volta depois a aparecer, agora muito feliz, para agradecer o trintário de missas por ela e para anunciar que já está no céu a ver Deus face a face.
O mais grave é que estas práticas ainda perduram no nosso tempo. Nem o facto de já estarmos no século XXI e no terceiro milénio alterou substancialmente a situação na nossa Igreja católica. O próprio Catecismo da Igreja Católica é isto que continua a ensinar oficialmente! Mas hoje o negócio das missas pelas almas dos mortos apresenta-se até mais refinado. Como há poucos párocos, cada um achou por bem concentrar numa só missa diária na paróquia todas as almas que os familiares lhe confiam para aquele dia. Tanto podem ser duas, como 20 ou duzentas as almas pelas quais a missa é então rezada. A lista de nomes de almas de mortos não tem limites. Pelos vistos, a contabilidade de Deus no céu não sofre congestionamentos, mesmo que sejam milhões as missas por dia em todo o mundo e muitos mais milhões os nomes das almas por quem elas são rezadas. Tudo funciona sobre rodas. E o efeito vai garantidamente ter àquelas almas por quem a missa é rezada, sem qualquer risco de engano. E as outras almas, cujos familiares não têm posses para lhes mandar rezar missas, ficam a ver navios, já se vê! E a penar no purgatório, não se sabe por quanto mais tempo. (Ai não ficam?! Mas então para que andam os párocos católicos a levar as pessoas teologicamente ignorantes a proceder deste modo, se o fruto de cada Missa é sempre por todas as "almas"?). O dinheiro a receber em troca pela missa, por parte dos párocos que a reza diariamente, também não tem limites. Se a missa for por duas almas, o pároco recebe duas vezes o emolumento estipulado pela diocese e devidamente actualizado cada ano; se for por 200 almas - note-se que uma missa por dia não costuma ultrapassar os 30 minutos - receberá duzentas vezes o emolumento estipulado. Digam lá se não é um verdadeiro negócio da China! Nem os chineses, que agora têm lojas comerciais abertas em qualquer esquina de rua dos países da União Europeia, foram capazes de tanto engenho, na arte de comercializar produtos. Só que aqui, o “produto” que os párocos vendem diariamente deste modo tão vergonhoso é o próprio nome de Jesus, a sua vida e morte, o seu sangue derramado, a sua vida entregue na mais radical gratuidade. Ele bem adverte, desde há dois mil anos: “Dai de graça o que de graça recebestes”. Mas os párocos católicos, com o aval dos bispos das respectivas dioceses, é que não vão nisso. E até com a morte dele na cruz ganham dinheiro. Por isso digo: Maldita pastoral católica que tais crimes comete. E ainda leva quem os pratica a viver de consciência tranquila! Pior: a apresentar-se diante das populações suas súbditas como homens dignos de toda a credibilidade e acima de toda a suspeita. Haja, modo, senhores!
Na minha infância o mês de Novembro que hoje começa era o mês das almas. E eu na minha ingenuidade de criança de aldeia, achava tudo muito bem e tudo muito natural. Vim a perceber mais tarde, com a frequência do Evangelho de Jesus, que tudo isto não passa duma ancestral cultura do medo, alimentada pelas Religiões e pela Mentira institucionalizada que elas ajudam a incutir nas consciências. O próprio nome de Deus que anda associado a este tipo de crenças e de práticas pastorais católicas, é o de um Deus cruel e sádico, que tem tudo a ver com o Deus das Memórias da Irmã Lúcia de Fátima, e que é capaz de criar purgatórios e infernos, não suporta os seres humanos, nem que eles cultivem o prazer e sejam felizes, um Deus que criou os seres humanos para depois poder ter o sádico prazer de os condenar ao inferno eterno, só porque eles, nas suas fragilidades de criatura, e no mundo de mentira organizada em que vivem, se deixaram enganar e desumanizar, por vezes, a vida inteira. Em lugar de usar para com eles de misericórdia e de compaixão, ainda vem, no momento da morte, em cima deles com castigos eternos, duma crueldade inimaginável!... Melhor fora, então, que Ele nem existisse, se é para ser assim que Ele existe.
Felizmente, quando, desde muito cedo, comecei a frequentar o Evangelho de Jesus, compreendi – e isso provocou uma revolução sem regresso na minha vida de presbítero da Igreja católica – que Deus Vivo não é nada assim como a generalidade dos clérigos católicos e as suas terríficas catequeses no-lO têm apresentado e que as sucessivas missas pelas almas dos que morrem parecem confirmar que é. Semelhante Deus é um sacana, dos piores, que havemos de erradicar de vez do nosso inconsciente individual e colectivo. E da nossa cultura. E da nossa civilização. O Deus de Jesus, ao contrário do Deus destes clérigos e destas suas práticas litúrgicas, é a Melhor Notícia que ouvido humano alguma vez ouviu ou poderá vir a ouvir no futuro.
Felizmente, é com este Deus de Jesus que vivo, melhor, é este Deus de Jesus que vive em mim, que me guia, me potencia desde dentro e me orienta. Podem chamar-me louco. Podem riscar o meu nome da lista oficial de padres da diocese. Podem tratar-me como um excomungado e um maldito. Prefiro todo esse tratamento eclesiástico católico, às honras e às comendas que os meus colegas desfrutam nos templos e nos altares. Na escola do Evangelho de Jesus que frequento diariamente, aprendo cada vez com mais convicção que só a Verdade nos faz livres. A Mentira, sobretudo, a Mentira institucionalizada, por mais que se vista de Altar e de Liturgia, de báculos de ouro e de cruzes peitorais, ou de barretes cardinalícios, é assassina. Quando mais se afirma e triunfa sobre as populações e as pessoas, mais as oprime e esmaga. E desumaniza. E mata. A começar, naturalmente, pelos que se lhe rendem e aceitam os privilégios que ela sempre garante a quem a serve acriticamente e a difunde como o anti-Evangelho de Deus Vivo. Não vou por aí. Tal como Jesus de Nazaré não foi. Nem Maria, a sua mãe e discípula. Tomara também que ninguém fosse. A começar pelos meus irmãos no presbiterado.