2004 NOVEMBRO 30
Este é o dia em que o Governo de Santana Lopes / Paulo Portas caiu. Nunca deveria ter existido. Foi uma criação de Jorge Sampaio que, por isso, deveria cair hoje também, juntamente com o Governo. Tinha apenas pouco mais de 4 meses de vida. O seu criador, há 4 meses, é agora o seu assassino. Naquela altura, era já manifesto aos olhos de toda a gente que criar um Governo liderado pela dupla política Santana Lopes / Paulo Portas seria o mesmo que criar um monstro político. Só Jorge Sampaio é que não quis ver. Meteu-se, por esses dias, a ler de modo fundamentalista a Constituição da República e decidiu empossar estes dois concorrentes a “Maquiavel” da política portuguesa. Não pode, por isso, limitar-se agora a lavar as mãos no sangue político deles. Faria melhor se, ao comunicar hoje ao país o assassínio político do Governo que ele próprio criou, comunicasse também o seu suicídio político. O país seguirá para eleições antecipadas. Com todos estes meses de atraso. Mas, depois de tudo isto que se passou, deveriam ser duas as eleições: uma, para eleger uma nova Assembleia de deputados, da qual emergirá também um novo governo; e outra, para eleger um novo Presidente da República. Daqui até lá, estes dois órgãos de Estado estariam ambos como simples órgãos de gestão.
Jorge Sampaio não foi capaz de ir por aqui. Limitou-se a assassinar politicamente o Governo, e mantém-se no seu cargo em plenitude de funções. Pensa que bastará emendar a mão que há quatro meses errou. Neste caso, deveria, ao menos, apresentar ao país um público pedido de desculpa por ter ajudado a criar um monstro político, chamado Governo Santana Lopes / Paulo Portas. E comprometer-se publicamente a gastar o tempo que lhe resta de vida a trabalhar para compensar o país pelos danos que lhe causou. De outro modo, a Política não se reabilita nunca mais. Pelo contrário, fica até mais vincada a ideia nas populações que em política vale tudo. E que os crimes em política compensam a quem os pratica. São comportamentos como estes a que assistimos por estes dias que assassinam a Política. A Política deveria ser a actividade mais nobre dos seres humanos e, assim, acaba por ser a mais perversa, a mais corrupta. Por culpa dos próprios políticos profissionais que não o sabem ser. Até parece que quem não tem jeito para mais nada vai para a Política. A Política deveria ser a actividade mais nobre dos seres humanos e está condenada a ser um antro de mediocridades e de medíocres.
Pessoalmente, não fiquei eufórico com esta decisão do PR Jorge Sampaio. Temo que os dois “Maquiavel”, com quem ele se meteu e com quem pactuou todos estes meses de pesadelo para o país, ainda venham a ter tempo, daqui até às eleições, para se vingarem do que ele hoje lhes fez. No meu entender, não deveria ser Jorge Sampaio a demitir o Governo. Deveria ser o Governo a demitir-se. É diferente. Com Sampaio a demitir o Governo, Santana Lopes e Paulo Portas podem sempre dizer e jurar - mentir é, para eles, a arte da política - que tinham um projecto para Portugal e que só não o concretizaram, porque o PR se intrometeu, porventura, a pensar que assim entregaria de bandeja o Governo ao eng.º Sócrates, o novo secretário geral do seu Partido Socialista, neste momento, em alta nas sondagens de opinião pública. Aliás, Santana Lopes não tinha revelado já, no último Congresso do seu Partido, a intenção de ambos continuarem a ser Governo, pelo menos, durante os próximos 10 anos? Deste modo, os dois têm sempre pé para se poderem apresentar ao povo português como vítimas. Um papel que, diga-se, ambos são peritos em executar. Com evidentes resultados políticos. Não fosse assim, e alguma vez os dois teriam chegado a líderes dos respectivos partidos?
O que, em meu entender, Jorge Sampaio deveria ter feito era chamar o primeiro-ministro ao seu palácio presidencial e dizer-lhe com toda a frontalidade, olhos nos olhos: Oiça, meu caro Dr. Santana Lopes, depois de tudo o que acaba de suceder com o seu amigo ex-ministro do desporto, que se demitiu sem sequer o avisar previamente e com todo aquele estrondo que se sabe, apenas quatro dias depois de eu lhe ter dado posse, e a que se juntam todas as sucessivas provas de manifesta incompetência, por parte da esmagadora maioria dos seus ministros em exercício, você e o seu Governo tenham vergonha e demitam-se, antes que eu me veja na obrigação de os desautorizar em público. Entretanto, ao ver que, em vez disso, o Dr. Santana Lopes ainda tem o arrojo de se apresentar diante dele, naquele seu ar de falsa virgem pudica, com o nome de um outro amigo seu para ocupar à pressa o lugar deixado vago pelo que bateu com porta, o PR deveria ter saído definitivamente do sério e dizer-lhe: Ouça, lá, meu caro Dr. Santana Lopes: com esta sua postura institucional estupidamente autista, você, como primeiro-ministro, está a dar provas de descarada irresponsabilidade governativa. Então o seu Governo está a desmantelar-se, a cair aos bocados e você ainda me vem aqui com o nome de mais um amigo seu para eu empossar como ministro do desporto? Por quem me toma? Demita-se, homem! Tenha um pingo de dignidade! E se não tem um pingo de dignidade, tenha ao menos um pingo de vergonha! É claro que, se mesmo depois disto, Santana Lopes se mantivesse na dele de não se demitir, para poder dizer, à saída da audiência, que foi demitido, o PR tinha sempre a possibilidade de vir contar ao país o que se tinha passado entre ambos e o que lhe tinha dito no decorrer do encontro. E seria o fim político de Santana Lopes.
Infelizmente, faltou sabedoria política ao presidente Jorge Sampaio para agir correctamente neste caso. Não satisfeito com ter criado há 4 meses um monstro político chamado governo, ainda veio agora criar ex-governantes-vítimas, por força duma nova decisão sua. É só esperar para ver. Aliás, já começamos hoje mesmo a ver: Santana Lopes, mal deixou a audiência com o PR, apresentou-se perante as câmaras da televisão que o aguardavam à saída, para dizer que foi demitido, não se demitiu, que continuava a ter uma maioria no Parlamento que apoiava o Governo, mas que o PR, mesmo assim, entendeu demitir o Governo e avançar para eleições antecipadas. E logo frisou, com a sobranceria e o fanatismo dos profissionais da política palaciana, que ele, Santana Lopes, até gosta de combates eleitorais e, por isso, lá estará para convencer as portuguesas e os portugueses a votarem nele. E quem nos garante que, nessa altura, ele não sairá vencedor, num país como o nosso, cujas populações, quando se vêem acossadas por graves problemas, correm ingenuamente para Fátima, na esperança de que aquela imagem cega, surda e muda, lá idolatrada, lhos resolva? Se as populações acham que uma imagem de caco ou de madeira, como a da senhora de Fátima, feita por um santeiro de Braga, pode operar milagres e, assim, resolver os seus graves problemas de falta de saúde, de falta de emprego, de solidão, de pobreza e de droga, por maioria de razão acharão que os políticos maquiavélicos Santana Lopes e Paulo Portas, malabaristas da palavra e manipuladores profissionais das massas, o farão. E tanto mais, quanto os dois são muito capazes de dizerem às populações que confiem neles, como eles confiam na senhora de Fátima e em Deus, dois nomes que ambos, na sua hipocrisia política, não se coíbem de invocar, as vezes que for preciso, sempre que acharem que dá votos...
Tudo irá depender do modo como a grande comunicação social se posicionar nestes próximos meses. Se ela se deixar instrumentalizar por estes dois líderes políticos feridos no seu orgulho e pelos factos políticos que eles não deixarão de criar para a atrair mais e mais até eles, é certo e sabido que a grande comunicação social acabará por lhes prestar relevantes serviços. Podem, um e outro, não ganhar desta vez o Governo, mas poderão ficar à beira de o conseguir, já para a próxima vez. Se, pelo contrário, a grande comunicação social continuar a acompanhar e a desmontar com a lucidez que se lhe impõe todas as suas acções malabaristas, então ficarão abertas as portas para uma nova Oportunidade política que só será verdadeiramente significativa, quando as populações portuguesas deixarem a preguiça e o marasmo em que têm vivido e passarem à ofensiva económica, cultural, social e política. Uma coisa é certa: Sem o protagonismo político das populações, a Política será sempre mais do mesmo, com uma ou outra alteração de pouca ou nenhuma monta.
Chegou, por isso, ao fim o tempo da Política confinada apenas aos Partidos políticos. Um sistema político assim é que gera profissionais da política à “Maquiavel”, como Santana Lopes e Paulo Portas. É tempo da Política ser devolvida às populações. O protagonismo político maior tem que ser sempre das populações, não dos Partidos políticos. Os Partidos têm que diminuir e as populações crescer em intervenção política. Os Partidos são para as populações, não as populações para os Partidos. Não mais Partidos vanguarda das populações, apenas Partidos “parteira” das populações. É preciso que elas cresçam em intervenção política e eles diminuam.
Não será fácil avançar nesta direcção. Uma vez criados, os Partidos não resistem a substituir as populações. Servem-se delas, em lugar de as servir desinteressadamente. Geram políticos profissionais e deixam as populações mergulhadas no analfabetismo político e na inacção política. Fazem carreira política, têm vencimentos chorudos, comparativamente aos das populações, têm privilégios e poder que as populações não têm. De “criados” das populações, passam logo a “senhores” das populações. É a subversão completa, no seu pior sentido.
Por isso digo: Ou mudamos radicalmente, ou continuamos, como país, a correr para o abismo. Às populações, mais do que aos Partidos políticos, cabe fazer a mudança. A Política é nobre de mais, é decisiva de mais, para continuar a ficar confinada apenas aos Partidos e aos profissionais da Política. Tem que regressar às populações. Para tanto, é preciso que as populações mudem radicalmente de postura na vida. Qualquer ser humano, mulher ou homem, que não seja político, é um ser humano diminuído, truncado, com grave deficiência. À mercê de oportunistas e de malabaristas de todo o tipo. Também dos oportunistas e malabaristas políticos.
É hora de mudar. Os episódios políticos destes últimos meses estão-nos a gritar que mudemos radicalmente. Eia! Ou assim, ou às populações em estado de aflição e de desamparo só resta continuar a correr para Fátima e para toda aquela mentira que lá é regularmente servida. E cujo principal objectivo é contribuir para manter as populações do nosso país e do mundo anestesiadas, infantilizadas, crédulas, tolhidas, diminuídas, alienadas, despolitizadas, submissas. E, finalmente, carne para canhão! Mas digam-me lá: haverá crime de lesa-Humanidade maior do que este? Acorda, meu Povo!
2004 NOVEMBRO 26
Um destes dias, fui solicitado, via e-mail, para uma entrevista, por parte de um jovem que ainda não conheço pessoalmente. Se eu concordasse, o jovem enviaria as perguntas e eu responderia. Tudo por e-mail. O jovem tem uma página saudavelmente satírica na Internet, de oportuníssima crítica social e política, mas a entrevista seria coisa séria e divulgada nela como tal. Forneceu-me o respectivo endereço. Abri logo na hora e naveguei por ela durante agradáveis minutos. Concluí que é um sítio realizado com muita inteligência e com não pouco humor. Deliciei-me. E pensei para mim: Não se pode dizer que o país está perdido, quando tem jovens como Renato (é este o nome do jovem), embora esteja momentaneamente perdido, quando tem governantes como Santana Lopes e Paulo Portas e todo o outro bando de ministros sem ponta de vergonha que integramo actual (des)governo. A entrevista já está na página do Renato. Decidi, por isso, divulgá-la integralmente também aqui no meu Diário Aberto As perguntas são dele, as respostas são minhas. Leiam. Divulguem. Comentem. E, já agora, não deixem de visitar regularmente o sítio do Renato (www.inepcia.com). Eis:
1. Foi perseguido, preso, exonerado, tratado como uma espécie de “anticristo” em ponto pequeno. Tendo o perdão a importância que tem no cristianismo, já perdoou às pessoas responsáveis por tudo isto?
R. Posso ter inimigos, mas não sou inimigo de ninguém. Acho também que nunca tive que perdoar a ninguém, pela simples razão de que nunca cheguei a ficar contra ninguém. Ao longo dos anos, fizeram-me tudo isso que diz a pergunta e muito mais, mas eu nunca fiquei contra as pessoas que assim agiram comigo. Sempre continuei a tratá-las como pessoas, a respeitá-las e a amá-las. Ao mal que me fazem, procuro responder sempre com o bem. Recordo-me, a este propósito, que, depois do 25 de Abril de 74, fui chamado a depor no Tribunal de Extinção da Pide/DGS, onde estava a ser julgado o homem que o Tribunal tinha como o principal responsável pelas minhas duas prisões políticas em Caxias. O colectivo de Juízes fez questão de ouvir o meu depoimento, para, com base nele, poder condená-lo. Pois bem, eu cheguei ao Tribunal, olhei fraternalmente para o senhor Julinho (era assim que o povo da freguesia de Macieira da Lixa o tratava) e pedi de imediato a sua absolvição. Aos meus olhos, o que ele havia feito tinha sido por arrastamento de outros muito mais poderosos e influentes, que habilmente se tinham servido dele contra mim e ficaram sempre na sombra. O colectivo de Juízes ficou manifestamente perplexo com as minhas palavras, para não dizer, em estado de choque, mas teve que mandar em paz o acusado. Devo dizer, igualmente, que os meus braços de homem padre estão sempre abertos para abraçar todas as pessoas, inclusive, aquelas que me tenham feito mal, ou ainda venham a fazer. Acontece, porém, que, muitas vezes, as pessoas que me fazem mal não conseguem depois aceitar o abraço que lhes quero dar. Continuam a detestar-me. Prefeririam, se calhar, que eu as odiasse também a elas. Creio que até me detestam ainda mais por eu, ao ódio delas, responder com respeito e amor. Mas é assim que sou. Sem ter que fazer um esforço por aí além. Sou assim por natureza e também pela graça a que procuro estar permanentemente aberto. Acho que é assim que todos nós, mulheres e homens, haveremos de ser, se quisermos ser verdadeiramente humanos. Ao mal que nos façam, havemos de responder só com o bem. O nosso mundo será então de muito mais paz.
2. O que sente alguém preso sem ter cometido qualquer crime? Há arrependimento? Nalgum momento se pensa “eu sei que tenho razão mas se estivesse calado e quieto evitava estar aqui”?
R. No meu caso, senti-me sempre fortemente injustiçado pelo facto de estar preso. E das duas vezes que me levaram para a Cadeia política, comecei sempre por protestar por escrito, através de exposições que fazia chegar ao respectivo director. Bem sabia que, na prática, esses meus protestos escritos de nada valiam, mas o gesto, só por si, consubstanciava a inequívoca afirmação da minha própria dignidade perante o Regime bruto e cruel que prendia pessoas inocentes, só porque elas lhe eram politicamente incómodas. Mas, depois, uma vez metido à força na prisão política, nunca senti qualquer arrependimento pelas posições anteriormente tomadas. Pelo contrário, ao ver-me injustamente na prisão, dei-me conta cada vez mais da perversidade e da crueldade do Regime que me havia prendido. Era, por isso, um Regime a denunciar sem cessar, desmascarar e combater cada vez com mais audácia e determinação. Em nome da Humanidade e da dignidade das pessoas. Recordo-me, a este propósito, que quando, depois da minha primeira prisão política em Caxias, regressei à paróquia, em lugar de me comportar com mais cautelas que anteriormente, acirrei ainda mais o combate pela libertação das pessoas e dos povos contra o Regime. Afinal, o Regime havia transformado o país numa prisão. Por isso, não tinha que ser respeitado, mas simplesmente desmascarado, até ser abolido. E foi o que passei a fazer com redobrada determinação, depois da primeira prisão política que sofri. Tenho consciência que não há dignidade humana sem liberdade. E sem luta pela liberdade, quando esta ainda não é o pão na vida de todas as pessoas e de todos os povos. No meu entender, o medo e a “prudência”, perante regimes autoritários, para não se ser incomodado por eles, nunca são caminho para se ser homem, mulher com todas as letras. Por isso, não esperem que eu cultive essas “virtudes”. Prefiro sempre a via da dissidência, como caminho para a verdadeira paz.
3. Em 1967, quando trabalhava como professor de Religião e Moral num liceu do Porto, foi forçado a ir para a Guiné por ter apoiado “actividades subversivas” como ser favorável ao movimento associativo estudantil. Esteve lá menos de um ano. Por pregar o direito dos povos das colónias à independência, foi expulso do cargo de capelão e regressou a Portugal. É este o segredo da resistência ao autoritarismo e à opressão? Quando nos castigam por algo que pensamos ou dizemos, fazer ainda pior?
R. Não direi propriamente: “fazer ainda pior”. Para mim, o segredo da resistência ao autoritarismo e à opressão é ousarmos ser cem por cento humanos, sem nunca recuarmos, sejam quais forem as circunstâncias. Porque se, perante esses e outros males, recuamos em humanidade, podemos acabar transformados em minhocas, em coisas, em meros funcionários. O autoritarismo e a opressão nunca podem ser acatados por ninguém, indivíduo ou povo, que se preze. Têm que ser combatidos. Sempre. Com muita imaginação e inteligência. Uma das maneiras mais eficazes de atacar esses males é praticar a resistência activa perante eles. Ninguém pense que é coisa fácil ser homem, ser mulher, dentro da presente Ordem mundial neo-liberal do Império. Não é. O que é fácil, mas também ignóbil, é regredirmos até nos tornarmos capacho de quem é autoritário e opressor. Mas também neste particular, o Sistema não tem podido nunca contar comigo. É por isso que o meu itinerário de vida foi e continua a ser tão atribulado. Mas é o itinerário de vida de um homem saudavelmente dissidente, activamente resistente, insubmisso, insubornável, solidário, irmão universal.
4. O que aconteceu em Fátima a 13 de Maio de 1917?
R. Começo por declarar que Fátima é, porventura, a maior mentira fabricada por um certo tipo de Catolicismo português que, estranha e escandalosamente, sempre contou e continua ainda hoje a contar, apesar de entretanto ter acontecido o Concílio Vaticano II, com o reconhecimento da generalidade dos Bispos, da Cúria Romana e até do Papa, nomeadamente, do actual Papa João Paulo II, que, como se sabe, é um dos filhos mais idolatrados da católica Polónia e um fruto acabado do seu feroz anticomunismo/anti-ateísmo primário. O que aconteceu em Fátima em 13 de Maio de 1917? Depois de muito me ter debruçado sobre o fenómeno, cheguei à conclusão de que o dia 13 de Maio de 1917 foi o início da fabricação da grande mentira que é hoje Fátima. O clero da região preparou tudo ao pormenor e fez acontecer aquela “aparição”. Depois, a credulidade e a crassa ignorância teológica e evangélica das populações da época, mais o obscurantismo e o medo em que viviam no seu dia a dia, fizeram o resto. Até fizeram acontecer o chamado “milagre do sol”, uma inventona objectivamente boba e humanamente ignóbil. Que fique bem claro, duma vez por todas: Não há, nunca houve, nem jamais haverá aparições de Maria, mãe de Jesus, a ninguém, crianças ou adultos, mulheres ou homens. Apareça o primeiro teólogo cristão que me desminta de forma fundamentada. Por isso, tudo o que se disser a este respeito – e muito se tem dito e escrito, infelizmente – é mentira, fantasia, exploração da credulidade das pessoas simples e ingenuamente propensas ao maravilhoso. Não tem qualquer verdade objectiva e cientificamente comprovada. E repugna ao núcleo essencial da Fé cristã jesuânica! O que as três crianças de Fátima “viram” e “ouviram” – se é que elas viram e ouviram alguma coisa no dia 13 de Maio de 1917 – foi apenas o que elas já tinham nos seus próprios cérebros aterrorizados pelas pregações da Santa Missão e pela leitura em família do livro Missão Abreviada. Porém, pela forma como toda esta mentira foi inicialmente montada e é oficialmente relatada, o mais que pode ter acontecido foi uma dramatização teatral, em que Lúcia, a mais velha das três crianças, fez o papel de actriz principal. Nada mais do que isso. E se dissermos que em Fátima houve uma manifestação do “divino” ou uma comunicação do “céu” com a terra, mentimos com quantos dentes temos na boca. Um tal “divino” não passaria, afinal, de demoníaco. Aliás, é este demoníaco que, em nós, no nosso inconsciente individual e sobretudo colectivo, sempre espera, pede, reclama e exige de Deus “milagres”, manifestações do “sobrenatural”. Pelos frutos – diz Jesus no Evangelho – se conhece a árvore. Neste caso, se conhece Fátima. Ora, os frutos de Fátima e da sua senhora cega, surda e muda foram e continuam a ser tão perversos, tão inumanos, tão cruéis, tão alienadores, tão anti-Evangelho, tão anti-Jesus de Nazaré e até tão anti-Maria, sua mãe, que nada daquilo pode ter o “selo” ou a “marca” de Deus, pelo menos, do Deus de Jesus e de Maria. Tudo aquilo é idolatria, alienação, exploração, culto do medo, covil de ladrões. Por isso, digo sem hesitar: quanto mais a Igreja católica se identificar com Fátima, mais perderá em autenticidade e em credibilidade. Fátima tem sido e continuará a ser, se a Igreja teimar em manter-se lá a arrecadar todos aqueles milhões de euros por ano e todo aquele ouro levado pelas populações adoentadas e maltratadas por economias e políticas sem misericórdia, o vírus que corrompe e paganiza o Cristianismo jesuânico. A cova dos milhões. O cemitério da Igreja.
5. Como vê a polémica recente provocada pela ida de sacerdotes não cristãos ao santuário de Fátima? O eclectismo tem limites?
R. A mim, nada disso me aquece ou arrefece. Todos os chefes das religiões gostam de locais onde se congreguem multidões, massas humanas sem consciência crítica, grandes quantidades de pessoas não-ilustradas e não-evangelizadas. Esses locais são terreno propício à mentira, à aldrabice, ao engodo, ao maravilhoso, à manipulação das massas populares, por parte das elites dos privilégios, nomeadamente, das elites religiosas, qualquer que seja a religião. Se desses locais desaparecesse a aceitação, por parte dos responsáveis, das ofertas em dinheiro das devotas, dos devotos e fosse também banido todo o rendoso negócio religioso que logo por ali prolifera como cogumelos, os sacerdotes e outros líderes religiosos dificilmente passariam por lá. Mas isso ninguém, nenhum líder religioso, nenhuma Igreja faz. Fátima é mentira. E lá, onde impera a mentira, também impera a opressão, o autoritarismo, o arbitrário, a alienação popular, a idolatria. Basta ver com olhos de ver através da televisão o comportamento da multidão, num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. É manifestamente uma multidão triste, sofrida, cativa da injustiça que, ano após ano, geração após geração, espera infantilmente por um “milagre” que lhe resolva magicamente os problemas. O que nunca aconteceu. Nem acontecerá! Entretanto, não há ninguém que anuncie a essa multidão o Evangelho ou a Boa Notícia de Jesus que nos revela que os problemas da Humanidade só serão resolvidos se todas, todos nós fizermos por isso. Com engenho e arte. Com empenho e luta política. Como se Deus não existisse. Vejam, entretanto, que nenhum dos responsáveis da Igreja católica que intervêm em Fátima, desde o Reitor do santuário, ao Bispo da diocese e a acabar no Papa de Roma, se atreve a ir por aqui. O mesmo se tem que dizer dos líderes de outras religiões que por lá passam. Uns e outros praticam o discurso da mentira, da alienação, do anti-Evangelho. Vejam igualmente como todos eles, aparentemente tão diferentes entre si, acabam sempre por se entenderem uns com os outros. Tenho a certeza que se Jesus viesse de novo à terra, os líderes religiosos católicos jamais o receberiam em Fátima, muito menos, o deixariam intervir num qualquer dia 13 de Maio ou de Outubro. E, se, por engano, o autorizassem, não o deixariam concluir a sua intervenção e matá-lo-iam nesse dia. Ou, então, tratavam-no como um louco varrido diante de toda a multidão mantida propositadamente por eles no infantilismo e na ingenuidade!
6. Normalmente, há três palavras que é melhor não referir em conversas com sacerdotes. Como o padre Mário não é propriamente um sacerdote-tipo, arrisco-me a juntá-las na mesma pergunta e peço-lhe que comente como entender. Aborto, contracepção, homossexualidade.
R. Não vejo porque seja melhor não referir tais palavras em conversas com padres ou presbíteros da Igreja. Pessoalmente, não gosto da designação “sacerdote” para nos referirmos ao ministério ordenado. O ministério em que eu próprio fui ordenado pela Igreja é o de presbítero. Sacerdote tem a ver com religião e com os cultos do Paganismo. Sacerdócio remete logo para o paganismo, não para Jesus. É certo que a Carta aos Hebreus tentou recuperar para o Cristianismo o termo sacerdote, mas teve o cuidado de dizer que só Jesus – que destruiu simbolicamente o templo de Jerusalém, e foi odiado com ódio de morte pelos chefes dos sacerdotes do seu país – é sacerdote. E logo acrescentou também que ele é sacerdote, não da ordem de Aarão, mas da ordem de Melquisedec, o que significa um tipo de sacerdote que tem tudo a ver com a Política e com os acontecimentos de que é feita a História, e nada a ver com a Religião e com os cultos sacrificiais nos templos e altares.
Quanto ao tabu a que se refere a pergunta, ele não estará tanto nas tais três palavras – aborto, contracepção, homossexualidade – como sobretudo no sexo enquanto tal. Mas não deverá ser mais assim, porque se há alguém que tem que estar à vontade para conversar sem tabus sobre todas as dimensões do ser humano, incluída a sexualidade, é o presbítero da Igreja. Ou então o seu ministério nunca pode ser verdadeiramente pastoral, maiêutico, libertador. Será meramente cúltico, religioso, beato, em última instância, pagão.
Atentemos então nas três referidas palavras. Sucintamente, digo que aborto é um mal que nenhuma mulher, nenhum homem que se preze pode aprovar, ou ver com bons olhos. De igual modo, alguma vez o aborto pode ser encarado como prática contraceptiva. Curiosamente, o aborto é um mal que os homossexuais, enquanto tais, jamais podem cometer. Porém, outra coisa muito distinta é a lei da despenalização do aborto. Pessoalmente, sou contra o aborto, como toda a mulher, todo o homem que se preze, mas a favor da lei do aborto, nomeadamente, no contexto duma sociedade ainda tão injusta e tão socialmente desigual como a nossa, onde o recurso ao aborto clandestino, por parte de mulheres pobres e a viver em condições degradadas, geralmente acontece em condições atentatórias da sua saúde e da sua dignidade. É para pôr cobro a isto, ou pelo menos, para atenuar esta gravíssima indignidade, que eu defendo a lei do aborto, tal como ela já chegou a ser aprovada no Parlamento português, embora, depois, não tivesse havido coragem para a pôr em execução. Entendo que uma filha, um filho, para ser verdadeiramente humano, há-de ser concebido por uma mulher e um homem que, de forma responsável, assim o chamam à vida. Não há-de resultar de um mero acaso, muito menos, duma relação imposta à força, com muito de violação, mesmo dentro do chamado casamento tradicional.
No que respeita à contracepção, inclusive, ao uso da pílula e do preservativo, para evitar gravidezes não-desejadas e não-planeadas pelo casal, entendo que é bem-vinda, como caminho para maternidades, paternidades responsáveis.
Quanto à homossexualidade, vejo-a como uma tendência sexual que se manifesta em certas pessoas, mulheres e homens, tal como a heterossexualidade. Por isso, se também aqui quisermos falar de Deus criador, teremos que “corrigir” o relato do livro do Génesis e passar a dizer assim: Deus criou o ser humano, Ele o criou homem e mulher, heterossexual e homossexual Ele o criou. O que não for assim, é ofensivo dos seres humanos e de Deus. Reconheço, entretanto, que, para aceitarmos esta revelação integral de Deus criador de heterossexuais e de homossexuais/lésbicas, é preciso uma revolução de mentalidades e na própria teologia cristã católica. Pessoalmente, é já por estas águas que navego. Com alegria.
7. O celibato é assim tão essencial à prática do sacerdócio como nos é dado a entender? Acha que um padre casado poderia ser um bom padre?
R. O celibato imposto como disciplina eclesiástica católica romana é apenas isso: disciplina eclesiástica. Não tem origem nem fundamento no Evangelho, muito menos procede do pensamento e da vontade de Jesus de Nazaré. Aliás, atenta contra a letra de algumas cartas que integram o Novo Testamento, as quais contêm recomendações dirigidas directamente aos bispos, para que sejam homens de uma só mulher, por isso, não celibatários! É uma disciplina imposta pela Igreja católica de Roma a todos os católicos que aceitem ser ordenados presbíteros ou padres. (A Igreja católica oriental tem outra disciplina completamente diferente e nem por isso deixa de ser Igreja católica!) Como se trata duma disciplina imposta, será mais correcto falar de prepotência eclesiástica, melhor, prepotência da Cúria Romana. Para cúmulo, exercida contra o sentir e o querer da Igreja-povo-de-Deus que gostaria de ver os “seus” padres com liberdade de casar ou não casar. Trata-se duma daquelas prepotências da Cúria romana que os Bispos que presidem a cada uma das múltiplas Igrejas locais jamais deveriam acatar e respeitar. Na medida em que a acatam e a põem em execução, tornam-se cúmplices da Cúria Romana, pecam como ela contra o Espírito Santo, que não quer nada dessas coisas, uma vez que Ele é todo pela liberdade e pela responsabilidade, nada pelo autoritarismo da Lei e do tradicional, nomeadamente, quando este, como acontece aqui, é inumano. Reconheço que, por causa desta prática eclesiástica, a nossa Igreja católica é hoje uma Igreja em estado de pecado. Não admira então que tenha cada vez menos membros. E que aqueles membros que ela ainda mantém, sejam tão tristes, tão oprimidos/deprimidos, tão amargos/amargurados.
Sublinho, entretanto, que outra coisa muito diferente é o celibato livremente assumido por amor do Reino/Reinado de Deus. Como sabemos, sempre tem havido, ao longo da História, algumas pessoas, mulheres e homens, que decidem entregar-se tanto e de modo tão radical às grandes causas da Humanidade, que o celibato lhes aparece como uma via mais propícia que o casamento. Mas é claro que um celibato assim já não terá nada a ver com auto-castração, como acontece com o celibato imposto por lei eclesiástica. Pelo contrário, há-de ser alimentado por muitos afectos, vividos ao modo de pessoa adulta e sempre na dimensão da gratuidade, com muita entrega de vida e muita alegria.
Já para se ser padre-funcionário eclesiástico, num quotidiano feito de rotinas, como é hoje o caso de um qualquer pároco de aldeia ou de cidade, anos e anos à frente da mesma paróquia, o celibato deixa de ter qualquer sentido, pior ainda, se for obrigatório, como acontece, desde há séculos na Igreja católica ocidental. Aliás, celibato pelo celibato é uma forma refinada de castração, que os cultos à grande deusa mítica virgem e mãe, anteriores ao próprio Cristianismo, já promoviam com sucesso entre os rapazes que pretendiam servir nos seus templos e altares. Como tal, é gerador de súbditos, de homens amantes do dinheiro, de funcionários do sagrado, estéreis, misóginos, numa palavra, homens dedicados a causas relacionadas com a alienação religiosa e com a fuga do mundo. Por isso, sem audácia para fazerem suas as grandes causas da Humanidade que, muitas vezes, exigem grandes combates martiriais, vidas pessoais fortemente militantes, longe das seguranças e dos privilégios que as casas paroquiais e os campanários geralmente garantem a quem por lá se movimenta.
8. Uma mulher poderia ser um bom sacerdote?
R. Mulheres presbíteras na Igreja será a grande realidade de amanhã, também na Igreja católica. Ou assim, ou a Igreja católica acabará riscada da sociedade. E, se ainda vier a continuar nela, será apenas como coisa de museu, por isso, sem a força transformadora do fermento, nem a fecundidade do grão de trigo que morre sob a terra para dar muito fruto. Na Bíblia em geral e no Evangelho de Jesus em especial não há nada que impeça este passo em frente, por parte da Igreja católica, em relação à ordenação de mulheres. Pelo contrário. Tudo hoje está a chamar para aí, de modo que não avançar nessa direcção, a pretexto de nos mantermos fiéis a uma prática eclesiástica anterior de ordenação só de homens e homens sem mulher, é pecar, e pecar com contumácia contra o Espírito Santo. Ou o Espírito Santo não esteja aí a clamar nos sinais dos tempos que as mulheres, tanto como os homens, estão chamadas a ocupar lugares de decisão e de direcção, em radical igualdade com eles, seja na sociedade em geral, seja nas Igrejas, em especial. De resto, é bom que, também aqui, as Igrejas dêem o exemplo, abram caminhos ainda não andados, em lugar de seguirem a reboque da sociedade, como carros vassouras da História.
9. O movimento carismático tentou recuperar para o catolicismo fiéis que perdeu para confissões evangélicas, usando meios muito parecidos aos que usava, por exemplo, a Igreja Universal do Reino de Deus. Será este o caminho certo? Alguma vez viu o canal carismático “Canção Nova”?
R. Não creio que seja esse o caminho certo. Vi algumas vezes o canal “Canção Nova”, no tempo em que ele ainda não tinha passado a codificado, e fiquei ainda mais convencido que o caminho não é por aí. Já S. Paulo, por volta do ano 50 da nossa era, se insurgia contra os “carismáticos” da Comunidade de Corinto que falavam “línguas” que ninguém entendia e mantinham outros comportamentos bizarros completamente estéreis e alienantes. A prática de Jesus de Nazaré também nunca foi por aí. E o Evangelho de João atreve-se a dizer que apenas a prática de Jesus é a correcta, quando no-lo apresenta a proclamar, alto e bom som: “Eu sou o caminho, a verdade e a vida. Ninguém vai ao Pai senão por mim”. Admito que um certo sector da Igreja católica se converteu oportunistamente aos métodos da Igreja Universal do Reino de Deus, certamente, com o objectivo de tentar estancar a perda de milhares de fiéis todos os anos a favor das novas Igrejas evangélicas. Mas esses métodos têm mais de demoníaco do que de jesuânico. Alienam as pessoas. Manipulam a consciência das pessoas. São mentira. Exploram financeiramente as pessoas até ao osso, em especial as pessoas com graves problemas de saúde e de droga. Para além de as aterrorizar. Por outro lado, tornam as pessoas confrangedoramente dependentes dos cultos periódicos e dos pastores com jeito para o comércio religioso e para o blá-blá-blá com sotaque brasileiro. Para cúmulo, retiram as pessoas das lutas e das intervenções políticas. Mantêm-nas num fideísmo infantil e ingénuo, e num milagrismo alienante, de bradar aos céus. Com o passar dos dias, percebe-se também que esses são métodos que matam a originalidade e a criatividade das pessoas, o que eu chamo verdadeiros casos de polícia e dos Tribunais. Infelizmente, ninguém actua, certamente em nome da liberdade religiosa, mesmo quando esta, como é manifesto no caso destas novas Igrejas-seita, a liberdade religiosa é sobretudo liberdade para matar, roubar e destruir o que há de melhor e de mais genuíno em cada pessoa. É caso para dizer que carismáticos assim só o podem ser, não do Deus-Espírito Santo, mas do Deus-Demoníaco, melhor, do Deus-Dinheiro, que os pastores que estão à frente dessas Igrejas, assim como os padres e responsáveis leigos da “Canção Nova” fazem tudo para sacar a quem tem a desgraça de lhes cair nas mãos, digo, nas garras.
10. Em entrevista ao Jornal de Notícias, o padre José Luís Borga chamou-lhe “doente.” Não querendo fazer disto um ajuste de contas, qual a sua opinião acerca do padre Borga enquanto artista e figura mediática?
R. É verdade, o meu colega Pe. Luís Borga chamou-me “doente”. E no contexto em que o fez, só poderá entender-se doente do foro psiquiátrico. Por outras palavras, chamou-me “louco”. Não se pode dizer que essa sua opinião a meu respeito tenha sido inspirada pelo Espírito de Deus, uma vez que é uma opinião que atenta contra o que nos recomenda Jesus, no Evangelho de Mateus. Em concreto, diz Jesus: “Ouvistes o que foi dito aos antigos: Não matarás. Aquele que matar terá que responder em juízo. Eu, porém, digo-vos: Quem se irritar contra o seu irmão será réu perante o tribunal; quem lhe chamar «imbecil» será réu diante do Conselho; e quem lhe chamar «louco» será réu da Geena do fogo” (Mt 5, 21-22). Surpreendeu-me essa opinião caluniosa, tanto mais quanto o meu colega Pe. Luís Borga, até hoje, nunca se me dirigiu, nem de viva voz, nem por escrito. Se é assim que ele me vê e se, como ele próprio diz nessa entrevista, me tem como seu irmão no presbiterado, então já poderia ter tido comigo alguma manifestação de cuidado e de ternura fraternal. Nunca teve. Entretanto, é bom lembrar que a opinião caluniosa que o meu colega Pe. Luís Borga lança contra mim sempre foi lançada também contra aquelas pessoas que, no seu tempo histórico, têm tido a audácia da dissidência, da liberdade, da autonomia, da fidelidade à verdade que nos faz livres. Ao chamar-me “louco”, o meu colega Pe. Luís Borga colocou-me sem querer em boas companhias. Não é verdade que também chamaram “louco” a Jesus, o de Nazaré? E possesso do demónio? E não disseram que tudo o que ele fazia de libertador e dizia de denúncia era por obra de Belzebu, chefe dos demónios? Por isso, daqui agradeço ao meu colega Pe. Borga essa referência que me fez e esse epíteto que me atribui.
Qual a minha opinião sobre ele? É difícil pronunciar-me porque só o conheço de fugida pela televisão. Apesar de tudo, acho que ele procura, ao seu jeito, ser um padre para este tempo e que é hoje, volens/nolens, o rosto mais mediático da Igreja católica, o que lhe dá uma responsabilidade acrescida. É por isso que, se me é permitido, eu gostava de o sentir muito mais profundo na mensagem que canta, e muito mais profético nas intervenções que faz em público. Sobretudo, gostava de perceber que ele progressivamente se deixa conduzir e guiar pelo Espírito Santo, até poder chegar a ser caluniado de “louco”, como Jesus de Nazaré, pelas minorias dos privilégios que espezinham o Pobre, mesmo quando protagonizam mediáticos gestos de “caridadezinha”.
11. Com tudo o que tem acontecido ultimamente, como vê o futuro do país a curto-médio prazo?
R. Com este Governo de Paulo Portas/Santana Lopes, o país vai a pique para o abismo. O Inimigo do país e do povo português está hoje no próprio Governo. Parece que cada ministro faz gala de ser ainda pior do que outro. Quando o PR decidiu, à revelia do sentir e do querer da esmagadora maioria da população, chamar Santana Lopes a formar governo e, dias depois, o empossou como o primeiro-ministro de Portugal, insurgi-me e gritei por uma nacional Insurreição Cívica que nos levasse a eleições antecipadas. Infelizmente, não fui ouvido, nem sequer pelos grandes meios de comunicação social. Nenhum deles se fez eco do meu grito. Hoje continuo a não ver outra saída. Ou damos corpo rapidamente a uma nacional Insurreição Cívica, rumo a eleições antecipadas, por demissão deste Governo, ou acabámos caídos numa nacional Depressão Cívica, de onde será muito difícil sair. O fascismo que nos infantilizou e castrou, como povo, até ao 25 de Abril, já está aí de novo e em força. Reciclado, evidentemente. Todos estes anos depois, nunca chegamos a ser devidamente curados das sequelas que o fascismo nos deixou. E, por isso, o fascismo, devidamente reciclado, pode sempre regressar a qualquer momento. Ainda encontra muita gente que lhe dê guarida. Está à vista de todas as pessoas que assim é. Com a agravante de que, nesta altura, não há, organizada no terreno, como antigamente havia, uma acção de resistência, a trabalhar na clandestinidade. Começa a ser necessário voltar a essa acção de resistência clandestina, mas em moldes novos, adaptados ao nosso hoje. Organizemos, pois, de novo a resistência activa. Mobilizemo-nos. Cumpramos aquele axioma revolucionário que diz: Façamos sempre o contrário do que o Inimigo quer. Para que o Governo e os seus ministros fiquem sozinhos, a bater furiosamente com a cabeça contra as paredes.
12. E o futuro do mundo?
R. Hoje, o nosso mundo está totalmente dominado pelo Império. Mas a História mostra-nos que o Império, por mais poderoso que seja, tem sempre pés de barro. O 11 de Setembro e o 11 de Março foram os dois últimos grandes apocalipses (= revelações) que nos tiraram a venda dos olhos acerca do Império. Por isso, se corrermos a cerrar fileiras contra o Império, abriremos novas oportunidades ao nosso presente. Se, pelo contrário, nos deixarmos enfeitiçar e seduzir pelo discurso do Império e corrermos a cerrar fileiras ao lado dele, então preparemo-nos para um prolongado Inverno no planeta. O Império, por mais hábil que seja no seu discurso e por mais poderoso que seja nos seus exércitos, é sempre mentiroso e assassino. Quando parece que protege, aprisiona e escraviza. Quando parece que salva, mata sem dó nem piedade. Despertemos, pois. Arregalemos bem os olhos do corpo e sobretudo da consciência. Se corrermos para o Império, é certo e sabido que morreremos castrados/assassinados por ele. Cerremos então fileiras contra o Império. Descubramos onde ele esconde os seus pés de barro. E apontemos para aí todas as nossas energias, todas as pedras das nossas fundas, como fez David contra Golias. É hora de passar à acção concertada: Por isso, grito daqui de Macieira da Lixa: Empobrecidos e Oprimidos de todo o mundo, uni-vos! Na esperança. E também na acção política libertadora e revolucionária, da qual resulte uma nova Ordem Mundial a favor da Vida e vida em abundância para todos os povos.
13. Até que ponto a Igreja Católica se afastou da mensagem original de Cristo?
R. De Cristo, sem mais, a Igreja católica pode não se ter afastado muito. Pode até ter-se identificado com ele. Estou a pensar, é claro, no Cristo do Império romano, mais ou menos identificado, naquele tempo, com o próprio Imperador. Mas de Jesus, o de Nazaré, sim, a Igreja católica afastou-se quase cem por cento. Também se afastou quase cem por cento de Cristo, mas apenas daquele Cristo Crucificado pelo Império e pelo Templo, que era, afinal, o próprio Jesus de Nazaré, pelo menos, no desassombrado testemunhar das suas discípulas e dos seus discípulos, que não hesitaram em colar para sempre esse título messiânico, libertador, ao seu nome histórico.
Jesus, como testemunha o Evangelho, resistiu até ao sangue contra o Império e as suas seduções. A Igreja, ao contrário, acabou por cair nos braços do Império e disse sim a todas as suas seduções. Felizmente, sempre houve, através dos tempos, Igreja que resistiu até ao sangue contra o Império, concretamente a Igreja dos mártires assassinados e de muitos outros mártires incruentos, alguns deles, martirizados como “hereges” pela perseguição assassina da própria Igreja oficial, amancebada com o Império e que, numa postura de manifesta traição, aceitou transformar-se de via ou caminho de libertação para a liberdade, que inicialmente era, em religião, e, depois, pior ainda, em religião oficial do Império. Foi uma Igreja assim, em estado de completa traição ao Evangelho, que acabou a identificar Jesus, o Crucificado pelo Império, com o Cristo divinizado pelo Império. É por isso que o que hoje chamamos Cristianismo é sobretudo Paganismo, melhor, Cristianismo paganizado. Quase não tem nada a ver com Jesus, o de Nazaré, que o Templo e o Império mataram, depois de o terem prendido e julgado sumariamente. É neste ponto que estamos ainda hoje. E de onde havemos de sair quanto antes. Para tanto, havemos de resgatar Jesus do Cristianismo paganizado, braço moralista e religioso do Império. E com ele e como ele, havemos de saber resistir ao Império. Para que o Império dê finalmente lugar à Humanidade em estado de maioridade, ilustrada, emancipada, protagonista, e totalmente ocupada na edificação do mundo como sua casa comum, de cuja mesa comunitária ninguém, indivíduo ou povo, fique excluído.
14. Entrando no domínio da fantasia, imagine que era escolhido para ser Papa. Quais as três primeiras coisas a fazer?
R. Nem no domínio da fantasia sou capaz de me ver no papel de Papa. Aliás, como cristão seguidor de Jesus, nunca eu aceitaria semelhante título e semelhante papel. Por isso, resumo aqui as três primeiras coisas a fazer numa só. Formulo-a assim: Seja convocado quanto antes um Concílio macro-ecuménico que acabe de imediato com essa aberração institucional eclesiástica que é hoje o papado chefe de Estado do Vaticano, celibatário à força, patriarcalista, monarca absoluto, infalível, e com a Cúria romana que sempre tem feito gato-sapato do papa de turno, sobretudo, quando este não tem o carisma de um João XXIII ou de um João Paulo I. E que, em seu lugar, o mesmo Concílio se atreva a criar um Serviço maiêutico de Coordenação/animação da Igreja, na linha do Servo de Iahvé, do Profeta Isaías, constituído por mulheres e homens dos cinco continentes, em cujas vidas históricas sobressaia a presença actuante da mesma Fé de Jesus, escolhidos e aclamados por toda a Igreja, segundo métodos que o Espírito Santo não deixará indubitavelmente de inspirar.
2004 NOVEMBRO 22
Era o dia da minha folga semanal e, depois do almoço que confeccionei em casa, decidi viajar na carrinha até Guimarães. Inicialmente, ainda pensei ir ver o filme de um novo realizador português em ascensão de credibilidade. Consultei a Internet, antes de sair de casa, a ver se o filme está lá em exibição, mas não está. Mesmo assim, saí de casa rumo àquela histórica cidade do Minho. E quando lá cheguei é que me recordei de um casal de idosos, Balbina e Ilídio, de quem sou conhecido e amigo desde os tempos em que fui aqui pároco em Macieira da Lixa. Os dois encontram-se como residentes, há alguns anos, no Lar St.º António, naquela cidade. E foi para lá que me encaminhei, depois de ter adquirido numa padaria da cidade, por cujas imediações tive que passar, alguns pães de centeio, o meu pão preferido para uso diário, e que nesse estabelecimento é de qualidade unanimemente reconhecida.
Ilídio, 85 anos, foi chamado à portaria. Desceu no elevador e caiu-me nos braços, logo que deparou comigo. Não me esperava de nenhum modo e, por isso, a alegria dele foi ainda maior. Vive no Lar, mas felizmente ainda se movimenta bastante à vontade por toda a casa e pelo jardim e, quando o tempo se apresenta acolhedor, vai mesmo até ao centro da cidade. O Lar é a sua nova casa, aonde se recolheu com a mulher. Balbina, de idade aproximada à dele, está acamada há anos e, nestes últimos tempos, caiu mesmo em estado de inconsciência, quase só com vida vegetativa. Quando lhe disse que queria encontrar-me também com ela, Ilídio começou logo a chorar. Está a vê-la desaparecer progressivamente da sua vida. Além disso, é para ele uma dor de alma vê-la, assim, estendida dia e noite num leito sem dar acordo de si, sem o reconhecer, sem reagir a qualquer estímulo externo que se lhe faça. Mas não se fez rogado ao meu desejo e acompanhou-me até ao quarto onde Balbina se encontra. Pude então ver com os meus próprios olhos toda a situação. Ao meu jeito, alegre e brincalhão, meti-me com a minha amiga, puxei por ela, passei-lhe repetidamente a mão pela face, fiz-lhe festas nos cabelos, procurei-lhe uma das mãos sob os cobertores e acariciei-a, mas Balbina não exteriorizou qualquer reacção. Chamei por ela com algum alvoroço e insistência, tentei de múltiplos modos trazê-la de volta ao nosso mundo, disse-lhe quem era, insisti nos gestos de ternura. A dado momento, Balbina abriu a boca num leve bocejo, mas permaneceu de olhos fechados e sem emitir qualquer som. A auxiliar de enfermagem apareceu entretanto e levantou levemente a cama do lado da cabeça. Balbina ficou com o seu rosto mais à altura do meu. Tossiu, por um instante, mas não foi além disso. Fiquei sem saber se terá dado conta da minha presença. Ilídio, ao meu lado, só chorava, de mansinho. Animei-o, que a nossa vida tem também todas estas dimensões. Permaneci sereno, vivo, sorridente, como quem comunica/partilha vida. Sei que a situação de Balbina é clinicamente irreversível, mas a vida, uma vez acontecida, nunca mais se perde, sempre se transforma e abre-se a novas dimensões que nem nós, apesar de seres inteligentes e conscientes, somos capazes, por agora, de ver e de conhecer verdadeiramente.
Por isso, mesmo nestas situações-limite, onde a vida parece que já não tem retorno, eu intuo que ela apenas está totalmente ocupada numa operação de completa transformação. Escapa-se-nos das mãos e da vista, porque já está mais na fase subsequente, do que nesta que conhecemos e com a qual sabemos lidar com mais ou menos jeito. A fase seguinte a esta não é o nada, como pensa e diz por aí muita gente. A fase seguinte é um novo começo, um novo acontecimento ainda mais empolgante do que o nosso primeiro nascimento. Não é o nada. É a plenitude. Só que, como tudo o que é essencial, torna-se invisível aos nossos limitados olhos e, por isso, deixamos de a ver, tal como ela se manifesta na História, em cada pessoa concreta que veio a este mundo.
Os antigos gostavam de falar de imortalidade da alma. Apenas o corpo humano morria. Com a morte do corpo, a alma saía do corpo e apresentava-se de imediato diante de Deus, para ser julgada. E, se não era condenada ao inferno eterno, privilégio reservado apenas a alguns poucos eleitos, tinha que passar pelo purgatório a caminho do céu, onde ficava a aguardar, tal como as almas que caíssem no inferno, a ressurreição final do corpo, no fim do mundo, para de novo se lhe juntar!...
Ainda hoje, muitas pessoas vivem sob o terror deste imaginário julgamento por parte de Deus, logo a seguir à morte, e do subsequente castigo de Deus, na melhor das hipóteses, no purgatório. Não fosse esta terrorista concepção das coisas, e os párocos católicos bem podiam “fechar a loja”, isto é, o templo paroquial, porque as pessoas deixariam pura e simplesmente de ir à missa e de mandar rezar missas pelas “almas” dos seus mortos! Aliás, bastaria, para tanto, que as missas deixassem de ser “aplicadas pelas almas” e deixassem de ser pagas. Missas totalmente de graça e por todas as pessoas, independentemente de terem ou não passado já pela morte, e os templos ficariam às moscas. Falo com conhecimento de causa.
Quando fui pároco nesta freguesia de Macieira da Lixa, todo o meu serviço de pároco era gratuito. Também as missas, evidentemente. Já então me fazia muita impressão que as missas fossem pagas pelas pessoas que as encomendavam. Dava a impressão de que só quem tivesse dinheiro é que poderia ter acesso ao suposto “benefício espiritual” das missas. Os pobres ficariam sempre a ver navios, não só diante dos ricos, mas também diante de Deus. Para cúmulo, numa questão tão decisiva como esta, da chamada salvação eterna de alguém! A prática pastoral oficialmente em vigor há séculos na Igreja católica perfazia, já então aos meus olhos de pároco ainda quase principiante, uma escandalosa injustiça, um daqueles pecados que a catequese de então classificava como “pecados que bradam aos céus”. Não suportei por mais tempo aquela situação. Era para mim um grave problema de consciência. E acabei por lhe pôr cobro. Por minha conta e risco, depois de ter partilhado - em vão! - com o Bispo da diocese toda a minha perplexidade de consciência. E que fiz então contra ventos e marés? Como as missas que celebrava já eram todas de graça, nem foi difícil dar um novo passo em frente. Distribuí as missas diárias pelos diversos lugares da freguesia. Juntava dois ou três lugares por cada dia da semana. E nesse dia, a missa era especialmente por todas as pessoas vivas e falecidas desses lugares. Viria participar quem quisesse e, na hora de lembrar os vivos e os mortos, fazíamos uma longa pausa e quem quisesse dizia o nome das pessoas que afectivamente lhe eram próximas. Nas primeiras semanas, o templo enchia-se quase como aos domingos. Mas, com o passar das semanas, as pessoas começaram progressivamente a faltar, até que não aparecia praticamente ninguém. Indaguei o porquê deste desinteresse e a resposta não podia ser mais eloquente: Nunca – disseram as pessoas – em toda a nossa vida, tivemos tantas missas pelos nossos defuntos e por nós!
Quer dizer, a abundância foi tanta, que as pessoas acharam que já era suficiente! Isto parece caricato, mas foi real. E eu vi-me, quase de repente, sem motivação para continuar a rezar missa aos dias de semana. Recordo-me que, nessas circunstâncias, decidi, em diálogo com a paróquia, que poderia e deveria encontrar um trabalho profissional e passar a viver desse trabalho, sem necessitar de receber qualquer apoio financeiro da paróquia. Celebraria gratuitamente a missa apenas aos fins de semana. Durante a semana, trabalharia como qualquer outro membro da Igreja, sem privilégio de nenhuma espécie. Comecei, inclusive, a procurar trabalho em diversas empresas, com evidente escândalo por parte dos respectivos administradores que, quando me recebiam nos seus gabinetes, pensavam que eu ia pedir algum subsídio para obras da paróquia, nunca imaginaram que eu ia simplesmente pedir trabalho para mim. Uma das tentativas em que mais investi tempos e contactos foi ser carteiro na freguesia, mas foi-me dito, por parte da administração dos correios, que o cargo de carteiro era incompatível com o cargo de pároco.
Não cheguei a concretizar esse desejo na altura, porque, entretanto, o Bispo da diocese foi sabedor das minhas diligências e comunicou-me oficialmente por carta que, no dia em que eu começasse a trabalhar profissionalmente, perderia, nesse mesmo dia, a carta de pároco e a paróquia! E a verdade é que só consegui começar a trabalhar como jornalista profissional, depois que me foi retirada a paróquia. Entre outras razões, por eu, como pároco não receber dinheiro pelos serviços prestados e, como tal, também não cuidar de enviar para a diocese qualquer verba para a sustentação dos bispos e dos serviços administrativos eclesiásticos em vigor. Tive assim que concluir que a total gratuidade dos serviços prestados numa paróquia católica constitui um delito na Igreja!...
Hoje, junto do meu amigo Ilídio e da minha amiga Balbina, sua esposa, recordei todos estes passos da minha vida de pároco. É que foi nessa minha condição, aqui em Macieira da Lixa, que eu os conheci. Ilídio e Balbina eram dois dos muitos vimaranenses que, na década de setenta, todos os domingos viajavam até Macieira da Lixa, para participarem na celebração eucarística que aqui acontecia e fazia estremecer a PIDE/DGS. Vinham em carros particulares e em autocarros alugados, como numa excursão. Atraía-os a gratuidade dos serviços prestados e a seriedade e a alegria com que a celebração eucarística decorria. Também e sobretudo, o Evangelho aqui anunciado sem censura e com contagiante audácia. A celebração era um mergulho na liberdade em pleno fascismo e uma inesquecível experiência de libertação do medo. As pessoas saíam da celebração mais elas próprias, subversivas, fraternas e sororais, comunicativas, indomáveis.
Todos estes anos depois, Ilídio continua com toda essa vivência presente na memória. Tornou-se vida na sua vida. Já então se assumia como ateu, mas a verdade é que, depois que veio a primeira vez para ver se era como ouvia dizer, nunca mais conseguiu passar sem vir todos os domingos de Guimarães até Macieira da Lixa, juntamente com outros amigos e vizinhos, cujos nomes e rostos ainda hoje recorda com a mesma frescura de então, Adão, Toni, Albano, Domingos, Primavera... Tornou-se num ateu que vinha à missa ao domingo a Macieira da Lixa. Actualmente, no Lar onde reside com a mulher – voltou hoje a confessar-mo com um brilhozinho nos olhos – e onde se respira religião e até beatice por todos os cantos, Ilídio faz questão de se manter lucidamente firme no seu ateísmo. É o único, ou quase o único que tem a audácia de nunca frequentar a missa, nem aceita que o capelão se meta na sua vida de homem livre e consciente. Para ele, é claro: Um Deus comedor dos pobres, que abençoa os ricos e que serve de almofada e de anestesia aos empobrecidos e aos oprimidos, repugna-lhe e causa-lhe vómitos. Também a mim me repugna e me causa vómitos, lembro-lhe de todas as vezes que falámos deste assuntos. O Deus que o ateu Ilídio entreviu, na década de setenta, nas Eucaristias de Macieira da Lixa e na minha vida de jovem pároco que praticava a gratuidade e a entrega da própria vida pela vida do povo, continua hoje a pulsar na sua consciência e a respirar na sua vida quotidiana. É esse Deus que o faz ser ateu de todos os outros deuses. Concretamente, é ateu do Deus dos párocos católicos que ganham balúrdios com as missas de mentira às mãos cheias pelas almas do mortos e são incapazes de dar de graça o que de graça receberam. É ateu do Deus dos pastores das novas Igrejas que por aí proliferam como cogumelos, como outros tantos bancos de fazer dinheiro, dos quais parecem almas gémeas. É ateu do Deus de Bush, de Santana Lopes e de Paulo Portas, governantes vestidos com pele de cordeiro, mas para melhor disfarçarem as garras com que nos partirão até os ossos, se cairmos na ingenuidade de lhes confiarmos o nosso presente e o nosso futuro. E é também ateu até do Deus do actual Papa João Paulo II que não é capaz de largar o trono nem o poder absoluto que pensa deter sobre toda a Humanidade, inclusive, sobre Deus, a quem com frequência ordena: Faz lá mais uns quantos milagres, para eu poder fazer mais uns quantos santos, como quem faz enchidos! E Ele faz!... Por isso digo: Bendito ateísmo este, o do meu amigo Ilídio, de Guimarães. Como ele me evangeliza e purifica a minha Fé em Deus, que só pode ser o Deus de Jesus e dos pobres.
À despedida, recebi do meu amigo Ilídio e dei ao meu amigo Ilídio mais um abraço, depois de ter dado também muitos beijos à minha amiga Balbina, no seu leito. Enxuguei, nessa hora e já na portaria do Lar, as lágrimas que teimavam em saltar-lhe dos olhos. As lágrimas dele têm tudo a ver com a sua permanência no lar. E com a “sua” Balbina. O Lar é impecável nos serviços que presta, mas é sempre um espaço estranho para as, os residentes. Até o nome "Lar" faz doer a alma, uma vez que é mentira. Por mais que queira, nunca será o lar que cada uma das pessoas nele residentes deixou para trás, quando ali entrou. Lar é a casa que cada uma daquelas pessoas deixou para trás. Ilídio, concretamente, sabe que nada lhe falta ali, no que respeita a cuidados e serviços. Mas ele gostaria de ter tudo isso na sua casinha, por sinal, bastante humilde e envelhecida como ele e Balbina. Aquelas paredes, aqueles móveis, aquela cozinha, aquelas panelas, aquelas malgas, aqueles pratos, aqueles quadros, até aquele pó falavam, comunicavam, aqueciam-lhe a vida, eram aconchego. Tomara ele ainda hoje estar lá com Balbina. Mas, quando ela acamou, as forças dele eram já demasido fracas para tanto trabalho. Nem virá-la na cama, ele já conseguia. Dos filhos, esperava o arrimo que lhes dera, quando pequenos. Mas os filhos têm a sua vida e andam por lá atarefados. Umas semanas, ainda sim, mas, quando se começou a ver que a situação se poderia prolongar por anos, começaram as “pegas”, como outros tantos pretextos para deixarem de aparecer. O apoio domiciliário, que ainda chegou a funcionar para o casal, também se revelou insuficiente. Era por pouco tempo e quase só para garantir as refeições do dia. O carinho, o acompanhamento, a companhia, a comunhão, numa palavra, a vida-à-medida-das-necessidades-reais-do-casal-debilitado não acontecia. Ilídio reflectiu. Chorou muita lágrima sozinho, às escondidas da mulher. Ela, também, às escondidas do homem. Até que ambos desabafaram. E decidiram: Vamos para o Lar St. António. Foi uma decisão arrancada a ferros, mas foi uma decisão contra a solidão e o abandono. Uma decisão ditada pela impotência de ambos. E agora o que ainda mais dói ao meu amigo Ilídio e o faz chorar em desabafo, sempre que eu lhe apareço, é que os filhos continuam muito ocupados com as suas tarefas quotidianas e passam-se fins de semana, uns após outros, sem que eles lhes apareçam. A gratidão filial, se existisse, ditaria outros comportamentos. Se não os vemos, é porque ela também não existe. E isso deixa-me pessoalmente triste. Pelo Ilídio. E pela Balbina. Também pelos próprios filhos. Porque se eu, sempre que estou com ele e com ela, saio de junto do casal muito mais rico em humanidade e em alegria, muito mais os filhos deles deveriam sair. Nem eles sabem então o que perdem, com preferir gastar uma tarde de domingo dentro duma grande superfície comercial, em lugar de correrem lá aonde se encontram a sua mãe e o seu pai, já na fase derradeira das suas vidas dentro da História. Quando a vida de Ilídio e de Balbina passar para a fase seguinte e ambos se tornarem invisíveis aos nossos olhos, os filhos aparecerão de negro vestidos, com dispendiosos e espalhafatosos ramos de flores, com que tentarão disfarçar o vazio que lhes vai dentro. Mas não enganarão ninguém com olhos de ver. Tão pouco se enganarão a si próprios. Nesse dia, será tarde demais, pelo menos, no que respeita à mãe e ao pai deles. Talvez não seja tarde demais, no que respeita a eles próprios. O que mais posso desejar é que, embora tarde, esse seja o primeiro dia do resto das suas vidas. Como seres humanos, solidários, amigos, companheiros, numa palavra, humanos!
2004 NOVEMBRO 17
O 1.º encontro Fraternizar de Espiritualidade com o ateísmo em fundo e destinado a iniciar entre nós o debate sobre o inesgotável tema “Jesus para o terceiro milénio”, decorreu no passado domingo, 14 de Novembro, na casa-sede do Jornal Fraternizar, em S. Pedro da Cova, Gondomar. Porém, só hoje consigo ter alguma disponibilidade temporal para escrever sobre ele neste meu Diário Aberto. É que logo no dia seguinte, 2.ª feira, tive que me deslocar ao Porto, para me encontrar com o meu amigo Eng.º Sousa Ramos, de Aveiro, já na provecta idade de 84 anos, para, uma vez mais, o ouvir dissertar com impressionante entusiasmo sobre o seu MDR-Movimento Democrático Radical, uma associação política por ele idealizada e fundada há anos, e que é, ao mesmo tempo, o seu testamento político. O Eng.º tem-me na conta de seu “consultor” totalmente gratuito, para assuntos relacionados com o Cristianismo e a verdade é que, de tempos a tempos, faz questão de vir confrontar comigo alguns dos seus surpreendentes pontos de vista. Como agora estou mais longe de Aveiro, acertámos o encontro no Porto, a meio caminho para ambos. Saí cedo de casa e já fui almoçar com ele, num pequeno restaurante, junto da Estação de Campanhã e depois permaneci à conversa com ele, num café, durante grande parte da tarde. Ontem, 3.ª feira, fiz questão de me deslocar à cidade de Leiria, onde fui visitar o casal meu amigo Maria Eunice e José Fael, ela doméstica, de 75 anos, ele médico reformado de quase 80 anos. Comigo, foi também Maria Laura, expressamente convidada pela própria Maria Eunice. Ultimamente, os telefonemas desta querida amiga de Leiria para mim têm sido cada vez mais frequentes e demorados, e sempre terminam com ela a perguntar quando é que eu volto a passar lá por casa para almoçar com eles, sobretudo, agora que se vêem quase sempre sozinhos, depois duma vida activíssima que tiveram, sempre cheia de pessoas e muitas e variadas ocupações. Foi até ela quem marcou o dia de ontem para mais um encontro ao vivo e eu lá me meti estrada fora, com Maria Laura, a quem ela tem como uma filha adoptiva, desde que há uns dez anos, a descobriu em Coimbra, no decorrer de um encontro anual de cristãs, cristãos de base. A alegria que tanto Maria Eunice como o seu marido sentiram com a minha chegada e com a chegada de Maria Laura e que se manteve de forma ininterrupta, durante a refeição em comum e grande parte da tarde feita de conversa à volta da lareira do fogão de sala, valeu todo o esforço que tive que fazer para percorrer na carrinha os cerca de 500 kms de ida e volta que nos separam.
Foi minha a iniciativa do 1.º encontro Fraternizar de Espiritualidade com o ateísmo em fundo, destinado a iniciar entre nós o debate sobre o tema "Jesus para o terceiro milénio". Coube-me também a mim conduzi-lo e animá-lo de forma maiêutica. Acabaram por ser poucas as pessoas que nos deslocámos à casa de S. Pedro da Cova. Mesmo daqui, de Macieira da Lixa, apenas viajaram comigo na carrinha, Miné, Irene e Maria Laura. Ninguém mais se dispôs. Por mim, devo-o confessar, esperava muito mais pessoas a participar no encontro. Aliás, houve várias pessoas, de diferentes zonas do país, que anunciaram com dias e semanas de antecedência que iam fazer por participar. Mas falharam todas. O convite para o encontro foi feito apenas através da última edição do Jornal Fraternizar saída no início de Outubro passado. Foi o 1.º de outros encontros trimestrais, abertos a todas as pessoas que deles tomem conhecimento e queiram participar, antes de mais as pessoas que assinam e lêem o Jornal. Como não houve especiais contactos de última hora, a lembrar este 1.º encontro, as pessoas ou se esqueceram dele, ou preferiram ocupar o seu domingo de outra maneira. No total, estivemos 15 pessoas, e destas, duas apareceram só da parte da tarde. Não apareceu uma única pessoa da cidade do Porto, ali tão perto da casa de S. Pedro da Cova. E do Grande Porto, apenas três, da zona de Gaia, com excepção das pessoas residentes em S. Pedro da Cova e que integram a Associação, ou mantêm com ela uma relação de proximidade. Em contrapartida, compareceu o senhor Américo, já na casa dos oitenta anos, lúcido como poucos, que reside na Charneca da Caparica, abaixo do rio Tejo. Nem a distância o assustou. Como já está reformado, saiu de casa na 6.ª feira, pernoitou no Porto e aproveitou para fazer algumas visitas turísticas. E, no domingo, foi dos primeiros a chegar à sede do Jornal Fraternizar.
Pela forma como decorreu o encontro, posso dizer que quem não apareceu nem sabe o que perdeu. Mas a vida é mesmo assim. O Evangelho sempre se apresenta sob a forma de convite, de proposta, e cada pessoa é que tem que decidir se diz sim ou não. Longe vão os tempos, felizmente, em que as pessoas eram mais ou menos arregimentadas e se viam obrigadas a participar em actividades como esta, sob pena de possíveis represálias, reais ou imaginárias. O medo do inferno, por exemplo, fez com que muitas pessoas, de geração em geração, nunca faltassem à missa ao domingo. Hoje, há convites e propostas de actividades, de muitas proveniências, e cada pessoa é que decide sem quaisquer pressões o que fazer. Constato, com alguma apreensão, que os convites e as propostas mais exigentes, na linha do Evangelho e dos seus valores alternativos aos do Sistema, continuam a ser muito pouco frequentados pelas pessoas. Parece que a preguiça e a facilidade estão a tomar conta de um grande número. Se for esse o caso, então há fundados motivos para alarme. Porque a preguiça e a facilidade nunca foram boas conselheiras, nem são caminho que leve a bom porto. A preguiça mata. E a facilidade corrompe. Mas talvez não seja por esses motivos que as pessoas não apareceram a este 1.º encontro Fraternizar. Pelo menos, por parte de todas elas. Haverá também alguma distracção, à mistura com bastante cansaço. Por outro lado, são tantas as solicitações, que as pessoas acabam por ficar divididas e, quando decidem marcar presença numa iniciativa, fatalmente têm que marcar falta em todas as outras que ocorram no mesmo dia.
Não vou divulgar aqui o texto que preparei para partilhar, no decorrer da manhã do encontro, como achegas para a reflexão e o debate. Deverá aparecer na íntegra, na próxima edição do Jornal Fraternizar, relativa a Janeiro/Março de 2005. A exposição que fiz ocupou-nos durante dois períodos de 50 minutos cada um. Como fomos poucas pessoas, o encontro decorreu num clima familiar, com todos nós sentados em círculo, de caras umas para as outras, uns para os outros. A exposição que conduzi e dinamizei podia ser interrompida a qualquer momento por quem assim o entendesse. O que aconteceu, por várias vezes, já que as minhas palavras eram, em certos momentos, propositadamente provocadoras. Não deixavam ninguém indiferente.
A sensação final foi de que houve momentos de inevitável escândalo, dado que atrever-se a dissertar sobre Espiritualidade e sobre Jesus, num contexto de ateísmo, e ver no fenómeno do ateísmo cada vez mais generalizado um dado positivo, só poderia redundar em escândalo para muitos dos ouvidos lá presentes. E muito mais escândalo haveria, se as pessoas presentes fossem em muito maior número, como era a minha expectativa. Na verdade, a hierarquia da Igreja sempre se afligiu com o ateísmo e o combateu como uma das piores aberrações da sociedade, ao passo que eu, ao contrário, neste encontro, encarei o fenómeno do ateísmo generalizado como um dado positivo, inclusive, um progresso no avanço espiritual da Humanidade.
Afirmar, por exemplo, como eu afirmei, em dado momento da minha exposição, que Deus não serve para nada, tinha que soar a escândalo. Houve pessoas que estremeceram e outras a quem até os pelos dos seus braços ficaram em pé. Não estranho nada. Estranharia, era se assim não fosse. Foram séculos e séculos de deísmo generalizado, sempre patrocinado pelas Igrejas e pelas religiões em geral, de modo que hoje até muitos dos ateus assumidos o são com algum medo, com alguma reserva. Mas a verdade é que os verdadeiros crentes jesuânicos, elas e eles, podemos e devemos proclamar aos quatro ventos que Deus não serve para nada. O que parece ser uma blasfémia é, afinal, uma genuína proclamação de Fé. Só que nem as Igrejas nem as religiões em geral são capazes de ir por aqui. Seria o fim delas, pelo menos, das religiões. E também o fim das Igrejas, enquanto instituições que existem para promover e fazer religião. Aquela expressão quer dizer que Deus, felizmente, não pertence à ordem da necessidade, mas apenas à ordem da graça. É um pormenor que obriga a mudar radicalmente não só o nosso discurso sobre Deus, como também a prática de quantas, quantos nos assumimos como crentes em Deus. Deus não faz parte dos nossos Sistemas. Deus não é a principal peça dos nossos Sistemas. E se fizer, é um ídolo. Deus é pura graça, puro dom, pura gratuidade, mas nem por isso há-de alguma vez ser remetido para o reduto das realidades supérfluas. Passar do conceito de Deus como necessidade, para o conceito de Deus como Graça é a única maneira de esvaziarmos os argumentos que tornam o ateísmo um fenómeno cada vez mais generalizado. Infelizmente, as Igrejas continuam surdas a este pormenor. Preferem manter-se no deísmo contra o ateísmo e, com isso, dão cada vez mais argumentos ao ateísmo para ele se tornar um fenómeno cada vez mais generalizado no nosso mundo.
O encontro foi, por isso, uma rica experiência de sororidade/fraternidade. O reduzido número de pessoas pode ter contribuído para isso. Mas não terá sido o principal motivo. Creio que o principal motivo foi a temática que esteve em debate no encontro. Cada uma das pessoas que participaram neste encontro – inclusive, as duas ou três que já se assumem como ateias – ter-se-ão sentido misteriosamente “sopradas” com o Sopro do Deus da Graça, da gratuidade, e este é sempre libertador, ao contrário do Sopro do Deus deísta do Império e do Poder, seja eclesiástico-religioso, económico-financeiro ou político, que é sempre opressor e castrador. O Sopro do Deus da Graça – que é o Deus que não faz parte dos Sistemas e, por isso, se confunde com o clamor do Pobre e do Oprimido – é fecundo e gera sororidade/fraternidade a rodos, assim as pessoas se deixem fecundar, empurrar, conduzir, guiar por Ele. Creio que isso foi palpável neste encontro. A hora do almoço partilhado foi reveladora disso mesmo. Ninguém se sentiu constrangido e o diálogo aconteceu com toda a naturalidade, com cada uma das pessoas a valorizar as demais, numa vivência de alegria que nos edificou a todas, todos. Foi como se fôssemos pessoas feitas apenas de bondade, de comunhão, de solidariedade, de alegria, de ternura.
A parte da tarde, depois de um alargado intervalo para descansar e conviver informalmente, foi sobretudo de convívio comunitário e de partilha de preocupações e de boas notícias que culminou numa celebração com o Pão e o Vinho em Memória de Jesus. Cada pessoa presente foi convidada a dizer da sua justiça. Nem todas usaram da palavra, mas todas comungámos do que foi partilhado pelas demais. Dois cantos do livrinho Canto(S) nas margens – “Despertei para o amor” e “Crer/Não crer em Deus” – foram recitados rotativamente, estrofe a estrofe, por cada pessoa, antes de serem cantados com simplicidade. Ambos os Cantos tinham muito a ver com a reflexão teológica da manhã.
Desta vez, atrevi-me a propor que, antes de darmos por concluído o encontro, ensaiássemos um momento celebrativo alternativo à missa ritualista em que são useiras e vezeiras as paróquias católicas. Seria uma celebração, também com o ateísmo em fundo, como já o havia sido a reflexão da manhã. Ainda ninguém sabe como é que isto se faz. Mas começa a ser hora de ensaiarmos e de nos atrevermos a fazer acontecer, com muita humildade, uma celebração assim. Por mim, que tinha a responsabilidade maior de animar todo o encontro, reflecti antes de ir para ele e não me esquivei à questão. Houve quem se surpreendesse com esta minha postura e o manifestasse na hora, uma vez que eu, até agora, tenho tido uma outra postura, a saber: se não somos capazes de celebrar de forma decente, como no-lo exige uma sociedade como a nossa de cada vez mais generalizado ateísmo, será sempre melhor não celebrar, para não juntarmos mais blasfémias aos milhões de blasfémias que todos os domingos se cometem por essas igrejas paroquiais católicas fora, com as chamadas missas, nas quais o santo Nome de Deus não só é invocado em vão, como também é blasfemado, coisa que sempre acontece quando se invoca o nome de Deus para justificar o injustificável, nomeadamente, para canonizar uma Ordem mundial como a actual que é fabricadora de pobreza e de pobres em massa.
Expliquei previamente os passos com que a celebração se poderia realizar. E, depois, permaneci ao nível das demais pessoas, como uma pessoa mais entre elas e com elas. O presbítero que sou não tem por que ter um lugar destacado na celebração realizada em Memória de Jesus, onde quem quiser ser o maior há-de fazer-se o servo de todas, todos. Sobre a mesa, foi colocada uma cesta com um troço de Pão e uma taça com Vinho. Abri o Novo Testamento, no capítulo 24 do Evangelho de Lucas, onde se conta aquela conhecida estória teológica do casal de Emaús que deixa Jerusalém desiludido e regressa à sua terra. Creio que esta estória teológica será a estória que mais ajudará a Humanidade do terceiro milénio a dar-se conta da presença de Jesus no nosso meio e de quanto ele é determinante e decisivo para o nosso próprio percurso e para o nosso próprio desenvolvimento como Humanidade. Tudo nesta estória culmina no convite que o casal faz ao desconhecido que se lhe havia juntado pelo caminho e lhes "abriu" o entendimento das Escrituras e da História, como nunca ninguém antes o havia feito. Sobretudo, tudo culmina naquela mesa comum onde os três se sentaram, e, sem que nada o fizesse prever, o desconhecido parte o Pão e lho dá. Diz a estória que, nesse instante, se abriram os olhos do casal e ambos, ela e ele, reconheceram Jesus, mas que este se tornou desaparecido. Quer isto dizer que só esta Presença de Jesus feita de permanente desaparecimento evita que a Humanidade caia na tentação de saltar para a fé em Jesus, sem primeiro se abrir à fé de Jesus, quer dizer, sem primeiro se fazer protagonista da História como Jesus historicamente se fez, e sem primeiro assumir as mesmas Causas que ele historicamente assumiu. Como é por demais manifesto, continua ainda hoje a não faltar por aí quem confesse fé em Jesus. Mas quem na verdade já reconhece Jesus? As pessoas crêem com muita facilidade em Jesus, mas dificilmente estão dispostas a ter a mesma fé de Jesus. E crer em Jesus, sem se ter a mesma fé de Jesus, é idolatria e alienação! Infelizmente, é isto que as Igrejas cristãs, com a católica à frente, mais fazem. Promovem a idolatria de Jesus, em lugar de, quais parteiras, ajudarem a dar à luz mulheres e homens ao jeito de Jesus, isto é, mulheres e homens com a mesma fé de Jesus. Não há-de ser mais assim, terceiro milénio além. Mas nas minhas achegas prévias, ainda recomendei que não corrêssemos a invocar o nome de Deus em vão. Apenas disséssemos em voz alta quais os desafios concretos que Jesus-Pão-Partido-Comido-e-Vinho-Derramado-Bebido nos faz a nós, hoje e aqui, para nos tornarmos mulheres e homens ao seu jeito.
Eu próprio parti o troço de Pão, derramei o Vinho na taça e li o relato do Evangelho de Lucas. Todas, todos permanecemos sentados todo o tempo, à volta da mesa comum, sobre a qual estava o cesto com o Pão Partido, a taça com o Vinho Derramado e a Bíblia aberta. Assim estivemos algum tempo. Em silêncio, sempre indispensável para escutarmos os apelos que hoje e aqui nos possam estar a ser feitos pelo Sopro que vem de fora dos Sistemas. Quem quis quebrou o silêncio. Mas tenho que reconhecer que quase todas as pessoas que interviemos naquele momento ainda caímos em muitos dos tiques envenenados das missas das paróquias católicas. Dissertámos, mais do que escutámos. Dissemos palavras, em vez de sermos palavra feita carne, politica, história, acção, intervenção. Por isso, a celebração não aconteceu tanto quanto seria de desejar. Havemos de continuar com humildade. Como discípulas, discípulos de Jesus. Não é fácil libertar-nos de séculos de religião, de ritos, de formalismos eclesiásticos, de discursos sem acção política. Mas só a acção política, ao jeito da de Jesus, pode mudar o mundo e garantir futuro à vida presente de todas as pessoas nascidas e a nascer. Haveríamos de ter escutado e partilhado, naquele momento, compromissos de acção que, uma vez realizados por nós, fariam de nós mulheres e homens cada vez mais ao jeito de Jesus. Assim não aconteceu. Mas há-de acontecer. E quando acontecer, também acontecerá Eucaristia, e de tal quilate, que até os ateus que porventura estiverem presentes, ou dela vierem a ter conhecimento, se alegrarão. Enquanto que as missas hoje por essas paróquias católicas fora estão a ser verdadeiras fábricas de produção de ateísmo e de ateus, a Eucaristia assim vivida por mulheres e homens que têm a mesma fé e as mesmas causas de Jesus, será Boa Notícia aos pobres e contribuirá para que o Nome de Deus seja honrado e glorificado na História. O que sempre acontece, quando, na História, os seres humanos crescem e Deus diminui, até se tornar de todo não-necessário. Pura Graça, simplesmente.
2004 NOVEMBRO 13
Decorreu ontem à noite, na Cooperativa Árvore a Sessão do Porto da Audiência Portuguesa do TMI-Tribunal Mundial sobre o Iraque. A sala estava repleta. Faltou a grande Comunicação Social. Nem jornais. Nem rádios. Nem televisões. O Império ainda não precisa, para já, de proibir estas iniciativas. Basta-lhe não as noticiar. Pensa o Império que com esta sua postura tem o futuro nas mãos. Engana-se. Com esta sua postura, o Império mostra a sua verdadeira face de besta cruel e inumana. A sessão condenou a guerra e exigiu a desocupação imediata do Iraque por parte das tropas estrangeiras. E fez revelações de estarrecer. Partilho aqui na íntegra a intervenção que fiz na Sessão, como depoente convidado. Leiam-na e divulguem-na. Para que o Império fique cada vez mais desmascarado. Quando todas, todos o recusarmos nas nossas vidas, o Império desaparecerá. Eis.
Tribunal Mundial sobre o Iraque
Audiência Portuguesa. Sessão do Porto
Introdução
Pedem-me para depor neste Tribunal Mundial sobre o Iraque. Não posso dizer que não. Aqui estou. De corpo inteiro. Trago comigo a guerra ainda em curso, apesar de já ter sido dada oficialmente como terminada. Trago comigo as muitas dezenas de milhar de feridos. As lágrimas e as dores e as aflições sem conta de todo um povo. As suas revoltas. As suas justas iras. E as suas cidades, algumas património cultural da Humanidade, sacrilegamente destruídas. Sobretudo, trago comigo os mais de cem mil mortos que a guerra em curso já fez. Cem mil mortos, ouviram bem? Não cabem todos nesta sala, eu sei, mas deixem-nos entrar. Deixem que se sentem connosco nesta sessão. Deixem que invadam as nossas casas. Que perturbem o nosso sono. Que sacudam as nossas quotidianas rotinas. Que estraguem as nossas festas. São cem mil vidas – a maior parte delas mulheres e crianças – abruptamente truncadas. Cem mil rostos que nos interpelam. Cem mil pares de olhos que nos olham fixamente nos olhos. Cem mil bocas que perguntam: que mal te fiz eu, que mal vos fizemos nós, para que invadísseis o nosso país, bombardeásseis as nossas cidades e assassinásseis as nossas vidas? Que tipo de seres humanos sois vós, os ocidentais? Que tipo de prazer podeis sentir em invadir o nosso país e em matar-nos indiscriminadamente? Será que sois de outro planeta? Será que já não tendes entranhas de humanidade? Será que já só tendes interesses lá onde era suposto que deveríeis ter entranhas de humanidade e de solidariedade? Porque nos odiais tanto? Se é o nosso petróleo que cobiçais, porque nos matais antes de o roubar? E com que direito o cobiçais? O presidente Saddam Hussein metia-vos medo? A partir de quando? É que houve um tempo em que ele foi considerado vosso aliado. As armas dele eram perigosas para vós e para o resto do mundo? E as vossas, será que são armas-faz-de-conta, coisa-de-brincar? Não são armas muito mais sofisticadas que as dele e muito mais mortíferas que as dele? De resto, não foram as vossas armas que nos mataram e que continuam a matar indiscriminadamente no nosso país e em tantos outros pontos do globo? Que medos inconscientes são esses que vos habitam, e que frustrações individuais e colectivas são essas que vos levam a ter tanta necessidade de perpetuar uma Ordem Mundial em forma de império, incompatível com a existência de pessoas insubornáveis e de povos que prezem a sua dignidade e a sua identidade? Quando deixareis definitivamente a fase da adolescência, para vos assumirdes como indivíduos e povos maduros, adultos, a viver em concertação e em diálogo com os demais, no respeito pelas diferenças? Porque não sois simplesmente humanos, irmãos universais de todos os outros povos que, como vós, habitam o mesmo planeta? Porque tendes tanta necessidade de ser Caim, e de alimentar uma Ordem Mundial à Caim, feita de mentira, que nos mantém a todas, todos cativos na injustiça, quando poderíeis ser simplesmente Abel e criar uma Ordem Mundial à Abel, feita de verdade, que nos libertaria a todas, todos, para a liberdade?
Neste meu depoimento, pedem-me que me pronuncie sumariamente sobre três questões muito concretas. É o que vou fazer, depois desta introdução. Com toda a simplicidade. Não sou juiz de ninguém. Sou apenas uma testemunha viva que vê, que ouve e que lê e, por isso, não pode ignorar. Não condeno ninguém. Nem peço a condenação de ninguém. Condeno e peço a condenação dos perversos Sistemas económico-financeiros e político-religiosos que herdamos e que teimamos em alimentar. Sadicamente. São Sistemas idolátricos que produzem vítimas humanas e outras aos milhões e, coisa ainda pior, que se alimentam de vítimas humanas e de outras aos milhões. Condeno e peço a condenação das ideologias absolutistas que nos deformam e nos transformam em monstros. Em conquistadores. Exploradores. Assassinos. Genocidas. Imperialistas. Ladrões. Dominadores. Opressores. Idólatras. Algozes. Carrascos. Funcionários. Súbditos. Vassalos. Coisas. Minhocas.
É esta a 1ª questão concreta: As acusações contra o Iraque (armas de destruição maciça, exércitos invencíveis, suporte de redes terroristas internacionais etc.) – que se provaram serem falsas – resultaram de enganos, de erros de informação – ou foram montagens para iludir a opinião pública e fazer da guerra um facto consumado?
A esta questão respondo: O Império, como sistema histórico perverso que é, tem ilimitada capacidade de produzir mentira e de a fazer passar por Verdade. O nosso António Aleixo já o disse duma forma assombrosamente sucinta e profunda: “P’rá mentira ser segura / e atingir profundidade / tem que trazer à mistura / qualquer coisa de verdade”. O império mente. É da sua natureza ser mentiroso e pai de mentira. É por isso que gera escravos, servos, vassalos, em lugar de seres humanos. Só a Verdade gera liberdade, seres humanos livres, criadores, inconfundíveis, únicos, irrepetíveis, poetas, profetas, artistas, sábios.
Quando mente, o Império faz o que lhe é próprio. Será ingenuidade esperar que o Império alguma vez diga a verdade. Se o fizer, age contra si próprio e entra em colapso. Do Império, sempre havemos de esperar a Mentira, feita de pequenas/grandes mentiras em série. E, se não mantemos esta postura frente ao Império, é sinal que já lhe caímos nas malhas, já somos seus súbditos, seus lacaios, seus vassalos.
No que respeita ao Iraque, não hesito em responder que o Império só nos deu mentiras. Tudo o que disse foi mentira. E foi com base nessa Mentira feita de mentiras que tentou colocar a Humanidade a favor das suas posições, nomeadamente, da guerra que estava determinado a consumar. Ao Império interessava invadir o Iraque. Ocupar o Iraque. Apoderar-se do Iraque. Do petróleo do Iraque. Interessava-lhe um Iraque destruído, submisso, súbdito, subserviente, como o que já começa a ter nos funcionários iraquianos que fazem parte do actual governo de transição, em ordem a uma farsa de todo o tamanho chamada eleições livres. Como era isso que lhe interessava, foi isso que fez. Quando se deu conta que, se calhar, pela primeira vez na História, a esmagadora maioria da Humanidade não acreditava na sua Mentira, na sua propaganda, estremeceu, mas não desistiu. Aparentemente, o mundo esteve à beira de ficar, pela primeira vez na sua história, sem império de turno. Mas ainda não chegou a hora de tamanho triunfo da Humanidade. E foi então que o Império concebeu e realizou aquela pirueta publicitária nos Açores, com o seu próprio chefe e mais dois compinchas, um imperialista e outro com vontade de o ser no próximo futuro. Aos três filhos da Mentira – ou filhos da Puta, ou filhos do Diabo, ou filhos da Besta, conforme nos expressemos, respectivamente, na língua popular, na língua teológica do Evangelho de João, na língua teológica do último Apocalipse cristão – juntou-se à última hora um quarto elemento, que o mundo ainda não conhecia. Foi o lacaio dos três, sem aspirações a imperialista. Bastava-lhe um qualquer galho no circo das vaidades, onde pudesse exibir a sua própria. Pelos vistos, portou-se tão bem, que já recebeu o rebuçado de compensação. Por isso, a Europa que se cuide, que o nosso homem é capaz de tudo para agradar ao Império e ao seu chefe de turno.
No dia seguinte àquela pirueta de circo nos Açores, a guerra eclodiu no Iraque contra o sentir e o querer da maioria da Humanidade. Porém, a Mentira do Império ficou sobejamente desmascarada. E a verdade é que nenhum dos pressupostos em que o Império pretendeu fundamentar a invasão e a guerra de destruição maciça do Iraque se confirmou no terreno. Mesmo assim, o Império mostra-se incapaz de reconhecer a monstruosidade da sua decisão. Deixaria de ser o Império, se o fizesse. Entretanto, como ele continua aí arrogante nos seus pés de barro, também os seus súbditos não deixam de o aplaudir. De joelhos. Ou mesmo de cócoras. Às suas sucessivas blasfémias, os seus súbditos na América e na Europa, repetem sem cessar: “Ámen”. Há muito que renunciaram a ser seres humanos. Preferem ser súbditos do Império. Coisas.
Passo agora à 2.ª questão: Quem construiu, em Portugal, essa central de intoxicação? Só o governo? A comunicação social – em particular alguns “fazedores de opinião” – não pode ser responsabilizada por ter alinhado premeditadamente nessa campanha de intoxicação e mentira?
A esta segunda questão, respondo: Nem o governo, nem a comunicação social criaram no nosso país a central de intoxicação sobre o Iraque, de modo a justificar a criminosa guerra que ainda perdura. O Império é que faz isso em todo o mundo. Por isso é Império. O Império, como deus criador de mentira que é, apenas precisa de instalar pequenas centrais de difusão em todos os países do mundo, para melhor poder atingir todos os indivíduos e todos os povos. Os governos dos diversos países, assim como os media e, porque não dizê-lo?, as Igrejas, ou são ferozmente anti-Império, ou são automaticamente braços compridos do Império, melhor, são o Império encarnado e actuante em cada canto do mundo. Infelizmente, no nosso país, o Império tem hoje um governo à altura de todas as desonestas missões que se propõe, nem que seja através dum pequeno contingente de militares da GNR. É um governo feito de súbditos, de funcionários, de humanóides que ainda não chegaram à estatura de seres humanos. Vestem arrogância, respiram hipocrisia, servem ignorância, discursam mentiras, realizam ilusionismo, levam-nos até a camisa, põem o país a pique para o abismo. E tudo isto com a bênção e o placet do Presidente da República, com preocupante vocação para político suicida.
Os media, com excepção dos que estatutariamente estão obrigados a ser “a voz do dono”, ainda conseguem dar voz aos dissidentes do Império, mesmo quando o respectivo director alinha descaradamente por ele. Se não são manifestamente anti-Império (alguma vez será possível ser um dos grandes media e ser, ao mesmo tempo, anti-império?), também não são descaradamente Império. Basta ver como o Império, na sua maior sucursal no nosso país, que é o actual Governo, anda aflito com tanta insubordinação nas redacções e como desabridamente tenta silenciar as vozes mais incómodas e as consciências profissionais mais libertas e coerentes.
Houve, é verdade, uns quantos profissionais da comunicação social, pomposamente conhecidos como “fazedores de opinião” – a mim já não me afectam eles! – que, porventura, ingenuamente, tomaram por verdade a Mentira do Império. E disseram cobras e lagartos contra os camaradas que não lhes seguiram nem seguem os passos. Todos os dias, de múltiplas maneiras, foram e continuam a ser caixas de ressonância do Império entre nós. Tamanha ingenuidade em profissionais de comunicação social levanta uma questão de fundo: será que, depois disto, eles ainda podem manter a carteira profissional de jornalista? Não é condição sine qua non, para se ser jornalista, que já se tenha deixado para trás a consciência ingénua?
E com esta pergunta, entro de imediato na 3.ª questão sobre a qual me pedem que me pronuncie:
Deve-se-lhes, ou não, exigir uma retractação pelo que com todo o despudor andaram a “vender”?
No meu entender, não. Eles é que se devem a si mesmos essa retractação. Se o não fizerem, então já nem sequer podem ser olhados como ingénuos. São descarados colaboracionistas do Império. Como os publicanos no tempo de Jesus, o de Nazaré. E vamos então cair-lhes em cima com todo o nosso desprezo, como fazia a sociedade judaica do tempo de Jesus em relação aos publicanos? Haverá certamente quem pense que sim e o faça. Não é isso que aqui peço, embora condene com toda a veemência essa sua postura de colaboracionistas do Império. Entendo que essa postura, só por si, já é reveladora de tão grande desumanidade, de tanta baixeza intelectual e de tanta deslealdade para consigo mesmos, que sou incapaz de vir aqui pedir para eles todo o nosso desprezo. Para eles, peço sim todo o nosso acolhimento, toda a nossa solicitude, todo o nosso carinho, toda a nossa convivência. Se conseguirmos ser plenamente humanos com eles, talvez ainda acabe por despertar, pelo menos, em alguns o o gosto de serem humanos também. E poderemos, então, vir a ter a alegria de os ver, um dia destes, a organizar em suas casas, à semelhança do que fizeram em seu tempo Mateus e Zaqueu, um banquete de festa, para, desse modo, assinalarem o primeiro dia do resto das suas vidas. Como seres humanos. Visceralmente anti-Império.
Macieira da Lixa, 12 de Novembro 2004
2004 NOVEMBRO 10
Agora que o livro Posso entrar? 30 estórias com animais já está à venda, é chegada a hora de partilhar com todas as pessoas a estória que escrevi para ele. Com este meu gesto, não pretendo retirar as pessoas da compra do livro. Pelo contrário, pretendo voltar a chamar a atenção para ele e estimular à sua aquisição e leitura. A minha é apenas uma das 30 estórias que "fazem" o livro. Depois de a lerem aqui no meu Diário Aberto, corram pelo livro. Nele, para além da estória, encontram também lá o retrato que a pintora Graça Marto me fez, a partir duma fotografia. Encontram igualmente uma ilustração a cores da mesma pintora que "mostra" de forma plástica o eu considero ser o momento alto da estória. Eis o texto.
Até os animais nos evangelizam
A mais antiga fotografia onde eu apareço mostra-me ainda menino de calções vestido e com um gato ao colo. Teria uns sete ouoito anitos, quando ma fizeram. E lá estou eu com a minha irmã, três anos mais velha que eu, também ela com um gato ao colo, e uma senhora recém-casada, amiga da família, Lurdes, de seu nome. O seu marido, Joaquim Fontes, é que foi o operador da máquina fotográfica, uma raridade naquele tempo, mas que o casal se dava ao luxo de possuir, como coisa natural, certamente devido à sua condição de residente na cidade do Porto e a trabalhar, ele numa livraria, ela numa requintada perfumaria na Rua de Santa Catarina.
Os gatos sempre me fizeram companhia, lá, na casa abarracada onde nasci em Março de 1937, no dia internacional da Mulher, e onde cresci até aos onze anos. Depois, os meus pais mudaram para outra casa bem melhor, nas proximidades daquela.
A nova casa era do meu tio cónego.
(É verdade, tive um tio cónego, que gostava de vestir aqueles vermelhos todos de monsenhor e foi assim vestido que ele fez questão de pregar o sermão da minha missa nova, na igreja matriz de Lourosa – vejam só como eu degenerei da família, ao tornar-me este padre saudavelmente dissidente do sistema eclesiástico, em lugar de aproveitar o caminho aberto pelo meu tio e procurar fazer carreira eclesiástica, pelo menos, até monsenhor, como ele, ou, sei lá, até bispo)
Tratava-se duma casa que o meu tio cónego havia comprado aos herdeiros de uma vizinha nossa, sempre guedelhuda e muito suja, mas também sempre acompanhada por gatos, igualmente sujos quanto ela, e que faziam todas as suas delícias de mulher solitária cronicamente alcoolizada.
O meu tio cónego era irmão da minha mãe. Mas a casa não nos foi cedida de graça. A minha mãe
(o meu pai embarcara, dois anos antes para Moçambique à procura de pão para a família, composta por ele, a minha mãe, a minha irmã e o meu irmão)
tinha que lhe pagar uma renda todos os meses. O pagamento só se extinguiu, quando o meu tio morreu e a casa foi atribuída à minha mãe, na sua qualidade de herdeira, juntamente com as outras irmãs e os outros irmãos dele, nove ao todo.
Aquela fotografia, que ainda hoje conservo
(pode ser vista no meu portal na internet: www.padremariodalixa.cjb.net)
é a prova provada de que eu desde menino gosto de animais, nomeadamente, dos gatos. Actualmente, não tenho nenhum gato comigo. Não é que eu tenha deixado de gostar de gatos e de animais em geral. Pelo contrário, é porque gosto deles que não tenho nenhum comigo.
Não quero fazer como certas pessoas que eu conheço que gostam de animais, mas só quando não têm que ir para férias. Nessa altura, deixam-nos por aí ao deus-dará e os bichos, de animais de estimação, vêem-se na contingência de ter que passar as passas do Algarve, enquanto os seus donos gozam os prazeres de um qualquer Algarve, em Portugal ou num país estrangeiro com boas e quentes praias marítimas. Não estou para cometer injustiças destas com os animais e, por isso, prefiro viver privado da companhia deles em casa, todos os dias de cada ano.
(Bem sei que se toda a gente fizesse como eu, não haveria animais domésticos. Mas não há esse risco. Sempre haverá pessoas que gostam de animais e que não dispensam a sua companhia. O que não podemos é impor que toda a gente tenha animais em sua casa, nomeadamente, quando, como é o meu caso, as pessoas passam múltiplos períodos de tempo fora dela. Basta que cada pessoa faça o que achar por mais conveniente, sem laivos de egoísmo. Para mim, é mais conveniente não ter animais comigo e não tenho. Para outras pessoas é mais conveniente ter animais com elas, e têm. O que eu peço é que se você é dos que têm animais consigo, então trate-os bem, mesmo no tempo das férias)
O mais curioso é que, ao fim de todos estes anos que já me separam da infância, os gatos continuam a comunicar comigo e eu com eles. Esta relação de cumplicidade entre mim e os gatos nunca foi interrompida.
A casa onde presentemente habito está rodeada de outras casas. Felizmente, não é um daqueles apartamentos que mais parecem caixotes, uns em cima dos outros, em direcção a um céu, lá muito longe e sem ninguém.
É uma casa rodeada de outras casas por todos os lados, e todas elas também autónomas como esta em que vivo. Tal e qual como na minha infância, apenas com uma diferença, infinitamente para melhor: agora, a casa onde habito – não é minha, mas da Associação Padre Maximino que faz o favor de me deixar viver nela, pelo menos, enquanto eu for o jornalista responsável pela edição do Jornal Fraternizar, de que ela é a proprietária – não é mais uma casa abarracada. Como também não são abarracadas as casas dos meus vizinhos. Mas que o fosse. Preferiria mil vezes uma casa abarracada como a da minha infância, rodeada de outras casas semelhantes cheias de vizinhos que mais pareciam membros duma mesma família, com um pequeno quintal e um pequeno pátio em terra batida a céu aberto, do que os apartamentos encaixotados uns em cima dos outros, sem um pedaço de chão de terra à saída da porta e com vizinhos que nem Bom dia, Boa tarde, Boa noite, se dizem.
Nesta casa onde habito basta-me sair para o pequeno pátio, ou para o pequeníssimo quintal onde crescem couves, um diospireiro e uma figueira, que logo os gatos dos vizinhos me cumprimentam com os seus miaus em diferentes tons, ou com um piscar de olhos e cauda levantada de satisfação. Respondo-lhes como quando era menino. Melhor, torno-me menino outra vez, para lhes poder responder.
Acho até que os gatos têm esse condão de nos tornar meninos ou meninas, para podermos continuar a comunicar com eles. De contrário, a nossa voz definitivamente mais encorpada e com aquele timbre do poder que os adultos quase sempre gostam de exibir, assusta-os e eles lá se vão espavoridos.
É por isso que aos miaus dos gatos dos meus vizinhos que frequentam o pátio e o quintal da casa onde habito, eu sempre respondo com a voz e o tom de menino. E eles para ali ficam a olhar para mim, com os seus olhitos cheios de luz e ternamente pisqueiros. Se calha de eu lhes dar um pouco mais de tempo e de atenção, eles acabam até por se aproximar de mim e aceitam uma festinha com a minha mão sobre o seu lombo, à qual respondem, reconhecidos, com umas quantas turrinhas das suas macias cabeças contra a minha mão ou mesmo contra as minhas pernas.
É certamente graças a esta minha vivência, repetida vezes sem conta, que não estranhei nada, quando um dia destes fui visitar um casal meu amigo com casa-de-viver no Roseiral, nas proximidades de Castelo Branco.
(Ele é o Homero, carteiro em Lisboa, que muito se orgulha de ter sido o carteiro de José Saramago, o nosso querido prémio Nobel da Literatura, pelo menos até à altura em que ele se pôs a milhas do país e foi viver com o seu novo amor para Lanzerote, uma ilha sob administração de Espanha, agastado que ficou com a patifaria que lhe fizeram os do governo cavaquista, a propósito do seu romance Evangelho segundo Jesus Cristo, e que revelou bem uns governantes sem um pingo de sensibilidade para as coisas da cultura que liberta e humaniza; ela é a Rosa Maria, funcionária compulsiva como quase todas as trabalhadoras e quase todos os trabalhadores por conta de outrem, numa empresa qualquer, também de Lisboa, para assim poder garantir a sua sobrevivência material, porque o que a mantém verdadeiramente viva como mulher é a paixão que ela nutre pela Natureza e pelos animais)
Na casa do Roseiral, fui encontrar, para lá do casal meu amigo, um conjunto de animais que muito me sensibilizaram e – por que não dizê-lo? – me evangelizaram. Pude ver com os meus próprios olhos que, para o Homero e a Rosa Maria, os animais são quase como os filhos que eles não tiveram. E a prova é que todos eles dão por um nome que bem poderia ser de gente. Ele são as gatas Xaninha Giva e Princesa, e o gato Artur Salomão; ele são os passarinhos do amor, Nicola e Jeremias; ele são as tartarugas Horácia, Duarte e Jasmim.
Quando o casal se desloca para férias, ou em fim de semana prolongado, os animais acompanham-no no gipe e fazem-lhe companhia toda a viagem, numa conversa sempre muito animada. No meu regresso a casa da visita que lhes fiz, o Homero e a Rosa Maria deram-me boleia até ao combóio no Entroncamento e foi assim que pude ver toda a ternura com que ambos tratam os seus animais, mesmo em viagem. Uma ternura que é também extensiva a todos os outros animais desconhecidos que eles encontram pela estrada, mais ou menos abandonados pelos donos.
À minha chegada à casa do Roseiral, as gatas e o gato, sempre à vontade por toda a casa, começaram por esconder-se debaixo das camas. A Princesa optou, depois, por refugiar-se no alto de um guarda-roupa, colocado no quarto do casal. Mas as primeiras falas minhas, depois das dos donos, tiveram o condão de despertar nelas e nele a confiança e pouco depois já estavam a aproximar-se de mim, como quem ensaia os primeiros passos de uma relação de cumplicidade e de acolhimento recíproco que culminou na integração sem reservas na família. Para surpresa até dos meus anfitriões.
O mais bonito foi à noite, quando, já tarde, depois de um longo serão evangelizador/libertador com outros amigos e amigas do casal, me fui deitar na cama que me estava reservada. O gato Artur não havia maneira de me deixar sozinho. Quis deixar bem claro que para ele eu já era da família. E quando, já deitado e de luz apagada, me preparava para me deixar levar nas asas do sono, eis que o sinto com as suas patinhas de veludo, por cima do meu corpo coberto com o lençol, como a chamar para mim o sono retemperador de que eu tanto carecia.
O ritual repetiu-se na noite seguinte, de sábado para domingo. E eu lá adormeci, das duas vezes, a pensar como até os animais, se forem tratados com humanidade, se tornam humanos connosco, ao seu jeito, evidentemente, e como nos evangelizam/humanizam.
A experiência não me surpreendeu de todo. Afinal, também os animais são frutos do amor, criados por Deus para nos acompanharem, não só nas horas de bem-estar, mas também e sobretudo, quando o nosso viver quotidiano conhece na carne as incompreensões de outros seres humanos que, ao contrário deles, se deixam escravizar pelo demónio do Poder e do Ter acumulado e concentrado e passam a impor-nos determinados modelos neoliberais de economia e de política que transformam o nosso mundo num inferno de guerras e de fomes que matam sem piedade os indivíduos e os povos, aquelas, de repente, estas, lentamente.
2004 NOVEMBRO 08
A pintora Graça Marto, residente no Porto, fez questão de me convidar para escrever uma estória real sobre animais que eu tivesse vivido pessoalmente. Destinava-se, segundo me disse na altura, a um livro que ela pretendia ilustrar e editar, em prol do “seu” MIDAS-Movimento Internacional em Defesa dos Animais (www.associacaomidas.com). O convite ocorreu há uns bons meses, no Porto, andava ela a ler – e, pelos vistos, a vibrar com a leitura – o meu livro E Deus disse: do que Eu gosto é de Política, não de Religião. Fui incapaz de lhe dizer que não. E lá escrevi a estória, a que dei o título: Até os animais nos evangelizam, e enviei-lha por e-mail. Passaram-se os meses e o livro, com o sugestivo título Posso entrar? 30 estórias com animais, acaba finalmente de ver a luz. A sessão de lançamento aconteceu na tarde do passado sábado, dia 6, na Biblioteca Almeida Garrett, nos jardins do Palácio de Cristal, no Porto. As 30 estórias sobre animais foram escritas por outros tantos autores, mulheres e homens, a saber, por ordem alfabética: Agustina Bessa Luís, Álvaro Magalhães, António Bica, António Maria Pereira, Aurora Gaia, Bárbara Elias, César Príncipe, Henrique do Vale, Isabel Abrunhosa, Isabel Silvestre, Jorge Nuno Pinto da Costa, José Jorge Letria, José Saramago, José Valente, Luís Portela, Manoel de Oliveira, Manuel António Pina, Manuel Luís Mendes, D. Manuel Martins, Maria João Abreu, Mário Cláudio, Pe. Mário de Oliveira, Miguel Moutinho e Urbano Tavares Rodrigues. Cada estória é acompanhada pelo “retrato” do respectivo autor, pintado pela própria Graça Marto, juntamente com uma sugestiva ilustração alusiva ao conteúdo, da mesma pintora.
Para a sessão de lançamento, Graça Marto quis a toda a força que eu estivesse ao seu lado direito na mesa e que fizesse uma intervenção de fundo a propósito. Infelizmente, a maior parte dos autores não apareceu à sessão. E entre os poucos que apareceram, destacou-se, por motivos óbvios, Pinto da Costa, presidente do FCP, acompanhado da sua jovem namorada e do seu inseparável Dragão, certamente, o cão mais famoso do norte do país. Graça Marto aproveitou e desafiou Pinto da Costa a sentar-se ao seu lado esquerdo, na mesa da sessão e ele não se fez rogado. O seu Dragão também teve licença para entrar no anfiteatro – foi necessário um pedido expresso a quem de direito! – e, já depois de eu ter concluído a minha intervenção, o animal subiu sozinho ao estrado onde se encontra a mesa e passeou-se familiarmente por ela e pelo seu redor. Quando chegou junto de mim, parou inesperadamente e correspondeu com efusivos sinais de satisfação às carícias que lhe fiz. Sentou-se, depois, no meu colo e com o seu focinho ao nível do meu rosto e as patas dianteiras sobre os meus ombros, lambeu-me reiteradamente as orelhas, no que foi interpretado por algumas das muitas pessoas presentes na sessão como um gesto de gratidão, quer em seu nome, quer em nome de todos os outros animais do planeta, pelas palavras que eu ali tinha acabado de proferir em defesa deles e da sua dignidade animal.
Eu próprio, devo confessar, fiquei agradavelmente surpreendido com este gesto de discriminação positiva por parte do animal relativamente a mim. E acolhi esse gesto com visível satisfação. Numa altura em que muitos dos humanos, mulheres e homens, não me suportam, devido à radicalidade libertadora e à coerência das minhas posições de padre católico da Igreja que está em Portugal, muito menos se mostram dispostos a acolher-me e a reconhecer-me no exercício do ministério presbiteral fora dos templos e longe dos altares, foi muito reconfortante, naturalmente, constatar que até um simples animal