DIÁRIO ABERTO


 

 

2007 MARÇO 30

 

Ao ler o DN de hoje tive uma agradável surpresa. A jornalista Fernanda Câncio assina um curto texto de opinião sobre Fátima, intitulado “As argolinhas de ouro da virgem” que não resisto a transcrever aqui no meu Diário Aberto. Ninguém deixe de o ler e divulgar (ver abaixo).

 

Infelizmente, tenho estado quase sempre sozinho neste combate pela dignidade da Fé cristã católica e pela dignidade da Igreja católica. Nenhum outro presbítero ou bispo, e nenhum teólogo jesuânico ou biblista têm saído ao meu encontro. Praticamente todos me têm deixado sozinho nesta luta. Não falta, por isso, quem maliciosamente interprete esta minha luta como mania minha ou despeito meu. Chegam até a dizer que não passo de um louco, como se a verdade, para o ser, precisasse de ser afirmada/testemunhada por muitas pessoas. Até parece que desconhecem que Jesus, o de Nazaré, foi crucificado e teve contra ele praticamente todo o mundo de então (o Templo e o Império que o condenaram à morte e o executaram na cruz simbolizavam todo o mundo!) e, mesmo assim, é-nos apresentado, por força da sua ressurreição, pelo Evangelho de João como “A Verdade”, ao mesmo tempo que “O Caminho” e “A Vida”: "Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida". E, dois mil anos depois, ele ainda continua aí praticamente sozinho, uma vez que o Jesus que hoje as Igrejas cultuam e idolatram está longe de ser Jesus, o de Nazaré. É um Cristo mais ou menos mítico, feito à medida dos interesses e dos privilégios das elites eclesiásticas (clérigos e pastores) e respectivas Cúrias, mas não é Jesus, o de Nazaré, que o Templo e o Império crucificaram.

 

Alegrei-me muito com este pequeno-grande texto desta minha camarada de profissão que ainda não tenho o prazer de conhecer pessoalmente. E a minha alegria é tanto mais justificada, quanto é um facto indesmentível que a generalidade dos jornalistas, no que respeita a Fátima e ao que lá acontece desde 1917 para cá, tem-se limitado praticamente a reproduzir o que os clérigos interessados em todo aquele negócio de milhões dizem e fazem, como se o que eles dizem e fazem fosse a verdade. Não é. É tudo mentira e crime, como eu não me tenho cansado de repetir, sem que ninguém da hierarquia, para seu mal, me tome a sério. Pelo contrário, até parece que fazem questão de alinharem e apoiarem ainda mais toda aquela monstruosidade teológica. São cegos que não querem ver. Guias cegos que se fazem passar por piedosos e devotos, perante as multidões oprimidas e deprimidas.

 

Bem-hajas, Fernanda, pela tua lucidez e pela tua audácia. Nem que te incomodem, não desistas. E agora que te deste conta da indignidade e da patetice que Fátima é, leva mais longe e mais fundo a tua investigação. Porque a Mentira, por mais aclamada que seja por multidões alucinadas e fanatizadas (e há lá maior fanatismo que o da Religião?!) e por mais anos que já leve, jamais passará a Verdade. É Mentira sempre. E Fátima não é outra coisa que Mentira. Do princípio ao fim. A maior Mentira da Igreja católica no século XX. Digo-o e escrevo-o, sem que a voz e a mão me tremam.

Fiquem, então, com o texto de Fernanda Câncio, no DN de hoje. Eis.

 

Fátima é um assunto que nunca me tinha calhado. Sabe-se lá como, em 20 anos de jornalismo, a nenhuma direcção de revista, TV ou jornal ocorreu fazer-me enviada, especial ou não, ao mundo dos pastorinhos, dos peregrinos entrapados e das bugigangas piedosas. Tão-pouco me aventurara alguma vez a ler relatos ou reflexões ou ensaios sobre o assunto aparições.

Estava portanto, digamos, virgem no que a Fátima e à temática fatimida (soa a remédio para o míldio, mas é assim que se diz) respeita. E, tendo esta semana pela primeira vez, em virtude do centenário de Lúcia, sido chamada a debruçar-me sobre ela, é com um alvoroço de descoberta que reconheço ter até agora desconsiderado, sem desculpa, uma das matérias mais fascinantes que Portugal tem para oferecer.

Uma pessoa começa a ler relatos dos ditos milagres e sente-se despejada num episódio dos Ficheiros Secretos, mas sem Mulder nem Scully. Mais: lê-se um ou dois livros de análise (não há muitos, dentro do género sério e objectivo) e percebe-se que aparições sobrenaturais, mormente da alegada mãe de Jesus e sempre com crianças pastoras, eram mato à época no País. Por qualquer motivo, só as da Cova da Iria vingaram.

Descobre-se por exemplo que, nos seis meses em que aquilo - as alegadas visões sobre a azinheira - durou, já havia quem vendesse fotos dos três visionariozinhos, a sépia e de mãos postas, com a Lúcia e o seu tão determinado queixo no centro. Que o pároco da zona, depois de uns interrogatórios dos meninos, abalou dali sem dar explicações. Que as supostas conversas com a senhora "mais brilhante que o Sol" só versavam sobre coisas que preocupavam Lúcia - o fim da guerra, curas e emendas de gente da freguesia, e o que fazer com o dinheiro das esmolas entretanto arrecadadas por via da notícia das aparições (que a senhora, note-se, mandou gastar num "andorzinho para os meninos" e não em sustento para os pobres). E, por fim (não há espaço para mais) que as argolinhas doiradas que a Lúcia de dez anos, confessadamente criança mui vaidosa, descreveu ter visto na tal senhora, a Lúcia adulta e freira, a que escreveu as memórias, garantiu nunca ter vislumbrado. Deus está nos detalhes - ou não. E detalhe não é certamente que tão pouco se tenha, jornalística e cientificamente, reflectido e investigado sobre Fátima.

 


 

2007 MARÇO 27

 

1. Foi apenas um concurso para dar dinheiro a ganhar à RTP e mais audiências. E quem o ganhou foi quem teve mais pachorra para acompanhar, semanas a fio, toda aquela pantomina com ares de academismo e de coisa erudita. Sobretudo, ganharam-no aquelas pessoas que tiveram mais dinheiro para gastar em chamadas telefónicas e assim votar compulsivamente no seu candidato preferido. Pelos jeitos, foi um ver se te avias de telefonemas para os múltiplos números que o canal 1 colocou à disposição dos papalvos que, no seu cruzadismo político e partidário, nem sequer se deram conta de que estavam a ser levados. Ainda gostava de saber quanto dinheiro é que o concurso deu a ganhar à RTP.

 

O resultado final dependeu não das convicções das populações portuguesas, mas das quantias de dinheiro gasto em chamadas e da pachorra que muitas pessoas tiveram para alinhar/participar no concurso. A mim não me apanharam os promotores nesta sua engenhosa e enganosa versão de conto do vigário disfarçado de concurso. Uma vez por outra, parei durante uns minutos no programa, sempre muito poucos, só para perceber melhor como é que, desta vez, os do canal público estavam a levar as populações às águas do moinho dos seus interesses financeiros e de aumento das audiências. Envolver-me directamente naquela pantomina, ou noutra do estilo, em qualquer dos outros canais, nem pensar. Prefiro um bom filme ou um bom concerto, mesmo só gravado em CD, ou um bom espectáculo de teatro. E por isso, pouco tempo depois de parar uma vez por outra nesse concurso, logo seguia para a RTP2. E, se nem aí havia programa que me recreasse e alimentasse, cultural e espiritualmente, apagava o aparelho e deliciava-me/delicio-me, até adormecer, com a leitura de um bom livro. Consciente de que tenho o dever de me saber defender dos media e dos seus funcionários maiores que estão interessados em servir-nos doses de ópio, como durante séculos o fizeram e ainda hoje o fazem as Religiões, todas as religiões. Não contem comigo nesse jogo feito de jogos e de concursos. Comerei do que me oferecem as tvs, mas apenas se o menu for de boa qualidade. Quando não é, desligo e recorro aos meus próprios meios. Se não fosse assim, onde é que já eu estaria, por esta altura da vida?

 

A concorrente TVI, preocupada com a possível perda de audiência em relação à RTP e ao seu badalado concurso, foi logo a correr lançar um outro exactamente de sinal contrário, por isso, um concurso com assumido ar de estupidez, mas, ainda assim, com a presença garantida no programa de um júri constituído por gente erudita, como a confirmar à saciedade que o dinheiro e a fama conseguem quase sempre comprar tudo e todos, até os intelectuais. E pode a administração do antigo canal da Igreja católica estar descansada, porque terá conseguido o seu objectivo, uma vez que, com esse seu concurso, tem sempre à sua disposição uma avalanche de raparigas portuguesas semivestidas e disponíveis para fazerem de parvinhas e de estúpidas, na mira, obviamente, de ganharem algum dinheiro fácil e alguma fama (aquilo tem muito de prostituição camuflada, mas se há por aí quem ganhe tanto dinheiro a explorar sem dó nem piedade as pessoas e os povos e, depois, toda a gente ainda parece achar bem este seu jeito de ser-viver e até as aplaudem na praça pública, porque é que umas rapariguinhas desconhecidas não hão-de prestar-se a exibir pedaços dos seus seios e das suas coxas, ao mesmo tempo que fingem que são estúpidas, se em troca ganham dinheiro e alguma fama, quem sabe talvez direito a capa de revista cor-de-rosa?!)

 

Mas há quem tenha ficado muito arreliado com o desfecho do concurso da RTP, ocorrido na noite de domingo para segunda-feira passada. Pensam essas pessoas, e são muitas, que o antigo ditador do Estado Novo ganhou a categoria de “grande português”. E sentem vergonha de serem portugueses, quando um ditador é guindado a essa categoria. Interrogam-se, até, que povo português é este que faz semelhante escolha e se revê orgulhosamente num ditador?

 

Quem assim reage dá provas de que não chegou a perceber o que estava em jogo. O isco lançado pela RTP era saber quem é o maior português de sempre. Mas isso era apenas o isco. Porque o que estava em causa era a RTP ganhar muito dinheiro e audiências à custa dos papalvos que entrassem no seu jogo, disfarçado de eleição política ou de referendo. Não fossem ingénuos. Fizessem como eu. Recusassem entrar no jogo. Dormissem descansados. Deixassem os promotores a falar sozinhos. Não se dessem ares de seriedade e de incomodidade perante o que estava a suceder. Quando muito, estivessem de longe a ver tudo aquilo e a divertir-se. Ou, se quisessem ser um bocadinho militantes, alertassem os papalvos que se prestaram a fazer o jogo da RTP, para que deixassem de continuar a cair na esparrela. O que a RTP pretendeu e, pelos vistos, teve enorme sucesso, foi que as populações se envolvessem e entrassem no despique artificialmente levantado por ela. Ela ganhou, e muito, com isso. As populações que alinharam no jogo perderam tempo, dinheiro e dignidade, sobretudo, as que mais se empenharam na pantomina. E agora que tudo acabou, a administração da RTP deve estar a esfregar as mãos se satisfação. A sua habilidade resultou financeiramente e em audiências.

 

Entretanto, deveria agora a RTP meter a mão na consciência e interrogar-se se o que fez é serviço público. Mas, quando uma administração tem por objectivo fazer dinheiro e ganhar audiências a qualquer preço, ainda se pode falar em serviço público? Crime público, sim. Mais um crime público é o que ela acaba de cometer. Promoveu o velho ditador do Estado Novo e do Fascismo pidesco a “grande português” e ainda contribuiu para ressuscitar velhos fantasmas do passado, quando a Liberdade, se bem praticada, sempre suscitará pessoas livres e cultas nas sociedades, não pessoas fanatizadas e corruptas. É por isso que o serviço público tem de cuidar até do tipo de concursos que promove e em que se envolve. Mas um canal público, como a RTP, que tem, habitualmente, nas suas manhãs, a presença cativa em programa do Pe. Borga, sem a salutar presença de qualquer contraditório, e também não perde pitada na transmissão directa de Fátima do 13 de Maio e do 13 de Outubro de cada ano, ainda está em condições de garantir serviço público ao país? Os do Obscurantismo generalizado das populações, que o velho ditador do Estado Novo tanto cultivou, em aliança com a hierarquia católica de então, dirão que sim. Mas os da Liberdade e da Dignidade que visam suscitar populações livres, dignas, historicamente responsáveis e decentes só terão razões para chorar. Choremos, pois. E arregacemos as mangas para passar a lutar mais e com mais inteligência em todas as frentes. Pela Dignidade. Pela Liberdade. Pela Decência.

 

2. A Diocese do Porto já tem novo Bispo. Fez a sua entrada solene na tarde de domingo passado, sob o aplauso de milhares de pessoas. Ninguém me viu lá. Fiz essa opção. É a única que diz com o meu jeito de ser presbítero da Igreja do Porto longe dos templos e dos altares. Ainda pensei em ir, como jornalista, mas acabei por ficar distante de tudo aquilo. E o que depois vi na televisão e li na comunicação social confirmou que foi a melhor opção que tomei. A entrada solene foi mais do mesmo. Já previa que assim seria e por isso não quis lá ir.

 

O Bispo foi imposto à Diocese pela Cúria Romana, presidida pelo Papa. E a Igreja que está no Porto acatou. Subservientemente. Deveria ser eleito pela Igreja local. E, nesse caso, nem precisava da pompa e da circunstância para passar a presidir no serviço maiêutico que, como bispo, deve à Igreja do Porto e ao mundo. A pompa e a circunstância só são necessárias, quando é preciso disfarçar uma harmonia e uma unidade que não há na Igreja. Os súbditos eclesiásticos estiveram lá em grande número, leigos e clérigos. Numa catedral, cujo interior frio, escuro e esmagador condena as pessoas que lá entram a regredir até à medonha Idade Média. Entradas solenes assim, como os súbditos a aplaudir, são típicas do Poder eclesiástico que dispensa os afectos, mas não as obrigações servis. Mesmo sem conhecer as pessoas, sem nunca as ter olhado nos olhos, já as tem ali aos seus pés. Para ver se assim garantem os favores do Poder, num próximo futuro. Quem sabe, uma nomeação para um cargo de destaque e rentável. Por mim, não vou por aí. Nunca fui. Nunca irei. Entradas episcopais assim são um anti-Evangelho de Jesus.

 

Manuel Clemente bem diz que vem para Evangelizar. Reconhece, ao nível do discurso, que essa é a sua primeira missão de Bispo da Igreja na Sociedade. Mas, com uma entrada nestes moldes e com os outros representantes do Poder também presentes, como acólitos, começa por afirmar o seu Poder eclesiástico. Só os poderosos é que se comportam assim perante os súbditos. O Evangelho obrigava-o a apresentar-se de outro modo. Teria de dar outros sinais. Não os deu. Por isso não foi boa notícia na Igreja e no país. Foi apenas mais do mesmo. Rotina sobre rotina.

 

Não me surpreende. Já estou habituado. Jesus, o de Nazaré, tem poucos seguidores. Têm mais adoradores, súbditos, cruzados à procura de um lugar ao sol, ou duma indulgência plenária que lhes garanta entrada directa no céu, logo após a morte. Seguidores, é muito mais raro. Aquele seu “quem quiser vir após mim, tome a sua cruz todos os dias e siga-me” desmobiliza muita gente. E quanto mais privilegiada, mais desmobilizada. Somos sensíveis aos privilégios e aos aplausos das populações, não ao serviço maiêutico às populações. Do serviço maiêutico fugimos a sete pés. E Jesus acaba quase sempre sozinho na Cruz que os sacerdotes do Templo e os grandes do Império lhe ergueram e onde o mandaram executar.

 

Meu irmão Bispo Manuel Clemente. Escusavas de ter cometido este erro, logo de entrada. Um bispo para o século XXI tem de ser muito menos formal, muito menos previsível institucionalmente, muito menos acomodado. Não havia necessidade deste protocolo mundano. Anunciavas previamente que o dispensavas e nem sequer entravas na sinistra catedral do Porto. Podias optar por entrar na casa de alguma família pobre da diocese, ou num lar de idosos em dificuldades, ou na cadeia de Custóias, ou num dos hospitais da cidade, ou na Comunidade de Emaús, na Rua do Almada, ou, nas instalações da Rhode em Santa Maria da Feira, ou, porque não, até na casa da Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa e da sua presbítera não-ordenada, ali mesmo junto às instalações ainda em grosso do Barracão de Cultura que a mesma Comunidade está empenhada em ajudar a dar à luz para garantir no seu interior o serviço maiêutico ao jeito de Jesus às populações da freguesia e das redondezas. Seria um escândalo? Mas há anúncio do Evangelho de Jesus Crucificado/Ressuscitado que não seja escândalo? De mais do mesmo, meu irmão Bispo Manuel Clemente, está a Igreja farta. E a sociedade também. Temos fome, muita fome, é de Jesus, o de Nazaré! Porque só ele tem práticas e palavras geradoras de vida de qualidade, verdadeiramente humana e sororal/fraterna.

 


 

2007 MARÇO 25

 

1. Não fosse a festa da Páscoa este ano ser alta, e  este dia, na Igreja católica, seria a festa da anunciação a Maria. Seria, por isso, o dia em que, segundo a liturgia católica, a mítica Virgem Maria voltaria a ficar grávida de Jesus, graças exclusivamente à acção do Espírito Santo, não – credo! – em consequência de um acto de amor ou mesmo de uma violação ocorrido entre um homem e ela! Reparem que faltam exactamente nove meses - o tempo duma gestação - para o Natal, invariavelmente a 25 de Dezembro. Mas como a Páscoa este ano é alta, ainda estamos a duas semanas da dita, pelo que os dias que se seguem vão ser, no interior dos templos paroquiais e das catedrais episcopais, dias de relatos da paixão de Jesus, da traição de Judas, da fuga dos discípulos, das via-sacras, dos enterros do Senhor nas ruas de Roma, Braga e outras cidades de turismo religioso e, depois, dias de foguetes de aleluia com visitas pascais ou compasso às casas das pessoas, a recolher os chorudos folares para os senhores abades, que, assim, pelo menos, os mais novos poderão voltar a trocar de carro de marca e sair a gozar umas “merecidas” férias no estrangeiro, longe dos indiscretos olhares de gente conhecida.

 

Nunca tinham caído na conta deste pormenor sobre o 25 de Março / 25 de Dezembro de cada ano? Pois é, mas é assim com este truque litúrgico que o negócio religioso/eclesiástico continua a estar garantido. Vejam só. Ainda o seu Jesus deus anda por aí nos turísticos e litúrgicos Passos a caminho do calvário e os seus fiéis devotos choram a sua iminente morte na cruz, e a instituição eclesiástica que a tudo superintende sem jamais admitir qualquer contraditório, já o submeteu a uma nova gestação no ventre da sua mítica mãe, sempre virgem, pois claro, para que, assim, daqui a nove meses, os mesmos sacerdotes que agora celebram/choram a sua paixão e cantam o aleluia da sua ressurreição possam celebrar outra vez a festa do seu natal. Assim tem sido, ano após ano, século após século, e assim irá continuar a ser, enquanto durar a História, ou, pelo menos, enquanto durar o Obscurantismo nas populações, habilmente alimentado/mantido pelas Religiões/Igrejas e respectivos sacerdotes funcionários que assim bem se governam, juntamente com milhões e milhões de outras pessoas que sobrevivem e enriquecem à sombra do turismo dito religioso. (Já pensaram o que ocorreria nas sociedades, se, de um ano para o outro, as populações do mundo se tornassem ateias ou agnósticas e não quisessem saber mais das religiões/Igrejas para nada? Ou, o que é muitíssimo mais difícil, se as populações do mundo se tornassem praticantes da mesma Fé de Jesus, o de Nazaré e também não quisessem saber das religiões para nada?! O desemprego que semelhante revolução provocaria?!)

 

O facto, só por si, revela à saciedade que a Igreja de Roma, melhor, da Cúria Romana, fez seus, desde o século IV, os primitivos cultos religiosos em honra dos deuses e das deusas do Paganismo reinante no Império de Constantino, cujos sacerdotes, todos os anos, já celebravam o rito do seu nascimento e da sua morte, como forma simbólica/litúrgica de garantir a harmonia do Universo e a coexistência mais ou menos pacífica entre os povos. Ao reduzirem Jesus a único deus mítico dos cultos do paganismo, a Igreja e o Império romano acabaram por o matar de vez, porque o que ainda hoje as populações celebram nos templos católicos não é verdadeiramente Jesus, o de Nazaré, mas Jesus, o deus maior dos cultos do Paganismo religioso. O que materializa uma perversão e uma indignidade sem nome. Como se vê, com Constantino, o Império Romano conseguiu, duma assentada, matar de novo e para sempre Jesus e o Evangelho de Deus que Jesus é. Bastou “elevá-lo”, com o aplauso e o reconhecimento dos chefes da Igreja católica de então, à condição de deus maior do seu Império. Todos os deuses e deusas dos cultos do Paganismo foram violentamente banidos. Mantiveram-se os cultos públicos entre as populações paganizadas, mas agora sob um único nome, o nome de Jesus, de preferência, chamado Cristo.

 

E é assim que ainda hoje estamos, neste início do século XXI e do terceiro milénio, nos países que “fazem” a Europa. Pagãos dos quatro costados! Com alguns valores cristãos à mistura e muito poucos ou nenhuns valores jesuânicos, uma vez que entre Cristo e Jesus não há, quase nunca há total identidade. Há por aí hoje muitos Cristos/Messias (o próprio Jesus histórico nos advertiu para o facto!), o maior dos quais é sem dúvida, ao nível institucional, o presidente Bush. Mas Jesus Crucificado pelos sacerdotes do Templo e pelos representantes do Império há só um, o de Nazaré. E este tão pouco pode ser confundido com o Jesus eclesiástico que, há séculos, abençoa papas e cardeais, como príncipes da Igreja, impõe bispos residenciais às populações dos países sob influência católica/ocidental, todos eles nomeados e controlados pelo papa de Roma e sua Cúria, exactamente como o imperador outrora nomeava e controlava governadores e procuradores e os impunha às populações subjugadas pelos exércitos do Império. A realidade é esta, só os nomes é que são outros, para melhor ajudarem a escondê-la aos nossos olhos.

 

2. Mas este dia 25 de 2007 é sobretudo o dia em que a Europa celebra 50 anos sobre o Tratado de Roma que veio a dar na actual União Europeia. Pelos vistos, não é um dia de grande festa, como seria legítimo esperar. É apenas um dia de comemorações mais ou menos institucionais! A verdade é que foram 50 anos de caminhada cada vez mais convergente, mas ainda estamos muito longe de sermos uma só família-europeia-em-comunhão-com-os-outros-continentes-e-povos-do-mundo. Nem sequer os actuais dirigentes de turno da União Europeia se mostram eufóricos, muito menos as respectivas populações se podem mostrar eufóricas.

 

Aliás, bem vistas as coisas, continuamos a ser, neste início do século XXI e depois de 50 anos sobre o Tratado de Roma, a Europa pagã do tempo do Império, só que agora mais ao jeito secularista e laico do século XXI. O paganismo também evoluiu e adaptou-se. É sempre preciso mudarmos alguma coisa para que tudo se mantenha na mesma. E a verdade é que hoje continuamos a ser uma Europa estruturalmente pagã/idolátrica.

 

O minúsculo estado do Vaticano, sucessor do Império Romano, não tem mais exércitos como o imperador de Roma, outrora. Nem precisa. As armas hoje são outras, e muito mais eficientes do que as de outrora e também muito mais adaptadas aos novos tempos. Se repararmos bem, constaremos que nada se faz no mundo, sem que seja tida em conta a Igreja católica e o seu papa-chefe-de-estado-do-Vaticano. Assim como os seus núncios apostólicos/embaixadores. E os seus cardeais. E os seus bispos residenciais. Por sua vez, também a Igreja de Roma não toma decisões de fundo, sem ter em conta o Império de turno e os restantes chefes de estado dos países do mundo, nomeadamente, os mais ricos e poderosos.

 

Reparem, por exemplo, como até a liturgia católica e, por um certo mimetismo e arrastamento, também as liturgias das outras Igrejas, se forem grandes, e das Religiões em geral são sistematicamente acatadas e respeitadas pelos chefes de estado da Europa e do resto do mundo, laicos ou ateus que sejam. É ou não o paganismo religioso em todo o seu esplendor?! O Poder, nos múltiplos poderes em que historicamente se materializa, não quer outra coisa. Ele sabe que, assim, as populações são mais facilmente mantidas sob total controlo e não saem em massa dos trilhos da lei e da Ordem imposta por ele. Nunca chegarão a ser populações em estado de sublevação e de conspiração, por mais injusta que seja a situação em que elas estejam condenadas a ter de viver.

 

Numa Europa assim, estruturalmente religiosa-pagã, onde é que entra Jesus, o de Nazaré, que foi crucificado pelos sacerdotes do Templo e pelos chefes do Império, os do seu tempo e país? Acham que ainda há lugar para Jesus Crucificado, a quem o Deus Vivo, que não vai nunca com o Império nem com o Templo, inesperadamente reconheceu e entronizou como o seu filho muito amado? (É o que quer dizer a proclamação pública “Deus ressuscitou Jesus!”, repetida pelos seus primeiros discípulos, elas e eles, após a morte dele). O que há, isso sim, é lugar para o mítico deus Jesus ou Cristo eclesiástico que todos os anos nasce, morre e ressuscita, como os antigos deuses míticos aos quais ele sucedeu; e igualmente para as míticas deusas, invocadas ainda hoje sob múltiplos nomes. Para Jesus Crucificado e para o Deus de Jesus Crucificado não há lugar. Aliás, a condenação, por estes dias, do Pe. Jon Sobrino, o teólogo jesuânico maior da actualidade, não significa outra coisa.

 

O Templo e o Império (entenda-se, todos os chefes religiosos/eclesiásticos e políticos e financeiros da Europa e do resto do mundo) não suportam Jesus Crucificado/Ressuscitado. Querem prosseguir à vontade com os seus sistemas económico-financeiros sacrificialistas, genocidas e ecocidas; querem prosseguir à vontade com as suas crucificações em massa, nas pessoas de milhões e milhões de pobres, e acabam por não poder suportar que um teólogo jesuânico de um pequeno e empobrecido país da América Central, como é El Salvador, continue aí a leccionar e a fazer conferências em nome de Jesus, o Crucificado por eles. E não o mataram, já, para não fazerem dele um mártir. Mas silenciaram-no, desautorizaram-no, desacreditaram-no perante as populações e as instituições oficiais. Para já, ainda o deixam sobreviver, mas colaram-lhe o ferrete de “maldito”, para que ninguém, inclusive, do povo se deixe ir por ele. E se o declaram “maldito” a ele, é porque eles que detém o poder de assim o rotular são “benditos”. Já viram a perversão?

 

Querem uma confirmação mais inequívoca do que esta condenação de Jon Sobrino, de que ainda permanecemos numa Europa pagã, mas agora num tipo de paganismo reciclado à século XXI? Mas dizer Europa pagã é o mesmo que dizer Europa estruturalmente caída em idolatria; hoje já não tanto, obviamente, a idolatria dos míticos deuses de outrora, mas a idolatria muito mais perversa do deus hoje mais cultuado no mundo, o senhor deus Dinheiro, o do Poder! Quem hoje lhe resiste? Quem hoje se atreve a conspirar contra ele e a sua Ordem Mundial? Quem se atreve a ser ateu de tal deus? Ainda haverá alguém? É muito difícil encontrar alguém, porque a primeira coisa que os ateus de semelhante deus teremos de fazer é escolhermos ser pobres e mantermo-nos pobres a vida inteira. Ora, quando chegaremos a uma Europa e a um mundo de pessoas/populações/povos que fazem questão de ser pobres a vida inteira e, por isso, fazem questão de que toda a riqueza produzida, inclusive, a produzida por elas/eles, seja equitativamente repartida por todos, segundo as reais necessidades de cada qual? Por mim, é assim que procuro ser e viver. Na peugada de Jesus, o de Nazaré, meu mestre! E posso testemunhar que não sei de outra via para ser um homem feliz, humano, fraterno/sororal, numa palavra, livre!

 


 

2007 MARÇO 22

 

Sonho com o dia em que o Poder

e  todos os seus homens de mão

sejam vistos como o problema maior

da Humanidade e não como a solução

ou parte da solução dos problemas da

Humanidade. O dia em que ninguém seja

homem de mão do Poder e ele morra.

 

Mas como há-de chegar esse dia

se o Poder como anti-Deus que é

criou um universo simbólico dentro

do qual todos nos movemos e nos

(in)comunicamos? É uma Babel

que nos deixa a falar sozinhos mas

o Poder chama-lhe Comunicação.

 

Fomos criados criadores e irmãos

em feminino e em masculino. Soprados

para sermos Abel uns para os outros. Mas

o sopro do Poder apodera-se de nós

e o Abel que somos torna-nos Caim

mentirosos e assassinos quanto ele

e criadores de um Mundo de loucos.

 

Houve um Homem nascido de

mulher como os demais que preferiu

viver em deserto o tempo todo a

transformar-se num homem de mão

do Poder. Acabou crucificado às suas

mãos. Mas deixou a descoberto desde

então que todo o Poder é assassino.

 

Passaram-se os anos. Mil e outros mil

desde que sucederam essas coisas

e a Treva continua aí a cobrir a Mente

dos homens. Muitos deles hoje mais

parecem crianças grandes sedentos

do Poder. Pensam-se salvadores como

Abel. E são assassinos como Caim.

 

Vestem uns de papa. Vestem outros

de Primeiro Ministro e de Presidente

da República. Tornam-se outros donos

de bancos que juntam Dinheiro como

areia das praias. Há quem aceite ser

reitor de santuário rico e influente. Mas

de Medo e Morte é o sopro de todos eles.

 

Prefiro viver em deserto a vida inteira

a frequentar os palácios e os manjares

do Poder e dos seus homens de mão

onde se conversam banalidades e se

alimentam megalómanos projectos do

tamanho dos seus vazios e das suas

frustrações. É assim que sou fecundo.

 

Não falta quem me acuse de subversão

e de deslealdade. E me ameace com

excomunhões e outros castigos sem

nome. Não me perdoam que também

eu revele que são Mentira e Homicídio

o Poder e seus homens de mão. Nem

assim deixo de ser discípulo de Jesus.

 


 

2007 MARÇO 19

 

“Venho lembrar-te, não em tom de ataque mas de correcção fraterna que não passas dum inocente útil para os inimigos de Cristo. Abismo chama abismo... Continuas a ser vítima dum terrível orgulho místico. Como para mim, a hora da tua partida vai-se aproximando.

Metes pena...

"Sê humilde e converte-te ao Senhor teu Deus" é o apelo para todos nós.

Daqui a uma dúzia de anos já ninguém te lembrará. Pe. (...)”

 

Recebi ontem esta mensagem, enviada, via e-mail, por um padre da Diocese do Porto, meu contemporâneo (não condiscípulo) no seminário Maior, entre 1958-1961. Não posso divulgar o seu nome, porque ele assim mo proíbe. Aliás, o meu colega até me proíbe de divulgar a mensagem que me enviou. Mas o que estará verdadeiramente em questão é a divulgação do seu nome. Porque a mensagem sem o nome nunca poderá vir a saber-se de quem é. E, pela minha parte, garanto que assim sucederá. Faça outro tanto o meu colega e jamais se saberá que ele me escreveu. Se ele o não fizer, então a mensagem passará a ser conhecida como dele, não porque eu a divulguei aqui no meu Diário Aberto, mas porque ele a revelou, por exemplo, a outros padres, seus vizinhos e amigos, juntamente com a minha resposta. O que, provavelmente, até irá acontecer, já que se trata de um padre-pároco e tudo indica que esta sua diligência junto de mim poderá ter sido concertada numa reunião de Vigararia. Divulgo-a, aqui, porque acho-a exemplar de um certo tipo de presbiterado católico muito pouco cristão jesuânico que perdura ainda entre nós. Divulgo igualmente a resposta que, de imediato, enviei ao meu colega, também via e-mail. E que diz assim:

 

Caro Pe. (…)

Acredita que fiquei agradavelmente surpreendido com a tua mensagem de correcção fraterna. Junta-se à carta aberta do Pe. A. Borges, publicada na última edição do PROGRESSO DE GONDOMAR. Acolho-a como tal. E fico a meditá-la no meu coração. Nem sequer tenho que te perdoar as afirmações ofensivas que me diriges, porque fazem parte da correcção fraterna; não são para ofender.

Parece que, finalmente, a comunhão presbiteral começa a funcionar para comigo, depois de todos estes anos de ostensiva exclusão a que tenho sido votado, só porque me tornei incómodo.

Não me assusta a “partida” cada vez mais próxima, pelo contrário. É de paz o meu viver, ainda que sempre em revolução. Partir será mergulhar na Fonte que um dia me fez acontecer, por pura Graça. E mergulhar para ser ainda mais subversivo e revolucionário. Porque do que o Espírito de Deus Vivo, que sempre faz novas todas as coisas decididamente não gosta é de quem se contenta em ser funcionário eclesiástico a vida inteira, assim a modos de nem frio nem quente.

Agradeço-te por te lembrares de mim. E me escreveres. E, se quiseres que um dia destes vá sentar-me à tua mesa, inclusive com outros irmãos no presbiterado, é só uma questão de acertarmos uma data. Tomara eu poder sentar-me à mesa de cada presbítero da Igreja do Porto, em sucessivas refeições partilhadas em nome e em memória de Jesus.

Dou-te a minha paz. E o meu afecto presbiteral. Mário

 

Vejo nesta mensagem, apesar de ofensiva, um sinal. Ela diz-me que alguma coisa está a mexer na Igreja do Porto, nomeadamente, no seu Presbitério. São anos e anos de ostracismo, o mais completo, que estarão a chegar ao fim. Por vezes, chego a ter a impressão de que o meu Pensar, o meu Falar e o meu Agir, como presbítero da Igreja do Porto, não chegam ao interior da Igreja, no seu todo. E terá sido assim, durante anos. Mas não será mais assim. Esta mensagem revela uma nova postura. O Evangelho que procuro anunciar e que tanto incomoda a Igreja que um dia me ordenou presbítero para eu o anunciar a tempo e fora de tempo, começa finalmente a mexer com a consciência de outros meus irmãos. Ainda não como ouvintes que o aceitam e se deixam interpelar, como seria desejável. Mas como ouvintes que se mostram incomodados, quase furiosos com ele e ostensivamente o recusam. Mesmo assim, já me alegro. Porque o pior de tudo é a indiferença, o cinismo, o autismo total. Reagir, nem que seja para agredir o mensageiro, já é sinal de alguma saúde. Mais um pouco de tempo, e a agressão pode passar para a atenção e, finalmente, para o acolhimento.

 

Por outro lado, a chegada por estes dias à Igreja do Porto de um novo Bispo, muito mais culto e ilustrado, também muito menos funcionário eclesiástico e muito mais atento aos Sinais dos Tempos, poderá proporcionar-nos um kairós, ou um tempo mais favorável ao Evangelho de Jesus. Se assim for (por mim, creio que assim vai ser), tudo passará a ser diferente.

 

Eu sei que há, logo à partida, um sério problema na diocese, mas até isso poderá vir a funcionar como uma oportunidade de libertação e de salvação. O problema é este: Os padres que hoje estão à frente das paróquias são quase todos de muita idade, já para lá da idade civil da reforma. São padres-párocos carregados de hábitos e de rotinas que já não mudarão mais. Morrerão assim. O Bispo será por isso um bispo sem cooperadores ordenados ao seu nível.

 

A minha esperança é que o Bispo Manuel Clemente encare esta situação como uma oportunidade, como uma vantagem, não como um problema. E que aposte tudo num novo modelo de Igreja não clerical, precisamente aquele modelo que o Concílio Vaticano II já apontou e escolheu. Deixe cair o modelo de Cristandade, materializado nas paróquias e nos clérigos-párocos, e invista tudo no modelo Comunidade de comunidades, centrado não nos párocos, mas no povo de Deus, no povo de baptizados, mulheres e homens, congregado pelo Espírito.

 

Semelhante opção passa inevitavelmente por a Igreja do Porto começar a dar toda a prioridade ao anúncio do Evangelho, que é também a principal missão do ministério episcopal. Que o bispo esqueça o culto rotineiro na sé catedral ou nas paróquias e corra a Diocese de lés-a-lés com o anúncio da Boa Notícia de Deus, o de Jesus, que não gosta de religião nem de cultos nos templos, mas de sororidade/fraternidade historicamente realizada, o outro nome de Política rectamente entendida.

Se ele o fizer, será um alvoroço na diocese e no país como nunca se viu. Desse anúncio, nascerão pequenas comunidades cristãs de base, sem clérigos-párocos, coordenadas e animadas por mulheres ou homens indistintamente, como num vivo Pentecostes, que reunirão longe dos templos e dos altares, na intimidade das casas das pessoas que façam sua a mesma Fé de Jesus, o de Nazaré.

 

Numa Igreja assim, de ministérios/serviços, não de Poder, de fermento na massa, não de massas, e sempre fecundamente política, estarei naturalmente activo e presente, porque, afinal, é por aí que tenho procurado andar, ao longo de todos estes anos, desde que, em boa hora, o ofício pastoral de pároco de Macieira da Lixa me foi arbitrariamente retirado pelo Bispo António Ferreira Gomes.

 

Aguardo, por isso, com fundada expectativa os próximos tempos. Se um tal kairós vier a suceder nesta nossa Igreja do Porto, esta mensagem, via e-mail, que ontem recebi do meu colega, ainda pároco, só na letra é que foi agressiva e ofensiva para comigo. Porque, no Espírito Santo, ela será, sem que o meu colega o saiba, um pequeno-grande Sinal de que estamos à beira duma grande mudança na Igreja do Porto. E do país. É também o que mais posso desejar!

 


 

2007 MARÇO 15

 

Decididamente, a Cúria romana e o papa Bento XVI parecem apostados em resistir ao Espírito Santo e em pecar sistematicamente contra  Ela/Ele. Prova cabal disso é o extenso documento Sacramentum Caritatis [Sacramento do Amor] que o papa acaba de assinar e publicar como doutrina oficial da Igreja católica sobre a Eucaristia, para ser acatada e praticada por todas as Igrejas locais espalhadas pelo mundo. O documento, se vier a ser acatado e praticado pela generalidade das Igrejas locais, o que duvido e desejo que não suceda, converterá ainda mais a Eucaristia num museu, porventura, muito respeitável, mas totalmente estéril, porque completamente à margem do ritmo da História e da caminhada da Humanidade para a plenitude da sua criação que, como facilmente se depreende, está toda no futuro e não no passado. O documento ainda chega a falar na implementação da justiça no mundo, nomeadamente no tocante à repartição por todos os povos da riqueza produzida, como um dos frutos maiores da celebração da Eucaristia, mas até essa oportuna referência não passará de mera retórica papal, se a Eucaristia for, ainda mais do que já é, concebida e celebrada segundo as regras que este documento cegamente pretende impor, daqui para a frente, a toda a Igreja.

 

Na verdade, a preocupação maior e quase exclusiva do documento do papa esgota-se toda nas normas litúrgicas a respeitar e a executar, o que reduz ainda mais a Missa católica romana a um rito obsoleto, dito de novo, a partir de agora, preferencialmente numa língua mais do que morta que é o latim, acompanhado ao som do canto gregoriano de outras épocas de má memória que, felizmente, já não voltam mais, presidido exclusivamente por ministros ordenados, os presbíteros e os bispos, todos absolutamente celibatários (nada de mulheres católicas neste ministério, nem homens casados), em altares preparados para o efeito, perante assembleias-faz-de-conta, porque sempre sem voz nem vez. Numa palavra, o documento do papa faz a Igreja católica regredir, a passos largos, para a situação anterior ao Concílio Vaticano II. Não é ainda o regresso completo ao pré-Concílio, mas é um grande passo nessa direcção. Um pouco mais de tempo e ainda voltaremos às missas com o padre de costas para a assembleia e a falar sozinho uma língua que ninguém entenderá.

 

Só que por este andar, nem os cerca de 20 por cento de católicos que, em Portugal, ainda têm pachorra para sair de casa ao domingo e ir participar num rito eclesiástico cada vez mais mumificado, aflitivamente esvaziado do fecundo e libertador Sopro de Jesus e por isso sem o mínimo de profecia, se manterão por muito mais tempo fiéis a esta estéril e rotineira prática social tipicamente católica. As novas gerações, hoje já a crescer fora da Igreja, encontrarão neste documento de Bento XVI mais um argumento para radicalizarem as suas posições de distanciamento e de indiferença, o que constituirá, não um sinal de alarme, mas um sinal de saúde da parte delas, ainda que, objectivamente, constitua um desastre completo para a Igreja católica enquanto tal. Deste modo, a Igreja católica confirmar-se-á cada vez mais como uma Igreja completamente fora do tempo, fora da História, porventura, uma referência museológica interessante, mas sem nada que faça dela, aqui e agora, a Maria Madalena-irmã-companheira-esposa-de-Jesus que a Igreja simbolicamente/sacramentalmente sempre deve ser, através dos tempo, capaz de suscitar generosidades e dedicações, as mais fecundas, entre os seres humanos que continuam a vir a este mundo. Pelo contrário, ao insistir na via imposta por este documento de Bento XVI, o mais que a Igreja católica poderá suscitar nos seres humanos que continuam a vir a este mundo é um estéril e inofensivo espanto, à semelhança do que as notícias dos dinossauros hoje suscitam em nós, seres humanos do século XXI.

 

Para cúmulo, o documento papal acabou por ser distribuído ao mesmo tempo que está a ser difundida em todo o mundo a má notícia de mais uma vítima da famigerada Congregação para a Doutrina da Fé, do Vaticano, essa mesma que, durante o pontificado de João Paulo II, foi administrada pela mão de ferro do então cardeal Ratzinger, hoje papa Bento XVI. A vítima, desta vez, é o teólogo da libertação mais conhecido e mais estudado no mundo das Igrejas cristãs, o padre jesuíta Jon Sobrino, por sinal, meu querido amigo e amigo do Jornal Fraternizar, um basco de quatro costados, por nascimento, mas há muitos anos radicado e naturalizado salvadorenho, na cidade capital de São Salvador, da empobrecida e violentada América Central. Nem o facto de se tratar de um mártir vivo (estava ele então em digressão pelos Estados Unidos da América, a proferir várias conferências, e só isso impediu que fosse massacrado juntamente com o padre Ellacuría e todos os outros seus irmãos jesuítas que leccionavam e residiam nas instalações da UCA, a Universidade centro-americana mais conhecida em todo o mundo) impediu a Cúria Romana de sair ao seu caminho como Caim contra Abel. Deveriam os cardeais da Cúria romana descalçar as sandálias e despojar-se das suas vestes de príncipes da Igreja, em sinal de respeito e de comunhão, mas está visto que eles não conhecem o Evangelho de Jesus, muito menos estão empenhados em ser discípulos de Jesus, apenas sucessores do governador do defunto Império Romano que o matou na cruz e agora, através deles, mata os discípulos, as discípulas dele, nomeadamente, os mais notórios. De resto, a sua simples existência como cardeais da Igreja constitui a negação pura e simples do Evangelho e de Jesus. Por isso, acabam sempre a fazer o que mais sabem, que só pode ser o contrário de Jesus. Como tal, não perdoam a Jon Sobrino que ele ainda esteja vivo e continue aí, aos 69/70 anos, a fazer Teologia com a força do Espírito de Jesus, como ele, na sua humildade e pobreza, tão bem sabe fazer. Pelos vistos, há uns anos a esta parte, têm-lhe dirigido, através da sua Cúria romana, sucessivas advertências para tentar perturbá-lo e desencorajá-lo. Em vão. E, agora, precisamente nestes dias que antecedem a Semana Santa da Páscoa 2007, decidiram ironicamente silenciá-lo por completo, pelo menos, naqueles espaços eclesiásticos ainda controlados por eles, felizmente, cada vez em menor número.

 

Resta, por isso, ao insigne teólogo Pe. Jon Sobrino, depois desta sanção eclesiástica, todo o nosso vasto mundo, a humanidade no seu todo. O que, bem vistas as coisas, nem será assim tão negativo para ele e para a Teologia de libertação que ele tão bem vive, reflecte e capta, a partir das vítimas. É até de crer que esta censura eclesiástica acabe por ter um efeito contrário ao pretendido pelo cardeais da Cúria Romana. Se assim for, a Teologia da libertação que Sobrino vive, reflecte, diz e escreve passará a ser muito mais lida e escutada pela Humanidade que, hoje, na sua esmagadora maioria, já não se revê nas posições museológicas provenientes dos cardeais de Roma. Contudo, a decisão da Cúria romana não deixa de constituir objectivamente mais um pecado contra o Espírito Santo, um pecado que contribuirá para a descredibilizar ainda mais e à nossa Igreja católica, já de si tão descredibilizada.

 

Por mim, prosseguirei com mais entusiasmo no caminho que estou a trilhar desde há muitos anos, como presbítero da Igreja que está no Porto e que tem muito mais a ver com o Caminho ou Via que Jesus abriu e em que acabou por se constituir para todos os seres humanos que o queiram ser em plenitude. Concretamente, prosseguirei como presbítero definitivamente longe dos templos e dos altares, longe dos ritos obsoletos que não têm a marca de Jesus, o de Nazaré, nem do seu Espírito, apenas a marca das religiões do Paganismo e do Judaísmo, nomeadamente, do livro do Levítico. Sempre em redor de Mesas comuns e partilhadas, nas quais se sentam pessoas de carne e osso, mulheres e homens, com as suas esperanças e as suas dores, as suas alegrias e as suas mágoas, os seus entusiasmos e as suas desilusões. Em refeições/assembleias conspirativas, nas quais os interesses dos poderosos e dos privilégios não têm entrada, nem sequer como ameaça que nos assuste e desmobilize.

 

São Eucaristias assim, em nome e em memória de Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império e o Ressuscitado pelo Deus Vivo, que é sempre o Deus das vítimas, que acabam por alimentar-nos como seres humanos, vacinam-nos contra as tentações do Templo e do Império, tornam-nos resistentes às suas seduções, ao mesmo tempo que frágeis mas fecundos sacramentos vivos de Jesus que, sem que ninguém dê por isso, fecundamente contestam/subvertem/enfraquecem a Ordem Mundial dos ricospoderosos e dos seus sacerdotes, e estimulam as suas inúmeras vítimas a distanciar-se cada vez mais deles, dos seus espectáculos, das suas religiões, das suas leis e das suas ordens.

 


 

2007 MARÇO 13

 

1. “Aqui estamos de novo reunidos em nome e em memória de Jesus. Em nome e em memória do Crucificado pelo Templo e pelo Império. Por isso, esta só pode ser uma reunião/assembleia conspirativa, subversiva, no mundo mas sem ser do mundo, na Ordem Mundial, mas sem ser da Ordem Mundial”. Foi com estas palavras que abri o encontro-celebração mensal da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa, realizado no passado domingo, 11 de Março, na Casa da Comunidade. A minha saudação/abertura do encontro prosseguiu assim:

“Só podemos ser uma assembleia pequenina e sem importância social. Se fosse uma assembleia para distribuir benesses, privilégios, dinheiro, lugares de honra, louvores, aplausos, benefícios, certamente, seríamos muitos. Conspirar, subverter é de poucos. E de pessoas tidas como insignificantes. As multidões gostam de deusas/deuses, bem à medida dos seus egoísmos, dos seus interesses e das suas ambições, assim como gostam dos ritos que forçam os deuses/as deusas a ser-lhes favoráveis. Mas não gostam de Deus Vivo, tão pouco de Jesus, o de Nazaré, que é o Caminho que nos leva a Ele. Quem é que gosta de ser companheiro, amigo, aliado, irmão de Jesus, o Crucificado/maldito pelo Templo e pelo Império?

As multidões gostam é dos grandes, dos poderosos, dos ricos, dos sacerdotes que estão à frente de grandes santuários, assim como gostam dos párocos e dos bispos residenciais com poder e riqueza, numa palavra, de todos os que vivem acima delas e que podem valer-lhes alguma vez, se elas conseguirem chegar até eles por meio de cunhas, de intermediários.

Já os que conspiram contra a Ordem Mundial abençoada pelo Templo e imposta/defendida pelo Império não valem nada aos olhos das multidões, serão sempre muito poucos e olhados com suspeição, sem qualquer peso social para elas poderem obter empregos e outros favores através deles. Para subir em grandezas e em riqueza não falta quem se aliste. Para descer, tornar-se pobre por opção e partilhar os seus bens, inscrevem-se sempre muito poucos ou nenhuns. E mesmo os que começam por alinhar com algum entusiasmo, na hora da verdade, fogem todos.

Vejam o paradigmático comportamento dos “Doze” que Jesus escolheu para andarem com ele e cooperarem na sua Missão de Evangelizar os pobres e libertar os oprimidos. Na hora da verdade, quando Jesus foi preso, julgado, condenado à morte e executado como o maldito dos malditos, fugiram todos e deixaram-no sozinho. Conspirar, subverter, resistir à Ordem Mundial e aos seus grandes senhores é de muito poucos. Já seremos deste número? Cada qual é que sabe. Auto-analisemo-nos e estejamos vigilantes.

Uma coisa eu sei: Jesus é o Caminho que havemos de seguir/praticar para nos tornarmos plenamente humanos. Fora dele, pode haver Templo e Império, privilégios, bom-nome, sucesso, honrarias, riquezas, mas não há seres humanos em plenitude, não há conspiradores, não há subversivos. Não há irmãs/irmãos universais. Apenas funcionários, com ou sem farda.

Aqui estamos em nome e em memória de Jesus, o Crucificado. Sabemos que somos dele, se também nos odeiam, nos detestam, nos escarram no rosto, como lhe fizeram a ele, não por sermos perversos/mentirosos, mas por combatermos a Perversão/Mentira institucionalizada que se faz passar por Ordem Mundial instituída por Deus. E, sobretudo, por prosseguirmos, hoje e aqui, oportuna e inoportunamente, a mesma Missão profética/política de Jesus.”

 

2. Eu bem lhes tinha dito, aquando do início da Guerra no Iraque, que Bush e Blair eram assassinos. Houve pessoas que até estremeceram, quando leram esta minha afirmação/denúncia. Mas já então eu não tive dúvidas. Desencadear uma guerra naquelas circunstâncias em que a Guerra do Iraque foi desencadeada, só mesmo de assassinos. Hoje, já ninguém pode ter mais dúvidas, sobretudo depois da denúncia que acaba de ser feita pelo responsável da Comissão das Nações Unidas que então inspeccionou o Iraque de ponta a ponta e concluiu que não havia armas de destruição maciça. O relatório final dessa Comissão afirmou que assim era. Mas sabem o que fizeram Bush e Blair para justificarem o desencadear da Guerra no Iraque? Alteraram o relatório da Comissão. Onde estavam pontos de interrogação, reveladores de dúvidas fundamentadas, colocaram pontos de exclamação, reveladores de certezas absolutas. Só agora foi descoberta/denunciada a marosca dos dois dirigentes ocidentais. São ou não são uns pulhas? São ou não são mil vezes piores do que raposas? São ou não são assassinos profissionais, disfarçados de dirigentes de países?

Ao rei Herodes, do seu tempo e país, Jesus chegou a chamar “raposa” (“ide dizer a essa raposa…”). O que chamaria hoje a Bush e Blair, depois do que eles foram capazes? Mais do que assassinos, são genocidas.

O mais espantoso é que a notícia circula estes dias por todos os media e, mesmo assim, nada acontece a Bush e Blair. Um e outro metem a viola ao saco e prosseguem nos seus lugares de dirigentes como se nada fosse. Como é possível? Onde estão os americanos e os ingleses? Onde os cidadãos, as cidadãs do mundo? Então sabemos que estamos a ser governados por assassinos, por genocidas e não nos importamos? Não fazemos parar em protesto os países onde vivemos? Não exigimos a sua prisão e o julgamento? Consentimos que fiquem impunes? Gostamos de ser governados por assassinos?

E pensar que por muito menos Saddam Hussein foi preso, julgado numa farsa de julgamento e enforcado. Ai Ocidente! Ai Europa! E ainda há quem queira que se reconheçam as raízes cristãs nas suas origens. Até haverá raízes cristãs. Mas de um Cristo que tem tudo de Mentira e de Assassínio, nada de Jesus, o de Nazaré. Por mim, sempre soube que Cristos há muitos, mas que Jesus, o de Nazaré, só há um, o Crucificado/Ressuscitado. É por ele que vou. Porque é o único que me faz ser plenamente humano.

 

3. Acaba de ser encontrada, ao cabo de um ano, a menina que havia sido raptada do Hospital de Penafiel. A mãe da menina, uma mulher manifestamente pobre e não ilustrada, anda agora a ser mostrada em todos os canais de televisão e é fotografia de capa em quase todos os jornais de hoje. Se a foto é da casa onde vive a família da menina raptada, lá aparece também a imagem da senhora de Fátima ao lado da mãe. Não creio que seja mera coincidência. Só pode ser sugestão dos repórteres de serviço. O que empresta ainda mais impacto à afirmação da mãe que diz que há-de ir a Fátima a pé com a menina ao colo, para agradecer por a sua filhinha ter aparecido. Não sei se repararam que no seu rosto de mãe e de mulher. Sorri de cabo a rabo. Mas é um sorriso carregado de tristeza, de humilhação, de miséria, de ostracismo. Como a dizer, de forma pungente, que desgraças destas só acontecem aos pobres.

Dói-me a alma. Quem há-de segurar a mão dos repórteres? Em nome de que princípio se pode devassar assim a vida privada duma família pobre? Parecem vampiros sobre a sua presa. Caçadores que exibem o seu troféu. Fazem espectáculo com a pobreza dos pobres. Há perdão para este crime? Todo o país já sabe que esta mãe pobre vai a Fátima a pé com a filhinha reencontrada ao colo. A humilhação de ter prometido e de ir cumprir a promessa é ainda maior, pelo facto de ter sido publicitada.

Já é uma crueldade haver senhora de Fátima. Já é uma crueldade haver santuário de Fátima. Já é uma crueldade alguém aflito fazer promessas à senhora de Fátima. Já é uma crueldade ir alguém a pé estrada fora, um dia após outro, como pagador(a) de promessas. Mas será uma crueldade sem nome, se a televisão que anuncia tudo isto, ainda por cima for acompanhar a mãe em causa, quando ela (não haverá quem a demova de semelhante humilhação?!) meter pés a caminho com a filha finalmente reencontrada, graças ao aturado trabalho da Judiciária e, finalmente, à coragem duma cunhada da raptora que discretamente alertou a Polícia.

Maldita senhora de Fátima que leva as populações pobres e não ilustradas a tamanha humilhação. Maldito santuário que se mantém de pé e aberto para alimentar tamanha humilhação popular. Como pode ir para a frente, em dignidade humana e em desenvolvimento integral, um país que alimenta no seu seio um santuário como o de Fátima? Pobre povo que tem tal clero fatimista ao seu serviço! Mas então não sabemos, já, que aquilo em Fátima é tudo mentira e crime, e um insulto permanente a Maria de Nazaré, a mãe de Jesus?

 


 

2007 MARÇO 10

 

Já tínhamos tido a traumática experiência Cavaco, com duas maiorias absolutas. Deu no que deu. Um Salazar requentado, tão estéril quanto o original. Até a mesma voz aflautada, a fazer lembrar fantasmas. Sem qualquer afecto. Sem o mais leve toque de ternura. Um robot em toda sua rigidez e fealdade. Temos agora uma nova maioria absoluta em acção, e já a preparar-se para mais uma outra, depois desta. É a traumática experiência Sócrates. Com a agravante de que esta nova edição requentada do Salazar original já não se apresenta ao estilo duma toupeira, longe dos holofotes e dos olhares das populações, como os duas edições anteriores. Pelo contrário, movimenta-se totalmente à vontade nas televisões e entre os executivos europeus e mundiais, sempre com aquele ar de quem tem a última palavra sobre todos os pontos da agenda. Além disso, cuida do seu físico como poucos e faz questão de o mostrar a toda a gente; dá-se ares de erudito, com as citações que faz a propósito de tudo e de nada, como se ser papagaio fosse sinónimo de ser culto. E, para cúmulo, ainda tem na presidência da República o seu Carmona à civil, precisamente o Cavaco das duas traumáticas maiorias absolutas anteriores, que acha bem (pudera!) tudo o que o actual presidente do Conselho de ministros decide e faz, ou, pelo menos, faz questão de nos dizer a toda a hora que faz. E faz. Não, evidentemente, o que diz que faz, mas o que não diz e nem quer que se saiba que faz. Vejam como cada dia que passa, ele concentra cada vez mais poder nas suas mãos. O seu cérebro está programado como um o do robot, para vir a ter todo o poder. É isso que ele almeja e está disposto a conseguir. O Poder absoluto, num regime oficialmente democrático! Por isso, com todos os grandes media ao seu serviço e ao serviço dos seus objectivos, como se os seus objectivos coincidissem com os das populações. Já notaram que até os seus ministros lhe têm medo? Comportam-se cada vez mais como meninos dos bancos de escola, da escola antiga. Dias virão em que ele presidirá ao conselho de ministros com a palmatória de cinco olhos na sua secretária. Olhar fulminante de víbora que se prepara para apanhar a sua presa, já ele tem e, com ele, mete na ordem o mais rezingão. Digo-o, evidentemente, em jeito de análise política e teológica, não em jeito de ataque pessoal. O cidadão Sócrates, se ainda pudéssemos voltar a tê-lo, seria sempre outra realidade. Largue Sócrates o poder, desista de ser o que tanto quer ser, regresse à categoria de cidadão comum e teremos de novo homem. Assim, temos Salazar em nova e sofisticada edição. Determinado quanto o original, ou mais. Mais autista. Autoritário. Cruel. Deixem-no andar e verão até onde ele é capaz de chegar. Os ditadores começam assim. Adulados. Idolatrados. Aplaudidos. Os cortesãos são cada vez mais numerosos, quando pressentem que está a desenvolver-se um ditador, agora, sob a aparência de democracia!... Já é aqui que estamos.

 

A juntar a tudo isto, ainda apareceu neste contexto a RTP a servir-nos o velho ditador Salazar, arrancado do baú dos mortos pela mão de Maria Elisa, a propósito de um concurso importado do estrangeiro que dá pelo parolo título de “Grandes portugueses”, como a sugerir, logo de início, que a escolha dos votantes caísse no nome do velho ditador (todos os grandes salvadores foram grandes ditadores, todos os grandes ditadores foram grandes salvadores), que é, como se sabe, do que as populações não ilustradas e não evangelizadas mais gostam, como compensação pela pequenez dos seus duros e rotineiros quotidianos: – grandes Ditadores, grandes Aldrabões, grandes Exploradores, grandes Piratas, grandes Conquistadores, grandes Generais, grandes Papas, grandes Deuses, grandes Benfeitores, grandes Demagogos (e não está já aí de novo a preparar-se para regressar ao circo partidário o maior de todos os demagogos, verdadeiro malabarista da política, Paulo Portas? E já não temos aí também todos os domingos na RTP o seu dídimo ou irmão gémeo, Marcelo Rebelo de Sousa?). A RTP nem se inibiu de, a pretexto do concurso, inundar as cidades do país com cartazes do velho Salazar, acompanhados da pergunta: Salvador ou ditador? E as populações que, em eleições ditas livres e democráticas, votaram a deprimente situação em que se encontra hoje o país, em lugar de baterem no peito de arrependidas e mobilizarem-se todas para rapidamente emendarem a mão, insistem em dizer que estão satisfeitas com os dois Salazares requentados que estão de pedra e cal nos dois lugares de maior responsabilidade política do país, ao mesmo tempo que não arredam pé dos grandes estádios, a aplaudir e a gritar, como quem toma overdoses de ópio, jogos e mais jogos de futebol, todos eles maquiavelicamente concebidos e realizados para nos levarem a gostar de ditaduras e de ditadores, uma vez que também no relvado e durante os 90 minutos de jogo (um jogo, uma vida; 90 minutos, 90 anos duma vida, ou 80, ou 70, ou 60, pouco importa), quem tudo decide é um árbitro com poderes absolutos e ditatoriais, sem nunca se dar qualquer oportunidade ao exercício do contraditório, mesmo que as decisões dele sejam aberrantemente erradas. Ora, nada disto é ideologicamente inocente, muito menos acontece por acaso. Pelo contrário, até o que parece ser um simples jogo de futebol, um passatempo ou entretenimento anda, afinal, carregado de veneno ideológico, todo ele favorável aos regimes autoritários e ditatoriais.

 

Salazar anda, pois, aí como realidade, como ideologia, não apenas como inofensivo fantasma. Está a ser-nos servido a toda a hora e momento, sem que as populações se dêem conta disso. E tudo é feito com ponto e medida. Porque, como adverte Jesus, o de Nazaré, “os filhos das trevas são mais hábeis nos seus negócios do que os filhos da luz”. Depois, a juntar a tudo isto, ainda vem, desde 1917, a aberrante imagem da senhora de Fátima, feita, também ela, à medida da nossa mediocridade nacional e do nosso analfabetismo cultural e político endémico, rodeada, nos grandes dias do seu idolátrico culto, do seu cortejo de clérigos celibatários à força, todos obrigatoriamente vestidos de túnicas brancas da cabeça aos pés, como se fossem mulheres-fantasma, sem sexo e sem formas femininas, a negação ambulante de todo o erótico e de toda a fantasia, o mesmo é dizer, a negação ao vivo de toda a salutar subversão, de toda a fecunda irreverência e de toda a festiva rebeldia revolucionária. No fim e como resultado de tudo isto, só podemos ser o que sempre temos sido desde o berço da nacionalidade, um Portugal de pequeninos, de oprimidos, de deprimidos, de esmagados, de prisioneiros, de vassalos, de chicoespertos, de anzoneiros, de candongueiros, de habilidosos, de subservientes, de mesquinhos, de velhos do Restelo.

 

Nem o 25 de Abril foi capaz de ir à raiz do país que somos. Chamamos-lhe revolução. E foi, mas à nossa medida. À medida da nossa mediocridade. Até na revolução o somos pouco. Bastam-nos as aparências, o faz de conta. E o 25 de Abril 1974 foi uma revolução faz de conta. Antes dele, a implantação da República tinha sido muito mais a doer. Mas depressa estiolou. Os interesses de alguns comeram-na e ela depressa secou. Para cúmulo, os seus “pais”, depois do triunfo, esqueceram-se de desarmar o exército clerical que, desde antes da fundação de Portugal, domina(va) e controla(va) a consciência das populações (hoje, felizmente, já não é tanto assim, como ficou bem provado no recente referendo à Lei de despenalização do aborto). Falo, não de armas como as dos militares, mas de outras armas bem mais mortíferas que aquelas, as armas do Moralismo e da Ideologia conservadora, as armas do Medo e dos Símbolos religiosos, que os clérigos celibatários manipulam como ninguém. Tiraram-lhes, na altura, muito do seu excessivo património material. Tiraram-lhes muitos privilégios. Tiraram-lhes a protecção do Estado, com a publicação da Lei de Separação da Igreja e do Estado. Mas não os desarmaram, muito menos, os ganharam para a causa da Revolução e da Liberdade. E eles, quais adolescentes ofendidos por certos episódios mais caricatos que exemplares, minaram tudo pela calada. As populações, era a eles que escutavam todos os domingos e dias santos, para não dizer, dia e noite, todos os dias. Eles é que viviam próximos delas. Conheciam-nas pelo nome. Cada aldeia, um pároco, um templo, um confessionário, uma catequese. Não, como seria desejável, uma casa ou um Barracão de Cultura. E, como se não bastasse, alguns dos clérigos da região centro do país, do concelho de Ourém, cozinharam a marosca das maroscas, a Mentira maior da história de Portugal, a aparição duma nossa senhora em Fátima. O embuste é total, dado que se trata duma impossibilidade teológica absoluta, mas, naquele contexto de crendice generalizada no país e na Europa, acompanhada da 1.ª Guerra Mundial com muitos portugueses envolvidos nela, e perante a inabilidade dos intelectuais e dos líderes políticos da República recém-implantada, acabou por se impor como verdade. É hoje a nossa maior vergonha, enquanto país e enquanto Igreja católica. Não concordam? Haja um pouco mais de lucidez, de desenvolvimento cultural, de ilustração e, sobretudo, de desenvolvimento teológico jesuânico e de Evangelho, e haveremos de ser os primeiros a afastar-nos de tudo aquilo. Em nome da dignidade humana. E da sanidade mental. Por enquanto, é o domínio e o poder das Trevas, da Idade Média, a entrar terceiro milénio além!

 

Quero dizer-vos que, por tudo isto, é noite, no país. Ao menos, aproveitemo-la, não para dormir, mas para reunir e conspirar. O revolucionário que é sábio e não um pouco tonto, como as virgens tontas da parábola evangélica de Mateus, sabem que nunca devem fazer o que o Inimigo quer, no caso presente, o que o Salazar requentado, nos seus dois rostos, Cavaco e Sócrates, quer que façamos. Nunca lhe demos esse gosto. É preciso trabalhar incansavelmente as populações e com as populações, para que elas emendem a mão do erro político que cometeram, e mudem radicalmente o país. É mais do que tempo de sermos um país decente.

 

Podemos e devemos contribuir decisivamente para que se aproxime a Madrugada (somos filhos da Madrugada, lembram-se?!) e, com ela, o Nascer do Novo dia, que será também o primeiro do resto das nossas vidas como povo e como país. Não nos deixemos adormecer. Nem anestesiar. Conspiremos. É a hora.

 


 

2007 MARÇO 06

 

1. De repente, o silêncio eclesiástico, logo após o ensurdecedor barulho eclesiástico que antecedeu o referendo do passado dia 11 de Fevereiro. Mas será que não houve referendo? Ou será que o SIM que venceu e agora, dentro de poucas semanas, vai passar a ser lei já não é mais, afinal, o infanticídio em massa que os da Igreja católica diziam que era? Por mim, já previa que assim viria a suceder e assim está a suceder. Felizmente. Mas como se explica semelhante mudança de comportamento nas hostes católicas romanas? A hierarquia portuguesa da Igreja católica fez até ao dia do referendo o que a Cúria romana sempre quer que as hierarquias católicas de cada país façam em decisões do género, e, por isso, apareceu em força a defender acerrimamente uma causa que, em boa verdade, nem os bispos nem os respectivos párocos, um a um, defendem. A previsível e agora consumada aceitação da derrota no referendo tem, por isso, algo de patético. Revela que os próprios derrotados estão tacitamente satisfeitos com a vitória do SIM à lei de despenalização do aborto, enquanto vitória do bom senso e do humanismo. Tudo o que os bispos, os párocos e as leigas/os leigos arregimentados por eles andaram para aí a dizer boca fora não passou, afinal, de encenada hipocrisia eclesiástica. Nem eles acreditavam no que diziam. Talvez por isso é que exageravam tanto nos dados que forneciam, numa acção de puro terrorismo católico, não de partilha de informação objectiva, em ordem a uma séria reflexão, por parte das populações.

 

Pudessem os bispos e os párocos despir a farda de funcionário eclesiástico que um dia foram levados a vestir como se fosse uma opção pessoal (o mais sibilino desta imposição é que ela faz-se passar aos olhos dos próprios como opção livre e pessoal, quando é imposição!); pudessem todos eles pronunciar-se como simples seres humanos livres e responsáveis, e de certeza não teríamos assistido àqueles espectáculos públicos de moralismo de causar náuseas e vómitos. Lá no fundo, todos eles acabaram por perceber, pelo menos, no decorrer da campanha, que as posições que tão acérrima e estupidamente defendiam não tinham pés para andar, eram posições reveladoras de desumanidade, nos antípodas da Misericórdia política praticada por Jesus, o de Nazaré, e nos antípodas do respeito pela consciência de cada pessoa, nomeadamente, de cada mulher grávida.

 

Faltou-lhes a todos a coragem para serem simplesmente humanos. Mantiveram-se, para seu mal, no que ainda são: funcionários eclesiásticos. Por isso ainda não foi desta que nos deram a alegria de os vermos passar de funcionários a seres humanos. Preferiram, no seu conjunto, continuar a comer do altar, em lugar de se atreverem a nascer de novo e assumir-se como seres humanos simplesmente que nunca deveriam ter deixado de ser, sobretudo, a partir daquele dia em que foram ordenados bispos e presbíteros; que outra coisa não pode pretender o sacramento da Ordem, enquanto Acção do Espírito de Jesus ressuscitado, no seio da sua Igreja. Bem sei que é mais fácil e mais tentador para todos eles continuar a ser funcionários eclesiásticos, em lugar de seres humanos. Mas essa é a sua desgraça.

 

Felizmente, a sociedade civil avançou, à revelia dos bispos e dos párocos católicos e a Assembleia da República vai agora avançar também com a aprovação/regulamentação da nova lei da despenalização do aborto, enquanto eles tacitamente metem a viola ao saco, como se nada fosse com eles. Prosseguem entretidos, por estes chuvosos e frios dias do mês de Março, com as suas coisitas eclesiásticas sem sentido, como se a vitória do SIM não tivesse sido um tsunami para eles e para as suas retrógradas posições em matéria de bioética. Efectivamente foi, mas a verdade é que os bispos e os párocos adaptaram-se de imediato à nova situação e, nestes dias que são de Quaresma para eles, pelo menos, no dizer do calendário litúrgico pelo qual insensatamente continuam a regular-se, é vê-los inteiramente às voltas com jejuns e abstinências, vias-sacras e confissões auriculares, sacrifícios e outras tristezas do género que já não têm hoje e aqui qualquer sentido e contra os quais até o próprio Jesus, há mais de dois mil anos, se insurgiu vivamente, mas que, pelos vistos, ainda é o que eles mais sabem fazer e por isso fazem até à exaustão com aquelas pessoas, cada vez menos, que tiverem o azar de lhes cair nas mãos! De resto, o que iriam os eclesiásticos fazer, se lhes tirassem estas ocupações que vêm dos séculos em que eles é que mandavam na sociedade, quando a Cristandade Ocidental estava aí de pedra e cal? Foram tempos áureos, esses, para os bispos e os frades, também para os párocos que tinham as populações subjugadas e disponíveis como seus clientes, quase a tempo integral, como agora elas o são dos grandes centros comerciais, das grandes superfícies e dos grandes estádios de futebol geridos por hábeis SADs cada vez mais transformadas em Sociedades Anónimas Demenciadoras das populações.

 

Felizmente, já vem aí a caminho o tempo em que as populações serão muito mais cultas e sábias e deixarão progressivamente às moscas todos esses locais concebidos e postos a funcionar por minorias endinheiradas e poderosas, com o fim de as explorarem e alienarem, de modo que nunca cheguem a encontrar-se a si próprias, muito menos, sejam populações dotadas de consciência crítica e donas dos próprios destinos. Ainda não chegamos a esse novo Tempo, mas já vamos a caminho, por mais que os poderes do Obscurantismo e da Inumanidade trabalhem para o impedir. O mais que podem conseguir é atrasar a sua chegada em força, que não a sua chegada efectiva em força. Esse, quando chegar, será finalmente o Tempo dos Seres Humanos. E assim como hoje os eclesiásticos católicos já estão a ficar sem clientes, com templos e santuários cada vez mais às moscas e cada vez mais transformados em casas de comércio e espaços de turismo religioso de incrível mau gosto, também os donos das grandes superfícies e dos estádios de futebol-SAD hão-de chorar de raiva e de desespero, ao ver estes seus enormes espaços progressivamente às moscas. A intensa e massacrante publicidade actual ainda está a resultar com populações que, durante séculos e séculos, não puderam deixar de ser carne para santuário e para religião, pois nasciam e viviam quase só para suportar/entreter/financiar clérigos aburguesados, bem comidos e bem bebidos. Os novos tempos que se aproximam não serão mais assim e a verdade é que as populações hoje já começam a cair na conta de que sem elas não haverá nada para ninguém. O que sucederá então quando forem elas a decidir e a comandar os seus próprios destinos? Como eu anseio pela chegada desse Tempo! E é já nele que tenho os pés e o corpo todo.

 

 

2. Aqui em Macieira da Lixa onde resido, o nosso pequeno Barracão de Cultura, já desafiadoramente levantado no campo que nos foi doado para esse fim por Maria Laura e os seus três filhos, mas ainda só na 1.ª fase, a fase de pedreiro (já tem cobertura, mas ainda não tem portas nem janelas e as paredes também continuam à espera de serem revestidas de massa…) é, desde o primeiro momento da sua concepção no coração da pequenina Comunidade Cristã de Base local que lhe está na origem o Sinal/Sacramento deste novo Tempo por cuja chegada tanto me tenho batido, como presbítero da Igreja do Porto, mediante acções, as mais diversas, todas no âmbito da Acção maior que me compete e que dá pelo nome de Evangelizar os pobres. Não é por acaso que este Sinal/Sacramento está a ganhar forma nesta pequena aldeia do interior do concelho de Felgueiras, onde, há mais de trinta anos, aconteceu uma epifania de Deus que não coincidia praticamente em nada com o Deus da Cristandade Ocidental, ainda que não fosse de modo algum estranho ao da Igreja do Concílio Vaticano II, iniciado em Roma no mesmo ano em que fui ordenado presbítero. Como tenho dito e não me cansarei de repetir, foi a epifania do mesmo Deus de Jesus, o de Nazaré, que, já muitos séculos antes, havia começado a revelar-se também a Moisés no Egipto dos faraós, como aquele Deus conspirativo que gosta de Política e não de Religião, entendida a Política como Jesus sempre a praticou até ao martírio, a Política feita de entrega da própria vida pela vida dos povos e do mundo, e não como criminosamente sempre a têm entendido e praticado os do Poder e dos privilégios, tanto os faraós do Egipto e os Césares de Roma, no passado, como, no presente, a administração do Império norte-americano e todos os partidos políticos dos diferentes países ditos democráticos que todos os dias se degladiam uns contra os outros nas nossas praças e instituições públicas transformadas por isso em arenas de luta pelo Poder e pelos Privilégios, em lugar de luta pelo progressivo protagonismo das populações e dos povos na gestão directa da totalidade dos recursos indispensáveis ao desenvolvimento da vida e da sociedade, sem discriminação de ninguém nem de nenhum povo.

 

O pequenino Sinal/Sacramento precisou de 62 mil euros para chegar ao ponto em que já se encontra. E para ficar minimamente operacional carece, pelo menos, de mais 100 mil euros, no total. Das bandas das instituições oficiais, Ministério da Cultura e Câmara Municipal, não temos tido qualquer apoio em dinheiro. Apenas a autarquia de Felgueiras tem isentado a Associação AS FORMIGAS das taxas devidas à aprovação do projecto e à concessão do Alvará. O que é manifestamente pouco. Da parte das populações de Macieira e das freguesias em redor, os apoios em dinheiro também são quase nenhuns. Como não somos poder, nem sequer eclesiástico, as populações sentem-se mais à vontade para permanecerem de longe a ver até onde é que a nossa pequena Associação é capaz de ir. E não se envolvem. A Associação também decidiu não mendigar apoios financeiros de porta em porta. Todas as ofertas e partilhas de bens são bem-vindas, evidentemente, mas terão que ser livres e feitas com convicção. Não sob pressão deste ou daquele cacique local! A verdade é que, quando as coisas são postas nestes termos, aliás, os únicos verdadeiramente humanos e jesuânicos, as populações na sua esmagadora maioria não dão um passo sequer na partilha do seu dinheiro. Muito menos se dispõem a dar passos concretos para ajudarem a concretizar um projecto como este, libertadoramente cultural.

 

Resta-nos, pois, confiar nas pessoas amigas e companheiras que vivem espalhadas pelo país e pelo mundo. Quero dizer-lhes que precisamos de encontrar, no mínimo, 100 pessoas que vibrem com este nosso projecto e com este Sinal/Sacramento. Basta que cada uma delas faça um jejum de 1000 euros, este ano. Um jejum a favor desta Causa, deste projecto de cultura, deste Sinal/Sacramento de libertação. Cem pessoas. Em teoria, parece mais do que viável. Cada pessoa, se puder, poderá partilhar por duas, três, cinco ou até mais pessoas. Uma só pessoa, daquelas que dispõem de muitos milhares ou milhões no banco, poderia avançar sozinha e partilhar os 100 mil euros na totalidade. Assim como várias pessoas, de poucos recursos materiais, poderão juntar-se entre si até conseguirem fazer os 1000 euros a partilhar. Ficará ao critério de cada qual. No diálogo com a própria consciência.

 

Quem avançará nos próximos dias, nas próximas semanas, nos próximos meses? É um jejum que agrada mais a Deus, o de Jesus, do que todos os jejuns eclesiásticos tradicionais, ou as abstinências de carne às refeições. Queremos erguer nesta pequena aldeia do interior este Sinal/Sacramento de libertação. O Pão da Cultura é o que anda mais carregado do Sopro ou Espírito de Jesus. Um povo que abre os olhos é bem aquele homem da parábola que nasceu cego e que passou a ver por intervenção directa de Jesus. Não se tratou de um cego no sentido físico. No relato do Evangelho de João (capítulo 9), ele está pelo povo a quem os do Poder e dos Privilégios que geralmente estão à frente das instituições do Estado, do Templo e da Sociedade mantêm em estado de menoridade, geração após geração. Foi o que fizeram também os da Cristandade Ocidental, durante os últimos 16 séculos, numa prolongada  Idade Média que parecia não ter fim. Foi um pecado sem perdão e um crime de lesa-Humanidade e que levou ao ateísmo generalizado que hoje conhecemos. É dessa situação que queremos tirar as populações. O Barracão de Cultura é o Sinal/Sacramento que, depois de erguido e posto a funcionar, anunciará ao país e ao mundo que é por aqui que todas as populações haverão de ir, para que cheguem a ser populações adultas, esclarecidas, lúcidas, cultas, sábias, protagonistas, autodeterminadas, senhoras dos próprios destinos, com uma prática de liberdade cada vez mais materializada na sororidade/fraternidade universal, rumo a uma só família que inclua todos os povos de todas as línguas, cores e tradições.

 

O que decide fazer a minha irmã, o meu irmão, agora que acaba de ler esta minha reflexão/informação? Vem ao nosso encontro com a sua partilha? Vai meter-se a fazer este jejum em prol da Cultura e do Barracão de Cultura? Saiba que o que quer que faça, pelo menos, duas coisas tem desde já garantidas: o meu afecto presbiteral. E a minha Paz.

 


 

2007 MARÇO 02

 

Jesus volta a estar na berlinda. Agora é um documentário cinematográfico, assinado pelo mesmo realizador de Titanic, que tenta pôr em questão o que há de verdadeiramente essencial no Cristianismo, a ressurreição de Jesus. O argumento de peso a favor desta hipótese mirabolante, apresentada com todo o ar de tese, pelo menos no pensar-dizer da publicidade mundial que está a ser feita ao documentário é este: foi encontrado em Jerusalém um túmulo do século primeiro com restos de humanos que podem muito bem ser duma família judia. Os nomes inscritos no túmulo constam do Novo Testamento e remetem-nos para a possibilidade de serem da família de Jesus, inclusive, de um filho de Jesus e de Maria Madalena, chamado Judas.

 

É logo de suspeitar que o “picante” em toda esta estória não residirá tanto no "facto" ressurreição de Jesus poder ser definitivamente posto em causa, ao jeito de quem diz: se existe um túmulo com restos mortais de Jesus e familiares de Jesus, isso é a prova provada de que Jesus, afinal, não ressuscitou. (Vejam só que argumento mais bobo, este, como se a ressurreição de Jesus pudesse ser entendida como a simples reanimação do cadáver de Jesus, quando ela o que pretende é revelar/anunciar uma dimensão totalmente outra de Jesus crucificado, que o Templo e o Império que o mataram nem sequer são capazes de suspeitar, muito menos reconhecer). O “picante” em toda esta estória estará em querer saber se Jesus andou ou não perdido de amores com Maria Madalena, se ambos chegaram a casar e se, inclusive, tiveram um filho. O Código Da Vinci foi, se bem se lembram, o maior divulgador desta delirante hipótese, o que garantiu ao seu hábil inventor, Dan Brown, milhões e milhões de dólares de lucro e deixou um enorme amargo de boca nos milhões de incautos em todo o mundo ocidental que caíram no engodo e correram a comprar e a ler o seu romance como se de um livro de história se tratasse, e só depois é que se deram conta de que, afinal, haviam sido levados e bem levados, porque tudo aquilo não passa de um romance, uma obra de ficção. Viram-se então na desconfortada situação dos hilariantes “apanhados” televisivos. Só que aqui com graves danos morais e emocionais para as inúmeras vítimas desta sofisticada versão século XXI do conto do vigário.

 

Saibam, a propósito de todo este “picante”, que nem sequer os relatos evangélicos do Novo Testamento, absolutamente essenciais para podermos compreender a “alma” de Jesus e o seu projecto político do Reino de Deus, escondem que entre ele e Maria Madalena há uma relação muito especial. Pelo contrário, apresentam-na até como paradigmática para todos os futuros discípulos de Jesus, elas e eles. Por isso, dão-lhe ainda muito mais destaque do que à relação entre Jesus e Maria, sua mãe carnal. Esta também aparece realçada, mas bastante menos e quase sempre de modo negativo. Enquanto na relação entre Jesus e Maria Madalena há manifestamente companheirismo e comunhão de projecto, total identidade de pontos de vista e franco entendimento, inclusive ao nível da indispensável partilha de bens destinada a apoiar e a possibilitar a acção libertadora e misericordiosa de Jesus (cf. Lucas 8, 1-3), já entre Jesus e Maria, sua mãe, há manifesto desentendimento, distanciamento, total desacordo no projecto e na acção, ao ponto de sua mãe chegar a liderar um grupo de irmãos de Jesus que, num dado momento crucial da vida militante dele, saem abruptamente ao seu encontro, determinados a detê-lo, na convicção de que ele só podia ter perdido por completo o juízo (cf. Marcos 3, 21; 31-35).

 

Foi a nossa Igreja católica, sobretudo depois que aceitou tornar-se constantiniana e imperial, a primeira a escandalizar-se com esta relação de intimidade e de total comunhão na acção entre Jesus e Maria Madalena, testemunhada nos Evangelhos canónicos de forma ainda mais acentuada do que, por exemplo, a pretensa “tese” do primado de Pedro, que a mesma Igreja constantiniana e imperial depressa aceitou e integrou, como se fosse uma manifestação do próprio querer de Jesus, quando efectivamente não é. Do seu querer é precisamente o contrário, e Jesus tem até o cuidado de dizer ao grupo dos Doze, sempre a sonhar com o poder e com os primeiros lugares, que jamais fossem como os chefes das nações e os grandes deste mundo, mas apenas simples servidores uns dos outros, uma vez que ele próprio viera não para ser servido mas para servir (cf. Marcos 10, 35-45). Foi também esta Igreja constantiniana e imperial que, a pretexto de que aquela relação de intimidade entre Jesus e Maria Madalena, de raiz indubitavelmente jesuânica, dificilmente poderia ser anunciada/acolhida no seio duma sociedade machista e patriarcal como era a do império romano e do mundo helénico, tudo fez para a silenciar e impedir que ela viesse a fazer caminho no seu interior, de modo que, assim, ela própria pudesse perpetuar-se no tempo como Igreja totalmente pensada e organizada à imagem e semelhança do Império romano e do seu Direito, e não ao jeito de Jesus, o de Nazaré, crucificado pelo Império e ao jeito do Evangelho.

 

Aliás, como poderia esta “nova” Igreja católica romana, nascida duma espúria aliança entre a sua cúpula e a cúpula do Império romano, dirigida por clérigos, simultaneamente privilegiados funcionários do Império romano, continuar a aceitar Jesus-Maria Madalena como o seu princípio fundador, como tão claramente o fazem, por exemplo, as Comunidades cristãs que estão na origem do Evangelho de João (cf. capítulo 20), se o relato desse princípio fundador da Igreja começa por anunciar urbi et orbi, a Jerusalém e ao Império, como definitivamente vivo, aquele que acabara de ser crucificado pelo Templo e pelo Império e deixa claro que ele nunca mais sairá da História, até que esta chegue a ser Reino de Deus em plenitude? Como é que semelhante boa notícia fundadora da Igreja podia fazer o seu curso no interior duma Igreja, como a de Roma, que havia caído na tentação de se tornar constantiniana e imperial, bem ao jeito de César e não mais ao jeito de Jesus, o crucificado por ele e ressuscitado por Deus, o-que-vive?

 

Pois bem, foi a partir desta histórica traição ao Evangelho, bem pior do que a traição atribuída a Judas Iscariotes, que se inventaram e escreveram as piores coisas acerca de Maria Madalena, como se a vida privada dela antes de ter conhecido Jesus, tivesse sido de prostituição, a mais incontrolada e refinada (saibam que os "sete demónios" dos quais se diz que Jesus a libertou não são, como ensinam as catequeses moralistas eclesiásticas, a totalidade da Perversão. Os "demónios" representam a totalidade do Medo, todos os Medos conscientes e sobretudo inconscientes que oprimem e condicionam o viver histórico de cada ser humano que vem a este mundo e que, enquanto não forem "expulsos", não nos deixam ser nós próprios. O que o relato evangélico quer então dizer com esta referência é uma boa notícia a respeito de Maria Madalena, concretamente, que, depois que ela se encontrou com Jesus e aceitou fazer-se sua discípula e prosseguir o mesmo Projecto dele, experimentou-se Mulher radicalmente livre do Medo, de todos os medos, por isso, tão livre para amar e servir a Humanidade quanto Jesus, coisa que no Evangelho não se diz nunca de mais ninguém, muito menos dos homens que compunham o grupo dos Doze!). Com todas essas coisas sujas que escreveram contra ela, pretendia-se denegri-la por todo o sempre, para que a autêntica Maria Madalena, dos Evangelhos canónicos, deixasse para sempre de existir no imaginário das populações dominadas/controladas pelos clérigos católicos e, em seu lugar, passasse a figurar uma outra, a Maria Madalena pecadora, a maior pecadora da História, arrependida, é certo, mas nunca a discípula paradigmática de Jesus para toda a Igreja, sem a qual nem sequer teria começado a haver Igreja.

 

Com esta difamação-crime, os da cúpula eclesiástica conseguiram dois objectivos, ambos perversos: a) Fizeram esquecer por completo o princípio fundador da Igreja que é Jesus-Maria Madalena, manifestamente incompatível com a Igreja Poder e de privilégios que eles haviam acabado de criar com a aliança que fizeram com o Império romano (basta dizer, por exemplo, que ainda hoje, entrados já no século XXI, o papa de Roma continua a ser, para as nações e estados do mundo, mais chefe-de-estado-do-Vaticano, do que bispo de Roma, continua a remeter-nos mais para o poderoso César de Roma do que para o Crucificado Jesus); b) desterraram as mulheres da Igreja (e, por arrastamento, da sociedade em geral, enquanto esta foi controlada por eles) para os lugares e os papéis mais subalternos e humilhantes, nomeadamente, fizeram delas eternas zeladoras de altar, freiras sem sexualidade e sem vontade própria, criadas dos clérigos, mulheres de limpeza dos locais de culto, sempre olhadas como tentadoras e perigosas, permanentemente impuras, devido à perda cíclica do sangue menstrual, súbditas dos maridos, menores que precisavam de tutor, cujos filhos e filhas nasciam inevitavelmente em pecado, devido ao pecado da primeira de todas elas, Eva, sempre entendida como mulher de carne e osso, quando, afinal, não passa duma figura mítica/literária dos poéticos relatos das origens, também do relato do Génesis das nossas Bíblias.

 

É por isso imperioso e urgente resgatar Maria Madalena do atoleiro moralista em que a meteram em todos estes séculos para trás, e deixar que ela volte a brilhar na nossa Igreja do Concílio Vaticano II, como a paradigmática companheira/discípula de Jesus, o de Nazaré, na qual todas as futuras discípulas, todos os futuros discípulos de Jesus havemos de pôr os olhos. Não se trata, obviamente, de se ser companheira/companheiro de Jesus, na dimensão sexual-genital, manifestamente limitada ao espaço e ao tempo e apenas enquanto a morte biológica não lhe vem por termo de modo definitivo, mas sim na ilimitada dimensão teológica do Deus Amor/Agapê, que está já para lá da morte, ainda que possa e deva começar a ser vivida, como conspiração e insurreição/ressurreição, dentro do Tempo e no Espaço que são os de cada qual. Curiosamente, é este papel de “esposa”, em sentido puramente teológico, que inevitavelmente nos remete para o insuperável poema Cântico dos Cânticos bíblico, que o Evangelho de João (capítulo 20) não hesita em atribuir a Maria Madalena, e, nela, a todas as futuras discípulas, todos os futuros discípulos de Jesus, naquele relato cheio de Encanto e de Mistério da manhã do primeiro dia da semana, como o primeiro dia do novo Génesis, com a mulher e o homem já definitivamente constituídos na Liberdade/Maioridade e na sororidade/fraternidade. E como a dizer/revelar que tais havemos de ser todas as mulheres, todos os homens em quem o Espírito do Ressuscitado Jesus habitar por completo e de modo permanente. Tais mulheres, homens não mais agirão movidos pela necessidade, mas apenas pela graça. Não mais amarão como quem conquista e se apodera do amado, da amada para si, mas como quem se dá ao amado, à amada num agapê totalmente livre de interesses egoístas, puro dom, pura entrega, como numa Nova Criação, e ambos se dão ao mundo como um fecundo Sopro que sempre liberta e visa suscitar autonomias, lá por onde PASSAR.

 

É manifesto que esta dimensão exemplar e paradigmática de Maria Madalena, como discípula/companheira/esposa de Jesus, entendida em sentido teológico, tem sido sistematicamente escondida pela Igreja, nomeadamente, pela sua hierarquia. Esta não abre mão do poder e dos privilégios com que se fez rodear através dos séculos. Ela sabe que no dia em que Maria Madalena reaparecer em plena luz como o paradigma de discípula, discípulo de Jesus, nunca mais a nossa Igreja católica poderá continuar a ser Igreja constantiniana e imperial, hierárquica e de Poder. Terá de voltar a ser o que sempre deveria ter sido até hoje: Igreja ao jeito de Jesus-Maria Madalena, por isso, radicalmente inclusiva e igualitária, mais feminina que masculina, mais ternura que poder, mais carisma que instituição, mais humana que divina, mais misericórdia que autoridade, mais política que religião, mais mundo que santuário, numa palavra, mais Jesus que Cristo. Desde que Cristo/Verbo se fez ser humano em Jesus, o de Nazaré, não há mais Cristo fora dele, fora do humano, dos seres humanos concretos que somos todas, todos nós, qualquer que seja a cor da pele, a língua e a cultura, que nos possa libertar/salvar. Mas infelizmente é o que mais nos têm dado, nestes dois mil anos de Cristianismo eclesiástico, um Cristo sem Jesus, o de Nazaré, ou um Cristo com Jesus, mas um Jesus inteiramente mítico, não o de Nazaré que acabou crucificado e como o maldito. Eis no que deu a aliança Império-Igreja católica, que o Concílio Vaticano II bem quis enterrar para sempre, mas que a Cúria Romana e a hierarquia eclesiástica (bispos residenciais e párocos em união com eles) não estão dispostos a consentir e tudo fazem, consciente ou inconscientemente, para que não aconteça nunca. O combate é duélico e contra o Espírito Santo, contra o Espírito de Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou. A minha alegria maior é saber que a Cúria romana e a hierarquia eclesiástica acabarão por perder. À medida que a História avança, a Cúria romana e a hierarquia eclesiástica perderão credibilidade e terreno. E se persistirem na delas, acabarão a falar sozinhas. Não é com elas que o Espírito de Jesus ressuscitado está. É com a Humanidade, a partir da mais oprimida e empobrecida. É sobretudo com as vítimas delas e do Império que Ele está. E trabalha, ininterruptamente, na edificação do Reino de Deus na História. A sua arma é a Ternura contra o Poder, a Debilidade contra a Arrogância, a Fecundidade contra o Lucro, o Amor contra o Ódio, o Carisma contra o Institucional, a Fé contra o Medo, a Liberdade contra Cretinice, a Luz contra o Obscurantismo, a Verdade contra a Mentira, a Prática política libertadora contra o Rito, numa palavra, Maria Madalena contra a Hierarquia e Jesus, o de Nazaré, contra o Mito.

 

É para aqui que aponta o acontecimento teológico da Ressurreição de Jesus, o de Nazaré que foi crucificado pelo Templo e pelo Império. Não se trata de afirmar a reanimação do seu cadáver (de pouco valia, pois voltaria a morrer daí a uns tempos!), mas de proclamar que Deus Vivo é com ele que está e não com os seus carrascos ou verdugos; é com ele que está e não com os sacerdotes do Templo e os poderosos do Império. E, se é com ele que Deus Vivo está, então também está com todas as vítimas da História, com todas as vítimas dos sacerdotes do Templo e dos poderosos do Império. Deste modo, afirmar que Deus ressuscitou Jesus é perfeitamente compatível com a existência do cadáver de Jesus e a existência de um túmulo com o nome de Jesus. Saibam, duma vez por todas, que Jesus já era ressuscitado e o seu cadáver ainda estava pregado na cruz. Jesus já era Jesus-com-Deus-para-sempre (é outra maneira de dizer Ressurreição), quando o seu cadáver foi tirado da cruz e lançado à vala comum pelos soldados romanos.

 

O primeiro ser humano da História a cair na conta deste subversivo e conspirativo Evangelho que muda radicalmente o sentido da História e lhe garante plena realização, é Maria Madalena, por isso muito justamente chamada apóstola dos apóstolos. Não é nenhum homem do grupo do Doze, de resto, totalmente desfeito com a tríplice negação de Simão Pedro, o primeiro da lista, e a traição de Judas Iscariotes, o último da lista, e com a fuga/deserção de todos (como é que alguns na Igreja ainda hoje pretendem apresentar-se aos irmãos e irmãs na Fé, como sucessores deles? Não é a pensar no poder e nos privilégios que o fazem? Acham que é a pensar no serviço martirial e duélico à Causa do Evangelho e de Jesus?). É, por isso, a Maria Madalena, muito mais do que a Pedro, que temos de regressar como Igreja católica. Quanto antes. Ontem já era tarde. Se o não fizermos, ficaremos em guerra aberta contra o Espírito Santo. E não teremos futuro como Igreja católica. As portas do Abismo/Inferno levarão mesmo a melhor sobre ela! Não esqueçam que é de Jesus, o do Evangelho de Mateus (16, 18-19), esta advertência. Porque seríamos uma Igreja que, de forma contumaz, não liga na terra tudo o que Deus Vivo liga no céu, nem desliga na terra tudo o que Deus Vivo desliga no céu. Seríamos uma Igreja com interesses diametralmente opostos aos de Deus, o de Jesus. Com um projecto que não é o de Deus, o de Jesus. Um projecto que Maria Madalena soube fazer seu para sempre. Ao contrário duma Igreja que teimasse em manter-se constantiniana e imperial para sempre.