Partilhe da minha meditação do Evangelho
Nesta meditação que faço questão de partilhar com quantas, quantos visitarem esta minha página, começo por lançar mão do Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro evangelhos canónicos. Desde muito cedo que as quatro narrativas evangélicas me cativam. E me têm marcado, ao longo dos anos. Positivamente. Cada qual ao seu jeito. O Evangelho de Marcos, embora seja o mais antigo no tempo ou o primeiro dos quatro a ser tecido, não aparece em primeiro lugar nas nossas Bíblias. Em primeiro lugar, aparece o Evangelho de Mateus. Este foi sempre o preferido da Igreja, melhor, da hierarquia da Igreja. Uma certa leitura eclesiástica do relato de Mateus tem levado as pessoas a pensar, por exemplo, que é da vontade de Jesus uma igreja com hierarquia, com uma elite toda poderosa não eleita e imposta de cima para baixo. E, para cúmulo, sagrada, incontestada. O Evangelho de Mateus, no seu todo, não se presta a essa interpretação. Mas a verdade é que foi com base nele que a concepção de Igreja hierárquica fez o seu curso no interior da nossa Igreja católica, praticamente até à segunda metade do século XX. Bastará ler com olhos de ler e ouvir com ouvidos de ouvir todo o capítulo 23 do Evangelho de Mateus contra a hierarquia do tempo de Jesus, para se concluir que na Igreja de Jesus não há lugar para hierarquia de nenhuma espécie. Só há lugar para ministérios ou serviços, vividos ao jeito dos meninos-servos do tempo de Jesus, nunca ao jeito do papa e dos bispos da Igreja do nosso tempo. Nesta meditação que desejo frequente, socorrer-me-ei do Evangelho de Marcos. A pessoa de Jesus que emerge deste relato é profundamente humana. Próxima. Conflituosa. Polémica. Arrasadora dos privilégios dos sacerdotes e de outras elites do poder que então oprimiam o povo do seu país. É, por isso, o modelo de ser humano que o nosso mundo do século XXI carece. Nesta altura da História, o Cristianismo não pode mais continuar reduzido à versão catolicismo-pagão ou paganismo-católico que hoje conhecemos e que tem na senhora de Fátima e na Opus Dei a sua concretização mais conseguida, respectivamente, na versão popular e na versão erudita. Tem que ter a audácia de voltar a ser um Cristianismo ao jeito de Jesus. É para aqui certamente que apontarão estas meditações que aqui partilho com quem me quiser acompanhar.
MEDITAÇÃO N.º 11 - 2004 Outubro 03
"O que é mais fácil: dizer ao paralítico os teus pecados estão perdoados, ou dizer levanta-te, pega no teu catre e anda?" (Marcos 2, 9)
Houve alguma vez um paralítico transportado por quatro homens a quem Jesus efectivamente curou, depois de lhe ter perdoado os pecados diante de toda a outra gente que havia acorrido a ouvir o seu ensinamento à casa onde ele estava? E que tipo de casa é esta em que Jesus está e actua? E que tipo de paralítico é este a quem Jesus começa por perdoar os pecados, quando ele lhe é apresentado num catre? E porque é que só a ele é que Jesus perdoa os pecados e não aos quatro homens que o transportam no catre, nem a toda aquela outra gente que estava na casa a escutá-lo? E será que esses quatro homens que transportavam o catre onde jaz o paralítico, ao verem que não podiam chegar ao contacto com Jesus, devido à grande quantidade de gente que havia acorrido à casa em que ele se encontrava para ouvir da sua boca o anúncio da Palavra, não estiveram mesmo com meias medidas e descobriram o tecto no sítio onde Jesus estava, fizeram uma abertura e desceram por lá o catre onde jazia o paralítico? E porque será que Jesus mandou o ex-paralítico carregar com o catre às costas e ir-se embora para casa, em vez de lhe recomendar que se sentasse e ficasse a ouvir o seu ensinamento e se fizesse seu discípulo? Porque carga de água é que ele tem que carregar com o catre, quando se levanta e vai para casa? Será que havia o risco de poder voltar a precisar do catre, ou é por uma outra razão muito mais profunda que nos escapa assim à primeira?
Quem está familiarizado com as tradicionais catequeses e pregações das Igrejas pensa que todos estes pormenores do relato do Evangelho de Marcos são históricos e reais. E serão? O relato não diz que sim nem que não. Porém, basta atentar que o relato nunca utiliza a palavra "milagre". As catequeses das Igrejas é que sim. Tão pouco utiliza a palavra "cura" ou o verbo "curar". As catequeses das Igrejas é que sim. O relato fala simplesmente num "paralítico", sem nunca chegar a dizer o seu nome, nem a sua proveniência. Por outro lado, é um paralítico que também nunca fala, nunca pede nada. Os que carregam o catre em que ele se encontra é que se movimentam de modo manifestamente intempestivo e com essa sua movimentação revelam uma "fé" que impressiona vivamente Jesus, ao ponto de o fazer falar e ensinar uma doutrina "nova", inovadora, que, pelos vistos, até escandaliza os doutores da Lei, entenda-se os teólogos oficiais do Templo de Jerusalém, e os leva a protestar no seu íntimo, mas de modo tão institucional, que o autor do relato conhece bem esses protestos e dá-lhes aqui forma literária: "Porque fala este assim? Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?". Trata-se então duma fé muito especial, super-activa, que faz aqueles quatro homens andar, transportar o catre onde jaz o paralítico, abrir o tecto no sítio onde está Jesus e descer por lá o catre com o paralítico. É uma fé que mais parece uma rajada de "vento", um "sopro violento" que derruba os obstáculos e leva tudo na frente até conseguir que o paralítico (pecador) deixe de o ser. E porque será que o relato fala em quatro homens, nem mais, nem menos - dois homens já seria o suficiente, um à frente e outro à retaguarda, como fazem hoje os bombeiros quando vão por alguém acamado para o transportar na ambulância ao hospital - e todos eles sem nome e sem nunca dizerem uma palavra?
Tanto anonimato e tanta actuação despersonalizada não nos estarão a indicar que o relato é simbólico, é teológico, é assim como um ensinamento em forma de encenação teatral, em que os figurantes são apenas isso, estão a fazer um papel e é nessa qualidade de figurantes, de actores, que estão ali, não na qualidade de pessoas concretas e reais, ainda que também o sejam, evidentemente, mas não é essa sua condição que aqui interessa, pois não é nela que eles estão no relato?
É, pois, manifesto que o relato reproduz não um facto historicamente real, mas uma encenação teológica, uma dramatização através da qual se faz o ensinamento de Jesus. O paralítico num catre, olhado como pecador, por parte dos judeus contemporâneos de Jesus, representa a Humanidade não judaica, os povos do paganismo, na altura, a esmagadora maioria do mundo conhecido. Mas esta humanidade está também representada pelos quatro homens que carregam o catre onde jaz o paralítico. Tanto o paralítico, como os quatro homens representam os dois aspectos da Humanidade do paganismo: por um lado, é uma Humanidade que está como morta, mergulhada no infantilismo, caída na idolatria/domínio dos deuses e seus representantes, os sacerdotes; por outro, é uma Humanidade que, em alguns dos seus membros, já se movimenta de modo impetuoso e quase violento, desde que soube de Jesus, da boa notícia que ele é, e quer a todo o custo beneficiar dele e da sua teologia. O número quatro (e por isso o relato fala em quatro e não em dois, o que já seria suficiente, se se tratasse duma simples acção de transporte do paralítico) está pelos quatro pontos cardeais, por isso, a totalidade da humanidade, a totalidade dos povos, não apenas o povo judeu. A casa em que Jesus se encontra e que o relato apresenta a ser invadida por cima não é a casa duma família, nem sequer a casa de Jesus. Basta ver que o relato diz mais adiante que estavam lá sentados alguns doutores da Lei, o que seria impensável, na casa duma família, e muito mais ainda na casa de Jesus. Trata-se manifestamente da casa de Israel, com a sua ideologia, a sua teologia elitista que mantinha todos os povos não judeus oficialmente distantes de Deus, separados de Deus, desconhecedores da Lei e, por isso, pecadores. É este Israel histórico do tempo de Jesus e das primeiras comunidades cristãs, mais a ideologia/teologia elitista por que se rege, que Jesus e a sua teologia subversivamente universalista e radicalmente libertadora querem desmantelar e derrubar, porque Deus e a salvação que Ele é, não é exclusivo dos judeus, pelo contrário, é para todos os povos sem excepção. Será, aliás, esta boa notícia que Jesus, depois da sua ressurreição, mandará as suas discípulas, os seus discípulos, proclamar em todas as nações!
Ao dizer, logo de entrada, ao paralítico: "Filho, os teus pecados estão perdoados", Jesus vai radicalmente contra a teologia oficial ensinada pelos doutores da Lei. Proclama, duma vez por todas, que os povos não judeus são exactamente iguais ao povo judeu. Por isso, na personagem do paralítico, chama-lhes "filho", exactamente, como o povo judeu, o único que, à data, se considerava "filho" de Deus. Ao mesmo tempo, proclama, sem reservas, que a condição dos povos não judeus perante Deus não é, como então ensinava a teologia dos doutores da Lei, a de pecador, mas a de comunhão, de filho, por isso, de povos igualmente responsáveis pelo mundo, que haveriam de cuidar da vida, da terra, do universo, da História. Nenhuma diferença, pois, entre os povos, na relação de Deus com eles. É uma relação de igualdade, de comunhão, de responsabilidade, de maioridade. Pelo que cabe a todos os povos, em pé de igualdade, assumir-se como políticos no mundo e na História, não como religiosos. Já que todos estão em comunhão com Deus Criador, como tais, hão-de assumir-se como criadores na criação, juntamente com Ele.
Esta encenação teológica mostra bem o teor subversivo do ensinamento de Jesus. Toda a originalidade da sua teologia. Os povos não judeus nunca haviam escutado tão boa notícia de um judeu. Para Jesus, não há povos pecadores, separados de Deus, excomungados. Há povos com diferentes culturas, mas radicalmente iguais diante de Deus. Chamados todos a viver como filhos de Deus, por isso, como Jesus, o filho por antonomásia, o filho paradigma para todos os povos. Há povos chamados a viver no mundo e na história a Política, não a religião, por isso, povos políticos, não povos religiosos.
Um tal ensinamento de Jesus escandaliza os teólogos oficiais do seu tempo que, há séculos, andavam a ensinar o contrário em nome de Deus! Perante esta teologia de Jesus, os teólogos oficiais do Templo de Jerusalém só podiam ter uma reacção como a que o relato regista: "Porque fala este assim? (note-se que se referem a Jesus não pelo seu nome, mas desprezivelmente, como "este"!) Blasfema! Quem pode perdoar pecados senão Deus?" Para os teólogos oficiais do judaísmo, Jesus é um blasfemo. E assim irão justificar a morte na cruz que acabarão por lhe infligir, depois de verificarem que jamais conseguiriam "fazer-lhe" a cabeça!
Quando os povos não judeus acolhem semelhante boa notícia de Jesus, tudo se altera entre eles. A consciência deles liberta-se e passam de povos infantilizados, oprimidos, quase mortos, escravizados, jazidos no catre da idolatria e da religião, a povos que se levantam e se assumem como povos amadurecidos, adultos, conscientes, livres, responsáveis, protagonistas, numa palavra, políticos ao jeito de Jesus. Quem os segura? É o que se diz no resto do relato: o paralítico não é mais paralítico; o catre perde a sua histórica função de portador de povos tolhidos pelo medo de Deus, dos deuses, povos religiosos, paralisados, conduzidos, infantilizados. Os povos tornam-se protagonistas e condutores da vida e da História. Inverte-se a situação. Levar o catre para sua casa é uma forma simbólica de dizer que a situação se inverteu. O que antes era conduzido, levado, agora é quem conduz e leva. Tornou-se protagonista. Tudo é novo. Os povos, finalmente, tornam-se protagonistas da História, outros Cristo, Políticos como Jesus! E tudo isto sem terem que deixar a sua casa, isto é, a sua cultura, sem nunca terem que se fazer judeus (ou ocidentais, ou católicos romanos).
"Nunca vimos coisa assim". Os judeus contemporâneos de Jesus e das comunidades de Marcos que escreveram, anunciaram e viveram o seu Evangelho, nunca haviam visto coisa assim. Das bandas do Templo e das Sinagogas sopravam outras doutrinas, outras teologias, outros ventos totalmente inumanos e discriminatórios. O mesmo poderíamos dizer nós, hoje, se esta boa notícia continuasse a ser proclamada e vivida pelas Igrejas que se reclamam do nome de Jesus. Infelizmente, tudo foi escondido e roubado. A traição a Jesus é quase total. E naquelas pessoas das Igrejas onde a traição não acontece, as respectivas hierarquias lá estão para as perseguir e denegrir, por elas ousarem ser fiéis a Jesus e prosseguirem a sua causa. Em lugar de as reconhecerem como discípulas, discípulos de Jesus, acusam-nas de "blasfémia", tal como os doutores da Lei acusaram Jesus! Mas esta boa notícia de Jesus é a única que vem de Deus, desse Deus Vivo que nos faz ser e viver em fraternidade/sororidade cada vez mais universal, sem exclusão de nenhum povo.
É para aqui que havemos de avançar, terceiro milénio além. Teremos coragem? Ou preferimos a segurança e os privilégios que as Igrejas, sobretudo, as grandes, garantem aos seus membros, quando eles, hoje, permanecem fiéis às suas teologias demoníacas que estão na continuação da teologia dos doutores da Lei do tempo de Jesus?
A fidelidade a Jesus e à sua teologia libertadora pode trazer-nos - e traz - muitos dissabores, por parte dos seus opositores, mas à mistura com uma paz tão grande que não há privilégio nenhum do mundo, por maior que seja, que se lhe possa comparar. É por isso que ser cristã, cristão, hoje, ao jeito e na continuação de Jesus Crucificado/Ressuscitado, é tão difícil como foi para o próprio Jesus. As próprias hierarquias das Igrejas são as primeiras a perseguir aqueles seus membros que ousem, dentro delas, ser mais fiéis a Jesus do que a elas. E se as hierarquias hoje já não arremetem contra esses membros com os mesmos processos a que recorreram no tempo da Inquisição, é apenas porque já dispõem de outros processos ainda mais refinados e mais eficientes que aqueles, e também muito menos escabrosos. Porém, felizes aquelas cristãs, aqueles cristãos que permanecem fiéis a Jesus, ao seu Evangelho e à sua teologia. Como João, o do Apocalipse. As suas vidas são outras tantas cartas abertas que o Espírito Santo continua a escrever às Igrejas, para que elas as oiçam. Se tiverem ouvidos para ouvir!
MEDITAÇÃO N.º 10 - 2004 Junho 16
"Comovido, [Jesus] estendeu a mão, tocou-o, dizendo: Quero, fica limpo. Nesse instante, a lepra deixou-o e ele ficou limpo." (Mc 1, 41-42
Em todos estes séculos passados, as Igrejas conseguiram convencer as pessoas que o leproso de que fala aqui o Evangelho de Marcos é um indivíduo concreto, vítima da mais temida doença da época, a lepra. Com esta visão e interpretação deste e de outros relatos semelhantes, as pessoas criaram a falsa ideia de que Jesus é uma espécie de milagreiro profissional, alguém com poderes especiais sobre a doença mais mortífera e até sobre a própria morte. Criaram também a falsa ideia de que o mundo onde ele se movimenta é o do maravilhoso, de modo algum, o nosso mundo prosaico de todos os dias, tantas vezes cruel. Por outro lado, a dimensão política do ser e do agir de Jesus fica assim completamente eclipsada aos nossos olhos e a ideia que acabamos por fazer de Jesus é a de que ele é alguém que está muito acima de nós, que não se parece nada connosco e com quem nós nunca poderemos parecer-nos, muito menos, igualarmo-nos a ele. Em consequência, nem sequer havemos de aspirar a sermos suas discípulas, seus discípulos. O mais a que podemos aspirar é tornarmo-nos seus incondicionais admiradores e, finalmente, seus adoradores em altares mais ou menos luxuosos. Creio não exagerar se disser que esta é hoje a postura da maior parte das pessoas que crêem em Jesus e também da maior parte das pessoas que já não crêem nele.
Mas a verdade é que esta visão sobre Jesus não tem qualquer fundamento no Evangelho, em nenhuma das suas quatro versões canónicas, muito menos na versão mais antiga das quatro, o Evangelho de Marcos. O ambiente de milagrismo que numa primeira impressão, salta do Evangelho é apenas aparente, não é historicamente real. O Evangelho não é um livro de história, nem é um jornal. É um relato sobre Jesus, mas em forma de Boa Nova, como tal, carregado de teologia. Também contém elementos históricos, mas até esses são utilizados como outras tantas categorias teológicas. Se sempre tivermos este dado em conta - e renunciar a ele, é atribuir ao relato informações que ele efectivamente não contém - poderemos captar Jesus em acção e perceber a sua dimensão de ser humano integral, com quem todas nós, todos nós nos havemos de parecer, inclusive, os que hoje se confessam ateus. O facto é que ninguém, muito menos os ateus, pode renunciar a ser mulher, a ser homem. Ora, o modelo acabado de ser humano que a História conhece e que pode ser apresentado como tal a todas as mulheres, a todos os homens de todos os tempos, lugares e culturas, é tão-só Jesus de Nazaré. Haverá muitos outros seres humanos de quem nós podemos dizer que são parecidos com Jesus, mas só Jesus de Nazaré é a referência última para todos os seres humanos. Isto mesmo diz e proclama o Evangelho de Marcos, mediante o recurso a todas as saborosas estórias teológicas que o seu autor soube criar. Se, alguma vez, interpretarmos alguma dessas estórias de modo a concluir que Jesus salta fora do humano, cometemos um atentado contra ele e contra a humanidade, porque privamo-nos da única referência integral de ser humano que nos foi dada como graça e que é Jesus, apenas Jesus. Na nossa ânsia demencial e demoníaca de sermos (como) deuses, em lugar de sermos simplesmente seres humanos, até fazemos do modelo integral de ser humano, que é Jesus de Nazaré, um Deus, melhor, um ídolo, porventura, o ídolo dos ídolos. E com isso ficamos logo humanamente desamparados. Porque não é de um modelo de Deus que necessitamos, é de um modelo integral de ser humano que necessitamos. Também necessitamos de um modelo de Deus, mas apenas para mais e melhor podermos ser seres humanos, não deuses. É que até Deus, no dizer/revelar do homem Jesus de Nazaré, não descansou enquanto não se fez ser humano. Não vamos nós agora querer ser Deus, nem fazer de Jesus Deus. Ele é Deus - o Evangelho de Marcos não deixa de o proclamar logo a abrir e logo após Jesus ter expirado na cruz - mas até essa sua condição é captada por nós apenas na sua humanidade integral. O que for para além disto é idolatria. Como tal, fonte e causa de opressão, de inumanidade, de escravidão, os males maiores de que ainda hoje sofre a Humanidade em todo o mundo. Sinal inequívoco de que, como Humanidade, continuamos caídos na idolatria, não só os que nos dizemos crentes, mas também os que se dizem ateus e agnósticos, se calhar, ainda mais estes que aqueles.
Atentemos lucidamente nesta estória. O homem leproso, de que se fala aqui no Evangelho de Marcos não é um indivíduo concreto, como sempre fomos levados a pensar, por força das mentirosas catequeses eclesiásticas. Basta ver que ele nem tem nome próprio, nem aparece referenciado a um espaço concreto da província da Galileia. Um indivíduo concreto teria nome e estaria localizado. Com esta propositada falta de atributos de identificação, o Evangelho está a indicar que se trata, não de um indivíduo, mas duma figura que representa todos os leprosos, não só os portadores da então maldita doença, mas também todas as outras pessoas que se viam oficialmente excluídas das sinagogas e da pertença ao povo de Deus, por força do discriminatório Código do Puro e do Impuro. Naquela época, bastava a um judeu manter contacto com os pagãos, ou não judeus, para logo ficar impuro e excluído. Por isso, a maioria dos judeus que vivia na província da Galileia deveria estar nesta condição, uma vez que a província estava povoada de muitos não-judeus. Por outro lado, fora do povo judeu, todos os povos do mundo, a começar pelos romanos, eram impuros, pelo simples facto de serem povos não-judeus. Esta situação humana e social, com tudo de cruel, deve ter tido um impacto tremendo em Jesus, na sua sensibilidade de ser humano integral. E de filho de Deus, a quem Jesus experimenta como o Abbá (Mãe/Pai), dele, de todas as pessoas e de todos os povos. O Reino de Deus que Jesus anuncia por toda a província da Galileia como boa notícia e como realidade iminente, incluía, ao contrário do judaísmo oficial, todos os povos e todas as pessoas sem excepção, não apenas os judeus e o povo judeu. Quem o ouve e o vê a agir, é isso que começa lentamente a compreender. Mas uma notícia destas não podia ser mais subversiva na época. Deitava por terra toda a construção ideológica/teológica do judaísmo. Fazia cair todas as fronteiras. Desfazia todas as barreiras. E acabava com o Código do Puro e do Impuro. A conclusão a que depressa se chegava só podia ser uma: Não há o povo judeu/povo de Deus, de um lado, e os outros povos não povo de Deus, por outro lado; há povos, simplesmente; e todos, por mais diferentes que sejam entre si, são povo de Deus em radical igualdade uns com os outros.
Podemos dizer que é para sintetizar e proclamar esta boa notícia, este Evangelho, que Marcos constrói esta estória teológica com um leproso como protagonista, juntamente com Jesus. O leproso era então o exemplo acabado do excluído, do não-povo-de-Deus. Nem sequer podia manter contacto com as outras pessoas não-leprosas, nem mesmo com os seus familiares. Igualmente, nem os familiares do leproso, nem as demais pessoas não-leprosas poderiam manter contactos com ele. Quem o fizesse tornava-se oficialmente impuro. E ficava automaticamente excluído do povo de Deus, até que se limpasse, purificasse, segundo os complicados ritos que a Lei de Moisés impunha e que tinham que ser vigiados e abalizados pelos sacerdotes, os intermediários e os intérpretes oficiais dessa mesma Lei. Neste contexto, esta estória do Evangelho de Marcos é altamente subversiva. O leproso está aqui por aquela parcela da população da província da Galileia, social e religiosamente, excluída das sinagogas e do povo de Deus, que começava a olhar para Jesus como o libertador, alguém verdadeira e plenamente humano, em quem Deus se revela de forma diferente da que se revelava na Lei de Moisés, tal como os dirigentes do judaísmo oficialmente a interpretavam. Ao contrário destes dirigentes, que estavam escandalizados com Jesus, esta parcela da população que sofria na pele a exclusão e a maldição, começava a olhar para ele com esperança. E - coisa estranha - começava a querer aproximar-se dele e das suas posições politicamente subversivas e fecundamente libertadoras. Para essa parcela de judeus, Jesus é que está certo, não os dirigentes do judaísmo. Deus, só como Jesus o apresenta. Porque só como ele o apresenta é que Deus não é mais fonte nem causa de discriminação, nem de condenação, nem de maldição, mas simplesmente, fonte e causa de inclusão, de salvação, de bênção. Só como Jesus o apresenta é que Deus é fonte e causa de humanidade constitutivamente humana, ao passo que, na prática e na interpretação oficial dos dirigentes judeus, Ele é fonte e causa de inumanidade.
Com as coisas neste pé, eis que alguns desta parcela dos judeus oficialmente impuros/excluídos atreveram-se a aproximar-se de Jesus. Chegam à fala com ele. Querem ir mais ao fundo da questão. Banhar-se na verdade que liberta, na palavra fecundamente humana que sai da sua boca e que limpa tudo o que impede a comunhão e a relação entre as pessoas e os povos, e entre os povos e Deus, a começar, naquele concreto contexto histórico em que Jesus vive, pela Lei de Moisés e, sobretudo, pela interpretação oficial que dela faziam os sacerdotes e os teólogos oficiais do templo de Jerusalém. A aproximação resultou em cheio. Jesus também não queria outra coisa. Juntou-se por isso a fome com a vontade de comer. O entendimento entre as partes foi completo. E esta parcela da população que aceitou a visão teológica e política de Jesus e a consequente boa notícia do Reino de Deus tal como Jesus o anunciava a todos os povos, povo judeu incluído, experimentou-se pela primeira vez liberta da ideologia e da visão discriminatória e perversa dos sacerdotes. Afinal, maldita era a Lei e a interpretação que dela faziam os sacerdotes. Era ela que tornava malditas as pessoas e os povos, precisamente no momento em que estas e estes mais careciam de acolhimento, de compreensão, de ajuda, de ternura, de apoio. A consciência desta parcela de judeus oficialmente excluídos mudou radicalmente. Sentiram-se, pela primeira vez, acolhidos e amados por Deus. O testemunho de Jesus era indesmentível. Eles próprios experimentavam-no na sua própria carne, na sua própria consciência. Até podiam continuar fisicamente leprosos, como pessoas, que nem por isso, muito pelo contrário, deixavam de ser amados, acolhidos por Deus. Se a Lei de Moisés com o seu código do Puro e do Impuro os excluía do povo de Deus, como uns malditos, não eram eles os malditos; a Lei e o seu Código do Puro e do Impuro é que eram malditos. Esta revolução nas suas consciências fez deles pessoas outras, como se inopinadamente tivessem nascido de novo.
Jesus, porém, não se dá por satisfeito com esta mudança individual. Conhece bem a força opressora do Sistema da Lei, conhece bem o poder demoníaco da organização religiosa e o poder dos sacerdotes, olhados pelos povos como intermediários entre Deus e eles. Para que o primeiro passo no processo histórico da libertação seja consolidado, é preciso que estas pessoas que passaram por essa primeira libertação e por essa mudança de consciência, tenham também a audácia de enfrentar os sacerdotes. E é isso que Jesus lhes exige, na pessoa deste leproso que já se experimenta incluído no povo de Deus, e que está por todos os que já se libertaram da perversa ideologia/visão dos sacerdotes. Em concreto, exige-lhes que eles se vão mostrar aos sacerdotes e que ofereçam pela sua purificação/libertação o que foi estabelecido por Moisés, mas agora como prova contra eles. Por outras palavras, era preciso que os libertados/incluídos por Jesus (na estória, nunca se usa o verbo "curar"!), uma vez libertados da tirania da Lei e da teologia idolátrica que a justificava, fizessem ver aos dirigentes que eles estavam contra o próprio Moisés e contra Deus, porque sempre estavam a favor da manutenção dos seus próprios privilégios. Era preciso que os libertados/incluídos aparecessem como tais junto deles, como prova viva contra eles. Para que eles percebessem, uma e outra vez, o inumano e o perverso que era a ideologia/visão oficial em que se movimentavam e que mantinham a todo o custo, como se fosse directamente revelada pelo próprio Deus.
Porém, os libertados/incluídos por Jesus não se mostraram dispostos a tanto. E passaram logo a divulgar em toda a parte o que lhes aconteceu de bom, por terem tido a audácia de fazerem sua a visão político-teológica de Jesus. Deste modo, os sacerdotes não foram confrontados, uma e outra vez, com a sua própria contradição. E prosseguiram na deles contra Jesus que, assim, ficou cada vez mais politicamente isolado, com todos os dirigentes contra ele. Os libertados/incluídos por Jesus não se tornaram libertadores/incluidores como ele e com ele. Nesta dimensão mais radicalmente fecunda, Jesus ficou praticamente sozinho e passa a ser apontado como alguém que está contra a Lei de Moisés e contra os sacerdotes. Apenas outros marginalizados continuam a ir ter com ele, para se aproveitarem pessoalmente dele, mas sem se tornarem como ele denunciadores e acusadores contra o Sistema. O Sistema pôde assim fortalecer-se progressivamente contra Jesus, o que não teria acontecido, se os libertados/incluídos por Jesus enfrentassem como ele e com ele o Sistema e os respectivos dirigentes. Mesmo assim, Jesus não desiste nunca da sua missão. E levará por diante a causa do Reino de Deus, até ao enfrentamento total e final na cruz. Como prova definitiva e última contra o Sistema, contra os seus dirigentes, nomeadamente, contra os sacerdotes.
Infelizmente, até as nossas Igrejas que ainda hoje se reclamam de Jesus, em lugar de prosseguirem, ao longo dos séculos, o combate martirial e duélico de Jesus contra o Sistema e seus dirigentes, têm preferido comportar-se como os sacerdotes do seu tempo. E continuam a excluir pessoas e povos, em nome das suas leis, das suas disciplinas, dos seus códigos de direito canónico, dos seus catecismos, dos seus moralismos, dos seus ritos. Mas é de Jesus que havemos de ser discípulas, discípulos, não das Igrejas, muito menos dos pastores ou dos clérigos. Porque só Jesus é o ser humano integral, em quem Deus definitivamente se revela, e em quem todas, todos nós havemos de pôr os olhos para reproduzirmos, hoje e aqui, de forma criativa, o seu jeito de ser/agir.
MEDITAÇÃO N.º 9 - 2004 Maio 5
"De manhã, muito escuro, levantou-se e saiu; foi para um lugar solitário e aí pôs-se a orar. Lançou-se atrás dele Simão, e os que estavam com ele. Encontraram-no e disseram-lhe: Todos te procuram! Ele respondeu: Vamos para outra parte, às povoações vizinhas, pregar também lá, pois para isso saí [de Cafarnaúm]" (Mc 1, 35-38).
Persiste a incompreensão sobre a pessoa e a natureza da missão política de Jesus (não esquecer que ele é o Político modelo do Reino/Reinado de Deus entre nós, nos antípodas do mitificado rei David). O evangelista dá-nos essa informação teológica, com a expressão "muito escuro". E já não é só uma incompreensão por parte de toda a população da cidade de Cafarnaúm. Atinge também todo o grupo dos discípulos de origem israelita, esses mesmos que Jesus, em pessoa, havia chamado, um a um. Simão é o líder deste grupo de discípulos que não compreendem Jesus, nem a natureza da sua missão de Político do Reino/Reinado de Deus. Ninguém o nomeou para a função de líder do grupo. Ele mesmo a assumiu, naturalmente, por força do ímpeto político reformista violento que o anima. E, pelos vistos, com sucesso. Tanto assim, que o grupo que Jesus escolheu para estar incondicionalmente consigo, ainda não é consigo que está incondicionalmente, nesta altura, mas sim com Simão.
Infelizmente, quem lê a tradução portuguesa católica do Evangelho de Marcos, da responsabilidade da conhecidíssima Difusora Bíblica, não é assim que fica a ver as coisas. Em lugar de permanecer fiel ao original grego, e traduzir o versículo 36 como ele aqui é traduzido - "Lançou-se atrás dele Simão, e os que estavam com ele" - a Difusora Bíblica faz uma interpretação livre do original e traduz: "Simão e os que estavam com Ele seguiram-no". O que é uma verdadeira traição ao original, em lugar duma tradução do original. Leva-nos, inclusive, a pensar que todo o grupo israelita estava com Jesus e o segue, quando é exactamente o contrário. Todo o grupo está com Simão, com as ideias e os pontos de vista políticos de Simão, não com Jesus, nem com as ideias e os pontos de vista políticos de Jesus. São dois projectos políticos distintos em confronto, cada qual com o seu líder. O que leva Jesus a sair/fugir de Cafarnaúm, a trocar a euforia reformista violenta da população da cidade e dos discípulos israelitas, liderados por Simão, pelo deserto, por um lugar solitário. Em lugar de se deixar contagiar pelo entusiasmo de toda a cidade de Cafarnaúm; em lugar de aproveitar a maré favorável, toda aquela vaga de fundo a seu favor, e encabeçar o movimento político reformista violento que pretendia tê-lo como o seu líder, Jesus dá-se conta que não foi bem compreendido e que já nem sequer pode mudar o rumo dos acontecimentos, e então pura e simplesmente sai sozinho da cidade, na qual os seus discípulos, pelos vistos, se sentiam muito bem.
O lugar solitário, na tradição bíblica do Êxodo e dos profetas de Israel, é o lugar do despojamento, da purificação da mente, da experiência da Verdade e da Liberdade, do encontro com o Mistério, em oposição à alienação, à manipulação e ao esmagamento que se experimenta na grande cidade. Também é o lugar da tentação. Mas não é o caso aqui. O Evangelho diz que Jesus trocou a cidade pela não-cidade - lugar solitário - para aí orar, não para ser tentado. Desde o início da sua missão, que Jesus vive habitado pelo Espírito ou Sopro de Deus Vivo, como tal, esta sua fuga para a não-cidade só pode ser para ele ser ainda mais atingido pelo Espírito, ficar ainda mais homem do Espírito, em clara oposição a Simão, o homem que sonhava com o poder, e à cidade de Cafarnaúm. Fica claro que o projecto de Jesus é radicalmente outro. Como outra é a sua Política. Não passam pela tomada do Poder, nem sequer pelo exercício do Poder. Passam pela convivência-consciencialização das pessoas e pela sua radical libertação, de dentro para fora, de modo que todas, todos nós nos tornemos pessoas-sujeito, pessoas responsáveis, pessoas protagonistas, em crescente relação e comunhão umas com as outras.
Orar não é dizer orações, como se costuma fazer durante as liturgias nas igrejas. Não é recitar fórmulas, nem sequer recitar salmos. As religiões que inventamos e alimentamos e financiamos é que nos têm levado a pensar que orar passa por essas coisas e por outras parecidas. Curiosamente, o Evangelho limita-se a dizer que Jesus "saiu para um lugar solitário e pôs-se a orar". Não nos diz como é que foi em concreto esse orar de Jesus. Também aqui a Bíblia da Difusora Bíblica prefere traduzir "orar" por "pôs-se em oração". Parece a mesma coisa, mas não é. Pôr-se em oração, indica uma actividade da iniciativa da própria pessoa. A pessoa põe-se em oração, como se pode pôr a praticar desporto, a fazer ioga, a fazer meditação, a escrever, ou qualquer outra actividade. Orar não é nada disso. A iniciativa não é nossa. É do Espírito de Deus Vivo. É Ele quem ora em nós. É Ele quem toma a iniciativa. É Ele quem actua em nós, para nos criar, recriar, nos fazer à sua imagem e semelhança, nos fazer pessoas-com-Espírito, cada vez menos poder e do Poder, cada vez mais liberdade e da Liberdade; cada vez menos selvagens, cada vez mais humanos e fraternos/sororais; cada vez menos tolhidos, cada vez mais protagonistas; cada vez menos alienados, cada vez mais sujeitos. O Evangelho sublinha que Jesus foi para um lugar solitário para orar. Quer dizer que foi colocar-se no ambiente do Espírito e à disposição do Espírito, em lugar de permanecer no ambiente da cidade de Cafarnaúm e à disposição da cidade de Cafarnaúm. Foi deixar-se trabalhar pelo Espírito de Deus vivo, confirmar pelo Espírito de Deus vivo.
Quem faz oração ainda é para tentar convencer Deus a sair em apoio dos seus projectos, dos seus sonhos, dos seus desejos. Orar, pelo contrário, é deixar-se convencer por Deus vivo e disponibilizar-se para realizar o seu projecto, os seus sonhos, os seus desejos. Não o que eu quero, mas o que Tu queres! Quem faz oração pretende servir-se de Deus, ter Deus ao seu serviço. Orar é servir a Deus, colocar-se ao serviço de Deus. Jesus é assim que vive. Por isso dizemos que é o filho de Deus. A cidade de Cafarnaúm e os discípulos liderados por Simão pretendiam que Jesus deixasse de ser o Homem do Espírito que manifestamente é, e passasse a ser o homem do Poder. Mas Jesus, quando se vê envolvido nessa onda, em lugar de se deixar arrastar por ela, sai da cidade e vai colocar-se intensamente sob a influência e a acção do Espírito de Deus vivo. O que provoca o completo desconcerto nas hostes que o seguiam equivocadamente. Não lhe perdoam esta "traição". Quem é que ele pensa que é? Pensa que consegue alguma coisa sem o apoio das massas? Quer mudar o mundo, fala em Reino/Reinado de Deus, apresenta-se como o Político do Reino/Reinado de Deus e recusa o apoio das massas? Mas assim é de facto. É por isso que Simão que se pensava um incondicional de Jesus, quando descobriu que ele saiu da cidade, no momento em que esta estava toda disposta a reconhecê-lo como o seu líder, fica desconcertado com ele. E o que faz?
Em lugar de se deixar interpelar por esta surpreendente postura política de Jesus, fica fora de si. Precipita-se então sobre Jesus, como um perseguidor. A tradução da Difusora Bíblica diz que ele o "seguiu", mas não é assim. O verbo grego utilizado pelo Evangelho significa que Simão se precipitou sobre Jesus, numa desesperada tentativa de o fazer mudar de ideias e de o fazer regressar a Cafarnaúm. Não pode compreender que ele deixe a cidade num momento destes. Com Simão, vão todos os outros discípulos israelitas. Todos querem que Jesus regresse à cidade e aproveite a maré, assuma as suas responsabilidades. Mas Jesus é taxativo: "Vamos para outras partes." Pregar é preciso, despertar as pessoas é preciso, consciencializar as pessoas é preciso, libertar as pessoas é preciso, promover as pessoas a protagonistas é preciso, tornar as pessoas sujeito é preciso. Isto diz Jesus. Isto faz Jesus. Sem cedências. Sem recuos. Nem que fique sozinho nesta missão. Para isto saiu já de Cafarnaúm. Ao contrário do rei David, Jesus é o Político/Rei/Cristo que recusa o poder. Ele sabe que o poder não vem de Deus (nem que mais tarde um texto bíblico venha a dizer que o poder vem de Deus, é mentira. O poder não vem de Deus. É demoníaco). De Deus o que vem é a Liberdade. Vem também a Política que sabe ser misericórdia, ternura, serviço libertador, presença maiêutica, nomeadamente, junto das vítimas que o poder sempre faz.
O poder sempre esmaga, sempre diminui, sempre infantiliza, sempre impede as pessoas de serem elas próprias, sempre aliena, rouba, mente, e, quando é preciso, sempre mata. Jesus, ao contrário, é o Político que dá a vida, em lugar de a tirar. Por isso recusa o Poder. E quer que os discípulos israelitas que chamou para serem seus incondicionais - é o que significa a expressão evangélica "andar com ele" - também o recusem. Poder sobre as pessoas e os povos, é coisa que elas e eles sempre conheceram. Mudam os líderes, mas o poder sobre as pessoas e os povos mantém-se inalterável. O que as pessoas e os povos ainda não experimentaram é a liberdade. Nunca ousaram libertar-se para a liberdade. E esse é o desafio que Jesus nos faz. Para isso nasceu e veio ao mundo. Simão não entende. Os companheiros israelitas de Simão também não entendem. A cidade de Cafarnaúm não entende. Mas Jesus, confirmado pelo Espírito Santo - orar é isso - segue o seu caminho.
Irão com Jesus Simão e os outros discípulos israelitas? O Evangelho não o diz. É de crer que tenham continuado fisicamente com ele, porque continuam a aparecer em cena até ao momento do assassinato político que Jesus veio a sofrer em Jerusalém. Mas a verdade é que não mudaram de ideias, nem de projecto. Continuarão na esperança de fazerem a cabeça de Jesus. Felizmente, em vão, já que Jesus permanecerá fiel até ao fim, sem ceder à tentação. Mas pagará elevadíssimo preço por isso. E acabará sozinho, com eles todos a traí-lo, na pessoa de Judas, a negá-lo, na pessoa de Simão, e a porem-se em fuga.
E nós, hoje? A esta luz, tenho que reconhecer que nem mesmo a Igreja que se invoca do nome de Jesus tem estado para aí virada. Ainda somos, como Igreja, mais discípulos de Simão, do que de Jesus. Ainda somos mais incondicionais de Simão, do que de Jesus. Espiritualizamos tanto Jesus e o seu projecto político do Reino/Reinado de Deus, que nem um nem outro têm hoje alguma coisa a ver com a política. Pelo menos, como Jesus historicamente a protagonizou até à morte violenta a que foi condenado pelo pleno do Poder. Hoje, Jesus e o seu projecto político do Reino/Reinado de Deus só têm a ver com a religião. Fizemos de Jesus o rei da alienação, quando ele é o rei da liberdade. Aclamamo-lo como o Senhor, mas corremos logo a fazermo-nos seus súbditos, em vez de nos atrevermos a ser senhores com ele e como ele. Queremos que ele seja nosso rei, mas sempre e só ao jeito de Pilatos e de César de Roma, não ao seu jeito, de rei crucificado. Queremos que ele seja nosso líder, mas para podermos ser seus súbditos. Somos como a cidade de Cafarnaúm. Onde Simão tinha os seus incondicionais seguidores. Nem nos damos conta que Jesus saiu de lá. Não está mais lá. Mesmo que Cafarnaúm hoje se chame Roma ou Vaticano, Jesus, o ser humano por antonomásia, não está mais lá. Porque onde reinar o poder, em lugar de reinar a liberdade, aí não está Deus. O de Jesus! Nem o Ser Humano. Só estão súbditos. E vassalos.
MEDITAÇÃO N.º 8 - 2004 Abril 27
"Ao fim da tarde, depois do sol se pôr, foram-lhe levando todos os que se encontravam mal e os endemoninhados" (Mc 1, 32). Esta notícia do Evangelho de Marcos continua a ser teológica, não jornalística, embora abra com duas referências temporais: "ao fim da tarde" e "depois do sol se pôr". Curiosamente, são até estas duas referências aparentemente temporais que nos levam a concluir que a notícia continua a ser teológica.
No Evangelho de Marcos, sempre que aparece a expressão "ao fim da tarde" não é tanto para dizer que o dia está a terminar, mas para dizer que continua de pé a incompreensão por parte das pessoas sobre quem é Jesus e sobre a natureza da sua missão na História. Neste caso, a incompreensão dos habitantes da cidade de Cafarnaúm. Todos têm em grande apreço a pessoa de Jesus, mas continuam às escuras no que respeita a compreendê-lo e a aceitá-lo na sua originalidade. Tomam-no por um líder nacionalista, por um político ao jeito do rei David. Não percebem que ele é o político de Deus, do Deus do Reino, como tal, o político ou o Cristo ao jeito de Deus Criador e Libertador, por isso, criador e libertador das pessoas e dos povos, das suas capacidades e das suas potencialidades, não o político ao jeito do poder que oprime, cria dependência no povo e fomenta a competição entre as pessoas e os povos que inevitalmente domina e subalterniza. A expressão "ao fim da tarde" tem, pois, a ver com a ausência de luz, mas a luz do entendimento por parte das pessoas. Ao recorrer a esta expressão, Marcos quer sublinhar que a expectativa que a cidade de Cafarnaúm continua a ter sobre Jesus é a mesma que, por exemplo, Simão Pedro tem e que a sogra de Simão Pedro também teve, até ao momento em que Jesus a tocou e a febre nacionalista a deixou e ela passou de mulher politicamente fanática e violenta a mulher politicamente servidora e libertadora do povo.
A outra expressão, "depois do sol se pôr", também aparentemente temporal, é igualmente teológica. Indica que a acção que vai relatar-se a seguir acontece já depois de ter terminado o dia de sábado, durante o qual o descanso era obrigatório e absoluto. A Lei de Moisés, tal como os dirigentes judeus de tempo de Jesus a entendiam e impunham ao povo, proibia que uma pessoa em dia de sábado desse mais do que uns oitocentos passos. Ao referir aqui "depois do sol se pôr", o relato está a dizer que essa obrigação legal já tinha deixado de se fazer sentir, uma vez que, para os judeus, o dia terminava com o pôr do sol. Com esta indicação, aparentemente temporal, o Evangelho denuncia que a população da cidade de Cafarnaúm, embora tivesse em alta consideração a pessoa de Jesus, não chegou a dar-lhe a sua plena adesão, uma vez que não se atreveu a ser/viver como ele. Bem pelo contrário. Tanto assim que, ao contrário de Jesus, continua a respeitar a Lei do descanso sabático. Só começa a movimentar-se em direcção a Jesus, depois de ter terminado o dia de sábado, não antes. Mesmo que desejasse muito sair ao encontro de Jesus que, entretanto, permanecia em casa de Simão Pedro, não se atreveu a encaminhar-se para junto da porta da casa onde ele se encontrava em actividade política libertadora. Só o fez depois de ter terminado o dia de descanso sabático. Continua, por isso, a ser uma população escrava da Lei, não é capaz de a subverter, como Jesus a subverteu, nem sequer para fazer bem a si própria, muito menos, para fazer bem às pessoas da cidade que passavam mal, ou andavam endemoninhadas. Primeiro, a Lei. E, só depois, o amor ao próximo. Ao contrário de Jesus que põe o amor e o fazer bem às pessoas (fazer bem = libertar) acima da Lei, mesmo da mais sagrada de todas, como era a lei do descanso sabático.
É importante esclarecer estes pormenores do relato evangélico. Sem este esclarecimento, nunca chegaremos a entender nem Jesus, nem a novidade subversiva e alternativa que ele é na História. Pelo contrário, acabaremos até a integrar Jesus na actual Ordem Moralista de valores, como se ele fosse um reformador mais e não o paradigma do ser humano que todas as mulheres, todos os homens havemos de ousar seguir. Meditar é contemplar, e contemplar é ver em profundidade, para lá das aparências, para nos transformarmos no que contemplamos. Não se trata de nos adaptarmos e acomodarmos à Ordem Moralista de valores que a sociedade nos quer impor a todas, a todos nós. Trata-se de a subvertermos, de nos atrevermos a ser/viver nela do mesmo jeito de Jesus, isto é, nela mas sem ser dela. É este passo decisivo que a população da cidade de Cafarnaúm não se atreveu a dar. E, por isso, a missão de Jesus na cidade falhou para a esmagadora maioria dos seus habitantes. As pessoas deveriam passar a ser pessoas que reciprocamente se libertavam umas às outras do mal de que padeciam; também deveriam passar a ser pessoas reciprocamente servidoras umas das outras (é o que as expressões evangélicas "curar" e "expulsar demónios" querem respectivamente dizer), como vêem Jesus ser/viver/fazer. Mas não. Limitam-se a manifestar grande apreço por Jesus, a ter grande consideração por Jesus, mas não querem passar a ser/viver/fazer como ele. Querem simplesmente que ele seja o seu chefe, o seu líder, o seu rei, o seu senhor, o seu dono, o seu dirigente máximo. Dê-lhes ele as suas ordens e elas obedecer-lhe-ão incondicionalmente. Mas não lhes peça para elas serem autónomas, livres, donas dos próprios destinos, responsáveis, que isso elas não querem.
Vinte séculos depois, ainda é aqui que estamos, como humanidade. Como as pessoas da cidade de Cafarnaúm. Também e sobretudo, por culpa da Igreja que nos tem apresentado Jesus, não como o paradigma definitivo do ser humano, mas como um Deus sem corpo, sem Reino e sem mundo, um Deus mais ou menos mítico para nós adorarmos nos templos, em dias e horas certos, como um qualquer outro Deus dos cultos do Paganismo religioso.
Acabo de dizer que ainda é aqui que estamos. Mas não disse bem. Hoje, estamos ainda mais atrasados, na nossa relação com Jesus, do que estava a população da cidade de Cafarnaúm. Porque as pessoas da cidade de Cafarnaúm, pelo menos, viam Jesus como o seu possível líder político na linha do rei David, como o Cristo que, se quisesse, haveria de mobilizá-las, organizá-las e conduzi-las para elas se apoderarem do mundo, inclusive, com recurso à violência armada, até fazerem de Israel o grande reino para o qual todos os outros povos convergiriam. Era uma concepção errada sobre Jesus, mas, pelo menos, era política. E, se se realizasse, haveria de mobilizar as pessoas para intervirem e mudarem o mundo e a História.
Ao passo que na perspectiva que a Igreja, nomeadamente, desde o imperador Constantino, tem fomentado entre as pessoas que ouvem falar dele, Jesus nem sequer chega a ter dimensão política. Fica reduzido à condição de um Deus mítico sem mundo, sem reino, sem projecto que leve as suas seguidoras, os seus seguidores a interessar-se pela Terra e pela História. Apenas haverão de interessar-se pela religião, pelo culto, pelos ritos, dentro e em redor dos templos e dos santuários. A política, como (pre)ocupação e cuidado pelo mundo e pela terra, nunca lhes interessou para nada, ao longo dos séculos. Até tem sido encarada pela fina flor das suas seguidoras, dos seus seguidores - bispos, padres, freiras, frades - como coisa profana, suja, na qual não só não se devem meter, como até devem fugir dela a sete pés. Basta ver como, ainda hoje, as pessoas quanto mais eclesiásticas forem, menos políticas são. Basta-lhes fazerem parte do grupo coral das missas de domingo, serem catequistas de crianças, rezarem "pai nossos" e "avé marias", fazerem promessas, pedirem reiteradamente a Deus, cumprirem com os seus deveres religiosos, em dias e horas certos, estarem de bem com os que se auto-apresentam diante delas como representantes de Deus na terra e pagar-lhes pontualmente os "direitos" (?!).
Aos olhos de todas estas pessoas, o mundo continua a ser encarado sobretudo como vale de lágrimas, local de sofrimento e de penas, que todas, todos nós havemos de suportar em desconto dos nossos pecados e pela conversão dos pecadores. Mais. Todas estas pessoas jamais querem ser/viver/fazer como Jesus, jamais querem desencadear acções políticas libertadoras e conflituosas como ele desencadeou, para que o Reino de Deus se desenvolva e implante na História até às dimensões do universo. Todas elas preferem continuar a olhar para Jesus como um Deus todo-poderoso, a quem recorrem nas aflições, sempre na expectativa de que ele faça "milagres" para resolver os problemas. Pior ainda. Reduziram Jesus a um Deus mais ou menos mítico e, depois, acabaram por sentir medo dele. Pensam-se até indignas de serem ouvidas por ele. É por isso que recorrem à imaginária intercessão de santos e de santas, para que intervenham junto dele em nome delas e obtenham dele os milagres que elas não se acham dignas de alcançar!!!
É ainda neste pé que estão as coisas, neste nosso século XXI. Para nossa vergonha! E, ao que nos é dado ver todos os dias, a Igreja continua a fazer tudo para que assim continue a ser assim também no próximo futuro. Não é verdade que, por exemplo, a desgraçada Alexandrina de Balasar e, antes dela, as desgraçadas crianças da senhora de Fátima, escandalosamente promovidas à categoria de beatas pelo Papa João Paulo II, o foram porque, no dizer oficial da Igreja, conseguiram que Deus, graças à sua intercessão, realizasse aqueles "milagres" que as respectivas devotas lhe pediam? Ao insistir nesta prática pastoral feita de mentira e de doentio milagrismo (os famigerados milagres que a Igreja reconhece nestes processos de beatificação e de canonização não passam de piedosas mentiras e de piedosos arranjinhos clínicos com que a Cúria Romana continua a alimentar o infantilismo junto das pessoas menos ilustradas e nada evangelizadas!), a nossa Igreja católica romana não está a enveredar por uma prática que, em última instância, é contra Jesus, contra o Evangelho, contra Deus Criador, numa palavra, contra a Humanidade?
Em lugar de anunciar Jesus, o Cristo ou o Político de Deus no mundo e na História, e de o apresentar às pessoas e aos povos como o paradigma de todo o ser humano, para que todas, todos nós também nos atrevamos a ser/viver ao jeito dele no mundo e na História, a Igreja prefere ensinar em seu nome uma desgraçada doutrina moralista destinada a enquadrar as pessoas numa determinada concepção eclesiástica de vida humana, onde o culto religioso, não a Política, tem o primado, para não dizer o exclusivo. Dentro dessa concepção eclesiástica, Jesus passou a ser apresentado como o fundador duma nova religião, e logo foi convertido no grande Deus que toda a Humanidade deve adorar nos templos, sob a batuta dos clérigos católicos, o primeiro dos quais é o papa em Roma, logo seguido pelos bispos em cada diocese, e pelos párocos em cada paróquia!
A partir daqui, tudo ficou inquinado. Até as paradigmáticas acções políticas libertadoras e fecundamente subversivas de Jesus, que visam despertar e mobilizar as pessoas contra a Ordem Moralista de valores que os dirigentes do seu país impunham às pessoas, passaram a ser apresentadas como "milagres" que "provam" que ele é Deus. Deste modo, Jesus acabou por ficar reduzido à categoria de milagreiro-mor, de ser extravagante e exótico que acabará por ser posto de lado pelas pessoas, à medida que elas, graças ao salutar desenvolvimento da Ciência, conseguem realizar muitos mais "milagres" que ele e "milagres" muito mais importantes que os dele, pois contribuem para a melhoria da qualidade de vida de todas as pessoas e não apenas de algumas!
Temos que denunciar este crime da Igreja. E que resistir a esta cristologia e a esta catequese eclesiástica católica romana. (Atenção! As novas Igrejas pretensamente evangélicas, como a Igreja Universal do Reino de Deus, com as suas mentirosas sessões de "curas" e de "milagres" em determinados dias da semana, ainda conseguem ser mais criminosas que a Igreja católica romana) É que Jesus, felizmente, não é nada assim como a Igreja/as Igrejas no-lo têm apresentado, ao longo dos séculos. O Evangelho de Marcos apresenta-o como o Cristo ou o Político de Deus, e como o paradigma do ser humano. Milagres, nunca ele fez. O que Jesus sempre fez e de forma incansável, foram acções políticas fecundamente subversivas e radicalmente libertadoras das pessoas. E as pessoas que historicamente se deixaram tocar na sua consciência por essas suas acções nunca mais foram com antes. Tornaram-se fecundamente subversivas como ele, rebeldes, resistentes, insubmissas, livres e politicamente interventivas e participativas como ele. Por isso, o poder instituído nunca gostou dele, nem da sua actividade, nem das pessoas que se deixaram tocar interiormente por ele.
É este Jesus histórico que o Império crucificou e Deus ressuscitou, que nós, suas discípulas, seus discípulos, hoje havemos de resgatar da cristologia e da catequese eclesiástica católica romana e da catequese das novas Igrejas-seitas que por aí proliferam. Para que a Humanidade do século XXI o conheça na sua verdade original, se deixe tocar pelo seu sopro ou espírito e se torne Humanidade ao seu jeito. Quem de nós se atreve? Felizes aquelas, aqueles de nós que nos atrevermos!
MEDITAÇÃO N.º 7- 2004 Abril 14
"A febre deixou-a e ela começou a servi-los" (Mc 1, 31). A boa notícia é teológica e refere-se à sogra de Simão. Depois que Jesus saiu da sinagoga de Cafarnaúm dirigiu-se à casa de Simão e André. Sinal de que os dois irmãos que havia chamado para fazer deles pescadores de homens já não costumavam frequentar aquela importante reunião semanal dos judeus. Em vez disso, faziam parte do grupo de israelitas rebeldes, não praticantes da religião judaica. Acalentavam outros projectos, de cariz mais político que religioso. Eram suficientemente lúcidos para perceberem que aquilo que se fazia todos os sábados nas sinagogas de cada cidade não tinha qualquer interesse para o bem-estar do povo. Pelo contrário, só contribuía para a sua alienação, para o seu adormecimento, para a sua submissão. Eram judeus não praticantes, como há hoje entre nós muitos que se dizem católicos não praticantes. Infelizmente, só neste pormenor é que os católicos não praticantes serão como Simão e André. Melhor seria que fossem como eles, também no resto, concretamente, no inconformismo e na militância política. Simão já não era frequentador da sinagoga, mas não ficava em casa a dormir, nessa hora, como muitos católicos não praticantes fazem hoje. Nem ia distrair-se com o desporto da pesca à linha. Era um homem politicamente organizado. Sonhava com a expulsão dos soldados romanos do seu país e desenvolvia actividades políticas consequentes. Não se ficava pelas boas intenções. Era militante com outros militantes. Disposto até a recorrer à violência armada, se tal fosse necessário. Se não era do partido dos zelotas - entre os especialistas, há quem diga que sim - defensor da luta armada contra a ocupação do país pelo Império romano, andava lá por perto.
Porém, não se pense que Jesus foi lá a casa repreender os dois irmãos pelo facto deles não terem ido à reunião semanal na sinagoga. Nada disso. Aliás, o próprio Jesus também já não frequentava essa reunião. Jesus apenas aproveitava a reunião semanal, enquanto o não expulsaram, para intervir e ensinar, para dar a conhecer o seu projecto de vida militante, a edificação do Reino/Reinado de Deus na História. Não ia lá como iam os judeus cumpridores da Lei de Moisés, para rezar a Deus e escutar os ensinamentos dos doutores da Lei e dos fariseus. Ia para ensinar. E, como vimos na meditação anterior, o ensino que lá desenvolvia era altamente subversivo e polémico. Era um ensinamento que desautorizava por completo o ensino oficial que era ali habitualmente ministrado. Em lugar de prestigiar a sinagoga, desacreditava-a. Deitava tudo a perder. Despertava o povo para a realidade do Reino/Reinado de Deus, já a acontecer/crescer na História, sem que os responsáveis pelo ensino na sinagoga sequer se apercebessem. No entender de Jesus, os chefes religiosos que ensinavam mentiras na sinagoga deveriam ser deixados a falar sozinhos, já que o seu ensinamento só servia para manter o povo na opressão e na desgraça. Quase como hoje acontece com as catequeses e com as homilias nas igrejas paroquiais do país e do mundo. Quem as frequenta não sai do medo, nem da cepa torta. Quem as escuta e vai por elas acaba por viver ocupado com ninharias em redor de altares e de imagens mortas de santas e de santos, e muito longe das casas onde permanecem pessoas vivas acamadas, tantas vezes sem ninguém que se lembre delas, zele por elas, cuide das suas roupas, da sua higiene pessoal e da sua alimentação condigna.
Jesus vai à casa de Simão e André tomar conhecimento directo do ambiente familiar em que vivem aqueles dois irmãos que ele havia chamado. Preocupa-o, sobretudo, que Simão, com o carisma de líder que tem, esteja tão dominado pelo fanatismo da violência armada como solução para os problemas da nação e do mundo. Ao chamá-lo para andar com ele, Jesus terá gostado desse seu carisma de líder político, mas já não gosta nada daquele fanatismo político que o faz correr. Líder, sim, e político, mas no serviço libertador do povo, não na opressão do povo. Para opressão, já o povo tinha e tem líderes de sobra. O que faz falta, em todas as épocas e lugares, são líderes libertadores, na linha do serviço maiêutico, não na linha do poder, muito menos, do poder violento.
Ao entrar no ambiente familiar de Simão, Jesus pretende certamente aquilatar até que ponto é possível modificá-lo. O relato sublinha que, depois de Jesus entrar em casa falam-lhe imediatamente da sogra do seu novo companheiro, e dela se diz que jazia na cama com febre. Lemos a notícia e logo somos levados a pensar em febre no sentido clínico. Educaram-nos para vermos Jesus como um caprichoso e cínico milagreiro que cura uns poucos de doentes e deixa a esmagadora maioria dos outros entregues à sua sorte. Por isso, ao ouvir falar em febre, começamos logo a imaginar que Jesus foi lá a casa, porque já sabia da situação e quis realizar um milagre em prol da sogra do seu novo amigo, de modo a conquistar a simpatia dele e de toda a sua família. Não percebemos - infelizmente, as catequeses eclesiásticas nunca nos disseram que o Evangelho está escrito em chave política e que só nessa chave deve ser interpretado - que o relato é teológico e, se nele se fala em febre, só pode estar a referir-se a febre política. E assim é, de facto. Aliás, o autor da narrativa tem o cuidado de escolher uma palavra grega para dizer febre, cuja raiz é comum à palavra grega com que se diz fogo. Por outro lado, no tempo de Jesus, falar em febre, em ambientes políticos onde se defendia a violência armada e o recurso a acções incendiárias, ou mesmo a assassinatos políticos, logo os circunstantes recordariam o exemplo paradigmático do profeta Elias que, no seu tempo, também não olhou a meios para atingir os seus fins. Tanto assim que no zeloso dizer do Livro dos Reis, o profeta terá chegado a passar ao fio da espada centenas de sacerdotes do deus Baal, só para impor de novo a ortodoxia litúrgica em Israel, contra a idolatria litúrgica introduzida pela rainha Jezabel, uma estrangeira que havia casado com o rei Acab.
Por isso, ao lermos no relato evangélico que a sogra de Simão jaz na cama com febre, o que logo temos que concluir é que ela - a casa que ela representa - está contaminada pelo vírus da ideologia política violenta e, como tal, está completamente bloqueada/paralisada para o fecundo serviço do acolhimento libertador. Naquela família, respirava-se violência por todos os poros. Não havia ninguém disponível para a Política maior, concebida como serviço que liberta e promove a vida. Só gente disponível para a política menor compreendida como luta de morte pela conquista do Poder. Quem entrava naquela casa, naquela família, ou afinava pelo mesmo diapasão, ou depressa se sentia a mais e se afastava. O círculo familiar de Simão era, pois, um círculo altamente violento, agressivo, fanático. É o que quer dizer o relato, quando diz que a sogra de Simão jaz na cama com febre. Não há por lá ninguém disponível para o serviço político de acolhimento e de libertação do povo. Pior, por ali, esse serviço nem sequer é visto como um valor. Por ali, até as mulheres mais velhas viviam a arder em febre política. Pelo que a única linguagem política que entendem é a do fanatismo violento. Quanto mais fanática for a pessoa, mais valor tem. O que não for assim é visto como debilidade, como fraqueza política. Como tal, não presta. É pão que não se serve na mesa daquela casa.
Jesus depara com um ambiente assim. E se é manifesto que gosta de pessoas politicamente inconformadas, rebeldes, insubmissas, disponíveis para grandes combates, prontas para deixarem tudo o que se prende com o seu exclusivo bem-estar individual e familiar e assumirem com risco até da própria vida as grandes causas da nação e do seu povo (onde se hão-de incluir todos os povos do mundo), já não gosta tanto que as pessoas se deixem dominar pelos fanatismos políticos, ao ponto de querem resolver a ferro e fogo todos os problemas da nação e do mundo. Por isso, quando o informam - a informação aqui é teológica - que a sogra de Simão jaz na cama com febre, que é uma mulher politicamente muito activa, mas que dessa muita actividade política resulta mais morte do que vida para o povo, logo ele se faz próximo dela. O contacto que estabelece com ela é um contacto de intimidade. O fogo que ele veio trazer à terra não é o do fanatismo que assusta, paralisa, oprime e mata. É o fogo da ternura, do afecto, do amor gratuito, da misericórdia, da entrega da própria vida. Aliás, o único fogo que liberta e cura, levanta e ressuscita quem está caído e enfraquecido.
O diálogo entre ambos teve que ser prolongado, para Jesus acabar por se sentir com à vontade para tomar pela mão a sogra de Simão e para a levantar/ressuscitar. Mergulhada na intimidade de Jesus e atingida até ao âmago da sua consciência pelo seu penetrante olhar cheio de misericórdia, a sogra de Simão acabou por encontrar/descobrir um outro tipo de Ser Humano, nos antípodas do seu genro. E passou do fanatismo, da agressividade e da violência, para o acolhimento, para a ternura e para o serviço libertador. Como se vê, não foi a correr para a sinagoga, nem para o templo, nem para os sacerdotes, nem para os doutores da lei, nem para os fariseus. Pelo contrário, manteve-se mulher constitutivamente política, não religiosa. Rebelde e insubmissa. Mas, ao mesmo tempo, passou a ser radicalmente terna. Meiga. A rebentar de carinho. Mulher com entranhas de misericórdia. Espantosamente feminina. Nem ela própria sabe bem como, mas a verdade é que, à medida que este encontro com Jesus se desenvolvia, ela percebia que a febre política a deixava, que o fanatismo não morava mais no seu coração e na sua mente, nem nos seus membros. Tornava-se, toda ela, noutra mulher. Apetecia-lhe abraçar e beijar o mundo inteiro. Chegar a toda a gente. Olhar toda a gente como Jesus a olhou a ela. Aproximar-se de toda a gente como Jesus se havia aproximado dela. Tomar toda a gente pela mão, como Jesus a tomou a ela pela mão. Criar intimidade com toda a gente como Jesus criou intimidade com ela. Quando, finalmente, se viu levantada/ressuscitada, nascida de novo, do alto, do Espírito, percebeu que dela havia saído o sopro ou vento ou espírito do fanatismo, da violência, da dominação, da morte e entrou o Sopro ou Vento ou Espírito da ternura, da misericórdia, do abraço e do beijo, numa palavra, da vida em abundância, que só o Espírito de Jesus é capaz de criar e de desenvolver. Tornou-se uma nova mulher. Política, como antes, mas agora materializada no serviço libertador, humanizador, teimosamente promotor de autonomias e de protagonismos. Ficou claro para ela que já não tinha nada que ir a correr combater os inimigos do povo. O que tinha a fazer era correr para junto do povo, fazer-se próxima dele e desenvolver com ele fecundas acções de libertação, para que ele se experimente acompanhado, amado, apoiado, fortalecido, esclarecido, autónomo. E se torne povo dissidente, rebelde, em relação aos distintos poderes e seus mediadores, numa palavra, se torne politicamente protagonista. Quando isto acontecer, até os inimigos do povo cairão na conta de que o são, mas sem povo, como acontece com aquelas estátuas enormes que deixamos ao abandono num canto de velhos jardins.
Na intimidade com Jesus, a sogra de Simão havia finalmente compreendido que os inimigos do povo só são fortes, porque o fanatismo de pessoas politicamente intervenientes como ela, a juntar ao medo do povo que aumenta, tanto pelas acções violentas dos seus inimigos, como pelas acções violentas dos que se lhes opõem, o fazem medrar cada vez mais. Se todas as pessoas como ela trocarem as acções políticas fanáticas pela fecunda acção política da entrega da sua própria vida ao povo; se ousarem passar a viver em comunhão com ele e em contínuo serviço libertador, então o povo perderá progressivamente o medo aos inimigos, tornar-se-á progressivamente autónomo e protagonista. E até os seus inimigos já não terão mais povo a quem amedrontar, a quem subjugar, a quem oprimir. Finalmente, acabarão por deixar de ser inimigos, para se tornarem simplesmente humanos!
"A febre deixou-a e ela começou a servi-los". Assim foi. Assim será. Ao ser encontrada por Jesus, a sogra de Simão deixou de vez a febre dos fanatismos políticos que quase sempre acabam por tirar a vida não aos grandes inimigos do povo, mas sobretudo à multidão das suas vítimas. Após essa experiência fundante, não foi, felizmente, a correr meter-se na religião que então se fazia na sinagoga ou no templo, de costas para o mundo. Pelo contrário, se ela já era mulher política, radicalizou ainda mais esse seu jeito de ser mulher, mas, a partir de então, mulher política ao jeito de Jesus, o Político, ou o Cristo de Deus. E se, antes, com a febre dos fanatismos políticos que queimava nos seus membros, esta mulher era até capaz de crucificar os inimigos do povo e de matar indiscriminadamente muitas das suas vítimas inocentes, agora, que acabou de ser encontrada por Jesus, passa a viver todos os dias com as vítimas dos inimigos do povo, numa relação de serviço maiêutico ou libertador, ao mesmo tempo que denuncia e desmascara os enormes crimes estruturais de lesa-Humanidade e de lesa-Natureza que eles estão sempre a cometer, a coberto da mentira de que apenas se limitam a defender a Ordem mundial querida por Deus. Como se o nome de Deus, alguma vez, pudesse estar vinculado a alguma Ordem mundial que não coincida com o desenvolvimento histórico do seu Reino/Reinado no mundo.
Felizes de nós, hoje, se também nos deixamos encontrar por Jesus, como a sogra de Simão - este discípulo só depois da Ressurreição de Jesus é que acabou por viver essa experiência - e se nos deixamos julgar/libertar/salvar pelo seu penetrante olhar que faz nascer de novo, do seu Sopro ou Espírito. Tornamo-nos pessoas outras, nascidas não da carne nem do sangue, mas do Espírito ou Sopro de Jesus Ressuscitado, o que fará de nós pessoas incondicionalmente disponíveis para o serviço maiêutico ou libertador. Um serviço com tudo de política, nada de religião.
MEDITAÇÃO N.º 6 - 2004 Abril 03
"Que tens a ver connosco, Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir? Sei quem tu és: o Consagrado de Deus!" (Marcos 1, 24). Apesar dos protestos, Jesus não se deixa intimidar. E leva o seu ensinamento na sinagoga de Cafarnaúm até ao fim. Veio para desmascarar/destruir todos os poderes que oprimem as pessoas e os povos, a começar pelo poder religioso que oprime as pessoas e os povos em nome de Deus, e não fica a meio caminho, mesmo quando, como aqui, esbarra com forte oposição à sua missão. O episódio é paradigmático. Marcos situa o episódio em dia de sábado, na sinagoga de Cafarnaúm, a cidade da província da Galileia mais observante da Lei de Moisés, o que fazia dela uma espécie de capital do judaísmo nessa província afastada do Templo de Jerusalém. O episódio é teológico, mais do que histórico. Com esta estória teológica, Marcos revela que Deus não se revê na religião oficial de Israel, quando esta, na altura, se tinha na conta de ser a única religião verdadeira sobre a terra. O episódio deixa claro que Deus está com Jesus, que acabou Crucificado pela instituição religiosa e pelo Império romano, não está com os doutores da lei, apesar destes serem os seus teólogos oficiais, ordenados e mandatados por ela para ensinarem todo o povo. Quer isto dizer que os doutores da lei gozavam duma autoridade canónica, jurídica, legal; não da autoridade do Espírito de Deus. Tinham o aval da instituição religiosa oficial, não o aval de Deus. Eram teólogos de Deus-Poder religioso - sem dúvida o pior dos ídolos, porque sacralizador de todos os outros Poderes/ídolos, nomeadamente, do Poder económico-financeiro - não eram teólogos de Deus Criador e Libertador. Com os seus ensinamentos, ajudavam a manter as pessoas oprimidas, cegas, surdas, mudas, subjugadas, tolhidas, assustadas, escravizadas, mortas, enquanto que os ensinamentos de Jesus despertam consciências, acordam potencialidades nas pessoas até então adormecidas, libertam oprimidos, abrem os olhos a cegos, fazem ouvir surdos, falar mudos, andar tolhidos, soltam prisioneiros, mandam escravos em liberdade, e até levantam/ressuscitam mortos. O episódio revela também que, desde o início da sua missão, Jesus é sentido como uma ameaça para a instituição religiosa oficial. A personagem que interpela directamente Jesus representa a instituição religiosa oficial. Não fala em nome individual, mas colectivo, como indica o recurso ao plural: "Que tens a ver connosco Jesus de Nazaré? Vieste para nos destruir?" Porém, o Evangelho não se fica por esta denúncia. Avança mais um passo e acusa a instituição religiosa, representada por esta personagem, de estar possessa ou possuída por um espírito imundo, isto é, por um sopro oposto ao Sopro de Deus vivo, o Espírito Santo, que está plenamente actuante em Jesus de Nazaré. É uma instituição que trabalha muito, promove muitas actividades, movimenta muitas pessoas, organiza muitas acções para muita gente, mas de tudo isso não resulta nada de bom para a Humanidade, nem para o mundo. Pelo contrário, cada vez há mais pessoas oprimidas, cegas, coxas, paralíticas, subjugadas, tristes, deprimidas, tolhidas, empobrecidas, resignadas, sofridas, conformadas, desprezadas, ostracizadas. Porque o sopro ou espírito que a anima não é o Sopro ou Espírito de Deus Criador e Libertador, mas um sopro ou espírito imundo, isto é, inimigo da vida e vida em abundância em todas as pessoas e em todos os povos.
Nunca as Igrejas nos fizeram ver a Boa Notícia contida/revelada nesta estória, assim como em todas e cada uma das estórias teológicas com que se tece cada Evangelho canónico. Sempre no-las lêem e interpretam como se fossem factos jornalísticos, como aqueles que, actualmente, preenchem o jornal que abrimos pela manhã. Ou como se quando o Evangelho, que contém esta e outras estórias, começou a ser proclamado, Jesus já não tivesse sido crucificado uns quarenta e tal anos antes. As Igrejas sempre leram e nos levaram a ler cada uma das estórias dos Evangelhos, como quem ainda não sabe o desfecho da vida de Jesus. Ora, nada mais incorrecto. Porque todas as estórias com que os Evangelhos se tecem foram escritas com a força e a luz que explodiu na sua Páscoa, na sua Morte/Ressurreição. Se Jesus não tivesse ressuscitado, nunca os Evangelhos canónicos seriam escritos. Por isso, quando hoje escutamos cada um dos Evangelhos, temos sempre que nos colocar na pele das pessoas que primeiro os ouviram, para podermos sofrer o mesmo impacto que elas sofreram. Até aparecerem os Evangelhos, o que as pessoas e os povos do Império sabiam acerca de Jesus correspondia à informação oficial que sobre ele o Templo de Jerusalém e o Império haviam feito passar para a História. Tratava-se, segundo essa informação oficial, de um elemento altamente perigoso, subversivo, blasfemo, herege, endemoninhado, perante o qual não houve outro remédio senão cercá-lo, persegui-lo, atacá-lo, desacreditá-lo, tratá-lo por louco e, finalmente, prendê-lo, julgá-lo, condená-lo à morte e executá-lo. E foi o que acabou por ser feito, com o aval de todos os poderes instituídos, para acabar com ele duma vez por todas. Esta era a versão oficial que as pessoas e os povos do Império tinham sobre Jesus. Até que surgem os Evangelhos, a falar de Jesus de Nazaré como a Boa Notícia de Deus no meio de nós. Antes dos Evangelhos canónicos, já o apóstolo Paulo começara a espalhar a notícia pelas principais cidades do Império que as coisas não eram nada assim como oficialmente se dizia. E referia-se a Jesus Crucificado como a Boa Notícia de Deus para todas as pessoas e para todos os povos. E mostra-se incansável na difusão desta Boa Notícia, na convicção de que, se ela for acolhida e aceite, mudará por completo a vida das pessoas e dos povos.
Por isso, quando os Evangelhos aparecem, as pessoas e os povos que os escutam pela primeira vez, já sabiam de Jesus, mas tal como a versão oficial se lhe referia. Sabiam que o Templo de Jerusalém e o Império se haviam coligado entre si para o matarem. Sabiam que tinham feito dele o protótipo do maldito, do proscrito, por isso, um nome que nunca mais deveria ser pronunciado por ninguém à face da terra, um nome que era a vergonha da Humanidade, o diabo em figura de gente. Até que, uns quarenta anos depois de tudo ter acontecido, inopinadamente, aparecem umas quantas pessoas a anunciar um conjunto de surpreendentes estórias, nas quais Jesus é o protagonista principal, portador de um ensinamento e de uma prática de vida que revelam uma outra pessoa completamente distinta daquela que o Templo e o Império haviam dito que ele era. E a conclusão a que chega quem ouve e aceita essas estórias com as quais são tecidos Evangelhos só pode ser completamente distinta da que o Templo de Jerusalém e o Império romano haviam tirado e espalhado. Afinal, o Templo de Jerusalém e o Império é que eram os endemoninhados, os malditos, os possessos do demónio, os criminosos, a Mentira em acção, os nossos opressores, numa palavra, os nossos assassinos! Por outras palavras, o mundo está de pernas para o ar. A Ordem mundial é uma desordem. A religião é opressão. O Poder é um falso Deus, um ídolo a que é preciso resistir, que havemos de neutralizar e, finalmente, destruir. O Templo é covil de ladrões. Os sacerdotes são mentirosos que se fazem passar por intermediários entre os povos e Deus. As minorias privilegiadas que nos governam são ladrões e assassinos que tudo fazem para perpetuarem os seus privilégios, nem que seja à custa do empobrecimento e da morte das maiorias.
O mais impressionante é que o Evangelho de Marcos se atreve a colocar esta estória logo no início da actividade pública de Jesus. Apresenta-nos Jesus a entrar na sinagoga da cidade mais fiel à Lei de Moisés, onde, cada semana, se escutavam os ensinamentos dos doutores da Lei. A estória não nos diz que Jesus entrou para aprender, como fazia qualquer judeu que se prezasse e como faz hoje qualquer católica, católico que se preze, quando entra na igreja paroquial, ou na catedral da diocese, ou no santuário de Fátima ou no santuário de outro local qualquer. Nada disso. Nesta estória, Jesus entra na sinagoga e - diz o texto - "começou imediatamente a ensinar". Não foi aprender as mentiras que ensinavam os doutores da Lei, ordenados e mandatados pelo Templo de Jerusalém e pelo sumo sacerdote para isso. Não. Jesus entra e começa imediatamente a ensinar. E aí nasce o escândalo. Nunca se vira tal coisa, tal atrevimento. Quem não era doutor da lei, quem não era ordenado nem estava mandatado pelo superior hierárquico para ensinar, deveria permanecer calado, a ouvir. Passaria toda a vida a ouvir, sem contestar, sem resmungar. Mesmo que lhe parecesse que o ensinamento era estúpido, que não tinha som nem tom, que era um atentado à razão e à ciência, tinha que permanecer calado, em atitude de respeito. E, no sábado seguinte, voltar a aparecer e voltar a sentar-se calado no seu lugar. Só assim é que a Ordem social funcionava sem sobressaltos de maior. E toda a gente poderia viver em sossego e em harmonia: as minorias ricas e poderosas com as suas fortunas e os seus privilégios; e as maiorias com as suas desgraças, a sua pobreza e a sua miséria, e ainda com o ferrete de serem apontadas por aquelas como pecadoras públicas.
Com Jesus, as coisas não foram mais assim. Nele, o Ser Humano integral que ele é rebela-se contra este estado de coisas, contra este status quo, contra esta Ordem nacional e imperial. Entra na sinagoga e toma imediatamente a palavra, para ensinar. O espanto deveria ser geral. Mas a verdade é que, à medida que Jesus ensina (a estória evangélica não nos informa em que consistiu esse ensinamento, apenas sublinha a impressão que causou nas pessoas presentes), ninguém fica indiferente. As pessoas "maravilhavam-se com o seu ensinamento, pois os ensinava como quem tem autoridade, e não como os doutores da lei". A expressão "como quem tem autoridade" pode e deve ser traduzida "como quem tem liberdade". O que jamais acontece com os funcionários da instituição, por ela ordenados e mandatados, que sempre têm que ensinar o que ela lhes ensinou e manda ensinar, mesmo que sejam crassas mentiras. Os funcionários da instituição que os ordenou e mandata para aquela função sabem que, no dia em que decidirem ensinar como quem tem liberdade, põem em risco o seu lugar e todos os privilégios que o lugar lhes garante, enquanto fizerem de conta que o que diz a instituição é a verdade, corresponde inteiramente ao que Deus Criador e Libertador diz. Por isso, a partir de determinada altura das suas vidas, os funcionários quase sempre mudam de Deus. Deixam de adorar o Deus Criador e Libertador e passam a adorar o Deus/Poder que se identifica com os interesses da instituição religiosa que eles representam, lá onde vivem e actuam. Tornam-se idólatras, a única maneira de garantirem a manutenção dos seus múltiplos privilégios. Deste modo, garantem também o apoio popular, das massas que têm medo de Deus Criador e Libertador e preferem um Deus/Ídolo troca-tintas, com o qual podem sempre negociar, isto é, fazer ritos religiosos e pagar aos sacerdotes para que os façam em seu lugar e em seu nome!
Felizmente, para a Humanidade, Jesus não aceitou ser um funcionário. Com ele, a Humanidade viu, pela primeira vez, o Homem em acção, o Ser Humano em acção. Os poderes não gostaram. A princípio, ainda tentaram, como aqui nesta estória, atraí-lo a eles. É o que faz a personagem que representa a instituição, no caso, o Poder religioso, quando, depois de o advertir que, ao ensinar assim põe tudo a perder - "vieste para nos destruir?" - logo lhe estende a mão, como quem diz: não sejas tolo, passa-te para o nosso lado e governarás a tua vida e a dos teus: "Sei quem tu és: o Consagrado de Deus". Por outras palavras, tu tens os olhos abertos, tens jeito para liderar as massas, consegues cativar as multidões, então junta-te a nós, às minorias dirigentes e serás o nosso líder nacionalista, o nosso chefe, o nosso primeiro - é o que quer dizer "Consagrado de Deus", serás rei como o rei David ou o rei Salomão, portanto, o nosso chefe absoluto, a quem todos nós obedeceremos e nos submeteremos voluntariamente. Mas Jesus não vai nisso. É lúcido de mais - é a Luz! - e avança no seu ensinamento até ao fim. E é então que diz que o Poder está muito activo, sim, mas está animado por um sopro que é de opressão e de morte, feito de mentira e de ódio, é mentiroso e assassino. E quantos se aliarem a ele, podem usufruir de muitos privilégios, mas são sempre opressores das pessoas e dos povos e seus assassinos. Quanto mais se movimentarem, mais conseguem matar, roubar e destruir! O que hoje vemos acontecer com a actual administração norte-americana de Bush e seus estados satélites e vassalos no resto do mundo é por demais eloquente. Só quem não queira ver é que não vê, apesar de estar aí às escâncaras!
Podemos dizer que nesta sua primeira intervenção em terreno afecto à instituição que mais oprimia e explorava o povo no seu país - o Poder religioso que tinha no Templo de Jerusalém e na Lei de Moisés as suas traves mestras - Jesus assinou de imediato a sua sentença de morte. Não o mataram logo, porque irão continuar a tentar - tentações bem históricas! - dar-lhe a volta, convencê-lo a juntar-se a eles. Quando virem que ele não verga, tentarão pela calúnia e pela mentira - fazem constar que ele é louco e que tudo o que faz é por obra de Belzebu - destruí-lo junto do povo. Como nem assim conseguem torná-lo inofensivo, não hesitam mais e matam-no com a morte mais afrontosa e ignominiosa, para que, desse modo, o seu nome nunca mais seja pronunciado por ninguém. Não sabiam eles o que Deus Criador e Libertador - o único Deus em quem Jesus crê! - tinha ainda para fazer para levar por diante o seu Projecto.
Felizes, pois, aquelas, aqueles de nós que ousarem fazer-se discípulas, discípulos de Jesus. E, como ele, forem fiéis ao Deus Criador e Libertador até ao fim. Por mim, não quero outra coisa. Até porque já percebi que fora de Jesus, não encontro outro caminho que me faça ser homem, ser humano, eu próprio. É, pois, assim que quero manter-me como padre na Igreja. Não contra ela, mas dentro dela. Para que ela todos os dias seja Igreja edificada sobre a Pedra angular que é Jesus e a Fé de Jesus, de modo a poder testemunhar/anunciar o Evangelho de Deus que ele é para todas as pessoas e para todos os povos!
MEDITAÇÃO N.º 5 - 2004 Março 23
"Vinde após mim e farei de vós pescadores de homens" (Marcos 1, 18). O convite de Jesus não pode ser politicamente mais subversivo e mais radicalmente libertador. Porém, as Igrejas, com as moralistas e interesseiras interpretações que fazem não só destas, mas de todas as outras palavras do Evangelho, no estilo de quem puxa a brasa à sua sardinha, por isso, no estilo de quem mais não pretende do que manter o status quo, esvaziaram por completo a força politicamente subversiva deste convite de Jesus e tornaram-no totalmente inócuo. Até aos nossos dias. Para cúmulo, nos últimos cem anos, as Igrejas pegaram nestas palavras de Jesus e passaram a aplicá-las quase exclusivamente aos jovens que elas tentam atrair ao seminário, para fazerem deles sacerdotes e missionários eunucos à força, que depois são enviados sozinhos e sem família constituída, como outros tantos braços compridos do poder eclesiástico ocidental no interior de certos países geograficamente distantes de Roma, nos quais esse poder é ainda quase irrelevante ou mesmo inexistente. Como se Jesus, ao chamar alguns homens do seu tempo e país, para serem pescadores de outros homens estivesse a pensar fazer deles sacerdotes e missionários ao jeito daqueles que as Igrejas têm ordenado através dos tempos e ainda hoje ordenam, se, é claro, continuar a haver quem lhes apare o jogo. Ou como se Jesus estivesse simplesmente a recrutar membros para uma qualquer Igreja que sonha com poder, riqueza, influência. Se assim fosse, então estas palavras nem sequer poderiam fazer parte do Evangelho ou Boa Notícia de Deus que se nos revelou e revela continuamente em Jesus de Nazaré, agora ressuscitado, como aquele Deus que está aí, mediante o seu Espírito, a subverter continuadamente a História e a convocar mulheres e homens para missões históricas de risco contra os poderes da opressão e da alienação que reiteradamente nos desumanizam, enquanto não acabarmos de vez com eles. O que só acontecerá, quando todos os seres humanos atingirmos a maturidade/maioridade humana e formos mulheres, homens da mesma estatura de Jesus, o Filho primogénito de Deus, simultaneamente, o filho de Maria.
Infelizmente, as Igrejas sempre interpretaram este convite de Jesus à letra. Como se costuma interpretar uma qualquer frase jornalística. Mas não pode ser assim. O relato em que este convite de Jesus se insere fala de pescadores. De dois pares de homens que eram pescadores e irmãos. Um par, mais pobre, que nem barco próprio possui e cujos membros são identificados com nomes de origem grega, pouco ortodoxos, portanto; e um outro par, mais abastado, cujo pai é proprietário de barcos e de redes e tinha assalariados por sua conta, cujos membros são portadores de nomes hebraicos, portanto, mais ortodoxos e reformistas. Fala de dois pares de homens que lidam com barcos e com redes de pesca. Junto ao "mar" da Galileia. As Igrejas bem podiam ver que na Galileia nem sequer há mar. Apenas um grande lago. E que se o Evangelho prefere chamar-lhe "mar" é porque está a escrever um relato teológico, profético-teológico, mais do que jornalístico ou histórico. Um relato com referências ao antigo Êxodo e à travessia do "mar dos juncos", ou "mar vermelho". É porque é um relato que remete os dois pares de homens convocados para tarefas históricas e políticas que têm tudo a ver com a libertação da opressão dos múltiplos Egiptos ou impérios de turno que sucessivamente se desenvolvem ao longo da História e tanto mais quanto houver Igrejas e religiões que desviem as pessoas e os povos da Política e os atraiam para os ritos religiosos, dentro dos templos, em redor de deuses e de deusas que não existem, senão nas suas imaginações doentes e assustadas.
Pelo menos, as Igrejas podiam ter desconfiado de um relato em que tudo aparece tão certinho, um par de irmãos que são pescadores, outro par de irmãos que também são pescadores e que logo deixam tudo e vão atrás de Jesus, sem que ninguém da família proteste, nem mesmo o pai do segundo par de irmãos. Tudo tão certinho, não é assim que costumam ser as situações históricas, em que os irmãos de sangue quase sempre são Caim e Abel uns para os outros, têm ambições de domínio e de protagonismo, em que um acaba por se impor aos outros e os domina. Podiam por isso ter suspeitado que os pescadores que Jesus começa por chamar devem ser mais do que simples homens que se dedicam à pesca de peixe. Podiam ter percebido que Jesus não está propriamente interessado em dar cabo da economia da Galileia que sobrevivia graças também ao trabalho da pesca. E que desviar homens do trabalho da pesca de peixe para fazer deles pescadores de homens não era propriamente uma acção que se recomendasse. Aliás, o que poderia então significar à letra ser pescadores de homens? Que missão ou actividade era essa que, como se depreende do relato, se sobrepunha e muito à fundamental tarefa ou actividade de pescar peixes, com os quais se alimentavam as pessoas do país e todos nos alimentamos ainda hoje? Pescadores de peixe, toda a gente sabe o que são, nomeadamente, na Galileia, pois era também dessa actividade que a população sobrevivia. Mas pescadores de homens, o que seria e será? Para que missão e para que tarefas concretas está Jesus a chamar estes homens do seu país, quando lhes diz que vai fazer deles pescadores de homens? Que tarefas são essas que têm assim tanto interesse para o país e para a Humanidade em geral?
Temos que reconhecer que as Igrejas têm sido bíblica e teologicamente preguiçosas quanto baste. Em vez de se experimentarem como um Povo convocado por Deus a meter-se na História até aos ossos, mesmo com risco da própria vida, preferem comportar-se como um povo que se mete nos templos a fazer ritos em série até à náusea, a invocar o nome de Deus como um disco rachado que repete sempre o mesmo, que passa o tempo a pedir a Deus o que ele próprio deveria fazer e estimular o resto da Humanidade a fazer também. Com o tempo, as Igrejas acomodaram-se de tal modo a esta rotina e instalaram-se de tal modo nela, que hoje já nem sequer se dão conta de que, ao procederem assim, são parasitas que promovem o parasitismo no mundo, são pessoas alienadas que promovem a alienação do resto da Humanidade que ainda se deixar influenciar por elas. São Igrejas que não estão na linha de Jesus, não vão após Jesus, não seguem Jesus, mas o anti-Jesus. Seguem o Medo, sobretudo, o Medo à liberdade e à responsabilidade, o Medo à profecia, o Medo à intervenção histórica imaginativa e criadora, o Medo à Política. Só mesmo o Medo consegue fechar no interior dos templos pessoas com capacidade, como são geralmente as pessoas das Igrejas, a repetir, hora a hora, dia a dia, semana a semana, os mesmos ritos, as mesmas palavras que não levam a lado nenhum, nem sequer brotam do sentir e do sofrer e do sonhar das pessoas que lá estão. São palavras ritualizadas, sempre as mesmas, como se fossem mágicas, destinadas a produzir efeito pelo simples facto de serem repetidas sem qualquer alteração e sem qualquer engano. Mas que o único efeito que produzem é mais e mais Alienação, mais e mais Infantilismo, mais e mais Medo. As Igrejas ainda êm multidões que as frequentam? E que não dispensam esses ritos e até estão dispostas a pagar o que for preciso para que essa pseudo-actividade prossiga e esteja garantida, todos os dias, às mesmas horas? Pois têm, mas apenas enquanto as pessoas e os povos não se atreverem a serem elas próprias, eles próprios; enquanto o Espírito de Deus não conseguir apoderar-se das pessoas e dos povos e arrebatá-las, arrebatá-los, para as ingentes tarefas políticas da edificação do mundo segundo o projecto inicial de Deus Criador.
O convite de Jesus - farei de vós pescadores de homens - remete os convocados para a mensagem política dos profetas, nomeadamente, Ezequiel 47, 1-12 e Jeremias, 16, 16. Só pode estar a referir-se a homens politicamente irrequietos, revolucionários, que sonham com mudanças profundas no país. No tempo de Jesus, só pode referir-se a homens dispostos a organizar-se para derrubarem o poder do Império romano, expulsarem as legiões do Império do seu país e conduzirem o país a líder mundial, num Reino/Reinado de Deus sobre toda a terra, o velho sonho do rei David/Salomão que os judeus associavam à chegada triunfal de um Messias todo-poderoso. Os dois pares de irmãos que Jesus chama ou convoca, um mais proletário, outro mais empresarial, representam os israelitas politicamente irrequietos, ainda que com metodologias e estratégias distintas. Portanto, o contrário de homens politicamente acomodados, resignados, metidos no Templo. Eram da Galileia, província distante de Jerusalém e do Templo. O contrário de beatos, de pessoas que não fazem mal a uma mosca. O contrário de pessoas dominadas pela ideologia dos príncipes dos sacerdotes, dos fariseus e dos doutores da lei. Homens sem prática religiosa, mais ou menos marginalizados pelo Sistema oficial que considerava pecadores quem não cumprisse escrupulosamente a Lei, tal como os fariseus a interpretavam. Ao fazer deles pescadores de homens, Jesus pretende que eles não só não se submetam mais à Lei e ao Templo, à Teologia e à Tradição dos antigos, mas também que eles cooperem com ele para arrancarem o maior número de pessoas do seu país à influência do Templo e da Religião oficial que lá se consumava, em sacrifícios cruentos de animais que eram uma verdadeira carnificina. Quer dizer que eles deveriam convencer o maior número de pessoas a fugir do Templo e da Ideologia opressora e castradora que ele veiculava. Porque para Jesus, o Sistema que o Templo e o Deus do Templo impunham ao povo era o novo Egipto da opressão popular, de onde havia que sair, fugir, como os antepassados fugiram, saíram do Egipto dos faraós. E a prova é que Jesus e os seus discípulos nunca frequentam o Templo, nem os cultos oficiais que lá decorriam. Anda pelos montes e pelas praias, pelas aldeias e pelas cidades, a constituir um Povo alternativo, aberto a todos os povos do mundo, sem qualquer discriminação. Pescar homens é o mesmo que arrancá-los da Opressão e das estruturas oficiais de Opressão. Para que sejam e vivam autonomamente. Pescar homens é levá-los a viver em comunhão com todos os povos do mundo. Um projecto que não foi fácil de acolher e de viver pelos judeus contemporâneos de Jesus e pelos próprios discípulos, mas que é a única porta que dá passagem a seres humanos que se prezem, já que todos os povos são povo de Deus, não apenas nem sobretudo o povo judeu.
No convite, são convocados aos pares. E apresentados como irmãos. Podem não ser irmãos de sangue. Mas têm que ser irmãos de projecto. Têm o mesmo projecto, o mesmo sonho. E não têm ninguém a mandar neles. Sobre o primeiro par, proletário, não se faz qualquer alusão à família, sinal de que já não estão condicionados por ninguém. Já não seguem a tradição. Estão livres e disponíveis para darem início a um Novo Começo, ainda que de momento não saibam em que é que ele consiste. Dependem de si próprios. O segundo par, pelo contrário, é mais tradicionalista, mais conservador. Os seus membros ainda vivem sob o poder do pai, cujo nome chega a ser referido no relato. Integram a minoria privilegiada possidente. São filhos do "papá". São filhos de empresário com trabalhadores por conta. Ainda não estão metidos até aos ossos nas acções de contestação política. Ainda não andam nas tarefas da pesca, isto é, nas tarefas políticas de mudarem a sociedade, de agitarem a sociedade, de desestabilizarem a sociedade e a ordem que a enquadra. Estão apenas no momento de iniciarem essa actividade. Não têm, por isso, experiência política, mas estão à beira de se comprometerem até aos ossos. Ainda não adquiriram certos vícios militantes, apenas têm grande vontade de se entregarem à causa da edificação do Reino/Reinado de Deus, tal como a Tradição do seu povo o concebia ao velho estilo do rei David/Salomão. Por isso, dizem logo que sim ao convite de Jesus, certamente, a pensar que ele se identifica com essa Tradição. Tiveram que deixar o pai e os assalariados. Tiveram que romper com a Tradição legalista que subjugava as pessoas e as mantinha como abortos, como paralíticos, como cegos, como mudos, como surdos, como mortos. Sem este corte com o Passado, com o Antigo, com o de Sempre, com o dos Pais e o dos Avós, não poderiam caminhar com Jesus, seguir Jesus. Entrariam de imediato em ruptura com ele. Nunca chegariam a protagonizar com ele um Novo Começo.
Tanto um par como outro começam por seguir Jesus. Ainda não sabem o que verdadeiramente os espera. Mas Jesus inspira-lhes confiança. Seguem-no. Não seguem um Partido, uma Escola, uma Ideologia, um Sistema, um Programa político. Seguem este Homem concreto que, em cada momento, verá o que é melhor para o seu povo e que lhe será fiel até ao fim, que o amará até ao fim. Deste modo, nunca poderão tornar-se intolerantes, fanáticos. O que sempre os há-de mover é o bem, a vida do povo. Não é a fidelidade a uma Ideologia, depressa convertida em Ideolatria, em nome da qual também se mata o povo. Aprenderão com Jesus - e isso vai-lhes custar os olhos da cara - a dar a vida pelo povo, nunca a sacrificar a vida do povo para fazerem triunfar a sua Ideologia. E - é outra coisa que lhes vai custar os olhos da cara - hão-de aprender com Jesus que Povo de Deus, Povo eleito, é não só o povo de Israel, mas todos os povos do mundo em pé de igualdade, povo romano incluído. Uma utopia que ainda hoje, vinte séculos depois, nem sequer pode ser pensada, muito menos, politicamente defendida e praticada no país que viu nascer Jesus, onde todos os dias se matam e mutuamente se aniquilam palestinianos e israelitas. Em nome do mesmo Deus que há vinte séculos já justificou o assassínio de Jesus na cruz!
"Vinde após mim e farei de vós pescadores de homens". Por mim, não quero outra coisa. Porque quanto mais eu seguir criativamente Jesus, quanto mais eu andar criativamente com Jesus, mais Igreja viva serei, mais homem irmão universal serei, e mais a Humanidade beneficiará com a minha vida.
MEDITAÇÃO N.º 4 - 2004 Março 16
"Depois de João ter sido preso, Jesus foi para a Galileia e proclamava o Evangelho [= Boa Notícia] de Deus. Assim:: Completou-se o tempo e o Reino/Reinado de Deus está próximo; convertei-vos e acreditai neste Evangelho." À luz destas palavras, temos que reconhecer que o momento em que Jesus decidiu dar início à sua missão no país que o viu nascer dificilmente poderia ter sido mais inconveniente. Pelo menos, dentro dos critérios que as pessoas que integram as Igrejas que reúnem em seu nome e as religiões em geral costumam adoptar ainda hoje, na hora de tomarem decisões de monta. Como aqui se diz, a sua missão ficou para sempre associada ao acontecimento político que na altura deixou em estado de choque e socialmente paralisada toda a população humilde e marginalizada do país: a prisão de João Baptista. Quando tudo recomendava cautela, prudência, fuga do mundo, refúgio num espiritualismo vertical sem mundo e sem História, vida contemplativa no interior de mosteiros cercados por grossas paredes, e a adopção duma mística de olhos fechados e de costas voltadas para os conflitos sociais e políticos, é então que Jesus abertamente se lança em missão e logo na Galileia, a província politicamente mais subversiva, que albergava no seu seio grupos políticos clandestinos, como os zelotes, e que era tida como a região mais impura, por ser habitada por gentios ou pagãos, os impuros por antonomásia, segundo os rigorosos critérios da Lei de Moisés, tal como ela era oficialmente interpretada pelo Templo de Jerusalém e pelos seus teólogos. Qualquer outro homem que gostasse, como ele gostava, de ser reconhecido pelos demais como homem de Deus nunca teria escolhido para iniciar a sua missão em público junto do povo, nem este momento de grande agitação política no país, nem a impura província da Galileia, a menos que o Deus que o enviava ao mundo, fosse totalmente distinto do Deus que oficialmente era cultuado no país. Escolheria Jerusalém, a cidade santa, a cidade de David, onde se erguia imponente o Templo, oficialmente apresentado como a casa de Deus por excelência, a cidade que todo o judeu que se prezava deveria visitar pelo menos uma vez ao ano, por ocasião da festa da Páscoa. A verdade, porém, é que Jesus decide avançar e avança determinado, não para Jerusalém, mas para a Galileia. Exactamente, no momento em que acaba de saber que João tinha sido preso às ordens do rei Herodes, com o público apoio de todos os maiorais da sociedade e do país, certamente, para que a sua prisão servisse de exemplo e tivesse inequívoco efeito desmobilizador junto dos sectores mais exaltados e mais rebeldes da sociedade, sob o Império romano. Este pormenor, assinalado pelo Evangelho de Marcos, revela com toda a clareza por que águas ia navegar a missão/intervenção de Jesus e, consequentemente, por que águas há-de navegar a missão/intervenção das suas discípulas, dos seus discípulos em qualquer tempo e lugar. Ao contrário do que sempre nos têm ensinado as Igrejas, que insistem no carácter especificamente religioso e espiritualista da missão de Jesus, este pormenor revela que, afinal, as águas por que navega a missão/intervenção de Jesus são as águas da política. Não, evidentemente, as águas da política ao jeito do rei David, militarista e assassina, ou ao jeito das minorias poderosas e violentas que então estavam à frente dos destinos do país, tinham acabado de prender João Baptista e acabarão por dar a morte a Jesus na cruz, mas as águas da política ao jeito de Deus criador que está incansavelmente ocupado em levar ao seu termo dentro da História a edificação do seu Reino, o único onde haverá lugar para todas as pessoas e para todos os povos, sem qualquer discriminação.
Mas se dúvidas ainda houver de que as coisas são assim, bastará repararmos nas primeiras palavras que o Evangelho de Marcos coloca na boca de Jesus e que ficam como uma espécie de manchete, ou grande título teológico que condensa toda a sua pregação. Elas falam em tempo, não em templo. Por isso, falam de Política, não de Religião. Anunciam que o tempo deixou de ser meramente cronológico e que se tornou kairós, ou tempo favorável, tempo aberto, por isso, oportunidade e graça para todas as pessoas e para todos os povos, não apenas para os judeus e para o povo judeu. Ora, quem diz tempo, diz história. E quem diz história diz oportunidade, diz mudança, diz o contrário de fatalidade, de fatalismo, diz abertura. E quem diz história, diz liberdade. E quem diz liberdade, diz política ao jeito de Deus Criador, diz intervenção no mundo e na história, diz cuidado da terra e do universo, diz responsabilidade, diz atenção aos sinais dos tempos, não aos sinais dos céus, diz disposição para entregar a própria vida pela vida.
Quer dizer que até Jesus, foi o tempo ainda fechado, considerado sagrado, inalterável, fatal, cíclico, de eterno retorno. Foi o império do destino, da fatalidade. Foi a tirânica vontade dos deuses e das deusas que faziam gato sapato das criaturas humanas, as quais, por sua vez, se desfaziam em ritos e cultos, em dias e locais certos, considerados sagrados, e que mais não eram, não são do que chantagens com que as criaturas tentavam, tentam agradar aos deuses e às deusas. Com Jesus, encerrou-se esse ciclo, velho testamento, e inicia-se um novo, novo testamento. Encerra-se o ciclo dos deuses e das deusas, do fado, do obscurantismo, da religião, das criaturas humanas como joguetes dos deuses e das deusas. Inaugura-se o Tempo como kairós, como oportunidade, como graça, como política, como responsabilidade. É o tempo dos Seres Humanos, mulheres e homens em radical igualdade e indissoluvelmente unidos. Os deuses e as deusas inventados pelo medo das criaturas cederam o seu lugar aos homens/mulheres, misteriosamente habitados pelo Espírito ou o Sopro de Deus criador, que, desde o mais fundo de nós, nos potencia para sermos fecundos e criadores, irmãos e irmãs universais, reciprocamente dons, responsáveis pelo universo, por nós próprios e por todos os mais iguais a nós, sem os quais nenhum de nós consegue ser psiquicamente saudável, verdadeiramente humano.
No seu pregão inicial, profundamente político, Jesus coloca o Reino ou Reinado de Deus como horizonte último da sua missão/intervenção. Anuncia que o Reino/Reinado de Deus está próximo, ao alcance da nossa mão, ao nosso alcance, assim nós o acolhamos e o façamos nosso, como mulheres, homens que atingiram a maioridade e, por isso, já não são mais escravos, mas filhas e filhos, já não vivem mais sob o jugo da Lei, da Religião, do Pedagogo, mas na Liberdade e na Responsabilidade, já não são religiosos, mas constitutivamente políticos, por isso, alegremente ocupados com a terra, em comunhão fraterna/sororal uns com os outros e em comunhão filial com Deus Criador que nos habita e potencia, até nos tornarmos como ele, outros Jesus. Dizer Reino ou Reinado de Deus é o mesmo que dizer Política. O rei, na primitiva tradição de Israel, tinha o dever de cuidar do seu povo, a começar pelos membros mais pobres, mais débeis e mais abandonados. Tinha o dever de garantir qualidade às suas vidas, nem que para tanto pusesse em perigo a sua própria. Ao anunciar que o Reino/Reinado de Deus está próximo, Jesus anuncia que com ele todos os seres humanos são reis (portanto, não mais escravos como antes), todos terão oportunidade de amar até dar a vida, todos serão políticos do Reino de Deus, todos estarão empenhados em garantir vida e vida em abundância para si próprios e para todos os outros seus iguais. É o mesmo que anunciar que chegou a altura de sermos definitivamente adultos, responsáveis, verdadeiros homens, verdadeiras mulheres, ao seu jeito, como ele,Jesus, é homem ao jeito de Deus Criador. Dizer Reino e Reinado, é manifestamente dizer todo o tipo de acções políticas, não na linha do poder que oprime e assassina, mas na linha do serviço que promove liberdades, autonomias, protagonistas, mesas abundantes para todos os os homens/mulheres e para todos os povos, segundo as necessidades de cada qual.
É claro que um pregão assim é notícia e da boa, que corre veloz por todo o país de Jesus. Tem todos os ingredientes para ser Boa Notícia. Para Jesus, é mesmo a Boa Notícia ou o Evangelho de Deus. Dos deuses e das deusas nunca poderia vir semelhante Notícia. Ou os deuses e as deusas não fossem fruto do medo das criaturas que viviam e ainda vivem subjugadas pelos elementos do mundo e pelas minorias poderosas e possidentes, entre as quais figuram os sacerdotes, cheios de privilégios, que oficiam nos templos como pretensos intermediários entre nós e os deuses e as deusas. Esta Ordem era, é a mentira organizada, mas funciona. Parece natural, mas apenas porque a mentira passa por verdade. Com Jesus, o Homem habitado pelo Espírito ou o Sopro de Deus Criador, tudo mudou. A Verdade desmascara a Mentira e corre com ela. A Ordem estabelecida revela-se opressão. E desde então para cá, nunca mais se recompôs, por mais que os poderosos do mundo tudo façam nesse sentido (Basta ver o que fazem Bush e os seus vassalos. Em vão). A verdade nunca mais se calará. E há-de vingar na História e libertá-la.
Mas esta Boa Notícia é por demais exigente. É boa, mas não é fácil. Tudo o que é bom, é exigente. A qualidade sempre se paga caro. Por isso, o pregão de Jesus não se limita a dar a Boa Notícia de Deus. Alerta também para a necessidade da nossa conversão, como indivíduos e povos. Diz expressamente: "Convertei-vos". Sem esta conversão, nada feito. Nem sequer acreditamos na Boa Notícia de Deus dada por Jesus. Não a tomamos a sério. Não confiamos nela. E preferimos ir por outro pregão, o do Império; por outra política, a dos poderosos e dos privilégios para eles; ou, então, pelo pregão da Religião. Não passamos ao Novo Tempo, percebido como kairós. Não passamos ao Tempo Jesus. Permanecemos no Tempo antes de Jesus. Permanecemos nos medos dos deuses e das deusas, às voltas com os cultos e os ritos em sua honra, numa desesperada tentativa de lhes agrada. Numa palavra, permanecemos na religião.
Mas, atenção! Quando Jesus fala em "Convertei-vos", não é em sentido moralista que fala, como sempre têm dito e feito as Igrejas e as religiões todas (o sentido moralista faz parte do Tempo antes de Jesus!). Para Jesus, converter-se é deixar o infantil, as posturas infantis, a religião, os medos que nos leva a inventar deuses e deusas e a criar cultos e ritos com que os chantageamos. Converter-se é deixar tudo o que era de antes de Jesus, de antes de o termos conhecido, de o termos acolhido, de nos tornarmos homens e mulheres ao seu jeito. Converter-se é mudar Tempo e de campo. É mudar de testamento. Passar do velho para o Novo. É mudar de aliança. Passar da velha para a nova. Converter-se é tornar-se homem/mulher ao jeito de Jesus. É deixar de vez o pedagogo. E ter a audácia de vivermos a maioridade, a liberdade, a responsabilidade pessoal, a criatividade, a política como cuidado da terra e do universo e dos outros iguais a mim, como irmãos nossos e irmãs nossas, filhas e filhos adultos de Deus Criador Pai/Mãe, dentro do mundo que é nossa casa comum, ainda à espera das nossas acções políticas em comunhão com as de Deus, para que ele acabe de ser criado.
É por isso que para mim viver é Jesus, o Cristo, mas o Cristo que acabou crucificado, e a quem Deus ressuscitou, isto é, reconheceu como o que está certo, o Caminho, a Verdade e a Vida. Mas se Jesus é quem está certo, é a Verdade, então aqueles que o condenaram e mataram - Sacerdotes, Templo, Império, Minorias poderosas e privilegiadas - estão errados, são Mentira. Com Jesus, como meu Senhor e meu Mestre, experimento-me homem liberto para a liberdade. Com os que o condenaram e mataram e tudo fazem para manterem a Humanidade na condição de antes de Jesus, jamais passaria da condição de escravo, oprimido, súbdito, coisa. Por isso é com Jesus que vou. E o que mais quero é que ele viva em mim.
MEDITAÇÃO N.º 3 - 2004 Março 10
"Por aqueles dias, Jesus veio de Nazaré, da Galileia e foi baptizado por João no Jordão. Enquanto saía da água, viu os céus rasgar-se e o Espírito descer sobre ele como uma pomba. Fez-se ouvir uma voz do céu: 'Tu és o meu filho muito amado, é em ti que me revejo com satisfação'. Imediatamente o Espírito o impeliu ao deserto. Esteve no deserto quarenta dias, tentado por Satanás; estava entre as feras e os anjos colaboravam com ele" (Mc 1, 9-13).
Estas são as primeiras informações sobre Jesus que o Evangelho de Marcos nos apresenta. Transcrevo-as aqui, numa tradução menos literal e em palavras mais actualizadas. Registam o momento ímpar da entrada de Jesus na História. Remetem-nos para um ambiente de grande contestação teológica, social e política que se vivia no país, protagonizada pelo grande profeta João Baptista. (Não! Os profetas bíblicos não são homens beatos, amigos dos sacerdotes de Jerusalém quase sempre corruptos e conservadores, aferrados aos privilégios e ao culto de um Deus à sua imagem e semelhança. Muito pelo contrário. Sempre foram a grande dor de cabeça dos sacerdotes. E dos reis de turno. Também dos ricos egoístas. E dos poderosos sem entranhas de misericórdia. São homens atentos às vítimas e a voz das vítimas das diversas oligarquias. Homens de causas. Comprometidos até aos ossos na política. João Baptista é, sem dúvida, o maior de todos eles. Por isso, não pensemos nele como no-lo têm apresentado as Igrejas e as homilias de certos padres, sem qualquer base evangélica, a não ser na leitura moralista e piedosa que eles têm sido levados a fazer do Evangelho. Para que as pessoas que frequentam os seus cultos não acordem nunca. Não se mexam nunca. Não reivindiquem nunca. Não se libertem nunca!) Na altura, o centro de todas as decisões económicas e políticas era Jerusalém, mais propriamente, o Templo, que fazia de local oficial de culto, de centro de poder religioso e político e de banco nacional. Os sumos sacerdotes e os chefes dos sacerdotes, mais os teólogos do Deus do Templo, eram os grandes condutores da vida do país, lobos disfarçados de pastores. Faziam-no em nome de Deus. O Deus do Templo. E da Lei de Moisés, para cúmulo, mal interpretada por eles. Inopinadamente, aparece João Baptista, da parte de Deus, mas com uma postura de costas voltadas para o Templo e para Jerusalém. E com um discurso profético-político inflamado contra a situação e contra os seus mentores, aos quais chamava "raça de víboras". Começa por colher grande aceitação por parte das pessoas sofridas que se dirigem para o local onde ele prega e baptiza. Fora e longe do Templo e dos palácios do poder que o rodeiam. Torna-se, assim, o homem do momento. A voz forte da contestação espiritual e política à corrupção instalada. Uma concreta alternativa espiritual e política à corrupção estabelecida.
Jesus é contemporâneo de João. Com uma opção que começa por ser idêntica à de João. Na sua inicial inquietação espiritual e política, Jesus não se dirige a Jerusalém, nem ao Templo, como seria de esperar, mas ao rio Jordão, lá onde João está a baptizar. Recusa-se, por isso, a fazer corpo com os sumos sacerdotes e com os chefes dos sacerdotes que dominam o país, a partir do Templo e das sinagogas. Não alinha na teologia oficial que emanava do Templo e era ensinada nas sinagogas. Reconhece João Baptista como o homem de momento, o líder que poderia realizar melhor o projecto de Deus no país dos judeus. Faz-se, provavelmente, discípulo de João. E acaba baptizado por ele nas águas do Jordão. O acontecimento é espiritual e político, ao mesmo tempo. Indica, da parte de Jesus, como da parte de João, uma postura de oposição aos chefes oficiais que conduzem a vida do país. Ao tempo, mergulhar nas águas do rio, às mãos de João Baptista, significava a disposição de ser-viver-agir solidariamente com os excluídos de Israel, inclusive, até ao risco da própria vida. Significava inequívoca opção activa a favor das vítimas da política feita a partir do Templo. Significava que as vítimas da política oficial do Templo poderiam contar com Jesus até ao extremo da sua capacidade. Significava que Jesus não será nunca cúmplice da situação de corrupção e de opressão que atingia as multidões empobrecidas e excluídas do país. Não será nunca mais um ser passivo, porventura, muito devoto, muito piedoso, mas surdo ao clamor das multidões de sofredores. Muito menos, um cínico que embora seja capaz de ver o sofrimento das pessoas, sempre faz de conta que não é nada com ele. Pois bem, é com disposições interiores como estas que Jesus entra nas águas do rio, para ser baptizado. À semelhança dos seus antepassados hebreus que haviam entrado nas águas do mar Vermelho, dispostos a fugir da opressão dos faraós no Egipto. Daí em diante, Jesus não será nunca mais o homem acomodado e passivo que terá sido até então. Será homem-para-os-demais-e-com-os-demais. De momento, ainda não sabe em concreto como, mas já sabe que não será mais como antes.
O surpreendente é que, no momento em que Jesus está a sair das águas do Jordão nas quais acabara de ser baptizado/mergulhado, a sua consciência sofre um abalo sísmico que é simultaneamente um abalo festivo do próprio Deus. O Evangelho prefere falar em céus que se rasgam. O acontecimento, simultaneamente espiritual e político, é real, mas invisível aos olhos. Processa-se no mais íntimo da consciência de Jesus. É o seu natal messiánico. Em que o Espírito criador e libertador de Deus se apodera integralmente dele, o habita, torna-se o seu sopro, o seu hálito e o seu alento, a sua vida. Jesus compreende então que a libertação e a salvação do mundo não decorrem da via proposta e vivida por João Baptista. Por mais atraente e mobilizadora que ela seja, não passa de mais do mesmo. Resume-se a mero reformismo, sempre estéril. Mudava alguma coisa, mas para que tudo ficasse na mesma. Ora, o que fazia e faz falta era, é um Novo Começo. Uma Nova Criação. Um novo jeito de se ser homem/mulher. E um novo jeito de se ser mundo. Jesus, ele próprio, é, a partir de então, esse novo jeito de se ser homem/mulher e de se ser mundo. Não é mais o homem assustado e com medo de Deus, por isso, constitutivamente religioso, como até então os seres humanos sempre haviam sido (e são, enquanto não aderem a Jesus e não fazem seu o seu jeito de ser homem/mulher). É, sim, o homem/mulher com Espírito, por isso, constitutivamente político, inteiramente ocupado com aquelas acções que levem ao seu termo a criação iniciada por Deus, agora totalmente confiada ao nosso cuidado. E que há-de concretizar-se na realização de um mundo com estruturas económicas e sociais feitas de ternura e de misericórdia, de partilha e de perdão, que garantam à partida todas as condições para a vida ser e se desenvolver até à plenitude em cada pessoa nascida ou a nascer.