Diário Aberto
2006 MAIO 31
Andam numa roda viva os do Dinheiro
a tentar convencer o nosso Povo que
o país vai a caminho da falência; e a
mostrar o seu aplauso a todas as cruéis
medidas do Governo Sócrates. Atenção! que
eles só descansam quando tiverem numa
bandeja qual Herodíade a cabeça do povo.
Dentro do assassino sopro do grande Capital
e das gulosas multinacionais que o servem
como numa inumana liturgia jamais encontrarão
os do Dinheiro outra solução ou saída
para a crise que não seja a de matar ainda
mais roubar ainda mais e destruir ainda
mais. Até que fiquem só eles sobre a Terra.
Os media alinham neste jogo e difundem
a toda a hora e sem quaisquer escrúpulos
o anti-Evangelho que os do Dinheiro na sua
crueldade conceberam em conluio com as
hierarquias das Igrejas e a sua cruel senhora
de Fátima que tanto se agrada de populações
pobres incultas doentes deprimidas e a rastejar.
Mas crise é coisa que não se vislumbra lá
para as bandas da cidade de Évora onde
os jovens futebolistas da Selecção e todo
um séquito de ilustres se banqueteiam e
passeiam à sombra da bandeira nacional. E
sempre a somarem mais e mais Dinheiro aos
mais que obscenos salários que já auferem.
Ainda mais lá para o Sul já em pleno Algarve
também se passeia o Presidente do país que
se diz em crise. “Roteiro” chamou ele a este
tipo de passeios que se repetirão sempre que
a rotina dos dias no Palácio de Belém exigir
mudança de ares a sua Excelência. E não é
que até os media aproveitam comem e calam?
Mas é assim o sopro de D. Dinheiro. Torna
inumanas as almas das pessoas onde entrar.
Empobrece e estupidifica as populações e os
povos. Mente por natureza e é gerador de
mentira. Mata sem escrúpulos e sem lágrimas.
Criou e mantém uma Ordem que faz do nosso
presente um inferno e ainda nos rouba o futuro.
Organizemo-nos sem demora e fiquemos
surdos aos alarmismos dos do Dinheiro. Em
vez de irmos por eles exijamos do Governo e
da Europa mudanças radicais na Economia e na
Política. E já que os do Dinheiro só vêm para
matar roubar e destruir ergamos contra eles
a via da Riqueza Partilhada e da Liberdade.
Com Cavaco na Presidência e com Sócrates na
chefia do Governo; com os media ao serviço dos
do Dinheiro e com a senhora de Fátima cada
vez mais promovida a ópio do povo crescerá
na proporção inversa à pobreza das populações
a riqueza dos ricos. Ou organizamos já a Revolução
ou voltaremos a ser um povo de mão estendida.
2006 MAIO 29
Inesperadamente fui em missão ao
Algarve. O convite partiu de um homem
da região que ficou fascinado com leitura
de alguns dos meus livros e desde então
está vivamente empenhado na difusão entre
os seus concidadãos da Boa Notícia que é
o Deus de Jesus que neles eu dou a conhecer.
Ainda não conhecia o Policarpo. Apenas
havia conversado com ele algumas vezes
pelo telefone. Senti-lhe o coração a arder
como ao casal de discípulos de Emaús e
meti-me confiante no comboio até Faro onde
ele me aguardava aos pulos. Eram já 23 horas
mas ele ainda me levou a evangelizar a Confraria.
Comecei por sentar-me à mesa do
restaurante onde os confrades se reúnem
todas as quintas-feiras numa saudável
partilha do Pão e da Palavra. Escutei o
debate em curso sobre a vida e a luta
dos apanhadores de marisco. E anunciei
depois a todos o Deus que gosta de Política.
A palavra que partilhei foi luz e força libertadora
na consciência dos confrades. Por isso
mais do Espírito do que minha. Ficaram a
saber que o Evangelho quando diz pescadores
diz pessoas comprometidas com as causas
da Justiça e da Verdade. E isso é também o
que significa a expressão pescadores de homens.
As Igrejas têm-nos escondido este dado
e com ele o Essencial do Evangelho de
Jesus o de Nazaré. Os próprios cristãos
continuam aí sem saber que estão chamados
a ser na História pescadores de homens; pessoas
politicamente dissidentes e libertadoras. Uma
espécie de desmancha-prazeres do Poder.
Jamais esquecerei a Alegria militante que vi
dançar nos olhos de Manuel Luís um camarada
jornalista como eu. O Evangelho do Deus de Jesus
que gosta de Política e não de religião tocou-lhe
a alma e fê-lo vibrar. Haveria de vê-lo um dia depois
numa outra comida com debate mas já como
quem assina um pacto de comunhão e de luta.
Não é este o único “apóstolo” que fica da
minha primeira Missão em terras algarvias.
Trouxe também no meu coração o João que
tem sofrido q. b. na pele por não baixar os
braços na luta contra os interesses instalados
no mundo da construção civil. E também o
combativo Guedes e ainda o Lino Mendonça.
Do debate ocorrido na última noite de missão
destacou-se a Eduarda. Recordei-me ao ouvi-la
da Maria Madalena do Evangelho de quem se
diz que Jesus expulsou sete demónios. Se
Eduarda também vier a libertar-se das bobas
doutrinas com que as Igrejas/seitas a têm tolhido e
baralhado será ela ali a apóstola da Ressurreição.
2006 MAIO 23
Aproveitaram o mês das férias para
uma digressão por alguns países da Europa
entre os quais Portugal. E não dispensaram
uma passagem por S. Pedro da Cova e por
Macieira da Lixa dois lugares que ambas têm
como referência graças ao Jornal Fraternizar
e aos meus sites. São elas Lenira e Castálide.
No Brasil onde vivem e trabalham como
médicas de saúde pública – Lenira é também
elemento activo das CEBs em S. Paulo e
teóloga da libertação de palavra sempre afiada
contra uma Igreja patriarcal instalada nas rotinas
e nos privilégios – a Fé cristã que as anima
faz delas mulheres de causas e de combates.
Com elas veio também o meu amigo
e teólogo Rui Manuel que se prepara para
rumar até à Índia depois de onze anos de
intervenção na Nicarágua. Foram três dias
de intenso diálogo e de partilha de vida e
de mesa. Como num Tabor. Onde também
brilharam Lena Quina Belmira e Maria Laura.
Momento alto foi o da celebração que
realizámos no sábado à noite na mesma
mesa onde também partilhámos a ceia na
casa de S. Pedro da Cova. Lenira presidiu
como quem serve. Na hora de Partir o Pão
teve alguma relutância em assumir o gesto de
Jesus mas acabou por o fazer a par comigo.
Todo o encontro foi de revelação ou Jesus
o de Nazaré não seja a Luz do mundo que
abre os olhos da consciência e aquece o
coração de quem o aceita por companhia e
como seu mestre de vida. Recordou-nos
que a sua paixão é mudar o Mundo. E que a
Igreja só tem sentido se faz sua essa paixão.
Chocante foi sobretudo Jesus ter-nos
confidenciado que nesta altura da História
já não espera nada das diversas Igrejas em
que a Igreja se faz. “Vomito-as a todas pois
limitam-se a garantir serviços religiosos às
populações quando deveriam convocá-las
para prosseguirem a minha prática libertadora”.
Disse-nos ainda mais Jesus: “Ou as Igrejas
fazem-se gémeas minhas como Tomé se fez
e passam a protagonizar as mesmas causas
que eu protagonizei entre a Galileia e Jerusalém
sem medo de meterem as mãos nos cravos
como eu meti ou acabam tão perversas quanto
o Templo que me matou com o apoio do Império”.
Olhámo-nos com espanto. Porque nunca as
Igrejas nos disseram semelhante catequese
sobre Tomé. Afinal ele fez-se gémeo de Jesus
depois que viu que a sua prática libertadora e
martirial é a única que muda/salva o mundo. É
por ela que eu também vou. Não pela Religião
que as Igrejas promovem. Como ópio do povo.
2006 MAIO 18
O mundo tem fome de Jesus e o que lhe
dão? O Código Da Vinci. Primeiro em livro
depois em filme. E não é que as pessoas
lêem o romance concebido para dar uma
fortuna a ganhar ao seu autor e vêem o
filme como se um e outro fossem a verdade
sobre Jesus? Crime sem perdão é o que são!
Entre Jesus e o Dinheiro a incompatibilidade
é total. Desde que Jesus revelou que ninguém
pode servir a Deus e ao Dinheiro e que quem
serve o Dinheiro deixa de ser humano para se
converter em mentiroso e assassino nunca mais
os do Dinheiro lhe perdoaram. E tudo fazem
para o tirar do coração e da mente das pessoas.
A luta é duélica e manifestamente desigual. E
vai durar até ao fim dos tempos. As populações
têm de andar avisadas para se não deixarem
enganar. Pois neste duelo o Dinheiro conta com
meios cada vez mais sofisticados e eficazes. Ele
é a Besta que opera milagres e arrasta multidões
sem conta para os seus múltiplos locais de culto.
Jesus pelo contrário é como Deus. Limita-se
a bater à porta da nossa liberdade e aguarda
pela nossa resposta. Não opera milagres nem
prodígios. Não faz publicidade. Não tem media
ao seu serviço. E até as Igrejas que deveriam
ser uma só coisa com ele acabam quase sempre
aliadas ao Dinheiro contra ele e o seu Evangelho.
A via que Jesus propõe é a da porta estreita
que as multidões não estão dispostas a fazer
sua. Preferem o caminho largo que o Dinheiro
impõe. Dois caminhos antagónicos que muitos
tentam conciliar. E também muitas igrejas. Em
vão. Só a via Jesus é a Verdade que nos faz
livres. A via Dinheiro é a Mentira que nos mata.
É de Jesus que o mundo tem fome e as Igrejas
deveriam gastar-se dia e noite na missão de o
anunciar e à Boa Notícia de Deus que ele é. Em
vez disso gastam o melhor das suas energias em
estúpidos cultos sem cultura e sem profecia. Os
do Dinheiro aplaudem e até financiam. Enquanto
perseguem e matam quem o segue e anuncia.
Ide por todo o mundo anunciar a Boa Notícia
de Deus a toda a criatura. Esta ordem de Jesus
é dada a todas as discípulas e discípulos. Para
que de geração em geração o mundo creia e veja
despertar em si a mesma Fé de Jesus. E com
ela a salvação. Mas nós anunciamos o Dinheiro
e sua Mentira. E só pode acontecer a Perdição!
Evangelizar os pobres é preciso. Dia e noite.
Contra o Império do Dinheiro e sua perversa
Publicidade que se faz passar por Evangelho
de Deus quando é a mentira que mais oprime
e mata. Feliz de quem lhe resistir e se mantiver
fiel a Jesus e ao Evangelho de Deus que Jesus
é. Do seu Ser vive e respira o resto do mundo.
2006 MAIO 16
O futebol continua a ser tratado pelos
media na local Desporto. Deveria passar
para a local Economia/Finanças. Desde
que o Dinheiro entrou no futebol nunca mais
houve desporto. O negócio é descarado. E
os jogadores tornaram-se coisas de compra
e venda. Prostitutos mais caros do Mercado.
Ele é a Liga. Ele é a Selecção nacional.
Ele é o campeonato da Europa e o do
Mundo. Ele é a Taça das Taças e a Liga
dos Clubes Campeões Europeus. Em
todo o lado está o selo do D. Dinheiro. A
loucura do Mercado. Com multidões a
aplaudir. A pagar. E a perder a dignidade.
Desporto é cultura. É desenvolvimento. É
prática de grupo. É fraternidade/sororidade.
É comunhão. É gratuidade. É convívio com
a Natureza. É saúde. É festa. Viva o Desporto!
Vieram as SADs e tudo perverteram. Mataram
o Desporto. E matarão as populações que
insistam em frequentar tão macabra liturgia.
Os campos de futebol são arenas. Os que
correm atrás da bola são putos a quem o
D. Dinheiro transtorna a cabeça e rouba
a alma para os poder utilizar como peças
do Mercado. Os empresários são traficantes
de jogadores pagos a peso de ouro. O que
será do mundo se acabar reduzido a Futebol?
Nunca entrei num estádio de futebol. São
outras tantas Catedrais onde o D. Dinheiro
humilha milhões de seres humanos. Temos
fome de beleza e de cultura. De paz e de
bem-estar. Aspiramos a mais humanidade e
festa. Servem-nos Ópio e Alienação que nos
deixam ainda mais vazios e desmobilizados.
Ganharás o Pão com o suor do rosto – diz a
palavra de ordem da Vida que nos quer ver
passar de condições menos humanas a mais
humanas até chegarmos à comunhão de bens
em redor de mesas comuns experimentadas
como verdadeiras frátrias. Mas logo o Futebol
do D. Dinheiro chegou e roubou-nos esta via.
Calculem as horas que os media gastam com
o Futebol do D. Dinheiro. Contem as empresas
que engordam à sua custa. Reparem no empenho
dos sucessivos governantes de turno. Tudo hoje gira
em função dele. O país falece à míngua de Poesia.
De trabalho com direitos. E de crianças. Mas que
importa se há a selecção do senhor Scolari?!
Acordemos! O Dinheiro ataca-nos hoje por
todos os lados e de todos os modos. E só pára
quando nos arrebatar a alma. Cuidado! Ele é
o nosso pior inimigo. Ou lhe resistimos com toda
a nossa mente e com todas as nossas forças e
permanecemos humanos com humanos. Ou
acabamos a comer Dinheiro como o Mourinho!
2006 MAIO 13
A blasfémia maior que se comete em
Fátima consiste em identificar a imagem
da senhora lá idolatrada com Maria mãe
de Jesus. Então não sabemos que desde
tempos imemoriais os povos peregrinam
rumo a lugares altos para pagar promessas
aos deuses e rastejar nos seus santuários?
O fenómeno de Fátima é neste movimento
de generalizado Medo e de generalizada
Alienação que se insere e alimenta. Mas os
media na sua douta ignorância chamam-lhe
manifestação de fé. Desconhecem que a Fé é o
antídoto do Medo. E que ilumina e abre os seres
humanos uns aos outros como irmãs/irmãos.
Ao reconhecerem em 1930 que Fátima
se impôs à Igreja os Bispos portugueses
rasgaram o Evangelho de Jesus e deram
carta de alforria ao Paganismo mais crasso e
cruel. Deveriam ter-lhe resistido em nome de
Jesus e da dignidade humana como Paulo
resistiu outrora à deusa Ártemis dos efésios.
Tornamo-nos desde então um povo à imagem
e semelhança da deusa ou senhora de Fátima
e dos cultos sadomasoquistas que a sua
imagem branca pelos vistos exige das devotas
e dos devotos. Um povo que rasteja. Cultiva
Obscurantismos. Enriquece charlatães vestidos
de pastores. E detesta a Cultura e a Política.
Ou os bispos portugueses e o papa com
eles mudam de rumo e pedem perdão ao
mundo por lhe terem dado em todos estes
anos Mentira e cultos sem cultura em lugar
de Jesus e o seu Evangelho libertador ou
terão de ser as populações a abrir os olhos
e a zarpar deles. Mais do mesmo é que não.
Bem sei que estou quase sozinho neste
esforço por um Cristianismo jesuânico e
uma Igreja de rosto humano que sinta como
suas as alegrias e as esperanças dos seres
humanos destes século e milénio. E também
as suas dores e angústias. Mas não há outro
caminho que nos leve à Dignidade e à Paz.
Dois apoios de peso tenho tido neste meu
esforço em prol do Evangelho de Jesus e
duma Igreja que se bata alegre pela libertação
das populações e pela sua maioridade na Fé
e na Política – o Sopro ou Espírito de Jesus
Ressuscitado e a companhia de Maria a de
Nazaré. Haverá Obscurantismo que nos resista?
Aceitam uma palavra de irmão e de amigo?
Fujam de Fátima e da sua senhora com tanto
de branco como de cruel. Abram-se ao Sopro
libertador de Jesus que jamais desiste de nos
libertar para a liberdade. Cresceremos então em
consciência crítica e em protagonismo cultural
e político. E juntos mudaremos a face da Terra!
2006 MAIO 11
Foste bispo da Igreja do Porto enquanto
Salazar governava o país com mão de ferro.
Apresentavas-te de pé diante dos homens e
de joelhos diante de Deus. Preferiria mil vezes
ter-te visto de pé diante do Poder – todo o
Poder – e de joelhos diante dos pobres. Para
que nunca fosses Poder. Apenas Bispo-pastor.
A mesquinhez do Ditador não suportou a
tua liberdade nem a tua frontalidade. Queria
que fosses simples cão de guarda do Regime
como acontecia com a generalidade dos outros
bispos do Portugal de então. Um exílio de dez anos
foi o preço que tiveste que pagar. A somar a todo
o ódio teológico dos restantes bispos teus irmãos.
Entretanto a guerra colonial continuava a oprimir
e a matar em três frentes de África. Eu próprio
me vi aos trinta anos de idade a entrar nela
como capelão militar à força. Acicatado pelo teu
exemplo de coragem não hesitei em anunciar na
guerra o Evangelho da Paz. E fui expulso. Mas nem
assim o teu exílio na Europa “virou” conspiração...
E quando Abril chegou já estavas mergulhado
de novo nas rotinas eclesiásticas da diocese
graças sobretudo à mãozinha do novo Poder que
sucedeu a Salazar. A festa da liberdade dançou
meses a fio nas ruas do Porto e do país. Mas
ninguém te viu alguma vez a dar-lhe corpo. Não
saberias que liberdade rima com fraternidade?
A grande comunicação social do Dinheiro
(toda ela é dele e ai de nós se não estamos
bem conscientes que assim é) transformou-te
depois na Personalidade maior da História da
Igreja em Portugal. E a verdade é que nem assim
tu foste capaz de atender ao aviso de Jesus “Ai
de vós quando os do Poder dizem bem de vós!”
E agora que se completam cem anos sobre
o teu natal não falta por aí quem se apresse a
promover-te homenagens de canonização. Em
nenhuma delas quis ser visto a não ser no teatro
que a Companhia Seiva Trupe estreou na noite de
ontem. E não é que até aí foste apenas enaltecido
como se tu e o teu Poder não tivessem feito vítimas?
Sempre costumam proceder assim os grandes.
Exaltam quem os reconhece e se lhes assemelha
no porte na erudição e sobretudo na aceitação da
presente Ordem social em que todos eles figuram
como sóis de primeira grandeza. Também me tentam
a ser assim mas jamais me renderei. Prefiro mil
vezes as suas excomunhões aos seus louvores.
António Bispo do Porto meu irmão! Perdoa que
não alinhe no esforço que os do Poder clerical e do
Dinheiro estão hoje a fazer para te converterem em
novo ídolo. Deixa que te abrace com afecto e com
ternura naquela Luz sem Mentira em que todas/todos
veremos a luz. E na qual todo o Poder é dissolvido.
Basta-nos afinal ser discípulos de Jesus. E irmãos.
2006 MAIO 09
Teixeira. Aconteceu hoje de madrugada e sem
surpresas a tua Páscoa definitiva. A confirmar
que o nosso viver na História é feito de sucessivas
páscoas até à Páscoa definitiva. Dizem por aí
que morreste. Hão-de saber que explodiste como
aquela estrela de que todas/todos provimos só
para assim poderes ficar connosco todos os dias.
.
Antes que o cancro se alojasse na tua
coluna eras um corpo com tudo de exército
em linha de batalha. Ninguém se atrevesse
a humilhar os humildes e os fracos. Logo tu
saltavas em sua defesa e inibias de vez os
agressores. Bastavam um olhar teu e tua mão
levantada para que acontecesse de novo a Paz.
Não faltou quem se alegrasse com a notícia
de que um cancro te consumia por dentro e
te roubava anos de vida à luta pelas causas
da Justiça e do Pão repartido. E agora que
aconteceu a tua Páscoa não falta quem ria
de cinismo. Os pulhas são como os vermes.
Alimentam-se de cadáveres em putrefacção.
Como Jesus o de Nazaré não nos deixas
órfãos. Nos encontros da Comunidade em
que participaste e que nos últimos tempos
fizemos acontecer com regularidade à volta da
mesa da casa que partilhavas com Armandina
soubeste abrir-te ao Sopro de Deus vivo e
é com Ele e nEle que agora andas connosco.
Não te perdemos. Ganhamos-te para sempre.
E se agora deixamos de te ver é só para mais e
melhor beneficiarmos da tua vida ressuscitada
no Ressuscitado Jesus. És o nosso companheiro
nas causas da Justiça e do Pão repartido e nos
combates pela libertação das populações. Tijolo
vivo no Barracão de Cultura que já se levanta.
Jamais esquecerei aquele abraço fraterno e
camarada que me deste um destes dias quando
pela última vez te visitei no pavilhão dos Cuidados
Acompanhados do IPO do Porto. Sabias como
eu que estava próxima a tua Páscoa definitiva e
quiseste dizer-me que já estavas de partida mas
para seres de vez o nosso Anjo e o nosso Fogo.
Visto-me com a tua Paz e deixo-me empurrar
pelo Sopro de Jesus que é também o Sopro
em que tu agora te tornaste. Caminharemos
mão na mão numa Eucaristia feita de entrega
do meu corpo-Pão e do meu sangue-Vinho pela
vida do mundo. Os da Mentira e do Dinheiro que
se cuidem. Está cada vez mais próximo o seu fim.
Canto e danço com redobrada força e alegria
o Aleluia da tua vida militante e camarada que
prossegue sem quebras em dimensões outras
que nem os olhos viram nem os ouvidos ouviram
e que são bem mais reais que as que deixaste
para trás na História. Os túmulos estão vazios de
ti. E é na vida militante o nosso próximo encontro.
2006 MAIO 07
Mãe. São duas as coisas bem difíceis
para uma mãe: Saber desaparecer a
tempo da vida das filhas e dos filhos para
se poder manter mulher a vida toda; e ter
a audácia de passar de mãe a discípula
dos filhos e das filhas para poder viver o
seu Hoje sob o fecundo sopro do Amanhã.
Também tive mãe. Ti Maria do Grilo nunca
frequentou a escola mas quis que os seus
três filhos a frequentássemos. E fôssemos
de olhos bem abertos. Cultos e sobretudo
sábios. Ela sabia que só os sábios como
Jesus poderão manter-se pobres a vida
inteira e tornar-se um dom para os demais.
Cresci à sombra dela até aos 13 anos e
aprendi da sua pobreza a ser autónomo e
senhor do meu próprio destino como se ela
não existisse. E quando me tornei presbítero
da Igreja do Porto tive a alegria de a ver seguir
o caminho libertador que o Sopro de Jesus
em mim me tem levado a abrir na História.
De mãe que era passou depressa a minha
irmã mais velha e a companheira de jornada.
Nunca a vi interferir no meu viver de homem-
-para-os-demais nem nos inevitáveis conflitos
daí decorrentes. E quando os sinistros agentes
da Pide me prenderam e levaram ao Plenário
do Porto logo ela seguiu comigo em dor e alegria.
A Missão de Evangelizar os pobres em que
um dia fui investido como presbítero da Igreja
levou-me a viver quase sempre longe do seu
quotidiano. Nunca da sua boca ouvi um reparo
ou repreensão. Tudo compreendia e guardava
no seu coração. Para isso havia sido a minha
mãe. Para me perder e encontrar nos demais.
A notícia da sua agonia alcançou-me em
plena Missão. Era a hora dela partir deste
mundo para o Pai/Mãe em quem todas/todos
somos. A Paz cresceu misteriosamente em
mim. Voei até junto à cabeceira do seu leito.
Desfiz-me em gestos e palavras de ternura e
gratidão. E comunguei o seu Sopro de Mulher.
As lágrimas correram-me espontâneas pela
face. Lágrimas de Paz e de Eucaristia. Havia
aprendido com ela que viver é descer até nos
tornarmos a alavanca em que os últimos dos
últimos se poderão apoiar para chegarem a ser
alguém. E tornarmo-nos Pão e Vinho que dêem
corpo a mulheres/homens livres para a liberdade.
Não esperem ver-me neste dia a tecer loas
à mãe de Jesus o de Nazaré. Com ele aprendi
que a grandeza dela não esteve em ter sido a
sua mãe carnal. Nunca Maria a de Jesus foi tão
grande como quando se fez discípula do filho e
com ele foi capaz de passar do Testamento da Lei
para o do Espírito. Porque só este nos faz livres.
2006 MAIO 03
Aconteceu, no passado domingo, 30 de Abril, o 6.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo. Foi na casa-sede da Associação Padre Maximino/Jornal FRATERNIZAR, em S. Pedro da Cova. Éramos quase meia centena de participantes. Com uma boa mancha de gente nova na sala, à procura de autenticidade na dimensão do seu viver humano e da sua Fé cristã jesuânica. Para lá de algumas pessoas de S. Pedro da Cova, acorreram pessoas provenientes de Lisboa, Caparica, Coimbra, Moçambique, Porto, Gaia, Guimarães, Lixa, Fiães, Viseu, Lourosa, Moselos, Famalicão, S. João de Ver. Coube-me abrir o Encontro, com uma comunicação destinada preparar o contexto em que deveria decorrer o debate partilhado por quem quis intervir (e muitas foram as pessoas que trouxeram trabalho de casa) sobre o tema em agenda: “Jesus: Porque o mataram? E porque o proclamaram Ressuscitado?” Usei da palavra durante quase uma hora, o que perfez a 1.ª parte do Encontro. A 2.ª parte, depois de um curto intervalo, foi o debate propriamente dito. Estive mais à escuta, quase todo o tempo. E só intervim sumariamente, a partilhar o meu ponto de vista sobre o tema em debate, mais no final da manhã. A 3.ª parte do Encontro foi o Almoço Partilhado em forma de Comida Eucarística e que resultou numa Experiência do Ressuscitado no meio de nós absolutamente inesquecível e profundamente marcante. A 4.ª parte foi depois do almoço e do café, feita de Partilha de notícias das Comunidades de base e outros pequenos Grupos, e de Convívio. Duas horas cheiinhas e com muito Espírito.
O que se segue, imediatamente abaixo, é o texto-base da comunicação que fiz na abertura do Encontro. Logo depois, partilho também os tópicos da minha intervenção durante o debate sobre o tema agendado para o Encontro. Antes, porém, não posso deixar de sublinhar que as pessoas que ainda se não decidiram a participar nestes Encontros trimestrais de Espiritualidade nem sabem o que estão a perder. Cada vez é mais claro em nós que só Jesus, o de Nazaré, é essencial. Quem, por isso, é encontrado por ele, nunca mais se interessa por todas essas muitas coisas bobas com que Igrejas e Religiões e Sociedade em geral continuam atarefadas. Ele é o único Necessário que dá sentido e prazer à vida. Ele, e a sua Missão na História, que nos compete prosseguir no nosso aqui e agora sem desfalecimento, impulsionados e guiados pelo seu Sopro/Espírito. Eis.
1. Trago-vos uma boa notícia e também um alerta: Este nosso século XXI, ou é jesuânico, ou não será. Igualmente, este nosso 3.º milénio, ou é jesuânico, ou não será. O ateísmo pode e deve, por isso, continuar a desenvolver-se e tornar-se até um fenómeno de massas. A par da Espiritualidade. Em especial, o ateísmo jesuânico que é a recusa/a negação de todos os deuses que imaginamos e inventamos em consequência dos nossos medos e dos nossos interesses. Trata-se, como é óbvio, de um ateísmo que recusa/nega todos os deuses que se alimentam de gente e que foram criados para justificar e abençoar o que é historicamente intolerável, seja ao nível do institucional, seja ao nível de comportamentos e de ideologias, seja ao nível de religiões e até de Igrejas cristãs.
Porém, um ateísmo não jesuânico depressa descambará, em minha opinião, em idolatria. Uma idolatria laica, certamente, e secularista, mas que, como toda a idolatria não deixa qualquer espaço para os seres humanos, mulheres e homens, pelo menos, enquanto realidades abertas e portadoras de perguntas essenciais que não podem ser respondidas com mentiras, como são todas as respostas que até hoje nos têm sido dadas pelas religiões. Ei-las: Quem sou/somos? Donde venho/vimos? Para onde vou/vamos? E com que meios posso/podemos lá chegar?
2. Ao contrário, o ateísmo jesuânico mantém-nos abertos ao Mistério que somos. E, com isso, defende-nos de todas as falsas respostas (religiosas ou pretensamente científicas) às perguntas essenciais que somos e que transportamos. E porquê? Porque o ateísmo jesuânico é o único que sempre dá mais importância às perguntas essenciais que às respostas que possam ter sido dadas a essas perguntas, através dos tempos, ou mesmo ao longo da vida histórica de dada ser humano concreto que cada uma, cada um de nós é. As quais, a bem dizer, não passam de Mentira, nomeadamente, se são respostas que, uma vez dadas, nos dispensam de continuarmos com as perguntas. Tais respostas, que nos dispensam de continuarmos com as perguntas essenciais, acabam por nos converter em seres fechados, rotineiros, instalados, parados, conformados, numa palavra, mortos para o Essencial, por isso, seres nem frios nem quentes. As perguntas essenciais, mais do que as respostas, é que nos mantêm vivos e abertos ao Mistério, a Realidade mais real que não apanhamos nunca, nem tocamos nunca, mas que é a única que ininterruptamente nos puxa, nos desinstala, nos provoca, e nos coloca em estado de êxodo…
3. O ateísmo jesuânico faz ainda mais. Ao manter-nos abertos ao Mistério e como seres com perguntas essenciais, impede que nos tornemos seres sem causas e sem Projecto, sem laços e sem afectos, sem razões de viver e sem militância essencialmente política. O mesmo é dizer, impede que nos tornemos seres apenas consumidores mais ou menos compulsivos, canas agitadas ao sabor dos ventos da publicidade, ou seres que se dão a conhecer pela marca do carro que usam, pela conta bancária de que dispõem, pelo padrinho que os protege, pelo número de moradias que possuem e desfrutam, pelos hotéis de luxo que frequentam e pelas estâncias balneares em que passam as férias. Numa palavra, seres que nunca se dão a conhecer pelo SER. Apenas pelo TER. Por isso, nunca se apresentarão como Jesus, o de Nazaré, quando os representantes do Templo e do Império foram por ele para o prender: “Eu sou!”. Apenas se apresentam com um estúpido “Eu tenho!, ou Eu conquisto!, ou Eu compro!, ou Eu possuo armas nucleares!... Numa palavra, seres que já não procuram mais respostas para as perguntas essenciais que somos e formulamos, ou pior ainda, seres que esqueceram por completo as perguntas essenciais que somos e que nos cumpre formular uma e outra vez e sempre. São, por isso, seres que existem, mais do que vivem. Decaíram do Humano para o Animal. E, de regressão em regressão, poderão acabar abaixo do Animal, simples Coisa, sem relação com ninguém, sem referências, sem história, sem passado nem futuro e, por isso, também sem presente, meros bonecos articulados que uma Mão Invisível toda poderosa – um falso deus – maneja a seu belo prazer. Infelizmente, é nisto, nesta Descriação, em que hoje estamos a converter-nos em grande escala. Mas se hoje as coisas são já assim tão inumanas e ainda só estamos no princípio deste processo de Descriação dos seres humanos, como estaremos daqui a 100, 500 anos?
4. Urge mudar de rumo. Urge deixarmos de viver sob a tirania do TER e do PODER – a tirania do D. Dinheiro e do Império – para regressarmos à Ecologia do Ser! Para tanto, precisamos de regressar a Jesus, o de Nazaré. Ao seu ateísmo e também à sua Espiritualidade. Numa palavra, precisamos de regressar ao seu Sopro ou Espírito que nos faz seres humanos ateus e criadores.
Os séculos que nos precederam foram de Cristandade. Não foram de Jesus. Desaguaram no momento em que hoje vivemos. Quando a sociedade começou a tornar-se independente da Cristandade, também começou a rebelar-se contra ela e contra os seus chefes – os clérigos de alta patente e os de baixa – e contra tudo o que eles fazem e dizem, concretamente, contra as respostas moralistas e de mentira que eles haviam dado para todo o sempre, às perguntas essenciais que somos e transportamos connosco. Tornou-se, então, uma sociedade progressivamente agnóstica e ateia. Saudavelmente agnóstica e ateia. Com cada vez maior número de agnósticos e de ateus.
Faltou-lhe, porém, uma coisa essencial: (re)descobrir Jesus, o de Nazaré. Ficou-se, quando muito, pelo Jesus das catequeses infantis e da cultura/arte da Cristandade, que traz nos genes, desde há quase dois mil anos, por sinal, mais Cristo do que Jesus. Praticamente, desconhece Jesus, o de Nazaré. No melhor dos casos, conhece uma figura mítica a que chama Jesus-Cristo. Não conhece o Homem Jesus, muito menos, tem consciência porque é que o mataram/crucificaram e porque é que algumas, alguns que andaram e andam com ele o proclamaram e proclamam Ressuscitado.
5. Vai daí, o ateísmo, inicialmente positivo, enquanto recusa da Cristandade e do seu deus vampiro e conquistador, bem como do seu clero e das suas catequeses moralistas e terroristas, acabou, com o rolar dos anos, por se tornar, ele próprio, um dado absoluto, princípio e fim de tudo, por isso, uma espécie de novo deus, falso e laico, um ídolo dos mais perigosos. De saudável ateísmo que começou por ser, corre agora o risco de acabar em verdadeira e perigosa idolatria. E, então, como em toda a idolatria, deixará de ter lugar para o Mistério e, sobretudo, para os seres humanos, nomeadamente, os seres humanos que se mantenham abertos ao Mistério e sejam portadores de perguntas essenciais. Haverá apenas lugar para o ídolo. E para as suas falsas respostas (ainda que pretensamente científicas!) dadas às perguntas essenciais que os seres humanos, enquanto tais, são e se colocam.
6. Caímos assim numa espécie de Cristandade laica, em que o mítico Cristo já não é o das Igrejas, mas o do ateísmo. E o resultado é bem pior que o da Cristandade Ocidental, de má memória. Porque o Cristo mítico da Cristandade, embora falso, ainda deixava algum sentido ao viver das pessoas na História. Não valorizava o presente, o histórico, apenas o além, o após morte; as pessoas e as populações eram levadas a desprezar o presente, sacrificavam-no em nome do além, mas a verdade é que viviam o presente com regras, com virtudes, com moderação. O medo do castigo eterno guardava a vinha. Era uma crueldade, uma opressão e uma repressão, mas havia algum sentido no viver do dia a dia. Ao passo que na Cristandade laica do ateísmo/idolatria, que rapidamente está a ser absorvida/comida pela Cristandade do D. Dinheiro (onde estão hoje os ateus que decidem ser pobres e viver pobres até ao fim dos seus dias?!) e na do seu filho mais perverso, o D. Poder que é mentiroso e assassino, praticamente já não há passado nem futuro e cada vez há menos presente para a esmagadora maioria da população mundial, as chamadas maiorias empobrecidas e excluídas da Humanidade. O Cristo desta Cristandade laica, hoje apelidada de Globalização, é o D. Dinheiro, o novo deus todo-poderoso que fabrica vítimas aos milhões para logo as sacrificar nos múltiplos altares do Mercado Total e das suas principais Bolsas, com destaque para as de Nova Iorque e de Londres. Trata-se de um Cristo/deus cruel, que exige sacrifícios humanos e da Natureza, e não deixa qualquer saída com dignidade para os seus múltiplos adoradores.
7. Estamos então perdidos? Chegamos já ao fim da História? Não! Lembrem-se que comecei por vos dizer que trazia para este encontro uma boa notícia e um alerta. Eis a boa notícia:
Nem sequer é preciso abandonarmos o ateísmo, hoje, cada vez mais generalizado. Muito menos é preciso regressarmos às Religiões, velhas ou novas, muito menos à velha Cristandade Ocidental. Não! Pelo contrário, faz parte da boa notícia esta proclamação eventualmente chocante: Religiões nunca mais! Cristandade Ocidental ou outra nunca mais! Basta que o ateísmo generalizado do século XXI e do terceiro milénio seja um ateísmo jesuânico, o mesmo é dizer, não absoluto. Seja um ateísmo em relação a todos os deuses e deusas das Religiões e das Igrejas em versão Cristandade Ocidental. Seja um ateísmo humilde, capaz, por isso, de parar diante dos seres humanos concretos e diante do mistério que é cada um. Seja um ateísmo aberto ao Mistério, como o ateísmo e a Espiritualidade de Jesus. Não aprisione os seres humanos na História, pelo contrário, seja capaz de se abrir, juntamente com os seres humanos, ao Mistério Maior. Aguente as perguntas essenciais que os seres humanos somos e transportamos connosco e recuse todas as respostas dadas com ar de definitivo. Sobretudo, prefira sempre as perguntas às respostas dadas ao longo dos séculos, também as dadas por antigos ateus e por novíssimos ateus.
8. O que é preciso, imperioso e urgente é regressarmos a Jesus, o de Nazaré, o Jesus histórico ressuscitado. É com ele que seremos. E que encontraremos a saída e o caminho. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Dele se diz, na língua da Teologia, que é também a língua da Poesia, que nasceu por força do Sopro/Espírito libertador (portanto, um ser humano aberto ao Mistério mais íntimo a nós do que nos próprios e que nos mantém no ser); que viveu possuído, 24 horas sobre 24, pelo Sopro/Espírito (portanto, um ser humano aberto ao Mistério que é também cada ser humano com quem nos cruzamos e de quem sempre nos havemos de fazer próximos); e que, ao morrer, exalou/entregou/deu o seu Sopro, esse mesmo que o fez e o habitou (portanto, um ser humano que não caiu no Nada, nem se fechou num túmulo, antes abriu-se na totalidade do seu ser à totalidade do Ser). E só por isso que o viver de Jesus na História foi ininterruptamente o de um Homem-para-os-demais. Nele, pudemos ver/conhecer o ser humano integral e o Deus Maior que nunca ninguém viu nem verá jamais. Mas apenas O pudemos (e podemos) ver à maneira humana, por isso, sempre aberta, nunca acabada, sempre em busca, sempre às apalpadelas, como em um espelho, numa palavra, sempre em deserto, muitas vezes, verdadeira noite de sentidos. E sempre na companhia de Jesus e de ateus, como reza o título do meu livro mais recente. E na fecunda comunhão com o seu Sopro.
9. Regressemos, pois, neste início de século e de milénio, a Jesus, o de Nazaré. Não à Cristandade. Nem às religiões, as antigas ou as recentes. Mas, primeiro, resgatemos Jesus da Cristandade Ocidental e de todas as Religiões cristãs e outras. Resgatemo-lo também do Templo e do Império. Sobretudo, resgatemo-lo do Deus Dinheiro. Ousemos começar de novo. Fazer acontecer um Novo Começo. Demos corpo, em cada uma, cada um de nós, ao homem novo jesuânico, à mulher nova jesuânica. Saibam que, ao entrarmos nesta etapa mais avançada da História, com a Humanidade em estado de maioridade a pilotá-la, já nem sequer são precisas Igrejas. Apenas Humanidade, que se auto-conceba e viva como comunidade de comunidades, todas elas tocadas/empurradas pelo Sopro/Espírito de Jesus Ressuscitado. Por outras palavras, que se auto-conceba como Humanidade jesuânica, simplesmente. Porque tudo o mais virá por acréscimo.
Porque o mataram? E porque o proclamaram Ressuscitado?
1. Entre Sócrates, o célebre filósofo grego, e Jesus, o de Nazaré, há um abismo. Embora sejam ambos considerados modelo de ser humano. Ambos foram incómodos, até ao ponto de terem de morrer antes de tempo. Mas Sócrates foi condenado a beber a cicuta e bebeu-a com satisfação, enquanto proclamava que, graças a ela, ia mais depressa juntar-se aos deuses em troca do inferno que deixava neste mundo, uma espécie de prisão, ou degredo onde a sua alma havia estado condenada a viver. A morte era experimentada por ele como a libertação definitiva da sua alma. Por isso, ele próprio tomou a cicuta e bebeu o veneno que lhe causou a morte antes de tempo.
Jesus, ao contrário, foi crucificado e morreu no total abandono e na total humilhação. No meio da maior das escuridões humanas: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Porém, nunca o ser humano o foi tanto como naquele momento. E também nunca Deus Vivo o foi tanto! Na máxima escuridão interior, Jesus abre-se ao Mistério Maior, como um menino. E morre aberto ao Mistério Maior. O silêncio de Deus foi para Jesus a palavra mais eloquente. Assim como a ausência de Deus foi para Jesus a sua mais fecunda Presença. Desde então, percebemos que são o silêncio e a ausência de Deus na História que “puxam” por nós para que sejamos cada vez mais seres-em-relação-e-em-comunhão.
2. Porque o mataram? De repente, os chefes das instituições que se têm como donas das respostas às perguntas essenciais que todos somos e transportamos, perceberam, ao verem Jesus em acção, que a função deles, apesar de vestida da aura do sagrado e do divino, era, afinal, pura Mentira e pura Perversão, por isso, geradora de Medo e de castração humana. Como tal, era uma função que só trazia Opressão e Morte às pessoas e aos povos. À luz da prática libertadora de Jesus e do Evangelho ou Boa Notícia de Deus que ele anunciava aos pobres, eles não passavam dos profissionais maiores da Mentira e do Crime institucionalizados, alimentadores do Medo. E os maiores comerciantes de Deus. Por isso, mentirosos e assassinos. Todos. Tinham o Medo por mãe e a Mentira por pai. Os frutos que produziam só podiam ser perversos. Como diz Jesus, todos eles existiam (existem) para matar, roubar e destruir, em lugar de suscitarem vida e vida em abundância para todos.
Quando perceberam isto – Jesus é a Revelação que faz cair o véu ideológico que esconde a perversão e a mentira e as disfarça de sagrado e de verdade – só tinham uma de duas saídas: ou uniam-se a Jesus no desmascaramento da perversão e da mentira do que eram e faziam; ou uniam-se furiosamente contra Jesus e contra a Revelação que a sua prática libertadora dos oprimidos de toda a espécie punha gritantemente em evidência. Infelizmente, optaram por esta última. E depois, para que nunca mais ninguém se atrevesse a pôr os olhos em Jesus, nem jamais acolhesse a Revelação que saltou da sua vida, mataram-no, mas não de qualquer maneira. Mataram-no com aquele género de morte que constituía Jesus para sempre como o maldito dos malditos de Deus. E convertia a sua Revelação Maior na Mentira das mentiras. A morte na cruz era a única que, naquele contexto cultural/religioso e político, serviria aos desígnios deles, pois até a Lei de Moisés (de Deus?) proclamava: “Maldito o que morre na cruz!” E era isso o que eles pretendiam. Para sempre. Foi por isso que optaram por esse tipo de morte. Para que nunca mais ninguém pronunciasse o nome de Jesus, muito menos desse a mínima atenção à Revelação que a sua vida/morte fez acontecer. (E não é que conseguiram, pelo menos, até hoje? O Jesus de que hoje tanto se fala não é o que o Império e a Cristandade Ocidental que o continuou, inventaram à sua medida? Não é o anti-Jesus crucificado/Ressuscitado?)
3. E porque o proclamaram Ressuscitado? Diga-se, desde logo, que esta proclamação - esta Fé! - é a prova inequívoca da verdade que é Jesus. É ela que está na origem dos relatos evangélicos de “aparições” do Ressuscitado, as quais, diga-se em abono da verdade, historicamente, não aconteceram nunca. São belíssimas e inultrapassáveis narrativas teológicas e poéticas destinadas a despertar em quem as ouve a Fé em Jesus e sobretudo a Fé de Jesus, isto é, destinadas a despertar em quem as escuta a vontade inabalável de ser mulher, de ser homem do mesmo jeito de Jesus, com as mesmas causas e os mesmos combates de Jesus.
A verdadeira mudança/ressurreição que historicamente se viu e testemunhou é, não a de Jesus (seria, quando muito, a reanimação do seu cadáver, mas para depois voltar a morrer daí a algum tempo, coisa sem qualquer importância para a História da salvação da Humanidade!), mas a das suas discípulas, dos seus discípulos, por sinal, não muitos, apenas um punhado (S. Paulo, que escreveu muito próximo dos factos, chega a avançar uma cifra, muito por alto. Fala apenas num máximo de “500 irmãos”!). Elas e eles, em lugar de continuarem, como até então, a comportar-se como filhas, filhos do Medo e da Mentira institucionalizados – concretamente, que o Templo e o Império são instituições sagradas e divinas que ninguém pode pôr em causa e, por isso, Jesus que disse que um e outro são o Perverso e o Mentiroso em acção, só pode ser o maldito de Deus; e o Evangelho que ele praticou e anunciou só pode ser a Mentira que terá que ser silenciada para todo o sempre – tornaram-se, algum tempo depois da morte dele, mulheres/homens espantosamente livres e libertadores, festivos, alegres, destemidos, da mesma fibra e do mesmo sopro de Jesus, determinados, por isso, a regressar à Galileia, isto é, a levarem por diante a mesma prática libertadora de Jesus e a desmascararem como ele o Perverso e o Mentiroso que são para todo o sempre o Templo e o Império.
Semelhante mudança num punhado de mulheres, homens, é o sinal inequívoco, ao modo humano, de que Jesus vive-para-sempre-no-Deus-que-é-Deus-de-vivos-e-não-de-mortos, isto é, de que Jesus é quem tem razão e não os chefes que o mataram. Ou de que Jesus crucificado é a Verdade e, consequentemente, os chefes e as instituições que o mataram são a Mentira. Por isso, a Humanidade encontra-se consigo mesma, isto é, salva-se, sempre que ousa seguir a prática radicalmente libertadora e integradora de Jesus; e perde-se, sempre que o toma por um maldito e opta por seguir a prática dos chefes do Templo e do Império.
Proclamar que Jesus é o Ressuscitado é o mesmo que proclamar que ele, e não os chefes das instituições que o mataram, está no certo, tem razão. É proclamar que Deus Vivo é com Jesus que está, não com os chefes nem com as instituições que eles representam.
Infelizmente, nunca nos disseram esta boa notícia ao longo dos séculos. Sempre no-la esconderam e entretiveram-nos com delírios mais ou menos esotéricos de Jesus a sair pelo túmulo como um cadáver reanimado…
Em consequência, a Humanidade passou, depois do assassinato de Jesus, a ocupar-se com novas liturgias e novos cultos, à volta de altares e de templos e basílicas, presididos por hierarquias que são a negação visível dele. E esqueceu por completo Jesus, assim como a sua Revelação e o seu mandato para irmos por todo mundo anunciar o seu Evangelho a toda a criatura, missão decisiva e única, pois só ela pode fazer com que as pessoas e os povos se libertem do Medo e da Mentira, do Templo e do Império que alimentam um e outra. Pois só Jesus e o seu Evangelho, que inclui como essencial o desmascaramento do Templo e do Império e o seu derrube puro e simples, nos tiram do Medo e da Mentira e nos tornam insurrectos e ressurrectos, inteiramente disponíveis para prosseguirmos a sua Missão na História, desde a Galileia até à Ressurreição.