Missão

DIÁRIO ABERTO MARÇO 2008


 

2008 MARÇO 28

 

Vi, como todo o mundo poderá ter visto, na noite do passado sábado, o da Páscoa da Igreja católica, Magdi Allam, no máximo da solenidade e da publicidade que a transmissão televisiva em directo, urbi et orbi emprestou ao acto - e ele que está tão vinculado ao mundo dos jornais italianos sabe isso melhor do que ninguém - abjurar do Islamismo em que um dia nasceu e sempre viveu, ainda que, pelo menos, ultimamente, na saudável e lúcida postura de crítico e de dissidente, e, ao mesmo tempo, aderir, com a mesma solenidade e a mesma publicidade, ao Catolicismo romano (desculpem a contradição nos termos, mas é assim que estão as coisas, com a agravante de que o adjectivo "romano" ligado ao substantivo "Catolicismo" acaba por ser, nesta frase, ainda mais importante que o próprio substantivo, pelo que seria/será mais correcto dizer/escrever "Romanismo católico", em vez de "Catolicismo romano"). O acto, bem premeditado, ocorreu durante a cerimónia litúrgica da Vigília Pascal, presidida pelo Papa Ratzinger (desculpem, de novo, mas não posso de modo algum chamar àquela ostentação imperial do papa Ratzinger, celebração da Páscoa de Jesus, o Crucificado pelo Império de Roma, com o expresso aval dos Sumos-Sacerdotes do Templo de Jerusalém, na Palestina, na altura, pequena colónia do Império de Roma). Vi, como toda a gente pode ter visto, as imagens televisivas e todo eu estremeci. Não de comoção nem de emoção, por saber que, a partir daquele momento, havia mais um católico nas estatísticas que as Igrejas e as Religiões gostam muito de ver subir, até se tornarem na maior de todas e na mais poderosa de todas. Muito menos foi de alegria no Espírito, o de Jesus, o meu estremecimento, como foi o estremecimento do próprio Jesus, quando, no dizer do Evangelho, viu que Abbá, o seu e o nosso Pai/Mãe, se revela aos que permanentemente vivem na Lucidez dos Pequeninos e dos Sem-Poder e com eles até faz morada, sem necessidade alguma de templos ou de santuários, muito menos de mastodônticas e pomposas basílicas como a do Papa de Roma e a da deusa de Fátima, em Portugal, e sempre é recusado/negado/assassinado/amaldiçoado pelos que vivem na densa Treva ilustrada dos grandes deste mundo, entre os quais se inclui o próprio Papa Ratzinger e a sua Corte imperial, perdão, a sua Cúria Romana. Todo eu estremeci, mas de espanto e de horror. E também de escândalo. Então não é que Magdi Allam abjura do Islamismo, que acusa de ser uma religião "fisiologicamente violenta e historicamente conflituosa" (palavras suas bem publicitadas), para dar a sua adesão ao Romanismo católico do Papa Ratzinger - ainda se fosse a Igreja católica de João XXIII ou de João Paulo I, assassinado por gente influente da Cúria Romana, ou a Igreja Católica do Concílio Vaticano II, vá lá que não vá, agora o Romanismo católico do Papa Ratzinger! - que, no seu historial de dezasseis séculos de Cristandade Ocidental e de imperialismo católico, sempre se revelou como uma Religião tão ou mais "fisiologicamente violenta e historicamente conflituosa", tal e qual o próprio Islamismo? De que estamos a falar, afinal, quando falamos do Baptismo e da Confirmação de Magdi Allam, ministrado pelo próprio Papa Ratzinger? De conversão, de Novo Nascimento, de Nascer do Alto, do Espírito de Jesus, ou de Concertada Estratégia para, deste modo, dar, simbolicamente que seja, ainda mais força ao Romanismo católico do Papa Ratzinger, monarca absoluto com poder absoluto sobre a submissa Cúria Romana e sobre os seus vassalos Bispos residenciais espalhados pelos inúmeros países do Mundo, onde já há Igreja católica implantada e organizada, e, por ele, com ele e nele, dar ainda mais força ao Ocidente do Senhor Deus Dinheiro que hoje está aí visivelmente impaciente, enquanto não for Tudo em todos os Povos, como o Ídolo dos ídolos, cujos Executivos/Adoradores vivem conduzidos por uma Mente demente e demoníaca, descriadora e, por isso, estão totalmente empenhados, dia e noite, em consolidar a sua Ordem Mundial Global intrinsecamente perversa, dentro da qual não haverá mais lugar nem para o Pobre, nem para o Órfão, nem para a Viúva, nem para o Ser Humano enquanto tal, nem para a Natureza, muito menos para Povos emancipados e soberanos, senhores dos próprios destinos, apenas haverá lugar para súbditos idólatras, vassalos, consumidores, uma nova e medonha espécie em vias de criação, a que poderemos chamar humanóides robotizados? Acham que a Cúria Romana e o Ocidente do Senhor Deus Dinheiro com ela, alguma vez dão um ponto do tamanho deste sem nó, um grande nó? O chamado Baptismo e a Confirmação do senhor Magdi Allam foi pensado e programado ao milímetro. Não é obra do acaso. Deixemos de ser ingénuos. Abram-me esses olhos, os da Mente, os da Inteligência sapiente e saibam ver o Mundo onde estamos metidos até aos ossos, mas sempre como estranhos, como conduzidos, mais coisas que seres humanos. Saibam que a Inteligência demente é perversa, intrinsecamente assassina e mentirosa. E que pode vestir, e veste, de Papa, de Cúria Romana, de chefes de Estado, de chefes de Governo, de Administradores de Transnacionais, de Executivos de todo o tipo. Jesus, o de Nazaré, que não passou a sua vida metido na Sinagoga nem no Templo de Jerusalém a romper os joelhos e a gastar saliva em orações recitadas a diversas horas do dia virado para uma Meca qualquer, antes, pelo contrário, viveu sempre mergulhado até à raiz do Humano, e na condição mais baixa e tida oficialmente por indigna e maldita, a do escravo e escravo crucificado, viu, como até hoje nunca ninguém mais viu - ser baptizado no Espírito é passar a partilhar deste seu mesmo Ver e assim passarmos a ser outros Jesus, hoje e aqui - que Tudo Isto tão bem Organizado como está é nem mais nem menos que o Perverso Organizado, e que até o Deus que dá cobertura a Tudo Isto que é o Perverso Organizado é o Ídolo dos Ídolos. E, depois, em lugar de ir a correr aliar-se a eles, e ser mais um, porventura, o chefe de todos eles, permaneceu simplesmente Humano e levou o Humano ao limite dos limites e até para lá de todo o limite. Mais ainda. Olhos nos olhos, disse-lhes que eles eram a Treva Institucionalizada, o Obscurantismo Institucionalizado, a Inteligência Demente Organizada, o Demoníaco Organizado. Viu igualmente que Deus Vivo, Criador de filhas e de filhos à sua imagem e à sua semelhança, não era com eles que estava, mas com todas as suas inúmeras vítimas, por isso, totalmente fora da Ordem Mundial deles, ainda que dentro dela, mas apenas no corpo das suas inúmeras vítimas, para, a partir daí, a fazer implodir, logo que estejam criadas as condições históricas favoráveis - está nas mãos das vítimas e seus aliados fazer apressar esse Dia que será, assim, como uma Nova Criação, semelhante à de uns Novos Céus e de uma Nova Terra. Ser baptizado no Espírito, não apenas na água, como se viu naquela cerimónia da Vigília Pascal presidida pelo Papa Ratzinger, é aceitar toda esta Luz que é Jesus, o de Nazaré, o vivente dos viventes, o Alfa e Ómega dos seres humanos, e tornar-se esta mesma Luz-em-acção na História. Magdi Allam ficou-se pelo baptismo ritual da água, água parada, apodrecida, morta, a pior das águas, a água do Romanismo católico do Papa Ratzinger que, por estes dias, está aí a conduzir a Igreja católica para o abismo, como fazem todos os guias cegos que são postos a guiar outros cegos. Todos vão acabar por cair no barranco, a menos que haja quem ainda consiga fazer parar a tempo esta marcha para o abismo. Todo eu teria estremecido de alegria, sim, mas se me fosse dado ver Magdi Allam a Nascer de Novo, do Alto, do Espírito, o de Jesus, e, assim, nascido de novo, Homem Novo, do Espírito, outro Jesus, continuasse muçulmano, que o é por nascimento, bem integrado no seu Povo, cada vez mais dissidente do Islamismo, mas dentro dele, para o fazer implodir como Religião Idolátrica e Demente que é, tal como são todas as outras Religiões do Mundo, Romanismo católico incluído e a começar por ele, por mais que certos teólogos de renome, católicos e não-católicos, alguns dos quais até amigos meus, digam que não e se recusem a subscrever esta minha tese teológica, da Teologia de Jesus, o de Nazaré. Nisso - perdoem-me todos eles o que vou escrever, mas não posso deixar de o fazer - são ainda daquele número de cegos a conduzir outros cegos, continuam ainda a reproduzir, de modo altamente ilustrado, a Mentira Organizada, a Ideologia do Perverso, continuam ainda a ser parte do Perverso, continuam ainda sem ser capazes de deixar, como Jesus, o de Nazaré deixou, todos os Privilégios, inclusive o de ter bom nome na praça, continuam ainda incapazes de assumir a condição e o estatuto do Escravo dos escravos que é o Escravo Crucificado pelos mesmos ou sucessores dos mesmos que mataram Jesus e hoje lhes garantem, a eles, os Privilégios de que ainda desfrutam, o bom nome que ainda ostentam, assim como certos lugares de destaque nos seus palácios e nos seus santuários, laicos que sejam. Ser e permanecer até ao fim simplesmente Humano é, sem dúvida, o mais difícil, neste Mundo do Senhor Deus Dinheiro, que se disfarça até de Anjo de Luz, de Deus que opera maravilhas, para melhor reinar e de modo absoluto e, assim, melhor poder continuar a matar, roubar e destruir, hoje, de modo cada vez mais científico e mais eficaz, cruelmente eficaz. Saibam que, em semelhante contexto descriador do Humano e descultural global, a pior das ingenuidades é a Ingenuidade Ilustrada, dos intelectuais integrados na Ordem Mundial intrinsecamente perversa, o Perverso Organizado. Ou eles descem do pedestal onde foram postos e onde vivem satisfeitos e aparentemente felizes, como bem-aventurados, e tornam-se intelectuais orgânicos, metidos até aos ossos, na companhia das vítimas e totalmente comprometidos e envolvidos nas suas Causas, as únicas que são justas, ou não passam de mais do mesmo, sem Futuro, iguais ao Ídolo dos ídolos que é o Senhor Deus Dinheiro, o Senhor absoluto deste Mundo dos poderosos e dos Privilégios. É manifesto que Magdi Allam, intelectual muçulmano a viver e a trabalhar em Roma, não passou a ser um intelectual assim, bem pelo contrário. Foi baptizado em água morta, a do Ídolo dos ídolos. Não foi baptizado no Espírito, o de Jesus. Tornou-se por isso, uma mais-valia para o Romanismo católico do Papa Ratzinger. Não é um daqueles dois ou três que se reúnem em nome e em Memória de Jesus. Pode até, um dia destes, aparecer assassinado numa das ruas de Roma, mas como sucede aos Executivos das Mafias que actuam contra as secretas regras impostas pelos Padrinhos. Não será um mártir como Jesus. Apenas um que mudou de Mafia. Choro por ele. E pelo Papa Ratzinger que o baptizou na água morta da sua Cúria/Corte imperial. Choro por esta nossa Igreja católica que perdeu o rumo e se prostituiu com o Império e hoje continua a prostituir-se com o Senhor Deus Dinheiro. E o que mais desejo é que ela volte a Jesus, o de Nazaré, o Crucificado a quem Deus Vivo, deu razão e constituiu como o seu Filho Muito Amado. É por ele que vou, procuro ir, na minha fragilidade. Pela sua mesma Fé. Na esperança de que assim, ao final de cada dia que passa, me torne cada vez mais humano, simplesmente. É duro este viver em Deserto? Acreditem que não. Depois de termos provado da Água Viva, que é o Espírito de Jesus, não queremos nenhuma das outras águas, por mais vistosas que sejam. Todas são sal que perdeu a força e nem para a esterqueira serve. Meu irmão Magdi Allam, o que fizeram de ti!... Como foste capaz de te deixar enganar e seduzir? Deixa tudo, irmão, e segue a Luz, que é Jesus, não o Romanismo católico que é a Treva. Continua muçulmano, irmão, mas com a Luz que é Jesus Crucificado/Ressuscitado dentro de ti, e com o seu Espírito, em lugar de continuares com a Demência Organizada/Divinizada que são todas as Religiões. Feliz de ti, se deres pela diferença e seguires a Luz e te deixares fazer por ela. É o que eu mais posso desejar para ti, Magdi Allam, meu irmão muçulmano.

P.S.

O santuário de Fátima celebrou ontem um protocolo de cooperação com a GNR, na presença do secretário de Estado do Ministério da Segurança Interna, para a instalação de câmaras de videovigilância em todo o recinto, com destaque para as imediações das duas basílicas e da chamada Capelinha das aparições. A decisão não pode ser mais reveladora da Mentira e do Crime que Fátima e a sua senhora são. E ainda vão lá as populações inseguras pedir segurança para si e para os seus, e as populações sem presente vão pedir presente e futuro para si e para os seus. Ponham aqui os olhos. Vejam que nem eles, os donos de Fátima, acreditam que a senhora/deusa preste para alguma coisa, a não ser como fábrica de fazer dinheiro, muito dinheiro, e alienação, muita alienação. As câmaras de videovigilância destinam-se sobretudo a impedir que o dinheiro e o ouro das "ofertas" dos "devotos" vá parar a outras mãos, que não às dos clérigos que são os donos e os administradores dos cofres, estrategicamente espalhados pelo recinto, e cujas bocas estão sempre bem abertas e prontas para as receber/sugar e levar directamente para o Tesouro do santuário, cada vez mais gordo! Olhem que eles não fazem como vocês os ingénuos "devotos", não pedem à senhora que defenda e defenda as ofertas. Não confiam nela. Apenas nas câmaras de videovigilância e nos homens e nas mulheres da GNR! Abram-me esses olhos, populações do meu país. E do resto do mundo. Basta de Obscurantismo. E vós, meus irmãos Bispos, que assistis a tudo isto, ou tendes a audácia de desmascarar toda esta Mentira e todo este Crime, ou incorreis num Crime ainda maior e sem perdão. E, em tal caso, melhor fora que não tivésseis nascido. Pelo menos, como Bispos da Igreja.

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COMENTÁRIOS:

1. Olá, Pe. Mário!

Parabéns por esta profunda reflexão deste dia 28 de Março! Ela é especial! Sim, pois coloca em pratos limpos o que são as grandes religiões. Como se desvirtuaram do essencial, cultivando ritos e fórmulas vazias sem conter o verdadeiro Espírito! Sim, é de chorar, vendo acontecer tais coisas! É de arrepiar ver que as religiões não evoluem, ficando sempre no mesmo, fazendo apenas valer as formas e as palavras. É muito triste ter que escutar sempre de novo a mesma coisa, a mesma ladainha, que não leva a nada e não produz o que devia significar. Mas não é de desanimar! Pois como você, Pe. Mário, foi tocado e continua sendo tocado no seu espírito pelo grande e santo Espírito de Deus Pai/Mãe, seguindo sem medo e com convicção a Jesus de Nazaré que não se arredou do Caminho correcto, aos poucos outras pessoas serão tocadas e certamente muitas já o estão sendo. Eu pessoalmente cada vez que leio suas reflexões confirmo-me mais e mais na vereda escolhida. Jamais voltarei atrás, porque a consciência não poder deixar de ser consciência. Assim também quem ainda não chegou lá, ao verdadeiro Espírito, como nosso irmão muçulmano que se deixou baptizar no mesmo "estilo" da religião que veio, mudando para a romana católica precisa de se converter para o Deus vivo! Na minha opinião melhor seria abolirmos todas as religiões e irmos todas, todos pelo mesmo Espírito de Jesus Cristo! Assim nos tornaremos mais fraternos, solidários e certamente será o maior acontecimento universal pois teremos desta forma a abolição da guerra, que assim não terá mais como existir.

Continue pregando por cima dos telhados, Pe. Mário, que alguém sempre irá se questionar, e quem sabe, se converter. Um dia, as torrentes do Espírito irão inundar as consciências adormecidas!

Meu abraço fraterno e amigo!

Celia.

 


 

2008 MARÇO 27

 

Na semana passada, enquanto nas igrejas paroquiais e nas catedrais diocesanas os meus irmãos presbíteros e bispos, respectivamente, celebravam os ritos litúrgicos da chamada Quinta-Feira Santa, prescritos pelo Missal ou Ritual, eu estive, ao final desse mesmo dia, no Círculo de Arte e Recreio, na cidade de Guimarães, a participar numa animadíssima tertúlia sobre o Casamento, a convite da respectiva Direcção e associadas, associados. A animação foi tanta, assim como o interesse manifestado, que nem demos pelas horas passar. De modo que todas, todos ficamos surpreendidos, quando um dos da Direcção, sensatamente falou para dizer/perguntar, Eh! malta, sabem que horas já são? Faltam dez minutos para as três da madrugada!... E havíamos começado a tertúlia pelas 22 horas. Pode parecer que uma actividade como esta, para mais em torno de uma temática como esta, não tem nada a ver com a outra da Quinta-Feira Santa. Mas têm tudo a ver. Porque lá, onde houver Amor maieuticamente praticado, também nas suas dimensões política e social, não apenas nas tradicionais dimensões individual e doméstica, aí sempre está Deus Vivo, que em Jesus se nos revelou como o Amor-em-acção, em toda a sua plena expressão erótica e agápica. Estranharão algumas, alguns que eu coloque a par e ao mesmo nível  a dimensão erótica do amor e a sua dimensão agápica. Mas Deus Vivo, o de Jesus, é o Amor, ao mesmo tempo Eros e Agapê, Erótico e Agápico, no que estas duas dimensões têm ambas de verdadeiramente humano. É por isso que, quando as Igrejas, com destaque para a nossa Igreja católica, esconderam ou sistematicamente silenciaram e ainda hoje escondem e silenciam o Poema dos Poemas bíblicos do Amor, que é o insuperável Cântico dos Cânticos, tornaram-se de certo modo ateias do Deus Vivo e fizeram-se idólatras de um Ídolo projectado e criado por elas, e que tem a mesma dimensão dos seus medos, das suas fobias, das suas repulsas dos Afectos e sobretudo da Sexualidade Humana Praticada/Vivida como dom e como graça. A verdade é que tem sido sempre em nome desse seu Ídolo, que as Igrejas logo conceberam, e fazem questão de manter, através dos tempos, uma moral fortemente repressiva e moralista que atravessou os séculos e tornou insuportável a vida quotidiana de sucessivas gerações de seres humanos. A repressão foi tão intensa e tão generalizada, que atingiu o próprio Sacramento do Matrimónio - entre nós, por força da maldita Concordata, chamado "Casamento Canónico" ou "pela Igreja" - e que elas fazem questão de dizer que é a única forma de casamento entre os seres humanos, melhor, entre um homem e uma mulher, já que as Igrejas, sobretudo a hierarquia da Igreja católica, nem podem ouvir falar em casamento entre duas mulheres ou entre dois homens, sem de imediato relacionarem essas "coisas" com as cidades bíblicas de Sodoma e de Gomorra, ambas destruídas, dizem elas, por causa dos imperdoáveis pecados/desvios homossexuais!!! (Parece que por esses remotos tempos ainda se não falava em lésbicas, mulheres que se amam e vivem esse amor em forma de vida-comum. Nesses tempos, as mulheres ainda não haviam atingido o patamar de seres humanos. Apenas o de fêmeas que existiam aí como propriedade do pai, enquanto solteiras, e do marido, quando casadas, tal e qual como as vacas, as ovelhas, a charrua ou a casa. Saibam que é a própria Bíblia que o diz). Na minha intervenção de abertura da tertúlia-debate, lancei de imediato uma saudável provocação a todas, todos. Assim: "No princípio era o Amor. Veio depois o casamento e estragou tudo". Estava dado o mote para uma conversa-debate que só o adiantado da hora fez suspender, não encerrou de vez. Porque ficou a promessa de voltarmos a encontrar-nos, uma destas noites, na mesma sala, afim de prosseguirmos a conversa que teve tudo de maiêutica, como sempre devem ser as conversas entre humanos. Para discursos, de cima para baixo e sem nenhum direito a contraditório, já bastam os discursos do Poder, de todo o Poder, mesmo do que se finge de democrático. As sociedades têm todas medo, muito medo do Caos e, por isso, correm logo a criar instituições, a fazer leis para tudo, a fixar comportamentos iguais para todos, tidos como socialmente correctos. Esta prática, no começo, até parece bem intencionada, mas, com o passar do tempo, vem-se a perceber que ela é, no mínimo, tendencialmente perversa. O princípio salutar para os seres humanos deve ser outro, que tem tudo a ver com o olhar jesuânico sobre o mundo e sobre os seres humanos e pode ser formulado, pela negativa, assim: É melhor não termos nenhuma solução do que termos uma má solução. Por outras palavras, e agora pela positiva, é melhor o Caos do que a Ordem, nomeadamente, a Ordem Imposta de fora, pela violência, pelo Poder, pela violência do Poder. O Caos/a Liberdade, não a Lei/a Ordem, é o princípio do Ser criador e livre. Ou temos a lucidez e a audácia jesuânicas de, em cada geração que chega a este mundo, regressarmos sempre ao Caos, ao princípio, a um Novo Começo, ou edificamos uma sociedade-prisão, onde o Criador que há em cada qual não chega nunca a ser, sempre acaba um amestrado, um domesticado, um súbdito. E quando o Criador que todas, todos potencialmente somos é educado/amestrado/domesticado para se integrar e triunfar na sociedade que o precedeu e se fez sem ele que nem sequer tinha ainda nascido, nunca mais essa mulher, esse homem concreto chega a ser o que potencialmente estava chamado a ser. Só o Caos/a Liberdade oferece essa possibilidade. Mas as sociedades ditas desenvolvidas apostam tudo na eficácia e sacrificam sempre o Criador que é cada ser humano que vem a este mundo, e que é cada nova geração. Tudo está pensado/programado e em acção para nos domesticar/integrar, nunca para chegarmos a ser o que potencialmente estávamos/estamos chamados a ser. Para tanto, seria necessário que as gerações que já estão de partida relativizassem ao máximo a sua própria obra e valorizassem ao máximo as potencialidades da geração que está a chegar. Seria a salutar tensão dialéctica entre o Caos/Liberdade que chega em cada novo ser humano, em cada nova geração de seres humanos, e a Ordem/Lei já existente. Esta dialéctica, difícil de viver na História, é a única via libertadora e humanizadora, criadora de ser humanos a crescer em estatura, sabedoria e graça. Uma realidade, de que o Poder nem pode sequer ouvir falar. Porque o Poder, todo o Poder é demente, demoníaco e, por isso, descriador dos seres humanos. Só o Caos/Liberdade oferece condições propícias a fazer seres humanos cada vez mais seres e cada vez mais humanos. Ora, o Amor é no Caos/Liberdade que Acontece. No princípio era o Amor. E que bom seria, se nunca saíssemos do princípio, que sempre nos mantivéssemos nele. Não, não me digam que é o Amor que cria o Casamento. É mentira. O Amor cria o Caos/Liberdade. O Casamento é criação exclusiva do Poder que, em lugar de pensar em termos de fecundidade e de vida em abundância, sempre pensa em termos de eficácia, nem que seja a pretexto de que assim chegará a ter mais e melhor vida em abundância. Pura mentira. A eficácia mata a fecundidade, seca os úteros, esteriliza-os e, finalmente, prescinde deles. Hoje, depois de séculos e séculos de Poder, de Ordem à escala mundial, vemos melhor o Perverso que já estava no princípio, quando trocámos o Caos/Liberdade pelo Institucional, o Amor pelo Casamento, quando integramos o Amor no Casamento. Veio a Instituição, a Ordem, a Organização e, finalmente, o Estado e o Império, e, mais finalmente ainda, como novíssimo dos novíssimos, o Império do Senhor Deus Dinheiro, que já nem precisa de território, nem de estado, é simplesmente o Grande Ídolo omnipotente, omnipresente e omnisciente, só que na dimensão perversa do Humano que é a Demência, a Inteligência demente cientificamente organizada. No princípio, era o Amor. E no princípio dos princípios, era o Caos/a Liberdade. Diz o relato poético das origens, com que abre o Livro do Génesis e a Bíblia Hebraica que as Igrejas cristãs também fizeram delas, como o seu Primeiro Testamento - foi esse mesmo relato que serviu de inspiração e de útero gerador do Cântico dos Cânticos - que no princípio era o Caos/a Liberdade. E acrescenta um pormenor que as Igrejas nunca souberam interpretar em forma e dimensão humanas, sempre o fizeram em forma e em dimensão de Poder. Diz esse pormenor que sobre o Caos voava/pairava o Sopro/Espírito/Hálito de Deus Vivo e Criador. Não o Poder. Não a Ordem. Não a Instituição. Não a Organização. Apenas o Sopro, esse mesmo que, séculos depois, Jesus, o do Evangelho de João, o mais teológico dos quatro que fazem o Segundo Testamento da Bíblia - melhor seria que disséssemos o Novíssimo Testamento - veio dizer/acrescentar que sempre está aí a actuar, sem que ninguém saiba, nem de onde vem, nem para onde vai. E adverte que é um Sopro, melhor, o Sopro-que-sempre-sopra, não é coisa parada, morta, cadáver, como as águas mortas de um tanque ou de uma piscina abandonada, ou como as Normas, as Leis e a Ordem Estabelecida, onde tudo apodrece, a menos que este mesmo Sopro passe (PÁSCOA) e agite tudo, faça acontecer de novo o Caos/Liberdade que, inopinadamente, põe tudo em questão. Quando tal sucede, o Poder que não suporta ser contraditado nem suporta que lhe resistam activamente, ou que haja dissidentes dele, muito menos, dissidentes que o enfrentem e desmascarem como o Perverso, logo decide fazer aquilo em que é mais perito: reprime o Sopro, domestica o Sopro, integra o Sopro. E, se de todo em todo não consegue, mata o Sopro. Só que ao Sopro nunca o Poder consegue matar, porque nem ele, apesar de se ter na conta de omnisciente, sabe de onde o Sopro vem, nem para onde vai. Tão pouco, o vê. O mais que o Poder pode fazer e sempre que for preciso faz, é matar os corpos onde esse Sopro mais se vê, onde esse Sopro mais acontece, verdadeiros corpos-Páscoa, como o de Jesus, o Paradigma dos seres humanos-com-o-Sopro de Deus Vivo. No princípio, era o Amor. Veio o Casamento e estragou tudo. E o pior dos Casamentos, o mais perverso, é o chamado "Casamento Canónico" que as Igrejas, sobretudo, a católica, realiza. E é o mais perverso, porque une, na pessoa do pároco da noiva ou do noivo, os dois Poderes, o Eclesiástico e o do Estado! (Como é que pode haver jovens, elas e eles, que, em lugar de viverem o Amor, correm a transformá-lo em Casamento e, para cúmulo, ainda escolhem o Casamento canónico, ou "pela Igreja", o mais perverso dos casamentos?!). O Casamento é a Lei, a Ordem, o Poder. O Amor é o Caos/Liberdade, a Fecundidade, a Vida-em-acto, intrinsecamente criadora, emancipada. O Casamento faz súbditos. Faz infantilizados. Potencialmente violentos, agressivos. Faz Executivos. Faz perversos. É o anti-Caos. É a Morte do Amor. O nosso povo tem um dito carregado de sabedoria e de saudável Subversão: "Casaste-te? Mataste-te!" Repete-se por aí em todas as bocas que sem Ordem não há vida. É mentira. Mais uma de todas as que o Poder inventa e põe a correr para melhor levar a água ao seu moinho. A verdade é: Sem Amor, sem Caos/Liberdade, não há vida. O Caos/a Liberdade tem de vencer o Poder e destruí-lo. Para que cresça o Amor e a Vida em ser e em Liberdade, em vez do Institucional, da Ordem, da Lei, da Norma, da Polícia, da Repressão, do Dinheiro, do Templo, do Sacerdócio, do Intermediário. Nunca como hoje, a Humanidade esteve tão afogada em Leis, em decretos, em normas, em câmaras de videovigilância, em Policias. Mais um pouco de tempo, e haverá mais polícias do que cidadãs, cidadãos. E, agora, até as mulheres se prestam a ser polícia. E tropa. E executivos. É o Poder em todo o seu esplendor de Treva e de Repressão e de Assassínio. Dirão: Ou assim, ou o Caos! Pois, mas no princípio era o Caos/a Liberdade, o Amor, não a Polícia, não o Olho da câmara de videovigilância em toda a parte. Temos de voltar a esse princípio, não o cronológico, mas o Teológico. Temos de voltar a apostar tudo nos seres humanos, mulheres e homens em radical igualdade, na diferença que nos une e faz. Temos que voltar ao Caos/Liberdade, onde Acontece o Amor. E com o Amor, a vida em abundância e de qualidade. É por aqui que anda Jesus, o Homem do Sopro/Hálito/Espírito de Deus Vivo, esse mesmo que paira/voa/passa/atravessa/fecunda o Caos. Mataram-no, os do Poder, do Templo, do Dinheiro e da Ordem - são assassinos profissionais e compulsivos, porque nunca conheceram o Amor, na sua dupla dimensão, o Erótico e o Agápico. Apenas sabem fornicar e prostituir(-se)/adulterar(se) e, consequentemente, esmagar e mentir, reprimir e matar. É entre todos estes que não suportam o Caos/Liberdade, nem podem com o Amor na sua total gratuidade, que o Poder e a Ordem vão sempre buscar os Executivos de que necessitam. São assassinos e mentirosos, mas ele veste-os de benfeitores, de pastores de Igrejas, de ministros de Governo, de chefes de estado, de bispos residenciais, de párocos, de sacerdotes, de chefes-de-família exemplares, de santos canonizados, numa palavra, de financeiros de sucesso, fábricas de fazer Dinheiro, muito dinheiro. Ai de quem se deixar levar por eles. Nunca chegam a ser. Nascem abortos. Crescem abortos. Morrem abortos. No princípio, era o Amor, o Caos. Ousemos ir por aqui. Porque é por aqui que sempre anda a pairar o Sopro/Espírito de Deus Vivo, Criador de filhas suas e de filhos seus, à sua imagem e à sua semelhança, outros Jesus, agora, à Século XXI. Atrevam-se e viverão! Atrevamo-nos e viveremos. Para sempre!

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2008 MARÇO 26

 

A Páscoa de Calendário e do Grande Mercado já lá vai. E a das Igrejas cristãs convertidas em religiões, cheias de ritos e de celebrações rituais, também. Não deixam saudades. Melhor fora que não existissem. Ao contrário da Páscoa de Jesus que continua aí todos os dias até à Plenitude/Consumação dos Tempos e não sabe nem de calendários, nem de Mercados, nem de religiões, só de edificação do Reino/Reinado de Deus na História, estas páscoas de Calendário, do Grande Mercado e das Igrejas/Religiões só existem para matar, roubar, destruir/alienar/oprimir as pessoas e os povos. E nem as pessoas, nem os povos se dão conta disso. Para seu mal. De modo que alinham e correm, por religiosa convicção ou por curiosidade, ou por turismo, a encher as grandes superfícies comerciais e as igrejas. Mas, depois de tudo passar, regressam aos seus anteriores e cinzentos quotidianos de rotina, ainda mais vazios, porventura, cheios de coisas, mas ainda mais vazios por dentro. Roubados. Não cresceram em humanidade. Diminuíram. Digam lá se não é isso que sentem, hoje, poucos dias depois de todo este faz-de-conta ter acabado? No que respeita à Páscoa das Igrejas/Religiões, estive naturalmente mais atento ao que se passou na Igreja católica, da qual sou presbítero. Dissidente, mas sempre dentro. Sem ofício pastoral, mas sempre dentro. Como um pequenino sinal vivo de contradição que põe a nu o que nela há de Perverso, de Demoníaco, de Exclusão/Excomunhão. Não tive, por isso, de me envolver em todo esse teatro litúrgico, cujos actores principais, duma maneira geral, nem sequer têm o mínimo de qualidade para o papel que repetem, ano após ano, na postura de indigna fidelidade ao Missal Romano e à sua letra. Uma estopada de todo o tamanho. Nesta ocasião, até os bispos residenciais assumem-se como os grandes protagonistas das "festas". As suas igrejas-catedrais (entenda-se, onde eles têm a cátedra para ensinar, sem nenhum direito ao contraditório, nem mesmo eclesial) enchem-se de fiéis, certamente atraídos pela imponência das cerimónias invariavelmente presididas por eles. Estamos no ano 8 do século XXI, mas ali tudo funciona ainda como numa velha corte feudal. O bispo é o grande ungido do Poder, o grande sacerdote do Templo, o grande príncipe da Cristandade - na sua diocese é uma espécie de miniatura do Papa em Roma, o Grande Poder Eclesiástico que o pode destituir a qualquer momento, se ele não se comportar de forma eclesiasticamente correcta e ousar, por exemplo, ser bispo na peugada de Jesus, o de Nazaré, coisa mais subversiva e por isso impensável na Igreja Romana  - que tem a servi-lo uma pequena multidão de acólitos, mais graduados uns, outros menos, numa hierarquia onde há sempre, também hoje, quem tenha o mau gosto de fazer carreira. A grande assembleia assiste a tudo, sem participar em nada. Todo o protagonismo é do Bispo. Tudo gira em função dele. Só ele tem voz e vez. E gestos. Sem nunca poder ser interrompido por ninguém, muito menos, pelo Espírito Santo, o de Jesus, sem lugar naquele espaço demoniacamente sagrado. Mesmo antes de Jesus ter nascido, as coisas já eram assim, entre os Judeus e entre os Povos não-Judeus, das outras religiões. Todas as religiões são assim. Hierárquicas. Piramidais. Como hierárquicas e piramidais são as sociedades feitas à sua imagem e semelhança. Jesus, o tal que mataram e a quem mudaram definitivamente o nome para Cristo, para poderem fazer dele objecto de culto nas igrejas, ainda que obrigatoriamente sempre pregado na Cruz, de onde nunca poderá sair, não vá ele de repente voltar a ser de novo Jesus, o de Nazaré, de chicote em punho no Templo e de palavra cortante frente aos Executivos das nações, das Igrejas/Religiões e do Grande Dinheiro, bem recomendou/apelou à nossa liberdade humana para que, ao menos, entre aqueles de nós que nos reclamamos do seu nome, não fosse assim, pelo contrário, todos fôssemos alegremente irmãos servidores uns dos outros, em plena igualdade. Mas depressa veio o Grande Inquisidor que tudo perverteu, sob o pretexto de que, se a Igreja fosse pelo que Jesus dizia e diz, nunca ela chegaria a passar daqueles dois ou três de que ele também fala. É certo que, neste caso, esses dois ou três tê-lo-iam a ele vivente sempre com eles e no meio deles, assim como ao seu Espírito, mas nunca chegariam a ter Poder, Influência, Riqueza, Opulência, Cultos de encher o olho às multidões que é disso que elas gostam, numa palavra, nunca chegariam a ganhar o Mundo e a dominá-lo, o mais que teriam eram perseguições, calúnias, clandestinidades e, finalmente, a mesma Cruz que ele teve, por se terem atrevido a estar no Mundo, sem serem dele, a estarem na Ordem Mundial do Senhor Deus Dinheiro, sem serem dela, e a denunciarem-na/desmascararem-na como idólatra, por isso, intrínseca e compulsivamente perversa, assassina e mentirosa, uma tremenda fábrica global de fazer vítimas humanas aos milhões e outras, na Natureza. E não é que a Igreja foi pelo Grande Inquisidor e depressa esqueceu Jesus, o de Nazaré? Tornou-se Império e depois Cristandade e dominou os povos. Perdeu-se e perdeu os povos. E hoje acaba de dar à luz um filho com tudo de Perverso, com tudo de Inteligência demente, que já nem a ela respeita, a não ser assim, metida nos templos, ocupada em páscoas-faz-de-conta, sem nada da Páscoa de Jesus. Porque, se a Igreja, finalmente, qual filho pródigo, também cair na conta de que está a viver com e como os porcos, mas agora em pocilgas de luxo e de privilégios, tomar a decisão de esquecer o Grande Inquisidor e voltar ao Pai/Mãe que a espera de coração e de braços abertos, então ela que se cuide, porque o Senhor Deus Dinheiro e os seus Executivos que ele tem à frente da sua Ordem Mundial não lhe perdoarão e voltarão a fazer com ela o que fizeram com o seu inspirador, Jesus, o de Nazaré. Infelizmente, não é ainda para aí que as coisas estão a encaminhar-se. Ainda está tudo muito verde. A começar no Papa de Roma e a acabar na mais humilde diocese católica do mundo, o Grande Inquisidor continua a poder dispor de um exército de funcionários eclesiásticos, grandes e menos grandes, incondicionalmente fiéis e, o que é pior, quase todos generosamente fiéis. "Heróicos", chama, por exemplo, o actual Bispo do Porto aos seus clérigos, quase todos já comidos pelos anos e pelas amarguras a que o Grande Inquisidor os submeteu vida fora, só porque eles, na falta de novos funcionários eclesiásticos para presidirem às paróquias, aceitam assumir, além da sua própria, mais duas, três, quatro, cinco paróquias das redondezas, com os chorudos lucros financeiros, já se vê, que cada uma delas lhes garante - há tanto desemprego na sociedade, só na Igreja católica é que não, é um ver se te avias de trabalho e de chorudos lucros para os poucos funcionários eclesiásticos que ainda restam - e estes, certamente, agradecem, porque nunca como agora foram tão requisitados e desejados pelas populações paganizadas e nunca tiveram tanta oportunidade de fazer pequenas-grandes fortunas pessoais. Ao mesmo tempo que ainda ficam com a fama e o proveito de serem "heróis", tristes, frustrados, mas heróis. Este ano, a Páscoa da Igreja do Porto e da Igreja de Lisboa - algumas outras pelo resto do país também, mas sem o destaque e o brilhantismo destas duas - puderam ver os respectivos Bispos metidos em brio. Antes dela chegar, já o Bispo Manuel Clemente e o Cardeal José Policarpo não quiseram deixar os seus pergaminhos por mãos alheias e prepararam/escreveram Catequeses que proferiram, como outras tantas lições catedráticas, em cada um dos cinco domingos da Quaresma. E, nos dias dos Rituais das grandes cerimónias da semana santa, vigília pascal e do dia de Páscoa - as pessoas não sabem, mas estes ritos não têm directamente a ver com Jesus, mas com os ritos das Religiões do Paganismo que, no Império romano, todos os anos, pelo natal celebravam ritualmente o nascimento do seu Deus e, pela Primavera, celebravam ritualmente a sua morte e proclamavam ritualmente a sua ressurreição - apareceram com mais discursos elaborados e escritos para serem ditos por eles, com a solenidade dos grandes momentos, no decurso da cerimónia. Dei-me ao trabalho de ler os discursos na íntegra, na Agência Ecclesia. Os Jornais não lhe deram atenção, a revelar que se trataram de comunicações sem notícia e sem profecia, mas a Agência Ecclesia divulga-os na íntegra, na local "Documentos". Li-os com atenção afectiva e crítica, como sempre deve ser a nossa postura, inclusive em relação aos textos da Bíblia. Não posso dizer que as palavras do Bispo Manuel Clemente e o Cardeal José Policarpo me edificaram, a não ser pela negativa, na medida em que me fizeram sentir ainda mais fome e sede de Jesus, o de Nazaré, a Grande e Definitiva Palavra de Deus Vivo entre nós e connosco. As palavras de ambos, cada qual ao seu modo, remetem-nos para outro Deus, que não o de Jesus, o Deus das cisternas, não o das Fontes de águas vivas. O Bispo Manuel Clemente ainda chega a falar de um Condenado e de um Flagelado, mas manifestamente não é Jesus, o de Nazaré. Aliás, ele prefere chamar-lhe sistematicamente Cristo. São homilias -e agora vou referir-me mais às do Bispo do Porto - literariamente bem tecidas, atravessadas de muita piedade e espiritualidade, até de explícita alegria, mas, no meu sentir presbiteral em Igreja, a dos dois ou três de que fala Jesus, tenho que dizer aqui que não é de Jesus, o de Nazaré, que ele fala. É um Cristo mítico, sem Espírito Santo, o de Jesus. É um Cristo com tudo do Deus das religiões que todos os anos ritualmente nascia e morria e cuja ressurreição era ritualmente proclamada pelos Grandes Sacerdotes, em cerimónias assistidas por multidões incalculáveis, muito mais do que as poucas centenas de pessoas que hoje cabem no interior da sinistramente esmagadora Sé Catedral do Porto. Tudo nestas homilias é literariamente belo, sem dúvida, sentimentalmente edificante e consolador, mas profeticamente inócuo. É um Cristo sem Jesus, o de Nazaré. Por isso deixa/deixou tudo como está. Como se não tivesse havido Páscoa! Não perturba os Executivos das nações, muito menos, os do Grande Dinheiro. Nem a sua Ordem Mundial Global, uma fábrica global cientificamente organizada de produção de Lucros e de Vítimas, de Vítimas e de Lucros, por isso, cruel, oficialmente laica, mas efectivamente idólatra, não dos deuses das religiões, para eles e para ela já fora de moda, mas do Senhor Deus Dinheiro. O Bispo foi Sacerdote, presidiu a ritos religiosos, baptizou alguns adultos, elas e eles, jovens na sua maioria, provavelmente, futuros Executivos da nação e de alguma das multinacionais da nossa desgraça (O que querem? É tudo o que o Baptismo de água consegue fazer, só o do Espírito Santo, o de Jesus, faz de quem o recebe outros Jesus Crucificados/Ressuscitados). Não foi profeta. Não foi outro Jesus. Nem mesmo na homilia dita da Paixão, foi capaz de despertar/interpelar/desanestesiar a assembleia com a Grande Pergunta que a Páscoa de Jesus ininterruptamente levanta, Porque o mataram? Pelo contrário, até anunciou, a concluir as suas piedosas e comoventes reflexões, que, a seguir, iriam proceder à adoração da Cruz. Vejam só! Eu sei que no seu misticismo e no seu pietismo de Bispo católico, ele encara hoje a Cruz, não como o instrumento que o Império Romano inventou para supliciar nela os seus opositores e os rebeldes ao seu domínio global e à sua exploração sobre os Povos, mas como o sinal da nossa salvação pessoal e da Humanidade. Mas isto é, à luz da Teologia de Jesus, a ignomínia das ignomínias, é pura teologia dos deuses e deusas dos cultos religiosos do Paganismo. Não é de Jesus, o de Nazaré, nem do Deus de Jesus. Saibam que Jesus foi fiel até à Cruz e para lá dela, mas para a destruir e, nela, destruir todos os Impérios que o precederam e que viessem depois dele, não para que nós agora a abracemos como redentora. O que nos faz verdadeiramente humanos - salvos! - não é a Cruz, mas apenas as mesmas práticas políticas maiêuticas de Jesus que, como seres humanos, ateus que se digam, havemos de prosseguir, actualizadas, em cada tempo e lugar. Não é ficarmos aí masoquisticamente a adorar a Cruz e o sofrimento. O sofrimento existe, está aí, produzido (quase) sempre por nós e pelos nossos perversos projectos, mas é para ser combatido, sempre. Só a postura de inteligente e corajoso combate sem descanso ao sofrimento nos faz humanos. Não foi assim que fez Jesus, o de Nazaré? A sua curta vida de missão não foi toda de combate contra o sofrimento com que ele deparava nas pessoas e, sobretudo, contra as causas que o produziam? A glória de Deus, o de Jesus, não são mulheres/homens sem sofrimento, finalmente, escorreitos, de pé, autónomos, senhores dos próprios destinos? Só um Deus-Ídolo, como o da Besta imperial e das suas Religiões pagãs, é que se compraz com o sofrimento dos humanos e manda os seus sacerdotes dizer a quem os conhece na pele ou na alma que tudo suportem em desconto dos seus pecados. Mas esse é um Deus-Ídolo, cruel, sádico, exactamente, o Deus das Memórias da desgraçada Irmã Lúcia de Fátima que nisso se limitou a reproduzir o que diz a demoníaco livro Missão Abreviada, ao tempo, de leitura obrigatória em todos os lares católicos d Portugal! Não, meu querido irmão Bispo, Manuel Clemente, não é por aí que vai Jesus, o de Nazaré. Por isso é que o mataram! E, se quisermos ser mulheres/homens jesuânicos como ele e com ele, havemos de fazer o que dizem os Evangelhos Sinópticos, regressar de imediato à Galileia onde tudo começou, não, obviamente, à Galileia que as agências de turismo religioso querem que visitemos, mas a Galileia teológica, Lugar Teológico, do Deus de Jesus, que aí começou a revelar-se, e logo com aquela palavra de ordem, ainda não entendida, hoje, muito menos acolhida e vivida pelas Igrejas, a começar pela nossa Igreja Católica: Convertam-se! Mudem de Deus! Acabou o Tempo dos intermediários entre Deus e os Povos! A Religião acabou! O Templo acabou! Os sacerdotes acabaram! Deus Vivo é mais íntimo a nós do que nós próprios e o que havemos de fazer é deixar que Ele seja Deus em nós e connosco, tal e qual como Jesus, o de Nazaré, deixou. Os do Império, os do Templo e os do Dinheiro não poderão connosco, se formos por aí, e odiar-nos-ão a todos por causa desta nossa jesuânica maneira de sermos humanos, mas nem assim nos vergarão. Porque na nossa condição de não-idólatras, na nossa condição de viventes da mesma Fé de Jesus, vemos o Invisível e não os temeremos a eles, porque a única coisa que haveremos de temer é voltar à Idolatria que, depois de nos matar o corpo, ainda nos mata a alma, isto é, o EU SOU que cada uma, cada um de nós é, está chamado a ser, pois para isso nascemos e viemos ao mundo! Perdoe-me, querido irmão Bispo Manuel Clemente esta minha frontalidade. Mas é a Ternura que me faz falar. Saiba que aprecio o seu declarado empenho em renovar a Igreja do Porto, a sua declarada vontade de pô-la em estado de missão. Mas saiba igualmente que não bastam palavras tão bonitas. Temos de atender aos conteúdos, à substância. E, ou regressamos a Jesus, o de Nazaré, e à sua Galileia Teológica, ou a Missão será religiosa, mais do mesmo, um desastre, portanto. E a nova Evangelização de que também fala não será a de Jesus, Evangelizar os Pobres e os Povos, Libertar os Oprimidos, Abrir os olhos de da mente e da consciência aos Cegos, muito menos o Anúncio de um Tempo de Graça do nosso Deus Vivo. Será, sim, um Evangelho de um Cristo mais ou menos mítico que nos rouba a alma, a identidade, a dignidade, nos transforma em adoradores de deuses/deusas, o de Fátima e de outros Santuários de nomeada e o do Grande Dinheiro, em lugar de nos fazer mulheres/homens da estatura de Jesus, prosseguidores das suas práticas políticas maiêuticas, essas mesmas que levaram os do Templo do seu país, os do Império romano que o ocupava e os do Dinheiro, concentrados no Sinédrio, a unir-se entre si e a matá-lo na Cruz, como o maldito dos malditos. E, se fizeram isso a ele, o que não farão a nós, se formos, hoje, pela sua via, devidamente actualizada, e fizermos nossas as suas mesmas causas. É isto que espero de si, como Bispo da Igreja do Porto, por isso, meu Bispo também. Não tenha medo de perder as maiorias católicas consumidoras de cultos do Paganismo. Aposte como Jesus nos dois ou três que se reúnem em seu nome e verá como a fecundidade acontece. Jesus, o Crucificado/Ressuscitado não engana. É por ele que "soubemos" de Deus Vivo e do seu Cristo ou Palavra. Se formos por outra Porta que não Jesus Crucificado/Ressuscitado, o Cristo e a Palavra a que possamos chegar e o seu Deus são fonte de alienação, projecção nossa, consolo, ópio, uma droga mais, a juntar a tantas outras que o Mercado das Religiões e o outro, o do Dinheiro, vendem aí a rodos. Só para nos descriarem como seres humanos, até nos reduzirem a humanóides sem espinha dorsal. Pensemos nisto.

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para

padremario@sapo.pt

 

COMENTÁRIOS:

 


 

2008 MARÇO 20

 

Nos primeiros dias de Março, Francisca, uma estudante da Escola Secundária da cidade e freguesia de Lourosa, concelho de Santa Maria da Feira, onde nasci, fez-me uma entrevista, para incluir num trabalho que teria de apresentar na Escola. As perguntas que preparou, provavelmente com a ajuda da mãe, que me conhece bem desde que nasceu, foram muitas, exactamente 26. Respondi dentro do prazo de pouco mais de 24 horas que me foi dado. Para tanto, tive de deixar outros assuntos em lista de espera, mas não fui capaz de dizer não. É essa entrevista que hoje aqui divulgo, uma vez que o trabalho já foi apresentado oficialmente na Escola. A entrevista abre com uma breve introdução e conclui com duas Notas. Seguem-se as perguntas enviadas pela estudante Francisca, seguidas das minhas respostas.

 

Introdução

Entrevista ao Padre Mário Pais de Oliveira, nascido em Lourosa, concelho da Feira em 8 de Março de 1937.

A escolha do Padre Mário para esta entrevista tem como razão principal o facto de ele ter sido um preso político pela PIDE e exilado em Espanha, podendo contar em primeira-mão a dura forma de viver em Portugal durante a Ditadura.

Estas perguntas e respectivas respostas servirão de apoio para uma melhor compreensão da realidade portuguesa durante o Estado Novo, no projecto de trabalho sobre o século XX (tema à escolha dos diversos que estudámos), referente ao 2º. Período do ano lectivo 2007/2008, a apresentar na disciplina de História e Geografia de Portugal.

 

1. Padre Mário, tendo nascido em 1937, em pleno Estado Novo, pode descrever-nos a sua infância?

R. Foi uma infância cheia de muita pobreza, quase sempre feita de pão de broa e caldo de couves e alguma sardinha quando calhava, mas também cheia de muitas brincadeiras ao ar livre, pés descalços, mesmo no Inverno, ou de socos e chancas, quando os, as havia; jogar futebol nos caminhos com bolas de trapos; jogar à bilharda, à pincha ou ao botão, às malhas, às escondidas, à macaca com as raparigas vizinhas e da mesma idade, roubar fruta para comer nos quintais onde a havia sem dono por perto. Foi também uma infância de bastante trabalho que eu tomava como mais uma brincadeira, tamanha era a minha alegria de viver. Concretamente, levar quase todos os dias as ovelhas a pastar pelos caminhos, já que não tínhamos pastos próprios para lhes dar no aido; ir à lenha às tapadas dos outros, o que me obrigava a ter de subir aos pinheiros com umas peias que eu próprio fabricava na hora; apanhar rapume e cortar fetos com uma foicinha, para assim fazer a “cama” das ovelhas; carregar com os molhos da lenha à cabeça até casa, sem que os donos das tapadas vissem; levar a marmita com o almoço ao meu pai à fábrica de serração onde ele trabalhava, em Lamas e, no regresso a casa, carregar feixes de ripas ou sacos de serrim à cabeça para o nosso fogão de barro seco; ir ao moinho com um pequeno saco de milho à cabeça e regressar do mesmo modo a casa, mas já com a farinha moída. Ao mesmo tempo, frequentar a Escola do Senhor Professor Paiva, sempre ele, da primeira à quarta classe, desde as 9 horas da manhã às 5 horas da tarde ou até mais tarde, quando os dias já eram maiores. Falta-me ainda dizer que todos os meus dias começavam sempre por eu me levantar muito cedo – ninguém me chamava, era eu que chamava a minha mãe que também gostava de ir comigo – para ir ajudar à missa em latim na igreja paroquial.

 

2. Com que idade entrou para a escola primária? Era bom aluno?

R. Entrei na Escola já com 7 anos feitos em Março desse ano, porque assim obrigava a lei em vigor na altura. Passei sempre, da primeira à quarta classe. Mas era muito brincalhão nos recreios. O professor marcava muitos deveres para casa e nós parávamos pelo caminho e fazíamos os deveres uns com os outros, o que facilitava a vida a todos. Quando chegava a casa, pousava a saca da escola e só voltava a pegar nela no dia seguinte para regressar à escola.

 

3. Entrou para o seminário após terminar a 4ª. Classe ou frequentou antes algum liceu?

R. Era para entrar, logo a seguir, no Seminário dos Padres Missionários, onde não pagaria nada pelos estudos, ainda cheguei a fazer o exame de admissão e passei, mas entretanto veio uma carta do meu tio padre que estava em Moçambique a dizer que ajudava a pagar os estudos, se eu fosse para o seminário da Diocese do Porto. Como o exame de admissão já tinha passado, tive de ficar em casa um ano à espera. Mas nunca mais peguei num livro, nem frequentei a escola. Só brincava e trabalhava no que a mãe e o pai me mandavam fazer. Esqueci muito do que aprendi e, quando, um ano depois, fui fazer o exame de admissão para o Seminário do Porto, chumbei. Mas eu queria muito ser padre. E fiquei mais um ano em casa, mas então a frequentar a Escola do Professor Paiva, como simples ouvinte. Por isso, perdi dois anos. Ou, se calhar, ganhei, porque pude brincar muito e, por outro lado, quando entrei no seminário, já ia um bocadinho mais reguila e maduro.

 

4. Escolheu o seminário porque já sentia vontade de ser padre?

R. A minha vontade de ser padre era muita, como já disse. Não tivesse sido, e nunca teria entrado no Seminário, porque os meus pais, quando chumbei na admissão, queriam logo pôr-me a trabalhar. Chorei muito e pedi, até que eles cederam e puseram-me a frequentar a escola como ouvinte, para voltar a reaprender o que havia esquecido. E quando entrei, foi uma alegria para mim. Mal a minha mãe me deixou no seminário, em Ermesinde, corri logo a juntar-me a outros para jogar à bola com eles, num campo enorme, enquanto outros, mais novitos do que eu, cheios de saudades, já choravam pelos cantos. Eu também tinha saudades, mas era muito maior a vontade de ser padre.

 

5. Numa época em que o acesso ao ensino superior era limitado aos ricos e influentes, sendo oriundo de uma família pobre sentia-se privilegiado por poder estudar ou era algo em que não pensava?

R. Nessa altura, eu nunca senti que era desfavorecido em relação a outros, muito poucos, que eram os privilegiados da aldeia. A esmagadora maioria das pessoas da aldeia era pobre como nós. Os meus colegas de Escola e vizinhos eram todos pobres como eu. Os caminhos em terra batida eram o meu lugar preferido, mais ainda do que o casebre onde nasci e vivi até aos 11 anos. Por isso, a oportunidade de ir estudar, como pobre, não me apareceu como um privilégio, mas como resposta a um chamamento. Não fui estudar porque queria estudar, mas fui estudar porque queria ser padre e, para o ser, tinha que estudar. Apenas isto. Nunca, para vir a ser mais do que os outros, coisa que nunca quis ser e ainda hoje continuo a não querer.

 

6. Estudando numa instituição religiosa o seu acesso a livros e informação deve ter sido bastante condicionado, tendo em conta a censura e as regras rígidas que eram normais na época. Tinha acesso a informação externa ao seminário, tais como panfletos, jornais clandestinos ou até livros proibidos pela censura? Se sim, como funcionava? Era partilhado pelos colegas ou era uma actividade solitária?

R. O meu acesso a informação foi e não foi condicionado. Não lia jornais, nem ouvia rádio no seminário. Mas fora do seminário, a maior parte das pessoas também não lia nem ouvia. Não era como agora que está tudo aí à mão de semear. Então, não. E a televisão só entrou no Seminário quase no final do meu curso. Vi alguns filmes que passavam pelo seminário. Fiz teatro amador lá dentro. Havia um ensaiador que vinha dar-nos aulas de teatro. Aprendi a tocar órgão. Jogava todos os desportos que se praticavam na altura no Seminário. Fui muito bom a voleibol, bom a futebol, muito bom a ping-pong ou ténis de mesa, bom a hóquei em patins, muito bom a ginástica, orientada por um oficial do Exército, todas as semanas. O teatro ajudou-me a enfrentar o público, a ter auto-domínio, a adquirir consciência crítica. Foi uma boa escola. Só a frequentava quem quisesse, porque era extra-curricular. E eu quis sempre. Além disso, o Seminário tinha uma boa biblioteca e nós podíamos requisitar livros e lê-los. Para lá das aulas que eram muito exigentes e muito disciplinadas. Aprendia-se mesmo, sem recurso a tecnologias nenhumas que ainda não havia na altura, para lá do globo, dos mapas e do quadro preto.

 

7. Alguma vez se sentiu limitado na sua vontade de aprender? Questionou alguém (colegas, professores, família, …) acerca disso?

R. Não. Nunca me senti limitado. Pelo contrário. O seminário estimulava-nos a aprender. Para lá das muitas aulas, havia horas de estudo obrigatório. Havia actividades para-escolares que completavam as aulas. Cheguei a inscrever-me, nos últimos anos do seminário, num mini-curso de jornalismo, de cinema, onde aprendi crítica de cinema. E, já no sexto ano do seminário (hoje, 10.º ano de escolaridade), criámos um jornal de curso, manuscrito, mas que era lido por todos os colegas e pelos professores. E a Biblioteca estava sempre à nossa disposição. Neste aspecto, reconheço que não aproveitei mais dela, porque muitas vezes dava prioridade à prática de desporto, no recreio ao ar livre.

 

8. Foi ordenado sacerdote em 5 de Agosto de 1962. Foi um sonho realizado, um desafio, o princípio de algo novo? Como viveu esse momento?

R. Foi o dia mais intenso e mais pleno da minha vida. A realização de uma vocação, a concretização de um chamamento, um ponto de chegada e simultaneamente um ponto de partida. Um Novo Começo. E que Começo! Foi como se eu atingisse a maioridade interior nesse dia e como se nascesse para a liberdade e para a responsabilidade. Era, finalmente, eu. A vida estava finalmente nas minhas mãos. Não nas mãos dos pais, nem dos superiores do seminário, nem de ninguém. Apenas nas minhas mãos. Daí em diante, seria eu a decidir o que fazer com a minha vida. Segundo as indicações do Bispo da Diocese, é certo, já que pertencia a ele indicar os serviços concretos que eu haveria de fazer, mas o modo de fazer as coisas, de realizar as tarefas que me eram confiadas por ele era a mim que pertencia. Exclusivamente a mim. Nunca abdiquei disso. Eu sentia isso muito vivo em mim e isso é que me dava e dá toda a alegria que eu sou e vivo desde então.

 

 

9. Após a sua ordenação iniciou o seu trabalho como professor de Religião e Moral e assistente diocesano da JEC (Juventude Escolar Católica) ao serviço da Diocese do Porto. No meu contacto entre os jovens – escreve no seu livro Como fui expulso de Capelão Militar - e ao seu serviço, procurava, já nessa altura, ser criador e não autoritário. No meio deles, eu era mais discípulo do que mestre. Um companheiro mais velho, sedento como eles, de verdade e autenticidade.” No entanto, pouco tempo depois foi forçado a interromper esse trabalho e designaram-no Capelão Militar na Província Ultramarina (designação dada na altura pelo Estado Novo para referir as colónias portuguesas em África) da Guiné-Bissau.

Pensa que foi essa sua forma de ser e estar – aprender com os outros, saber ouvir, respeitar e partilhar ideias, contrária à política do governo e sem contestação da Igreja, a razão da sua indicação para ser padre num cenário de guerra?

R. Creio que pode ter sido, mas pela negativa. Como essa minha forma de ser e de estar era considerada pelo Regime autoritário, quer o do Estado, quer o eclesiástico-hierárquico, como perigosa e subversiva, depressa comecei a dar nas vistas e a ser olhado com suspeição pelos meus superiores hierárquicos. A PIDE também não gostava desse meu jeito de me relacionar com os adolescentes e os jovens estudantes, no Liceu e fora dele, pois ajudava a despertar neles a consciência crítica, a rebeldia, a dissidência, a insubmissão, a coragem de se assumirem sozinhos, a autonomia. Tudo valores que decorrem do Evangelho de Jesus, mas que nem sequer o Bispo que dirigia então a Diocese, Florentino de Andrade e Silva, gostava deles. Preferia a submissão e a obediência. E então a PIDE e o Regime autoritário que mantinha a Guerra em África nem se fala. Por isso, puseram-se todos de acordo em retirar-me de junto dos estudantes e do próprio Liceu. Foi assim que fui enviado para capelão militar. Para ver se eles se viam livres de mim. E se eu, nos perigos e na solidão duma guerra em África, dobrava a espinha e me tornava dócil e subserviente, pronto a fazer o que eles, que se tinham na conta de meus superiores, quisessem, não o que a minha consciência crítica me dissesse para fazer. Obedeci ao Bispo e fui para capelão militar. Mas disposto a ser fiel a mim mesmo, à minha consciência, também lá, entre os militares e em pleno mato. Nunca dobrei a espinha. Pelo contrário, acabei por quebrar a espinha do regime autoritário que se viu obrigado a expulsar-me, ao fim de apenas quatro meses de missão presbiteral no coração da Guerra Colonial.

 

10. No mesmo livro escreveu: “Nem discuti tal decisão. Educado por doze anos de seminário para obedecer ao bispo, vinculado a ele, pessoalmente no dia da ordenação, pela promessa de obediência e reverência…. Poderão ter sido esses os momentos em que tomou, pela primeira vez, consciência da realidade de um país sob a opressão de um regime ditatorial?

R. Na verdade não discuti e obedeci à orientação / nomeação que me foi dada. Mas de modo algum renunciei ao meu modo de ser. Seria eu a conduzir a missão. Segundo a minha consciência cada vez mais crítica. Não de harmonia com os interesses do Regime. Foi no coração da Guerra Colonial, de todo injusta e assassina, de todo absurda e contra os Povos Africanos sob dominação portuguesa, que melhor pude perceber aquilo que podemos chamar de “Pecado Organizado”. E não lhe fiz o jogo. Resisti-lhe com audácia, como um menino. Desarmado, porque sem medo. Olhos nos olhos. Desmascarei o Pecado Organizado, e os responsáveis, que queriam que eu abençoasse esse Pecado Organizado, odiaram-me de morte. Não me mataram, mas expulsaram-me como um proscrito. Para sempre. Saibam que até o Bispo das Forças Armadas de então, António dos Reis Rodrigues, “o Bispo da Guerra” como eu ainda hoje lhe chamo (em todos estes anos pós Abril 1974, nunca mostrou arrependimento do que fez e foram muitos os crimes que ele canonizou e abençoou), enviou, no dia em que eu regressei à Diocese do Porto, uma carta ao meu Bispo Florentino, a dizer que eu era “um padre irrecuperável”. Um proscrito, portanto. Para sempre. Como Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império. Por isso, o Maldito para sempre!

 

11. No caminho para a Guiné-Bissau sentia que a sua vida ia mudar?

R. Ia cheio de expectativa, em grande diálogo interior com Aquele que me escolheu para ser presbítero da sua Igreja no Porto. Ia como sempre vivo. Sabia que iria ser duro, difícil, arriscado. Mas ia como um menino. Confiante. Consciente de que estava em boas Mãos, as do Pai / Mãe, Deus Vivo, que ama cada uma, cada um de nós, como amou e ama Jesus, o de Nazaré, seu Filho muito querido. Não somos menos do que Jesus. O que Deus Vivo fez com ele, é o que faz connosco, se nós deixarmos que Ele PASSE (= Páscoa) por nós e aja em nós sem limitações. O problema é que quase nunca deixamos, ao contrário de Jesus, que sempre deixou. Ele é o SIM a Deus Vivo. E por isso chegou onde chegou, à plenitude do Humano.

 

12. Teve alguma vez medo do que ia encontrar?

R. Medo, propriamente, não. Expectativa perante o desconhecido, o diferente, o imprevisível. Mas também o aliciante que o desconhecido, o diferente e o imprevisível trazem sempre com eles. Era uma sensação de paz muito grande e de horizontes ilimitados. Um sentimento de Aventura, daquela Aventura que nos faz mais humanos, mais adultos, mais maduros, mais responsáveis, mais nós próprios.

 

13. Como padre católico foi muito difícil para si dar a cara por um movimento militar que tentava travar através da guerra a vontade de autonomia e independência dos povos colonizados?

R. Mas eu não dei a cara por um tal movimento militar. Dei a cara contra ele. Enfrentei-o nos olhos. E disse-lhe que ele era o Pecado Organizado. Fui assim como o jovem David perante o gigante Golias. Mas ainda mais desarmado do que o jovem David. Porque nem fisga ou funda levava comigo. Nem pedras para atirar contra o gigante Golias, através da funda. Muito menos, recorri à arma do Golias para lhe cortar a cabeça. Apresentei-me diante dele totalmente desarmado, que é sempre a melhor maneira de enfrentar a Besta do Poder, sempre autoritário, absurdo, assassino. Desarmado. E vestido com a Verdade. Com a autoridade da Verdade, essa mesma que, no dizer de Jesus, nos faz livres, humanos, irmãs, irmãos uns dos outros. E o Poder militar, armado até aos dentes, não suportou a minha presença desarmada. E caiu. Não só graças a mim, obviamente. Mas também graças a mim. Vejam que, no meu caso, nem sequer ele se atreveu a simular um julgamento no Tribunal Militar. Expulsou-me, pura e simplesmente. Cobardemente. Como um canalha que é, sobretudo, quando armado até aos dentes, frente a multidões e povos desarmados.

 

14. Qual acha que foi a razão principal da sua expulsão após quatro meses ao serviço do Estado Português?

R. É fácil de perceber qual foi essa razão, à luz do que já respondi. O Estado que mantinha a Guerra Colonial em três frentes de África, queria a bênção da Igreja e de Deus para melhor poder esconder o seu crime organizado, hediondo crime. Esperava que eu, como presbítero da Igreja, alinhasse nesse seu jogo, a troco de privilégios que ele concederia à Igreja, de que eu fazia parte. Em vez disso, eu desmascarei o seu Crime Organizado, Hediondo Crime. Não me perdoou semelhante audácia. O mesmo fez a hierarquia da Igreja, então mais do que aliada dele. Basta ver o que, desde então, me têm feito. Não me perdoaram que eu fosse à Guerra Colonial pregar a Paz, fazer a Paz. Transformar os soldados em guerra em homens de paz. Ainda me procuraram para me aconselhar a calar-me, a fazer como os outros, deixar para lá e a seguir o que dizia a Constituição do País colonial. Disse-lhes que apenas seguiria o Evangelho. Disse mais: Que se a Constituição do país colonial estava contra o Evangelho, então que a mudassem, porque eu não podia mudar, muito menos, rasgar o Evangelho, já que para o anunciar ao mundo e aos povos é que havia sido ordenado presbítero da Igreja do Porto. Parece que ainda estou a ver o espanto e a fúria do meu chefe de capelães, Pe. Cachadinha, que foi de propósito de Lisboa a Mansoa, onde estava sedeado o meu Batalhão, para falar oficialmente comigo. E também o espanto do meu comandante de Batalhão. Perante a minha determinação em prosseguir a missão de Evangelizar os pobres e os povos, não tiveram outra saída senão denunciar-me ao Quartel-General que, por sua vez, determinou a minha imediata expulsão de capelão.

 

15. Regressar a Portugal foi difícil? Porquê?

R. Difícil? Não, foi uma festa. Para mais era o dia dos meus anos, 8 de Março de 1968, há precisamente quarenta anos. Foi uma festa. Havia ido à Guerra Colonial, no mínimo, por dois anos, para lhe quebrar a espinha, mediante o desassombrado anúncio do Evangelho, e regressava dela, apenas quatro meses depois, ainda mais levantado, mais humano, mais livre, mais responsável, mais eu próprio. A Guerra Colonial não me quebrou a espinha, fui eu quem quebrou a espinha à Guerra Colonial. Porque o Poder, por mais armado que esteja e por mais hediondo que seja, nunca pode nada diante de um Homem, de uma Mulher, de um Ser Humano que o seja até ao fim, até ao limite do Humano. E foi o que eu procurei ser também então. E sempre procuro ser ainda hoje. Afinal, não há outra maneira de se ser Humano.

 

16. Entretanto e após várias dificuldades foi colocado como pároco da freguesia de Macieira da Lixa. Em 1970 foi preso pela 1ª vez pela PIDE, e após ter sido libertado em 1971, após um período de exílio em Espanha, foi novamente detido em 1973. Onde estava em ambas as ocasiões em que foi detido pela PIDE?

R. Da primeira vez, estava na residência paroquial de Macieira da Lixa. O agente da PIDE veio buscar-me, a pretexto de que queria interrogar-me, no quartel da GNR da Lixa, sobre a minha actividade pastoral que, segundo ele, era subversiva e contra a segurança do Estado. Eu aceitei ir com ele, na sua viatura. Mas depois que entrei, ele, muito orgulhoso, exibiu o mandado de captura passado pelo respectivo Juiz. E disse-me com sobranceria e sarcasmo: Tome, pode guardar e mandar encaixilhar. Da segunda vez, fui preso, em Felgueiras, quando estava reunido num café da sede do concelho com vários colegas párocos da região, a reflectirmos sobre a homilia do domingo seguinte. Chamaram-me cá fora. Vim. Pensei que era um homem que me queria falar e, por isso, aceitei acompanhá-lo até junto da sua viatura. Afinal, era um agente da PIDE que eu ainda não conhecia. E foi aí, já longe de outras pessoas e sem levantar quaisquer suspeitas, que ele me exibiu outro mandado de captura, ao mesmo tempo que, escusadamente, forçou a minha entrada na sua viatura. Disse e bem escusadamente, porque na verdade eu não ofereci qualquer resistência, quando vi o mandado de captura.

 

17. Quais as razões apresentadas para a sua prisão?

R. Genericamente, sempre as mesmas razões, ainda que com cambiantes de uma para a outra. Genericamente, diziam que eu atentava contra a segurança do Estado. As cambiantes: da primeira vez, acusavam-me de que eu estaria a mobilizar as populações da paróquia e das freguesias vizinhas para irmos todos sobre Lisboa impedir o regular funcionamento das instituições do Estado, concretamente, o Governo e a Assembleia Nacional. Da segunda vez, acusavam-me de manter contactos com os movimentos africanos e internacionais terroristas que visavam separar os territórios ultramarinos da mãe-pátria. Duas mentiras de todo o tamanho, que depois, em Tribunal Plenário, o representante do Ministério Público nem sequer tentava fazer prova, mas que serviam para que não me fosse admitida qualquer caução. E assim eu tive, das duas vezes, de aguardar pelos julgamentos em prisão preventiva, que era o que a Pide mais queria, porque assim não incomodava tanto, como se continuasse à frente da paróquia, sem nenhum medo nem da PIDE, nem do Regime.

 

18. Onde e quanto tempo esteve preso? 

R. Estive preso em Caxias, que era a Cadeia para os presos políticos a aguardar julgamento. Também estive na prisão política no Porto, hoje Museu Militar, enquanto decorriam as sessões dos Julgamentos no Tribunal Plenário do Porto, em S. João Novo. Da primeira vez, estive preso cerca de sete meses. Da segunda vez, onze meses.

 

19. Teve medo? Chorou?

R. Medo? De quê? Medo, tinham eles de mim, os que me prenderam. Por isso me prenderam. Chorar? Porquê? Indignado, sim. Mas chorar, não. Porque havia de chorar, se estava preso por ser eu próprio, por ser fiel à minha consciência, por não ceder à chantagem do terrorismo do Estado e do Regime? Saibam que até na prisão eu cantava e, por várias vezes, o guarda prisional veio mandar-me calar, sem que eu obedecesse. Calar-me? Mas o senhor Guarda não sabe que, mesmo preso político, eu sou um homem livre? Prisioneiros são Vocês que andam aí subjugados / dominados pelo Regime e pelo Estado, a fazer coisas contra a vossa própria consciência, contra a vossa própria dignidade. E lá continuava a cantar, enquanto me apetecesse!

 

20. Foi torturado? Que métodos utilizaram para o castigar?

R. Tortura física, nunca eles me infligiram. Só psicológica. Como por exemplo, deixar-me estar dias e dias sozinho numa cela, sem deixar entrar nenhum livro, nem sequer a Bíblia. Limitar a liberdade de expressão e invadir a minha privacidade, mediante a censura de todas as cartas que eu escrevesse e que me fossem endereçadas. Tinha de as entregar abertas e todas me eram entregues abertas. E com o carimbo que dizia: VISADO PELA CENSURA.

 

21. Como reagiu a sua família a toda a situação que o envolvia, especialmente os seus pais? Sentiu-se apoiado? A sua família percebia a sua posição? Tinha visitas na cadeia?

R. Da primeira vez que fui preso, a família, inclusive os meus pais, teve alguma dificuldade em entender o que me estavam a fazer. Até então, para eles, alguém que fosse preso é porque havia cometido crimes, ou suspeitava-se disso e havia que averiguar. Da segunda vez, os meus pais, que sempre haviam acompanhado as sessões do primeiro julgamento e viram toda a Perversidade Organizada que aquilo era, já se alegravam comigo. Cheguei inclusive a sentir que a minha Mãe tinha orgulho em mim. A quem a visitava para a consolar, era ela que se adiantava a consolar as pessoas. E dizia: Também Jesus foi preso e condenado à morte e morto na cruz. O meu filho está no mesmo caminho de Jesus. Visitas, tive. De um casal amigo próximo de Caxias que ia visitar-me na vez dos pais, que estavam longe, muito longe, em Lourosa. Nos períodos que passava no Porto, os meus pais visitavam-me regularmente. Também tive a visita do Bispo António Ferreira Gomes, na primeira prisão. Na segunda prisão, apenas do Bispo auxiliar do Porto, Domingos de Pinho Brandão, me visitava em Caxias e depois no Porto.

 

22. Não exerce funções como pároco desde que foi preso pela segunda vez, em 21 de Março de 1973, pois nunca mais foi nomeado para nenhuma função pelo Bispo da Diocese do Porto. Alguma vez sente que a sua escolha de ser padre católico foi errada?

R. De modo algum. Sempre achei e continuo a achar que foi a escolha mais acertada que alguma vez fiz. Não sou padre-funcionário eclesiástico, nem pdare-funcionário-do-religioso. Sou presbítero da Igreja do Porto, chamado a Evangelizar os pobres. Já assim era, quando ainda era pároco aqui em Macieira da Lixa, como antes de aqui, em Paredes de Viadores, concelho do Marco de Canaveses, e foi até por isso que o Bispo Florentino, primeiro, e o Bispo António, depois, depressa perceberam que, ao ser assim, eu estava a dar cabo, não da Igreja, a de Jesus, mas sim do sistema eclesiástico, o mesmo que, sob a forma de sinagoga e de Templo de Jerusalém, matou Jesus na cruz e que continua aí a matar, nem que seja de modo incruento, quem não disser ámen com ele. A princípio, pelo menos, o Bispo António Ferreira Gomes, ainda começou por estar comigo e concordar comigo. Mas depois, quando começou a ver que, se fosse por onde eu ia, ficava praticamente só comigo, porque os outros padres (felizmente, há ainda boas excepções a esta regra geral) o que mais querem é ser funcionários do sagrado e do religioso, e que ninguém os incomode, teve que escolher entre mim e a maioria. Obviamente, optou pela maioria e, naquela ocasião, antes de Abril de 1974, optou em concreto pela maioria dos párocos das Vigararias da Lixa e de Felgueiras que me faziam a vida negra, inclusive, junto dele. Ninguém imagina do que eles foram capazes, as armas que utilizaram contra mim, os truques e os alçapões que me armaram, as ciladas que me ergueram. E tudo, sob o disfarce da piedade, da beatice, da devoção, da religiosidade.

 

23. Em algum momento sente a sua vocação desperdiçada, se é que alguma vez pensa que o que queria era ter sido um padre como outro qualquer?

R. De modo algum. Nunca fui tão padre, tão presbítero da Igreja do Porto como desde que me foi retirada a paróquia e nunca mais me foi atribuído nenhum outro ofício pastoral na Diocese. Até o meu nome desapareceu das listas oficiais publicadas da Diocese do Porto, e actualizadas de dois em dois anos. É como se oficialmente eu tivesse deixado de existir. Pois bem, nunca como desde então até agora, fui, sou tão presbítero da Igreja do Porto. O meu ministério não está mais confinado a nenhum território em especial. O meu tempo é todo ocupado com o Essencial. Não sou funcionário eclesiástico, não perco tempo com essas coisas sem sentido. Como Jesus também não perdeu! “Deixa que os mortos enterrem os seus mortos”, disse ele a um dos discípulos que ainda hesitava em segui-lo na radicalidade da entrega da sua vida toda ao Essencial. Ser padre como outro qualquer? Jamais! Saibam que, desde o início, ainda estudante no seminário, já eu, quando dizia que queria ser padre, acrescentava sempre no meu pensamento: mas para ser diferente de todos os padres que conheço, inclusive do meu próprio tio, por quem nutro grande estima e apreço, mas a quem nunca tomei como meu mestre. Meu mestre, só mesmo Jesus, o de Nazaré.

 

24. Olha para o passado?

R. Só enquanto ele foi presente e carregou em si o futuro que hoje já é este presente que estou a viver todos os dias. Porque o Essencial de mim ainda vem aí, ainda está a vir. E é com o Essencial que vem, que está sempre a vir, que me ocupo. As minhas raízes estão no Futuro, onde SEREI O QUE SEREI. Ou eu não fosse criado à imagem e semelhança dAquele que diz de si mesmo EU SOU / SEREI O QUE SEREI!

 

25. Teria feito alguma coisa diferente, se pudesse voltar atrás?

R. Certamente, teria amado ainda mais as pessoas, teria começado ainda mais cedo a ser dissidente na Igreja e na Sociedade, teria começado ainda mais cedo a conspirar, a viver o Essencial. Porque o resto é resto, é cadáver, é o casulo que o bicho-da-seda abandona, quando ganha asas. Importante mesmo é ser asas, tornar-me finalmente invisível no Invisível e indizível, no Indizível.

 

26. Para finalizar, esta entrevista será lida por meninos e meninas de 11 e 12 anos, para quem, mesmo estudando muito, pedindo ajuda e explicações para perceber o porquê do regime ditatorial, da polícia política, da censura, da repressão social e consequente desrespeito pelos Direitos Humanos, é quase impossível perceber o que realmente se passou naqueles anos do século XX.

O que pode dizer-nos que nos permita hoje e no futuro valorizar a Liberdade que hoje temos, e que nem sempre sabemos o que custou a conseguir?

R. O que posso dizer mais, que já não esteja dito? Eis: O Regime salazarista roubou-nos tudo, a dignidade, a paz, a identidade, a Liberdade, até o nome. Mas teve algo a nosso favor e contra ele, que o Regime hoje, chamado da Democracia e da Liberdade, não tem e, por isso, está a ser ainda mais perverso do que aquele. O Regime salazarista sempre se mostrou como era. Não se disfarçou de Liberdade nem de Democracia, como este, hoje se disfarça. Cada pessoa mais consciente e politicamente interveniente sabia como ele era e como agia. Por isso, muitas, muitos de nós resistimos-lhe, algumas, alguns até ao sangue. Já hoje, as coisas não são mais assim. O Regime diz-se de Liberdade e de Democracia, mas apenas para melhor nos comer. Como o lobo do Capuchinho Vermelho que se disfarça e entra na nossa casa e na nossa vida e possui-nos como um Demónio, sem que nós percebamos que já não somos nós a decidir, mas é ele a decidir por nós. Aceitam então um conselho de um vosso irmão bastante mais velho do que vós? Não vos preocupeis com o que nós sofremos no passado. Nem percais muito tempo a investigar esse passado que foi o dos vossos avós e dos vossos pais. Preocupai-vos com o Presente, o nosso Hoje e Aqui português, europeu e mundial. Porque hoje, o Hediondo Senhor Deus Dinheiro anda aí à solta e está cientificamente organizado e apostado em reduzir-nos a todas, todos nós a coisas, a lesmas, seres sem espinha dorsal. Abri os olhos da vossa consciência. E resisti-lhe até ao sangue. Sede progressivamente vós próprias, vós próprios. Firmes como quem vê o Invisível. E eloquentes, como quem ouve o Indizível. Então poderemos dizer todas, todos: NÃO NOS VERGARÃO. NUNCA PODERÃO CONTAR COM A NOSSA ADORAÇÃO.

 

Nota 1: Algumas perguntas desta entrevista tiveram como base a leitura de alguns excertos do livro “Como fui expulso de Capelão Militar”.

Nota 2: Esta entrevista será acompanhada de biografia e bibliografia de acordo com a pesquisa efectuada aos elementos disponibilizados on-line pelo Padre Mário.

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para

padremario@sapo.pt

 

COMENTÁRIOS:

1. Mas que bela lição de Pedagogia. Devia de ser espalhada aos 4 ventos como o eram os panfletos do tempo da ditadura…

O meu abraço, Elísio

 

2. Olá, Padre Mário, como é importante dar-nos conta de quem realmente somos! Cada ser humano tem uma trajectória própria e é um ser único, irrepetível, embora formando uma única vida com tudo o que é e o que somos. Que diferença nos separa dos anos cinquenta! E isto faz um pouco mais de cinquenta anos! Feliz de quem conseguiu e consegue despertar! Ter consciência do que é, não deixando se dobrar pelo poder de outras pessoas e assumir de maneira responsável a própria vida. Todos nós temos esta semente da autonomia responsável em nós, porém pelo que observamos no andamento dos governos dos povos, estamos léguas de distância do que podemos ser, do que podemos nos tornar. É óptimo a juventude começar a se interessar mais pelos valores a serem cultivados, a dar empreendimentos que façam prevalecer a dignidade dos seres humanos, sendo estes que devem ter toda primazia de tudo que se alcança em evolução da tecnologia. O bem-estar social devia ser o primeiro objectivo de toda política. Isto aplicado na educação, na saúde, no trabalho, lazer, segurança..... Espero que um dia cheguem lá na media em que mais e mais pessoas acordarem para o essencial! Que possamos realizar este tipo de transformação e assim com alegria festejar a Vida, fazendo a Páscoa-Passagem para a Ressurreição juntamente com nosso grande e único Mestre Jesus Cristo!

Nosso abraço e votos que você, Padre Mário, permaneça sempre nesta Páscoa Alegre da Ressurreição em Jesus, o de Nazaré! Que jamais esmoreça, continuando a ampliar sempre mais a consciência, despertando muitos e muitas para esta realidade!

Com carinho!

P. Marcos e Celia

 

3. Caro Padre Mário

Acabei de ler a entrevista, que deu a uma Jovem aluna (Francisca) no início de Março. Entrevista essa que me foi enviada, por um colega de Trabalho o "Homero" (que aliás devo referir, não é a 1ª vez que me envia escritos seus).

Será porventura ainda importante referir, ter conhecimento de alguns livros da sua autoria, tenho mesmo dois na minha "biblioteca pessoal", embora ainda não tenha lido nenhum (confesso).

Tenho 33 anos, sou Carteiro, Dirigente Sindical e Comunista.

Começar por dizer, que me assumo como sendo agnóstico, ainda que descendente de uma família Católica.

Sou Também Militante do Partido Comunista Português, onde assumo algumas responsabilidades de Coordenação de Organismos de Base, nomeadamente sou o Coordenador da Célula de Correios do Distrito de Lisboa, pertenço ao Executivo do Sector de Comunicações, Água e Energia da Direcção de Organização Regional de Lisboa do Partido. 

Sou ainda Dirigente Sindical, pertenço à Comissão Executiva do Sindicato Nacional dos Trabalhadores de Correios e Tele-comunicações.

 

Agora, e depois de uma breve apresentação, voltar ao motivo pelo qual me dirijo a si.

Comecei por disser que me assumo como agnóstico, descendente de uma família Católica, contudo desde muito novo, me fui desinteressando e afastando da Igreja. Nunca consegui entender a Opulência do Clero em contradição com a população, o cinismo e a ostentação. 

Conheço ainda assim o evangelho, a vida de Cristo, e com essa efectivamente consigo identificar-me. Conheço também os princípios de outras religiões, sempre me interessei pelo estudo da religião, pela teologia, e não me consigo rever em nenhuma.

Devo dizer que o tabu Igreja vrs Comunismo, nada me diz, a ideia que tinha sobre a religião, não mudou desde que me tornei Comunista. 

Durante a minha vida politica e sindical, trabalhei ainda com vários católicos, membros da LOC e da JOC, e com todos me entendi, sempre nos respeitamos mutuamente e sempre trabalhamos em prol dos trabalhadores e do povo em geral.

Dizer ainda, que o admiro, como ser humano, como Homem e como Padre, pela sua postura e pela forma como vê o evangelho e o aplica á vida. Digno dos ensinamentos de Jesus.

Um Abraço, Carlos Galvão

 


 

2008 MARÇO 19

 

"E vós sereis odiados por todos por causa do meu nome". A afirmação é posta pelo Evangelho de Mateus (10, 22) na boca do próprio Jesus. Di-la aos Doze discípulos, e ela faz parte das "instruções" que Jesus lhes deu no momento em que os enviou em Missão. Nestes Doze, estão indubitavelmente todos os discípulos de Jesus, elas e eles, em todos os tempos e lugares. E aquela afirmação serve de critério para se poder avaliar da autenticidade do discípulo. Se for discípulo de Jesus, o de Nazaré, o Crucificado e o Maldito pelos representantes máximos da Ordem Mundial que domina(m) os povos, acabará assim tratado / odiado por todos, como ele acabou. A fidelidade a Jesus e ao seu Projecto do Reino / Reinado de Deus paga-se caro, sempre segundo as épocas e os lugares, mas caro. Se o discípulo o for, mas de um outro Jesus, que não o Crucificado e o Maldito pelos representantes máximos da Ordem Mundial - os Executivos-mor das Religiões, do Poder imperial e do Deus-Dinheiro - então já não haverá preço a pagar, mas honrarias e aplausos a receber, juntamente, com o reconhecimento generalizado das populações, cientificamente mantidas a vida toda sem consciência crítica. E daqui não se pode escapar. O critério é infalível e válido para todo o discípulo, ela ou ele. Nestes dias Março que o Calendário e o Grande Mercado dizem que são de Semana Santa e de Páscoa, tenho andado a escutar / mastigar estas "instruções" de Jesus aos Doze discípulos. Acho que elas ganham todo o sentido à luz do que lhe fizeram a ele, sobretudo naqueles dias Março-Abril do ano 30 desta nossa era comum, na cidade de Jerusalém. Ele, "imprudentemente," não prestou culto aos Executivos presentes e organizados na capital. Cometeu o "erro" político de os enfrentar desarmado e de os denunciar e aos seus crimes, todos nefandos, perante as multidões que, por esses mesmos dias, acorriam a Jerusalém - ainda hoje acorrem, num misto de fervor religioso-pagão e de turismo - para celebrarem a Páscoa, a do Sistema e dos respectivos Executivos, já se vê. Deixou claro, nesses dias, perante as numerosas multidões que o Templo era covil de ladrões que até tirava às viúvas pobres o último cêntimo, para assim engordar o respectivo tesouro com que bem se governavam os 18 mil sacerdotes que lá oficiavam, e as suas famílias. Deixou claro que todos esses Executivos que se faziam idolatrar pelas multidões, eram ladrões e salteadores que existiam e actuavam só para matar, roubar e destruir. Em nome da Lei. Em nome da Nação. Em nome de Deus. E, sobretudo, demonstrou, de forma irrefutável, que o Deus que todos eles reconheciam e cultuavam naquele imponente Templo, era o Grande Ídolo, fonte de Medo e de Opressão, assassino e mentiroso, bem à imagem e semelhança deles. Sucede, porém, que esses dias e esse contexto que foram os de Jesus, continuam a ser também os de hoje e serão, infelizmente, os de amanhã. E, por isso, aquelas "advertências" de Jesus aos Doze discípulos, no momento de os enviar em Missão, mantêm todo o seu sentido e toda a sua plena actualidade. A mim, que as tenho andado a escutar / mastigar estes dias, deixam-me em grande paz interior, aquela que só Jesus, o de Nazaré, é e dá e que, como ele próprio reconhece, os Executivos da Ordem Mundial todos juntos não são, não dão, não podem dar, porque nem sequer a conhecem. Pensam-se sempre os melhores, os puros, os santos, deuses, filhos de deuses, e são o Perverso organizado e em acção, de mãos cheias de sangue, de tanto crime e de tanto assassínio em massa (o Iraque não está aí a confirmá-lo até ao vómito?). São temidos e tratados como senhores, porque vivem rodeados de seguranças, exércitos sofisticadamente armados e sem escrúpulos, treinados para matar, roubar e destruir tudo à sua passagem, que para isso existem. Esta é a dura realidade, a cruel realidade, a hedionda realidade, sustentada de geração em geração, porque faltam homens, mulheres, povos da fibra e da verticalidade de Jesus. Inclusive, entre os que nos dizemos dele, discípulos dele, mas, depois, subtilmente vamo-lo adaptando às nossas mediocridades e aos nossos conceitos de santidade, mais condizentes com os conceitos de santidade que os grandes Executivos que dominam o mundo adoptam e a que recorrem para premiarem os que lhes forem mais fiéis. Rezam as notícias de hoje - vejam que escrevi toda esta reflexão teológica provocado por elas, embora só agora explicitamente me vou referir a uma delas, por sinal, sobejamente ilustrativa do que acabo de deixar escrito e reflectido - que ontem foi a sepultar o cadáver de Chiara Lubich, uma católica italiana, fundadora, com mais duas ou três companheiras, do conhecido Movimento dos Focolares. E as notícias dizem que, neste evento de ontem, estiveram presentes umas quarenta mil pessoas, idas de todo o mundo, onde o Movimento já está implantado e tem membros organizados e activos, também de Portugal. As imagens televisivas e as fotografias do funeral são de encher o olho e de fazer abrir a boca de espanto. Padres e Bispos de todo o lado, incluído o presidente da nossa Conferência Episcopal Portuguesa, e o próprio Papa não se cansam de falar dela como modelo para os demais e rezar missas aos montes por ela, de sufrágio e de acção de graças (só dos pobres que dormem nas ruas e morrem de frio e de fome é que todos estes grandes eclesiásticos não se lembram nunca, nem fazem nada de parecido!). E não me espanto nada que, daqui a poucos dias, se comece a tratar já do processo canónico que há-de culminar na sua beatificação e canonização, sem as quais, hoje, ninguém vai a lado nenhum, nem mesmo e sobretudo, no acto de fazer dinheiro, muito dinheiro, e prosélitos, muitos prosélitos, e assim passem também a adoptar a via que o Movimento Focalares materializa e que a implantem entre um número cada vez maior de pessoas e de povos, numa espécie de concorrência e de despique com outros Movimentos da mesma Igreja, a ver quem consegue mais casas, mais prosélitos, mais praticantes e, obviamente, mais poder, mais influência ideológica e... mais dinheiro. O mecanismo é intrinsecamente perverso e, ao ser adoptado e seguido, perverte tudo e todos. Ao contrário da via Jesus, o de Nazaré, que nunca vai por aí e tem como Tentação ir por aí e, por isso, sempre ordena, "Vade retro!", "Vai-te, Tentador!". Também eu conheci Chiara Lubich nos últimos anos da década de sessenta. Comecei por participar numa Mariápolis que então o Movimento já organizava em diversos países, entre os quais Portugal. Música, muita música e palavra, muita palavra, sob a forma de conferências e de testemunhos de vida, dados por membros do Movimento que contavam o que tinham sido antes e o que passaram a ser depois que se tornaram aderentes. Confesso que o clima era altamente atraente, alegre, comunicativo, de muito entusiasmo juvenil. O anzol da Ideologia conservadora e subserviente aos Executivos estabelecidos e à sua Ordem Mundial, também estava lá, mas muito bem disfarçado e, num primeiro momento, não se dava por ele. Tudo estava previsto e super-organizado e concebido para levar os participantes a aderir ao Movimento. Dificilmente, poderia haver escapatória. Nos intervalos, éramos envolvidos por um e por outro membro do Movimento. Nada era deixado ao acaso. Na primeira hora, também eu me deixei levar pela onda. A minha inexperiência era muita, padre / presbítero de muito poucos anos, ainda sem ter tido a minha Estrada de Damasco que veio depois, com a Guerra Colonial em África e com as Cadeias Políticas e o Ostracismo eclesiástico a que, desde o dia em que ocorreu a minha segunda prisão política pela Pide, acabei inevitavelmente votado, todos estes anos. Os olhos abrem-se-nos assim, com percursos assim, porque vemos todo o Perverso Organizado que se disfarça de Bondade, vemos a Mentira que se disfarça de Verdade, o Demoníaco que se disfarça de Deus, a Idolatria que se disfarça de Religião. E, ou aceitamos o facto consumado e fazemos carreira com o aplauso dos Executivos que, antes de nós, também já passaram por isso e acabaram por aceitar o facto consumado, ou resistimos, dissentimos e acabamos no Ostracismo generalizado, o mais humilhante, no entender deles, mas também o mais dignificante, no entender de quem o conhece na própria carne. E também - nem eles sonham - numa intensa alegria e numa fecunda paz. Porque seres humanos, simplesmente. Nunca Executivos, nem sequer funcionários dos Executivos! Depois de duas Mariápolis em que participei em outros tantos anos seguidos - na segunda, os olhos já se me começaram a abrir e a consciência crítica começou a despertar em mim - fui convidado por um dos responsáveis do Movimento, já com sede em Lisboa, a participar num encontro internacional de uma semana "para sacerdotes", em Lopiano, "a cidade nova", que era também a sede-mãe do Movimento. Viagens de ida e volta de avião e alojamento tudo pago por eles. Aceitei. Seria uma belíssima ocasião para penetrar mais dentro do Movimento. Foi aí que conheci Chiara Lubich, já então mais do que endeusada por todos, inclusive, as muitas centenas de "sacerdotes" que participaram nessa semana. As suas palavras eram a Verdade. Ela era o Evangelho. A sua interpretação moralista dele era a interpretação. Também nessa semana nada foi deixado ao acaso. Estávamos permanentemente em actividade, mesmo nos intervalos que eram aproveitados pelos focolarinos para conversas individualizadas, aparentemente inocentes, mas de facto para nos levarem a aderir ao Movimento e a espalhá-lo nos países de onde provínhamos. Percebi, aí, que eu era para eles uma esperança em Portugal. Chegaram a sugerir-me que me dedicasse a tempo inteiro ao Movimento e ficaram até muito decepcionados comigo, quando, pouco depois dessa semana, eu os informei que teria de deixar os jovens estudantes do Liceu com quem trabalhava, porque fora inopinadamente requisitado pelo Exército para ir como capelão militar para a Guerra Colonial. Quiseram que eu recusasse / desertasse para me dar todo ao Movimento. Mas já então eu tinha visto que aquela via não dizia com a de Jesus, ainda que falasse muito dele. Era demasiado deísta e anti-ateísta, mas nada anti-idolátrica, demasiado vaticanista, demasiado papista, demasiado episcopalista, demasiado segregacionista, construtora de ghetos de santidade, numa palavra, demasiado farisaísta. Disse-lhes que não. Que iria para a Guerra Colonial, como um menino desarmado, a quem os olhos já se começavam a abrir. Não foi ainda a ruptura total com eles, mas quase. Essa viria poucos meses depois, quando eu regressei a Lisboa, expulso da Guerra Colonial, com o rótulo que ainda hoje me acompanha de "padre irrecuperável", uma espécie de maldição aos olhos de muitas, muitos, mas que eu experimento como a maior de todas as Graças. Só os que não são da Besta é que costumam trazer na própria carne esta marca, esta maldição. Porque aos que são da Besta, ela assinala-os com as suas próprias marcas, as do sucesso e do prestígio. Nunca mais os Focolarinos e o Movimento Focolares quiseram saber de mim. E eu também nunca mais me aproximei. Contudo, nunca deixei, em todos estes anos, de acompanhar o seu percurso e a sua expansão no mundo. Tanto reconhecimento, por parte dos do Grande Dinheiro e dos dos Grandes Privilégios, em lugar do Ostracismo, diz-me, à luz das "instruções" de Jesus aos Doze discípulos, que o Movimento é via de "porta larga" e não de "porta estreita", como é sempre a via de Jesus. Pode até ter começado por ser, quando eram apenas aquelas duas ou três mulheres que, no pós-Segunda Guerra Mundial, começaram a reunir-se e a viver reunidas em nome de Jesus. Mas, depois, quando sonharam "conquistar" o mundo e começaram a "ter" casas e mais casas, quintas e mais quintas, doações e mais doações, tiveram de inventar um Jesus ao tamanho dos seus sonhos e das suas ambições, aparentemente evangélicas, mas só aparentemente. O funeral de ontem, do cadáver de Chiara Lubich, a fazer lembrar e a rivalizar com o do Papa João Paulo II, é por demais elucidativo e eloquente, mas de forma evangelicamente negativa. O cadáver de Jesus, ao contrário do de Chiara Lubich ontem levado em ombros e aplaudido pelos muitos focolarinos, foi atirado à vala comum como se fazia ao cadáver de todo o crucificado pelo Império. E o seu nome ficou para sempre maldito. Até hoje. Sim, porque o nome Jesus que as Igrejas invocam e pronunciam é de outro, inventado por elas, depois que se aliaram ao Império que o matou na Cruz e aceitaram ser um dos mais influentes Executivos da Ordem Mundial intrinsecamente perversa que hoje, dia e noite, cientificamente nos domina e descria, como seres humanos. Querida Chiara Lubich, minha irmã. Agora que a Luz / Verdade te inunda e és finalmente tu própria, sem nada destas santas imundícies religiosas com que o Deus-Ídolo nos tenta e consegue desfigurar, no decurso da nossa curta vida na História; agora que és apenas Rio no Mar, Mulher no Amor que um dia te fez ser-acontecer, sabes bem melhor do que eu que o Movimento que deixaste precisa de mudar de Deus, se quiser voltar a ser jesuânico. Só que, se tal vier a acontecer - e como eu o desejo, querida Chiara Lubich - nem tu serás nunca mais beatificada e canonizada, nem o Movimento que fundaste nunca mais será reconhecido pela hierarquia eclesiástica e pelos outros Grandes Executivos do mundo. Consequentemente, deixará também de poder contar por muitos milhões os seus membros, como hoje conta. E até aqueles dois ou três que restarem - se restarem! - serão odiados por todos, a começar pelos eclesiásticos maiores, por causa do nome de Jesus, o Crucificado e o Maldito, o único que esses mesmos dois ou três que restarem, aceitarão ter como referência definitiva e última das suas vidas, nunca a ti, querida Chiara Lubich. Porque o que não for assim é idolatria. E a Idolatria é que leva as pessoas e os povos a perderem a sua alma, a sua identidade, o EU SOU que cada uma, cada um de nós é. Deverá ser. Dou-te a minha paz, querida Chiara, aquela paz que os Executivos, também os eclesiásticos, não conhecem, não dão, nem podem dar! E recebo a tua, essa que agora conheces e que é integralmente a mesma de Jesus, o Crucificado pelo Império.

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2008 MARÇO 18

 

Ontem, a meio do dia, fui a correr ao Porto, zona do Carvalhido, abraçar ao vivo um meu amigo poeta que também chegou a ser meu aluno em Religião e Moral no Liceu D. Manuel II, quando aquela disciplina era ainda obrigatória na escola pública (o Fascismo de Salazar e a Concordata que a Igreja católica selou com ele, numa mancebia idolátrica que ainda hoje me faz corar de vergonha, assim o determinavam como regra geral que não admitia quaisquer excepções em todo o país). De véspera, ele próprio havia-me ligado a dar a notícia da morte da sua Mãe. Percebi, no decurso do telefonema, que ele estava desfeito no luto e na dor e logo aí lhe garanti que, no dia seguinte, horas antes do funeral, deixaria tudo e passaria pela capela mortuária da paróquia do Carvalhido, onde, pelo que me disse, iria decorrer o velório do cadáver da sua Mãe. Não iria, como de facto não fui, velar o cadáver, mas iria, mediante um diálogo e uma prática maiêuticos, resgatar o meu amigo e os seus familiares mais próximos das garras da Morte que, sobretudo em momentos como este, sempre nos quer subjugar e atar de pés e mãos. Fui, pois, cumprir o prometido. Era por volta do meio dia e chovia, quando cheguei. Mas nem a chuva nem o ar frio que se fazia sentir sob a chuva - os dias ainda são de Inverno meteorológico, embora já no fim, não assim o Inverno Político do país e do resto do Mundo que se apresenta cada vez mais carregado e cada vez mais absurdo, a exigir dos povos Práticas Políticas maiêuticas de muita lucidez e de muita audácia - me impediram de aparecer de olhar brilhante e penetrante, sorriso estampado no rosto e braços abertos, prontos para abraçar. O meu amigo foi o primeiro a dar pela minha chegada. Ao ver-me assim, vivo e combatente como um menino desarmado, todo determinado a enfrentar a Morte, em lugar de subjugado por ela, o rosto dele abriu-se de imediato como um sol e correu para mim. O prolongado abraço, bem apertado e ainda bem mais fraternal, foi como um parto que o fez soltar-se e sair do luto e do túmulo, onde a Morte da Mãe já o havia sepultado. Mas ainda se mantinha atado e envolto no sudário da Morte. O diálogo maiêutico que logo ali encetei com ele e, através dele, com todos os familiares e amigos que naquela hora se encontravam presentes no velório, e que ele fez questão de me apresentar, um a um, primeiro o seu pai, depois a sua irmã, a sua mulher e cada um dos outros, fez o resto. E o meu amigo regressou à vida. Posso por isso dizer, na mesma linguagem teológica do Evangelho de João, que o meu amigo estava morto e fui lá ressuscitá-lo. Não eu, obviamente - quem sou eu para, sozinho, operar acções políticas desta envergadura com tudo de Nova Criação e que só mesmo Deus Vivo pode realizar?! - mas o Espírito de Deus Vivo em mim e comigo, que assim havemos de ser as mulheres e os homens, na esteira de Jesus, mulheres e homens com o Espírito de Deus Vivo em nós e connosco. Como Lázaro de Betânia, irmão de Maria e Marta - uma pequenina Comunidade de dois ou três que, no século I, se reunia e vivia unida em nome e em memória de Jesus, o de Nazaré e, por isso, era uma Comunidade politicamente subversiva e conspirativa, dissidente e resistente à Ordem estabelecida do Templo, do Império e do Dinheiro, cujos representantes-mor até haviam já decidido matar-lhe o respectivo líder e assim decapitá-la - também o meu amigo, devido à Morte da sua Mãe, estava completamente apanhado pelo luto e pelo túmulo, atado por isso de pés e de mãos e envolto num sudário, o da Ideologia / Idolatria da Morte que hoje nos cerca por todos os lados, penetra-nos por todos os sentidos e por todos os poros e impede-nos de alguma vez chegarmos a ser o que potencialmente somos, e que nunca seremos, a menos que, na nossa liberdade, consintamos que um Sopro outro, um Espírito outro, o do Deus Vivo, que é o mesmo de Jesus, bem nos antípodas do Deus-Ídolo que hoje é aí cultuado em toda a parte até pelas Igrejas, nos habite e passe a actuar em nós e por nós. A minha presença, as minhas palavras, os meus gestos de carinho e de afecto, o meu olhar de ternura e de fogo, o meu sorriso, a minha paz, a minha alegria foram, no seu todo, politicamente resgatadores / libertadores, foram Prática Política maiêutica / jesuânica, que arrancaram das garras da Morte o meu amigo e os familiares e amigos que estavam ali com ele, todos numa postura de velório que, embora humanamente compreensível, é tremendamente doentia e politicamente muito reaccionária. Basta ver que todos os grandes poderes deste mundo, a começar pelo Religioso, o que mais querem é isso. Não apenas enriquecem com o culto da Morte e dos mortos, um culto que visa disfarçar a Morte, senão mesmo negá-la - e com isso consegue tornar-nos levianos, superficiais, banais / venais - como ainda conseguem manter as pessoas e os povos atados de mãos e de pés, totalmente envoltos em sudários, isto é, em ideologias / idolatrias que as, os tornam politicamente inexistentes, nunca intervenientes, por isso, mortos. Ora, nos antípodas dos grandes poderes deste mundo e em total oposição a eles, está Jesus, o de Nazaré, agora também definitivamente ressuscitado, com a sua paradigmática prática política maiêutica, como alternativa libertadora e promotora de vida plena. E está igualmente a Fé de Jesus que, se a vivermos em plenitude, nos faz outros Jesus, em cada tempo e lugar. Nem ele, nem quem vive a sua mesma Fé deixam-se alguma vez perder ou enredar no culto da Morte ou dos mortos. Pelo contrário, ocupamo-nos politicamente dia e noite da vida e dos vivos, sobretudo, dos mais últimos da Sociedade, batemo-nos por uma Ordem Mundial outra, onde todas as pessoas e todos os povos tenham vida e vida em abundância. A Morte, como um facto inevitável da Natureza, está aí, é verdade, mas para nós politicamente a enfrentarmos, combatermos e derrotarmos. Sobretudo, aquela Morte-que-mata: a Ideologia / Idolatria desta Ordem Mundial perversa que nos quer habitar, possuir e, na medida em que o consegue, nos tolhe e faz de nós mortos para as grandes causas da vida dos povos, apenas muito activos para os nossos grandes ou pequenos Interesses individuais e corporativos, ou para os nossos Egoísmos-de-trazer-por-casa-e-pelos-templos-ou-discotecas, sem nunca chegarmos a querer saber para nada de Práticas Políticas maiêuticas que, se forem realizadas na História, mudarão / transformarão o nosso Mundo, ainda que também nos tragam muitas incompreensões e até perseguições, por parte de quem - todos os Executivos (os grandes e os pequenos) das Religiões, do Poder e do Dinheiro - de modo algum está disposto, estão dispostos, a abrir mão dos privilégios que esta Ordem Mundial perversa em que vivemos lhe(s) garante e aos seus lacaios, ainda que, a estes, apenas em forma de migalhas. Com a minha páscoa / passagem, em comunhão com a de Jesus e do seu Espírito, o velório do cadáver da Mãe do meu amigo, que, à minha chegada, tinha tudo de Luto e de Morte, deu lugar à vida, à conversa, ao diálogo, à manifestação dos afectos. De túmulo, tornou-se ventre, fecundo útero. Mas o mais espantoso é que connosco, estava também a Mãe já ressuscitada do meu amigo poeta. O cadáver que ela deixou e que, umas duas ou três horas depois, iria ser sepultado, era apenas isso, um cadáver, uma coisa, um resto. Mas já não era mais aquela pessoa humana única e irrepetível que a Mãe do meu amigo fora entre nós e connosco e que continuava a ser, mas agora definitivamente ressuscitada / transformada. Ela estava também ali connosco, ainda que até à minha chegada e à minha maiêutica intervenção, ninguém tivesse dado por ela. Viam apenas o cadáver e com ele se ocupavam, como se ainda fosse ela. Ela estava ali ressuscitada, num novo corpo ressuscitado, por isso, totalmente invisível aos olhos de quantas, quantos de nós ainda permanecemos no Tempo, por isso, corpos limitados e incapazes de ver o Invisível. Foi com ela, viva, ressuscitada, que deixei o meu amigo poeta, o qual, depois desta inesquecível e fecunda experiência, irá certamente escrever o Poema que nunca antes escreveu nem podia, porque só agora terá verdadeiramente nascido como Poeta, capaz de captar o Essencial de cada pessoa, como captou o Essencial da sua Mãe definitivamente ressuscitada. E eu próprio regressei a esta minha casinha em Macieira da Lixa ainda mais cheio de alegria e de vida, de ternura e de paz. Numa Eucaristia sem fim, que os meus irmãos presbíteros e bispos, ocupados que andam, nestes dias de Semana dita Santa, mas que é totalmente Pagã, com um mítico Jesus morto e todos os outros dias de cada ano andam ocupados com os ritos mortos, com os cadáveres dos que morrem / ressuscitam e com absurdas tradições oriundas do Paganismo religioso, só poderão saborear, quando, finalmente, nascerem do