2004 MAIO 17

Inácia veio hoje procurar-me, já depois do jantar. Saiu de casa para a sua habitual caminhada diária pela saúde - actualmente, é a receita que os médicos mais recomendam às pessoas que os consultam - e, quando me viu cá fora a conversar informalmente com o Zé Maia, aproveitou para se dirigir a mim. Aproximei-me do portão que dá para a estrada, para saber o que pretendia. Como ela ia na mesma direcção para onde eu também tinha intenções de ir, disse até logo ao Zé Maia e avancei, estrada abaixo, lado a lado com ela. Inácia é mulher casada e mãe de vários filhos, operária numa fábrica de calçado, em Felgueiras. Ao que me confidenciou, logo de entrada na conversa, era adolescente, na altura em que eu fui cá o pároco. Integrou o grupo de adolescentes. Disse-o com um brilhozinho nos olhos e com aquele ar descontraído e familiar que hoje a caracteriza. É de estatura baixa, mas aguerrida. Entrou de imediato a relatar o que a levou a procurar-me. E à medida que o fazia, pude perceber que dentro dela anda uma potencial militante que muito interessará atrair às causas do Reino/Reinado de Deus.

Em todos os tempos e lugares, como em todas as sociedades e culturas, há mulheres e homens como as mulheres e os homens do tempo e do país de Jesus que ele chamou para suas discípulas, seus discípulos. O que se relata nos Evangelhos canónicos não é exclusivo do tempo e do país de Jesus. É o paradigma do que sempre haverá de suceder em todos os tempos e lugares. Porque Jesus não é apenas de ontem. Também é de hoje e de sempre. A sua memória não é simples regresso ao passado. É sobretudo futuro que actua continuamente em cada presente da Humanidade, inclusive, no daquela que nunca terá ouvido falar dele. Será, neste caso, uma actuação anónima, mas nem por isso menos eficaz que a explícita. Às Igrejas de Jesus compete estarem atentas e serem sábias na interpretação dos sinais da sua presença actuante na História. As missionárias, os missionários, quando deixam tudo e vão morar no meio dos povos de longínquas terras, não é para aí levarem o Cristianismo inculturado no Ocidente. É para, com humildade, captarem os sinais da presença actuante de Jesus nesses povos de países distantes e culturas distintas. E, quais parteiras, ajudarem a dar-lhe visibilidade. Só assim é que há verdadeira missão e o Cristianismo que daí nascer será fecundamente inculturado, por isso, muito distinto, na sua expressão cultural, do Cristianismo do Ocidente. E mesmo este terá que ser muito distinto de época para época, conforme as mudanças culturais que se operam nos respectivos povos. Para que haja Cristianismos, mais do que Cristianismo. Infelizmente, quase não tem havido missão. O que mais se tem feito é colonização da pior, porque as Igrejas quase sempre exportam modelos culturais de Cristianismo, que até já estão mais do que ultrapassados nos países de origem, em vez de se deixarem surpreender e humildemente reconhecerem o rosto cultural específico de cada povo em que a presença actuante de Jesus está continuamente a acontecer.

Dou-me conta que Inácia fala com desenvoltura, ao mesmo tempo que caminha familiarmente lado a lado comigo. Mexe muito com as mãos, em gestos que valem por muitas palavras. Pisa o chão segura de si. Sem complexos. Em igualdade comigo. Há mais de trinta anos que não falava comigo e, este fim de tarde, parece que nunca deixou de estar comigo. As marcas positivas da adolescência vivida no respectivo grupo são visíveis. Nunca ela seria o que é hoje, se não tivesse integrado esse grupo. Essa experiência/vivência despertou nela a consciência da responsabilidade solidária. Hoje, é operária com consciência de classe e não esconde que despertou para essa dimensão profundamente humana, graças ao grupo de adolescentes que eu então dinamizei aqui em Macieira. Fico feliz, ao ouvir da sua boca esta confissão. E reflicto na responsabilidade que todas, todos temos na formação da personalidade das nossas crianças e adolescentes. Fala-me também da necessidade de unidade, por parte dos trabalhadores, para se poder fazer frente a patrões sem escrúpulos. Pelos vistos, na fábrica onde trabalha há dez anos (o marido trabalha na mesma empresa há vinte anos e ambos estão em risco de ficarem sem trabalho e sem quaisquer indemnizações!) quase só ela é que tem esta consciência. As companheiras não o são de verdade. Não passam de meras máquinas humanas de produção, estilo robots, que executam o que é para executar, sem coragem para se unirem e salvaguardarem os seus mais elementares direitos, nem mesmo quando, todos os dias, estão a constatar que eles são prepotentemente desrespeitados na pessoa de colegas que são postos na rua sem mais aquelas.

Inácia sofre esta dura realidade. E só agora se deu conta dela, quando o patrão que tem enriquecido à sua custa e à custa de todo o pessoal assalariado, passou a assumir comportamentos autoritários de exclusão e de desenfreada exploração nunca antes imaginados. Nos anos passados, ainda sem crises de maior na área do calçado, e com as coisas a rolar dentro dos mínimos legais, nunca ela tinha percebido que a situação social na empresa era assim tão desconfortavelmente desumana. Todas as operárias pareciam humanas e do mesmo lado da barricada. Porém, os factos mais recentes, nomeadamente, o do desemprego em massa, hoje na ordem do dia em todo o país e na Europa dos 25, parecem ter subido à cabeça do patrão e ele, há uns meses a esta parte, não vê outra coisa. Cada dia que passa, quer mais gente na rua. E não despede, dentro das normas legais em vigor, no respeito pelos direitos adquiridos. Pura e simplesmente, ameaça aos berros que não deixará entrar na empresa quem lhe resistir ou se lembrar de invocar os direitos que as leis lhe conferem. A única saída que lhes deixa é as trabalhadoras, os trabalhadores aceitarem passar para outra empresa, de um irmão dele, localizada numa outra freguesia mais distante. Mas até para isto ser concretizável, as trabalhadoras, os trabalhadores terão que dar por caducado o contrato anterior, sem contagem dos anos de trabalho nesta empresa em que ainda se encontram. E tudo isto assim, sem papéis, apenas suportado pelo palavreado dele, que hoje diz uma coisa e amanhã faz outra completamente distinta. Algumas trabalhadoras, alguns trabalhadores caíram já na esparrela e aceitaram - é uma ignomínia de todo o tamanho, mas aceitaram - e, poucos dias depois de iniciarem o trabalho na nova empresa, sentiram-se tão mal, devido à total falta de condições de trabalho, que logo desistiram e ficaram no desemprego, ou aguentam-se lá pelos cabelos, até conseguirem entrar noutra empresa do ramo, com contratos de trabalho por períodos máximos de seis meses.

Inácia está escandalosamente surpreendida com este facto e pensou: Hei-de ir conversar com o padre Mário. Pensou e hoje concretizou o seu pensamento. Veio até mim na esperança de, no decorrer da conversa, acontecer alguma luz sobre o que fazer em tempos de tamanha ilegalidade e de tão cruel desumanidade. Ela própria é a primeira a reconhecer que a presente situação laboral na empresa em que ainda trabalha é pior, muitas vezes pior do que no tempo de Salazar, quando as leis eram de tal modo restritivas, que pouco ou nada se podia fazer no seu âmbito. A situação era de desumanidade, a começar pelas próprias leis reguladoras do trabalho. Mas, dentro do pouco que as leis de então reconheciam, as coisas eram mais ou menos cumpridas. Hoje, as leis laborais são as mais generosas de sempre, os direitos das trabalhadoras, dos trabalhadores estão consignados na Constituição da República, mas certos patrões conseguem ser ainda mais cães e mais lobos que o próprio Salazar, ao ponto de tratarem as pessoas abaixo de cão, abaixo de máquina.

A indignação de Inácia não pode ser maior. Salta-lhe em faíscas pelos olhos e torna-se gesto sobre gesto em ambas as mãos em frenético movimento. Tudo nela é indignação. Mas a dor maior ainda vem das companheiras, dos companheiros da empresa. Nem mesmo perante tamanha arbitrariedade do patrão, elas, eles se levantam, se organizem, se unem. A tão sonhada unidade de classe é coisa que desapareceu até das conversas. O conceito perdeu actualidade, caiu em desuso, tornou-se coisa do passado. De repente, ela vê-se sozinha, à deriva, no meio de um mar encapelado. Veio então até mim, por uma palavra de salvação, por uma orientação que lhe garanta dignidade e, se possível, futuro com qualidade. Mas eu só posso reconhecer que se a situação já está a bater tão no fundo; se a empresa já não tem pessoas, mas robots em forma humana; se não há militantes para organizar a resistência e irem à luta, com o apoio do respectivo Sindicato e algum meio de comunicação social de grande impacto, um canal de televisão, por exemplo, então a luta de Inácia tem que limitar-se quase a ela própria e ao seu próprio marido, se também aqui, forem marido e mulher, coisa que, infelizmente, nem sempre acontece. Quando mais ninguém se perfila para o combate, é hora dos protagonismos individuais, ainda e sempre, redentores para toda a humanidade. Uma só mulher, um só homem que seja, quando ousa sê-lo até ao fim, salva o mundo. E, nesta empresa em que Inácia trabalha, ela está chamada/desafiada a dar este testemunho, a ser este grito vivo. Com todas as consequências. Caso Inácia não consiga congregar um número significativo de companheiras, companheiros, resta-lhe, e a quem mais a queira imitar, resistir martirialmente contra a prepotência do patrão, recusar a indignidade que ele quer impor, permanecer até ao fim no posto de trabalho e, se ele fizer o que ameaça, que é não deixar entrar mais na fábrica dele quem recusar ir sem quaisquer direitos para a empresa do irmão, forçar sempre a entrada até conseguir chegar ao posto de trabalho. E caso este direito contratual lhe seja violentamente negado pelo patrão ou seus capangas, ir de imediato ao Tribunal de Trabalho pela denúncia do seu desrespeito e, a partir daí, seguir as orientações que este disser.

Inácia sabe que, se avançar por esta via, perderá tudo, no imediato. Menos a sua dignidade de operária, de mulher no mundo do trabalho, especializada no fabrico de calçado. Perderá tudo, no imediato, só não perderá o rosto, a identidade. Pode cair, mas cai de pé. Como as árvores. É verdade que esta postura não dá de comer a ninguém, mas também é verdade que comer sem esta postura só alimenta a besta em que todas as pessoas se tornam, quando consentem que as tratem abaixo de cão, de cadela. Entretanto, pode demorar anos, mas o Tribunal de Trabalho acabará por apreciar o caso e o empresário terá que prestar contas. Até lá, de que vai viver Inácia e os filhos ainda à sua guarda? É aqui que é precisa muita sabedoria. Quando a dignidade da própria pessoa é salvaguardada, não é trocada por nenhum prato de lentilhas, sempre haverá consciência bastante para encontrar soluções humanas de emergência que permitam a sobrevivência. Eu próprio sugeri uma a Inácia. Se, por via desta postura, Inácia vier a conhecer momentos de fome, antes que isso aconteça, virá ter comigo e sentar-se com o resto da família a seu cuidado à minha mesa. A mesa partilhada é a solução libertadora contra a crueldade do neoliberalismo do nosso tempo. Inácia riu-se com gosto perante esta minha proposta. Mas não a rejeitou. Riu-se porque é ela é um solução assim como o ovo de Colombo.

Bem sei que a minha mesa não é inesgotável. E, agora que estou para avançar para a reforma, ainda menos o será, porque o que passarei a receber mensalmente como reformado será muito menos do que o que agora recebo no activo, como jornalista. Mas também o azeite da viúva de Sarepta não era o último que ela tinha na almotolia e a farinha de que dispunha não era a última porção que ela tinha para cozer o pão de que necessitava ela e o filhinho? Contudo, quando ela aceitou o desafio de partilhar este tudo/nada de que dispunha com o profeta Elias, nunca mais o azeite faltou na almotolia, nem a farinha faltou na panela. E comeu ela, o filhinho e o profeta que inesperadamente entrou na sua vida e na sua casa. E não foi também a partir dos cinco pães e dos dois peixes que um rapazinho inesperadamente se dispôs a partilhar, que Jesus, ao parti-los, deu de comer a cinco mil homens, sem contar mulheres e crianças? Pois bem, o mesmo sucederá, se Inácia for por diante nesta via que se lhe abriu. E, se, por via disso, tiver que vir ter comigo de novo, então, para partilhar da minha mesa. Nunca a comida faltará a quem recusa o prato de lentilhas que patrões sem escrúpulos atiram a trabalhadoras, trabalhadores que aceitam descer abaixo de cadela, de cão, para o garantirem. E se hoje o neoliberalismo continua aí tão prepotente e tão inumano é porque as suas vítimas, em lugar de ousarem universalizar as práticas das mesas partilhadas, preferem manter-se, como o pobre Lázaro, da parábola do Evangelho de Lucas, à porta dos palácios dos ricos avarentos, na ilusão de que a solução para os problemas da Humanidade passa pelas migalhas que eles, de tempos a tempos, deixam cair das suas mesas. Não passa. Ou mesas partilhadas, ou morte. O que hoje está a suceder no mundo, em que a esmagadora maioria vive condenada à miséria e à pobreza, é o grande apocalipse que nos revela/grita esta Boa Notícia de que só as práticas de mesas partilhadas salvarão a Humanidade. Quem tiver ouvidos para ouvir, oiça. E quem tiver olhos para entender, entenda.

Quanto àquelas pessoas que preferem o prato de lentilhas, a crescerem em dignidade e em humanidade, só não acabarão reduzidas, elas próprias, a prato de lentilhas, porque o Amor que nos criou sempre saberá encontrar - por pura graça - maneiras e oportunidades, nem que seja no último instante da sua presença na História, para as soltar das amarras em que a Besta capitalista conseguiu mantê-las aprisionadas a vida inteira. Por isso digo: se Inácia que me procurou este fim de tarde, também chegar a captar e a acolher esta Boa Notícia, tornar-se-á apóstola do Evangelho do Reino/Reinado de Deus, na linha de continuidade das apóstolas, dos apóstolos do tempo e país de Jesus. É esta boa notícia que tenho para lhe anunciar/comunicar, quando ela brevemente voltar a procurar-me, ou eu a ela. A alegria dela será sem fim.


2004 MAIO 15

A meio da manhã, enviei-lhe uma mensagem por telemóvel, estilo telegrama. Dizia-lhe que queria ir visitar o Pedro, ao Hospital de St.º António, no Porto, mas queria que ela me acompanhasse nessa visita. Perguntava se ela aceitava. Ao mesmo tempo, oferecia-lhe toda a minha solidariedade pessoal. E dizia-lhe a minha convicção mais profunda: apesar de tudo, ela saberia ser digna da hora difícil por que estava a passar. Zeza não reagiu à minha mensagem com uma outra, como seria de esperar. Preferiu aparecer-me por volta do meio dia, aqui em casa, acompanhada de Andreia Cristina, sua afilhada e sobrinha, filha de Maria Laura que, na ocasião, estava a acabar de me dar uma mão na limpeza semanal. Caímos nos braços um do outro, ela e eu, num prolongado e intenso abraço. Ela chorava de angústia e de dor interior. Mas o ter-me aparecido, na disposição de me acompanhar ao Hospital, era sinal de que estava disposta a iniciar o salutar êxodo do luto e da depressão em que mergulhara, havia já três dias, ao presenciar o estúpido acidente de trabalho que terá deixado sem mãos - pelo menos, é a versão mais insistente que corre por aqui e que ela própria neste momento tem como adquirida - o seu trabalhador Pedro, quando este assistia à máquina de produzir solas para sapatos.

Zeza é uma pequena empresária, juntamente com Manel, seu marido. E o acidente ocorreu, quando Pedro trabalhava numa das suas máquinas, lado a lado com ela. Uma distracção do Pedro terá estado na origem do acidente. Mas o mais incompreensível em todo este drama é que, no dia em que se deu o acidente, o seguro da empresa não estava em vigor, em consequência de um atraso de dias no pagamento da respectiva prestação. Pelo que todas as despesas do Hospital, com a pessoa do Pedro e com o futuro do Pedro, agora sem as mãos para trabalhar terão que ser suportadas pela Zeza e seu marido, respectivamente, mãe e pai de duas meninas adolescentes, Sabrina, 15 anos, e Nini, 12 anos, de quem sou particularmente amigo também. O drama atinge-me, por isso, de forma especial, tanto mais quanto a Zeza, ultimamente, tem feito uma grande aproximação à Comunidade cristã de Base de Macieira, a que preside, como presbítera não-ordenada, a sua própria irmã mais velha e madrinha, Maria Laura. A freguesia também conhece este pormenor - numa aldeia tão pequena como Macieira da Lixa, o que é que não se sabe sobre os passos que as pessoas dão ou deixam de dar? - e está toda de olhos postos na Zeza, para ver como ela se comporta nesta tragédia. Para já, Zeza está a ser exemplaríssima. Declara-se disposta a assumir tudo, nem que, para tanto, fique sem nada. Não falta quem a aconselhe a fugir às responsabilidades, coisa tão frequente em casos semelhantes a este, numa sociedade corrupta como a nossa. Mas ela recusa liminarmente. Nem sequer aceita colocar num outro nome a casa nova em fase de acabamentos, conseguida com tanto suor e lágrimas de anos de emigração na Alemanha, a pretexto de salvaguardar esse património para as suas filhas. A vida seguirá o seu rumo e o que vier a ser decidido pelas instâncias judiciais é o que ela e o Manel acatarão. Isto diz ela, inclusive, à mulher e demais familiares do Pedro, com quem se encontra mais do que nunca e junto de quem tem chorado convulsivamente, numa manifestação de dor que parece ser ainda maior do que a exteriorizada pela família do Pedro, um homem pobre e bastante marginalizado, devido sobretudo à doença das diabetes, nesta altura, já bastante acentuada. Zeza teve compaixão da sua situação, deu-lhe trabalho na máquina, meteu-o no seguro e na segurança social, mas, por muito azar seu - o azar também faz parte da vida e quase sempre é a grande porta por onde a misteriosa Presença de Deus na História nos visita - o seguro naquele dia estava suspenso. 

Depois do almoço, saímos na carrinha que utilizo, em direcção ao Hospital. Maria Laura deixou tudo para poder acompanhar a irmã, o que me alegrou. O amor é assim. A viagem foi de grande diálogo e de partilha a três. Com destaque para a Zeza. E bem era preciso proporcionar à Zeza um momento destes. Há três dias que ela praticamente não come, nem se cuida. Tem andado à deriva, só chora e penaliza-se. Como se fosse a culpada de tudo. E não é. Ela própria é uma das principais vítimas. Mesmo a fatalidade de estar com uns dias de atraso no pagamento do seguro deve-se, não a descuido seu, ou a fuga às suas responsabilidades de pequena empresária com o marido, mas ao facto de outros empresários maiores para quem ambos trabalham não lhes pagarem a tempo e horas, ou pagarem, mas com recurso a letras. É o drama dos pequenos empresários que trabalham, trabalham, geralmente, ainda mais do que os assalariados que contratam, mas depois não recebem, ou recebem com grandes atrasos. Tivessem os grandes empresários para quem Zeza e o marido trabalham, pago a tempo e horas o que lhes devem e nunca eles se teriam atrasado no pagamento do seguro. E, hoje, este drama em que se vêem envolvidos já não teria toda esta dimensão que tanto os afecta e deixará neles certamente marcas para sempre. Mesmo para o Pedro, a maior vítima em todo este caso, o seu presente e o seu futuro poderiam ser muito menos duros, se tudo, na altura do acidente, estivesse coberto pelo seguro. Mas agora é sobre a Zeza e o Manel que todas as atenções se voltam. E dos grandes empresários que não cumpriram para com eles as suas obrigações a tempo e horas, ninguém falará. No entanto, são eles quem está na origem de todo este drama, no que diz respeito à não-cobertura do acidente pelo seguro.

A carrinha desliza estrada fora, rumo ao Porto. E Zeza abre-se mais e mais. É finalmente escutada por duas pessoas que muito lhe querem e em quem ela muito confia. Tal como eu esperava, quando lhe enderecei o convite, a viagem na carrinha acaba por ser também para ela um êxodo libertador. À medida que avançamos, Zeza sai de si mesma, liberta-se do peso que a trazia à deriva, humaniza-se, recupera a controlo da si mesma e da situação. Da minha parte, quando tive a oportunidade de falar, foi para vincar à Zeza e a mim mesmo que, nestas circunstâncias, a solução passa, não por enterrarmos a cabeça na areia ou na dor, ou na fuga à realidade, mas pela audácia de encararmos a realidade em toda a sua crueza. Encarar a realidade, por mais dura e cruel que ela seja, é sempre o primeiro passo para nos libertarmos. Para passarmos de acossados pela realidade, a senhores da realidade. Quando isso sucede, já está próxima a nossa redenção como seres humanos, mesmo que o drama continue aí sem qualquer solução à vista. Porque voltamos à condição de sujeito. E esse é o primeiro passo para podermos dar os passos seguintes até à resolução completa do drama. Neste sentido - sublinhei - é que a visita que tu, Zeza, vais agora fazer ao Pedro é decisiva para a tua recuperação e para a recuperação dele. Olhar-vos nos olhos, depois do acidente, é fundamental, para ambos vos reconciliardes convosco próprios e entre vós. Embora por vezes nos pareça cínico, a verdade é que, felizmente, a vida prossegue sempre o seu curso, mesmo depois de ter ocorrido uma grande tragédia ou um grande drama. Por isso, em lugar de pararmos, em momentos destes, como se a vida também tivesse parado o seu curso, o que havemos de fazer é termos a humildade e a audácia de corrermos a integrar-nos de novo nela, para recuperarmos sem demora o nosso lugar de condutores da vida, em vez de irmos a reboque dela ou de outros que prontamente se perfilam como nossos tutores. Infelizmente, quase sempre falhamos nesta dimensão. Por cobardia. Por medo. Por preguiça. E até por um falso misticismo. Em lugar de rapidamente nos erguermos novos do desastre, escolhemos ficar sado-masoquisticamente caídos, tempo sem conta, nos desastres. A "curtir" o luto e a dor. Para que tenham piedade de nós. Não percebemos que uma postura dessas amplia de tal modo o desastre, que podemos ficar para sempre perdidos, quando poderíamos ter feito do desastre uma oportunidade para crescermos em maior audácia e em maior capacidade de empreendimento. Tenho para mim - disse eu ainda - depois do que a Morte/Ressurreição de Jesus nos revela, que que não há desgraça, por maior que seja, que não traga no seu bojo Graça, sob a forma de desafio e de pro-vocação. Toda a desgraça é também graça, desafio a crescermos, a tornarmo-nos mais maduros, mais maduros e mais audazes. E, se individualmente isto nem sempre se pode realizar, por exemplo, quando a vítima da desgraça morre ou fica para sempre inconsciente, sempre se poderá realizar ao nível da Humanidade fisicamente mais próxima que acaba de testemunhar a desgraça ocorrida.

No Hospital, entrei com a Zeza. Maria Laura teve que aguardar na entrada, por uma senha de acesso que viria a ser-lhe entregue posteriormente. Pedro, lá estava, recostado na cama, mãos envolvidas em volumosos pensos, a fazer lembrar um profissional de pugilismo. A mulher e outros familiares do Porto estavam junto dele. Reconheceram-me de imediato. E facilitaram o meu acesso e o da Zeza. Dei ao Pedro um beijo na testa, já que não tinha as mãos dele para agarrar e cumprimentar. Zeza beijou-o também. E ficámos em conversa familiar, num tom propositadamente desanuviador. O olhar de Pedro para Zeza foi de grande carinho e de compreensão. Nenhuma repreensão nesse olhar. Nenhuma censura. Zeza ainda deixou cair algumas compreensivas lágrimas, mas depressa se recompôs e prosseguiu a conversa que naturalmente se alargou aos familiares presentes. Ninguém censurou ou acusou. Todas as pessoas se mostraram profundamente humanas, cheias de compreensão. E Zeza sentiu uma grande libertação interior. Estava dado o passo decisivo para ela voltar a conduzir o processo, a ser ela própria, senhora da sua vida. Por sinal, a partir de agora, ainda mais difícil e mais exigente, por isso, a necessitar de muito mais inteligência e de muito mais capacidade de resistência. Fiquei feliz. Valeu a pena ter tomado a iniciativa de a conduzir até junto do Pedro. Ambos se reencontraram depois do acidente. Em paz. Ambos saíram mais humanos do acidente. Pelo menos, neste primeiro momento. O que virá a seguir será o desenvolvimento deste começo, se Pedro e Zeza permanecerem fiéis à verdade que liberta. Se não se deixarem corromper pela ambição, nem escravizar pela mentira. É sabido que é isso que muitas vezes acontece em casos semelhantes. Os familiares da vítima, passada a primeira emoção causada pelo acidente, deixam-se possuir pelo demoníaco que é a ambição e logo começam a sonhar aproveitar o acidente para fazerem uma pequena ou grande fortuna. Desumanizam-se e tornam-se endemoninhados. Sem entranhas de misericórdia. Ao ponto de não se importarem em desgraçar a vida das pessoas que estão do outro lado, por vezes, tão vítimas, de outra maneira, como a vítima oficialmente assim considerada. Nessa altura, desfazem-se amizades, rompem-se compromissos e passa-se por cima de tudo e de todos, só para garantirem mais uns quantos centos ou milhares de euros de indemnização. Oxalá um tal inferno não venha a acontecer nesta situação. Seria uma desgraça ainda maior do que o próprio acidente. Não é Jesus, o dos Evangelhos Sinópticos, que diz que é preferível entrar na Vida sem mãos ou sem pés do que, do que ter as duas mãos ou os dois pés e perder a face, isto é, a vida com dignidade? (cf. por exemplo, Mateus 18, 8-9). Pois é. Mas quem dos milhões de católicos paganizados que enchem as nossas missas ao domingo e as estradas de Portugal como cumpridores de promessas a nossa senhora de Fátima, já dá mostras de ter acolhido a Boa Notícia ou o Evangelho de Deus que se fez homem no meio de nós, em Jesus de Nazaré? Só essa Boa Notícia ou Evangelho, em jeito de porta estreita, tem força para humanizar até à plenitude quem entrar por ela, mas, infelizmente, a esmagadora maioria das pessoas prefere avançar pela porta larga da mentira e da ambição que nos conduz à perda do rosto, isto é, da nossa dignidade. Que tal não aconteça neste caso. Tanto quanto depender de mim, hei-de ajudar para que não aconteça.

Depois da visita, sugeri que fôssemos lanchar a um café, para que Zeza retomasse a sua vida normal. Ambas as irmãs aceitaram e acompanharam-me. Ela encomendou um sumo natural de laranja e um pão com manteiga. Comeu, com algum esforço. Mas conseguiu. Aquele alimento, ainda numa situação de deserto interior, transportou-me para a refeição do profeta Elias, no Monte Horeb. Para ele, depois de comer, poder enfrentar os combates que aí vinham a seguir contra a idolatria do eu tempo e país. A Zeza também terá combates a travar, a partir de agora. Consigo mesma e em prol das causas da verdade e da justiça. Hei-de acompanhá-la, sempre, para que ela não desfaleça. Por mais fortes que sejam os combates que vierem a ter de ser travados.

A viagem de regresso já foi muito mais leve. Inclusive, passámos por S. Pedro da Cova, para eu poder saudar a família da senhora Rosa Leiteira que estava, nessa tarde, a velar o cadáver dela. E não é que a Zeza fez questão de me acompanhar também nesse gesto de comunhão e de solidariedade na saudade e na esperança? Gostei, porque ela poderia ter optado por ficar na carrinha. Quis ir. Saiu dela própria ao encontro dos outros em dor e esperança. E com isso conseguiu dar um passo mais na sua redenção e libertação. A vida saía a ganhar. Temos mulher, pensei para mim. E sorri para a Vida.

Ao chegarmos a casa da Zeza, mostrei vontade que ela pegasse nas duas filhas e prosseguisse viagem até à Casa da Comunidade, que é simultaneamente a casa de Maria Laura e seus filhos. Mas eis que chega o Manel, na carrinha de ambos. Associamo-lo de imediato ao convite e ele aceitou com alegria. Propôs-se ir por uns frangos de churrasco, enquanto, lá em casa, prepararíamos uma salada e um arroz de tomate a correr. Assim sucedeu. Vieram as filhas do casal. Abraçamo-nos. Ambas estão muito combalidas com tudo o que está a suceder, particularmente a Sabrina, supersensível. Zeza conversou com alguma animação com as filhas, a contar a visita ao Pedro no Hospital. Em casa de Maria Laura, preparámos a ceia. E pouco depois, já estávamos todos à mesa, juntamente com os filhos dela, Rodrigo Filipe e Andreia Cristina. Partilhámos a comida e a Palavra. Tudo no meio da maior das simplicidades. Com a Zeza cada vez mais solta e a comer com gosto. Ela própria se mostrou surpreendida com o regresso do apetite e confessou: Estou a comer pelos três dias que não consegui comer!

A Vida triunfara. Zeza volta aos combates. E não são poucos, nem inofensivos. Escolheu a dignidade e, por isso, terá muito que lutar. Mas é assim que está a ser digna desta hora. Durante a ceia partilhada, ninguém falou explicitamente em Jesus. Nem era preciso. Todas, todos sabíamos que ele é que era ali a grande Presença. Não o vimos com os olhos nem o tocamos com as mãos. Vimo-lo e tocámo-lo com a consciência. E isso é mais, muito mais do que o conhecimento que vem dos olhos e das mãos. É o conhecimento da Fé que vê o Invisível e nos faz lutar contra o demoníaco que nos quer arrebatar a dignidade, em troca de sucessivos pratos de lentilhas. Por mais que viva, jamais esquecerei este dia e esta ceia com que ele culminou. Depois duma experiência/vivência destas, digam-me lá se me fazem alguma falta as missas ritualizadas nos templos. São pura alienação que nos deixam ainda mais desarmados perante o demoníaco. Elas próprias são demoníaco, como tudo o que é religioso e rotineiro. Só o Espírito de Jesus ressuscitado é criador, libertador, a Subversão e a Insurreição em acção. Só com Ele chegaremos a ser. Em plena liberdade. E total autonomia.


2004 MAIO 13

O meu novo livro, Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS, já está nas livrarias. Finalmente. Depois de quase dois meses de atraso, provocado por um virus informático que atacou a tipografia e a editora. Desejo-lhe boa sorte. Que seja acolhido/lido/debatido por muita gente. Em todo o país. E fora do país. Como já sucede com outros livros meus mais recentes, também agora os direitos de autor (10% sobre o preço de capa sem IVA) revertem integralmente para a concretização do projecto Barracão de Cultura, da Associação "As Formigas de Macieira da Lixa". Para assinalar o seu aparecimento, aqui divulgo como aperitivo o texto integral de abertura que serve de "suporte" ao título de capa. Eis:

 

Quando, em Agosto de 1962, aceitei ser ordenado pela mesma Igreja que 25 anos antes me havia baptizado, foi com o objectivo de ser padre/presbítero diferente de todos os padres que até então conhecera e que haviam marcado, uns mais, outros menos, a minha infância e juventude. Mas para mim ser diferente significava e significa ser o mais parecido possível com Jesus, o de Nazaré, desde muito cedo o meu definitivo modelo de homem. De modo algum queria/quero ser padre/presbítero ao jeito do sacerdote e do levita da parábola do Evangelho de Lucas. Os padres/presbíteros que se parecem com o sacerdote e o levita desta parábola pouco mais conhecem do que o caminho de casa para o templo e do templo para casa. Por mim, queria e quero ser padre/presbítero ao jeito do samaritano da mesma parábola lucana, capaz por isso de deixar, se necessário, o altar e o templo para me fazer próximo dos milhões de seres humanos que, depois de roubados e espancados, ainda são deixados meio-mortos nas múltiplas valetas da vida por ladrões e salteadores, não só os do sistema neoliberal e suas multinacionais, mas também os que vestem de sacerdote ou de pastor e presidem nos santuários ou noutros locais de culto, aonde as populações aflitas ingenuamente vão pela lã duma suposta ajuda espiritual e saem de lá financeiramente tosquiadas e espiritualmente anestesiadas até à próxima visita.

Evidentemente, na altura, não revelei a ninguém esta minha disposição interior, sob pena de poder ver recusada, por parte do bispo da diocese, a minha petição para ser ordenado padre/presbítero da Igreja que está no Porto. Mas era esta disposição que já então me animava e que, com o rolar dos anos, mais e mais se desenvolveu em mim e se afirmou, à medida que me via, sucessiva e compulsivamente, afastado de coadjutor da Paróquia das Antas, no Porto, de professor de religião e moral do Liceu Alexandre Herculano e do Liceu D. Manuel II, de capelão militar da Guerra Colonial, na Guiné-Bissau, e, finalmente, da paróquia de Paredes de Viadores e da paróquia de Macieira da Lixa, não sem antes ter suportado por duas vezes a Cadeia política de Caxias e ter enfrentado por outras tantas vezes o colectivo de juízes do Tribunal Plenário do Porto. Até que, a partir de Fevereiro de 1974, me vi, inopinadamente, na invulgar condição de padre/presbítero sem ofício pastoral oficial, por isso, em permanente autogestão, sem outra directiva que não a minha consciência continuamente confrontada/interpelada/desafiada pela realidade mais real e também mais escandalosa que é o mundo dos empobrecidos e empobrecidas, dos explorados e exploradas, dos oprimidos e oprimidas, dos excluídos e excluídas, dos imigrantes-mulheres-e-homens, das prostitutas, dos meninos e meninas ao deus-dará e dos sem abrigo-mulheres-e-homens. E também pelo mundo das multidões pagadoras de promessas, convertidas por isso em clientes garantidos de santuários mentirosamente ditos marianos, aonde regularmente se dirigem na expectativa de curas e de outros milagres que nunca acontecem, mas cujas romarias, entretanto, materializam outras tantas manifestações de alienação popular de me fazer doer a alma e o coração, sem que ninguém, nem mesmo os meus irmãos padres/presbíteros que aí pontificam se atrevam a evangelizá-las e a libertá-las de tamanha autoflagelação e de tamanha autocondenação.

Tal como aconteceu com Jesus, o carpinteiro de Nazaré e o filho de Maria (cf. Marcos 6, 3), quando assumiu a sua missão depois do baptismo no rio Jordão, também eu, quando aceitei a ordenação, já então percebia e hoje continuo a perceber ainda melhor que ser padre/presbítero da Igreja só faz sentido se for para ser arauto da Boa Notícia de Deus a todos os meus concidadãos e concidadãs, a começar pelos mais pobres-mulheres-e-homens. Já então compreendia e hoje continuo a compreender ainda melhor que a minha missão como padre/presbítero era/é evangelizar os pobres. E, a partir dos pobres e com os pobres, evangelizar todos os homens e todas as mulheres. Para que todas e todos nos levantemos e mobilizemos como um exército em linha de batalha contra a pobreza, até a erradicarmos do nosso mundo. E contra a riqueza acumulada, até conseguirmos que toda ela passe a ser riqueza partilhada segundo as necessidades reais de cada povo e de cada pessoa que vem a este mundo.

Por outras palavras, o facto de eu ser padre/presbítero da Igreja faz de mim, no meio da sociedade em que vivo, uma activa e fecunda presença maiêutica (ao jeito da parteira), em ordem a que pelo menos algumas mulheres e alguns homens meus concidadãos também se atrevam a nascer de novo, segundo o Sopro ou o Espírito que historicamente animou e conduziu em pleno Jesus, o de Nazaré, de modo que cheguem a ser tão sororal/fraternalmente humanos e humanizadores do mundo quanto ele foi/é.

Mas não só. O facto de eu ser padre/presbítero da Igreja faz de mim um homem para os demais, evidentemente, na via do serviço libertador, não na do poder opressor, que é também a da caridadezinha. Pelo que é de esperar que a minha acção quotidiana despolete novos começos a partir de cada nova geração que chega a este mundo; desperte/acorde consciências adormecidas; faça emergir sujeitos e protagonistas, lá onde só costumamos esbarrar com assistidos e gente-objecto; liberte progressivamente as pessoas e os povos de todos os ancestrais medos e de todas as opressões que as religiões sempre desenvolvem; recrie e humanize a própria Natureza; suscite esperanças comprometidas e militâncias políticas libertadoras e solidárias; levante do chão multidões de prostradas e de prostrados; faça andar multidões de paralíticas e de paralíticos; faça falar multidões de mudas e de mudos; faça ver multidões de cegas e de cegos; ressuscite multidões de mortas e de mortos. Numa palavra, contribua para contagiar tudo e todos da Utopia maior do Reino de Deus, de modo que os indivíduos e os povos jamais desistam de dar corpo nos seus corpos a uma terra cada vez mais casa-comum-de-toda-a-humanidade, alegremente sentada em redor duma única mesa feita de inúmeras pequenas mesas, todas elas cheias de Pão Partido, que é o único que desperta em nós todas aquelas fomes que nos fazem ser/viver como humanos, e cheias de Vinho Derramado, que é o único que historicamente nos compromete na construção de um mundo cada vez mais humano e mais fraterno/sororal, sempre a partir deste que hoje conhecemos e que havemos de amar até à doação da própria vida.

Entretanto, desde muito cedo também compreendi que se queria ser padre/presbítero deste jeito, não podia pretender continuar a viver indefinidamente do altar e do templo. Tão pouco poderia continuar a depender economicamente do bispo da diocese, tanto mais quanto ele, infelizmente, foi mentalizado para funcionar como uma espécie de patrão-mor da Igreja local, com poder absoluto e indiscutível, que põe e dispõe dos “seus” padres/presbíteros, conforme lhe apraz, sem que as paróquias que o sustentam a ele e aos respectivos párocos alguma vez sejam tidas ou achadas.

Esta consciência levou-me naturalmente a procurar um trabalho profissional remunerado. Na altura, era ainda pároco de Macieira da Lixa. Mas já então fiz diligências concretas neste sentido. O surpreendente é que quando a notícia das minhas diligências chegou aos ouvidos do bispo da diocese, este apressou-se a comunicar que me retiraria a paróquia no mesmo dia em que eu começasse a ser padre/presbítero com trabalho profissional remunerado.

Vai daí, só mais tarde, já na condição de padre/presbítero sem ofício pastoral oficial, é que passei a ser jornalista profissional e é dessa actividade que ainda hoje vivo. Como gosto de dizer, aliás bem na esteira do dizer/fazer do próprio apóstolo Paulo, sou jornalista de profissão e padre/presbítero por vocação, portanto, de graça (cf. 2Coríntios 11, 7-11). Neste sentido, até os direitos de autor que me são atribuídos pela venda dos livros que ultimamente tenho publicado (não pensem que é muito, apenas 10% sobre o preço de capa sem IVA), faço questão de os partilhar com duas associações que ajudei a fundar e que visam fins culturais fecundamente libertadores, não fins de beneficência ou de assistência.

É claro que com um itinerário presbiteral tão diferente do que sempre foi mostrado aos antigos, também o meu dizer presbiteral teria que ser inevitavelmente diferente do que sempre foi dito aos antigos. Diferente, não só na forma, mas também no conteúdo.

A verdade é que sempre que falo ou escrevo, cuido primeiro em perscrutar nos sinais dos tempos por onde está a acontecer ou a passar a Boa Notícia ou Evangelho de Deus que importa fazer chegar aos pobres e, por eles e com eles, ao resto da Humanidade, minha contemporânea.

Só que a boa notícia, de sua natureza, não o é para toda a gente ao mesmo tempo. Se é, por exemplo, boa notícia para os pobres e para as maiorias empobrecidas e oprimidas do mundo, começará inevitavelmente por ser percebida como má notícia pelas minorias ricas e poderosas que fabricam e matam os pobres. E assim será sempre, enquanto estas minorias não se converterem e não aceitarem nascer daquele mesmo Sopro ou Espírito que actuou plenamente em Jesus, o de Nazaré, e fez dele o Cristo, ou o Ser Humano por antonomásia.

Sucede por isso que, desde o primeiro dia do meu exercício presbiteral até ao presente, também o meu dizer presbiteral em público e em privado tem sido sempre muito distinto do que sempre foi dito aos antigos. Sempre o meu dizer presbiteral procura ser evangelho ou boa notícia de Deus. Apresenta-se, por isso, despojado de moralismo, é um dizer que anda pelos antípodas da sacristia, não anatematiza ninguém, muito menos os pobres e os fracos, tem forte pendor político e fecundo pendor libertador, vai directo aos problemas e às preocupações das pessoas e dos povos, denuncia a mentira encapotada e a injustiça que se disfarça de esmola e de caridadezinha, tira o guarda-chuva teológico aos ricos e poderosos que esmagam os pobres e os fracos, desmascara a religião que sempre se tem feito passar pelo que de melhor as pessoas e os povos realizam, quando, afinal, não passa de pura idolatria encapotada e de culto/cultivo do medo, quando é frequentada pelas maiorias empobrecidas e oprimidas, e de culto/cultivo da hipocrisia, quando é frequentada pelas minorias privilegiadas e poderosas.

Posso até adivinhar que foi por causa deste meu dizer, sempre em jeito de boa notícia e de denúncia sem gaguejar, aliado ao meu fazer fraternal, alegre e ternamente próximo das pessoas, que tive que sair compulsivamente de coadjutor das paróquia das Antas, de professor de religião e moral do Liceu Alexandre Herculano e do Liceu D. Manuel II. Foi também por causa deste meu dizer/fazer assim, que fui expulso de capelão militar, ao fim de apenas quatro meses de serviço em Mansoa, Guiné-Bissau, e me vi obrigado a ter que regressar à diocese do Porto com o rótulo de “padre irrecuperável”, dado pelo então bispo castrense, D. António dos Reis Rodrigues. Foi igualmente este meu dizer/fazer assim frontal e directo que levou o Administrador apostólico da diocese, D. Florentino de Andrade e Silva,  a exonerar-me da paróquia de Paredes de Viadores, ao fim de catorze meses. E foi ainda por causa deste meu dizer/fazer que conheci por duas vezes a cadeia de Caxias e fui julgado outras tantas no Tribunal Plenário do Porto. Finalmente, é ainda por causa deste meu dizer/fazer que me vejo privado de qualquer ofício pastoral oficial na Igreja do Porto que me baptizou, quando eu tinha apenas quinze dias de vida, e me ordenou padre/presbítero, quando eu tinha 25 anos.

É por demais manifesto que sou um padre/presbítero muito diferente da generalidade dos padres/presbíteros conhecidos pelos antigos. Não digo que sou melhor nem pior. Sou diferente. Enquanto eles gastam o melhor das suas vidas como funcionários eclesiásticos, às ordens do bispo residencial que os nomeia e mantém em funções, se eles, é claro, não dissentirem abertamente dele e das suas orientações ditadas em conformidade aos cânones do Código de Direito Canónico e do Catecismo da Igreja Católica (quer o Evangelho, quer Jesus Crucificado/Ressuscitado não interessam para nada aos responsáveis-mor do Sistema eclesiástico, pelo contrário, só atrapalham e semeiam a desordem. E do Espírito Santo é melhor nem falar!...), eu, felizmente, já liberto de todas essas cangas eclesiásticas tradicionais, procuro viver o ministério presbiteral próximo dos mais pobres, numa terra onde nem as professoras costumavam aquecer o lugar, de tão má fama que tinha (hoje, felizmente, tudo é diferente e só tenho que me alegrar com a radical mudança que se operou), bem longe dos templos e dos altares, sem quaisquer privilégios, sem ofício pastoral, sem bilhete de identidade presbiteral emitido pelo bispo da diocese e numa comunhão eclesial que praticamente não tem tido outra correspondência de lá para cá, a não ser a do total ostracismo a que me têm votado (é uma espécie de comunhão do avesso, mas ainda é comunhão!)

Mesmo assim, é com alegria que prossigo este meu viver presbiteral, na convicção de que a Igreja que me baptizou e ordenou tem mais benefício comigo do que malefício. Por isso, se alguma coisa peço aos meus irmãos e irmãs católicos é que se alegrem comigo e com a minha originalidade. Porque, como todas e todos sabemos, o Espírito fala todas as línguas, e também falará a minha. Se calhar, até falará mais a minha, ou Ele não fosse por revelação bíblica o Defensor dos pobres, dos órfãos e das viúvas, o que suscita dizeres e fazeres na História politicamente incorrectos e socialmente comprometidos, fecundamente libertadores, drasticamente anti-religiosos/anti-idolátricos, como sobejamente se mostra no dizer/fazer dos profetas bíblicos e não bíblicos e, sobretudo, no dizer/fazer de Jesus, o Crucificado/Ressuscitado em quem Deus, O-que-vive-e-faz-viver, reconheceu o seu Filho muito amado.

É com ele – e o seu Espírito – que vivo. Melhor, é ele – e o seu Espírito – quem vive em mim e me faz viver. Numa comunhão que nada nem ninguém pode impedir. Só por isso é que posso titular este meu novo livro com palavras que são dele e não minhas, ou melhor, que são minhas na medida em que são dele: “Ouvistes o que foi dito aos antigos. Eu, porém, digo-vos” (cf. Mateus 5, 21-22).

Só mesmo um surdo que não queira ouvir e um cego que não queira ver é que hoje não sabe que, por causa do que foi dito aos antigos, as pessoas e os povos passaram todos os dias das suas vidas cheios de medo de Deus, oprimidas e tolhidas, no meio duma terra que tinham como um “vale de lágrimas”, um lugar e um tempo onde penavam pelos seus pecados e prestavam culto a Deus nos templos, em dias e horas certos, na esperança de, assim, alcançarem o céu, depois da morte e, ainda assim, só depois duma inevitável passagem mais ou menos prolongada pelo purgatório, onde as suas almas seriam limpas de toda a mancha ou impureza contraída na terra!...

Pois bem, com este meu dizer/fazer, que procura ser actualização do dizer/fazer de Jesus, o de Nazaré – esse mesmo que destruiu simbolicamente o templo, que não gosta de religião mas de política, que não se preocupa com o céu mas com a terra, que come à mesa com os pecadores e as prostitutas, em lugar de anatematizar uns e outras do alto dos altares ou dos púlpitos, e que acabou crucificado por decisão dos sacerdotes e dos poderosos do seu país, mas que dessa maneira nos ensinou a todas e a todos como havemos de ser/fazer para sermos mulheres e homens de corpo inteiro, com entranhas de misericórdia e sem dobrar a espinha diante das injustiças e dos injustos que fabricam e sacrificam/matam os pobres – espero singelamente contribuir para restituir ao Cristianismo e à Igreja o rosto e o sopro jesuánicos que ambos têm que voltar a ter, para serem de novo um cristianismo e uma Igreja abertamente amigos e companheiros das pessoas e dos povos, cheios de misericórdia e tolerantes para com todas as nossas fragilidades, por isso, bem nos antípodas do sacrificialismo doentio tão do gosto das deusas e dos deuses dos cultos dos mistérios do Paganismo, escandalosamente veiculado e alimentado entre nós pela sádica deusa/senhora de Fátima, a qual, no paroxismo da sua paranóia, conseguiu sentir-se honrada com o sacrifício e a morte prematura de duas das três crianças que foram sacrilegamente envolvidas na mentira encenada entre 13 de Maio e 13 de Outubro de 1917, bem como com o enclaustramento por toda a vida da restante, a qual, graças a ser um pouco mais velha e muito menos emotiva do que os seus primitos, conseguiu sobreviver, mas se calhar, para seu mal, a toda aquela trapaça clerical católica sem tom nem som. Um cristianismo e uma Igreja boa notícia que, entre outras ousadias, tenha a ousadia de acabar de imediato com a imoral disciplina do celibato obrigatório e com o monopólio do ministério ordenado para os homens cristãos católicos.

Aliás, a este propósito, se me é permitido expressar publicamente um apelo pessoal, ele aqui fica: que, a partir de agora, os homens cristãos católicos recusem ser ordenados de diácono, de presbítero e de bispo, enquanto as mulheres cristãs católicas também o não forem, em total igualdade com eles, e enquanto não for definitivamente abolida a disciplina do celibato obrigatório, até para que o celibato opcional possa aparecer como surpreendente carisma na Igreja.

Já agora, deixo, a concluir, um outro apelo: Leiam estes meus textos/ensaios teológicos com a mesma ternura com que eu os escutei e escrevi. Sem pressas. E, se possível, em diálogo com outras pessoas amigas. Verão como se tornarão mulheres e homens mais humanos, à medida que o fizerem. Ao mesmo tempo, aceitem o meu abraço e o meu beijo de amigo, companheiro e irmão.

Mário de Oliveira, padre/presbítero da Igreja católica.


2004 MAIO 10

Passei grande parte deste dia na cidade do Porto. A tratar de documentos que tenho que juntar ao documento a requerer a minha reforma como jornalista. Passei pelos Liceus Alexandre Herculano e D. Manuel II, nos quais fui professor de Religião e Moral, nos anos lectivos entre 1963 e 1967. Foi uma romagem carregada de emoção e de festa. Só tenho boas recordações desses tempos. Os antigos alunos que tenho encontrado, agora, ao longo dos anos, são unânimes em reconhecer que marquei indelevelmente pela positiva a sua personalidade. E deles também eu recebi muito. Foram meus mestres, mais do que meus alunos.

Ao final da tarde, fui ao salão da Paróquia de Cristo Rei, à Foz, participar na homenagem ao editor Mário Figueirinhas, meu amigo de longa data, exactamente, desde 1969, quando pela primeira vez o abordei com o original do meu primeiro livro Evangelizar os pobres, para ver se ele aceitava publicá-lo. E ele aceitou. Apesar da polémica que já então representava a sua publicação. Nunca mais nos perdemos de vista. E ele ainda hoje faz questão de se manter como assinante do Jornal Fraternizar. A sessão serviu também para lançar um novo livro do meu amigo e companheiro, Frei Bento Domingues, As religiões e a cultura da paz, 2.º volume, com prefácio da escritora Lídia Jorge. A edição é do próprio Mário Figueirinhas.

Não esperava nada encontrar-me com o bispo da Diocese. Mas ele foi convidado a presidir à sessão de homenagem e aceitou. Fiquei surpreendido quando o vi chegar. Do programa, nada constava. Foi surpresa para toda a gente. É claro que fui de imediato cumprimentá-lo. E ele, quando me viu, deixou transparecer no rosto alguma satisfação manifestamente contida. Mas o mais surpreendente estava ainda para vir. Quando me encaminhei na direcção dele, convidei Maria Laura, presbítera não-ordenada da Comunidade que estava comigo, para que me acompanhasse, porque queria apresentá-la ao Bispo. Ela não se fez rogada e, na sua simplicidade, avançou. E eu apresentei-a. O Bispo fixou-a bem de alto abaixo e estendeu-lhe a mão em cumprimento. Maria Laura, como é seu timbre, não se ficou pelo cumprimento formal. Apertou-lhe a mão com as suas duas mãos e ainda iniciou um abraço com muito entusiasmo. D. Armindo não contava com essa explosão de ternura feminina, mas, mesmo assim, correspondeu de forma algo contida e atrapalhada. Tudo teria sido muito mais expressivo, se o bispo não fosse tão hierático. Mas infelizmente estes homens eclesiásticos assumem-se mais como funcionários do que como seres humanos, irmãos e companheiros de toda a gente. Parece que têm medo de perder algo. E fazem tudo para manterem a distância das outras pessoas. São poder, mais do que seres humanos. Nem sequer vêem que essa é a sua desgraça. E a desgraça da Igreja a que presidem. Porque, quando o que preside à Igreja não o faz in persona Christi, com a ternura e a misericórdia de Jesus, o Cristo, transforma a Igreja numa camisa de forças e numa casa de opressão. Mesmo assim, Maria Laura ficou entusiasmada. E já pondera a hipótese de lhe escrever uma carta pessoal a convidá-lo a vir sentar-se à mesa da sua casa que é, simultaneamente, a Casa da Comunidade. Já em tempos ela lhe escreveu, mas a verdade é que D. Armindo nem sequer lhe respondeu. Pode parecer insignificante esta omissão, mas não é. É um pecado grave de omissão que o prejudica a ele, primeiro, e depois a toda a Igreja. Bem sei que um Bispo residencial não gosta de enveredar por práticas que desagradem à Cúria do Vaticano. Mal sabem eles que quanto mais desagradarem à Cúria do Vaticano mais bispos da Igreja são. O preço que se paga por isso é elevado, mas vale a pena. Porque o que não for assim não presta. Pode dar sossego eclesiástico, mas desumaniza. Converte os bispos em funcionários. E não há pior desgraça para a Igreja de Jesus do que bispos ser presidida por funcionários eclesiásticos. Eles deixam de ser humanos e passam a gestores e administradores sem entranhas de misericórdia, incapazes de se emocionarem. Ora, quando um homem não se emociona é sinal de que já se converteu numa estátua de sal. À semelhança da mulher de Lot.

Para lá do bispo do Porto, um outro bispo compareceu na homenagem ao editor Mário Figueirinhas: o bispo resignatário de Nampula, Moçambique, D. Manuel Vieira Pinto, já de muitos anos. Quando cheguei, já ele estava fraternalmente sentado ao lado de Mário Figueirinhas, o qual, para surpresa minha, faz-se deslocar sentado numa cadeira de rodas, em consequência de um ataque cerebral que o deixou bastante danificado, mas uma presença ainda mais uma terna. Quando o cumprimentei - emocionei-me ao vê-lo na cadeira de rodas e dei-lhe um beijo de muito carinho na testa - falei-lhe do livro Evangelizar os pobres e ele sorriu para mim. O livro, na altura, fez história, sobretudo, depois da minha primeira prisão política em Caxias e do consequente julgamento no Tribunal Plenário do Porto. Quando se soube que eu tinha um livro publicado, as edições sucederam-se umas às outras, tamanha foi a procura, apesar dos tempos então serem de dura repressão.

Da Editora Figueirinhas, recebi para a correspondente recensão no FRATERNIZAR, um exemplar do livro de Frei Bento. Aproveitei e fui depois com ele ao autor por um autógrafo. Fi-lo com alguma expectativa acerca da mensagem/dedicatória que Frei Bento me dirigiria. Ele sorriu abertamente para mim e escreveu: "Para o eterno Mário de quem recebo o Evangelho continuamente. Com o abraço do Frei Bento". Comovi-me quase até às lágrimas, quando, já na rua, fui ver o que ele havia escrito. Nunca Frei Bento me disse uma coisa destas. É uma dedicatória que muito me responsabiliza. E que me deixou em eucaristia interior. E em Magnificat. Obrigado, Frei Bento.

"Nestas crónicas - escreve Lídia Jorge no Prefácio do livro - prolongamento de Frei bento como pessoa, o seu raciocínio nunca está separado da massa sensível que habita as coisas e os seres. Ao ler-se Frei Bento Domingues, percebe-se que se está perante um homem aberto à grandeza. À grandeza do cosmos, à magnânima fragilidade do humano, ao rosto irrepetível nas multidões, à pele da História, inocente e deslumbrado como se fosse um poeta que escolheu à partida a luz do princípio iluminado, e fez dele o seu método de clareza. Porém, dentro de si, conserva intactas essas duas coisas. Só assim se entende que seja um pregador tão hábil, homem de cerimónia e de parcimónia, capaz da paciência e da piedade pelos outros, no circuito do próprio raciocínio. Alguém que discorda, surge contra mas não se in-surge, não cria cisma. Entre os seus, percebe-se muito bem o que recusa, como recusa, porque recusa. O próprio Papa e o Cardeal Ratzinger, bem como Fátima e outras entidades, são figuras que surgem no rodapé dos seus reparos. Há nele, porém, uma forma cordata de discórdia, que passa muito mais pela insistência do que pela indignação."

Este foi um dia de muito alimento espiritual para mim. E deste alimento, Frei Bento e Mário Figueirinhas, bem como o Bispo Manuel, como ele próprio gostava de assinar os seus documentos, quando era bispo residencial de Nampula, foram sem dúvida os que mais me deram hoje. Curiosamente, nenhum deles usou da palavra nas sessões. Já o Bispo D. Armindo não foi capaz, infelizmente, de sair da camisa de forças eclesiástica em que vive aprisionado. Nem sequer a força da ternura de Maria Laura conseguiu desencadear esse êxodo libertador. Se dúvidas houvesse, bastaria atentar no que ele (não) disse, a encerrar a homenagem ao editor Mário Figueirinhas. Foi a prova provada de que um funcionário eclesiástico que se assume como tal mata em si o ser humano nascido de mulher, pois, para o ser, teve que aceitar nascer da besta que é o poder. E quanto mais no topo da pirâmide vier a estar, menos humano é. Mas se não é humano, o que será?!


2004 MAIO 08

O dia de hoje fica marcado pela Ceia Eucarística mensal, prevista para o segundo sábado de cada mês, na sala principal da Casa da Comunidade. Apesar de ter sido anunciada ao povo da freguesia de Macieira da Lixa, na primeira Carta Presbiteral que lhe dirigi e que foi entregue à mão em todas as casas, pode dizer-se que foram praticamente nenhumas as pessoas que apareceram na sequência desse anúncio. Entre as poucas pessoas que apareceram (e que teriam aparecido mesmo sem o anúncio feito através da Carta), o destaque vai para a família Faria, melhor, as famílias Faria que nem sequer residem na freguesia, mas nos limites dela, já do lado da freguesia de Caramos. Os elementos destas duas casas apareceram em peso e trouxeram com eles uma amiga ainda jovem, mas já mãe separada do marido. Fátima apresentou-se com o filhinho Bruno nos braços, um menino cem por cento deficiente, e cujo pai, para cúmulo, não tem querido saber do filho para nada. O menino acabou por ser, inesperadamente, a grande presença de Deus nesta Ceia Eucarística, a desafiar-nos a todas, a todos para irmos sempre mais e mais além em dedicação e em entrega de nós próprias, de nós próprios para a edificação duma humanidade e dum mundo outros. Vieram também alguns companheiros de fora - Assis, de VN Gaia; Rute, de Gondomar; Armando/Alice, de Penafiel; Teixeira, da Aparecida; Emília, de Várzea (Felgueiras) - dos muitos que foram alertados/convidados por mim, via mensagem telemóvel. É claro que me alegrei com as presenças, mas não deixo de reconhecer que tantas ausências, mesmo de pessoas que foram expressamente lembradas da data e da iniciativa, deixam-me sempre perturbado e em grande reflexão interior. E logo o meu pensamento corre para a parábola que Jesus contou dos convidados para a boda e que todos à uma declinaram o convite, por razões objectivamente válidas para os próprios, mas completamente desajustadas, quando confrontadas com a importância do convite em causa. Bem sei que, neste caso, trata-se duma simples Ceia Eucarística, não do convite formal a trabalharem a tempo inteiro no Reino/Reinado de Deus. Bem sei que as pessoas podem não vir a esta Ceia Eucarística e continuarem a ser pessoas ocupadas com as causas do Reino/Reinado de Deus. Mas custa ter que reconhecer como o peso da rotina dos dias é, hoje, tão forte na vida das pessoas, inclusive, das mais militantes. Em relação às pessoas da freguesia, o caso reveste ainda outra gravidade. Deixa perceber que as pessoas continuam a preferir a rotina paroquial, os ritos esteriotipados e vazios das missas de domingo; têm medo do Novo, continuam prisioneiras da paroquialite, não são livres para optar. A freguesia é uma aldeia pequena, toda a gente conhece toda a gente, toda a gente controla toda a gente. E é preciso muita coragem para romper com as pressões dos olhares dos vizinhos e de uns quantos senhores que ainda actuam como forças de bloqueio. Isto para não falar do medo que o Evangelho de Jesus inspira, ao desafiar-nos a viver a liberdade e a responsabilidade, quando o geral das pessoas prefere viver como rebanho, num dia a dia sem ondas, sem Espírito, sem convulsões, sem conflitos. Está visto que os católicos tradicionais continuam a ser sobretudo fiéis aos antepassados, como se estes é que fossem o seu Deus. Jesus e a Boa Notícia que ele historicamente é para a Humanidade, não lhes interessam. Só atrapalham. Tanto assim que nenhuns, ou apenas muito poucos são os que se atrevem a ser mulheres, homens ao jeito de Jesus. É este aspecto que me dá imensa pena e tristeza. Porque, ao procederem assim, as pessoas revelam que nem o chegam a ser verdadeiramente. Nascem e morrem sem nunca terem chegado a saborear a liberdade. São, por isso, mais animais racionais que seres humanos livres e criadores. Preocupam-se com garantir a satisfação das suas necessidades básicas, sem alguma vez chegarem a sentir as vertigens da liberdade que nos leva a termos a vida nas próprias mãos. Eu bem lhes lanço o desafio. Mas em vão. Pelo menos, para a maior parte. Eu devo aparecer-lhes como um louco ou um demónio de quem têm que se defender. E lá prosseguem na sua mediania, no seu analfabetismo, na sua rotina, nos seus trabalhos quotidianos. E também nas suas novelas. Ou nos seus futebóis. Ou nos seus copos. Como uns reis, mas às avessas.

A ceia eucarística abriu com uma saudação que previamente escutei e escrevi para dizer nessa altura. Pedi para ela a atenção das pessoas que se dispuseram a participar. Aqui a deixo na íntegra: "Saúdo-vos fraternalmente em nome de Jesus. E em nome de toda a Humanidade, em especial a mais empobrecida e mais excluída, com quem ele se identifica. Concretamente, saúdo-vos em nome das 200 mil pessoas que, nesta altura, passam fome no nosso país; e em nome dos cerca de 500 mil desempregados, mulheres e homens, nossos concidadãos; em nome dos milhares de portuguesas e portugueses que continuam nas listas de espera, pela indispensável intervenção cirúrgica que tarda em chegar; em nome dos imigrantes oriundos de múltiplos países do mundo que (sobre)vivem entre nós e são vergonhosamente explorados, na maior parte dos casos, à vista de toda a gente e perante o silêncio cúmplice de toda a gente; em nome das prostitutas pobres que aguardam os clientes na rua ou nas bermas das estradas; em nome dos doentes de cancro e de sida, em fase terminal; em nome das mulheres e dos homens da rua; em nome dos palestinianos espoliados das suas casas e das suas terras; e em nome dos iraquianos maltratados no seu país ocupado em força pelas tropas dos EUA e da Inglaterra.

Esta mesa comum, sobre a qual colocámos as ceias que confeccionámos previamente e quisemos aqui partilhar entre todas, todos, como um pedaço de cada uma, cada um de nós, é um sinal/sacramento que nos fala do presente da Humanidade e que anuncia um futuro diferente. Falta, evidentemente, realizá-lo na História, a menos que procedêssemos como aqueles que pensam que a História já chegou ao fim e não há sequer possibilidade de mais nada de novo debaixo de sol. Esta ceia que quer ser experiência de plenitude de vida doada e de alegria compartilhada - a Eucaristia é, por isso, um acontecimento do Espírito, bem nos antípodas da missa católica que a substituiu e fez dela um rito alienante sem sentido e até sacrílego - há-de ser o alimento que hoje tomamos para, em cada um dos dias que se lhe seguem, ousarmos realizar, na medida das nossas possibilidades, o futuro que este sinal/sacramento, em toda a sua simplicidade, revela e anuncia.

Acusam-me muitas, muitos de que falo muito de Política e faço Política, quando, no entender dessas mesmas pessoas que me acusam, deveria falar de Religião e fazer Religião. Mas que querem? Deus, o de Jesus, em nome de quem nos reunimos também esta noite, é o primeiro a revelar que gosta de Política e detesta a Religião. Vomita-a. Dá-lhe nojo. A Religião sempre existiu, desde que existe a Humanidade. Foi inventada pelos povos cheios de medo dos deuses que eles imaginavam presentes por toda a parte. A novidade que Jesus nos trouxe há uns dois mil anos (com ele começou a Humanidade estruturada na liberdade) e por causa da qual foi crucificado, é esta: Deus não gosta de Religião. Do que Deus gosta é de Política! Andavam e andam as pessoas e os povos super-atarefados com a Religião, com a construção de templos e basílicas, com cultos nos santuários, com alfaias e asseio de altares, com rezas, promessas a fazer e a cumprir, com santas, santos, numa palavra, com todo esse vergonhoso comércio religioso, na ilusão de que Deus gostava dessas coisas. E eis que chega Jesus e diz: Estais muito enganados! Deus não gosta nada dessas coisas. Tudo isso dá-lhe nojo, vómitos. Do que Deus gosta é de Política, isto é, do que Deus gosta é de ver as pessoas e os povos a trabalhar incansavelmente para serem felizes, saudáveis, cultos, desenvolvidos, livres, responsáveis, senhores dos próprios destinos. Quem gosta de Religião sois vós que, na vossa preguiça e no vosso egoísmo, pensais que com a Religião ides conseguir dominar e controlar Deus e assim pô-lO ao vosso serviço e ao serviço dos vossos interesses. Quereis que Deus vos substitua, que faça milagres para suprir o vosso esforço. Quem gosta de Religião são também os sacerdotes, os pastores das Igrejas e outros funcionários da Religião, assim como os donos ou gestores dos santuários, nomeadamente, dos grandes como o de Fátima, no nosso país, ou a basílica de S. Pedro em Roma. Deus, não. Do que Deus gosta é de Política, é de ver-nos a todas, todos, a fazer esforço para chegarmos a ser gente, para sairmos da miséria, da doença, da ignorância, do analfabetismo e chegarmos a ser pessoas cultas, saudáveis, ilustradas, sábias, capazes de organizarmos o mundo e a sociedade de tal maneira que todas as pessoas e todos os povos sejam felizes.

A Religião mantém-nos no infantilismo. A Política faz-nos crescer, obriga-nos a intervir na História. O que eu quero - diz Deus em Jesus - é que vós cresçais no mundo e eu diminua. Por isso vos digo: Convertei-vos! Isto é, deixai de vez a Religião, os templos, as rezas, o medo de Deus! Renunciai de vez a tudo isso que vos aliena e perturba. Olhai o mundo e atrevei-vos a crescer para o organizardes de outro modo. Sede peritos em economia, em medicina, em ciências sociais e noutros ramos do saber humano, para fazerdes do mundo um espaço de felicidade para todas as pessoas e para todos os povos. Convertei-vos! Fazei-vos adultos no mundo. E comportai-vos nele e com ele como adultos! Para tanto, alimentemo-nos com esta Ceia Eucarística. Comamos e bebamos com moderação. E em diálogo sobre estes pontos que vos deixo nesta saudação. Comamos e bebamos sem barulho. Como adultos que se querem e se amam e se respeitam. Depois, prosseguiremos a ceia, mas a comer sobretudo a Palavra com Espírito que nos há-de fazer mulheres e homens ao jeito de Jesus!"

Quase no final da comida em comum, tomei o Evangelho de João e proclamei a Boa Notícia contida no capítulo 21. É o último capítulo do quarto Evangelho canónico. Para que melhor possamos entender o diálogo maiêutico que se lhe seguiu, dinamizado também por mim, creio ser conveniente transcrevê-lo integralmente aqui. Tem duas partes, cada qual a mais oportuna, também para o nosso hoje e aqui. Se repararmos bem, este capítulo é uma espécie de "Actos dos Apóstolos", à semelhança do que escreveu Lucas. Só que Lucas escreveu um segundo volume e João apenas um capítulo. Mas o essencial da mensagem está contido aqui, como em semente. Daí a sua importância. Infelizmente, a Igreja não tem ido além duma leitura superficial, literalista, infantil, colada ao maravilhoso e ao milagreiro. O que não tem nada a ver com Jesus, o homem do Espírito, por isso, o promotor de protagonismos, totalmente avesso a milagrismos que infantilizam quem se deixa ir por eles. Eis o capítulo em causa:

Algum tempo depois. Jesus apareceu outra vez aos discípulos, junto ao lago de Tiberíades, e manifestou-se deste modo: Estavam juntos Simão Pedro, Tomé a quem chamavam o Gémeo, Natanael de Caná da Galileia, os filhos de Zebedeu e outros dois discípulos. Disse-lhes Simão Pedro: "Vou pescar". Eles responderam-lhe: "Nós também vamos contigo". Saíram e subiram para o barco, mas naquela noite não apanharam nada. Ao romper do dia, Jesus apresentou-se na margem, mas os discípulos não sabiam que era ele. Jesus disse-lhes: "Rapazes, tendes alguma coisa para comer?" Eles responderam: "Não!" Disse-lhes ele: "Lançai a rede para o lado direito do barco e haveis de encontrar." Lançaram-na e, devido à grande quantidade de peixes, já não tinham forças para a arrastar. Então o discípulo que Jesus amava disse a Pedro: "É o Senhor!" Simão Pedro, ao ouvir que era o Senhor, apertou o saio, porque estava sem mais roupa, e lançou-se à água. Os outros discípulos vieram no barco, puxando a rede com os peixes; com efeito, não estavam longe da terra, mas apenas a uns noventa metros. Ao saltarem para terra, viram umas brasas preparadas com peixe em cima e pão. Jesus disse-lhes: "Trazei dos peixes que apanhastes agora." Simão Pedro subiu à barca e puxou a rede para terra, cheia de peixes grandes: cento e cinquenta e três. E, apesar de serem tantos, a rede não se rompeu. Disse-lhes Jesus: "Vinde comer". E nenhum dos discípulos se atrevia a perguntar-lhe: "Quem és tu?", porque sabiam que eram o Senhor. Jesus aproximou-se, tomou o pão e deu-lho, fazendo o mesmo com o peixe. Esta foi a terceira vez que Jesus apareceu aos seus discípulos, depois de ter ressuscitado dos mortos.

Depois de terem comido, Jesus perguntou a Simão Pedro: "Simão, filho de João, tu amas-me mais do que estes?" Pedro respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo." Jesus disse-lhe: "Apascenta os meus cordeiros." Voltou a perguntar-lhe uma segunda vez: "Simão, filho de João, tu amas-me?" Ele respondeu: "Sim, Senhor, tu sabes que eu sou deveras teu amigo." Jesus disse-lhe: "Apascenta as minhas ovelhas." E perguntou-lhe pela terceira vez: "Simão, filho de João, tu és deveras meu amigo?" Pedro ficou triste por Jesus lhe ter perguntado à terceira vez: "Tu és deveras meu amigo?", mas respondeu: "Senhor, tu sabes tudo; tu bem sabes que sou deveras teu amigo!" E Jesus disse-lhe: "Apascenta as minhas ovelhas. Em verdade, em verdade te digo: quando eras mais novo, tu mesmo atavas o cinto e ias para onde querias; mas quando fores velho, estenderás as mãos e outro te há-de atar o cinto e levar para onde tu não queres." E disse isto, para indicar o género de morte com que ele havia de dar glória a Deus. Depois destas palavras, acrescentou: "Segue-me!" Pedro voltou-se e viu que o seguia o discípulo que Jesus amava, o mesmo que na ceia se tinha apoiado sobre o seu peito e lhe tinha perguntado: "Senhor quem é que te vai entregar?" Ao vê-lo, Pedro perguntou a Jesus: "Senhor, e que vai ser deste?" Jesus respondeu: "E se eu quiser que ele fique até eu voltar, que tens tu com isso? Tu segue-me!" Foi assim que entre os irmãos correu este rumor de que aquele discípulo não morreria. Jesus porém não disse que ele não havia de morrer, mas sim: "Se eu quiser que ele fique até eu voltar, que tens tu com isso?"

A proclamação desta Boa Notícia foi feita, ainda alguns companheiros comiam. Fez-se naturalmente mais silêncio na sala da Casa da Comunidade, onde a Ceia Eucarística decorreu. Depois, antes ainda de iniciarmos o diálogo maiêutico, cantámos um canto de Páscoa que já nos acompanha na Comunidade há vários anos, mas que continua a ser desafiador. A música com que o cantamos é conhecida, mesmo em certas paróquias mais abertas, cujo coro diz: "Saber que virás, saber que estarás, partindo aos pobres teu pão". Outra, muito outra é a nossa letra. Diz assim:

Coro:

Saudemos com danças

o mundo que vem

porque ele será comunhão!

1. Tu que és capaz de servir teu vizinho

até dar a vida por ele

e até nos momentos mais duros da vida

não deixas de ser solidário

és corpo vivo nascido da Páscoa

com quem todas/todos podem contar

2. Tu que te ergues contra a opressão

lá onde quer que ela se esconda

e neste combate arriscas a vida

até que haja libertação

és corpo vivo nascido da Páscoa

com quem muita gente se alegra

3. Tu que estás sempre do lado dos fracos

num mundo que é feito pelos fortes

e deste teu estar acontece que eles

se tornam bem mais conscientes

és corpo vivo nascido da Páscoa

com quem apetece dançar

4. Tu que partilhas teus bens com os pobres

num mundo onde reina a injustiça

e nesta partilha a todos despertas

prá luta contra a exploração

és corpo vivo nascido da Páscoa

que alguns pensarão em matar

5. Tu que praticas sempre a verdade

neste mundo de hipocrisia

e mostras que ela te faz companheiro

de quem sonha com a liberdade

és corpo vivo nascido da Páscoa

que nada consegue calar

6. Tu que te assumes como caminheiro

todo atenção ao futuro

que saboreias a vida presente

no jeito do bom companheiro

és corpo vivo nascido da Páscoa

que nada consegue deter

O diálogo foi dinamizado por mim. Num esforço de, a partir do texto, experimentarmos a presença/acção do Espírito que nele se esconde/revela e nos quer fazer mulheres, homens ao jeito de Jesus. Como diálogo maiêutico, fez-se sobretudo de perguntas. Deixo aqui os tópicos em que me apoiei:

1. Segundo o relato, o ressuscitado Jesus manifesta-se, onde? No templo de Jerusalém? Num outro templo qualquer? Em algum local especial que as Religiões têm por sagrado? Não! Junto ao mar de Tiberíades.

2. Porquê Tiberíades e não noutro local qualquer? A referência a Tiberíades é teológica, como aliás todo o relato é teológico, não é jornalístico. E só entenderá esta alusão a Tiberíades quem tiver presente todo o Evangelho de João, concretamente o capítulo 6, onde Jesus garantiu à multidão que então entusiasticamente o seguia e, inclusive, se preparava para o aclamar rei, que outra, muito outra era a sua via para salvar a Humanidade. Essa via passava por ele dar a comer a sua própria carne e a beber o seu próprio sangue - isto é, toda a sua vida - para a vida do mundo. A revelação escandalizou de tal maneira os ouvintes, que provocou de imediato a debandada geral. E porquê? Porque as pessoas o que querem é um chefe poderoso (e um Deus poderoso) que as substitua, que opere milagres e prodígios e as dispense de pensarem por si próprias. Ao recusar ir por aí e ao anunciar que a sua via passa por ele próprio se dar/comunicar sem reservas às pessoas, para as fazer crescer em liberdade, em responsabilidade e em capacidade de entrega pela vida do mundo - a única maneira das pessoas chegarem a ser plenamente humanas, isto é, salvas - Jesus viu-se praticamente sozinho. E até os Doze - o grupo representativo de Israel - que ficaram com ele, foi ainda por equívoco que ficaram. A prova é que só, nesta altura do relato evangélico, já depois da ressurreição de Jesus, é que o equívoco dos Doze veio a ser finalmente ultrapassado, na pessoa de Simão Pedro, o líder que, antes da morte de Jesus, nunca chegou a ser um verdadeiro discípulo seu.

3. Faz-se referência a um grupo de trabalho, em plena missão de pescar (fala-se de peixes, mas o relato é teológico e por isso devemos entender que é de homens que se está a falar). A missão falha redondamente. Quantos são os elementos desse grupo? Sete! Porquê sete e não doze? Doze limitaria a missão ao povo de Israel (em 12 tribos). Sete, pelo contrário, tem a ver com setenta, exactamente, a totalidade dos povos do mundo, segundo o que se ensinava na altura. Indica que a missão, em nome de Jesus, é universal, há-de beneficiar toda a Humanidade, não apenas Israel. Falha porquê? Porque a iniciativa é exclusivamente de Simão Pedro, o líder que ainda não se identificava com Jesus, nem com a via de Jesus. Quando diz "Vou pescar", é como se dissesse: vou conquistar pessoas, vou recrutar pessoas, vou subjugá-las, vou submetê-las à nossa concepção judaica do mundo, à nossa ideologia, vou fazer das outras pessoas judeus como nós. Todos os outros vão com ele. Sinal de que são seus incondicionais, quando deveriam ser incondicionais de Jesus, do projecto, da via de Jesus, que é dar a própria vida pela vida do mundo. Por isso o fracasso é total. Não tem a marca do Espírito de Jesus. Missão assim é igual a imperialismo, a sujeição dos povos, quando tem que ser libertação dos povos. De quem somos incondicionais em Igreja? Do papa? Dos bispos? Dos párocos? Do padre Mário? Só podemos ser incondicionais de Jesus. É assim que eu próprio procuro ser todos os dias. E quem me acompanha, há-de ser para se tornar incondicional de Jesus, não de mim.

4. Sob a orientação de Jesus, a pesca/missão resultou em cheio. O relato fala duma multidão de 153 grandes peixes. Que multidão é esta? O termo utilizado pelo Evangelho é o mesmo que se utilizou no capítulo 5, para falar do povo que jazia junto da piscina de Betzatá, na condição de oprimido, tolhido, cego, coxo, doente, paralítico, portanto, o povo vítima da instituição e do sistema judaicos, simbolizados no Templo de Jerusalém e na Lei mosaica. Esta referência indica que a missão em nome de Jesus há-de privilegiar a multidão do povo mais oprimido e mais tolhido pelas religiões e pelo poder político e económico/financeiro. Porquê 153 peixes/seres humanos e não mais nem menos? O número 153 refere três conjuntos ou comunidades de 50 pessoas: 3+50+50+50. Três comunidades de mulheres/homens adultos (= grandes), habitados pelo Espírito Santo, por isso, radicalmente livres, autónomos, protagonistas, o contrário dos súbditos, infantilizados, tutelados. A missão é para isto que trabalha. Não conquista nem subjuga pessoas.  Desperta liberdades e promove autonomias, comunidades de pessoas livres e iguais.

5. A rede não se rompeu. O que significa este pormenor? Indica que a unidade entre as comunidades do Espírito, por mais originais que sejam entre si, nunca chega a ser quebrada. O Espírito é que promove a originalidade e mantém a unidade. Sem o Espírito, só há uniformidade e nenhuma originalidade.

6. Todos comem peixe grelhado e pão. Sabiam que este relato está a dar-nos notícia duma Eucaristia concreta, das Comunidades cristãs do Discípulo amado? Reparam que aqui não se faz qualquer alusão ao vinho? As nossas missas católicas aos domingos ou aos dias de semana dentro dos templos têm alguma coisa a ver com esta Eucaristia do princípio? Durante elas, alguém chega a fazer a experiência da presença do ressuscitado Jesus, como aqui acontece? Não é tudo mero ritual e pura rotina, sem lugar para o Espírito Santo?

7. Por três vezes, Jesus formula a mesma pergunta a Simão Pedro, aqui ainda apresentado como filho (= discípulo) de João (Baptista), não como seu discípulo. Porquê três vezes? Porque também foram três as negações de Simão Pedro, durante o processo contra Jesus. Jesus pergunta: "Amas-me?" E Simão Pedro responde: "Tu sabes que sou deveras teu amigo". Não diz que o ama! E acaba por ser Jesus que, à terceira vez, já nem pergunta "Amas-me?", mas apenas: "És deveras meu amigo?" O que significa esta diferença de linguagem? Não indica que Simão Pedro nunca conseguiu total identificação com Jesus, apesar de todo o seu entusiasmo por ele? E que tipo de missão confia Jesus a Simão Pedro e, nele, a toda a Igreja que está no mundo e para o mundo, quando diz: "apascenta os meus cordeiros" e "apascenta as minhas ovelhas"? Trata-se dma missão religiosa, ou política? Pastores, em Israel, eram os reis e demais dirigentes que estavam à frente do povo. "Cordeiros" e "ovelhas" significam pessoas pequenas e grandes. Neste contexto cultural, a missão enunciada por estas palavras só pode ser política, isto é, implica trabalhar afincadamente para a felicidade das pessoas e dos povos, implica cuidar do mundo, da vida, do planeta, implica ciência e sabedoria para ajudarmos a tornar este mundo casa comum da humanidade, onde as pessoas estejam defendidas tanto dos lobos como dos mercenários.

8. É assim que está a ser vivida a missão da Igreja hoje? Não temos que operar uma revolução copernicana para aqui chegarmos? Não podemos ser mulheres/homens nem Igreja como Simão Pedro que sonhava ser poder sobre as pessoas e sobre os povos. Temos que ser como Jesus que dá a sua vida pelas pessoas e pelos povos. Como Igreja de Jesus, deixemos de vez a religião. E o poder sagrado que lhe é inerente, por mais que este nos tente e alicie. Ousemos viver a Política, sem jamais descambarmos para o poder político, por mais que este também nos tente e alicie. A actividade religiosa é alienação, é pecado. A actividade política, longe do poder político, é graça, o outro nome para dizer Misericórdia, Amor.


2004 MAIO 06

O presidente da República, Jorge Sampaio, lá tem continuado, esta semana, a sua cruzada laica pelo país, desta vez, contra o abandono da escola por parte de muitos milhares de adolescentes, oriundos de famílias portuguesas pobres, pior, empobrecidas. A este abandono, o presidente chama-lhe "desastre nacional". E é. Mas é um desastre nacional que tem por trás causas concretas que, se não forem inteligentemente denunciadas e combatidas, continuarão a provocar indefinidamente o mesmo efeito, por mais "presidências abertas" que venham a ser promovidas em prol da educação. O país está hoje cada vez mais desmobilizado e os vários dirigentes políticos e respectivos órgãos nacionais mostram-se incapazes de mudar o rumo à situação. Limitam-se a ser analistas. Olham para a realidade que somos, como país, como se fossem simples analistas que escrevem para os jornais. Ou comentam a situação nas televisões. Em lugar de agirem, analisam e lançam alertas. Deste modo, sobram soluções teóricas e alertas, faltam medidas concretas, acções concretas no terreno que ponham fim à presente situação e garantam outro futuro a este nosso presente nacional tão deprimido.

O maior sintoma de que o país está cada vez mais desmobilizado e desinteressado do seu futuro é a invulgar vibração com que as pessoas em geral celebram as vitórias no futebol. Hoje, como outrora, durante o vergonhoso e inumano tempo do fascismo, os êxitos de um clube de futebol - do FC Porto, por exemplo - são cada vez mais experimentados e tratados pelas televisões como êxitos nacionais. Tanto assim que, nestes últimos dias, até o primeiro-ministro, Durão Barroso, se achou na obrigação de enviar telegramas de felicitações e de estímulo ao FC do Porto, na pessoa do seu presidente, Jorge Nuno Pinto da Costa, pela sua recente vitória na Corunha, frente ao clube local. E fez mais. Em declaração às televisões, garantiu a todo o país que não deixará de estar presente, na sua qualidade de primeiro-ministro de Portugal, na final da Taça dos Clubes Campeões da Europa, a realizar dia 26 deste mês de Maio, na Alemanha, para aí "torcer" por Portugal, perdão, pelo FC do Porto. É manifesto que toda esta febre futebolística nacional, à qual até o primeiro-ministro faz questão de publicamente aderir, não é politicamente inocente. Visa, entre outras coisas, esconder as inúmeras mazelas nacionais que os sucessivos governos e as sucessivas presidências da República não conseguem curar nem vencer. Quando é suposto que para isso é que existem. Sobretudo, os sucessivos governos do país.

Dirão alguns que é melhor ter êxito no campo do futebol, do que não ter êxito em nenhum campo da vida nacional. Com isso, a depressão nacional não só não é tão profunda, como é até atenuada. Mas aqui é que nos enganamos. O êxito no futebol, nomeadamente, neste tipo de futebol altamente profissionalizado, altamente competitivo (também altamente corrupto?) e altamente lucrativo para os clubes vencedores (diga-se de passagem que com todas as vitórias que já somou este ano na Taça dos Clubes Campeões da Europa, o FC do Porto arrecada, na contabilidade que é obrigatoriamente declarada, uns 25 milhões de euros), é um êxito com o amargo sabor a desastre nacional. Porque não passa duma alienação de todo o tamanho. Eu sei que os fanáticos do futebol, nomeadamente, os meus amigos portistas, não me perdoarão por eu escrever isto, mas essa sua assanhada reacção a esta minha afirmação só revela que ela é verdadeira. A euforia dos adeptos pode ser muita e tem sido muita. Mas é sempre uma euforia sem conteúdo real. É uma euforia que não resulta do crescimento em qualidade de vida das pessoas e dos povos. Pelo contrário, é até reveladora de acentuado subdesenvolvimento humano. Só populações culturalmente subdesenvolvidas - mesmo que tenham grande poder de compra, podem ser culturalmente subdesenvolvidas! - é que são capazes de tamanhas manifestações de euforia. É uma euforia sem motivo que proporcionalmente a justifique. Como um balão que incha de ar e logo rebenta. No dia seguinte, a depressão das pessoas é ainda mais intensa e amarga. A pobreza em casa e na família é ainda mais pesada. Até à próxima vitória do clube. Que, se acontecer, provocará mais e mais euforia. Mas como uma outra droga qualquer. Só que deste modo, as pessoas vão de euforia em euforia até ao desastre total. Quando acordarem, estão no fundo do abismo, já sem tempo e sem vontade alguma de retomarem a vida nas próprias mãos e de fazerem do país uma verdadeira mátria/pátria, entre as demais mátrias/pátrias da Europa e do mundo, as quais só o serão verdadeiramente, quando todas as suas filhas, todos os seus filhos dispuserem de meios ao seu alcance, para poderem crescer em idade, em estatura, em saúde, em conhecimento, em ciência, em sabedoria, em qualidade de vida e também em graça, isto é, em alegria feita acolhimento de todos os povos do mundo e em comunhão sem reservas com todos eles.

Acho inadmissível que os membros do governo do meu país de Abril se comportem como analistas que escrevem para os jornais, ou como comentadores nas rádios e televisões. Os lugares que ocupam não podem funcionar como um palanque onde eles pavoneiam a sua vaidade. Mas às vezes até parece. Então com os membros deste governo, a situação atinge foros de verdadeiro escândalo. Têm opinião sobre tudo e sobre nada. Anunciam hipotéticas medidas para resolver os graves problemas do país, mas a verdade é que os problemas do país permanecem sem solução e em galopante aumento, à medida que o governo de que são parte se mantém em funções. Por isso digo: O grave desastre nacional é este governo. O presidente da República deveria dizê-lo ao país sem papas na língua. E deveria, no mínimo, adverti-lo perante o país. Infelizmente, prefere continuar a falar eufemisticamente de situações concretas que são desastre nacional, mas como se estas fossem inevitáveis fatalidades, ou ocorressem espontaneamente. Não aponta os responsáveis. Não põe o dedo na verdadeira ferida. Se há situações que são desastre nacional, também há responsáveis e culpados. Em primeiro lugar, o governo. Desde que está em funções, mais não tem feito do que agravar as situações de desastre nacional e criar outras novas (vejam o que ele acaba de fazer, precisamente esta semana da presidência aberta sobre a educação, com as listas de colocação dos professores, nas quais não constam os nomes de milhares de professores que tinham que lá constar. Pensam que alguém vai ser responsabilizado por esta incompetência de palmatória? Nada disso. Vão já dizer que a culpa é dos computadores!). Resolução dos problemas, nenhuma. Até os seus apaniguados não fanatizados já reconhecem que este é o pior governo que o país alguma vez teve, durante os trinta anos depois de Abril 74. O mais incompetente. Mas se o governo é incompetente e não é substituído - o presidente da República tinha aqui uma palavra a dizer, uma acção a realizar, mas não a diz, nem a realiza - a responsabilidade é de quem o mantém em funções e faz de conta que não há nenhuma relação de causa e efeito entre ele e as situações de desastre nacional, actualmente em crescendo no nosso país.

 Um governo incompetente acaba sempre por fazer um país subdesenvolvido, incompetente, incapaz, desmobilizado. Não é que o governo de um país tenha que substituir os cidadãos. Não tem. Nem deve. Mas tem que ser competente. Para que os cidadãos, mulheres e homens, também o sejam. E tenham brio e gosto de viverem todos os dias com dignidade e generosidade. Um governo de incompetentes como este que nos (des)governa é a causa primeira e maior do estado de desmobilização geral e de grave depressão em que Portugal se encontra. Talvez por perceber isto é que o primeiro ministro continua a sorrir, a sorrir, a sorrir, sempre que tem uma televisão por perto. Numa tentativa de iludir o problema e melhor enganar as pessoas. Durante o tempo que já leva no lugar - e muito é, para tanta incompetência! - esta hipocrisia tem dado os seus (maus) frutos. As pessoas vêem o homem sorrir, sorrir, sorrir, ouvem as suas palavras de optimismo e de retoma para amanhã da economia do país, e convencem-se que tudo no presente não passa de um mau momento, provocado pela má conjuntura mundial. Hoje, porém, já são muitas as pessoas que percebem a marosca e começam a crescer em raiva e em dignidade. Ainda não é um número suficientemente numeroso para correrem com o governo, mas esse momento está a chegar. Os próprios membros do governo já o pressentem e, se dúvidas houvesse, bastaria ter ouvido, nestes dias, a cruel ministra das finanças, dra. Manuel Ferreira Leite, a invocar o santo nome de Deus contra a hipótese deste governo vir a ser substituído por outro de outra cor político-partidária, um pouco à esquerda. Mostra-se horrorizada com tal hipótese, como se, hoje, fosse possível um governo fazer pior do que o que este tem feito.

A alegoria do "bom pastor" que no passado domingo voltou a ser proclamada nas missas católicas do país e do mundo veio mesmo a talhe de foice. Pena é que os clérigos que têm o monopólio da palavra durante a liturgia não tivessem a sensibilidade dos profetas bíblicos do passado para, a propósito, sacudirem a consciência política das pessoas que ainda os ouvem. E para abalarem este marasmo em que o país se encontra. Pastores, na linguagem política dos profetas e de Jesus de Nazaré, o maior de todos, são, antes de mais, os membros do governo de um qualquer país. Se forem competentes e com entranhas de misericórdia, dedicam-se tanto às pessoas e aos povos que todos os dias dão a própria vida para que a vida seja cada mais e melhor nas pessoas e nos povos. Se isto não fazem, se este fruto não produzem, então as pessoas e os povos do respectivo país têm que concluir que, em lugar de pastores à frente dos seus destinos, têm mercenários que só vêem o seu umbigo e tratam de governar-se, em lugar de governar, servir-se, em lugar de servir.

Infelizmente, é o que está hoje a suceder no nosso país. Cada dia que passa, damos, como país, grandes passos para o abismo. E os ministros, em lugar de reconhecerem a sua incompetência e, humildemente, dizerem ao país que encontre, entre o conjunto das cidadãs e dos cidadãos, quem saiba fazer mais e melhor do que eles, preferem acenar com falsas soluções e falsas promessas, como se o país ainda pudesse suportar mais adiamentos. Não pode. As situações de desastre nacional são muitas. O abandono escolar por parte de muitos milhares de adolescentes é apenas uma delas. Das mais graves, sem dúvida. Porque um país, cujos filhos, cujas filhas não estudam nem se educam de forma contínua; um país que não puxa pelas capacidades de todos os seus filhos, de todas as suas filhas; um país que aceita sem indignação que algumas das suas filhas, alguns dos seus filhos fiquem cultural e espiritualmente atrofiados, é um país condenado a ocupar o último lugar no concerto dos demais países e a chegar sempre atrasado aos grandes momentos da Humanidade. Não lhe resta outro destino que integrar o conjunto daqueles países com governos incompetentes, cujas populações vibram estrondosamente com as vitórias do seu clube de futebol, na impossibilidade de vibrarem com as saborosas e humanizadoras vitórias sobre o atraso, o subdesenvolvimento, o analfabetismo, a doença, a miséria, a fome, a dependência.

Acordemos como país! Não basta sermos um país com mais de oito séculos de história. Sobretudo, se estes são oito séculos de subdesenvolvimento, de caciquismo, de vigarice, de corrupção, de humilhação. Não consintamos que, depois de termos sido, como país, totalmente subjugados e infantilizados pelos clérigos, durante os longos séculos da monarquia (clero, nobreza e povo, lembram-se?!), agora, nestes quase cem anos de República, nos reduzam a povo votante e, mesmo assim, cinicamente manipulado pelas minorias político-partidárias, com tanto de hábeis como de demagógicas. Ousemos o possível e o impossível para que as nossas filhas, os nossos filhos cresçam connosco em ciência e em sabedoria. Também em ousadia política. Até pegarmos no país pelos cornos. E o levantarmos do chão. E nós com ele.


2004 MAIO 03

No dia de ontem, não houve igreja ou capela onde tenha sido celebrada a missa católica romana que não se falasse do "Bom Pastor", durante a homilia. Trata-se, como é sabido, da personagem principal duma alegoria que só se encontra no mais tardio dos quatro evangelhos canónicos, mais conhecido por Evangelho de João. Depois de a contar, Jesus ainda tem o arrojo de se auto-designar como "o bom pastor", em oposição ao mercenário e ao ladrão. E fá-lo nestes termos politicamente subversivos e incorrectos:"Eu sou o bom pastor. O bom pastor dá a sua vida pelas ovelhas. O mercenário, e o que não é pastor, a quem não pertencem as ovelhas, vê vir o lobo e abandona as ovelhas e foge e o lobo arrebata-as e espanta-as, porque é mercenário e não lhe importam as ovelhas." Mas já antes desta afirmação, feita em jeito de testemunho pessoal, Jesus começa por fazer outras afirmações políticas absolutamente inacreditáveis, ainda hoje, nas quais ele próprio se confronta com pessoas bem conhecidas e queridas da história do seu povo, às quais não hesita em pôr o rótulo de "ladrões e salteadores": "Em verdade, em verdade vos digo: Eu sou a porta das ovelhas. Todos os que vieram antes de mim eram ladrões e salteadores, mas as ovelhas não lhes prestaram atenção. Eu sou a porta. Se alguém entrar por mim estará salvo; há-de entrar e sair e achará pastagem. O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir. Eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância" (cf. João 10, 1-13).

Todos os anos, a liturgia do 4.º domingo de Páscoa é assim. E todos os anos os padres que estão à frente das paróquias não têm quaisquer escrúpulos em aplicar esta alegoria contada por Jesus a eles mesmos, aos bispos e, em especial, ao papa, referido por quase todos eles como o "pastor" da Igreja universal. O que, a ser assim, leva logo as pessoas a pensar que Jesus de Nazaré no seu tempo e país só poderá ter sido uma espécie de super-bispo, de super-papa, ou de super-padre. E nada mais errado. Na linguagem dos profetas, a alegoria do (bom) pastor é essencialmente política, não religiosa. Por isso, é de todo descabido aplicá-la aos dirigentes eclesiásticos. Pastor, na cultura dos judeus, era o rei de Israel, e, por extensão, todos os outros dirigentes políticos do povo. Pastor é o "ungido" ou o "cristo". Alguém directamente implicado na política, não na religião. Aplicar hoje a alegoria aos dirigentes da Igreja é trair o pensamento de Jesus. É tirar-lhe toda a força subversiva que ela encerra.

Nunca me hei-de esquecer, a este propósito, da minha entrada, em 1968, na paróquia Paredes de Viadores, concelho do Marco de Canaveses, a primeira que me foi atribuída pelo então bispo Administrador Apostólico da Diocese do Porto. A população católica da freguesia congregou-se em peso, para me acolher, nas imediações do templo paroquial e, quando eu me aproximei, a pé, para entrar juntamente com ele pela porta principal do edifício, a fim de presidir lá dentro, como pároco, à Eucaristia, as suas vozes cantavam em direcção a mim: "Viva o nosso bom pastor", ao mesmo tempo que me batiam palmas. Por sinal, esse era o domingo de Ramos! Na altura, tive que aguentar, sem poder protestar que o bom pastor não era eu, mas somente Jesus. Porém, uma vez no interior do templo paroquial e imediatamente antes de iniciar a celebração, usei da palavra, para, com muita delicadeza, pôr os pontos nos iis: Bom pastor - disse eu com alegria e liberdade - só há um: Jesus e mais nenhum. Todos os mais que habitualmente somos tidos e tratados como bons pastores, se não nos acautelarmos, acabamos como mercenários. Vestimos de pastor, de bom pastor, mas na verdade não passamos de mercenários. Estas foram, por isso, as primeiras palavras que o povo daquela paróquia ouviu da minha boca. O que constituiu, evidentemente, o primeiro dos muitos e inevitáveis escândalos que lá dei - salutares escândalos, diga-se, pois são parte do escândalo maior que é o próprio Evangelho ou a Boa Notícia de Deus, Jesus crucificado, ele próprio.

Não deixo, por isso, de reconhecer que uma das piores coisas que Igreja pode fazer é persistir em ler esta alegoria e todo o Evangelho, nas suas quatro versões canónicas, em chave eclesiástica. Reconheço que a tentação não é apenas de agora. Começou logo no início. Jesus viveu a sua vida histórica numa dimensão vincadamente profético-política. As suas palavras, como as suas intervenções são manifestamente políticas, isto é, têm como grande objectivo a edificação do Reino/Reinado de Deus na História, o qual passa pela criação duma Terra à medida dos seres humanos, onde Deus seja tudo em todos. Depois da sua morte/ressurreição, as comunidades cristãs primitivas depressa se desviaram deste propósito e passaram a ocupar-se delas próprias, em lugar da humanidade e do mundo. Até as parábolas e as alegorias que Jesus havia contado, para melhor explicar como acontece e se desenvolve o Reino/Reinado de Deus na História, passaram a ser contadas a pensar na Igreja, no desenvolvimento da Igreja. Como se esta, e não o Reino, tivesse sido a principal ocupação/preocupação de Jesus.

Esta mudança acabou por se tornar um desastre irreparável. A Igreja passa a ocupar o centro das atenções dos seus membros, torna-se o fim de si mesma. Em vez de ser parteira da Humanidade, torna-se a dona ou senhora da Humanidade. Deveria diminuir para que a Humanidade crescesse. E é ela quem cresce à custa da Humanidade. Cada membro que a Igreja faz deveria tornar-se um militante político do Reino/Reinado de Deus na História. Quase sempre acaba por se tornar um funcionário da Igreja. Deveria passar a ser político de primeira linha do Reino/Reinado de Deus, ao jeito de Jesus. E acaba reduzido a um eclesiástico mais, catequista, membro do grupo coral, ou membro da Fabriqueira. Mesmo o comum dos fiéis que não integram nenhum dos múltiplos grupos eclesiásticos, acabam quase todos a viver em redor de santuários e de imagens de santas e de santos. De tal modo que dizer católico é dizer alguém que vive em redor dos templos, que vai à missa, confessa-se, faz peregrinações, reza o terço. Deveria ser sinónimo de mulher, de homem metido na política, alguém empenhado na edificação deste mundo e na construção duma terra de irmãs e de irmãos. Infelizmente, não é. Quase sempre, é sinónimo de gente desgraçada, pagadora de promessas. Este mês de Maio em Portugal é, neste particular, desgraçadamente revelador, com o santuário de Fátima em grande destaque. Nunca o nome católico sai tão degradado como neste mês de Maio, com as levas de peregrinos em direcção a Fátima. A imagem de católico que as televisões não se fartam de passar por estes dias é bem a do anti-político, o mesmo é dizer, a do anti-Jesus, o Político, ou o Cristo. Mas nem assim os responsáveis maiores da nossa Igreja católica abrem os olhos. Não só não se atrevem a mostrar nas suas vidas outras práticas, bem mais políticas e menos eclesiásticas, como não se atrevem a pronunciar outro tipo de catequese às pessoas, para que elas abram os olhos e mudem as suas mentalidades e as suas práticas.

Não sei até quando é que as coisas irão ser assim. Mas com os clérigos católicos a puxarem as pessoas para a Igreja e para as actividades da Igreja, em lugar de as puxarem para as actividades políticas a favor da edificação duma terra à medida de toda a Humanidade, é difícil mudar o rumo à História. O dia de ontem foi mais uma oportunidade perdida. Nem o facto de ser o dia em que a União Europeia passou de quinze membros para 25 membros espicaçou os párocos e os bispos do Ocidente. Se tivessem lido a alegoria evangélica do "bom pastor", na única chave em que ela deve ser lida e interpretada, a chave política, teriam podido chamar as pessoas que ainda frequentam os templos e as missas de domingo para a ingente responsabilidade política que nos cabe, de ajudarmos a construir uma Europa de iguais, não só para todos os europeus, mas também para todos os povos, tanto os que a integramos, como os que a procuram como sua mátria/pátria adoptiva. Teriam alertado as consciências para a importância das próximas eleições europeias. Sobretudo, teriam aproveitado a oportunidade para sublinhar que, se queremos ser uma Europa onde sopra o Vento ou o Espírito de Deus, então havemos de ser uma Europa politicamente aberta a todos os povos, fraterna e acolhedora, em cuja mesa todos os que nos procuram hão-de encontrar um lugar. Ao mesmo tempo, alertariam as pessoas para a necessidade de elegerem dirigentes políticos europeus ao jeito de Jesus, não ao jeito do Império, dirigentes bom pastor, capazes de darem a própria vida pelas pessoas e pelos povos, em lugar de dirigentes mercenário, cujas decisões políticas mais não fazem do que roubar, matar e destruir as pessoas e os povos.

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