DIÁRIO ABERTO


2007 MAIO 29

 

Decorreu no passado dia 27 em S. Pedro da Cova mais um Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo. Entre as 10 e as 17 horas, as pessoas que se dispuseram a deixar a rotina dos domingos e foram viver o dia no Cenáculo/sede da Associação Padre Maximino, proprietária e editora do Jornal Fraternizar não deram o tempo por perdido. Tivemos todas, todos, uma intensa experiência do Espírito Santo que nos sacudiu e atirou para a missão que mais não é do que prosseguir, hoje e aqui a mesma Causa de Jesus, que é a Causa do Reino/Reinado de Deus em construção na História. Ficou claro para nós que ou a Igreja, nas múltiplas Igrejas em que se corporiza, é para isto que vive na História, ou então é melhor não existir, porque se converte em Tentação, em Demónio para as populações. Igrejas/templo para alimentar a Religião do Povo e para dar religião ao povo não têm a marca do Espírito Santo, por mais que O invoquem nas suas fórmulas ritualizadas, no decurso de liturgias dominicais mais ou menos solenes.

 

A abrir o Encontro, coube-me proferir umas palavras de saudação e de criação de ambiente favorável ao diálogo sororal/fraterno. São essas palavras que aqui partilho. Juntamente com as da minha primeira intervenção no diálogo sobre o tema que esteve em debate, durante a manhã e a tarde: Igreja ou Reino de Deus? Com o que se devem ocupar as discípulas, os discípulos de Jesus do século XXI e do terceiro milénio?

 

Entre as duas partes do dia, aconteceu a refeição partilhada com o que cada pessoa levou para a Mesa comum. Nenhum rito se fez, mas todas sabíamos que estávamos a comer e a beber com Jesus, o seu Corpo e o seu Sangue, isto é, a fazer nossos o seu Projecto, a sua Causa, a sua Militância. Assim alimentados, viveremos até ao próximo encontro, dia 21 de Outubro 2007. Tomem nota na agenda e façam tudo para protagonizar esta aventura e conhecer/viver esta via libertadora que nos faz viver em estado de maioridade no mundo e na História, não mais como menores. Eis.

 

Saudação

Este 9.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo acontece ao 24.º dia sobre o desaparecimento da menina inglesa no Algarve, um drama humano que está a ser vergonhosamente aproveitado por certa Igreja católica para tentar colocar de novo a Religião católica e a senhora de Fátima no centro da vida das populações, nomeadamente, das populações em aflição. Poderia e deveria ser ocasião para a Igreja evangelizar os pobres e os povos e libertar as populações da tentação religiosa, mas é manifesto que ela própria está ainda longe de ser uma Igreja suficientemente ilustrada e evangelizada. O que perfaz um desastre de todo o tamanho, pois está dito por quem conhece bem o íntimo do ser humano que quando um cego – no caso, uma Igreja cega – guia outro cego – no caso, as populações do país e do mundo – ambos cairão no barranco.

 

Só uma Igreja evangelizada pode evangelizar as populações. Mas uma Igreja evangelizada é uma Igreja permanentemente habitada pelo Espírito de Jesus. Como ele, também ela dirá: O Espírito do Senhor está sobre mim, enviou-me a evangelizar os pobres, a libertar os oprimidos, a mandar em liberdade os prisioneiros e a anunciar/fazer presente um Tempo novo de graça e de verdade, quer dizer, um Tempo de Maioridade humana.

 

Este 9.º Encontro de Espiritualidade acontece também no dia em que as Igrejas cristãs celebram o que elas chamam de Festa do Pentecostes, ou manifestação/descida do Espírito Santo no cenáculo em Jerusalém e que é interpretado por elas como o dia do nascimento da Igreja! Até agora, temo-nos limitado a reproduzir este ponto de vista eclesiástico de geração em geração. E se este ponto de vista não corresponde à verdade dos factos? Se este ponto de vista não passa de uma interpretação interesseira, corporativa, e por isso não verdadeira? Pensemos por instantes:

 

Se Jesus não fundou nenhuma Igreja; se, em vez disso, anunciou e fez presente o Reino/Reinado de Deus (hoje, diríamos a República de Deus) na terra, como se explica que a comunicação do Espírito que o habitou em plenitude e em permanência e fez dele o Homem que conhecemos, político até ao extremo da perda/entrega da própria vida, tenha sido para fundar a Igreja com as suas discípulas, os seus discípulos? Não teria de ser, não terá de ser para que a mesma Causa de Jesus, a causa do Reino de Deus, prossiga no tempo e no espaço, não seja interrompida, apesar da morte violenta que ele conheceu e sofreu? Não terá de ser para que as suas discípulas, os seus discípulos, assustados e desmobilizados pela morte violenta e humilhante do seu mestre, se refaçam e levem por diante sem medo e com audácia a mesma Causa do Reino de Deus que havia sido a sua razão de ser e de viver e por causa do que ele acabou crucificado? Aliás, não é isto mesmo que o próprio Lucas, no mesmo livro dos Actos, põe Jesus ressuscitado a dizer-lhes, sob a forma de anúncio antecipado? “O Espírito Santo descerá sobre vós e dele recebereis força para serdes as minhas testemunhas em Jerusalém, em toda a Judeia e Samaria, e até aos extremos da terra”.

Disto se trata: ser testemunha. Não de fundar Igreja. E ser testemunha por acção do Espírito Santo é prosseguir a mesma Causa do Testemunhado, no caso, de Jesus. É ocuparmo-nos por inteiro com o que ele se ocupou; é assumirmos até ao limite a sua Missão histórica. E fazê-la nossa. Para isso nos é dado o Espírito Santo: para prosseguirmos a Causa de Jesus, para anunciarmos e fazermos presente na História o Reino/Reinado de Deus. Também para isto é a Espiritualidade cristã jesuânica. O que não for assim não tem o Espírito de Jesus, o Cristo crucificado/Ressuscitado.

 

Neste início do século XXI e do terceiro milénio, havemos como cristas cristãos jesuânicos, de ter a audácia de não continuarmos a fazer mais do mesmo. Havemos de romper com séculos e séculos de desvios do essencial. E atenção: Se não vamos a bem, vamos a mal. Porque o Espírito Santo, se não pode contar com as chamadas Igrejas cristãs, entretidas todas elas e ocupadas consigo próprias, com os seus ritos e os seus cultos, mai-las suas catequeses e as suas festinhas infantis e populares (= pagãs), numa palavra, com a religião do povo e para o povo (paganismo religioso), avançará então com as próprias pedras, isto é, com os ateus de boa vontade e com os “terrorismos” de toda a ordem. Porque uma coisa é certa: O Espírito Santo não suporta esta Ordem Mundial que é pecado organizado, que é anti-Reino/Reinado de Deus, assente numa economia e numa política de mentira e assassina que oprime e mata antes de tempo, ou mantém em regime de subvida cerca de cinco das seis partes da população mundial. Trata-se duma Ordem Mundial incompatível com o Reino/Reinado de Deus, organizada de acordo com os interesses do deus Dinheiro contra o Deus Criador de filhas e de filhos em estado de maioridade e constituídos na liberdade.

 

Igreja ou Reino/Reinado de Deus a construir na História? Quem vive habitado pelo Espírito Santo é para quê? Para fundar/alimentar Igrejas, ou para mudar/transformar o mundo e levar à plenitude a criação dos seres humanos como filhas filhos em estado de maioridade num mundo sua casa comum?

Eis a questão central que nos vai ocupar durante a manhã e parte da tarde deste dia. Junto-lhe outra que decorre desta e a complementa: E como fazer para permanecermos fiéis a esta missão/acção, sem desfalecermos, muito menos passarmos a fazer o jogo do Inimigo, o jogo da Religião? Como é que fez Jesus? Como é que ele fez para se aguentar na missão e ser fiel a ela até ao fim, apesar de ter de viver sempre em deserto? Como vamos também nós conseguir sermos fiéis a esta missão até ao fim?

 

A minha contribuição no debate

Havemos de reconhecer que há uma traição eclesiástica a esta missão, praticamente desde o princípio do Cristianismo, excepção feita às primeiras comunidades, nomeadamente, as comunidades que estão na origem dos textos-testemunho do Novo Testamento, com destaque maior para os quatro Evangelhos canónicos, em especial o Evangelho de Marcos e o Evangelho de João.

A tentação da Religião é muito forte e permanente nos seres humanos. Ataca sobretudo nos momentos de grandes crises individuais e colectivas. Nem Jesus escapou a ela e teve de a enfrentar e de lhe resistir: “Atira-te daqui abaixo e Deus enviará os seus anjos para te proteger”. “Diz a estas pedras que se transformem em pão”. “Faz milagres para resolver os problemas das populações oprimidas e empobrecidas e doentes”. “Confia em Deus, multiplica as tuas orações e Deus virá e solucionará!...”

 

Quem de nós não se viu já assediado por tentações destas?

Pois bem, é legítimo pensar que as Comunidades que escrevem os Evangelhos o fazem, porque caíram na conta de que, alguns anos depois da morte violenta e humilhante de Jesus, as suas discípulas, os seus discípulos começam a abandonar os combates dele pelo Reino/Reinado de Deus e passam a ocupar-se preferencial ou exclusivamente com os problemas corporativos, da organização comunitária, concretamente, quem dirige, quem chefia, quem manda, quem é o primeiro, quem é o maior. Com o passar dos anos, a tendência é de institucionalizar o movimento de Jesus. E fazem-no à maneira da sinagoga do tempo de Jesus e das muitas assembleias (= igrejas) ou associações espalhadas pelo Império romano. O que deveria ser meio, passou a ser fim. De momentos de alimento para a missão/acção do anúncio/realização do Reino/Reinado de Deus (= a transformação da sociedade na direcção da partilha dos bens e da sororidade/fraternidade universal), passou-se depressa a cuidar da organização eclesiástica, em franca expansão. O movimento de Jesus, politicamente subversivo e conspirativo deu lugar a igrejas cada vez mais acomodadas e institucionalizadas, com funcionários ao seu serviço, retirados dos combates pelo Reino/Reinado de Deus. Depressa passou o tempo do martírio (= testemunho), veio o tempo da organização da instituição com cada vez maior número de aderentes.

 

Contra esta tendência/corrente, foram escritos os Evangelhos. Voltam a fazer presente a memória subversiva e conspirativa de Jesus, o Homem do Espírito Santo por antonomásia, o militante do Reino/Reinado de Deus, ao ponto de ter acabado crucificado pelos do Templo e do Império, coligados entre si. O primeiro a ser escrito foi o Evangelho de Marcos, por volta do ano 42/44, depois os de Mateus e de Lucas, pelo ano 70/75 e, finalmente, o de João, pelo ano 90. E é o Evangelho de João, como já o havia feito o Evangelho de Marcos, aquele que mais faz questão de nos apresentar Jesus em conflito quase permanente com as instituições sagradas de Israel e os seus dirigentes maiores. Um conflito sem tréguas, à maneira de um duelo, que só se dá por terminado quando um dos dois protagonistas é morto.

 

As Igrejas posteriores acolheram estes quatro relatos e reconheceram-nos como canónicos, mas têm-nos tratado quase como objectos de museu. Meteram-nos em contextos religiosos, para reforçar a religião dominante, em contextos litúrgicos e de celebração religiosa/pagã, longe do contexto político em que a missão/acção de Jesus sempre havia ocorrido. Com isto, castraram-nos, tiraram-lhes a Memória subversiva e conspirativa própria do Espírito Santo e leram-nos/interpretaram-nos em chave moralista, como livros de devoção para fazer pessoas piedosas, retiradas do mundo e da intervenção política, dos conflitos e das lutas duélicas pelo Reino/Reinado de Deus.

 

E 20 séculos depois, o quê? Mais do mesmo, ou uma revolução copernicana? O Concílio Vaticano II já balbuciou o início duma mudança copernicana, mas os do poder eclesiástico e dos privilégios não alinharam e tudo fizeram e fazem para o abortar. Não estão disponíveis para mudanças que os promova à condição de seres humanos simplesmente. O que pretendem é apenas mais do mesmo, onde eles são figuras de proa. E como têm a faca e o queijo na mão… cortam, riscam, decidem por onde mais lhes convém.

 

Temos, como cristãs, cristãos jesuânicos de erguer-nos, lúcida e corajosamente, contra esta tendência/corrente eclesiástica, contra esta tentação. E regressarmos ao Cristianismo de Jesus, ao seu movimento sororal/fraterno, inclusivo e igualitário. Temos de regressar aos Evangelhos e lê-los em chave política, subversiva e conspirativa. Temos de ser outros Jesus, neste nosso século XXI e terceiro milénio além.

 

As Igrejas/paróquias existem aí para alimentar a religião popular/pagã/fatimita das populações. Não evangelizam as populações, porque nem elas próprias estão verdadeiramente evangelizadas. São mais do mesmo. Alimentam a religião/o paganismo religioso que deveriam denunciar e combater. São pedra de tropeço, demónio/tentação para as populações, ocasião de queda. Não só não as libertam da religião, como ainda lhes fornecem overdoses de religião. Não trabalham para fazer as populações chegar à maioridade de filhas, filhos de Deus Vivo e criador no mundo e na História. Tudo o que fazem é para as manter no infantilismo, desde o nascer ao morrer. São mais sinagoga e templo do tempo e do país de Jesus, do que actualização do movimento de Jesus que anuncia e faz presente o Reino/Reinado de Deus no mundo e na História, mediante acções/intervenções/debates político-teológicos fecundamente subversivos e conspirativos.

Por isso, não são espaços que as discípulas, os discípulos de Jesus deste século XXI devam frequentar. A estas, a estes, resta-lhes, se não quiserem ficar no vazio e em completo deserto, constituir-se em pequenas comunidades de duas ou três pessoas que se reúnem em nome de Jesus e em sua memória, e se alimentam do seu Pão/Corpo e do seu Vinho/Sangue derramado e da sua Palavra/Prática para, assim alimentados, prosseguirem, hoje e aqui, e sem descanso a sua mesma Causa subversiva e conspirativa do Reino/Reinado de Deus.

Quem se dispõe a avançar por esta via?

 


 

2007 MAIO 25

 

O texto que se segue é uma entrevista publicada no jornal TERRAS DA FEIRA, um bisemanário de Santa Maria da Feira, o meu concelho natal. O pretexto foi o meu novo livro SALMOS VERSÃO SÉCULO XXI. Mas a jornalista SARA OLIVEIRA não se ficou pelo livro e colocou-me outras questões bem pertinentes. Leiam. E reflictam. Mais acessível era impossível.

 

“Jesus é património da humanidade, não da Igreja”

 

Mário de Oliveira

Nasceu a 8 de Março de 1937, em Lourosa.

Trajectória: Padre sem paróquia. Fundador e director do jornal “Fraternizar”. Esteve à frente de duas paróquias, foi professor de Religião e Moral em dois liceus do Porto. Foi capelão na Guiné-Bissau. Autor do livro “Fátima nunca mais”. Acaba de lançar a obra literária “Salmos Versão Século XXI”.

 

Afirmações em destaque:

 

* “As pessoas fazem esforços enormes para irem a Fátima, mas não fazem nem um décimo para chegar ao seu vizinho”.

 

* “O episcopado ainda aparece na Igreja como uma espécie de recompensa de fim de carreira”.

 

* “Jesus considerou a humanidade como um espaço de iniciativa e de liberdade, de autonomia e de responsabilidade”.

 

Defende a conversão da Igreja. Estuda o Evangelho, analisa as fontes e afirma que Fátima é a maior mentira criada pela Igreja católica. Retiram-lhe a paróquia. Sobra-lhe tempo para debruçar-se sobre o que “de mais original há no cristianismo”. O padre Mário Oliveira acaba de lançar um novo livro. “Salmos Versão Século XXI”. Atreve-se a mexer no intocável. Na letra da Bíblia. “Tentei ser fiel ao espírito, mas com outra letra” – confessa. Chamaram-lhe “padre irrecuperável”. O que concorda se isso for aplicado “à engrenagem do sistema eclesiástico”. Define-se como “um padre ao serviço do Evangelho”.

 

Apresenta-se como um padre sem templo nem altar. O que o faz continuar?

Percebi que o essencial de um padre não é fazer os ritos religiosos, mas é fundamentalmente anunciar o Evangelho. É para isso, antes de mais, que qualquer cristão é ordenado presbítero, padre ou bispo. Nós é que desvirtuámos esta missão e passámos a ocuparmo-nos com muitas coisas religiosas. O sacerdócio não vem de Jesus, que nunca fez ninguém sacerdote. Ele próprio não pertencia à tribo sacerdotal que havia no mundo judaico. O sacerdote é uma pessoa que se tem a si própria como sagrada. Funciona nos espaços considerados sagrados, no templo que é um espaço separado do resto da sociedade, do mundo. Um espaço à parte. O altar é um acesso reservado ao sacerdote. Percebi que Jesus nunca quis nada disso. Havia um templo no seu país e Ele foi lá mais para o profanar e anunciar o fim dele.

 

O Evangelho faz sentido em todos os lugares, mesmo que não seja num altar?

De certa maneira em todos, menos no templo. Também pode aparecer no templo e junto do altar, mas para dizer que aqueles espaços têm de desaparecer. O Evangelho aceita entrar aí, mas para anunciar o fim desses espaços. Porque o mundo, a criação, o espaço habitado pela humanidade é que são o espaço de Deus. Onde houver humanidade aí há Deus.

 

Mas hoje a religião é vivida nos templos, há o ritual de ir à missa, de celebrar num dia específico...

Que também é considerado o dia mais sagrado, os outros seriam profanos. Há duas heranças: uma do judaísmo que tinha como dia sagrado da semana o sábado que a Igreja, pela ressurreição de Jesus, transferiu para o domingo; a segunda do mundo pagão, quando a Igreja, perseguida que era nos primeiros tempos, passou a ser a única religião permitida e oficial do Império Romano. A Igreja católica habilmente apoderou-se desses espaços, inclusivamente dos sacerdotes, e obrigou-os a obedecer às ordens que vinham de Roma. Estes cultos que se fazem nos templos e altares vêm do mundo pagão. Não vêm de Jesus. Jesus considerou a humanidade como um espaço de iniciativa e de liberdade, de autonomia, de responsabilidade. E que tem de ser desenvolvida para estas dimensões e não para as da religião no templo porque isso atrofia as pessoas e tira-as da intervenção no mundo. A fé cristã, bebida directamente do espírito de Jesus, é uma fé que tem dimensão política. Manifesta-se na intervenção no mundo para o transformar em mais humano, mais feliz para todos.

 

Como é que um padre contestatário, que coloca em causa as leis da Igreja, se consegue mover nesse mundo?

Em nome do Evangelho, experimento uma liberdade espantosa interior e exterior. Como a Igreja institucional diocesana me libertou de uma função mandatada pelo bispo, como fiquei liberto de tudo isso – eles nem sabem o bem que me fizeram – fiquei com a possibilidade de desenvolver o mais original que há no cristianismo. Pude regressar melhor às fontes, confrontar-me bem com Jesus, com o seu projecto, com a sua própria prática como vem relata nos quatro evangelhos, com o testemunho das primeiras comunidades cristãs. E começo a compreender o que nunca tinha entendido profundamente no seminário. Começo a perceber que há um cristianismo com expressões de paganismo e há um cristianismo de Jesus que tem só expressões sociais e políticas. E é por aí que tento andar.

 

Não faria mais sentido, não seria mais coerente, renunciar a ser padre?
Não. Quem tem de mudar, quem tem de renunciar não sou eu. A instituição é que tem de mudar as suas práticas.

 

Mas está sozinho contra o mundo...

Contra o mundo não estou... quando muito contra o mundo eclesiástico. O mundo não eclesiástico entende bem as minhas posições. Se os responsáveis maiores da Igreja estivessem com essa prática e essa orientação teriam gosto em ser militantes nesse universo. Estou a tentar levar a instituição, à qual estou ligado, para o caminho correcto do Evangelho, de onde nos afastámos há 16 séculos. O facto de ser muito tempo não significa que seja impossível.

Diz-se que as populações são naturalmente cristãs, o que é falso. As populações são naturalmente pagãs. Para serem cristãs tem de lhes ser anunciado verdadeiramente Jesus, o seu projecto, para que possam aderir a ele ou não.

 

Escandalizou o País quando disse que não acreditava nas aparições de Fátima e que Fátima era a maior mentira criada pela Igreja. Consegue dormir descansado?

Eles é que não conseguem dormir descansados. Ninguém saiu a contradizer-me. O que é espantoso. Eles sabem que estou fundamentado quando digo as coisas. Revelo as minhas fontes. No cristianismo de Jesus não há lugar para Fátima, para santuários nesse estilo. Só há no cristianismo pagão.

 

Refere-se ao cristianismo da adoração das imagens, das procissões...

Das promessas, das devoções, dos medos de Deus... O cristianismo de Jesus centra-se na pessoa humana, o pagão centra-se em Deus. As pessoas fazem esforços enormes para irem a Fátima, mas não fazem nem um décimo desse esforço para chegar ao seu vizinho que pode estar com dificuldades. Não fazem esforço para mudar o País. Porque, para isso, era preciso meterem-se nas lutas políticas e as pessoas não estão para aí viradas. Só esperam que as mudanças se operem por Deus. Querem que Deus faça milagres para mudar a situação.

 

No seu último livro “Salmos Versão Século XXI” propõe-se alterar a letra da própria Bíblia. É mais uma obra polémica?

Não sou polémico pela polémica. A verdade é que é polémica. Quando se vive em estruturas mais ou menos faz-de-conta, de mentira, de hipocrisia, em que se anda mascarado, cada um faz o seu papel, em vez de ser autêntico, original, criativo.

 

Considera que há mecanismos na sociedade para dar espaço a essa originalidade?

Deveria haver se a Igreja fosse verdadeiramente Igreja na linha do Evangelho. Seria fermento na massa, presença estimuladora dessas originalidades e criatividades e até de capacidade crítica. Estaria a promover sujeitos em vez de ter funcionários a toda a hora, em todo o lado. A Igreja tem de converter-se e isso não significa passar a ser boazinha. Converter-se, no Evangelho, é mudar de deus. A Igreja tem um deus concebido à maneira pagã, um deus inventado pelo ser humano. Nos seus medos, nas suas lacunas.

 

O livro é uma versão dos salmos adaptada aos novos tempos?

São uma versão dos salmos já com a influência de Jesus, isto é, com a influência do espírito, a contribuição original que Jesus trouxe à humanidade. Jesus é património da humanidade, não é património da Igreja. Jesus revelou que Deus não é uma invenção e projecção do ser humano, mas uma agradável surpresa para o ser humano. É o grande aliado do ser humano. Leio os salmos da Bíblia na sua versão tradicional, que têm já quase 2.500 anos, e constato que têm expressões que são horríveis para os nossos dias. Tento com este livro evangelizar os salmos,  pô-los numa versão de boa notícia. Na perspectiva de Jesus, o ser humano não é um escravo dos deuses, é alguém que tem de viver na História e no mundo, como se Deus não existisse. Tem de ser tão autónomo, tão secular, que deve organizar-se como se Deus não existisse.

 

Como analisa a chegada dos chamados padres “vermelhos” ao Concelho?

Foi uma surpresa que devia ter sido agradável. As populações perceberam que se tratava de uma presença na linha do Evangelho, uma boa notícia. Os grandes poderes instituídos da região é que ficaram perturbados, assustaram-se com aquela novidade, com o Evangelho que apareceu nesses padres. Os caciques locais perceberam que com essa doutrina, com essa prática, com essa liberdade, as populações iriam tornar-se autónomas, mais conscientes, mais críticas, mais interventivas. E quem as seguraria? Então foi preciso atacar a equipa dos padres, denegri-la, levantar calúnias. O próprio bispo interveio e em vez de unir, de segurar o sinal que estava a levantar-se, pôs um padre em cada lado.

 

Como avalia o trabalho dos movimentos da Liga Operária Católica e da Juventude Operária Católica?

São movimentos eclesiais que a própria hierarquia sempre olhou com muita reserva e até com alguma suspeição, de que poderia ser comunismo e marxismo. E sempre teve alguma dificuldade em reconhecê-los. Tudo o que mexia com organização operária cheirava, naquela época, a marxismo, a socialismo. Isto antes do 25 de Abril porque depois, como essas coisas deixaram de ser tabu, a Igreja passou a integrá-los mas, de algum modo, domesticou-os.

Esses movimentos que eram um grande sinal, que estavam na vanguarda, ao serem integrados foram, de certo modo, domesticados. São úteis, são muito bons, ainda são a face mais evangélica da Igreja institucional. Mas já estão longe daquela radicalidade do princípio.

 

Chegou a falar-se de uma diocese na Feira. Esta realidade faria sentido?

Sou um bocadinho contra as dioceses territoriais. É um modelo de Igreja que deve tudo ao Império Romano. Para mim, uma Igreja que assenta no território e não nas pessoas, é um modelo de Igreja que não convence, que não está inspirado no Evangelho. Defendo o modelo de uma igreja comunidade de comunidades, em que as pessoas também se escolham umas às outras.

 

Acredita na vida para além da morte?

Acredito na vida. Ponto final. E a vida é que nunca mais acaba. Ela sempre se transforma. Onde vai parar... isso é uma enorme aventura que quero protagonizar.

 

Detalhes

 

* Capelão subversivo

no meio da tropa”

Sai de Lourosa com 13 anos para o seminário do Porto. É ordenado padre com 25, em 1962. Fica como padre auxiliar do pároco das Antas. “Era para estar dois anos e só estive um. A minha forma de exercer o ministério começou a ser muito polémica”. Passa a dar aulas de Religião e Moral no então liceu Alexandre Herculano, até que é transferido para o liceu D. Manuel II. Aos 30 anos de idade, frequenta um curso de capelão militar e é colocado na Guiné-Bissau. “Era para estar dois anos e estive quatro meses porque percebi que a guerra era absurda e absolutamente injusta. Comecei a transferir para os soldados essas interrogações”. Foi considerado um capelão demasiado subversivo no meio da tropa. É expulso e regressa à Diocese do Porto. É colocado na paróquia de Paredes de Viadores, Marco de Canaveses, e depois de Macieira da Lixa, Felgueiras. É preso duas vezes pela PIDE e duas vezes é julgado e absolvido pelo tribunal plenário do Porto. Até que lhe é retirada a paróquia. “Não fiquei diminuído como padre, não tenho nenhuma limitação no exercício do ministério, perdi a função”.

 

* Opção, imposição

Pensamentos de um padre sem paróquia. “O celibato é a maior aberração da igreja católica como disciplina eclesiástica”. Defende que o celibato deveria ser uma opção e jamais uma imposição. Mais uma observação: “As pessoas dizem que tem de haver alguém que nos domine, não dizem tem de haver alguém que nos liberte”. Outro apontamento. “O episcopado ainda aparece na Igreja como uma espécie de recompensa de fim de carreira. O bispo devia ser a pessoa escolhida entre as idades na capacidade máxima da intervenção”. “Penso que é necessário prezarem a sua dignidade pessoal, a sua liberdade pessoal, em vez de serem joguetes de uma organização” – diz a propósito das Testemunhas de Jeová.

 


 

2007 MAIO 22

 

“Admitamos que nem sempre se pautam pelo equilíbrio as manifestações de fé que ali se evidenciam. Mas os detractores do fenómeno de Fátima necessitam de rever as suas posições. E sobretudo ler os sinais dos tempos, à luz da fé, da interpretação dos fenómenos sociológicos e de uma necessária busca do sentido profético dos acontecimentos. E sobretudo, com o olhar da humildade intelectual e com a abertura de coração ao sentido do mistério”.

É com estas palavras que termina o “Editorial” intitulado “Religiosidades” da última edição do semanário da Diocese do Porto, VP Voz Portucalense, de 16 de Maio 2007, assinado pelo respectivo director. Só ontem, 21, tive acesso ao semanário, devido a um arreliador atraso na distribuição local do correio postal.

 

O que mais me leva aqui a falar/protestar acerca do teor deste Editorial é o rótulo de “detractores” com que M. C. F. mimoseia os críticos e os descrentes do fenómeno de Fátima. E também o facto de, no corpo do seu texto, se referir por duas vezes ao que ele chama “a manifestação de Maria”, a propósito do que se diz ter ocorrido no dia 13 de Maio de 1917 na paróquia de Fátima. Li o texto e todo eu estremeci por dentro de indignação com estas posições. Porque trata-se de um órgão oficioso da Igreja do Porto que, de algum modo, reflecte posições oficiais/institucionais da Diocese. De resto, todas elas directa ou  indirectamente avalizadas pelo próprio Bispo Manuel Clemente que, neste momento, preside a esta nossa Igreja local, concretamente, ao participar com assumida visibilidade nas cerimónias do último13 de Maio em Fátima, juntamente com outros bispos portugueses e estrangeiros, sem, em momento algum, ter querido saber para nada dos seus irmãos católicos, das suas irmãs católicas que – e nalguns casos é público e notório – de modo algum se revêem quer naquelas afirmações do Editorial, quer nas posturas fatimistas do Bispo. E que, em nome da Fé cristã católica que professam e vivem, se recusam convictamente a crer no tão badalado fenómeno de Fátima, sem que, entretanto, a sua pertença à Igreja católica e a sua Fé cristã católica saiam minimamente beliscadas, muito pelo contrário.

 

Toda a gente minimamente informada sabe hoje que o fenómeno de Fátima não faz parte da Fé cristã católica, muito menos, da Fé cristã jesuânica, que há-de ser a Fé da Igreja discípula de Jesus, o de Nazaré. Aliás, é a própria hierarquia da Igreja católica quem publicamente já o reconhece e confessa. O problema é que, depois, como se vê por este exemplo, ai daqueles membros da Igreja católica que não alinharem em toda esta manifestação pública de religiosidade e até se permitirem criticá-la publicamente. Cai o Carmo e a Trindade. São, como aqui se constata, rotulados de “detractores”, senão mesmo de outras coisas muito mais feias.

 

Ora, como é que uma manifestação de religiosidade popular que não faz parte do núcleo central da Fé cristã católica passa, de repente, a ser o indicador mais decisivo de quem, pelo menos, em Portugal é católico ou não? Não é isto um desvario? Não estamos perante uma situação patológica? Não mostra que somos uma Igreja gravemente enferma e em estado de pecado? E que estamos a tornar-nos numa Igreja esquizofrénica? Dar tanto valor ao que não presta, ao que é acessório, em detrimento do que é essencial, é pastoralmente saudável? Não é ir a reboque da religiosidade popular, em lugar de, oportuna e inoportunamente, evangelizarmos as populações ainda em estado de paganismo religioso, e de que o fenómeno de Fátima entre nós é a manifestação mais conseguida? Será que já esquecemos que as populações e os povos são naturalmente religiosos, isto é, naturalmente pagãos? E não foram a religião e os religiosos que mataram Jesus, constituído por Deus Vivo pela sua Ressurreição dos mortos como o Caminho a Verdade e a Vida de todos os seres humanos, crentes ou não? E porque o mataram? Não foi porque perceberam que ele não só não canonizou o paganismo religioso que se faz nos santuários, desde que a humanidade é humanidade, como até o denunciou como via de perversão humana? Ir a reboque do fenómeno de Fátima, só porque ele movimenta multidões de pessoas e milhões de euros por ano para os cofres dos gestores do santuário é um correcto comportamento pastoral? Alguma vez o paganismo religioso foi caminho de libertação e de salvação da Humanidade? Alguma vez foi via de saúde das pessoas e dos povos? Não é a perversão dos seres humanos e do santo Nome de Deus? Esquecemo-nos de que Jesus veio com a Boa Notícia de Deus e que não é pela via do paganismo religioso que os seres humanos hão-de ir se quiserem crescer em saúde, em sabedoria e em graça?, isto é, se quiserem crescer em humanidade, em sororidade/fraternidade e em protagonismo social e político? Como Igreja, discípula de Jesus, podemos ir a reboque do paganismo religioso que as multidões não evangelizadas insistem em praticar ao seu jeito e segundo usos e costumes dos antepassados? Não temos, ao contrário, de lhe resistir e de ousar viver e anunciar a alternativa libertadora que é a via paradigmaticamente vivida e anunciada por Jesus, o Cristo de Deus e dos pobres? Não é para viver e anunciar esta via de Jesus que o Espírito Santo surpreendentemente nos convocou e constituiu como Igreja no mundo entre as populações e nos enviou em missão a todos os povos? Deixarmos as populações e os povos entregues à sua religiosidade pagã, ao seu paganismo religioso, sem audácia para lhes anunciarmos o Evangelho de Deus que Jesus nos deu a conhecer com a sua prática e a sua palavra é postura digna da Igreja que somos? Se nos limitamos a ir a reboque das populações e dos povos naturalmente religiosos e pagãos, o que fazemos de extraordinário? Não é o que sempre fizeram os sacerdotes de todos os tempos e culturas, como os sacerdotes de Baal, no tempo do profeta Elias e os sacerdotes do tempo do apóstolo Paulo? Não foi o que fez também o próprio sacerdote Aarão, no deserto, durante a prolongada ausência de Moisés no Monte Sinai?

 

Por mim, gostaria de ver o director do semanário oficioso da Igreja do Porto a questionar-se e a questionar a Igreja que está no Porto sobre o fenómeno de Fátima, nomeadamente, sobre o que o último 13 de Maio de 2007 pôs a nu. O que poderá significar toda aquela gente em Fátima? E todo o crescente envolvimento de certos católicos, jovens incluídos, em torno de Fátima? Cerca de meio milhão de pessoas em Fátima é motivo de satisfação pastoral, ou motivo de preocupação pastoral? Afinal, se nos mostramos satisfeitos com o paganismo religioso de Fátima, o que fazemos de extraordinário como Igreja cristã católica em Portugal? A verdade é que chegamos ao desplante de dizer, desde o cardeal Cerejeira e com ele, que não foi a Igreja que impôs Fátima às populações e aos povos do mundo, foi Fátima que se impôs à Igreja; e dizemos isto com satisfação. Não deveríamos, antes, constatar o facto com vergonha? Aceitar semelhante facto como exemplar não é reconhecer que vamos a reboque do paganismo religioso das populações e dos povos? Mas se fosse para irmos a reboque do paganismo religioso das populações e dos povos, acham que o Espírito Santo nos convocava e constituía como Igreja em nome de Jesus o Crucificado pelos sacerdotes e pelo santuário de Jerusalém, já então convertido em covil de ladrões? Acham, sobretudo, que o Espírito Santo teria feito acontecer Jesus no meio de nós e connosco? Se o Espírito Santo convocou e constituiu a Igreja, não é para que ela passe a anunciar oportuna e inoportunamente às populações e aos povos naturalmente seguidores do paganismo religioso que herdaram dos antepassados outra via, concretamente a via de Jesus? Poderá haver na Igreja que se reúne em nome de Jesus e em sua subversiva e conspirativa memória quem tenha dúvidas a este respeito?

 

Saibam que correr para Fátima é mais do mesmo, dentro do paganismo religioso, é desviar-se perigosamente do Evangelho de Deus, da Boa Notícia de Deus que Jesus, o de Nazaré, fez presente entre nós e connosco com a sua prática libertadora e sanadora e com a sua palavra cheia de sabedoria e de Espírito Santo. Quem disser o contrário mente. Porém, o que sabemos, desde o início do Cristianismo de Jesus, é que semelhante Boa Notícia de Deus não foi acolhida nem pela maioria dos seus concidadãos, nem pela generalidade dos povos. E ainda hoje continua a não ser acolhida! As populações e os povos são naturalmente pagãos, têm uma ideia e uma concepção de Deus à sua medida e à medida dos seus interesses e não suportam no seu meio a presença de mensageiros que os convidem a passar do Deus dos seus antepassados para o Deus de Jesus. De Deus, as populações e os povos pensam que sabem tudo. Nisso, são como os seus antepassados. E não podem ouvir dizer que alguém vive e anuncia outro Deus diferente do deles, esse mesmo que já os pais deles e os pais dos pais deles sempre reconheceram e adoraram. Acontece que este é um Deus ídolo que os escraviza e lhes exige sacrifícios sem conta, peregrinações umas a seguir a outras, os animais e os próprios filhos como sacrifícios muitas vezes cruentos, o dinheiro e, finalmente, as próprias vidas. E tudo elas e eles, as populações e os povos, dão aos sacerdotes sem regatear, só para que o seu Deus ídolo lhes seja favorável, proteja os seus gados e as suas sementeiras e colheitas, as suas casas e os seus negócios, nem que seja com recurso a “milagres” arrancados à custa do seu muito pedir, dia e noite, do seu muito rezar, do seu muito repetir as mesmas fórmulas.

 

É por isso que Jesus, o de Nazaré, começou a sua missão por anunciar a Boa Notícia de Deus contra a Má Notícia de Deus que as populações e os povos conheciam e viviam, desde que a humanidade é humanidade, e que transmitiam de pais para filhos, de geração em geração. E logo acrescenta aquele apelo tão difícil de acatar e de realizar: “Convertam-se! E acolham esta Boa Notícia” Só que no nosso moralismo religioso-pagão, próprio do Deus ídolo, sempre entendemos aquele “Convertam-se!” de Jesus como sinónimo de passarmos a frequentar mais assiduamente os cultos no templo, a multiplicar as orações e os sacrifícios, as visitas aos santuários, as promessas e os ritos. Somos naturalmente pagãos e pensamos que converter-se é passar a sermos um bocadinho mais religiosos dentro do paganismo religioso que bebemos no leite materno e no ambiente em que nascemos, para que Deus ídolo passe a ser-nos mais favorável. Estamos redondamente enganados. E, se as Igrejas não no-lo dizem, não são Igrejas na peugada de Jesus, são Igrejas na peugada dos sacerdotes das religiões do paganismo que o mataram e continuam a matar, isto é, a impedir que ele e a via em que ele foi constituído por Deus, com a sua ressurreição dos mortos, nos façam nascer de novo, do Alto, do Espírito Santo.

 

Pois bem, aquele “Convertam-se!”, com que Jesus nos sai ao caminho, no início da sua missão de Evangelho vivo de Deus Criador no meio de nós, faz apelo a uma mudança radical. É o mesmo que dizer: Mudem de Deus! Abandonem de vez o Deus Má Notícia do paganismo religioso com que os sacerdotes vos enganam, mediante os seus cultos de rotina, sempre os mesmos, e acolham o Deus Boa Notícia que eu vos anuncio e que conheço como ninguém, porque venho da sua intimidade. Por outras palavras: Deixem Deus Criador ser Deus Criador em vós e convosco e vereis que mudareis também radicalmente de vida: Deixareis os cultos e os sacrifícios, as promessas e os medos, os templos e os sacerdotes e mergulhareis no mundo e na História, sereis criadores com Deus Criador, passareis a ocupar-vos da Terra e a cuidar dela e do vosso bem-estar pessoal e colectivo. Crescereis em humanidade e em fraternidade/sororidade, em cultura e em consciência crítica, em protagonismo social e político e em política, até alcançardes a maioridade de filhas, filhos de Deus no mundo e para o mundo.

 

Era por aqui que eu gostava de ver ir o director do semanário da Diocese do Porto. E o seu bispo Manuel Clemente. Pelos vistos, preferem um e outro meter-se no atoleiro do paganismo religioso que Fátima é desde o princípio. São sacerdotes do Deus ídolo e da deusa de Fátima, o ídolo maior. Não são Igreja, discípula de Jesus. Baralham tudo. Constroem um Cristianismo religioso, típico do paganismo religioso. E só isso explica que no seu Editorial o director da Voz Portucalense chegue a falar em “manifestação de Maria”, a propósito do fenómeno de Fátima. A baralhação é tanta, que ele confunde Maria, mulher de carne e osso, em tudo igual à mãe de qualquer de nós, e que morreu há cerca de dois mil anos, com a mítica deusa dos cultos do paganismo religioso, puro símbolo poético sem corpo e sem realidade histórica. Chega ao desplante de a pôr, dois mil anos depois dela ter morrido, a manifestar-se em Fátima a três crianças, vergonhosamente tolhidas e aterrorizadas por catequeses moralistas e terroristas dos padres da Missão e do livro Missão Abreviada que era lido em suas casas à noite, à luz da vela. Semelhante baralhação é um insulto à nossa inteligência de seres humanos do século XXI, felizmente cada vez mais informada pela Ciência. E constitui uma humilhação sem nome, porque nos retira toda a iniciativa política e nos reduz a castigados pagadores de promessas, um ano após outro, de um 13 de Maio a outro 13 de Maio, até que a morte nos torne invisíveis aos olhos, definitivamente viventes no Vivente Jesus que Deus Vivo ressuscitou dos mortos, e de quem Maria, sua mãe carnal, também já comunga para sempre, não para agora andar por aí a aparecer e a manifestar-se, mas para trabalhar com o Deus Vivo na transformação da vida e da História.

 

É público e manifesto que eu não acredito em Fátima. Mas saibam que nem por isso deixo de ser presbítero da Igreja católica que está no Porto. Bem pelo contrário, sou-o ainda mais do que aqueles que acreditam nessa treta, nessa mentira. Por isso dói-me ver o bispo da Igreja do Porto – o meu bispo – a tomar tão abertamente posição ao lado de Fátima e da sua mentira. Sem respeito por mim e pelos outros irmãos, pelas outras irmãs católicos que já não vamos nesse tipo de cristianismo pagão religioso. Como bispo, deveria manter-se equidistante e ocupar-se inteiramente no anúncio do Evangelho ou Boa Notícia de Deus, o de Jesus. Ainda confio que um dia, não muito remoto, isto sucederá na nossa Igreja do Porto. E, por tabela, na Igreja católica em todo o mundo, a começar por Roma. Acreditem: É por aqui que também vai Maria, a de Jesus, que, como tenho dito e repetido, não tem nada a ver com a mítica senhora de Fátima, deusa cruel que se agrada com a humilhação das populações e dos povos.

 


 

2007 MAIO 20

 

1. Mais de 15 dias depois, as televisões portuguesas continuam a abrir os seus telejornais com o caso da menina inglesa raptada no Algarve. Não têm nada de novo para dizer, mas fazem de conta que sim. É o que se pode chamar notícias sem notícia. Ninguém, entretanto, se mostra escandalizado com este procedimento, muito menos pede/exige aos directores de informação dos telejornais que façam jornalismo profissional e não nos dêem gato por lebre. Parece que estamos todos “possuídos” e paralisados pelo rapto da menina inglesa e achamos normal este tipo de jornalismo em formato folhetim ou telenovela. Mas é uma perversão do jornalismo.

 

Ao serviço de quê e de quem estão os directores de informação das televisões que assim procedem? Nem sequer o Sindicato dos Jornalistas diz uma palavra de estranheza e de censura. Para o primeiro-ministro José Sócrates, atolado até às orelhas com o caso da sua (falsa) licenciatura em engenharia, este rapto assim tão mediatizado veio mesmo a calhar. Nunca mais ninguém falou dele e das suas falcatruas. Pelo menos, a ele muito interessa este tipo de jornalismo e de jornalistas. As investigações da Polícia Judiciária estão, desde há 15 dias, totalmente concentradas – pelo menos, ao nível mediático – neste caso. Mais uns dias a falar-se do assunto da sua falsa licenciatura e José Sócrates poderia ver-se obrigado a ter de abandonar o cargo de primeiro-ministro. Assim, já começa a aparecer de novo no país, sem vaias de nenhuma espécie. E até acaba de ser divulgada mais uma sondagem que o apresenta como o preferido pela maioria das portuguesas, dos portugueses. Só mesmo num Portugal de pequeninos!...

 

Até ao passado dia 13 de Maio, as televisões juntaram-se à paróquia católica algarvia onde aconteceu o rapto e às suas missas e liturgias diárias, bem como aos peregrinos a caminho do santuário, a “exigir” da senhora de Fátima um milagre. Quase nos convenceram de que a menina iria aparecer naquele fatídico dia em Fátima. Ao lado da imagem da dita, para poder ser aclamada pelos milhares de peregrinos, a gritar “milagre!”, “milagre!”, “milagre!” (500 mil, repetiram à uma todos os jornalistas em serviço no santuário; apenas 65 mil comungantes da hóstia feita de farinha de trigo sem fermento, disse, no dia seguinte, o próprio santuário. Não esperem ver-me aqui a escrever “Corpo de Cristo”, em lugar de hóstia feita de farinha de trigo sem fermento. Não o faço, precisamente, para não troçar/blasfemar do nome de Jesus e da sua subversiva e conspirativa Memória, o que sucederia, se eu alguma vez o confundisse com toda aquela idolatria de mau gosto, tipicamente pagã que Fátima é, mai-la sua deusa cega, surda e muda que tudo aceita e patrocina, mai-lo seu culto sadomasoquista, típico dos povos mais primitivos, que lá tem tido lugar até hoje, desde 1917, quando tudo foi inventado e difundido pelo clero da região.

 

Com comportamentos aberrantes destes, totalmente impunes, quem pode dizer que somos um país? Administrativamente, somos, mas só isso. No que respeita ao desenvolvimento duma consciência crítica e ilustrada, continuamos a ser apenas uma espécie de país. Ou então um país gravemente enfermo. À beira do estado de coma, quando o doente já não tem qualquer capacidade de reacção.

 

Não sei durante quantos anos mais vamos permanecer neste estado. Os séculos passados, desde a fundação de Portugal, em 1143, até à proclamação da República em 1910, foram séculos de total domínio do clero, o alto e o baixo, e das famílias reais de sangue azul, totalmente obedientes e reverentes ao alto clero e totalmente feitas com ele. Para cúmulo, quando, depois da proclamação da República, já estava em curso um processo de progressiva autonomização das populações, ainda nos sucedeu o prolongado interregno salazarista, sustentado e dirigido pela mortífera dupla Salazar/Cardeal Cerejeira (é durante o reinado desta mortífera dupla que a Mentira de Fátima acabou por se impor ao país e ao mundo, numa cumplicidade que nos envergonha a todas, todos e que enquanto o país não se libertar dela sempre há-de ser um país gravemente enfermo, porque a Mentira oprime e mata as populações). O 25 de Abril de 1974 quis retomar o processo de autonomização das populações, iniciado com a República, mas depressa abortou e entrou numa fase de rebaldaria e de vale tudo, que é aquela em que ainda hoje estamos, uma espécie de fascismo em liberdade, onde as populações não chegam nunca a ser sujeito, apenas objecto, totalmente manipuladas pelos grandes media e por elites sem escrúpulos, mais escroques do que políticos, que fazem o que muito bem lhes apetece e sobra-lhes tempo.

 

Ainda haverá saída para Portugal? Ainda conseguiremos sair do estado de coma e retomar o processo de autonomização das populações interrompido pela dupla Salazar/Cerejeira e macaqueado poucos meses depois do 25 de Abril de 1974 até hoje por uma espécie de democracia de elites cheias de privilégios? Onde estão as elites à maneira da parteira, ou à maneira dos intelectuais orgânicos, capazes por isso de resistir sem cedências aos privilégios e àquelas práticas quotidianas que a eles conduzem?

 

As populações, de tão dominadas e anestesiadas, não poderão, só por si, mudar o rumo do país e retomar o processo da sua própria autonomização. São populações demasiado doentes e paralíticas. Fazem lembrar o paralítico do relato parabólico e teológico do Evangelho de João (cap. 5). Jazem, como ele, há 38 anos junto das águas da piscina que poderão reabilitá-lo, se ele conseguir mergulhar nelas, quando elas são agitadas. Podem ter vontade de o fazer (hoje, nem vontade parecem ter, de tão em coma que estão), mas carecem de alguém que as ajude a lançar-se às águas, quando estas são agitadas (greves e manifestações de protesto e de reivindicação pública de outras políticas). E sem elites destas que jamais se vendam aos privilégios e ao Poder, as populações sozinhas não conseguirão sair do seu estado de coma. Nascem e morrem como paralíticas.

 

O drama é que hoje nem sequer há elites desta qualidade. As que ainda se agitam por aí na chamada Oposição venderam-se ao Poder, a troco de alguns privilégios. Enquanto foram elites politicamente organizadas na resistência, constituíram um sinal de esperança e uma referência para as populações. O fascismo em liberdade que hoje vivemos por todo o país seduziu-as e elas, em lugar de resistirem e de se manterem como fermento na massa, como intelectuais orgânicos e como parteiras na sua relação com as populações que vivem desorientadas e como ovelhas sem pastor, deixaram-se seduzir pelo Poder e pelos privilégios que o Poder sempre dá a quem o serve. E a verdade é que depois de terem provado/comido deste fruto proibido, abriram-se-lhes os olhos para os privilégios e elas nunca mais quiseram saber das populações. Tem sido um tal fartar vilanagem, à direita e à esquerda. A luta destas elites já não é pela progressiva libertação/autonomização das populações, mas pelo Poder, por mais lugares nos lugares de privilégio, sempre de olhos postos no lugar de topo, aonde aspiram um dia chegar, se não eles, ao menos os seus filhos ou os seus netos. As populações estão assim completamente desamparadas e à mercê de escroques de todo o tipo que fazem delas gato-sapato. Com uma agravante: Sempre que alguns elementos das populações adoentadas conseguem melhorar um pouco a sua situação quotidiana, nunca mais passam cartão aos antigos companheiros de infortúnio, só têm olhos e ouvidos para os privilégios, a adquirir a qualquer preço.

 

Está então tudo perdido? Por mim, não creio que esteja. É verdade que a revolução não está aí na próxima esquina, mas também não está tudo perdido. Este é o tempo de prepararmos a revolução. Para tanto, são precisas minorias que resistam aos privilégios e que desçam para junto das populações. Minorias jesuânicas que se façam próximas das populações e entrem em relação com elas, ao jeito da parteira. Não mudarão o país da noite para o dia. Mas constituem-se num Sinal de que as populações do país podem sair do estado de coma em que se encontram e começarem a mexer. Leva tempo. Porventura, algumas gerações, até se criar um movimento político que se veja. Também o rio que entra imparável mar adentro começa por ser um débil fio de água na nascente.

 

É por aqui que havemos de ir. Sem precipitações. Com paciência revolucionária. E perseverança. Provavelmente, nunca veremos o fruto maior das nossas vidas. Mas temos a consolação de sermos já esse fruto, como em semente. Por mim, é por aqui que ando. Escroques e corruptos sabem que não podem contar comigo. E o Poder também não. Porque recuso os privilégios com que ele sempre compra/enfraquece/domestica quem os aceita. Como Jesus, o de Nazaré, também eu digo: Antes mil vezes crucificado pelo Poder, do que aceitar uma vez que seja os privilégios que ele oferece a quem o serve. O Poder sempre domestica e rouba a alma a quem o serve e ainda converte os seus incondicionais servidores em assassinos das populações. Não vou por aí. Jamais.

 

Resistentes ao Poder e aos privilégios precisam-se. Demo-nos discretamente a conhecer uns aos outros. E organizemo-nos como servidoras/servidores das populações, como parteiras/parteiros, nunca como dirigentes ou como os primeiros. Sempre como os últimos e como aquelas, aqueles que servem! Naquela alegria que só a Verdade é capaz de gerar.

 

 

2. O leilão de obras de arte a favor da construção do nosso Barracão de Cultura decorreu na noite da passada 5.ª feira, 17, no Clube Literário do Porto. As ofertas de obras, com destaque para a pintura, excedeu toda a nossa expectativa. Umas setenta obras, no total. Foram todas leiloadas com mestria pelo nosso amigo, António Reis, actor maior da Seiva Trupe. Umas foram vendidas, outras não. Como em todos os leilões do género. Vendemos cerca de metade das obras, o que representa uma significativa ajuda financeira para a continuação da construção do Barracão de Cultura. Com esta ajuda e outras que virão, depois de toda esta movimentação, vamos poder prosseguir as obras ainda este verão. Precisamos urgentemente de revestir as paredes por fora e por dentro, de colocar portas e janelas, de fazer a instalação eléctrica e o saneamento. Com este passo em frente, já poderemos iniciar acções culturais/políticas sadiamente conspirativas lá dentro. O “ventre” que queremos que o Barracão de Cultura seja já terá, nessa altura, as condições mínimas para a gestação de um viver alternativo que leve as populações a sair do estado de coma e de olhos fechados em que se encontram para um estado de populações em movimento e com consciência crítica, segundo um processo de progressiva autonomização.

 

A noite do leilão foi uma experiência inolvidável. Só quem lá esteve saberá o que ela foi. Contado, fica sempre aquém do vivido. Até os despiques entre os compradores foram geradores de surpreendente fraternidade e companheirismo. A Causa Barracão de Cultura uniu-nos a todas, todos. E fez a diferença.

 

Haveremos de fazer mais momentos destes, no mesmo local, ou noutros locais. Entretanto, as pessoas que quiserem visionar as obras de arte que não foram vendidas poderão passar pela Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA, aqui em Macieira da Lixa. E poderão levar alguma(s) para suas casas, em troca no mínimo do valor de licitação por que foram leiloadas. O Barracão de Cultura agradece. Pois pela Partilha dos bens é que vamos. De resto, já lembrou Jesus, de que vale ganhar o mundo inteiro, se perdermos a identidade, a alma?

 

Tenho a certeza de que a Dária e o R. Filipe, o César e a Sofia, o Álvaro e a M.ª Laura, da Direcção da Associação, nunca mais esquecerão esta noite. Assim como o Armando, director de “O ARRIFANA”, que foi a alma desta iniciativa. E o Napoleão que acompanhou o Armando nestes últimos dias e foi incansável na ajuda sempre oportuna e fecunda. E eu próprio? O que mais poderei dizer é que, depois desta vivência, sou todo ainda mais Eucaristia.

 


 

2007 MAIO 16

 

1. O meu colega pároco no concelho de Gondomar voltou a escrever-me. Insiste no mesma tecla. O que é pena. Formou uma opinião a meu respeito e por mais que eu testemunhe em contrário, ele mantém-se na dele. Ele e os que procedem como ele estão certos e no bom caminho. Eu e os que procedem como eu estamos errados e no mau caminho. E por isso ele nem sequer aceita comer comigo à sua mesa, não vá contaminar-se comigo.

 

São comportamentos destes que me confirmam ainda mais na convicção de que o modelo paroquial de Igreja é uma Igreja em estado de pecado. E que de católico tem muito pouco. Incluem mais depressa todo o tipo de paganismo herdado do Império Romano, do que a fecunda dissidência de um irmão de caminhada, mesmo quando esta, como sucede comigo, é uma dissidência na Igreja. Não espero que todos sejam como eu. Mas tenho o direito a esperar que todos os que se assumem como católicos e como exemplo de católicos me acolham como irmão de caminhada. Diferente, mas irmão na mesma Igreja.

 

Embora o meu colega insista em que eu não publique a carta, entendo que é útil e salutar partilhá-la aqui, sem revelar o nome do colega que ma enviou. Por mim, nunca se saberá quem é. Por isso dou a conhecer a carta recebida e também a carta que lhe enviei. Todas, todos podemos beneficiar com esta partilha de pontos de vista. E a nossa Igreja católica romana progredirá em direcção ao Evangelho. Morrerá como paróquia católica romana que faz acepção de pessoas para passar a viver como comunidade de comunidades jesuânicas onde todas, todos os que se confessam de Jesus (e dos pobres) têm lugar à mesa onde ele também está misteriosamente presente e activo. Eis sucessivamente as duas cartas, a que recebi e a que enviei:

 

Caríssimo

Quando voltares (estás sempre a tempo) à comunhão plena com a Igreja universal e diocesana, poderemos falar a sério e com franqueza. Em ruptura não. Digo-te mais uma vez sem querer julgar a tua consciência e responsabilidade, porque isso pertence a Deus, que nada tens ensinado de novo. Enfileiras na velha tradição dos cátaros, albigenses e até num larvado maniqueísmo, porque deixas transparecer que estás convencido que encarnas e difundes a nata do Cristianismo. O que pregas está dito e redito. Basta conhecer um pouco a História da Igreja. 

Regressa ao seio da Igreja nossa mãe, não àquela que tua imaginas, mas a esta a que preside na caridade Bento XVI e na Igreja Diocesana, D. Manuel Clemente. Os que agora te louvam serão os primeiros a esquecer-te para sempre.

 

Pe….

Dizes que não me queres julgar mas julgas. Vê que chegas a pôr-me fora da plena comunhão com a Igreja universal e diocesana. Fora, eu? Posso ser dissidente e sou, mas dissidente na Igreja, não dissidente da Igreja. Sou presbítero da Igreja do Porto, tal como tu. Diferente, mas em comunhão. Nunca me passou pela cabeça sair ou afastar-me da plena comunhão. Vou mais no Espírito do Concílio Vaticano II. Há quem prefira ignorar os caminhos que o Concílio abriu e até o consideram obra do diabo. Mas o Vaticano II é a última palavra que o Espírito Santo disse à nossa Igreja. A fidelidade ao Espírito pode parecer afastamento da comunhão, mas é a melhor maneira de permanecer na comunhão plena. Não é o que nos diz/revela a prática/palavra de Jesus? Não é o que nos revela a Tradição viva da Igreja?

Colocas-me fora da comunhão plena com a Igreja e, por isso, recusas-te a falar comigo e a sentar-me à tua mesa. E depois dizes que sou eu que me coloco fora da comunhão plena com a Igreja. Acho que isso que fazes comigo nunca o faria Jesus que, como sabemos, comia com todos, de preferência com os que os fariseus diziam que estavam fora da comunhão plena com Moisés e o Deus de Moisés.

Sê católico sem reservas. E acontecerá Jesus vivo entre nós! E com ele, a alegria e a paz, apesar das diferenças que nos unem, e não que nos separam…

O meu abraço e a minha paz

Mário

 

2. O limbo acabou! A verdade é que o limbo nunca existiu. Não passou duma invenção de certos teólogos que aceitaram o terrorismo teológico de St.º Agostinho, o inventor do “pecado original”. A boa notícia de Deus é: Nem pecado original, nem limbo. A invenção do limbo tentou amenizar as consequências da doutrina do pecado original. O bispo de Hipona não hesitou, em seu tempo, em mandar para o inferno todas as crianças que morressem sem baptismo. E muitas foram, quer antes dele, quer depois dele. A esmagadora maioria. Enquanto as pessoas não recebessem a água do baptismo, faziam parte da “massa damnata”, da multidão condenada ao inferno. Semelhante terrorismo fez o seu caminho na Igreja católica. Ainda hoje as mães e os pais que pedem o baptismo para as suas filhas, os seus filhos, fazem-no sobretudo por essa razão. Pensam que, se o não fizerem, estão a condená-los ao inferno eterno.

 

Vejam só o que o bispo Agostinho fez do Evangelho de Jesus. E, mesmo assim, ainda foi canonizado pela Igreja e declarado “Doutor da Igreja”. Uma barbaridade sem nome. Uma ignomínia. Uma vergonha. O anti-Evangelho como doutrina oficial da Igreja.

 

Felizmente, nem pecado original, nem limbo. Nem inferno. Vem agora a Igreja, tarde e a más horas, declarar que a existência do limbo não faz sentido e que choca com a postura de Jesus para com as crianças. O documento recém-publicado em Roma não é uma definição dogmática. É a opinião de uma Comissão de peritos em teologia, reconhecida pelo papa Bento XVI e publicada, para que faça também o seu caminho na Igreja.

 

Não se pense que é um documento ousado. Nada disso. Chega a dizer que quem quiser pode continuar a pensar e a admitir que o limbo existe. Desfaz uma doutrina errada, mas nem tanto. O disparate é por isso ainda maior. Melhor fora que estivessem calados.

 

Enquanto a Igreja não se atrever a desdizer St.º Agostinho sobre o pecado original, sempre haverá lugar para que alguns teólogos sejam levados a pensar no limbo como uma possibilidade. Pensam que a Igreja vai algum dia chegar tão longe? Tomara eu, mas nunca será com este papa. Nem com os seus próximos sucessores. No dia em que a Igreja admitir que não houve nem há pecado original (enquanto o não fizer é uma Igreja caída no erro e na mentira e por isso como aquele cego que guia outro cego e ambos caem no precipício), morre como Cristandade e nascerá como Igreja Comunidade de comunidades. Mas então já nem lugar haverá para papas-chefes de estado. Só para irmãs, irmãos que se amam e acolhem na diferença.

 

São tantos séculos de terrorismo teológico/agostiniano, que agora será muito difícil admitir o erro. Mas quanto mais tarde o fizermos, como Igreja, pior. Para nós, Igreja, e para a Humanidade. Coragem é preciso. Se persistirmos no terrorismo, em lugar de sermos presença que humaniza o mundo, somos presença que aterroriza o mundo. O que vale é que o mundo, ao ver que a Igreja é portadora de terrorismo teológico, em lugar de Evangelho, faz orelhas moucas e vira-lhe as costas. Passa a viver sem ela, ou mesmo contra ela. Veremos então Deus Vivo, o de Jesus, a salvar a Humanidade, apesar da Igreja, quando, o que seria de esperar é que Deus vivo a salvasse com a Igreja. Por isso, cada vez mais havemos de proclamar: Fora da Humanidade não há salvação, quando, no passado, o terrorismo teológico fartou-se de repetir: Fora da Igreja não há salvação.

 

Está pois na hora de a Igreja se converter à Humanidade, em lugar de a Humanidade se converter à Igreja. Avancemos por aí. Porque de Roma continuam a soprar ventos de Poder e de Privilégio, em vez do Vento ou o Sopro do Espírito de Jesus crucificado/ressuscitado. Resistamos ao terrorismo teológico de Roma. Abramo-nos ao Evangelho de Jesus. E seremos mais humanos e sororais/fraternos.

 


 

2007 MAIO 13

 

1. Este é o dia que a Mentira fez. Choremos convulsivamente. Mas de modo algum desfaleçamos na luta. Pelo contrário. Armemo-nos sempre com a couraça da Verdade e resistamos com todas as forças às múltiplas investidas da Mentira. Em nome do bom senso, da inteligência e da nossa dignidade de seres humanos. São já 90 anos de Mentira muito bem orquestrada. Saibam todas, todos que as populações, enquanto não forem ilustradas e evangelizadas, viverão inevitavelmente destas coisas da religião e do obscurantismo. Sempre assim foi, desde que o mundo é mundo. E assim continuará a ser, enquanto as populações permanecerem distantes da Ilustração e do Evangelho de Jesus. Os Poderes que estão no terreno (são todos Treva e das Trevas) trabalham que se fartam para manter a religião e o obscurantismo. Eles sabem que populações ilustradas e evangelizadas não são manipuláveis, nem se deixam enganar. Por isso investem o mais que podem em Fátima.

 

O que hoje está a acontecer com os três canais generalistas de tv, particularmente com a RTP 1, televisão pública de um Estado constitucionalmente laico, é uma vergonha nacional que, para cúmulo, conta com a cumplicidade e indiferença dos intelectuais do país e do Ocidente. Um crime a juntar a tantos outros que Fátima é e já soma nestes 90 anos de Mentira. Mas, ao mesmo tempo, tenhamos consciência de que não há Mentira que sempre dure. Podem ser 500 mil, ou 500 milhões de pessoas a correr para Fátima. A Mentira que tudo aquilo é não passa a ser verdade. Continuará a ser Mentira. Nestas coisas da Verdade e da Mentira, os números não pesam. E, se pesarem, é quase sempre ao contrário, quanto maior é o número de presenças, menos verdade há no evento em questão. Não fosse assim e o Evangelho de Jesus e a via que Jesus inaugurou com a sua prática e palavra não teriam o selo da Verdade que nos faz livres. Não advertiu o próprio Jesus que o seu Evangelho uma via de “porta estreita” e que são poucos os que entram por ela? E não acrescentou Jesus que “larga é a porta e espaçosa é a via que conduz à perdição (entenda-se, à desumanidade, ao aviltamento, à auto-flagelação, à alienação, à perda da liberdade e da dignidade, tudo coisas mais do que manifestas hoje em Fátima!) e são muitos os que entram por ela? Então, estejamos vigilantes e não nos deixemos impressionar nem enganar.

 

Aproveito para partilhar aqui convosco, neste dia, uns versos que escrevi há alguns anos, para serem cantados, como numa paródia satírica, com a música popularucha do 13 de Maio e que estão já publicados no meu livrinho Canto(S) nas Margens. Dizem/cantam o 13 de Maio da nossa vergonha. Eis:

 

Refrão

Mas ai de quem

crê nessa intriga

jamais será

alguém na vida

 

1. De maio a outubro

na Cova da Iria

o q' lá se inventou

a ninguém lembraria

 

2. Três pobres crianças

nenhuma instrução

contam que tiveram

uma aparição

 

3. Padres e beatas

esfregam as mãos

apoiam a Lúcia

e os dois irmãos

 

4. O "milagre" vinha

mesmo a matar

vinha pôr os bispos

de novo a mandar

 

5. E o povo sedento

de sinais dos céus

fez desta mentira

palavra de Deus!

 

6. Mas o que ouve Lúcia

da aparição?

os mesmos horrores

da Santa Missão!

 

7. A todos nos quer ver

de terço na mão

mal sabe a pequena

que o terço é pagão

 

8. Fala do inferno

como os pregadores

e condena ao fogo os

pobres pecadores

 

9. Garante que a guerra

irá acabar

É outra mentira

como o sol bailar

 

10. Mas o maior crime

que o clero produz

é dizer que a "virgem"

é mãe de Jesus

 

11. E quanto às crianças

que manipulou

fez duas morrer

e à outra castrou

 

12. Em Fátima nada

nos lembra Maria

é tudo negócio

pura idolatria

 

13. Mas com tantos crimes

que Fátima tem

quem pode dizer que

se sente lá bem?!

 

2. Ainda a propósito de Fátima e do que neste dia lá está a acontecer. Já leram a entrevista que o actual Bispo de Leiria-Fátima deu ao DN de hoje? A dada altura, a boca parece fugir-lhe para a verdade e fá-lo dizer textualmente que “Fátima não é o Evangelho de Jesus, nem se substitui à Igreja”.

 

Registo com agrado a resposta completa:

“Gostaria que se distinguisse bem entre uma revelação privada e a grande revelação de Deus na história da salvação. Uma revelação privada não vem trazer novas revelações, nem novas curiosidades sobre Deus nem sobre a fé. Portanto, Fátima não é o Evangelho de Jesus, nem se substitui à Igreja.”

 

Estão a ver? Quem diria que um bispo de Portugal e logo o bispo que nesta altura está à frente da Diocese de Leiria-Fátima viria a dizer uma coisa destas? Não será que o Bispo António Marto anda incomodado com tudo aquilo que Fátima é e com o que eu há anos ando a dizer e a escrever a propósito, em nome do Evangelho e de Jesus? Não será que ele leu e se deixou interpelar pela Carta Aberta que lhe escrevi, quando ele aceitou trocar a Diocese de Viseu pela de Leiria-Fátima? E que, mais recentemente, também leu a Carta Aberta que escrevi “aos meus irmãos bispos”? (Ver Jornal Fraternizar, edição n.º 165 de Abril/Junho 2007)

 

Mas, meu caro irmão Bispo António Marto, se Fátima não é o Evangelho de Jesus, nem se substitui à Igreja, então o que é Fátima? Se Fátima não caminha com Jesus, com quem é que caminha? E se não se substitui à Igreja, então o que é que a Igreja católica está lá a fazer, se nem sequer tem a audácia de aproveitar para anunciar oportuna e inoportunamente o Evangelho de Jesus às multidões alienadas e extremamente sofridas que lá vão?

 

3. O rapto da menina inglesa no Algarve está a revelar dramaticamente o país que somos. As televisões e alguns dos seus profissionais têm estado no seu pior. Não há notícias para dar, mas eles “não largam o osso” (desculpem a expressão, no meio de uma situação de tanta dor). Estão a arrastar o país para a depressão generalizada. E para a demência colectiva. Até Scolari já vem às tvs pedir aos portugueses que rezem, pelo menos, uma ave-maria para que nossa senhora faça o milagre da menina aparecer. E o pároco da aldeia da Luz, onde foi raptada a menina, por manifesto descuido dos respectivos pais, não se cansa de multiplicar as missas e outras orações para que o milagre aconteça. Não é isto preocupante manifestação de demência colectiva? Mas então Deus é para os crentes trazerem no bolso como uma aspirina para as dores de cabeça? O Bispo da diocese ainda não percebeu que tem de chamar à razão o seu pároco? Deixa-o andar assim a alimentar estes espectáculos recambolescos, geradores de ateísmo generalizado? Mas então não sabemos que pedir milagres a Deus é tentar Deus? Não diz claramente o Evangelho que Jesus foi tentado pelo Diabo a pedir milagres a Deus, mas que ele recusou liminarmente meter-se por aí? O exemplo de Jesus não é paradigmático para todos os crentes, mulheres e homens, em Deus? E não sabemos que se quisermos falar em milagres só o podemos fazer daqueles milagres que nós, seres humanos, fizermos? O que não for assim é pecado!

 

Decididamente, a histeria está a apoderar-se do país e das populações, a propósito deste caso. Os media têm de ser chamados à razão. Já deveriam ter sido, logo ao segundo ou terceiro dia. Ou mudam de comportamento, ou é melhor que suspendam as emissões para os seus profissionais poderem ir a tratamento psiquiátrico. Não podem continuar impunemente a arrastar o país para a depressão e para a histeria generalizadas. E, se não se trata de doença dos seus profissionais, então é um crime o que estão a fazer com este caso. E os tribunais terão que intervir. Em nome da nossa sanidade mental. Haja modos, senhores directores de informação das tvs!

 


 

2007 MAIO 09

 

1. Enquanto os pagadores de promessas, elas e eles, avançam aos milhares penosamente pelas estradas de Portugal, em direcção a Fátima, o reitor do respectivo santuário convocou os jornalistas para, através deles, mostrar ao país e ao mundo o seu mais recente investimento religioso-financeiro, com o qual tenciona vir a obter ainda maiores receitas anuais do que aquelas que já obtém cada ano na velha basílica de trazer por casa que até agora lá tem funcionado, juntamente com a chamada capelinha das aparições.

 

O empreendimento foi baptizado com um nome pomposo. Na impossibilidade de se chamar Banco Espírito Santo (já há no país um empreendimento de fazer dinheiro com esse nome!), o reitor-banqueiro designou-o de Igreja da SS.ª Trindade, sem dúvida, um verdadeiro achado em matéria de nomes, porque assim não ficou só com o Espírito Santo, mas também com o Pai e o Filho, portanto, com todos os três entes divinos que constituem o verdadeiro deus de Fátima, o deus Dinheiro. Mais e maior perspicácia empresarial e financeira era impossível!!!

 

O edifício apresenta-se com nove mil lugares sentados. E, apesar de custar oficialmente 60 milhões de euros (o mais provável, no entanto, é que os custos finais se aproximem dos 90 milhões de euros) será todo pago a pronto, dois meses após a apresentação da factura por parte da empresa construtora que não deixará de esfregar as mãos de satisfação por, desta vez, ao contrário da regra geral,  lhe ter caído em sorte semelhante cliente tão pronto pagador!

 

O reitor Luciano Guerra, que o é desde há uns 30 anos (desde que tomou posse nunca mais foi substituído, como de resto convém nestas coisas de altos negócios onde há meandros e segredos e redes e compadrios e cumplicidades que levam anos a construir, como acontece no interior de qualquer outra máfia que se preze) revelou estes e outros importantes dados com um santo orgulho e uma santa arrogância estampados no rosto, o que não deixou de chocar os próprios profissionais da comunicação social que, na sua ingenuidade, ainda tomam a nuvem por Juno, isto é, ainda pensam que por se falar de Fátima e de senhora de Fátima, de Igreja e de SS.ª Trindade, se está a falar de Fé cristã jesuânica e de espiritualidade. Ainda não caíram na conta de que tudo isso são rótulos para esconder os chorudos negócios que estão em jogo, totalmente isentos de impostos por parte do Estado.

 

O reitor quis, com esta operação mediática, deixar bem claro que o dinheiro nunca foi problema em Fátima, a não ser pelo excesso, de tal modo que, muitas vezes, nem ele, nem os demais compinchas desta máfia eclesiástica sabem o que hão-de fazer com ele. O país pode estar a afundar-se e ser hoje, como já é, o mais atrasado da União Europeia, certamente por burrice e incompetência dos sucessivos ministros das finanças e dos sucessivos governos e muitos outros compadres mais. Mas o mesmo não se pode dizer do reitor e do seu santuário de Fátima levantado no centro de Portugal. Ali sabem muito bem como fazer dinheiro, como fazer fortuna, como conseguir lucros anuais de fazer inveja ao mais pintado. Podem o reitor e os seus acólitos ser nabos em teologia cristã jesuânica e em prática quotidiana do Evangelho de Jesus (nem uma nem outra dão dinheiro a ganhar e por isso não são essenciais no santuário de Fátima), mas no resto, que é afinal o essencial em Fátima – fazer dinheiro sem ter sequer que pagar impostos e apresentar contas sem qualquer contraditório – é que eles não são.

 

Aliás, é para isso que existem os santuários, as religiões, os templos, as igrejas: para produzir dinheiro e privilégios sem conta, a coberto do santo nome de Deus, de um mítico Cristo e de nossas senhoras quantas mais melhor. Quando assim é – e Fátima é isso e só isso que é – o respectivo reitor pode muito bem dar-se ao luxo de meter mãos a um empreendimento religioso-financeiro desta envergadura, apesar de sermos um país de pobreza e de milhões de pobres. Os seus superiores hierárquicos não só não o censuram publicamente, como ainda por cima lhe dão cobertura, ao garantir que a inauguração, já no próximo mês de Outubro, contará senão com a presença do chefe máximo da Igreja de Roma, o papa Bento XVI, pelo menos com um cardeal enviado pessoalmente por ele em sua representação

 

Os custos faraónicos do empreendimento nunca foram nem serão problema na Igreja católica da Cristandade Ocidental. Pelo contrário, são um elemento constitutivo e essencial. Porque diz aos potenciais utilizadores e clientes deste empreendimento e de outros congéneres que podem continuar a investir, a fazer as suas promessas, a correr para os locais onde eles estão abertos ao público, e a confiar neles tanto ou mais do que no próprio Deus! É tão grande o seu poder financeiro e a sua influência, que nada poderá abalá-los jamais. A não ser um verdadeiro tsunami na consciência dos povos do mundo, coisa muito difícil de conseguir e sistematicamente contrariada por todos os poderosos e senhores do Dinheiro, mas a única coisa de que, no caso de Fátima, o seu reitor e demais lacaios mais temem e por isso perseguem sem descanso e tentam desacreditar qualquer tentativa, por pequena que seja (o Jornal Fraternizar, por exemplo) que vise atingir fecundamente as consciências das pessoas e dos povos, iluminá-las e transformá-las de raiz.

 

Os peregrinos que todos os anos, entre os meses de Maio e Outubro rumam a Fátima, a pé ou de carro, são os financiadores de tudo (pode haver outras fontes de receita menos óbvias, que só alguns conhecerão, mas dessas só uma investigação policial ousada e consequente poderá confirmá-lo. Não me compete a mim fazê-lo).

 

Vejam então quanto não valem as promessas dos devotos de Fátima. Para cúmulo, tudo isento de impostos. Nem eu sei como é que o actual ministro das finanças e o actual primeiro-ministro que já foi engenheiro e agora já não é ainda se não lembraram de passar a cobrar impostos ao dinheiro das promessas e das “ofertas” ao santuário de Fátima. Nem seria difícil de conseguir. Bastaria nomear alguns funcionários das finanças, de preferência católicos, e colocá-los no santuário de Fátima S.A., dia e noite, com o encargo de controlar todas as entradas de dinheiro, tanto das promessas como das “ofertas”; e, depois, reservar para o Estado pelo menos metade da verba apurada cada dia, cada mês, cada ano. E também metade do outro que o santuário continua a juntar cada ano, não se sabe bem para quê, talvez para fabricar um enorme bezerro do dito, muito maior e mais poderoso do que o que o sacerdote Aarão, irmão de Moisés, terá mandado fabricar e erguer no deserto, a partir do ouro das mulheres hebreias.

 

Aliás, o actual empreendimento, a inaugurar em Outubro, merece um bezerro à altura. Não bastam os nove mil lugares sentados. É preciso impressionar as pessoas que lá entrarem e lá se sentarem. E nada como um bezerro de ouro, porque, está visto, é do que as pessoas e os povos mais gostam. Por isso é que os bancos somam lucros e mais lucros, de ano para ano, também com a cumplicidade dos Governos que cobram em impostos mais de metade do que nós pagamos nos combustíveis utilizados nos transportes de todos os dias, mas não se atrevem a fazer o mesmo aos bancos, muito menos ao santuário de Fátima, os quais somam lucros fabulosos, ano após ano. E eu acho que sei porque é que os governos procedem assim. É que também eles do que mais gostam é de ver crescer o bezerro de ouro, não as pessoas nem os povos.

 

Os desgraçados pagadores de promessas avançam estes dias estrada fora para Fátima, enquanto o seu reitor, o reitor do seu santuário preferido exibe à comunicação social o seu último empreendimento, pago a pronto. Não há grande santuário em honra da mítica deusa virgem e mãe dos cultos politeístas do Paganismo que não albergue dentro dele um bezerro de ouro. No fim de contas, é disso que as pessoas e os povos gostam. É isso que elas procuram. Não o Deus Vivo. Desse fogem a sete pés! E para alcançarem o bezerro de ouro são capazes de tudo, de todos os sacrifícios, até de se despojarem do ouro e de outras jóias valiosas com que se enfeitam, só para que ele não lhes falte, nem faltem junto dele sacerdotes ricamente vestidos e em grande número.

 

O país pode ir à falência, que ninguém se preocupa. Continuarão a fugir ao pagamento dos impostos e a gastar à tripa forra, a roubar o mais que puderem, a corromper o mais que puderem. Dêem-lhes santuários cada vez maiores. Dêem-lhes bezerros de ouro cada vez maiores e poderosos/esmagadores. Dêem-lhes sacerdotes-comerciantes e pastores de olhos pregados nas carteiras e nas contas bancárias dos seus crentes. E eles deliram. Dirão, inclusive, aos repórteres de tv que são felizes. Testemunharão que nem sentem as dores, nem os pés abertos, nem as carteiras vazias. O bezerro de ouro come-lhes tudo, come-os também a eles, e eles continuam a dizer-se felizes. Uma felicidade que rima com incultura, com subdesenvolvimento, com ignorância, com alienação, com religião. E que é intrinsecamente incapaz de aceitar crescer em sabedoria e em graça, à medida que eles próprios crescem em idade. Por isso, uma lástima de todo o tamanho. Que me faz chorar lágrimas de dor por todos eles. Sem que eles se preocupem com isso, ou vejam nestas minhas lágrimas amor solidário e compassivo. Porque prosseguirão com mais ou menos fanatismo na deles, ano após ano, a despojar-se de si mesmos, do seu dinheiro, do seu tempo, do seu ouro, da sua saúde, para que o bezerro de ouro cresça, juntamente com o santuário. Enquanto eles diminuem. De ano para ano! Desgraçado País que tais filhas, tais filhos tem!

 

2. Continua sem aparecer a menina inglesa raptada no Algarve. Já lá vai uma semana. Porque os pais são católicos, rezam-se missas e promovem-se outras orações. Na paróquia algarvia onde aconteceu o rapto e na paróquia inglesa, de onde vieram os pais por uns dias de férias em Portugal. A comunicação social dá notícia destes actos com tolerância e bonomia. Parece que somos todos católicos em Portugal. Mas não somos. A comunicação social faz de conta que somos e comporta-se sempre assim. Das outras Igrejas quase não fala. Ou nunca fala.

 

Reza-se para que a menina apareça. Como se o seu aparecimento dependesse de Deus, do seu bom ou mau humor. É este tipo de catolicismo que Fátima ajuda a desenvolver. O catolicismo de um Deus que cresce à custa da diminuição das pessoas e dos povos. Um catolicismo desgraçado, gerador de ateísmo generalizado.

 

Não sou contra a Oração. Mas sou vigorosamente contra este tipo de oração, este modo de fazer e de apresentar as coisas. Porque é um insulto a Deus, ao nome de Deus. Não posso tolerar que os meus irmãos no presbiterado se comportem como os antigos sacerdotes dos cultos politeístas do Paganismo. Até parece que estão na sua linha de sucessão sacerdotal. Esquecem que na Igreja de Jesus não há sacerdotes nem sacerdócio. Há presbíteros e bispos que não podem nunca comportar-se como sacerdotes, os do Paganismo. Devem presidir e animar comunidades de mulheres e de homens que se sabem responsáveis pelo mundo e pela História. E que hão-de viver esta missão como se Deus não existisse. O que não for assim é insulto a Deus e ao seu Nome. E conduz a mais ateísmo.

 

Neste contexto, orar é bom, mas não para pedir que Deus faça o que nos compete a nós responsavelmente fazer. Orar assim seria um insulto a Deus e ao seu Nome. Orar tem de ser uma acção que nos faça crescer em responsabilidade para com o mundo e a História. E isto só se consegue, se nos dispusermos a escutar Deus Vivo, o seu Sopro ou Espírito, no meio dos acontecimentos de que é feita a vida das pessoas e dos povos. Operação difícil, porque sempre somos tentados a pensar Deus de forma utilitária, como se Deus alguma vez fosse para nos substituir. Deus Vivo é sempre para nos fazer crescer em humanidade, em responsabilidade, em liberdade, em entrega de nós próprios.

 

Com missas não vamos lá. As missas que hoje temos são ritos pagãos. Digamos que o Paganismo apoderou-se da memória de Jesus e converteu-a em rito estéril. Por mais que se repita, deixa quem o faz na mesma ou pior, e deixa o mundo entregue aos mafiosos, hoje presentes em todo o lado, desde os governos às empresas, desde as universidades às Igrejas. Por isso há tantas missas e tão pouca humanidade, tão pouca misericórdia, tão pouco amor, tão pouca justiça social. Comemos hóstias um dia após outro, um domingo após outro, ao mesmo tempo que nos comemos uns aos outros. Enriquecem cada vez mais os ricos e empobrecem cada vez mais os pobres. É para o que servem as missas.

 

Tenhamos modos, irmãs católicas, irmãos católicos! A menina foi raptada. A incúria dos seus pais católicos é grave. Se não tivesse acontecido nada, despois deste incúria grave, continuariam a dormir descansados. Mas aconteceu. Por isso agora não têm sono que lhes pegue. Não culpabilizo nem condeno. Mas quero que se assuma a incúria grave. Orar é para sermos capazes de assumir os nossos erros, neste caso, a grave incúria. E converter-se ao cuidado. O que os católicos andam a fazer com as suas missas é mais um desastre em toda a linha. Como Fátima e a sua senhora. Não fazem falta sacerdotes. Fazem falta presbíteros ao jeito de Jesus. Que ajudem a gerar e a dar à luz mulheres e homens progressivamente responsáveis pelo mundo e pela História, como se Deus não existisse.

 

Quem está disposto a ir por esta via de exigência e de humanidade? Já sei que as maiorias preferem continuar a correr para os santuários e seus bezerros de ouro que crescem lá à medida que os seus frequentadores diminuem. Não vou por aí. Nem que tenha de ficar sozinho, não vou por aí!

 


 

2007 MAIO 07

 

Este ano, por ocasião da reunião de curso, ocorrida neste início de Maio, voltei a ser motivo de escândalo – no meu entender, saudável escândalo – para bastantes dos meus companheiros e respectivas esposas. Padres ainda em exercício de funções paroquiais só apareceu um. Todos os outros não apareceram. Pelos vistos, evitam encontrar-se comigo, olhos nos olhos, porque não vou mais nas suas missas, nem nas suas catequeses ou pregações moralistas. Aos olhos deles, não passo de um padre maldito, um “Judas”, um traidor à corporação clerical que deveria ser corrido do presbiterado e até da Igreja.

 

Compreendo a sua cólera e não lhes levo a mal por isso. Sei viver serenamente com ela. E transformá-la em estímulo para prosseguir nesta via secular e libertadora em que vivo, porque a experimento bem mais próxima da via de Jesus e das primeiras comunidades de discípulas e discípulos de Jesus. Padres assim tão eclesiásticos são uns tristes que vivem a evitar-me e nem aparecem numa confraternização de curso só para não terem de se cruzar comigo, nem terem de cair nos meus braços sempre abertos. Não passam de funcionários clericais, porventura, muito zelosos, que gastam o melhor das suas vidas a enterrar mortos e a presidir a ritos que não levam a lado nenhum, a não ser à alienação das populações. Ainda pensam, depois de todos estes anos de rotina paroquial, que foi para isso que um dia foram ordenados. Não há maneira de crescerem em sabedoria e em graça, sem o que não se pode perceber que as coisas não são assim.

 

O sistema eclesiástico quer que as coisas se mantenham assim e impõe-se aos párocos, sob pena de pesadas sanções canónicas. Mas todos nós, os que um dia nos descobrimos chamados ao ministério presbiteral, temos obrigação de perceber que as coisas não são assim e, em consequência, havemos de resistir às orientações traçadas por esse perverso Sistema.

 

As paróquias têm todas de desaparecer, para que aconteça a Igreja de Jesus. Enquanto as paróquias estiverem aí como modelo principal ou, pior, como modelo único de Igreja, esta não tem futuro e as populações não sairão da cepa torta, porque nunca alcançarão a maioridade na Fé cristã jesuânica. Serão sempre populações mais deístas do que cristãs, mais pagãs do que jesuânicas, muito católicas de nome, mas sem nenhuma catolicidade no seu viver quotidiano.

 

O Concílio Vaticano II já o disse – não assim com esta clareza como eu o digo aqui – mas nem os bispos residenciais nem os párocos lhe quiseram dar ouvidos. Preferem continuar instalados na rotina de todos os dias a abrir-se à criatividade que o Espírito Santo quer ver acontecer na Igreja e no mundo. E com esta sua postura medíocre, nem sequer percebem que são bispos e párocos em estado de pecado grave contra o Espírito Santo. Uns falhados como homens e como presbíteros. Mais prejudiciais à sociedade do que bênçãos vivas no meio dela. Portadores de más novas, carregados de teias de aranha moralistas, atados de pés e de mãos como o Lázaro, da comunidade de Maria e Marta, de que nos fala o Evangelho de São João, por isso, mais mortos do que vivos, causadores de morte e de tristeza, alimentadores de deprimidos e fomentadores de depressão generalizada. O negro com que se apresentam vestidos em sociedade e os saiotes brancos com que se apresentam a presidir aos ritos litúrgicos fazem deles metáforas em movimento da Depressão e do Descolorido da vida. Em tudo semelhantes aos fariseus do tempo e do país de Jesus.

 

Desta vez, fomos algumas dezenas de companheiros os que aceitámos deslocar-nos até à cidade de Bragança, onde o encontro decorreu. Entre todos, também alguns padres casados acompanhados das respectivas esposas. A maior parte, porém, são colegas que iniciaram o curso, no ano de 1950, em Ermesinde e depois desistiram, quando se viram confrontados com outras opções de vida. Na altura, o celibato eclesiástico obrigatório terá sido o obstáculo maior que não ultrapassaram e por isso preferiram desistir a avançar sem alegria. Alguns, fizeram-no logo nos primeiros anos de curso. Outros, só muitos anos depois. Um ou outro destes condiscípulos não ordenados que, quando abandonaram o seminário, ingressaram na universidade, apresentam-se hoje mais próximos do ateísmo, mas, nestas ocasiões, fazem questão de alinhar em tudo o que estiver programado para o encontro, missa incluída. Mesmo assim, são os que, na prática, se mostram mais tolerantes comigo e acolhem-me com manifesta simpatia e algum entusiasmo. São meus amigos. Entre estes, há sempre algum que se antecipa e não me deixa pagar o almoço colectivo servido num restaurante. O gesto, que eu aceito com naturalidade e alegre gratidão, diz bem da ternura com que estes condiscípulos não ordenados me olham. É um bálsamo no meio da aridez e do distanciamento, do desafecto a que me vejo votado por outros, ainda que de modo discreto e reservado. Não querem correr o risco de serem contagiados pelo Sopro de rebeldia e de liberdade que me trabalha e me faz ser, também entre eles, assim como um menino.

 

Apesar de tudo, não dispenso estes encontros anuais. E nunca falto. Este ano, estava ainda sob o efeito de um síndrome vertiginoso, provocado por uma inflamação no ouvido direito, e, mesmo assim, fiz questão de aparecer. Os contrastes são um aliciante para mim. Dou-me bem, mesmo entre aqueles que me evitam, rejeitam ou hostilizam. Se me não excluem ostensivamente, não deixo de aparecer e de estar. Acho que é sempre um momento de dar e de receber recíprocos. Recebo e dou. Dou o meu testemunho e o meu afecto, a minha alegria e a minha paz, a minha rebeldia e a minha liberdade. Também escandalizo. Não de propósito, evidentemente, mas com espontaneidade. Sou assim e não escondo o que sou. E é muito bom saber que me aceitam naquelas horas, uns mais eufóricos, outros mais contidos e distantes.

 

O encontro deste ano, por ser na cidade de Bragança, onde reside um nosso condiscípulo que organizou tudo a preceito, foi feito de um modo não habitual. Decidimos deslocar-nos num autocarro, em vez de nos carros de cada qual. Entrei em Amarante. E a partir daí, a viagem tomou ares de peregrinação secular. O microfone do autocarro foi posto à disposição de quem quisesse dar algum contributo na animação, durante o longo percurso. Fiquei a ver se alguém avançava, mas nada. E antes que caíssemos nas banalidades do costume, a falar do tempo que faz e do futebol ou a contar anedotas para passar o tempo, ofereci-me para dar o meu contributo na animação. Senti reacções em surdina de alguma incomodidade, por parte de alguns, porque todos sabem que, se intervenho, é para distribuir Pão substancial, dentro da linha de Evangelizar os pobres. Anunciei a minha disposição e avancei para junto do microfone, ao lado direito do motorista, com dois livrinhos, um de Sophia de Mello Breyner, Livro Sexto, e outro meu, Canto(S) nas Margens. Fez-se um grande silêncio no interior do autocarro, o que me agradou. A expectativa era elevada. O que irá ele dizer? – pareciam todos perguntar. Avancei com a alegria e a descontracção de sempre. E com a seriedade que as pessoas, todas as pessoas, sempre nos devem merecer. De banalidades e de mediocridades está a nossa sociedade cheia, a começar pelos grandes media que constantemente nos servem gato por lebre, alienação por pão, humilhação por liberdade de expressão, agressão por governação, extorsão por economia.

 

Anunciei o que me propunha fazer: lia/declamava um poema de Sophia (aproveitei para lembrar que um poema de Sophia vale mais, infinitamente mais do que todos os golos marcados por Figo ou por Cristiano Ronaldo) e cantava um quase-poema meu, por sinal, bastante autobiográfico, com música também minha. A expectativa cresceu ainda mais e o silêncio também. Fiquei emocionado e tornei-me ainda mais cheio de ternura. E foi assim que, emocionado e cheio de ternura por todos e cada um, elas e eles, que realizei a acção anunciada.

 

Deixo aqui sucessivamente o poema de Sophia que escolhi e que declamei. Assim como o quase-poema meu, com que abre o meu livrinho Canto(S) nas Margens. Eis.

 

PRANTO PELO DIA DE HOJE

 

Nunca choraremos bastante quando vemos

O gesto criador ser impedido

Nunca choraremos bastante quando vemos

Que quem ousa lutar é destruído

Por troças por insídias por venenos

E por outras maneiras que sabemos

Tão sábias tão subtis e tão peritas

Que nem podem sequer ser bem descritas.

 

Despertei para o Amor

 

1. Despertei para o Amor

quando o Pobre me tocou

tomei partido por ele

tornei-me no que hoje sou

sou ateu dos deuses todos

que se alimentam de gente

onde houver libertação

aí danço de contente

 

            Homens meus irmãos

            uni as mãos

            deixai a guerra

            vinde construir

            e possuir

            a nova terra

            onde houver amor

            não há temor

            só reina a Paz

            a fraternidade

            a liberdade

            que Jesus faz

 

2. No mundo dos poderosos

não encontrei mais lugar

e até a Cristandade

acabou por me expulsar

solidário quero