29 MARÇO 2005
Inesperadamente, a eutanásia, como prática consumada sem qualquer contestação, surge no final do filme “Million Dollar Baby – Sonhos Vencidos”. Aproveitei parte da folga de ontem e, depois de ter colocado no correio a edição n.º 127, do Jornal Fraternizar, relativa ao trimestre Abril/Junho 2005, fui ver o filme. Também aqui, antes de ser um facto consumado, a eutanásia foi um grave problema de consciência para a personagem protagonizada pelo actor principal do filme, quando a sua pupila, depois de ter vencido todos os combates na arena, não suporta a realidade nua e crua que era ter de ficar o resto da vida estendida num leito, sem quaisquer hipóteses de voltar aos combates que fizeram dela a mulher realizada que ela antes sempre havia sonhado ser e que acabou por conseguir com exemplar e inexcedível força de vontade. Um golpe traiçoeiro e assassino da sua rival, durante aquele que veio a ser o seu último combate, poderia tê-la deixado morta na arena, mas, em vez disso, deixou-a totalmente paralisada e estendida num leito, ainda que cerebralmente lúcida e em condições mínimas de continuar em comunicação com as pessoas à sua volta. Ao ser informada pelos médicos que essa seria a sua condição para o resto da vida, ela própria recusou viver assim em condições tão limitadas e cem por cento dependente. E de imediato pede ao seu “chefe” e quase pai adoptivo que lhe faça o que ela nem sequer possibilidades tem de fazer. Concretamente, que ponha termo a este seu tipo de vida.
O filme assume, nestas alturas, uma intensidade dramática de tirar a respiração. Por sinal, a sala onde vi o filme estava completamente lotada, com espectadores de todas as idades. E o silêncio era de cortar à faca. Pena foi que, no final, não houvesse a possibilidade de passarmos por um espaço alternativo, cheio de luz natural e de ar sem ser condicionado, para podermos partilhar os sentimentos que nos nasceram na consciência, durante a projecção do filme. As empresas que promovem diariamente a exibição de filmes em grandes centros comerciais têm objectivos puramente comerciais e, por isso, não se preocupam com as pessoas nem com os seus sentimentos. Terá de ser cada pessoa a procurar criar essas ocasiões, o que, provavelmente, não acontecerá na maior parte dos casos. Tornamo-nos, assim, pessoas que consomem tudo o que nos aparece pela frente, quando, ao invés, apenas com um pouco mais de cuidado, poderíamos ser pessoas a crescer em consciência crítica e em protagonismo cívico. O mundo seria então muito mais humano e muito mais fraterno/sororal. Também muito mais de paz e de bem-estar.
Felizmente, o próprio filme levantou o problema da eutanásia, sim ou não, quando mostrou a personagem principal, um católico tradicional de missa ao domingo, a procurar o respectivo pároco para partilhar com ele o seu problema de consciência: deveria ou não atender o pedido da sua pupila. O momento é patético e paradigmático duma Igreja sem coração, sem entranhas de humanidade. O pároco, bastante mais novo que o seu interlocutor, é o exemplo acabado de funcionário eclesiástico que está ali, qual fariseu do tempo de Jesus de Nazaré, para lembrar a letra da lei moral, sem querer saber, em momento algum, do caso concreto em si e das circunstâncias em que se encontra a pessoa em causa, a sua história pessoal, o seu percurso. É bem o rosto duma instituição sem rosto, descarnada, fria, cruel, monstruosa, arrogante, nos antípodas de Deus, pelo menos, o Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus, o de Nazaré. Fala sempre do alto do seu pedestal, não acolhe, não dialoga, apenas repete a letra da lei moral, certamente, uma lei moral que ela própria inventou e que não tem nada a ver com os seres humanos, nem com o Deus criador da vida. É impossível ver e ouvir aquele padre, naquele momento, e não pensar de imediato na Cúria romana e nos seus cardeais celibatários à força, completamente desprovidos de entranhas de humanidade e de ternura, cruéis quanto baste na sua “pureza” e na sua “perfeição” legal, mas totalmente incapazes de gestos criadores de vida e de esperança.
Valeu àquele católico de missa ao domingo o seu funcionário de confiança do ginásio, um velho lutador negro que nunca frequentou a missa ao domingo, nem nunca fez um sinal da cruz, nem nunca entrou numa igreja, nem nunca ajoelhou diante duma imagem. Ao ver o seu patrão assim tão de rastos e tão atormentado com a decisão mais difícil da sua vida, se haveria ou não de realizar o pedido da sua pupila, acolheu-o com toda a humanidade que só mesmo um negro que conhece na própria carne séculos de escravatura e de discriminação é capaz de ter e de partilhar. Mas não só. Também lhe disse palavras cheias de humanidade, de compreensão, de bom senso, de sentido que toda a vida sempre tem, também a da sua pupila, independentemente daquele momento de tragédia. Sublinhou-lhe que a sua pupila havia conseguido, em curto espaço de tempo, tudo o que mais tinha desejado na vida. Em poucos anos, graças ao esforço dela e dele, tinha-se tornado uma das mulheres mais realizadas da terra. De modo que agora, em seu entender, só lhe restava avançar para o passo seguinte. E esse, só ele, seu "chefe" e amigo, lho poderia proporcionar, a pedido dela.
O católico ouviu e deixou-se evangelizar/humanizar por aquelas palavras ditas com tanta ternura e compreensão, afinal, de um homem muito mais próximo de Deus do que o padre católico que ele tinha começado por consultar, dentro da igreja paroquial. E não teve mais dúvidas: haveria de encontrar maneira de realizar o pedido que a sua pupila lhe fizera. O momento que se segue é intenso, mas ninguém na sala completamente lotada sussurrou a mais leve discordância. Pelo contrário, um majestoso silêncio acompanhou cada um dos seus gestos e cada um dos seus passos. Até ao derradeiro instante, em que tudo é consumado. Num clima de serenidade, de ternura, de vida que se extingue/despede com invulgar dignidade e tranquilidade.
O filme termina pouco depois e ninguém fala, quando abandona a sala. Estes momentos finais foram como um murro no estômago e ninguém, no imediato, se atreve a condenar aquele homem, nem a sua pupila. No meu lugar, também eu compreendi o gesto derradeiro da personagem, o pedido da mulher completamente imobilizada numa cama, os argumentos do funcionário negro do ginásio, embora, por mim, admita que, nas mesmas circunstâncias, teria certamente reagido de outra maneira. Mesmo assim, sinto-me incapaz de condenar quem entendeu e procedeu daquela maneira. Para mim, companheiro da mesma Fé de Jesus, a vida humana é sempre um dom, uma graça, mesmo quando, como no caso concreto que o filme nos põe diante dos olhos, ela teima em manter-se no limite do possível, melhor, no limite do (quase) absurdo. Posso não entender toda a sua dimensão, todo o seu mistério, mas não deixo de a reconhecer e de a experimentar como um dom, uma graça.
Entretanto, e por isso mesmo, jamais poderei impor a outras pessoas este meu ponto de vista, muito menos arvorar-me em juiz das outras pessoas que (ainda) não partilhem deste meu ponto de vista. Assim como jamais poderei pretender que este meu ponto de vista se torne lei no país onde vivo, ou no mundo que partilho com milhares de milhões de outros seres humanos, das mais variadas culturas e línguas. Poderei e deverei partilhar com todas as pessoas este meu ponto de vista, dialogá-lo, conversá-lo, confrontá-lo com os pontos de vista delas. Mas sempre na mais pura gratuidade, na maior das fragilidades, como quem dá testemunho, nunca como quem impõe, como quem exige, muito menos como quem condena ao anátema as pessoas com pontos de vista diferentes do meu.
Creio que é aqui que tem falhado a hierarquia da Igreja de que faço parte. Deixa sempre nos demais a impressão de que tem o monopólio da moral e que já sabe, antecipadamente e duma vez por todas, independentemente das circunstâncias concretas em que se encontram as pessoas, qual tem que ser o comportamento moral a seguir. É a postura moralista da lei, própria dos fariseus hipócritas de toldos os tempos, por isso, sempre cruel e tanto mais cruel quanto mais justiceira for. Ora, o que é de esperar da Igreja é a defesa duma moral de responsabilidade, a qual humildemente sempre remete para a consciência de cada pessoa, nas circunstâncias concretas em que cada pessoa vive e é chamada a decidir.
Neste como em tantos outros campos, não me revejo, evidentemente, na orientação da hierarquia católica e não tenho mais remédio senão assumir-me como dissidente. Em nome da moral. Em nome da dignidade da pessoa humana. Em nome da Fé cristã jesuânica. Em nome do Evangelho da libertação para a liberdade. Faço-o sem qualquer hesitação. Alimentado com o exemplo de Jesus, o de Nazaré, condenado à morte por ter ousado colocar os seres humanos concretos acima da letra da lei moral proveniente de Moisés, ao garantir que, até para Deus Criador, os seres humanos estão sempre antes do próprio sábado: “O sábado foi feito para o ser humano, não o ser humano para o sábado”.
Por isso, perante a possibilidade de o nosso país vir a ser chamado a votar uma lei que despenalize a prática da eutanásia em certas circunstâncias, assim como duma lei que despenalize a prática do aborto em certas circunstâncias, todas elas manifestamente sensatas e reveladoras de grande compreensão humana, é manifesto que nem Jesus de Nazaré votaria contra essa lei. Para mim, é suficiente que uma lei sobre estas e outras matérias de consciência não obrigue ninguém a ter que a pôr em prática, mesmo contra a sua consciência. Desde que esteja garantido que a decisão de realizar a eutanásia ou de fazer um aborto seja sempre da pessoa que está na situação, e por isso, nunca aconteça sem ser quem está directamente metido na situação a decidir, já me basta. Porque não é pelo facto de uma lei dessas existir que a eutanásia ou o aborto passam a realizar-se a torto e a direito. A decisão nunca será do Estado, mas das pessoas que estão directamente envolvidas na situação. E estas têm sempre a liberdade de dizer não, como de dizer sim.
Aliás, há-de ser sempre e só neste campo da liberdade de cada pessoa que a Igreja, se quiser ser sacramento de Deus que se nos revelou em Jesus de Nazaré como a Boa Notícia para a Humanidade, tem moralmente que actuar. Se, em vez disso, a Igreja privilegiar o campo do poder, para o obrigar a não consentir que este tipo de leis sejam aprovadas, deixa de ser Igreja, discípula de Jesus, para voltar a ser Cristandade, poder religioso que impede as pessoas e a Humanidade em geral de crescerem e de se tornarem senhoras dos seus próprios destinos, que é, afinal, o que Deus Criador mais quer a nosso respeito, desde que começou a criar-nos à sua imagem e semelhança. Como tal, é uma Igreja que nem sequer merece o respeito das pessoas.
23 MARÇO 2005
Ainda há poucas semanas, as pessoas andavam atarefadas com as festividades do natal do menino Jesus e já nesta semana vivem às voltas com as cerimónias litúrgicas da sua morte na cruz. É o cúmulo do masoquismo e do sadismo. Certamente, para que, com estas práticas ditas litúrgicas, as populações e os povos não se atrevam a ser pessoas humanas em plenitude, alegres e felizes, realizadas, de cabeça erguida! Antes, se resignem perante o sofrimento e a morte, violenta que seja! Esta é até chamada a semana maior, no dizer da nossa Igreja católica. Quem quiser ser cumpridor cem por cento, quase que nem chega a sair dos templos paroquiais, onde oficiam os poucos párocos que ainda restam (são uma espécie em vias de extinção, o que é salutar) nem das catedrais, onde oficiam os bispos, coadjuvados pela respectiva corte de cónegos e meninos/seminaristas de coro. Vai ser assim, pelo menos, a partir desta 5.ª feira santa até domingo. Mais valia ficarem lá a dormir. E que houvesse um serviço de refeições para as devotas, os devotos, tantas são as cerimónias religiosas que o Missal Romano propõe/impõe para estes dias. O que a Igreja não diz é que esta é a semana maior, mas do paganismo católico. Porque não é de Jesus, o de Nazaré, esta Páscoa de calendário que acontece todos os anos pela primavera, uns anos mais cedo, como sucede este ano, outros mais tarde. Esta é a Páscoa dos cultos do Paganismo, inventada pelos povos primitivos e que sempre andou ligada aos ciclos da vida pastoril e agrícola em que assentavam as suas vidas, desde o início, quando a natureza ainda era olhada e experimentada por eles como povoada por deusas e deuses, maléficos uns, benéficos outros.
A Páscoa de Jesus aconteceu apenas uma vez na História, no já remoto ano 30 da nossa era, e foi um acontecimento histórico-político feito de escândalo e de maldição, que nunca mais se repete, ainda que historicamente sempre se actualize na vida e na morte mais ou menos violenta das pessoas e dos povos que, como Jesus, vivem no Sistema e na sua perversa Ordem Económica Mundial, mas não são do Sistema nem da sua perversa Ordem Económica mundial.
Na sua ânsia de fazer esquecer os cultos do Paganismo, a Igreja católica apoderou-se das suas cíclicas festividades, nomeadamente, do natal e da Páscoa, e passou a designá-las como festas do natal de Jesus e da Páscoa de Jesus. Mas se as festividades dos cultos do Paganismo podiam ser e tinham que ser cíclicas, como cíclicos são os ritmos da Natureza – em cada ano, há primavera, verão, Outono e Inverno – e os deuses que lhes estavam associados eram realidades apenas míticas, não históricas, já o mesmo se não pode dizer de Jesus, o de Nazaré. O seu natal e a sua morte aconteceram apenas uma vez, dado que Jesus é um ser humano de carne e osso, nascido de mulher, como qualquer de nós, e, desde então para cá, não anda aí a nascer e a morrer todos os anos. Ao meter Jesus, o de Nazaré, em toda esta trapalhada pagã, concretamente, a nascer e a ser morto todos os anos, a Igreja leva o seu masoquismo e o seu sadismo ao cúmulo do absurdo. E acabou por converter Jesus, ser humano nascido de mulher, num mito e numa divindade mítica, em tudo igual aos deuses e deusas dos cultos do Paganismo. Com isso, esvaziou por completo a Fé cristã que, assim, deixa de “morder” jesuanicamente a actualidade de cada geração que vem a este mundo. E, o que é pior, converteu-a no pior ópio para as populações e os povos que, se forem católicos praticantes, consomem grande parte dos seus dias a correr para os santuários e a invocar o deus Jesus, em lugar de se atreverem a viver, aqui e agora, a mesma Fé de Jesus, até realizar as obras que ele historicamente realizou e mesmo outras obras ainda maiores, como ele próprio anunciou que haveria de suceder (cf. João 14, 12).
Não foi ingenuidade da Igreja. Foi oportunismo político e eclesiástico. Com esta sua traição, bem pior que a de Judas, a Igreja conseguiu, quase duma noite para outra (não escrevi da noite para o dia, porque, com esta operação, nunca mais houve dia, na Humanidade, é sempre noite, pelo menos, até ao momento do despontar da Modernidade no íntimo da consciência de cada mulher, de cada homem!) tornar-se na única religião dos povos subjugados pelo Império romano, com todos os inúmeros privilégios que esse estatuto lhe conferia e aos seus líderes. Mas foi também a sua própria morte, como Igreja/Movimento messiânico de iguais e de comunhão de mesa, bem na peugada do Movimento inspirado e iniciado por Jesus, o de Nazaré. E se, mesmo assim, o Movimento messiânico de Jesus conseguiu sobreviver até hoje, foi graças a minorias dissidentes que, felizmente, em todos estes séculos de traição e de servilismo católico, sempre se têm levantado no interior da grande instituição católica romana e no interior do Sistema e da sua perversa Ordem mundial, por força de misterioso Sopro ou Espírito que, a julgar pelos frutos produzidos, só pode ser o mesmo Sopro ou Espírito que habitou integralmente Jesus e se manifestou em obras e em palavras de libertação e de reabilitação da condição humana que saíam do seu corpo de ser humano.
A morte e a ressurreição ritual do deus mítico dos cultos do Paganismo, anunciada pelos respectivos sacerdotes, tinha um efeito simbólico dentro do Sistema e da sua perversa Ordem estabelecida: ajudava a exorcizar a violência estrutural em que todos os dias sobreviviam as populações e os povos. O deus morria pelos nossos pecados, como bode expiatório, em nosso lugar e ressuscitava para a vida nova feita de alegria e de paz, até voltar a morrer e a ressuscitar daí a um ano, quando terminasse o velho ciclo da Natureza e a primavera impusesse o início de um novo ciclo.
As populações e os povos viviam submersos na natureza, eram natureza, tal como viviam no Sistema e na sua perversa Ordem. Era um viver subjugado, cíclico, sempre o mesmo, infantilizado, que fazia delas e deles puros alimentadores do Sistema e da sua perversa Ordem. As festividades centradas na figura do deus mítico tinham o efeito de um calmante, de um narcótico, eram ópio que as populações e os povos tomavam e que lhes permitia viver sem grandes convulsões como súbditos do Sistema e como funcionários da sua perversa Ordem. Na sua esmagadora maioria, não chegavam ao estatuto de pessoas geradas na liberdade e para a liberdade. Nasciam e morriam como parte do Sistema e com o seu viver alimentavam a perversa Ordem que, por sua vez, lhes garantia alguma segurança e algum sentido para a vida, sobretudo, num mítico pós-morte, de felicidade, se se portassem bem, aqui e agora, de desgraça eterna, se se portassem mal, aqui e agora. Mas dificilmente chegavam a ser pessoas no pleno sentido da palavra, muito menos, projectos de vida que só a liberdade responsável é capaz de proporcionar. Eram rebanhos humanos, a par dos rebanhos de animais por eles conduzidos e guardados.
Deste modo, de nada, ou de muito pouco, valeu à Humanidade ter um dia acontecido entre nós e connosco Jesus, o de Nazaré, o ser humano por excelência, esse mesmo que o Sistema e a sua perversa Ordem mundial não suportaram no seu seio e, por isso, rapidamente mataram fora da cidade, como o maldito por antonomásia. Para que o seu exemplo de vida humana não frutificasse entre os outros seres humanos, pelo contrário, apenas frutificasse o seu exemplo como o maldito que o Sistema e a sua perversa Ordem classificaram como tal e mataram de consciência tranquila. Ao vê-lo como o maldito, as populações e os povos saberiam que quem alguma vez se atrevesse a ser mulher, a ser homem do mesmo jeito humano que ele havia sido, em lugar do jeito imposto a todos os seres humanos pelo Sistema e pela sua perversa Ordem, fatalmente acabaria a sofrer o mesmo tratamento que ele e cairia sob o mesmo estatuto de maldito, sem mais lugar na cidade. Numa palavra, tornar-se-ia um excomungado, como esse tal Jesus, o de Nazaré. Um estatuto e uma condição que ninguém gosta nem para si, nem para os seus!
É verdade que a Igreja, enquanto movimento inspirado por Jesus, nasceu para perturbar a paz do Sistema e para subverter a sua perversa Ordem. Terá por isso que ser constituída por mulheres e homens que deixaram de crer na verdade oficial imposta pelo Sistema que proclamou, urbi et orbi, Jesus, o de Nazaré, como o maldito, e passaram a crer/experimentar no mais fundo da sua consciência pessoal que Jesus é o Bendito de Deus, o Ser Humano por antomomásia, o paradigma do ser humano que todos os outros deverão ter como modelo, como inspirador e como referência última.
A ressurreição de que tanto se fala nestes dias não tem nada a ver com passar da morte para a vida (coisa que ninguém vê acontecer entre os seus familiares e amigos, nem mesmo em Jesus, o de Nazaré, alguém jamais viu suceder!), muito menos tem a ver com a reanimação de um cadáver assassinado, nem com aparições mais ou menos fantasiosas de um morto que voltaria à vida. Nada disso. Embora tenha sido isso que a Igreja não se cansou de ensinar e de pregar.
Catequeses dessas ensinavam e pregavam os sacerdotes dos cultos do Paganismo, por esta mesma altura do ano, a propósito da morte e da ressurreição do seu mítico deus. Fenómenos desses era também o que as populações e os povos que viviam da pastorícia e da rudimentar agricultura viam acontecer na natureza à sua volta, pela primavera. Faziam parte do Sistema, da Religião do Sistema e ajudavam a manter a sua perversa Ordem, dentro da qual as populações e os povos nunca poderiam chegar a tornar-se pessoas, porque, se tal acontecesse, logo deitariam tudo a perder, a menos que, como Jesus, também fossem rapidamente retirados do rebanho e assassinados como malditos.
A ressurreição de Jesus é outra realidade totalmente distinta e não tem nada a ver com a reanimação do seu cadáver. Os Evangelhos canónicos, à excepção do de Marcos, parece ser assim que se lhe referem, mas isso é já uma inculturação da Fé cristã e do Evangelho, no mundo dos cultos do Paganismo. Não faz parte do núcleo central da Fé Cristã. É a primeira inculturação da Fé cristã que, entretanto, acabou por servir às mil maravilhas à Igreja, quando ela se constituiu em religião e na única religião do Império romano. A partir desse momento, a Igreja do Império romano fez suas essas narrativas, não mais como estórias teológicas que eram, destinadas a despertar nas pessoas a mesma Fé de Jesus, mas como relatos históricos ou como reportagens jornalísticas que provavam que Jesus era superior aos deuses dos cultos do Paganismo, por isso, o único Deus que as populações e os povos deveriam passar a adorar/idolatrar. O que tem acontecido até hoje. Para desgraça delas e deles.
Contudo, o que as estórias teológicas da ressurreição presentes nos três Evangelhos canónicos que as contêm pretendem é revelar que o condenado e executado como maldito pelo Sistema e pela sua perversa Ordem é, afinal, o Bendito de Deus, por isso, o modelo, o paradigma, o ser humano exemplar em quem todas as mulheres, todos os homens havemos de pôr os olhos, até ao ponto de ousarmos ser dentro do Sistema e da sua perversa Ordem mulheres, homens do mesmo jeito que ele historicamente foi, nem que, por via disso, acabemos historicamente como ele acabou. De contrário, não passaremos de rebanho, de súbditos, de subservientes, ou de funcionários privilegiados do Sistema e da sua perversa Ordem, sem nunca chegamos a ser pessoas humanas, projectos criadores irrepetíveis, liberdades responsáveis em acção, criadores de futuro, numa palavra, seres humanos.
Ao casar-se com o Sistema e com a sua perversa Ordem mundial, materializados, um e outra, no Império Romano, a Igreja ficou a desempenhar dentro dele o mesmo papel que antes havia sido desempenhado pelas religiões dos cultos do Paganismo e pelos seus sacerdotes. Até hoje! Trabalha com as populações e os povos, mas para as, os manter como rebanhos mais ou menos domesticados. Embora recorra ao nome de Jesus, o que ela efectivamente apresenta às populações e aos povos não é Jesus, o de Nazaré, que historicamente foi assassinado pelo Templo e pelo Império romano, no ano 30 da nossa era, mas apenas um Jesus mítico que tem todos os traços do deus mítico dos cultos do Paganismo, cuja morte e ressurreição, era ritualmente anunciada pelos respectivos sacerdotes todos os anos, por altura da primavera.
Por isso a festa da Páscoa, por mais progressista que possa ser a sua celebração ritualizada, está na linha de continuidade da festa da Páscoa do Paganismo primitivo. Apenas mudou o nome do mítico deus, que passou a chamar-se Jesus. O nome é o mesmo do de Nazaré, mas tudo o resto é do deus mítico que todos os anos ritualmente morria e ressuscitava.
A esta luz, tenho também que dizer aqui sem mais rodeios: Jesus, o de Nazaré, não morreu pelos nossos pecados, como repetem as Igrejas todas. Isso fazia ritualmente o deus mítico dos cultos do Paganismo. A proclamação da Fé cristã da Igreja primitiva é exactamente o contrário e destina-se a romper de vez com todo esse masoquismo e sadismo das religiões. Jesus é aquele que tira o pecado do mundo com a sua prática feita de verdade e de misericórdia! Ele próprio constituiu-se como o Caminho, a Verdade e a Vida para toda a Humanidade, ao ousar ser homem, ser humano, até ao limite, apesar de também ter nascido e vivido como qualquer de nós dentro do Sistema e da sua perversa Ordem mundial. Ao ser homem, ser humano até ao limite, Jesus tornou-se a Porta por onde as populações e os povos havemos de entrar, se quisermos deixar de ser rebanho domesticado e tornarmo-nos pessoas humanas. Ele atreveu-se a ser homem, ser humano, até ao limite, mais, até para lá do limite e, por isso, tornou-se o Primogénito de muitas irmãs, de muitos irmãos, tantos quantos, ao longo dos séculos, se têm atrevido também a ser mulheres, homens, seres humanos, como ele.
Não é fácil. É, aliás, o mais difícil para quem um dia nasceu dentro do Sistema e da sua perversa Ordem mundial. Porque o Sistema e a sua perversa Ordem mundial não nos perdoam e matam-nos, de múltiplos modos. Para assim poderem continuar a reinar e a manter inalterados os privilégios das minorias espertalhonas ou ingénuas que estão ao seu incondicional serviço, entre as quais, se contam, evidentemente, também os funcionários eclesiásticos e os chefes de todas as religiões.
17 MARÇO 2005
De amanhã até domingo, 20 de Março, estarei em Lisboa. Vou sentar-me como jurado, na audiência final do TMI-Tribunal Mundial sobre o Iraque, que decorrerá até ao final da tarde de domingo, no edifício da Torre do Tombo. Estarei a prestar este serviço na sessão de abertura e no sábado durante toda a manhã e parte da tarde. Por volta das 17 horas, terei de me ausentar, uma vez que já havia assumido outro compromisso, antes deste. Tenho de proferir uma conferência-debate sobre IGREJA E CRISTIANSIMO, e participar do jantar-em-conversa, que se lhe segue. O convite veio de uma Associação que integra cristãs e cristãos de diversas Igrejas, na sua maioria protestantes. Com esta, creio que é a 4.ª vez que sou convidado, quase sempre depois de ter saído um novo livro meu.
Como sabem, já fui chamado a intervir, como depoente, no final de 2004, na audiência do TMI, realizada no Porto e agora não pude dizer que não ao convite a integrar o corpo de jurados, nesta audiência final do TMI, em Lisboa. É um indeclinável dever que, como ser humano, como cidadão e como presbítero da Igreja do Porto, de modo algum enjeito, pelo contrário, assumo com toda a frontalidade. Ao Império norte-americano e seus estados satélites em todo o mundo (o Estado português, na pessoa do então primeiro ministro Durão Barroso, protagonizou toda aquela pouca vergonha e imoralidade sem nome a que deram o pomposo nome de Cimeira dos Açores, de onde saiu a declaração de guerra contra o Iraque) e ao senhor Bush, não hesito em declarar que estão a ser assassinos no Iraque, por mais que eles tentem ficar para a História como os libertadores do Iraque.
No século XXI, a libertação dos povos oprimidos há-de fazer-se com recurso a outros processos, que não a guerra imposta pelo Império. De resto, é inequívoco que o Império de turno nunca liberta os povos. Quando intervém militarmente e em força, como o fez no Iraque, é porque tem grandes interesses económicos e estratégicos em jogo e que quer salvaguardar. A sua intervenção é sempre para submeter os povos, fazê-los seus vassalos, substituir os dirigentes que não colaboram com ele por outros que garantidamente colaborem. Libertação, é palavra que o Império não conhece, por mais que a pronuncie. Assim como não conhece a palavra democracia, embora a tenha constantemente na sua boca assassina.
A este propósito, faço minhas as palavras indignadas do companheiro solidário José Mário Branco, que tem estado a trabalhar a tempo inteiro para o TMI. Escreveu-as num e-mail que enviou às pessoas cujos endereços constam do seu livro de endereços. Leiam-nas e reflictam. E dêem um murro na mesa, antes que “eles” nos dêem murros no estômago, na cabeça e em todo o corpo, numa tentativa de nos atingirem também a alma! Aproveito, e transcrevo igualmente o Programa da audiência do TMI. Façam por aparecer e participar. Com a nossa dignidade, venceremos o Império e os seus satélites. Os lacaios nunca se deram bem com mulheres, homens de pé! Eis.
E-mail do José Mário Branco
Caras Amigas e Caros Amigos,
Há momentos em que precisamos de cair em nós, e perceber que o mundo está
degradado e degradante, que isso acontece por razões concretas - e que cada
um de nós pode fazer qualquer coisa para o mudar.
Este é um desses momentos, e decidi dirigir-me pessoalmente a todas as pessoas
que tenho na minha lista de endereços.
Vai realizar-se em Lisboa (sexta à noite, sábado manhã-e-tarde, e domingo à
tarde) a Audiência Portuguesa do Tribunal Mundial sobre o Iraque, no Auditório
da Torre do Tombo, ao lado da Faculdade de Letras, na Universidade.
Esta iniciativa, na qual tenho trabalhado a tempo inteiro nos últimos seis
meses, tem sido boicotada de todas as maneiras pela comunicação social - apenas
dois artigos no Público e uma curta entrevista na SIC-Notícias. Mas as mentiras
do discurso único que nos domina quanto à política imperial dos EUA,
essas entram-nos em casa a toda a hora. As mentiras e as omissões. São as
palavras escolhidas dos pivots, é o medo dos jornalistas e a blindagem das
agendas de redacção.
O Tribunal Mundial sobre o Iraque é um tribunal de opinião. É um recurso de quem
não pode, pelos meios que deviam ser normais, encontrar forma de contrariar esta
avançada orwelliana, este golpe-de-estado comunicacional fascizante, esta
sensação de que "se calhar mais vale estarmos calados".
O importante nesta iniciativa não é só aquela guerra distante. É a maneira
como estamos a ser levados a viver com ela. É um problema de aqui e de agora.
Tudo é feito para nos habituarmos a ficar calados. Para, quando chegar a nossa
vez, não sermos capazes de reagir.
Há assuntos tão consensuais, e no entanto são tratados em voz baixa, entre
olhares discretos e cúmplices, meias palavras, entrelinhas. Não vá prejudicar-se
"a vidinha"... Ou será que estamos a voltar aos anos 30 ?
Venham à Audiência! Não é uma manif, é um encontro de pessoas que nos vão
contar o que está a ser feito em nosso nome. Pessoas que não se deixam
calar: o Iraque é um horror numa lista (recente e futura) de coisas horríveis. E
nós, pelo menos oficialmente, somos cúmplices.
Venham à Audiência! Faz dois anos que começaram a matar umas centenas de
milhares de seres humanos, cuja culpa é terem petróleo debaixo dos pés - depois
de terem morto uns milhões dos mesmos com o embargo, porque a aspirina e o leite
condensado podiam servir para fazer armas de destruição maciça… Faz dois anos
que o fazem, em nosso nome. Faz dois anos.
Venham à Torre do Tombo, à Torre do grande Tombo que os pariu. Que os há-de
tombar.
Começa na sexta às 21h30. Continua no sábado e no domingo.
Vai estar bom tempo - se lá estivermos muitos.
Um abraço do José Mário Branco. (anexo o programa)
TRIBUNAL-IRAQUE
Audiência Portuguesa
do Tribunal Mundial sobre o Iraque
18. 19 . 20 Março, Lisboa
Auditório da Torre do Tombo, Alameda da Universidade
Programa
18 Março, 6.ª feira, 21h30-24h00 > Abertura:
apresentação da Acusação e da Tribuna de Jurados.
19 Março, sábado, 9h30-19h00 > Depoimentos
10h00-11h15 > 1.º painel (3 depoimentos)
intervalo
11h45-13h00 > 2.º painel (3 depoimentos)
intervalo almoço
15h00-16h30 > 3.º painel (4 depoimentos)
intervalo
17h00-19h00 > 4.º painel (4 depoimentos)
20 Março, domingo, 15h00-20h00 > Filme seguido de mesa-redonda e debate.
Encerramento: as decisões da AP-TMI
15h00-16h40 > «Weapons of Mass Deception», estreia em Portugal do filme-documentário do jornalista norte-americano Danny Schechter (legendas em português)
intervalo
17h00-18h30 > Mesa-redonda «A guerra do Iraque, os movimentos cívicos e de trabalhadores e o papel da comunicação social». Moderador: advogado Loff Barreto.
Convidados: Manuel Carvalho da Silva, Domingos Lopes, Amnistia Internacional, jornalistas Rui Pereira e Óscar Mascarenhas
intervalo
19h00-20h00 > Encerramento: as decisões da AP-TMI
Rivoli, Porto 21h30-24h00 > Concerto «Em memória das vítimas iraquianas», com a participação de Camané, Clã, Jorge Palma e Pedro Abrunhosa
Encerramento: as decisões da AP-TMI
Depoimentos
Temas e autores dos depoimentos previstos
- A agressão ao Iraque no quadro da política geral do imperialismo norte-americano
Dr Jorge Figueiredo, economista
- O domínio norte-americano no Médio-Oriente e o papel de Israel
Dr António Louçã, historiador
- Os resultados perversos da “guerra preventiva”
General Pedro Pezarat Correia
- As inexistentes ADM – conclusões da contra-inspecção feita no Iraque em Janeiro de 2003 pela primeira missão francesa de Voluntários da Paz
Dra Violaine Sautter, geóloga, directora de investigação no CNRS (Paris)
- Violações do direito internacional
Professor Doutor José Manuel Pureza, professor de Direito Internacional
- Violações dos direitos dos prisioneiros de guerra
Professor Doutor José A. Azeredo Lopes, professor de Direito Internacional
- Situação humanitária no Iraque em resultado do embargo decretado em 1991 e da actual agressão
Dr Fernando Nobre, médico, presidente da AMI
- O uso de armas radioactivas na guerra do Iraque e sequelas humanitárias
Professor Doutor Romero Gândara, médico, Associação de Médicos Portugueses Contra a Guerra Nuclear e Todas as Guerras
- A destruição do património do Iraque, processo de aniquilação da memória histórica de um povo
Dr Cláudio Torres, arqueólogo
- A acção do governo português em apoio da guerra
Arq. Manuel Raposo, Comissão Organizadora da AP-TMI
- A colaboração militar portuguesa com o imperialismo norte-americano – a Nato, a base das Lajes, a GNR
Coronel Mário Tomé
- Anatomia da intoxicação pública em Portugal – o papel da comunicação social no apoio à guerra
Jornalista Rui Pereira
- O saque dos recursos iraquianos e a participação de empresas portuguesas
Dr António Garcia Pereira, advogado,
- Os trabalhadores portugueses e a luta contra a ocupação do Iraque
Joaquim Piló, presidente do Sindicato Livre dos Pescadores e Profissões Afins
- Em Bagdad é a nossa liberdade que está em jogo – a decomposição das instituições e do sistema democrático representativo
Francisco Martins Rodrigues, editor.
Tribuna de Jurados
De uma série de convites endereçados a personalidades de diversos sectores profissionais e políticos, podem anunciar-se, nesta data, as seguintes confirmações:
Alexandre Alves Costa
Professor universitário, Arquitecto
Álvaro Fernandes Tenente Coronel
Alípio de Freitas Jornalista, Professor universitário
Ana Prata Jurista, Professora universitária
António Serzedelo Professor
Armando Fernandes
Director do jornal «Arrifana» (Penafiel)
Eduarda Dionísio Escritora
Eugénio Alves Jornalista, Presidente do Clube de Jornalistas
Fausto Bordalo Dias Músico
Fernanda Araújo Professora
Frei Bento Domingues Sacerdote
Helder Costa Encenador
Henrique Botelho Médico
Isabel do Carmo Médica
João Gil Músico
João Lavinha Funcionário Público
João Mário Mascarenhas Advogado
João Mota Encenador
Jorge Silva Melo Encenador
José António Pinto Ribeiro Advogado
José Barata Moura Reitor Universidade Lisboa
José Charters Monteiro Arquitecto
José Duarte Jornalista
José Luís Saldanha Sanches Jurista
José Marquitos - Engenheiro telecomunicações
José Manuel Mendes - Presidente da Associação Portuguesa de Escritores
Luis Miguel Cintra - Actor/Encenador
Manuel Batoréo - Professor universitário
Manuel Graça - Conselho Nacional da CGTP, dirigente do Sindicato dos
Trabalhadores do Calçado (Distrito de Aveiro)
Manuel Sousa Mendes
- Procurador-Geral Adjunto
Margarida Gil - Cineasta
Maria José Morgado - Procuradora-Geral Adjunta
Padre Mário de Oliveira - Jornalista
Milice Ribeiro Santos - Professora universitária
Nuno Teotónio Pereira - Arquitecto
Óscar Mascarenhas - Jornalista
Rosa Coutinho - Almirante
Rui Namorado Rosa - Físico
Sérgio Lopes - Sociólogo
Tino Flores - Cantor
Vasco Gonçalves - General
Victor Serrão - Professor universitário
14 MARÇO 2005
O profeta Elias que, há uns três mil anos, interveio como um vulcão e um indomável vendaval teológico-político no reinado do rei Acab e da rainha Jezabel em Israel – homens/mulheres assim tão lúcidos e de tamanha fibra como ele ainda hoje não há tantos quantos seria necessário em cada um dos múltiplos países do mundo – esteve ontem, 2.º domingo do mês, durante a tarde, invulgarmente presente no encontro-celebração da nossa pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Nem os milhares de anos que nos separam desse tempo, nem os milhares de quilómetros de distância entre os nossos dois países constituíram qualquer obstáculo a esta presença, pelo contrário, parecem ter até contribuído para lhe dar ainda mais vigor e luminosidade no nosso meio. Quando se vive em dimensão verdadeiramente humana, não há espaço nem tempo que nos possam separar. Aliás, a vida só o é verdadeiramente, quando consegue, por força da graça da ressurreição, ultrapassar de vez a fronteira da morte. A partir de então, nunca mais deixa de ser e de se afirmar. Não é mal, evidentemente, vivermos limitados no espaço e no tempo. Mas já é mal, para o processo do nosso desenvolvimento integral, se só conhecemos o alfabeto que nos permite perceber a vida nas dimensões do espaço e do tempo, sem possibilidades de lermos-captarmos o essencial do Real que é sempre invisível aos olhos, porque então somos os mais infelizes dos seres que só vêem o que o Real tem de efémero e de passageiro. Quando assim é, pode dizer-se que quase não chegamos a dar o salto da animalidade racional para o humano e, sobretudo, do humano para o universalmente fraterno/sororal. Corremos por isso o risco de crescermos monstruosamente em riqueza e de vivermos-morrermos empanturrados de milhões e milhões de euros e de banquetes, de luxos e de prazeres, de passeatas e de gargalhadas sem festa, ou então mirrados de sovinice e de mediocridade, como toupeiras, longe dos outros seres humanos. Quem assim vive, pode vestir requintadamente de homem, de mulher, no estilo de um super-executivo, mas não vai muito mais além daqueles manequins de plástico ou de massa nas montras das lojas comerciais. Têm-se como dos seres mais importantes sobre a terra, mas não passam de cadáveres ambulantes que conduzem carros de alta cilindrada, apenas para mais depressa chegarem ao nada de que são feitos.
O profeta Elias, um ser humano dos quatro costados, esteve intensamente presente connosco neste encontro mensal. Em contrapartida, os residentes na freguesia de Macieira da Lixa, a começar pelos vizinhos da casa onde a Comunidade reúne, assim como algumas das pessoas amigas da Comunidade que têm estado presentes em encontros anteriores, primaram pela ausência, apesar de novamente convidados. A Comunidade e a qualidade de vida humana e sororal/fraterna universal para que reiteradamente nos desperta e nos alimenta passam-lhes ao lado, como a confirmar que podemos ser contemporâneos e vizinhos, segundo os ditames do calendário e da geografia, mas medonhamente distantes uns dos outros, no que toca ao essencial do Real.
O encontro foi um acontecimento que nos marcou a todas, todos os que o fizemos acontecer à volta da mesa. Quem não se dá ao trabalho de vir protagonizar este momento mensal, nem sabe o que perde em humanidade e em ser. Cada encontro é irrepetível. E o que eu posso aqui testemunhar por escrito fica sempre infinitamente aquém do que o que nele se vive. É uma vivência irrepetível que nos humaniza e fraterniza/sororiza. Sem que nenhuma, nenhum de nós saiba como.
Como de costume, coube-me a mim abrir o encontro, depois de termos cantado com grande alegria e sentido de interiorização dois cantos do meu livrinho Canto(S) nas margens. Três foram as palavras com que teci a saudação. Cada uma delas esteve depois bem presente no decorrer do encontro, feito de muita palavra partilhada e de algum silêncio, a que o lanche eucarístico deu o remate final, como abóbada de toda a construção. Ei-las, na íntegra:
1. Com as eleições legislativas antecipadas, chegámos a um novo Governo do país. Mas para que aconteça um Novo Começo no nosso país, o que é manifestamente imperioso e urgente, não basta termos conseguido esta proeza. Já foi um passo significativo, mas é manifestamente insuficiente. Temos, como povo, que ser “novos” também. Para termos comportamentos novos. Não podemos ser como até aqui: um povo que vive à espera de um salvador, de um Messias, um povo de mão estendida, que se vira para a senhora de Fátima e outros santinhos de devoção. Temos que crescer em ser e em intervenção, assumirmo-nos como sujeitos, como protagonistas, pegar o país pelos “cornos” e levá-lo para a frente, sem ficar à espera de um milagre que nunca acontecerá, enquanto não formos nós a crescer e a fazê-lo!
Há um mês, no encontro anterior, fomos desafiados a dar corpo a um pequeno sinal de mudança no nosso modo de ser e de estar na vida. Fomos desafiados a criar uma lista de cidadãs, cidadãos independentes, para concorrer às próximas eleições autárquicas e ganhar a Junta de Freguesia, numa saudável alternativa às estafadas listas apresentadas pelos partidos políticos. É um pequenino passo que fica como um pequenino sinal, com algo de profético. Como é que o país há-de mudar, se não formos capazes de dar este pequeno passo e de erguer este pequenino sinal político, ao nível de freguesia? Pensamos que muda o país, pelo facto de ter mudado o Governo? O País não somos todas, todos nós? A verdade é que as eleições autárquicas são já no próximo mês de Outubro, mas, hoje, alguns dos que há um mês deixaram indicações de que poderiam dar corpo a esta lista nem sequer vieram ao encontro, nem mandaram dizer nada. Acham que assim podemos mudar e garantir outro futuro ao nosso presente, como povo? O que vamos fazer para que este pequeno passo se concretize e ergamos esse pequenino sinal político perante todo o país? Quem vai falar a quem? E quem vai integrar essa lista de independentes?
2. Barracão de Cultura. Trago-vos a boa notícia de que o projecto, já aprovado, está em marcha. Falta concluir alguns projectos complementares, a cargo do eng.º Teixeira, de Felgueiras. Mas já encomendámos o primeiro orçamento a um empreiteiro. Outros orçamentos se seguirão, em ordem a tomarmos a decisão do início da construção. É claro que continua a faltar muito dinheiro para levar a obra ao fim. Podemos começá-la, mas não temos com que a acabar. Não é só dinheiro que nos falta. Faltam-nos também pessoas verdadeiramente comprometidas com este sonho e com a sua concretização na freguesia. Pessoas desprendidas do dinheiro e cheias de amor desinteressado às populações, não na linha da caridadezinha, mas na da sua promoção cultural e da sua libertação. Populações dotadas de consciência crítica e de olhos abertos são populações que jamais vivem de mão estendida para o subsídio da segurança social, são populações que usam ambas as mãos. E os dois pés. E sobretudo, a cabeça! Então, quem avança, aqui da freguesia e do concelho de Felgueiras, ou mesmo de outras terras mais distantes, para integrar este grupo de pessoas? Precisamos destas pessoas como de pão para a boca! Felizmente, já está a chegar algum apoio de longe. A Companhia de Teatro Seiva Trupe, do Porto, por exemplo, ofereceu um espectáculo – a peça VARIAÇÕES ENIGMÁTICAS – para o nosso Barracão. Dia 9 de Abril, às 21,30h, no Auditório Municipal de Lousada. Há 300 entradas para passar até lá. A 15 cravos vermelhos (15€) cada uma. A peça é de altíssima qualidade. E os actores são profissionais do melhor que há em Portugal. Quem adquire entradas? Quem se empenha em passá-las a pessoas interessadas? Se as passarmos todas, são 4 mil e 500 euros (900 contos) que entram duma só vez para a construção do Barracão. Está nas nossas mãos realizar esta proeza. Realizamo-la?
3. A seca prolongada está a causar uma calamidade no nosso país. Em tempos de religião generalizada, calamidades como esta e outras ainda piores, como a peste, por exemplo, tinham respostas religiosas em massa. Só que as respostas religiosas, em massa ou individuais, podem consolar, anestesiar, mas não atacam as causas do mal. Não são respostas científicas. São uma mentira. Nesses tempos de Idade Média que se têm arrastado até ao nosso século XXI, as soluções passavam por trazer as imagens de santas e de santos para a rua, levá-las a atravessar os campos, por entre cânticos confrangedoramente vazios de poesia e de profecia, velas a arder, pai-nossos e avé-marias. Num contexto secularizado e de ateísmo generalizado, como é cada vez mais o nosso, estes comportamentos até caem no ridículo, são objecto de chacota e geradores de mais ateísmo, caso as Igrejas cristãs insistam em envolver-se neles. Infelizmente, algumas zonas católicas continuam a cair nessa tentação demoníaca. As Igrejas parece que ainda não sabem que rezar e promover rezas em série, na expectativa de que Deus intervenha e resolva esta e outras calamidades, é igual a deixarmo-nos cair na tentação demoníaca, isto é, é renunciarmos a ser humanos. Em lugar de aceitarmos o desafio a crescer e a intervir para resolvermos os problemas, corremos ilusoriamente a pedir a Deus que intervenha em nossa vez. Felizmente, o Deus vivo nunca intervém, por mais que a gente clame. Se nós não nos respeitamos como pessoas, Ele, pelo menos, respeita-nos e trata-nos como tais! E os deuses-ídolos que continuam aí às claras a alimentar-se de gente ingénua e tolhida de míticos medos, também não intervêm, pela simples razão de que nem sequer existem, a não ser na imaginação doentia e aflitivamente oprimida das populações. Como Igreja em comunidade de base, jamais alinharemos por essas soluções religiosas de mentira, como são as apontadas pela Religião. E alertamos a Humanidade nossa contemporânea, para que também ela recuse ir por aí. São soluções de mentira, como tais, não só não resolvem os problemas, como até nos prejudicam. Mas então por onde havemos de ir, para vencer esta calamidade da seca prolongada e outras que nos possam atacar ao longo da História? Por onde há-de ir a Humanidade? Sabemos que crer em Deus exige que nunca por nunca invoquemos o seu santo nome em vão. Deus não é para ser invocado por nós. Se o fizermos, é sempre em vão que o fazemos. Crer em Deus é deixar Deus ser Deus em nós e através de nós. É deixarmo-nos atingir e conduzir pelo seu Sopro, pelo seu Espírito, tal como Jesus, o de Nazaré, deixou. É tornarmo-nos mulheres, homens da mesma dimensão de Jesus! Até fazermos os “milagres” que forem necessários. O que não for assim, não é fé em Deus, é crendice, é alienação, é idolatria!
A conversa, depois destas três palavras que partilhei a abrir o encontro, foi prolongada e muito participada. Fecunda. Mas, por colocarmos as coisas nestes termos, disseram as pessoas, não podemos estranhar que a maioria da população fuja da Comunidade. O caminho é de radical exigência. É de porta estreita. O caminho da religião, pelo contrário, é muito mais fácil. Acendem-se umas velas num altar, corre-se a Fátima em passeio, dão-se umas esmolas e depois voltamos para a nossa vida de negócios e de corrupção e de mentira e de egoísmo e de comodismo e de preguiça. Na Comunidade cristã de base não é assim. Por isso, as pessoas fogem. Percebem a exigência e afastam-se. Como no tempo de Jesus. São convidadas a dar a sua vida, quando o que as pessoas querem é ter dinheiro, muito dinheiro e que ninguém as solicite para nada. Querem receber, não querem dar. Querem amontoar riqueza, não querem partilhar. Muito menos querem dar-se a si mesmas.
Todos estes comentários foram ditos sem amargura, até com a alegria de quem já se entregou a este caminho de porta estreita e nunca mais quer o outro, o qual, por ser de porta larga, é caminho de perdição humana. Quem vai por ele nunca chega a ser mulher, homem, da estatura de Jesus, o de Nazaré, irmã, irmão universal. Acaba sempre como coisa, como objecto, um mero joguete nas mãos de deusas e de deuses, e dos seus múltiplos intermediários, que têm tanto de rico como de opressor.
O profeta Elias entrou no encontro através da leitura sincopada do 1.º Livro dos Reis, a partir do capítulo 17. O relato foi escolhido, porque naquele então, o país de Elias também estava a sofrer uma seca que já se prolongava por três anos. Nessa circunstância, Elias, em lugar de correr para o templo, deu acolhimento ao Sopro ou Espírito de Deus Vivo. Em consequência, tornou-se ele próprio como um vento impetuoso e como um fogo devorador. Um subversivo político que enfrenta o rei Acab e sua casa, escandalosamente caída na idolatria, devido à maléfica influência ideológica da rainha Jezabel. E não só. Também enfrenta a Mentira dos ídolos, dos falsos deuses, as soluções religiosas que os sacerdotes dos ídolos, cheios de privilégios concedidos pela rainha Jezabel, propunham nas suas catequeses às populações. E enfrenta os sacerdotes, como profissionais da Mentira que eram. Vai até ao ponto de os desmascarar diante de todo o povo. O livro bíblico diz que ele os matou, um por um, depois que todo o povo compreendeu que eles não passavam de profissionais da mentira. Este pormenor do relato não é histórico. Bastaria que Elias desacreditasse os sacerdotes perante o povo. Ninguém mais seguiria as mentiras deles. E eles morreriam à míngua, a menos que, entretanto, também eles se convertessem à Verdade que liberta e humaniza.
O relato bíblico veio dizer-nos que também esta calamidade da seca que presentemente sofremos em Portugal, tem as suas causas. Não se trata de nenhum castigo de Deus. Um Deus que castigue será sempre um ídolo imaginado pelas populações em dificuldade. Uma calamidade como esta pode resultar e, no nosso caso, resulta da idolatria em que hoje vive caída a Humanidade. Toda a religião é idolatria. Mas hoje a pior religião é do Mercado, a do deus Dinheiro. Para conseguirem Dinheiro em abundância, as pessoas e os povos não olham a meios. Estão-se nas tintas para os males que possam causar à Natureza, ao meio ambiente. Derrubam árvores indiscriminadamente, criam desertos, dão cabo das florestas, promovem incêndios nas matas, deixam a terra sem verde, poluem a atmosfera, lançam poeiras radioactivas para os céus. Tanta agressão junta, consumada em nome do deus Dinheiro, do deus Lucro, só pode resultar nesta calamidade e noutras bem piores, como são as doenças incuráveis, fomes, pestes, guerras. E ninguém parece afligir-se. Em lugar de clamarmos uns aos outros para invertermos a marcha deste tipo de desenvolvimento, todos queremos aproximar-nos do pelotão da frente. Somos assassinos. Genocidas. O sopro que nos empurra é o do ídolo, do deus Dinheiro, que é assassino e genocida. Só o Sopro do Deus Vivo, o de Jesus, é que é sopro de vida, para nos fazer viver e viver em abundância.
Em tempo de calamidade, as Igrejas deveriam tornar-se todas profetas, como Elias, mas preferem manter-se refugiadas dentro dos templos, perdidas em rezas e noutras alienações do género. Com tais comportamentos, tornam-se cúmplices com a idolatria e com o caminho de porta larga. Tornam-se idólatras, elas próprias. O Evangelho de Jesus, na versão de Mateus e de Lucas – também foi escutado neste encontro – bem adverte com a sabedoria do Espírito: “Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro." Mas as multinacionais, que são hoje as maiores idólatras do planeta e as maiores fabricadoras de Mentira, não se cansam de catequizar com o seu anti-Evangelho as pessoas e os povos que dominam e oprimem. Não só garantem que todos podemos servir a Deus e ao Dinheiro, como até repetem um dia atrás de outro que ter muito dinheiro junto é sinal de que se é abençoado por Deus! Só não dizem, e nisso mentem com todos os dentes das suas bocarras assassinas, que o Deus a que se referem só pode ser o Deus delas, exactamente, o deus Dinheiro, ele próprio. Nunca o Deus Vivo, o de Jesus, que vive para nos fazer viver em abundância. A todas, a todos. Em todo o planeta. Queremos pôr fim a calamidades como secas prolongadas? Pois renunciemos à idolatria do Dinheiro. Entreguemo-nos incansavelmente às causas da Humanidade, as grandes e as pequenas. Trabalhemos com alegria para garantir que todas as pessoas e todos os povos tenham vida e vida em abundância. Porque o resto virá por acréscimo.
11 MARÇO 2005
Foi há um ano, em Madrid. Parece que foi ontem. Um ano depois, os grandes dirigentes do mundo continuam sem aprender a lição. Um ano depois, limitam-se a promover uma cimeira internacional para tentar chegar a acordo sobre uma definição de terrorismo. Como se ninguém soubesse o que é o terrorismo. Querem convencer-nos que estão preocupados. Que estão a tratar do assunto. Que buscam seriamente um mundo melhor. É tudo mentira. É tudo fogo de vistas. São peritos em iniciativas dispendiosas, que dão nas vistas, para melhor se mostrarem ao mundo e deixar nos povos a impressão de que são imprescindíveis. Vêm de todas as grandes capitais do mundo. Desta vez, foi para Madrid que convergiram. Com as televisões todas das multinacionais de informação atrás deles. Por entre medidas de segurança excepcionalmente apertadas, para que o terrorismo que eles fingem não saber o que é os não atinja. Todos convergiram para o local onde há um ano foram mortas 192 pessoas, nem todas de Espanha, nem todas europeias, algumas muçulmanas de fora da Europa, mas todas residentes em Madrid, ou de passagem por Madrid. Desta vez, a mão da Al-Qaeda não estava lá, como há um ano atrás esteve, e por isso não lhes aconteceu nada. É sempre assim. Os grandes dirigentes do mundo fazem as asneiras que desencadeiam inevitáveis acções de terrorismo, mas quase sempre são outras as pessoas, da arraia miúda, que pagam a factura. Os ataques são consumados a pensar nos grandes, mas quem é efectivamente atingido são os pequenos que, embora também tenham alguma coisa a ver com o terrorismo – todos temos, se mais não for, por omissão – nunca são os mais responsáveis, ao nível das causas.
Um ano depois, choca ver as televisões a tentar dar vida ao atentado. Como quem parece sentir um sádico prazer em filmar e exibir sangue humano a correr em caudal. Se não há um novo atentado, pega-se no de há um ano e volta-se a exibir as imagens mais horripilantes. Para tanto, as televisões fazem deslocar um conjunto de profissionais para o local. Fazem directos. Ouvem-se sobreviventes. Puxa-se pelas lágrimas. A todo o custo, as televisões querem espectáculo. Nem que seja obsceno. Com sangue. Com lágrimas. Com rostos de sofrimento. Com esgares insuportáveis.
Não posso com profissionais de comunicação social assim. Só se dão bem com o sofrimento dos outros, sobretudo dos cidadãos que não figuram nas revistas cor de rosa. Parece que o sofrimento faz parte da natureza destas populações. E que é preciso exibi-lo uma vez, duas vezes, três vezes, mil vezes, para que as populações que vivem sem grandeza e sem nome todos os dias acabem por o interiorizar como coisa sua, como realidade que lhe anda colada ao corpo, que faz parte da sua condição e da sua natureza. As imagens com estes protagonistas do sofrimento passam depois a diferentes horas do dia. Para que os próprios, já em suas casas, se revejam nelas e se assumam e se identifiquem como os profissionais do sofrimento. A vida inteira! Não é isto crime de lesa-humanidade?
Foi há um ano, em Madrid. Parece que foi hoje. Desde então, todo o mundo é Madrid. Quando, por isso, era de esperar mudanças de fundo na condução das economias e das políticas, os grandes dirigentes do mundo apresentam-se no local da dor sem nome e sem fim com uma das mãos cheia de nada e a outra de coisa nenhuma. São uns estéreis. Uns inúteis. Uns hipócritas. Uns chulos. Vivem à custa dos povos. No meio de passeatas e de discursatas que outros geralmente escrevem para eles lerem. Por sinal, já ninguém lhes dá atenção, quando as televisões exibem os seus passos e reproduzem os seus discursos. Chegam em vigiadíssimos e super-confortáveis aviões. Rodeados de funcionárias e funcionários vestidos a rigor. São os dirigentes do mundo, não é? Mas que adianta? O mundo está como se vê. Porque eles, para lá dos banquetes e das viagens-passeio e dos discursos cheios de palavras sem coisa nenhuma, não mexem um dedo para o melhorar. Estou a exagerar? Também chego a pensar que sim. Mas se calhar, ainda estou a dizer pouco. Porque hoje há tanta riqueza produzida, há tanta tecnologia, há tanta ciência, há tanta gente especializada, há tantas universidades, há tanta comunicação, e o mundo continua como se sabe, sem conserto, sem decência, sem sentido dos outros, sem justiça, sem verdade, sem solidariedade, sem comunhão entre os seres humanos e entre os povos. Estes dirigentes do mundo, de tão estéreis que são, acabam por tornar estéreis tudo o que tocam com as suas orientações. Soluções para os problemas? Sim, existem, falta coragem para as aplicar. Insiste-se quase só nas más soluções, nas falsas soluções, nas mentiras de sempre, nas economias cruéis, nas políticas de opressão e de exclusão. Dirigentes assim, só estorvam, só atrapalham, melhor fora que nunca tivessem nascido.
Por sua vez, as populações do mundo parecem ter interiorizado tanto o sofrimento que já nem sabem viver sem ele. Aceitam-no como uma fatalidade. Como coisa inevitável. Da natureza. Conformam-se com ele e vestem-se com ele. Como aquelas mulheres viúvas que vestem de negro, da cabeça aos pés, como quem se deixa sufocar pela morte que lhes ceifou os maridos. Em lugar de se enfurecerem e sublevarem contra a morte e as suas causas, submetem-se-lhe com resignação. Masoquistamente.
Quando era de esperar levantamentos em massa contra as economias de morte e contra as políticas de preguiça com as quais os grandes dirigentes do mundo castigam as populações e os povos sem dó nem piedade, as populações e os povos que mais conhecem na carne o sofrimento limitam-se ingenuamente a comprar e a acender velas nos locais onde mais deveriam sublevar-se. Como se as velas que se compram e se acendem alguma vez revolucionassem o mundo.
Não! Não é por aqui o caminho. Não é de ópio que precisamos. De lucidez, sim. E de audácia política. As velas que se compram e se acendem podem ser um espectáculo comovedor, para as televisões das grandes multinacionais da informação exibirem em todo o mundo, mas são gestos inócuos, vazios, sem força política, sem Sopro, sem Espírito. São gestos de populações resignadas, subjugadas, sem esperança, quase mortas. O caminho para mudar o mundo e pôr fim ao sofrimento tem que ser o da subversão. Do levantamento geral. Da insurreição. Da mudança radical das economias e das políticas. Da afirmação da cidadania das pessoas e dos povos. Numa palavra, tem que ser o caminho da Revolução.
Os grandes dirigentes do mundo classificarão estas posturas de terrorismo. Não estranho que o façam. Porque eles, pelos vistos, ainda não sabem o que é o terrorismo. E a prova é que, um ano depois do 11 de Março de 2004, deram corpo a uma cimeira internacional em Madrid para tentarem chegar a um consenso sobre o que é o terrorismo. Que eles não saibam o que é o terrorismo e o confundam com levantamentos em massa em todas as capitais dos países do mundo, em todas as cidades e aldeias, em todas as empresas e outros locais de trabalho por conta de outrem, a exigir e a impor outras economias e outras políticas, ninguém das populações deve estranhar. Porque para esses senhores tudo o que ponha em causa os seus privilégios e toda a mentira das suas vidas e das suas decisões, é terrorismo. Bendito terrorismo, digo eu então!
Recuso esta definição de terrorismo que os grandes dirigentes do mundo tentam fazer passar. Por isso nunca me terão a seu lado nas suas cimeiras de mentira. As populações do mundo têm que fazer o mesmo que eu. E todos juntos colocarmos na ordem do dia do mundo levantamentos em massa a exigir e a impor outras economias e outras políticas que tenham a Justiça e o Pão para todos os povos como realidade assegurada em toda a parte. Numa comunhão feita de verdade e de liberdade. Ou assim, outros 11 de Março se seguirão. E só os súbditos dos grandes dirigentes do mundo é que dirão que são actos de terrorismo. Porque, na sua desgraça, ainda têm como único alfabeto para interpretarem os acontecimentos que fazem a História, o mesmo dos seus opressores, nomeadamente, do presidente Bush, politicamente mentiroso, assassino e genocida como o seu Império. Todas as outras pessoas já saberão que só posturas dessa têmpera e desse Sopro libertador é que mudam o rumo da História e fazem avançar a Humanidade para a Fraternidade/sororidade económica e política universal.
09 MARÇO 2005
1. Ontem, vivi o dia como um menino. Completei 68 anos. Deixei-me possuir e conduzir pela festa e pela alegria. Também pela Eucaristia. Disse Eucaristia, não disse missa. A missa é coisa de religião, de sacerdotes, seja sob a forma de papa, de bispos, de párocos, ou de reitores de santuários e quejandos. Eucaristia é essencialmente um modo de ser e de viver como ser humanos, segundo o jeito e o Sopro ou Espírito de Jesus, o de Nazaré. Quando digo que ontem me deixei possuir e conduzir pela Eucaristia, quero dizer que vivi o dia em intensa e profunda Gratidão à Vida que me fez e ao Deus da Vida que me Sopra e misteriosamente me sustém, para que eu me possa afirmar em humanidade e em liberdade até ao limite. Quero também dizer que fiz do dia de ontem uma especial e fecunda entrega de mim aos demais e ao mundo, como irmão universal que procuro ser em todos os dias que viva.
Foram muitas as pessoas que me contactaram por telefone, por telemóvel em mensagens ou de viva voz, por e-mail e por correio tradicional. Ao almoço, partilhei a mesa com companheiras de muitos anos, num restaurante em Grijó. E ao jantar, partilhei a mesa com companheiras da Comunidade Cristã de Base, na Casa da Comunidade, aqui em Macieira da Lixa. Curiosamente, nenhum dos companheiros que habitualmente integram a Comunidade veio partilhar do jantar. Parece que a festa e a alegria, assim como a Eucaristia ainda andam longe dos seus corpos e dos seus quotidianos de homens. Ainda não terão percebido que só perdem em humanidade, quando desperdiçam ocasiões como esta. Nunca os seres humanos são tão grandes como quando se fazem como meninos, se desfazem em serviço libertador, se afirmam na ternura e no afecto. Afirmar-se no poder e no êxito desumaniza quem assim se veste. Pode revelar muita eficácia, alcançar retumbantes triunfos materiais que causam a admiração de muitos, mas será sempre à custa da qualidade de vida humana que, se não for feita de ternura e de afectos, acaba por se tornar pesadelo e inferno, quando sempre deverá ser plenitude e paraíso. Felizmente, a dimensão do feminino, tão presente na generalidade das mulheres, sempre se tem desenvolvido em mim, como homem, à medida que cresço em anos. E isto, graças às muitas mulheres que têm marcado a minha vida, a começar, evidentemente, pela minha mãe, ti Maria do Grilo. De todas as pessoas que ontem se me dirigiram, recebi e dei muitos abraços e beijos, à mistura com algumas prendas. Tamanha comunhão teve o condão de me confirmar ainda mais como um homem-para-os-demais, que é o que eu mais quero ser todos os dias da minha vida.
No intervalo entre o almoço e o jantar, mergulhei sozinho, durante grande parte da tarde, no monte de Santa Justa, em Valongo. Realizei por lá a minha caminhada diária de 40 minutos, desta vez, em clima de maior contemplação e de exaltação interior, num Te Deum em que todo o meu corpo se fez música. Confirmei assim, mais uma vez, que a melhor música ainda é aquela que somos capazes de criar e de executar sem partitura e sem orquestra, porque nós próprios somos a partitura e a orquestra, melhor, nós próprios somos a música. Pude fazer mais uma vez esta experiência, ontem, no monte de Santa Justa. Com simplicidade e com naturalidade. E aqui o testemunho.
Quando desci do monte e reentrei na cidade de Valongo, já a caminho de Macieira e da Casa da Comunidade, fiz questão de passar por um pequeno mercado, para adquirir alguns produtos, com os quais tornaria mais abundante e variada a mesa comunitária do jantar. Só com gestos assim é que a Casa da Comunidade é verdadeiramente o que o seu nome indica. Não podemos frequentar com regularidade esta Casa, e continuarmos a ser mulheres e homens sem prática de partilha e de comunhão. À medida que a frequentamos, a Casa da Comunidade é o ventre onde somos gerados de novo e onde renascemos como mulheres e homens de Partilha e de Comunhão. Não só Partilha de coisas, também Partilha de vida, portanto, as nossas coisas e as nossas vidas, ao mesmo tempo. Entendo que a Partilha das nossas coisas é tão essencial como a Partilha das nossas vidas. Juntas, tornam-se um sacramento que revela e anuncia e antecipa o futuro da Humanidade, em que tudo será de todos conforme a necessidade de cada uma, de cada um, e todos seremos irmãs e irmãos.
O jantar foi um momento inesquecível. O arroz de frango caseiro, que Maria Laura confeccionou, estava divinal. Saiu-lhe excepcionalmente bem. Foi bom ter, entre as presenças, Isaurinha, regressada de vez à Comunidade e à Casa da Comunidade, depois de mais de um ano de doloroso e incompreensível afastamento. Em lugar do tradicional “Parabéns a você”, sugeri que cantássemos o Canto “Grão de Trigo”, do meu livrinho “Canto(S) nas Margens”. Foi um momento soberbo. Rimos e chorámos de alegria. Sobretudo, quando cantámos as duas últimas estrofes, a primeira, mais a pensar na Maria Laura e a segunda, mais a pensar em mim. São estas as estrofes:
Tu, que partilhas teu campo [no livro está: teus bens]
P’ra que o povo cresça em cultura
Só tens razões p’ra te alegrar
Serás entre os homens/mulheres
Bendita para todo o sempre
Os teus filhos vão sentir muito orgulho
Por teu sangue correr em suas veias.
Tu, que vês o Invisível
E escutas silêncios que gritam
Só podes ser audaz profeta
Serás perseguido pelos Templos
E pelos grandes que mandam no mundo
Nem pelos pobres serás compreendido
Mas é assim que serás grão de trigo
Cantem e dancem comigo. Este é o dia que o Senhor fez. Alegremo-nos e exultemos. É, por isso, dia de Paz. Sacramento do Futuro. Aleluia!
2. No domingo passado, 6 de Março, foi o 2.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo em fundo. Na casa-sede da Associação Padre Maximino, em S. Pedro da Cova. Estivemos cerca de 25 pessoas. Algumas, pela primeira vez. É o caso da Graça, de Braga, e de Martinha, sua filhinha de 9-10 anitos. E do Alte da Veiga, do Porto. Também estiveram as companheiras e os companheiros do Grupo de Gulpilhares (VN Gaia), que não puderam estar no primeiro encontro. Coube-me, de novo, dinamizar a reflexão-debate em volta do tema: Jesus para o terceiro milénio. O almoço foi partilhado e abundante. Resultou do que cada participante levou para a mesa comum. É uma experiência empolgante. Comemos e bebemos juntos, sem quaisquer formalismos. Uns sentados, outros de pé. A mesa duma casa é isso mesmo. Não é um altar. E por ser mesa partilhada e animada de conversa bem sororal/fraterna, e não altar ao qual só os sacerdotes da religiões tem acesso, é que ela é o sacramento de Jesus ressuscitado, Eucaristia viva, que nos alimenta como construtoras, construtores da Paz que liberta, em oposição e em alternativa à paz mentirosa e opressora do Império e do Templo. Ninguém perguntou quem era a misteriosa Presença que nos congregava e animava a todas, todos, naquele encontro e naquela refeição partilhada. Todas, todos sabíamos que era, é Jesus, o Ressuscitado que vive ininterruptamente connosco até ao fim dos tempos, para que sejamos humanos e protagonistas políticos, obreiros do Reino/Reinado de Deus, enquanto durar a História. De Eucaristias assim, em redor de mesas abundantes de comida e de afectos, está o nosso mundo faminto. Mas a Igreja tradicional não é capaz de lhas servir, porque é poder e o poder é incapaz de promover e de alimentar a fraternidade/sororidade. Pelo contrário, sempre se alimenta de discriminação e de privilégios, só se dá bem com a mentira e a hipocrisia.
A algumas, alguns dos participantes no Encontro, ainda causou impressão que eu falasse tanto de Jesus, não apenas do Jesus histórico do século I, assassinado em Jerusalém pelo ano 30 da nossa era, mas também e sobretudo do Jesus que vive hoje e aqui, e até mais intensamente do que viveu então, na Palestina. E que vive entre nós e connosco, ao ponto de quantas, quantas hoje comungamos da sua Fé, do seu Projecto e das suas Causas, podermos inclusivamente beneficiar ainda mais da sua Presença do que propriamente os seus concidadãos judeus do século I.
Mas essa é a realidade que eu experimento e, por isso, não posso deixar de a testemunhar a tempo e fora de tempo. É que agora Jesus é para nós corpo-espírito-e-vida, muito para lá, portanto, do corpo histórico que o Templo e o Império, coligados, crucificaram no ano 30. O problema de captarmos ou não a sua Presença, não reside em Jesus, mas em nós, que ainda permanecemos no espaço e no tempo e só captamos a realidade, quando esta nos chega mediatizada pelos sentidos. Urge abrirmo-nos à Realidade mais real que é aquela que já está para lá dos sentidos e que quem vive a Fé de Jesus pode finalmente captar. Nessa altura, já não exigimos ver para crer, mas cremos e por isso vemos.
Quando assim acontece, somos felizes como ninguém. Embora continuemos a necessitar dos sentidos para conhecermos e lidarmos com este mundo, já os dispensamos para conhecermos e lidarmos com o Mundo outro em que este já está a transformar-se. E hoje é já desse mundo outro que vivemos, mais do que deste. Por isso a Paz que nos habita é uma Paz visceralmente contra a Paz do Império, sancionada e abençoada pelo Templo, é uma Paz que derruba a Paz do Império que é tecida de mentira e por isso é homicida e genocida, como o próprio imperialista de turno, o presidente Bush, faz questão de no-lo lembrar a toda a hora e momento!
Uma das reivindicações que fiz neste Encontro, foi que temos que resgatar Jesus, o de Nazaré, das Igrejas, das Religiões, dos Impérios. Jesus foi açambarcado e sequestrado pelos sacerdotes das Religiões, pelas hierarquias das Igrejas e pelos dirigentes do Império. Primeiro, coligaram-se todos para o matar. E a seguir, coligaram-se todos para o açambarcar e sequestrar, de modo a poderem moldá-lo segundo os seus interesses. A Humanidade tem que deixar de ser ingénua e colocar-se em estado de alerta. Jesus é património vivo da Humanidade. Nas mãos dos sacerdotes, dos clérigos eclesiásticos e dos dirigentes do Império é uma mentira e um fantoche com que todos eles habilmente nos oprimem e enganam.
Só na medida em que formos mulheres e homens e povos com a mesma Fé de Jesus, é que também seremos mulheres e homens e povos visceralmente não-idólatras, por isso, lúcidos, conscientes, livres, saudavelmente dissidentes, fecundamente políticos como ele historicamente foi. Os do Templo e do Império fazem tudo para que sejamos mulheres e homens e povos com fé em Jesus, porque assim seremos idólatras até de Jesus! Esta é a grande armadilha em que nos têm feito cair. Recusemo-la. Resistamos-lhe. E, se já caímos nela, libertemo-nos dela quanto antes.
Não teremos vida fácil, porque o Templo e o Império não perdoam a quem recusa a idolatria, a quem recusa ser idólatra do Deus deles. Para o Templo e o Império, tal recusa é o crime n.º 1, o crime sem perdão, castigado com a crucifixão, como se vê em Jesus. Felizmente, Jesus é por esta recusa da idolatria que foi. Até ao fim. Por isso se constituiu como o Ser Humano integral e por antonomásia. O nosso Companheiro e o nosso Irmão mais velho. Também o nosso Caminho, a nossa Verdade, a nossa Vida. Ousemos acolhê-lo, e dar-lhe a nossa adesão. Como o casal de Emaús, no princípio.
3. O Governo presidido pelo eng.º José Sócrates, do PS, vai ser empossado esta semana. O novo Parlamento de maioria absoluta socialista vai entrar em actividade. Apesar da mudança radical na política partidária, o País continua caído em grande depressão, e a braços com uma seca generalizada como há muitos anos não se conhecia, e com consequências na agricultura que já começam a ser assustadoras. Ou o novo Governo consegue mobilizar o país, ou o país terá de se mobilizar para o derrubar e substituir, sem ficar 4 anos à espera. Em democracia, o povo é soberano. Também para encontrar soluções políticas que nos dispensem de demagógicas e ocas campanhas eleitorais como as que ultimamente os partidos políticos nos têm feito suportar. Por isso, os dias que aí vêm são decisivos. Deixemos de viver adormecidos e alienados em novelas e em futebóis nacionais ou internacionais. Ou em nossas senhoras de Fátima. Assumamos os nossos destinos de país nas nossas mãos. Com lucidez. Com audácia. Com imaginação. Com inovação. É hora!
02 MARÇO 2005
1. Um idoso de 92 anos de idade, residente na cidade de Évora, acaba de morrer de frio. E de solidão. Durante a noite. Na manhã seguinte, foi encontrado inanimado no chão da casa onde vivia sozinho. Ainda respirava. Mas não resistiu às consequências da hipotermia severa que o atingiu. As noites vão geladas. Ter-se-á levantado – pelos vistos, já era frequente fazê-lo ultimamente – caiu e, sem forças para se levantar sozinho, ficou para ali no chão completamente embrulhado no frio. Os jornais de ontem trazem a notícia, mas nem o nome do cidadão divulgam. É um idoso. Simplesmente. De Évora. Li a notícia e vi-a depois confirmada nos telejornais, todos eles, de repente, completamente esvaziados da politiquice doméstica dos meses em que Santana Lopes e Paulo Portas foram governo até às eleições legislativas antecipadas. E logo associei o ocorrido ao que está a passar-se com outro idoso fora de portas, mas este famoso em todo o mundo, o mais famoso de todos, a julgar pelo tempo que todos os grandes media lhe dedicam, e a quem nada falta em termos de companhia e de cuidados médicos e outros. Trata-se, como é óbvio, do idoso polaco Vojtyla, que, quando homem maduro, foi cardeal de Cracóvia e, desde há 26 anos, é bispo de Roma, exactamente, o papa João Paulo II. Chorei de indignação, por tamanha desigualdade entre os seres humanos. São ambos seres humanos, ambos idosos, ambos da Europa, ambos do século XXI, mas um imenso abismo os separa. Ao Papa, internado de novo nestes dias na mais famosa clínica de Roma, nem sequer o deixam morrer, de tantos cuidados médicos e de tantas orações e missas que rezam por ele. A este idoso de Évora, sem nome nos jornais, é a solidão total. Mesmo na noite que foi anunciada como a mais fria de 2005, lá teve que dormir sozinho na sua casinha. Um qualquer percalço ocorreu então e, como não tinha ninguém a cuidar dele, assim ficou estendido até de manhã. As suas veias e artérias congelaram, em todas essas horas que permaneceu inanimado sobre o chão da sua casa. O caso é uma dor de alma. Revela um défice de humanidade que brada aos céus. Num país como o nosso, que se tem na conta de civilizado. Membro da União Europeia. No século XXI!...
Porém, a minha indignação de ontem foi hoje ao rubro, quando, ao ler o PÚBLICO desta manhã, deparo com uma reportagem na última página, assinada pela jornalista Ana Fernandez, na Cidade do Vaticano. É uma reportagem sobre o Papa polaco. Ao lê-la, recordei-me de um dito popular que, já em pequeno, ouvia repetir na minha aldeia, entre todas aquelas famílias pobres como a minha, no meio das quais felizmente cresci. “Até para ser cão é preciso ter sorte”. Hoje, sei que não é uma questão de sorte, apenas. É sobretudo, uma questão de justiça. Ou de falta dela. E de humanidade. A desigualdade entre os seres humanos é um insulto que nos fazemos uns aos outros. E quem, como o Papa, aceita viver no topo da pirâmide social, rodeado de privilégios sem conta, não venha dizer que é humano, muito menos, se atreva a fazer-se passar por exemplo e modelo de ser humano. A situação piora milhões de vezes mais, quando quem assim vive no topo da pirâmide, ainda se faz passar por enviado especial de Deus, representante de Deus na terra, sua santidade, santo padre, sumo pontífice, servo dos servos de Deus, vigário de Cristo e outros títulos do estilo. É tudo mentira. Quem assim se comporta e só por isso é idolatrado por todo o mundo, a começar pelos outros grandes, não tem nada a ver com Deus, pelo menos, o de Jesus de Nazaré. Tem tudo a ver com o Império de Roma, de quem é sucessor, pelo menos, ao nível do religioso. Quem é de Deus, o de Jesus de Nazaré, tem que ser o primeiro a realizar aquelas palavras do Evangelho de Mateus: “Tudo o que fizestes (ou deixastes de fazer) ao mais pequenino dos meus irmãos foi a mim que o fizestes (ou deixastes de fazer)”.
É por isso que não resisto a transcrever aqui na íntegra a referida reportagem do PÚBLICO. Enquanto a lêem, pensem no idoso sem nome de Évora que morreu congelado, por, aos 92 anos de idade, estar condenado a ter que passar as noites sozinho na sua casa, inclusive, na noite que estava anunciada como a mais fria do ano de 2005. Leiam-na assim e tirem as vossas conclusões. É que não basta dizer que somos de Deus. Temos também que dizer de que Deus é que somos. Porque Bush também se diz de Deus e, no entanto, é o grande profissional da mentira, um assassino e um genocida. E o próprio Papa João Paulo II diz que é de Deus e, no entanto, nunca abdicou nem abdica de viver no topo da pirâmide social, rodeado de privilégios que idosos como este idoso sem nome de Évora, e as maiorias empobrecidas do mundo jamais usufruirão e por isso morrem como tordos, ou antes de tempo, ou abandonados na mais gélida solidão. Eis, pois, a reportagem na íntegra, título e tudo. Em itálico.
irmãs do sagrado coração
João Paulo II tem sempre ao seu lado cinco freiras polacas
Por Ana Fernandez, Cidade do Vaticano
Tobiana, Germana, Fernanda, Matylda e Eufrosyana servem o Papa há 50 anos
Membros
da Congregação das Servas do Sagrado Coração de Jesus, as cinco religiosas
polacas destacadas para junto de João Paulo II fizeram do serviço ao chefe da
Igreja Católica a sua razão de viver.
As irmãs Tobiana, Germana, Fernanda, Matylda e Eufrosyana estão ao lado de João
Paulo II há meio século, pois entraram ao serviço de monsenhor Karol Wojtyla, o
seu compatriota arcebispo de Cracóvia.
"As irmãs são os pilares que sustentam o Papa", declarou à Agência France Presse
um prelado conhecedor do Vaticano e que insistiu no anonimato.
De uma discrição e abnegação a toda a prova, distinguem-se pelo lenço, colocado
mais alto que os outros, como os de antigamente, contou a mesma fonte. Mas as
cinco irmãs polacas são acima de tudo notáveis pelo seu talento para facilitar a
vida de João Paulo II.
A irmã Germana é a gastrónoma. A sua tarte de espinafres fazia as delícias do
antigo Presidente italiano Sandro Pertini, convidado com frequência para a mesa
do pontífice quando João Paulo II ainda organizava almoços e jantares de
trabalho. Mas muitos dos "caros convidados" recordam com emoção a carpa que era
servida em muitas ocasiões, cozinhada à maneira tradicional polaca.
E quando os amigos polacos de João Paulo II, como Jerzy Kluger, seu velho
companheiro de escola, passavam pelo Vaticano, a irmã Germana preparava-lhes
pirokji, patés, o sermik, um bolo de queijo e um peixe em geleia.
A irmã Tobiana é a "médica" e "a sombra" do Papa. Diplomada em Medicina, é
assistente do médico pessoal de João Paulo II, o doutor Renato Buzzonetti. "Um
olhar do Papa chega-lhe para perceber aquilo de que ele precisa", sublinha o
mesmo prelado.
Desde que João Paulo II está hospitalizado na policlínica Gemelli, o seu
"terceiro Vaticano", a irmã Tobiana está em permanência à sua cabeceira.
Tobiana partilha com a irmã Germana um dos quartos da residência pontifícia no
décimo andar do hospital.
A irmã Fernanda é a encarregada do abastecimento do Vaticano. A maior parte dos
produtos, como o leite, a fruta e os legumes, provêm de Castelgandolfo, perto de
Roma, onde os papas têm a sua residência de Verão.
Os cuidados com a roupa estão confiados à irmã Matylda. Em princípio, nada lhe
escapa, desde que um religioso francês, ao ser recebido em audiência, constatou
com horror, e disse-o em voz alta, que a sotaina do Papa tinha uma nódoa.
A quinta irmã, Eufrosyana, ocupa-se da correspondência particular do Papa e
prepara as respostas, que João Paulo II assina coma a sua caneta de tinta
permanente.
A Congregação das Servas do Sagrado Coração de Jesus foi fundada em 1894 pelo
padre polaco Joseph Sebastian Peczar. As religiosas da congregação devotam a
vida às crianças, aos doentes e aos necessitados.
Em 2 de Junho de 1991, em Rzeszow, o Papa João Paulo II beatificou o padre
Peczar, que está sepultado na catedral de Przemyl, de onde era bispo. Jornalista
da AFP.
Nota minha: Deram-se conta, certamente, de dois pormenores finais: 1. que a Congregação das Servas do Sagrado Coração de Jesus foi fundada por um padre polaco e que as freiras que a integram hão-de devotar-se às crianças, aos doentes e aos necessitados. O Papa João Paulo II não se inclui, evidentemente, em nenhuma destas categorias. Embora, presentemente, seja um homem doente, não é da categoria dos doentes necessitados! Por isso, as cinco religiosas foram arbitrariamente desviadas por ele do carisma da Congregação. E terão sido escolhidas por serem polacas. Para que tudo possa ficar em casa. Mas o Papa tem poder absoluto e, por isso, também pôde desviar para o seu serviço estas cinco freiras do seu país. Que outro cidadão do mundo se pode dar a este luxo? 2. A Congregação em causa foi fundada por um padre polaco, que, entretanto, já foi beatificado pelo Papa João Paulo II, também polaco. Foi beatificado por ser santo, ou por ser polaco? A verdade é que com esta beatificação, continua a ficar tudo em casa!...
2. Vão hoje a enterrar 4 bombeiros ligados a uma Corporação de Voluntários de Coimbra. Um incêndio florestal envolveu-os e queimou-os a todos num ápice. São estes os seus nomes, para que nos acompanhem, vida fora: José Lapa, Adelino Oliveira, Acácio Silva, Luís Teixeira. Os cadáveres dos três primeiros são sepultados em Almaleguês, Coimbra. O do outro, fica sepultado em Chás de Semide, Miranda do Corvo, de o bombeiro era natural.
Os quatro homens, com família constituída, são de Portugal. Actuavam em prol do país, na condição de bombeiros, em terras de Coimbra. A mesma cidade que, durante anos e anos, teve a viver enclausurada no Mosteiro do Carmelo, a irmã Lúcia, recentemente falecida.
As línguas religiosas e mais ou menos fanáticas da senhora de Fátima gostam de dizer que Portugal está livre de desgraças, de catástrofes e de guerras, porque tem a senhora de Fátima. Mentem com quantos dentes têm na boca. Mesmo em 1917, em plenas “aparições”, milhares de soldados portugueses estavam envolvidos na I Guerra Mundial. Milhares deles morreram lá. Poucos meses depois das “aparições” serem dadas oficialmente como concluídas, veio a peste pneumónica que matou muitas pessoas no país. E nem sequer as duas crianças que disseram ter visto nossa senhora escaparam e lá morreram antes de tempo! Com a fundação do Estado Novo, tivemos que suportar o fascismo salazarista durante longos e pesados 48 anos. Fomos obrigados a fazer a guerra colonial em três frentes de África, com milhares de mortos e mais ainda de mutilados. Desde há anos a esta parte, morrem nas estradas de Portugal, cada ano, largas centenas de pessoas, a maior parte, ainda na força da vida, em acidentes de viação, e ficam milhares de outras ficam feridas com maior ou menor gravidade. Ainda ontem, foram mais quatro jovens mortos, apenas num único acidente! A juntar aos quatro bombeiros de Coimbra que morreram, quando andavam em arriscado serviço em prol de todas, todos nós. Há ainda poucos anos, foi a tragédia da Ponte de Entre-os-Rios, no concelho de Castelo de Paiva, com todo aquele cortejo de mortos e de desaparecidos. Por outro lado, como país, não há maneira de descolarmos da cauda da Europa. E é notório que hoje sofremos duma depressão nacional, com desemprego em massa e pobreza imerecida, que ainda ninguém sabe como poderá ser superada com êxito. Tudo isto e muito mais, sem que a senhora de Fátima, saloiamente, cantada como "rainha de Portugal", valha aos seus devotos "súbditos". Aliás, diga-se em abono da verdade que foi sempre timbre das rainhas e dos reis, quando e lá onde os houve, viverem à custa dos respectivos súbditos. Exactamente, como acontece, desde 1917, em Portugal com a senhora de Fátima que leva aos seus devotos e devotas o que elas e eles têm e o que não têm! Para lá da sua dignidade de pessoas humanas.
É minha convicção que muita da nossa desgraça nacional vem precisamente da senhora de Fátima. O seu culto em público e em privado é manifestamente causa de alienação e de depressão generalizadas. O cheiro a cera queimada que emana daquele recinto de horrores e de humilhação da pessoa humana empesta, física e simbolicamente, o ar que respiramos e faz de nós um povo persistentemente adoentado, triste, deprimido, resignado, alienado, sempre à espera de milagres que nunca acontecem nem nunca acontecerão, a não ser que nós os façamos com o nosso engenho e arte, com a nossa inteligência e o nosso esforço individual e colectivo.
Por isso, digo e sublinho com todo o vigor da minha Fé cristã jesuânica: Se queremos ser alguém na vida, como pessoas e como país, fujamos de Fátima e da sua senhora cega, surda e muda. Evitemos até aproximar-nos daquela serra cada vez mais contaminada por semelhante peste religiosa nos antípodas do Evangelho de Jesus e da Fé de Jesus. Visitar aqueles locais, mesmo por curiosidade, ou morar lá, é correr o risco de ficarmos semelhantes à imagem que lá é idolatrada: cegos para o essencial, surdos uns para os outros e mudos. Numa palavra, mortos. Paralisados. Inactivos. Um povo infantilizado, amedrontado e eternamente adiado. Antigamente, a nossa Igreja católica perguntava, aos baptizandos e nos actos públicos de Profissão de Fé: “Renuncias a Satanás, a todas as suas pompas e vaidades?” Pois bem: Hoje, esta pergunta poderá e deverá ser actualizada e formulada assim: Renuncias à senhora de Fátima, a todas as suas mentiras e a todos os seus cultos idolátricos?
Felizes de nós, se, como pessoas e como povo, respondermos: Sim, renuncio! É que, uma vez libertas, libertos de Fátima e da sua cruel senhora, poderemos, finalmente, ousar ser nós próprias, nós próprios, mulheres e homens ao jeito de Jesus. Também ao jeito de Maria de Nazaré, na medida em que ela soube passar de sua mãe carnal, a sua exemplar discípula! O resto virá por acréscimo.