Macieira da Lixa, lugar teológico de um Deus que gosta de Política, não de Religião
A disparatada acusação de que sou um padre político mais do que religioso começou a ser-me feita, desde que fui expulso de capelão militar da Guerra Colonial, na Guiné-Bissau. E reforçou-se depois, durante os anos em que fui pároco, primeiro, em Paredes de Viadores (Marco de Canaveses) e, depois, aqui em Macieira da Lixa (Felgueiras). Desde então para cá, nunca mais esta acusação deixou de me ser dirigida. Em muitas bocas, a acusação conhece uma versão ainda mais disparatada: dizem que sou comunista. E não falta até quem me acuse de pertencer ao Partido Comunista Português!!! Acho que quem primeiro sustentou este delírio foi precisamente a PIDE, por intermédio dos seus agentes, certamente para tentarem justificar as duas prisões políticas a que inpiedosamente me sujeitaram. Aos meus detractores, custa-lhes reconhecer que sou um padre ao serviço do Evangelho ou Boa Notícia de Deus, de um Deus que - mal eles suspeitam - gosta de Política e não de Religião. Não o farão por mal. Mas por sempre terem visto os padres católicos como funcionários religiosos, peritos em Religião. Infelizmente, tem sido essa a imagem que passa para a Humanidade sobre os padres católicos: homens dos templos, das sacristias, dos ritos religiosos, dos baptizados de crianças, dos casamentos católicos e dos funerais, vestidos com roupas de outras épocas e de ambientes imperiais que já lá vão. Uma imagem que é a negação do próprio Evangelho e que dá de Deus uma ideia completamente pervertida, paganizada, que não encaixa com a Boa Notícia que Jesus, o de Nazaré, nos deu de Deus, quer através da sua palavra, quer sobretudo através da sua prática constitutivamente política, não religiosa.
Classifico de "disparatada" esta acusação que me fazem, porque do que os padres na sua maior parte podem ser acusados é de serem padres religiosos, quando deveriam ser políticos (não confundir Política com Poder). Um padre religioso é o que se insere na ordem levítica de Aarão, manifestamente rejeitada por Jesus, que nunca foi sacerdote, nem quis que entre os seus seguidores, mulheres e homens, houvesse sacerdotes, como uma casta à parte de funcionários do religioso. A Carta aos Hebreus, o único documento do Novo Testamento que se atreve a chamar Jesus de Sumo sacerdote, tem, entretanto, o cuidado de sublinhar que ele é sacerdote, mas segundo a ordem de Melquisedec, exactamente, porque toda a sua vida e toda a sua intervenção são de natureza política, não religiosa. Aliás, o Cristianismo, na sua inspiração original jesuánica, nunca foi uma religião. Denunciou todas as religiões, como ópio e alienação, a começar pela religião oficial do país de Jesus, centrada no Templo de Jerusalém e na Lei de Moisés. A Fé cristã jesuánica não é religiosa, mas política. Abre-nos ao Mistério de Deus Criador que jamais reivindica das suas criaturas posturas religiosas para com Ele. Cultos nos templos, sacrifícios cruentos de animais ou de frutos da terra, é coisa que Deus, o de Jesus, nunca reclamará em sua honra. A única coisa que Deus reclama das suas criaturas, melhor, que espera das suas criaturas, é que elas cooperem criativamente com Ele na Criação, para a levarem ao seu termo. E isto é política, a mais pura. Com Jesus, pudemos finalmente perceber que Deus pôde começar a criação sem nós, mas depois que nós aparecemos na História como abóbada e síntese de toda a criação anterior, não pode mais levar por diante a sua obra, sem nós. No seu amor, quis associar-nos à sua obra e, agora, ela será o que nós quisermos que seja.
Bem sei que a palavra Política está pervertida. Tal como a palavra Amor. Ou como a palavra Deus, porventura, a mais pervertida de todas as palavras que pronunciamos. Mas nem por isso havemos de deixar de recorrer a esta palavra. Porque a Fé cristã sem política não presta, é morta. Quanto mais política for, melhor. Quanto mais religiosa for, pior. Quando digo que Deus gosta de Política, não de religião, avanço logo com a prática política de Jesus como paradigma do que é a Política de que Deus gosta. Não tenho, evidentemente, no meu horizonte a prática política dos profissionais da dita. A prática política dos profissionais da política é a nossa desgraça, a desgraça da Humanidade. O mal da Igreja tem sido fugir da Política, deixar a política para os profissionais da política, para os que vivem da política e se governam com a política. Não contente com isso, a Igreja ainda vem depois dizer que a prática de Jesus, constitutivamente política, é religiosa, não é política. Ora, se à prática política de Jesus a Igreja chama religião, quando o que ela deveria era sublinhar a força de paradigma que essa prática política tem para toda a Humanidade, é evidente que tudo fica baralhado na mente das pessoas e dos povos. O que não acontece por acaso. Quem não sabe que a confusão das mentes é o melhor caldo de cultura onde medram a corrupção e os privilégios de alguns - entre eles, também os líderes das religiões! - os quais, para poderem aguentar-se e desenvolver-se, exigem e defendem uma Ordem mundial da mesma espécie que lhes dê guarida e justifique todos os seus crimes?
Vem tudo isto a propósito da afirmação que aqui quero deixar bem vincada: Macieira da Lixa é, porventura, pelo menos, no meu entender, o mais expressivo lugar teológico do nosso país. Não o lugar teológico de um Deus qualquer, por exemplo do Deus dos cultos politeístas do Paganismo que ainda hoje goza de boa saúde, graças a ter conseguido paganizar as próprias Igrejas, mas do Deus de Jesus, que, como não me cansarei de repetir, é o único Deus que gosta de Política, não de religião, por isso, é o único Deus que se sente honrado e glorificado com mulheres e homens que viram as costas aos templos e aos altares e se ocupam alegremente da Terra, do mundo, cuidam da terra, do mundo e põem todo o seu engenho e toda a sua inteligência na busca e na concretização de soluções justas e verdadeiras que nos ajudem a vencer todos os males, todas as carências, todas as deformações, todos os contratempos, todas as limitações, todas as calamidades, todos os sofrimentos, todas as alienações que nos batam à porta para nos fazerem claudicar na caminhada.
Desde que, na passada década de setenta, aqui aconteceu o Evangelho de um Deus que abertamente recusou pactuar com a criminosa Cruzada da Guerra Colonial; com a idolatria e a mentira da senhora de Fátima e do seu anticomunismo primário; com o sacrificialismo das pessoas e dos povos em sua honra, nomeadamente, das pessoas mais pobres, mais subdesenvolvidas, mais iletradas e mais humilhadas; com o rendoso negócio das missas pelas "almas" dos mortos; com a mentira duma páscoa que nos leva a adorar e a abraçar a cruz, em vez de nos levar a combater todas as cruzes que as minorias privilegiadas fabricam e levantam contra quem ousa atentar contra os seus privilégios e contra a sua Ordem mundial que os consagra como se fossem coisa natural - foi o que fez Jesus e por isso é que acabou pregado numa delas - Macieira da Lixa ergueu-se, na sua fragilidade e na sua pequenez, como uma cidade situada no alto de um monte.
Não se tornou um lugar santo, como aqueles em que miticamente se diz terem ocorrido certas hierofanias. Tornou-se um verdadeiro lugar teológico, mas daquele Deus que é tão Boa Notícia para as suas criaturas, que estas, estranhamente, experimentam grande dificuldade em reconhecê-lo e em acolhê-lo. Ora, nenhum Deus é tão boa notícia para os seres humanos, como o Deus de Jesus. E também nenhum Deus, fora do Deus de Jesus, tem tanta dificuldade em ser reconhecido e acolhido pela generalidade dos seres humanos. Os seres humanos, enquanto tais, inclinam-se mais para os ídolos cruéis, que exigem deles sacrifícios incruentos e mesmo cruentos, que se comprazem em humilhar os pobres e em fabricar pobres em série. Inclinam-se mais para Deuses e Deusas, como a deusa de Fátima, que se fazem adorar em ricos santuários e em grandes basílicas, que gostam do nosso dinheiro e do nosso ouro, e deleitam-se com o nosso sangue derramado em sua honra. Inclinam-se mais para os Deuses trafulhas, sanguinários, poderosos, que comem criancinhas, aceitam as nossas chantagens, entram no jogo das nossas promessas, tantas vezes sádicas, abençoam os nossos negócios, dão a vitória ao nosso clube de futebol ou à nossa selecção, e, além do mais, ainda nos protegem de morrer nos acidentes ou nos atentados.
Em contrapartida, os seres humanos, na sua generalidade, resistem a vida inteira a um Deus Mistério, a um Deus que se nos entrega sem reservas, a um Deus Perdão, a um Deus Misericórdia, a um Deus que só vê filhas, filhos, todos diferentes, todos iguais, em todas as mulheres, em todos os homens, qualquer que seja a cor da sua pele, a língua em que se exprimem, a condição económica e social em que vivem. Sobretudo, resistem a um Deus que não lhes exige orações, ritos, que não mora nos templos que lhe erguemos, que não se agrada dos altares que levantamos em sua honra, nem dos cultos que sobre eles e em redor deles promovemos em dias e horas certos. Resistem a um Deus Palavra que lhes fala ao coração e à inteligência, sempre para os interpelar e promover à maioridade e à responsabilidade, a um Deus Espírito ou Sopro que caminha com eles e dentro deles, que os leva ao colo e que a única coisa que espera deles é que se disponham a cooperar alegremente com Ele na mais nobre de todas as acções humano-políticas que é levar por diante a criação que ele iniciou sem nós, mas que agora faz questão de só levar por diante connosco, para que nós nos experimentemos filhas suas, filhos seus, à sua imagem e semelhança. E então nunca mais caiamos na tentação de regressar à selva, à animalidade, ao obscurantismo, à idolatria, de onde provimos. A um Deus assim nós, seres humanos, oferecemos quase sempre forte resistência e poucos são aquelas, aqueles de nós que nos abrimos a Ele e nos tornamos progressivamente seus íntimos, bem ao jeito de Jesus de Nazaré, o ser humano integral e definitivo.
É por ver as coisas assim, com esta profundidade, que de novo me deixei conduzir a Macieira da Lixa, onde há mais de trinta anos, na minha insignificância e pequenez, não fui capaz de resistir ao Espírito Santo e só por isso Ele lá conseguiu fazer acontecer aqui o Evangelho de Deus, do Deus de Jesus, que gosta de Política e não de religião. Nessa altura, o país e o mundo emocionaram-se vivamente e eram muitos os que se interrogavam sobre o que poderia significar todo aquele feliz "reboliço" que aqui se viveu. O país e o mundo descobriram Macieira da Lixa e por momentos tiveram os olhos postos nesta pequena terra, neste pequeno povo. O próprio Bispo do Porto de então chegou a reconhecer, com viva emoção, que, vinte séculos depois, o Evangelho tinha voltado ao Pretório e, desta vez, saíra absolvido (referia-se, evidentemente, ao meu primeiro julgamento no Tribunal Plenário do Porto). Mas, a partir daí, a repressão política e os fanatismos religiosos passaram a subir de tom e, algum tempo depois, já quase todos - Bispo incluído - se assustaram com o Evangelho deste Deus que gosta de Política, não de religião, e tudo fizeram para o silenciar, não fosse o povo abrir definitivamente os olhos, soltar de vez a língua, atrever-se finalmente a assumir protagonismos políticos que ninguém sabia aonde poderiam levar. E não é que depois da minha segunda prisão e do segundo julgamento no Plenário do Porto, me vi autocraticamente destituído da paróquia e tudo voltou ao que era dantes?! Porém, esse Momento, de luz, de Verdade, de Libertação para a liberdade, de Dignidade humana, de Política, a mais pura, numa palavra, esse kairós que aqui aconteceu, nunca mais foi esquecido, perdura na nossa memória colectiva como boa notícia, como esperança, como sacramento que revela/grita o que as Igrejas e as religiões sistematicamente escondem, a saber, aquele Deus verdadeiramente único que, para espanto e escândalo das pessoas e dos povos, gosta de Política, não gosta de religião, quando, afinal, as pessoas e os povos continuam a gostar mais de religião do que de Política e a preferir adorar um Deus que goste de religião e deteste a Política.
Mas Macieira da Lixa aqui está, teimosamente, como incontornável lugar teológico, a revelar/proclamar ao mundo o Evangelho do Deus de Jesus, o único Deus que sabemos que é verdadeiro, precisamente, porque gosta de Política, não de religião, quer Misericórdia, não culto nos templos. Para ajudar a dar mais "voz" a este anúncio ao mundo do século XXI é que aqui estou de novo a morar com este povo. Na minha pequenez e na minha fraqueza de sempre. Agora, até sem qualquer ofício eclesiástico oficial. Mas munido da Fé de Jesus. Singelamente aberto ao seu Espírito. E vestido da sua alegria.