2004 MARÇO 28
Voltei a Paredes de Viadores. Em missão. Comigo, na carrinha, foram também Maria Laura, a presbítera não-ordenada da Comunidade de Macieira da Lixa e quem começou por abrir o caminho para aquela freguesia do concelho do Marco de Canaveses; Irene, a menina com 23 anos de idade, mas com deficiência cerebral, filha adoptiva do casal Huguette/José Maia, meu senhorio e vizinho mais vizinho; e Amélia, também com deficiência cerebral que, entretanto, se preparava para passar parte da tarde na Casa da Comunidade e que, ao saber da saída em missão, aceitou integrar o pequeno grupo. Numa outra viatura, logo atrás da carrinha, como quem aprende o caminho, seguiu também o casal Huguette/José Maia, a quem na véspera à noite, eu havia proposto se também queriam ir. Na altura, não me disseram sim nem não. Mas os dois terão conversado e hoje, à hora da saída, deram a boa notícia: Também iam. Mas faziam questão de se deslocarem na sua viatura familiar adaptada ao José Maia que é paraplégico. Foi uma enorme alegria. E uma festa. Esta deslocação ainda não foi para realizar o encontro previsto numa casa do Lugar de Viadores, daquela freguesia, que continua assim a ser um desejo. Ao que me disseram, terei que esperar para depois da Páscoa. Mesmo assim, quis voltar àquela freguesia, porque, no decorrer da semana, e contra todas as previsões, uma das companheiras que mais temos acompanhado na resolução de graves problemas que a afectam e afectam a sua casa, terá chegado ao extremo de simular uma tentativa de suicídio, para, assim, chamar a atenção do marido e da vizinhança para o drama em que se vê mergulhada. Não me surpreendeu por aí além este seu gesto, dado o grau de depressão em que ela tem estado mergulhada e dado o ambiente familiar bastante desencontrado que se respira todos os dias na sua casa. Ao ser informado do que se havia passado, decidi de imediato que este domingo era de novo para lá que iria, apesar de saber que não podia realizar-se ainda o desejado encontro alargado. Era preciso dar um sinal, no meio em que se insere esta família, que continuo de alma e coração com ela, agora, se possível ainda mais.
Ontem à noite, estive em contacto telefónico com a Zeza, vizinha deste casal com problemas muito graves, a confirmar que iria hoje. Ela garantiu que estava em casa e que participaria no que se organizasse. Alegrou-me esta sua disponibilidade. Aliás, foi na cozinha da sua casa que nos reunimos a primeira vez, num encontro que meteu pessoas de diversos lugares da freguesia. Desde então, tenho estado atento à evolução dela e esta sua disponibilidade vem-me dizer que poderei apostar nela como elemento congregador, senão de toda a freguesia, pelo menos, naquela importante zona da freguesia. Nela e nas filhas dela, que são uma explosão de alegria, sempre que me/nos vêem aparecer. À chegada ao local, fui logo ter com a Zeza. Era o combinado. Para que ela percebesse a importância que começo a atribuir-lhe. A causa do Evangelho avança à medida que encontra pessoas interiormente disponíveis, como se diz da jovem Maria de Nazaré, enquanto figura representativa do povo de Israel fiel a Iavé, por sinal, um pequeno resto com quem Jesus, mais tarde, haveria de poder contar e de onde saíram as primeiras discípulas, os primeiros discípulos. Zeza já me esperava. Dei-lhe a boa notícia da presença do casal Huguette/José Maia e de Amélia. Ela ficou vivamente impressionada com a presença de Amélia, epiléptica, e ainda mais com a estória de amor do casal. Mas havia um problema. Os acessos à casa dela são por uma íngreme escadaria. E a cadeira de rodas em que o José Maia se desloca, quando deixa o automóvel, não podia subir até à cozinha. Zeza logo aceitou que o encontro informal acontecesse fora da sua casa. E viu com bons olhos que ele decorresse num café do rés-do-chão do prédio. Saí e fui conversar com a proprietária do café. Estavam vários homens no café. Todos me reconheceram e puderam aperceber-se do que ando por ali a fazer. Ninguém se mostrou hostil. Pelo contrário. Todos se recordam de mim. E testemunham a meu favor. Quanto a aderir à iniciativa em curso, é outra coisa. E eu não forço nada, nem pressiono ninguém. Pois sei que integrar a Comunidade de base, como resposta à Palavra de Deus que nos convoca para transformar a sociedade, o mundo e a vida, é só para quem for chamado. E se toda a gente há-de beneficiar da Missão, nem toda a gente fará parte da Comunidade-sacramento da Presença e da Acção de Deus na História. Aquelas pessoas que forem chamadas aparecerão, à medida que livremente responderem ao chamamento. Serão sempre poucas pessoas a favor de todas as outras. A economia da Graça e da Salvação de Deus é completamente distinta da dos Impérios. A soberania de Deus acontece discretamente. Como o fermento. Como o sal. Também como a luz que não faz barulho, ainda que não possa passar despercebida.
A proprietária do café, mulher casada ainda nova, respondeu com um rasgado sorriso à minha pretensão. Adverti-a que trazíamos connosco algumas coisas para partilhar num lanche em comum, pelo que faríamos menos despesa no café. Ela sugeriu que, em lugar do café, sempre mais barulhento, poderíamos utilizar uma sala ao lado que faz mais de restaurante. E logo foi comigo preparar o espaço para que tudo corresse pelo melhor. Chamei o José Maia que, entretanto, já estava na cadeira de rodas. Ficou contente com esta solução. Ou ele não gostasse de frequentar ambientes de café e mesmo de tasca. (Já lhe disse por várias vezes, sobretudo, quando o vejo um bocadinho mais "falador", que gosto muito dele, apesar de saber que ele, muitas vezes, exagera na ingestão de vinho. Aliás, foi assim, com este problema, que o encontrei neste meu regresso a Macieira e essa foi uma razão mais para logo aceitar tornar-me seu inquilino. Muitas pessoas, na freguesia, criticam esta minha decisão - foi morar para junto de um bebedor de vinho, dizem com algum desprezo na voz - mas cada dia que passa sinto que foi a decisão evangelicamente mais acertada. Não é verdade que se trata de um homem paraplégico, há mais de trinta anos, retido numa cadeira de rodas e com problemas de solidão? E de Jesus, não se diz no Evangelho que ele tinha fama de bebedor de vinho e que era amigo de outros bebedores de vinho como ele, de publicanos e de prostitutas?) O mais interessante, é que foi o próprio José Maia quem logo, no espaço do restaurante, ali ajudou a desanubiar o ambiente, com a sua proverbial boa disposição e a sua impressionante atenção às pessoas que o rodeiam. Creio que a própria Zeza nunca mais será a mesma, depois deste contacto. Será diferente, e ainda para melhor. Falei-lhe também de Amélia, como uma mulher com problemas graves de epilepsia - os ataques são frequentes, apesar da medicação que diariamente toma - mas, mesmo assim, uma mulher de combate. De poucas falas, mas fiel à causa do Evangelho, na Comunidade de base.
Deixei-os todos, todas a conversar uns com os outros e corri à casa de Vera. Era preciso convencê-la a sair para se juntar a nós. Era preciso informá-la que o encontro era no restaurante ao lado do café e não na sua casa, nem na casa de Zeza. Era preciso convencê-la que a presença dela era imprescindível no encontro, depois de tudo o que ela havia protagonizado durante a semana. Subi a escada. A porta da cozinha abriu-se, quando lhe pus a mão, mas não encontrei ninguém ali. Chamei, já lá dentro. E apareceram as crianças, Patrícia e Mafalda. De bracitos abertos para o abraço e o beijo. Abracei-as e beijei-as efusivamente, ao mesmo tempo que levantei cada uma à minha altura. Levaram-me junto da mãe. Dormia vestida, com um cobertor sobre ela, no sofá da sala. Foi difícil acordá-la. Mas acordou com os abanões das filhas, manifestamente contentes por me verem ali de novo. Disse que tinha tomado sedativos e caiu num sono pesado depois do almoço. Quando despertou a valer, pu-la a par da situação. Mas não havia maneira de se levantar. Desafiei-a por mais de uma vez a fazê-lo, sem resultado. Quando ela soube que o encontro era na sala do restaurante, disse logo que para aí é que não iria. Rebati as razões que avançou. Abri-lhe depois os braços e disse: quero-te abraçar. Levanta-te e abraça-me. E ela levantou-se como uma mola libertada do peso que a comprimia. Cada vez mais me convenço que não há missão cristã jesuánica, sem afectos concretizados. Sem gestos de ternura e de carinho. Sem excessos de compreensão e de tolerância. Sem contactos físicos de perdão. A Missão é acolhimento, é integração, é perdão, é aceitação da diferente, do diferente. O abraço foi apertado e prolongado. E ela transfigurou-se. Ficou disponível. Determinada. Sem quaisquer resistências a acompanhar-me ao restaurante. O que logo se encaminhou para lá, como se nada fosse.
A sua entrada no restaurante foi um espanto. Um bom espanto. Tem algo de cura, daquele tipo de cura que só a ternura e o carinho são capazes de realizar. O convívio foi em crescendo. Sentámo-nos todas, todos em volta das mesas. Grandes e pequenos. Saudáveis e doentes. Escorreitos e com deficiências. Todas, todos em pé de igualdade. Sem hierarquias. Sem ninguém a mandar ou a presidir. Pudemos olhar-nos nos olhos, dada a proximidade. Nada que se compare ao ambiente frio e opressor dum templo, duma igreja, onde decorrem as habituais sessões de culto sem afecto, sem contactos recíprocos, sem conversa a sério, sem vida ao natural. O José Maia era o centro das atenções. E o homem da palavra. Ele adora conversar. E conversou sem qualquer entrave. Bastaria a sua presença. Todo ele é comunicação. Um homem paraplégico que deixa a sua casa e mete-se a conduzir o carro para se integrar num grupo de Missão, é coisa que nunca se viu. Os paraplégicos costumam ser tratados pelas igrejas paroquiais como "coitados", como objecto de assistência. Não como obreiros da Missão. Não como Enviados de Deus. E o José Maia ali estava, no seu papel de protagonista. A rebentar de alegria por todos os poros. Eufórico. Também atento a cada gesto das outras pessoas. A chegada de Vera tocou-o por dentro. Comoveu-se com a sua fragilidade. Já tinha acolhido as suas duas filhinhas e agora surge a mãe. Ainda jovem, mas a fragilidade em pessoa. Zeza, acompanhada da sua cunhada, muito mais nova que ela, também não tiravam os olhos de Vera. Creio que foi dado mais um passo para a sororidade crescer entre elas. Por mais fortes que sejam os preconceitos que ainda permanecem como demónios dentro das pessoas que habitam as aldeias: Pobres pessoas! Nem elas se apercebem que vivem sob a ditadura moralista e religiosa do pároco e da paróquia. É verdade. É uma autêntica ditadura, chamada paróquia. As pessoas ficam abortos toda a vida. Castradas. Cheias de medo. Oprimidas. Sem iniciativa. Sem liberdade para tomar decisões. Os preconceitos moralistas são mais que muitos. Transformam vizinhos em estranhos. Amigos em inimigos. Ai de quem sair dos trilhos impostos pelo moralismo. Passa a ser olhado pelos respeitadores dos preconceitos como se tivesse lepra, ou sida. Os puros deixam de lhe falar. Excomungam-no das suas vidas, das suas relações. Até que ele se submeta às regras moralistas. Ou se afaste da aldeia. Ou então se assuma como um "pagão", um não-ser! É por isso que este encontro, assim tão aberto, tão fraternal/sororal, tão comunitário, com o José Maia a dinamizar, sem que ninguém lhe tivesse confiado essa tarefa, foi uma bênção, foi uma fortíssima experiência de Deus, do Deus de Jesus, amigo de publicanos e de prostitutas, de pecadores públicos e de excomungados de todo o tipo, ele próprio rotulado pelos fariseus e seus preconceitos moralistas de publicano, de bebedor de vinho (= alcoólico!), de samaritano, de herege, de endemoninhado.
A dado momento, José Maia apercebeu-se que eu deveria usar da palavra. Proclamar a Palavra. E sem que ninguém lhe recomendasse, assumiu mais a postura de escuta. Olhou-me - eu estava sentado ao seu lado direito, o único lugar que encontrei vazio, quando entrei com a Vera - como quem diz: Avança, é a tua vez! E eu avancei. Não fiz nenhuma leitura bíblica. Mas a Palavra que disse não era minha. Era a Palavra que convoca à comunidade. Era a Palavra que faz viver com humanidade, que nos arranca da selva e nos coloca no caminho da comunhão e da solidariedade, que é o caminho do humano. Era a Palavra que mata em nós os preconceitos moralistas e nos abre à liberdade e à responsabilidade. Era a Palavra que nos faz próximos das caídas, dos caídos, das desprezadas, dos desprezados. Era a Palavra que nos salva, porque nos aproxima, nos relaciona, nos abre em reciprocidade. Era a Palavra de Deus Vivo que nos faz viver longe dos templos e próximos uns dos outros, com inclusão daquelas, daqueles que os templos gostam de apontar como pecadoras, pecadores, como dignas, dignos de todo o desprezo. Disse ainda outra Palavra da mesma Palavra de Deus Vivo. Olhei para a Zeza e disse que via nela a mulher que haveria de congregar a Comunidade em nome de Jesus. E que a sua casa seria o local onde futuramente os encontros daquela zona da freguesia deveriam ter lugar. Ela sorriu e confirmou com um abanar de cabeça que também achava que podia ser assim. E mais sorriu, quando eu disse que o seu marido, Manuel, naquele momento a trabalhar em Espanha, está de acordo com esta decisão e acha muito bem. Eu próprio pude ver isso nos seus olhos, oito dias antes, quando pela primeira vez me encontrei com ele. Toda a gente achou bem. E Zeza ficou confirmada neste serviço à Comunidade que há-de nascer da Palavra e do Espírito, melhor, da Palavra com Espírito.
Foram breves as minhas palavras. Foram sobretudo Palavra. E logo cantámos um canto, cuja letra proclama "Somos poucos, mas havemos / de a muitos fazer viver / também um pouco de sal / dá outro gosto ao comer". E ainda: "Somos gente sem poder / e o mundo vamos mudar / porque um pouco de fermento / faz a massa levedar". Cantámos baixinho, para não provocar outras pessoas que por ali circulavam entre o café e o restaurante. Mesmo assim, houve quem se aproximasse e conversasse connosco. Um homem, de nome José, chegou mesmo a sentar-se ao lado do José Maia. E partilhou do seu vinho. Como numa Eucaristia. Parodiou com ele, lançou-me algumas piadas em tom jocoso, mas a verdade é que ficou marcado para sempre e nunca mais esquecerá aquele momento de Graça e de Comunhão. Quando este momento aconteceu, já nós estávamos a partilhar o lanche que havíamos levado. Foi uma comida de iguais. De irmãs e de irmãos. Uma comida que nos há-de dar fome de mais encontro, de mais proximidade, de mais comunhão. Com esta comida partilhada, havemos de ter forças para nos fazermos próximas, próximos de quantas, de quantos sempre temos fugido, enquanto estivemos sob o jugo dos preconceitos moralistas, sob a ditadura da paróquia e do templo paroquial. Antes de nos despedirmos, ainda fui ao balcão agradecer à proprietária do restaurante o acolhimento que nos fez. Da despesa que fizemos, apenas se cobrou de dois pratinhos de moelas estufadas que o José Maia logo de entrada pediu para a mesa. Tudo o mais ela fez questão de partilhar connosco. E disse que só tinha pena de não ter podido estar também connosco, devido às tarefas que tinha que realizar. A Graça também entrou na sua casa. Na sua vida.
2004 MARÇO 27
Aquilo é sangue por todos os lados! (Mas um homem de carne e osso pode perder assim tanto sangue em consequência de brutais torturas, continuar depois a ser torturado como quem dá num morto, e aguentar-se vivo para receber ainda mais e mais torturas como se nada fosse?) Aquilo é porrada sem dó nem piedade! E o actor aguenta estoicamente sem um grito, sem um protesto. Melhor, protestou apenas uma vez, e com surpreendente dignidade, quando, em dada altura do processo de julgamento sumário, um dos soldados lhe dá uma estrondosa bofetada. Precisamente, quando as pessoas que minimamente conhecem os ensinamentos atribuídos a Jesus de Nazaré mais esperariam que o actor do filme "A Paixão de Cristo", de Mel Gibson, não reagisse e, calmamente, se limitasse a oferecer a outra face - não é verdade que se diz por aí que Jesus ensinou aos seus discípulos este comportamento no mínimo bizarro, se tomado à letra, "a quem te bater numa das faces, oferece também a outra"? - eis que é logo aí que, inesperadamente, ele reage: "Se falei mal, diz-me em quê; se falei bem, porque me bates?". Infelizmente, percebemos depois que actor reagiu assim nesse momento, apenas para respeitar o relato evangélico que faz questão de deixar uma marca indelével da dignidade do condenado Jesus, no meio de toda aquela indignidade dos seus carrascos, a começar pelo maior de todos, o sumo sacerdote dos judeus do seu tempo, que sempre se apresenta imaculadamente vestido com as vestes da função sacerdotal, mas apenas para esconder e disfarçar o sepulcro cheio de podridão por dentro que manifestamente é. Por isso eu digo aqui sem hesitar: ao conceber assim o seu filme, o realizador Mel Gibson mostra não ter entendido patavina de Jesus de Nazaré, nem de nenhum dos quatro relatos evangélicos da Paixão de Jesus. O filme, que pessoalmente era para não ver, mas que acabei por ver hoje numa versão pirata no meu portátil de trabalho de jornalista, é porrada do princípio ao fim, como se o actor não estivesse ali para outra coisa. Como se o actor padecesse de insaciável fome de porrada. Quanto mais lhe dão, mais ele aguenta. Nem sabemos onde vai buscar forças para aguentar tanto e sempre. Podem atirá-lo por terra, que ele volta a levantar-se, como aqueles bonecos sempre em pé. Primeiro, foram as flagelações. Deviam deixá-lo morto, tão violentas e profundas elas foram; ou, pelo menos, muito à beira da morte, uma vez que, durante a macabra e matraqueada execução, o sangue do flagelado salta em todas as direcções e deixa os carrascos todos sujos desse mesmo sangue. O corpo flagelado fica numa ferida só, numa chaga viva!
Pensam que o actor desiste? Pensam que o seu corpo flagelado contrai alguma infecção que lhe venha a ser fatal? Pensam que ele reclama um momento de repouso? Nada disso! Ninguém lhe faz qualquer curativo. Ninguém lava as suas profundas feridas. Ninguém lhe dá um momento de repouso na tortura. Mas o actor aguenta firme como se nada fosse. Está ali para apanhar, apanhar, apanhar! Por momentos, parece mais morto que vivo, mas depois, como uma mola a que tiraram o peso que a comprime, levanta-se de novo e parece perguntar espantado: Então já acabaram? Já estão satisfeitos? Não há mais porrada? Não vêem que eu quero mais, muito mais? Os carrascos percebem pelo seu aspecto que ele ainda acha pouco e voltam à carga. E não é que o actor aguenta, aguenta, aguenta, como uma certa marca de pilhas que, no dizer da publicidade, duram, duram, duram? Depois de tudo, e quando já deveria estar feito num oito, eis que ainda o obrigam a carregar com uma cruz bem grossa e pesada, sobre o corpo feito uma chaga só. E ele não hesita. Agarra-a com sofreguidão como um náufrago se agarra à tábua que lhe aparece à frente e vê nela a sua tábua de salvação. Assim o actor perante a cruz que lhe apresentam: Abraça-a como se fosse o seu amor maior! Dá a entender que está pronto para outra série de porrada. E lá vai, cruz sobre os ombros feitos chaga viva, em direcção ao calvário, num espectáculo sadomasoquista sem igual. Cai e levanta-se, cai e levanta-se, cai e levanta-se.
Um homem de Cirene que os soldados romanos arregimentam à força para que partilhe a cruz com ele, ainda tenta dissuadi-lo daquele papel, mas ele mostra-se indignado, como quem diz: Mas então não sabes que tenho que sofrer, sofrer, sofrer, beber até ao fim este cálice de sangue que é o meu próprio sangue? Não sabes que, se eu fico a meio, se sofro menos um bocadinho, se deixo uma gota de sangue por verter, Deus lixa irremediavelmente a humanidade e não há mais salvação para ninguém? Achas-me por acaso com cara de quem faz isto por menos? Não vês que sofrer é comigo e que, quando se trata de sofrer, eu sou dos que vão até ao fim? Perante aquela censura silenciosa, o parceiro arregimentado à força não tem outro remédio e lá avança com ele, sem entretanto contrair uma única lesão, sem verter uma única gota do seu sangue, sem exibir um único esgar de dor. Dor, sangue derramado, sofrimento, humilhação, só o actor principal tem essa (des)honra! Todos os outros que por ali circulam, ou são carrascos que riem e dão porrada sem dó nem piedade ao actor que carrega a cruz, ou são espectadores, mulheres, sobretudo, todas muito submissas, muito conformadas, muito resignadas, vestidas de negro a rigor, como quem assiste a um funeral em que o morto ainda não é bem morto. São mulheres que não protestam, que não gritam, que não se revoltam, que dão a entender que sabem que o actor não pode deixar de passar por tudo aquilo, uma vez que de tudo aquilo resulta o bem-estar delas e o bem-estar de toda a humanidade! Até que chegam ao lugar onde o espectáculo será finalmente consumado.
Nessa altura, o actor mais parece uma rodilha, um farrapo humano. Temos a impressão de que nunca mais conseguirá ter-se de pé. E que está à beira de exalar o último suspiro. Afinal, um homem tem limites. Mas não. Este não. Continua ainda com fome e com sede de mais e mais sofrimento. Pede mais. Ainda tem forças para aguentar mais e mais. E quer mais. Apresenta as mãos aos cravos para ser pregado na cruz que transportou até ao local. Apresenta também os pés. Os carrascos puxam os membros dele com violência. Mas não lhe partem nenhum osso! Uma das quatro narrativas evangélicas - precisamente a última a ser escrita, a de João - diz expressamente que assim deveria acontecer e por isso Mel Gibson respeita este pormenor no seu guião. Não hesita em pôr os soldados romanos a esticar violentamente os braços e as pernas do actor principal que já não tem um bocadinho de corpo que não seja ferida em carne viva, coberto de sangue que estranhamente nunca deixa de ser sangue vivo e limpo, mesmo depois das muitas quedas que o actor dá no chão poeirento, mas a verdade é que nenhum dos seus ossos chega a ser quebrado!!!
O corpo está finalmente pregado na cruz. A cruz é levantada com o corpo pregado nela. Mas logo é deixada cair propositadamente com o corpo de face para baixo. Estatela-se cruelmente no chão, como se o corpo do actor crucificado fosse de borracha. Mas nenhum dos seus membros se desprende da cruz. Nenhum dos seus membros se quebra! E o actor continua em cena. Mais e mais sofrimento, mais e mais sangue derramado. Não sabemos onde ele escondia tanto sangue. Muito menos percebemos como ele, depois de tanto sangue derramado, ainda respira, está consciente, não vacila, não perde os sentidos. Voltam a erguer a cruz e o actor crucificado nela. E é então que surge o inesperado. Como por encanto, aparecem outros dois crucificados com o crucificado principal. Nunca antes Mel Gibson se lhes referira. Nunca soubemos como decorreu a sua prisão. Nunca soubemos como decorreu o seu julgamento. Nunca soubemos como decorreu a sua ida para o local da execução da sentença. Nunca soubemos o que fizeram para merecerem aquele tipo de sentença judicial. Nunca soubemos o que fizeram em vida. Se tinham mãe, se tinham mulher, se tinham filhos e filhas. Nunca foram ninguém no filme de Mel Gibson até àquele momento. E agora ali aparecem eles. Na cruz. Cada qual na sua. Um deles ainda refila, cheio de vigor e insulta o crucificado principal, como se ele próprio não estivesse também crucificado. O outro, humilhado, confessa publicamente que merece aquele castigo e pede ao crucificado principal que se lembre dele no paraíso, uma instância que ninguém sabe onde fica. Mas, pelo menos, ajuda a suportar a humilhação até ao fim e vale como uma compensação para os humilhados da História e representa também um alívio para os carrascos, já que estes sempre podem pensar que os seus crimes não são assim tão maus, uma vez que proporcionam a entrada antecipada no paraíso àqueles que eles torturam e matam!
Mas o mais surpreendente é que os dois crucificados que apareceram sem que ninguém soubesse onde antes estavam, apresentam-se na respectiva cruz quase tão frescos como uma alface, com alguns sinais de sangue derramado, é verdade, mas muito pouco, sem nada que se compare com o aspecto do crucificado principal na sua cruz mais alta que a deles e colocada ali no meio, como a significar que mesmo entre os crucificados há desigualdade, há crucificados de primeira, de segunda e mesmo de terceira, como sucede neste filme de Mel Gibson. O crucificado de primeira é o actor principal. O de segunda é o crucificado ao seu lado direito que pede o paraíso ao crucificado de primeira. E o de terceira, colocado ao lado esquerdo do crucificado de primeira, é um crucificado com todo o ar de criminoso inveterado, contumaz nos seus crimes, sem sinais de arrependimento. (Porque será que o lado esquerdo, embora seja o do coração, sempre é apresentado pelo Poder e seus privilegiados dirigentes como negativo, até conotado com o mal, o perverso, sobretudo, quando se trata da esfera da política?) E tudo termina com o crucificado de primeira a morrer num abrir e fechar de olhos, quando, antes, o tempo nunca mais passava, como a revelar que o objectivo do filme é mostrar estupidamente sangue e mais sangue, porrada e mais porrada, tortura e mais tortura, sofrimento e mais sofrimento.
As narrativas evangélicas da paixão de Jesus dizem que a terra tremeu nessa hora, que a noite ocupou o lugar do dia, que o véu do templo se rasgou de alto abaixo e são esses fenómenos que o filme também nos mostra como se fossem historicamente reais. Quando não são. São referências manifestamente teológicas que historicamente ninguém observou. Mas é precisamente então, durante a precipitada fuga de todos, que surpreendentemente aparece um soldado romano com crueldade ainda bastante para, antes de fugir, partir as pernas aos dois crucificados à direita e à esquerda do crucificado de primeira, respectivamente. Porém, ao crucificado de primeira não lhe parte as pernas (o relato evangélico diz, na sua linguagem teológica, que não partiram nenhum osso a Jesus, quando o executaram na cruz e o mesmo tem que suceder ao actor principal do filme!). Em contrapartida, o soldado mete-lhe com cruel perícia a ponta duma lança directa ao coração, para que, se ele ainda estivesse vivo, morresse logo ali duma vez por todas. E tudo acaba depois disto. Não se vê mais ponta de sangue. Não se vê mais ponta de porrada. Não se vê mais ponta de tortura. A partir dali, a História prossegue, como se nada tivesse acontecido. De modo que o sumo sacerdote pôde voltar a dormir descansado. E pôde continuar a entrar no santo dos santos, do Templo de Jerusalém, como mandam os rituais do livro do Levítico. Por sua vez, o realizador do filme, Mel Gibson, pode estar confiante que a sua obra, apesar de ser manifestamente infantil e cheia de lugares comuns, vai render-lhe uma colossal fortuna e, provavelmente, arrebatará um montão de Óscars, no próximo concurso. A menos que os responsáveis pela sua atribuição deitem os olhos sobre este Diário Aberto e se deixem impressionar pelo implacável comentário teológico que eu aqui assino sem hesitar.
É verdade. Depois de ter visionado este filme, não hesito em afirmar mais uma vez: o realizador Mel Gibson mostra que não percebe patavina de Jesus de Nazaré. Nem das narrativas evangélicas que falam da sua Paixão e Morte na cruz. O filme que nos oferece é um falhanço total. Tanto no aspecto teológico, como no aspecto de interpretação dos relatos evangélicos. Faz de Jesus uma espécie de actor que está ali para cumprir um guião que outro - o filme deixa entender que é o próprio Deus, a quem Jesus, ainda por cima, chama Pai, quando, a ser assim como o filme insinua, melhor seria que lhe chamasse carrasco! - previamente determinou que haveria de ser assim e não de outro jeito, tal como o actor principal do filme executa o guião que o realizador previamente escreveu. Ora, nada mais falso. Mas se até a Igreja católica parece satisfeita com o filme e recomenda o seu visionamento como uma boa catequese ou uma boa meditação para este tempo que ela insiste em classificar como tempo de quaresma e de paixão, apesar de já estarmos no século XXI, então é sinal de que também os seus dirigentes maiores não percebem patavina de Jesus, nem do significado teológico dos relatos evangélicos da sua Paixão e Morte.
Uma coisa se salva no filme: A responsabilidade do sumo sacerdote do tempo de Jesus, no crime hediondo que é o seu assassinato por razões políticas. É praticamente o único que está bem representado no filme. Mostra bem que a instituição religiosa oficial do país que ele representa, é uma instituição que só quer culto, não quer misericórdia; só quer vingança e retaliação, não quer amor nem perdão. Pior do que o Império romano, foi ela, a instituição religiosa oficial de Jerusalém. Foi ela que conseguiu vergar o próprio Império e levá-lo a cooperar com ela. É o exemplo acabado do recurso ao braço secular, por parte das Religiões, uma tentação a que a Igreja católica, no decorrer dos séculos de cristandade, também não foi capaz de resistir.
Eu sei que há por aí uma certa teologia católica e mesmo protestante que se revê neste filme de Mel Gibson e no papel do actor principal, como se Jesus de Nazaré fosse assim como o filme no-lo apresenta. Mas essa é uma teologia deísta e sacrificialista, nos antípodas da teologia cristã jesuánica. Trata-se de um tipo de teologia idêntica à que justificou o assassínio do próprio Jesus e que ele corajosa e lucidamente combateu como num duelo. É uma teologia que vê valor salvífico no sofrimento, na cruz e na morte violenta que impuseram a Jesus. Como se alguma vez o sofrimento, a cruz, a dor, a morte violenta fossem valores a reter e a salvaguardar, quando - até o bom senso o reconhece - são males a enfrentar e a combater. São o próprio Mal. O que há de mais Perverso. O que há de mais Inumano. Se fossem valores a reter e a promover, então a flagelação e a morte violenta de Jesus na cruz não seriam um crime - o crime dos crimes - mas a salvação da Humanidade. Porém, o que faz de Jesus de Nazaré fonte de salvação para a Humanidade, crentes e não crentes, é a sua vida militante e solidária contra o Mal-em-acção, contra o Perverso-em-acção, contra a Mentira-em-acção. Mais. É também e sobretudo a sua vida de entrega incondicional à causa do Reino/Reinado de Deus, a edificar neste mundo e na História, mas que jamais se concebe e se implanta à maneira dos reinos deste mundo, concretamente, à maneira dos impérios e dos poderes ditatoriais e prepotentes, como o da actual administração norte-americana de G. W. Bush, que sempre se implantam e perpetuam com recurso a todo o tipo de crimes, de mentiras, de guerras, de invasões, de injustiças, de prepotências, de opressões, de assassinatos, de exploração, de corrupção.
Se Mel Gibson conhecesse Jesus de Nazaré, fosse um dos seus seguidores no século XXI, saberia que ele nunca abraçou a cruz, nunca beijou a cruz, nunca fez da cruz o seu estandarte. (Quem fez isso, foi o imperador Constantino e, depois dele, os seus sucessores eclesiásticos, respectivamente, os papas e os bispos). A cruz aparece na vida de Jesus, mas como o castigo maior que o Império romano não hesitava em aplicar aos seus opositores políticos, nomeadamente, quando constatava que eles representavam sério perigo à sua estabilidade. E tal foi o caso de Jesus. A posição que Jesus tomou em público, quando lhe armaram aquela cilada a propósito de pagar ou não pagar o tributo a César, foi-lhe fatal. Bastou que Jesus colocasse César sob a jurisdição de Deus, em lugar de o reconhecer como o senhor absoluto do mundo de então, a quem até Deus deveria submeter-se, para que logo se depreendesse que ele nunca na vida seria um súbdito de César, um vassalo. Nem actuava junto das pessoas e do povo para que elas e ele o fossem. Não fosse Jesus o militante político número um do Reino/Reinado de Deus que era, não tivesse Jesus a autoridade moral que tinha junto das pessoas e do povo, e o Império ainda lhe perdoaria. Mas com a autoridade moral que Jesus gozava junto das pessoas e do povo, o Império nunca lhe perdoaria. Por isso, castigou-o de forma exemplar, para que outros candidatos a messias, a cristos, a libertadores, não se metessem pelos mesmos caminhos. (E quando a partir do século IV, com Constantino, o Império acolhe Jesus no seu seio e reconhece a Igreja que se congregava em seu nome, só o fez depois de o ter desclassificado, de o ter despolitizado, de o ter macaqueado, de o ter convertido, primeiro, em mais um Deus mítico dos cultos politeístas, e depois, no único Deus mítico do Império! O que bem pode dizer-se que foi a segunda morte de Jesus, o segundo assassinato de Jesus pelo Império, bem pior que o primeiro. Até hoje. Já que a Igreja cristandade que ainda não morreu de todo, tem-se limitado a prosseguir com toda esta mentira, ao mesmo tempo que incansavelmente a alimenta todos os domingos, em missas sem profecia e em cultos ritualizados que reproduzem os cultos politeístas do Paganismo).
Pela minha parte, nunca me cansarei de proclamar ao mundo que a verdadeira paixão de Jesus é o Reino/Reinado de Deus e a sua edificação em todo o universo. Não é o sofrimento que os dirigentes religiosos e políticos imperialistas do seu tempo e país lhe impuseram. O sofrimento que as pessoas e os povos continuam a ter que suportar é o que mais perturba e preocupa Jesus. É o que ele tem por mais intolerável. Pior ainda, se o sofrimento é imposto às pessoas e aos povos com o aval do nome de Deus. Porque Deus, tal como Jesus o conhece, é o anti-sofrimento-em-acção. Diante de alguém que sofre, Jesus não perde tempo a indagar de quem é a culpa. Toma imediatamente partido contra o sofrimento. E só descansa, quando acaba com ele. Nem que, para tanto, tenha que violar as leis em vigor, mesmo a mais sagrada das leis de Moisés, como era, no seu tempo histórico e no seu país, o chamado descanso em dia de sábado. Na época, quem atentasse em público por duas vezes contra o descanso em dia de sábado, constituía-se em réu de pena de morte por apedrejamento. Mas Jesus nunca quis saber disso e realiza acções de libertação do sofrimento em dias de sábado. Propositadamente. Como uma provocação conscientemente assumida. É que Jesus comunga da paixão de Deus que consiste criar uma terra sem males, sem sofrimento de nenhuma espécie, uma terra de abundância de vida e de bens para todas as pessoas e para todos os povos sem excepção, a que ele chama Reino/Reinado de Deus. E nesta missão, Deus e Jesus com Ele estão ocupados as vinte e quatro horas de cada dia. Jesus sabe que o sofrimento humano, nomeadamente, o sofrimento dos inocentes, é o que causa mais horror a Deus, ainda mais do que o pecado. Ele sabe que a única coisa verdadeiramente intolerável para Deus é haver pessoas e povos a sofrer. E para Jesus, que vive no mundo em absoluta e ininterrupta intimidade com Deus, como um bom filho na casa do seu pai, é exactamente a mesma coisa: o sofrimento humano é a única coisa verdadeiramente intolerável para ele!
Pois bem, foi a Paixão pelo Reino/Reinado de Deus, concretamente, a paixão em pôr fim ao sofrimento no mundo, que levou Jesus a enfrentar-se até ao extremo da perda da própria vida, com as autoridades religiosas do seu tempo e país e, em última instância, com o próprio Império que então ocupava o território de forma cruel e brutal. Os confrontos teológicos que teve que travar com os teólogos oficiais do Templo de Jerusalém que justificavam teologicamente o sofrimento das pessoas e dos povos, foram tremendos. Duélicos. Nunca Jesus os evitou, embora estivesse consciente que num duelo um dos intervenientes acaba morto. Seria ele o morto, porque jamais recorreria aos processos de luta dos teólogos da mentira. Os chefes religiosos e os teólogos oficiais do Templo justificavam teologicamente o sofrimento humano como castigo de Deus pelos pecados, o qual, por isso, deveria ser suportado como meio de purificação dos pecadores, como pena devida aos pecados cometidos por cada uma das pessoas, ou pelos seus antepassados. Para Jesus, o sofrimento, nomeadamente, o dos inocentes, era o pior, senão mesmo o único insulto que se cometia contra Deus Criador. Pelo que justificar teologicamente o sofrimento, isto é, invocar o nome de Deus para justificar o sofrimento das pessoas e dos povos, era a blasfémia das blasfémias, o único pecado que nunca poderia ter perdão! Nem poderá!
Nestas coisas, Jesus chega quase a perder a cabeça. E torna-se violento, daquela violência fecundamente libertadora que caracterizou os grandes profetas do seu povo. Só isso explica que ele tenha chegado ao ponto de ocupar o Templo de Jerusalém, e de chicote em punho expulsar quantos lá dentro vendiam e compravam, quantos exploravam e consentiam ser explorados, quantos provocavam sofrimento e acatavam religiosamente o sofrimento que lhes impunham, em lugar de o combaterem com todas as forças, inclusive, com risco da própria vida. Como ele acabará paradigmaticamente por fazer, em coerência com a sua visão da realidade. Tanto quis acabar com o sofrimento que acabou como o homem de dores. Tanto quis acabar com a cruz, que acabou como o crucificado. Tanto lutou para que o nome de Deus não fosse associado ao sofrimento, que acabou como o abandonado por Deus. Mas nem aí Jesus recua. Nem aí Jesus desiste do seu combate. Como quem parece proclamar: Mesmo que Deus, porventura, não fosse assim como eu revelo que é, eu não mudaria de postura e continuaria a combater o sofrimento, lá onde quer que ele esteja. E a verdade é que preferiu ser um maldito aos olhos do Deus do Templo de Jerusalém e dos seus crentes, a deixar de combater o sofrimento humano e a deixar de trabalhar sem descanso na edificação do Reino/Reinado de Deus, onde não haverá lugar para o sofrimento. Foi por ter ido tão longe, tão ao extremo, que Jesus se constituiu nosso Senhor e Mestre, o Cristo de Deus, o Salvador da Humanidade, o Ser Humano por antonomásia!
2004 MARÇO 25
Mais uma saída em missão, fora de Macieira da Lixa. Desta vez, fui a Vilar, nas proximidades do Lugar das Passarias, desta freguesia. Acompanhei a presbítera não-ordenada da Comunidade, Maria Laura, que tinha marcado um encontro juntamente com a sua irmã Zeza e as suas duas filhas, Nini e Sabrina, na casa duma senhora que sofre de grande deficiência, em consequência de um ataque cerebral ocorrido há anos, de nome Emília, casada e mãe de um adolescente, já a trabalhar, e duma menina, Tatiana, de oito anitos, que em casa é o braço esquerdo da mãe, cujo, desde esse ataque, ficou totalmente paralisado. Fui posto ao correr da iniciativa agendada para esta tarde e aceitei integrar o grupo, para lhe dar ainda mais o carácter de missão solidária, consciencializadora e libertadora. Viajámos na carrinha que me está confiada. Emília já é minha conhecida. Por mais de uma vez, participou no encontro-celebração da Comunidade de base, realizado nas tardes dos segundos domingos de cada mês. Na última vez que esteve connosco, as coisas que então partilhou foram de deixar os nossos cabelos em pé. A única coisa boa que tem para contar é que o marido trabalha regularmente e é muito amigo dela e dos filhos. Os quatro vivem num apartamento arrendado por 175 euros/mês. Ela também trabalhava e foi em plena actividade que há anos lhe deu o ataque cerebral, causado, ao que lhe disse o médico, por tensões altas. Não a matou, mas deixou-a gravemente afectada, numa cadeira de rodas, totalmente paralisada do lado esquerdo, incapaz de se vestir sozinha. A segurança social começou por lhe valer, pagou a uma senhora que ia lá duas tardes por semana cuidar da limpeza maior da casa. Emília, quando foi possível, passou a frequentar sessões de fisioterapia e, como é bastante nova - ainda não tem quarenta anos - conseguiu recuperar bastante. Mesmo assim, mantém-se com o braço esquerdo paralisado. A perna esquerda, graças ao auxílio duma prótese, já lhe permite caminhar, devagar e com apoio da filhinha, sem necessidade da cadeira de rodas, a que ainda recorre em caso de grande emergência. As deslocações a qualquer serviço de consulta ou para outros fins a que se não pode furtar, têm que ser feitas num táxi, o que representa muito dinheiro ao fim de cada mês. Como recuperou bastante das consequências funestas do ataque cerebral, a segurança social retirou-lhe a senhora que lhe fazia limpeza, bem como todos os outros apoios. Na sua impotência para assumir, ao menos, a vida da casa, Emília chora muitas vezes desesperada. Reconhece que, por momentos, que fica completamente fora dela, descontrolada e chega a ser violenta. Felizmente, o cérebro dela não foi afectado, mas como o corpo não consegue acompanhá-lo, Emília sente-se profundamente dividida e está quase sempre em depressão. A solidão é muita, durante o dia. E confessa que muitas vezes se vê assaltada por pensamentos sinistros, de acabar com a própria vida. Desde a primeira vez que procurou a Comunidade, foi por apoio solidário, já que tinha chegado aos seus ouvidos que a Comunidade se preocupa com as situações concretas das pessoas, nomeadamente, das mais pobres e marginalizadas. Emília não apresenta aquele aspecto degradado e desleixado que é frequente encontrar em grande número de mulheres pobres. Ela faz questão de vestir limpo e com gosto, arranjar os cabelos e até dá um certo toque de maquilhagem ao rosto. Hoje, foi também assim que a encontrámos na sua casa.
O encontro na casa de Emília deu outra verdade à nossa relação. E outra dignidade. A partir de agora, a relação passa a ser de iguais. Perde-se de vez aquele ar de assistencialismo que quase sempre as pessoas em necessidade gostam de alimentar com as demais, certamente, na convicção de que assim despertam mais a sua piedade e a sua compaixão, em ordem ao exercício da caridadezinha. Mas caridedezinha é coisa que eu não suporto. E que as Comunidades cristãs também não devem suportar. É uma relação degradante e humilhante, tanto para quem a exerce, como para quem é suposto beneficiar dela. A caridadezinha é coisa de ricos para com os pobres. Torna benfeitores os ricos, sem nunca acabar com a pobreza, nem nunca tirar os pobres da sua pobreza. Alimenta o status quo, em lugar de o subverter e de o derrubar. Por isso é que eu sempre procuro ir ao encontro das pessoas, no seu ambiente. Para lá de ficar a conhecê-las melhor, a relação entre nós muda de qualidade. Torna-se verdadeiramente humana. Há um outro clima, um outro ar que se respira, propício a profundas alterações no quotidiano de ambas as partes. Não existe mais o assistente social e o assistido. Começa a nascer a fraternidade/sororidade. E, se não nascer, então não há missão em nome do Evangelho, em nome de Jesus, o Libertador. Há caridedezinha, infelizmente, ainda tão do gosto das Igrejas, nomeadamente, da nossa Igreja católica, materializada nas misericórdias que ela dirige e nas inúmeras IPSS's que patrocina. Não é por aí que vai a prática libertadora de Jesus que nunca criou nenhuma IPSS, nem nenhuma Misericórdia. Não é por aí que aceito ir. Não é por aí que as Comunidades cristãs de Base, como modelo alternativo ao modelo paroquial e tradicional de Igreja, hão-de ir. Mas é por aí que, infelizmente, quase sempre vai a Igreja tradicional
Encontrámos Emília e a sua menina junto de casa. Uma vizinha, residente no mesmo prédio, estava a lavar no tanque. Olhou-nos à chegada, mas não saiu da tarefa que estava a realizar. Olhei-a com especial atenção. E afeição. Se é vizinha de Emília, quem sabe se não poderá ser atingida positivamente pela missão? Não se trata de fazer adeptos, de aumentar o número de aderentes da Comunidade. A missão, como eu a entendo, não é para isso. Isso costumam fazer as Igrejas-poder eclesiástico. Inclusive, as novas Igrejas ou seitas. Querem adeptos, até para aumentarem o número dos pagantes do dízimo!A missão, como eu a entendo e como as Comunidades hão-de entendê-la também, visa consciencializar/libertar as pessoas e despertá-las até as deixar mobilizadas para enfrentarem os problemas das suas vidas e os problemas da sociedade em que as suas vidas se inserem, de modo que paulatinamente metam mãos à obra contra eles e os vençam, sejam quais forem os combates a travar. Se as pessoas depois quiserem manter-se como membros da comunidade que as despertou e mobilizou, para fazerem a outros o que lhes fizeram, isso é com elas. Mas não é a preocupação de quem vai em missão. À comunidade não interessa crescer em número, em poder. Apenas interessa que as pessoas caídas se levantem, ressuscitem e mudem as suas posturas quotidianas frente aos problemas que as afectam e que têm causas estruturais que podem e devem ser combatidas.
Por isso, olhei com atenção e afeição para a vizinha de Emília. Duas mulheres irmanadas são uma força muito maior do que uma, ou mesmo do que duas, mas desligadas entre si. O mal do mundo é que as pessoas que se tornam mais conscientes e mais reivindicativas, geralmente, isolam-se das demais, em lugar de se abrirem às demais. Cresce o individualismo, em lugar da comunhão. E com milhões de individualistas não vamos lá. A revolução ou é comunhão, ou não será! Mesmo que, por hipótese, um dia a Humanidade esteja toda consciente nos seus membros e toda mobilizada, se for individualista, continuará a ser um desastre. A sociedade que daí resulta é um monstro em acção. Só pessoas em comunhão serão pessoas verdadeiramente humanas. E pessoas em estado de salvação. E pessoas alegres e felizes, em festa.
A senhora deu-se conta do meu olhar de afeição. E ficou levemente perturbada. Mas permaneceu na sua tarefa, como se nada fosse. Mas interiormente agitada. O que significaria tudo aquilo que estava a acontecer à volta dela e com ela? Deveria ser a grande pergunta que nascia dentro dela. E a prova é que quando entrámos na casa de Emília e de Tatiana, a vizinha arranjou um pretexto qualquer para vir de imediato à sua casa, que fica porta-com-porta com a de Emília. Dei-me conta do pormenor e, já lá dentro, levantei a questão à própria Emília. Em concreto, perguntei se se davam bem. E se se seria possível convidá-la a entrar para partilhar o encontro connosco. Emília mostrou-se surpreendida. Mas não ofereceu resistência. E, depois duma pequena conversa ocorrida no quarto de Tatiana, a propósito das suas muitas bonecas (fiz-lhe muitas perguntas a propósito: se ela fala para as bonecas; se inventa estórias com as suas bonecas; se lhe conta os seus segredos e as suas raivas; se já lhes pôs nomes e que nomes; se viaja com as suas bonecas sem sair do quarto; se dorme com alguma e qual e porquê. Tatiana, ainda sem à vontade, limitava-se a responder com a cabeça, sim ou não, sempre de olhos no chão. Mas foi um bom começo de conversa. Quando lhe perguntei de todas as bonecas qual era a sua preferida, aí Tatiana abriu-se mais, sorriu e apontou para uma que estava sentada numa das cadeiras do quarto. Ainda não lhe tinha posto nenhum nome. Gerou-se uma conversa partilhada entre todos e Tatiana logo ali tomou uma decisão: a sua boneca preferida passou a chamar-se Sabrina, o nome da filha mais velha da Zeza, de quem se tornou surpreendentemente amiga, desde que a viu a primeira vez. Sabrina ficou comovida com essa escolha e creio que o acontecimento teve força de sacramento que vai selar uma amizade inesquecível entre ambas, fecundamente libertadora para as duas. Acho que tudo mudou em cada uma nesse instante.Tatiana nunca mais estará sozinha. E Sabrina nunca mais se sentirá bem sem Tatiana. Tatiana evangelizou Sabrina. A menina pobre tocou o coração da menina menos pobre. E ambas ficaram mais irmãs), eis que batem à porta. Abri e deparo com um menino da idade de Tatiana. Era o filho da vizinha. Fi-lo entrar e aproveitei para informar: vou ver se consigo trazer também a vizinha a partilhar do nosso encontro. Ninguém se opôs e avancei. A porta da sua casa estava entreaberta. Chamei e esperei. Ela apareceu. Apresentei-me e convidei-a a entrar. Ela hesitou, mas logo disse que sim. E esteve connosco todo o tempo. Em animada conversa partilhada. Ainda participou no lanche partilhado que fizemos em memória de Jesus, na cozinha da casa de Emília, de novo com as crianças presentes que, anteriormente, haviam andado a brincar todas juntas, sob a orientação e dinamização de Sabrina.
A conversa foi longa. Ana Maria aproveitou e falou muito sobre ela e sobre os problemas que ultimamente tem sofrido com o marido. Revelou-se mulher sofrida. Mas ao mesmo tempo resignada, acomodada à situação. Não trabalha, assume-se apenas com o serviço doméstico. Está completamente dependente do marido. E não se mostra muito disposta a alterar a situação. Quando ele se ausentou de casa por um tempo - terá ido viver com outra - ela foi trabalhar num restaurante. Tirava um bom salário. Acabou por o aceitar de volta a casa e ele exigiu que ela voltasse a deixar o trabalho. Ana Maria fez-lhe a vontade e adeus autonomia e independência. E agora, embora se queixe das prepotências dele e dos desprezos dele, não é capaz de se afirmar. Foi aqui que mais me mostrei exigente para com ela. Enquanto mulher, não deveria tolerar nem mais um dia esta situação. Tolerar, deixar correr, é perder todo o sentido da sua dignidade de mulher. Infelizmente, ainda são muitas as mulheres que assim procedem. Aguentam tudo, para garantirem o pão de cada dia. Mas um pão assim em lugar de alimentar a vida da pessoa, mata lentamente a pessoa. Não há pão-alimento verdadeiramente humano, quando o que comemos não alimenta a nossa dignidade. A subserviência e um estilo de vida ao jeito dos vassalos perante os prepotentes não são viver em dignidade. Maldito o pão que nos mantém na subserviência e na vassalagem dentro da própria casa!
Não sei o que irá sair desta conversa. Não sei até que ponto Ana Maria vai ser capaz de reagir e de se levantar. Se, com os relatos que nos fez apenas pretendia despertar em nós compaixão e pena, não conseguiu. A missão em nome do Evangelho nunca pode ficar pela compaixão e pela pena. Tem que despertar libertação nas vítimas da prepotência e promover comportamentos-revolução. Não há missão, se nos limitamos a manter situações de desumanidade em nome duma certa paz e duma certa harmonia. Muito menos, em nome da velha receita religioso-sacrificialista que manda(va) sofrer com paciência ou por amor de Deus. O único sofrer que um ser humano pode ter que suportar é o que nos for imposto violentamente pelos prepotentes, por nos termos insurgido contra as prepotências deles e não mais pactuarmos com elas. Por isso, Ana Maria só poderá passar a sentir-se bem, a partir do dia em que ousar mudar a presente situação e buscar uma outra em que a sua dignidade de mulher e de mãe sejam respeitadas pelo marido e pelos filhos. Mesmo que o preço a pagar por isso seja muito elevado. O que não for assim é indigno e fonte de indignidade. Foi o que mais lhe sublinhei, a par com as restantes companheiras, sobretudo, no momento do lanche partilhado. A memória de Jesus só assim tem sentido. E só assim não se torna sacrílega. Só assim dá glória a Deus. Quando a vítima se levanta contra o que a faz vítima há alegria no céu, isto é, em Deus.
Um novo encontro dirá se este de hoje iniciou em Ana Maria um processo de libertação para a liberdade e para a dignidade. Já no que respeita a Emília, há indicadores de que sim. Como por princípio recusamos entrar pela via da caridadezinha, Emília foi estimulada a passar de simples assistida, ora resignada, ora desesperada, a mulher que vai à luta. Depois de vários encontros, ela acabou finalmente por assumir algum protagonismo. Pela primeira vez na vida! Decidiu dar um pequeno passo que a fará crescer em auto-estima e em auto-confiança. Conseguimos que ela aceitasse pôr por escrito a sua situação. Sob a forma de carta. E endereçá-la ao Presidente da República. Para que ele, enquanto primeiro órgão de soberania e garante da Constituição do país, faça mexer as instituições em questão. Emília estremeceu quando ouviu a proposta. Hesitou. Mas acabou por dizer sim ao desafio. E já fez seguir a carta. Por isso, hoje, parecia outra mulher. Muito mais sorridente, despachada, interventiva, inclusive em relação à vizinha Ana Maria. A carta que escreveu é um pequeno monumento de denúncia do estado a que chegou o nosso país, desde que este Governo de Durão Barroso/Paulo Portas se mantém em funções. Praticamente, já não há estado social. Quem não tiver unhas para tocar guitarra deixa simplesmente de existir. É sobrante e, como tal dispensável. Deve morrer quanto antes, porque se converteu num estorvo.
Não resisto a transcrever aqui a carta que Emília escreveu. Ela é o retrato vivo do país que temos e que está a transformar-se num monstro, pelo menos, ao nível das instituições oficiais. Porque ao nível das pessoas, ainda é um país de primeira grandeza. Basta reparar na Sabrina, a filha de Zeza, e na relação de afecto que se estabeleceu entre ela e Tatiana, a filha de Emília. Essa relação está a mudar Tatiana e Sabrina. Sabrina é como que a parteira de Tatiana, está a conseguir fazer sair de dentro de Tatiana toda a capacidade que corria o risco de ficar para sempre abortada e sepultada. A própria Zeza, mãe de Sabrina, graças a uma oportuna observação de Maria Laura, já se apercebeu da importância desta relação. E mostra-se disposta a facilitar encontros mais frequentes entre ambas. Para que cresçam. É a melhor catequese que Sabrina e Tatiana podem dar uma à outra e receber uma da outra. Feita de vida, de contacto, de acções em comum, de brincadeiras e comidas partilhadas. E de conversas connosco, uma vez por outra. E como ambas andam muito mais felizes e motivadas em tudo o que fazem dia a dia! Eis, pois, a carta de Emília. Leiam-na e pensem no que seria hoje o nosso país, se todas as pessoas já tivessem sido ajudadas a chegar a esta estatura reivindicativa de Emília (Se as Igrejas não são para ajudar as pessoas a chegar a essa estatura, então para que existem?!):
Ex.mo Senhor
Dr. Jorge Sampaio
Presidente da República
Chamo-me Emília, tenho 35 anos, sou casada e mãe de dois filhos, um rapaz com 15 anos e uma rapariga com 9.
Encontro-me numa situação que me desespera e me empurra até para o suicídio.
Parei para pensar e pensei em escrever-lhe. Gosto de o ver na televisão, acho que é muito sensível a estas coisas e parece ser a minha tábua de salvação, assim o espero.
Andava eu numa vindima, quando me deu um ataque cerebral. Estive três semanas em coma no hospital e fiquei para toda a vida paralisada de todo o meu lado esquerdo, sendo atirada para uma cadeira de rodas. Isto passou-se no ano de 1999, os filhos eram ainda pequenos e criaram traumas que agora se vão manifestando cada vez mais.
Na altura, o mais velho com 10 anos foi tirado da escola, porque o pai tinha que trabalhar e era o menino que me fazia todo o trabalho de casa. E como é preciso fazer-me tudo, claro que me custou muito, custou-me os olhos da cara. Agora, terá de ir trabalhar e terei que tirar da escola a pequenina que hoje tem 9 anos, pois até da cama me têm que tirar e fazer-me toda a higiene, assim como a comida.
As pessoas à volta ficam alarmadas e até me dizem para chamar as televisões, mas eu pensei e acho que escrever ao senhor Presidente seria o primeiro passo a dar.
Senhor Presidente da República, é claro que pedi apoio à Segurança Social aqui da Lixa. E a D. Cristina mandava uma mulher a minha casa duas horas duas vezes por semana. E começou a pagar ainda há pouco tempo a uma psicóloga, pois a minha filha precisa muito, não aprende nada na escola e pouco fala, não sabe brincar e nem tem tempo para isso.
Mas até este pouco apoio que me davam me foi agora tirado no passado mês de Janeiro. Cortaram-me tudo e isto está a contribuir para me dar outro ataque. É o que o meu médico do hospital me diz, pois passo o tempo a chorar, vejo a minha vida assim sem alegria, sem dinheiros. E para minha maior tristeza, ainda tenho que pagar 175 euros por mês de renda de casa.
Quero dizer-lhe outra coisa, senhor Presidente. Tenho médico de família. Chama-se Dr. Carlos Oliveira e é desde então o meu médico, mas não me consulta no posto médico uma única vez. De cada vez que lá vou diz-me para eu ir ao consultório dele que é na Clínica e de cada vez deixo lá 50 euros. Como posso eu suportar estas despesas? Acabo por não aparecer às consultas. Tenho uma perna com talas e, devido a isso, ganha feridas e tenho de curá-las em casa, porque o meu médico ainda não me arranjou os papéis para eu ser isenta. E se lá me deslocar, tenho que pagar a um táxi, pois não tenho direito a ambulância de graça. Será que me podem fazer isto a mim?
A assistente social disse-me: divorcie-se do seu marido e terá os direitos, outras como você já se divorciaram e passaram a ter direitos e apoios da Segurança Social. Mas como me vou divorciar do meu marido, se gosto tanto dele e ele é o meu único arrimo?
Peço-lhe por favor, senhor Presidente, para olhar para a minha casa. Acho que o senhor é a única luz que vejo para me ajudar. Gosto do senhor Presidente e sei que não fica indiferente a este meu pedido desesperado. Só peço o que me tiraram. Nada mais.
Os meus respeitosos cumprimentos. E fico à espera da sua resposta, como de pão para a boca.
2004 MARÇO 21
Hoje, regressei a Paredes de Viadores, uma freguesia do concelho de Marco de Canaveses, a primeira paróquia que me foi confiada no remoto ano de 1968, após ter sido expulso de capelão militar. A experiência foi muito rica para mim e para o povo que lá vivia e, uma boa parte dele, ainda vive. Apesar de ter durado apenas catorze meses. Acabei também "expulso" pelo bispo-administrador apostólico da Diocese, D. Florentino de Andrade e Silva, o mesmo que me obrigou a ir como capelão militar para a guerra colonial em África. "Expulso", é um modo de falar. Porque em boa linguagem canónica e eclesiástica, fui exonerado das funções. Por um decreto episcopal que me foi lido pelo respectivo Vigário da Vara da região, na presença de dois párocos vizinhos que ficaram como testemunhas. Atrevi-me a anunciar o Evangelho e a dar de graça o que de graça me foi dado, e foi o que se viu. Em vez do rasgado apoio do Bispo, conheci a quase imediata exoneração de funções. Até parece que um pároco não deve anunciar o Evangelho, tal como um capelão militar na Guerra colonial não deveria (foi o que me disse - imagine-se! - o meu chefe capelão que foi de propósito de Lisboa a Mansoa para isso). O decreto de exoneração - dava-me 24 horas para deixar a paróquia! - foi-me lido pelo Vigário, mas não me foi entregue nenhuma cópia para as mãos. E eu, ainda ingénuo, também não a exigi. O administrador apostólico estava na iminência de deixar o lugar (já se falava à boca cheia que o bispo titular da Diocese, D. António Ferreira Gomes, estava próximo da fronteira, pronto para entrar no país e recuperar a diocese perdida há dez longos anos!) e, habilmente, recorreu a este estratagema para que o decreto da minha exoneração não figurasse na Cúria diocesana contra ele, tão injusta essa sua decisão episcopal foi. Só o soube, semanas depois, quando conversei com o bispo D. António, de novo à frente da diocese. Ele próprio me disse que nada constava na Cúria a respeito da minha exoneração e mostrou-se deveras escandalizado com isso!
Por várias vezes, nestes dois últimos anos, já estive em Paredes de Viadores. E dinamizei alguns encontros com pessoas de lá, em ordem à criação duma Comunidade cristã de base que fique como modelo libertador alternativo de Igreja ao tradicional modelo paroquial, opressor. Nesta missão, manifestamente difícil, tem sido fundamental o trabalho de Maria Laura, presbítera não-ordenada da Comunidade cristã de base aqui de Macieira da Lixa. Desde que nesta pequena Comunidade se declarou chegada a hora da missão, inclusive, por outras terras, ela logo se sentiu chamada a deslocar-se a Paredes de Viadores, com esse fim. A primeira vez, ela foi sozinha no transporte público e desceu no centro da freguesia. Levou com ela alguns exemplares do Jornal Fraternizar e começou a andar, na expectativa de que alguém reparasse nela e lhe desse pé de conversa. O que aconteceu. Mostrou o jornal e perguntou se ainda se lembravam de mim. As pessoas mais velhas logo disseram que sim e revelaram interesse em saber mais pormenores. Assim se iniciou o processo. Com uma dessas pessoas, ela foi logo encontrar-se com mais outras e começou-se aí a preparar um primeiro encontro. O que, na altura, nem foi muito difícil. As pessoas queriam rever-me e recordar na minha presença episódios do passado. Os catorze meses de pároco haviam deixado indeléveis marcas na memória do povo empobrecido de então. E muitas histórias reais. Algumas hoje já com contornos lendários! Mas o objectivo era mais ambicioso e por isso, depois de satisfeita essa curiosidade, muitas das pessoas que começaram por aparecer já não apareceram mais. O que não me surpreende. Criar alternativas à rotina e ao estabelecido, é coisa de poucas pessoas. É próprio de pessoas militantes. E militantes muito perseverantes.
Desta vez, fui sem encontro marcado. Para contactos informais. O pároco local (não reside lá, mas na paróquia de Soalhães, a alguns quilómetros de distância e vem lá apenas como funcionário eclesiástico, para aquelas funções que a Igreja diz que lhe estão reservadas!) já soube das minhas incursões no território e terá dito, numa das homilias, que tivessem cuidado comigo. Estamos no século XXI e trinta anos depois do 25 de Abril, mas a verdade é que certos párocos católicos continuam a pensar que a paróquia é um feudo pessoal e que as pessoas lá residentes são súbditos seus. A mentalidade feudal ainda não morreu de todo na consciência dos párocos e dos bispos católicos. Nem na consciência do povo que vive nestas aldeias do interior e lhes está subjugado como os antigos servos da gleba. Tanto assim que esse alerta do pároco contra a minha presença no território, teve efeitos negativos imediatos. Parte das pessoas assustou-se e o trabalho de missão sofreu o seu primeiro revês. A realização de um novo encontro revelava-se, por isso, já bastante problemática. Ao saber disso, decidi avançar pessoalmente para o terreno, voltar a conversar com as pessoas com quem há mais confiança, nomeadamente, aquelas em cujas casas já reunimos e até já comemos juntos. Ainda bem que tomei esta decisão e avancei. Pude ouvir as pessoas, despertar nelas a confiança que já esmorecia, desmentir o pároco, revelar-lhes na prática quem é que está com elas para servir gratuitamente a causa do Evangelho e quem é que está sobre elas para se impor, dominar e explorar.
Comigo, na carrinha, foram também Maria Laura, Deolindinha e Irene. É impressionante, como a Irene, na sua deficiência, se mostra sempre disponível para me acompanhar no serviço da missão. Deixa o pai e a mãe e avança. Para ela é uma libertação. E a sua presença é uma festa permanente. Faz boa companhia. É bem uma presença do Espírito de Deus no meio de nós. E, quando a apresento às pessoas, elas logo a olham com um carinho especial e o ambiente fica muito mais íntimo e familiar. Pelos contactos telefónicos havidos previamente, fomos ter a casa de um casal já conhecido de outras vezes. Levámos frangos de churrasco que comprámos pelo caminho, uma salada de alface e tomate. Lá cozinhou-se um tacho de arroz e comemos todos juntos na sala da casa desta família de quatro pessoas: o casal Vera e Jorge e suas duas filhinhas, Patrícia e Mafalda, ambas ainda em idade de pré-primária. Estava também Leonor, a mãe de Vera, a única que me conhece desde o tempo em que fui lá pároco. Desde o primeiro encontro que dinamizei na freguesia, numa casa próxima desta, a casa da Zeza e do Manuel (ele trabalha na construção civil em Espanha e só hoje pude conhecê-lo, quando, ao início da tarde, passei por lá a visitar a Zeza e as filhas; das vezes anteriores, encontrava-se ausente em Espanha; desta vez, houve fim de semana prolongado em Espanha e ele pôde dar um salto a casa, para matar saudades), deu para perceber que este casal era olhado pela sociedade à volta como um casal com problemas, de quem os outros não se aproximavam, ela muito doente, numa grande depressão, sempre metida em casa e na cama, de portadas fechadas, numa postura quotidiana de grande desleixo e de desinteresse pela vida; ele, de baixa médica, sem ganhar, para poder acompanhar a doença da mulher e as duas filhas, mas também perturbado com a situação, sem qualquer perspectiva de futuro para a família. Fiz, por isso, questão de irmos comer a esta casa, como quem dá um sinal à sociedade envolvente que não é com distanciamento e rejeição que ajudamos as pessoas com problemas, mas com proximidade, ternura, carinho, partilha de vida, como quem se sabe sangue do mesmo sangue, da mesma família universal dos filhas e filhas de Deus.
A decisão previamente anunciada teve o efeito esperado. Vera e Jorge meteram-se em brio e prepararam-se para nos acolher. As duas meninas, ao saberem que íamos lá comer a casa, viveram as últimas horas antes da nossa chegada num pé só, de alegria. À chegada, fui encontrar Vera na cozinha, muito mais animada, bem arranjada e bonita na sua mini-saia, as meninas numa alegria sem peias e o Jorge também feliz por termos escolhido a sua casa para almoçarmos. Os quase rejeitados naquele meio social eram agora os escolhidos pelos enviados em nome do Evangelho. A cena fez-me lembrar outras semelhantes, relatadas no Evangelho. Por exemplo, a cena de Zaqueu, contada pelo Evangelho de Lucas. Todos ajudámos a preparar o almoço. Ocupámos a sala de jantar e comemos com simplicidade, mas num ambiente de grande alegria, com a palavra de cada qual a circular livremente. O encontro-almoço foi Evangelho ao vivo. O que um pároco, como poder eclesiástico que é, jamais consegue viver, anunciar, experimentar, por mais vezes que aceite o convite a comer em casa de certas famílias da paróquia. Será sempre recebido como pároco, como poder eclesiástico. Nunca conseguirá ser irmão, companheiro. Será hierarquia, uma presença que inibe as pessoas, que as tolhe, que as oprime. Jamais encontrará as pessoas tais quais elas são, sempre as conhecerá com uma máscara, com posturas de fingimento, de hipocrisia.
Vera e Jorge estavam radiantes. Pareciam duas crianças grandes. Meigos. Ternos. Eles que andam com graves problemas de relacionamento matrimonial, até a pensar na possibilidade de se divorciarem, estavam como nunca estiveram nestes anos de casados. Creio que até o seu casamento pode estar em vias de ser curado. Não só a depressão que tem atacado Vera. Também o casamento de ambos. E as meninas? Nenhum amuo, cada qual disponível ao seu jeito e à sua medida, com vontade de cooperar nos serviços. Até a mais pequenina fez questão de ajudar a pôr a mesa. E lá andou a colocar os talheres e os guardanapos. Se quisesse recorrer à linguagem evangélica para dizer esta vivência, teria que escrever como Lucas escreveu a propósito de Zaqueu: "Hoje, entrou a salvação nesta casa". E será sempre assim, quando o Evangelho entra na vida e na casa das pessoas. Porque o Evangelho é libertação, é mudança, é cura, é reabilitação, é ressurreição, é humanização.
A tarde foi de contactos directos e ao vivo. O Jorge tinha um compromisso e não nos pôde acompanhar, mas Vera e as filhas, assim como a sua mãe Leonor, fizeram questão de ir em missão connosco. Vera foi a primeira a dizer: Deixamos a cozinha por arrumar e logo eu arrumo-a. Estava fora dela, de alegria. Descemos as escadas em direcção à carrinha. Aproveitei, enquanto se acomodavam, e dei um salto à casa da Zeza, para a saudar. Acabei por demorar mais do que o previsto, porque em lugar da Zeza encontrei Manuel, o marido dela. Ela tinha ido ver umas leiras, nas proximidades da casa. Acabei por conversar um pedaço de tempo com ele. E fiquei com muito boa impressão dele. E ele de mim e do trabalho que ando por ali a fazer com o povo. Achou muito bem. E mostrou-se indignado com a atitude do pároco. Deixou-me por isso a convicção de que, a partir deste momento, Zeza, sua mulher, vai estar ainda mais à vontade para abrir a sua casa a outros encontros e também terá carta branca para se entregar mais ao trabalho de ajudar a constituir a comunidade cristã de base de Paredes de Viadores. Mesmo ausente em Espanha, Manuel será companheiro. No seu olhar, vi luz e transparência. É homem com quem o Espírito já trabalha e que trabalha com o Espírito. Quem bom!
Entrámos todos na carrinha. Em direcção ao Lugar de Viadores. Por uma família que tem um menino com deficiência. Para a conhecermos ao vivo. E ver se podemos realizar em sua casa um encontro aberto a outras pessoas. Gosto de casas assim. As famílias com um dos seus membros com deficiência são casas onde Deus está muito mais presente e muito mais activo. Deus como Mistério que se nos revela. Os antigos olhavam para a deficiência como uma maldição e um castigo de Deus. Os judeus do tempo de Jesus era também assim que viam as coisas. Jesus mudou tudo e revelou que onde há deficiência há Deus. O Deus Mistério que se revela como chamamento, como apelo, como desafio. Uma criança com deficiência, ou um adulto, chama-nos, convoca-nos à ternura, ao serviço. Puxa por nós. Humaniza-nos. É uma bênção. É presença de Deus. Avancei com carrinha, pela estrada estreita e sempre a subir. Quase sempre em primeira. Mas chegámos ao local desejado. Dentro de mim, tudo eram memórias do passado. Revivi-as numa fracção de minuto. Porque agora é o presente que interessa. Alicerçado nesse passado.
Em casa da São - é assim que se chama a mãe do menino - não estava ninguém. Ela não sabia da nossa ida e tinha saído para Lousada. Vi a casa por fora. Escutei o silêncio e a ausência. Com uma grande serenidade interior. Sabia-me em missão. E esta faz-se de muitos modos. Também assim. Caminhei à frente, acompanhado da pequenina Mafalda, filha de Vera, para ver se a senhora estaria no café próximo, ou em casa da sogra. Nem num local nem noutro. Mas foi nesse andar que de repente vejo uma das filhas da Zeza, a lavar num tanque. Casou há poucos anos e vive ali, numa casinha alugada, muito pequenina e pobre. Já tem dois meninos. O mais pequenino, ainda bebé, dormia a sesta. A máquina de lavar roupa avariou-se e ela tem que recorrer ao tanque público. E foi assim que nos encontrámos. Como Jesus encontrou a mulher da Samaria junto ao poço de Sicar, na Samaria. Ela reconheceu-me logo, do encontro que já realizámos em casa da sua mãe. Eu reconheci-a logo, no sorriso e nos olhos saltitantes de juventude acolhedora. Beijámo-nos. Expliquei-me e ela logo se disponibilizou para cooperar. As outras pessoas que tinham ido comigo na carrinha acabaram por se aproximar também, ao verem que eu não regressava. Foi um encontro em grande. Em pleno caminho. Passavam pessoas, automóveis, toda a gente reparava e queria saber o que se passava ali. Uma casal do meu tempo de pároco acabou por ficar também na conversa. E depois uma jovem mulher que chegou no seu carro com uma filha, ficou também. Chama-se Adozinda. Entusiasmou-se, quando soube quem eu era. E aliou-se à filha da Zeza para preparem o próximo encontro, que será o primeiro no lugar de Viadores, provavelmente em casa da São, a mãe do menino com deficiência. O tempo foi de comunhão, de convívio, de fraternidade/sororidade. A comunidade cristã de base já está ali em embrião. A missão foi ao vivo, sem grandes discursos, mas com muita vida, muita proximidade. As pessoas puderam perceber o que pretendo, quando falo em missão. Não é arregimentar multidões, como os padres da missão antigamente. É proporcionar ocasiões de graça e de verdade, experiências de libertação e de comunhão, de línguas que se soltam, de cabeças que sonham e projectam, de pernas que andam, de mãos que fazem e se dão, de olhos que se abrem, de relações fraternas/sororais que acontecem. Numa palavra, vivências do Reino/Reinado de Deus que nos faz ser verdadeiramente humanos uns com os outros.
Quando descemos do lugar de Viadores, ainda passámos por uma outra casa, onde vive uma mulher com um filho de meia idade que foi toxicodependente e hoje é tendencialmente alcoólico. Para lá de sofrer de deficiência mental que faz dele um menino. Ela é uma das mulheres que já esteve no último encontro, realizado numa das dependências da senhora Olinda, uma pequena empresária das proximidades que se disponibilizou para esse fim. Fiz questão de ir ver na sua casa esta mulher-mãe coragem. Fomos todos. Ela ficou radiante. A sua tarde de domingo ganhou cor e ela sorriu com vontade. Vimos também o filho que entretanto chegou da tasca mais próxima e já vinha com sinais de perturbação, porque, infelizmente, há sempre quem lhe pague mais uma cerveja. Os problemas que esta mãe tem que suportar para carregar com o filho!... Mas o amor é assim. Dei-me conta de tudo isto e comunguei toda esta realidade. Não sou funcionário eclesiástico. Sou padre-companheiro-dos-mais-pobres. Para que se descubram amados por Deus. E se libertem de raiz. Há quem se assuste, mesmo da parte dos pobres. E fuja de mim. Me evite. Mas também há quem perceba a diferença entre mim, padre sem ofício canónico oficial, por isso, próximo do povo sofrido a libertar, e o pároco, poder eclesiástico, sempre do alto do seu pedestal, na melhor das hipóteses, um benfeitor junto do povo sofrido, a manter resignado. E há quem se abra. Embora eu, pessoalmente, pouco importe. Só valho, na medida em que Deus passa por mim. Em que sou sacramento de Deus. Para que as pessoas vejam Deus, ao ver-me, ao serem beijadas, escutadas, abraçadas, amadas por mim. É assim a missão do Evangelho de libertação. Em que toda a Igreja de Jesus deveria estar empenhada. Com alegria. O mundo seria outro, muito melhor do que efectivamente é. E então até as duzentas mil pessoas que actualmente passam fome em Portugal - é a grande manchete do PÚBLICO, hoje, uma manchete escândalo e vergonha para o governo e para a nossa Igreja! - nem sequer existiriam. Porque com uma Igreja outra, ao serviço do Evangelho da libertação, também a Política seria outra e os políticos seriam outros. E os pobres deixariam de viver de mão estendida, para se assumirem como protagonistas dos seus próprios destinos.
2004 MARÇO 19
Esta tarde, peguei na mochila com um exemplar do Novo Testamento lá dentro e saí, estrada abaixo. Parei à porta da casa da Rosalina, irmã da Lurdes, a mulher que tem ao seu cuidado cães e gatos abandonados. Uns trinta cães. E uns vinte gatos. Já havia posto a hipótese de um encontro lá em casa e elas estavam por isso. Ambas estavam na sala da casa onde costumam ocupar-se diariamente da actividade de coser sapatos por conta duma empresa. É trabalho ao domicílio e meio clandestino. Com elas, estavam, como de costume, mais duas mulheres, uma bastante mais velha, Lucinda, e outra, bastante mais nova, Adozinda. Disse ao que ia: venho conversar convosco, enquanto vós trabalhais. Logo se disponibilizaram. Ofereceram-me um banco, onde me sentei, em igualdade com elas. E ali fiquei por um período de mais de hora e meia. Todas, menos Adozinda, são já do tempo em que fui aqui pároco. Adozinda, para lá de ainda não ser desse tempo, também não era de Macieira. Mas tem ouvido falar de mim quanto baste. Agora, vive junta com um homem casado de cá do Lugar da Maçorra, que está separado da mulher. Para mim, esta situação que a Igreja tradicional considera "irregular" e "pecado", não é problema. Creio que para o Evangelho também não. Decididamente, Deus, o de Jesus, não tem o rígido código de moral da nossa Igreja católica, muito menos, o código da Cúria romana. Deus nunca atira a primeira pedra a quem peca. É infinitamente mais acolhedor e misericordioso que o pai do filho mais novo - mais conhecido por "filho pródigo" - da parábola de Lucas. Ora, é por Deus que vou, não pelo código de moral do papa ou dos bispos ou dos párocos.
A conversa aconteceu com alguma espontaneidade. E acabou basicamente à volta de dois temas: Imaculada Conceição e Jejum/Abstinência. Lucinda queria ser esclarecida sobre o jejum. O tema da Imaculada Conceição fui eu que puxei por ele, quase sem querer. Uma delas disse qualquer coisa a propósito do dia da mãe (hoje, pelo calendário, é o dia do pai!) ter passado de 8 de Dezembro, para o primeiro domingo de Maio e usou a expressão "Imaculada Conceição". Adozinda adiantou por sua vez que os dois dias eram de manter, mas com este pormenor curioso, manifestamente pueril e infantil: o dia 8 de Dezembro era o dia da mãe do céu; o primeiro domingo de Maio, era o dia da mãe da terra. Todos achámos graça. Rimo-nos. E foi aí que eu entrei para perguntar (nas conversas com o povo é muito importante fazer perguntas, já que elas são uma maiêutica libertadora que abre as consciências e ajuda a fazer pessoas) o que significava a expressão "Imaculada Conceição". Ninguém ali sabia. Todas conheciam a expressão, mas nenhuma sabia o que ela queria dizer. Lucinda, a mais velha do conjunto, confessa que não sabe ler e, por isso, não sabe o significado dessas duas palavras. Tão pouco sabe a propósito de quem elas se dizem. E logo mostra interesse em mudar de assunto, para o tema do Jejum. Resisto a esse golpe. Insisto no tema inicial. Cada uma tenta responder, mas nenhuma chega lá. É aqui que me apercebo do que vai por aí de ignorância. Anos e anos de frequência da Igreja e nenhum desenvolvimento cultural popular!... Efectivamente, a frequência da Igreja é anti-cultura, é prática obscurantista, é degradação humana. Os pobres andam pela Igreja, mas nunca são Igreja. Nunca chegam ao limiar de pessoa, de sujeito. São sombras. São objecto. São terreno onde são semeadas catequeses eclesiásticas mais ou menos terroristas sem cultura e sem discernimento. Que desenvolvem medos. A Igreja, com os seus ritos sempre os mesmos, alimenta medos. Deveria libertar dos medos, mas alimenta medos. Neste aspecto, é criminosa. Podia e devia ser processada. E condenada. O pior é que ela chega a ser contumaz. Em vez de se corrigir, insiste no erro e no crime.
Para aguçar o interesse de todas, comecei por lhes dizer que elas nem sonham o que aquela expressão significa. Se sonhassem, sentir-se-iam tão ofendidas, na sua condição de mulheres, que nunca mais a utilizariam. Perderiam todo o respeito mítico que têm por essa expressão. Ficaram intrigadas. E interessadas. Peguei na primeira palavra: Imaculada. Dei exemplos de todos os dias que elas conhecem. Falei de roupa. Quando é que se diz que a roupa está imaculada? Começaram a entender. Era como uma sessão de alfabetização. Imaculada, tem a ver com limpo, lavado, sem mancha, sem nódoas. Conceição - há mulheres com esse nome - é o mesmo que concepção, remete-nos para o momento em que cada ser humano é concebido no ventre da sua mãe. Elas ouviam. Acompanhavam o meu raciocínio, sem despegar os olhos dos sapatos, que já trabalham quase mecanicamente. O seu entendimento abria-se pouco a pouco. E lá concluímos que Imaculada Conceição tinha a ver, segundo um dogma da Igreja católica, com um privilégio concedido a uma única mulher, aquela que veio a ser a mãe de Jesus. Em concreto, ensina a Igreja que Maria de Nazaré, para poder ser a mãe de Jesus, o Homem que não conheceu pecado, começou por ser concebida sem pecado no ventre da mãe dela, concretamente, sem o pecado original. Ao contrário de todas as outras mulheres e de todos os outros homens que, se fosse verdade esta doutrina da Igreja, teríamos sido concebidos todas, todos com a mancha do pecado original. e teríamos nascido com essa mancha, que só o Baptismo poderia apagar!
Elas ouviram. Fez-se luz dentro delas. Via-se nos olhos e nos rostos de cada uma delas. Mas foi aí que eu logo as deixei desconcertadas, quando acrescentei que isto que tinha acabado de lhes dizer é a doutrina oficial da Igreja católica que nem sequer tem tido pejo em falar de Maria, mãe de Jesus, como uma mulher de privilégios contra todas as outras! Mas, atenção!, que nenhuma delas se deixe enganar, uma vez que tudo isso que lhes tinha acabado de dizer, como doutrina oficial da Igreja, não é verdade, é tudo mentira. Efectivamente, ninguém é concebido em pecado no ventre da sua mãe, pelo que não faz sentido falar em Maria de Nazaré como a única isenta desse pecado, desde o momento da sua conceição. Fazia sentido falar de isenção, se todos os outros seres humanos nascêssemos manchados com o pecado original. Mas não é verdade. Ninguém é concebido em pecado, pela simples razão de que o pecado original nunca existiu! Por isso, ninguém pode transmitir aos descendentes aquilo que nunca existiu num princípio. Tão pouco existiu o senhor Adão e a senhora Eva, como a catequese da Igreja sempre ensinou que existiram. Expliquei-lhes que essa estória conhecida por Adão e Eva, com uma serpente a falar e a tentar a mulher num paraíso, e com esta a deixar-se cair na tentação e a comer do fruto proibido está na Bíblia, sim senhor, mas como um conto, um relato mítico das origens, não como um facto histórico. Como tal, nunca aconteceu em realidade. E está lá como tentativa mítica de explicar a origem do mal, do sofrimento, da dor, da morte, no mundo. Como quem pretende deixar claro que todas essas coisas negativas jamais podem ser atribuídas a Deus Criador. Apenas aos seres humanos, ainda em vias de serem criados. E aos ídolos - serpentes - que eles criarem nos seus medos! Elas ficaram de boca aberta, mas depressa se refizeram, quando Lurdes, sempre mais reguila, opinou que já suspeitava que tudo isso eram estórias muito mal contadas. E são. Durante séculos e séculos. Estórias que fizeram muito mal às pessoas e aos povos. Até hoje. E ainda continuam a fazer, porque a Igreja, pelo menos, ao nível oficial e das suas cúpulas, continua a ensinar como facto histórico o que não passa de relato mítico das origens!
Faltava sublinhar ainda uma tremenda consequência de toda esta doutrina católica sem um pingo de verdade: O baptismo das crianças. Em todos os séculos para trás, a Igreja andou a baptizar as crianças, poucos dias depois de terem nascido, a pretexto de que, se o não fizesse, as crianças corriam o risco de ficarem privadas da salvação eterna, porque morriam em pecado original, manchadas com o pecado original! Toda esta doutrina é uma peta, mas andou a ser ensinada como se fosse verdade. E ainda hoje, os pais e as mães baptizam as filhas, os filhos, com medo que morram em pecado! Ou - o que é ainda mais disparatado - para dessa maneira lhes darem a alma! Quando sublinhei este pormenor de verdadeiro terrorismo doutrinal, a senhora Lucinda logo confirmou com um caso passado com ela. Um dos seus muitos filhos nasceu morto e ela não pôde sepultar o seu cadáver em terra benzida. O padre da altura não lho consentiu. Exactamente, porque morreu sem o baptismo, portanto, sujo com o pecado original! Na altura, ela aceitou o facto com naturalidade, tamanha era a submissão do povo ao clero católico. Se fosse hoje, já com outra consciência das coisas, ela nem sabe o que teria feito! Tenho para mim que nunca choraremos bastante todos estes crimes que a Igreja cometeu com estas doutrinas falsas, com estas mentiras feitas dogmas de fé católica. Por isso pergunto: Pode continuar aí com legitimidade uma Igreja como esta, depois de todos estes crimes e sem sequer pedir perdão deles às suas vítimas?
O Jejum e a abstinência foram o outro tema que conversámos. Já não foram necessárias muitas explicações. Quis saber o que cada uma delas entendia acerca de cada uma dessas palavras. E pude concluir que não andavam longe do que a Igreja católica tem dito. Pelo que não me perdi muito aí. Preferi mostrar que hoje havemos de viver para lá de todas essas doutrinas e dessas proibições. Aliás, quando alguém diz: hoje é sexta feira da quaresma, por isso, não nos é permitido cozinhar carne, está a comportar-se como os pagãos, não como os cristãos. Para os cristãos - homens e mulheres que chegaram já à maioridade humana e, por isso, à responsabilidade - tudo nos é permitido, segundo a doutrina de S. Paulo, o que é uma outra maneira de dizer que somos livres para decidir do que fazer e como fazer. Com responsabilidade. Falar em permitido e em não-permitido é próprio de quem ainda não chegou à maioridade. Cabe a cada pessoa decidir e decidir em consciência. O que não for assim, é pecado. E reduz-nos à condição de escravos. À condição de antes de Cristo. Ao tempo da ditadura da Lei. Ao tempo dos intermediários todo-poderosos, donos e senhores da nossa consciência. Portanto, ao anti-Cristianismo!
A este propósito, a conversa ainda derivou para a compra das "bulas", um negócio que a Igreja desenvolveu despudoradamente. E que na prática significava esta indecência: as pessoas que podiam dispor de dinheiro, compravam as bulas ao pároco e já podiam comer carne na quaresma. Quem não tivesse dinheiro ou não quisesse gastá-lo na compra das bulas, já não podia comer carne na quaresma! Hoje, essa prática caiu em desuso. Mas as pessoas mais velhas ainda se recordam bem dela. E referem-se a ela com o tom do escândalo. Tudo isto é triste. E faz-me chorar. Como foi possível a Igreja descer tanto, degradar-se tanto, desumanizar-se tanto! E sempre com aquele ar de mestra e de autoridade moral, de quem acha que pode dar lições de moralidade ao resto da Humanidade!...
A conversa terminou, por este dia. Mas irá prosseguir em novas conversas. E já sei o que irei propor na próxima. Rosalina disse que tinha em casa uma Bíblia que lhe ofereceram, mas que nunca a abriu! Pois bem, no próximo encontro, irei sugerir que ela vá pela sua Bíblia. Direi alguma coisa sobre ela e depois proponho que ouçamos o relato mítico de Adão e Eva e a catequese do Profeta Isaías, capítulo 58, sobre o Jejum que agrada a Deus. Vai ser uma surpresa para elas, de certeza. Mas uma boa surpresa. E tanto melhor, quanto nos deixarmos conduzir e guiar pelo Espírito Santo.
2004 MARÇO 18
Ontem veio conversar comigo cá a casa e hoje já fui com ela no carro ao seu advogado em Felgueiras. Ontem e hoje, veio acompanhada da Maria Cândida, uma senhora que nunca mais esqueci desde os tempos em que fui pároco de Macieira da Lixa. Ela era, por esses tempos de fascismo e de miséria imerecida em muitas aldeias do país, também nesta, o exemplo vivo dessa mesma miséria imerecida. A sua casa nem sequer era digna dessa nome. Os filhinhos tinham as marcas da fome no corpo e do subdesenvolvimento. Na altura, peguei na situação e fiz dela uma situação exemplar. Ou intervínhamos, como Igreja, na situação e ajudávamos a dar-lhe uma volta completa, ou era vão o culto que prestávamos aos domingos na igreja paroquial. Felizmente, o grito profético deu o seu fruto. E o Grupo de Ajuda Fraterna, recentemente criado na altura, pegou na situação e fez o que devia ser feito. Até obras na casa, suportadas com o dinheiro da Partilha eucarística dominical. Os filhos de Maria Cândida começaram a ser também apoiados e acompanhados. e hoje, pelos vistos, estão todos com as suas vidas em bom andamento, sem riquezas, mas com dignidade. Uma das filhas conseguiu formar-se professora e exerce no sul do país, onde está casada. Pois bem, quando ontem vi as duas à minha procura, reconheci de imediato Maria Cândida. A outra senhora, bastante mais nova, não a reconheci, se bem que a sua cara não me parecia de todo estranha. E foi o que lhe disse, quando já estávamos os três sentados na salinha da casa onde trabalho e recebo quem me procura para conversar. Ela riu-se ao meu comentário. Maria Cândida também. Um riso de alguma cumplicidade. E logo veio a bombástica revelação: "O sr. padre Mário vai ficar admirado, mas eu sou a professora Fátima, filha do Julinho, já falecido, exactamente, aquele que era o presidente da Junta de Macieira no seu tempo de pároco, quando houve todas aquelas trapalhadas com a PIDE."
A revelação deixou-me de boca aberta. Nunca me passou pela cabeça que alguma vez viesse a protagonizar um momento destes, mais de trinta anos depois. Só por este facto, já valeu a pena ter regressado a Macieira! Estava aqui na minha frente e na minha casa alugada a filha daquele que, quando pároco aqui, me fez a vida negra, me denunciou à PIDE e contribuiu decisivamente para me meter na cadeia política por duas vezes. O mesmo senhor que, ainda antes de me conhecer e de eu entrar e "tomar posse" da paróquia (a expressão "tomar posse" é sinónimo de prepotência eclesiástica, mas era a expressão canónica então em uso!) já estava contra mim e me fazia guerra, à base de calúnias, as mais obscenas, de modo que conseguiu pôr contra mim a generalidade da população. Felizmente, logo que entrei, essas calúnias desfizeram-se como por encanto. Bastou que as pessoas me vissem ao vivo, me escutassem e se aproximassem. Logo se deram conta da minha proximidade com elas, da minha ternura, do meu acolhimento e da minha disponibilidade para ser seu companheiro de todas as horas, em ordem à libertação de todas, todos. Quem não deu a volta, nem nunca mais deu a mão à palmatória, foi precisamente o Julinho (era assim que a população se lhe dirigia, numa fala que revelava ternura e respeito popular). Nunca me veio cumprimentar, nem sequer naquela postura protocolar que o regime fascista fazia questão de exibir perante os bispos residenciais e os párocos. E, quando, alguns dias depois de estar na paróquia, eu próprio me dei ao cuidado de o procurar na sua residência, toquei à campainha e, me apresentei, mão estendida para o cumprimento, quando ele me apareceu à porta, eis que ele, o senhor Julinho em pessoa, recusou cumprimentar-me e bateu-me com a porta na cara.
Na altura, eu tinha pouco mais de 30 anos. Mas aguentei a barra, na convicção de que o combate iria ser duro de travar. E travei-o, sempre com bom humor e como um menino. A verdade é que, nove meses depois de estar a trabalhar como pároco, fui preso pela primeira vez pela PIDE. E, como não me foi concedida caução pelo Tribunal, vi-me afastado da paróquia, primeiro, cerca de sete meses, que foi quanto durou a prisão e o julgamento no Plenário do Porto, e depois mais quatro meses de "exílio" em Madrid, imposto pelo Bispo do Porto, que tanto foi o tempo que durou a saber-se o resultado do Supremo, sobre o recurso do Ministério Público contra a minha absolvição. Durante o julgamento, pude aperceber-me com o meu advogado, Dr. José da Silva, do Porto, que, afinal, o Julinho nem era o responsável maior do que me havia acontecido. Quem tudo concebia e dava as voltas, mas nunca assinava nada que o pudesse comprometer, era um sargento do Exército, vinculado ao Quartel de Penafiel, que residia na paróquia e que nunca se aproximou de mim. O Julinho apenas foi um pobre joguete nas suas mãos, essas sim verdadeiramente criminosas.
E agora, eis que a sua filha, mais conhecida por Fatinha, então adolescente, acaba de me procurar, para solicitar o meu apoio moral! Ela justificou-se por esse passado. E confirmou o que eu já sabia, que o seu pai foi sobretudo usado pelo sargento. Deixou-me outra informação que eu ainda não tinha: que o primeiro responsável de tudo, teria sido o pároco que me precedeu, por sinal, também Mário, de seu nome, Mário Barbosa. Como não queria sair da paróquia, andou por aí a dizer ao povo e, é claro, ao Julinho com quem se entendia muito bem, que fizessem um abaixo-assinado ao Bispo, a pedir para ele não sair. E o argumento mais convincente, terá sido dizer que eu era uma peste. Palavra de pároco. E assim passei a ser considerado pela população. O abaixo-assinado fez-se, mas o Bispo não foi nisso. Ele saiu. A fama de que eu era uma peste ficou. E, quando cheguei à paróquia, não tinha praticamente ninguém à minha espera, a receber-me. Fui recebido como um cão chagado. Apenas duas mulheres ao longe a ver-me a chegar e a descarregar as poucas coisas que trazia comigo. A medo, lá se aproximaram e acabaram por simpatizar comigo, com as minhas primeiras falas e até me ajudaram a meter as coisas dentro da casa paroquial. Eram mãe e filha. Carolina e sua mãe. Da Maçorra, o lugar onde agora vivo também eu: Felizmente, são ambas vivas. A mãe, muito velhinha. A filha continua emigrante em França.
Fatinha partilhou comigo graves problemas com um dos filhos e também com o marido. Contou pormenores, que não contava vir a conhecer. Abriu o livro da sua vida familiar. Fê-lo de forma nervosa. Quase violenta, nas palavras e nos modos. Escutei-a e à medida que a escutava, crescia em mim a simpatia por ela. Uma mulher sofrida. Herdeira duma fortuna enorme que o pai lhe deixou, mas uma mulher sofrida. Com tanto de riqueza como de sofrimento. Enchi-me de compaixão por ela. Como o samaritano da parábola do Evangelho de Lucas. Mas também pelo filho e pelo marido. Porque se eles fazem sofrer a mãe e a esposa, respectivamente, é porque as suas vidas individuais também não andam bem. E deveriam andar. Ouvi. Ela vinha por apoio, porque se sente à deriva e sem amizade de ninguém. Apenas de Maria Cândida, uma amizade que ela embora reconheça e agradeça, tem consciência de que é insuficiente. E terá sido a própria Maria Cândida a sugerir-lhe que viesse à fala comigo, que eu a ajudaria. Aos seus apelos, disse presente! E hoje mesmo já fui com ela ao seu advogado. Os problemas estão relacionados com os bens da família. E já metem advogado. Fui com ela. Para a apoiar e testemunhar a seu favor junto do advogado. Não vá ele deixar-se levar pelas falas do filho e se coloque contra a mãe. As coisas que ela me contou da relação filho-mãe são para ter em conta. Eu próprio gostaria de conversar com o filho dela. Para que ele mude de postura e seja melhor filho. Vamos a ver se chegaremos a encontrar-nos.
À chegada ao escritório do advogado, estava-me reservada outra surpresa. Das grandes. Entramos os três. Ele surpreendeu-se da minha presença. E mais quando eu disse quem era. Corou, nos seus cabelos brancos. Mas logo se mostrou expansivo e exuberante nos elogios. E avançou com a revelação: era ele o presidente da Câmara de Felgueiras, quando eu fui o pároco de Macieira e a PIDE se meteu comigo. Como a vida é! Mais de trinta anos depois, eis que me vejo na presença da filha do presidente da Junta de Freguesia e na presença do presidente da Câmara de Felgueiras, os dois órgãos de confiança, não eleitos, do anterior regime que mais me estragaram a vida, juntamente com a PIDE. O espanto do advogado ex-presidente da Câmara era enorme. A confusão interior também. E foi a correr chamar o filho que viesse ver esta "aparição". Vivi estes momentos ao meu jeito. Como um menino. Ri-me muito. E deixei-os confusos com a minha descontracção e o meu companheirismo. Também com o meu perdão e a minha paz.
O agora advogado não sabia mais o que me fazer. Explicou-me tim tim por tim tim o que se passava com a sua cliente. E, quando se preparava para tentar arrastar a mãe Fatinha para a jogada concebida e orquestrada pelo filho dela contra ela - era o que Fatinha mais temia - eis que ela não se conteve e saltou-lhe como uma leoa, na minha presença. Ele bem queria que ela se calasse. Mas ela não se calou, senão depois de ter dito tudo o que havia para dizer. Valeu-lhe, na ocasião, a minha presença. Quando o advogado me viu a tomar partido por ela, porque a posição que ela defende é a única que a dignifica, logo cedeu e acabou também a dar-lhe razão. Não conseguiu dar-lhe a volta, pelo que tudo voltará ao princípio. Para que se actue com mais justiça.
Fatinha ficou radiante. Saímos do gabinete e abracei-a. Disse-lhe: é uma mulher de fibra! Ela sentiu-se compreendida, valorizada, amada. Se calhar, pela primeira vez na sua vida de mulher e de mãe. O almoço que ela fez questão que partilhássemos juntos num restaurante cheio de trabalhadores das obras, acabou por ser a cúpula natural de um encontro que pode bem vir a ser o primeiro dia do resto da sua vida. E da sua casa. Se assim acontecer, a minha alegria será completa.
2004 MARÇO 14
O encontro-celebração da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa que se realizou esta tarde, na casa da Comunidade (simultaneamente, casa da Maria Laura e seus filhos Rodrigo Filipe e Andreia Cristina) foi prolongado, muito aconchegado, íntimo e interpelador. Foi o primeiro, depois que passei a viver na freguesia. Não teve muito mais pessoas que o habitual, em meses anteriores. Mas nunca mais esqueceremos, certamente, a presença da Miquinhas Cancela e da Margaridinha da Maçorra, aquela, mulher pobre, mas de armas, com um sentido de dignidade de se lhe tirar o chapéu, esta, mulher de negro vestida a revelar continuamente a sua condição de viúva, e desfeita em lágrimas, tamanha é a sua dor e um quotidiano sem luz, sem esperança, sem qualquer laivo de libertação. Logo de entrada, lembrei que o encontro-celebração que fazemos acontecer com toda a simplicidade, pretende criar condições para todas, todos escutarmos a Palavra que nos há-de libertar e curar, também humanizar, promover à condição de filhas, filhos de Deus Criador, por isso, criadoras, criadores quanto Ele. Para tanto, é preciso que o sopro ou espírito que sai das nossas bocas quando pronunciamos as palavras, seja sopro ou espírito libertador, feito de verdade e de força que levante caídas, caídos, console desanimadas, desanimados, faça andar paralíticas, paralíticos, desperte adormecidas, adormecidos, ressuscite mortas, mortos. Isto disse e sublinhei. Naturalmente, e como sempre acontece, procurei ser o primeiro a escutar. Trata-se do sopro ou espírito santo, que é o sopro ou espírito de Deus, que sempre habitou Jesus e fez dele o homem que a História confessa e as suas discípulas, os seus discípulos procuram seguir, numa comunhão de vida que terá de se materializar em acções políticas, pequeninas ou grandes, conforme as circunstâncias de cada uma, cada um de nós, mas sempre acções políticas libertadoras, mais do que benfeitoras.
Como já disse e repito, nestes encontros-celebração, procuro ser sempre o primeiro ouvinte da Palavra, deixar-me fazer pelo sopro ou espírito de Deus que nela anda. Se mais ninguém aproveitar com estas iniciativas, que ao menos eu aproveite. E assim tem sucedido, felizmente. Não fossem estes encontros-celebração, nos antípodas das missas tradicionais nos templos, e nunca a minha vida seria a militância que tem sido. Neles encontro alimento para prosseguir como quem vê o Invisível, sem desfalecer e também sem amargura de nenhuma espécie, antes com alegria, essa mesma que é fruto do Espírito ou Sopro de Deus.
Uma referência aos atentados de 11 de Março, em Madrid, fez-nos encará-los na dimensão que mais interessa à Humanidade, pelo menos, no sentir-ver de Deus, que não é o ver-sentir moralista, tão frequente nas religiões e nas Igrejas, por isso, presenças fortemente castradoras das pessoas que as integram e frequentam os seus cultos. O ver-sentir de Deus é o ver-sentir político, como oportunidade de dar novos rumos à História e convertê-la em kairós, ou tempo favorável à vida e vida em abundância para todas as pessoas e para todos os povos. Um ver-sentir assim é sempre apocalipse, ou Revelação. Por outras palavras, é sempre um tirar o véu ideológico com que os poderosos gostam de esconder a realidade, para que as suas vítimas acabem a vê-la como eles querem que todas, todos nós a vejamos. E que é um ver feito de mentira, por isso, opressivo, doentio, gerador de doença, de desânimo, de frustração, de depressão, de agressividade, de tristeza. Deste modo, a referência ao acontecimento do 11 de Março, apesar das dimensões de verdadeiro massacre que ele contém, não nos deixou mais prostrados, mais desanimados, mais deprimidos. Pelo contrário, pudemos ver alguma da luz que dele salta, sentir algum do sopro libertador que dele sai, alguma da força de ressurreição que ele transporta, alguma da esperança que ele suscita, alguma da verdade que ele nos revela. Percebemos, por exemplo, como os poderosos nos mentem, quando se permitem enveredar por políticas militaristas e imperialistas, lideradas pelo presidente Bush dos EUA e seus vassalos no resto do mundo, a pretexto de que com elas garantem mais e melhor a segurança das populações e dos povos. O atentado veio revelar - é um verdadeiro apocalipse - que este tipo de discurso e de prática política é mentira e, como tal, é gerador de mais e mais opressão. Veio também revelar os pés de barro que todos os impérios têm, por mais basófia militarista que eles exibam nas ruas e nos media. Pelo que, avisada andará a Humanidade, se fizer orelhas moucas aos poderosos e seus projectos, e, pacientemente, desenvolver relações de verdade e de confiança entre todos os seus membros, em ordem à construção da Fraternidade/Sororidade universal, a única maneira de a Humanidade chegar a garantir futuro ao seu presente.
Também cantámos, como quem reza, não em louvor de Deus, que não precisa dos nossos louvores para nada, mas como quem se abre ao Deus que canta e dança e nos faz cantar e dançar, isto é, nos abre à alegria e à vida de qualidade e nos põe no caminho ou via que leva até lá. Sem alegria, ninguém caminha e, se caminha, é como ovelhas para o matadouro, como escravos presos às correntes que matam neles todas as veleidades de mudança e toda a esperança de libertação. Na comunidade cristã de base, é Deus quem canta em nós, manifesta-se em nós e, por isso, vemos as correntes quebrar-se e emergimos como mulheres, homens dispostos a dar outro rumo às nossas vidas. Cantámos no princípio, no meio e no fim. Cantos que escrevemos, ao longo da caminhada, e a partir dela. Por isso, cantos que nos soltam e nos humanizam. Não são simples passatempo, nem um momento de descontracção. São sopro ou espírito que rebenta dentro de nós e que nos faz ser presenças que se aproximam de quem ainda não conheceu esse sopro ou espírito, para que o conheça e, em lugar de viver todo o tempo de mão estendida, utilize as mãos e os pés e a cabeça para chegar a ser alguém.
Já o encontro-celebração ia adiantado, quando nos dispusemos a escutar o Evangelho ou boa notícia de Deus, na versão de Lucas. Escutámos quase todo o capítulo 12, no qual se regista um espantoso ensinamento político-espiritual de Jesus ao grupo de discípulos (as discípulas praticamente quase não chegam a ser referidas, porque desde muito cedo deram a sua adesão a Jesus e ele já não precisava de perder tempo com elas). Lucas regista que, na altura, as multidões eram muitas, ao ponto de o apertarem, mas Jesus, que não é demagogo, preocupou-se, primeiro, com a qualidade de vida dos seus discípulos, futuro fermento na massa. E foi a eles que se pôs a ensinar. Registámos com interesse que Jesus abriu o seu ensinamento com um alerta que continua actualíssimo: "Acautelai-vos do fermento dos fariseus que é a hipocrisia." Comunidades cristãs onde o vírus da hipocrisia e da mentira se respire são comunidades que não transformam as massas, as multidões, degradam-nas, corrompem-nas. São comunidades faz de conta, onde tudo é a fingir. E tais são as Igrejas que hoje temos, mais pagãs que cristãs, e mais cristãs de um Cristo à imperador Constantino, que do Cristo Crucificado pelo Império e pelo Templo e muito justamente Ressuscitado por Deus, que é Deus de vivos, não de mortos.
O Evangelho de Lucas deixou-nos outro sopro ou espírito que nos faz viver, se deixarmos que seja ele a conduzir-nos, a empurrar-nos: "Digo-vos a vós, meus amigos: Não temais os que matam o corpo e, depois, nada mais podem fazer. Vou dizer-vos a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, ainda tem o poder de lançar na Geena" As Igrejas sempre gostaram de traduzir "Geena" por "inferno" e com isso fartaram-se de aterrorizar as pessoas e os povos em todos estes séculos para trás. Se hoje as populações e os povos começam a nascer e a crescer fora delas e longe delas, é bem feito. Porque só pessoas e povos masoquistas é que poderiam gostar de Igrejas que passam o tempo a aterrorizá-los. Chamei a atenção no encontro para a tradução menos correcta. Aquele que devemos temer, não é Deus, que é sempre a melhor e maior boa notícia que alguma vez a criatura humana pode conhecer. É o anti-Deus, historicamente corporizado no fermento dos fariseus ou na hipocrisia, que onde estiver activo desencadeia um processo de degradação e de morte, o qual, se não for travado, leva à destruição da nossa identidade e da nossa dignidade, bem como à destruição da identidade e da dignidade do resto da Humanidade. Só a verdade liberta e nos fará livres, seres constituídos em dignidade e inconfundíveis na nossa identidade. O fingimento, a mentira que se faz passar por verdade, escraviza, arruína, descria o que Deus, o Amor criou, reduz as pessoas e os povos à condição de coisa, pior, de cadáver, como se diz de Lázaro, irmão de Maria e de Marta, no Evangelho de João (cap. 11). É este sopro ou espírito anti-sopro ou anti-espírito de Deus, o único que havemos de temer, isto é, não consentir que alguma vez se infiltre em nós, nas comunidades cristãs, nas comunidades humanas em geral. Porque onde este vírus entrar, tudo entra em derrocada. Não ficará pedra sobre pedra. Como sucedeu ao templo de Jerusalém. E como sucede a todos os Impérios, grandes como o de Bush, actualmente, ou pequenos, como o de qualquer sem abrigo que para defender o lugar onde dorme ao relento é capaz de matar outro sem abrigo como ele, em lugar de juntos saírem a lutar por um viver com dignidade e com verdadeira identidade.
Foi neste contexto vivencial, que a palavra foi dada a cada pessoa presente no encontro. Uma ou outra preferiram falar com o seu silêncio (importa saber escutar o silêncio de cada pessoa), mas quase todas tiveram voz. Foi então que veio ao de cima toda a dignidade da Miquinhas Cancela, em contraste com a quase completa destruição da Margaridinha da Maçorra. Seria a Miquinhas a evangelizar a Margaridinha. Foi sem dúvida o momento mais forte do encontro-celebração. Da minha parte, apenas tive que sublinhar que o sopro ou espírito que saía da boca da Miquinhas Cancela, à medida que ela se expressava, inclusive, com palavrões a que os antigos chamavam "pragas", era o sopro ou espírito de Deus. Por isso, as suas palavras eram palavra de Deus, mesmo quando ela, para se exprimir, recorreu a expressões como "o raio que o parta" e "caralho", sem dúvida, o jeito popular de os pobres se exprimirem. Com a Margaridinha ficou o desafio a transformar-se, a mudar radicalmente de postura na vida e na relação com o filho drogado que tem sido a sua cruz em casa. Em lugar de ter pena e de se deixar amedrontar pelas suas ameaças, terá que o enfrentar com coragem e com firmeza, como a Miquinhas Cancela fez em tempos com o próprio filho também drogado. Sem medo de nenhuma espécie. Até agora, nos anos passados, a Margaridinha perdeu terreno. E a sua dignidade de mulher e de mãe já bateu no fundo. As cedências foram totais. Outra, muito outra, terá que ser a sua postura, agora. Se quiser recuperar a sua dignidade e a do filho. Como Comunidade, saberemos estar com ela, no afecto, no apoio, na companhia, no estímulo. Para que ela dê o primeiro passo, de modo irreversível. Está nas nossas mãos realizar esta libertação, este sinal ou semeion, no dizer em grego do Evangelho de João. A Comunidade foi desafiada a fazê-lo. E eu quero estar na primeira linha deste combate contra o Mal que nos despersonaliza e descria. Se o fizermos, poderemos concluir que este encontro-celebração foi mesmo em memória de Jesus e em seu nome. E as pessoas de Macieira que continuam a ir ao templo da paróquia, por mera rotina e por mera tradição (uma e outra matam!), ou vivem fechadas na sua concha e no seu carro sem comunhão com ninguém, ao verem como nos amamos, sentir-se-ão interpeladas e, quem sabe, se não começarão a procurar a libertação e a salvação na pequenina Comunidade cristã de base que reúne em nome e em memória de Jesus. Estou confiante.
2004 MARÇO 13
A convite da Livraria ARCA DAS LETRAS, de Gondomar, tive oportunidade de conversar durante a tarde de hoje sobre os meus livros com as leitoras, os leitores que se dispuseram a passar por lá. O pequeno espaço da livraria reservado a este tipo de iniciativas estava repleto. Pessoas de todas as idades. Mulheres e homens. A maior parte, rostos que não consegui identificar. Um desses rostos teve o cuidado de se auto-apresentar. Fê-lo com um toque de carinho muito especial. "Então não me reconhece? Fui seu aluno no Liceu D. Manuel II, no Porto". Olhei-o com redobrada atenção, mas nem assim o seu rosto de há mais de trina anos atrás saltou no homem maduro que ele agora é. Mesmo assim, o abraço foi vigoroso, apertado, quente. Naquele abraço, abracei não só a ele, Nelson Ferraz - é este o seu nome - mas também todos aqueles jovens rapazes do Liceu que tanto puxaram por mim e me libertaram de grande parte do moralismo que a formação no seminário da Diocese do Porto me havia incutido na mente e na consciência. Nos poucos minutos que demorou a nossa conversa, antes do início da sessão e depois dela ter terminado, Nelson Ferraz ainda me fez viajar no tempo até à casa onde então vivi, junto do Liceu e que, como ele ainda bem se lembra, era uma porta aberta aos estudantes que por lá quisessem passar. E quanta alegria senti, ao constatar que o Nelson mantém viva na sua memória, como se fosse hoje, a vida associativa e participativa em liberdade que acontecia dentro da casa, que também era a minha casa, e dentro da sala de aula, no Liceu, em que a palavra andava à solta, apesar de vivermos então num país amordaçado, com a PIDE e seus correligionários mascarados por todos os cantos e esquinas. Até do Clube do Estudante que estávamos a criar e dos cartões que ainda chegámos a mandar imprimir, o Nelson se recordava. E com algum orgulho pessoal, por ter protagonizado momentos desses então, disse-me que ainda conserva em casa, como objecto de estimação (uma espécie de sacramento, digo eu) o seu cartão de associado daquele Clube do Estudante. Infelizmente, dessa época não nasceu nenhum livro que registe toda essa vivência, mas, pelo que me foi dado saborear esta tarde, também não fará grande falta. O Nelson e outros companheiros seus que todos os dias "invadiam" a casa onde eu morava e que se abria a quem a procurava, são esse livro vivo e aberto. Sem dúvida, um dos melhores livros que eu escrevi, não em papel mas com a minha vida nas vidas das suas pessoas ainda em formação. E são esses livros, felizmente, muitos mais dos que até hoje escrevi em papel que ficam para sempre semeados na vida. O encontro com o Nelson Ferraz não acabou aí. Para lá de um exemplar do livro de poemas que recentemente publicou na Editora Ausência, de V N Gaia - AS PALAVRAS CÔNCAVAS - e me ofereceu com uma dedicatória muito sua - "Para o Padre Mário de Oliveira que, desde sempre, constituiu fonte de liberdade, estímulo e exemplo. Do amigo «antigo»" - voltei a mergulhar nesse ano de 1967. Vi-me de novo chamado ao Paço episcopal, no final do ano lectivo, onde ouvi palavras duras e tremendas do então Administrador Apostólico da Diocese, D. Florentino de Andrade e Silva. Foi um encontro assassino. Não me matou a mim, nem matou ninguém em concreto, mas matou o sonho, matou o projecto, matou a casa, matou o movimento associativo e participativo em liberdade que lá dentro todos vivíamos, matou o Clube do Estudante, matou as aulas de religião e moral que eu dava num ambiente de liberdade e de participação no Liceu D. Manuel II. Depois de me ouvir falar com entusiasmo de toda essa realidade vivida, o Bispo, ditatorialmente, disse-me: "Mas tem de deixar essa casa!" Nem sequer se terá apercebido que estas suas palavras foram como um punhal que me espetou. E nesse mesmo instante fez de mim capelão militar à força. O meu nome, segundo me disse, já tinha seguido para Lisboa e eu seria chamado dentro de dias para participar num curso de capelães na Academia Militar. O que efectivamente sucedeu. O Nelson Ferraz só esta tarde é que soube porque é que a casa que ele e os seus colegas frequentavam com tanto gosto fechou, e porque é que eu de repente desapareci das suas vidas e da cidade, até do país, sem deixar rasto!...
Volto à sessão no espaço da Arca das Letras. O meu amigo e companheiro nas lides jornalísticas, Jorge Ribeiro, prontificou-se a abrir o debate, com o seu testemunho pessoal sobre mim e os meus livros. Foi breve, directo, concreto, incisivo. Deixou-me interiormente edificado e em acção de graças. Constatei, mais uma vez, que são sobretudo os de fora, os que não se confessam católicos, quem melhor me conhece e melhor me interpreta. Não apenas na minha dimensão de cidadão, mas também na minha dimensão de homem padre da Igreja católica. Não que a minha vida e o meu testemunho lhes apareçam como uma espécie de "passa-culpas" para o seu agnosticismo ou ateísmo, mas exactamente ao contrário. Pelo que testemunham a meu respeito, a minha vida é para eles uma aguda interpelação. Uma interpelação que eles aceitam e que os deixa em salutar desassossego interior. Bendito seja Deus!
Comecei por dizer umas palavras a abrir a conversa. Alinhavei-as na carrinha, momentos antes de entrar na livraria, depois de ter feito toda a viagem à escuta. E coloquei-me de imediato à disposição das pessoas presentes para ouvir as suas questões e as suas interpelações. Também as suas possíveis discordâncias e até os seus possíveis ataques. Eis o que comecei por dizer:
A história dos meus livros, nesta altura mais de duas dezenas de títulos, é em em grande parte a história da minha vida. Os meus livros dizem muito de mim, do meu itinerário, do meu jeito de ser homem - este homem padre que sou desde 5 de Agosto de 1962 - e do meu jeito de estar e de intervir no mundo e na História, enquanto igreja e enquanto presbítero da Igreja. Cada título é uma etapa do meu itinerário. Posso contar a minha vida de intervenção, a partir de cada título. Os meus livros não são ficção. São testemunho. São grito. São notícia, boa notícia, mesmo quando as palavras têm o som e a força da denúncia, da crítica impiedosa, ou se apresentam sublinhadas com o traço vermelho do humor. É por serem boa notícia, concretamente, a boa notícia de Deus que, felizmente, não tem nada a ver com as bobagens que as igrejas em geral e a Igreja católica em particular passam o tempo a dizer e a fazer, que os meus livros nem sempre são bem acolhidos. Os interesses instalados, também por parte das Igrejas, não me perdoam que lhes estrague o negócio, não só material, mas também de prestígio, de poder, de influência. Os meus livros são momentos fortes da minha vida. Há quem me deteste, há quem me tenha por louco - sabiam que há por aí certos eclesiásticos de proa que têm feito circular a informação junto de catequistas e de grupos corais das paróquias de que não façam caso do que eu digo, nem do que eu escrevo e publico, porque, segundo eles, eu não passo de um louco? - há quem me odeie, quem me tenha lançado ao anátema e votado ao ostracismo, tudo por causa dos meus livros. Mas também há quem me abrace e beije e me agradeça por os ter escrito e publicado e me testemunhe que nem eu imagino o bem que lhes tenho feito com os meus livros. No meu entender e sentir, os meus livros são a expressão, no tempo e no espaço, de um padre católico de carne e osso que não se vende por dinheiro nenhum, nem por nenhum posto eclesiástico, mesmo quando, depois de eu ter sido absolvido no Tribunal Plenário do Porto, o bispo da diocese me acenou com a possibilidade duma brilhante carreira eclesiástica (provavelmente, hoje seria bispo, se não tivesse continuado a viver como vivo e a escrever e a publicar os livros que escrevi e publiquei!). Numa palavra, um padre que, dentro do actual sistema eclesiástico, só pode ser uma espécie de anti-padre! Se tivéssemos tempo, percorreria convosco cada um dos títulos que publiquei, e veriam como isto que acabo de dizer é verdade. Mas demoraria muito. Limito-me, por isso, a dar dois exemplos. O primeiro livro que publiquei - Evangelizar os pobres - remete-me para a primeira paróquia que me foi confiada pelo mesmo Administrador Apostólico da Diocese que fez de mim um capelão militar à força. Contém as homilias que escrevi e disse, cada domingo, durante os 14 meses em que fui pároco. Pelos vistos, era doutrina perigosa e subversiva. O Bispo acabou por me exonerar das funções. Deu-me 24 horas para deixar a casa paroquial. Era uma sexta-feira à tardinha, quando o Vigário da Vara me leu o decreto de exoneração, na presença de dois párocos vizinhos. E tive que sair até à meia-noite do dia seguinte! O livro apareceu, logo a seguir - o título é programático, diz o que devo ser e fazer como presbítero da Igreja - para que a Igreja toda soubesse o que eu havia pregado na paróquia e pudesse compreender porque um pároco poderia ser exonerado pelo respectivo Bispo diocesano. É um grito que clama contra a arbitrariedade do poder eclesiástico e exige justiça. O outro exemplo que posso salientar é o livro Chicote no Templo. Saiu quinze dias depois de eu estar preso pela segunda vez em Caxias, já no reinado do Bispo D. António Ferreira Gomes. Sabiam que a publicação deste livro - o título que lhe dei, o conteúdo que divulga e as circunstâncias em que apareceu - me valeu a perda da paróquia de Macieira da Lixa? E eu só o vim a saber, depois de onze meses de injusta prisão preventiva, quando o Trib