Diário Aberto


 

2006 MAIO 31

 

Andam numa roda viva os do Dinheiro

a tentar convencer o nosso Povo que

o país vai a caminho da falência; e a

mostrar o seu aplauso a todas as cruéis

medidas do Governo Sócrates. Atenção! que

eles só descansam quando tiverem numa

bandeja qual Herodíade a cabeça do povo.

 

Dentro do assassino sopro do grande Capital

e das gulosas multinacionais que o servem

como numa inumana liturgia jamais encontrarão

os do Dinheiro outra solução ou saída

para a crise que não seja a de matar ainda

mais roubar ainda mais e destruir ainda

mais. Até que fiquem só eles sobre a Terra.

 

Os media alinham neste jogo e difundem

a toda a hora e sem quaisquer escrúpulos

o anti-Evangelho que os do Dinheiro na sua

crueldade conceberam em conluio com as

hierarquias das Igrejas e a sua cruel senhora

de Fátima que tanto se agrada de populações

pobres incultas doentes deprimidas e a rastejar.

 

Mas crise é coisa que não se vislumbra lá

para as bandas da cidade de Évora onde

os jovens futebolistas da Selecção e todo

um séquito de ilustres se banqueteiam e

passeiam à sombra da bandeira nacional. E

sempre a somarem mais e mais Dinheiro aos

mais que obscenos salários que já auferem.

 

Ainda mais lá para o Sul já em pleno Algarve

também se passeia o Presidente do país que

se diz em crise. “Roteiro” chamou ele a este

tipo de passeios que se repetirão sempre que

a rotina dos dias no Palácio de Belém exigir

mudança de ares a sua Excelência. E não é

que até os media aproveitam comem e calam?

 

Mas é assim o sopro de D. Dinheiro. Torna

inumanas as almas das pessoas onde entrar.

Empobrece e estupidifica as populações e os

povos. Mente por natureza e é gerador de

mentira. Mata sem escrúpulos e sem lágrimas.

Criou e mantém uma Ordem que faz do nosso

presente um inferno e ainda nos rouba o futuro.

 

Organizemo-nos sem demora e fiquemos

surdos aos alarmismos dos do Dinheiro. Em

vez de irmos por eles exijamos do Governo e

da Europa mudanças radicais na Economia e na

Política. E já que os do Dinheiro só vêm para

matar roubar e destruir ergamos contra eles

a via da Riqueza Partilhada e da Liberdade.

 

Com Cavaco na Presidência e com Sócrates na

chefia do Governo; com os media ao serviço dos

do Dinheiro e com a senhora de Fátima cada

vez mais promovida a ópio do povo crescerá

na proporção inversa à pobreza das populações

a riqueza dos ricos. Ou organizamos já a Revolução

ou voltaremos a ser um povo de mão estendida.


2006 MAIO 29

 

Inesperadamente fui em missão ao

Algarve. O convite partiu de um homem

da região que ficou fascinado com leitura

de alguns dos meus livros e desde então

está vivamente empenhado na difusão entre

os seus concidadãos da Boa Notícia que é

o Deus de Jesus que neles eu dou a conhecer.

 

Ainda não conhecia o Policarpo. Apenas

havia conversado com ele algumas vezes

pelo telefone. Senti-lhe o coração a arder

como ao casal de discípulos de Emaús e

meti-me confiante no comboio até Faro onde

ele me aguardava aos pulos. Eram já 23 horas

mas ele ainda me levou a evangelizar a Confraria.

 

Comecei por sentar-me à mesa do

restaurante onde os confrades se reúnem

todas as quintas-feiras numa saudável

partilha do Pão e da Palavra. Escutei o

debate em curso sobre a vida e a luta

dos apanhadores de marisco. E anunciei

depois a todos o Deus que gosta de Política.

 

A palavra que partilhei foi luz e força libertadora

na consciência dos confrades. Por isso

mais do Espírito do que minha. Ficaram a

saber que o Evangelho quando diz pescadores

diz pessoas comprometidas com as causas

da Justiça e da Verdade.  E isso é também o

que significa a expressão pescadores de homens.

 

As Igrejas têm-nos escondido este dado

e com ele o Essencial do Evangelho de

Jesus o de Nazaré. Os próprios cristãos

continuam aí sem saber que estão chamados

a ser na História pescadores de homens; pessoas

politicamente dissidentes e libertadoras. Uma

espécie de desmancha-prazeres do Poder.

 

Jamais esquecerei a Alegria militante que vi

dançar nos olhos de Manuel Luís um camarada

jornalista como eu. O Evangelho do Deus de Jesus

que gosta de Política e não de religião tocou-lhe

a alma e fê-lo vibrar. Haveria de vê-lo um dia depois

numa outra comida com debate mas já como

quem assina um pacto de comunhão e de luta.

 

Não é este o único “apóstolo” que fica da

minha primeira Missão em terras algarvias.

Trouxe também no meu coração o João que

tem sofrido q. b. na pele por não baixar os

braços na luta contra os interesses instalados

no mundo da construção civil. E também o

combativo Guedes e ainda o Lino Mendonça.

 

Do debate ocorrido na última noite de missão

destacou-se a Eduarda. Recordei-me ao ouvi-la

da Maria Madalena do Evangelho de quem se

diz que Jesus expulsou sete demónios. Se

Eduarda também vier a libertar-se das bobas

doutrinas com que as Igrejas/seitas a têm tolhido e

baralhado será ela ali a apóstola da Ressurreição.


2006 MAIO 23

 

Aproveitaram o mês das férias para

uma digressão por alguns países da Europa

entre os quais Portugal. E não dispensaram

uma passagem por S. Pedro da Cova e por

Macieira da Lixa dois lugares que ambas têm

como referência graças ao Jornal Fraternizar

e aos meus sites. São elas Lenira e Castálide.

 

No Brasil onde vivem e trabalham como

médicas de saúde pública – Lenira é também

elemento activo das CEBs em S. Paulo e

teóloga da libertação de palavra sempre afiada

contra uma Igreja patriarcal instalada nas rotinas

e nos privilégios – a Fé cristã que as anima

faz delas mulheres de causas e de combates.

 

Com elas veio também o meu amigo

e teólogo Rui Manuel que se prepara para

rumar até à Índia depois de onze anos de

intervenção na Nicarágua. Foram três dias

de intenso diálogo e de partilha de vida e

de mesa. Como num Tabor. Onde também

brilharam Lena Quina Belmira e Maria Laura.

 

Momento alto foi o da celebração que

realizámos no sábado à noite na mesma

mesa onde também partilhámos a ceia na

casa de S. Pedro da Cova. Lenira presidiu

como quem serve. Na hora de Partir o Pão

teve alguma relutância em assumir o gesto de

Jesus mas acabou por o fazer a par comigo.

 

Todo o encontro foi de revelação ou Jesus

o de Nazaré não seja a Luz do mundo que

abre os olhos da consciência e aquece o

coração de quem o aceita por companhia e

como seu mestre de vida. Recordou-nos

que a sua paixão é mudar o Mundo. E que a

Igreja só tem sentido se faz sua essa paixão.

 

Chocante foi sobretudo Jesus ter-nos

confidenciado que nesta altura da História

já não espera nada das diversas Igrejas em

que a Igreja se faz. “Vomito-as a todas pois

limitam-se a garantir serviços religiosos às

populações quando deveriam convocá-las

para prosseguirem a minha prática libertadora”.

 

Disse-nos ainda mais Jesus: “Ou as Igrejas

fazem-se gémeas minhas como Tomé se fez

e passam a protagonizar as mesmas causas

que eu protagonizei entre a Galileia e Jerusalém

sem medo de meterem as mãos nos cravos

como eu meti ou acabam tão perversas quanto

o Templo que me matou com o apoio do Império”.

 

Olhámo-nos com espanto. Porque nunca as

Igrejas nos disseram semelhante catequese

sobre Tomé. Afinal ele fez-se gémeo de Jesus

depois que viu que a sua prática libertadora e

martirial é a única que muda/salva o mundo. É

por ela que eu também vou. Não pela Religião

que as Igrejas promovem. Como ópio do povo.


2006 MAIO 18

 

O mundo tem fome de Jesus e o que lhe

dão? O Código Da Vinci. Primeiro em livro

depois em filme. E não é que as pessoas

lêem o romance concebido para dar uma

fortuna a ganhar ao seu autor e vêem o

filme como se um e outro fossem a verdade

sobre Jesus? Crime sem perdão é o que são!

 

Entre Jesus e o Dinheiro a incompatibilidade

é total. Desde que Jesus revelou que ninguém

pode servir a Deus e ao Dinheiro e que quem

serve o Dinheiro deixa de ser humano para se

converter em mentiroso e assassino nunca mais

os do Dinheiro lhe perdoaram. E tudo fazem

para o tirar do coração e da mente das pessoas.

 

A luta é duélica e manifestamente desigual. E

vai durar até ao fim dos tempos. As populações

têm de andar avisadas para se não deixarem

enganar. Pois neste duelo o Dinheiro conta com

meios cada vez mais sofisticados e eficazes. Ele

é a Besta que opera milagres e arrasta multidões

sem conta para os seus múltiplos locais de culto.

 

Jesus pelo contrário é como Deus. Limita-se

a bater à porta da nossa liberdade e aguarda

pela nossa resposta. Não opera milagres nem

prodígios. Não faz publicidade. Não tem media

ao seu serviço. E até as Igrejas que deveriam

ser uma só coisa com ele acabam quase sempre

aliadas ao Dinheiro contra ele e o seu Evangelho.

 

A via que Jesus propõe é a da porta estreita

que as multidões não estão dispostas a fazer

sua. Preferem o caminho largo que o Dinheiro

impõe. Dois caminhos antagónicos que muitos

tentam conciliar. E também muitas igrejas. Em

vão. Só a via Jesus é a Verdade que nos faz

livres. A via Dinheiro é a Mentira que nos mata.

 

É de Jesus que o mundo tem fome e as Igrejas

deveriam gastar-se dia e noite na missão de o

anunciar e à Boa Notícia de Deus que ele é. Em

vez disso gastam o melhor das suas energias em

estúpidos cultos sem cultura e sem profecia. Os

do Dinheiro aplaudem e até financiam. Enquanto

perseguem e matam quem o segue e anuncia.

 

Ide por todo o mundo anunciar a Boa Notícia

de Deus a toda a criatura. Esta ordem de Jesus

é dada a todas as discípulas e discípulos. Para

que de geração em geração o mundo creia e veja

despertar em si a mesma Fé de Jesus. E com

ela a salvação. Mas nós anunciamos o Dinheiro

e sua Mentira. E só pode acontecer a Perdição!

 

Evangelizar os pobres é preciso. Dia e noite.

Contra o Império do Dinheiro e sua perversa

Publicidade que se faz passar por Evangelho

de Deus quando é a mentira que mais oprime

e mata. Feliz de quem lhe resistir e se mantiver

fiel a Jesus e ao Evangelho de Deus que Jesus

é. Do seu Ser vive e respira o resto do mundo.


2006 MAIO 16

 

O futebol continua a ser tratado pelos

media na local Desporto. Deveria passar

para a local Economia/Finanças. Desde

que o Dinheiro entrou no futebol nunca mais

houve desporto. O negócio é descarado. E

os jogadores tornaram-se coisas de compra

e venda. Prostitutos mais caros do Mercado.

 

Ele é a Liga. Ele é a Selecção nacional.

Ele é o campeonato da Europa e o do

Mundo. Ele é a Taça das Taças e a Liga

dos Clubes Campeões Europeus. Em

todo o lado está o selo do D. Dinheiro. A

loucura do Mercado. Com multidões a

aplaudir. A pagar. E a perder a dignidade.

 

Desporto é cultura. É desenvolvimento. É

prática de grupo. É fraternidade/sororidade.

É comunhão. É gratuidade. É convívio com

a Natureza. É saúde. É festa. Viva o Desporto!

Vieram as SADs e tudo perverteram. Mataram

o Desporto. E matarão as populações que

insistam em frequentar tão macabra liturgia.

 

Os campos de futebol são arenas. Os que

correm atrás da bola são putos a quem o

D. Dinheiro transtorna a cabeça e rouba

a alma para os poder utilizar como peças

do Mercado. Os empresários são traficantes

de jogadores pagos a peso de ouro. O que

será do mundo se acabar reduzido a Futebol?

 

Nunca entrei num estádio de futebol. São

outras tantas Catedrais onde o D. Dinheiro

humilha milhões de seres humanos. Temos

fome de beleza e de cultura. De paz e de

bem-estar. Aspiramos a mais humanidade e

festa. Servem-nos Ópio e Alienação que nos

deixam ainda mais vazios e desmobilizados.

 

Ganharás o Pão com o suor do rosto – diz a

palavra de ordem da Vida que nos quer ver

passar de condições menos humanas a mais

humanas até chegarmos à comunhão de bens

em redor de mesas comuns experimentadas

como verdadeiras frátrias. Mas logo o Futebol

do D. Dinheiro chegou e roubou-nos esta via.

 

Calculem as horas que os media gastam com

o Futebol do D. Dinheiro. Contem as empresas

que engordam à sua custa. Reparem no empenho

dos sucessivos governantes de turno. Tudo hoje gira

em função dele. O país falece à míngua de Poesia.

De trabalho com direitos. E de crianças. Mas que

importa se há a selecção do senhor Scolari?!

 

Acordemos! O Dinheiro ataca-nos hoje por

todos os lados e de todos os modos. E só pára

quando nos arrebatar a alma. Cuidado! Ele é

o nosso pior inimigo. Ou lhe resistimos com toda

a nossa mente e com todas as nossas forças e

permanecemos humanos com humanos. Ou

acabamos a comer Dinheiro como o Mourinho!


2006 MAIO 13

 

A blasfémia maior que se comete em

Fátima consiste em identificar a imagem

da senhora lá idolatrada com Maria mãe

de Jesus. Então não sabemos que desde

tempos imemoriais os povos peregrinam

rumo a lugares altos para pagar promessas

aos deuses e rastejar nos seus santuários?

 

O fenómeno de Fátima é neste movimento

de generalizado Medo e de generalizada

Alienação que se insere e alimenta. Mas os

media na sua douta ignorância chamam-lhe

manifestação de fé. Desconhecem que a Fé é o

antídoto do Medo. E que ilumina e abre os seres

humanos uns aos outros como irmãs/irmãos.

 

Ao reconhecerem em 1930 que Fátima

se impôs à Igreja os Bispos portugueses

rasgaram o Evangelho de Jesus e deram

carta de alforria ao Paganismo mais crasso e

cruel. Deveriam ter-lhe resistido em nome de

Jesus e da dignidade humana como Paulo

resistiu outrora à deusa Ártemis dos efésios.

 

Tornamo-nos desde então um povo à imagem

e semelhança da deusa ou senhora de Fátima

e dos cultos sadomasoquistas que a sua

imagem branca pelos vistos exige das devotas

e dos devotos. Um povo que rasteja. Cultiva

Obscurantismos. Enriquece charlatães vestidos

de pastores. E detesta a Cultura e a Política.

 

Ou os bispos portugueses e o papa com

eles mudam de rumo e pedem perdão ao

mundo por lhe terem dado em todos estes

anos Mentira e cultos sem cultura em lugar

de Jesus e o seu Evangelho libertador ou

terão de ser as populações a abrir os olhos

e a zarpar deles. Mais do mesmo é que não.

 

Bem sei que estou quase sozinho neste

esforço por um Cristianismo jesuânico e

uma Igreja de rosto humano que sinta como

suas as alegrias e as esperanças dos seres

humanos destes século e milénio. E também

as suas dores e angústias. Mas não há outro

caminho que nos leve à Dignidade e à Paz.

 

Dois apoios de peso tenho tido neste meu

esforço em prol do Evangelho de Jesus e

duma Igreja que se bata alegre pela libertação

das populações e pela sua maioridade na Fé

e na Política – o Sopro ou Espírito de Jesus

Ressuscitado e a companhia de Maria a de

Nazaré. Haverá Obscurantismo que nos resista?

 

Aceitam uma palavra de irmão e de amigo?

Fujam de Fátima e da sua senhora com tanto

de branco como de cruel. Abram-se ao Sopro

libertador de Jesus que jamais desiste de nos

libertar para a liberdade. Cresceremos então em

consciência crítica e em protagonismo cultural

e político. E juntos mudaremos a face da Terra!


2006 MAIO 11

 

Foste bispo da Igreja do Porto enquanto

Salazar governava o país com mão de ferro.

Apresentavas-te de pé diante dos homens e

de joelhos diante de Deus. Preferiria mil vezes

ter-te visto de pé diante do Poder – todo o

Poder – e de joelhos diante dos pobres. Para

que nunca fosses Poder. Apenas Bispo-pastor.

 

A mesquinhez do Ditador não suportou a

tua liberdade nem a tua frontalidade. Queria

que fosses simples cão de guarda do Regime

como acontecia com a generalidade dos outros

bispos do Portugal de então. Um exílio de dez anos

foi o preço que tiveste que pagar. A somar a todo

o ódio teológico dos restantes bispos teus irmãos.

 

Entretanto a guerra colonial continuava a oprimir

e a matar em três frentes de África. Eu próprio

me vi aos trinta anos de idade a entrar nela

como capelão militar à força. Acicatado pelo teu

exemplo de coragem não hesitei em anunciar na

guerra o Evangelho da Paz. E fui expulso. Mas nem

assim o teu exílio na Europa “virou” conspiração...

 

E quando Abril chegou já estavas mergulhado

de novo nas rotinas eclesiásticas da diocese

graças sobretudo à mãozinha do novo Poder que

sucedeu a Salazar. A festa da liberdade dançou

meses a fio nas ruas do Porto e do país. Mas

ninguém te viu alguma vez a dar-lhe corpo. Não

saberias que liberdade rima com fraternidade?

 

A grande comunicação social do Dinheiro

(toda ela é dele e ai de nós se não estamos

bem conscientes que assim é) transformou-te

depois na Personalidade maior da História da

Igreja em Portugal. E a verdade é que nem assim

tu foste capaz de atender ao aviso de Jesus “Ai

de vós quando os do Poder dizem bem de vós!”

 

E agora que se completam cem anos sobre

o teu natal não falta por aí quem se apresse a

promover-te homenagens de canonização. Em

nenhuma delas quis ser visto a não ser no teatro

que a Companhia Seiva Trupe estreou na noite de

ontem. E não é que até aí foste apenas enaltecido

como se tu e o teu Poder não tivessem feito vítimas?

 

Sempre costumam proceder assim os grandes.

Exaltam quem os reconhece e se lhes assemelha

no porte na erudição e sobretudo na aceitação da

presente Ordem social em que todos eles figuram

como sóis de primeira grandeza. Também me tentam

a ser assim mas jamais me renderei. Prefiro mil

vezes as suas excomunhões aos seus louvores.

 

António Bispo do Porto meu irmão! Perdoa que

não alinhe no esforço que os do Poder clerical e do

Dinheiro estão hoje a fazer para te converterem em

novo ídolo. Deixa que te abrace com afecto e com

ternura naquela Luz sem Mentira em que todas/todos

veremos a luz. E na qual todo o Poder é dissolvido.

Basta-nos afinal ser discípulos de Jesus. E irmãos.


2006 MAIO 09

 

Teixeira. Aconteceu hoje de madrugada e sem

surpresas a tua Páscoa definitiva. A confirmar

que o nosso viver na História é feito de sucessivas

páscoas até à Páscoa definitiva. Dizem por aí

que morreste. Hão-de saber que explodiste como

aquela estrela de que todas/todos provimos só

para assim poderes ficar connosco todos os dias.

.

Antes que o cancro se alojasse na tua

coluna eras um corpo com tudo de exército

em linha de batalha. Ninguém se atrevesse

a humilhar os humildes e os fracos. Logo tu

saltavas em sua defesa e inibias de vez os

agressores. Bastavam um olhar teu e tua mão

levantada para que acontecesse de novo a Paz.

 

Não faltou quem se alegrasse com a notícia

de que um cancro te consumia por dentro e

te roubava anos de vida à luta pelas causas

da Justiça e do Pão repartido. E agora que

aconteceu a tua Páscoa não falta quem ria

de cinismo. Os pulhas são como os vermes.

Alimentam-se de cadáveres em putrefacção.

 

Como Jesus o de Nazaré não nos deixas

órfãos. Nos encontros da Comunidade em

que participaste e que nos últimos tempos

fizemos acontecer com regularidade à volta da

mesa da casa que partilhavas com Armandina

soubeste abrir-te ao Sopro de Deus vivo e

é com Ele e nEle que agora andas connosco.

 

Não te perdemos. Ganhamos-te para sempre.

E se agora deixamos de te ver é só para mais e

melhor beneficiarmos da tua vida ressuscitada

no Ressuscitado Jesus. És o nosso companheiro

nas causas da Justiça e do Pão repartido e nos

combates pela libertação das populações. Tijolo

vivo no Barracão de Cultura que já se levanta.

 

Jamais esquecerei aquele abraço fraterno e

camarada que me deste um destes dias quando

pela última vez te visitei no pavilhão dos Cuidados

Acompanhados do IPO do Porto. Sabias como

eu que estava próxima a tua Páscoa definitiva e

quiseste dizer-me que já estavas de partida mas

para seres de vez o nosso Anjo e o nosso Fogo.

 

Visto-me com a tua Paz e deixo-me empurrar

pelo Sopro de Jesus que é também o Sopro

em que tu agora te tornaste. Caminharemos

mão na mão numa Eucaristia feita de entrega

do meu corpo-Pão e do meu sangue-Vinho pela

vida do mundo. Os da Mentira e do Dinheiro que

se cuidem. Está cada vez mais próximo o seu fim.

 

Canto e danço com redobrada força e alegria

o Aleluia da tua vida militante e camarada que

prossegue sem quebras em dimensões outras

que nem os olhos viram nem os ouvidos ouviram

e que são bem mais reais que as que deixaste

para trás na História. Os túmulos estão vazios de

ti. E é na vida militante o nosso próximo encontro.

 


2006 MAIO 07

 

Mãe. São duas as coisas bem difíceis

para uma mãe: Saber desaparecer a

tempo da vida das filhas e dos filhos para

se poder manter mulher a vida toda; e ter

a audácia de passar de mãe a discípula

dos filhos e das filhas para poder viver o

seu Hoje sob o fecundo sopro do Amanhã.

 

Também tive mãe. Ti Maria do Grilo nunca

frequentou a escola mas quis que os seus

três filhos a frequentássemos. E fôssemos

de olhos bem abertos. Cultos e sobretudo

sábios. Ela sabia que só os sábios como

Jesus poderão manter-se pobres a vida

inteira e tornar-se um dom para os demais.

 

Cresci à sombra dela até aos 13 anos e

aprendi da sua pobreza a ser autónomo e

senhor do meu próprio destino como se ela

não existisse. E quando me tornei presbítero

da Igreja do Porto tive a alegria de a ver seguir

o caminho libertador que o Sopro de Jesus

em mim me tem levado a abrir na História.

 

De mãe que era passou depressa a minha

irmã mais velha e a companheira de jornada.

Nunca a vi interferir no meu viver de homem-

-para-os-demais nem nos inevitáveis conflitos

daí decorrentes. E quando os sinistros agentes

da Pide me prenderam e levaram ao Plenário

do Porto logo ela seguiu comigo em dor e alegria.

 

A Missão de Evangelizar os pobres em que

um dia fui investido como presbítero da Igreja

levou-me a viver quase sempre longe do seu

quotidiano. Nunca da sua boca ouvi um reparo

ou repreensão. Tudo compreendia e guardava

no seu coração. Para isso havia sido a minha

mãe. Para me perder e encontrar nos demais.

 

A notícia da sua agonia alcançou-me em

plena Missão. Era a hora dela partir deste

mundo para o Pai/Mãe em quem todas/todos

somos. A Paz cresceu misteriosamente em

mim. Voei até junto à cabeceira do seu leito.

Desfiz-me em gestos e palavras de ternura e

gratidão. E comunguei o seu Sopro de Mulher.

 

As lágrimas correram-me espontâneas pela

face. Lágrimas de Paz e de Eucaristia. Havia

aprendido com ela que viver é descer até nos

tornarmos a alavanca em que os últimos dos

últimos se poderão apoiar para chegarem a ser

alguém. E tornarmo-nos Pão e Vinho que dêem

corpo a mulheres/homens livres para a liberdade.

 

Não esperem ver-me neste dia a tecer loas

à mãe de Jesus o de Nazaré. Com ele aprendi

que a grandeza dela não esteve em ter sido a

sua mãe carnal. Nunca Maria a de Jesus foi tão

grande como quando se fez discípula do filho e

com ele foi capaz de passar do Testamento da Lei

para o do Espírito. Porque só este nos faz livres.


2006 MAIO 03

Aconteceu, no passado domingo, 30 de Abril, o 6.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria em fundo. Foi na casa-sede da Associação Padre Maximino/Jornal FRATERNIZAR, em S. Pedro da Cova. Éramos quase meia centena de participantes. Com uma boa mancha de gente nova na sala, à procura de autenticidade na dimensão do seu viver humano e da sua Fé cristã jesuânica. Para lá de algumas pessoas de S. Pedro da Cova, acorreram pessoas provenientes de Lisboa, Caparica, Coimbra, Moçambique, Porto, Gaia, Guimarães, Lixa, Fiães, Viseu, Lourosa, Moselos, Famalicão, S. João de Ver. Coube-me abrir o Encontro, com uma comunicação destinada preparar o contexto em que deveria decorrer o debate partilhado por quem quis intervir (e muitas foram as pessoas que trouxeram trabalho de casa) sobre o tema em agenda: “Jesus: Porque o mataram? E porque o proclamaram Ressuscitado?” Usei da palavra durante quase uma hora, o que perfez a 1.ª parte do Encontro. A 2.ª parte, depois de um curto intervalo, foi o debate propriamente dito. Estive mais à escuta, quase todo o tempo. E só intervim sumariamente, a partilhar o meu ponto de vista sobre o tema em debate, mais no final da manhã. A 3.ª parte do Encontro foi o Almoço Partilhado em forma de Comida Eucarística e que resultou numa Experiência do Ressuscitado no meio de nós absolutamente inesquecível e profundamente marcante. A 4.ª parte foi depois do almoço e do café, feita de Partilha de notícias das Comunidades de base e outros pequenos Grupos, e de Convívio. Duas horas cheiinhas e com muito Espírito.

O que se segue, imediatamente abaixo, é o texto-base da comunicação que fiz na abertura do Encontro. Logo depois, partilho também os tópicos da minha intervenção durante o debate sobre o tema agendado para o Encontro. Antes, porém, não posso deixar de sublinhar que as pessoas que ainda se não decidiram a participar nestes Encontros trimestrais de Espiritualidade nem sabem o que estão a perder. Cada vez é mais claro em nós que só Jesus, o de Nazaré, é essencial. Quem, por isso, é encontrado por ele, nunca mais se interessa por todas essas muitas coisas bobas com que Igrejas e Religiões e Sociedade em geral continuam atarefadas. Ele é o único Necessário que dá sentido e prazer à vida. Ele, e a sua Missão na História, que nos compete prosseguir no nosso aqui e agora sem desfalecimento, impulsionados e guiados pelo seu Sopro/Espírito. Eis.

 

1. Trago-vos uma boa notícia e também um alerta: Este nosso século XXI, ou é jesuânico, ou não será. Igualmente, este nosso 3.º milénio, ou é jesuânico, ou não será. O ateísmo pode e deve, por isso, continuar a desenvolver-se e tornar-se até um fenómeno de massas. A par da Espiritualidade. Em especial, o ateísmo jesuânico que é a recusa/a negação de todos os deuses que imaginamos e inventamos em consequência dos nossos medos e dos nossos interesses. Trata-se, como é óbvio, de um ateísmo que recusa/nega todos os deuses que se alimentam de gente e que foram criados para justificar e abençoar o que é historicamente intolerável, seja ao nível do institucional, seja ao nível de comportamentos e de ideologias, seja ao nível de religiões e até de Igrejas cristãs.

Porém, um ateísmo não jesuânico depressa descambará, em minha opinião, em idolatria. Uma idolatria laica, certamente, e secularista, mas que, como toda a idolatria não deixa qualquer espaço para os seres humanos, mulheres e homens, pelo menos, enquanto realidades abertas e portadoras de perguntas essenciais que não podem ser respondidas com mentiras, como são todas as respostas que até hoje nos têm sido dadas pelas religiões. Ei-las: Quem sou/somos? Donde venho/vimos? Para onde vou/vamos? E com que meios posso/podemos lá chegar?

 

2. Ao contrário, o ateísmo jesuânico mantém-nos abertos ao Mistério que somos. E, com isso, defende-nos de todas as falsas respostas (religiosas ou pretensamente científicas) às perguntas essenciais que somos e que transportamos. E porquê? Porque o ateísmo jesuânico é o único que sempre dá mais importância às perguntas essenciais que às respostas que possam ter sido dadas a essas perguntas, através dos tempos, ou mesmo ao longo da vida histórica de dada ser humano concreto que cada uma, cada um de nós é. As quais, a bem dizer, não passam de Mentira, nomeadamente, se são respostas que, uma vez dadas, nos dispensam de continuarmos com as perguntas. Tais respostas, que nos dispensam de continuarmos com as perguntas essenciais, acabam por nos converter em seres fechados, rotineiros, instalados, parados, conformados, numa palavra, mortos para o Essencial, por isso, seres nem frios nem quentes. As perguntas essenciais, mais do que as respostas, é que nos mantêm vivos e abertos ao Mistério, a Realidade mais real que não apanhamos nunca, nem tocamos nunca, mas que é a única que ininterruptamente nos puxa, nos desinstala, nos provoca, e nos coloca em estado de êxodo…

 

3. O ateísmo jesuânico faz ainda mais. Ao manter-nos abertos ao Mistério e como seres com perguntas essenciais, impede que nos tornemos seres sem causas e sem Projecto, sem laços e sem afectos, sem razões de viver e sem militância essencialmente política. O mesmo é dizer, impede que nos tornemos seres apenas consumidores mais ou menos compulsivos, canas agitadas ao sabor dos ventos da publicidade, ou seres que se dão a conhecer pela marca do carro que usam, pela conta bancária de que dispõem, pelo padrinho que os protege, pelo número de moradias que possuem e desfrutam, pelos hotéis de luxo que frequentam e pelas estâncias balneares em que passam as férias. Numa palavra, seres que nunca se dão a conhecer pelo SER. Apenas pelo TER. Por isso, nunca se apresentarão como Jesus, o de Nazaré, quando os representantes do Templo e do Império foram por ele para o prender: “Eu sou!”. Apenas se apresentam com um estúpido “Eu tenho!, ou Eu conquisto!, ou Eu compro!, ou Eu possuo armas nucleares!... Numa palavra, seres que já não procuram mais respostas para as perguntas essenciais que somos e formulamos, ou pior ainda, seres que esqueceram por completo as perguntas essenciais que somos e que nos cumpre formular uma e outra vez e sempre. São, por isso, seres que existem, mais do que vivem. Decaíram do Humano para o Animal. E, de regressão em regressão, poderão acabar abaixo do Animal, simples Coisa, sem relação com ninguém, sem referências, sem história, sem passado nem futuro e, por isso, também sem presente, meros bonecos articulados que uma Mão Invisível toda poderosa – um falso deus – maneja a seu belo prazer. Infelizmente, é nisto, nesta Descriação, em que hoje estamos a converter-nos em grande escala. Mas se hoje as coisas são já assim tão inumanas e ainda só estamos no princípio deste processo de Descriação dos seres humanos, como estaremos daqui a 100, 500 anos?

 

4. Urge mudar de rumo. Urge deixarmos de viver sob a tirania do TER e do PODER – a tirania do D. Dinheiro e do Império – para regressarmos à Ecologia do Ser! Para tanto, precisamos de regressar a Jesus, o de Nazaré. Ao seu ateísmo e também à sua Espiritualidade. Numa palavra, precisamos de regressar ao seu Sopro ou Espírito que nos faz seres humanos ateus e criadores.

Os séculos que nos precederam foram de Cristandade. Não foram de Jesus. Desaguaram no momento em que hoje vivemos. Quando a sociedade começou a tornar-se independente da Cristandade, também começou a rebelar-se contra ela e contra os seus chefes – os clérigos de alta patente e os de baixa – e contra tudo o que eles fazem e dizem, concretamente, contra as respostas moralistas e de mentira que eles haviam dado para todo o sempre, às perguntas essenciais que somos e transportamos connosco. Tornou-se, então, uma sociedade progressivamente agnóstica e ateia. Saudavelmente agnóstica e ateia. Com cada vez maior número de agnósticos e de ateus.

Faltou-lhe, porém, uma coisa essencial: (re)descobrir Jesus, o de Nazaré. Ficou-se, quando muito, pelo Jesus das catequeses infantis e da cultura/arte da Cristandade, que traz nos genes, desde há quase dois mil anos, por sinal, mais Cristo do que Jesus. Praticamente, desconhece Jesus, o de Nazaré. No melhor dos casos, conhece uma figura mítica a que chama Jesus-Cristo. Não conhece o Homem Jesus, muito menos, tem consciência porque é que o mataram/crucificaram e porque é que algumas, alguns que andaram e andam com ele o proclamaram e proclamam Ressuscitado.

 

5. Vai daí, o ateísmo, inicialmente positivo, enquanto recusa da Cristandade e do seu deus vampiro e conquistador, bem como do seu clero e das suas catequeses moralistas e terroristas, acabou, com o rolar dos anos, por se tornar, ele próprio, um dado absoluto, princípio e fim de tudo, por isso, uma espécie de novo deus, falso e laico, um ídolo dos mais perigosos. De saudável ateísmo que começou por ser, corre agora o risco de acabar em verdadeira e perigosa idolatria. E, então, como em toda a idolatria, deixará de ter lugar para o Mistério e, sobretudo, para os seres humanos, nomeadamente, os seres humanos que se mantenham abertos ao Mistério e sejam portadores de perguntas essenciais. Haverá apenas lugar para o ídolo. E para as suas falsas respostas (ainda que pretensamente científicas!) dadas às perguntas essenciais que os seres humanos, enquanto tais, são e se colocam.

 

6. Caímos assim numa espécie de Cristandade laica, em que o mítico Cristo já não é o das Igrejas, mas o do ateísmo. E o resultado é bem pior que o da Cristandade Ocidental, de má memória. Porque o Cristo mítico da Cristandade, embora falso, ainda deixava algum sentido ao viver das pessoas na História. Não valorizava o presente, o histórico, apenas o além, o após morte; as pessoas e as populações eram levadas a desprezar o presente, sacrificavam-no em nome do além, mas a verdade é que viviam o presente com regras, com virtudes, com moderação. O medo do castigo eterno guardava a vinha. Era uma crueldade, uma opressão e uma repressão, mas havia algum sentido no viver do dia a dia. Ao passo que na Cristandade laica do ateísmo/idolatria, que rapidamente está a ser absorvida/comida pela Cristandade do D. Dinheiro (onde estão hoje os ateus que decidem ser pobres e viver pobres até ao fim dos seus dias?!) e na do seu filho mais perverso, o D. Poder que é mentiroso e assassino, praticamente já não há passado nem futuro e cada vez há menos presente para a esmagadora maioria da população mundial, as chamadas maiorias empobrecidas e excluídas da Humanidade. O Cristo desta Cristandade laica, hoje apelidada de Globalização, é o D. Dinheiro, o novo deus todo-poderoso que fabrica vítimas aos milhões para logo as sacrificar nos múltiplos altares do Mercado Total e das suas principais Bolsas, com destaque para as de Nova Iorque e de Londres. Trata-se de um Cristo/deus cruel, que exige sacrifícios humanos e da Natureza, e não deixa qualquer saída com dignidade para os seus múltiplos adoradores.

 

7. Estamos então perdidos? Chegamos já ao fim da História? Não! Lembrem-se que comecei por vos dizer que trazia para este encontro uma boa notícia e um alerta. Eis a boa notícia:

Nem sequer é preciso abandonarmos o ateísmo, hoje, cada vez mais generalizado. Muito menos é preciso regressarmos às Religiões, velhas ou novas, muito menos à velha Cristandade Ocidental. Não! Pelo contrário, faz parte da boa notícia esta proclamação eventualmente chocante: Religiões nunca mais! Cristandade Ocidental ou outra nunca mais! Basta que o ateísmo generalizado do século XXI e do terceiro milénio seja um ateísmo jesuânico, o mesmo é dizer, não absoluto. Seja um ateísmo em relação a todos os deuses e deusas das Religiões e das Igrejas em versão Cristandade Ocidental. Seja um ateísmo humilde, capaz, por isso, de parar diante dos seres humanos concretos e diante do mistério que é cada um. Seja um ateísmo aberto ao Mistério, como o ateísmo e a Espiritualidade de Jesus. Não aprisione os seres humanos na História, pelo contrário, seja capaz de se abrir, juntamente com os seres humanos, ao Mistério Maior. Aguente as perguntas essenciais que os seres humanos somos e transportamos connosco e recuse todas as respostas dadas com ar de definitivo. Sobretudo, prefira sempre as perguntas às respostas dadas ao longo dos séculos, também as dadas por antigos ateus e por novíssimos ateus.

 

8. O que é preciso, imperioso e urgente é regressarmos a Jesus, o de Nazaré, o Jesus histórico ressuscitado. É com ele que seremos. E que encontraremos a saída e o caminho. Ele é o caminho, a verdade e a vida. Dele se diz, na língua da Teologia, que é também a língua da Poesia, que nasceu por força do Sopro/Espírito libertador (portanto, um ser humano aberto ao Mistério mais íntimo a nós do que nos próprios e que nos mantém no ser); que viveu possuído, 24 horas sobre 24, pelo Sopro/Espírito (portanto, um ser humano aberto ao Mistério que é também cada ser humano com quem nos cruzamos e de quem sempre nos havemos de fazer próximos); e que, ao morrer, exalou/entregou/deu o seu Sopro, esse mesmo que o fez e o habitou (portanto, um ser humano que não caiu no Nada, nem se fechou num túmulo, antes abriu-se na totalidade do seu ser à totalidade do Ser). E só por isso que o viver de Jesus na História foi ininterruptamente o de um Homem-para-os-demais. Nele, pudemos ver/conhecer o ser humano integral e o Deus Maior que nunca ninguém viu nem verá jamais. Mas apenas O pudemos (e podemos) ver à maneira humana, por isso, sempre aberta, nunca acabada, sempre em busca, sempre às apalpadelas, como em um espelho, numa palavra, sempre em deserto, muitas vezes, verdadeira noite de sentidos. E sempre na companhia de Jesus e de ateus, como reza o título do meu livro mais recente. E na fecunda comunhão com o seu Sopro.

 

9. Regressemos, pois, neste início de século e de milénio, a Jesus, o de Nazaré. Não à Cristandade. Nem às religiões, as antigas ou as recentes. Mas, primeiro, resgatemos Jesus da Cristandade Ocidental e de todas as Religiões cristãs e outras. Resgatemo-lo também do Templo e do Império. Sobretudo, resgatemo-lo do Deus Dinheiro. Ousemos começar de novo. Fazer acontecer um Novo Começo. Demos corpo, em cada uma, cada um de nós, ao homem novo jesuânico, à mulher nova jesuânica. Saibam que, ao entrarmos nesta etapa mais avançada da História, com a Humanidade em estado de maioridade a pilotá-la, já nem sequer são precisas Igrejas. Apenas Humanidade, que se auto-conceba e viva como comunidade de comunidades, todas elas tocadas/empurradas pelo Sopro/Espírito de Jesus Ressuscitado. Por outras palavras, que se auto-conceba como Humanidade jesuânica, simplesmente. Porque tudo o mais virá por acréscimo.

 

Porque o mataram? E porque o proclamaram Ressuscitado?

 

1. Entre Sócrates, o célebre filósofo grego, e Jesus, o de Nazaré, há um abismo. Embora sejam ambos considerados modelo de ser humano. Ambos foram incómodos, até ao ponto de terem de morrer antes de tempo. Mas Sócrates foi condenado a beber a cicuta e bebeu-a com satisfação, enquanto proclamava que, graças a ela, ia mais depressa juntar-se aos deuses em troca do inferno que deixava neste mundo, uma espécie de prisão, ou degredo onde a sua alma havia estado condenada a viver. A morte era experimentada por ele como a libertação definitiva da sua alma. Por isso, ele próprio tomou a cicuta e bebeu o veneno que lhe causou a morte antes de tempo.

Jesus, ao contrário, foi crucificado e morreu no total abandono e na total humilhação. No meio da maior das escuridões humanas: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Porém, nunca o ser humano o foi tanto como naquele momento. E também nunca Deus Vivo o foi tanto! Na máxima escuridão interior, Jesus abre-se ao Mistério Maior, como um menino. E morre aberto ao Mistério Maior. O silêncio de Deus foi para Jesus a palavra mais eloquente. Assim como a ausência de Deus foi para Jesus a sua mais fecunda Presença. Desde então, percebemos que são o silêncio e a ausência de Deus na História que “puxam” por nós para que sejamos cada vez mais seres-em-relação-e-em-comunhão.

 

2. Porque o mataram? De repente, os chefes das instituições que se têm como donas das respostas às perguntas essenciais que todos somos e transportamos, perceberam, ao verem Jesus em acção, que a função deles, apesar de vestida da aura do sagrado e do divino, era, afinal, pura Mentira e pura Perversão, por isso, geradora de Medo e de castração humana. Como tal, era uma função que só trazia Opressão e Morte às pessoas e aos povos. À luz da prática libertadora de Jesus e do Evangelho ou Boa Notícia de Deus que ele anunciava aos pobres, eles não passavam dos profissionais maiores da Mentira e do Crime institucionalizados, alimentadores do Medo. E os maiores comerciantes de Deus. Por isso, mentirosos e assassinos. Todos. Tinham o Medo por mãe e a Mentira por pai. Os frutos que produziam só podiam ser perversos. Como diz Jesus, todos eles existiam (existem) para matar, roubar e destruir, em lugar de suscitarem vida e vida em abundância para todos.

Quando perceberam isto – Jesus é a Revelação que faz cair o véu ideológico que esconde a perversão e a mentira e as disfarça de sagrado e de verdade – só tinham uma de duas saídas: ou uniam-se a Jesus no desmascaramento da perversão e da mentira do que eram e faziam; ou uniam-se furiosamente contra Jesus e contra a Revelação que a sua prática libertadora dos oprimidos de toda a espécie punha gritantemente em evidência. Infelizmente, optaram por esta última. E depois, para que nunca mais ninguém se atrevesse a pôr os olhos em Jesus, nem jamais acolhesse a Revelação que saltou da sua vida, mataram-no, mas não de qualquer maneira. Mataram-no com aquele género de morte que constituía Jesus para sempre como o maldito dos malditos de Deus. E convertia a sua Revelação Maior na Mentira das mentiras. A morte na cruz era a única que, naquele contexto cultural/religioso e político, serviria aos desígnios deles, pois até a Lei de Moisés (de Deus?) proclamava: “Maldito o que morre na cruz!” E era isso o que eles pretendiam. Para sempre. Foi por isso que optaram por esse tipo de morte. Para que nunca mais ninguém pronunciasse o nome de Jesus, muito menos desse a mínima atenção à Revelação que a sua vida/morte fez acontecer. (E não é que conseguiram, pelo menos, até hoje? O Jesus de que hoje tanto se fala não é o que o Império e a Cristandade Ocidental que o continuou, inventaram à sua medida? Não é o anti-Jesus crucificado/Ressuscitado?)

 

3. E porque o proclamaram Ressuscitado? Diga-se, desde logo, que esta proclamação - esta Fé! - é a prova inequívoca da verdade que é Jesus. É ela que está na origem dos relatos evangélicos de “aparições” do Ressuscitado, as quais, diga-se em abono da verdade, historicamente, não aconteceram nunca. São belíssimas e inultrapassáveis narrativas teológicas e poéticas destinadas a despertar em quem as ouve a Fé em Jesus e sobretudo a Fé de Jesus, isto é, destinadas a despertar em quem as escuta a vontade inabalável de ser mulher, de ser homem do mesmo jeito de Jesus, com as mesmas causas e os mesmos combates de Jesus.

A verdadeira mudança/ressurreição que historicamente se viu e testemunhou é, não a de Jesus (seria, quando muito, a reanimação do seu cadáver, mas para depois voltar a morrer daí a algum tempo, coisa sem qualquer importância para a História da salvação da Humanidade!), mas a das suas discípulas, dos seus discípulos, por sinal, não muitos, apenas um punhado (S. Paulo, que escreveu muito próximo dos factos, chega a avançar uma cifra, muito por alto. Fala apenas num máximo de “500 irmãos”!). Elas e eles, em lugar de continuarem, como até então, a comportar-se como filhas, filhos do Medo e da Mentira institucionalizados – concretamente, que o Templo e o Império são instituições sagradas e divinas que ninguém pode pôr em causa e, por isso, Jesus que disse que um e outro são o Perverso e o Mentiroso em acção, só pode ser o maldito de Deus; e o Evangelho que ele praticou e anunciou só pode ser a Mentira que terá que ser silenciada para todo o sempre – tornaram-se, algum tempo depois da morte dele, mulheres/homens espantosamente livres e libertadores, festivos, alegres, destemidos, da mesma fibra e do mesmo sopro de Jesus, determinados, por isso, a regressar à Galileia, isto é, a levarem por diante a mesma prática libertadora de Jesus e a desmascararem como ele o Perverso e o Mentiroso que são para todo o sempre o Templo e o Império.

Semelhante mudança num punhado de mulheres, homens, é o sinal inequívoco, ao modo humano, de que Jesus vive-para-sempre-no-Deus-que-é-Deus-de-vivos-e-não-de-mortos, isto é, de que Jesus é quem tem razão e não os chefes que o mataram. Ou de que Jesus crucificado é a Verdade e, consequentemente, os chefes e as instituições que o mataram são a Mentira. Por isso, a Humanidade encontra-se consigo mesma, isto é, salva-se, sempre que ousa seguir a prática radicalmente libertadora e integradora de Jesus; e perde-se, sempre que o toma por um maldito e opta por seguir a prática dos chefes do Templo e do Império.

Proclamar que Jesus é o Ressuscitado é o mesmo que proclamar que ele, e não os chefes das instituições que o mataram, está no certo, tem razão. É proclamar que Deus Vivo é com Jesus que está, não com os chefes nem com as instituições que eles representam.

Infelizmente, nunca nos disseram esta boa notícia ao longo dos séculos. Sempre no-la esconderam e entretiveram-nos com delírios mais ou menos esotéricos de Jesus a sair pelo túmulo como um cadáver reanimado…

Em consequência, a Humanidade passou, depois do assassinato de Jesus, a ocupar-se com novas liturgias e novos cultos, à volta de altares e de templos e basílicas, presididos por hierarquias que são a negação visível dele. E esqueceu por completo Jesus, assim como a sua Revelação e o seu mandato para irmos por todo mundo anunciar o seu Evangelho a toda a criatura, missão decisiva e única, pois só ela pode fazer com que as pessoas e os povos se libertem do Medo e da Mentira, do Templo e do Império que alimentam um e outra. Pois só Jesus e o seu Evangelho, que inclui como essencial o desmascaramento do Templo e do Império e o seu derrube puro e simples, nos tiram do Medo e da Mentira e nos tornam insurrectos e ressurrectos, inteiramente disponíveis para prosseguirmos a sua Missão na História, desde a Galileia até à Ressurreição.

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