LIVRO DA SABEDORIA

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Capítulo 50

 

1 Sei bem, muito bem, que o que vou pedir aqui, neste último Capítulo do Livro da Sabedoria, é o Impossível. Mesmo assim, não posso deixar de o fazer. Assim mo pede a Sabedoria que, historicamente, se nos revelou como a Fragilidade Humana Desarmada perante os três Poderes, todos mentirosos e assassinos, nascidos do mítico Deus-Ídolo, inventado /criado pelos Sacerdotes, quando os seres humanos, tempos depois de termos Acontecido no decurso da Evolução, começámos a organizar-nos minimamente, primeiro em tribos, depois em pequenas cidades /aldeias, depois em cidades cada vez maiores e, finalmente, em nações /reinos /estados. Nesse remoto Então, os Sacerdotes não só inventaram /criaram o mítico Deus-Ídolo, como, ao mesmo tempo, auto-elegeram-se entre os demais seres humanos, como os únicos intermediários entre esse mítico Deus-Ídolo e todos os demais seres humanos, e também como os únicos representantes oficiais do Deus-Ídolo no Planeta. Um monopólio, chamado Poder Religioso, que, muitos séculos depois, os Sacerdotes, sucessores dos sucessores, dos sucessores, até aos sucessores dos primeiros, tiveram que alargar, se bem que a contragosto, a outros dois novos Poderes, entretanto, gerados pelo mesmo mítico Deus-Ídolo, respectivamente, o Poder Político e o Poder Económico, este último, hoje, sobretudo, Poder Financeiro Global.

 

2 Porém, neste nosso Século XXI e início do Terceiro Milénio, estamos já a protagonizar mais um passo neste percurso de milénios. Um passo de gigante. Não só as tribos e os reinos deixaram já de existir, como os próprios Estados, um por cada país dos inúmeros países que fazem o Mapa Mundi (ingenuamente, todos continuam ainda a afirmar-se Estados /países "independentes", mas só mesmo ingenuamente!), estão em vias de desaparecer, ou já desaparecerem mesmo, embora continuem aí a figurar no Mapa e a serem referidos nos telejornais, qual deles o mais mentiroso e anestesiador das consciências /mentes dos povos. O nosso Planeta tornou-se definitivamente Global, como uma nave, onde todos os povos, e toda a demais Natureza connosco, navegamos. A nave /o Planeta deveria estar a ser pilotada /pilotado por todos os povos, todos-um-só-povo, os únicos capazes de crescermos em Sabedoria /Inteligência sapiente-sapiente cordial, mas, para desgraça de todos os Povos e do Planeta, está a ser pilotada /pilotado pelos três Poderes, todos-um-só-Poder, hoje, sobretudo, o Poder Financeiro Global, todos intrinsecamente Treva, ainda que Ilustrada, nenhuma Luz Maiêutica; todos Saber /Poder, nenhuma Sabedoria; todos Inteligência-Mentira-Assassínio, nenhumas entranhas de Humano /nenhum Coração.

 

3 E o que de Impossível vou eu aqui pedir neste último Capítulo do Livro da Sabedoria? Peço que, como seres humanos e povos, tenhamos a Humildade /Verdade, ou, o que é o mesmo, a Sabedoria Fragilidade Humana Desarmada, de reconhecer que o Planeta Terra tem andado desviado da sua Matriz Original, desde que os Sacerdotes inventaram /criaram o mítico Deus-Ídolo e se auto-elegeram como os seus únicos intermediários, portadores de uma áurea de Poder absoluto e, por isso, incontestado, porque divino, proveniente directamente de Deus, do Deus-Ídolo que eles próprios habilmente inventaram /criaram e impuseram, a ferro-e-fogo, a todos os demais seres humanos como o único Deus verdadeiro. Consequentemente, tenhamos também a Humildade /Verdade de reconhecer que tudo, mas absolutamente tudo, o que desde então edificamos sobre esta Mentira Institucionalizada, ou Idolatria Institucional, está inquinado, é portador de um vírus /sopro-que-mata, ou, se preferirem, um vírus /sopro que descria progressivamente o Humano, para, em seu lugar, ficar cada vez mais o Inumano, o Funcionário, o Robot, o Técnico, o Monstro, a Besta, numa palavra, o Descriado-Descriador.

 

4 O Desvio da Matriz Original pode ter passado despercebido aos seres humanos desse remoto Então. A vida de cada ser humano, como indivíduo, era, ainda é, demasiado curta. Mal nascemos, já estamos a tornar-nos definitivamente invisíveis aos olhos dos demais. Comparado com a duração que o Universo, hoje ainda em expansão, já tem - 13 mil setecentos milhões de anos! - o nosso ser-nascer-viver individual na História é quase como dia de ontem que já passou. E, no entanto, é um ser-nascer-viver absolutamente decisivo. Nenhum ser humano é-nasce-vive em vão. Somos-nascemos-vivemos, cada um de nós, com o imperativo ético de crescermos em idade, em estatura, em Sabedoria (não em Saber /Poder, intrinsecamente perverso), e em Graça (não em Ter Acumulado /Concentrado, intrinsecamente perverso), até chegarmos à Liberdade /Maioridade, numa palavra, à Autonomia. E para quê? Para Cuidarmos da Terra e uns dos outros, até alcançarmos a plenitude do Humano, que é a Sororidade /Fraternidade Universal /Cósmica Praticada por todos os seres humanos /povos, não só os seres humanos /povos uns com os outros, mas também, os seres humanos /povos com a demais Natureza e o próprio Universo, do qual somos a parcela Consciente e Crítica /Auto-crítica, por isso, eticamente responsável pelo Todo!

 

5 É verdade. O Desvio da Matriz Original pode ter passado despercebido aos seres humanos /povos, nesse remoto Então. Mas hoje, Século XXI e início do Terceiro Milénio, desta nossa era comum (antes do início desta nossa era comum, durante quantos milhares de anos mais, já tinham existido seres humanos no Planeta!), o Desvio da Matriz Original do Planeta alcançou proporções tais, que não dá mais para fazer de conta que ele não está aí. Está. E, ou nos decidimos a realizar o Impossível, ou pereceremos todos, os seres humanos e o Planeta Terra, ainda que o Universo prossiga em expansão, mas já sem nós e sem o Planeta Terra. Digo que estou a pedir o Impossível. Mas só escrevo assim, porque sei bem, muito bem, quanto é difícil, impossível mesmo, o Poder Sacerdotal-Religioso, a Idolatria Institucionalizada, responsável maior do Desvio da Matriz Original do Planeta e, associado a ele, os outros dois Poderes que vieram depois, o Poder Político e o Poder Económico, hoje, sobretudo Financeiro Global, admitirem sequer a existência do Desvio, apesar dele hoje ser Medonho, de proporções mais que Planetárias, já Inter-planetárias.

 

6 Nunca o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, admitirá tal coisa. Seria o seu fim! Tão pouco, o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, admitirá alguma vez, que alguém lhe fale /revele /mostre o Desvio da Matriz Original do Planeta. Seria reconhecer que é Mentiroso e Assassino. E nunca por nunca admitirá /reconhecerá que ele próprio é o Desviador. Seria a sua própria Implosão. Pelo contrário, o Poder tem-se sempre na conta de divino, continua a dizer-se infalível, que vem directamente de Deus (sem nunca admitir que o Deus a que se refere é o mítico Deus-Ídolo), mesmo quando a chamada Encenação Democrática, com que ele hoje se apresenta perante os povos, diga que o Poder vem do Povo. É a mais crassa e a mais obscena das Mentiras, a Mentira por antonomásia, da Modernidade e Pós-Modernidade. Nunca por nunca, o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, admitirá /reconhecerá que é o Desviador da Matriz Original do Planeta, pois, se o fizesse, só lhe restaria desaparecer de vez da História. O Poder é tão demencial-demencial, é tão intrinsecamente Mentiroso e Assassino, que prefere levar o Desvio, em que ele próprio se constituiu, ao seu Apogeu, isto é, à sua própria Implosão, a ter de alguma vez admitir /reconhecer que ele próprio é o Desviador.

 

7 Sempre o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, foi-agiu assim. É da sua natureza ser-agir assim. E, enquanto existir, será assim que é-age. Porque é assim que ele é. O Perverso. Ontologicamente, Perverso. Por isso, absolutamente Mentiroso e Assassino. E nunca o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, revelou /mostrou à saciedade o que efectivamente é-realiza e não pode deixar de ser-realizar, porque é da sua natureza ser-agir assim, como quando, pela primeira e única vez na História, desde que o Desvio, em que ele próprio se constituiu, se viu perante o Ser Humano pleno e integral, único e irrepetível na História, de seu nome, Jesus, o filho de Maria, em quem o Desvio ou a Idolatria Institucionalizada, causado /causada pelos Sacerdotes do Deus-Ídolo e depois fortalecido /fortalecida pelos dois novos Poderes que se lhe juntaram, nunca conseguiu alojar-se, nem por um instante sequer. Esse Momento único e irrepetível, na História da Humanidade, teve /tem tanto impacto, que, ainda hoje, o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, não conseguiu apagar do calendários por que se regem os povos a nova contagem do Tempo que, pelo menos, nos chamados países ocidentais e de influência ocidental, passou a fazer-se: Antes de Jesus e depois de Jesus. Jesus é este Ser Humano pleno e integral, único e irrepetível na História, em quem o Desvio /a Idolatria Institucionalizada nunca conseguiu alojar-se, por um instante sequer. Foi concebido, plena e integralmente Humano, tal como todos e cada um dos demais seres humanos também somos, e nunca mais deixou de crescer /desenvolver-se assim, até levar o Humano ao Limite e para lá do próprio Limite. Por isso, é ele, e só ele, o nosso Paradigma e a nossa Referência Última na História, qualquer que seja a nossa etnia, cultura, língua, país de origem!

 

8 O Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, nunca foi capaz de aceitar este Homem plena e integralmente Humano, Maiêutico. Nunca o acolheu. Nunca o escutou. Nunca o digeriu. Nunca o reconheceu. Logo que soube da sua existência, decidiu matá-lo na Hora. Mas só conseguiu consumar o seu Crime - é o Crime dos crimes do Poder, nos três Poderes em que ele historicamente subsiste - quando chegou a Hora Histórica de ele o fazer. E essa Hora Histórica não foi o Poder que a determinou, porque o Poder, perante o Ser Humano pleno e integral, nada pode. E, mesmo quando pensa que pode, engana-se. No caso concreto de Jesus, o Ser Humano pleno e integral /o Ser Humano integralmente Maiêutico, o Poder pensa ainda hoje que o matou, só porque conseguiu, finalmente, executá-lo na Cruz do seu Império, precisamente, por decisão dos Sacerdotes ou do Poder Religioso. Desconhece, porém - no Poder não há ponta de Sabedoria, a Fragilidade Humana Desarmada, só Saber /Poder mentiroso e assassino - que não lhe tirou a vida, como fez /faz gala de dizer aos seus súbditos. O próprio Ser Humano pleno e integral, Jesus, uma vez alcançada a plenitude do Humano, dentro da História, é quem deu /entregou a sua própria vida pela Vida, como Pura Dádiva. E, nesta sua Entrega, o Ser Humano pleno e integral, Maiêutico, que é Jesus, PASSA até para lá do próprio Limite do Humano, ao mesmo tempo que faz Explodir, para sempre, o próprio Limite do Humano!

 

9 Sei que estou a pedir o Impossível e, mesmo assim, não deixo de o fazer. E estou a pedir o Impossível, porque, como reza a História destes primeiros dois Milénios de Cristianismo, eu sei que, inclusive, depois que o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, teve perante ele o Ser Humano pleno e integral ou integralmente Maiêutico que dá pelo nome de Jesus, o carpinteiro-camponês, o filho de Maria, não só o matou, como ainda levou mais longe a sua intrínseca perversão. Já que não pôde apagar de vez o seu Nome, nem a nova maneira de contagem do Tempo, de antes de Jesus e depois de Jesus, fez um Crime mil vezes mais perverso que matá-lo na Cruz do seu Império. Manteve o nome Jesus, mas retirou tudo, absolutamente tudo, o que Jesus historicamente é, em concreto, o seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus - não esqueçamos que é uma expressão datada, própria do ano 28 e o ano 30 desta nossa era comum, que urge actualizar para este nosso Século XXI - as suas Práticas Económicas e Políticas intrinsecamente Maiêuticas e todos os Duelos Teológicos Desarmados que Jesus historicamente protagonizou contra o Poder, nos três Poderes em que ele historicamente subsiste, bem como contra o mítico Deus-Ídolo que lhe dá perversa cobertura e legitimidade ideológica /teológica. E, em seu lugar, implantou um mítico Jesus-Cristo, ou simplesmente, Cristo, que alguns dos seus próprios discípulos, com destaque para o grupo dos Doze, possessos que andavam do Poder Político do Judaísmo da dinastia de David /Salomão, rapidamente restauraram, pouco tempo após a Morte Crucificada de Jesus. Até a nova contagem do Tempo deixou de ser antes de Jesus e depois de Jesus, para passar a ser antes de Cristo e depois de Cristo!

 

10 O Cristianismo que hoje conhecemos e que perversamente marcou os povos do Ocidente e todos os outros por influência do Ocidente, é exclusivamente desse mítico Cristo que procede, não de Jesus, o Ser Humano integralmente Maiêutico, nem do Movimento intrinsecamente Maiêutico que Jesus é e sempre desencadeia /faz Acontecer, lá, onde dois ou três, em qualquer tempo e lugar, se reunirem em seu Nome. A Igreja Católica Romana e as chamadas Igrejas evangélicas que proliferam por aí como cogumelos envenenados depois das chuvas (todas elas provêm do Século XVI e reproduzem exactamente a mesma perversão da Igreja Católica Romana, às vezes, até para mais perverso ainda) vão todas por aí, pelo mítico Jesus-Cristo, ou simplesmente, Cristo. Tanto assim, que todas se dizem cristãs. Nenhuma delas se diz ser, menos ainda, é, efectivamente, de Jesus, da sua mesma Fé, do seu mesmo ser-viver intrinsecamente Maiêutico. Os mais de dois mil milhões de seres humanos que, neste Século XXI, se declaram cristãos no Mundo, em alguma dessas muitas Igrejas cristãs ou da Igreja católica romana, são todos do mítico Cristo, não de Jesus. Todos confessam ter muita fé religiosa em Jesus-Cristo, ou simplesmente, Cristo, nenhum diz /testemunha (as excepções só confirmam a regra) que se experimenta animado da mesma Fé Maiêutica (anti-Religião, anti-Poder Político e anti-Riqueza Acumulada /Concentrada, hoje Poder Financeiro Global) de Jesus. Muito pelo contrário. O Ser Humano pleno e integral, Maiêutico que Jesus é, mete-lhes medo. E eles evitam-no. Nunca cruzam o seu com o Olhar dele. Procedem todos como o homem rico de que falam os três Evangelhos Sinópticos, e como os fariseus, os saduceus, os doutores da Lei, os sacerdotes. Até os do grupo dos Doze (dos quais - é preciso descaramento e não ter vergonha na cara! - todos os bispos-Poder Religioso-Eclesiástico, ainda hoje, Século XXI, se dizem os sucessores), que andaram fisicamente com Jesus; mas nunca foi com ele que se identificaram, pelo contrário, sempre se opuseram violentamente, porque o coração deles estava todo com o Projecto de Poder Político da dinastia de David /Salomão!... Não é o que revelam os quatro Evangelhos?!

 

11 Os cristãos, elas e eles, são todos adoradores (também já os há por aí orgulhosamente ateus!) do Deus-Ídolo inventado pelos Sacerdotes, no remoto Então do alvorecer dos seres humanos minimamente organizados. E adoradores do seu mítico Cristo, ou Jesus-Cristo, que todos seguem e adoram, sempre na mira de que, desse modo, a vida deles, das suas filhas, dos seus filhos, corra pelo melhor, cheia de êxitos, de empregos bem remunerados, cheios de saúde, vida longa, abundância de tudo do bom e do melhor. São assim os cristãos do Cristianismo, porque também são assim, para mais perverso ainda, os sacerdotes e pastores que eles encontram a dirigir cada Igreja concreta, em que foram baptizados e onde foram /são catequizados. Há hoje Igrejas cristãs e congregações que se especializaram no estudo da Bíblia e os seus aderentes têm-se na conta de serem ainda mais cristãos que os outros da Igreja católica romana, por exemplo, que passam o tempo em devoções beatas e estupidificantes, ritos cheios de ópio e de alienação, peregrinações e mais peregrinações a santuários de renome ou mesmo aos chamados "Lugares Santos", os da Perversão /Idolatria Institucionalizada, os Lugares santos do Deus-Ídolo e dos seus sacerdotes que mataram Jesus na Cruz do Império, nos quais nasceu o Cristianismo do mítico Cristo, que ficou no lugar de Jesus e do Movimento Político Maiêutico que ele é. Na sua cegueira bíblica, nem sequer se apercebem que são ainda mais perversos do que os outros. Porque até com a letra da Bíblia matam tudo quanto,  todos quantos lhes passarem pelas mãos, pelas catequeses, pelos cursos bíblicos que os dirigentes /biblistas das suas Igrejas cristãs ou congregações promovem.

 

12 Está então tudo perdido? Felizmente, não está. E porquê? Porque, quando as primeiras discípulas, os primeiros discípulos não-Judeus de Jesus, começaram a dar-se conta do que o Pedro, que negara Jesus por três vezes e nunca mais havia dado sinais de arrependimento, pelo contrário, até correu logo a constituir-se no chefe número um do Cristianismo do mítico Cristo Vitorioso, em Jerusalém, de onde não arreava pé, assim como do Templo que crucificou Jesus na Cruz do Império; e do que o fariseu fanático, Saulo /Paulo de Tarso, recém-convertido ao mítico Cristo Vitorioso, que nunca havia conhecido Jesus na carne, e, para cúmulo, ainda se orgulhava disso (obviamente, só lhe interessava o mítico Cristo Vitorioso que, segundo ele próprio anuncia /escreve, estava para vir de novo sobre as nuvens do céu esmagar os inimigos do seu povo e de Deus, o Deus do seu povo!) andavam ambos a fazer, mais ainda Paulo do que Pedro, concretamente, de como estavam ambos empenhados em impor aos Judeus e aos povos do Mundo o mítico Cristo Vitorioso, o do Poder religioso-político da dinastia de David /Salomão, passaram-se todas, todos de imediato à clandestinidade e meteram-se a escrever /Testemunhar tudo o que Jesus, com quem haviam Partilhado a Missão até à sua Morte Crucificada na Cruz do Império e, mesmo depois dela, havia maieuticamente despertado no ser-viver de cada uma, cada um. Concretamente, de como Nasceram de Novo, do seu mesmo Sopro /Espírito Maiêutico, e se tornaram Mulheres /Homens Maiêuticos também, prosseguidores da sua mesma Missão na História, concretamente, das suas mesmas Práticas Maiêuticas e dos seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados.

 

13 Fizeram-no, para que, desse modo, Jesus, o Ser Humano integralmente Maiêutico que lhes havia mudado até o Ser e, consequentemente, também o seu viver na História, desde então, definitivamente longe do Deus-Ídolo dos sacerdotes e dos outros dois Poderes, e longe do seu mítico Cristo Vitorioso. Quatro dessas Narrativas, escritas em forma de Evangelho ou Boa Notícia de Jesus, o ser Humano plena e integralmente Maiêutico, são hoje, Século XXI, mais ainda do que no século III-IV, garantidamente tidas e achadas como as mais fundamentais, para que Jesus, o filho de Maria, a sua mesma Fé e o seu mesmo Sopro /Espírito Maiêutico cheguem fielmente a nós, seres humanos e povos do Século XXI e do Terceiro Milénio, e nos façam Nascer de Novo, isto é, totalmente fora do Mundo do Poder, nos três Poderes em que o Poder historicamente subsiste, totalmente fora do seu Deus-Ídolo e, também, totalmente fora do seu mítico Cristo Vitorioso.

 

14 A Igreja católica reconheceu /reconhece estes quatro Evangelhos, escritos pelas pequenas comunidades clandestinas das, dos de Jesus, contra o mítico Cristo Vitorioso e contra o Cristianismo de Pedro e, sobretudo, de Paulo e de Tiago, o irmão carnal de Jesus, que nunca foi discípulo dele e, só por isso, depressa se fez estupidamente entronizar como o chefe maior da Igreja Judeo-Cristã de Jerusalém, obviamente, uma Igreja, toda ela, contra Jesus, seu irmão carnal de Tiago, de quem Tiago se envergonhava, pois, enquanto Crucificado na Cruz do Império, constituiu-se para sempre na vergonha da família, no "louco" da família. Pior ainda, no Maldito dos malditos, como, de resto, dizia /diz o Livro bíblico do Deuteronómio! É verdade. A Igreja católica reconheceu /reconhece e, hoje, mantém /difunde estes quatro Evangelhos escritos. Mal ela sabe que eles foram escritos contra o mítico Cristo Vitorioso de Pedro e de Paulo, os quais, logo após a Morte Crucificada de Jesus na Cruz do Império, em vez de irem para a "Galileia", ficaram em Jerusalém (Pedro, pelo menos), a ocupar o lugar de chefes do Judeo-Cristianismo, como se Jesus, crucificado pelos sacerdotes do Templo na Cruz do Império, tivesse, finalmente, "virado" divino, todo-poderoso, vitorioso, ao jeito do mítico Deus-Ídolo dos Sacerdotes, e definitivamente sentado à direita dele no céu.

 

15 O Ser Humano Maiêutico Jesus, que cresceu até ao Limite do Humano e fez explodir o Limite do Humano, com a sua Morte Crucificada na Cruz do Império, deixava, assim, definitivamente, de o ser. Agora, era o Messias /o Cristo Vitorioso e, finalmente, no século IV, o Sol Invictus, do Império Romano de Constantino e dos seus sucessores, actualmente, o papa de Roma, actual chefe de Estado do Vaticano, assessorado pela perversa e mafiosa Cúria Romana. O Projecto Político de Deus Criador, seu e nosso Abbá e Abbá de todos os povos por igual, que Jesus, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, historicamente realizou no seu ser-viver plena e integralmente Maiêutico, que, incansavelmente - nem sequer tinha onde reclinar a cabeça, de tão itinerante foi o seu viver! -praticou maieuticamente com os Pobres e Oprimidos, que tornou efectivamente presente entre eles e com eles e por causa de tudo isso foi morto na Cruz do Império, por decisão dos sumos-sacerdotes do Templo, desaparecia, pura e simplesmente. Em seu lugar - crime dos crimes! - ganhava projecção e era acolhido pelos Judeus e por outros povos do Império, o mítico Cristo e o Projecto de Poder Político da dinastia de David /Salomão, mais tarde, o Projecto de Poder Político do imperador Constantino e seus sucessores, que Jesus-em-Missão Maiêutica na Galileia e, finalmente, na Judeia, havia denunciado /desmascarado como gerador de Mentira e de Assassínio, e ferido de morte, até que dele, um dia, não haja sequer rasto.

 

16 A Igreja católica, cada vez mais Poder Sacerdotal /Religioso, conservou e reconheceu estes quatro Evangelhos que (mal ela sabe, ou sabe e por isso sempre os manteve e ainda mantém sequestrados /manipulados) manifestamente, a condenam e a derrubarão. Basta ver como, durante séculos e séculos, só alguns poucos clérigos tinham acesso aos manuscritos, escritos em grego. Os povos não sabiam ler e, mesmo que alguns dos povos soubessem, não sabiam a língua com que os manuscritos se davam a ler; e, que soubessem, não tinham acesso a eles. Deste modo, jamais, na curta vida de cada indivíduo, os povos souberam de Jesus, do Movimento Político Maiêutico que ele é e do Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade /maioridade, e de Povos em radical igualdade, que Jesus praticou /revelou /anunciou, e quer que chegue aos povos de todas as nações. Apenas souberam o que os sacerdotes, cada vez mais senhores feudais, homens do Poder Religioso e do Poder Económico, lhes disseram. E o que disseram, era o mesmo que Nada. E sempre do modo que eles próprios muito bem entendessem! Por isso, os quatro Evangelhos existiam, mas era como se não existissem. Estavam bem guardados /sequestrados, de acesso limitadíssimo a uns quantos que, entretanto, eram obrigados, sob juramento de sangue (caso quebrassem o juramento eram de imediato assassinados!), a nunca revelar o que lá se dizia de um tal Jesus, o camponês-artesão, o filho de Maria, o ser humano plena e integralmente Maiêutico que os sacerdotes do Templo fizeram crucificar na Cruz do Império, por ter revelado que o Templo é covil de ladrões e que o Deus dos Sacerdotes é o Deus-Ídolo, mentiroso e assassino. Só mesmo o mítico Cristo Vitorioso interessava e só dele se haveria de falar /catequizar. Para, com isso, reforçarem mais e mais o Poder Sacerdotal /Religioso e o Poder Económico do próprio clero, sobretudo, do alto clero, e da respectiva instituição católica romana.

 

17 Com a invenção da rotativa que imprimia cópias umas atrás das outras, cada vez a velocidade maior, as cúpulas da Igreja católica romana viram-se ameaçadas e fizeram tudo para amaldiçoar tal invento e o seu inventor. Em vão. Depressa, apareceu uma Bíblia traduzida numa língua vernácula. O que até então era segredo de Estado Eclesiástico, passou a estar ao alcance de quem soubesse ler e ouvir ler. Os quatro Evangelhos voltam ao de cima e os povos começam a saber de um tal Jesus. Só que logo os da Igreja católica romana e, depois os das Igrejas ditas reformadas, passaram a ler os Evangelhos a partir da sua posição de Poder e de Privilégio. E de Jesus, só ficou mesmo o mítico Cristo Vitorioso e o seu mentiroso e assassino Deus-Ídolo, o dos Sacerdotes e Pastores. E para que nada fosse além disso, a Igreja católica decretou que só aos da sua cúpula havia sido dado por esse mítico Cristo (não por Jesus, obviamente!) o Poder de interpretar canonicamente os textos bíblicos, quatro Evangelhos incluídos. E assim tem sido até há bem pouco tempo. Para desgraça dos povos e do Planeta. Porque, com os Evangelhos assim domesticados, cativos da Igreja Eclesiástica Cristã-católica romana, ou simplesmente, Igreja Cristã, o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, tem-se mantido e afirmado, cada vez mais mentiroso e assassino. É crime sobre crime. Assassínio sobre Assassínio. E, hoje, nem o Planeta Terra está a salvo. Tudo é roubado, privatizado, massacrado. Sempre com o mítico Cristo a abençoar, mai-lo o Deus-Ídolo dos Sacerdotes.

 

18 Século XXI, é a Hora de Mudar. E Mudar de raiz. A Ciência tem ajudado a chegarmos mais a Jesus, o camponês-artesão de Nazaré, o filho de Maria. Ainda que depois, ela própria, depressa controlada pelo Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, acabe refém dele e ao seu inteiro e exclusivo serviço Mentiroso e Assassino. Porém, há sempre quem escape ao controlo do Poder e deixe Soprar na História o genuíno Sopro /Espírito Maiêutico de Jesus, o filho de Maria. E, com Jesus, nunca mais com o mítico Cristo, mudar de Deus é, hoje, imperioso. Mudarmos do Deus-Ídolo dos Sacerdotes, para o Deus Criador e Abbá de todos os povos em radical igualdade, que nunca ninguém viu, mas que historicamente pudemos conhecer em Jesus, o Ser Humano pleno e integral, em quem a Idolatria Institucional nunca conseguiu entrar, nem por um instante. É imperioso, pois, mudarmos de Deus. E retomarmos a Matriz Original do Planeta, da qual os Sacerdotes que inventaram /criaram o Deus-Ídolo, se desviaram e que causou, como hoje se vê, em retrospectiva, todo o historial de Inumanidade e de Descriação, em que a História se converteu. E que hoje, Século XXI, está em grave risco de Implodir a qualquer Momento. Porque nunca como hoje o Poder, nos três Poderes em que historicamente subsiste, o foi tanto. Nem tão Cruel /Inumano /Descriador.

 

19 Esta é, pois, a Hora dos Povos. Não pode mais continuar a ser a Hora do Poder. Esta é, também, a Hora de fazermos Implodir o Cristianismo, sem dúvida, a maior Traição Institucionalizada a Jesus, o do Reino /Reinado de Deus Criador de filhas, filhos em estado de Liberdade /Maioridade e de povos em radical igualdade, de que há memória (a de Judas à beira desta, é uma brincadeira!), que veio dar ainda mais Poder de Descriar /Matar /Roubar /Destruir aos três Poderes e acabou a fazer deles o Perverso Absoluto, o Assassínio Institucionalizado /Legalizado. Esta é a Hora de fazermos desaparecer de vez da História o Cristianismo, e sobretudo, do ADN dos seres humanos e dos povos. Para que, em seu lugar, fique apenas Jesus, Século XXI, que os povos desconhecem por completo, já que ele sempre lhes foi apresentado como o mítico Jesus-Cristo, ou simplesmente Cristo. Sei que estou a pedir o Impossível. Nem os três Poderes, como-um-só, deixarão de o ser e cada vez mais mentirosos /violentos /ladrões /assassinos dos povos e do Planeta. Nem os chefes das Grandes e das pequenas Igrejas cristãs desistirão do seu mítico Cristo. Eu sei. Uns e outros, como-um-só, nem sequer podem ouvir falar de Jesus, muito menos, escutar /acolher /digerir Jesus e Prosseguir na História o seu Projecto Político Maiêutico. Mas só Jesus, o Ser Humano plena e integralmente Maiêutico, está reconhecido por Deus Criador, seu e nosso Abbá e de todos os povos por igual, como aquele em quem a Matriz Original do Planeta atingiu o Limite do Humano e fez, até, Explodir o Limite do Humano. De modo que, com Jesus, já não há mais o Limite do Humano. Até a nossa própria Morte é, com Jesus, a nossa Definitiva PÁSCOA /PASSAGEM para o plenamente Humano sem mais nenhuma espécie de Limite! Resgatemos, pois, Jesus das Igrejas cristãs. Resgatemos o seu Evangelho de Deus Criador, seu e nosso Abbá, maieuticamente presente e activo nas quatro /cinco narrativas (a de Lucas está escrita em dois volumes que devem ser lidos de seguida!), todas bem conhecidas de nome, mas todas perversamente interpretadas pelos clérigos e pelos pastores e seus biblistas de serviço, os novos doutores da Lei, do tempo e do país de Jesus. Sobretudo, ousemos ser outros Jesus, Século XXI e Terceiro Milénio além.

 

20 Regressar a Jesus é preciso, imperioso e urgente. À sua mesma Fé Maiêutica, não religiosa. Às suas mesmas Práticas Económicas e Políticas Maiêuticas. E aos mesmos Duelos Teológicos Desarmados de Jesus, pelo menos, enquanto os três Poderes-como-um-só, mai-lo o seu Deus-Ídolo, juntamente com o Cristianismo e o seu mítico Cristo Vitorioso, permanecerem aí activos, como-um-só. Havemos de Prosseguir Jesus, a sua mesma Fé Maiêutica, as suas mesmas Práticas Maiêuticas e os seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados, agora devidamente actualizados para o nosso Século XXI. Não nos esperam dias fáceis, eu sei. O que só nos deve alegrar. Porque os dias fáceis são os da Corrupção e da Idolatria que descriam o Humano. Esperam-nos dias de Grandes Duelos, nos quais temos de entrar sempre Desarmados, que assim é a Sabedoria, a Fragilidade Humana Desarmada. Temos de ser outros Jesus, Século XXI adiante e para lá dele. Por isso, Cristo e o Cristianismo, nunca mais! Jesus - o ser humano plena e integralmente Humano Maiêutico, e o Movimento Político Maiêutico que ele próprio é e faz despertar em nós, sempre dois ou três, em qualquer tempo e lugar, se reúnem em seu Nome - sempre! Até que o Planeta seja todo plena e integralmente Jesuânico, Maiêutico, onde já ninguém se atreve a apropriar-se dele, porque ele é de todos os seres humanos e de todos os povos por igual, segundo a necessidade real de cada qual. Despojemo-nos, pois, de tudo o que é do Deus-Ídolo. De tudo o que é dos três Poderes, como-um-só. De tudo o que é do mítico Cristo e do Cristianismo, a que ele deu origem. Vivamos alegremente em Deserto. Na Trincheira povoada de Afectos Partilhados e de Mesas Compartilhadas. Peço-lhes o Impossível, eu sei. Mas não sou eu quem pede. É a Sabedoria, a Fragilidade Humana Desarmada, a única que derrubará o Poder, nos três Poderes em que ele historicamente subsiste. E que abrirá as portas ao Planeta, finalmente, criado de acordo com a sua Matriz Original, da qual os Sacerdotes o desviaram, quando se meteram a inventar /criar o mítico Deus-Ídolo e logo se auto-elegeram como os seus únicos intermediários e os seus únicos representantes, ao mesmo tempo que impuseram a todos os povos esse Desvio, essa Idolatria Institucionalizada! É Hora. A Hora dos seres humanos e dos povos. A nossa Hora!

 

FIM do Livro da Sabedoria

 

Capítulo 49

 

1 Pessoas da Política [deveria ter escrito: do Poder Político, porque a Política é a mais nobre das artes, enquanto o Poder Político é o assassino número um da Política!] e dos media [certamente dos Grandes] têm pedido com alguma insistência a um amigo meu, presbítero da Igreja como eu, mas ainda frequentador de templos e de altares, na sua qualidade de membro activo de uma conhecida Congregação religiosa Missionária, e professor de Filosofia na Universidade de Coimbra, para que escreva um texto sobre o que é ser católico (o meu amigo é cronista semanal, há vários anos, num conhecido matutino, com sede em Lisboa). Um dia destes, o meu amigo fez-lhes a vontade e escreveu o texto. Diz o óbvio, no âmbito do doutrinal institucional católico; já sobre quem é efectivamente católico, levanta algumas e pertinentes questões práticas, uma vez que, em seu entender e no entender do próprio Institucional católico, um católico assumidamente não praticante (hoje, a esmagadora maioria no Ocidente) é quase o mesmo que um não católico. O texto do meu amigo não deixa de me surpreender, pela negativa. Revela muito Saber, mas apresenta-se falho de Sabedoria. E de Sabedoria, é do que todos os seres humanos andamos necessitados. Já do Saber que nunca chegue a ser Sabedoria, poderemos passar muito bem sem ele. Porque o Saber que nunca chegue a ser Sabedoria, acaba sempre como o principal aliado do Poder, de todo o Poder, particularmente, da trindade dos Poderes - o Religioso, o Político e o Financeiro - que é a mãe /o pai de todos os Poderes que, desde o início da humanidade minimamente organizada, mantêm os seres humanos e os povos que lhes não resistam activamente e por toda a vida, cativos na Injustiça Estrutural, hoje, até, cientificamente organizada.

 

2 O texto do meu amigo começa por dizer que, "católico é antes de mais o cristão baptizado na Igreja Católica." E logo sublinha: "O acento tem de estar no «cristão». Postas as coisas assim, nunca mais chegaremos a sair do Mesmo. Daí, a minha surpresa, pela negativa, que o texto me causou. Porque o Mesmo de que nunca chegaremos a sair, é precisamente esta Igreja Cristandade Ocidental, ou Poder Religioso-Eclesiástico clerical, que está na origem - e os seus chefes ainda se orgulham disso, em vez de vestirem de saco e cobrirem a cabeça de cinza, em sinal de arrependimento e de conversão! - e até no desenvolvimento do perverso Ocidente que hoje somos e que, chegados ao Século XXI, podemos ver, como nunca antes, o monstro institucional que ele é /somos. Com este Ocidente e neste Ocidente, formatado pela Igreja Cristandade e pelo seu Cristianismo, os seres humanos são meros objectos, nunca sujeitos; os povos são sistematicamente conquistados, roubados, assassinados, destruídos; e os sobreviventes de cada periódica carnificina, são usados como carne-para-canhão, mantidos, geração após geração, no Medo e no Infantil, e alimentados pelo pão da Banalidade, da Superficialidade, do Devocionismo rasca ou ilustrado, da Mediocridade, e da mais crassa ou ilustrada Alienação. Os sacerdotes que pontificam nos templos são profissionais da Mentira, funcionários a tempo inteiro do Religioso (o braço direito do Poder Financeiro), mercenários que aterrorizam /exploram sobretudo as multidões mais desprotegidas e, bíblica e teologicamente, mais subdesenvolvidas. Já, os Executivos Seculares das nações são o braço esquerdo do Poder Financeiro, ao seu inteiro e incondicional serviço e dos seus Mercados, que hoje tudo e todos dominam e matam, sem que ninguém lhes faça frente.

 

3 O meu amigo parece desconhecer, como, de resto, a generalidade dos nossos intelectuais católicos e não católicos, agnósticos e ateus que se digam, que o Cristianismo não está, nunca esteve, nunca estará na linha de continuidade de Jesus, o camponês-carpinteiro de Nazaré, o filho de Maria (= o Ninguém dos Ninguém, que é o que quer dizer a expressão, exclusiva do Evangelho de Marcos, "o filho de Maria), muito menos, na linha de continuidade do seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade e de povos em radical igualdade, tão pouco, na linha de continuidade do Movimento Político Maiêutico que Jesus é e desencadeia na História, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30 desta nossa era comum. O Cristianismo Vencedor é, objectivamente, o segundo assassinato histórico de Jesus, sem dúvida, muito pior que o primeiro, consumado na Cruz do Império Romano, em Abril do ano 30. O Cristianismo, como o próprio nome etimologicamente revela, tem na sua génese um mítico Cristo, representado, em todos estes séculos de Cristandade, por esse asqueroso e sinistro símbolo, que é a cruz, com a imagem de um corpo de homem crucificado nela, e que anda por aí multiplicada aos milhares de milhões, plantada em tudo quanto é sítio e esquina, até dependurada do pescoço de muitas pessoas e colada às vestes dos clérigos, de frades e de freiras, o que perfaz, no seu todo, uma das mais graves humilhações dos seres humanos e dos povos, que uns e outros, em lugar de energicamente a repelirem, são até estimulados a acolhê-la e a carregé-la, como uma bênção ou amuleto.

 

4 Ter associado e continuar, Século XXI além, a associar esse mítico Cristo pregado numa cruz de madeira, de ferro, de pedra ou de ouro, a Jesus, o Crucificado pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém, na Cruz do Império romano, é a perversão das perversões, a mentira das mentiras, o crime dos crimes, a traição das traições. Num ápice, fez-se /faz-se desaparecer para sempre da História e da memória dos Povos, até do ADN de cada ser humano, Jesus e o seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador, o Abbá de todos os Povos, mais íntimo a eles do que eles próprios, bem como o Movimento Político Maiêutico que Jesus é e fez /faz desencadear na História, para que sempre brote, como fonte de água viva, de dentro dos povos de todas as nações, contagie pelo menos alguns dos seus membros e, como o fermento na massa, o sal da terra e a luz do mundo, transforme de raiz este nosso Mundo, todo ele edificado sobre a areia, não sobre a rocha; sobre a Mentira que oprime os seres humanos e os povos e faz deles Opressores uns dos outros, não sobre a Verdade que nos faz livres e libertadores /maiêuticos uns dos outros; numa palavra, bem mais teológica e política, edificado, não sobre a mesma Fé de Jesus, mas sobre a Idolatria, sem dúvida, o Pecado Estrutural do Mundo, o único Pecado que não pode ser perdoado, pelo contrário, sempre tem /terá de ser desmascarado, amarrado, e, finalmente, decapitado pela fome. O que só sucederá, quando todos os seres humanos e os povos formos da mesma estatura de Jesus, outros Jesus, em cada tempo e lugar, pois só então deixaremos de alimentar o Deus-Ídolo - inventado /criado pelos sacerdotes, subjacente ao Pecado Estrutural do Mundo que é a Idolatria - com o sacrifício de milhões e milhões de vítimas humanas, as únicas vítimas com que semelhante Monstro ou Besta se alimenta.

 

5 O mais dramático /tremendo é que toda esta perversão das perversões, esta mentira das mentiras, este crime dos crimes, esta traição das traições, teve o seu início, poucos meses /anos após a Morte Crucificada de Jesus. E - vejam só! - por acção directa de alguns dos seus principais discípulos, cujos nomes são, ainda hoje, sobejamente conhecidos dos povos do Ocidente e do resto do Mundo, aonde a perversa influência da Cristandade Ocidental já chegou, graças também às chamadas Missões, que as poderosas Congregações religiosas das ditas, há séculos promovem e alimentam. E também por acção dos mais próximos familiares de sangue de Jesus, entre os quais, se conta Maria, a sua própria mãe de sangue, e o seu próprio irmão de sangue, Tiago, de seu nome, os quais nunca haviam sido das, dos de Jesus e do seu Movimento Maiêutico, pelo contrário, até haviam sido dos seus principais opositores (o Evangelho de Marcos chega a dizer que eles quiseram ter mão nele, porque tinham-no por um louco varrido, um perigo público!). O Evangelho de Lucas dá-nos notícia desta alta traição, liderada por Simão Pedro, o chefe dos discípulos que, até à prisão logo seguida da Morte Crucificada de Jesus, haviam constituído o grupo dos Doze, e por Tiago, o irmão de Jesus, chefe /porta-voz dos familiares de sangue. A notícia vem logo no primeiro capítulo do Segundo volume do seu Evangelho, erradamente, chamado "Actos dos Apóstolos" (Lucas é único dos quatro Evangelhos canónicos que se apresenta em dois volumes; e o segundo foi escrito, precisamente, para relatar /testemunhar ao pormenor como é que foi feita a traição a Jesus, ao seu Projecto Político do Reino /Reinado de Deus Criador e ao Movimento Político Maiêutico que Jesus é e desencadeou /desencadeia na História).

 

6 Infelizmente, nunca fomos capazes de entender o Evangelho de Lucas, muito menos, o segundo volume, desenvolvido ao longo de 28 capítulos. E não fomos, porque o Institucional Eclesiástico que depressa, após a Morte Crucificada de Jesus, se começou a perfilar no horizonte, sempre no-lo tem impedido. Quando esse Institucional Eclesiástico levou de vencida o pequeno núcleo das, dos de Jesus e do seu Movimento Político Maiêutico, integrado por Maria Madalena, Maria, a mãe de João Marcos, em cuja casa se reuniam clandestinamente, e mais outras mulheres que haviam seguido Jesus desde a Galileia até ao Calvário e por alguns discípulos homens de proveniência helénica e romana (todos os discípulos do grupo dos Doze, só homens, integrados no Judaísmo, após a prisão política de Jesus, logo seguida da sua Morte Crucificada, haviam fugido e desaparecido de cena!), logo pegou no segundo volume do Evangelho de Lucas, assim como nos quatro Evangelhos canónicos nossos conhecidos, e passou a lê-los /interpretá-los de acordo com as suas inconfessáveis aspirações de Poder Religioso /Político, na continuidade do projecto de Poder Político do Judaísmo puro e duro que tinha /tem o seu principal fundamento no rei David e na sua casa real, e que, no passado, havia atingido o zénite, precisamente, na pessoa do rei Salomão, o filho de David que lhe sucedeu no trono.

 

7 A liderança primeira deste Institucional Eclesiástico, ainda titubeante, cabe, antes de mais, a Tiago, irmão de sangue de Jesus, que, como já disse, nunca havia sido seu discípulo, pelo contrário, fora até o seu principal opositor, quando, com os demais familiares, a mãe de Jesus incluída, quis ter mão nele, porque todos consideravam que ele só poderia estar louco varrido. É Tiago, não Pedro, que aparece como o primeiro chefe da Igreja de Jerusalém que reunia no respectivo Templo, esse mesmo Templo - vejam a contradição! - que Jesus havia simbolicamente derrubado e que classificou de "covil de ladrões"!!! A liderança cabe também a Pedro, o chefe do Grupo dos Doze que se desfez completamente com a prisão seguida da Morte Crucificada de Jesus, e que Pedro, habilmente, reconstruiu, quando estavam todos reunidos na chamada sala de cima, que fazia parte do Templo. Só que Pedro fica em segundo plano, relativamente, a Tiago e em conflito mais ou menos aberto contra ele. Mesmo assim, nos primeiros tempos, também não larga o Templo de Jerusalém, quando Jesus lhes havia dito que, depois da sua Morte Crucificada, os precederia na Galileia! Nunca, obviamente, em Jerusalém, cidade assassina dos profetas e do próprio Jesus, muito menos no Templo, "covil de ladrões", cujos sacerdotes haviam acabado de crucificar Jesus na Cruz do Império romano!!! Pedro, em conflito com Tiago, não larga Jerusalém, onde procura ganhar terreno sobre Tiago, faz intervenções no átrio do Templo, independentes das de Tiago, mas todas elas, tal como as de Tiago, na linha do Poder Político davídico, da casa real de David /Salomão.

 

8 O que leva Simão Pedro, fugido /desiludido com Jesus, de quem chegou a dizer que o não conhecia de lado nenhum, a congregar de novo os outros dez que restavam dos Doze, tão fugidos /desiludidos com Jesus quanto ele (Judas havia-se passado de vez para o partido dos sumos sacerdotes do Templo e nunca mais regressou desse suicídio político!), dos quais ele era o chefe incontestado, sempre em oposição a Jesus, até ao momento da sua prisão logo seguida da sua Morte Crucificada? Sim, o que leva Pedro a congregar os outros dez? (Recordemos que, no momento da prisão, Pedro ainda chega a puxar da espada, para impedir Jesus de ser preso, uma postura em flagrante oposição à historicamente assumida por Jesus, o qual, logo ali, já preso, repõe a verdade do seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador, e ordena a Pedro que meta de imediato a espada na bainha!). A pergunta faz todo o sentido. E toda a gente já conhece a resposta. Só que a resposta que toda a gente já conhece, porque é a que sempre nos tem sido dada (pelos vistos, até o meu amigo se lhe refere no texto que escreveu, sinal de que também ele a faz sua e sobre ela edifica todo o seu ser-viver, como de resto sempre têm feito e continuam a fazer todos os outros católicos e todos os outros cristãos, elas e eles), é uma resposta mentirosa, interesseira, por isso, perversa. Já leva 20 séculos, eu sei, mas nem por isso deixa de ser uma resposta mentirosa, interesseira, por isso, perversa. Ei-la, em síntese: Inopinadamente, menos de 48 horas depois da Morte Crucificada de Jesus, teria começado a circular entre os antigos discípulos de Jesus, elas e eles, que o sepulcro estava vazio (mas nunca houve sepulcro, já que o cadáver crucificado de Jesus, depois de arrancado da Cruz, foi lançado à vala comum, como era de uso e costume dos romanos crucificadores) e que o Crucificado, de há menos de 48 horas antes, era agora e para sempre o Ressuscitado Vencedor da Morte.

 

9 A notícia deixa os antigos discípulos de Jesus, elas e eles, em grande alvoroço. Também e, sobretudo, os discípulos Judeus que haviam constituído o grupo dos Doze. E, depressa, ganha corpo entre eles, a perversa interpretação de que, se o Crucificado é o Ressuscitado, então, Pedro e o grupo do qual ele era o chefe, tinham razão contra o próprio Jesus-em-plena-Missão, na Galileia e na Judeia, uma vez que ele e eles sempre se haviam recusado a admitir que o "Messias" ou o "Cristo" seria historicamente um Derrotado, um Fracassado. Deus tal não permitiria, diziam contra o próprio Jesus; Deus haveria de sair em sua defesa, nem que fosse com uma espectacular intervenção milagrosa em Jerusalém, e assim esmagar, de vez, todos os seus inimigos e estabelecer, finalmente, o seu Reino de Poder absoluto e universal sobre todos os povos da Terra. O projecto de Poder Político da casa real de David /Salomão era por aí que ia e, pelo que agora se vê, estava certo, pelo menos, no pensar de Pedro e dos do seu grupo. Deus, o dos nossos pais - diz Pedro, nos seus primeiros discursos de primeiro chefe (papa?!) do novo Poder, manifestamente ufano perante as multidões, que o escutam como a um chefe vencedor, saiu em defesa do seu "Messias" ou "Cristo" e resgatou-o definitivamente da Morte, de tal modo que o seu cadáver não conheceu nem conhecerá a corrupção. Não o fez, quando os nossos chefes, certamente, por ignorância, o prenderam e o executaram na Cruz do Império, o que muito nos escandalizou e até dispersou, mas fê-lo, menos de 48 horas depois, precisamente, quando tudo parecia já consumado. Afinal, não estava tudo consumado. Chegou agora a hora da vingança do nosso Deus, no qual os nossos pais sempre confiaram. O "Messias" ou o "Cristo" venceu a Morte e dentro de breves dias /semanas /meses vem aí de novo, mas agora definitivamente Vitorioso, sobre as nuvens do céu, implantar o seu Reino definitivo sobre todos os povos da Terra. E nós aqui estamos como testemunhas destas coisas e mais do que prontos a assumir nesse Reino vencedor os principais lugares de comando!

 

10 É esta a resposta, já nossa conhecida por de mais, de que Pedro se faz eco, no dia do Pentecostes, a grande festa dos Judeus, realizada cinquenta dias após a Páscoa dos Judeus, na última das quais, segundo o calendário em vigor, os sacerdotes do Templo haviam dado a Morte Crucificada a Jesus. Por ela, temos de concluir que, para Pedro e os outros discípulos do grupo, de novo Doze, o Fracasso histórico virou Êxito, a Derrota histórica virou Vitória, o Messias Crucificado virou Messias Ressuscitado. Por isso - parece querer alertar Pedro - os nossos inimigos que se cuidem, porque o Reino Vitorioso do Messias ou Cristo Vencedor, até da própria Morte, vem aí. Será definitivamente implantado por Deus Invictus, (o Sol Invisctus, do Império romano de Constantino?!)nos próximos dias ou meses. Por agora, já temos Messias ou Cristo Vencedor da Morte. Mais um pouco de tempo e este mesmo Messias Vitorioso, vem sobre as nuvens do céu e não haverá império que lhe resista. Todos os seus opositores serão esmagados por Ele, e o seu Reino nunca mais terá fim! É, em síntese, o que anuncia Pedro, no dia do Pentecostes a pessoas de todos os cantos do mundo, reunidas, por essa data, em Jerusalém. E que Paulo de Tarso (quem o não conhece?!) irá, depois, anunciar também, nas suas três viagens ditas apostólicas, pelas principais cidades do Império romano, onde havia comunidades de Judeus com sinagogas a funcionar todos os sábados. Pedro e Paulo querem convencer todos os outros Judeus de que a esperança dos "nossos pais", de que Deus enviaria o seu Messias ou Cristo Vencedor, para os livrar de vez de todos os inimigos e implantar o seu Reino Vitorioso, já estava cabalmente realizada. Já havia chegado o Messias ou o Cristo Vencedor. Se até da Morte ele é o Vencedor, o último inimigo a ser vencido, no dizer de Paulo, também sê-lo-á de todos os outros. Deixem, pois, de continuar a esperar pela chegada do Messias ou o Cristo. Ele já chegou. É Jesus-Cristo, ou, simplesmente, Cristo, o Cristo, definitivamente sentado à direita de Deus, em glória, com os seus inimigos como escabelo dos seus pés, e que está aí a chegar de novo, mas em Poder e em Glória, para ficar definitivamente à frente de um Reino que jamais terá fim!

 

11 Eis a resposta do Institucional Eclesiástico, então, ainda incipiente, mas hoje, 20 séculos depois, já bem implantado no Planeta Terra. Eis a Mentira sobre a qual foi edificado o Ocidente. Sim, a Mentira. Porque esta resposta do Institucional Eclesiástico, que está na génese ou origem do chamado Cristianismo (mais correcto será dizermos Judeo-Cristianismo), sobre o qual todo o Ocidente foi edificado e se mantém ainda de pé, mas sempre pronto a implodir a qualquer momento, é pura Mentira! A Mentira maior da História, depois da outra, a do Deus-Ídolo inventado /criado pelos sacerdotes, e que é a mãe /o pai desta que é o Cristianismo, e de todas as outras Mentiras Institucionais que sucessivamente temos produzido e continuamos a produzir, numa espiral de Demência-Demência Institucional sem fim. As próprias Universidades, laicas que se digam, são todas estas Mentiras que ensinam, com argumentos, os mais sofisticados, todos duma erudição de fazer arregalar os olhos, mas todos perversos, porque mentirosos e produzidos para justificar o Intolerável, que é esta Ordem Mundial do Poder Financeiro, intrinsecamente, mentiroso e assassino, genocida e geocida, como está aí bem à vista desarmada de toda a gente deste nosso Século XXI. Podemos enterrar a cabeça na areia, como sempre temos feito, mas as próximas gerações é quem pagarão a factura da nossa Demência-Demência e da nossa Garotice Institucional e individual.

 

12 Quando, algum tempo depois da Morte Crucificada de Jesus (é o que quer dizer a expressão evangélica, "terceiro dia" = um período de tempo mais ou menos longo), começou a correr a notícia - a BOA NOTÍCIA por antonomásia! - de que todos os discípulos dele, elas e eles (quem deu primeiro por isso, foram as mulheres discípulas) haveriam de seguir de imediato para a Galileia, onde tudo havia começado com Jesus-o-da-Missão-Maiêutica, que depois veio a ser Crucificado na Cruz do Império, essa Boa Notícia não significava que Jesus, que os precederia aí, havia vencido a Morte, nem que Jesus era o Messias ou o Cristo definitivamente Vitorioso. Nada disso. Bem pelo contrário. Messias ou Cristo, foi um título que Jesus-em-Missão-Histórica, ao serviço do Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador, seu e nosso Abbá, sempre recusou, a favor de outro, "o Filho do Homem" ou o Ser Humano pleno e integral, com que ele próprio sempre se apresenta e que diz bem quem ele é, nunca outro ser, por mais mítico /divino que se diga! Tanto assim, que a Pedro, o líder do grupo dos Doze, que era o mais fanático defensor da tese do Messias ou Cristo Vencedor, toda ela correspondente à expectativa de Israel, Jesus chega a repreender por várias vezes por lhe chamar "o Messias" ou "O Cristo", e, quando já não suporta mais o seu fanatismo, vai ao limite de lhe chamar "Satanás". Assim mesmo: Retira-te da minha frente, Satanás (título mítico para dizer a Mentira /o Poder, sempre opressor e assassino), que os teus pensamentos /projectos não são de Deus Criador de todos os povos em radical igualdade, mas apenas dos homens do Poder que é mentiroso e assassino dos povos. Ora, o que aquela BOA NOTÍCIA diz /testemunha, é simplesmente esta Revolução Humano-Teológica que é o próprio Jesus-em-Missão-Maiêutica-na-História que, ainda hoje, a Humanidade não consegue ouvir /acolher /integrar /praticar. E que pode ser enunciada assim: É com Jesus, só com Jesus, o Crucificado pelos sacerdotes do Templo na Cruz do Império, que Deus Criador está e a quem dá razão, não é com os sacerdotes do Templo que o crucificaram na Cruz do Império, nem com o Império, nem é a eles que dá razão. Com os sacerdotes e com os do Império, está apenas o Deus-Ídolo que os próprios sacerdotes inventaram /criaram e impuseram a todos os povos como Deus verdadeiro, para melhor os submeterem, dominarem e explorarem, quando, como acaba de ser provado à saciedade, com o que eles fizeram a Jesus, em nome do seu Deus, é que se trata de um Deus mentiroso e assassino pai /mãe de Mentira e de Assassínio Institucionalizado.

 

13 A BOA NOTÍCIA que, algum tempo depois da Morte Crucificada de Jesus, o grupo de Mulheres discípulas dele, inopinadamente "viram" /"escutaram" com os olhos e os ouvidos do Coração sapiente e da Mente /Consciência Cordial, e que, a partir da pequenina comunidade que reunia clandestinamente na casa de Maria, a mãe de João Marcos (que virá a dar o nome ao primeiro, no tempo, não na ordem com que hoje aparece no indevidamente chamado "Novo Testamento", dos quatro Evangelhos canónicos) é precisamente esta Revolução Humano-Teológica que é o próprio Jesus-em-Acção-na-História, e que temos de fazer chegar a todas as nações. Quem a acolher e praticar, edificar sobre ela o seu ser-viver na História, crescerá progressivamente em Humano, constituído em liberdade e maioridade, em Sabedoria e em Graça, em Paz Desarmada e em Sororidade /Fraternidade universal. Quem a rejeitar, e edificar o seu ser-viver na História sobre a Idolatria do Deus-Ídolo dos sacerdotes, crescerá progressivamente em Inumanidade, até atingir, ou o grau máximo do Poder mentiroso e assassino e tornar-se mentiroso e assassino quanto ele, no caso de vir a integrar alguma das elites da trindade dos Poderes, ou, então, até atingir o grau zero de vítima do Poder, na condição de oprimido /tolhido /alienado /assassinado por toda a vida, dentro da História.

 

14 Os familiares de Jesus e os que restavam do antigo grupo dos Doze interpretaram esta BOA NOTÍCIA, em chave de Poder Político, a única em que sempre haviam funcionado as suas cabeças e as suas ambições. E sobre essa Perversão, edificaram o Judeo-Cristianismo que, basicamente, queria dizer Judaísmo já com Messias Vencedor. Esta Perversão institucionalizada fez o seu percurso e ganhou alguns adeptos, não muitos, no decurso do século I e do século II. O Judeo-Cristianismo ou o Cristianismo simplesmente começou por ser tolerado pelo Judaísmo puro e duro, mas, depressa, passou a ser perseguido por ele. Entre os perseguidores, está também Saulo, depois Paulo, que acabou por achar interessante a ideia de que já havia Messias Vencedor e aceita tornar-se, até, o seu principal arauto, durante anos e anos, entre os Judeus da Diáspora. Até chegar a Roma, Paulo, ao contrário do que oficialmente continua a ser ensinado pelas Igrejas cristãs todas, foi sempre um Judeu convicto de que o Messias Vencedor esperado pelos seus antepassados já havia chegado. Nunca foi um das, dos de Jesus, nem do seu Movimento Político Maiêutico. Até chegar a Roma, foi sempre um perseguidor de Jesus e do seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador, a quem, de resto, nunca chegou a conhecer fisicamente e ainda se gaba disso, ao escrever que esse conhecimento de Jesus na carne ou na História não lhe fazia falta nenhuma. E porquê? Porque ao Judeo-cristão Paulo, só interessava mesmo o mítico /divino Messias ou Cristo Vencedor, não Jesus e o seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador que, ao desenvolver-se na História, derruba todos os Poderes, portanto, também o do Judaísmo, com o seu sonho imperialista.

 

15 Será só depois de chegar a Roma, absolutamente decepcionado /desiludido com os seus concidadãos da diáspora e de Jerusalém que não acolhiam o seu evangelho do Judaísmo já com Messias Vencedor, que Paulo vê finalmente cair-lhe dos olhos da Mente as escamas ideológicas do Judaísmo puro e duro que crucificou Jesus (não confundir nunca Judaísmo com o Povo Judeu, também ele vítima do Judaísmo puro e duro e dos seus chefes!), as quais nunca o haviam deixado ver /acolher Jesus e o Deus Criador de todos os povos em radical igualdade, o Abbá de Jesus e o nosso, de todos os povos por igual, e que é mais íntimo a cada uma, cada um de nós do que nós próprios, por isso, sempre longe dos templos e dos altares, onde o Deus que aí pontifica é apenas o Deus-Ídolo, o da trindade dos Poderes. Nesse momento, Paulo abjura definitivamente do Projecto de Poder Político do Judaísmo com Messias Vencedor e torna-se, finalmente, Judeu discípulo maiêutico de Jesus, o Crucificado pelos sacerdotes do Templo na Cruz do Império. (Anos antes, também Pedro havia chegado, graças à pequenina Comunidade que reunia clandestinamente em casa de Maria, a mãe de João Marcos, à mesma conclusão e havia dado também a sua adesão a Jesus e ao seu Projecto Político Maiêutico). Pouco tempo depois, Paulo, já sem querer saber para nada do título de cidadão romano nem de nenhum dos outros privilégios, para os quais, antes, tanto apelava, sempre que se via em apuros, é assassinado pelo mesmo Império, em cuja Cruz Jesus foi Crucificado pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém.

 

16 Só que o Pedro e o Paulo que as Igrejas todas, a começar pela Católica romana, hoje invocam e em que todas se apoiam, são o Pedro e o Paulo anteriores a esta radical conversão a Jesus e à sua mesma Fé Maiêutica, o Pedro e o Paulo do Poder Político do Judaísmo já com Messias Vencedor, esse mesmo que começou por se afirmar em Antioquia, a cidade onde, pela primeira vez, os que seguiam essa Mentira do Judaísmo já com Messias Vencedor, foram chamados "cristãos", portanto, todos Judeus e filo-Judeus que defendiam que o Judaísmo já tinha Messias Vencedor. E que esse Messias ou Cristo Vencedor era, precisamente, Jesus-Cristo, ou, simplesmente, Cristo. Um mítico /divino Cristo, ou Jesus-Cristo, sem nada de Humano, sem Projecto Político Maiêutico, sem Duelos Teológicos Desarmados, sem conflitos, numa palavra, sem Cruz, a do Império, na qual os sacerdotes do Templo haviam Crucificado Jesus, para que, desse modo, ele ficasse para sempre como a Vergonha das vergonhas de qualquer Judeu e de qualquer não-Judeu, como de qualquer cidadã, cidadão ocidental, ainda hoje. Em seu lugar, ficou um mítico Cristo Vencedor, que veio a dar o Cristianismo Institucional, que é a negação de Jesus, o do Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador, rapidamente Crucificado na Cruz do Império romano pelos sacerdotes do Templo e do Deus-Ídolo que por então lá se cultuava e continua a cultuar-se por aí em qualquer templo paroquial ou outro santuário qualquer. Para que, de Jesus, o Ser Humano Maiêutico por antonomásia, os povos das nações nunca cheguem sequer a saber da sua existência e da sua Missão Política Maiêutica, realizada entre os anos 28 e 30 desta nossa era comum, na Galileia e, depois, na Judeia, onde foi rapidamente Crucificado pelos sacerdotes do Templo na Cruz do Império de turno.

 

16 Perguntar-me-eis, então: Mas, se as coisas são assim, como se explica que tu, Mário, que escreves /revelas tudo isto, ainda continues a ser e dizer-te Presbítero da Igreja do Porto? Porque não bates com a porta duma vez por todas? A minha resposta não tem nada a ver com a resposta que, por estes mesmos dias, em que o meu amigo escreveu o seu texto, deu o conhecidíssimo ex-Mestre da Ordem dos Dominicanos, fr. Timothy Radcliffe, a quem lhe pergunta porque se mantém na Igreja Católica, apesar de todos os escândalos de pedofilia e tantos outros crimes cometidos pelas suas cúpulas, ao longo dos séculos. A resposta dele é ainda a de quem se identifica com a Mentira Institucional do Cristo /Messias Vencedor, ou do Cristianismo Vencedor, cujo rosto mais visível e referência visível de unidade, é, no dizer do próprio fr. Timothy, o papa de Roma. Para mim, que procuro fazer minha todos os dias a mesma Fé Maiêutica de Jesus, não é por aí que me fico. Por isso, a minha resposta é: Sou Igreja, na Igreja católica, mas sempre fecunda e radicalmente dissidente dentro dela. E sou Igreja, na Igreja católica, até porque ela, apesar do seu Cristianismo Vencedor, visceralmente idolátrico, me despertou, sem institucionalmente o ter querido, na pessoa da minha mãe, a Ti Maria do Grilo, para a mesma Fé de Jesus que é, visceralmente, anti-Religião e anti-Idolatria, anti-Catolicismo Romano, anti-Cristianismo Vencedor. Pelo que, a minha referência última não é, nunca será, o papa de Roma, monarca absoluto e chefe de estado do Vaticano, máximo representante do Deus-Ídolo, sempre em guerra aberta contra Jesus e o seu Projecto Maiêutico. Pelo contrário, ao papa de Roma, sempre devo, até por imperativo de consciência, denunciar /desmascarar, para que o ser humano concreto que, em cada período de tempo, está a dar corpo àquela função, seja, finalmente resgatado de toda aquela Idolatria, de toda aquela Mentira, de toda aquela Hipocrisia, de todo aquele Poder e se torne um ser humano simplesmente, irmão universal de todos os outros seres humanos e povos. Outro Jesus, agora, século XXI.

 

17 A minha referência última é só Jesus, o Carpinteiro /Camponês, o filho de Maria, Crucificado pelos sacerdotes do Templo na Cruz do Império, que o primeiro Paulo, para seu mal, nunca quis conhecer e por isso tanto perseguiu, mesmo e sobretudo quando já era um Judeu cristão, isto é, um Judeu com Messias Vencedor, mas a quem Deus Criador, seu e nosso Abbá, reconheceu como o seu filho muito amado, no mesmo Instante em que Acontece a sua Morte Crucificada na Cruz do Império; Um reconhecimento que jamais fez ou fará aos carrascos sacerdotes de Jesus, seguidores do Deus-Ídolo que eles próprios inventaram /criaram, para logo se tornarem seus funcionários mercenários, cheios de privilégios. Fora de Jesus, esse mesmo que, entre o ano 28 e 30 desta nossa era comum, realizou em plenitude, na sua própria carne histórica e entre as suas concidadãs, os seus concidadãos, o Reino /Reinado de Deus Criador, seu e nosso Abbá, só há Idolatria, o Pecado Estrutural do Mundo que não tem perdão e que temos de, oportuna e inoportunamente, desmascarar, amarrar e decapitar pela fome, por falta de vítimas humanas, as únicas com que ele se alimenta e que constantemente, enquanto o deixarmos à solta, continuará aí a produzir dia e noite. Para isso sou presbítero da Igreja do Porto. Não esperem, pois, de mim outra coisa, que não seja testemunhar Jesus, praticar-anunciar a Boa Notícia que ele é, praticar-anunciar o seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador, misteriosamente a crescer na História, semelhante ao grão de mostarda, a mais pequenina das sementes, e que cresce sempre, sempre, sempre, sem que os da trindade dos Poderes e do seu Deus-Ídolo jamais saibam como.

 

18 Venham também daí por esta via estreita que conduz à vida plena e integralmente Humana Maiêutica. Atrevam-se! Mas atenção! A primeira condição é decidirmos ser pobres por opção e permanecer pobres por toda a vida, cada vez mais despojados de todo o tipo de privilégios que a trindade dos Poderes sempre dá a quem a serve, em algum dos três Poderes, ou nos três ao mesmo tempo. É na Trincheira onde vivo todos os dias como um menino sempre desarmado que vos espero. De braços abertos. Também, e especialmente, àquele meu irmão, de nome Ratzinger, que, neste período da História, veste a máscara (na linguagem grega do teatro, é a mesma palavra com que se diz "pessoa") de papa de Roma. E igualmente, ao meu irmão, de nome Manuel Clemente, Bispo da Igreja que está no Porto, mas que, neste mesmo período da História, veste a máscara de Bispo residencial (= Poder hierárquico) da Cristandade Ocidental, fundada no Cristianismo do mítico Cristo Vencedor. Eis.

 

Capítulo 48

 

1 Se, como já escrevi no capítulo anterior, a Lei Eclesiástica do Celibato Obrigatório para presbíteros e bispos da Igreja católica romana no Ocidente é intrinsecamente perversa, então, (todos) os frutos que ela produziu ao longo dos séculos e continua ainda hoje a produzir só podem ser perversos também. (Nem toda a gente sabe, mas no Oriente, a mesma Igreja católica romana já não é assim, apenas proíbe o casamento aos presbíteros que se ordenam no estado de célibes ou de não casados; e, depois, quando tem de escolher alguns presbíteros para bispos, limita essa sua escolha aos presbíteros célibes ou não casados)  Mesmo que pareçam bons, esse frutos são perversos. E a História destes 16 séculos de Cristandade está aí a revelá-lo à saciedade. Com o expresso conhecimento das populações, ou com o total desconhecimento das populações, já que os responsáveis principais do Institucional católico romano tudo fizeram e continuam ainda hoje a fazer para esconder esses frutos perversos aos olhos das populações, mantidas propositadamente na ignorância, meros contribuintes dos clérigos - párocos e bispos residenciais - e de toda a sua obscena ostentação clerical. (Os responsáveis principais são a chamada hierarquia eclesiástica, ou os bispos-monarcas-absolutos em cada diocese, com o bispo de Roma, à cabeça, dada a função de papa que lhe está ligada e que faz dele o bispo-monarca-absoluto dos bispos-monarcas-absolutos de cada diocese, que lhe devem vassalagem e o mais que podem fazer é serem retransmissores das suas decisões e do seu pensar moralista, ao mesmo tempo que vigias /polícias, em cada diocese, de que as leis canónicas, por mais aberrantes e absurdas que possam ser, são acatadas e seguidas, nem que seja só hipocritamente, por todos os baptizados, a começar, obviamente, pelos párocos, em cada paróquia). Disse populações meros contribuintes dos clérigos e de toda a sua ostentação clerical. E disse bem. Já repararam que nunca nenhum pároco, nenhum bispo residencial contribui com o seu dinheiro para a Igreja, só mesmo as populações, propositadamente mantidas na ignorância? Já os párocos e os bispos residenciais sempre recebem, nunca contribuem!

 

2 A Lei do Celibato Eclesiástico Obrigatório começou a ganhar forma no início do Século IV, concretamente, no Concílio de Elvira (actual Granada, em Espanha), iniciado em 15 de Maio, entre o ano 300-304. O Concílio era regional e não teve poder para impor a Lei nele aprovada a toda a Igreja no Império Romano, nessa data, já cada vez menos Igreja de Jesus e cada vez mais Igreja do Império Romano. Até que, com a posterior queda do Império, a Igreja católica, já então, religião oficial e única do Império, ocupou quase de imediato o lugar do Império, fez de Roma a sua sede, que ainda hoje se mantém e, do papa que a ela preside, o novo César Augusto, imperador-monarca-absoluto que ninguém, instância nenhuma do Mundo - é o que reza o Código de Direito Canónico! - pode alguma vez julgar, sejam quais forem os crimes que, porventura, cometa. O papa é, por isso, manifestamente, o anti-Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, ele próprio o Crucificador de Jesus, se Jesus-em acção-visível, porventura, lhe aparecesse pela frente, a realizar o seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador. Não aparece, assim, porque o definitivamente Vivente que é Jesus, é também o definitivamente invisível aos nossos olhos e, por isso, desde a sua Morte Crucificada, em Abril do ano 30, ele é tão fecundamente subversivo /conspirativo, mas à maneira do Vento, ora brisa, ora tsunami, que não podemos deixar de sentir, ao PASSAR (= PÁSCOA). Hoje, já conseguimos registar a velocidade do Vento, mas jamais saberemos nem de onde ele vem, nem para onde vai, muito menos, poderemos ter mão nele, amarrá-lo, prendê-lo, retê-lo. O mesmo sucede com o Sopro /Espírito de Jesus. Por mais que os da trindade dos Poderes, papa incluído e logo à cabeça dos três, se danem e se desesperem. Mas ainda é o que vale aos povos oprimidos e empobrecidos do Mundo, de contrário, o seu ser-viver sob o Terror, hoje, dito democrático, dos três Poderes, seria um Pesadelo absoluto sem saída. E, nesse caso, era bem melhor nem se chegar sequer a nascer!

 

3 Não pensem que foi pacífica a implantação da perversa Lei do Celibato. Não foi. As suas vítimas directas, presbíteros e bispos, sempre lhe resistiram e sempre a desrespeitaram. Pelo menos, até ao Século XVI, no Concílio de Trento. Foi somente o Concílio de Trento, porventura, o mais perverso dos Concílios Ecuménicos, à excepção dos Concílios Ecuménicos convocados, no início da Cristandade, pelo imperador Constantino e os outros imperadores "católicos" que imediatamente se lhe seguiram. Esses foram, sem dúvida, os mais perversos de todos. Basta dizer que foram todos convocados e presididos pelo imperador de Roma, financiados pelo Império, realizados em palácios-propriedade do Império, por entre banquetes e mais banquetes de iguarias finas, com prostitutas pagas pelo Império, sempre à disposição dos Padres Conciliares que, porventura, quisessem reclamar os seus préstimos, e, finalmente, com decisões aprovadas pelo imperador de turno que, obviamente, só aprovava decisões conciliares que fossem de encontro aos seus interesses imperialistas. O mais obsceno de tudo é que até o chamado Credo Niceno-Constantinopla, que as liturgias católicas romanas repetem todos os domingos nas missas, logo a pós a homilia /sermão do clérigo presidente, foi aprovado nesses Concílios, com o imperador de Roma a presidir e a aprovar, como o Credo da Fé católica do Império, que, como sabemos, é mentiroso e assassino, por natureza! E - espanto dos espantos! - não há teólogos, exegetas, bispos residenciais, universidades católicas, católicos contribuintes por essas paróquias além, que, neste Século XXI, denunciem e exijam o fim desta aberração católica, cujo enunciado central da Fé da Igreja católica romana é nada mais nada menos que o mesmo enunciado da Fé do Império Romano. E não só não denunciam, nem exigem o seu fim, como ainda arranjam argumentos cristológicos e teológicos, todos, obviamente, idolátricos, para justificar a sua manutenção!

 

4 É o Concílio de Trento que impõe definitivamente a toda a Igreja católica romana do Ocidente, a Lei do Celibato Eclesiástico Obrigatório para os presbíteros e os bispos. Até essa altura, os clérigos sempre tinham encontrado maneira de fugir /escapar à perversa Lei, sem nunca chegarem a sentir-se réus perante a própria consciência. A prática mais frequente era o recurso ao chamado casamento de consciência, realizado pelos próprios nubentes - no caso, o clérigo e a mulher com quem ele queria passar a viver casado - na maior das clandestinidades. Até então, para haver casamento, bastava que os nubentes - a mulher e o homem (nesse então, casamento entre pessoas do mesmo sexo nem sequer como hipótese académica!) - se declarassem um ao outro marido e mulher, nem que fosse apenas com a lua e as estrelas como testemunhas. Era o casamento de consciência, que só os próprios sabiam que o haviam realizado. Aos olhos das populações, o clérigo assim casado continuaria a ser certamente olhado como "amancebado". Mas a consciência dele e a da mulher casada com ele, ainda formatadas pelas leis canónicas e pelo Moralismo imoral da Igreja católica, não os acusava de nenhum pecado. E isso era o bastante para a paz de consciência dos próprios.

 

5 Pois bem. Os Padres do Concílio de Trento sabiam destas fugas /escapatórias à Lei do Celibato Obrigatório. Só que, até então, ainda não tinham encontrado maneira de lhes pôr cobro. Grandes Inquisidores que são, depois de terem sido oprimidos por muitos anos, uma vez no topo do Poder Eclesiástico, são os piores Opressores que não suportam a liberdade e o bem-estar de consciência que a Liberdade dá a quem a pratica. E foi, assim, que, finalmente, encontraram uma maneira no Concílio, de tapar esta brecha que a Lei do Celibato ainda tinha. Decidem, no auge da sua perversão moralista, decretar, sob pena de anátema /excomunhão, que, daí em diante, o sacramento do Matrimónio, para poder ser válido, tinha de ser presidido, ou pelo pároco da noiva, ou pelo pároco do noivo, ou por um outro clérigo ao gosto dos nubentes, mas ao qual o pároco tinha de delegar, para cada caso, o seu poder de jurisdição. Qualquer casamento sem esta presidência clerical era automaticamente nulo. E quem o atentasse e consumasse ficaria em estado permanente de pecado grave ou mortal, como se dizia e ainda diz nesses ambientes eclesiásticos moralistas. Esta decisão conciliar não pode, pois, ser mais perversa. Reduz os sujeitos do Sacramento do Matrimónio, que são os próprios nubentes, a meros objectos, a meros súbditos dos clérigos-párocos. E estes, os párocos-clérigos, ficam obrigados a presidir ao Sacramento do Matrimónio, sem o que, o Sacramento não é válido, quando eles próprios - contradição das contradições! - não podem nunca ser sujeitos desse sacramento, por imperativo da perversa Lei do Celibato Eclesiástico Obrigatório! Digam lá, se isto não é o cúmulo da Perversão! Mas a verdade é que os clérigos párocos aceitaram esta aberração e, ainda hoje, continuam a dar-lhe corpo!!! Igualmente, os próprios nubentes católicos - que vergonha e que indignidade! - aceitaram /aceitam esta aberração e são até os primeiros a contratar o pároco, para que os case, sem olharem ao dinheiro que têm de lhe pagar por isso!!! Digam-me: É isto digno de mulheres, homens do Século XXI?

 

6 Mas o Concílio de Trento não se fica por aqui em decisões carregadas de aberração. Dá mais outro passo, ainda mais perverso. Sabem qual? Institui os Seminários Tridentinos, dentro dos quais, os futuros presbíteros ordenados, teriam de passar a ser formados /formatados para a futura função, a qual - outra decisão carregada de aberração - seria cada vez menos presbiteral e cada vez mais sacerdotal. O Ritual de Ordenação continua a chamar-se, como não pode deixar de ser, em Igreja, "Presbiterorum Ordo" (Ordem dos Presbíteros), mas o presbítero ordenado irá passar a ser, a partir desse Concílio, cada vez menos presbítero e cada vez mais sacerdote. Todos machos. Todos celibatários /eunucos, por imperativo da Lei Eclesiástica do Celibato Obrigatório. Todos formados /formatados nos Seminários Tridentinos, não mais nas paróquias, nas comunidades locais, como até então. Os candidatos, crianças /adolescentes, passam a ser retirados à família de sangue e às populações, entre as quais haviam nascido e vivido, e ficam sequestrados, meses seguidos, no Seminário, interrompidos apenas por curtos períodos de férias na família; mas, mesmo nesses curtos períodos de férias na família, estão sempre super-controlados /vigiados pelo respectivo pároco que, no final desses dias na paróquia, tinha de informar por escrito o clérigo-mor do Seminário sobre o modo como o candidato se havia comportado. Muitas vezes, era o próprio candidato quem transportava a informação em carta fechada, sem fazer ideia que podia estar a levar a sua própria expulsão do seminário, senão de imediato, poucos meses /anos depois.

 

7 O dia a dia no interior dos seminários tridentinos foi o que há de pior, em horror e terror. Disciplina militarista. Superiores e Prefeitos todos clérigos celibatários por força da Lei do Celibato, tão agressivos quanto frustrados, violentos, sem nenhumas entranhas de humanidade, polícias sempre em cima dos candidatos, mesmo durante o tempo do sono; nenhuma presença feminina, nem sequer na cozinha; aulas e mais aulas cheias de doutrina moralista; capela interna, onde era estimulado um devocionismo beato e farisaico;  missa todos os dias em latim, presidida por um dos clérigos superiores ou prefeitos; rezas e mais rezas de joelhos na capela; confissão semanal ao padre /director espiritual, quanto mais misógino melhor, e mais recomendado para aquela função; pregações /meditações diárias de terror moralista; constantes ameaças de castigos; doentia obsessão contra o sexo, do qual nunca se falava abertamente, mas por metáforas; culto doentio pela chamada "pureza" (só a sexual); sucessivos alertas contra a tentação que poderia vir até no banho matinal, durante o qual se deveria evitar olhar /tocar o próprio sexo, jamais ver o sexo do outro, que seria pecado grave a ter de confessar na confissão semanal; rezas de manhã na capela, rezas antes e depois das refeições no refeitório, rezas na capela a seguir ao almoço, antes de um pouco de recreio, sempre fiscalizado pelos prefeitos, rezas, ao final da tarde, também na capela, sempre com terço incluído; devoção doentia às imagens de nossa senhora, a única representação do feminino que era permitida e, até, estimulada; todas elas imagens cobertas da cabeça aos pés, sem nenhuma das formas femininas; rezas na capela antes de se recolher à camarata ou aos quartos para dormir, as quais concluíam, infalivelmente, com o canto da "Salve, Regina" em latim (= Salvé, rainha). E no dia seguinte, exactamente a mesma coisa. E na semana seguinte, exactamente a mesma coisa. E no mês seguinte, exactamente a mesma coisa. E no ano seguinte, exactamente a mesma coisa, até um total de doze anos!...

 

8 Nos curtos períodos de férias na família de cada um, o candidato deveria evitar toda a intimidade com pessoas do outro sexo, irmãs, primas que fossem. Mesmo a mãe, haveria que ser mantida à distância. Um exemplo /modelo a seguir, invocado com mais frequência nas prédicas do padre espiritual, era o de S. Luís Gonzaga(?!) que, nem para o rosto da própria mãe olhava com atenção. E, uma vez, que teve de ser padrinho de baptismo de uma criança da família, quando, depois do rito, lhe perguntaram em casa como era a madrinha, ele disse que não sabia, pois nunca havia olhado para o rosto dela, não fosse sofrer alguma tentação. O padre espiritual queria que todos os candidatos fossem, durante o seminário e pela vida fora, outros S. Luís Gonzaga, um vómito de jovem e de ser humano. Mas havia mais. Para além da confissão semanal (era recomendada, não imposta, mas ai de quem não seguisse a recomendação, tinha logo um clérigo prefeito à perna a indagar porquê e porque não), ainda havia a visita periódica ao quarto do padre espiritual, a chamada direcção espiritual. Quando estava a chegar a vez de ter de lá ir, facilmente se percebia quem era a vítima, tamanho era o medo que, nessa ocasião, se apoderava do candidato. Todo ele tremia como varas verdes. Os mais velhos (no seminário, havia candidatos a frequentar anos distintos) chamavam a esta visita obrigatória, "ir ao Picadeiro". (A ida era por ordem alfabética ou pelo número com que toda a roupa pessoal de cada candidato tinha de estar marcada, para nunca ser trocada por outra na lavandaria). O Terror era total. Alguns chegavam a perder a fala, de tão aterrorizados que se sentiam! O cerco ao candidato era completo e total. Vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas. Sem que o candidato se visse alguma vez entregue a si próprio. As actuais câmaras de vigilância em tudo quanto é sítio eram, então, os olhos dos prefeitos, dos superiores, dos professores, todos clérigos e, até, dos empregados leigos, escolhidos a dedo. E, lá, no topo da hierarquia do seminário, estava o Reitor, semi Deus-Ídolo, inacessível aos candidatos; e, quando algum candidato era mandado pelo prefeito a ir ao gabinete dele, é porque uma grave advertência o esperava, senão mesmo um severo castigo. Outro Horror dos horrores.

 

9 Conto aqui todos estes pormenores (a realidade dos doze anos de seminário foi muito pior do que eu aqui acabo de descrever em traços muito largos), para que as populações e os povos saibam o que os seminários tridentinos fizeram aos padres /párocos, nomeadamente, aos mais velhos de hoje e aos das gerações que os precederam. Acho oportuna e até indispensável esta informação, para que as populações e os povos melhor possam entender os funcionários eclesiásticos, mais mercenários do que seres humanos, que estão à frente das paróquias e de outras instituições eclesiásticas. São todos reprimidos em todas as suas dimensões de ser humano, não apenas na dimensão sexual. São todos castrados. São todos formatados. São todos alienados. São todos tolhidos. São todos como abortos. São todos desgraçados. Todos foram meninos a quem, durante os longos anos da formação das suas personalidades, os clérigos formadores sadicamente deformaram. Roubaram-lhes tudo. Os afectos. A naturalidade. A capacidade de relação. A presença do feminino nas suas vidas, na fase do seu desenvolvimento. Numa palavra, roubaram-lhes a própria identidade. No final dos doze anos, em lugar de seres humanos, harmoniosamente desenvolvidos, há clérigos, funcionários do religioso, mercenários que têm de viver /enriquecer à custa do altar e para o altar. Uns monstros, sem terem consciência de que o são. Uns tiranos. Uns autoritários. Uns seres à parte. Clérigos. Ainda assim, uns santos, aos ingénuos olhos das populações, só porque são funcionários do Religioso, por isso, sagrados (= sacerdotes). Em boa verdade, uns figurantes com tudo de pavões armados, sempre acima e por cima dos demais. Uns prepotentes. Uns frustrados. Uns cheios de medo do mundo secular. Uns misóginos, para os quais toda e qualquer mulher é a encarnação da mítica Eva bíblica tentadora do homem, ou a encarnação do mítico demónio. Uns autómatos, sem vontade própria, totalmente à mercê do bispo residencial, monarca-absoluto, a quem, no acto da Ordenação, todos são obrigados a prometer, de joelhos, Obediência e Reverência, e aos sucessores dele. Pelo resto das suas vidas!

 

10 Se, depois de todos estes anos, o clérigo-vítima não chega a dar-se conta do que lhe fizeram e se não rebela saudavelmente, contra toda esta deformação, pelo contrário, mantém-se assim, pelo resto da vida, constitui-se num perigo público, pronto a fazer os piores estragos, quando menos se espera. As crianças /adolescentes, mais frágeis e ainda em fase de desenvolvimento, serão as suas principais vítimas. (Como é que ainda há mães e pais que lhes entregam as filhas, os filhos?!) Se as crianças /adolescentes passam a frequentar mais assiduamente os espaços onde estes clérigos que nunca se autodesclericalizaram (e, por isso, nunca arrancaram de dentro deles, toda essa perversa formatação que o seminário fez neles, nunca arrojaram ao esterco o colarinho branco, o fato preto, a cruz, os paramentos litúrgicos, o altar, o templo, as rezas que nunca foram oração, apenas rezas estupidificantes, o terço, as missas ritualizadas, para mais feitas a troco de dinheiro, nem o estatuto de clérigo com todos os privilégios que este lhes garante, inclusive, o de terem assegurado o pão de cada dia e até muita riqueza acumulada /concentrada), tais crianças adolescentes correm sérios riscos, no seu próprio desenvolvimento humano. Não apenas ao nível do sexual, ao qual as populações e os grandes media são, hoje, doentia e perversamente, sensíveis, como se não houvesse outras perversões piores, mas a todos os outros níveis bem mais decisivos na fase de desenvolvimento de um ser humano.

 

11 As pessoas que frequentarem assiduamente esses clérigos que nunca se autodesclericalizaram, para passarem a ser simplesmente presbíteros e bispos da Igreja, a de Jesus, sempre à intempérie e na Trincheira, estão, obviamente, sempre em perigo e em risco. (Saibam que o Sacramento da Ordem é esta Acção Maiêutica que assinala /revela, em quem o recebe no Espírito Santo, não apenas na chamada imposição das mãos do Bispo residencial, ele próprio, um clérigo-mor que nunca se autodesclericalizou e por isso a sua imposição de mãos só faz funcionários /mercenários seus, súbditos seus, obedientes e reverentes, nunca desperta /assinala seres humanos em estado de liberdade e de maioridade, porque semelhante Acção é exclusiva do Espírito Santo, o mesmo que vimos actuar plenamente em Jesus, entre o ano 28 e o ano 30 desta nossa era comum, na Galileia, primeiro e sobretudo, e, depois, também na Judeia e, finalmente, em Jerusalém, onde fui crucificado na Cruz do Império, precisamente, por decisão dos sumos sacerdotes do Templo, clérigos /funcionários /mercenários mentirosos e assassinos). Podem essas pessoas que frequentam assiduamente os clérigos, não chegarem a sofrer abusos sexuais, sempre hediondos, porque os clérigos em causa ainda têm medo do pecado e do inferno, mas sofrerão outros abusos, não menos hediondos e não menos abomináveis /intoleráveis. Podem, por exemplo, tornar-se uns beatos, umas beatas irrecuperáveis, uns sacristães, umas sacristãs, umas meninas, uns meninos de coro, uns acólitos, umas acólitas, umas, uns catequistas, uns membros do grupo coral que dá ainda mais brilho ao veneno que são as missas ritualizadas vendidas pelo pároco. Numa palavra, podem ficar, pelo resto das suas vidas, com tiques, medos, fobias, alienações clericais que as impedem de serem cidadãs conscientes, livres, autónomas, politicamente comprometidas com a realização na História do Projecto Político Maiêutico de Jesus, que é, não a perpetuação deste modelo de Igreja eclesiástica clericalizada, mas, sim, levar por diante a edificação na História do Reino /Reinado de Deus Criador de povos em radical igualdade.

 

12 Se os abusos de tais clérigos sobre as crianças /adolescentes, forem do âmbito do sexual (com dor e lágrimas o escrevo, primeiro, pelas crianças /adolescentes, mas também pelos seus Abusadores que, para chegarem a este extremo de perversão, primeiro tiveram de ser, eles próprios abusados, anos e anos, no seminário trindentino e nunca mais conseguiram expulsar de si, como um mítico demónio, esses abusos de todo o tipo, ainda que não sexuais directos, mas também abusos sexuais indirectos, dado que a sua sexualidade foi sempre reprimida e eles acabam castrados, eunucos que o Institucional católico faz tais!), lá teremos não só a perversão de crianças /adolescentes, mas até a perversão da bela palavra "Pedofilia" que, assim, deixa de significar o que etimologicamente significa, "Amizade maiêutica a crianças /adolescentes", para passar a significar um crime inominável! E ainda mais inominável, se, depois, os da cúpula Eclesiástica se limitam a esconder /abafar os casos, para que o nome da Instituição não saia sujo de toda esta Perversão (é a Hipocrisia em todo o seu esplendor de Treva moralista imoral), e a transferir os clérigos abusadores para um outro território, sem nunca se interrogarem, "O que fizemos, nós, os clérigos-mor, a estes clérigos menores, no tempo da sua formação, toda ela da nossa episcopal responsabilidade, para eles agora terem comportamentos tão perversos com crianças /adolescentes, às quais /aos quais mais deveriam proteger?! E, também, sem nunca chegarem a retirar da actividade tais clérigos, quando deveriam cuidar pastoral e cientificamente deles, para que os ser humano que deu lugar ao clérigo, venha de novo ao de cima e o clérigo morra para sempre. E não o fazem, porque eles próprios, bispos-clérigos residenciais, tão pouco o podem fazer, clérigos-mor que são, por isso, ainda piores, pelo menos, por omissão, do que os próprios clérigos abusadores.

 

13 Perante semelhante situação, só há uma saída com Dignidade: Fazermos implodir quanto antes este modelo de Igreja clerical-eclesiástica, para que, em seu lugar, se levante, como cidade situada no alto de um monte e como sal da Terra, a Igreja-Movimento de Jesus, a dos dois ou três (mulheres e homens em radical igualdade) que se reúnem discretamente /clandestinamente, em nome dele, determinados a prosseguir, em cada geração, o seu mesmo Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador de povos. E o mesmo haverá que fazer a toda esta fauna clerical mercenária, parasitária, hipócrita, que por aí abunda, toda ela feita de bispos-poder-monárquico absoluto, de párocos mais ou menos déspotas das populações, de frades e de freiras que se têm na conta de esposos /esposas do mítico Cristo ou Jesus-Cristo e do seu Deus-Ídolo. Também toda esta fauna clerical tem de implodir juntamente com este modelo de Igreja clerical-eclesiástica. Com isto, não quero, obviamente, dizer que os que constituem esta fauna clerical-eclesiástica, tenham de ser maltratados /perseguidos /insultados pelas populações. Não. De modo algum! Basta que as populações deixem de lhes passar cartão, de lhes dar atenção, de financiar as suas vaidades clericais, de frequentar as suas missas ritualizadas que são veneno que as adoece e mata lentamente, não são o Corpo e o Sangue de Jesus, isto é, não são Jesus-inteiro-inseparável-do-seu-Projecto-Político-Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador (É o que teologicamente significa a expressão metafórica, "Corpo e Sangue de Jesus"). A este Jesus-inteiro-com-o-seu-Projecto-Político-Maiêutico-do-Reino/Reinado-de-Deus-Criador, Crucificado na Cruz do Império, só o "vemos" /encontramos /experimentamos a sua presença, o seu Sopro /Espírito Maiêutico, se nos metermos nas "Galileias" de hoje e nas "Jerusalém" de hoje, sem nunca fugirmos aos Duelos Teológicos Desarmados, como Jesus historicamente se meteu e não fugiu, unidos e reunidos em seu Nome e no seu mesmo Espírito Maiêutico, todo anti-Poder Religioso-Eclesiástico, todo anti-Poder Político, todo anti-Poder Financeiro, numa palavra, todo anti-Deus-Ídolo. Esta é a Hora de avançar, de agir. Adiar, será pecar contra o próprio Espírito Santo, o de Jesus.

 

Capítulo 47

 

1 Uma instituição, como a Igreja católica romana, que impõe, por Lei eclesiástica, o celibato obrigatório aos seus membros ordenados - presbíteros e bispos, apenas homens, já que as mulheres continuam, no ano 10, do Século XXI, proibidas de aceder ao ministério ordenado! - é, nem que fosse só por isso, uma instituição perversa, cruel, inumana, bem à imagem e semelhança do Deus-Ídolo que ela própria ajuda a criar-manter e que, desde há séculos, regularmente adora /cultua nos templos e nos santuários, em redor de altares, muito longe dos conflitos e dos combates políticos maiêuticos, sempre desarmados, com que haveremos de edificar, na História e em todas as nações da Terra, o Reino /Reinado de Deus Criador de povos em radical igualdade. Sempre em franca e declarada oposição, muitas vezes, até, em guerra aberta desarmada, contra o reino /reinado do Deus-Ídolo, servido pela mais perversa das trindades, a saber, a trindade dos Poderes, concretamente, o Poder Religioso-Eclesiástico, o Poder Político e o Poder Económico-Financeiro, uma trindade criada pela ambição infantil /demencial de certos seres humanos que, manifestamente, desistiram de crescer em Sabedoria e em Graça, em Liberdade e em Maioridade, em Autonomia e em Sororidade /Fraternidade, e que, mesmo assim, tem contado, desde o início, com a cumplicidade da generalidade de todos os outros seres humanos, propositadamente mantidos, por toda a vida, no Infantil e no Ingénuo.

 

2 Estejam descansados, que eu medi bem as palavras que escrevi. E não retiro nenhuma. Saibam, desde já, que, em Igreja, a de Jesus, não há, nunca houve, nunca haverá sacerdotes. Portanto, também nunca poderá haver Lei do Celibato obrigatório para os seus membros ordenados. Em Igreja, a de Jesus, há presbíteros e bispos que, no princípio, entre as pequeninas comunidades das, dos de Jesus, eram escolhidos e reconhecidos pelas próprias comunidades, e tanto podiam ser mulheres presbíteros e bispos, como homens presbíteros e bispos. Em boa verdade, no início dos inícios, as pequeninas comunidades das, dos de Jesus (não confundir com comunidades cristãs, que já são outra coisa, paralela às pequeninas comunidades das, dos de Jesus, e que surgiram na prossecução do Judaísmo, por isso, comunidades judeo-cristãs, com tudo de Judaísmo e praticamente nada de Jesus, o Crucificado pelos chefes-mor do próprio Judaísmo), eram todas maieuticamente ministeriais (= servidoras), coordenadas por um dos seus membros, mulher ou homem, indistintamente, quase sempre a mulher ou o homem da casa onde cada Comunidade habitualmente reunia em redor da Mesa Compartilhada. Este ministério de coordenação de cada uma das comunidades, todas ministeriais, passou a ser designado, indiferenciadamente, por presbítero e /ou bispo. Mas, importante, mesmo, era /é a Comunidade toda ministerial, enquanto tal, não o presbítero /bispo, mulher ou homem, que só era escolhido e reconhecido pela própria comunidade, para que esta fosse cada vez mais fecunda e maiêutica, sem que ninguém suplantasse /silenciasse /discriminasse ninguém, de modo que todos os seus membros tivessem voz e vez e se dessem à Missão, a mesma de Jesus.

 

3 De celibato, nunca se falava, pelo menos, entre as pequeninas comunidades das, dos Jesus. Embora, desde muito cedo (já em tempo do judeo-cristão Paulo, perseguidor de Jesus e das pequeninas comunidades das, dos de Jesus, que prosseguiam a mesma Fé de Jesus e o seu mesmo Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador de povos em radical igualdade, coisa que o judeo-cristão Paulo, o das três viagens apostólicas, não podia sequer ouvir falar!), o assunto do celibato já fosse abordado, mas só no âmbito das comunidades judeo-cristãs, inclusive, por negativa influência dos Judeus essénios, monges celibatários, que o eram por imposição da Regra aprovada /adoptada pela instituição que os acolhia e integrava como seus membros. Disse, por influência dos Judeus essénios. Não disse, por influência do Judeu Jesus que, embora tivesse conhecido bem os essénios e, até, tivesse sido iniciado na Missão por João Baptista, um Judeu de mentalidade e de prática muito próximas das dos essénios, depressa rompeu com todo esse Moralismo imoral, anti-natura, inumano, e desencadeou um Movimento Político Maiêutico, radicalmente Libertador, em nome de Deus Criador Abbá de todos os povos em radical igualdade - o que perfaz a maior Revolução Humano-Teológica da História, até hoje, silenciada /ostracizada e tida como inteiramente Maldita.

 

4 Logo após ter-se feito baptizar por João Baptista, sem que nada de especial se verificasse, aconteceu que, precisamente, no Momento em que Jesus saía da água do Jordão, viu, com claridade meridiana, na sua própria consciência humana, que, no Judaísmo, enquanto Sistema de Poder religioso, político e económico-financeiro, fundado, séculos antes, pela casa real de David /Salomão e prosseguido, no seu tempo, pelos sumos sacerdotes que chefiavam o Templo de Jerusalém e mantinham o próprio povo judeu na mais cruel e mais sádica Opressão /Exploração, tudo era Mentira e Assassínio institucionalizados. E que Deus, o da Lei de Moisés e do Templo, que a tudo dava cobertura e tudo justificava, só podia ser um Deus-Ídolo. Desde esse Momento, nunca mais Jesus foi o mesmo de antes. Desde a sua concepção, no ventre de Maria, sua mãe, Jesus já era, como todas, todos nós somos, plenamente habitado pelo Sopro /Espírito Maiêutico, próprio e exclusivo de Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, e de povos em radical igualdade. Mas, até àquele Momento, era como se esse Sopro /Espírito Maiêutico tivesse estado adormecido dentro dele. Naquele preciso Momento, quando Jesus corria o risco de se passar para o Moralismo imoral, anunciado /praticado por João Baptista, como uma pequena variante reformada ao autoritário Judaísmo puro e duro dos sumos sacerdotes do Templo, dos fariseus, dos doutores da Lei, do Sinédrio e, até, dos essénios, eis que rompe definitivamente com esse Judaísmo e torna-se o Ser Humano, plena e integralmente habitado /conduzido, agora, de modo consciente, pelo Sopro /Espírito Maiêutico de Deus Criador, Abbá de todos os povos, não apenas do povo judeu!

 

5 É a Revolução das revoluções. A única Revolução Humano-Teológica Maiêutica, por isso, Desarmada, que, por uma vez, Aconteceu na História dos povos e que interessa aos povos de todos tempos e de todas as nações. Fora dela, só há mais do Mesmo, Violência e Opressão a rodos, Exploração e Assassínio a rodos, numa palavra, Idolatria a rodos, seja sob a roupagem do Religioso, seja sob a roupagem do Ateísmo /Agnosticismo, seja sob a roupagem do Poder Financeiro Global, sem dúvida a Idolatria hoje mais assassina. A única diferença, secundaríssima, ao nível dos efeitos, é que a Idolatria, sob a roupagem do Religioso, leva as pessoas e os povos que vão por ela, a frequentar templos e santuários, nos quais pontificam sacerdotes para todos os gostos, todos mercenários, exploradores das pessoas e dos povos que os frequentam e que encomendam /pagam os seus ritos /cultos. Já os que vão pelo Ateísmo /Agnosticismo não frequentam os templos e santuários, ainda que continuem a ter um certo medo reverencial perante os sacerdotes que lá pontificam e, por vezes, em casamentos e funerais, missas-de-corpo-presente e missas de sétimo dia, baptizados e comunhões solenes, ainda se permitem entrar nos templos e permanecer lá, até que todo aquele ritual de mau gosto e de nenhuma dignidade humana, esteja concluído!

 

6 Não pensem que este tipo de Idolatria, sob a roupagem do Religioso ou sob a roupagem do Ateísmo /Agnosticismo é inofensivo. De modo algum! Semelhante Idolatria serve às mil maravilhas para manter as pessoas e os povos anestesiados, adormecidos, entretidos com coisitas que infantilizam cada vez mais quem as faz. E, com isso, sai sempre a ganhar o outro tipo de Idolatria, a do Grande Dinheiro, hoje, o Grande Poder Financeiro Global, cientificamente organizado e servido pelos melhores cérebros, um tipo de Idolatria secular /laica, que ninguém - nem Igrejas, nem Universidades, nem Partidos Políticos ditos de Esquerda, nem Ateus /Agnósticos, nem Intelectuais - denuncia como Idolatria, apesar dela ser a mais cruel, a mais perversa e a mais inumana de todas as idolatrias. Pois bem, é no âmbito deste tipo de Idolatria, a do Grande Dinheiro, ou do Grande Poder Financeiro Global, que surge a Lei Eclesiástica do Celibato obrigatório para presbíteros e bispos da Igreja Católica Romana, no Ocidente. Na sua origem histórica, está, por um lado, o Sacerdócio dos Paganismos Religiosos, concebido e apresentado às pessoas e aos povos, como o intermediário entre Deus (só pode ser o Deus-Ídolo, de modo algum, Deus Criador, Abbá de todos os povos, mais íntimo a nós do que nós próprios) e os povos-sempre-impedidos-de-crescer-em-Liberdade-e-em-Maioridade. E, por outro lado, está o Grande Dinheiro, ou, nos séculos passados, quando a Lei Eclesiástica do Celibato obrigatório foi instituída e imposta aos presbíteros e bispos da Igreja católica Romana, no Ocidente, éstá a Grande Riqueza Acumulada e Concentrada, a Grande Propriedade, numa palavra, o Grande Latifúndio, que não podia /não devia ser nunca dividido /repartido.

 

7 Para justificar a Lei Eclesiástica do Celibato Eclesiástico, a Igreja Católica Romana, no Ocidente, nunca disse que a razão primeira e decisiva era para, por essa via, ela poder mais facilmente garantir a manutenção da Propriedade Acumulada e Concentrada que possuía, como instituição do Deus-Ídolo, servida por sacerdotes (os párocos) e por sumos sacerdotes (os bispos das dioceses, das quais eram os administradores e usufrutuários, muitas vezes, até com exércitos privados para as defenderem e defenderem os benefícios que os servos da gleba, todos católicos baptizados à força, por isso, súbditos do bispo-administrador e, por extensão, também dos respectivos párocos, conseguiam com o seu trabalho mais ou menos forçado!). Com sacerdotes (párocos) e sumos sacerdotes (bispos titulares de dioceses), todos celibatários, por força da Lei Eclesiástica do Celibato, instituída e imposta por ela, em nome do seu Deus-Ídolo, cruel, sádico, mentiroso e assassino, nunca mais a Grande Propriedade Acumulada e Concentrada da Igreja católica romana, no Ocidente, seria repartida. Os seus funcionários /mercenários ordenados /contratados para a servirem em exclusivo, não podiam casar, ter filhas, filhos (se tivessem filhas, filhos sem casar, nunca os clérigos faltosos à Lei poderiam reconhecê-los como suas filhas, seus filhos, por isso, seriam todos filhas, filhos de "pai incógnito", por força da mesma Lei Eclesiástica do Celibato!) e, desse modo, nunca teriam herdeiros. O Grande Latifúndio Eclesiástico estava, pois, salvaguardado!

 

8 Isto é perverso de mais, até para ser aqui escrito. Mas mais perverso seria esconder esta realidade histórica que nunca é oficialmente dita, sempre é silenciada e negada. Então - perversão das perversões! - para que as pessoas e os povos nunca se apercebessem do perverso da Lei Eclesiástica do Celibato, imposto aos clérigos, bispos e párocos, todos sacerdotes e sumos sacerdotes do Deus-Ídolo dos templos e dos santuários, foi criada, ao longo dos séculos e, ainda hoje, em vigor, uma doutrina, toda tecida de Mentira, na qual são invocadas piedosas razões de ordem espiritualista e misticista, com que o Celibato Eclesiástico Obrigatório é justificado. As pessoas e os povos, é essa falsa doutrina que conhecem, em milhares de livros de piedade, de beatice e de devoção, qual deles o mais causador de vómitos. A Mentira atinge, assim, abismos nunca antes atingidos, tanta é a Treva contida nesses milhões de livros. Todos estão nos antípodas de Jesus, o que rompeu com o Judaísmo puro e duro dos sumos sacerdotes do Templo, dos fariseus, dos escribas, dos doutores da Lei, da Lei de Moisés e do Sinédrio e se colocou, ininterruptamente, aberto ao Sopro /Espírito Maiêutico de Deus Criador, Abbá de todos os povos em radical igualdade, e não apenas do povo judeu!

 

9 Com Jesus, o Crucificado na Cruz do Império Romano, por sentença e exigência dos sumos sacerdotes do Templo que, nessa sua assassina decisão, contaram com o aval de todos os outros chefes do Judaísmo, concretamente, os sacerdotes, os fariseus, os escribas, os doutores da Lei, o Sinédrio e a própria Lei de Moisés, tal como todos eles a interpretavam (lá está, no Deuteronómio a dizer, "Maldito o homem que morre na Cruz!"), nunca a Lei Eclesiástica do Celibato teria existido, tão pouco, alguma vez chegaria sequer a ser pensada. Só mesmo o Deus-Ídolo, que se faz servir por exércitos de sacerdotes, em todo o Mundo, todos eles eunucos à força, é que pode estar por trás de semelhante Lei bárbara e inumana. E basta a existência desta Lei, para que a instituição eclesiástica que há muitos séculos a criou, impôs e, Século XXI, adiante, continua aí a justificá-la e a mantê-la em vigor, seja muito justamente olhada pelas pessoas e pelos povos como perversa, cruel, sádica e inumana. E tal é a Igreja Católica Romana, no Ocidente, cujo chefe-mor, o papa Bento XVI, enquanto a não abolir da noite para o dia, é, em última instância, o grande responsável, por mais lágrimas de crocodilo que chore para televisões, rádios e jornais divulgarem, em fugidios encontros com algumas vítimas, escolhidas a dedo, entre as milhares e milhares de vítimas de actos de pedofilia, praticados (com dor o escrevo, primeiro, pelas próprias vítimas, mas também pelos seus vitimadores, vítimas, eles também, desta Lei Eclesiástica!) por clérigos católicos do Ocidente, obrigados, desde os 23-24 anos de idade, e pelo resto das suas vidas, à Lei do Celibato Eclesiástico.

 

10 Diz a Sabedoria, que o Saber /Poder não conhece, nem pode conhecer, que as práticas pedófilas de clérigos da Igreja católica no Ocidente, não têm como causa a Lei Eclesiástica do Celibato obrigatório. E nem é isso que eu acabo de escrever. Não é a causa. Mas que contribui, e muito, para isso, só um fanático da Igreja Católica Romana no Ocidente e do seu Deus-Ídolo é que o não reconhecerá. E tais estão a revelar-se o próprio papa Bento XVI, os cardeais da Cúria Romana, a generalidade dos bispos diocesanos, Bispo do Porto, Manuel Clemente, incluído, e mesmo muitos párocos em exercício de funções. Felizmente, os milhares de padres católicos romanos do Ocidente, já casados, estão gritantemente contra essa Lei. A sua decisão de casar, apesar de saberem que, com essa decisão, perdiam tudo, até o direito ao pão de cada dia, mais do que garantido, se eles prosseguissem eunucos à força, tem, no interior da Igreja, muito de Sinal de Deus Criador, nosso Abbá, e tudo de anti-Deus-Ídolo que todos os sacerdotes eunucos à força servem no interior dos templos e nos altares. Mais. Tem muito de gesto profético que revela às pessoas e aos povos, sobretudo, às pessoas e aos povos que ainda frequentam os templos e os cultos do Deus-Ídolo, quanto a Igreja Católica Romana, no Ocidente, tem de perverso, de sádico, de hipócrita, de moralista imoral, de sacrificialista.

 

11 Jesus, a Revolução Humano-Teológica mais radical da História, não pode estar mais em completo desacordo e, até, em conflito aberto desarmado, mas duélico, contra esta Lei Eclesiástica do Celibato. E com Jesus, o Crucificado, está Deus Criador, seu e nosso Abbá e de todos os povos em radical igualdade. O próprio Evangelho de Mateus (19, 11-12) fez chegar até nós, mulheres /homens do Século XXI, palavras suas cheias de Sabedoria (ou Jesus Crucificado não fosse a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada pelo Saber /Poder que é sempre ladrão e assassino) e que denunciam, como nenhumas outras, a simples existência da Lei Eclesiástica do Celibato Obrigatório. As palavras surgem na sequência da posição que Jesus havia acabado de tomar, em defesa das mulheres casadas que, então, eram tratadas, no seu país, pelos respectivos maridos, ao mesmo nível das ovelhas, dos animais de carga e de outros utensílios da casa que eles possuíam. Por isso, sem nenhum direito, sem nenhuma dignidade, sem nenhum valor, a não ser o valor de usar-e-deitar-fora, quando lhes desse na real gana.

 

12 As palavras de Jesus, em defesa das mulheres casadas, surpreenderam tanto os próprios discípulos judeus, que estes reagem e dizem: "Se é essa a situação do homem perante a mulher, o melhor é não casar!" Assim mesmo! E eram discípulos que andavam com Jesus, mas que não queriam nada com Jesus, nem com o seu Projecto Político Maiêutico do Reino /Reinado de Deus Criador de todos os povos em radical igualdade. Só pretendiam fazer-lhe a cabeça, para ver se Jesus regressava, pelo menos, ao Judaísmo reformador de João Baptista, dos quais alguns continuavam a ser discípulos. É perante uma reacção destas, por parte dos próprios discípulos judeus, que Jesus pronuncia tais palavras, cheias de Sabedoria, que a Igreja Católica Romana no Ocidente nunca foi capaz de escutar /acolher /praticar. Eis: "Nem todos compreendem esta linguagem, mas apenas aqueles a quem isso é dado. Há eunucos que nasceram assim do seio materno; há eunucos que se tornaram eunucos por interferência dos homens; e há eunucos que se fizeram eunucos por amor do Reino /Reinado do Céu [= Deus Criador, nosso Abbá]. Quem puder compreender, compreenda."

 

13 A Lei Eclesiástica do Celibato Obrigatório para os funcionários /mercenários que presidem ao altar, os chamados párocos e bispos titulares de dioceses, insere-se na categoria dos eunucos que, no dizer de Jesus, a Sabedoria, o são pela interferência dos homens, no caso, dos homens do Saber /Poder Religioso-Eclesiástico, concretamente, o papa-chefe de Estado do Vaticano e chefe-mor da Cúria Romana. Depois, em linha descendente, por escolha e nomeação dele, os bispos titulares de todas e de cada uma das dioceses da Igreja católica romana no Ocidente. E, finalmente, por nomeação dos bispos titulares de cada diocese, os respectivos presbíteros ordenados que ele, e só ele, sem necessidade de consultar as pessoas baptizadas de cada paróquia, depois nomeia para esta e aquela. Já agora, os próprios presbíteros ordenados que aceitam ser nomeados párocos e nunca refilam, nem dissentem das orientações que vêm de cima, da chamada Hierarquia, acabam todos cúmplices desta perversa prática eclesiástica. Em muitos casos (quem não vê isso, até, a olho nu, pelas suas caras e pelo seu estilo de ser-viver todos os dias?!), sem nenhuma convicção pessoal. Apenas por preguiça, por comodismo, por interesse material-financeiro (hoje, ser pároco de três, quatro, cinco e mais paróquias, dá dinheiro que se farta e ninguém diz nada, parece que toda a gente acha bem e faz questão de contribuir mais e mais, numa espécie de rivalidade entre paróquias, a ver qual delas é que dá mais dinheiro a ganhar ao seu funcionário /mercenário religioso, já sem nada de Presbítero da Igreja, a de Jesus!)

 

14 Por isso, digo: Ai de vós, Igrejas, a que está em cada diocese e em cada paróquia, que existis apenas para servir o Deus-Ídolo, que gosta de funcionários /mercenários sexualmente castrados pelos seus próprios chefes, para, assim, os ter sempre disponíveis para satisfazerem os seus caprichos de mando e executarem as suas ordens, todas mais ou menos perversas. Ai de vós, Igrejas, que fazeis leis imorais contra-natura, contra os seres humanos. Podem ser leis muito moralistas, muito piedosas, muito revestidas de um espiritualismo devoto, ao jeito do cura d'Ars, uma paróquia de França, que vós, em vez de chorardes pelo que fizestes dele, ainda o canonizastes e agora apresentais como exemplo para os demais funcionários /mercenários que mantendes à frente das paróquias. Sois todas Igrejas do Deus-Ídolo, guias cegas que continuais a levar para o abismo as muitas pessoas que ainda frequentam os vossos templos, os vossos cultos, todos em honra do Deus-Ídolo cruel, sádico e perverso que é o Deus da instituição Igreja Católica Romana, no Ocidente, nos antípodas da Igreja, a de Jesus, e das, dos de Jesus.

 

15 Deveríeis saber, como diz Jesus, que Celibato a valer, um Sinal com tudo de Profecia, só mesmo o daquelas, daqueles que, livre e lucidamente, decidem gastar a sua vida, como Jesus, ao serviço da edificação na História, do Reino /Reinado de Deus Criador, nosso Abbá e de todos os povos por igual. E por isso decidem não casar, não constituir família de sangue (não quer dizer que desistam dos Afectos partilhados, vividos na esteira do belíssimo Cântico dos Cânticos, da Bíblia Hebraica), porque querem fazer de todas as famílias a sua família, de todos os povos o seu povo, sempre a partir dos Ninguém, dos últimos dos últimos, num viver todo Dádiva, todo Entrega aos demais como Pão /Corpo Partido e Repartido que se dá a comer todos os dias e Vinho /Sangue Derramado que se dá a beber todos os dias, para a vida das pessoas e dos Povos, uma vida em estado de Liberdade e de Maioridade, de Autonomia e de Sujeitos, na História. Ou vós, Igrejas, vos converteis, passais do Deus-Ídolo, mentiroso, hipócrita, descriador e assassino, para Deus Criador, o de Jesus, nosso Abbá e de todos os povos, ou acabareis como aquele sal que perdeu a força de salgar a Sociedade e a História e, por isso, é muito justamente lançado fora, para ser pisado pelos homens e pelos povos. Assim sucederá a vós, Igrejas, se vos não converterdes do Deus-Ídolo ao Deus Criador, o de Jesus. Convertei-vos e vivereis!

 

Capítulo 46

 

1 Entre o ano 28 e o ano 30 da nossa era comum, havia todos os anos no país de Jesus, o que o Evangelho de João reiteradamente chama "a Páscoa dos Judeus". A Missão Económica e Política Maiêutica de Jesus, pelo desenvolvimento e implantação na História do Reino /Reinado de Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, em radical alternativa ao desenvolvimento e implantação na mesma História do Reino /Reinado do Deus-Ídolo, o do Templo de Jerusalém e do Império Romano, intrinsecamente descriador do que há de Humano nos seres humanos e nos povos do Planeta Terra e no próprio Planeta Terra, e, ostensivamente, contra ele (por isso, a Morte Crucificada de Jesus na Cruz do Império Romano, a exigências dos chefes dos sacerdotes do Templo de Jerusalém), é dentro deste universo social e religioso /idolátrico que decorre e culmina. A sua Morte Crucificada acontece exactamente, em Abril do ano 30 desta nossa era comum, durante a semana da "Páscoa dos Judeus", celebrada com pompa e circunstância, no Templo de Jerusalém, a cidade capital tida como santa e sagrada pelos chefes do Povo judeu, e no meio da mais desenfreada Exploração dos Judeus não-chefes, tanto os residentes no território, como os da diáspora, por sinal, em muito maior número do que os residentes no território. Para as comunidades joânicas que escrevem o Evangelho de João, a designação "Páscoa dos Judeus" é depreciativa e denunciadora. Com ela, querem deixar bem claro que a Páscoa ritualizada no Templo era apenas dos dirigentes /chefes do Povo judeu (nunca como por essa altura de cada ano, entrava tanto dinheiro no Templo!), pois, desde há muito que já não era mais a Páscoa do Povo judeu, uma vez que o território tinha-se tornado "Casa de Opressão" do Povo judeu, tal e qual como o antigo Egipto dos faraós, de onde os antepassados remotos haviam fugido /saído.

 

2 Contra a "Páscoa dos Judeus (volto a sublinhar: contra a Páscoa dos dirigentes religiosos e políticos do Povo judeu, por isso, a favor da libertação do Povo judeu das garras dos chefes dos sacerdotes e dos demais dirigentes religiosos e políticos que, quais vampiros, sugavam o sangue e até os ossos do Povo judeu), ergue-se, fecunda e saudavelmente subversiva e conspirativa, a Páscoa de Jesus que, na fragilidade do seu corpo desarmado e nas suas práticas económicas e políticas maiêuticas, abria os olhos da mente /consciência ao Povo judeu, o fazia saltar da paralisia generalizada em que a Opressão da Lei e do Templo o mantinha refém por toda a vida, e até o levantava do seu quotidiano de morte que a mesma Lei de Moisés e o Templo lhes causavam e impunham. A Páscoa de Jesus é por isso a única que dá efectiva visibilidade e torna activamente presente na História a PÁSCOA ou PASSAGEM de Deus Criador, o Abbá de todos os povos. E é esta Páscoa Maiêutica, a de Deus Criador, contra a páscoa ritualizada /opressora dos sacerdotes e dirigentes Judeus, que adquire visibilidade na intervenção Política Maiêutica de Jesus, o camponês /carpinteiro, o filho de Maria, ao mesmo tempo que desencadeia um ÊXODO ou LEVANTAMENTO /MOVIMENTO libertador dos seres humanos e dos povos. O confronto entre uma e outra, entre a Páscoa de Jesus e a Páscoa dos Judeus, é total, duélico e mortal para um dos contendores. No caso, para Jesus, que protagoniza a Páscoa de Deus Criador, como o seu Filho muito amado, por isso todo ele Fragilidade Humana, Desarmado, a Sabedoria contra o Saber /Poder, a Luz contra a Treva, o Ser Humano pleno e integral contra o Deus-Ídolo /a Idolatria.

 

3 Com a Morte Crucificada de Jesus, tudo foi consumado, como sublinham e bem as narrativas evangélicas. Ou por palavras deste nosso Século XXI - e, de resto, é precisamente o que significa a expressão "Tudo está consumado!" - é graças a Jesus e à sua Páscoa, inevitavelmente, Crucificada, pelo menos, no contexto histórico do Século I desta nossa era comum, que os povos da Terra puderam ver e viram, duma vez por todas, que, ao contrário do que sempre nos ensinam as famílias, as catequeses paroquais, as escolas, as universidades, os grandes meios de comunicação social e os milhões e milhões de livros da chamada Cristologia, todos nós, os seres humanos, nascemos e vivemos por toda a vida num Mundo que encontramos à chegada já devidamente organizado /institucionalizado, e hoje cada vez mais cientificamente organizado /institucionalizado, não, como ele sempre deveria ter sido e ser, segundo o Projecto Político Maiêutico de Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, e de povos em radical igualdade (um Deus que nunca ninguém viu, nem verá!), mas apenas organizado /institucionalizado segundo o projecto de Poder Político do Deus-Ídolo (que toda a gente vê e até cultua publicamente nos templos e santuários!). Por isso, um Mundo intrinsecamente Cruel e Descriador do Humano que, para cúmulo dos cúmulos, ainda é regularmente servido, em cada geração, pelos melhores cérebros humanos, habilmente, contratados pelos da trindade dos Poderes, antes de mais, o Poder Económico-Financeiro, hoje, Global, sem dúvida, o mais mentiroso e o mais homicida dos três, seguido do Poder Político que oficialmente governa cada nação, e, finalmente, o Poder Religioso-Eclesiástico, na pessoa dos sacerdotes clérigos, nomeadamente, as hierarquias que dão corpo às cúpulas das Religiões e das Igrejas, hoje, praticamente todas elas convertidas em outras tantas Religiões.

 

4 Só que, como o Evangelho de João (3, 20-21) sublinha, com lúcida oportunidade que hoje parece ter-se convertido em generalizado oportunismo ilustrado, até por parte da esmagadora maioria dos nossos intelectuais, (quase) todos vendidos ao Deus-Ídolo e à sua trindade dos Poderes, " A Luz veio ao Mundo, mas os homens [da trindade dos Poderes e os seus lacaios] preferiram as trevas à Luz, porque as suas obras eram [são] más. E quem pratica o Mal [= a Mentira e o Assassínio estruturais /institucionais] odeia a Luz e não se aproxima da Luz, para que as suas obras [práticas económicas e políticas assassinas] não sejam desmascaradas. Mas quem pratica a Verdade [a Mãe da Liberdade-Maioridade Humana estrutural /institucional] aproxima-se da Luz, de modo a tornar-se claro que os seus actos [práticas económicas e políticas maiêuticas criadoras de vida e vida em abundância para todos os povos] são feitos segundo Deus [Criador, não segundo o Deus-Ídolo, o pai da Mentira e do Assassínio = o Mal estrutural /institucional]." Mas a verdade é que, infelizmente, à Páscoa de Jesus, protagonizada por ele, desde meados do ano 28 e consumada em Abril do ano 30 desta nossa era comum, no seu pequeno país, na altura, militarmente ocupado pelos exércitos do Império Romano, sucedeu praticamente o mesmo que à Páscoa, Acontecimento Histórico teologicamente Revolucionário, protagonizado, muitos séculos antes, por aquelas hordas de escravos hebreus e outros que se levantaram /insurgiram / libertaram /fugiram do Egipto dos faraós, a Casa da Opressão, e passaram a viver, o resto das suas vidas, no Deserto e em Deserto, por onde ficaram sepultados os seus cadáveres.

 

5 As gerações seguintes àquela que havia fugido /saído do Egipto, depois que se viram instaladas na terra dos cananeus, que haviam militarmente conquistado e ocupado, e progressivamente se institucionalizaram como país, nunca mais prosseguiram, de forma actualizada, geração após geração, a Páscoa dos seus pais ou antepassados. Nunca mais. Limitaram-se a celebrar ritualmente esse Acontecimento histórico teologicamente Revolucionário no Templo que ergueram depois de terem erguido o palácio do rei que os governava /oprimia /explorava /recrutava os seus filhos para os seus exércitos e os matava por lá, e as suas filhas para concubinas do seu harém e cortesãs do seu palácio. Os sacerdotes, todos descendentes de Aarão, a tudo presidiam e tudo dominavam, em nome de Deus que, nessas circunstâncias de Opressão institucionalizada, já só poderia ser o Deus-Ídolo que todo o Povo hebreu continuava a considerar como o único Deus verdadeiro! Com o passar das gerações, essa celebração ritualizada da fuga /saída do Egipto, veio a dar na "Páscoa dos Judeus", do tempo de Jesus, contra a qual ele se insurge e procura ajudar maieuticamente o seu Povo oprimido e esmagado, a insurgir-se politicamente. Sabia bem o terreno armadilhado que trilhava e nem por isso deixou de o trilhar até ao fim. Para que, duma vez por todas, o Deus-Ídolo que se esconde por trás do Templo e dos ritos da Religião e por trás do Institucional Poder Económico-Financeiro, do Poder Político de cada país e do Poder Religioso-Eclesiástico, ficasse definitivamente desmascarado. A sua Morte Crucificada é a Luz Definitiva que desmascara para sempre a Treva Institucionalizada, hoje, habilmente, mascarada sob títulos pomposos, como Sacerdócio, Religião, Igrejas clericais, Governos das nações, ONU, Banco Mundial, etc, etc, etc.

 

6 O mesmo sucedeu à Páscoa de Jesus. Depressa, vieram o Sacerdócio e os sacerdotes, o Institucional Religioso, o Poder hierárquico e converteram a Páscoa de Jesus numa solene e prolongada celebração ritual nos templos católicos e cristãos de cada país do Mundo, onde há alguma Igreja institucionalizada no activo. As práticas maiêuticas de Jesus são, agora, meros ritos, símbolos vazios e envenenados que envenenam /matam lentamente quem os faz e quem a eles assiste. Os seus duelos teológicos desarmados são homilias sem sal e sem luz, sem profecia e sem Sopro /Espírito Santo, o de Jesus. O Levantamento /Movimento maiêutico de Jesus  que deveria ser anunciado /prosseguido em todas as nações da Terra - é essa a Missão que Jesus confia às suas discípulas, aos seus discípulos que fizeram sua a mesma Fé dele, contra a fé religiosa, sempre idolátrica - foi depressa domesticado, aprisionado pelo Institucional eclesiástico que veio a culminar na vergonha das vergonhas e no perverso dos perversos que é hoje a Cúria Romana, presidida por um papa-chefe-de-estado-com-poder-monárquico-absoluto, até o Poder de excomungar /excluir as vozes mais dissidentes e mais fiéis ao Levantamento /Movimento de Jesus. De resto, nem o nome de Jesus se salvou no meio de toda esta alta traição, já que, em seu lugar, aparece hoje um mítico Cristo ou Jesus-Cristo, do qual provém o chamado Cristianismo, sem nada de Jesus, com tudo de anti-Jesus.

 

7 Esta alta traição a Jesus e ao seu Projecto Político Maiêutico, feito Levantamento /Movimento que haveria /deveria prosseguir, actualizado, em cada geração e por todos os povos do Planeta, começou logo a ganhar corpo, poucas semanas, poucos meses depois da sua Morte Crucificada na Cruz do Império. É protagonizada - vejam só! - por um lado, pelos familiares de sangue de Jesus, liderados por Tiago, irmão de Jesus, e com o visível apoio de Maria, a mãe de Jesus (cf. Actos 1, 14), que, depois de ouvirem dizer que ele ressuscitara dos mortos, isto é, era, aos olhos deles, o Messias Vencedor dos inimigos, reclamavam-se de seus herdeiros e líderes do Reino triunfal que, por aqueles dias, ele iria implantar na Terra; e, por outro lado, pelo grupo dos Doze que se havia desfeito e dissolvido com a Morte Crucificada de Jesus, mas que, também, ao ouvirem dizer que, afinal, o Crucificado na Cruz do Império "virara" Messias (= Cristo) Vencedor dos inimigos e iria implantar, por aqueles dias, o seu Reino todo-poderoso e esmagador dos inimigos, logo avançam para a sala de cima do Templo (cf. Actos 1, 12-13), à espera que o Reino triunfal chegue, para seremos seus privilegiados dirigentes. No entender do seu líder, Pedro /Pedra de seu nome, cabia a eles, Grupo dos Doze constituído pelo próprio Jesus, e não aos familiares de sangue, a chefia do Reino triunfal do Messias Vencedor, a chegar por aqueles dias. É por isso que Pedro se apressa tanto a reconstruir o grupo dos Doze, desfeito e dissolvido com a Morte Crucificada de Jesus. E é o que sucede, quase de imediato, com a apressada, desastrada e de todo inútil eleição de Matias para o lugar de Judas (cf. Actos 1, 15-26).

 

8 Contra esta alta traição, já bem visível a olho nu, uns dez anos depois da Morte Crucificada de Jesus, as pequeninas Comunidades das discípulas, dos discípulos de Jesus que prosseguiam as suas mesmas práticas maiêuticas e os seus mesmos duelos teológicos desarmados, longe do Templo de Jerusalém e de toda aquela Idolatria que lá se praticava, a coberto da qual, o Povo judeu continuava a ser oprimido, explorado, desprezado, ostracizado, morto, meteram mãos ao trabalho de registar por escrito os actos e as palavras de Jesus, bem como os seus duelos teológicos desarmados. Fizeram-no, para que a sua Memória, fecunda e salutarmente subversiva e conspirativa, fosse conhecida e prosseguida, devidamente actualizada, pelas gerações que viessem a seguir a elas. Nasceu assim o Evangelho de Jesus segundo Marcos, sem dúvida, o primeiro a ser escrito e a circular, como relato altamente subversivo. Pelos anos 42-44, já circulava, clandestino, senão o Evangelho todo, pelo menos, grandes pedaços dele. É este Evangelho  de Marcos que estimulará outras pequeninas comunidades a fazerem outro tanto. Oficialmente, conhecemos mais três, sob os nomes de Mateus, João e Lucas. Este, de Lucas, é o único que foi escrito em dois volumes. E é, até, graças ao segundo volume do Evangelho de Lucas, que hoje, Século XXI, podemos perceber melhor do que nunca antes, a alta traição que Jesus e o seu Levantamento /Movimento Maiêutico sofreu. Porque o segundo volume é disso que se ocupa, desde o capítulo ´1 ao capítulo 28, com que termina. Ali se vêem quem são os protagonistas-mor dessa alta traição a Jesus e ao seu Levantamento /Movimento Maiêutico.

 

9 O Evangelho de Jesus segundo Marcos, porque historicamente mais próximo do Jesus histórico, é duma força maiêutica /libertadora impressionante. E ainda mais, se lido /escutado numa versão devidamente actualizada. Este Evangelho nasceu na pequenina comunidade clandestina que reunia em casa de Maria, a mãe de João Marcos. É este Marcos o principal garante do Evangelho de Jesus que os protagonistas-mor da alta traição a Jesus, com destaque para Saulo /Paulo de Tarso, antes da sua adesão a Jesus (só no final do segundo volume do Evangelho de Lucas, essa adesão é dada, já depois das chamadas três viagens apostólicas que ele fez a difundir o falso evangelho do Judaísmo já com Messias Vencedor), não suportam e, por isso, o repelem sistematicamente da sua presença, sem quererem nada com ele. Mas é este Evangelho de Marcos que faz o seu percurso no Império Romano contra o mentiroso evangelho do imperador César Augusto, filho de Deus! É ele quem nos dá Jesus em corpo inteiro, não como o Messias ou Cristo, mas apenas como o Filho do Homem, o Ser Humano pleno e integral, que, de resto, outra coisa não quer dizer a expressão bíblico-profética, "Filho do Homem". Se repararmos bem, veremos que neste Evangelho, o de Jesus sem desvios nem traições posteriores, não se fala nem do seu nascimento, nem de nenhuma aparição, após a Morte Crucificada na Cruz do Império. E dos anos que precederam o início da sua Missão Maiêutica, por meados do ano 28 desta nossa era comum, temos notícia apenas, indirectamente, quando Jesus, já em plena Missão, vai também a Nazaré "onde se tinha criado". Nascido e criado, melhor. E o que os vizinhos que o conheciam e à sua família dizem dele e dela, nessa altura, não é nada politicamente recomendável. Mas é a verdade histórica nua e crua sobre Jesus!

 

10 Os outros três Evangelhos ditos canónicos, particularmente, Mateus e Lucas, dão-nos pormenores, nos dois primeiros capítulos, que parecem ser relacionados com o nascimento de Jesus e os primeiros anos da sua vida. Não são. Pela simples razão de que esses dois primeiros capítulos de Mateus e de Lucas são relatos puramente teológicos, não biográficos. E tudo o que escrevem /dizem é sobre Jesus que escrevem /dizem, não sobre Maria, a sua mãe carnal. De modo que qualquer construção doutrinal posterior sobre Maria, a mãe de Jesus, ou sobre José, referido aí como o pai putativo /adoptivo de Jesus, que se tenha vindo a elaborar - e muita foi até hoje! - é pura ficção e construção doutrinal mítica. Porque os relatos, com todos os pormenores com que se tecem, nestes dois primeiros capítulos, é exclusivamente de Jesus que testemunham. Sabemos que o Cristianismo, ou melhor, o Judaísmo já com (mítico) Messias ou Cristo vencedor, que se tem afirmado e mantido até hoje, Século XXI, em lugar de Jesus, o Carpinteiro /Camponês de Nazaré, Crucificado na Cruz do Império Romano, e em lugar de toda a sua Revolução Teológica Radical, serviu-se desses dois capítulos de Mateus e de Lucas para fazer pura ficção doutrinal, que esvazia por completo e mantém definitivamente mortos, Jesus e o seu Levantamento /Movimento Político Maiêutico.

 

11 Temos de regressar a Jesus. À Páscoa de Jesus, o único fundamento duma Humanidade nova, constituída não mais segundo o Deus-Ídolo descriador do Humano, e segundo a sua trindade dos Poderes, mas segundo Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, e Criador de povos em radical igualdade. A este Deus Criador do Humano, nunca ninguém viu. Apenas Jesus Crucificado na Cruz do Império Romano, por deliberação do Deus-Ídolo e da sua trindade dos Poderes, é quem no-lO deu a conhecer, ao mesmo tempo que nos deu a conhecer o Humano pleno e integral. Temos, pois, de regressar a Jesus, o do Evangelho de Marcos, primeiro, e ao dos três outros restantes, sem deixar de dar também a devida atenção aos numerosos Evangelhos chamados "apócrifos". Em lugar do Cristianismo, fundado sobre o mítico Cristo Vencedor, que tem justificado toda a espécie de crimes, os mais horrendos, todos cometidos em seu nome, ao longo destes últimos vinte séculos, temos de fazer Acontecer, Hoje, de forma devidamente actualizada, Jesus e o seu mesmo Projecto Político Maiêutico. A trindade dos Poderes e o seu Deus-Ídolo não nos perdoarão. Mas, ou assim, e há esperança teologicamente fundamentada para a Humanidade e para o Planeta Terra, ou só nos resta gemer e chorar neste Planeta cada vez mais descriado e cada vez mais desumanizado, como um planetário vale de lágrimas.

 

12 O Evangelho de João (20, 19-29), na sua invulgar e fecunda Sabedoria Teológica Jesuânica, construiu uma espantosa narrativa literária, densamente teológica, com a qual nos consegue transmitir a Boa Notícia de que Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, por exigências dos chefes dos sacerdotes do Templo do seu próprio país, é o único Ser Humano que Deus Criador, seu e nosso Abbá, reconhece como o seu Filho muito amado, ao ponto de Jesus poder dizer, "Quem me vê, vê o Pai /Abbá". Por isso, o único Ser Humano fiável, em quem os demais seres humanos podem e devem apoiar-se para prosseguirem na História como seres humanos. Se Jesus é o único Ser Humano fiável, quer dizer que todos os outros, nomeadamente, aqueles muitos que deixam de ser seres humanos e se tornam outra coisa, agentes activos de qualquer um dos três Poderes que estão ao serviço do Deus-Ídolo, não são nunca de fiar, sempre são de desconfiar e de fugir dos seus projectos políticos e económicos a sete pés. Infelizes seremos, desgraçados seremos, descriados seremos, se edificarmos o nosso ser-viver sobre eles e sobre a Ordem Mundial criada e mantida por eles a ferro e fogo, na qual eles aparecem como chefes e dirigentes, à frente de tudo o que é Institucional. Não seremos seres humanos sábios, rumo à Liberdade e à Maioridade Humanas, mas dementes-dementes que cavamos a nossa própria ruína e a nossa própria sepultura.

 

13 A referida narrativa literária joânica, densamente teológica, apresenta-nos, entre todos os discípulos (machos) de Jesus, apenas um que se aproveite. Chama-se Tomé, o Dídimo, que quer dizer em palavras Século XXI, Tomé, o gémeo de Jesus. Gémeo, não segundo a carne e o sangue (Tiago era irmão carnal de Jesus e vimos o que ele fez, logo após ter ouvido dizer que o Crucificado Jesus "virara" o Messias /Cristo Vencedor), mas segundo o mesmo Sopro /Espírito de Jesus. Entre Jesus e Tomé praticamente não se notam diferenças. De resto, nestas coisas da Humanidade Nova, a edificar e implantar na História, a carne e o sangue só atrapalham. Depressa os nossos familiares, a começar pelos filhos em relação aos pais, e pelos pais em relação aos filhos, revelam-se como os nossos primeiros e os mais ferozes inimigos, que fazem tudo para reter, prender, desmobilizar quem se apresentar habitado /possuído /conduzido pelo Sopro de Jesus, intrinsecamente maiêutico /libertador, em oposição total ao sopro /espírito da carne e do sangue que é puramente egoísta, possessivo, corporativo, incapaz de ver mais Humanidade, irmãs e irmãos, para lá do seu próprio umbigo, ou da soleira da porta da sua casa, quanto mais palácio, melhor.

 

14 Tomé é o único que não vai em flores, em shows mediáticos, em milagres de encher o olho, em aparições do Ressuscitado, em espectáculos ritualizados e montados para esconder a realidade, em Messias ou Cristos Vencedores, em Missas cheias de pompa e circunstância, mas vazias de Humano, de Verdade que nos faz livres. Os outros discípulos bem lhe dizem "Vimos o Senhor". Ele não cede a essa tentação do folclore, no pior sentido do termo. Quer Jesus, o Crucificado na Cruz do Império. Porque, se foi /é a ele, e só a ele, que Deus Criador reconheceu /reconhece como o seu Filho muito amado, então fica meredianamente claro, para todo o sempre, que o Deus do Templo e do Império e do Sinédrio, apesar de toda aquela pompa e de todos aqueles cultos presididos por sacerdotes sumos e não sumos, não passa de um Ídolo mentiroso e assassino. E a prova irrefutável é que ele assassinou Jesus, o Ser Humano Maiêutico por antonomásia, o único ser humano fiável sobre quem podemos e devemos edificar uma Humanidade /Sociedade outra, intrinsecamente jesuânica, também ela maiêutica, libertadora e criadora de Humano, nunca de Vítimas!

 

15 Por sinal, os outros discípulos que lhe diziam "Vimos o Senhor" e se ficaram por aí, foram os que, depois, quando perderam o medo, foram a correr meter-se de novo no Templo de Jerusalém, na sua sala de cima, cúmplices do Deus-Ídolo mentiroso e assassino que assassinou Jesus. Tomé, ao contrário, será, pelo resto da sua vida, o irmão gémeo de Jesus, outro Jesus. Pois bem, só com mulheres, homens como Tomé, irmãs gémeas, irmãos gémeos de Jesus, o seu Projecto Político Maiêutico e o seu Levantamento /Movimento Político Maiêutico poderão desenvolver-se na História, em alternativa ao projecto mentiroso e assassino do Deus-Ídolo da trindade dos Poderes e contra o projecto do Deus-Ídolo da Trindade dos Poderes. Escolher é preciso. Ou Deus Criador, o de Jesus, ou Deus-Ídolo, o da trindade dos Poderes. Escolhamos bem. Na linha da Sabedoria. Não na linha da Demência-Demência, que é, infelizmente, a escolha que, até hoje, mais temos feito. E só por isso o Mundo está como está. Para nossa vergonha. E também para nossa desgraça!

 

Capítulo 45

 

1 Pelo início de cada Primavera, os povos do Ocidente estão confrontados com a Páscoa. Desde os tempos mais primitivos que os povos do Planeta celebram o que eles pensam ser o renascer da vida. A passagem (= Páscoa) da morte (= Inverno) à vida (=Primavera). Vieram, depois as Religiões, pura criação dos povos, na sua religação com a Natureza, e passaram a celebrar com rituais específicos e mais ou menos sumptuosos e mentirosos este fenómeno (há lá Mentira Encenada maior do que os rituais presididos, cada ano, em Roma pelo papa?!), no início de cada Primavera. Primeiro, espontaneamente. Depois, cada vez mais de forma organizada, graças aos sacerdotes que, rapidamente, se constituíram em casta à parte. Os sacerdotes, como as Religiões, são pura criação dos povos. No caso dos sacerdotes, são criação, sobretudo, daquela pequena parcela, mais hábil e mais espertalhona, dos povos, que depressa se constituiu em parcela dirigente e mais poderosa, relativamente, aos demais seres humanos. E passaram a dominar os demais. A serem os chefes dos demais. Os mais hábeis e os mais poderosos, sobre os demais. Uma imensa minoria sobre a esmagadora maioria, constituída toda ela pelas suas vítimas. Os povos, em lugar de se lhes oporem, de lhes resistirem, depressa se submeteram. Inclusive, passaram a ver nessa minoria privilegiada, poderes que ela, efectivamente, não tinha nem tem e, facilmente, aceitam que os membros que a constituem são intermediários entre eles e as divindades e entre as divindades e eles.

 

2 As Religiões estruturaram-se. E os sacerdotes são os chefes, os dirigentes. Ao princípio, os únicos. Com as Religiões cada vez mais estruturadas e com os sacerdotes cada vez mais poderosos, nasceram os ritos e os cultos. A princípio, espontâneos e tribais, demasiado toscos e brutais. Depois, cada vez mais organizados, estruturados, até com alguma beleza e arte assassinas, e todos concentrados nos sacerdotes. Nada se fazia então sem os sacerdotes. A tudo, os sacerdotes presidiam. Os povos reconheciam o seu poder de intermediários e submetiam-se-lhes sem resistência. De forma quase automática. Como se tudo fosse coisa natural. As gerações posteriores, ao nascerem, já encontravam as coisas assim e eram educadas dentro desta estrutura. De geração em geração, passou a ser assim. E assim continua a ser, todos estes milhares e milhares de anos, desde que há seres humanos, povos. Como se fosse da natureza das coisas. Não é. É pura criação dos sacerdotes e outros seus compinchas nos privilégios. Os sacerdotes estão no topo da pirâmide. A eles cabe, em exclusivo, o papel de intermediários entre as divindades e os povos. São, por isso, ainda hoje, Século XXI, uma espécie de povo à parte (= clérigos). Exercem nas sociedades o papel de intermediários entre as divindades e os povos. Inclusive, nas sociedades seculares deste nosso Século XXI, eles continuam a ser acolhidos e reconhecidos como funcionários do Religioso. E temidos, mesmo por aqueles que já deixaram de participar nos ritos a que eles presidem.

 

3 Não há, ainda hoje, Século XXI, momento nenhum de grande Dor e de grande Exaltação dos povos, que a presença dos sacerdotes não seja de imediato requerida. No nascer, no casar, no morrer, eles (quase) sempre lá estão. Hoje, nos momentos de grande Dor dos povos, já começam a ser regularmente substituídos por psicólogos, elas e eles. Mas, mesmo estes, são olhados e tratados pelos povos como um novo tipo de sacerdotes, laicos, mas sacerdotes. E eles próprios, os psicólogos, fazem-se olhar e tratar assim. O título de doutor com que sempre se apresentam e a designação genérica de "psicólogos" de que todos eles se reivindicam, é isso que significa. São um novo tipo de sacerdotes. Laicos, mas sacerdotes, um núcleo de seres humanos à parte (= clérigos, só que agora, seculares). Parece que evoluímos, mas apenas mudamos de manto ideológico que cobre a realidade. A realidade, sob o novo manto ideológico, permanece a mesma. E, neste particular, é caso para se dizer que os povos não têm emenda. Interiorizaram tanto, quase desde o início, que não podem viver sem os intermediários, que nem hoje, Século XXI e início do terceiro milénio, depois de Jesus ter Acontecido entre nós e de ter protagonizado no seu próprio ser-viver a Revolução Humano-Teológica mais radical. Tudo prossegue como se Jesus e a Revolução Humano-Teológica mais radical que o seu ser-viver constituiu para sempre, nunca tivessem Acontecido.

 

4 E, no entanto, já á volta de uns mil e quinhentos anos antes de Jesus ter nascido, a História dos povos conheceu, pela primeira vez, uma Páscoa outra que, ainda hoje, os povos do Século XXI, preferem desconhecer, ou deturpar propositadamente, ou simplesmente se recusam a acolher. E muito mais se recusam a prosseguir. Semelhante Páscoa foi protagonizada por bandos de escravos, uns Ninguém, sem quaisquer direitos, meros Objectos em forma humana, Mão-de-Obra à força e sem quaisquer direitos, para lá do comer. Mas nem o comer era visto como um direito, apenas como uma necessidade, por parte do utilizador dessa Mão-de-Obra em forma humana. Tinha de lhes garantir o comer diário, se queria dispor diariamente da Mão-de-Obra que eles eram. Exactamente, como hoje procedemos com as máquinas que adquirimos e temos ao nosso incondicional serviço. Ou lhes fornecemos o combustível para elas trabalharem e serem-nos úteis, ou elas enferrujam para aí num canto qualquer, coisa mais inútil.

 

5 Obviamente, o Levantamento ou Insurreição dos bandos de escravos do Egipto dos faraós, quando ocorreu, não se chamou Páscoa. Foi um inesperado e subversivo Levantamento ou Insurreição social e política (não da Natureza, muito menos, coisa cíclica, previsível; Um Levantamento histórico). Certamente, antes desse, outros, de dimensões mais diminutas, teria já havido. Mas depressa todos foram sufocados, reprimidos e os seus protagonistas, todos dizimados, se não mesmo, enterrados vivos, para exemplo dos demais. Mas este do Egipto dos faraós, foi um Levantamento, uma Insurreição que chegou ao fim. Quantos o /a protagonizaram, também conseguiram levá-lo, levá-la ao seu termo. E isso é que MUDOU, ou deveria ter MUDADO a História. Obviamente, conseguiu algumas reformas, algumas mudanças, mas não A MUDANÇA. E porquê? Entre esses escravos, esses Ninguém, essa Mão-de-Obra por conta dos Faraós, depressa veio a nascer, como um fungo envenenado, o Sacerdócio e, com ele, os sacerdotes. Moisés terá sido - a Tradição bíblica é assim que apresenta os factos - o Parteiro, o Homem Maiêutico que consciencializou, animou e conduziu sem nunca os substituir, aqueles bandos de Ex-escravos, agora em Deserto, a crescerem como um Povo em progressiva Liberdade, Maioridade, Autonomia e Autogestão. Mas, algum tempo depois, o seu irmão Aarão, recordado do Egipto dos Faraós, onde os sacerdotes eram tidos e achados como fundamentais, reivindicou para ele esse privilégio. E Moisés, numa fatal cedência, entrou no jogo do irmão e foi o primeiro a reconhecê-lo e a apresentá-lo como sacerdote aos demais.

 

6 Os Ex-Escravos, ainda em fase de crescimento para a Liberdade e para a Maioridade, para a Autonomia e para a Autogestão, não viram que, com a aceitação do Sacerdócio e de Aarão como o seu primeiro sacerdote, nunca mais chegariam à Liberdade e à Maioridade, à Autonomia e à Autogestão. Nunca mais. Por mais anos que vivessem em Deserto, permaneceriam para sempre domesticados, escravizados, objectos, coisas, Mão-de-Obra por conta de outrem, primeiro, os sacerdotes, depois e ao mesmo tempo, os reis que, mais tarde, uma vez estabelecidos no país que tinham em mira conquistar e ocupar e que, efectivamente, conquistaram e ocuparam, eles próprios exigiram ao companheiro deles que prosseguia entre eles e com eles, o indispensável serviço Maiêutico que Moisés havia praticado até ao dia em que cedeu à proposta-chantagem do irmão Aarão e o constituiu sacerdote. Nesse momento e devido a essa mortal cedência, Moisés matou o Levantamento, a Insurreição dos Ex-escravos que havia ajudado maieuticamente a Acontecer. Ele próprio, Moisés, passou (é a Páscoa ao contrário!) de Homem Maiêutico a Homem do Poder Político, chefe todo-poderoso, com todos os tiques de chefe, de Poder, o mais mortal dos quais é sem dúvida o de se tornar assassino dos demais, dos que se lhe opuserem! O relato bíblico do Êxodo, cuja redacção definitiva tem a mãozinha, melhor, as mãozonas dos sacerdotes, então já no topo da pirâmide do Poder, dá-nos registos sobre certos comportamentos de Moisés com os Ex-Escravos que, ainda hoje, tantos séculos depois, nos deixam os cabelos em pé! De Horror!

 

7 De Libertador maiêutico que começou por ser, Moisés acabou assassino dos que ajudou maieuticamente a libertar, sobretudo, depois que aceitou que o seu irmão Aarão fosse constituído em sacerdote. E ele próprio o constituiu e apresentou ao povo em Deserto, ainda a crescer em Liberdade e em Maioridade, em Autonomia e em Autogestão. Com o sacerdócio e com Aarão seu fundador e primeiro a exercê-lo, foram-se de vez a Liberdade e a Maioridade, a Autonomia e a Autogestão. Os Ex-escravos do Egipto dos Faraós regressaram à sua anterior condição, sem disso se aperceberem. O Egipto dos Faraós estava, agora, dentro deles e entre eles. Haviam-no interiorizado, adoptado. Para onde quer que fossem, levavam-no com eles. E, quando, a geração que lhes nasceu, em Deserto, conseguiu, finalmente, conquistar pela violência das armas de então o país que tinham em mente conquistar, e o ocuparam, depressa esse país se tornou uma reprodução do Egipto dos Faraós. Sem que os seus ocupantes se apercebessem disso, até porque, como já haviam nascido em Deserto, nunca haviam conhecido, na sua própria carne, o que era ser Escravo dos Faraós. Na sua memória andavam restos de relatos dos seus pais, mas não passavam disso: meros restos de relatos. Não era a Escravatura em carne viva que os seus pais conheceram e da qual fugiram e se libertaram!

 

8 Com Aarão sacerdote e fundador do Sacerdócio entre os Hebreus - assim se chamam os Escravos que protagonizaram o Levantamento ou a Insurreição no Egipto dos faraós - os seus descendentes machos passaram a ser automaticamente sacerdotes também. O estatuto de Privilégio e de Poder sacerdotal de que desfrutavam não podia ser protagonizado por mais nenhuma tribo, das doze tribos que vieram a dar origem ao Povo Hebreu. Moisés desaparece, por morte que a velhice sempre traz consigo, e ninguém o prossegue. A sua missão maiêutica, ao contrário do Poder Sacerdotal, não se prossegue por sucessão. Os filhos de Moisés não são automaticamente homens /mulheres maiêuticos. O ser-viver Maiêutico não vem por via sucessória. Seria previsível e, por isso, facilmente domesticável e manipulável, como o ser-viver dos sacerdotes. Não é. Nunca foi. Nunca será. Por mais que os do Poder Político e os do Poder Sacerdotal e, sobretudo, os do Poder Económico-Financeiro, hoje, Global, se danem. Nunca se saberá em quem vai Acontecer. Só saberemos pelos frutos de Levantamento, de Subversão, de Dissidência, de Insurreição que, lá, nos seres humanos onde habitar e actuar, esse ser-viver maiêutico sempre produz.

 

9 Os da trindade dos Poderes ficam fora deles de fúria e crescem em Ódio e em Violência contra os seres humanos, mulheres e homens, nos quais esse ser-viver maiêutico Acontece, mas, perante eles, nada mais conseguem fazer do que revelarem à saciedade o que todos eles, inclusive, os sacerdotes, efectivamente são: ladrões e assassinos institucionais, que existem e estão aí só para roubar, matar e destruir. Podem vestir-se, e vestem-se de facto, de presidente da república, de rei, de primeiro-ministro, de ministro, de deputado, de general, de juiz, de hierarquia religioso-eclesiástica, de pároco, de pastor de igreja, de administrador de transnacional, de banqueiro; podem ser, suposta e legalmente, eleitos pelos povos (os sacerdotes, nunca são; sempre são abertamente impostos aos povos, o que torna a sua existência ainda mais aberrante e perversa!); podem ser aplaudidos e idolatrados pelos povos. Mas todos estão aí só para roubar, matar e destruir os povos. Não! Não nasceram para isso. Não é essa a sua matriz. Tornaram-se assim, anos depois de terem nascido, de modo especial no momento em que se deixaram seduzir e cair na tentação de se constituírem Poder Sacerdotal, ou Poder Político, ou Poder Económico-Financeiro, ou nos três ao mesmo tempo. Nesse preciso Momento, o que há de Humano neles, misteriosa Criação Gratuita do Espírito Criador de Deus, nosso Abbá e Abbá de todos os povos, em radical igualdade, é de imediato assassinado, ainda que, durante um tempo, pareça que tudo permanece como antes. Não permanece. De Humano que era, torna-se compulsivamente Mentiroso e Assassino.

 

10 Os Povos não chegam nunca a ver esta transubstanciação e, por isso, nunca reagem, antes acatam e saem para a rua a celebrar e a festejar. Desconhecem que estão a celebrar e a festejar um compulsivo Mentiroso e Assassino Institucional. E não vêem, porquê? Porque, durante muitos séculos, os sacerdotes não deixaram que os povos vissem. Desde que nasceram, os sacerdotes são-no do Ídolo, ao qual eles sempre chamam Deus. Mas só mesmo um Ídolo que eles, mentirosamente apresentam aos povos como Deus verdadeiro (ou os sacerdotes não fossem os profissionais da Mentira Institucionalizada!), é que necessita de sacerdotes ao seu serviço, como intermediários entre ele os povos e entre os povos e ele. Precisamente, porque é um ídolo, criação dos sacerdotes e dos próprios povos mergulhados e tolhidos nos seus ancestrais medos, de que nunca se chegam a libertar, enquanto permanecerem sob o jugo dos sacerdotes e dos outros dois Poderes, o Político e o Financeiro, que, muitos séculos depois da existência dos sacerdotes, acabaram por se lhes juntar e passaram a compartilhar do seu Poder e dos seus Privilégios, até então, exercido em monopólio pelos sacerdotes .

 

11 Com os sacerdotes, até o Acontecimento histórico que foi o Levantamento ou a Insurreição dos escravos no Egipto dos faraós, em lugar de prosseguir, de forma sempre actualizada em cada geração de seres humanos que vem a este mundo, como deveria ter acontecido, passou, pelo contrário, a ser apenas habilmente celebrado, celebrada ritualmente nos templos onde eles, os sacerdotes, são reis e senhores e apenas eles têm a palavra, sempre politicamente desmobilizadora dos povos, e portadora de um Moralismo imoral que tresanda. É o que inevitavelmente acontece aos povos, quando deixam de viver em Deserto e conquistam uma terra /uma casa /um emprego, um privilégio que depois não querem pôr em risco e em cuja defesa são até capazes de arriscar a própria vida. Instalam-se aí e MORREM. O Sonho, o Projecto que os fez ser-viver até então em Deserto, morre no dia em que eles deixam de ser-viver em Deserto e se instalam. Os sacerdotes é isso que querem e que fomentam nos povos. Porque, depois, nunca mais os povos se Levantam em Insurreição. E, se o fizerem, é apenas para defenderem a sua propriedade privada, o seu quinhão, o seu chão, o seu emprego, o seu direito à saúde, numa palavra, o seu privilégio(zinho). Nestas novas circunstâncias, nunca mais são capazes de Levantamento Insurreccional Maiêutico. Só de levantamentos reaccionários, burocráticos, previsíveis, inclusive, realizados sob licença do Poder Político de turno. E, para se consolarem das suas reiteradas frustrações, frequentam ciclicamente os templos dos sacerdotes e outros templos, agora já seculares, que a trindade dos Poderes que domina e dirige o Mundo cria para eles. Aí celebram ritualmente - estúpida e demencialmente (também esterilmente) o Acontecimento Histórico que os seus remotos antepassados protagonizaram e que lhes abriu o Mar da Liberdade e da Maioridade, da Autonomia e da Autogestão que, pelos vistos, hoje, quase ninguém quer!

 

12 Inopinadamente, porém, pelo ano 28 desta nossa era comum, entre os descendentes destes Escravos Insurrectos que haviam conseguido fugir e libertar-se do Egipto dos faraós, Aconteceu Jesus, nascido uns trinta e poucos anos antes, em Nazaré, filho de mãe solteira, em consequência da violação de um soldado romano que na altura integrava os exércitos do Império que ocupava militarmente aquele pequeno país, fundado pelos Ex-escravos que se haviam libertado e que, na imediata geração seguinte, deixou de viver em Deserto, depois de ter conquistado e ocupado pela violência armada aquele mesmo território. Por esse ano, Jesus inicia, abruptamente, numa região do país transformado então em colónia do Império romano, um Movimento Maiêutico que pretendia levar ao seu termo na História e até para lá dela, o Levantamento Insurreccional dos seus antepassados, esse mesmo Levantamento que o sacerdote Aarão e os seus descendentes sacerdotes haviam domesticado e mantido domesticado até então. Todo o povo entrou em alvoroço e se interrogava quem seria aquele camponês-carpinteiro. Quando souberam das suas origens, desdenharam dele. Mas o Movimento Maiêutico que ele protagonizava no seu ser-viver, mediante Práticas Humanas Maiêuticas e cheias de Afecto e de Paz Desarmada Insurreccional, nunca antes vistas, ou já de todo esquecidas, e também mediante lúcidos Duelos Teológicos Desarmados contra o Sacerdócio institucional no Templo de Jerusalém e contra o Ídolo que os sacerdotes, aos milhares, cultuavam e que o Império romano secundava, prosseguia e cativava cada vez mais aderentes.

 

13 Depressa, os dirigentes dos três Poderes se deram conta do Perigo, da Subversão que este Homem Desarmado e Maiêutico constituía, assim como o Movimento que ele protagonizava e que estava a mobilizar cada vez mais pessoas, ainda que a maior parte das que aderiam a ele, o tivessem feito de forma equivocada e, quando vieram a entender bem a radicalidade do que Jesus pretendia, logo o abandonaram, outros traíram-no e outros até o negaram por completo. Decidiram então, uns dois anos e meio depois, precisamente, em Abril do ano 30 desta nossa era comum, prendê-lo, acusá-lo do pior, julgá-lo e matá-lo na Cruz do Império romano. Precisamente, quando decorria a Páscoa ritualizada dos Judeus (ex-Hebreus). E nem esse facto fez adiar este Hediondo Crime, o mais Hediondo da Humanidade, de ontem, de hoje e de amanhã. Crucificaram-no e atiraram o seu cadáver à vala comum. Até hoje. Para que nunca mais ninguém pronunciasse sequer o seu nome. E para que o seu ser-viver Maiêutico, bem como o Movimento Maiêutico que ele havia desencadeado na História, a partir daquele pequeno país militarmente ocupado pelo Império romano, nunca mais fossem conhecidos, estudados, muito menos prosseguidos por alguém, no futuro.

 

14 Foi então que Aconteceu o Inesperado. E o que foi? Algumas mulheres, alguns homens judeus, sobretudo os nascidos no estrangeiro, deram-se conta - nunca saberemos bem como, provavelmente, nem elas, eles - que, afinal, para lá do Deus dos sacerdotes do Templo de Jerusalém e do Império romano, havia Outro, o Totalmente Outro, que nem sequer gosta de sacerdotes, nem de impérios, nem de Religião, nem de templos. E a este Deus Outro, com entranhas de Humanidade, só O haviam conhecido /experimentado em Jesus, aquele que mataram na Cruz do Império como o maldito dos malditos. Viam, não com os olhos da cara, mas com os de dentro, da sua Consciência, que este Deus Outro acabara de reconhecer Jesus Crucificado como o seu Filho muito amado e o que Ele mais pretende é que todos os seres humanos cheguem a ser outros Jesus, em cada geração. Concluíram, então, a seguir, que o Deus dos sacerdotes e do Templo e do Império era um Deus-Ídolo mentiroso e assassino e que os sacerdotes que o serviam, mai-los que serviam o Império eram tão mentirosos e tão assassinos quanto ele. E CONVERTERAM-SE, isto é, MUDARAM DE DEUS: Passaram (eis a única PÁSCOA = PASSAGEM que mudará /transformará a História e fará dos povos do mundo Povos constituídos em Liberdade e em Maioridade, em Autonomia e em Autogestão!) do Deus-Ìdolo do Templo e do Império (e, hoje, também, e sobretudo, do Poder-Económico Financeiro Global) para Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, o Abbá de Jesus e de todos os povos em radical igualdade.

 

15 A partir do momento em que os seus olhos da Consciência se abriram, nunca mais ninguém teve mão naquele punhado de Mulheres, Homens Maiêuticos. Os sacerdotes do Templo e os dirigentes do Império, hoje, sobretudo Financeiro, sempre fazem tudo para prender o Sopro /Espírito Maiêutico, o de Jesus, que habita e guia Mulheres, Homens assim, mas é tudo em vão. Porque jamais saberão de onde Ele vem e para onde Ele vai. A única coisa que conseguem é denegrir até para lá do limite e perseguir até à Cruz, hoje bem mais refinada, as Mulheres, os Homens que se lhe abrem e vivem em Deserto, animadas, animados, conduzidas, conduzidos por Ele, aliás, mais Ela, do que Ele. Porque ao Sopro /Espírito Maiêutico de Jesus, nunca eles terão mão nEle. E é Ele quem terá a última palavra na História. Não o Ídolo dos sacerdotes do Templo e do Império, hoje, sobretudo, Financeiro e Global. Alegremo-nos, então, e Cantemos todos os dias, porque todos os dias, a todas as Horas, esta PÁSCOA = PASSAGEM do Sopro /Espírito de Jesus está aí a Acontecer na História.

 

16 Por mais que os sacerdotes do Ídolo se danem e promovam estéreis e assassinas páscoas de calendário e páscoas ritualizadas nos templos, é apenas esta PÁSCOA DE JESUS, actualizada nas Mulheres, nos Homens que, em cada geração, fazem sua a mesma Fé de Jesus e, consequentemente, fazem também suas as mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus e fazem seus os mesmos Duelos Teológicos Desarmados de Jesus contra o Ídolo dos sacerdotes e do Império, a única PÁSCOA que vale e transforma o Mundo. Discretamente. Como o fermento na massa. Como o grão de mostarda que é lançado à terra. Como o Farol colocado em lugar alto à beira-mar. Como um menino, uma menina. Bendita, pois, aquela Mulher, Bendito aquele Homem que, na sua Fragilidade Humana Desarmada, sabiamente, acolher este Evangelho de Deus Criador, nosso Abbá e de Jesus. E nunca mais quiser saber para nada do Deus-Ídolo do Templo e dos sacerdotes clérigos, nem do Deus-Ídolo do Poder Político com os seus Exércitos de mercenários, nem do Deus-Ídolo do Poder Financeiro, hoje Financeiro Global. Quem de Vocês quer vir daí?!

 

29 Março 2010

Conforme já anunciei, há uma semana, hoje, também não há Capítulo do Livro da Sabedoria. Fica, para compensar, esta singela quadra teológica, do MEU LIVRO DE QUADRAS, ainda por editar, precisamente, a quadra referente a este dia e mês:

 

Só quem conseguir chegar

À plena Maturidade

Pode casar-sem-papéis

No Amor-Fidelidade

 

O meu abraço. E até para a semana.

 

 

ESCLARECIMENTO

Esta segunda-feira, 22 Março 2010, e na próxima segunda-feira, 29, não haverá Capítulo do LIVRO DA SABEDORIA. Estarei especialmente ocupado com o JORNAL FRATERNIZAR. Hoje, 22, é a sua entrega na Gráfica, e no dia 29, é a sua entrega nos CTTs. Aproveito a "folga" e darei andamento a outros projectos que tenho em mãos e em mente.

Para compensar esta falta, PARTILHO com Vocês, em cada um destes dois dias, uma QUADRA, do meu Livrinho de Quadras, ainda inédito. Precisamente as quadras, referentes a estes dois dias, que, depois, encontrarão no Livrinho, quando ele for editado. Eis a do dia de hoje (para ser cantada com a Música de Coimbra, "Dizem que amor de estudante"):

 

Já está aí o Novo Império

o mais cruel e cretino

o do senhor deus-Dinheiro

um sedutor assassino

 

O meu abraço. E até para a semana

 

Capítulo 44

 

1 Para a Sabedoria, nos antípodas do Saber, os sacerdotes sempre foram e são, ainda hoje, os seres humanos mais nocivos da Sociedade. Basta serem os mais credenciados mercenários da Alienação humana. Eles existem apenas para desviar os seres humanos da via ou Caminho da Sabedoria, que é a da Liberdade e da Maioridade Humanas. Ao reivindicarem para eles, e em exclusivo, o papel de intermediários entre os seres humanos e Deus, os sacerdotes constituem-se no maior obstáculo dentro da História e na Sociedade ao pleno desenvolvimento dos seres humanos. Para os sacerdotes, é preciso que os seres humanos e os povos permaneçam, geração após geração, no Medo, no Infantil, nunca alcancem a sua plena Autonomia. A Autonomia dos seres humanos e dos povos é o fim dos Sacerdotes. E isso os Sacerdotes jamais podem aceitar. Têm-se a si mesmos (uns breves momentos de conversa com algum deles bastarão para percebermos que eles se vêem a si mesmos, assim) como seres humanos "à parte" dos demais, destinados a fazerem a "ponte" (intermediários) entre os demais seres humanos e Deus. Sem eles e sem os ritos a que presidem em dia, hora e local marcados, sempre os mesmos, nem Deus comunicaria com os demais seres humanos, nem os seres humanos comunicariam com Deus!!!

 

2 Sei que chocarei muito boa gente, mas não posso deixar de dizer que os Sacerdotes não vêm do Sopro /Vento /Espírito de Deus-Abbá, Criador de filhas, filhos em estado de Maioridade e de Liberdade. São uma invenção do Ídolo Poder, Religião, Dinheiro e do seu sopro /vento /espírito descriador do Humano. Cabe-lhes o histórico e triste papel de ajudarem a manter, por toda a vida, os seres humanos e os povos no Medo, no Infantil, na Menoridade, na Dependência, numa palavra, na Idolatria, a do Poder, a da Religião e a do Dinheiro. Um papel que eles cumprem, quase sempre com zelo e dedicação inexcedíveis. Para seu mal. E para mal da Humanidade. Mas para gáudio e satisfação dos do Poder Político e dos do Poder Financeiro. Estes podem dizer-se ateus ou agnósticos, mas, quando se trata de apoiar os sacerdotes, os seus cultos, os seus santuários, os seus projectos, as suas construções, é vê-los a chegarem-se à frente e a aparecer a dar a cara por eles, perante as câmaras de tv. Tamanhas cumplicidade e promiscuidade deveriam abrir os olhos às populações e aos povos, mas a verdade é que nem elas nem eles querem ser populações e povos de olhos abertos e em estado de Autonomia. Sempre preferem viver no Medo, na Rotina, no Infantil, no Rebanho, no Subsídio.

 

3 Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana, por obra e graça do Sopro /Vento /Espírito Santo (entenda-se o Sopro /Vento /Espírito totalmente outro, que, quando PASSA e se faz sentir na História, sempre deixa desconcertados os sacerdotes e os seus outros dois parceiros, os do Poder Político e os do Poder Financeiro) nunca foi sacerdote, nunca escolheu sacerdotes (que já os havia aos montes no seu tempo e país) para andarem com ele e tão pouco constituiu ninguém sacerdote. Essa espécie de funcionários do Religioso /Ídolo, enquanto tais, dava-lhe vómitos. O ar de superioridade moral que eles exibiam /exibem, perante os demais, inclusive, perante o próprio Jesus, deixava Jesus em grande sofrimento interior. Eram seres humanos totalmente caídos /perdidos na Idolatria, funcionários a tempo completo do Ídolo, por isso, os mais desgraçados e os perigosos dos seres humanos. Tanto mais, quanto as populações e os povos tinham-nos /têm-nos na conta de os mais sagrados dos seres humanos, uma casta totalmente à parte (é o que significa a palavra "clérigo"), ocupados em exclusivo das "coisas de Deus". Só que, aos olhos de Jesus, o Deus com o qual os sacerdotes se ocupavam /ocupam em exclusivo, era /é o Ídolo que justifica(va) e mantinha /mantém, geração após geração, os seres humanos no mais crasso Medo, na mais crassa Opressão, no mais crasso Infantilismo, na mais crassa Idolatria.

 

4 Tornou-se claro para Jesus que, enquanto houver sacerdotes, os seres humanos e os povos jamais chegarão à Liberdade e à Maioridade. À Autonomia. Lá, onde os sacerdotes estiverem activos, nunca trabalharão maieuticamente para "puxar" os seres humanos para a Liberdade e para a Maioridade, para a Autonomia, bem pelo contrário, tudo o que fazem, dizem e dão de exemplo sempre vai na direcção oposta à da Liberdade, Maioridade e Autonomia. Para os sacerdotes, está, primeiro, o seu Deus-Ídolo e o culto que tem de lhe ser prestado, naquele dia certo, naquela hora certa e naquele local certo, habitualmente, os mesmos, durante cada ano. Os seres humanos, também estão nas suas preocupações, mas apenas para correrem a integrar-se, rotineiramente que seja, nesses cultos, nos quais sempre entram mudos e saem calados. E, se Jesus, por princípio, não hostilizou os sacerdotes (apenas na última semana que passou em Jerusalém, o conflito dele com eles foi total, o duelo teológico desarmado foi levado ao extremo, depois que Jesus destruiu simbolicamente o Templo e derrubou as mesas em que os sacerdotes vendiam as pombas para os sacrifícios a serem oferecidos no Templo, até pelos próprios pobres, viúvas pobres que fossem), fez muito pior do que isso: virou-lhes ostensivamente as costas, desde o início da sua Missão, na Galileia. Neste particular, apenas deu continuidade ao que já João Baptista, de quem Jesus começou por ser discípulo, embora depois se afastasse dele, quando percebeu que a Revolução Teológica a fazer na História teria de ir muito mais à raiz do Sistema idolátrico que informa /formata a nossa Sociedade.

 

5 Nunca poderemos esquecer - e este facto histórico é gritantemente eloquente! - que foram os sacerdotes, encabeçados pelos sumos-sacerdotes Anás e Caifás, quem deliberou que Jesus tinha de ser morto e com o género de morte que o tirasse, e à sua memória, para sempre da História e da própria memória dos povos. O que conseguiram facilmente, quando atraíram a eles e à sua decisão assassina, o representante do Império Romano em Jerusalém, o procurador Pôncio Pilatos. A Morte na Cruz do Império atirou com Jesus para fora da História e até da memória dos povos. Até hoje. O que os povos ainda hoje conhecem não é Jesus, apenas uma caricatura dele, denominado Cristo ou "Jesus Cristo" que os sacerdotes e pastores das Igrejas ditas cristãs (não jesuânicas!), manipulam a seu bel-prazer, numa operação que é o que há de mais Hediondo e de mais Inumano. Vejam só! Aquele que, historicamente, trabalhou até ao sangue para abrir os olhos da mente às populações e aos povos, mediante Práticas Políticas Maiêuticas e Duelos Teológicos Desarmados que lhe valeram a Morte Crucificada, é hoje um mítico Cristo milagreiro que os sacerdotes, aos quais ele ostensivamente virou as costas, manipulam e utilizam para fechar ainda mais os olhos da mente às populações e aos povos. Esta é, obviamente, uma prática que perfaz um Crime de lesa-Humanidade, sem perdão! E só por isso é que conta com o público apoio dos do Poder Político e dos do Poder Financeiro, também eles mentirosos e assassinos, e interessados em que as populações e os povos sejam de olhos da mente fechados, por toda a vida, e em estado de Menoridade.

 

6 Há no Evangelho de Lucas (o único que se "faz" em dois volumes!), uma parábola que deveria ser afixada em letras graúdas em todas as fachadas dos templos das Religiões e das Igrejas convertidas em religiões. Os sacerdotes das Igrejas, e os pastores que fazem o mesmo que os sacerdotes, ainda que a designação seja diferente, gostam de chamar a essa parábola,  "A Parábola do bom samaritano". Porque querem que as populações centrem a sua atenção no samaritano que fez o que o sacerdote e o levita, antes dele, não fizeram ao "homem que descia de Jerusalém para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto." Porém, para Jesus, o do Evangelho de Lucas, que contou esta parábola, os holofotes são postos sobre "um sacerdote que por coincidência descia por aquele caminho e, ao vê-lo, passou ao largo". E sobre "um levita que, do mesmo modo, passou adiante". É este hediondo comportamento institucional do sacerdote e do levita que Jesus quis denunciar perante as populações, para que elas abrissem os seus olhos da mente e ostensivamente virassem as costas a esta espécie de seres humanos que vivem exclusivamente ao serviço do Ídolo Religião e, fora dali, não querem saber dos seres humanos para nada.

 

7 Para Jesus, este é o Escândalo dos escândalos que urge desmascarar. Todo o "sagrado", todo o "religioso", todo o "sacerdócio" e todo o "sacerdote" têm a ver exclusivamente com o serviço do Ídolo e, como tal, devem ser denunciados diante dos Povos do Mundo, como o que há de mais Perverso nos comportamentos humanos. Porque o Ídolo, todo o Ídolo - Poder, Religião e Dinheiro - é sempre para o denunciarmos e combatermos até o derrubarmos de vez das nossas e das vidas de todos os seres humanos; nunca é para o servirmos, muito menos, por meio de uma casta de seres humanos especialmente preparados para esse fim e postos a viver à parte, exclusivamente, dedicados a essa Perversão institucional. Ao ponto de os outros seres humanos, ainda por cima - é o cúmulo da Perversão! - terem de os sustentar e, mais do que isso, terem de os enriquecer, para que eles possam usufruir de um estatuto social que os inclua na minoria dos Privilegiados, todos esses que vivem para manter os povos no Medo, na Opressão, no Infantil, no Subdesenvolvimento humano, no Subsídio.

 

8 Toda a Bíblia é atravessada do princípio ao fim, pelo Mortal Conflito entre os Profetas e os Sacerdotes. Entre uns seres humanos que trabalham maieuticamente para libertar as populações e os povos do Medo (das deusas, dos deuses, os imaginados e que não passam de outras tantas projecções de mentes delirantes, e os históricos, aí bem visíveis, e que constituem, a chamada Trindade dos Poderes) e para as, os fazer maieuticamente crescer em Liberdade, em Maioridade e em Autonomia; e uns outros seres humanos que trabalham para manter as populações e os povos no Medo, no Infantil, na Menoridade, no Subsídio. Os primeiros são os Profetas. Os segundos são os Sacerdotes.  O Conflito é Total e Mortal. Os Profetas acabam quase todos assassinados pelos Sacerdotes ou pelo seu braço secular, os do Poder Político e do Poder Financeiro. E os poucos que não chegam a ser fisicamente assassinados, conhecem um viver feito de perseguição, de calúnias, de mentiras, de exclusão. O próprio Jesus acabou por constituir-se no Paradigma deste Conflito Mortal entre a Profecia e o Sacerdócio. A sua Morte Crucificada na Cruz do Império diz tudo sobre a natureza mentirosa e assassina do Sacerdócio e dos Sacerdotes.

 

9 O mais perverso é que, depois de Jesus ter sido morto, tenha vencido na História, não Jesus e o seu Movimento Político Maiêutico, mas o Sacerdócio e os Sacerdotes. Curiosamente, no Judaísmo que Jesus, Judeu, conheceu e combateu como Idolatria, o Sacerdócio e os Sacerdotes acabaram, quando, pelo ano 70 desta nossa era comum, a cidade de Jerusalém foi invadida pelos exércitos do Império Romano e o seu Templo foi arrasado. Dele, reza a História, não ficou pedra sobre pedra. Até hoje! Os Sacerdotes foram massacrados e nunca mais, até hoje, o Sacerdócio e os Sacerdotes foram restaurados. E não fazem falta nenhuma. Pelo contrário, a sua não-existência representa uma bênção. Os Judeus podem crescer em Liberdade e em Maioridade, em Autonomia humana. E, se mais não crescem, é porque a Lei de Moisés é lida e escutada aos sábados nas Sinagogas, como uma arma ideológica de Medo e de Opressão. O Poder Religioso-Político e o Poder Financeiro não dão tréguas. Trabalham dia e noite para manter os Judeus subjugados. Porque, à Letra da Lei de Moisés, falta o Sopro /Vento /Espírito Maiêutico de Jesus. E sobra o sopro /vento /espírito do Ídolo Religião, Poder e Dinheiro. E este, onde estiver, faz vítimas aos milhões, transforma as populações e os povos em súbditos, vassalos, adoradores do Ídolo e, como ele, mentirosos, corruptos, assassinos. Populações e Povos nos antípodas de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana.

 

10 Veio a ser no Cristianismo - em boa verdade, mais Judeo-cristianismo - que o Sacerdócio e os Sacerdotes vingaram, depois de terem assassinado Jesus na Cruz do Império Romano. Jesus que nunca foi sacerdote, nunca quis nenhum sacerdote com ele, nunca ordenou ninguém sacerdote e sempre viveu de costas voltadas para os sacerdotes do seu tempo, chega a ser proclamado - vejam até onde se chegou em Perversão, em Descaramento e em Mentira! - o nosso único Sumo-Sacerdote!!! A Carta aos Hebreus que o faz, tê-lo-á feito, na altura, certamente, com a melhor das intenções. Inclusive, tem o cuidado de dizer que Jesus é o único Sacerdote e que o é, não segundo a ordem de Aarão - Sacerdócio da Idolatria! - mas segundo a ordem de Melquisedec, onde a História e a Política Praticada são o miolo, não a Religião nem o Templo. Ainda assim, esta postura da Carta aos Hebreus representa uma imperdoável cedência ao Sacerdócio dos cultos do Paganismo e ao Sacerdócio levítico do Judaísmo. Certamente, com esta cedência, pretendiam ganhar "adeptos" entre os Judeus e os pagãos. Mas, todos estes séculos depois, vemos o Mal, a Perversão, a Idolatria que acabou por trazer e justificar.

 

11 Com o imperador Constantino e o Império Romano a fazer do Cristianismo a sua religião oficial, nunca mais os povos souberam de Jesus, nem da sua Revolução Teológica Radical. O Paganismo religioso e os seus deuses e suas deusas apenas tiveram de mudar de nome, para prosseguirem nos mesmos templos e até com os mesmos sacerdotes. E a Cúria Romana, com o rolar dos tempos, acabou no que hoje se vê: com o papa chefe de estado e sumo-sacerdote ou sumo pontífice, ou Sua Santidade, uma mistura de César Augusto do Império Romano e do Sumo-Sacerdote do Templo de Jerusalém. Só que, agora, com Poder urbi et orbi (no Mundo e na cidade de Roma), o Sumo Pontífice ou Ponte entre os Povos e o Ídolo (só pode ser o Ídolo dos ídolos o Deus da Cúria Romana e do Papado, com tantos crimes, qual deles o mais Hediondo, que ela e ele guardam no seu monumental baú!). E o Papado ainda tem o descaramento - como se as Vítimas não estivessem aí a gritar à Terra - de passear pelo Mundo a sua incomensurável vaidade. Só mesmo de Mentirosos e Assassinos compulsivos, cujos crimes, graças ao Ídolo que idolatram, transmutaram em virtudes e em santidade!

 

12 Verdadeiramente, esta é a Hora do Poder da Treva Ilustrada. Mas por isso é também a Hora dos Povos acordarem de vez da Anestesia geral em que têm vivido. A Trindade dos Poderes tem as suas mãos sujas de Sangue, a começar pelo sangue dos Profetas, pelo Sangue de Jesus e pelo sangue de todos os mártires que, na peugada de Jesus, foram firmas da denúncia que fizeram do Ídolo e da Idolatria que os Sacerdotes promovem e apresentam como coisa boa. É a Perversão das perversões que havemos, neste Século XXI, de denunciar como tal e combater com inteligência e Sabedoria. Eu sei que não é fácil, até porque as Igrejas convertidas em outras tantas Religiões, fazem questão de ter Sacerdotes e, consequentemente, de terem cultos de Idolatria. Os Povos são sistematicamente arrastados para o Ídolo Religião, Poder e Dinheiro. As Igrejas traíram Jesus, prolongam, através dos séculos, o mesmo gesto de Judas e de Pedro, o último e o primeiro do Grupo dos Doze, esse mesmo Grupo que veio a revelar-se o Opositor-mor (em linguagem mítica, Satanás!) de Jesus e do seu Projecto Político do Reino /Reinado de Deus Criador de filhas, filhos em estado de Liberdade, Maioridade e Autonomia.

 

13 Regressar a Jesus, é preciso, imperioso e urgente. Desmascarar o mítico Cristo ou Jesus Cristo, também. Com Jesus, não há Sacerdócio nem Sacerdotes. Tão pouco, há Poder Político e Poder Financeiro. Há seres humanos e Povos com o mesmo Sopro /Vento /Espírito de Jesus dentro deles, mais íntimo a eles do que eles próprios. Na minha condição de presbítero da Igreja do Porto, nasci e vim ao Mundo para dar testemunho da Verdade, contra esta Mentira /Idolatria Institucionalizada. O Ídolo Religião, Poder, Dinheiro é omnipotente, omnisciente e omnipresente. Eu, na peugada de Jesus, sou assim como um menino. E ainda Desarmado. Mas é nesta minha Fragilidade Humana que não deixo de anunciar a Boa Notícia que é Jesus, o Crucificado pelo Ídolo. Vou pelo Crucificado. Não vou pelo Crucificador. Quem pode dizer que fiz má opção? Não são os Crucificados /as Vítimas da História que nos trazem a Salvação, isto é, a Humanização plena e integral dos seres humanos e do Planeta? Da parte do Ídolo e da sua Trindade de Poderes pode vir alguma coisa boa, no que respeita a plenitude Humana? Não vem só Mentira e Homicídio? Sabedoria é preciso. Saber ao serviço do Ídolo não é preciso!

 

Nota: Devido a avaria externa, tenho estado sem internet e sem tlf fixo. Desde o passado 12 de Março. A avaria prossegue, hoje, dia 15. Para partilhar este Capítulo, tive de recorrer aos serviços de outro servidor. Mas como este tipo de avarias tão prolongado é arreliador!... Será que amanhã já regresso à normalidade?!

 

Capítulo 43

 

1 Perante todo o tipo de catástrofes, sismos, tsunamis, terramotos de grandes proporções, os seres humanos do Saber (Saber é Poder, é um "mais" que vem de fora do Humano e se acrescenta ao Humano que somos e nos exalta /engrandece de modo artificial, por isso, mentiroso /assassino!), entre os quais se contam, logo na primeira linha, os crentes religiosos e os ateus (pensam, uns e outros, que são os que mais sabem, porque, para além do Saber que bancariamente recebem /acumulam nas instituições oficiais do dito, nomeadamente, nas catequeses paroquiais /escolas /universidades /instituições de todo o tipo de Saber, ainda acham que têm acesso a um Saber especial, que o simples facto de serem crentes religiosos ou ateus, pelos vistos, lhes dará em exclusivo!) só vêem desgraça, destruição e mortes, de imediato contabilizadas em números de vítimas e de milhões ou milhares de milhões de euros /dólares de prejuízo, e que, de todas as vezes que ocorrem,  os deixam mais e mais perplexos, mais e mais inseguros, mais e mais cozidos nos seus ancestrais Medos, dos quais nunca se libertaram e só por isso é que continuam a ser-dizer-se crentes religiosos ou ateus, só que mais e mais sem chão debaixo dos seus pés.

 

2 Ao contrário, os seres humanos da Sabedoria (Sabedoria é Fragilidade Humana, sem quaisquer espécies de acréscimos /armaduras estranhos ao Humano, acrescentados, com o passar dos dias e dos anos, de fora para dentro), nessas mesmas catástrofes, nesses mesmos sismos, tsunamis e terramotos, sempre vêem /escutam /experimentam, em profundidade, a misteriosa Presença de um Sopro /Vento /Espírito de vida, ainda e sempre em expansão no Universo. De modo que, em lugar de, em momentos desses, correrem a penitenciar-se e a rezar, ou correrem a escandalizar-se e a blasfemar, como fazem os do Saber, nomeadamente, os crentes religiosos e os ateus, experimentam-se de imediato habitados pelo mais fecundo dos Silêncios que os faz particularmente atentos e acolhedores e, por isso, crescer ainda mais em Humano e em intervenção Política Maiêutica na História. Idolatria, é, pois, a estafada e estéril postura dos do Saber. Fé Jesuânica /Política, é, pois, a fecunda postura, com sabor a Boa Notícia, dos da Sabedoria.

 

3 Para os da Sabedoria, tudo é Graça e Beleza, Interpelação e Desafio, Vida Entregue e Poema. Até os acontecimentos que os do Saber, juntamente com os do Poder e do Ter (são geralmente os mesmos e, todos juntos, têm este Mundo das Máfias nas suas mãos, o qual, por sua vez, tem neles os seus agentes maiores, aos quais enche de bens e de privilégios sem conta e com isso progressivamente os corrompe e torna irremediavelmente Inumanos) rotulam /classificam invariavelmente como catástrofes, sismos, tsunamis, terramotos de grandes proporções, e nada mais. Pelo contrário, para os da Sabedoria, nem mesmo a Dor e o Sofrimento dos inocentes, por maiores e absurdos que objectivamente sejam e por mais intoleráveis que sejam (e são-no sempre, absurdos e intoleráveis, e muito mais do que dizem os do Saber, crentes religiosos e ateus, indistintamente), conseguem alguma vez sobrepor-se à Graça e à Beleza, à Interpelação e ao Desafio, à Vida Entregue e ao Poema que até mesmo esses trágicos e dramáticos Acontecimentos trazem sempre com eles, graças à misteriosa Presença do Sopro /Vento /Espírito de vida em expansão que os atravessa. Enquanto os do Saber, entre os quais se incluem, na primeira linha, os crentes religiosos /chefes de Religiões e de Igrejas e os ateus de todo o tipo, todos literalmente cegos, surdos e fechados à misteriosa Presença do Sopro /Vento /Espírito de vida em expansão, só vêem desgraça, destruição e mortes, nesses Acontecimentos, já os da Sabedoria, pelo contrário, vêem neles também e, sobretudo, Graça e Beleza, Interpelação e Desafio, Vida Entregue e Poema.

 

4 Infelizmente, continuam ainda hoje a ser os do Saber, crentes religiosos ou ateus, indistintamente (e por quantas gerações mais irão continuar?!), os que, neste Século XXI, ajudam, com o seu Saber demencial, a manter ininterruptamente activo o Mundo das Máfias, as quais, na sua cegueira, surdez e egoísmo, estão aí apostadas /determinadas a descriar de vez os seres humanos e os povos, num ritmo cada vez mais alucinante, e a arrastar o Planeta Terra para a sua própria Implosão. Deles, dos do Saber, nada há a esperar de bom. Tudo o que pensam /projectam /fazem tem como objectivo último Descriar os seres humanos e os povos e arrastar o Planeta Terra para sua própria Implosão. A esperança dos seres humanos e dos Povos, bem com do Planeta Terra, reside, então, nos da Sabedoria, todos eles, felizmente, sem qualquer lugar reconhecido neste Mundo das Máfias. Aliás, se, alguma vez, os da Sabedoria vierem a ter um lugar reconhecido neste Mundo das Máfias, isso será sinal, inequívoco sinal, de que deixaram de ser da Sabedoria e se passaram, de armas e bagagens, para os do Saber, ao serviço do Mundo das Máfias.

 

5 Os da Sabedoria, sempre poucos em número, clandestinos por norma e, praticamente, invisíveis como o fermento na massa ou como o sal na comida, vivem /actuam /pensam de preferência com os pés assentes nas periferias e nos porões da pirâmide social, entre os Ninguém, aos quais fazem questão de permanecerem organicamente ligados. É por isso que até as próprias catástrofes e toda a espécie de sismos, tsunamis e terramotos, quando acontecem, numa determinada zona habitada do Planeta, deixam-nos, também eles, aos da Sabedoria, esmagados sob os mesmos escombros, juntamente, com todas as outras vítimas, só que como outros tantos grãos de trigo opcionalmente lançados à terra, sob a qual morrem, para darem muito, muito fruto de vida humana em estado de liberdade e de maioridade. Na sua Fragilidade Humana e na sua Invisibilidade /Clandestinidade, eles, os da Sabedoria, são um Sacramento vivo da misteriosa Presença do Sopro /Vento /Espírito que ininterruptamente ATRAVESSA a História e penetra conspirativamente até ao âmago o Mundo das Máfias, sem que os do Saber alguma vez saibam como, nem quando. Quando estes se dão conta, já o Sopro /Vento /Espírito PASSOU e derrubou o que havia a derrubar, e deixou em estado de choque os do Saber ao serviço do Ídolo e da Idolatria, com que o Mundo das Máfias sempre se tem mantido activo e temido.

 

6 Porém, com o suceder em cadeia de novas catástrofes, novos sismos, tsunamis e terramotos de grandes proporções, os do Saber experimentam-se cada vez mais inseguros, com o chão a fugir-lhes debaixo dos pés. Até os seus grandes meios de comunicação social não falam de outra coisa, durante dias e dias. E, apesar de toda a sua arrogância e de todo o seu cinismo, lá estão, cada vez mais visíveis à vista desarmada, os pés de barro sobre os quais todo o Mundo das Máfias assenta. Ao contrário do que parece, ele não está edificado sobre a rocha. Está edificado sobre a areia. E areia movediça. Tudo, pois, não passa de Encenação, Ideologia-Idolatria, por isso, Mentira. Os Povos da Terra têm sido sistematicamente arrastados para esta Encenação /Ideologia-Idolatria /Mentira. Chegam, até, a fazer sua a Ideologia-Idolatria do Mundo das Máfias. Adoptam, como deles próprios, o Ídolo do Mundo das Máfias. São permeáveis à sua pérfida Propaganda e acabam (quase) sempre a tomar por Notícia o que é pérfida Propaganda, por Verdade o que é pérfida Mentira, por Deus o que é pérfido Ídolo. Decisivo em todo este processo de Enganar /Mentir /Alienar os Povos do Planeta Terra, tem sido e continua a ser o papel histórico dos do Saber, os chamados Sabedores /doutores dos vários ramos do Saber. Desistissem estes do Saber e dos Privilégios que o Saber sempre lhes garante, por toda a vida, de forma mais que Obscena, e o Mundo das Máfias cairia quase da noite para o dia, como um grande palácio ou um grande santuário edificados sobre a areia movediça, num momento de um terramoto de grandes proporções.

 

7 Até esta altura, a História não regista nenhum momento em que os do Saber - e são tantas, tantos! - tenham desistido, em bloco, do Saber e dos privilégios que o Mundo das Máfias obscenamente lhes garante por toda a vida. Nem se vislumbra que semelhante tsunami social esteja para breve. Mas as sucessivas catástrofes, juntamente com os sucessivos sismos, tsunamis e terramotos de grandes proporções estão a deixar os do Saber, crentes religiosos ou ateus, indistintamente, cada vez mais inseguros. O chão que, outrora, se apresentava seguro sob os seus pés, hoje treme que se farta e eles não sabem mais como travar o que inopinadamente está a suceder. E, juntamente com eles, treme também Mundo das Máfias. De modo que, por este andar, nem as suas pesadas e inacessíveis fortalezas oferecem mais garantia de segurança. Basta que gigantescas ondas e imprevisíveis tsunamis atravessem as cidades e não deixarão mais pedra sobre pedra. Nem sequer dos palácios dos agentes maiores do Mundo das Máfias, nem das universidades, nem das catedrais, nem dos bancos, nem dos quartéis. Os do Saber olham-se, por isso, perplexos, todos cheios de Medo, aquele ancestral Medo que nunca chegou a ser expulso das suas mentes e dos seus corpos e os levou, demencialmente, a escolher ser e fazer-se mulheres, homens do Saber, ao incondicional serviço do sinistro Mundo das Máfias e do seu Ídolo, em vez de mulheres, homens da Sabedoria, em duelo ideológico /teológico desarmado contra o sinistro Mundo das Máfias e o seu Ídolo.

 

8 E como não têm nada para dizer que mereça a pena ser dito (são seres humanos do Saber, não da Sabedoria e, por isso, são cegos, surdos, mudos, paralíticos, mortos, no que diz respeito à Fecundidade, à Liberdade, à Maioridade, à Maiêutica, numa palavra, ao Humano pleno e integral), até os seus grandes meios de comunicação de massas ou mass media, como eles gostam de dizer para mais e melhor impressionarem os Povos aos quais sistematicamente enganam, mentem, dão /vendem gato por lebre, propaganda por notícias, Ideologia por ideias, Idolatria /Mentira por Maiêutica, Ídolo por Deus Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, então passam horas, dias e semanas a repetir até à náusea as mesmas imagens, as mesmas reportagens, as mesmas opiniões, as mesmas missas ritualizadas, os mesmos congressos, as mesmas entrevistas, as mesmas notícias, as mesmas novelas, a mesma pornografia, as mesmas mediocridades, numa palavra, a mesma Mentira. Dentro do Mundo das Máfias, os do Saber jamais conseguem ver /ouvir /reconhecer /acolher a Realidade mais real. Porque essa sempre escapa /escapará aos do Saber. E só se deixa ver /ouvir /reconhecer /acolher pelos da Sabedoria, despojados que vivem do Saber /Poder /Ter Acumulado e Concentrado, numa palavra, despojados que vivem, por toda a vida, dos obscenos privilégios que o Mundo das Máfias garante aos que o servem /idolatram, crentes religiosos ou ateus, sacerdotes /clérigos /teólogos /filósofos /sabedores, doutores, líderes do Poder Político, sempre numa grande Encenação, hoje Global, que leva os povos do Planeta a pensar que esse mesmo Mundo das Máfias é verdadeiramente a Realidade mais real, quando é apenas o Mundo das Máfias, a Idolatria /Mentira total, o Ídolo total, intrinsecamente, assassino, genocida, ecocida.

 

9 Temos, assim, de um lado, os do Saber (Saber é Poder, por isso, sempre obsceno Privilégio, já que, por cada Privilégio concedido aos do Saber /Poder /Ter, e aceite pelos do Saber /Poder /Ter, há fatalmente, em simultâneo, um elevado número de vítimas humanas e até do próprio Planeta!); e, do outro lado, temos os da Sabedoria (Sabedoria é Fragilidade Humana em estado de Liberdade e de Maioridade a viver organicamente com as vítimas à intempérie e na Trincheira). Os do Saber, actualmente, muitos milhões em todo o Planeta, viabilizam, com o seu Saber, o Mundo das Máfias, já que lhe dão credibilidade intelectual e moral (é determinante, aqui, o papel dos crentes religiosos, clérigos ou leigos, filósofos e teólogos, dentro do Mundo das Máfias e financiados /reconhecidos por ele), perante os quase seis mil milhões de vítimas humanas em todo o Planeta, quando, afinal, o Mundo das Máfias não passa do Mundo das Máfias, entenda-se, é a própria Mentira e o próprio Assassínio institucionalizados e organizados. E, hoje, para cúmulo do Obsceno e do Absurdo, organizado, de modo cada vez mais científico, o que o torna ainda mais Perverso.

 

10 Já os da Sabedoria, sob a forma de pequeno resto, praticamente invisível e infinitamente pequeno, como um átomo, são sobretudo Sopro /Vento /Espírito Maiêutico, em sintonia e em prosseguimento do Sopro /Vento /Espírito Maiêutico de Jesus, o que o Império crucificou na Cruz que inventou para executar nela todos os seus opositores. Vivem, obviamente, no mesmo Planeta, porventura, até em território oficialmente sob o domínio do Mundo das Máfias, mas não lhe pertencem. A sua simples existência, mesmo em silêncio e aparentemente inactiva, é constante ameaça ao Mundo das Máfias. E, se forem daqueles seres humanos que, como Jesus, não têm onde reclinar a cabeça, tamanha é a sua mobilidade clandestina entre as vítimas do Mundo das Máfias, então este tem razões de sobra para se preocupar. E, por isso, os povos do Planeta não estranhem, se ele, de repente, passar à acção directa, concretamente, passar a maltratar /caluniar /denegrir e até a matar alguns desses seres humanos da Sabedoria, mulheres e homens.

 

11 Enquanto a força destruidora e assassina do Mundo das Máfias reside no grande número, nas grandes cifras (ele tem exércitos de operacionais seus, todos os do Saber,  em tudo quanto é sítio, em tudo quanto é Institucional, nos Meios de Comunicação Social, no Mundo Editorial, nas áreas da Justiça, das Leis, do Poder Político, do Poder Financeiro, nas Escolas, nas Universidades, nas Paróquias, nos santuários, Bancos, Quartéis, Tribunais, Governos, Parlamentos), já a força fecundamente Maiêutica da Sabedoria reside no infinitamente pequeno que, como o átomo, ao explodir, destrói tudo em seu redor num raio de muitos quilómetros. Só que, na Sabedoria, a força é Maiêutica, é Criadora de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade. Não é como a do átomo usado na bomba atómica, de resto, invenção /criação do Saber, não da Sabedoria. A força da Sabedoria é a força do infinitamente pequeno, mas como a do espermatozóide humano que, em dado momento, já dentro do útero da mulher, corre disparado (que Sopro /Vento /Espírito Criador e fecundo, misteriosamente o habita e o faz correr, sem ter onde reclinar a cabeça?!) em direcção ao óvulo, também ele, pronto e totalmente disponível para ser fecundado. E do amoroso encontro entre ambos acontece uma Explosão, que ninguém dá por ela, nem sequer a mulher em cujo útero tudo acaba de acontecer, uma Explosão, também ela, infinitamente pequena, como a do Big-Bang que, segundo a Ciência, estará na origem do nosso Universo, ainda hoje em expansão, depois de já decorridos mais de 13 mil e 700 milhões de anos!

 

12 O Mundo das Máfias,  apesar do enorme exército dos do Saber que o servem, a troco de Privilégios que são sempre Obscenos e descriadores do Humano nos seres humanos que aceitam ir por aí, está ferido de morte, desde o princípio. A sedução a irmos por ele é forte, hábil e insinuante, mas é preciso resistir-lhe por toda a vida e, para isso, nada melhor do que, desde o despertar em nós da consciência crítica, abrirmo-nos de imediato à Sabedoria e tornarmo-nos por toda a vida do pequeno número dos da Sabedoria, na mesma peugada de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana, feita Práticas Políticas Maiêuticas e Duelos Teológicos Desarmados contra o Ídolo, contra os do Saber que estão aí, obscenamente, ao serviço do Mundo das Máfias, ao qual se vendem todos os dias por um prato de lentilhas, ou por montes de privilégios, nomeadamente, se calha dele te escolher a ti para lugares de topo, estilo sumo-sacerdote, sumo pontífice, chefe de estado, primeiro-ministro do governo de uma grande potência, presidente da administração do império de turno, cardeal de uma diocese coisa nenhuma, onde tu funcionas como uma espécie de manequim com todos aqueles vermelhos que dão ao que os veste um ar de vendido e de prostituto, daquele tipo de prostituição que mais suja o que a pratica, e que consiste em manter relações institucionais com o Ídolo que se faz passar por Deus verdadeiro.

 

13 Com o avolumar de catástrofes, sismos, tsunamis e terramotos de grandes proporções, nem os do Saber /Poder /Ter estão hoje em segurança. O Medo anda estampado nos seus rostos. Parecem bichos a fugir em pânico à frente de um touro enfurecido /enraivecido, ou de uma multidão de famintos que, inopinadamente, se levanta como um tsunami social, no decurso de uma visita oficial que o chefe de estado de um país está a fazer fora da capital, ou ao estrangeiro. Nem os seguranças destacados para o proteger, valem de nada. Ele e eles são derrubados e pisados por aquele tsunami social. Quando a fome planetária abrir os olhos dos quase seis mil milhões de vítimas em todo o Planeta Terra, e eles atirarem ao esterco os subsídios com que o Mundo das Máfias tenta comprar-lhes o silêncio e a apatia e se levantarem como um Exército Desarmado em linha de batalha, o Mundo das Máfias já nem sequer terá tempo de fugir. Num curto espaço de tempo, dele não ficará pedra sobre pedra. Tudo será derrubado.

 

14 Até os do Saber, que sobreviverem a este tsunami social à escala planetária (vem, depressa, Tsunami social à escala planetária, vem!), finalmente, já sem o Mundo das Máfias ao qual obscenamente serviram, sem quaisquer escrúpulos, apesar de verem todos os dias o número de vítimas humanas a crescer em proporção geométrica, perguntar-se-ão, sem chegarem a encontrar resposta para essa pergunta: Que Sopro /Vento /Espírito Maiêutico é aquele que faz levantar os quase seis mil milhões de Caídos, Excluídos, Humilhados, Ostracizados, Crucificados do Planeta e os leva a derrubar como um baralho de cartas o Mundo das Máfias que nós, com o nosso Saber posto ao serviço de toda a Mentira e de todo o Assassínio institucionalizados que ele sempre foi, ajudamos a fazer passar, durante séculos e séculos, por o único Mundo possível, o melhor Mundo possível, o Mundo com Deus no topo. Nós, os do Saber, bem sabíamos que era um Ídolo, mas sempre garantimos que era o único Deus verdadeiro. Haverá, então, os que, nesse momento, se disponham sinceramente a mudar de Deus e a passarem do Ídolo para o Deus, nosso Abbá, Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade. Converterão o seu Saber em Sabedoria, o que só se consegue, quando recusamos definitivamente os Privilégios e nos decidimos, por livre opção, a ser-viver pobres por toda a vida e organicamente entre os povos, eles próprios, também opcionalmente pobres por toda a vida.

 

15 Todas, todos Acontecemos um dia, no útero da nossa mãe, por obra e graça do Sopro /Vento /Espírito Criador de filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade humana. Todas, todos somos filhas, filhos deste Sopro /Vento /Espírito, muito mais do que da nossa mãe e do nosso pai. Primeiro, somos filhas, filhos do Sopro /Vento /Espírito Criador. A mãe e o pai vêm depois. São historicamente importantes, sobretudo, se forem capazes de ser como parteiros /parteiras cheios de afecto, presenças maiêuticas que acompanham desinteressadamente o crescimento original de cada filha, cada filho. Quando assim é, cada novo ser que vem a este Mundo cresce em idade, em estatura, em sabedoria e em graça. Tal e qual como Jesus. Nunca crescerá em Saber /Poder /Ter. Todas, todos e cada uma, cada um de nós Acontecemos num princípio, em resultado da Explosão infinitamente pequena entre o Espermatozóide e o Óvulo. Mas o verdadeiramente decisivo nesta Explosão é o Sopro /Vento /Espírito Criador /Maiêutico que, desde o mais íntimo desse Espermatozóide, o animou /levantou /fez correr ao encontro do Óvulo, e, ao mesmo tempo, tornou, também desde o mais íntimo dele, ternamente Acolhedor e Fecundo, o Óvulo da mulher.

 

16 Essa Explosão fez-nos Acontecer /Ser para sempre. E está, toda ela, marcada, não pelo sopro estéril e assassino do Mundo das Máfias, do Ídolo, da Idolatria /Mentira /Assassínio, mas pelo Sopro /Vento /Espírito Criador do Amor, da Fecundidade, da Ternura, da Relação, do Acolhimento que nos faz Dádivas-uns-com-os-outros-e-uns-para-os-outros. Se formos, por toda a vida, outros Jesus, recusaremos, também por toda a vida, passarmo-nos, alguma vez, de armas e bagagens para o Ídolo assassino e mentiroso. Permaneceremos Humanos, simplesmente, até chegarmos a ser plena e integralmente Humanos. Outros Jesus, agora Século XXI adiante. Por mim, não quero outra coisa. E por mais que o Saber /Privilégio e o seu Mundo das Máfias se me apresentem ambos muito enfeitados /sedutores, sempre me passarão ao lado. Porque sempre terão o meu lúcido NÃO TE SERVIREI! Tal e qual como sempre tiverem o mais que lúcido NÃO TE SERVIREI de Jesus, o Ser Humano pleno e integral.

 

Capítulo 42

 

1 Com o acumular de catástrofes, sismos, tsunamis, terramotos, como a catástrofe da Região Autónoma da Madeira que deixou mais de 40 pessoas mortas, muitas centenas de pessoas com as suas casas, construídas a pulso, totalmente destruídas, e muito mais de mil milhões de euros de prejuízos que as avalanches das águas causaram, como se a própria cidade do Funchal fosse uma construção de areia; ou como o sismo do Haití, com centenas de milhares de pessoas mortas e cidades arrasadas; ou, mais recentemente, como o sismo no Chile, com mais de 700 pessoas mortas; ou como o medonho tsunami que em 2004 atingiu a Tailândia num devastador dilúvio que não deixou nada de pé, num raio de vários quilómetros e matou pessoas sem conta; ou como o terramoto de Lisboa, ocorrido no já longínquo ano de 1755, mas ainda tão presente hoje como trauma na consciência das sucessivas gerações de filósofos e dos teólogos da Europa e do Ocidente (foi a grande catástrofe que feriu de morte para sempre a chamada Teodiceia, ou Defesa filosófica de Deus), crentes em Deus e ateus /agnósticos têm mais que razões de sobra para estarem seriamente preocupados, interiormente inseguros e sentirem o chão fugir-lhes de debaixo dos pés. Por maioria de razão, os crentes. É que, afinal, o Deus em que eles crêem não serve para nada. Por mais que os crentes nEle O invoquem, Deus não vem valer-lhes nem salvá-los das catástrofes, dos sismos, dos tsunamis, dos terramotos.

 

2 Se, entretanto e para cúmulo, os crentes sobreviventes das catástrofes, dos sismos, dos tsunamis, dos terramotos, juntamente com os jornalistas de turno, destacados para os locais das tragédias, depois de toda esta destruição e morte, ainda se atrevem a falar em milagre (= intervenção especial de Deus que, neste ou naquele caso, suspende ou contraria a aplicação das chamadas leis da Natureza), só porque, nos escombros e nos destroços, encontram, intacta, uma imagem feita de madeira de nossa senhora da conceição ou o raio que a parta, ou um crucifixo de metal, invenção do Império Romano; ou se os ateus /agnósticos sobreviventes ou meros observadores à distância, cinicamente perguntam aos crentes em Deus, "Afinal onde está Deus na Madeira, no Haití, no Chile, na Tailândia, na Lisboa de 1755, há ainda mais fortes razões para uns e outros - crentes e ateus /agnósticos - estarem de veras preocupados e sentirem o chão fugir-lhes de debaixo dos pés. E porquê? Porque, com todos estes acontecimentos, aparentemente, naturais (desde que os seres humanos acontecemos no Planeta, tragédias deste género e desta dimensão, deixaram de ser naturais, ou são-no cada vez menos!), é mais do que manifesto que o Deus anunciado /acreditado pelos crentes e negado pelos ateus /agnósticos, mais não é do que um Ídolo, o Ídolo por antonomásia. Exactamente o mesmo que, desde o início da Humanidade, sempre se tem feito passar  por Deus verdadeiro e sempre tem sido reconhecido /cultuado como tal.

 

3 É hoje mais do que manifesto (e esta é sem dúvida a maior Boa Notícia que salta de todas estas tragédias e de todas estas destruições sem conta nem medida, uma Boa Notícia muito difícil de acolher e de praticar /viver, depois de milhares e milhares de anos de Idolatria vivida /praticada pelos povos da Terra) que Deus, o destas pessoas que habitualmente se dizem crentes e destas pessoas que habitualmente se dizem ateias /agnósticas, é um Ídolo, o Ídolo por antonomásia. Como tal (é o que quer dizer Ídolo), é a Mentira maior e institucionalizada que, desde o início da Humanidade, sempre se fez passar, e hoje também, por Verdade, a Verdade por antonomásia. E, como Mentira institucionalizada que é, ou como Ídolo que é, tem mantido os povos do Planeta tolhidos, possessos /possuídos de Medo, infantilizados, castrados, domesticados, impedidos de crescerem em Humano, o mesmo é dizer, em Liberdade e em Maioridade. Religiões e Igrejas - o próprio Cristianismo, como, já antes dele, o Judaísmo que imediatamente o precedeu! - bem podem, pois, limpar as mãos à parede, porque mais não têm feito, desde que existem, do que fomentar /alimentar /justificar /propagar a Idolatria entre os Povos de todas as nações, o que perfaz um crime de lesa-Humanidade.

 

4 O mesmo - limpar as mãos à parede - podem e devem fazer os ateísmos todos e os agnosticismos todos, os filosóficos e os pragmáticos, os ilustrados e os mais grosseiros ou cínicos. Porque, também eles, mais não têm feito, com as suas cínicas posturas, do que fomentar /alimentar /justificar /propagar a Idolatria. Religiões e Ateísmos são, como se vê, as duas faces da mesma Idolatria /Mentira. O Deus que anunciam /cultuam /adoram /temem, ou que negam com angústia ou com o mesmo à vontade com tomam ou deixam de tomar um café, não passa de um Ídolo, o Ídolo por antonomásia e institucionalizado, o mesmo é dizer, não passa de uma Mentira, a Mentira por antonomásia e institucionalizada. O dramático para os povos do Planeta é que este Ídolo se tem feito passar, desde o início da Humanidade, por Deus verdadeiro, o único Deus verdadeiro. É, até, este Deus-Ídolo, cultuado ou negado, que está na génese ou origem do Ocidente e da Sociedade mundial em geral, tal como hoje o, a conhecemos, por isso mesmo, um e outra tão crescente e preocupantemente inumanos. O próprio Planeta que nos serve de berço e de casa comum, está também e por tabela tão crescentemente violento /agressivo e tão devastador da vida, que não apenas da vida humana.

 

5 O Planeta Terra está à beira de implodir, tanta e tamanha e tão generalizada é, hoje, a Idolatria /Mentira institucionalizada e tão sofisticados são os meios que ela tem à sua disposição e que utiliza de modo tão obsceno e absurdo, praticamente já no patamar do suicidário! Lá, onde houver o Ídolo, a Idolatria Praticada e Institucionalizada, a fazer-se passar por Deus verdadeiro, não há o Ser Humano enquanto tal e em desenvolvimento pleno e integral, não há Povos, tão pouco, há vida humana. E, a prosseguirmos, assim, na Idolatria institucionalizada, dentro em pouco, nem sequer haverá vida. Lá, onde há o Ídolo (e tanto faz cultuá-lo nos santuários, nos templos paroquiais, nas catedrais, nas basílicas, como negá-lo, e dizer-se céptico em relação á sua existência, o resultado final é sempre o mesmo - a progressiva destruição do Planeta e a progressiva Descriação da vida, em todas as suas vertentes e manifestações), não há vida. Antes de mais, não há vida humana que é o cume da vida, é a vida que se torna consciência de si mesma e, por isso, Liberdade /Autonomia /Maioridade /Capacidade de Decidir /Decisão /Política Praticada /Entrega de si /Dádiva /Criatividade, numa palavra, Poema Vivo! Apenas haverá seres possessos de Medo, subservientes do Ídolo que se faz passar por Deus verdadeiro. Uns, no histórico papel de tiranos, amos, máfias, mercenários, lobos, violadores, corruptos, assassinos, algozes, carrascos, mentirosos compulsivos e institucionais; outros - as maiorias oprimidas, empobrecidas, excluídas, crucificadas, vítimas - no histórico papel de súbditos, lacaios, assistidos, objectos, carne para canhão, eternos pagadores de promessas, as mais obscenas e absurdas! E não é isto que temos hoje, ano dez do Século XXI, em toda a Terra?

 

6 Felizmente, houve um Homem, um Ser Humano, plena e integralmente Humano, que, pela primeira e única vez na História da Humanidade, se deu conta, por meados do ano 28 desta nossa era comum, no pequenino país que era o seu, ao tempo, colónia do Império Romano, militarmente ocupada por ele, de que Deus, o que os crentes adoram /cultuam /invocam nas aflições, ao qual fazem promessas que depois andam a pagar pelo resto da sua vida (?!), e que os ateus negam, quase sempre por entre um viver feito de cinismo e de Privilégio, no antípodas das maiorias crucificadas /assassinadas, é um Ídolo, o Ídolo! É uma Mentira, a Mentira institucionalizada e que está na raiz de todo o Poder, o Religioso, o Político e o Económico-Financeiro. Consequentemente, esse Ser Humano deu-se conta também de que a Religião - toda a Religião, nas múltiplas religiões em que ela subsiste, ou a cómoda e cínica falta dela - é pura Idolatria institucionalizada. Deu-se conta! E resistiu até ao sangue a alinhar nessa via, apesar dela ser oficial e institucionalizada e ser tida por toda a gente, das cúpulas à base, como a Verdade. Ora, se o Deus oficial e institucional era o Ídolo por antonomásia e a Religião oficial e institucional era a Idolatria, nunca este Ser Humano foi por ele nem por ela. Viu-se, por isso, quando adulto, a viver permanentemente em Deserto. Era ele o único que via. E, se o Deus oficial e institucional era o Ídolo, a Mentira institucionalizada que sempre faz oprimidos /escravos /súbditos quem for por ela, então ele, o Ser Humano na sua máxima Fragilidade de Ser Humano pleno e integral, constituía-se, nessa sua resistência activa a Ele e no seu ser-viver alternativo ao ser-viver imposto como norma a todos os povos, como a Verdade que sempre faz livres quem for por ela.

 

7 Ao mesmo tempo, este Ser Humano abriu-se ao Espírito Criador ou Sopro Libertador que já o habitava, desde o primeiro instante da sua concepção, tal como habita, desde o primeiro instante da nossa concepção, todo e qualquer ser humano nascido de mulher (a diferença é que a esmagadora maioria de nós, ao contrário dele, nunca nos damos conta dessa Presença Maiêutica, mais íntima a nós do que nós próprias, nós próprios, e, em vez de alinharmos por ela, até corremos a alinhar pelo sopro ou espírito do Ídolo que nos seduz e tenta de mil e uma maneiras). E porque ele se deu conta e deixou-se guiar /conduzir /fazer por esse Espírito Criador ou Sopro Libertador, acabou por recusar, por todo o seu viver, ser Poder. Nem Poder Religioso-Sacerdotal-Intermediário entre o Ídolo e as pessoas e os povos; nem Poder Político ou Messias-Cristo-Vitorioso; nem Poder Económico-Financeiro. Precisamente, essa trindade dos Poderes que existem, desde o princípio da História da Humanidade, ao incondicional serviço opressor, explorador e assassino do Ídolo, da Mentira institucionalizada, e do seu sistema, a Idolatria, hoje cientificamente organizada. Permaneceu Ser Humano, simplesmente, e por toda a vida, até alcançar a Plenitude do Humano.

 

8 Com esta sua postura - Ser Humano pleno e integral por toda a vida - granjeou de imediato contra ele o Ódio dos demais, concretamente, dos agentes maiores de cada um dos três Poderes do seu pequeno país, com destaque, para os sumos sacerdotes do Templo de Jerusalém que, na altura, eram uma espécie de papa do Século XXI, pois usufruíam do pleno Poder sacerdotal e do pleno Poder Político e do pleno Poder Económico-Financeiro, tal e qual como o papa de Roma, neste nosso Século XXI, usufrui, no geograficamente pequeno Estado do Vaticano que, na prática, é do tamanho do Mundo, aonde ele vai de viagem, sempre que quer e tem infalivelmente à chegada os maiores agentes locais /nacionais dos três Poderes à sua espera, como seus vassalos que são! Só cegos que não queiram ver é que não vêem!. E granjeou também contra ele o Ódio das próprias maiorias oprimidas e empobrecidas que os agentes dos três Poderes ao serviço do Ídolo sempre manipulam e levam, até, a executar e a aplaudir as suas decisões, inclusive, as mais assassinas. O Ódio contra ele tornou-se tão grande, que todos eles o mataram na Cruz do Império, precisamente, em Abril do ano 30.

 

9 Mas até chegar este Momento Histórico, este Ser Humano fez tudo o que pôde e o que não pôde - tanto assim que o Evangelho chega a dizer que ele nem sequer tinha onde reclinar a cabeça, de tanto andar a percorrer o país - para alertar as pessoas e os povos de que todas, todos estavam sob o domínio do Ídolo que se fazia passar por Deus verdadeiro e da Idolatria /Mentira institucionalizada que se fazia passar por Verdade. Ele viu. E porque viu, fez tudo para que as outras pessoas também vissem. Porém, os dirigentes, os dos três Poderes ao serviço do Ídolo, todos criados e legitimados pelo Ídolo, juntamente, com os seus súbditos /adoradores do Deus-Ídolo ou negadores dele, coligaram-se contra este Ser Humano, plena e integralmente Humano, e mataram-no. E com o género de morte que lhe infligiram, a Cruz do Império, conseguiram não só matá-lo, fisicamente, mas conseguiram também bani-lo para sempre da História dos Povos. E a verdade é que Jesus - é este o Homem, o Ser Humano plena e integralmente Humano - ainda hoje continua aí totalmente fora da História, continua a ser o mais desconhecido, o mais ignorado, o mais temido dos seres humanos.

 

10 Ainda hoje, os dirigentes dos três Poderes ao serviço do Ídolo e da Idolatria /Mentira, comportam-se como se Jesus nunca tivesse existido, nem nunca tivesse protagonizado, num curto período de dois anos e meio e no seu pequeno país, a maior Revolução Humano-Teológica da História da Humanidade. E a prova é que, ainda hoje, nenhuma universidade - são todas do Ídolo, a começar pelas católicas e protestantes - estuda o seu ser-viver, as suas práticas fecundamente dissidentes, as suas práticas maiêuticas, o seu Projecto Político, os seus duelos teológicos desarmados contra o Ídolo, duelos desmascaradores de todo o tipo de crimes, os mais hediondos, cometidos pelos Executivos que existem para servir o Ídolo. Tão pouco, nenhuma Igreja estuda, aprofunda a Luz em que se tornou para sempre o ser-viver de Jesus, a Revolução Humano-Teológica que Jesus é para sempre, e que ele protagonizou, desarmado, entre meados do ano 28 e Abril do ano 30, desta nossa era comum, no pequeno país da Palestina, sobretudo, na Galileia e, finalmente, em Jerusalém. O Ídolo, juntamente com o seu sistema, a Idolatria, jamais permitem semelhante actividade. Seria o seu próprio fim!

 

11 O Ídolo não permite. E faz ainda pior. Continua aí a dizer a sangue e fogo que só ele é o único Deus verdadeiro e todo-poderoso, que vive no céu, sempre à espera que os povos todos o adorem, o invoquem, ofereçam-lhe sacrifícios, façam promessas e as paguem aos seus sacerdotes, obviamente. E os povos, impedidos por ele de crescer em consciência crítica e em Sabedoria, assim fazem, geração após geração. Porque o Ídolo tem sempre a dizer com ele, com a sua Idolatria /Mentira institucionalizada, todos os do Poder religioso /sacerdotal, os do Poder Político e os do Poder económico-financeiro. Aparentemente, distintos e separados entre si, mas efectivamente unidos como um só, em especial nos chamados momentos de crise, como são as catástrofes, os sismos, os tsunamis, os terramotos como o de Lisboa em 1755. Nesses momentos, os três Poderes são um só e sempre aparecem juntos como adoradores do Ídolo, nas liturgias /cultos /missas que os do Poder religioso-sacerdotal promovem nas suas catedrais e basílicas, numa parada de vaidades e de hipocrisia, o que há de mais obsceno e de hediondo. Vítimas e carrascos, desalojados e algozes, enlutados e verdugos, crucificados e crucificadores juntam-se no mesmo lugar, na mesma catedral, na mesma basílica a rezarem juntos ao mesmo Deus, o Ídolo dos Ídolos, a Mentira institucionalizada, a mais opressora, infantilizadora e a mais assassina /genocida /ecocida.

 

12 Hoje, felizmente, com este tipo de catástrofes, sismos, tsunamis, terramotos, cada vez mais frequentes e cada vez mais violentos, também cada vez mais trágicos em consequências e cada vez mais reveladores da Crueldade e da Inumanidade do Ídolo e dos seus três Executivos, o do Poder religioso-sacerdotal, o do Poder político e o do Poder económico-financeiro, os povos oprimidos, empobrecidos, assassinados, excluídos do Planeta começam a dar-se conta de que este Deus no céu, longe deles e contra eles, é mesmo um Ídolo, o Ídolo. É uma Mentira, a Mentira institucionalizada, que só favorece os carrascos, os verdugos, os algozes, concretamente, os sacerdotes /pastores das Religiões /Igrejas, os Executivos ou Governos das nações e os seus Opositores partidários, candidatos a futuros Executivos, e os grandes administradores das transnacionais e dos Bancos. E haverão de perder o Medo que os tem tolhido, desde o princípio da Humanidade, e erguer-se-ão desarmados contra ele e contra os seus intermediários que sempre estão à frente de cada um dos três Poderes, o religioso-sacerdotal, o político e o económico-financeiro, até os derrubarem e ajudarem a dar corpo a uma Terra sem amos, sem tiranos, sem intermediários de nenhuma espécie. Apenas Seres Humanos cada vez mais plena e integralmente Humanos. Da mesma estatura de Jesus!

 

13 Urgente, imperioso é que nós, Povos do Planeta, fujamos do Ídolo, deixemos de frequentar os seus santuários de Mentira e de Hipocrisia, de Idolatria e de Exploração. Coloquemo-nos em postura de êxodo, de saída, da Idolatria /Mentira para a Verdade, da Opressão para a Liberdade, da Menoridade para a Maioridade, da paz cada vez mais armada (= violência institucionalizada) para a Paz definitivamente desarmada. Urgente, imperioso é que nós, Povos do Planeta, redescobramos Jesus e regressemos a Jesus, o carpinteiro de Nazaré, o filho de Maria, à sua mesma Fé que nos leva a experimentar /sintonizar, mais íntimo a nós do que nós próprios, o Espírito Criador de seres humanos, plena e integralmente Humanos, e a prosseguirmos, terceiro milénio além, a sua mesma Revolução Humano-Teológica. Urgente, imperioso é que nós, Povos do Planeta, redescobramos, estudemos, façamos nosso e prossigamos hoje e aqui o mesmo Projecto Político de Jesus, até sermos como ele dádivas vivas uns com os outros e uns para os outros. Urgente, imperioso é que prossigamos os seus mesmos duelos teológicos desarmados, sem termos, como ele também não teve, onde reclinar a cabeça, de tanto nos darmos à Missão de abrir os olhos da mente às pessoas, em todas as nações. Urgente, imperioso é que nós, Povos do Planeta, nos experimentemos cada vez mais filhas, filhos em estado de liberdade e de maioridade, de Deus-Abbá, pura Graça, e mais íntimo a nós do que nós próprios, por isso, nos antípodas do Ídolo /Mentira institucionalizada. Por outras palavras, nos experimentemos outros Jesus, Século XXI e Terceiro Milénio adiante. Num Planeta, actualmente tão violento e assassino, mas que, graças à nossa presença-intervenção, plena e integralmente, Humana, acabe por se tornar, ele também, plena e integralmente Humano, o mesmo é dizer, ventre de vida para todas, todos quantos o habitamos, nossa casa comum, onde tudo é de todos, segundo as necessidades de cada qual. Eis.

 

Capítulo 41

 

1 Sempre que há uma grande catástrofe supostamente natural, com muitas dezenas, centenas ou mesmo muitos milhares de pessoas mortas, e uma ou mais cidades completamente engolidas pela fúria das águas e dos ciclónicos ventos, logo os filósofos e os teólogos do Ídolo se sentem postos em causa e saem de imediato a terreiro com explicações e justificações que raiam o patético. Esta espécie de gente ainda não percebeu que tudo o que disser para tentar justificar o injustificável, cai sobre ela como uma outra catástrofe, porventura, bem pior que a catástrofe supostamente natural que ela tenta explicar e justificar. Porque, em alturas assim, são a Razão (no que respeita aos filósofos) e a Fé religiosa (no que respeita aos teólogos) que saem completamente delapidadas da contenda. Perante uma tragédia com dezenas, centenas, milhares de pessoas mortas e cidades inteiramente engolidas, a postura humanamente mais nobre, por parte dos que sobrevivemos, ainda é o Silêncio. As apressadas explicações e justificações dos filósofos e dos teólogos sabem sempre a Blasfémia, a Insulto, a Impiedade, a Inumanidade. Porque visam destruir a Incomodidade que é a Grande Pergunta que salta, como um interminável Grito, da catástrofe supostamente natural. E tentar silenciar a Grande Pergunta que salta, como interminável Grito da catástrofe supostamente natural, é o que há de mais anti-filosofia, anti-Razão e de mais anti-teologia, anti-Fé.

 

2 O caso torna-se ainda mais patético e mais intoleravelmente obsceno, quando filósofos e teólogos subsistem nas mesmas pessoas. Quando as mesmas pessoas são ao mesmo tempo filósofos e teólogos. Então, as explicações avançadas por esse tipo de pessoas, simultaneamente filósofos e teólogos, ao mesmo tempo, são ainda mais inumanas e cruéis. Primeiro, tratam a catástrofe como uma realidade puramente abstracta. As pessoas mortas são meros números de estatística, as cidades engolidas e destruídas não passam de conceitos, os lancinantes Gritos de Dor são puras abstracções e os filósofos e os teólogos que manipulam todos estes dados são monstruosos académicos sem entranhas de humanidade, puro raciocínio, sem a mais leve comoção e a mais pequena manifestação de Humanidade. O nosso país e o nosso mundo do início do ano 2010 acabam de passar por duas grandes catástrofes supostamente naturais. Ainda o Haití, na martirizada e empobrecida América Latina, não se refez do sismo supostamente natural que sofreu e que pode ter ceifado a vida a mais de 300 mil haitianos, e eis que já a Região Autónoma da Madeira, no nosso país, se vê mergulhada na maior tragédia supostamente natural dos últimos cem anos da sua história.

 

3 Num e noutro caso de indescritível Dor Humana, ocorridos com intervalo de breves semanas entre si, filósofos e teólogos, quais abutres, caíram sobre ambas as tragédias supostamente naturais e avançam com explicações que têm tudo de vómito. Nunca a Razão humana se degrada tanto, nem a Fé se degrada tanto, como quando tentam explicar e justificar o Intolerável. E Intolerável é a Dor Humana, sempre que acontece. Intolerável é a Destruição de cidades inteiras, transformadas, de repente, em cemitérios. Intolerável é a morte em massa de pessoas que, inopinadamente, se vêem engolidas por chuvas diluvianas e por ventos ciclónicos que não deixam nada nem ninguém de pé, lá, por onde passam em destruidora fúria. Em lugar de assumirem a humana postura do Silêncio-que-escuta, os filósofos e os teólogos do Ídolo correm a dar explicações e justificações que só conseguem juntar mais Dor à Dor que, nestes dias, nos serve de comida e de bebida e, por isso, são explicações e justificações com tudo de Obsceno e de Vómito. É assim que eu próprio, como presbítero da Igreja do Porto, me sinto por estes dias com explicações /justificações e mais explicações /justificações por parte de filósofos e de teólogos, de filósofos-teólogos, alguns dos quais meus amigos, e por parte de bispos e de outros clérigos católicos e protestantes. Melhor fôssemos todas, todos, cegos e surdos, estes dias, para não termos de ver e de ouvir tais explicações e justificações de uns e de outros, todas elas obscenas, todas elas cruéis, todas elas vómito.

 

4 O Obsceno e o Inumano das explicações e justificações dos filósofos e dos teólogos resultam do uso que eles fazem da Razão Humana e da Fé. Os povos primitivos, mergulhados num Planeta que não conheciam, muito menos, sabiam como lidar com ele, quase sempre atribuíam as catástrofes supostamente naturais aos míticos deuses e às míticas deusas que estariam zangados e ofendidos com os pecados dos seres humanos e exigiam desagravos, por parte dos povos. Desta consciência de impotência e de desconforto, nasceu nos povos o Medo dos deuses e das deusas e, com ele, a Religião, como resposta organizada por parte dos povos assustados e impotentes aos castigos e às míticas ameaças dos deuses, das deusas. Ora, as explicações e justificações dos filósofos e dos teólogos do Século XXI não andam longe destas posturas dos povos primitivos. Subjacente à Fé religiosa, permanecem, ainda hoje, o Medo dos deuses e das deusas e a necessidade que os povos sentem de desagravarem os deuses e as deusas, sempre que eles e elas se mostrem particularmente ofendidos e façam cair sobre os povos toda a espécie de castigos, sob a forma de catástrofes supostamente naturais. Subjacente à Razão, hoje pretensamente ilustrada, está ainda o mesmo sentimento de Medo e de impotência, só que agora travestido de Arrogância e de Cinismo, por parte dos filósofos. São a Arrogância e o Cinismo que levam os filósofos a perguntar onde está Deus no caso do Haití e, agora, no caso da Região Autónoma da Madeira? Em lugar de se colocarem, humildemente, à escuta da Grande Pergunta que emerge de cada catástrofe supostamente natural, os filósofos do Século XXI, juntamente, com os teólogos da Fé religiosa, evitam a todo o custo essa Grande Pergunta, e, em seu lugar, formulam insolentemente outras perguntas, com tudo de Obsceno e de Vómito!

 

5 Razão Ilustrada e Fé Religiosa, filósofos e teólogos que evitam a Grande Pergunta e, em seu lugar, formulam perguntas à medida da sua limitada Razão e da sua limitada Fé religiosa, são o que há de mais inumano entre os seres humanos e os povos. São intelectuais sem entranhas de Humano, cínicos q. b., que, cada qual no seu âmbito, estão ao serviço do Ídolo que, desde o início da Humanidade, se tem feito passar por Deus verdadeiro. Podem ser e são homens /mulheres do Saber - mais homens do que mulheres! - mas não são homens /mulheres da Sabedoria. E o Saber sem Sabedoria incha e descria o Humano nos seres humanos que enveredam por essas "portas largas". São, sem dúvida, os homens /mulheres mais perigosos entre os demais seres humanos. O seu Saber - e em alguns deles chega a ser muito Saber! - é todo ele intrinsecamente Descriador do Humano. Antes de mais, deles próprios. E, depois, da Sociedade. Onde houver homens /mulheres do Saber, há sempre Inumanidade em crescendo. Porque o Saber tem por pai o Poder, nomeadamente, o Grande Poder Financeiro, que é pai de mentira e assassino por natureza. Os homens /mulheres do Saber são, por isso, os mais perigosos dos seres humanos, os que mais servem o Poder Financeiro, pai de mentira e assassino.

 

6 Uma das missões dos homens /mulheres do Saber, nomeadamente, dos filósofos e dos teólogos, é tudo fazerem para silenciar a Grande Pergunta que sempre grita do meio das grandes catástrofes supostamente naturais. A maneira mais eficiente de o conseguirem é, nessas horas de Grande Dor que esmaga as populações e os povos, avançarem com explicações e justificações, qual delas, a mais obscena e a mais cruel. São filósofos e teólogos cínicos, inumanos. Com mais ou menos consciência, são homens /mulheres ao serviço do Grande Poder Financeiro e, com essas suas posturas, absolvem-no dos seus hediondos crimes, inclusive, das próprias catástrofes supostamente naturais, actualmente, cada vez mais frequentes. São filósofos e teólogos do Ídolo, ao seu incondicional serviço de Mentira /Opressão e de Morte /Assassínio. É que nem as catástrofes supostamente naturais, alguma vez o foram /são. Todas são catástrofes provocadas, ou pela nossa preguiça e pela nossa incúria, ou pelas ambições sem limites do Grande Poder Financeiro que não olha a meios para alcançar os seus fins. O Grande Poder Financeiro é hoje o Ídolo maior e mais homicida, o pai mais descriador do Humano e do próprio Planeta.

 

7 Os filósofos e os teólogos que o são do Saber e não da Sabedoria, sempre que acontece uma catástrofe supostamente natural, assumem-se como os intelectuais do Grande Poder Financeiro, que nos inundam com palavras e mais palavras, todas assassinas. As suas explicações e justificações sobre cada catástrofe concreta, supostamente natural, têm o perverso condão de desviar as populações e os povos sobreviventes da Grande Pergunta que cada catástrofe supostamente natural traz no seu bojo e que lança sempre aos quatro ventos. Esta Grande Pergunta só será escutada no Silêncio. Ora, os filósofos e os teólogos correm a encher de explicações e de justificações a catástrofe ocorrida, para que, deste modo, a Grande Pergunta que ela levanta como prolongado Grito, nunca seja escutada pelos sobreviventes. E, no entanto, seria ela, se escutada /acolhida, a Grande Ocasião para cairmos na conta de que não há catástrofes naturais, todas são. afinal, provocadas. Hoje, pelo Grande Poder Financeiro que está aí cientificamente organizado e em ininterrupta acção de descriação /destruição e de homicídio /genocídio. Tal como outrora, o foram pela nossa preguiça e pela nossa incúria que, em lugar de CUIDARMOS da Terra, passámos todo o nosso tempo a cuidar dos deuses e das deusas, nos templos e santuários, que outra coisa não é a Religião /Idolatria, que DeusVivo que nos habita no mais íntimo de cada qual, mais detesta e vomita.

 

8 Os filósofos invocam a Razão. Os teólogos invocam a Fé religiosa. Parecem posicionar-se em campos antagónicos. Não são mais do que servidores do mesmo Ídolo que, desde o princípio da Humanidade, sempre se tem feito passar por Deus verdadeiro. Fé religiosa e Razão são dois conceitos para dizer o mesmo Ídolo cruel, mentiroso, assassino. Os filósofos e os teólogos são intelectuais não-orgânicos, alcandorados nas cátedras do Saber, infinitamente distantes das maiorias oprimidas e empobrecidas que vivem, subvivem na base da pirâmide social. Vivem, subvivem em estado de catástrofe permanente, também ela, supostamente natural como as outras que, hoje, são cada vez mais frequentes. Só que nem uma, nem as outras são naturais. Todas são provocadas. Com as suas teorias e doutrinas, as suas filosofias e teologias, os filósofos e os teólogos do Saber /do Ídolo, mais não são do que o braço do Saber ilustrado do Grande Poder Financeiro que lhes paga e lhes proporciona o acesso às cátedras das universidades e das catedrais onde eles são mestres e doutores, formadores de gerações que prosseguirão, nos anos seguintes, idêntico e insubstituível papel. Sem os filósofos e os teólogos não-orgânicos, nunca o Grande Poder Financeiro levaria por diante o seu projecto de domínio total do Planeta e de Descriação do Humano. Tudo ele deve aos filósofos e teólogos do Ídolo, da Idolatria. Todos eles se têm na conta de importantes, mas são-no apenas como os sacerdotes do templo do rei Herodes que puseram todo o seu Saber ao serviço do Poder e, por isso, ao serviço da Mentira e do Assassínio (cf. Mateus 2, 4-6).

 

9 Filósofos e teólogos orgânicos, não idolátricos, bem nos antípodas dos das cátedras do Saber, são hoje precisos como pão para a boca. Mas onde estão eles? Quem os conhece? Temos de os procurar na base da pirâmide social, nas periferias, entre os pobres e com os pobres. Serão filósofos e teólogos da Sabedoria, inimigos declarados do Grande Poder Financeiro, do Ídolo Descriador do Planeta. Serão filósofos e teólogos pobres por opção, que erguem a sua tenda entre os Humilhados e que vivem à escuta dos seus Gritos, das suas Dores, das suas Agonias antes de tempo. Homens /mulheres da Sabedoria, ainda muito raros, nesta altura da História, para não dizer, praticamente, inexistentes. A grande atracção que faz correr os filósofos e os teólogos de hoje como os de ontem é a cátedra, nas universidades e nas catedrais, não a existência de Humilhados, em número cada vez mais elevado e, hoje, já incontável. Ainda levará, por isso, muito tempo, até que os filósofos e os teólogos caiam na conta da armadilha em que estão caídos e para a qual atraem outros como eles. A Humanidade, dominada pelo Grande Poder Financeiro, o Ídolo que se faz passar por Deus /Luz (é Ídolo e Treva ilustrada, mas faz-se passar por Luz e por Deus!) ainda irá conhecer sucessivos invernos de pensamento e de cativeiro. Enquanto os intelectuais não se tornarem, na sua maioria, intelectuais-orgânicos, continuarão criminosamente a servir o Grande Poder Financeiro, a confundir Luz com Treva Ilustrada e Deus Criador de filhas e de filhos em estado de liberdade e de maioridade, com o Ídolo. Temos, por isso, ainda muito que gemer e chorar, até que eles se convertam, mudem de Deus!

 

10 "Nessa ocasião - conta o Evangelho de Lucas (13, 1-5) - apareceram alguns a falar-lhe [a Jesus]dos galileus, cujo sangue Pilatos havia misturado com o dos sacrifícios que eles ofereciam. Respondeu-lhes Jesus: Julgais que esses galileus eram mais pecadores que todos os outros galileus, por terem sofrido assim? Não, eu vo-lo digo; mas se vos não converterdes, perecereis todos igualmente. E aqueles dezoito sobre os quais caiu a torre de Siloé, matando-os, eram mais culpados que todos os outros habitantes de Jerusalém? Não, eu vo-lo digo; mas se vos não converterdes, perecereis todos da mesma maneira". Como se vê, Jesus, ao contrário dos filósofos e dos teólogos do Grande Poder Financeiro, filósofos e teólogos do Ídolo, nunca vai, obviamente, pela via do Saber, mas pela via da Sabedoria. Não avança explicações e justificações para o Intolerável que são as catástrofes supostamente naturais ou casuais, como a queda da torre de Siloé que matou 18 habitantes de Jerusalém. É outra a sua postura, fecunda e intensamente Humana: dá ainda mais voz e mais vez ao Intolerável, para que ele seja escutado e visto em toda a sua dimensão. Não sossega nem consola consciências perturbadas, desassossega consciências e leva o desassossego ao limite. Ao mesmo tempo que avança uma Saída libertadora: "Se vos não converterdes, perecereis todos da mesma maneira"

 

11 É aqui que é precisa muita Sabedoria. Porque, desde há dois mil anos, até as palavras de Jesus e o próprio Jesus têm-nos sido quase sempre apresentados /interpretados /filtrados pelo Saber dos filósofos e dos teólogos do Ídolo, do qual todos eles recebem o reconhecimento oficial e inúmeros privilégios. E, quando assim é, Jesus fica completamente refém dos filósofos e dos teólogos do Ídolo e acaba a justificar tudo, até, o Intolerável! A sua palavra fica reduzida à dimensão do Moralismo, que mais não é do que uma arma assassina contra os Povos. Só mesmo a via da Sabedoria nos deixa em condições de escutar Jesus em toda a sua originalidade subversiva e conspirativa, a única que nos livra do Ídolo e do Saber dos seus filósofos e teólogos, sempre domesticador e castrador. Eis, pois, o que Jesus nos diz, com aquela sua advertência dirigida aos que lhe fizeram chegar a informação das duas catástrofes, nas quais pereceram grande número de pessoas. "Mas se não mudardes de Deus, perecereis todos da mesma maneira". Converter-se, na boca de Jesus, é sempre sinónimo de MUDAR DE DEUS. Concretamente, mudar do Ídolo, mentiroso e assassino, para o Deus Criador de filhas e de filhos em estado de liberdade e de maioridade.

 

12 Eu sei que nunca nos disseram esta Boa Notícia. Porque os homens do Saber - filósofos e teólogos - estão todos incondicionalmente ao serviço dos Sistemas que lhes garantam os privilégios de que desfrutam. São por isso absolutamente incapazes de escutar a Boa Notícia de Deus. Sempre escutam a Mentira do Ídolo e os interesses do Ídolo. Consequentemente, acabam todos mentirosos e assassinos quanto o próprio Ídolo. Criminosos que nunca se reconhecem. E aos quais o Poder, agradecido por tantos serviços prestados, finalmente, premeia, com homenagens públicas e com a concessão de títulos honoríficos, senão mesmo com a canonização, já depois das suas mortes! Deste modo, o Ídolo pode prosseguir à vontade os seus crimes, as suas descriações, as suas catástrofes supostamente naturais. Os filósofos e os teólogos são os seus homens de mão, homens do Saber, não da Sabedoria. Em cada catástrofe realizada pelo Grande Poder Financeiro, pelo Ídolo, logo eles vêm a terreiro com as suas explicações e as suas justificações que perfazem o que há de mais Abominável. Evitam, com isso, que os povos escutem, no coração dessas catástrofes, a Grande Pergunta que, se for escutada e entendida, levá-los-á infalivelmente a descobrir em todas elas a mão criminosa do Ídolo. As populações poderão, então, levantar-se novas do Crime organizado que dá pelo nome de "catástrofes", supostamente naturais (e que afinal não são; sempre são provocadas!), em lugar de ficarem, como sempre têm ficado, ainda mais paralisadas do que antes. Só que este acto subversivo e conspirativo das populações, é tudo o que o Ídolo não quer que aconteça. E, para isso, conta com as mãos dos seus filósofos e dos seus teólogos. Mãos assassinas. Mãos cruéis.  Mãos Abomináveis. Quando é que as populações se livram de vez do Saber dos filósofos e dos teólogos do Ídolo e se abrem à Sabedoria que, na pessoa de Jesus, o filho de Maria, o Crucificado na Cruz do Império Romano, as faz livres e protagonistas?

 

13 Ou mudamos de Deus, do Ídolo descriador do Humano, para Deus Criador de filhas, filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, ou, como adverte Jesus, todos perecemos. Porque o Planeta, dominado /governado pelo Ídolo, leva as pessoas e os povos à Descriação mais completa. Tem sido assim, desde o princípio da Humanidade. O Deus, de que falam os filósofos e os teólogos dos Privilégios, do Saber Ilustrado, das cátedras nas universidades e nas catedrais, sempre foi, é e será o Ídolo que, habilmente, se tem feito passar por Deus verdadeiro. É o Ídolo, pai de Mentira, assassino, descriador. Quem, pela primeira vez na História, viu toda esta Mentira e Assassínio organizados foi Jesus, o filho de Maria. E não hesitou em desmascarar o Ídolo no seu próprio terreno, o Templo de Jerusalém, no decurso do Duelo Teológico Desarmado mais revelador da História da Humanidade. Temos, pois, de escolher: Ou Deus Criador de filhas e filhos em estado de liberdade e de maioridade, nosso Abbá, ou o Ídolo. Os filósofos e os teólogos do Saber e dos Privilégios insistem em escolher /seguir o Ídolo, como se ele fosse o Deus verdadeiro. Temos de estar vigilantes e resistir a toda essa sua Treva Ilustrada, a toda essa sua Idolatria. Só Jesus, o Crucificado, é o Caminho dos Povos. É por ele e só por ele que havemos de ir. Vamos, então! Nunca mais aceitemos receber ordens do Ídolo e logo passamos a crescer em Sabedoria e em Graça, em Liberdade e em Maioridade Humana. No seio de uma Terra que há-de chegar a ser, também ela, plena e integralmente Humana. Sem catástrofes desencadeadas pelo Ídolo, que é o pai de Mentira e o Assassínio organizado!

 

Capítulo 40

 

1 Chega a ser dramático. Levamos já dez anos de Século XXI, mas a verdade é que as mentes dos nossos filósofos, dos nossos teólogos, dos nossos biblistas, dos nossos cientistas, dos nossos escritores, dos nossos jornalistas, dos nossos bispos e demais pastores de Igrejas, a Católica romana e as protestantes, numa palavra, dos nossos intelectuais em geral, continuam ainda fortemente formatadas pelas velhas concepções /visões da Idade Média e da chamada Cristandade Ocidental. Por sua vez, oriundas das concepções do Judaísmo e do Paganismo religioso Primitivo, pelo menos, no que respeita aos intelectuais do chamado mundo judeo-cristão. Para cúmulo, este desfasamento é ainda mais manifesto, no tocante à questão mais fulcral da Humanidade, que é a auto-compreensão do ser humano e de Deus Criador de filhas e de filhos em estado de liberdade e de maioridade, na sua relação com o ser humano e do ser humano com Ele. Ora, este desfasamento mental é, porventura, a questão mais dramática da Humanidade do Século XXI. Porque os chamados intelectuais são quem, geração após geração, mais contribui para a formação das mentes e da consciência das pessoas e dos povos. E intelectuais com mentes assim formatadas são o que há de mais perigoso para os povos. Arvoram-se em guias das pessoas e dos povos, ocupam funções de responsabilidade em conformidade com esse seu papel histórico, mas na verdade são os maiores cegos. Como os fariseus do tempo e do país de Jesus, pensam que vêem, mas na verdade são cegos. Mantêm-se na condução das pessoas e dos povos, mas estão a levá-las, levá-los para o Abismo. São cegos e guias cegos. Um desastre em toda a linha.

 

2 A Revolução Teológica de Jesus, já com dois mil anos de existência, continua a ser sistematicamente ignorada pelos nossos intelectuais. Todos eles são doutores, mas não são sábios. São mulheres, homens do Saber, não são mulheres, homens da Sabedoria. Como os fariseus do tempo e do país de Jesus, fazem questão de serem chamados "doutores", "mestres", "peritos". Vivem num patamar social distanciado das maiorias oprimidas e empobrecidas, para as quais olham com desdém e às quais tratam com pinças, mesmo quando parece que lhes dão alguma atenção. Em realidade, nunca dão. Na melhor (ou pior?) das hipóteses são, em masculino e em feminino, cada qual à sua maneira e ao seu jeito, outras tantas madres teresas de calcutá. Parece que se interessam pelas maiorias oprimidas e empobrecidas, mas na verdade, servem-se delas para subirem, fazerem carreira, para enriquecerem, para se afirmarem mais e mais no Poder e no Privilégio. Tudo nos nossos intelectuais, quando eles não são, por toda a vida, intelectuais orgânicos (e onde estão hoje os intelectuais orgânicos por toda a vida?! Conhecemos muitos? Ao menos, alguns?) está ao serviço das grandes Máfias que dominam o nosso Mundo. Estas só se aguentam e desenvolvem, graças aos intelectuais não orgânicos da nossa praça. Intelectuais do Século XXI, com mentes ainda formatadas por concepções da Idade Média, da Cristandade Ocidental, do Judeo-cristianismo e do mais Primitivo Paganismo Religioso.

 

3 É como se hoje ainda vivêssemos nos tempos mais primitivos da Humanidade. Desenvolvemo-nos em múltiplas dimensões, no que diz respeito ao Tecnológico, mas, ao nível da mente humana, do desenvolvimento Humano, continuamos, enquanto intelectuais, prisioneiros do Medo dos deuses e das deusas, nem que estas e estes, hoje, vistam de secular. O ateísmo e a religião são as duas faces do mesmo Medo dos deuses e das deusas. Religiosos e ateus praticantes são, no Século XXI, os cultores do Paganismo Primitivo, só que agora ele apresenta-se reciclado e vestido em linguagem erudita e ilustrada. Os nossos intelectuais, com destaque para os filósofos, teólogos, biblistas, jornalistas, cientistas, são um desastre em Humano. Com a agravante de que todos eles, do pequeno ao maior, se têm na conta dos mais esclarecidos e dos mais lúcidos da Humanidade. O inchado orgulho com que todos eles ocupam as cátedras nas universidades, nas catedrais eclesiásticas, nas paróquias, nos Tribunais, nas Escolas, nas Administrações das empresas, é disso prova. São os mais infantis dos seres humanos. Pavões armados, sem nada de substantivo /essencial dentro, no que respeita a entranhas de Humano. Por isso, são todos sempre tão solícitos perante os Carrascos e os Algozes da História, e tão distraídos /distantes /dissipados em relação a todas as suas incontáveis vítimas. Eles são a Humanidade no seu pior. Embora eles próprios se tenham na conta de que são mestres, doutores, peritos.

 

4 Os intelectuais nasceram e vieram ao mundo para servir os Carrascos e os Algozes. Na área do Ensino, da Educação, do Pensamento, da Investigação, da Religião, da Filosofia, da Teologia, da Tecnologia, da Justiça, da Informação, do Poder Político, do Poder Financeiro. Todos aceitam, sem quaisquer escrúpulos, ser pagos pelos Carrascos e pelos Algozes da História, para serem, por toda a vida, seus incondicionais servidores. No universo em que vivem, as incontáveis vítimas não existem. As maiorias oprimidas e empobrecidas tão pouco. Existem apenas eles, os intelectuais, e as suas ideias, as suas palavras, os seus conceitos, os seus livros, os seus artigos de opinião, os seus fastidiosos e estéreis tratados, os seus discursos ocos, a sua linguagem quase sempre sofisticada, estéril, sonante, mas vazia de Humano, de entranhas de Humano. E, com eles, existem também os Carrascos e os Algozes que lhes pagam e a quem servem com esmero, sempre a ver quando são distinguidos com um Prémio, em reconhecimento pelos serviços prestados. Nunca descem da sua torre de marfim, da sua cátedra, do seu altar. E, se, neste ou naquele intelectual, descem até aos Ninguém, vêm sempre dentro da sua torre de marfim, dentro dos seus sofisticados e inestéticos papamóveis, dos seus carros blindados. Entre eles e as maiorias oprimidas e empobrecidas há sempre um abismo intransponível. Mesmo quando entram nos tugúrios onde as maiorias oprimidas e empobrecidas subvivem /vegetam. E, se, intelectuais das Igrejas /Religiões, elas e eles, depois de toda uma vida vivida entre o "lixo" Humano, o "lixo" Humano continuará lá, cada vez mais degradante /humilhante e elas, eles, quais madres teresas de calcutá, são rapidamente promovidos aos altares, para serem idolatrados, também pelo "lixo" humano que ajudaram a suavizar e a alimentar, sem nunca terem ido directos às causas que o provocam e o geram. É a ignomínia das ignomínias. A Hipocrisia /Idolatria em todo o seu esplendor de Treva ilustrada. A perversão das perversões.

 

5 A História da Humanidade conheceu, por momentos, a Revolução Teológica de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria. Ele não é um intelectual ao serviço dos Carrascos e dos Algozes. É o carpinteiro. Não é o filho de Algo (= fidalgo). É o filho de Maria, o mesmo é dizer, de pai incógnito. Não frequentou a Universidade dos Carrascos e dos Algozes. Frequentou o Deserto e os oprimidos e os empobrecidos. Não aprendeu dos seus antepassados. Nem sequer de Moisés, o seu antepassado histórico mais famoso. Tão pouco frequentou o Templo dos sacerdotes. Nem o palácio do rei. Quiseram conotá-lo com o rei David, mas ele fez questão de dizer que é o filho de Maria. Quiseram apresentá-lo como o filho de Deus, mas ele fez questão de dizer que é o filho do Homem, do Humano. E sempre se comportou como tal. Quiseram fazê-lo sair do Humano e fazer dele Poder, o Poder. Foi tentado até mais não a sair do Humano. Mas ele resistiu até ao limite e até para lá do limite. Manteve-se no Humano desde a concepção à Morte /Explosão na Cruz do Império. E, assim, alcançou a plenitude do Humano. É o que podemos chamar de anti-intelectual não-orgânico. Nunca a Humanidade havia tido um Humano assim. E por isso é que, neste Humano assim, deu-se a Revolução Teológica mais radical que a História humana alguma vez conheceu e conhecerá. Neste Humano que nunca aceitou sair do Humano e passar a ser outra coisa, muito menos Deus-Ídolo, até Deus Criador de filhas e de filhos em estado de liberdade e de maioridade, e que nunca ninguém viu nem verá, deu-se plenamente a conhecer. Pela primeira e única vez na História. No Humano, plena e integralmente, Humano, que é Jesus, vimos finalmente Deus que nunca ninguém viu nem verá senão assim. É a Revolução Teológica e Humana mais radical.

 

6 Nunca mais a História voltará a ser o que era. E, para que ela pudesse continuar a ser o que sempre havia sido, os intelectuais de todos os tempos, escandalizados com o que lhes é dado ver e ouvir em Jesus, coligaram-se todos como um só e não hesitaram em negar a Verdade conhecida por tal. Conjugaram esforços e conseguiram fazer desaparecer da História, Jesus e a Revolução Teológica Radical que ele é. Apagaram da História até o seu nome. E a sua Memória. Todos os vestígios da sua PASSAGEM /Páscoa entre nós. Não lhes foi difícil consegui-lo. Porque Jesus era, é, um Ninguém, filho de Ninguém. Sem credenciais passadas pelos Carrascos e os Algozes. Apenas as credenciais do Humano pleno e integral. Tão pouco, era sacerdote. Apenas o carpinteiro, o filho de Maria. O Ninguém. A Fragilidade mais completa. Depressa, os intelectuais dos Carrascos e dos Algozes entraram em acção contra ele, cercaram-no e, em pouco mais de dois anos, fizeram-no desaparecer de entre eles. Sem deixarem nenhum registo da sua PASSAGEM /Páscoa, para memória futura. Era preciso que a Humanidade nunca fosse alguma vez sabedora da sua existência, naquele pequeno país, reduzido, na altura, à condição de colónia do Império Romano. Neste trabalho de limpeza histórica, os Carrascos e os Algozes que o mataram na Cruz, contaram sempre com o imprescindível serviço dos intelectuais de então, com destaque para os sacerdotes, que tiveram aqui o papel mais decisivo e determinante. Porque eram eles os que se sentiam mais lesados com a Revolução Teológica de Jesus. Foram, por isso, também os que mais o odiaram.

 

7 Sacerdotes - ainda hoje, parece que ignoramos isso - são os funcionários do Religioso. São os intelectuais da Religião. São os servidores, a tempo integral, de Deus, mas apenas de Deus enquanto Ídolo. Portanto, enquanto rival do Humano. São os funcionários da Idolatria. Os mais inumanos dos seres humanos. Os mais alienadores dos seres humanos. Desde o princípio da Humanidade, a mais Primitiva, os sacerdotes são olhados como os intelectuais mais importantes. Imprescindíveis. As populações e os povos não prescindiam deles, nem dos seus serviços de Idolatria. O Medo dos deuses e das deusas era e continua a ser intenso e permanente. Os sacerdotes eram e são os únicos que tinham /têm influência para fazer os deuses e as deusas favoráveis aos seres humanos. Mediante os cultos que lhes apresentam. Os ritos que realizam. Os povos, viam-nos /vêem-nos como intermediários entre eles e os deuses, as deusas. Não podem imaginar a vida na Terra sem sacerdotes, sem os seus ritos, os seus cultos, os seus santuários. O que os sacerdotes disserem é uma ordem. É lei. Tudo o que eles disserem, os povos amedrontados realizam. E a Terra acabou por se tornar no grande templo da Idolatria, sob o domínio dos sacerdotes. Nada se fazia /faz sem eles, sem a sua palavra, o seu rito, o seu culto. E não é que ainda hoje, dez anos já vividos no Século XXI, é neste mesmo ponto que estamos? Para nossa vergonha!

 

8 Obviamente, entre os tempos primitivos e o Século XXI, as roupagens mudaram. Mas a Idolatria é a mesma. Os sacerdotes, numa sociedade cada vez mais secular, parecem perder terreno e influência. Até se adaptarem aos novos tempos do Secular. Porque a Idolatria continua aí em força. O Medo dos deuses, das deusas, também. Estamos no Século XXI, mas as nossas mentes continuam formatadas como as dos povos primitivos. Às vezes, chega a parecer que o Medo dos deuses, das deusas, hoje, é ainda maior do que outrora. Pelo menos, é muito mais Inumano do que entre os povos primitivos. Então, a Terra ainda era olhada e tratada como sagrada. Hoje, até isso se perdeu. Os novos sacerdotes - os intelectuais do Século XXI, religiosos ou ateus, tanto faz - são peritos em Tecnologia, em Inumanidade, em Descriação. O Planeta é para esventrar, sem olhar a meios, nem a consequências. As reservas que guardam no seu seio, são para usar, sem escrúpulos. Os Carrascos e os Algozes do Século XXI são-no muito mais do que os do Paganismo Religioso Primitivo, meros artesãos comparados com os de hoje. Os intelectuais não-orgânicos mantêm-se ao seu incondicional serviço. No seu ateísmo praticado, ou na sua Religião praticada, continuam todos a ter Medo dos deuses, das deusas. E o Medo impede-os de crescerem em Humano. Em Sabedoria. Só em Saber. Por isso, são intelectuais sem entranhas de Humano. Um desastre em toda a linha.

 

9 Aqui e ali, há hoje sinais de que a Revolução Teológica de Jesus está a sair das cinzas. Está a sair do Esquecimento. Destruíram todos os vestígios dela, mas há sempre algo que escapa ao seu Anátema. As vítimas, hoje, em número cada vez mais crescente, trazem nos seus genes, porventura, sem saberem, a Memória Subversiva da Revolução Teológica de Jesus. O Crucificado Jesus nunca desapareceu de vez da Memória dos Crucificados da História. Apesar do eficiente trabalho dos intelectuais não-orgânicos, com destaque para os teólogos e os filósofos, destinado a apagar da História a Revolução Teológica de Jesus, ela está Hoje de volta. Eles andam, de novo, perturbados. São atacados de insónias. Multiplicam os seus Anátemas sobre as vítimas e sobre quem ergue a sua tenda entre elas, mas em vão. Jesus, o Ninguém, filho de Ninguém, está de novo a fazer-se sentir na História. E, com ele, a sua Revolução Teológica. O mítico Cristo, inventado pelos intelectuais e pelas suas Cristologias sem Jesus, cheias da mais crassa Idolatria e da mais crassa Inumanidade, está a perder terreno, cada dia. Os Carrascos e os Algozes bem se esforçam por manter e impor o Cristianismo e a Idolatria que ele alimenta nas populações e nos povos, mas em vão. Jesus, o filho de Maria, está de novo a fazer sentir a sua Presença Maiêutica. E a sua Revolução Teológica também se está a fazer sentir.

 

10 Por mais que o papa multiplique as suas viagens pelo Mundo, os seus discursos moralistas; por mais que os sacerdotes-párocos se desdobrem de terra em terra, de templo em templo, de altar em altar, a Religião das Multinacionais religiosas está em decadência. Cresce, em seu lugar, o ateísmo e a Indiferença praticados. São a outra face da Idolatria, a sua face secular. Tão perigosa, quanto aquela, porventura, ainda mais perigosa que aquela. E a prova é que os Carrascos e os Algozes nunca estiveram tão fortes e cruéis como hoje. As inúmeras vítimas que produzem nunca foram tantas e tão sofredoras como hoje. As Máfias nunca estiveram tão bem servidas, como hoje, por tantos e tão sofisticados intelectuais não-orgânicos, todos vendidos a elas. As posições extremam-se como nunca antes. O Confronto Histórico é cada vez mais inevitável. As maiorias oprimidas e empobrecidas estão a ponto de fazerem implodir o Planeta. Por mais que os intelectuais não-orgânicos ao serviço das Máfias, se desdobrem em propaganda e em mentira, as Máfias estão a ficar de cara descoberta. O Confronto está, por isso, iminente. Porque o Sopro ou Espírito de Jesus nunca deixou a Terra, a História. Tem-na trabalhado, dia e noite, sem descanso. Sem que os intelectuais ao serviço dos Carrascos e dos Algozes que fabricam as maiorias oprimidas e empobrecidas, tivessem dado por isso. Pensaram sempre, até hoje, que só elas trabalhavam dia e noite. Cegas que são, não viram o Invisível e o Essencial. Nem vêem. Continuam ainda hoje aí na maior. A traficar como se a Idolatria fosse o Amanhã da Humanidade. Não é. O Amanhã da Humanidade, é a mesma Fé de Jesus.

 

11 No passado, os intelectuais não-orgânicos - filósofos, teólogos, biblistas, sacerdotes, bispos, pastores de Igrejas e outros seus lacaios - bem tentaram convencer as maiorias oprimidas e empobrecidas de que Jesus, no seu Espírito, se tinha ausentado da História, da Terra. Tinha regressado a Deus. Não sabiam /não sabem que semelhante Deus, distante do Humano, é um Ídolo. Até Jesus, o filho de Maria, esse foi o único Deus que as maiorias oprimidas e empobrecidas conheceram. O Ídolo. E é o único que os intelectuais não-orgânicos que as "educam", "ensinam" "catequizam", "mentalizam", lhes apresentaram (apresentam) /anunciaram (anunciam). Só que, com Jesus, o filho de Maria, ficou claro duma vez para sempre, que esse Deus distante do Humano é um Ídolo. Foi sempre com ele que os Povos da Terra conviveram, pior, foi sempre a Ele que temeram. Viveram sob o Medo e tornaram-se Inumanos quanto baste. Religiosos quanto baste, No passado, mais sob a forma de beatos. Hoje, mais sob a forma de ateísmo. Mas esses tempos estão a passar. A Mentira pode manter-se durante séculos, mas chega um dia em que ela é desmascarada. E esse Dia está perto.

 

12 Jesus está hoje mais visivelmente activo entre nós. Na verdade, ele nunca nos deixou. Esteve sempre entre nós. Mas nós, caídos na Idolatria Religiosa, nunca dávamos pela sua presença, pela presença do seu Sopro. Hoje, a mesma Idolatria, mas agora sob a forma de ateísmo, está a tornar tão cruel este nosso Mundo dominado pelo Poder Financeiro Global, que as maiorias oprimidas e empobrecidas estão em melhores condições de darem pela presença de Jesus, do seu Sopro /Espírito Maiêutico. Os intelectuais dos Carrascos e dos Algozes tentarão matá-lo, de novo. Mas, agora, a impossibilidade é total. Porque o Deus-Ídolo já não está mais no Templo, no Religioso. É o Poder Financeiro Global. Logo que as maiorias oprimidas e empobrecidas do Mundo percebam isto, perderão o Medo dos sacerdotes e do Ídolo Religioso e avançarão, desarmadas, para o Confronto duélico com o Ídolo-Poder Financeiro Global. Impulsionadas pela mesma Fé de Jesus, guiadas não mais pelos intelectuais não-orgânicos que as têm sugado e humilhado, enganado e espezinhado, mas pelo mesmo Espírito de Jesus. Podem ser todas Crucificadas, neste Confronto, como Jesus. Mas ficará para sempre claro que o Deus das Máfias e dos seus intelectuais não-orgânicos, é o que sempre foi, um Ídolo, tal como era, é, um Ídolo o Deus dos cultos religiosos do Paganismo Primitivo, a que presidiram os Sacerdotes de todos os tempos, e, sucessivamente, do Judaísmo e do Judeo-Cristianismo e de todas as Religiões sem excepção.

 

13 A Revolução Teológica de Jesus e o próprio Jesus, já no-lo haviam revelado, nos anos 28, 29 e 30 desta nossa era comum. Mas, porque foram os sacerdotes do Templo que o mataram, as maiorias oprimidas e empobrecidas do Mundo ainda chegaram a pensar que Jesus era, como eles diziam, o blasfemo e o Maldito. E assim têm sido levadas a pensar até hoje. Só que esta Mentira está a chegar ao fim. As Religiões e os sacerdotes são o que há de mais perverso na Humanidade. Porque são os assassinos de Deus Criador de filhas e de filhos em estado de maioridade e de liberdade. Porque os adoradores do Deus-Ídolo.  Isto diz-nos a Sabedoria, não o Saber. Diz-nos o Espírito de Jesus, não os intelectuais não-orgânicos, todos mestres, doutores, peritos, mas do Ídolo, das Máfias que dominam o Mundo, contra as maiorias oprimidas e empobrecidas. Alegremo-nos, pois. E fiquemos vigilantes. Porque está a chegar a Hora do levantamento Mundial, planetário, das maiorias oprimidas e empobrecidas. E com esse levantamento, o fim da Idolatria. A Religiosa. E a outra, do Poder Financeiro Global. Está a chegar a Hora do Humano, plena e integralmente Humano.

 

Capítulo 39

 

1 O nosso tempo continua a sofrer de um excesso de Deus, em detrimento do Ser Humano. Há um desequilíbrio total nos pratos da balança. O prato de Deus anda sempre no fundo, tanto é o peso que transporta. Deus anda excessivamente na boca de toda a gente. E, lá, onde há um excesso de Deus, há sempre um défice do Ser Humano. O facto, só por si, é revelador de que o Deus de que tanto se fala e que faz desaparecer o Ser Humano é um Ídolo. E tanto é Ídolo na boca e nos escritos dos que se dizem crentes, como na boca e nos escritos dos que se dizem ateus. Nem os filósofos, do passado e do presente, que hoje são tidos como mais conceituados e por isso também mais estudados nas Universidades da Europa e do resto do Mundo, confessionais e laicas, chegaram, alguma vez, até hoje, a dar-se conta desta verdade: Afinal, Deus, na boca de crentes e de ateus, não passa de um mero conceito sem conteúdo político, por isso, sem conteúdo humano. Serve para todas as circunstâncias, fica bem em todas as ocasiões, tanto nas horas de dor e de angústia, como nos momentos de felicidade e de bem-estar, de luto e de perda. É um conceito vazio, tipo pronto-a-usar-na-hora, que toma o conteúdo de cada ocasião. Negam-no, uns, defendem-no, outros e, quase sempre, com fanatismos, da parte dos que negam, como da parte dos que defendem, que podem chegar à violência física, a mais descontrolada e a mais assassina /genocida.

 

2 De um Ídolo se trata. Sempre. Afirmado por crentes, negado por ateus, sempre estamos diante de um Ídolo. Dizer Deus e dizer Ídolo é a mesma coisa. Porque um Deus que a boca humana pronuncia e, porventura, invoca é sempre um Ídolo. Nem os filósofos de renome, tidos como homens do Saber, nomeadamente do Saber-mais-complicado-e-labiríntico, a que só alguns eleitos têm acesso, alguma vez caíram na conta de que estão sempre a pronunciar-se sobre um Ídolo, quando discorrem sobre Deus. Uns assumem-se como filósofos crentes em Deus, outros como filósofos ateus. Uns e outros é sempre de um Ídolo que estão a discorrer. Porque o conceito Deus é um conceito vazio. É um mero conceito. Não passa de um lugar comum que as bocas humanas pronunciam, sempre que lhes dá na veneta e com a maior das sem-cerimónias. Tanto a boca do rico, como a boca do pobre, do carrasco, como da vítima, do crente como do ateu, do papa de Roma como do jogador de futebol, o dos Milhões, tanto a pobre viúva como o juiz ou o advogado, o pároco ou o médico da clínica privada que a explora, tanto a beata que não se afasta do templo como o chefe da Máfia eclesiástica que mantém o templo em funcionamento e, já, como um dado que temos por Incontestado /adquirido /tolerado /aceite por toda a gente.

 

3 É tão generalizada a Idolatria e estamos, desde o princípio da Humanidade, tão mergulhados nela, que tudo passa a ser tido por adquirido e natural. Nunca chegamos a tropeçar ali. E deveríamos tropeçar. Fôssemos da Sabedoria e sempre tropeçaríamos. Mas somos da Idolatria e, por isso, não tropeçamos. E ai das, dos que tropeçarem e disserem o que tem de ser dito, sempre que se tropeça em algo que não deveria estar ali, mas está. E que está como um dado adquirido e até, aparentemente, um dado da natureza das coisas. Porque, depressa têm contra elas, contra eles, toda a gente que, do nascer ao morrer, faz da Idolatria o ar que respira, o pão que come, a água que bebe. E não suporta ouvir dizer que se pode ser-viver e de facto se se é-se vive de outra maneira. E que essa outra maneira, inevitavelmente minoritária, é que é a maneira humana de se ser-viver. Elas, eles, porque minoritários, é que são  sistematicamente olhados /tratados como anormais, loucos, inconvenientes, indesejados na Sociedade. E, por isso, há que correr com elas, com eles. Para que depressa tudo volte ao Normal, à Rotina de todos os dias. Numa palavra, à Idolatria.

 

4 Desde que aceitem o Ídolo, não são os ateus, elas e eles, quem hoje incomoda a Ordem Mundial. Podem negar o conceito Deus, mas, se não tropeçam nunca na Ordem Mundial que ele fundamenta e justifica, são tão vazios quanto o conceito Deus que negam. Hoje, os ateus são tão estimados como os que usam e abusam do conceito Deus. Ou são ainda mais estimados. Pelo menos, nestes tempos que correm, século XXI adiante. Já as, os que, animados pela mesma Fé de Jesus, o filho de Maria, a quem crucificaram na Cruz do Império Romano, inevitavelmente tropeçam na Ordem Mundial que o conceito Deus, confessado ou negado, fundamenta e justifica, incomodam, e de que maneira, inclusive as cúpulas dos profissionais religiosos e eclesiásticos na manipulação do conceito Deus. Felizmente, a Sabedoria não é como a Filosofia. Nem as sábias, os sábios são como as filósofas, os filósofos. Entre a Sabedoria e a Filosofia há uma abismo intransponível. Como há entre as sábias, os sábios e as filósofas, os filósofos.

 

5 A Sabedoria conhece todos esses meandros da Idolatria que o conceito Deus, no seu vazio, sempre faz vir ao de cima, mas, porque é a Sabedoria, não entra nunca por esses meandros. São demasiado complicados e labirínticos para ela. E a Sabedoria alimenta-se da Verdade e da Simplicidade. A Treva, por mais ilustrada que se apresente, é sempre Treva, é sempre labiríntica. A Sabedoria não a frequenta. Não são caminhos que a Sabedoria percorra. A Sabedoria vomita conceitos, porventura, sonantes e pomposos, mas vazios de Humano. E não há nenhum conceito mais vazio de Humano, do que o conceito Deus. Por regra, a Sabedoria nunca pronuncia esse conceito, a não ser para o denunciar como a Perversão institucionalizada, em todo o seu vazio. Já para as minorias do Saber, do pequeno e do grande Saber, desde os porteiros aos proprietários dos respectivos palácios, dos guarda-costas aos padrinhos das respectivas Máfias, laicos e clérigos, da alta finança e do alto Poder Político ou Eclesiástico, o conceito Deus é invocado a propósito de tudo e de nada. É um conceito vazio, mas que faz um jeito do caraças, sobretudo nas horas dos apertos, quando as coisas começam a correr mal e há o risco de até os da base da Pirâmide Social virem a perceber a marosca que o conceito Deus escondia /esconde. É em alturas dessas, que até os santuários de nomeada vêem os seus espaços mais frequentados e os seus cofres-de-esmolas mais recheados. Pelas vítimas e pelos carrascos /verdugos que as fabricam.

 

6 A Sabedoria, por regra, nunca diz Deus. O conceito é tão vazio, que a Sabedoria que se alimenta exclusivamente da Verdade, que é o Maciço da Realidade (e nada mais real e maciço na História, do que os seres humanos, em especial, os milhares de milhões da base da Pirâmide Social, sobre os quais caem todos os dias os detritos e até as fezes das minorias que, na sua opulência e no seu Saber demente-demente, dão corpo ao vértice dessa mesma Pirâmide Social), só pode mesmo vomitá-lo. De modo algum, o faz seu, o reproduz, o pronuncia. Por isso, a Sabedoria é a inimiga número um da Idolatria. A Ordem Mundial que vive e se autolegitima sob o guarda-chuva do conceito Deus, não suporta a Sabedoria. E, sempre que der com ela, neste ou naquele ser humano, prende-a e, se ela persiste em manter-se no seu próprio Caminho, acaba sempre por a matar, de uma maneira ou de outra. Para que as populações e os Povos nunca cheguem a ver a Luz que a Sabedoria é. Não uma Luz, como a da Treva ilustrada, que encandeia e cega, mas a Luz que rebenta como fonte de água viva, no mais dentro de cada ser humano que se lhe abre e assim passa a ver o que a Treva Ilustrada tão habilmente esconde.

 

7 É a Primeira Carta de João que, logo no capítulo primeiro, e na sequência do que também proclama o Evangelho com o mesmo nome, faz esta revelação /revolução Teológica, vista pela primeira vez na História, em Jesus, o filho de Maria, o carpinteiro de Nazaré, nomeadamente, depois que ele deixou tudo e se deixou habitar /possuir integralmente pelo Sopro /Espírito de Deus. Reparem que eu não escrevi Deus. Se o fizesse, estaria a recorrer ao conceito Deus, totalmente, vazio, como tal, ao Ídolo. Escrevi "Sopro /Espírito de Deus". Deixar-se habitar integralmente pelo Sopro /Espírito de Deus, significa que estamos já nos antípodas de Deus, mero conceito, o Nada, o Vazio, o Ídolo. Mero conceito que, como qualquer outro pronto-a-usar-na-hora, está aí à nossa disposição e do qual lançamos mão, sempre que nos der jeito. E são inúmeras as vezes em que nos dá jeito. Só que, por essa via, que é a da Idolatria, do Vazio, do Nada, acabamos iguais ao conceito Deus, também vazios, nadas, menos do que minhocas.

 

8 "Deus é luz e nele não há nenhuma espécie de Treva. Se dizemos que temos comunhão com Ele, mas caminhamos na Treva, mentimos e não praticamos a Verdade." Só que, até para entendermos, correctamente, esta Revelação /Revolução Teológica, precisamos de Sabedoria. Sem a Sabedoria, sempre somos-vivemos-pensamos-interpretamos a Realidade ou o que ouvimos e vemos acerca dela, em chave de Idolatria, de Mentira, de Vazio, de Ídolo, de Deus mero conceito, mero Ídolo. E não passamos de mais do mesmo. A Lei da Inércia, porventura, a mais perversa e descriadora do Humano, é por aí que nos quer levar /arrastar. Ela é o nosso Tentador maior e mais persistente. Ou lhe resistimos e somos progressivamente Humanos, ou deixamo-nos levar por ela e desaparecemos como Humanos, ficamos Ídolos, Vazios, Nadas, meros Conceitos.

 

9 Não falta por aí quem, depois de ter passado horas, dias, semanas ou meses, num forte estado de coma, com tudo de pré-morte, venha dizer depois que, durante esse período, viu uma luz e que ela o inundou de paz e de bem-estar. Ficam, até, quase decepcionados, por terem recuperado a saúde e regressado à vida do dia a dia. Aquela luz e aquele bem-estar eram bem melhores do que a realidade do quotidiano. Daí a pensar-se que, nesses tempos de coma profundo, em estado de pré-morte, a pessoa viu Deus é um passo. E ai de quem lhes diga que o que viram foi apenas o que o cérebro delas, nesse estado de pré-morte, produziu e lhes fez ver. Pensam que a expressão joânica, "Deus é Luz e nela não há nenhuma espécie de Treva", é de luz nesse sentido físico e fora de nós que fala. Não é. Fosse, e seria ainda Deus, como mero conceito vazio, como Ídolo, como Nada, como Idolatria.

 

10 Deus é luz, mas sempre em oposição a Treva. O que significa, logo à partida, que para sermos de Deus-Luz, temos de estar dispostos a viver por toda a vida em conflito com Deus, mero conceito vazio, Ídolo, Nada, Idolatria. A Treva, por mais ilustrada que seja, sempre nos impede de vermos a Realidade, sobretudo, os seres humanos, concretamente, cada ser humano que cada uma, cada um de nós é para si própria, si próprio, e cada ser humano que cada uma, cada um dos outros seres humanos é para nós próprias, nós próprios. Deus é Luz, em oposição a Treva, é infinitamente mais belo e profundo. E politicamente mais comprometedor, também. A Luz que Deus é não está aí fora de mim, muito menos diante de mim a cegar-me, como faz a Treva ilustrada. Sempre rebenta como fonte de água viva no mais íntimo de mim. E logo faz de mim uma presença que ameaça a Treva Toda-Poderosa e que esta não suporta, por isso, tem necessidade de me perseguir, prender, denegrir e até matar.

 

11 O Ídolo, o Nada, o Vazio, Deus como mero conceito, serve às mil maravilhas para que os da Ordem Mundial, sob a forma de ateus, e /ou sob a forma de crentes-religiosos, levem por diante, sem contestação radical (= que vai à raiz) todo o Perverso que ela é. E quando, inopinadamente, de onde menos se espera, surge alguém que recusa a Idolatria e a denuncia, a tempo e fora de tempo, logo cai em desgraça e a sua vida fica feita num oito. Porque é alguém que vê toda a Treva que é Deus, mero conceito vazio, o Nada, o Ídolo. E toda a Treva /Mentira Organizada que é a Ordem Mundial que tem a sua origem e a sua justificação em Deus, mero conceito vazio, Ídolo, Nada, numa palavra, Idolatria. Deus, mero conceito, Ídolo-Idolatria, não suporta Deus-Luz que desperta no mais íntimo de alguém, como a fonte da Sabedoria que faz plena e integralmente Humanos os seres humanos e os povos. E, se os não faz mais depressa, é porque Deus, mero conceito vazio, Nada, Ídolo-Idolatria, está aí, juntamente com a sua Ordem Mundial a impedir que vá por diante a Revelação /Revolução Teológica que Deus-Luz, Criador de filhas e de filhos da mesma estatura de Jesus, o seu filho muito amado, está apostado em levar por diante.

 

12 É a mesma Carta Primeira de João que sublinha, sempre contra Deus, mero conceito vazio, Nada, Ídolo /Idolatria, que quanto mais ele se afirma e impõe nas sociedades, mais faz desaparecer e extinguir os seres humanos: "Não vos admireis, irmãos, se o mundo [Ordem Mundial e seus agentes históricos - Poder Económico-Financeiro, Poder Religioso, Poder Político em cada país] vos odeia. Nós sabemos que passamos da morte para a vida, porque amamos o nossos irmãos. Quem não ama, permanece na morte. (...) Caríssimos, amemo-nos uns aos outros, porque o amor vem de Deus, e todo o que ama nasceu de Deus e chega ao conhecimento de Deus. Aquele que não ama não chegou a conhecer Deus [só chega a conhecer Deus, como mero conceito vazio, o Ídolo, o Nada!], pois Deus é amor. (...) A Deus nunca ninguém o viu; se nos amarmos uns aos outros, Deus permanece em nós e o seu amor chegou à perfeição em nós. (...) Se alguém disser, «Eu amo a Deus», e tiver ódio [= não amar] ao seu irmão, é mentiroso, pois aquele que não ama o seu irmão a quem vê, não pode amar a Deus a quem não vê."

 

13 Vivemos um tempo de excesso de Deus, mero conceito vazio, Ídolo, Nada. E quanto mais Deus, assim, mero conceito vazio, Ídolo, Nada sobre a Terra, menos Ser Humano sobre a Terra. A Filosofia e a Teologia das grandes Universidades, das Escolas Secundárias e das Catequeses paroquiais, dissertam muito sobre Deus, apenas como mero conceito vazio, Ídolo, Nada. Quanto mais Ele se diz, menos de diz o Ser Humano. A Trindade de Poderes que está ao leme da Ordem Mundial é de Deus, mero conceito vazio, Ídolo, Nada, que fala /anuncia /cultua nos templos, santuários, nas catedrais de Futebol, o dos Milhões, nas Grandes Superfícies. Deus Criador de filhas, filhos até chegarem à mesma estatura de Jesus, não tem lugar nesta Ordem Mundial gerida pela Trindade de Poderes, inclusive, do Poder Religioso /Eclesiástico. Só mesmo Deus, mero conceito vazio, Ídolo, Nada. Ora, sob o domínio do Ídolo, da Idolatria, não há lugar /espaço /oportunidade para os seres humanos de carne e osso. Muito menos, para os Afectos Partilhados, para as Mesas Compartilhadas.

 

14 Ateus e crentes, se não tropeçam numa Ordem Mundial assim, são todos igualmente idólatras. Nem são crentes, nem são ateus. São Idólatras puros e duros. Assassinos dos seus irmãos aos quais nem sequer reconhecem como seres humanos, muito menos, como seus irmãos. Será que nos deixamos habitar pela Sabedoria e nascemos de novo, das Vítimas, dos da base da Pirâmide Social que, neste momento histórico, estão a apanhar com todos os detritos e até com as fezes dos que estão no vértice da mesma Pirâmide?! Mas será que já nem vemos quanto esta Conversão do Ídolo a Deus Criador de filhas, filhos, da mesma estatura de Jesus, é urgente, imperiosa, necessária, para sermos, plena e integralmente, Humanos, por isso, universalmente sororais /fraternos?!

 

Capítulo 38

 

1 O desemprego em massa está aí a matar aceleradamente os povos da Europa e, por arrastamento, os povos do resto do Mundo. Porque, quando a Europa espirra, os povos do resto do Mundo já estão de pés para a cova. Fomos /somos conquistadores /ladrões dos povos do resto do Mundo e só por isso é que enriquecemos. O nosso luxo é o lixo do resto do Mundo. A nossa riqueza é a pobreza do resto do Mundo. E, no nosso Cinismo europeu /ocidental, ainda nos orgulhamos do nosso elevado nível de vida, que não tem a mínima comparação com o do resto do Mundo. Semelhante nível de vida é a nossa vergonha, o nosso Acusador, o nosso Juiz, mas nós ainda nos orgulhamos. Querem mais eloquente prova de que nós, povos europeus /ocidentais, somos, de facto, dementes-dementes, totalmente despojados de Sabedoria, de entranhas de Humanidade? Fomos /somos conquistadores /ladrões dos povos do resto do Mundo. Fomos /somos também assassinos dos povos do resto do Mundo. E, neste século XXI, somo-lo ainda mais do que nos séculos anteriores. As chamadas descobertas e conquistas de quinhentos e dos séculos seguintes, comparadas com o que hoje continuamos a fazer aos povos do resto do Mundo, não passam de um tosco ensaio artesanal.

 

2 Hoje, Século XXI, conquistamos, roubamos, matamos em massa, e de forma sofisticadamente científica, os povos do resto do Mundo. Somos Europa /Ocidente Caim. E ainda nos orgulhamos disso. O romance CAIM (Editorial Caminho, 2009), do nosso Nobel da Literatura, José Saramago, não é esse orgulho que diz /proclama ao resto do Mundo? Não entroniza, como um deus, o Grande Ídolo, o Estuprador /Assassino, sem nunca esboçar o mais pequeno gesto de respeito pelas suas inúmeras Vítimas, representadas no Abel bíblico, concretamente, todos os povos que nós já crucificámos e continuamos, hoje, aí, despudoradamente, a crucificar com muito mais eficiência e cinismo do que no passado? Viram /ouviram algum intelectual de referência da nossa praça europeia /ocidental levantar-se contra esta exaltação literária do Estuprador /Assassino, do Estupro /Assassínio que é o Grande Capital Acumulado /Concentrado? E as próprias vítimas na Europa e no resto do Mundo, já reduzidas a coisas-sem-alma, a simples mercadoria, a robots, não correram, até elas, a comprar o livro e a exaltar como seu Herói o Assassino?

 

3 Depois de tudo isto, o novíssimo e super-anunciado gesto de aparente bondade que a Fundação Saramago acaba de assumir, como uma Jangada de Pedra a favor dos sobreviventes do recente genocídio do Haití e da reconstrução do país-carregado-de-jazigos-de-petróleo, no seu subsolo, não tem tudo de obsceno e de crueldade, de cinismo e de humilhação? Primeiro, faz-se implodir o país, à hora mais conveniente e previamente combinada, causa-se, com essa programada Implosão, aquele genocídio de medonha dimensão e, depois, promove-se uma Jangada de Pedra para a sua reconstrução, já na mira do petróleo que jaz no seu subsolo? Não é o Grande Capital Acumulado e Concentrado a levar por diante a sua perversa estratégia de crescer, crescer, crescer, sem nunca olhar a meios, e sempre sem quaisquer escrúpulos? Mas então ainda pensamos que o desenvolvimento científico, promovido e financiado pelo Grande Capital, é para fazer crescer as pessoas e os povos? Não sabemos que as pessoas e os povos são /somos cada vez mais excedentários no Planeta? Não sabemos que o Grande Capital, como Descriador do Humano que é, está apostado em fazer desaparecer da face da Terra os seres humanos, e trabalha dia e noite para esse fim? Não sabemos que nem sequer como consumidores, os seres humanos lhe interessam? O seu ódio aos seres humanos é mortal. E enquanto ele não erradicar os seres humanos da face da Terra, não tem sossego. Para isso nasceu e veio ao Mundo: para Descriar o que haja de Humano nos seres humanos e nos povos. Quer reduzir-nos a meras Mercadorias de compra-e-venda. Têm dúvidas?

 

4 Neste cenário europeu e global, onde estão /param os nossos intelectuais? Sobre o que escrevem os "colunistas" de renome nos jornais do país e da Europa? Limitam-se a derramar lágrimas de crocodilo? Já nem isso. E os jornalistas dos grandes media o que dizem e o que mostram nas suas reportagens em directo? Não fazem apenas espectáculo com a dor e o sofrimento das vítimas? Não pairam como abutres sobre aquele Cemitério de seres humanos que, com a Implosão selectiva e genocida que, como Ocidente, provocámos no Haití, morreram, às dezenas e dezenas de milhares, cruelmente asfixiados sob os escombros? Quem disse que se tratou duma catástrofe natural? No século XXI, ainda há catástrofes naturais? Não são todas obra das nossas mãos, dos nossos cérebros, das nossas mentes dementes-dementes, dos nossos sistemas económicos, financeiros, dos nossos sistemas de poder político e dos nossos sistemas de poder religioso /eclesiástico? Não são todas provocadas pela febre do Lucro, da Conquista, do Roubo, do Saque que faz correr o Grande Capital? Não são todas desencadeadas pelo Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado? Somos ainda tão ingénuos e cegos, que não vemos esta mega-Operação de Descriação em curso no Planeta? Nem o massacre genocida do Haití abre os olhos das nossas mentes? Então não sabemos de que é capaz o Grande Capital Acumulado /Concentrado? Preferimos assobiar para o ar e dissertarmos sobre São Tomás de Aquino, a propósito do sétimo centenário da sua morte, ou sobre a última encíclica do papa Bento XVI e ficarmos por palavras sem sangue, sem lágrimas, sem Espírito, acerca daquele documento papal, que mais não é do que o canonizador da Idolatria do Ocidente?! Pobres intelectuais-minhocas portugueses e europeus /ocidentais!...

 

5 Enquanto o Grande Capital conquistou e roubou, sequestrou e escravizou, matou e dizimou os povos do resto do Mundo, e nós, aqui na Europa /Ocidente, cantávamos e ríamos, desfrutávamos de algumas migalhas que ele deixava cair nas nossas mesas, não faltou quem, mesmo entre os intelectuais da nossa praça, eclesiásticos graúdos incluídos, achasse que o Capitalismo era a salvação e que fora do Capitalismo só haveria Miséria, Fome, Subdesenvolvimento, Asfixia, Morte. Semelhante discurso intelectual e semelhante sistema económico-político revelam à saciedade que a Demência humana ocidental nunca havia ido tão longe. No meio do hiper-Desenvolvimento material europeu /ocidental, do qual desfrutávamos algumas migalhas (uma minoria de privilegiados desfrutava mais do que migalhas e essa era composta pelos que estavam /estão nos lugares-chave dos países da Europa e do Ocidente, e também dos países do resto do Mundo), nunca nos demos conta do intrinsecamente Perverso que era, é, o Sistema Capitalista. Em vez disso, foram, até, inúmeras as vozes que cantaram loas ao Sistema Capitalista. Inclusive, por parte das cúpulas das Religiões e das Igrejas, que vinham a terreiro ensinar que a Prosperidade material era, é, sinal de especial bênção de Deus!!!

 

6 E não se pense que este Discurso e esta Prática já foram abandonados, por parte das cúpulas das Religiões e das Igrejas. De modo algum. Todas elas, sem excepção, estão ao serviço do Grande Ídolo que é o Grande Capital que financia as suas basílicas, catedrais, palácios episcopais, residências paroquiais, IPSS's, meios de comunicação de massas confessionais. As populações e os povos pensam que tais cúpulas estão consagradas a tempo integral a servir Deus e olham-nas como seres humanos à parte, ungidos para servirem no Altar e no Templo. Têm-nas como seres humanos sagrados, enviados por Deus, credores de todo o respeito, de cujas bocas só saem palavras de verdade e de bondade. Na sua ingenuidade e cegueira, as populações e os povos da Terra chegam a confiar-lhes as filhas, os filhos, para que elas as, os catequizem e eduquem nas suas paróquias, nos seus colégios, nas suas universidades. Assinam e lêem as suas publicações periódicas, jornais e revistas, os seus livros, escutam as suas rádios confessionais, visionam os seus tempos de antena nas tvs e sintonizam os seus canais de televisão, ao mesmo tempo que frequentam os seus cultos. Para as populações e os povos são todas seres humanos acima de qualquer suspeita. E por isso seguem fielmente as orientações que elas lhes dão.

 

7 Tudo, porém, está a ruir. O Desemprego em massa e a crescer de dia para dia (nunca mais voltaremos ao pleno emprego, por mais que nos digam que sim) está, finalmente, a mostrar a verdadeira face do Grande Capital, do Capitalismo. Ele sempre foi intrinsecamente perverso, mesmo quando, na Europa /Ocidente, garantia trabalho remunerado e com alguns direitos às pessoas que contratava, mas, enquanto as nefastas consequências que causava estavam confinadas aos povos do resto do Mundo, a Europa /Ocidente continuava a tecer loas ao Capitalismo. Nem sequer víamos (não queríamos ver) que as nossas migalhas eram a fome e a morte pela fome e por doenças curáveis de milhões e milhões de crianças e adolescentes por dia. E vivemos na maior, também na maior das alienações, como se vivêssemos no melhor dos mundos. O Grande Capital era o Deus que nos valia. Garantia-nos trabalho remunerado, até cedeu, durante anos, às nossas reivindicações por determinados direitos e melhores condições de vida. A Europa /Ocidente era o paraíso. Havia os outros povos do resto do Mundo - a esmagadora maioria - que viviam na Miséria, sub-viviam, mas isso era porque - dizíamos com Cinismo! - não queriam trabalhar, eram preguiçosos, tinham outro tipo de cultura, seguiam outros deuses menores que não o Grande Capital.

 

8 Na nossa cegueira e na nossa alienação que são tremendas e, porventura, já irreversíveis, pelo menos durante as próximas gerações, nunca demos conta que o nosso Hiper-Desenvolvimento era, é, o Híper-Subdesenvolvimento dos povos do resto do Mundo. Pior do que isso. Nunca nos demos conta de que o Grande Capital é a Mentira cientificamente Organizada, é a Exploração cientificamente organizada, é o Homicídio cientificamente organizado. Quando mente, explora /rouba e mata faz o que é da sua natureza fazer. Não é capaz de fazer senão isso. Para isso ele nasceu e veio ao mundo. De modo que esperar dele Salvação, entranhas de Humanidade, é o mesmo que esperar que o Lobo amamente o Cordeiro e, depois dele desenvolvido, não o coma. O Lobo, animal, ainda pode, num ou noutro caso, chegar a comportar-se assim, se domesticado pelos Humanos. Mas o Grande Capital nunca chegará aí. Porque é indomesticável pelos Humanos. Ele é que domestica, submete, aliena, descria os Humanos. Em linguagem Teológica, a de Jesus, que é a Sabedoria feita Fragilidade Humana, Pão-Partido e Repartido, Sangue-Derramado-Entregue pela vida do Mundo e dos povos do Mundo, o Grande Capital é o Ídolo dos ídolos, o Ídolo-pai de todos os outros ídolos menores. Como tal, exige sacrifícios contínuos em sua honra, e sacrifícios preferencialmente humanos. Enquanto houver um ser humano sobre a Terra, ele não descansa, enquanto o não comer /devorar /sacrificar.

 

9 É uma questão de vida ou de morte. O Grande Capital sabe que os seres humanos, ou são domados, domesticados, subjugados, descriados por ele, ou eles acabam por o derrubar a ele. E, desde que nasceu, o Grande Capital colocou-se ao comando do Mundo. E é inconvertível. A luta é duélica. E o Grande Capital sairá sempre vencedor, até que os seres humanos, na sua maioria, resistam às suas mil e uma tentações e seduções. E permaneçam seres humanos desde a primeira Explosão que é a concepção de cada um de nós, no útero materno, à Explosão Final, que é a Morte /Ressurreição de cada um de nós. A luta é duélica. Titânica. Até hoje, o Grande Capital levou sempre a melhor, porque até conseguiu seduzir os seres humanos que se dizem de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, que eles confundem com o mítico Cristo do Império, primeiro, Romano, hoje, o Império Financeiro Global. E conseguiu seduzir também até os outros seres humanos que se dizem ateus. Uns e outros, ainda hoje, se pelam todos por alcançarem um lugar no sistema dele, nem que para isso tenham de lhe vender a alma, a identidade, as filhas, os filhos, a própria vida.

 

10 E, no entanto, o Grande Capital está ferido de morte. E irá morrer /desaparecer, porque o ferimento que o atingiu não é só mortal. É também ferimento incurável. De modo que esta é, está a ser, a sua Hora Maior na História. Nunca, antes, o Grande Capital esteve tão omnipotente, tão omnipresente e nunca foi tão omnisciente. Está no zénite. No apogeu. Por isso, esta é também, surpreendentemente, a Hora dos Povos Crucificados, das Vítimas. Porque para grandes males, grandes remédios. O Desemprego em massa e irreversível, na Europa /Ocidente, como nos outros países do resto do Mundo, é hoje o pé de barro do Grande Capital, por onde ele vai cair. Desta vez, como nunca antes na História, os povos do Mundo, todos os povos de todo o Mundo, podem entender todo o Perverso que o Grande Capital e o seu Sistema Capitalista são. A perversão é tanta e tal, que até o emprego que, até hoje, ele garantiu, pelo menos nos países da Europa /Ocidente, é, da sua natureza, perverso. Pareceu-nos bom e foi entendido como tal nas gerações que nos precederam. Mas é intrinsecamente perverso. Basta ter por pai /patrão o Grande Capital. Ora, ao trabalharmos para o Grande Capital, fizemo-lo engordar, crescer, multiplicar-se, acumular-se, concentrar-se. E tudo isso deu no que agora está aí bem à vista de toda a gente, também à vista da gente da Europa /Ocidente. Fomos nós, com o nosso trabalho por conta dele, um trabalho que tínhamos por bom e que era, é, intrinsecamente perverso, que o engordamos, o fortalecemos, o acumulamos, o concentramos. Fomos nós os seus obreiros menores, mas sem os quais ele, Grande Capital, nunca se teria multiplicado, acumulado, concentrado.

 

11 Trabalhar por conta do (Grande) Capital, é, afinal, um lento suicídio. Sempre foi. Sempre será. Com isso, estamos a alimentar e a fortalecer o Lobo que, à distância, nos irá comer /devorar /sacrificar. Sempre houve vozes que nos alertaram para esta Perversão. Fizemos ouvidos de mercador. Fomos cínicos com elas. Denegrimo-las e aos seus nomes. E, no entanto, as vozes eram de Profecia, de Apocalipse. Denunciavam /Alertavam /Revelavam. Fomos ainda mais longe na nossa ingenuidade /perversidade. Matámos os profetas. E fizemos viver o Lobo, alimentamos o Lobo, adoramos o Lobo. Até que ele cresceu tanto, tornou-se tão omnipresente, tão omnisciente e tão omnipotente, que hoje é a nós, Europa /Ocidente, que está também a comer, sem dó nem piedade, como, nestes últimos séculos, comeu os povos do resto do Mundo, sem que nós tivéssemos feito caso. Agora, chegou a nossa vez de sermos comidos. E, ou nos organizamos todos e lhe resistimos duelicamente, ou perecemos como pereceram as populações do Haití. Se não lhe resistimos, a Europa será, a breve prazo, um Haití à escala europeia /ocidental. Não ficará dela pedra sobre pedra.

 

12 O Haití está aí a gritar-nos este Alerta, como a sentinela ferida que ainda consegue gritar /advertir. O que aconteceu lá não foi uma catástrofe natural. Foi uma Implosão provocada pelo Grande Capital. Tudo foi programado ao segundo e ao milímetro. Não!, não no-lo dizem, porque os grandes media são do Grande Capital. E porque os intelectuais da nossa praça andam entretidos com o sexo dos anjos, na versão século XXI, que dá pelo nome de "casamento homossexual". Até já estão a programar manifestações nacionais de católicos contra esse tipo de casamento. A cegueira e a ingenuidade não podem ser maiores. Nem o Desemprego em massa abre os olhos aos cegos e aos ingénuos. Do que hoje se trata, senhoras, senhores, é de resistirmos ao Grande Capital, organizarmo-nos para o amarrarmos /derrubarmos /decapitarmos. Esta duélica tarefa é trabalho para muitas gerações, a menos que, proximamente, consigamos que os melhores cérebros, que hoje estão ao serviço dele, passem em massa para o lado dos povos crucificados por ele, dos povos da fome, dos povos sem mesa e sem abrigo. Seria a grande Páscoa dos Povos. Mas, sejamos realistas: A História ainda não está madura para semelhante Páscoa Planetária. É preciso ainda muito trabalho, durante sucessivas gerações. Comecemos, já!

 

13 Atiremo-nos, pois, ao trabalho com entusiasmo (= com Deus Criador dentro de nós). Não mais ao trabalho comprado pelo Grande Capital que esse só o faz crescer a ele e leva-o a ser cada vez mais Capital Acumulado e Concentrado. Atiremo-nos ao trabalho Político e Económico Maiêutico, o de Jesus, o trabalho de Deus Criador de filhas, filhos. Esse mesmo trabalho a que Jesus se entregou, sábados e domingos incluídos. Porque trabalhar para fortalecer ainda mais o Grande Capital é igual a um suicídio colectivo. Está aí hoje bem à vista. Trabalhar, sim, e sem descanso, mas para amarrarmos /derrubarmos /decapitarmos o Grande Capital, antes que ele nos descrie de vez como Humanos. Jesus entendeu isto, por volta do ano 27 desta nossa era comum, na sua Galileia. E meteu de imediato mãos à Missão de abrir os olhos das mentes e das consciências das pessoas /populações, de fazer andar os tolhidos, de libertar os oprimidos pelo Medo. E a quem se lhe opunha e o acusava de subversivo, de conspirativo e de blasfemo, Jesus sempre se justifica, assim: "Meu Pai trabalha sempre e eu também trabalho".

 

14 Só que, para podermos ser, hoje e aqui, outros Jesus e trabalharmos como ele e com ele, temos, primeiro, de mudar de Deus: temos de deixar o Grande Ídolo, que é o Grande Capital, e abrirmo-nos como meninos ao Deus Criador de filhas e de filhos, o Deus de Jesus. Porque o Grande Capital é pai, mas de Mentira. E, em lugar de fazer viver, mata, porque é pai assassino, é o Assassínio e a Mentira organizados em Sistema que, para cúmulo, se faz passar por Deus aos olhos dos povos do Mundo. E tem conseguido enganar até os Ateus que, como José Saramago, só o são do Deus /Ídolo das Religiões e das Igrejas, porque servidores fiéis do Grande Ídolo que lhes dá Privilégios e Prémios, por exemplo, o Prémio Nobel da Literatura 1998 (José Saramago), o Prémio Pessoa 2009 (Manuel Clemente, Bispo do Porto) e o Prémio Inês de Castro 2009 (Padre Tolentino Mendonça). Sabedoria é preciso!

 

Capítulo 37

 

1 Poucas são as pessoas, mesmo entre as que regularmente lêem /estudam a Bíblia, ao nível das paróquias católicas e protestantes e ao nível das chamadas Testemunhas de Jeová, que sabem que, no livro do Génesis, há dois relatos distintos do mito das origens, que se convencionou chamar "Dilúvio". Consequentemente, ignoram também que entre os dois relatos há um intervalo de tempo, num total de cerca de 400 anos, durante os quais se sucederam bastantes gerações. A primeira versão, a mais antiga no tempo, é mais conhecida por relato Javista e surge, quando a casa real de David /Salomão precisava de se afirmar sobre as demais tribos de Israel e sobre os cananeus vencidos, que haviam sobrevivido à invasão e ocupação do seu chão, por parte das tribos hebreias, oriundas do deserto. A segunda versão é escrita no final do exílio da Babilónia, quando Israel estava manifestamente desfeito, sem mais vontade de prosseguir com a vida para diante. Era, por isso, o tempo da grande depressão colectiva em que o exílio de 70 anos havia deixado o povo de Israel. O país destruído, o próprio Templo mandado construir, 400 anos antes, por Salomão e que era o orgulho dos hebreus, estava totalmente por terra, não em resultado de um abalo sísmico, mas da invasão dos exércitos babilónicos e que não deixaram nada de pé nem pessoas a morar no país, a não ser os Ninguém de Israel. Deus, afinal, não passava de uma falácia, no dizer de muitos. Ou de um justiceiro /castigador dos pecados cometidos, no dizer de muitos mais. De modo que viver já não tinha mais sentido.

 

2´Quem lê o Génesis tal e qual como ele hoje se nos apresenta, pode estranhar que haja na narrativa do mito "Dilúvio" múltiplas repetições. Mas nem por isso conclui daí que as repetições se devem ao facto de a narrativa que hoje se nos apresenta como uma só, ter sido escrita, a partir de dois relatos distintos e quase contraditórios entre si. O facto, entretanto, não retira credibilidade ao livro do Génesis, bem pelo contrário. Dá-lhe ainda mais credibilidade. Revela, só por si, que para os autores da Bíblia, a vida vivida na História é sempre muito mais importante do que o texto bíblico. Revela que o texto bíblico nasce da vida vivida na História, e como tentativa de a entender nas suas múltiplas dores e contrariedades, alegrias e oportunidades. E entendê-la, para a transformarmos e nos transformamos juntamente com ela. Até, finalmente, estarmos à altura de a conduzirmos /pilotarmos de forma humanamente saudável, sábia. Revela, igualmente, que mais importante do que o texto bíblico é a vida vivida dos povos e das pessoas que "fazem" os povos. E a vida, junto com todas as suas circunstâncias de espaço e de tempo, económicas /financeiras, políticas, sociais, culturais /religiosas.

 

3 Esta constatação é decisiva para quem, hoje, lê a Bíblia, porque, quando a lemos, temos de ter sempre presente que o nosso viver como povos e como pessoas que "fazem" os povos de cada tempo e lugar, é sempre mais importante do que o texto da Bíblia. E, até, para a Bíblia ser para nós uma mais valia, temos de ser capazes de ler-escutar-interpretar o texto bíblico, sempre a partir do nosso viver hoje e aqui e bem metidos no nosso viver hoje e aqui, ao mesmo tempo que precisamos de conhecer bem como era o hoje e aqui do viver dos povos e das pessoas que "faziam" os povos, quando o texto em causa foi escrito. Sem esta postura, caímos com a maior das facilidades nos chamados fundamentalismos bíblicos e nos fanatismos. Isto é, o texto passa a sobrepor-se à vida, torna-se um Ídolo ao qual chegamos a sacrificar a nossa própria vida, a nossa liberdade e a nossa consciência crítica. Quem não vê o grande défice de vida de qualidade, de liberdade, de maioridade e de consciência crítica nas pessoas e nos povos que vivem sob a influência da Bíblia, lida-escutada-interpretada pelas minorias privilegiadas das Igrejas todas e dos anciãos das Testemunhas de Jeová?!

 

4 Os fundamentalismos /fanatismos bíblicos partem sempre do texto bíblico para a vida, e não, como sempre deverá ser, do nosso próprio viver hoje e aqui, e do viver dos povos no seio dos quais o texto bíblico nasceu, para o texto bíblico. Quando assim é, bem se pode dizer que melhor fora não lermos nem ouvirmos ler a Bíblia. Porque, com esse tipo de postura, a Bíblia transforma-se numa arma de matar a vida dos povos e das pessoas que "fazem" os povos, em lugar de ser palavra que potencia a vida /o viver dos povos. Infelizmente, as Igrejas todas e as Testemunhas de Jeová, mais ainda do que as Igrejas todas juntas, é mais por estas águas do Obscurantismo, do fundamentalismo /fanatismo e da idolatria do texto bíblico que navegam e, por isso, atrofiam /matam os povos e as pessoas que "fazem" os povos. E não se pense que os "chefes" das Igrejas e da Congregação Testemunhas de Jeová agem assim, por ignorância. Só por ingenuidade, podemos pensar assim. Eles agem assim, porque lhes interessa, e aos outros "chefes" dos povos, terem povos e pessoas tolhidos, tolhidas, aterrorizados, aterrorizadas, politicamente desmobilizados, desmobilizadas da História, totalmente, à mercê deles e de outros que tais, minorias espertalhonas que não olham a meios para perpetuarem o seu Poder e os seus Privilégios sobre as maiorias, condenadas a um quotidiano sem saída.

 

5 Por ocasião de catástrofes de grande dimensão, com tudo de "dilúvio" bíblico, a Sabedoria tem sempre de sobrepor-se ao Saber que, quando recusa converter-se em Sabedoria (= um Saber ao serviço da libertação e da ressurreição dos Crucificados do Mundo, em vez de Saber ao serviço dos carrascos que as, os fabricam e ao serviço dos seus Sistemas), é sempre intrisecamente demente-demente. Só que, para mal dos povos e do próprio Planeta, isto não tem acontecido. Pelo contrário. As leituras fundamentalistas e fanáticas do mito bíblico das origens , conhecido por "dilúvio", que têm sido feitas, ao longo de todos estes séculos de Cristianismo, compreendido, ele próprio, e vivido sobretudo como mítico e fanático, têm sido mais desastrosas do que as grandes catástrofes propriamente ditas, por mais medonhas que estas historicamente tenham sido, e são-no sempre. A do Haití, por exemplo, ocorrida em meados de Janeiro de 2010, é a última, ao tempo em que escrevo este capítulo 37, de uma lista sem fim de outras catástrofes, todas medonhas, que a precederam. Todas, quando ocorreram, foram, duma maneira geral, lidas e interpretadas à luz do mito bíblico das origens, mais conhecido por "dilúvio". Pelo menos, no universo social onde a Bíblia continua a marcar presença, a ser lida e tida como uma referência.

 

6. E ninguém intelectualmente honesto, pode dizer que este uso fundamentalista e fanático da Bíblia tenha sido uma mais-valia para os povos do Planeta Terra e para as pessoas que "fazem" os povos, uma geração após outra. Não tem sido. E não o tem sido, porque os "chefes" das Igrejas todas e da Congregação das Testemunhas de Jeová (O Alcorão, dos Muçulmanos, ainda faz muito pior!), junto com os "chefes" das nações, ciosos, todos, do Poder e dos Privilégios que mantêm sobre os povos e as pessoas que "fazem" os povos, são absolutamente incapazes de um mínimo de Sabedoria. O máximo aonde conseguem chegar é ao Saber, uns mais, outros menos, conforme os cargos que ocupam dentro do Sistema, porque o Saber vem das escolas e das universidades, católicas incluídas, e basta ter-se oportunidade de acesso a essas instituições e aproveitá-la com mais ou menos sucesso.

 

7 Aliás, chegados ao Século XXI, a oportunidade de acesso às escolas e às universidades é  alargada - até é obrigatória! - à maioria das filhas, dos filhos dos povos e das pessoas que "fazem" os povos que vêm ao mundo. Pelo menos, no chamado Mundo Ocidental e ocidentalizado. Porque hoje o Poder e os Privilégios das minorias, para se perpetuarem sobre as maiorias, carecem de mão de obra especializada, escolarizada, conhecedora /sabedora de tecnologias de ponta em constante mutação. Mas, em contrapartida, já não suportam, nem por um instante, a Sabedoria, nem as pessoas habitadas pela Sabedoria, e que se regem no dia  a dia pela Sabedoria. Essas minorias dos Privilégios sabem muito bem que, hoje, não se podem perpetuar no Poder e nos Privilégios sem verdadeiros exércitos de técnicos bem adestrados, velozes e argutos, qual deles o mais veloz e o mais arguto. Mas, ao mesmo tempo, técnicos completamente esvaziados de Sabedoria. Porque a Sabedoria, ao contrário do Saber, para Acontecer nos povos e nas pessoas que "fazem" os povos, exige que eles e elas cresçam de dentro para fora, cresçam no Humano, até se tornarem , pelo menos, da mesma estatura de Jesus, o Humano pleno e integral, que os do Poder e dos Privilégios do seu tempo e país odiaram de morte e mataram na Cruz do Império, quando, depressa, perceberam que ele não alinharia nunca nas suas patranhas /mentiras /idolatrias oficiais e institucionais, pelo contrário, lhes resistia e, a partir de determinado momento, passou, até, a desmascará-las todas como Idolatria, Mentira, Assassínio Organizados em Sistema.

 

8 Esta realidade histórica da primeira metade do século I, na qual Jesus, o filho de Maria viveu, hoje só se alterou para muito pior! Hoje, os povos e as pessoas que "fazem" os povos do Mundo, vivem absolutamente subjugados, subjugadas pelo Império Financeiro Global, de modo que já nem das armas tradicionais os dos Privilégios carecem, para se perpetuarem no comando do Mundo e nos Privilégios. O Império Financeiro Global, hoje, carece apenas de cérebros mais ou menos robotizados, todos muito bem formatados à imagem e semelhança dos computadores de alta definição, com bastante Saber Tecnológico acumulado e concentrado, dedos das mãos e pés cada vez mais velozes, se possível, à mesma velocidade da luz, 300 mil kms por segundo. Os dedos velozes das mãos, para mexerem nas máquinas de refinadíssima tecnologia e acompanharem o frenético ritmo delas; os pés velozes, para correrem atrás da bola do Futebol dos Milhões e, com isso, encherem estádios e mais estádios, em todas as grandes cidades do Mundo, de multidões ululantes, em posturas colectivas com tudo de Inumano, de Sado-masoquismo, de Demência-Demência, sem nenhuma Criatividade, sem nenhuma Capacidade de Decisão, sem nenhum Protagonismo, para lá do da Demência, sem nenhuma Arte, sem nenhum Poema, sem nenhum Belo. Apenas a Imbecilidade levada ao extremo, o Rebanho levado ao Extremo, a Alienação levada ao extremo!

 

9 Tivesse havido Sabedoria na leitura-escuta-interpretação do texto bíblico do Génesis, no que respeita ao mito das origens conhecido por "Dilúvio" e, certamente, a nossa Sociedade, hoje, seria outra, muito outra. Mas não houve. As cúpulas das Igrejas, de todas as Igrejas e, mais recentemente, das Testemunhas de Jeová, são, entretanto, as grandes responsáveis pela verdadeira catástrofe Humana Global que a leitura fundamentalista e fanática desse mito bíblico das origens causou nos povos e nas pessoas que "fazem" os povos. Por sinal, uma leitura-interpretação, já com três mil anos, pois vem da casa de David /Salomão e já, então, pela mão /boca dos sacerdotes do Templo de Jerusalém que Salomão mandou erguer nas proximidades do seu palácio real e a cujos cultos solenes ele próprio presidia como rei, o filho de Deus na Terra, como então os reis eram olhados e tratados pelos respectivos súbditos! Infelizmente, não houve Sabedoria, nem pôde haver. E nunca haverá Sabedoria, enquanto a leitura-escuta-interpretação deste mito bíblico das origens, conhecido por "Dilúvio", continuar a ser feita pelos mesmos sacerdotes /pastores /elites Privilegiadas, e pelos que, em cada geração, lhes sucedem na função, no Poder e nos Privilégios.

 

10 Custa-nos os olhos da cara ter de o reconhecer, a até achamos que quem, o reconhece e, como sentinela na cidade, nos alerta, para isso, só pode estar louco - não foi o que, no seu tempo e país, disseram, familiares incluídos, de Jesus, por ele o ter feito sem que a voz lhe tremesse?! - mas a verdade é que a Sabedoria não frequenta, nunca frequentou, nunca frequentará os locais do Poder e dos Privilégios, nem os locais onde se preparam pessoas para virem a servir nesses locais, quando os que agora lá estão, tiverem de dar o lugar a outros ainda mais refinados em Saber e ainda mais esvaziados de Sabedoria. Não está nas nossas mãos controlar a Sabedoria. Ela é soberana, não faz parte do Sistema, sempre Acontece e se manifesta fora do Sistema, nas margens, nas periferias, nas Nazarés e nas Galileias de qualquer país ou nação. E, quando aparece nos grandes centros do Poder e dos Privilégios, é para enfrentar duelicamente, ainda que desarmada, os detentores do Poder e dos Privilégios. Só que, se consegue entrar lá, já não sairá de lá viva, porque é inevitavelmente Crucificada. De forma cruenta. Ou de forma simbólica.

 

11 Pois bem, uma leitura-interpretação do mito bíblico das origens, conhecido por "Dilúvio", conduzida e feita pela Sabedoria revela, entre outras coisas, que as grandes catástrofes nunca são puramente "naturais", muito menos, têm, na sua génese, uma decisão de Deus. São sempre e fundamentalmente causadas por certo tido de comportamentos humano-institucionais, por acção e /ou por omissão. Invocar o nome de Deus, em alturas dessas, é meter-se no universo da Idolatria, porque o Deus que se invoca, ou para pedir protecção, ou para pedir perdão, ou para agradecer por se ter sobrevivido às catástrofes, aos "dilúvios", é sempre um Ídolo que quem o faz inventa, imagina, projecta para fora de si. É sempre um Ídolo. Nunca é Deus Criador, esse mesmo que nos habita e é mais íntimo a nós do que nós próprias, nós próprios. Sei que nos custa reconhecer esta afirmação e subscrevê-la /vivê-la. Parece, até, cruel, retirarmos às pessoas, em momentos como esses, esta "consolação", este "refúgio", este "ópio". Mas verdadeiramente cruel é continuarmos a alimentar esta mentira, esta falcatrua, esta Idolatria. Porque, com isto, impedimos as pessoas de crescerem de dentro para fora, de iniciarem o Êxodo da Mentira para a Verdade, da Opressão para a Liberdade, da Menoridade para a Maioridade.

 

12 O primeiro relato do "dilúvio", nascido sob o sopro /espírito do Saber /Poder /Privilégios que se respirava na casa de David /Salomão é por aí que ainda vai, pela via da Mentira, da Idolatria, da Menoridade. Percebe-se bem, no Epílogo do relato. Quem escreve o relato sublinha, a terminar, que Noé, sobrevivente da catástrofe, do "Dilúvio",  "construiu um altar ao Senhor [da casa de David /Salomão e do Templo que este mandou erguer, portanto, um Ídolo] e, de todos os animais puros e de todas as aves puras, ofereceu holocaustos no altar." (Gn 8, 20). Com este pormenor cheio de Idolatria, estava mais do que justificada a casa real de David /Salomão e o Templo que Salomão havia mandado construir e a cujo culto oficial e solene ele próprio presidia, como o filho de Deus, do Senhor, do Ídolo! Os sacerdotes que retocaram todos os textos do Primeiro Testamento, não colocaram aqui este pormenor por acaso. O seu poder sacerdotal e os seus Privilégios saíam mais do que justificados e reforçados! Só que era, é, tudo Idolatria, já que faz crescer o Poder /o Ídolo, e diminuir os seres humanos. E fá-los diminuir, até os pôr a andar de rastos, numa obscena demonstração de Indignidade Humana que nos envergonha e envergonha DeusVivo, cuja glória é que os povos e as pessoas que "fazem" os povos cresçam de dentro para fora, até virem a ser donas dos próprios destinos.

 

13 Curiosamente, o Epílogo do segundo relato mítico do "Dilúvio" que se mistura com o primeiro, e que foi escrito uns 400 anos depois do primeiro, logo após a catástrofe que havia sido a queda da casa real de David /Salomão, a destruição do Templo e da cidade, mais o Exílio de 70 anos na Babilónia, já não fala em altar, nem em holocaustos de animais puros e de aves puras! O Religioso, que é sempre Idolatria, desapareceu. Os sacerdotes também desapareceram. O Sopro que acompanha a Palavra de ordem de Deus a Noé, nessa altura, já não fala de altar, nem de holocaustos sobre ele. Fala de vida, de crescimento das pessoas e dos povos e de multiplicação de pessoas e de povos. Apresenta Deus, não como Senhor [da casa real de David /Salomão e do Templo], mas Deus Criador de filhas, filhos que, com o tempo, hão-de alcançar todas, todos a mesma estatura de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, em quem Deus Criador se revê por inteiro. E volta a repetir a primeira Palavra dirigida ao ser humano, mulher e homem, logo após a sua Criação, no decurso da Evolução, Criação que ainda está aí em curso: "Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra!" (Gn 9,1).

 

14 Quer dizer: Deus, Criador do Humano, ao contrário do Ídolo descriador do Humano, o que quer é ver-nos crescer de dentro para fora, até chegarmos a dispensá-lO a Ele! E isto só se consegue com Política Praticada, com Práticas Políticas Maiêuticas, as únicas que nos fazem crescer em Humano, à medida que fazemos maieuticamente crescer em Humano os demais! Numa Comunhão Global e Cósmica, que é o antónimo do Império Financeiro Global e Cósmico, que a Idolatria promove e alimenta. Nesta postura, cheia de Sabedoria (é a postura de Jesus, à qual ainda se juntam os Duelos Teológicos Desarmados!), veremos que até os "Dilúvios" acabam entendidos como outros tantos desafios a crescermos mais e mais em Humano, em Sabedoria, para efectivamente estarmos à altura de Cuidarmos da Terra, do Planeta, do Universo ainda em expansão e umas das outras, uns dos outros! Vem, Sabedoria /Maioridade! Vade retro, Saber /Poder!

 

Capítulo 36

 

1 Pode soar a blasfémia o que vou escrever-afirmar, logo a abrir este capítulo 36 do Livro da Sabedoria. Mas não posso deixar de o escrever-afirmar. Eis: O que há de mais obsceno, sempre que sucedem catástrofes "naturais", como a do Haití, ocorrida em meados de Janeiro 2010, ou como as catástrofes bíblicas de um passado remoto, que ficaram conhecidas como "O Dilúvio", é aparecer de imediato o líder de uma Igreja /Religião qualquer, o papa de Roma, por exemplo, sem dúvida o líder religioso e simultaneamente chefe de estado do Vaticano, mais conhecido /temido sobre a Terra, a rezar publicamente pelas vítimas da catástrofe e a convidar as demais pessoas do mundo a fazerem o mesmo. Parece um gesto devoto, e devoto será, mas é o que há de mais obsceno e de blasfemo. Quem no-lo diz é a Sabedoria feita carne, Fragilidade Humana, numa palavra, feita Vítima Humana. O que prova à saciedade que o que há ou pode haver de "devoto" numa determinada acção ou iniciativa de alguém, não serve como critério de verdade e de sabedoria. Pelo contrário, o que há de "devoto" numa iniciativa ou acção de alguém, individual ou institucional, revela que estamos perante uma acção ou uma iniciativa mentirosa, hipócrita, cruel, disfarçada de religioso, por isso, de idolátrico. É uma inequívoca manifestação de Idolatria, como tal, uma acção ou iniciativa com tudo de inumano e de cruel.

 

2 Semelhante acção ou iniciativa é blasfema, antes de mais, porque invoca em vão o nome de Deus, o que contribui, ainda mais, para fomentar, não a Fé-com-dignidade-humana em Deus, o de Jesus, mas o Ateísmo e a Idolatria. É blasfema, em segundo lugar, porque materializa uma postura idolátrica, já que semelhante acção ou iniciativa o Deus que invoca é sempre um Ídolo, disfarçado de Deus. É blasfema, em terceiro lugar, porque atira com a responsabilidade do sucedido, no caso, a horrenda catástrofe, para Deus, quando tudo o que ocorre dentro da História é da nossa exclusiva responsabilidade humana, já que a Terra nos está entregue e o nosso destino está umbilicalmente ligado ao dela e o dela ao nosso, pelo que cuidarmos dela é o mesmo que cuidarmos de nós, seres humanos. E, por isso, o acto de cuidar da Terra constitui, até, o primeiro mandamento que nos foi dado, enquanto seres humanos: "Crescei, multiplicai-vos, cuidai da Terra". Ou crescemos, multiplicamo-nos, cuidamos da Terra e temos futuro, ou não crescemos, não nos multiplicamos, não cuidamos da Terra e ficaremos como abortos. É que nós próprios somos Terra. Somos a Terra que, em nós, finalmente, se tornou pensante e afectiva, racionalidade e afectividade, numa unidade indissolúvel.

 

3 O líder religioso em questão pode ser, e no caso concreto, foi, o papa de Roma, lá no alto do seu Poder de monarca absoluto e de líder religioso do Império global, sem dúvida, o mais conhecido e o mais temido /idolatrado do mundo. Mas isso só agrava ainda mais a situação. Porque do Poder é que saem as sugestões e as propostas mais dementes-dementes, ainda que possam apresentar-se vestidas de "devoção" e de "religião". E do Poder absoluto saem as sugestões e as propostas absolutamente dementes-dementes. Tudo o que tem a marca do Religioso é intrinsecamente perverso, porque é idolatria, como tal, é mentira. Serve apenas para mais e melhor nos seduzir, enganar, adormecer, anestesiar. Pode até suscitar, em quem ouve, a sensação de que estamos perante um Institucional concreto cheio de bondade e de solidariedade. Mas apenas nas pessoas que insistem em frequentar os ambientes beatos, religiosos, geradores de pessoas e de populações assustadas, infantilizadas, diminuídas, possuídas de medos de deuses /deusas castigadores. São ambientes intrinsecamente doentios, dos quais, como seres humanos, havemos de fugir quanto antes e nunca mais regressarmos a eles, por maiores que sejam as catástrofes e as doenças que se abatam sobre nós e sobre o nosso entorno.

 

4 Todo e qualquer regresso aos ambientes religiosos, quando as catástrofes "naturais" se abatem sobre nós, é sempre um regresso ao Infantil. E nada mais catastrófico do que um passo desses para trás no nosso desenvolvimento Humano. Porque do Infantil, é de onde vimos. Quer ao nível individual, quer ao nível colectivo. E sair do Infantil, fazer o Êxodo do Infantil para a Maioridade /Secularidade, a Política Praticada, nos antípodas do Religioso praticado, eis o caminho que temos de abrir e de percorrer, para chegarmos a ser plena e integralmente Humanos, como Jesus. Alcançar a estatura do plena e integralmente Humano, não é coisa espontânea, nem coisa fácil. É o mais difícil. Mas é esse o desafio com que estamos confrontados: chegarmos a ser outros Jesus, o filho de Maria, o filho da Fragilidade Humana, não do Poder.

 

5 Jesus é, até hoje, o único ser humano que levou ao limite e até para lá do limite este crescimento de dentro para fora. Nele, a Sabedoria feita Fragilidade Humana, a Terra que também somos alcançou o seu ponto Ómega, o seu máximo. Em Jesus, o filho de Maria, Racionalidade e Afectividade andam de mãos dadas, são irmãs siamesas. Nenhuma das decisões do Humano Jesus são desprovidas de racionalidade e de afectividade. Como tal, todas são decisões sábias. E, como as de Jesus, também as nossas precisam de chegar a ser. Enquanto não chegarmos aí, a Terra que também somos, estará sempre em perigo. Porque nós, humanos, que somos Terra, colocamo-la em perigo.

 

6 Para que a Racionalidade Humana seja Afectividade Humana e a Afectividade Humana seja Racionalidade Humana, nós, os seres humanos, temos de viver permanentemente habitados do mesmo Sopro ou Espírito que habita plena e ininterruptamente Jesus, o filho de Maria, o filho da Fragilidade Humana, não do Poder. E que Sopro ou Espírito é esse que habita plena e ininterruptamente Jesus? Respondido pela negativa, temos de dizer que não é, não pode ser, o Espírito ou Sopro do Ídolo, disfarçado de Deus, em nenhum dos seus três rostos ou das suas três manifestações históricas: não é, não pode ser, o sopro ou espírito do Ídolo-Dinheiro ou Poder Financeiro Global, sem dúvida, o mais perverso de todos os três e o pai ou o gerador dos outros dois, por isso, ambos Ídolos menores, respectivamente, o Ídolo-Poder Politico e o Ídolo-Poder Religioso /Eclesiástico. Respondido pela positiva, temos que dizer que é aquele mesmo Sopro ou Espírito Criador-Libertador, plenamente Fecundo, que num princípio, há uns 13 mil e 700 milhões de anos, está presente e activo na espantosa e misteriosa origem do Big-Bang e, desde então, não deixa de animar a Expansão do Universo que resultou dessa Explosão num princípio, e que ainda hoje prossegue, sem que saibamos até onde ela irá chegar. É a este Sopro ou Espírito Criador /Libertador e Fecundo que se refere a Bíblia, no mítico-poético relato das origens, quando, logo a abrir, adianta este pormenor: "A Terra era informe e vazia, as trevas cobriam o abismo e o Espírito /Sopro de Deus (o não Ídolo) movia-se sobre a superfície das águas" (cf. Génesis 1, 2).

 

7 O universo ainda em expansão que "nasce" deste Sopro ou Espírito Criador /Libertador e Fecundo, do qual a Terra que somos e habitamos faz parte como um dos seus Planetas, está todo ele misteriosamente habitado  por Ele. Nós, os seres humanos que um dia acontecemos no decurso da Evolução /Expansão do Universo, somos todos filhos deste Sopro ou Espírito Criador /Libertador e Fecundo. Na verdade, acerca de um de nós, seres humanos, um outro livro da mesma Bíblia, o Evangelho de João, atreve-se a iniciar com um outro Poema, que abre com estas palavras: "Num princípio [esta expressão é igual à outra, do livro do Génesis], era o Verbo ou a Palavra". E, quase a concluir o Poema, escreve: "E o Verbo ou a Palavra fez-se carne [= Fragilidade Humana] e habitou entre nós e nós contemplamos a sua glória, como filho unigénito do Pai, cheio de graça e de verdade" (cf. João 1, 14). Ora, se há Verbo ou Palavra, há Sopro ou Espírito. No caso em presença, o Verbo ou a Palavra é de Deus, o Não-Ídolo, o Não-Poder, pelo que o respectivo Sopro ou Espírito é Criador /Libertador e Fecundo, como só a Fragilidade Humana é capaz de ser. Historicamente, este um de nós e connosco recebeu o nome de Jesus e é oficialmente apresentado ao mundo como o filho de Maria, não do Poder, por isso, como a Fragilidade Humana. E não uma qualquer Fragilidade Humana, mas a Fragilidade Humana historicamente mais Humilhada, que é uma outra maneira de dizer a Fragilidade Humana mais absoluta.

 

8 É este mesmo Sopro ou Espírito que está num princípio, com o Big-Bang, e, cerca de 13 mil e 700 milhões de anos mais tarde, está de novo num outro princípio, com a Concepção ou o Big-Bang de Jesus, o filho de Maria, com o qual todos os seres humanos, mulheres e homens, quaisquer que sejam a sua nacionalidade, a sua língua, a sua cultura e a sua cor de pele, precisamos de andar plena e integralmente habitados também, entre o momento da nossa Concepção, ou do nosso Big-Bang individual, e o momento da nossa Explosão Final que nos fará definitivamente vivos e, por isso, invisíveis aos olhos dos demais que ainda não tenham chegado a PASSAR (Páscoa) por essa experiência única e irrepetível. Quando assim suceder, a Terra será toda ela plena e integralmente Humana em todos e cada um de nós, seres humanos. E já não haverá mais catástrofes "naturais" como aquelas catástrofes antigas, quase lendárias, que a Bíblia literariamente chamou "o Dilúvio" e como aquela que, nos meados de Janeiro de 2010, os habitantes do Planeta Terra pudemos conhecer no país mais pobre da América Latina, o Haití. E não haverá mais, porque com seres humanos da mesma estatura de Jesus, cheios de Graça e de Verdade, cheios de Espírito ou Sopro Criador /Libertador e Fecundo, sem nada do sopro ou espírito do Deus-Ídolo, o Ídolo-Poder Financeiro Global, nem nada do seus dois Ídolos menores, o Ídolo-Poder Político e o Ídolo-Poder Religioso /Eclesiástico, tudo nos seres humanos será Sabedoria. Todos os seus projectos, todas as suas Acções serão Projectos Criadores /Libertadores e Fecundos, Acções Criadoras /Libertadoras e Fecundas que fazem viver e viver com qualidade a muitas, muitos, entenda-se, todas, todos.

 

9 É a Idolatria que nos infantiliza e nos mantém no Infantil. A Idolatria religiosa e a outra, hoje bem mais perversa que a religiosa, a Idolatria do Dinheiro que se tornou independente da Economia e anda por aí à solta, como um mítico demónio do passado, quando ainda se pensava que havia demónios que eram anjos maus que se haviam revoltado contra Deus. Tudo isso é mítico e só serviu para manter ainda mais alienadas as pessoas, as populações. E levou-as a correr para os templos e para as religiões, sem se darem conta de que cada vez estavam mais roubadas, mais alienadas, menos senhoras dos seus próprios destinos. Os demónios existem, sim, mas apenas como realidades históricas, criadas por nós, seres humanos caídos na Idolatria. São os ídolos que nos infantilizam e que nós, em lugar de combatermos e de lhes resistirmos, corremos a submetermo-nos a eles, porque os tomamos como deusas, deuses. São obra da nossa imaginação, dos nossos medos, das nossas mediocridades, da nossa infantilidade, das nossas ambições, da nossa fome de poder e de ter.

 

10 Quando nos deixamos habitar pelo sopro ou espírito do Ídolo, concretamente, do Ídolo-Poder Financeiro, do Ídolo-Poder Politico e do Ídolo-Poder Religioso /Eclesiástico, ficamos reféns deles e não somos mais nós próprios, seres humanos do mesmo jeito e da mesma estatura de Jesus, o filho de Maria. Somos os antípodas dele, os filhos do Ídolo, os filhos do Poder. O sopro ou espírito que nos habita é então descriador /opressor e assassino. Somos um perigo público. Tudo o que tocamos fica envenenado, ferido de morte. Infantilizamos, oprimimos, exploramos, matamos, em vez de promovermos autonomias, maioridade, afectos, sororidade-fraternidade, comunhão. O próprio Planeta Terra, de tão maltratado por nós, acaba por se virar contra nós. De berço e de casa comum, torna-se um inferno e o nosso túmulo, onde permanecemos, geração após geração, como abortos. A brisa dá lugar a ventos ciclónicos. A chuva dá lugar a tornados. As fontes dão lugar a enchentes. As praias dão lugar a tsunamis. Por este andar, os lendários dilúvios do passado serão brincadeiras da natureza comparados com o que nos espera e às próximas gerações. A menos que emendemos a mão e nos convertamos. Deixemos de andar habitados e influenciados /conduzidos pelo sopro ou espírito do Ídolo, e, em seu lugar, passemos a andar habitados pelo mesmo Sopro ou Espírito Criador /Libertador e Fecundo que habitou Jesus, o filho do Maria, desde a sua Concepção à sua Explosão Final.

 

11 Pode parecer que estou a pedir o impossível, de tão possessas que as pessoas e as populações hoje vivem sob o jugo ou o domínio do sopro ou espírito do Ídolo-Poder Financeiro (Dinheiro), do Ídolo-Poder Político (Governos e Parlamentos) e do Ídolo-Poder Religioso /Eclesiástico (Igrejas-Religiões). Tudo isso é idolatria. A Religiosa e as outras, a do Poder Financeiro e a do Poder Político. Em consequência, são cada vez menos as pessoas que o queiram ser na dimensão plena e integralmente humana. Todas as pessoas se pelam por chegar a lugares de topo, seja do Poder Financeiro, seja do Poder Político, seja do Poder Religioso /Eclesiástico. Ninguém, ou quase ninguém quer crescer em Humano, em Entrega de si aos demais, em Dádiva, em Pão Partido e Repartido, em vida entregue. Recusamos o Sopro ou o Espírito de Jesus, que é Criador /Libertador e Fecundo, e abrimo-nos de par em par ao espírito ou sopro do Ídolo que é o seu Inimigo, o seu antípoda. Faz-nos reféns, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro horas.

 

12 Somos em geral antónimos de Jesus. Tanto os que se dizem crentes religiosos, como os ateus. Somos do Ídolo. habitados pelo seu sopro ou espírito opressor, mentiroso, descriador e assassino. Somos as suas primeiras vítimas e tornamo-nos vitimadores, carrascos às ordens do Ídolo que nos infantiliza, descria e mata a nós e, depois, se serve de nós para infantilizar, descriar e matar os demais, os familiares, os amigos, numa palavra, todas as pessoas que lidarem connosco, com quem nós lidemos. E isto numa sucessão imparável que afecta toda a Humanidade, o Planeta no seu todo. Foi perante uma generalizada situação como esta que os autores do livro do Génesis escreveram o relato mítico a que chamaram "O dilúvio". E num desses relatos de "O Dilúvio" (há mais do que um no Génesis), chegam a pôr Deus Criador a confessar o seu arrependimento por ter criado o ser humano. É uma maneira literária, muito bela, de dizer que nós, os seres humanos, saímos muito pior do que a encomenda. E, se nesses remotos tempos, as coisas foram tão longe, hoje, com as tecnologias cada vez mais refinadas e com o nuclear aí em cada vez maior número de Executivos dementes-dementes, um qualquer dia, em vez de termos um Haití, como que o dos meados de Janeiro de 2010 mostrou, como num profético alerta e numa gritante revelação ou apocalipse, teremos uma Implosão do Planeta no seu todo.

 

13 A esta luz, entendemos ainda melhor o que eu comecei por escrever-afirmar no início deste capítulo. Primeiro, as grandes catástrofes nunca são verdadeiramente "naturais". São fruto das nossas acções feitas sob o sopro ou o espírito do Ídolo. O Planeta Terra chega a um ponto que não aguenta mais e implode numa determinada região com um potencial destruidor semelhante ao de dezenas de bombas atómicas que explodissem ao mesmo tempo. Invocar o nome de Deus, e sugerir às pessoas que façam outro tanto, em momentos assim, é o que há de mais obsceno, porque é atirar para cima de Deus Criador /Libertador e Fecundo a responsabilidade do sucedido, em lugar de assumirmos o sucedido por inteiro. Só mesmo um líder do Ídolo-Poder Religioso /Eclesiástico pode fazer semelhante acção e sugerir aos demais seres humanos que a façam também. O que se impõe, em momentos assim, é que se ergam PROFETAS que, como o profeta Natan bíblico frente ao rei David, se dirijam aos chefes idólatras da Terra e lhes digam. Vós sois os criminosos. Vós sois esse homem colectivo que está a descriar o Planeta. Os vossos sistemas económicos, financeiros, políticos e religiosos. todos idolátricos, é que fizeram esta Catástrofe, concretamente, a do Haití.

 

14 Ou mudamos de sopro ou espírito, ou perdemos o Futuro. Jesus, o filho de Maria, é o nosso Paradigma de ser humano. Temos de regressar a Jesus. Em boa verdade, nunca o fizemos. Por isso, mais do que regressar, trata-se de, finalmente, nos dispormos a acolher Jesus. Até hoje, nunca o acolhemos. Sempre o rejeitamos. O excluímos. Sempre o matamos. Sempre o expulsamos do nosso viver. Só tivemos olhos e abertura para o Ídolo. Ou mudamos radicalmente, ou vamos ao fundo. A opção é nossa. O Haití está a gritar-nos: Ou passamos a andar habitados pelo sopro ou Espírito de Jesus, e tomamos decisões pessoais e colectivas sob a sua influência criadora /libertadora e fecunda, e a vida terá a sua oportunidade para todos os povos, ou toda a Terra está à beira de ser um Haití à escala planetária. Escolher e decidir é preciso. Já. Porque, ontem, já era tarde!

 

Capítulo 35

 

1 Ocorrida por estes dias, que antecederam o dia 12 de Janeiro de 2010, em que estou a escrever o capítulo 35 do Livro da Sabedoria, a Páscoa definitiva de Martinha (há por aí tantas Martinhas, em masculino e em feminino, que sacrilegamente escondemos em nossas casas ou em Cercis, quando deveríamos colocá-las bem no centro das cidades e das aldeias, como a luz do mundo que, na sua Fragilidade Humana, todas elas são), uma menina de 23 anos, 100% paraplégica desde o parto, por irresponsabilidade dos profissionais de saúde que na altura acompanharam o parto no Hospital,  apresenta-se-nos, inopinadamente, cheia de Revelação e de Sabedoria que não posso calar nem esconder.

 

2 Acompanho Martinha, quase desde o parto. Para além de amigo da respectiva mãe Lurdes e do respectivo pai Carlos, fui chamado por ambos, pouco tempo depois do natal de Martinha, para fazer uma reportagem-notícia (já então eu era jornalista profissional, para poder ser padre /presbítero da Igreja totalmente de graça e não figurar mais na lista dos funcionários eclesiásticos que, nos altares da idolatria das populações religiosas, servem os respectivos ídolos - as deusas e os deuses da nossa humilhação e da nossa vergonha - vivem e, muitas vezes, até enriquecem à custa deles!) sobre as difíceis condições de habitação em que então viviam, absolutamente incompatíveis com a sua totalmente inesperada condição de pais de uma menina paraplégica como Martinha. A reportagem-notícia fez o seu percurso e, ao fim de algum tempo, os serviços sociais da Câmara Municipal do concelho, onde vivem os pais, atribuíram-lhes uma casa rés-do-chão num bloco de apartamentos de renda social, acabado de construir.

 

3 Por coincidência, a Páscoa definitiva de Martinha acaba de ocorrer no mesmo Hospital onde, 23 anos antes, havia ocorrido o seu natal. Como a gritar aos profissionais de saúde que, actualmente, lá trabalham, que não basta ser-se profissional de saúde encartado, reconhecido pelas respectivas Ordens profissionais e pelas Universidades que os formam. É preciso, imperioso e urgente que todos, elas e eles, sejam profissionais sábios, dotados de Sabedoria. O Saber, só por si, não faz profissionais Humanos. Pode até fazer profissionais perversos, ao serviço do Absurdo e do Intolerável institucionalizados, como aqueles profissionais que aceitam colocar-se incondicionalmente ao serviço das transnacionais que fabricam os medicamentos, com doses certas para manterem as pessoas doentes por muitos anos, em lugar de as curarem e de lhes restituírem depressa a respectiva autonomia, sem mais dependência de fármacos.

 

4 Sim! Nem nos passa pela cabeça do que são capazes essas transnacionais e os profissionais que aceitam colocar-se incondicionalmente ao seu serviço. A troco de chorudos salários, quando são profissionais que entram no "santo dos santos" do Perverso e do Intolerável das transnacionais e são obrigados a completo sigilo sobre o que lá se faz, sob pena de assassinato imediato. Tal e qual como sucede com as Máfias. Ou, então, a troco de um simples prato de lentilhas, quando se trata de "pessoal menor" ou "pessoal auxiliar" (atentemos só neste tipo de linguagem que essas transnacionais e outras empresas semelhantes usam, como se, sob estas designações, não estivessem seres humanos, mulheres e homens. Uma barbaridade linguística quotidiana que as próprias pessoas afectadas aceitam, sem um mínimo protesto, sem a mínima manifestação de indignação!).

 

5 Profissionais de saúde sábios são profissionais de saúde com afectos. São profissionais de saúde com Espírito, não o do Ídolo, mas o mesmo Espírito de Jesus, o filho de Maria, não do Poder Político, Financeiro ou Religioso. São profissionais fecundamente Humanos. São profissionais maiêuticos. Porque as pessoas portadoras de doença ou com problemas que não conseguem explicar e controlar, são sempre pessoas. Nunca podem ser reduzidas a coisas, a números, a objectos. Nem sequer podem ser reduzidas a "doentes". São pessoas com doença. São sujeitos. E é nelas, nas pessoas com doença, que reside ou habita a capacidade de enfrentar a doença e de a combater, até a erradicar, ou, pelo menos, controlar, ter mão nela.

 

6 Os profissionais de saúde, quando sábios, serão sempre maiêuticos. Perante as pessoas com doença, assumem-se como a parteira, nunca como os senhores, as senhoras do Saber. São servas, servos. Não são senhoras, senhores. Devem descalçar as sandálias, porque a pessoa que está perante eles é sagrada, é universo sagrado, não no sentido religioso /idolátrico, mas no sentido Humano. É na pessoa portadora de doença, e não neles, que está a capacidade de enfrentar a doença e de a combater. A Sabedoria é o que diz e faz. E exige que se diga e faça. Para que o Mundo cresça em Humanidade, não apenas em Saber e em sofisticada Tecnologia!

 

7 Este sábio modo de ver a realidade muda tudo. A pessoa portadora de doença é sujeito. Nunca é objecto. Por mais analfabeta que seja, os profissionais de saúde têm de a ver como o sujeito da sua própria recuperação /reabilitação /cura. Os profissionais de saúde são simplesmente "parteiras", presenças que fazem saltar cá para fora as capacidades que estão adormecidas, ignoradas, alteradas, afectadas na pessoa portadora de doença. Para que ela, não eles, se coloque, desde a primeira hora, ao comando das operações. A medicação poderá ser uma ajuda suplementar e transitória. Mas apenas isso.

 

8 O primeiro trabalho a fazer, certamente, o mais difícil, mas também o mais eficaz, é despertar o sujeito que está em cada pessoa portadora de doença. E não só despertar. Pô-la de imediato a comandar as operações. Isto conseguido, tudo o mais vem por acréscimo. Deste modo, a pessoa portadora de doença cresce, e os profissionais de saúde diminuem em número e em importância. Agirmos assim, é a Sabedoria-em-acção que faz Humanas as pessoas. O Saber-em-acção, ao contrário, faz a pessoa portadora de doença diminuir até se tornar coisa, objecto, doente, que os profissionais do Saber ilustrado manipulam como um saco de batatas, enquanto eles crescem a bom crescer, em quantidade e em riqueza e em Poder /Sobranceria. É por isso a Ignomínia Humana em toda a sua perversidade. Embora seja o que, infelizmente, hoje mais se pratica por aí, só porque confundimos Saber ilustrado com Sabedoria. Quando aquele sempre mata. E só a Sabedoria vivifica!

 

9 Mas a Páscoa definitiva de Martinha revela também uma outra dimensão do Humano que teimamos em não ver, porque o Saber que hoje se cultiva de forma supostamente ilustrada, cega-nos mais, muito mais do que a própria Ignorância e a própria Pobreza. Porque as pessoas ignorantes e pobres, na sua condição de vítimas e não de verdugos, carrascos, algozes, estão bem mais próximas da Sabedoria do que os profissionais do Saber. Não! Não é uma apologia da Ignorância e da Pobreza, as duas faces do Intolerável que, ao longo dos séculos, mais tem afectado, e de que maneira, as populações, nomeadamente, as do interior de cada país e as maiorias dos Povos do Sul, injuriosamente, chamados pelos dos Norte como Povos do Terceiro Mundo. Não é uma apologia. É uma denúncia, mais do que oportuna e necessária, da Arrogância dos profissionais do Saber, nomeadamente, do Saber altamente ilustrado. Uma denúncia e um alerta cheio de Ternura.

 

10 Com esta afirmação estou a (querer) dizer às pessoas do Saber, que se têm na conta de importantes, quanto o seu Saber Ilustrado é perverso, inumano, demoníaco, sádico. O Perverso Organizado, hoje cientificamente Organizado, que dá pelo nome de Ordem Mundial e que mais não é do que a Ordem Mundial do Poder Financeiro Global, do Senhor Dinheiro, o Ídolo mais obsceno e mais assassino de todos os ídolos, é sobretudo delas que se serve para realizar os seus projectos de Morte em massa e de acelerada Descriação do Humano nos seres humanos e nos Povos. E elas, na sua cegueira ilustrada, nem se dão conta de que estão a ser reduzidas a verdugos, carrascos, algozes das populações e dos Povos. Melhor fora, por isso, que fossem do número das pessoas ignorantes e pobres à força.

 

11 O Saber sem Sabedoria é no que dá. Faz verdugos. Carrascos. Algozes. Com a agravante de que estes nunca se reconhecem tais. Pelo contrário, têm-se na conta de os mais importantes e os maiores da Sociedade. Orgulham-se dos lugares que ocupam. E os seus familiares, muitas vezes do grande número dos ignorantes e dos pobres, embora experimentem, perante eles, uma grande Tristeza que não sabem sequer de onde vem, não é isso que mostram aos demais, como deveriam mostrar, mas, sim, orgulho. Acham, até, que as suas filhas, os seus filhos, ao serem o contrário deles, é que estão a tirar a família da vergonha e da ignomínia que, antes, ela era, por ser uma família ignorante e pobre. O Desconforto que sentem perante as filhas, os filhos é o das vítimas perante o carrasco, o verdugo, o algoz. Mas nem eles sabem disso. Nem se apercebem disso.

 

12 E, depressa abafam esse sentimento, com a máscara de uma Alegria e de uma Satisfação que verdadeiramente não têm, e que não vêm, não podem vir, de dentro. Fingem que estão alegres e muito satisfeitos e, com isso, enganam-se e enganam as próprias filhas, os próprios filhos. Porque, se fossem mães e pais vestidos com a Verdade, olhariam as filhas, os filhos nos olhos e dir-lhes-iam: Minha filha, meu filho, o que estão a fazer de ti; já nem pareces nossa filha, nosso filho; és uma vendida, um vendido; és uma prostituta, ou prostituto. O Dinheiro, esse Ídolo obsceno e assassino, comprou-te e tu deixaste-te comprar. Melhor fora que tivesses morrido nas minhas entranhas; que tivesses sido um aborto; e eu, tua mãe, teu pai, fosse estéril!

 

13 Martinha, ao contrário destas pessoas do Saber altamente ilustrado, é a Inocência feita mulher. E a sua Páscoa definitiva é isso que revela. À luz da sua Páscoa, entendemos ainda melhor o seu natal. Foi vítima - e que vítima! - dos profissionais do Saber sem Sabedoria. Em consequência, ficou para sempre incapaz de crescer em Saber ilustrado. Cresceu só em Sabedoria. Toda ela é Sabedoria. Vimo-lo melhor, no Momento da sua Páscoa definitiva. Todo o seu viver na História é, desde a concepção à Páscoa definitiva, um viver de menina sábia, imaculada, pura, inocente, toda ela Dom, Dádiva, sem nada Ter, sem nada Poder, toda Pão que se dá a comer.

 

14 Martinha é bem Deus-entre-nós-e-connosco. Um Emanuel, em feminino. Nos antípodas do Ídolo, quer o das religiões, dos altares, dos funcionários religiosos e eclesiásticos, quer, sobretudo, do Ídolo mais obsceno e mais assassino de todos, que é o Senhor Deus Dinheiro, que tem ao seu incondicional serviço, as mulheres e os homens do Saber ilustrado, às, aos quais paga bem e assim as, os tem ao seu incondicional serviço, como seus algozes, seus carrascos, seus verdugos, travestidos de outros nomes, por exemplo, sacerdotes, párocos, pastores, bispos residenciais, senhores dom fulano de tal, cardeais, papas, doutores, advogados, juízes, engenheiros, economistas, banqueiros, financeiros, primeiros-ministros, ministros, deputados, secretários-gerais de partidos políticos, presidentes de república, professores, reitores de universidades, oficiais das forças armadas, craques de futebol dos milhões, directores de informação nas tvs e nas rádios, directores de jornais e revistas, e tantos outros pomposos títulos que escondem o obsceno e o intolerável que todas, todos são!

 

15 De repente, Martinha que nem uma frase chegou alguma vez a articular, em todos estes 23 anos que durou o seu viver na História, até se ter tornado definitivamente viva, nesta sua Páscoa definitiva, nem uma letra chegou a desenhar, nem alguma vez chegou a comer pela sua própria mão, nem andar pelos seus próprios pés; sempre teve de ser transportada, sempre teve de ser acompanhada, sempre teve de ser entendida no seu silêncio e nos seus sons inarticulados, no seu penetrante olhar e no seu rosto cheio de luz e de alegria, com risadas que ressuscitavam mortos, de tanta alegria e de tanta paz elas vinham cheias, faz-nos perceber, como num relâmpago, que o Saber ilustrado é exactamente o seu antípoda.

 

16 Martinha, na sua Fragilidade Humana, é Sabedoria, Verdade, Ternura, numa palavra, Paz-que-nos-faz-Humanos. O Saber ilustrado, pelo contrário, é, na sua Arrogância, Perversão, Mentira, Ódio, Desprezo, numa palavra, Poder-que-nos-descria-e-mata-como-Humanos e nos faz carrascos, verdugos, algozes ao incondicional serviço do Ídolo, seja o dos altares das religiões, seja o secular e laico das transnacionais do Senhor Dinheiro.

 

17 Martinha é o Sacramento de DeusVivo, o de Jesus. Nela, vimos Deus entre nós e connosco. Nela, e noutras tantas Martinhas, como ela, em masculino e em feminino, por esse mundo fora. À beira dela, o papa, com toda a sua corte imperial; os bispos residenciais, rodeados de lacaios nos cultos das suas catedrais, tira-mitra-põe-mitra, toma-lá-o-báculo-dá-cá-o-báculo; os párocos, nos altares dos templos da Idolatria religiosa, à sombra dos quais fazem obscenos negócios e pregam mentiras que agradam ao Ídolo que eles incansavelmente servem, sempre a troco de dinheiro e de privilégios, são bem o sacramento do Não-Deus, pior, do Ídolo que gosta de cultos sem cultura, de catequeses sem Maiêutica, de ritos sem Profecia, de Baptismos sem Espírito de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império.

 

18 É por isso que todos eles se entendem tão bem com os que seguem o Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro, o Poder Financeiro Global, hoje, mais omnipotente do que nunca, mais omnisciente do que nunca, mais omnipresente do que nunca. E mais super-activo do que nunca. Servido pelos melhores cérebros dotados de Saber supostamente ilustrado, verdadeiros carrascos, verdugos, algozes, mercenários sem escrúpulos que estão aí, dia e noite, em tudo quanto é sítio de decisão e de influência, a matar, roubar e destruir o que ainda há de Humano nos seres humanos e nos Povos. E a destruir o próprio Planeta Terra. Não estranhem, por isso, que eu, a todos esses, prefira Martinha, viva agora todos os dias no colo de Martinha e cante Martinha: Quando for grande vou ser / Quero ser como a Martinha / Nada Ter, nada Poder / Todo Paz, todo Alegria / Pão que se dá a comer / Quero ser como a Martinha.

 

Capítulo 34

 

1 Todos os anos, pelo Solstício de Inverno, as Igrejas celebram o Natal. Pensam que é o Natal de Jesus. Não é. Por mais que elas digam que é. E quanto mais dizem que é, mais mentem. É o Natal do Sol que já os contemporâneos de Jesus, no século I desta nossa era comum, celebravam ciclicamente. Tinham no astro-rei, um mítico Deus e festejavam o seu cíclico Nascer /Natal, durante dias e noites, nas ruas, com excessos /orgias de toda a ordem. As Igrejas quiseram - indevidamente, abusivamente! - reprimir essa Festa dos povos e, como não conseguiram, decidiram fazê-la sua, à sua maneira. Estávamos no tempo do imperador Constantino, início do século IV. Igrejas e Império inventaram então o mítico Cristo-Sol-da-Justiça, em substituição do mítico Sol-Invictus [Sol Vencedor]. E dizem, desde então, as Igrejas todas, as mais antigas e as mais recentes, que o mítico Cristo-Sol-da-Justiça é Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, crucificado na Cruz do Império, em Abril do ano 30 desta nossa era comum. Não é. Curiosamente, as populações e os povos sempre souberam que não é, mas fazem de conta que é, uma vez que essa alteração de linguagem não as aquece nem arrefece. O que às populações interessa é a festa, com todos os seus excessos /orgias. O nome do mítico Deus da festa pouco ou nada lhes interessa. Quem, entretanto, sai a perder, e a perder em toda a linha, são as Igrejas, porque a Mentira, por mais bem-intencionada que se diga, nunca gera Liberdade, Graça, Ternura, Humanidade, apenas os seus opostos, respectivamente, Opressão, Medo, Violência, Inumanidade.

 

2 Diz-nos a Sabedoria que não basta termos nascido para sermos Humanos. Também os animais nascem e não passam de animais. Nunca chegam à condição de Humanos. Não basta termos nascido para sermos Humanos. Diz-nos mais a Sabedoria. Diz-nos que ninguém nasce Humano, apesar de todas, todos termos nascido de uma mulher e de um homem. Para chegarmos à condição de Humano - adianta a Sabedoria - temos de nascer de novo. Do Alto. Do Sopro /Espírito. E não de um qualquer sopro /espírito. Apenas do Sopro /Espírito das Vítimas. Eu próprio escutei-escrevi, em tempos, um singelo Canto de Janeiras que já proclama esta Boa Notícia, por sinal, deveras difícil de pôr em prática, como, de resto, toda a Boa Notícia de Deus, o-não-Ídolo, é difícil de pôr em prática. Diz assim: "Com o seu Natal [= Nascer (que só ocorreu uma vez e não acontece ciclicamente, como sucede com o Solstício de Inverno)] / Jesus está a dizer / quem quiser ser Homem [Humano] / volte a nascer. / Nasça entre os pobres / contra a Pobreza / promova a Justiça / partilhe a Riqueza. Quando vês os Homens/ crescer em Riqueza / não tenhas inveja / chora de Tristeza. / Quando vês os Homens / seus bens Partilhar / salta de Alegria / vai-os abraçar."

 

3 Até de Jesus, o filho de Maria, o Evangelho de Lucas atreve-se a dizer (vejam só o escândalo!), como Boa Notícia de Deus para os povos de toda a Terra, que ele crescia em idade, em estatura, em sabedoria e em graça (cf. 2, 52). Como quem diz: se até Jesus, o filho de Maria, teve de crescer, e crescer não só em idade e em estatura, mas também em sabedoria e em graça, isto é, em Humano, fica, definitivamente claro que essa é a única via para todos os nascidos de Mulher chegarmos a Humanos. Não basta termos nascido de mulher. Temos de nascer de novo, todos os dias. Temos de nascer do Alto, todos os dias. Temos de nascer do Sopro /Espírito, todos os dias. Temos de nascer das Vítimas, todos os dias. Quem se recusar a esta conversão /operação /transformação permanente, não chegará nunca ao limiar do Humano, por mais anos que some, por mais estatura física que tenha. Só é verdadeiramente Humano quem cresce todos os dias em Sabedoria (não confundir com Saber!) e em Graça (não confundir com Religião /Idolatria). Sabedoria, tem tudo a ver com Fragilidade Humana, Despojamento do Ter, Libertação para a Liberdade, Sororidade /Fraternidade universal Praticada todos os dias. Graça, tem tudo a ver com Entrega de si aos demais e uns aos outros, com um viver feito Pão Partido e Repartido uns pelos outros, com Afectos Partilhados, numa palavra, com Práticas Maiêuticas e Duelos Teológicos Desarmados contra tudo o que há de Inumano institucionalizado, a começar pelo Sistema Religioso-Político e a acabar no Sistema Económico-Financeiro que produzem vítimas aos milhões.

 

4 O Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, diz o mesmo que o de Lucas, mas de um modo ainda mais atrevido /ousado /escandaloso. Vejamos. A primeira vez que nos fala de Jesus, já ele é um adulto que deixa a casa da mãe, em Nazaré da Galileia, atraído pela pregação de João Baptista no Jordão. Coloca-o, depois, como um mais, entre os muitos outros, na fila de espera para ser baptizado por João no Jordão. Pensam ainda hoje as Igrejas que esse baptismo de Jesus por João nas águas do rio Jordão é que fez de Jesus o Humano por antonomásia. E que, por semelhança, também fará Humanas as pessoas que o receberem. Como se a água do rio Jordão, ou de outro rio qualquer, só por si, tivesse capacidade de fazer Humanos os nascidos de mulher. Não tem. Mas como essas Igrejas pensam assim - é um erro, mas que querem?, elas não desistem dele e levam as populações que se deixam guiar por elas a errar também - concluem, depois - e é isso que ensinam - que o baptismo em água, de imersão ou de aspersão, é que faz Humanos os nascidos de mulher. Não faz. O que nasce da água é apenas água. Não chega nunca ao patamar do Humano em estado de liberdade e de maioridade. Mas só graças a esta mentira é que as Igrejas se perpetuam e enriquecem, porque, assim, fazem menores e lidam com menores, por toda a vida. E menores que, em geral, recusam crescer em sabedoria e em graça, de modo que nunca chegam a dispensar os cultos e os pastores /párocos /bispos residenciais e outros poderosos, todos parte integrante de Máfias descriadoras do Humano.

 

5 Porém, no dizer /revelar do Evangelho de Marcos - a Sabedoria em forma de Boa Notícia de Deus - o baptismo de João no Jordão não fez nada em Jesus. Tão pouco fez alguma coisa nas muitas outras pessoas que o receberam das mãos dele. Submeteram-se àquele rito, mas continuaram as mesmas. Não nasceram de novo. Do Alto. Do Sopro /Espírito-que-vem-das-Vítimas. Não se tornaram plena e integralmente Humanas. Continuaram tais quais como antes. O rito é apenas isso: rito. Não realiza nada. Não tem capacidade de fazer nascer de novo. Ainda consegue menos que o acto de se nascer de mulher. É por isso que as Igrejas todas, ou descobrem qual é a sua verdadeira Missão na História e a vivem-na todos os dias à intempérie e na Trincheira, ou é melhor que desapareçam, porque só prejudicam, só causam estragos na Sociedade, mesmo quando realizam certa Caridadezinha, coisa em que todas costumam ser peritas. Delas, se pode dizer o que Jesus diz de Judas, o que o vendeu por trinta dinheiros: Melhor fora que não tivesse nascido. O mesmo se tem de dizer das Igrejas que se ficam pelos ritos e pela Caridadezinha: melhor fora que nunca tivessem nascido.

 

6 Como é, então, que Jesus, o filho de Maria, o nascido de mulher como todos os mais seres humanos, passou a plena e integralmente Humano? Eis a questão de fundo que importa descobrir, porque ficaremos a saber como é que também nós, nascidos de mulher, podemos chegar a ser plena e integralmente Humanos. E aqui é que a Sabedoria, não o Saber, tem a palavra. Mas apenas essa Sabedoria de DeusVivo, o Não-Ídolo, que tem tudo de loucura aos olhos dos Sabedores /Doutores e dos Poderosos, servidores /adoradores do Ídolo, todos eles, por isso, os mais inumanos dos seres humanos. Basta dizer que todos eles chegam ao cúmulo de se fazer adorar /idolatrar pelos demais seres humanos. Que outra coisa não são, afinal, os Privilégios que eles se auto-atribuem. São uma forma mais, porventura, a pior de todas, de adoração /idolatria, em grau mínimo, médio e máximo, conforme o tamanho dos Privilégios, mínimo, médio ou máximo que eles se auto-atribuem e exigem que os demais lhes reconheçam e lhes prestem publicamente.

 

7 Diz a Sabedoria que em Jesus tudo Aconteceu, "ao sair da água" (cf. Marcos 1, 10). Nesse Instante (cada Instante-com-Espírito /Sopro, o das Vítimas, é Eterno, não tem um antes, nem um depois, simplesmente, É!), os céus abriram-se, o Espírito veio sobre Jesus, habitou-o de forma plena e em permanência, enquanto Jesus escuta uma Voz a dizer-lhe: "Tu és o meu filho muito amado, em ti deposito toda a minha expectativa". Ninguém, em redor, se deu conta de nada, porque nada foi visível aos olhos nem audível aos ouvidos. Tudo foi mais íntimo a Jesus do que ele próprio. Nem sequer João Baptista que continuava, incansável, na administração do rito de baptizar em água, se apercebeu de nada. Terá dado conta, depois, ao ver que Jesus passou a dissentir abertamente dele, a não fazer o que ele fazia, a não pregar o que ele pregava, a anunciar a Boa Notícia de Deus, enquanto ele, João, anunciava a ira de Deus (Ídolo). O caminho de Jesus, a via de Jesus, seria outra, muto outra, que não a de João. João terá sido historicamente importante, mas como pedagogo, como precursor de Jesus, nada mais do que isso. O mais pequeno na via de Jesus seria muito maior que João Baptista, sem dúvida, o maior entre os nascidos de mulher, mas que, historicamente, não chegou a nascer de novo, do Alto, do Sopro /Espírito das Vítimas da História.

 

8 Para o Evangelho de Marcos, a Sabedoria feita Boa Notícia de Deus, esse "ao sair da água" é o Instante em que Jesus, o filho de Maria, nasce de novo, do Alto, do Sopro /Espírito-que-vem-das-Vítimas da História, fabricadas pelos Não-Humanos cheios de Privilégios que se têm na conta de deuses e se fazem adorar /idolatrar pelos demais e pelos Sistemas que eles, na sua demência, criam, alimentam, administram, como se fossem coisa sagrada, divina. E sagrada, divina até serão, porque são Idolatria. Desconhecem, no seu muito Saber sem um pingo de Sabedoria, que tudo o que se reclama de sagrado e de divino é sempre, mas sempre, Idolatria. Como tal, é Demência Organizada que tem de ser derrubada, porque só trabalha para descriar o Humano que o Sopro /Espírito-que-vem-das-Vítimas está aí continuamente a (tentar) criar na História.

 

9 É por isso que, a partir desse Instante - um Hoje que atravessa as sucessivas gerações, antes e depois dele - Jesus passa a viver em Deserto - ainda Hoje vive, assim como todas, todos as, os que o seguem - que é o mesmo que dizer, na Trincheira, ou à Intempérie. Tem contra ele todo o tipo de "feras", todos os dos Privilégios, os chefes das Religiões /Igrejas e os outros, e as próprias multidões que, nos seus medos, os adoram /idolatram, apesar deles serem, todos os dias e a todas as horas, os seus carrascos, os seus algozes, os seus verdugos, os seus mercenários. Até que Jesus acabará assassinado às mãos deles, na Cruz do Império deles, como o Maldito dos malditos. E tais são /serão sempre os viveres quotidianos e o destino último de todos os nascidos de mulher que, na esteira e na peugada de Jesus, aceitam nascer de novo, do Alto, do Sopro /Espírito-que-vem-das-Vítimas da História e, desse modo, atingem o patamar e a plenitude do Humano. Não só são nascidos de mulher, como todos os demais, mas são também nascidos de DeusVivo, Criador de filhas e de filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, cheios de graça e de verdade, DeusVivo que nunca ninguém viu, a não ser em Jesus, o filho de Maria que, depois, se tornou tão filho de DeusVivo, o Não-Ídolo, que até Maria, sua mãe carnal, teve sérias dificuldades em reconhecê-lo e acolher a Boa Notícia de Deus que ele é /pratica /anuncia.

 

10 Os cíclicos natais do mítico Cristo, de que todas as Igrejas demencialmente falam e que todas elas demencialmente celebram nos templos e altares da nossa vergonha humana (é tudo Idolatria que nos humilha e desumaniza, rouba os bens e a alma, nos faz violentos e fratricidas), mais não fazem do que descriar-nos de ano para ano. Infantilizam as populações e os povos que alinham nessa Idolatria, ou Mentira organizada. Só que populações e povos infantilizados são um insulto a DeusVivo, o Criador de filhas e de filhos em estado de liberdade e de maioridade, cuja glória consiste em que todos os nascidos de mulher atinjamos a mesma estatura de Jesus, o filho de Maria. Mas como chegaremos a esse patamar, se as Igrejas são as primeiras a trabalhar, incansáveis, para o impedir? Porque são Igrejas, não de Jesus, mas do mítico Cristo que todos os anos nasce e morre e, nos intervalos, ainda nos é apresentado permanentemente pregado na Cruz, a do Império que matou Jesus, o filho de Maria e continua aí a matar, simbolicamente, que seja, as, os de Jesus, do seu Movimento maiêutico /libertador para a Liberdade e para a Maioridade. São Igrejas do Deus-Ídolo, o mesmo que o Império adora /idolatra e cujo culto público promove, mediante os sacerdotes /pastores das religiões /Igrejas nos templos e nos altares.

 

11 Em lugar de trabalharem, dia e noite, para derrubarem o Império e, em seu lugar, ajudarem maieuticamente, a erguer /edificar o Reino /Reinado de DeusVivo, Criador de filhas e de filhos em estado de Liberdade e de Maioridade - seres Humanos, plena e integralmente Humanos, como Jesus - trabalham, dia e noite, para servirem o Ídolo do Império e o seu mítico Cristo, que só serve para nos fazer esquecer Jesus, o filho de Maria, que se tornou tão filho de Deus-Abbá, por isso, plena e integralmente Humano, que nem a sua própria mãe carnal o reconhecia como de Deus, já que o Deus que ela conhecia era o Deus-Ídolo do Templo de Jerusalém, o Deus-Ídolo da Lei de Moisés, interpretada pelos sumos sacerdotes e seus doutores da Lei, todos mercenários, todos ladrões e salteadores que apenas existiam para roubar, matar e destruir as populações. Quando chega aos ouvidos dela que Jesus, o filho das suas entranhas, estava contra tudo e contra todos, até contra os sumos sacerdotes e o Templo de Jerusalém, contra a Lei de Moisés e as Tradições dos antigos, até contra o próprio Moisés e o mais sagrado dos preceitos da Lei de Moisés que era o descanso sabático, ela não se conteve mais e saiu, um dia, juntamente com os irmãos de Jesus, seus filhos como ele, a ter mão nele. O filho das suas entranhas só podia estar fora dele, louco varrido.

 

12 Por aquele então, Jesus teve de fazer uma opção. Ou era da sua família de sangue e do seu povo de Israel, do Templo /Sinagoga e do Deus-Ídolo que lá se adorava, um Deus devorador de pobres e de viúvas pobres, ou era de todas as vítimas da História, as do seu próprio Povo Israel e as outras todas, dos outros povos. E Jesus não hesitou em escolher. Fez-se família dos sem-família, dos sem-nome, dos sem-honra, dos desprezados, dos excluídos, numa palavra, dos Ninguém. Ficaria sozinho, porque até estes de quem ele se fez família, virão a cuspir-lhe na face, na pessoa dos soldados romanos, virão a escarnecer dele e a exigir a sua morte Crucificada. Em lugar dele, preferiram continuar fiéis aos seus verdugos, a troco de alguma Caridadezinha e de outras benesses para as filhas, os filhos, mesmo que estas, estes, para usufruírem dessas benesses, tenham que se prostituir nos seus haréns, espalhados pelos hotéis reservados aos Executivos das nações, ou nos templos paroquiais e cartórios, onde vale tudo, até tirar olhos.

 

13 Temos de parar para reflectir. Quem pensa que basta ter nascido de mulher para se ser Humano, está enganado. Nem com Jesus, o filho de Maria, as coisas foram assim. Até Jesus teve de nascer de novo, do Alto, do Sopro /Espírito-que-vem-das-vítimas-da-História. Como Jesus, também nós, cada uma, cada um de nós. Não importa se se é ateu ou religioso. O ateu e o religioso são as duas faces da mesma realidade, a Idolatria, essa mesma que fabrica as vítimas humanas aos milhões. Do que se trata é de nascermos de novo. Das Vítimas. Abrirmo-nos, pois, à mesma Fé de Jesus e, com ele, por ele e nele, trabalharmos incansavelmente para tirarmos da Cruz os Crucificados e, ao mesmo tempo, acabarmos com o Império que crucifica na sua Cruz todas, todos as, os que lhe resistem e denunciam /desmascaram a Idolatria com que ele se faz passar por Deus, quando mais não é do que a Mentira organizada /institucionalizada, pai de mentira /Idolatria, ladrão e assassino compulsivo. Eia! Ousemos ser outros Jesus, neste Século XXI e Terceiro Milénio além.

 

Capítulo 33

 

1 É urgente regressarmos a Jesus, mas é difícil. Dificílimo. Já o disse no capítulo anterior. E volto a sublinhá-lo aqui. Ao mesmo tempo que aponto mais umas quantas razões de fundo, justificativas desta dificuldade. O curioso é que a nossa sociedade deste Século XXI é cada mais secular e o facto, só por si, deveria facilitar e até acelerar o processo do regresso da Humanidade a Jesus, o filho de Maria. Porque, se há judeu que, depois de se autonomizar da família de sangue, foi cem por cento fecundamente secular-laico, nada religioso, esse judeu é precisamente Jesus. Só que Jesus, nestes séculos que nos precederam, sempre esteve, para seu e nosso mal, sequestrado /manipulado pelos sacerdotes das religiões, pior ainda, pelos clérigos católicos e cristãos que, desde Constantino, são simultaneamente, funcionários religiosos e funcionários públicos, nesta última dimensão, a de funcionários públicos, primeiro, do próprio Império romano, depois das monarquias e, hoje, das Repúblicas que, pelo menos, nos países do Ocidente, se reclamam de laicas, mas são beatas e hipócritas que se fartam, sempre na cola da Hierarquia eclesiástica (bispos residenciais e párocos /pastores de igrejas) e do papa de Roma que é, simultaneamente, o chefe de Estado do Vaticano. Uma vergonha e uma Indignidade sem nome.

 

2 Jesus, porém, é tão secular e laico (daquele Espírito ou Sopro que plenamente o habita, dizem as quatro narrativas do Evangelho, que é santo e, com isso, querem simplesmente dizer Espírito ou Sopro outro, não o estéril e castrador espírito /sopro das Religiões e do Poder Financeiro e Político, mas o Espírito /Sopro fecundamente secular-laico de Deus, nosso Abbá, o das Vítimas e dos Crucificados), que, desde muito cedo, conheceu o ódio teológico de todos os religiosos maiores do seu pequeno país, esses mesmos que estão na origem da sua morte crucificada na Cruz do Império romano. E não só dos chefes religiosos maiores. Também dos seus próprios familiares de sangue, dos seus vizinhos e da generalidade dos seus concidadãos. Escreve o Evangelho de João, logo a abrir o capítulo 7: "Depois disto [isto é, depois da deserção quase em bloco dos seus discípulos, à excepção do grupo dos Doze e, mesmo estes, não se afastam, naquela mesma altura, só na altura da sua prisão e da sua morte na Cruz do Império, porque continuam erradamente a pensar que ele é o messias na linha do rei David,quando Jesus nem messias é,apenas o Ser Humano por antonomásia!], Jesus andava pela Galileia; não queria andar pela Judeia, porque os dirigentes judeus procuravam matá-lo."

 

3 "Aproximava-se - prossegue o capítulo 7 do Evangelho de João - a grande festa dos Judeus, a das Tendas. Os seus irmãos disseram-lhe: Sai daqui e vai para a Judeia, para que os teus discípulos [todos esses que tinham acabado de o abandonar] vejam as obras que tu fazes, pois ninguém faz as coisas clandestinamente, se pretende tornar-se uma figura pública. Se fazes estas coisas, mostra-te ao mundo. Na verdade, nem os seus irmãos lhe davam a sua adesão /criam nele. E Jesus diz-lhes: Para mim, ainda não chegou o momento oportuno, mas para vós qualquer momento é oportuno. O mundo [no caso, a Judeia-Jerusalém] não tem motivo para vos odiar, mas a mim odeia-me, porque eu, ao contrário de vós, denuncio que são perversas as suas obras [o seu Poder Económico-Financeiro, o seu Poder Político, o seu Poder Religioso, juntamente com o seu Templo]. Depois de dizer isto, permaneceu na Galileia."

 

4 "Contudo - prossegue ainda o Evangelho de João - depois que os seus irmãos subiram à festa, ele também subiu, não com publicidade, mas a modos de clandestino. Os dirigentes judeus procuravam-no durante a festa e perguntavam: Onde estará ele? O povo falava muito dele, por entre dentes, como a cochichar. Uns diziam: É um homem de bem! Outros, ao contrário, afirmavam: Não! Ele anda a desencaminhar o povo! No entanto, ninguém se atrevia a falar acerca dele em voz alta, por medo dos dirigentes judeus. Foi então, quando a festa já ia a meio [durava sete dias!], que Jesus subiu ao Templo e pôs-se a ensinar [não vai ao culto, mas subverter /denunciar o culto que lá se realizava e que oprimia /explorava /enganava /matava o povo]. Os dirigentes judeus perguntam-se desconcertados: Como sabe ele de Escritura [de Teologia, de Deus-Abbá],se não estudou [nas nossas universidades]? Jesus replicou: A minha doutrina não é minha, mas dAquele que me enviou."

 

5 A narrativa não pode ser mais clara sobre quanto Jesus é secular-laico, não-religioso. Vejamos, porém, ainda mais em pormenor, como Jesus é secular-laico, não-religioso. Para começar, Jesus nasce em Nazaré, na Galileia. É criado, até à idade adulta, nessa aldeia que, então, nem sequer figurava no mapa e ficava nos antípodas da Judeia, consequentemente, longe do Templo de Jerusalém, a cidade capital da Judeia. Significa isto que Jesus é criado e cresce longe dos fedorentos ambientes da Religião oficial de Israel (fedorentos, sim, porque o cheiro dos contínuos sacrifícios cruentos dos animais no altar dos ditos, no Templo, empestava a atmosfera da cidade e esta tornava-se quase irrespirável). É criado longe de toda aquela idolatria, de todo aquele ritualismo /legalismo farisaico, de toda aquela hipocrisia sem limites. E longe de todo aquele negócio religioso que levará Jesus, mais tarde, a chamar ao próprio Templo de Jerusalém, "covil de ladrões".

 

6 Não! Jesus não nasceu em Belém, como se escreve nos dois primeiros capítulos, exclusivamente teológicos, do Evangelho de Mateus e do Evangelho de Lucas, com o declarado objectivo de, com esse artifício literário que as Igrejas sempre têm interpretado, erradamente, como um dado histórico, o poderem entroncar na linhagem dinástica de David. Numa altura, em que ainda se pensava que Jesus era o messias, e, para cúmulo, o messias na linha do rei David, isto é, descendente e sucessor do rei David e, como ele, vencedor dos inimigos dos Judeus. Felizmente, não é. Jesus nem sequer é o messias, pela simples razão de que não há, nunca houve, nunca haverá messias nenhum, fora de cada uma, cada um de nós, os seres humanos. (Esta interpretação de Jesus Messias, ou de Jesus Cristo é de origem judaica. Deve-se ao facto histórico de os primeiros discípulos de Jesus serem judeus. Inevitavelmente, "puxaram" a brasa à sua sardinha. E "viram" Jesus como o Messias /Cristo esperado. E assim o anunciaram aos demais Judeus. Sem sucesso, diga-se, porque, como sabemos hoje, os Judeus nunca reconheceram Jesus como o "seu" Messias. Ainda hoje continuam à espera dele! Só que o próprio Jesus nunca aceitou esse título, como no-lo testemunha o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro Evangelhos. De modo que até desta interpretação havemos de resgatar hoje Jesus, o filho de Maria, para que ele se torne integralmente universal). E os messias que houve, há e haverá sobre os demais seres humanos são todos ladrões e salteadores. Todos vêm para roubar, matar e destruir as populações e os povos (cf. João 10). Muito menos, Jesus, alguma vez, aceitaria ser o messias dos Judeus ou dos Povos da Terra, na linha do rei David, o mesmo é dizer, na linha do Poder Político vencedor /esmagador dos inimigos. Um messias assim, só mesmo do Deus-Ídolo, hoje o Senhor Dinheiro ou o Poder Financeiro Global, assessorado pelos do Poder Religioso e pelos do Poder Político.

 

7 Os próprios Evangelhos que isto escrevem têm o cuidado de dizer: Nem que Jesus fosse, porventura, da linhagem do rei David, só o seria por via legal. Não por via biológica. E só por isso é que eles o apresentam como o filho putativo /adoptivo de José. Com este artifício literário, tentam (e, pelos vistos, com bastante êxito, pelo menos, até hoje, mas um êxito que é a grande desgraça da Humanidade!) esconder o salutar escândalo que o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, nos anuncia, ao apresentar Jesus aos Povos do Planeta como "o carpinteiro /camponês", e como "o filho de Maria" (que tipo de pai biológico seria o de Jesus, cujo nome, segundo este Evangelho, nunca chega a ser pronunciado pelos vizinhos dele, de tão desprezível que esse seu pai seria?!), nado e criado em Nazaré da Galileia. Assim mesmo. Sem tirar nem pôr. À luz dos critérios tradicionais e oficiais, inclusive, das religiões, o escândalo é total. Insuportável. Intolerável. Com semelhantes origens, aonde é que se poderia chegar? Quem iria acolher semelhante Boa Notícia, semelhante Evangelho?

 

8 E, no entanto, é este o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus, nosso Abbá, e não o Evangelho do Império e do seu César vencedor, que Jesus vem dar a conhecer pessoalmente, mediante as suas próprias Práticas maiêuticas e os seus Duelos teológicos desarmados que lhe irão custar a própria vida. O que constitui uma Revolução Teológica sem precedentes na História da Humanidade, que as populações e os povos e as respectivas religiões e Igrejas, vinte séculos depois, ainda não estão dispostas, dispostos a acolher-aceitar, muito menos, a prosseguir nas suas vidas, nem nas vidas das suas filhas, dos seus filhos. E, para cúmulo, sempre, ou quase sempre, depressa até ostracizam e matam, simbolicamente que seja, o mensageiro que lhes anuncia semelhante Evangelho e que, na sua fragilidade humana, ousa prosseguir, de forma actualizada, em cada tempo e lugar, semelhante Revolução Teológica Jesuânica. Porém, em verdade, em verdade lhes digo: Tudo o que não for assim, como escreve /anuncia o Evangelho de Marcos, não passa de um arranjinho interesseiro, constitui um gravíssimo desvio da História, por isso, um gravíssimo desvio da verdade dos factos. E, já sabemos: Fora da Verdade, jamais chegaremos à plena Liberdade e à plena Maioridade. E nisto estamos. Povos sem Liberdade e sem Maioridade. Esmagados por guias cegos que nos cegam e conduzem para o abismo, cada vez mais aí. Povos infantilizados, que é de meter dó. Com lágrimas o escrevo /digo. E como Alerta geral. Como cabe à sentinela da cidade fazer, a tempo e fora de tempo.

 

9 Obviamente, a nós, mulheres, homens, do Século XXI e do Terceiro Milénio, só nos pode /deve interessar Jesus, o da História. Não o Jesus sequestrado /manipulado /inventado pelas Igrejas /Religiões, Igrejas-Poder, o braço direito do Poder Financeiro Mundial, hoje, global, uma espécie de mítico Jesus-Cristo que, como diz o calendário, nasce e morre todos os anos, numa espécie de tragicomédia-faz-de-conta! E, quando digo /escrevo que é urgente regressarmos a Jesus, é a este, o Jesus da História, "o carpinteiro /camponês", "o filho de Maria" (cf. Marcos 6). Porque só este é o Ser Humano por antonomásia, aquele que está posto como paradigma de todos os seres humanos, a partir dos últimos dos últimos, qualquer que seja a nossa origem, a nossa nacionalidade, a nossa língua, a nossa linhagem, os nossos antepassados. Inclusive, a nossa religião, ou o nosso agnosticismo /ateísmo.

 

10 Todas estas coisas que se nos sobrepõem depois de nascermos, não passam de acréscimos que, com o rolar dos séculos, (quase) inevitavelmente se colam aos Seres Humanos que somos e que logo nos aprisionam, nos condicionam, nos "comem" a autonomia, a originalidade, o Eu-Sou irrepetível e único que cada mulher, cada homem que vem a este mundo é, deve ser, tem de ser. Tal e qual como Jesus foi, é. De contrário, seremos sempre outra coisa, seres desviados do Humano, por isso, ou uns desgraçados adoradores de ídolos (a esmagadora maioria da Humanidade), ou uns idolatrados adoradores de ídolos (uma minoria da Humanidade) que os primeiros, infantil e ingenuamente, tomam por deuses e deusas. E lá se vai o salutar Secular-laico, em nós, por água abaixo. Em seu lugar, cresce o beato /o religioso, o filho do Poder /Ídolo, que é tudo menos Ternura, o filho do Saber /Ídolo, que é tudo menos Sabedoria, o filho do Dinheiro /Ídolo, que é tudo menos Deus-Abbá, o de Jesus, que nunca ninguém viu nem verá, nem o Moisés bíblico, nem o papa de Roma, e que, quer tenhamos consciência disso ou não, misteriosamente nos habita, por pura graça, desde o primeiro instante da nossa concepção, e sem cujo Sopro nem sequer teríamos chegado a Acontecer /Ser, no decurso da Evolução.

 

11 É a este Jesus secular-laico, o carpinteiro /camponês, o filho de Maria, que é urgente regressarmos. Ao Jesus de Nazaré, o filho de Maria, a mais Humilhada das mulheres que, mesmo assim, teve enorme dificuldade em entender o seu próprio filho e toda a Revolução Teológica que ele praticou /anunciou e por causa do que foi odiado /ostracizado /abandonado por todos e, finalmente, assassinado na Cruz do Império Romano, o que fez dele o Maldito dos malditos para sempre. E tudo porque Maria, como todas as demais mulheres judias e todos os homens judeus, vivia sob a poderosa influência ideológica da Lei de Moisés, perversamente interpretada pelos sacerdotes e pelos doutores /sabedores da dita; era, como toda a população judia do seu tempo e país, vigiada dia e noite e controlada pelos fariseus, uma espécie de polícia dos costumes. E tinha no Templo de Jerusalém a sua referência última e nos sumos sacerdotes que oficiavam ao culto, os representantes máximos de Deus. Quando vem a saber que o seu próprio filho está a levar a cabo no país uma Revolução Teológica sem precedentes, que nem o Templo de Jerusalém nem os sumos sacerdotes, nem a Lei de Moisés se safam, porque são esterco, idolatria, ela fica dividida entre eles e ele e, até à morte crucificada do seu filho, sempre foi mais pelo Templo, pelos sumos sacerdotes e pela Lei de Moisés, do que pelo seu próprio filho.

 

12 Haveria de abrir os olhos da mente e do coração, anos depois da morte maldita do seu filho Jesus e fazer sua a Revolução Teológica de Jesus, o filho das suas entranhas. A destruição do Templo de Jerusalém e da "cidade santa" pelos exércitos romanos foi o desmoronar de séculos e séculos de Idolatria. Finalmente, também ela vê que o seu filho Jesus é quem estava /está certo, era com ele que Deus-Abbá estava /está, a sua Revolução Teológica era /é a via que toda a Humanidade haverá de descobrir e fazer sua, independentemente do país e da língua, da cultura e das tradições em que tenham nascido as pessoas que a constituem. Fez-se então das, dos (do Movimento de) Jesus e, com essa sua conversão, com esse seu nascer do mesmo Espírito /Sopro de Jesus, tornou-se simplesmente Humana. Mais. Tornou-se, também ela, integralmente Humana, como o seu filho.

 

13 Na sua crassa e altamente rentável Idolatria, as Igrejas (sobretudo a católica que também integro como presbítero dissidente, mas sempre dentro dela, e como aprendiz de discípulo de Jesus, o filho de Maria, e como prosseguidor da sua Revolução Teológica), têm feito de Maria, a mãe de Jesus, uma deusa com múltiplos nomes. São Igrejas caídas na Idolatria, guias cegos que as populações e os povos têm de pôr de lado, se quiserem chegar a ser simplesmente Humanas, Humanos. De contrário, continuarão a ser populações e povos infantilizadas, infantilizados, enganadas, enganados, exploradas, explorados, sem nunca chegarem a crescer como Jesus em sabedoria e em graça, o mesmo é dizer, em Liberdade e em Maioridade, sem mais necessidade de deuses nem de chefes, de religiões e de templos, de sacerdotes e de pastores, de intermediários, e de santos /santas.

 

14 Urge regressarmos a Jesus. Urge renunciarmos duma vez por todas ao mítico Jesus-Cristo que as Igrejas /Religiões inventaram, cultuam e idolatram todos os dias em substituição de Jesus, o da História. E que  todos os dias apresentam como se esse mítico Jesus-Cristo fosse Jesus, o filho de Maria. Descarada e rotunda Mentira! Não é. E o pior é que o papa de Roma sabe bem que não é. Os cardeais da Cúria romana sabem bem que não é. Os bispos residenciais sabem bem que não é. Os párocos e pastores de Igrejas cristãs sabem bem que não é. Os teólogos católicos e protestantes sabem bem que não é. Mas todos continuam a fazer de conta que é o mesmo que Jesus, o da História. São todos mentirosos. São todos idólatras. São todos criminosos. São todos mercenários que não só não defendem as populações e os povos da Mentira, do Lobo que é a Idolatria, a das Religiões e a do Deus-Dinheiro, como ainda cooperam, uns mais, outros menos, com a Mentira, com o Lobo da Idolatria. São guias cegos que sabem o que fazem e continuam a fazê-lo, sem se importarem de, com esse seu comportamento, negarem a Verdade conhecida por tal. Só porque, desse modo, salvaguardam e até ampliam os seus privilégios. De todos eles, diz Jesus, o filho de Maria: Ai de vós! Sepulcros caiados! Raça de víboras! Hipócritas! Assassinos!

 

Nota: Esta semana, não voltarei a escrever neste Livro. Tenho de ultimar a edição n.º 176 do Jornal FRATERNIZAR, correspondente ao trimestre Janeiro /Março 2010. Depois, farei uns dias de férias que servirão, ao mesmo tempo, para dar a conhecer o meu NOVO LIVRO DO APOCALIPSE OU DA REVELAÇÃO que nenhum canal de televisão e nenhuma rádio nacional até hoje se atreveram a dizer que existe, de tão incómodo (a Verdade é sempre incómoda, como a Luz) que ele é. Espero regressar ao Livro da Sabedoria, em Janeiro do próximo ano. Entretanto, podem sempre encontrar-me no Correio electrónico e no youtube. Fiquem com a minha paz. E a minha ternura.

 

Capítulo 32

 

1 Não pensemos que é fácil regressarmos a Jesus. Nunca foi. Nem no século I, nem nos séculos seguintes, nem neste nosso século XXI. Neste nosso século XXI, é, porventura, ainda mais difícil, ou ele não seja o século do Senhor Dinheiro cientificamente organizado, que não admite nenhum outro, para lá dele! Muito menos, Jesus, o Maldito. No século I, para se ser das, dos de Jesus, havia que renunciar ao Império romano, demarcar-se do Império romano e dos seus falsos valores, renunciar aos ídolos todos que o Império romano acolhia e cujos cultos promovia e apoiava. Sobretudo, havia que renunciar ao culto ao imperador. Um ousado e lúcido Non serviam! = Não te servirei!, dito todos os dias ao imperador de Roma, não só por palavras, mas também por atitudes, por actos concretos, podia então custar a vida ao Ser Humano que assim se comportasse, logo olhado /tratado como rebelde, como desobediente.

 

2 Mas é precisamente o que faz Jesus no seu pequeno país, então ocupado pelos exércitos do Império romano. Nem a moeda romana, Jesus usava. Tão pouco a conhecia. É famosa aquela sentença que ainda hoje é mil vezes repetida e outras tantas vezes mal interpretada: "Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus". Assim mesmo. Sem papas na língua. Uma sentença que lhe irá custar a própria vida. Porque ousava dizer a César de Roma que ele não era Deus e, se mentirosamente se fazia passar por Deus, então mais não era do que um Ídolo que haveria que derrubar, nunca adorar! Custou-lhe a própria vida, mas não lhe custou a Dignidade. E, desde então, ficou claro que o Ser Humano nunca vai tão longe, como quando diz ao Império absoluto, Non serviam! = Não te servirei! Nem que, por causa desta sua quotidiana postura, tenha de cair de pé, como as árvores.

 

3 É assim Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, ao qual é preciso regressarmos, já. Não sabe nada, nem quer saber nada de Diplomacia nem de Hipocrisia. Sabe apenas de Dignidade. De Verdade. De Liberdade. De Maioridade. De Humanidade. De Verticalidade. De Transparência. César de Roma tinha-se na conta de Deus. Exigia obediência absoluta aos povos que conquistava e que depois mantinha sob seu férreo domínio. Exigia pesados tributos /impostos aos súbditos. O seu Império só subsistiria, se todos os dias comesse os povos, sugasse o sangue dos povos subjugados. E os povos, assustados, submetiam-se-lhe. Vergonhosamente. Executavam todas as ordens do Império. O Medo redunda facilmente e fatalmente em Idolatria. Transforma depressa em deuses os próprios Opressores, os Exploradores, os Poderosos, os Vencedores. Deuses seculares e terrenos. Mas deuses. Os piores de todos. Os mais vampiros de todos. A Idolatria só se desenvolve na proporção inversa em que diminui o Humano nos seres humanos e nos povos. Na raiz da Idolatria está sempre o Medo. Por isso se diz e com razão que o Medo criou os deuses, a Idolatria. E pode e deve acrescentar-se: E a Idolatria, que o Medo criou e promove, alimenta os deuses.

 

4 Até hoje, temos reduzido a Idolatria às Religiões. Aos santuários das Religiões. Às imagens dos altares. Às imagens das deusas e dos deuses. E esquecemos os ídolos seculares, laicos. Os profetas bíblicos têm alguma culpa neste equívoco de séculos. Porque sempre foram lestos a denunciar e a combater, até a ridicularizar, as imagens dos ídolos das Religiões do Paganismo, das deusas e dos deuses, mais os respectivos santuários situados nos lugares altos, mas deixavam passar a Idolatria secular, laica, a que mais comia /sugava os povos tolhidos de Medo. E a que mais produzia pobreza e pobres nas sociedades. Os profetas mais lúcidos e mais ousados ainda denunciavam os crimes e as prepotências dos reis, dos ricos, dos poderosos, mas apenas em nome da Justiça. Era bom que o fizessem. Mas manifestamente insuficiente. Tais posturas não iam à raiz do mal, a Idolatria. Sim, na raiz das injustiças e das arbitrariedades contra os pobres e os povos, por parte dos poderosos e dos ricos, dos seus Estados e dos seus Impérios, está sempre presente a Idolatria. Os ricos e os poderosos, os Estados e os Impérios só o são, porque a Idolatria lho permite. É assim: Se eles são deuses, então, tudo lhes é permitido. Ora, deuses, e deuses todo-poderosos, é como os ricos, os Estados e os Impérios de todos os tempos e lugares, sempre se consideraram e consideram. Hoje, século XXI, mais do nunca!

 

5 Toda a Idolatria é má. Perversa. Só que a mais perversa de todas nem é a das Religiões. A das Religiões também é perversa. E será bom que os povos e os pobres se capacitem disso, para não continuarem a sustentá-la, nem aos inúmeros sacerdotes e pastores que a tudo presidem e com isso se governam, enriquecem e ainda por cima gozam de privilégios sem conta. Depois de tudo o que de arbitrário cometem, ainda são olhados e tratados pelas suas vítimas como deuses, pequenos ou grandes, mas sempre deuses. Aos quais tudo é permitido, tudo fica bem. Mesmo que usem e abusem das populações, das suas filhas, dos seus filhos menores, usem e abusem da ingenuidade e da ignorância das populações, coisa em que sacerdotes e pastores, olhados e tratados como deuses, são mais que peritos. Chega a ser confrangedor vermos como as próprias populações já entranharam tanto este tipo de Idolatria religiosa, que, ainda hoje, século XXI, elas continuam a apreciar mais os sacerdotes e os pastores que as comem e abusam delas, do que os profetas que as alertam e as estimulam a libertarem-se do Medo ancestral que as leva a posturas tão indignas. As populações escarnecem, desprezam e matam os profetas, ao mesmo tempo que correm a frequentar os templos e os santuários dos sacerdotes e dos pastores, nos quais são sistematicamente enganadas, exploradas, aterrorizadas. São populações assim que pedem a morte de Jesus, o Profeta por antonomásia, ao mesmo tempo que se fazem capachos dos sacerdotes e pastores que as sugam, comem, roubam, enganam.

 

6 Como acaba de ficar claro, também a Idolatria das Religiões é perversa. Mas não é a mais perversa. A mais perversa é a Idolatria secular, laica. Já não veste de sacerdote nem de pastor. Nem de templo, nem de altar. No século I, o de Jesus, até ao ano 30 em que ele foi assassinado na Cruz do Império, a Idolatria mais perversa já era a do Império romano. Era a Idolatria secular. Mas, então, até essa se vestia de Religioso. César de Roma fazia-se passar por filho de Deus, melhor, o filho de Deus. Ele próprio Deus, nascido de mãe humana, mas fecundada por um mítico Deus. Gozava de culto público. Mas não era isso do culto público o mais perverso. O mais perverso era, é, ele arrogar-se o direito de dominar, mandar, subjugar todos os povos. Na raiz deste pretenso direito, pacificamente reconhecido pelas populações, está a Idolatria. Nunca no-lo disseram. Nunca no-lo dizem. Nunca no-lo dirão. Nunca no-lo ensinaram. Nunca no-lo ensinam. Nunca no-lo ensinarão. As Universidades e demais escolas não é para isso que existem. Elas não existem para dizer /revelar /ensinar a Verdade. Existem para a esconder. Assim como a generalidade da Comunicação Social.  E para a esconder com argumentos muito complicados e sofisticados que não passam de engenhosos sofismas. Tão pouco, as Igrejas existem para nos dizer /revelar /ensinar a Verdade. Universidades, Igrejas e Comunicação Social existem para nos esconder a Verdade. Pior. Para transformar a Mentira em Verdade. A Idolatria em Ideologia.

 

7 De geração e geração, sempre temos comido gato por lebre. Toda a Sociedade que tem a Idolatria na sua raiz, está aí cientificamente organizada para nos servir gato por lebre. Até a chamada educação tem tudo de domesticação, de imposição, de doutrinação. Educar é amestrar. Como se faz aos animais destinados a actuar no circo. Educar, como indica a etimologia da palavra, deveria ser um contínuo Acto Maiêutico de ajudar a dar à luz a Originalidade de cada ser humano e, depois, ajudar sempre maieuticamente a levar essa Originalidade à plenitude. Está a ser o contrário. Tudo, na Sociedade do século XXI está organizado, cientificamente organizado, para que nenhuma mulher, nenhum homem nascido de mulher, alguma vez, o chegue a ser na plenitude. Aconteceu uma vez na História, no século I, e, desde então, o Império nunca mais consentiu que se repetisse tal atentado à sua segurança e à sua estabilidade. Jesus, o filho de Maria, a mulher mais humilhada entre todas as mulheres do povo judeu, é o filho da Humilhação praticada pelo Império, pela prepotência do Império romano. Eu sei que as Igrejas no-lo escondem e até nos dizem o contrário. Mas são mentirosas. E, depois, à medida que crescia, Jesus, o filho da Humilhação do Império Romano, não frequentou as escolas da sinagoga. E, se, porventura, as frequentou, foi apenas para conhecer bem por dentro como elas lavavam o cérebro aos súbditos do Templo, da Lei de Moisés, dos Sacerdotes, e do Império de Roma. Tão pouco frequentou as escolas do Império romano que ocupava militarmente o seu pequeno país e reduzia o povo, especialmente, a maioria das mulheres em idade nupcial (13-14 anos) à Humilhação mais cruel, como fez concretamente com aquela donzela, Maria, de seu nome, que veio a ser a sua mãe.

 

8 Tão pouco Jesus cresceu em Saber, como pretendiam o Império e o Templo. Cresceu apenas em Sabedoria, o que fez dele um, política e teologicamente, subversivo e conspirativo, um perigo público, aos olhos de todo o Institucional de então, Templo de Jerusalém incluído. E de sempre. Também aos olhos de todo o Institucional de hoje. Todo o Saber, até o da Lei ou Toráh, Jesus transmutou em Sabedoria. Viveu sob o Império, mas sempre em Deserto. Não foi um oportunista, como, por exemplo, aqueles seus concidadãos judeus de Jerusalém que lhe perguntaram se se devia ou não pagar o tributo a César. Ao contrário deles, nem a moeda do Império Jesus conhecia. Muito menos a utilizava. Do Império, Jesus recusava tudo. Porque tudo o que vinha do Império (e do Templo coligado com ele), vinha inquinado pela Mentira, pela Ideologia. Numa palavra, pela Idolatria. Ao Império, havia então que lhe resistir sempre. Nunca fazer qualquer aliança com ele. Nunca pactuar com ele. Manter-se integralmente Humano, perante ele. Nunca dobrar a espinha perante ele. Nunca o adorar /idolatrar. Nunca o acatar. Nunca lhe obedecer. Nunca escutar /praticar o seu mentiroso e sedutor evangelho. A boa notícia que ele, enquanto Império, dava, por muito sedutora que fosse, só podia ser má notícia para os povos subjugados. Vinha do Império? Então era mentira. Era Ideologia. Era Idolatria. Acatá-la, era ficar refém do Império, súbdito do Império. Passar de Humano a súbdito. Um súbdito de luxo, ou um súbdito miserável. Mas súbdito, sempre.

 

9 Jesus é assim que cresce. Em Deserto. Cada vez mais habitado por um Sopro ou Espírito outro, que não o do Império. Nos antípodas do sopro ou espírito do Império. E também do Templo, cujos sacerdotes praticavam a Idolatria religiosa mais repugnante. Até o último cêntimo de uma qualquer viúva pobre, eles exigiam, extorquiam para reforçarem mais e mais o tesouro do Templo. Quando chegou à idade de intervir na Sociedade, Jesus deixa Nazaré, onde se havia criado, e surpreende tudo e todos com o Evangelho outro que vive e anuncia, nos antípodas do evangelho do Império. Esse seu Evangelho soava bem aos ouvidos das populações, cativas na injustiça. Dos camponeses pobres, como ele, o camponês /carpinteiro de Nazaré. A de Jesus, era uma Boa Notícia nos antípodas da mentirosa boa notícia ou propaganda que traziam os arautos do Império de Roma. Não anunciava a realização /inauguração de estradas, de pontes, de aquedutos, de postos de trabalho, de jogos, de festas, de espectáculos públicos, de bailes, de banquetes. Essas coisas e outras similares são presentes envenenados, como são presentes envenenados os cabazes de natal e os bancos alimentares contra a fome que todos os anos, quando manda o calendário, a Idolatria do Senhor Dinheiro e a Idolatria das Religiões regularmente oferecem a algumas das suas inúmeras vítimas.

 

10 Dessas coisas em que é perita a Idolatria, a das Religiões, e a do Senhor Dinheiro, e todos os seus chefes maiores, intermédios ou menores, Jesus não percebe nada. Nunca percebeu. Ele bem as via suceder, no seu país, que elas eram realizadas ao toque de trombetas, para que as populações tomassem conhecimento e saíssem à rua e ao caminho a aplaudir o benfeitor ou os benfeitores. Jesus via tudo, mas onde as populações amestradas /educadas /escolarizadas /catequizadas pelas Sinagogas, pelo Templo, pelas escolas /universidades do Império (hoje, do Senhor Dinheiro) viam benfeitores, deuses, ele via Opressores, Tiranos, Ídolos, Propaganda, Mentira cientificamente organizada, numa palavra, Idolatria. E, em lugar de aplaudir, Jesus chorava. Indignava-se. Todo ele fervia de cólera, de indignação, nascidas, uma e outra, da Ternura que o habitava. As suas entranhas sofriam de ano para ano dores de parto, até que, pelos 30 anos, ele se vê definitivamente empurrado para a Missão de Evangelizar os pobres e os povos. Na Galileia, primeiro. E, depois, na Judeia, concretamente, em Jerusalém, onde será crucificado na Cruz do Império. Faz tudo isto, porque percebeu que era imperioso e inadiável erguer, contra o mentiroso e sedutor evangelho do Império /Ídolo, fundado na Idolatria /Mentira, o Evangelho de Deus, fundado na Verdade. E isso é o que Jesus faz, sem que a voz lhe trema ou lhe falte.

 

11 O evangelho do Império /Ídolo fazia populações existencialmente oprimidas, submissas, habitadas pelo Medo, tolhidas, cegas, surdas, mudas, paralíticas, leprosas (= excluídas), pecadoras, com premente necessidade de correr regularmente para o Templo e para os cultos que lá se faziam, por intermédio dos sacerdotes, que também vendiam os animais, as pombas ou rolas que haviam de ser imolados no altar dos sacrifícios. Sem isso, as suas vidas humilhadas e empobrecidas redundariam em pesadelo ainda mais insuportável. Tanta Humilhação, como aquela que elas conheciam todos os dias, só seria suportada com renovadas doses de ópio, feito de rezas, de recitação de fórmulas mais ou menos mágicas, sempre as mesmas, de sacrifícios de animais (hoje, missas igualmente vendidas pelos sacerdotes!), uns de expiação pelos pecados, outros de acção de graças pelos pequenos favores recebidos por parte do Império e do Templo. Até em acção de graças pelas chuvas que naturalmente haviam regado os campos e os pastos.

 

12 Contra este evangelho da Humilhação das populações, anunciado e praticado pelos arautos do Império /Ídolo, Jesus vive e anuncia o Evangelho de Deus Criador de filhas e filhos em estado de Liberdade e de Maioridade. Não dá coisas às populações. Nem esmolas. Não as humilha ainda mais do que elas já estão. Na relação maiêutica que estabelece com elas, totalmente, à revelia do Império e do Templo e dos milhares e milhares de funcionários de um e de outro, Jesus desperta no mais íntimo de cada pessoa que acolhe o seu Afecto, a sua Ternura, o seu Gesto, a sua Palavra, a sua Presença, o Ser original, irrepetível e único, que ela é e que nela está oprimido, tolhido, paralisado, morto, como se não existisse.

 

13 Por isso é que as suas principais palavras de ordem são todas politicamente subversivas e conspirativas: Levanta-te e anda! A tua fé (= convicção /confiança em ti própria /o) te salvou! Pega na tua enxerga e vai para tua casa! Desce, e o teu filho viverá! Deixa que os mortos enterrem os seus mortos; tu segue-me! Vai, vende tudo o que tens, dá aos pobres, depois vem e segue-me! Lázaro, vem para fora! Desatai-o e deixai-o ir! Espírito mudo e surdo, ordeno-te, sai deste jovem e não voltes a entrar nele! Nada leveis para o caminho: nem cajado, nem alforge, nem pão, nem dinheiro; nem tenhais duas túnicas! Vai-te da minha frente, Satanás, porque os teus pensamentos não são de Deus, mas dos homens! Que aproveita ao homem ganhar o mundo inteiro, se se torna coisa, minhoca?! Levanta-te e vem para o meio! Estende o braço! Tomai cuidado com o fermento [= Ideologia] dos fariseus e com o fermento de Herodes! Talitha qûm! = Levanta-te! Quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos? Effathá! = Abre-te! Não andareis enganados, por desconhecer as Escrituras e a Fragilidade de Deus? Tomai cuidado com os doutores da Lei, que gostam de exibir longas vestes, de ser cumprimentados nas praças, de ocupar os primeiros lugares nas sinagogas e nos banquetes; eles devoram as casas das viúvas a pretexto de longas orações! Ide por todo o mundo, fazei discípulas, discípulos em todas as nações!

 

14 É assim Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada. Precisamos de regressar a ele. Já. Não é fácil. Mas é preciso. Este nosso século XXI, ou regressa a Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, ou não será! Fora de Jesus, deste Jesus que o Templo e o Império assassinaram na Cruz deste último, não há Humano. Só haverá Coisas. Humanóides. Ídolos e Idólatras. Opressores e Oprimidos. Ricos e Empobrecidos. Regressemos a Jesus. Ao Evangelho de Deus que ele próprio é e anuncia. Contra o mentiroso e sedutor evangelho do Império, hoje, do Senhor Dinheiro. A via é estreita, mas conduz ao desenvolvimento integral do Humano nos seres humanos. Larga é a via da Idolatria que nos conduzirá à Descriação do que ainda há de Humano nos seres humanos. Fora de Jesus, só há Idolatria. Mentira. Ideologia. Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada é o caminho. Vamos por ele e o Humano que ainda há nos seres humanos conhecerá a sua plenitude.

 

Capítulo 31

 

1 O nosso século XXI dará uma excelente prova de Sabedoria, se for capaz de regressar a Jesus, o testemunhado pelo Evangelho de Marcos, como a Fragilidade Humana Crucificada, e desistir de vez do mítico Jesus-Cristo Vencedor da Morte e dos inimigos, que Paulo, convertido a judeu cristão, zelosamente anunciou, durante as três arriscadas viagens apostólicas que realizou entre os Judeus da diáspora. A verdade é que Paulo, antes dessas viagens e durante elas, nunca chegou a ser plenamente evangelizado. Aliás, ele próprio faz questão de dizer que não recebeu o seu Evangelho de homem algum, mas, sim, directamente de Deus! (cf. Gálatas, 1-12). Só que esse é o seu grande equívoco. Como já havia sido o equívoco de Moisés e de todos os Judeus seguidores de Moisés até Jesus. Porque a Deus, nunca ninguém o viu (e quem disser o contrário, vê apenas um Ídolo, não vê Deus!), como oportunamente adverte o Evangelho de João que Paulo tão pouco terá conhecido e, se o tivesse conhecido, dificilmente se reconheceria na profundidade teológica - uma verdadeira Revolução Teológica - que é o Homem Jesus apresentado /testemunhado por ele. Ora, se Paulo, o das viagens apostólicas, não recebeu o seu Evangelho de homem algum, quer dizer que nem de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, ele o recebeu, nem de nenhum outro homem evangelista. Para cúmulo, chega, até, a gabar-se de não ter conhecido (= praticado) Jesus segundo a carne, como se conhecer (= praticar) Jesus segundo a carne fosse um obstáculo à Fé e não a condição sine qua non para chegarmos à mesma Fé de Jesus, a única que, se for praticada, nos faz plena e integralmente humanos.

 

2 O relato da chamada "conversão" de Saulo /Paulo, tal como o segundo volume do Evangelho de Lucas (cf. Actos 9) no-lo conta de forma maravilhosa, como se de um filme se tratasse, e ao qual o próprio Paulo várias vezes se refere nas suas cartas e muitas mais vezes se lhe deve ter referido nas suas pregações ao vivo, tem sido muito mal lido e muito mal interpretado, em todos estes séculos de Igreja. O relato, tal como Lucas sabiamente o tece, está escrito, sobretudo, para mostrar que Saulo, naquela ocasião, não se converteu à mesma Fé de Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada, mas a um mítico Jesus-Cristo judaico, vencedor, na linha de David, cujo messianismo Saulo /Paulo defendia com unhas e dentes, ao ponto de se ter tornado perseguidor das, dos de Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império coligados, na Cruz deste último.

 

3 Quando Saulo ia a caminho de Damasco, com o objectivo de trazer presos, as, os da via /movimento de Jesus, o conterrâneo judeu que os sumos sacerdotes do Templo de Jerusalém, os fariseus e os doutores da Lei, mais os partidários de Herodes ou herodianos, assim como o Sinédrio constituído pelos grandes proprietários do país, todos à uma, condenaram à morte, como o traidor-mor da Tradição dos antigos, o anti-Messias davídico, acabou, inopinadamente, por experimentar um forte abalo na sua consciência de Judeu fanático, semelhante a uma aparatosa queda. Não. Não caiu do cavalo, como se diz. O forte abalo que Saulo experimentou, aconteceu dentro da sua consciência. E é um abalo tão intensamente negativo, não positivo, como sempre se tem pensado /escrito /dito, que o deixa completamente cego, em vez de o deixar completamente a ver o que antes, nem ele, nem os seus antepassados, nem os seus contemporâneos Judeus, a começar pelos chefes, foram alguma vez capazes de ver.

 

4 A catequese que recebe, posteriormente, a esse abalo, confirma-o ainda mais nessa sua cegueira, em vez de o libertar dela. Jesus, o Derrotado, a Fragilidade Humana Crucificada, escândalo para os Judeus, também para ele, o fariseu Saulo, e loucura para todos os filósofos não Judeus de então e de todos os tempos, afinal, já não o era mais. E não o era mais, para todo o sempre. Na sua intensa cegueira ilustrada, nessa intensa luz que o cegou, Saulo /Paulo vê o que não deveria ter visto. Vê que, afinal, o Derrotado Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada, se havia tornado, depois da Morte Crucificada, no Cristo Vencedor da Morte, essa mesma Morte, que ele, na sua cegueira, encara como o inimigo maior de todos os inimigos, quando a Morte mais não é do que a vida que explode para ser ainda mais vida e de mais qualidade. E, se Jesus é o vencedor do inimigo maior, que é a Morte, então também será o vencedor de todos os outros inimigos menores, inclusive, dos próprios Romanos que ocupavam militar e indevidamente o país dos Judeus. Um Messianismo vencedor, assim, como o do Judeu Jesus, já lhe interessava, e muito, a ele, Saulo. Pelo que, se assim era, Saulo já não tinha que continuar a combater as, os da via ou movimento de Jesus. Tinha é que se juntar a elas, eles. E foi o que fez, quase num ápice. Pouco tempo depois, ainda em Damasco, já era ver Saulo /Paulo a anunciar desassombradamente nas sinagogas da cidade, portanto, aos Judeus, que "Jesus era o Filho de Deus", tal como sempre se dissera e se dizia, de David, o rei vencedor.

 

5 Os Judeus da Damasco começam por ficar surpreendidos. Sabiam que Saulo /Paulo viera para levar presos, as, os da via ou Movimento de Jesus, esse Judeu traidor, filho de Maria, um Ninguém, que, em seu entender, os chefes de Jerusalém, em boa hora, haviam condenado à morte e feito executar na Cruz do Império, como o blasfemo e o traidor-mor das Tradições dos antigos, nomeadamente de Moisés e da Lei de Moisés, e eis que, em vez disso, vêem-no agora de mãos dadas com as, os dessa via ou Movimento. De surpreendidos, passam a escandalizados, sobretudo quando vêem e ouvem Saulo /Paulo a argumentar e confundir até os chefes das sinagogas, ao tentar convencê-los e aos Judeus presentes, que "Jesus era o Messias /Cristo". Mais uns tempos, e Saulo /Paulo deixará de falar de Jesus, para falar exclusivamente de Cristo /Messias Vencedor e, de quando em vez, de Jesus-Cristo. Nunca por nunca de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, a Fragilidade Humana Crucificada, o Ninguém!

 

6 Os Judeus de Damasco resistem em bloco e chegam a organizar uma perseguição em forma contra Saulo /Paulo. Porque ele, em vez de perseguir as, os da via ou Movimento de Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada, a vergonha de todos os Judeus, aliou-se a eles e tornou-se, até, o seu principal porta-voz. O Messias Vencedor que todos os Judeus esperavam por aqueles dias já havia chegado, dizia Saulo /Paulo, uma e outra vez. Esse Messias Vencedor era o Jesus-Cristo. Os contemporâneos e conterrâneos de Jesus não o reconheceram, porque ele se lhes apresentou como a Fragilidade Humana Crucificada. Só que depois, quando já ninguém esperava, o Deus dos nossos pais, nomeadamente, o de Moisés e de David, interveio milagrosamente e ressuscitou-o dos mortos. Com esta intervenção, fez dele o Filho de Deus, o Vencedor, na linha de David. O Reino de Deus estava, pois, a chegar em força, por esses mesmos dias, porque o Crucificado, agora ressuscitado, viria de novo, já não mais como a Fragilidade Humana Crucificada, em tudo igual a nós, excepto no pecado, mas como o Vencedor que haveria de destruir e de submeter todos os inimigos de Deus e dos Judeus.

 

7 É este projecto imperialista judaico, com o Deus dos seus antepassados, a rei-imperador, que mobiliza o fariseu Paulo, o de Cristo mítico, ou cristão. Como, antes dele, já havia mobilizado os Doze. E que, no essencial, mobiliza ainda hoje as Igrejas, nomeadamente, as suas cúpulas. Não repetem os bispos à saciedade, que são "os sucessores dos apóstolos", isto é, dos Doze? E restaurar o grupo dos Doze, desfeito com a deserção /traição de Judas, não foi a principal preocupação dos Onze, no início, liderados por Pedro, naqueles primeiros dias, meses, anos, depois da Morte Crucificada de Jesus? Não é isto que nos relata, com escândalo, diga-se, mas que nós nunca demos por isso, o início do segundo volume do Evangelho de Lucas? Não é isso que os Onze mais esperavam de Jesus, mesmo depois da sua Morte Crucificada, concretamente, que ele restaure em definitivo o Reino de Israel? Não é isso que eles mais pedem a Jesus e a Deus, obviamente, o Deus de Moisés e de David? E não é isso que as Igrejas todas ainda hoje pedem, sem saberem o que dizem, porque o fazem no automático, mecanicamente, "Venha  nós o vosso Reino"?

 

8 Sei que nos custa admiti-lo. Mas a verdade é que somos, como Igrejas cristãs (e a católica romana muito mais, depois de toda aquela "trapalhada /traição" com o imperador Constantino e seus sucessores), adoradores de um mítico Jesus-Cristo Vencedor, que não existe, a não ser na nossa imaginação e como delírio nosso, no meio de toda a nossa Fragilidade Humana Crucificada. Somos prosseguidores do mítico Jesus-Cristo Vencedor, concebido e anunciado por Paulo, o das três viagens apostólicas, durante as quais, ele, Judeu cristão, tudo fez para convencer os seus irmãos de sangue e de tradição, para que o reconhecessem também, como o Ungido definitivo de Deus Vencedor, o Deus de Moisés e dos Profetas, numa palavra, o Deus dos Judeus, Povo escolhido entre os demais povos, todos condenados a serem povos de segunda categoria. É por isso que, onde quer que chegasse, Paulo sempre se dirigia às sinagogas e, em cada sábado, tentava convencer os seus patrícios da diáspora, de que o Messias já tinha chegado e seu nome era Jesus-Cisto. Não o Jesus do Evangelho de Marcos, a Fragilidade Humana Crucificada, mas o Jesus Vencedor da Morte, o mítico Jesus-Cristo /Messias /Ungido de Deus, a quem compete destruir todos os inimigos, o maior dos quais é a Morte!!!

 

9 Quando Saulo /Paulo, na Comunidade de Antioquia, foi escolhido /separado, juntamente com Barnabé para a Missão aos Pagãos ou Não-Judeus (cf. Actos 13, 1 e sgs), Barnabé foi indicado em primeiro lugar e deveria ser ele quem conduzia a Missão. Porque era profeta. Porque era de origem helenista, não judaica. Só que Paulo era doutor (da Lei) e, depressa, passou a dianteira a Barnabé. Onde quer que chegassem, impunha-se a Barnabé e exigia que se fosse primeiro à sinagoga ao encontro dos Judeus. Na sinagoga, tomava de imediato a palavra. O profeta Barnabé ficava reduzido ao silêncio. E, lá, onde a Profecia é silenciada, cresce a Lei, a Doutrina, a Ideologia, numa palavra, a Idolatria. Não se desenvolve a Liberdade, a Maioridade, a Sororidade /Fraternidade. Há Saber, não há Sabedoria. Há Poder /Privilégio, não há Entrega de vida, não há vidas-Pão-Partido-e-Vinho-Derramado. Há Cúrias /Poder do Vaticano e diocesanas, não há Comunidades de irmãs, irmãos. Há discursos e decretos, não há Palavra Partilhada. Há concentração de Poder e de Privilégios, não há Sororidade /Fraternidade, muito menos serviço maiêutico.

 

10 Barnabé, aflito com o que vê estar a acontecer, chama a si João Marcos, o do Evangelho com o mesmo nome.  O Profeta e o Evangelista, juntos, deveriam silenciar, pelo menos, num primeiro período, o Doutor da Lei, Paulo. Só assim, o Espírito /Sopro de Jesus teria oportunidade de fazer novas todas as coisas. Mas em vão Barnabé chamou Marcos. Paulo, doutor da Lei, Judeu cristão do mítico Jesus-Cristo Vencedor, rompeu depressa com ele. Fez tudo para converter Marcos ao seu Messianismo Vencedor. Tal como já o grupo dos Doze havia feito tudo para converter Jesus ao seu projecto de Messianismo Vencedor, proveniente da Casa real de David /Salomão. Marcos, felizmente, não cedeu a Paulo. Tal como Jesus, antes, também não havia cedido aos Doze. Resistiu-lhe. E, como viu que, na companhia de Paulo, não teria qualquer hipótese de anunciar o Evangelho de Deus, que é Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada, o Ser Humano por antonomásia, em quem Deus-Abbá se revê e se revela, se dá a conhecer e desmascara como Ídolos, o Deus da Lei de Moisés e das Religiões todas e do Dinheiro Acumulado e Concentrado, afasta-se decididamente do grupo. Barnabé ainda fica mais algum tempo, mas, depois, acaba por se afastar também. De vez.

 

11 Não temos sabido ler-escutar-interpretar o Evangelho de Lucas, no seu primeiro volume, onde se narra ao pormenor o conflito entre Jesus e os Doze, e no seu segundo volume, onde se narra ao pormenor o conflito entre o Espírito /Sopro de Jesus Crucificado pelo Templo e pelo Império coligados, na Cruz deste último e os Onze /Doze, liderados por Pedro. Insensatamente, temos seguido os Doze e o seu Projecto de reino messiânico davídico, temos seguido a Lei de Moisés, o Sacerdócio levítico de Aarão, o Templo e a sua sumptuosidade. Deitamos ao lixo Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, a Fragilidade Humana Crucificada, o paradigma de Ser Humano. Em vez de o anunciarmos /praticarmos com audácia, envergonhamo-nos dele. Não é a ele que anunciamos /praticamos /prosseguimos. A Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o das Práticas Económicas e Políticas Maiêuticas e o dos Duelos Teológicos Desarmados que manteve com os do Institucional que, lá onde estiver em acção, sempre oprime, esmaga, rouba, destrói, descria, numa palavra, mata o Humano em cada ser humano que o reconheça e o deixe afirmar-se sobre si, nós, Igrejas cristãs, não o queremos. Fazemos todas como o Grande Inquisidor. Mandamo-lo embora, pomo-lo fora do Planeta Terra, da História. Entronizamo-lo num mítico trono no céu, como um rei sem reino, cercado de míticos anjos! Como num conto de fadas!

 

12 Cada domingo, as Igrejas cristãs é do mítico Jesus-Cristo Vencedor de Morte e de todos os inimigos;  é do mítico Jesus-Cristo milagreiro, curandeiro, dominador, tirânico, ou bonzinho, que falam. Na peugada de Paulo. Como ele, as Igrejas cristãs recusam no seu seio, a presença activa do Profeta e do Evangelista, todos os Barnabés e todos os Marcos, em feminino e em masculino. Por isso, as catequeses que ministram, através de quase adolescentes e outras, outros catequistas teologicamente impreparados - chega a ser confrangedor o que se faz por essas paróquias fora, verdadeiros atentados à inteligência humana e à Fé, a mesma de Jesus - vão todas na linha da promoção da Religião, do Moralismo, da Idolatria, do Saber-Poder. Já da Sabedoria, a Fragilidade Humana Crucificada que é Jesus, o das Práticas Maiêuticas e o dos Duelos Teológico Desarmados, nem uma palavra. E como poderiam as catequeses fazê-lo, se, a exemplo de Paulo na sua incansável missão apostólica do mítico Messianismo Vencedor, também elas, as Igrejas cristãs, recusam no seu seio a presença e a primazia da Profecia e do Evangelho de Deus, a Fragilidade Humana Crucificada, para, dessa maneira, poderem continuar a ser Igrejas-Poder, Igrejas-Privilégio, Igrejas-Riqueza, Igrejas-Braço direito do Grande Poder Financeiro Global que hoje tem o Mundo e os Povos sob o seu tirânico jugo?

 

13 Temos de regressar a Jesus. Mas, primeiro, temos de resgatá-lo das Igrejas, se elas teimarem ser Igrejas-Saber /Poder, em lugar de Igrejas Sabedoria, Fragilidade Humana Crucificada, dispostas a levarem por adiante, hoje e aqui, devidamente actualizados, as mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus e os seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados. Regressar a Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o Ninguém. Não ao mítico Jesus-Cristo vencedor, inventado /anunciado pelo Judeu cristão Paulo, o das três viagens apostólicas, feitas para tentar convencer os Judeus de que Jesus-ressuscitado era o Messias Vencedor dos inimigos, o último dos quais, é a Morte. Temos de regressar a Jesus, o dos Evangelhos de Marcos, de Lucas (I e II volumes), de João e, também, mas com bastante mais cuidado, o de Mateus, aquele que a Igreja Cristandade, até ao Concílio Vaticano II, realizado já na segunda metade do século XX, teve sempre como o seu preferido, pelo que nele há que se preste a ser suporte e justificação da existência do "Poder eclesiástico" na Igreja de Jesus, coisa mais absurda!

 

14 Esta não é uma tarefa fácil. Porque os líderes das Igrejas (falo especialmente da Católica que um dia me ordenou presbítero da Igreja do Porto, certamente, para eu ser um funcionário eclesiástico e do religioso mais, e eu saí um presbítero todo entregue à missão de Evangelizar os pobres e os povos, o que ela dificilmente me perdoa!), depois de séculos e séculos a espalharem e a manterem o mítico Cristianismo de Paulo, com os Privilégios todos que ele lhes garante, não estão dispostos, da noite para o dia, a converter-se à mesma Fé de Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada. A menos que sejam obrigados. E já estão a ser obrigados, porque os templos estão a ficar cada vez mais vazios, os altares não dão frutos nenhuns de Liberdade e de Maioridade Humana, as catequeses são absurdos, semana após semana. E sem Templos, sem Poder, sem Privilégios, os bispos e os párocos despojar-se-ão de toda essa tralha bolorenta e erguerão, finalmente, a sua tenda entre os pobres, em tudo iguais a eles, excepto na Idolatria (esse é o Pecado do Mundo que Jesus nunca cometeu!).

 

15 Regressarão, então ao Evangelho de Marcos, de Lucas (I e II volumes) e ao de João e descobrirão Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada, que, no princípio da Igreja, o próprio Pedro, primeiro, e, mais tarde, Paulo, também acabaram por descobrir. Só que, depois que o descobriram e lhe deram a sua incondicional adesão, o Evangelho, nas suas quatro versões canónicas, nunca mais se ocupou deles. Nem era preciso. Porque eles, uma vez convertidos à mesma Fé de Jesus, só poderiam passar a realizar, devidamente actualizados, as mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus e os seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados. Só por isso é que acabaram ambos assassinados pelo mesmo Império que crucificou Jesus, sem que os do Religioso-Eclesiástico se incomodassem. Muito pelo contrário, rejubilaram.

 

Capítulo 30

 

1 Ainda a dor e o sofrimento humanos. É S. Paulo, na sua 1.ª Carta aos Coríntios (1, 22-24), quem leva ao máximo o escândalo dos filósofos e dos teólogos do seu tempo e de todos os tempos, perante a dor e o sofrimento humanos, e a existência do Mal, quando escreve: "Os judeus pedem sinais [vulgo, "milagres"], e os gregos buscam sabedoria; nós pregamos um Messias crucificado, escândalo para os judeus e loucura para os gentios. Mas para os que são chamados, Cristo é o poder e sabedoria de Deus". Parece ousado, mas não é. Parece jesuânico, mas não é. Parece sábio, mas não é. Ainda aqui, neste modo de ver e de apresentar e de vivenciar as coisas, anda Idolatria. E, lá, onde anda Idolatria, não anda Deus, o de Jesus. No entanto, tem sido esta postura do judeu cristão Saulo, depois chamado Paulo, que mais tem feito o seu curso no interior da Igreja e da própria Teologia (Idolatria?), com destaque para o ramo da chamada Cristologia (!). Indevidamente. Porque Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, ao contrário do que sempre nos têm ensinado e que é, até, a base do Cristianismo e do próprio Ocidente, não é o Cristo vitorioso de que Paulo se reivindica e fez questão de anunciar em todo o lado, durante as três arriscadas viagens apostólicas que realizou, depois de se ter tornado judeu cristão. São essas três viagens apostólicas que o autor do Evangelho de Lucas, segundo volume, mais conhecido por Livro dos Actos dos Apóstolos, relata ao pormenor, não como exemplo a ser seguido pelas, pelos de Jesus, mas como exemplo a ser evitado.

 

2 Paulo, sem nunca deixar o Judaísmo, pode ter-se tornado de Cristo, como de facto se tornou, sem se ter tornado de Jesus, pelo menos, durante grande parte da sua vida apostólica. Nesse longo período, também se tornou de Jesus, mas apenas e só de Jesus, enquanto Cristo, o Cristo, visto e anunciado por ele como o vencedor da dor e do sofrimento humanos, inclusive, da Morte,  considerada por Paulo como "o último inimigo" que Cristo venceu, ao ressuscitar dos mortos. Tanto assim, que Paulo faz da Ressurreição de Cristo, não de Jesus Crucificado pelo Templo e pelo Império, na Cruz deste último, a base e o fundamento da sua Fé cristã, mais cristã do que jesuânica. Chega a escrever, na mesma Carta aos Coríntios (cf. todo o capítulo 15): "Se Cristo não ressuscitou, é vã a nossa pregação e é vã a vossa fé." Sei que, ao escrever estas coisas, estou a tocar no até agora tido por intocável. Mas alguma vez alguém teria de o fazer. Porque o Evangelho de Deus, revelado /praticado /anunciado por Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, é escândalo, o escândalo; e loucura, a loucura. E só como escândalo e loucura pode e deve ser anunciado /praticado. Só que o cerne, o âmago desse escândalo e dessa loucura é e será sempre o próprio Jesus Crucificado. Ponto final. Porque Jesus Crucificado é até onde os nossos olhos de carne e, consequentemente, o nosso conhecimento humano, podem ir. Tudo o mais que se possa "ver" e anunciar já não é do domínio do Saber, apenas da Sabedoria, não a sophia, grega, mas a "loucura" de Deus, nos antípodas do Ídolo dos ídolos. Só que esta "loucura" de Deus, a autêntica Sabedoria, quem é que a quer e a abraça? Conhecemos alguém, para lá do próprio Jesus?!

 

3 Certamente, o judeu Saulo, também chamado Paulo, apesar do escândalo da Cruz, acabou por se tornar judeu cristão, mas só porque, no Derrotado /Crucificado Jesus na Cruz do Império, passou a ver o vitorioso Messias /Cristo davídico vencedor da Morte, graças à sua Ressurreição dos mortos, um Acontecimento não histórico que, no entender de Paulo, teria, finalmente, colocado o Derrotado /Crucificado na Cruz do Império, sentado, para sempre, à direita de Deus, com todos os seus inimigos como escabelo dos seus pés. Por isso é mais do que legítimo perguntar se Paulo que foi sem dúvida um judeu cristão convicto e apostólico como poucos, porventura, como nenhum mais até hoje, chegou a ser verdadeiramente discípulo de Jesus, o Crucificado, por decisão do Templo e do Império, e executado na Cruz deste último. O autor do Evangelho de Lucas, no segundo volume, testemunha que sim. Mas, apenas depois que Paulo concluiu a sua terceira viagem apostólica e, já, como prisioneiro em Roma, praticamente, abandonado por todos os judeus, que, como ele até então, permaneciam fiéis ao Templo e à Lei de Moisés, como se Jesus não tivesse desautorizado e até simbolicamente destruído um e outra, e por causa do que foi Crucificado!

 

4 Mas se Paulo, algum tempo antes de ser morto à espada pelo Império, acabou, finalmente, por se tornar discípulo /seguidor praticante de Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, na Cruz deste último, já o mesmo não se pode dizer da Igreja, no seu todo, nomeadamente, da Igreja que, no início do século IV, sob o domínio do imperador Constantino, acabou domesticada pelo Império Romano, pior, acabou transformada na religião oficial e única do Império. Como instituição, a Igreja do Império prosseguiu o Paulo do Messias /Cristo vencedor da Morte e dos inimigos, postos como escabelo dos seus pés. Prosseguiu esse seu Messias /Cristo vitorioso que não tem nada de Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, na Cruz deste último. Muito pelo contrário, tem tudo de Império e de imperador, de Pantocrátor, o imperador dos imperadores, cuja Cruz do Império passou a servir de símbolo de identificação do Cristianismo e da Igreja, e como o grande sinal de vitória: "Neste sinal vencerás!", reza a lenda em redor das vitoriosas batalhas militares, promovidas pelo imperador Constantino, uma lenda que fez o seu curso ao longo da História, não como lenda, mas como ideologia /Idolatria, ao ponto de, ainda hoje, na chamada Semana Santa, a Cruz do Império em que Jesus foi crucificado, ser posta à adoração solene das cristãs católicas, dos cristãos católicos! A aberração das aberrações. A Demência das demências, só possível no universo da Idolatria religiosa!

 

5 O escândalo da dor e do sofrimento humanos, e da existência do Mal no Mundo, tem a sua expressão máxima e paradigmática na Morte Crucificada de Jesus, por decisão conjunta do Templo e do Império, e consumada na Cruz deste último. Daqui não havemos de fugir. A Fé, se quiser ter alguma credibilidade, é aqui que tem de parar. No limite. Ou assim, ou perde o pé. Corre a tornar-se Saber /Poder. Recusa ser Sabedoria /Fragilidade Humana Crucificada. Corre a tornar-se Saber filosófico e teológico, mais ou menos sofisticado. Mas Saber. Não Sabedoria. Só o Saber filosófico e teológico é que corre a tirar o escândalo da dor e do sofrimento humanos e da existência do Mal no Mundo. Esse escândalo incomoda tanto os seres humanos, que eles não podem viver com ele sem doses de ópio, sem anestesia. E, por isso, correm a buscar explicações e mais explicações para suportarem esse escândalo. Explicações filosóficas, umas, teológicas, outras. Mas todas mentirosas. Todas falsas. Todas ópio. Numa palavra, todas idolátricas. Como tal, só favorecem o Ídolo dos ídolos que fica com carta branca para continuar, impunemente, a produzir mais e mais dor e sofrimento humanos, mais e mais Mal.

 

6 Não procede assim a Sabedoria, feita Fragilidade Humana Crucificada. Não corre a tirar o escândalo de diante. Não corre a explicá-lo, mais ou menos demencialmente. Pelo contrário. A Sabedoria coloca a dor e o sofrimento humanos e o Mal aí bem diante dos olhos de todas as pessoas, de todos os povos. E combate as causas que os provocam. Não sabe de ópio, nem de anestesia, nem de idolatria. Apenas de Realidade real. A Sabedoria vive sempre à escuta da Realidade mais real. E que Realidade mais real do que a dor e o sofrimento humanos e o Mal? A Sabedoria não corre a explicar. Corre a escutar. E a combater. Escuta a dor e o sofrimento humanos e o Mal. Nas suas vítimas. E, ao escutar as suas vítimas, não corre depois a dar-lhes ópio, anestesia. Muito menos, doutrinas teológicas alienadoras que apelam ao valor "redentor" da dor e do sofrimento humanos e do Mal, quando suportados com paciência e resignação por parte das vítimas. Ou, quando suportados em desconto dos pecados próprios ou alheios. Tais doutrinas são Idolatria /Mentira. Só servem os interesses assassinos e vampirescos do Ídolo dos ídolos. São Humilhação Humana. Um Vómito. As bocas que as dizem são cloacas. As mentes que as pensam são perversas e sádicas.

 

7 O cume da Sabedoria e da Fé Jesuânica é Jesus Crucificado na Cruz do Império, por decisão conjunta dele e do Templo. Um e outro são os dois braços do Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro, hoje, o Grande Poder Financeiro Global, concentradíssimo na mão de muito poucos seres humanos, seus gestores, mais do que seus donos. Porque ninguém chega a ser verdadeiramente dono do Grande Poder Financeiro Global. Apenas seu gestor. Porque o Grande Poder Financeiro Global é que é o dono, o Senhor dos senhores, o todo-poderoso. A quem não consegue vergar, humilha, ridiculariza, calunia, persegue e, finalmente, mata. Num género de morte, a mais absurda e a mais ignominiosa, para que o nome do assassinado nunca mais seja pronunciado por ninguém, nem recordado por ninguém. Pelo menos, na sua zona de influência que, hoje, é, praticamente, todo o Mundo, Igrejas incluídas!

 

8 A comunidade que escreveu o Evangelho de Marcos terá sido a primeira a ver as coisas assim, sem Idolatria /Mentira. Com Sabedoria, feita Fragilidade Humana Crucificada. São Paulo, o das viagens apostólicas, também terá conhecido este Evangelho. Mas não o fez seu. Escandalizou-se com ele. E recusou-o. Não o quis na sua companhia. O autor do Evangelho de Lucas, segundo volume, anota esse facto, quando diz que, a dado momento, Paulo recusou a presença de Marcos na sua comitiva (cf. Actos 15, 37-39). Marcos é igual ao Evangelho que leva o seu nome. Paulo recusou a Sabedoria, feita Fragilidade Humana Crucificada, que é Jesus, o do Evangelho de Marcos. Optou pelo Saber dos gregos e dos judeus. Saber /Poder. Saber que finalmente vence os inimigos e os coloca como escabelo dos seus pés! Por outras palavras, recusou Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada, escândalo para os judeus, também para o judeu Paulo, e loucura para os gregos, também para o "grego" Paulo e aderiu a Cristo, Poder vitorioso, novo David, que vence todos os seus inimigos, até a Morte, o último e o maior de todos, no entender, ainda hoje, de todos os filósofos e teólogos. Filósofos e teólogos do Ídolo dos ídolos, obviamente. Não de Deus, o de Jesus.

 

9 E porque escrevo eu que terá sido essa a primeira Comunidade a ver as coisas assim? Porque é a única que tem a audácia e a Sabedoria de não apagar o escândalo da dor e do sofrimento humanos e do Mal, cujo Paradigma é Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, Crucificado na Cruz do Império, por decisão conjunta do próprio Império e do Templo. Tanto assim, que se atreve a concluir o seu Evangelho ou Boa Notícia de Deus, revelada em Jesus, nas suas Práticas Maiêuticas e nos seus Duelos Teológicos Desarmados, com o grito de Jesus "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?, logo seguido de mais "um grande grito". É assim a Sabedoria, feita Fragilidade Humana Crucificada. O Evangelho de Marcos é o único que não apresenta um só relato de "aparições" de Jesus ressuscitado. Limita-se a colocar um mensageiro (em grego, "anjo"), a dizer a um punhado de Mulheres que seguiram Jesus desde a Galileia até à Cruz, que o túmulo está vazio. E acrescenta mais um dado essencial para que a mesma Fé de Jesus possa vir a Acontecer em algumas pessoas, através dos tempos, em todas as nações e línguas: "Ide dizer aos discípulos e a Pedro: Ele preceder-vos-á a caminho da Galileia; lá o vereis, como ele vos tinha dito".

 

10 É manifesto que não se trata de um ir turístico à Galileia, nem sequer de visita a um amigo. Trata-se de um atrever-se a, finalmente, fazer suas para as prosseguirem, as mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus, iniciadas na Galileia, e fazer seus para os prosseguirem os mesmos Duelos Teológicos de Jesus, que levarão, umas e outros, quem for por aí, quem for Humano desse mesmo jeito, a ser também crucificado na Cruz do Império, por decisão conjunta deste e do Templo. O Ídolo dos ídolos, o Grande Poder Financeiro Global que domina o Mundo, não suporta a presença, no seu domínio, de mulheres, homens sábios, da mesma Sabedoria que é Jesus, a Fragilidade Humana Crucificada. Não suporta em seu domínio a presença de mulheres, homens que o desmascarem, tirem o véu ou manto com que ele se cobre para se fazer passar por sagrado e divino. Mas são mulheres, homens assim, poucos que sejam, que são a luz do mundo, o sal da terra, fermento na massa, sentinelas na cidade. São mulheres, homens jesuânicos, do Movimento de Jesus, e que têm o mesmo fim /destino dele, quanto mais forem como ele, quanto mais forem outros ele.

 

11 Nada, pois, de Cristo vencedor dos inimigos, o último dos quais é a Morte. Nada desta Mentira /Ideologia /Idolatria. Deus, o de Jesus, o das Vítimas Humanas, o dos Crucificados da História, não é o poderoso que, finalmente, vinga as vítimas. Em Jesus, pudemos ver, com escândalo e como loucura, que Deus é a Fragilidade Humana Crucificada. Só o Ídolo dos ídolos é que é o todo-poderoso. Deus é, ele próprio, o Crucificado, a Vítima das vítimas. Por isso, tem sempre tão poucas pessoas que O acolham nas suas vidas, que O deixem ser Deus nas suas vidas. A esmagadora maioria das pessoas e dos povos, a começar pelos grandes das Igrejas, preferem acolher o todo-poderoso Ídolo dos ídolos e deixar que ele seja tudo nas vidas delas, deles. São pessoas, povos idólatras, quer se confessem ateus ou agnósticos, quer se confessem religiosos. Seguem o Cristo do Império e do Templo que, sob a forma de Poder Religioso e de Poder Político, está aí todo inteiro ao serviço do Grande Poder Financeiro Global.

 

12 Temos de passar do Cristo davídico e vitorioso e do Cristianismo davídico e vitorioso do São Paulo das viagens apostólicas, a Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, Crucificado pelo Templo e pelo Império, na Cruz deste último. Por se ter recusado servir o Ídolo dos ídolos, só as suas inúmeras vítimas, e a servi-las de forma maiêutica, não sob a aviltante forma da caridadezinha. E por, simultaneamente, ter desmascarado que Ele é o Ídolo dos ídolos que, desde o começo da Humanidade, se tem feito passar por Deus verdadeiro. E temos de passar do Ídolo dos ídolos que causa dor e sofrimento humanos sem conta nem medida, para o Deus de Jesus que escuta a dor e o sofrimento humanos e o Mal, e vem habitar com as vítimas e dentro das vítimas, para que elas, em lugar de se resignarem, de se conformarem, de tudo suportarem em desconto dos seus pecados ou dos pecados alheios, se levantem e enfrentem o Ídolo dos ídolos, até o amarrarem e derrubarem. Nem que, por via disso, acabem também crucificadas como Jesus, o Ser Humano em quem DeusVivo, que nunca ninguém viu, se revê totalmente e por isso diz a seu respeito: Este [e não os seus verdugos, os seus algozes] é o meu Filho muito amado em quem pus todo o meu enlevo. Escutai-o. Felizes seremos, se erguemos a nossa tenda entre as vítimas e se trabalhamos maieuticamente com elas, para que elas enfrentem o Ídolo dos ídolos, em lugar de aceitarem as "esmolas" os "subsídios" que ele lhes dá por meio do Poder Político e por meio do Poder Religioso!

 

Capítulo 29

 

1 Filósofos e teólogos continuam a mostrar-se escandalizados com a dor e o sofrimento humanos, particularmente, das crianças. Para vincarem ainda mais o seu escândalo, acrescentam ao substantivo "crianças", o adjectivo "inocentes". Sempre escrevem /dizem "crianças inocentes". Uns e outros dão quase sempre ainda um passo mais e atiram-se abertamente a Deus, a quem tomam como o causador da dor e do sofrimento humanos. Muitos dos filósofos vão ao ponto de se declararem ateus. Não podem crer num Deus que, aos sabedores olhos deles, é a causa da dor e do sofrimento humanos. Ou, no mínimo dos mínimos, cúmplice da dor e do sofrimento humanos. Porque, como eles gostam de dizer, se Deus existe e não intervém para pôr fim à dor e ao sofrimento humanos, então é um sádico. E, se não põe fim à dor e ao sofrimento humanos, porque nem mesmo Ele pode realizar essa acção, então que Deus é ele? E para que serve um Deus assim? É, então, que completamente escandalizados, concluem, do alto do seu Saber, que um Deus que nem com a dor e o sofrimento humanos consegue acabar, não é de fiar. Tão pouco vale a pena crer nele. E declaram-se ateus, uns; agnósticos, outros.

 

2 Já os teólogos que fazem do acto de teologar o seu ofício e o seu ganha-pão, nunca poderão declarar-se ateus, nem sequer agnósticos. Mas vivem a sua vida atormentados, amargurados. Intelectualmente atormentados, amargurados. Ou então são cínicos, a vida inteira. Evitam, por isso, o mais que podem ser alguma vez confrontados com essa questão da dor e do sofrimento humanos, particularmente, dos que, também eles chamam de "inocentes". Parece até que não é tanto a dor e o sofrimento humanos, em si mesmos, que os perturba e aos filósofos. Apenas a dor e o sofrimento dos inocentes. Esta e este, sim, e apenas esta e este, é que são para eles a fonte de escândalo! E como não podem declarar-se ateus nem sequer agnósticos - vivem do acto de teologar e são professores catedráticos nas universidades católicas e para-católicas - desdobram-se em mil e uma razões para explicarem o inexplicável, conviverem com o intolerável que são, efectivamente, a dor e o sofrimento humanos, toda a dor e todo o sofrimento humanos. Não apenas a dor e o sofrimento dos "inocentes". E, pelo meio, sempre dizem, uma e outra vez, que a dor e o sofrimento humanos são a sua "cruz teológica". Isto é, crêem em Deus, apesar dela e dele. E assim se ficam, ano após ano, até que a Morte os tire da angústia e do escândalo.

 

3 O que disse /escrevi? Até que a Morte os tire da angústia e do escândalo? Precipitação minha! Como há-de ela tirá-los da angústia e do escândalo, se a Morte é para os teólogos, como para os filósofos, o escândalo maior, o cume da dor e do sofrimento humanos, a angústia das angústias? Morrerão, por isso, na angústia e no escândalo. E só não se fizeram, antes de morrer, também ateus ou agnósticos, porque o acto de teologar sempre foi, é o seu ganha-pão e garante-lhes ainda outras prebendas nada despiciendas, como títulos honoríficos, estatuto social, poder na instituição eclesiástica e religiosa, senhor doutor para cá, senhor doutor para lá. Sem nunca esquecermos que bastantes deles acabam por ser escolhidos para bispos residenciais e cardeais, por parte do Poder eclesiástico de topo, o qual, como sabemos, tem um fraquinho pelos doutores com cátedra cativa nas suas universidades. E de modo algum suporta, até odeia, as mulheres, os homens de Fé Jesuânica, discípulas, discípulos de Jesus e prosseguidores das suas mesmas Práticas Maiêuticas e dos seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados.

 

4 Filósofos e teólogos que falam assim da dor e do sofrimento humanos, e se comportam assim perante a dor e o sofrimento humanos, podem ser e são, certamente, sabedores /doutores. De modo algum, são sábios. Mesmo que pareçam humildes, vivem inchados de Saber-Poder-Vaidade-Privilégio, mas esvaziados de Sabedoria que é, como tenho dito e repetido sem nunca ser de mais, Fragilidade Humana Crucificada. Teriam de aceitar despojar-se por completo desse Saber-Poder-Privilégio, dessa Vaidade e reconhecerem-se Fragilidade Humana Crucificada. Longe das cátedras que têm cativas nas universidades. Próximos dos empobrecidos, das vítimas, dos sofredores, dos crucificados. Teriam de transmutar o Saber em Sabedoria, o Poder e o Privilégio em Fragilidade Humana Crucificada. Teriam de nascer entre os últimos e nunca emigrarem de junto deles, a não ser para frequentarem por uns tempos o Deserto e regressarem, depois, ainda mais Fragilidade Humana Crucificada.

 

5 Filósofos e teólogos que, do alto das suas cátedras, ou do alto do seu prémio Nobel, ou do alto dos seus altares, ou do alto dos palácios dos seus Vaticanos, ou do alto das suas basílicas, discorrem sobre a dor e o sofrimento humanos, como coisa que só acontece aos outros, não a eles, não passam de cínicos, de dementes-dementes, sádicos, intelectuais-papagaios, que não são de fiar. Para cúmulo, ainda ganham dinheiro com a dor e o sofrimento humanos. Ou, porque, como filósofos e teólogos, discorrem sobre ela e sobre ele, deste modo tão obsceno e cruel, sem nunca lutarem para a, o erradicarem da face da Terra, ou porque se fizeram profissionais chamados de saúde, não para acabarem com a dor e o sofrimento humanos, mas para enriquecerem à custa da dor e do sofrimento humanos. Hospitais públicos e privados, centros de saúde, clínicas privadas de todo o tipo e para todas as bolsas, farmácias e farmacêuticos, multinacionais de medicamentos, laboratórios ao serviço das multinacionais de medicamentos, milhões e milhões de pessoas que vivem exclusivamente da dor e do sofrimento humanos, até freiras e frades que frequentam as casas das pessoas que sofrem, está tudo, estão todos a viver-comer-enriquecer-a-ter-prestígio da dor e do sofrimento humanos.

 

6 Parece que está tudo, que estão todos a lutar contra a dor e o sofrimento humanos. Não estão. São profissionais da saúde, só no diploma que os do Saber do Grande Poder Financeiro Global lhes passa, no final do curso, frequentado com sucesso. Na prática, são milhões e milhões de pessoas e de instituições que vivem-enriquecem à custa da dor e do sofrimento humanos. O que seria de todos estes milhões e milhões de pessoas e de instituições, em todo o Mundo, se, da noite para o dia, ou do dia para a noite, a dor e o sofrimento humanos acabassem?! Não seria o descalabro mundial? Não seria o colapso do Sistema criado e gerido pelo Grande Poder Financeiro Global? As próprias Igrejas e as Religiões subsistiriam? Não se mantêm aí a funcionar, sempre com clientes garantidos, uma geração após outra, só porque há dor e sofrimento humanos? Não houvesse, e elas ainda teriam quem as frequentasse? O santuário de Fátima, por exemplo - é a nossa vergonha nacional, europeia e até mundial - teria os cinco ou seis milhões de "peregrinos" anuais, provenientes de todo o Mundo (não, não são só portugueses e europeus), se acabassem a dor e o sofrimento humanos?

 

7 A esta luz, não temos de concluir que a Demência-demência, sob a forma de Saber-Poder-Privilégio ganhou foros de cátedra nas universidades e está a ser cientificamente fomentada entre as sucessivas gerações que chegam a este Mundo, de modo que a Sabedoria nunca tenha a sua oportunidade na História? Mas será que a dor e o sofrimento humanos estão aí por geração espontânea, por criação de Deus, ou são criação do Grande Poder Financeiro Global que, sem ela e sem ele, nunca teria pés para andar e para se manter, cada vez mais opressor?! O nosso Mundo não está todo demencialmente organizado para produzir dor e sofrimento humanos, umas vezes mais controlado, outras vezes, completamente descontrolado? Por trás da dor e do sofrimento humanos não andam causas bem concertadas? Grandes interesses que só o são e cada dia mais poderosos, porque se alimentam da dor e do sofrimento humanos que, porventura, até ajudam a combater, mas só até certo ponto, sem nunca chegarem a acabar de vez com ela e com ele?

 

8 Perante esta intolerável realidade que é a dor e o sofrimento humanos, os filósofos e os teólogos que se limitam a dizer-se escandalizados, ao ponto de, uns, se declararem ateus ou agnósticos, e os outros se declararem angustiados e amargurados, não passam de cínicos, como, de resto, são cínicos todos os homens do Saber-Poder-Privilégio que falam, falam, falam contra a dor e o sofrimento humanos, mas, entretanto, é dela e dele que vivem, engordam, enriquecem, desfrutam privilégios e mordomias sem conta. São filósofos do Saber-Poder-Privilégio. Não são sábios. São hipócritas. São mercenários do Grande Poder Financeiro Global que lhes paga para que o sirvam e fomentem /semeiem entre as sucessivas gerações que vêm a este Mundo o vírus da Demência-demência, esse mesmo que outras gerações anteriores também já fomentaram /semearam neles. Para que nunca por nunca o Grande Poder Financeiro Global perca o seu domínio. E a sua perversa Ordem Mundial prossiga e continue a ser encarada por todos os povos como coisa natural. Mas é o escândalo dos escândalos!

 

9 Já os teólogos que se mostram angustiados e amargurados perante a dor e o sofrimento humanos, mas continuam com as suas cátedras cativas nas universidades das respectivas Igrejas e Religiões, para lá de cínicos-que-frequentam-cultos-nos-templos, ou até presidem a cultos nos templos, também são idólatras. O Deus em que dizem crer não passa de um Ídolo que eles têm por o único Deus verdadeiro. Por mais que corram e saltem; por mais doutoramentos que coleccionem; por mais tratados e compêndios que escrevam e editem; por mais conferências que profiram em Cimeiras internacionais de teólogos, não passam de teólogos idólatras. O Deus de que são teólogos é um Ídolo, o Ídolo que alimenta as Religiões, todas as Religiões, cristã-católica incluída. Ou todas elas não sejam Idolatria, o culto do Ídolo. E só o Ídolo sobre o qual tais teólogos reflectem, escrevem, discorrem, é que mantém a dor e o sofrimento humanos, porque alimenta-se dela e dele. No dia em que a dor e o sofrimento humano acabarem, o Ídolo também acabará. E, com Ele, todos esses milhões e milhões de mercenários e de instituições que vivem-enriquecem à custa da dor e do sofrimento humanos.

 

10 Os filósofos e os teólogos pensam e procedem assim, porque são homens do Saber-Poder-Privilégio. São mestres do Saber-Poder-Privilégio. Não são discípulos da Sabedoria, a Fragilidade Humana Crucificada. Nunca foram. Nunca serão. Porque todos eles sabem - Pai, perdoa-lhes, porque eles sabem muito bem o que fazem! - que no dia em que decidirem ser discípulos da Sabedoria, serão lançados à geena, à lixeira, ao esgoto. Serão crucificados. Para servirem de exemplo a outros que, assim, depressa, desistirão de ir por essa via, a da Sabedoria, e manter-se-ão, por toda a vida, nas cátedras do Saber-Poder-Privilégio que têm cativas nas universidades, todas elas financiadas pelo Grande Poder Financeiro Global que manda no mundo, domina o mundo. Fossem filósofos e teólogos, discípulos da Sabedoria, fossem eles próprios Fragilidade Humana Crucificada, como Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria foi, é e será, e outra, muita outra seriam as suas posturas, os seus pensares e os seus dizeres-escreveres.

 

11 Em lugar de passarem a vida a dizerem-se escandalizados e angustiados /amargurados perante a dor e o sofrimento humanos; em lugar de passarem a vida a filosofar e a teologar sobre Deus como o culpado ou pelo menos cúmplice da dor e do sofrimento humanos; em lugar de passarem a vida a tentar encontrar argumentos contra Deus ou, então, a tentar desculpabilizar Deus; em lugar de passarem a vida a congeminar formas de sublimação da dor e do sofrimento humanos, por parte de quem é vítima duma e doutro - tudo isto é do reino da Demência-demência humana e só aproveita ao Grande Poder Financeiro Global que tudo controla, até a dor e o sofrimento humanos - os filósofos e os teólogos, se aceitassem ser discípulos da Sabedoria, a Fragilidade Humana Crucificada, viveriam na Trincheira a desmascarar, oportuna e inoportunamente, a Idolatria e o Ídolo que está por trás do Grande Poder Financeiro Global. Ao mesmo tempo, gastariam todo o seu viver a tentar abrir os olhos das mentes das populações e dos povos, e a mobilizá-las, mobilizá-los contra ele e contra ela e contra o Grande Poder Financeiro Global que a, o provoca e alimenta. Numa palavra, seriam outros Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada.

 

12 "Ao passar, Jesus viu um homem cego de nascença. Os seus discípulos perguntaram-lhe: Rabi, quem pecou para que este nascesse cego? Ele, ou os seus pais? Jesus respondeu: Nem ele, nem os seus pais. Isto aconteceu para se manifestarem nele as obras /práticas de Deus. Temos de realizar as obras /práticas daquele que me enviou enquanto é dia. Vem aí a noite, em que ninguém pode actuar. Enquanto estou no mundo, sou a luz do mundo". É com estas palavras que o Evangelho de João (capítulo 9) inicia a Narrativa Teológica que ficou conhecida - erradamente, diga-se - como "A cura do cego de nascença". A narrativa é teológica, não jornalística. O cego, sem nome, é uma figura representativa. Está por todo o povo, por todos os povos que nascemos e vivemos caídos na Treva, na Cegueira, na Mentira, numa palavra, na Idolatria. Quer dizer, pessoas e povos que nunca conheceram outra coisa, outro tipo de sociedade. Como tal, tomam por Deus verdadeiro, o Ídolo. Por filosofia e teologia, a Idolatria. Pensam, investigam, filosofam, teologam, mas sempre dentro do domínio da Treva, da Noite, da Escuridão, da Mentira, da Cegueira, numa palavra, da Idolatria. Tudo o que pensam, dizem, fazem, ensinam, destina-se a reforçar mais e mais o Grande Poder Financeiro Global que lhes paga para isso, a alguns poucos, muito bem, à esmagadora maioria, muito mal, para assim os ter sempre na sua mão assassina!

 

13 Não é por aí que anda Jesus. Manifestamente, não é por aí. Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, não é do número dos Sabedores /Doutores-do-Poder-e-do-Privilégio. Não é do número dos idólatras, dos filósofos e dos teólogos da Treva, da Mentira institucionalizada, da Idolatria. Ele é a Luz do mundo. É a Sabedoria, a Fragilidade Humana Crucificada. Sem cátedra cativa nas universidades do país, as da Sinagoga e as do Templo de Jerusalém. É a Fragilidade Humana Crucificada por antonomásia. Como tal, não perde tempo, muito menos passa a vida a discorrer sobre de quem é a culpa de haver tanta dor e tanto sofrimento humanos. Ele vê, com os olhos que só a Sabedoria dá, que toda a dor e todo o sofrimento humanos, com que diariamente deparamos, são o fruto mais inumano que o Ídolo que se faz passar por Deus verdadeiro e que a Idolatria que, desde o princípio da Humanidade é promovida em seu louvor nos templos e nos altares, os sagrados e os profanos - é isto a Religião, seja sagrada ou profana! - produzem. Por isso, é que ele é Ídolo. Por isso, é que é Idolatria ou Religião. Não Fé, a mesma de Jesus, por isso, Jesuânica.

 

14 Em lugar de se pôr a discutir, como queriam os próprios discípulos, e como querem ainda hoje todos os filósofos e todos os teólogos do Saber-Poder-Privilégio, Jesus age de imediato. Torna-se, de imediato Prática Política Maiêutica. Age. Não. Não vai a correr dar esmola ao ceguinho. Não vai a correr fundar um hospital ou uma Misericórdia. Faz com que de dentro dele, isto é, dos seres humanos que aceitemos ser seus discípulos, não apenas seus admiradores, rebente /expluda o Humano que está lá acorrentado, cativo, amarrado, amordaçado, silenciado, vendado, morto de quatro dias, isto é, verdadeiramente morto. E eis que, inopinadamente, nesta, naquela Mulher, neste, naquele Homem, o Humano Acontece e logo se levanta contra a Mentira /Idolatria institucionalizada que a mantinha escravizada, cativa, o mantinha escravizado, cativo. Infelizmente, a esmagadora maioria dos seres humanos prefere manter-se na Treva, na Mentira, na Idolatria, na Religião. Até porque aquelas, aqueles de nós que aceitamos VER, isto é, saltar fora da Idolatria e sermos Liberdade /Maioridade, Fragilidade Humana Crucificada, nunca mais teremos o reconhecimento dos que preferem manter-se, por toda a vida, na Treva, na Idolatria, no culto do Ídolo, no Saber-Poder-Privilégio. Hão-de fazer-nos a vida negra, até nos excluírem por completo das suas vidas, das suas instituições, das suas mesas. Esta narrativa teológica do Evangelho de João, se for lida até ao fim, é deveras elucidativa. Felizes, porém, se, mesmo assim, nos mantivermos fora da Idolatria e com a Sabedoria, por toda a vida. Se nos mantivermos Fragilidade Humana Crucificada, por toda a vida. Porque não há Humano, senão assim, Fragilidade Humana Crucificada. Vêem, então, como é "estreita" a porta?!

 

Capítulo 28

 

1 Desde que a Sabedoria se fez carne, em Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o de Nazaré da Galileia, nunca mais a Humanidade poderá continuar como antes. Até Jesus, sempre se confundiu Sabedoria com Saber, Saber com Sabedoria. Dizer Saber ou dizer Sabedoria era indiferente. As duas palavras eram sinónimas. Só em Jesus é que, finalmente, percebemos, que Saber não é sinónimo de Sabedoria, mas antónimo. Saber é Poder Humano Crucificador. Sabedoria é Fragilidade Humana Crucificada. Desde então, ou o Saber, todo o Saber se transforma em Sabedoria, ou será bem melhor que nós, os seres humanos, sejamos, ao menos, como as árvores que produzem toda a espécie de frutos. De bons frutos. Mesmo que não conheçamos uma letra do tamanho de um carro, nem saibamos nada de tecnologia de ponta, nem de computadores e de informática, as nossas vidas, se forem como árvores de fruto, produzirão fecundas práticas políticas maiêuticas e anti-idolátricas, com força bastante para mudarem /transformarem /humanizarem o nosso Mundo.

 

2 Foi o Saber que não suportou a Sabedoria e a matou. É o Saber que, ainda hoje, não suporta a Sabedoria e a mata. Será o Saber que, no próximo-futuro, não suportará a Sabedoria e a matará. Enquanto não formos como meninas, como meninos, não entenderemos nada. Crescemos e fazemos outros crescer em Saber e depois queixamo-nos de que quanto mais conhecimentos têm os seres humanos, mais perigosos, corruptos, insolidários, exploradores, assassinos, eles são. Pudera!Quando a Família e a Escola e a Igreja e os Media fornecem conhecimentos e mais conhecimentos, sem nunca cuidarem que esses conhecimentos se transmutem em Sabedoria, estão a formar, não seres humanos sábios, fraternos, solidários, acolhedores uns dos outros, cooperadores, livres, autónomos, em estado de maioridade, mas lobos, animais ferozes que, quando se tornarem desenvolvidos, agridem e matam os seus formadores /formatadores. A menos que estes, à medida que lhes fornecerem conhecimentos, também os domestiquem, lhes incutam um conjunto de tabus (uma espécie de mentiras sagradas ou de "primeiros princípios" que não precisam de ser provados, apenas admitidos e reconhecidos por toda a gente como verdade indiscutível) que eles jamais poderão infringir, vida fora. Tudo isso, dito numa só palavra, chama-se Idolatria (= o culto do Ídolo = Mentira-Organizada-Institucionalizada)

 

3 O Ser Humano do século XXI, que não sabe nada de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, e parece que tão pouco está interessado em saber; que não tem nem parece querer ter Jesus por referência, muito menos, por a sua referência última, o Paradigma do Humano, avança, inevitavelmente a largos passos para o Abismo. Cresce em Saber, domina todas as tecnologias, está na vanguarda do desenvolvimento tecnológico, num ritmo cada vez mais veloz, mas não é capaz de escutar, de acompanhar, de acolher, de amar, de se desfazer em gestos de gratuidade, a começar por ele próprio. Nunca como hoje, a Família, a Escola, a Igreja, e os Media estão aí a formar seres humanos-lobo-Caim, antes de mais, de si próprios, e, consequentemente, também dos demais. Autodevoram-se, autodestroem-se, autodescriam-se, autoaniquilam-se, autoestupidificam-se e, consequentemente, devoram, destroem, descriam, aniquilam, estupidificam os demais. Outra coisa não sabe fazer o Saber. E o Saber é a única coisa que, neste Século XXI, a Família, a Escola, a Igreja, os Media estão a fomentar no Ser Humano das novas gerações.

 

4 Nem a Igreja do Século XXI tem Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o de Nazaré da Galileia, como referência, muito menos, como a referência última para ela. E se a Igreja o não tem como a sua referência última, tão pouco o pode apresentar como tal ao Ser Humano das novas gerações que lhe passem pelas mãos. Nem Jesus, nem o Sopro ou o Espírito de Jesus. Assim ela acaba por ser apenas um agente mais do Saber, hoje, porventura, o menos influente junto das novas gerações. Os próprios quadros que ela forma nas suas universidades confessionais, de entre os quais saem, depois, os que ela própria selecciona para ocuparem os seus principais centros de decisão e de Poder eclesiástico, apresentam-se dotados de (algum) Saber, dizem-se doutores e fazem questão de serem tratados por tais, mas não há neles um pingo de Sabedoria. O que os distingue dos demais quadros de outras empresas não eclesiásticas são as vestes, os locais onde exercem a sua actividade e o tipo de actividade em que se especializaram, todas essas coisas absurdas do Religioso, que até a eles envergonha, mas que eles fazem, porque é o seu ganha-pão e, mais do que isso, é a sua grande fonte de enriquecimento e de Privilégios.

 

5 Sabedoria é coisa que as novas gerações desconhecem. Para elas, tudo se resume ao Saber. Temos sabedores, doutores, não temos sábias, sábios. O Saber, só por si, não é que está mal. O que está mal é o Saber que nunca se transmuta em Sabedoria. E como pode o Saber transmutar-se em Sabedoria, se, hoje, a Família, a Escola, a Igreja, os Media apenas transmitem o Saber, fomentam o Saber, nunca por nunca a Sabedoria? E como poderão essas instituições todas chegar à Sabedoria, se, como instituições fundamentais da Sociedade, são elas as primeiras a pensar que Saber e Sabedoria são sinónimos? Se até elas desconhecem que Saber e Sabedoria são antónimos? Se competem entre si para ver qual delas é a que fica no topo da melhor Família, da melhor Escola, da melhor Igreja, do melhor Media? E se, para cúmulo, por "melhor", todas elas entendem aquela, de entre elas, que prepara melhor, ao nível do Saber, dos conhecimentos, as novas gerações que as frequentam para, depois, terem sucesso nas grandes empresas transnacionais que, por sua vez, têm como critério de selecção dos seus quadros, o Saber, não a Sabedoria?

 

6 Neste particular, podemos definir o Século XXI como o Século em que o Saber é rei, é Poder, é Triunfo, é Êxito. Ter Saber em alto grau é ter sucesso, lugar garantido no topo das empresas transnacionais. Em semelhante caldo de (in)culturas, a Sabedoria só estorva. Por isso, o Grande Poder Financeiro aposta tudo no Saber, ao mesmo tempo que aposta tudo na destruição do que ainda reste por aí de Sabedoria nas novas gerações. O Grande Poder Financeiro sabe que a Sabedoria é o seu inimigo número um. Tem de destruí-la, matá-la, lá onde ainda houver uns restos dela, neste ou naquele ser humano. Tudo pela promoção do Saber. E tudo pela destruição /morte da Sabedoria. E não é que o Grande Poder Financeiro que hoje domina e tem sob o seu férreo jugo os Povos do Planeta e o próprio Planeta, até na Igreja ele conseguiu meter-se e possuí-la por completo? A Igreja, nas múltiplas Igrejas em que, neste nosso Século XXI, subsiste, não é hoje uma Igreja possessa, não já do mítico demónio (como mítico, até seria inofensivo!), mas do real e histórico demónio, que dá pelo nome de Grande Poder Financeiro?

 

7 Ora, quando assim é, ainda há futuro? E, se há, onde reside a semente, a fonte, o Sopro que o garantam? Obviamente, que há futuro. E há futuro, porque, felizmente, nem todos os seres humanos, através dos séculos, vergam o joelho perante o Grande Poder Financeiro. Desde logo, Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o de Nazaré da Galileia. Quando a Sabedoria se fez carne, foi neste Jesus que ela se fez plenamente carne. E fazer-se carne não é o mesmo que fazer-se Homem. Embora a Igreja sempre tenha andado a dizer que é a mesma coisa, não é. Nem terá sido politicamente inocente que a Igreja depressa passou a traduzir o substantivo grego sarx, carne, por "homem". E mais tarde, já sob a batuta do Império romano e do imperador Constantino e seus sucessores, a Igreja deu ainda mais um passo na mentira e traduziu "homem" por "super-homem", ao apresentar-nos sistematicamente Jesus, o Homem, como uma espécie de super-homem que venceu a Morte e, nela, todos os inimigos, fazedor de assombrosos milagres, prodígios sem conta que ela inventou e lhe atribuiu, numa postura de demência e de delírio sem limites.

 

8 Fazer-se carne, sarx, em grego, é igual a fazer-se Fragilidade Humana Crucificada. Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, é esta carne, esta Fragilidade Humana Crucificada por antonomásia. Tanto, que se tornou, para todo o sempre, o Paradigma do Humano. Humano, desde então, só o que for como Jesus. Quanto mais como Jesus, mais Humano. Mais Sábio. Historicamente, o máximo da Fragilidade Humana é a Fragilidade Humana Crucificada, por se ter atrevido a passar na História a fazer o bem. É precisamente o que o Livro dos Actos, do Novo Testamento bíblico, diz de Jesus: "Passou fazendo o bem". Atreveu-se a fazer o bem, sem nunca ter sido benfeitor. Entendemos a substantiva diferença? O benfeitor não passa fazendo o bem. O benfeitor passa fazendo o Poder. Só o Poder é benfeitor. Nunca Libertador, Maiêutico. Libertador, Maiêutico, só a Fragilidade Humana Crucificada. Ao contrário da Fragilidade Humana Crucificada, o Poder leva numa mão a arma-de-matar e na outra o pão-a-distribuir /o subsídio /a esmola, /o Banco Alimentar contra a Fome! Quando o pão-a-distribuir /o subsídio /a esmola /o Banco Alimentar contra a Fome não basta para manter submissos os seres humanos e os povos, entra em acção a arma-de-matar. E os seres humanos e os Povos perdem quase de imediato a crescente rebeldia e reina, de novo, uma grande paz. A dos submissos. A dos subsídios. A das armas-de-matar. A do Grande Benfeitor, que é o Grande Poder Financeiro.

 

9 Temos de começar por resgatar Jesus, da Igreja-Poder-Eclesiástico, do que que ela fez dele, ao longo dos séculos. O melhor a fazer então é regressarmos ao Evangelho de Marcos, o primeiro, no tempo, dos quatro evangelhos canónicos. O Evangelho que nasceu na clandestinidade. Na comunidade feita Fragilidade Humana Crucificada que reunia clandestinamente em casa de Maria, não a de Jesus, mas Maria, a mãe de João Marcos, esse mesmo que dá o nome ao Evangelho. Não há neste Evangelho ponta de Saber. Só Sabedoria. E Sabedoria Praticada, Desramada, Crucificada. Não há ponta de Poder. Só Fragilidade Humana Crucificada, protagonizada paradigmaticamente por Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria (é o único dos quatro Evangelhos canónicos que se refere nestes termos a Jesus, cf. capítulo 6). Do início ao final, Jesus actua plenamente habitado pelo Espírito Criador /Libertador, a fonte do Humano em estado de Liberdade e de Maioridade. O Império, em cujo terreno armadilhado Jesus actua, é o Saber-Poder-Crucificador em acção. Jesus, o seu antípoda, é a Sabedoria-Fragilidade-Humana-Crucificada-em-acção. Por ser assim é que tudo em Jesus é Maiêutico. E tudo no Império é Opressor. Tudo em Jesus é Fonte de vida. E tudo no Império é fonte de Assassínio. Jesus é integralmente Dádiva, Pão Partido e Repartido, Vinho Derramado. O Império é integralmente Ladrão e Assassino, Acumulador, Concentrador. Jesus é a Sabedoria-que-nos-faz sábias /sábios. O Império é o Saber-que-nos-faz-mentirosos /hipócritas.

 

10 É, contudo, o Evangelho de João, o último, no tempo, dos quatro Evangelhos canónicos, que nos apresenta explicitamente Jesus, logo no Prólogo, como a Sabedoria que se faz carne, sarx, em grego. É, sem sombra de dúvida, o mais teológico dos quatro Evangelhos canónicos. Atreve-se a dizer que a Fragilidade Humana Crucificada é Deus e Deus é a Fragilidade Humana Crucificada. Leva a este ponto a Sabedoria, o Humano, nos antípodas do Saber-Poder-Império. A Igreja, sobretudo depois que ficou sob a batuta do Império, leu este Evangelho em chave de Poder e de Privilégio, em chave de Império, em lugar de o ler como aos outros três em chave de Política Praticada Desarmada, de Duelo Teológico Desarmado. Foi um desastre mortal, do qual a Igreja ainda não saiu e não dá sinais de querer sair. Para sua desgraça e desgraça da Humanidade. A Revolução Teológica que Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, é para todo o sempre, e que faz dele a Pedra angular da Ordem Mundial ou Reino /Reinado de Deus que tem de ser este nosso Mundo, se quiser ser integralmente humano, foi de novo comida pelo Saber-Poder-Império e pelo Religioso, numa palavra, pelo Ídolo /Idolatria.

 

11 Urge regressarmos a Jesus. À Revolução Teológica que ele é. E desenvolvê-la com audácia, neste nosso Século XXI. Contra o Grande Poder Financeiro, o Ídolo dos ídolos. Já foi este Ídolo dos ídolos que matou Jesus na Cruz do Império romano. Vinte séculos depois, não pode nem ouvir falar de Jesus. E tudo faz para que as novas gerações o confundam com o Religioso da Igreja, com toda essa tralha eclesiástica que por aí abunda a rodos. Fomenta o mais que pode o ateísmo e o agnosticismo. Para que as novas gerações sejam constituídas por ateus e agnósticos. De todos os deuses, menos do Ídolo dos ídolos, precisamente, o Grande Poder Financeiro, o Senhor Dinheiro. Jesus, com a sua Revolução Teológica, é o Inimigo número um, o único inimigo do Grande Poder Financeiro Global. É preciso que nem o seu nome se pronuncie. Não vão as novas gerações descobrirem a sua Força Maiêutica e deixarem-se habitar por ela, tornarem-se, hoje e aqui, outros Jesus. Mas o Inimigo número um dos seres humanos é precisamente o Grande Poder Financeiro, o Ídolo dos ídolos, que, se quisermos ser integralmente Humanos, temos de desmascarar, enfrentar, amarrar e, finalmente, decapitar. Para deixarmos de ser escravos dele.

 

12 Este é o caminho da Sabedoria que urge percorrermos. Quanto antes. Ontem, já era tarde. Contra o Grande Poder Financeiro Global, há-de levantar-se a mesma Fé de Jesus. Não! Não é Fé religiosa. Não tem a ver com templos, nem com altares, nem com ritos, nem com rezas, nem com clérigos, nem com sacerdotes, por mais porreiros que eles se apresentem. A Fé de Jesus é Teológica, é anti-Idolatria, anti-Grande Poder Financeiro Global. É Política Praticada. É Sabedoria. É Fragilidade Humana Crucificada, porque o Grande Poder Financeiro é isso que faz a quem lhe resiste, se lhe opõe, o desmascara, o combate. E tais havemos de ser nós, os seres humanos deste nosso Século XXI. Do mesmo jeito de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o de Nazaré da Galileia. Habitados /animados pela sua mesma Fé que nos faz militantes de Projectos Económicos e Políticos Maiêuticos e de Duelos Teológicos Desarmados contra os projectos económico-financeiros e a Idolatria Organizada do Grande Poder Financeiro Global, o Senhor Dinheiro. Ousemos. Atrevamo-nos. Ousemos ser outros Jesus no Século XXI. Atrevamo-nos a ser outros Jesus no Século XXI! Pela minha parte, já sabem, digo e continuarei a dizer, presente!

 

Capítulo 27

 

1 Já toda a gente, hoje, com um mínimo de cultura geral, ouviu falar, alguma vez na vida, nas cidades bíblicas de Sodoma e de Gomorra. É, até, de Sodoma, nome de cidade bíblica, que vem a palavra sodomia que, como diz qualquer dicionário ou enciclopédia, tem tudo a ver com comportamentos e práticas homossexuais, homem com homem, mulher com mulher. A Bíblia hebraica, Livro do Génesis, capítulos 18 e 19, fala destas duas cidades. E tece narrativas de arrepiar, que mais parecem um guião de um filme de terror, escrito, mais de três mil anos antes de ter sido inventado o cinema animado. Não podemos, ainda hoje, ler aquelas narrativas, sem deixar de admirar o engenho e a arte de escrever, de romancear do seu autor, ou dos seus autores. Aquilo é que é escrever! À beira delas, as narrativas romanceadas do nosso José Saramago, Nobel da Literatura 1998, por exemplo, nem às unhas dos pés chegam. Contudo, as do nosso Saramago são escritas no final do Século XX e inícios do Século XXI. E ainda nos tempos por muito evoluídos, cultos, desenvolvidos. Arrogantes, é o que somos!

 

2 No dizer das narrativas do Génesis, aquelas eram cidades sem futuro. Eram o paradigma do que as cidades nunca deveriam ser. E que, já então, todas ou quase todas, eram. Para seu mal. E mal do Planeta Terra e de quantos seres vivos que nele habitamos. Porque todas as cidades /sociedades /instituições que se assemelharem a estas cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra são cidades /sociedades /instituições sem futuro. Um desastre. São todas construídas sobre a areia. Não resistem por muito tempo. E viver, trabalhar, comprar, vender, divertir-se, dormir em cidades /sociedades /instituições assim, é viver em permanente área de risco. Até o ar que se respira nelas anda empestado de vírus que matam lentamente as pessoas que têm de o respirar. A Corrupção é o pão nosso de cada dia, dos habitantes de cidades /sociedades /instituições assim. O anonimato que leva cada pessoa a sentir-se um Ninguém, um número de estatística, uma coisa que agora está ali, mas de um momento para o outro deixa de estar, é a regra geral. Todas as pessoas, e são muitos milhares, mesmo muitos milhões, como sucede com as que vivem nas megacidades deste início do Século XXI, são menos do que formigas. Sem nome. Sem rosto. Sem voz. Sem vez. Sem identidade. Sem relação. Sem afectos partilhados. Meros números de estatística.

 

3 Pelos vistos, de nada valeu, ou de pouco valeu, que o Livro do Génesis nos deixasse estas paradigmáticas narrativas bíblicas. Na nossa demência-demência, corremos a edificar cidades /sociedades /instituições cada vez maiores e mais sofisticadas, nas quais os elementos mais importantes, as obras de arte mais importantes são de pedra, de betão armado, de ferro, de aço, de ouro e de prata, edifícios gigantescos, palácios de requinte, torres gémeas que parecem tocar o firmamento. Só depois de tudo levantado, é que nos lembramos dos seres humanos de carne e osso e com nome. E já não temos lugar para eles. Os seres humanos de carne e osso e com nome estão a mais. São um estorvo. Mas os seres humanos estão aí, milhares de milhões, atraídos pelas megacidades, como se das megacidades saísse uma força centrípeta que os arrasta para dentro delas ou para os subúrbios delas. E, de repente são milhões, muitos milhões. Sem lugar para eles, os seres humanos tornam-se números de estatística. Até que morrem, sem que ninguém dê por nada, uma vez que o estreito espaço que ocupava como número de estatística é logo ocupado por outro número e a estatística não sofre qualquer alteração.

 

4 Ler com Sabedoria aquelas geniais narrativas das cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra, é dar-se conta, quase de imediato, do grito de alerta que delas se solta. E fugirmos de semelhante paradigma de cidade /sociedade /instituição. Em nome do Ser Humano que somos cada uma, cada um de nós sobre a Terra. Às Igrejas, cujas cúpulas sempre gostam de se reclamar de Sabedoria, de Ética, de Exemplaridade e de se apresentarem perante os demais seres humanos como Paradigmas do ser-viver Humano sobre a Terra, pertenceria /pertencerá ler-escutar com Sabedoria aquelas narrativas sobre as duas cidades bíblicas e, na peugada do Livro do Génesis, anunciarem, em cada geração, até que a voz lhes doa, e de forma constantemente actualizada, que os povos jamais se deixem atrair pelo Abismo de cidades /sociedades /instituições assim. Mas, infelizmente, até as cúpulas das Igrejas acabaram todas Máfias, habilmente /mentirosamente disfarçadas de sagrado e de divino, duas coisas que ninguém sabe, nem elas próprias sabem o que seja, ainda que estejam sempre com esses dois adjectivos na boca.

 

5 Escondidas por baixo de anacrónicas vestes talares, também elas tidas por sagradas, divinas - dois adjectivos que, na boca e no uso linguístico e existencial de seres humanos, só podem significar desumano, pior, inumano, ainda que as minorias que os usam a toda a hora e momento, de tão cegas e surdas que são ao Invisível e ao Essencial, pensem que estão a elevar-se acima do Humano! - as cúpulas das Igrejas acabaram por constituir-se na voz do Tentador, da Tentação. Em lugar de sentinelas nas cidades /sociedades /instituições, de fermento na massa, de sal da terra, de luz do mundo, são hoje o que há de mais desumano e de inumano, fonte de desumanidade e de inumanidade. Cada uma delas, individualmente, pode até nem dar por isso e passarem toda a vida na ilusão de que são, efectivamente, pessoa sagradas, até divinas ou divinizadas, pelo menos, intermediárias entre os seres humanos, simplesmente, e o Divino. Nesse caso, serão ingénuas, o que chega a ser ainda mais perigoso para os seres humanos, dado os lugares de "guias" dos demais em que se têm na conta de serem. Guias cegos, nestes casos, que levam os demais para o Abismo, quando era de esperar que os alertassem da proximidade do Abismo!

 

6 A verdade é que foram, precisamente, as cúpulas das Igrejas que, até hoje, menos entenderam as geniais narrativas do Livro do Génesis sobre as duas cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra. O Livro diz-se do Génesis, ou das Origens. Não propriamente das origens, no princípio de tudo, mas das origens do Humano, Acontecido, sem que se saiba bem como, no decurso da Evolução do Universo, hoje, ainda em expansão, desde há uns 13 mil e 700 milhões de anos. É muito ano! Porque é o Humano que, inopinadamente, Aconteceu no decurso da Evolução /Expansão do Universo, que interessa conhecer cada vez mais e cada vez melhor, na certeza, porém, de que nunca o conheceremos suficientemente. Somos Mistério, não apenas um conjunto de células organizadas de determinada maneira, por sinal, já de si, altamente sofisticada e complexa, com muitos cálculos matemáticos e muita Sabedoria que ultrapassa tudo o que os nossos laboratórios do presente e do futuro possam vir a descobrir e a dizer sobre. Somos sempre mais, imensamente mais, do que o mais sofisticado laboratório possa dizer que somos. Um laboratório, sabemos bem o que é. Nós é que o concebemos e criamos. Mas nunca saberemos bem quem somos. Porque não nos criamos. Acontecemos e experimentamo-nos, com espanto, como seres criados-criadores. Numa palavra, somos Mistério. E essa é a nossa grandeza, fonte de crescente Humildade, nunca de Arrogância!

 

7 As cúpulas das Igrejas, perdidas com privilégios, mordomias, vaidadezitas ridículas, ritos e muitas outras bobagens infantis e infantilizadoras de quem as pratica, foram as primeiras e serão certamente as últimas, mesmo que fiquem sozinhas nesse papel demencial, a levar aquelas geniais narrativas sobre as duas cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra para caminhos que nunca quem as inspirou /soprou teve em mente, nem jamais terá. Desde há séculos que andam a dizer - vejam só a sem-vergonha-da Ignorância eclesiástica supostamente ilustrada - que as duas cidades perderam o futuro (desde há muito que já não são mais), porque, dentro delas, os seres humanos que as habitavam eram, na sua esmagadora maioria, homossexuais praticantes, praticavam relações sexuais homens com homens, mulheres com mulheres. Daí a concluírem, do alto das suas cátedras doutorais /demenciais, que uma tal conduta é o Pecado dos pecados, foi um passo. E as cúpulas das Igrejas deram-no. E aí se mantêm. Sem quaisquer escrúpulos. Sem quaisquer sem-cerimónias. Consequentemente, dizem também e ensinam que semelhante Pecado dos pecados ofende tanto a Deus, que Ele, irado até ao extremo, acabou por arrasar as duas cidades com fogo e enxofre. E elas nunca mais se ergueram. Como um sinal de maldição! Mas que doutrina eclesiástica tão terrorista!

 

8 Vejamos bem o que de perversão fazem os privilégios, as mordomias, as vaidadezitas, os ritos, especialmente, nas cúpulas das Igrejas, que vivem toda a vida com isso e para isso. Mas é sempre o que ocorre, quando seres humanos aceitam sair da sua nobre condição de ser humano, simplesmente, e passar à condição de cúpula, seja da instituição-Igreja, seja de uma outra instituição qualquer, mesmo laica. Desse momento em diante, é sempre a desumanizar-se, a desumanizar-se, a desumanizar-se, até se tornarem coisa, privilégio, mordomia, poder, demência, sei lá, inumano, inimigo do Humano, descriador do Humano. Ou os demais seres humanos lhes resistimos, nos defendemos delas, corremos a ter mão nelas, impedimo-las de circular, ou tudo o que as cúpulas fazem, dizem, concebem, contribui progressivamente para roubar, matar, destruir, descriar o que há de Humano nos seres humanos e no nosso Planeta Terra.

 

9 Infelizmente, até ao início do Século XXI e do Terceiro Milénio, os seres humanos, duma maneira geral, temos agido com as cúpulas precisamente ao contrário do que aqui acabei de enunciar /sugerir. Não só não corremos a ter mão nos seres humanos que desistiram da sua nobre condição de seres humanos, simplesmente, para assumirem a condição de cúpulas das Igrejas, ou de outras instituições quaisquer, laicas que sejam. Pelo contrário, corremos a aclamar as cúpulas em que eles se tornaram, como se elas fossem os nossos reis, os nossos guias, os nossos chefes, os nossos mestres, os nossos gurus, os nossos Cristos, os nossos Ungidos, os nossos senhores. E veneramo-las /adoramo-las, juramos-lhes obediência e reverência. Podemos não dar por isso, mas morremos todos, como seres humanos, nesse preciso momento. Ficamos todos sem futuro. Somos Sodoma e Gomorra. Totalmente incapazes de acolhermos com hospitalidade e afectos, o outro, o estranho, o estrangeiro, o diferente, o que não diz-connosco-nem-com-a-maioria, o dissidente das cúpulas, todas Máfias, numa palavra, o que se mantém, procura manter por toda a vida na nobre condição de ser humano, simplesmente.

 

10 Não digam que exagero. Até poderia fazê-lo, como figura de estilo literário. Mas, neste caso das cúpulas, de todo o tipo de cúpulas, com maior destaque para as das Igrejas, a realidade ultrapassa em muito a ficção. Basta referir um ou dois exemplos. Atentemos, concretamente, no comportamento das cúpulas das Igrejas em relação aos Homossexuais, mulheres e homens, em linguagem corrente e jornalística, lésbicas e gay´s. A discriminação foi total e continua a ser total. Tratam-nas, tratam-nos como se elas, eles não sejam seres humanos como os demais, apenas uma espécie de para-humanos, de desviados do Humano, de tarados, de seres nos quais anda algo que as, os impede de serem seres humanos como os demais, por isso, uma espécie de para-humanos, de humanóides! Para cúmulo, reúnem-se todas em conferência de vários dias e, no final, exigem, alto e bom som, do Estado (vejamos como todas as cúpulas se dão bem umas com as outras, todas unidas contra os seres humanos que não desistam da sua nobre condição de seres humanos, simplesmente, homossexuais, lésbicas, heterossexuais, indistintamente!), que promulgue leis discriminatórias, em lugar de leis iguais para todos, indistintamente. Outro exemplo de discriminação total da nossa actualidade: os seres humanos, mulheres e homens, casados canonicamente que, um dia, recorrem ao divórcio civil e, tempos depois, voltam a casar civilmente. No entender das cúpulas da Igreja, perdem de imediato a sua nobre condição de seres humanos como os demais, e ficam condenados a terem de viver em guetos, pelo menos, dentro das paróquias da Igreja católica a que, porventura, continuem a pertencer. De modo que, se forem à missa da paróquia onde são conhecidos, não podem comungar /comer do Pão eucarístico. Podem entrar, mas comer /beber, não. Apenas podem ver os outros comer /beber! Não é isto o cúmulo da Inumanidade?!

 

11 Esta flagrante recusa em acolher, na mais completa igualdade, os outros seres humanos, independentemente da sua situação matrimonial e da sua orientação sexual, não constitui o Pecado dos pecados, aquele que as narrativas do Livro do Génesis sobre as duas cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra, apresentam como paradigma do que nunca deverão ser /fazer as cidades /sociedades /instituições /igrejas /associações /famílias? Não é esta recusa em acolher os seres humanos todos sem distinção, com hospitalidade e com afectos, o Pecado dos pecados que, lá, onde for prática corrente, mata o futuro não só das cidades /sociedades /instituições /famílias /igrejas, mas da própria Humanidade enquanto tal? E hoje, não são sobretudo as cúpulas das Igrejas, com destaque maior para as cúpulas da Igreja católica que eu próprio integro como presbítero-menino, nunca como cúpula, que mais estão a cometer este Pecado dos pecados, o do não-acolhimento, em total igualdade, de todos os seres humanos, divorciados recasados, lésbicas e gay's incluídos? E as sociedades /cidades, se forem pelo que dizem e fazem as cúpulas destas Igrejas, não cometem, elas também, esse mesmo Pecado dos pecados? Não são, hoje, tais cúpulas, cidades /sociedades, Sodoma e Gomorra? Podem ter futuro progressivamente Humano? Não vão todas para o Abismo? E, se nós, seres humanos, formos pelo que elas fazem e dizem, não vamos também com elas para o Abismo?

 

Capítulo 26

 

1 Há uma frase na Bíblia sobre a relação homem-mulher que atravessou os séculos e ainda hoje é lida /interpretada pelas cúpulas das Igrejas, a começar pela católica romana, como se tivesse acabado de ser escrita esta semana. Contudo, essa frase insere-se no mito mais antigo da Bíblia sobre as origens, escrito há uns três mil anos,para mais, não para menos (o outro mito das origens, conhecido como o da criação em seis dias, foi escrito uns 400 anos depois deste, embora seja com ele que abrem hoje as nossas Bíblias!). O mito foi mandado escrever pela casa real de David /Salomão. É, por isso, um mito politicamente interesseiro. Não está nada preocupado com as origens do Universo, como sempre se tem ensinado, mas apenas com as origens do Povo Hebreu, neste mesmo Universo, então, já há muito existente. E numa altura em que outros povos à volta do Povo Hebreu, bem mais numerosos e desenvolvidos que os Hebreus, já tinham há muito os seus mitos das origens.

 

2 A casa real de David /Salomão, já com o seu palácio real e o seu Templo de Jerusalém - duas obras "faraónicas",  mandadas construir por Salomão, o filho de David que nasceu de Betsabé, a mulher de Urias, mandado matar pelo próprio rei David, para, desse modo, poder casar com a viúva, depois de, antes, já a ter engravidado, enquanto Urias, um dos seus generais, combatia, longe de casa contra os inimigos dos Hebreus - precisava como de pão para a boca de um relato assim, para melhor se poder afirmar /impor às outras tribos hebreias e aos outros povos das redondezas. Por outras palavras, trata-se de um hábil relato concebido e escrito para justificar /canonizar o Poder Político, ainda periclitante, da casa real de David /Salomão e fazer dela a casa eleita por Deus entre as demais casas /tribos de Israel. Como se Deus Criador, alguma vez, gostasse de Poder Político e escolhesse uma casa, um povo, em detrimento de todas as outras casas, de todos os outros povos. Semelhante Deus, só pode ser mesmo um Ídolo! Mas a verdade é que esta Mentira dura até aos dias de hoje! Para nossa vergonha. E, desde que nasceu o Cristianismo, até com a bênção das Igrejas que se reclamam de Cristo Ressuscitado, mais do que de Jesus, o Crucificado pelo Poder Sacerdotal /Imperial!...

 

3 A frase é esta: "Por esse motivo, o homem deixará o pai e a mãe, para se unir à sua mulher; e os dois serão uma só carne" (cf. Génesis 2, 24). O escriba ou os escribas que compuseram este mítico relato das origens do Povo Hebreu nunca sonharam a nefasta influência que esse seu relato mítico, em grande parte, copiado dos relatos míticos dos outros povos mais desenvolvidos em redor, viria a causar, pelos séculos fora, até ao século XXI, que é agora o nosso. Viviam no palácio real, comiam à mesa do rei, recebiam dele mordomias, tinham inevitavelmente que escrever de acordo com as ordens, as ambições de domínio da casa real que lhes pagava para isso, de modo que, assim, até os crimes que viessem a ser cometidos por essa casa real contra as outras tribos hebreias e contra os povos em redor, olhados, desde logo, como inimigos dos Hebreus, estavam, à partida, justificados e até abençoados. Afinal, era Deus que assim queria. Era Deus que assim mandava. Só que semelhante Deus não passa de um Ídolo. Como é sempre um Ídolo, todo o Deus que está da banda do Poder, a justificá-lo e abençoá-lo.

 

4 Hoje, mais de três mil anos depois, podemos perceber quanto de mal,  de perverso, de inumanidade, de descriação do Humano, este relato causou nos seres humanos. As coisas, hoje, são já de tal modo perversas, institucionalmente perversas, que as cúpulas das Igrejas - Poder Religioso-Eclesiástico - e todas as outras cúpulas dos outros dois Poderes - as do Político e as do Poder Financeiro - trabalham que se fartam para manter e perpetuar esta Mentira e este Assassínio organizados em Sistema, a que chamam Ordem Mundial! É a Idolatria em todo o seu esplendor de Treva pretensamente ilustrada. Mas os três Poderes como um só tudo fazem para que os Povos da Terra a tomem por Verdade. Chama-se a este procedimento institucional, Negar a Verdade conhecida por tal. O que, em linguagem teológica, a de Jesus, perfaz um pecado - o Pecado - contra a Luz, contra o Espírito Santo, o único e verdadeiro Pecado, pai /gerador de todos os outros. Por isso, o Pecado sem perdão. Sem Reabilitação possível. A única coisa que se tem a fazer é tirá-lo /arrancá-lo da História (daí aquela afirmação sobre Jesus e a sua Missão, "Eis o Cordeiro de Deus [não o Poder /Lobo de Deus] que tira o Pecado do Mundo"), para que os seres humanos e os povos, todos diferentes, todos iguais, possamos finalmente SER. Em plenitude. Outros Jesus!

 

5 Aquela frase não fundou o casamento, como mentirosamente ensinam ainda hoje as cúpulas das Igrejas e as suas catequeses paroquiais, inclusive, as suas Faculdades de Teologia. (Já reparamos que das cúpulas das Igrejas, como das cúpulas do Poder Político e do Poder Financeiro, só vêm desgraças, mentira e crime, por outras palavras, elas existem só para roubar, matar e destruir os seres humanos e os povos?!). Muito menos, aquela frase fundou o casamento monogâmico. Muito menos ainda, ela fundou o casamento de um homem com uma mulher. Nunca esteve nas intenções da casa real de David /Salomão semelhante intenção /preocupação (basta dizer que a própria Bíblia regista que Salomão "amou muitas mulheres estrangeiras e moabitas, amonitas, edomitas, sidónias e hititas [...]. Teve setecentas esposas de sangue nobre e trezentas concubinas", cf. 1Reis, 11, 1-3)). Nem nunca esteve nas intenções /preocupações dos escribas que executaram as ordens que a mesma casa real lhes deu. O grande objectivo do relato mítico das origens era reforçar o Poder da casa real sobre as demais casas hebreias, um domínio cada vez mais absoluto. E, posteriormente, sobre os outros povos em redor, até que fosse criado o grande Império Judeu, com o Deus de David a presidir /reinar! Um Deus que só podia ser, só pode ser, o Ídolo dos ídolos.

 

6 Reparemos que a referida frase coloca o assento tónico, a iniciativa, no "homem", não na "mulher". Diz: "Deixará o homem, o pai e a mãe, para se unir à sua mulher e os dois serão uma só carne". O Poder é macho, sempre será macho, mesmo que seja exercido por mulheres. Só a Política é feminina. O Poder, todo o Poder, é macho. Está aí para dominar, oprimir, esmagar, reprimir, roubar, explorar, infantilizar e, finalmente, matar. Nunca os seres humanos e os povos do Planeta o seremos verdadeiramente, enquanto houver Poder. O Poder é o Inimigo do Humano. Só a Política Praticada é amiga do Humano. Faz o Humano ser /crescer, até tornar-se autónomo, livre, responsável por si e pelos demais e pelo Planeta. Este é o objectivo de Deus Criador. Não é o objectivo do Ídolo. O objectivo do Ídolo é descriar o Humano, para ser ele, o Poder, a reinar. Enquanto Deus Criador do que gosta é de Política Praticada pelos seres humanos e pelos povos, o Ídolo que se faz passar por Deus, do que gosta é do Poder Político.

 

7 Aquela frase fundou o Poder patriarcal (na família, onde o Homem-macho-patriarca era o único senhor), o Poder Político (na sociedade) e o Poder Económico-Financeiro, sempre associado, até finais do século XX, ao Poder Patriarcal (família monogâmica, com o Homem a chefe!) e ao Poder Político, com o rei /presidente da república a chefe. O Poder Religioso, também ele todo macho, começou por andar associado ao Poder Patriarcal e Político, até que, rapidamente, com o desenvolvimento da sociedade, se autonomizou de ambos e constituiu-se como Poder Sacerdotal. Ganhou tal ascendente, que passou a tutelar tudo e todos, inclusive, o próprio Poder Patriarcal /Político e o Poder Económico /Financeiro, os quais, para o serem, tinham de ter o aval do Poder Sacerdotal e serem reconhecidos por ele.

 

8 Hoje, tudo se alterou. Para já, ainda não para melhor. Apenas para pior. Os três Poderes concentraram-se num só, o Poder Financeiro Global. É ele que hoje dita as leis, as regras, faz e desfaz, segundo os seus interesses. Sem qualquer opositor. É simultaneamente pai /padrasto /padrinho, rei, sacerdote. Mais. É o próprio Deus-Ídolo. Mas ele faz questão de nunca dizer que é Deus-Ídolo. Faz parte da sua estratégia. Basta-lhe ser. E não faz questão de dizer que é o Deus-Ídolo, porque numa sociedade secular, só o nome "Deus", Ídolo que seja, já embaraça, está a mais. Em seu lugar, há outro nome muito mais importante, o Dinheiro, melhor, o Senhor Dinheiro. Os outros dois Poderes ainda têm a sua importância, mas apenas para serem os braços direito e esquerdo do Senhor Dinheiro, o Poder Financeiro Global, um hábil eufemismo para dizer Senhor Dinheiro, sem nunca se chegar a dizer. Tudo está em função do Poder Financeiro Global. Nada pode estar em desfavor dele. Já não há Igrejas /Religiões. Já não há Sacerdotes. Já não há santuários. Até já não há Poder Político. Hoje, só há o Poder Financeiro Global. Tudo o mais, que ainda é tolerado, tem de girar em função do Poder Financeiro Global  e trabalhar para ele. Ele financia tudo e todos. Enquanto não for decapitado, será ele, o Poder Financeiro Global, que tem sob o seu jugo todos os seres humanos e todos os povos da terra. O próprio Planeta

 

9 Os autores da Bíblia (autoras da Bíblia, nunca terá havido, ao longo dos mil anos em que ela foi escrita, apenas autores!) parece terem-se dado conta dos estragos causados pelo primitivo relato mítico das origens e, no final do Exílio dos próprios Hebreus na Babilónia (hoje, Iraque), escreveram um outro, muito mais prenhe de Verdade, promotor de Autonomia, de Liberdade, de Maioridade Humana. A casa real de David /Salomão havia ido ao fundo. Estava edificada sobre o Ídolo e, como tal, só serviu para produzir /reproduzir, não seres humanos, mas Corrupção e corruptos. Tal como hoje, está a fazer o Poder Financeiro Global. Produz /reproduz Corrupção e corruptos em série. Nunca esqueçamos que o Poder Financeiro Global é o Descriador do Humano nos seres humanos e nos povos. Seres humanos e povos, onde o Humano cresça em Sabedoria e em Graça, em Liberdade e Maioridade, ao Poder Financeiro Global não lhe interessa. Nem sequer pode ouvir falar em tal. Se souber deles, poucos que sejam, põe-nos de quarentena. E, se perceber, que, mesmo assim, a sua influência maiêutica, o seu Sopro libertador continua a passar para outros seres humanos em todas as nações, massacra-os em menos de três tempos.

 

10 Curiosamente, é com este novo relato mítico das origens do Povo Hebreu /Judeu, num Universo já existente e com povos muito mais desenvolvidos que o Povo Hebreu, mas também muito mais idólatras (o Ídolo constrói grandes cidades, mas todas perversas, porque descriadoras do Humano nos seres humanos que nelas moram, cada qual rodeado de gente por todos os lados, mas numa solidão sem fim, ao ponto de chegarem a morrer e ninguém ser sabedor, nem os vizinhos do mesmo prédio, só quando o fedor dos cadáveres em adiantada fase de decomposição se faz sentir!), que abrem hoje as nossas Bíblias. O relato é densa e fecundamente teológico e visceralmente anti-idolátrico. Por isso, foi praticamente ignorado, ao longo destes últimos vinte séculos, pelas cúpulas das Igrejas /Religiões e as outras cúpulas abençoadas por aquelas. As cúpulas das Igrejas /Religiões sabem que só com a Idolatria é que elas medram e têm sucesso. E por isso agarram-se a tudo o que, na Bíblia, se preste a promover mais e mais a Idolatria entre os seres humanos e os povos. Vai daí, sempre preferiram e preferem o outro relato mítico das origens dos Hebreus, ao novo relato escrito 400 anos depois, já com a Casa real de David /Salomão completamente no fundo!

 

11 Neste novo relato, até Deus Criador se apresenta a criar com a força do seu Sopro, em vez de com as mãos, como se fosse um oleiro. No outro relato, também já se falava do Sopro que Deus Criador insuflou pelas narinas do homem-macho (ainda não havia a mulher, que aparecerá mais tarde para ser ajudante, serva, escrava, propriedade do Homem-macho, e barriga de aluguer dos filhos dele!). Só que as ambições de Poder da Casa real de David /Salomão não deixavam ver nada disso. Só lhes interessava o Poder, não o Sopro de Deus Criador. Só lhe interessava o Ídolo que abençoasse as suas ambições. As ambições do Poder cegam. Levam a cultivar o Obscurantismo. Não suportam a Luz, a Lucidez. Não suportam a Verdade /Liberdade. Matam-na.

 

12 Neste novo relato, Deus cria o Universo no decurso de uma semana de seis dias. Ao sétimo dia, o relato mítico apresenta Deus Criador a descansar. Não para nunca mais fazer nada, como anda por aí demencialmente a dizer /repetir até à náusea, um tal Nobel da Literatura 1998, português de nascimento, mas a residir principescamente numa ilha do Estado espanhol. Este novo relato põe Deus Criador a descansar, para que o ser humano, mulher e homem, em radical igualdade, acabado de Acontecer à sua imagem e semelhança, por isso, criador tanto quanto o próprio Deus Criador, passasse a cuidar da Terra, do Universo, como se Ele, Deus Criador, não existisse. Não é que Ele não exista. Existe, mas só como Pura Graça. Existe, não em templos nem em palácios. Existe, só como Pura Graça, Puro Mistério, no mais íntimo de cada ser humano. É Ele o Sopro que nos fez Acontecer, no decurso da Evolução, e continua a fazer-nos Acontecer, cada dia, já que somos criadores quanto Ele, mas apenas graças ao Sopro Criador dEle, não graças a nós próprios, seres humanos. Somos /Acontecemos, por pura Graça, e é assim havemos de crescer, todos os dias, em Sabedoria e em Graça, no seio do Universo que nos foi confiado e no qual Deus Criador trabalha continuamente (cf. João 5, 17), só que no mais dentro de nós e connosco, os seres humanos e os povos, que lhe dermos oportunidade dEle ser Deus em nós e connosco, como Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, não Poder Crucificador, deu!

 

13 Neste novo relato que corrigiu o primeiro, todo ele inspirado pelas ambições do Poder da casa real de David /Salomão, já não consta a tal frase. Consta outra, toda Política Praticada, sem nada de Poder Político. Diz, em jeito de Boa Notícia: "Crescei e multiplicai-vos, enchei e cuidai da Terra" (cf. Génesis 1, 28). O espantoso deste relato mítico, mais poético-teológico do que mítico, das origens, é que o Sopro de Deus Criador não faz Acontecer o Ser Humano, Mulher e Homem ao mesmo tempo, no decurso da Evolução, para que os seres humanos se ocupem de Deus, do culto a Deus, para que frequentem templos e altares. Nada disso. Tudo isso já se havia revelado /concluído que é só Mentira, que é Idolatria, como tal, é gerador de Poder, os três Poderes, por sua vez, geradores de Corrupção e de corruptos. O novo relato anuncia que os seres humanos, mulheres e homens ao mesmo tempo, é com a Terra que devemos ocuparmo-nos, cuidarmos. Por outras palavras, é com a Política Praticada por nós próprios, seres humanos, que devemos ocuparmo-nos, não com Deus, com Religião, com cultos em honra de Deus, com templos e altares. O único culto que Deus Criador gosta é Política Praticada pelas seres humanos e pelos povos, é Cuidarmos da Terra. Para que ela seja uma Terra sem riqueza acumulada e concentrada. Sem amos. Sem deuses. Sem chefes. Sem Poder Religioso /Eclesiástico. Sem Poder Político. Sem Poder Financeiro Global. Só Política Praticada pelos seres humanos e pelos povos.

 

14 A própria Família, enquanto Poder Patriarcal, desaparece neste novo relato teológico das origens. Não será mais Poder. Apenas comunidades Políticas de Partilha de bens e de afectos. Sem nenhuma espécie de Poder. Comunidades Políticas que cuidam da Terra, nossa Casa Comum. Famílias constituídas por mulher e homem, os dois num só, se essa for a séria opção de ambos. E famílias constituídas por duas mulheres, ou por dois homens, se essa for a séria opção delas, deles. Sem nenhuma discriminação. Porque o princípio-base da família, não é, como sempre se disse à luz da Família Patriarcal /Poder Patriarcal, a procriação. O Princípio-base da família são os bens e os Afectos Partilhados. E, só quando os bens e os afectos partilhados acontecem, é que há condições para procriar /educar filhas, filhos. Nascidos do próprio casal, uns, adoptados pelo próprio casal, outros. Sem qualquer discriminação. Em radical igualdade de direitos e de deveres.

 

15 É toda uma Revolução teológica e humana que temos de fazer acontecer e protagonizar. Escusamos de nos escandalizar com o que acabamos de ler. Ousemos, humildemente, nascer de Novo, do Alto, do Sopro de Deus Criador de criadoras /criadores à sua imagem e semelhança. O Passado foi (quase) só Idolatria. Mentira. Assassínio. Veio a desaguar nesta intolerável Ordem Mundial totalmente dominada /subjugada pelo Grande Poder Financeiro Global, onde não há lugar para os bens e os Afectos Partilhados, numa palavra, para o Humano. Só para o Senhor Dinheiro que nos faz Caim uns para os outros e uns com os outros. Sejamos ateus, sim, mas apenas do Ídolo, o Senhor Dinheiro, mentiroso e assassino. Como meninas, meninos, demos pela Presença do Sopro Criador de Deus Criador que nunca ninguém viu nem verá, a trabalhar no mais íntimo de nós, dia e noite. Cooperemos com o seu Sopro dia e noite. Em lugar de, demencialmente, continuarmos a colaborar, dia e noite, com o Sopro mentiroso e assassino do Grande Poder Financeiro Global, o Senhor Dinheiro! É por aqui que vai Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada. Recusou-se até ao sangue a servir o Poder Religioso, o Poder Político-imperial e o Poder Financeiro. Recusou-se a adorar o Ídolo. Recusou-se a ir pela Idolatria. Os três Poderes coligaram-se entre si e mataram-no na Cruz do Império. Mas é com Jesus que o Sopro Criador de Deus Criador está. Não está com os seus carrascos. Sejamos, então, outros Jesus, agora, no século XXI e terceiro Milénio além. Política Praticada quero, não Religião, diz Deus, o de Jesus. E Jesus, o Crucificado pelo Império e pelo Templo coligados, abriu o Caminho, constituiu-se o Caminho. Entremos por ele. E percorramo-lo até ao fim!

 

Capítulo 25

 

1 A pior Corrupção é, sem dúvida, a das mentes humanas. É por aí que a Corrupção entra e se instala. Depois de entrar e de se instalar, passa a fazer estragos sem conta. Primeiro, destrói as pessoas que lhe deram entrada, guarida. Transforma, de imediato, essas pessoas em seus agentes históricos, qual deles o mais activo. E toda a Sociedade fica, assim, inevitavelmente em risco de se corromper /perder. Sem sequer ter consciência de que está a ser corrompida /dissolvida.

 

2 Se as pessoas em causa vestem de sagrado, de sacerdote, de Religioso, numa palavra, de Poder religioso /Eclesiástico; ou, pelo contrário, se vestem de Poder Político, ocupam cargos que, para o comum dos seres humanos, estão acima de toda a suspeita; ou, pior ainda, se vestem de Poder financeiro e ocupam lugares-chave da Sociedade, então podemos dizer que a Corrupção tem todos os caminhos escancarados para fazer das dela. Alastra como um gigantesco polvo, em menos de três tempos, sem que as demais pessoas se dêem conta de nada.

 

3 E porquê? Porque as pessoas, duma maneira geral, apenas vêem o manto com que todos os agentes históricos da Corrupção se apresentam vestidos. Não vêem todo o Perverso que está sob o manto. Vêem e impressionam-se com a sumptuosidade dos sepulcros, não vêem a podridão que a sumptuosidade esconde dentro. Que para isso é que a sumptuosidade está lá. A menos que, inopinadamente, sem que se saiba bem como e de onde menos se espera, aconteça um Apocalipse ou Revelação. Isto é, haja alguém-Apocalipse na Sociedade, ou algum acontecimento-Apocalipse na História que, inopinadamente, arranquem o véu que esconde a realidade e a realidade fique aí a nu, a descoberto.

 

4 Quem de nós não ouviu já falar de farisaísmo e de fariseus? O próprio Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, Práticas Maiêuticas e Duelos Teológicos Desarmados, teve de haver-se duramente com eles. E eles só descansaram, quando o viram morto e bem morto na Cruz do Império. Nas sociedades onde o sagrado ainda continue a ter muito peso, os fariseus vestem de sagrado, de religioso. Usam símbolos externos que os distinguem das demais pessoas. Recorrem a ritos mais ou menos invulgares, com tudo de esotérico, realizados em locais tidos por sagrados, por isso, reservados exclusivamente a eles, e que servem para esconder toda a perfídia que habita as suas mentes e rege as suas práticas quotidianas.

 

5 Parecem santos, pessoas de rara virtude, que as demais saúdam e reverenciam nas praças e nas ruas; ocupam sempre os primeiros lugares lá onde estiverem; são tratadas pelos títulos honoríficos com que se enfeitam a si mesmos e uns aos outros, muito mais do que pelos seus próprios nomes. Procedem assim, porque sabem bem que a Corrupção precisa desta parafernália toda para se esconder e melhor poder agir, sem que ninguém dê por ela. Ela é como o fermento estragado que, onde entrar, estraga, envenena, corrompe, descria o que há de Humano nos seres humanos.

 

6 Nas sociedades onde o sagrado já deu lugar ao profano, ao secular, ao laico, os fariseus vestem de Executivo, fazem-se transportar em viaturas de grande luxo, frequentam o que há de mais caro e de mais requintado em hotéis e restaurantes, têm motorista privativo, são tratados por vossa excelência, senhor-doutor para aqui, senhor-doutor para ali, arrastam atrás deles toda a grande comunicação social, têm diante deles todos os microfones das rádios de estalo, são entrevistados todos os dias e, muitas vezes, várias vezes no mesmo dia, são presença cativa em todos os telejornais, viajam muito e não há bizarro pormenor da sua vida pública que não encha a capa das revistas ditas cor-de-rosa. Tudo isto, para que as populações e os povos se distraiam e nunca cheguem a ver o veneno e a podridão que todos eles são

 

7 São estes fariseus que vestem de profano /secular, juntamente com os fariseus que vestem de sagrado, os agentes históricos da Corrupção, os seus braços, respectivamente, esquerdo e direito. As populações e os povos haveriam de fugir de todos eles a sete pés, porque até o seu hálito é portador de múltiplos vírus que matam e as suas falas andam carregadas de mentira e de podridão. Mas poucas são as populações, e poucos são os povos que já assim procedem. O mais frequente é as populações e os povos correrem ao seu encontro, como se os fariseus que vestem se sagrado /religioso ou de profano /secular fossem o que a nossa Sociedade tem de melhor. Não são. São o que a nossa Sociedade tem de mais perverso.

 

8 As populações e os povos do mundo procedem assim, porque ainda não chegaram a ser verdadeiramente pessoas. Muito menos, pessoas sábias. Neste particular, podemos mesmo dizer, com toda a propriedade, que somos todos - pessoas e povos - cegos desde nascença. E nem sequer é de estranhar que assim sejamos, uma vez que todos nós, os seres humanos, nascemos neste mundo onde a Corrupção é soberana, é rei e senhor. Deveria ter escrito "é rainha e senhora". Mas escreveria mal. Porque a Corrupção é um substantivo feminino, mas só para melhor poder levar a água ao seu moinho.

 

9 De feminino, a Corrupção não tem nada. Ela é o grande macho, para não dizer, o único macho, que cobre tudo e todos, assim encontre as mentes das pessoas e dos povos abertas às suas seduções, aos seus galanteios, às suas prendas, às suas investidas, aos seus convites para jantar e para viajar. E sempre, ou quase sempre, encontra. Porque quem é que resiste a um elogio, a um galanteio, a um belo ramo de flores, a um carro de alta cilindrada, a uma viagem de sonho para uma região de sonho, a um colar de diamantes, a um saco cheio de notas de 500 euros?

 

10 A Corrupção é o outro nome, feminino, do Poder Financeiro, masculino, o Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Grande Macho, o Grande Patrão, o Grande Senhor, o Grande Deus, o Grande Ídolo. Quem, hoje, ainda não for capaz de ver isto, é sinal inequívoco de que permanece cego, tal e qual como nasceu. Já será capaz de distinguir facilmente um comboio duma árvore, mas ainda não vê o Corrupto que veste de fariseu, sagrado /religioso, ou profano /secular. E essa é, sem dúvida, a pior de todas as cegueiras, aquela que nem o Nobel da Literatura 1998, José Saramago, conseguiu superar, apesar de já ter escrito e publicado um Ensaio sobre a Cegueira. Com o qual - vejam só! - tornou ainda mais cegas, cegos, politicamente mais desmobilizadas, desmobilizados as pessoas e os povos!

 

11 Eu bem sei que ninguém por aí, nem mesmo no seio das próprias famílias, nos diz estas coisas terra-a-terra, de tão sábias que elas são. E como haviam de nos dizer, se tudo, família de sangue incluída, o que há aí de Institucional, seja sagrado /religioso, seja profano /secular, tanto faz, é precisamente para nos manter a todos, populações e povos do mundo, cegos por toda a vida? Nada do que o Institucional concebe, cria e põe em execução é, alguma vez, para abrir os olhos das mentes às populações e aos povos do Mundo. Tudo é para os cegar ainda mais. Ou, pelo menos, para os manter cegos por toda a vida.

 

12 Tudo o que o Institucional concebe e faz, podem ser, e muitas vezes são, iniciativas cheias de Saber, até de Saber altamente ilustrado, e fomentadoras de mais Saber, até de Saber altamente ilustrado. Mas são sempre, forçosamente, iniciativas desprovidas de Sabedoria, por isso, cheias de Obscurantismo, religioso ou laico /ateu, tanto faz. Obscurantismo ilustrado, certamente, no qual, desde sempre, foram /são peritas, peritos, todas as Universidades, todas as Escolas, todas as Paróquias /Dioceses, todos os Meios de Informação de massas, todas as artes realizadas por nomes sonantes e de alto custo na praça. Porque tudo isso, para poder circular à vontade e ser promovido, tem de ter a marca, o selo, da Corrupção, do Poder Financeiro. E só o que tiver essa marca, esse selo, é que circula, é promovido, tem voz e vez, enche os escaparates do Mercado, é adoptado nas Escolas, é notícia destacada nos telejornais e noutros programas televisivos menores.

 

13 "Tomai cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes". O alerta só pode ser da Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, que é Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, com o aval, a bênção e até a pressão do Templo. O Evangelho de Marcos regista-o como um severo alerta de Jesus dirigido aos seus discípulos, para que eles se atrevessem a ser na História o fermento outro de que ela necessita, para se tornar progressivamente Humana e, ao mesmo tempo, fizessem esse mesmo alerta chegar a todas as nações da Terra. Mas como é que o alerta haverá de chegar a todas as nações da terra, se todo o Institucional, familiar incluído, do Religioso /Eclesiástico ao Profano /Secular, está aí a trabalhar dia e noite para o impedir e, em seu lugar, difundir o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes, a Hipocrisia, a Mentira organizada, o Assassínio cruento ou simbólico, sempre que for necessário?

 

14 O dramático na História, é que nem com as Igrejas que se reclamam de Jesus (em boa verdade, mais de Cristo do que de Jesus), a Sabedoria pode contar para fazer chegar este alerta a todas as nações da Terra. Desde que as Igrejas aceitaram tornar-se parte do Institucional, concretamente, do Institucional sagrado /religioso, passaram a ser e são agentes históricos da Corrupção. São manifestamente o braço direito do Poder Financeiro. Porventura, o braço mais ingenuamente activo e generoso, com que o Poder Financeiro pode contar no terreno, quer entre as multidões sem voz, sem vez, sem tecto, sem terra, sem direitos, sem afectos, sem comida, sem dignidade; quer entre as elites do Saber ilustrado que ocupam as cátedras das suas universidades e outras ditas seculares e nelas difundem, entre as gerações mais jovens, o fermento dos fariseus e o fermento de Herodes, para que venham a ser, amanhã, os novos fariseus, vestidos de sagrado /religioso, uns, e de profano /secular, até de ateísmo, outros!

 

15 Deste modo, a Corrupção continua aí a gozar de boa saúde, mais poderosa e eficaz do que nunca. O fermento dos fariseus e o fermento de Herodes é que têm direito de cidadania, via verde para circularem à vontade. Invadem as mentes das pessoas e dos povos, sem que as pessoas e os povos cheguem a dar-se conta. Pelo contrário, até o absorvem como se fossem esponjas. Adoptam-no no seu viver. Numa alienação que chega a causar calafrios, de tão generalizada e de tão assassina do Humano nos seres humanos e nos povos, ela é.

 

16 Nunca como hoje, o Poder Financeiro esteve tão Acumulado e tão Concentrado em tão poucas mãos. Nunca ele foi tão mentiroso e tão assassino do Humano nos seres humanos e nos povos. Nunca foi tão descarado e insolente. Nunca foi tão fermento dos fariseus e fermento de Herodes. O Dinheiro, como Senhor absoluto, é hoje o único Deus reconhecido, adorado, escutado, obedecido. Nem os nossos intelectuais ditos de Esquerda escapam à sua Sedução. Todos estão de cócoras diante dele. Dos mais velhos, como Saramago, aos mais novos, ainda nos bancos das Universidades. A Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada e o seu fermento maiêutico, criador de Humano nos seres humanos e nos povos, vê-se obrigada a ter de viver em Deserto, já que não tem lugar nas mentes humanas. Em (quase) nenhumas.

 

17 E, no entanto, digo-vos a vós, que sois meus amigos, minhas amigas. A vós que sois amigas, amigos da Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, que é Jesus, o filho de Maria. Nunca, como hoje, esteve tão próxima a nossa Libertação, como Humanidade. E porquê? Porque, quando a Demência-demência atinge dimensões tão obscenas como as de Hoje, é sinal de que está próxima a nossa Libertação. Estejamos, pois, de rins cingidos, atentos aos Sinais dos Tempos, aos Clamores das Vítimas humanas e do próprio Planeta, já em em fortes dores de parto. Levantemos a cabeça. E trabalhemos sem descanso no Essencial, em sintonia e em cooperação alegre com o Sopro /Espírito de Jesus.

 

18 A Grande Depressão Global é também a Grande Viragem Global. Foi quando a Opressão dos escravos no Egipto dos faraós atingiu o cúmulo do absolutamente Intolerável, que o Êxodo já estava à porta e Aconteceu. O Poder Financeiro que hoje tudo controla e humilha está à beira de ser decapitado. Sem necessidade de se recorrer a nenhuma das suas mortíferas armas. É a Paz dos empobrecidos e dos excluídos, hoje quase a totalidade dos seres humanos, que decapitará o Senhor Dinheiro, o Grande Ídolo dos ídolos. Mais um pouco, e dos olhos das mentes dos empobrecidos e dos excluídos do Planeta cairão as escamas que os não têm deixado ver. E eles verão, finalmente, que o Grande Ídolo que têm temido e adorado não é Deus, como eles e os antepassados deles sempre pensaram que era. É apenas o Grande Ídolo. E verão também que ele só é grande, porque os come a todos eles, e a todos os recursos do Planeta.

 

19 Então, em lugar de temerem /adorarem /obedecerem ao Grande Ídolo, os empobrecidos e excluídos do Planeta rir-se-ão dele. E esse riso global é que o derrubará e a todo o Institucional, religioso ou secular, que tem estado aí ao seu serviço. Uma Nova Ordem Mundial nascerá. A Ordem Mundial das pessoas organizadas e dos povos organizados. Com as pessoas e os povos ao leme da História. Cheias de Sabedoria. E diariamente activadas pelo fermento maiêutico de Jesus, o Crucificado pelo Grande Ídolo e os seus dois braços, o Poder Político e o Poder Religioso.

 

20 Sejamos, pois, sábias, sábios. Deixemos tudo e passemo-nos, desde já, ao Deserto, à Trincheira, à Clandestinidade. Apenas com o mínimo indispensável para sobrevivermos. A Travessia do Deserto será demorada e não podemos integrá-la, carregados com as casas que hoje temos, muito menos com toda aquela tralha com que essas nossas casas estão cheias, quase sem lugar para quem nelas habita, muito menos para acolher outras pessoas que cheguem de fora. Deixemos tudo, já. Fiquemos apenas com os Afectos Partilhados. E, é claro, com a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada! Numa palavra, atrevamo-nos a ser, aqui e agora, outros Jesus, Pão Partido e Repartido que se dá a comer, Vinho Derramado e Partilhado que se dá a beber! Pela vida do Mundo.

 

Capítulo 24

 

1 Ter para ser-viver, nomeadamente, Ter para todas, todos, sem excepção, sermos-vivermos, é bom. É o princípio da Sabedoria, da Dignidade Humana, da Liberdade-Fraternidade dos Povos. Viver para Ter, nomeadamente, viver para algumas, alguns Terem de mais, enquanto à esmagadora maioria dos seres humanos e dos povos falta o indispensável para todos podermos ser-viver, é perverso. É o princípio da Perversão, da Humilhação Humana, da Corrupção-Desfraternização dos Povos.

 

2 Há na Bíblia, no Novo ou Segundo Testamento, uma parábola atribuída pelo Evangelho de Lucas (cf. 16, 1-8) a Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, que parece ter sido concebida e contada, por estes dias europeus e mundiais que são os nossos, neste início do Terceiro Milénio. Dias em que a Corrupção, qual mítico Demónio, de repente, deixa de ser mítico e torna-se realidade histórica por aí à solta, sem que ninguém consiga ter mão nele. Porque até aqueles que, institucionalmente, era suposto terem mão na Corrupção, são os que mais atolados estão nela. Ou o Poder Económico-Financeiro - o Dinheiro Acumulado e Concentrado - não fosse o ídolo dos ídolos, assassino, o descriador por antonomásia do Humano nos seres humanos e nos Povos. É. Absolutamente! Embora ninguém dos que se têm na conta de sabedores /doutores e mestres nas Faculdades de Economia e Finanças, o admita, muito menos, o ensine. Pelo contrário, tudo eles fazem para no-lo esconder! Que para isso são contratados e pagos!

 

3 Aliás, o próprio Evangelho de Lucas que conta esta parábola, num exclusivo seu, permite-se, no final, acrescentar da sua lavra ou da lavra do próprio Jesus, esta pertinente, mas tremenda observação: "É que os filhos [as filhas] deste mundo [sem dúvida o mundo do Poder Económico-Financeiro] são mais sagazes no trato com os seus semelhantes do que os filhos [as filhas] da Luz." Por outras palavras: O princípio da Perversão, da Humilhação Humana, da Corrupção-Desfraternização dos Povos tem ao seu serviço os melhores cérebros do Planeta, os quais, como é público e notório, se vendem, como prostitutos /prostitutas de luxo, sem quaisquer escrúpulos e até com orgulho, por muitos milhões ao Poder Económico-Financeiro. Enquanto que o princípio da Sabedoria, da Dignidade Humana, da Liberdade-Fraternidade dos Povos, o único que anda carregado de Futuro, não tem praticamente ninguém que o pratique todos os dias e o anuncie às nações do Planeta. E aquelas poucas mulheres, aqueles poucos homens que já perceberam a marosca do Poder Económico-Financeiro e, por isso, sabiamente, recusam ir por ele e mais ainda recusam servi-lo, acabam por ser objecto de troça e de sarcasmo por parte, até, dos seus familiares de sangue, dos seus vizinhos e conhecidos. Até aí chega a Demência-demência humana!

 

4 A parábola fala de "um homem rico que tinha um administrador; e este foi acusado perante ele de lhe dissipar os bens". Um homem rico, sem nome, é um personagem representativo. No caso, é o rosto e a voz do Poder Económico-Financeiro, que tudo compra e vende, até os seres humanos e os seus cérebros para os colocar à frente das suas empresas transnacionais, concebidas e criadas para produzirem Dinheiro, muito Dinheiro, com gastos cada vez mais reduzidos. Sem estes cérebros ao seu serviço - são os piores traidores entre os seres humanos e os Povos, os Judas do nosso tempo que se vendem por trinta dinheiros e muitos privilégios - o Poder Económico-Financeiro nada poderia fazer. E acabaria por desaparecer da face da Terra. Assim, está aí mais viçoso do que nunca, nomeadamente, depois da Primeira Guerra Financeira Mundial que ele acaba de desencadear e de vencer em toda a linha, sem necessidade de recorrer a nenhuma guerra de armas e de bombas, sempre muito dispendiosa para ele.

 

5 O administrador foi apanhado pela polícia que o Poder Económico-Financeiro tem ao seu serviço e a quem paga para isso. Em vez de fazer crescer o Dinheiro do patrão que o havia contratado, deixou-se corromper pelo Dinheiro. E passou a reservar para si próprio mais do que o seu senhor lhe havia concedido. O crime foi denunciado e o administrador punido com o despedimento. E tudo, porque o Poder Económico-Financeiro é o único Senhor. Não admite rivais. Nem concorrentes. O seu objectivo é concentrar-se em cada vez menor número de mãos, até se tornar o único senhor. Com todos os seres humanos e os Povos do Planeta como seus súbditos. Seus vassalos, cada qual na tarefa que ele, senhor de todos eles, lhes destinar.

 

6 Ao ver-se apanhado em flagrante, o que faz o administrador despedido? Antes de entregar as listas dos credores ao seu senhor ou patrão, chama um a um e leva a corrupção ainda mais longe. Diz aos credores que destruam a contabilidade, façam desaparecer os computadores onde tudo constava, e façam rapidamente uma outra contabilidade. As dívidas ao agora seu ex-patrão passam, assim, quase todas para metade. O administrador despedido agiu deste modo, para, com esta "generosidade" /habilidade, garantir a sua posterior subsistência no mesmo nível que tinha antes de ter sido apanhado. Estes credores beneficiados seriam amanhã os amigos com os quais ele poderia sempre contar. Ou os corruptos não se corrompam uns aos outros e não comam nas mesas uns dos outros. As suas, são mesas descriadoras do Humano, onde se serve veneno, sob a aparência de comida requintada. Sobretudo, onde a palavra que se diz e escuta é tecida de Mentira. E o sopro que a produz é de assassínio. São, por isso, mesas com tudo de altares, erguidos em honra do Deus-Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Senhor!

 

7 O Poder Económico-Financeiro vem a saber de tudo isto e não se zanga por aí além. Mantém o administrador despedido, mas não deixa até de elogiar a sua sagacidade, na hora de deixar a empresa. Como a confirmar que o despedimento não foi por o administrador não ser sagaz, nas funções em que estava investido, mas por o ter sido em proveito próprio, não em proveito do seu senhor ou patrão, o Poder Económico-Financeiro. Tivesse ele colocado toda essa sagacidade ao serviço do Poder Económico-Financeiro, explorasse ainda mais, empobrecesse ainda mais os Povos, fizesse crescer ainda mais o Poder Económico-Financeiro que o contratou, nem que fosse à custa de matar de fome milhares de seres humanos, em lugar de ser despedido, teria sido promovido na empresa. Ou seria até transferido para outra ainda maior e com mais privilégios.

 

8 O que o Poder Económico-Financeiro não perdoa é que algum dos seus administradores /servidores o engane a ele. Porque se os aministradores enganarem os seres humanos e os Povos, serão sempre promovidos, nunca despedidos. Porque o objectivo do Dinheiro Acumulado e Concentrado é tornar-se cada vez mais Acumulado e cada vez mais Concentrado. Para isso, ele contrata os melhores cérebros e paga-lhes bem. A única condição é que o adorem. Isto é, o reconheçam como o único Senhor. Como o único Deus verdadeiro. Terão de permanecer por toda a vida administradores ao seu serviço. Nunca se desviarem um milímetro dessa função, em proveito próprio, ou em proveito de outrem. Nesse mesmo dia, em que forem apanhados, serão de imediato despedidos.

 

9 Os seres humanos e os Povos são informados de todos estes passos. O Poder Económico-Financeiro faz questão disso. Porque, assim, faz passar para o exterior, para as suas incontáveis vítimas humanas, a imagem de que é Incorruptível, quando ele é, por natureza, o corruptor, o descriador do Humano nos seres humanos e nos Povos. A quem ele contratar, sempre corrompe. O vírus da Corrupção entra, de imediato, na mente do contratado, quando ele assina o contrato e se disponibiliza incondicionalmente para o servir. Primeiro, o Poder Económico-Financeiro. Só depois, muito depois, a família, os afectos, os amigos, a sua própria privacidade.

 

10 Esclarece o Evangelho de Lucas que Jesus contou esta parábola aos seus discípulos [discípulas]. Nunca as Igrejas no-lo advertiram, mas a verdade é que a parábola surge no Evangelho imediatamente a seguir a outras três parábolas (cf. Lucas 15) - a do homem que tem cem ovelhas, perde uma, deixas as 99 no campo e vai à procura da perdida; a da mulher que tem dez moedas, perde uma, varre a casa até a encontrar; e a do pai que tem dois filhos, o mais novo exige a parte da herança que lhe cabe e vai-se de casa, para regressar, anos depois, num estado abaixo do dos porcos - que Jesus contou, não às discípulas, aos discípulos, mas directamente aos fariseus e aos doutores da lei. Exactamente, o núcleo dos "durões" em matéria de moral e de costumes, dos sabedores /doutores que então esmagavam as populações em nome de Deus, com doutrinas moralistas /terroristas e com pesadas cargas, impostos incluídos, quando eles nem com um dedo lhes tocavam. Mas era assim que eles mantinham os seus privilégios de casta sobre as populações e ainda eram temidos /idolatrados por elas! Tal e qual como ainda hoje sucede. Só um cego que não queira ver é que não vê.

 

11 Depois destas três parábolas, Jesus "vira-se" para os discípulos. Ele que é a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, tem bem consciência de que o seu Projecto Político - o mesmo de Deus Criador, seu e nosso Abbá - anda nos antípodas do projecto político do Poder Económico-Financeiro, hoje, Global, sem quaisquer fronteiras, sem rosto, sem pátria, sem controlo, nem sequer dos Estados nacionais, muito menos, dos Povos. Com a parábola que lhes conta, Jesus pretende fazer-lhes um retrato vivo do tipo de Sociedade e de Mundo em que eles nasceram e vivem. É, como logo se depreende, um mundo perverso, que se rege pelo princípio da Perversão, da Humilhação Humana, da Corrupção-Desfraternização dos Povos. É, pois, imperioso que as discípulas, os discípulos percebam que, se não podem deixar de estar nele - não há outro onde se estar - nunca por nunca podem ser dele. De contrário, são mais do mesmo. Deixam de ser nele o sal da terra, a luz do mundo, o fermento na massa, a sentinela na cidade, que ele próprio, Jesus, é e quer que elas, eles sejam juntamente com ele, no pequeno país e, depois, em todas as nações da Terra. Até que o Poder Económico-Financeiro e o seu princípio da Perversão, da Humilhação Humana, da Corrupção-Desfraternização dos Povos, por que ele se rege, seja desacreditado, derrubado e os Povos sejam, finalmente, senhores dos seus próprios destinos.

 

12 Contada a parábola, Jesus avança, com determinação, a sua palavra de ordem que quem quiser ser das, dos dele e do seu Movimento Maiêutico na História (saibam que Jesus nunca quis instituir nenhuma Igreja, porque lá, onde houver Institucional, há, fatalmente, Corrupção e Inumanidade organizadas; Jesus apenas desencadeou um Movimento Maiêutico que é assim como o Vento, não se sabe de onde vem, nem para onde vai!), tem de fazer sua também e por toda a vida. Essa palavra de ordem tem-nos sido sistematicamente escondida pelas próprias hierarquias das Igrejas que se reclamam do nome de Jesus (na verdade, mais de Cristo, do que de Jesus!), mas que não comungam do seu mesmo Sopro /Espírito, só do sopro de mentira e de assassínio do Poder Económico-Financeiro. No dizer do Evangelho de Lucas, essa palavra de ordem é formulada assim: "Fazei amigos com o injusto /perverso dinheiro, ou o dinheiro da iniquidade [mamonâ tes adikías, no texto grego original, se bem que o termo mamonâ é do dialecto aramaico falado por Jesus], para que, quando este faltar, eles vos recebam nas moradas eternas" Para concluir, depois, um pouco mais à frente, com aquela palavra de ordem fortíssima que é muito repetida, mas nada seguida /praticada, nem mesmo pelos frades e pelas freiras que fazem voto de pobreza: "Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro"!

 

13 O Evangelho, para espanto de quem o escuta /lê, em vez de registar alguma reacção por parte das discípulas, dos discípulos, às quais, aos quais a parábola foi dirigida /contada, regista a reacção dos fariseus, os tais "durões", sempre prontos, como hoje os pastores das Igrejas dos Dízimos e os gestores do santuário de Fátima e de outros santuários de nomeada, a sugarem até o último cêntimo da viúva pobre, a pretexto de longas orações, ou de correntes de oração, como hoje dizem esses mesmos pastores. Escreve Lucas: "Os fariseus, como eram amigos do Dinheiro, ouviam as suas palavras e faziam troça de Jesus" (cf. Lucas 16, 14). Tiremos "fariseus" e coloquemos no texto, sabedores /doutores, ou Faculdades de Economia e de Finanças, e logo percebemos quanto Jesus, o da História, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, é tremendamente impopular, ainda hoje, porventura, ainda mais hoje do que então. Nem os pobres que todas as semanas sonham com o euromilhões gostam de Jesus, vão com ele, fazem seu o Projecto Político dele. E quanto aos Partidos políticos de Esquerda, nem pensar!

 

14 Porém, Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, é taxativo. Porque, embora a sua palavra de ordem seja impopular, ele é o único que está certo, que tem razão. Não há como escapar: Ou Deus, ou Dinheiro. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro! Este, só este, é o princípio da Sabedoria, da Dignidade Humana, da Liberdade-Fraternidade dos Povos. Ou vamos por ele, ou vamos pelo Princípio da Perversão, da Humilhação Humana, da Corrupção-Desfraternização dos Povos. Não há uma terceira via. Quem nos quiser convencer que há, é mentiroso. Pode ser um grande académico, até prémio Nobel da Economia, mas é mentiroso, ao serviço do Poder Económico-Financeiro Global, que, de resto - não sabiam?! - é o que dá os prémios Nobel. Se dúvidas houvesse, bastaria ver que o prémio consiste essencialmente na entrega de um cheque de muito Dinheiro aos respectivos laureados!...

 

15 O silêncio do Evangelho de Lucas, em relação à reacção dos discípulos é revelador de que ela não foi boa. Terá sido na mesma linha da dos fariseus. Só teoricamente, é que eles haviam "deixado tudo" para o seguirem. A verdade é que deixaram tudo, na esperança de virem a ter muito mais. Por isso, quando eles vierem a perceber que o Projecto Político de Jesus, o mesmo de Deus Criador, anda nos antípodas do projecto político do Poder Económico-Financeiro, o Dinheiro Acumulado e Concentrado, que acabou por prender Jesus e matá-lo na Cruz do Império, como o Maldito dos malditos, todos eles fugirão. E foi difícil recuperar para o Movimento de Jesus alguns deles, depois de semelhante desfecho. Valeram, na ocasião, as discípulas e os discípulos de Jesus, de origem não judaica, que estavam menos afectados pelo vírus (doutrina) dos fariseus, os tais que gostavam muito do Dinheiro e troçavam de Jesus.

 

16 Foram estas discípulas, estes discípulos que, depois da Morte Crucificada de Jesus, se congregaram em casa de Maria, não a mãe de Jesus, mas a mãe de João Marcos, algures, clandestinamente, em Jerusalém, longe do Templo e do Cenáculo. É essa pequenina Comunidade que, inopinadamente, toma consciência de que Jesus é a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada. E que Deus Criador é com Jesus Crucificado que está, não com os fariseus, nem com os doutores da lei, nem com os sumos sacerdotes que o mataram, juntamente com o Império de Roma. A Revolução Teológica na cabeça, no coração, na vida delas, deles, é total. E é essa Revolução Teológica Jesuânica que o Evangelho de Marcos conseguiu colocar em forma de narrativa escrita que a regista, anuncia /revela e, mais tarde e na sua peugada, o mesmo fazem o Evangelho de Mateus, o Evangelho de Lucas e o Evangelho de João.

 

18 Queremos vencer a Corrupção, hoje e sempre? Queremos acabar de vez e para sempre com a Corrupção? Só temos o caminho apontado por Jesus: Renunciarmos alegremente ao Dinheiro Acumulado e Concentrado, recusarmo-nos a trabalhar para ele, denunciarmo-lo como mentiroso, ladrão e assassino, tornarmo-nos pobres por opção e por toda a vida e sermos entre os demais e com eles Dádivas vivas, vidas-Pão Partido e Repartido, vidas-Vinho Derramado pela vida dos Povos. Sem nunca abandonarmos os Duelos Teológicos Desarmados contra a teologia /idolatria do Poder Económico-Financeiro. Emm verdade, em verdade lhes digo: Fora deste caminho jesuânico, só há Corrupção, cada vez mais sofisticada, como hoje é cada vez mais sofisticado o Poder Económico-Financeiro que a produz e alimenta. Dia e noite. Sem nunca, nunca parar!

 

Capítulo 23

 

1 É impossível alguém aceitar servir o Poder, seja o Poder Político, seja o Poder Religioso-Eclesiástico, seja o Poder Económico-Financeiro, sem, mais cedo ou mais tarde, sempre mais cedo do que mais tarde, vir a cair na Corrupção, a mais crassa e abjecta. De ouro que ela possa ser. Mas sempre a Corrupção mais crassa e abjecta.

 

2 Ai daquela, daquele que, ingenuamente ou não, aceita servir o Poder. O que ainda há nela, nele, de Humano é de imediato sequestrado e, algum tempo depois, assassinado. Que o Poder, todo o Poder é sempre mentiroso e assassino, particularmente, do que ainda haja de Humano nos seres humanos. E, sempre que lhe der jeito, é também assassino dos próprios seres humanos, nomeadamente, quando estes, por esta ou por aquela razão, se tornam incómodos e um estorvo para ele.

 

3 Há apenas uma excepção a esta regra. Ela acontece, quando alguém, ingenuamente ou não, aceita servir o Poder, em qualquer dos seus três ramos, mas apenas com o objectivo o fazer implodir, desde dentro. Mesmo assim, a vigilância dos seres humanos que arriscam entrar por aí, tem de ser total e absoluta. Sob pena de, quando se derem conta, já estarem completamente sequestrados /manietados /apanhados pelo Poder e não terem mais hipótese de recuo.

 

4 Ainda mantêm, durante algum tempo, aquele ar de bom Poder, mas apenas isso. E o Poder até lhes agradece e recompensa. Porque é sobretudo graças a esses poucos fiéis servidores, com ar de impolutos, que o Poder se mantém cada vez mais reforçado no seu poleiro, sem que haja nunca fecundas Insurreições desarmadas por parte das populações. Esses fiéis servidores do Poder são bem a sua face visível, a que leva as suas próprias vítimas a tomarem o Poder por bom, quando ele é intrinsecamente perverso, corrupto, corruptor.

 

5 Mas o Poder tem também e sobretudo a sua face oculta. Objectivamente, a face oculta do Poder é, sem dúvida, a mais perversa. É a face que nunca se vê, a que nunca se mostra às populações. É a face mais perversa. A mais mentirosa. A mais assassina do que ainda haja de Humano nos seres humanos. Mas, socialmente, não é a mais perigosa, na relação do Poder com as populações. A face mais perigosa do Poder na sua relação com as populações é precisamente a face visível, tida por impoluta. É esta que chega a convencer as populações, mesmo as que se têm na conta de mais ilustradas, de que o Poder é bom. E deve ser mantido /obedecido, nunca derrubado /desobedecido!

 

6. Ora, o Poder nunca é bom. Nem mesmo quando parece. E quando parece bom é quando o Poder é ainda mais perverso. Todo o Poder é perverso. Todo! Ou vemos assim as coisas, ou somos ingénuos, infantis, dementes-dementes. Frente ao Poder, a todo o Poder, compete-nos a nós, seres humanos todos, resistir-lhe. Sem hesitar. E com todas as forças. E derrubá-lo, onde quer que ele se encontre. Sabotá-lo. Até hoje, desde que há Poder, nunca os seres humanos lhe resistimos, como um todo. Bem pelo contrário. Contar-se-ão pelos dedos das mãos e ainda sobrarão dedos, os seres humanos que resistimos ao Poder, a todo o Poder, e lhe resistimos por toda a vida.

 

7 Sempre tem havido na História muitos seres humanos que começam por resistir ao Poder. Intuem, desde meninos, que, se aceitarem entrar por ele, fazer-se fiéis servidores dele, em vez de o sabotarem /derrubarem, depressa perdem o que há ainda de Humano neles. E, por isso, resistem-lhe. Por mais ou menos tempo. Entretanto, o Poder que vê neles excepcionais capacidades, rodeia-os por todos os lados, sedu-los de todas as maneiras, alicia-os com as mais tentadoras benesses, para que eles se lhe entreguem /vendam e ponham ao serviço dele todas essas suas excepcionais capacidades.

 

8 Quando nem assim o Poder consegue vergá-los, quase sempre passa da sedução às ameaças. E das ameaças às represálias. E das represálias, a vias de facto cada vez mais brutais. Transforma a vida desses seres humanos resistentes num inferno. Até que eles, ao verem a vida deles e, sobretudo, a vida das suas filhas, dos seus filhos, andar para trás, se lhe rendam incondicionalmente. E não é que a maioria dos seres humanos, mesmo dos que lhe resistem anos e anos, acaba mesmo por render-se ao Poder e aceita, finalmente, incorporar o exército dos seus fiéis servidores?

 

9 É do nosso quotidiano mais comum e banal, ver filhas, filhos, netas, netos de velhos e grandes resistentes ao Poder, ocupar depois postos-chave de Poder, inclusive, nos lugares mais cimeiros e de mais responsabilidade na sua pirâmide. Escrevi "pirâmide". E escrevi bem. Porque de pirâmide se trata. Aliás, só por crassa distracção, ou crassa ingenuidade, ou crassa cegueira voluntária, é que ainda não demos conta de que a pirâmide existe, porque o Poder a criou. Até as vergonhosamente famosas pirâmides do Egipto, levantadas com o suor e o sangue e as vidas-morte de milhares, milhões de escravos humanos, são criação do Poder. Como os grandes palácios de Governo e das Multinacionais. Como as grandes basílicas e catedrais das Igrejas /Religiões.

 

10 O mais dramático é que as populações olham para tudo isto e acham tudo muito bem. Que mãe, que pai se não sente orgulhosa, orgulhoso, satisfeita, satisfeito, realizada, realizado, quando vê a sua filha, o seu filho, ocupar um lugar destacado na pirâmide do Poder, num qualquer dos seus três ramos? Que mãe, que pai é que não festeja com os amigos esse feito e lhes diz, Alegrai-vos comigo, porque a minha filha, o meu filho, agora sim, está bem, é um dos administradores daquela multinacional, está à frente daquele banco, é ministro do país, é bispo residencial daquela grande diocese?

 

11 A vida, pensa essa mãe, esse pai, não podia correr melhor à minha filha, ao meu filho. E, em pouco tempo, até a humilde casa em que a família vivia, tem de dar lugar a uma vivenda que condiga com aquele estatuto da filha, do filho. O mesmo se passa com a roupa que a família veste. As próprias amizades que aqueciam o coração àquela mãe, àquele pai e a quase espontânea familiaridade que ela, ele mantinha com os vizinhos iguais a ela, ele, tudo tem de acabar, para dar lugar a outro tipo de gostos, de amizades hipócritas, de vizinhos, bem mais conformes ao novo estatuto da filha, do filho.

 

12 O Poder corrompe não só os seus fiéis servidores, mas também os familiares mais próximos deles. E corromper o que é? Em poucas e sábias palavras, corromper é o mesmo que partir a espinha aos seres humanos. Passam de vertebrados a invertebrados! De modo que o que ainda há de Humano neles se dilua, caia como um baralho de cartas. Em linguagem mais teológica, a da sábia e maiêutica Teologia de Jesus, corromper é o mesmo que devorar o Humano, a alma dos seres humanos. Não é que haja alma e corpo. Não há. Há seres humanos mais ou menos animados. Corromper é, então, o mesmo que devorar o que ainda há de Humano - as entranhas, o coração, o afecto, a ternura, o misericordioso, o sororal /fraterno, o solidário - em cada ser humano.

 

13 O Poder, todo o Poder, é isso que faz. Só que, enquanto tudo se mantém como a face oculta do Poder, as populações não se dão conta de nada, de tão ingénuas que são, ou, melhor, de tão ingénuas que o próprio Poder as faz ser. São até tomadas, muitas vezes, de um sentimento de inveja por não ser a sua filha, o seu filho, a escolhida, o escolhido pelo Poder. Disse "as populações". Mas não só. Também as chamadas elites, intelectuais e outras. Basta vermos o permanente rodopio e o contínuo desfazer-se em amabilidades e em atenções que as elites mantêm com o Poder e os do Poder. De resto, os grandes meios de comunicação social é quase só com os do Poder que se ocupam. Ou ainda nem isso viram?

 

14 A surpresa chega a ser geral e total, quando a face oculta do Poder passa, neste e naquele caso pontual, a face visível. O desgraçado que calha de cair na ratoeira que o próprio Poder arma e mantém activada, aqui e ali, para fazer passar a impressão de que é bom e incorrupto, e que até combate os corruptos e a corrupção, torna-se o bode expiatório de que o Poder sempre precisa para melhor se perpetuar e mais se fortalecer. O nome desse desgraçado, porventura, cheio de dinheiro, cai de imediato na lama. Todos passam a dizer cobras e lagartos contra ele. Todos lhe malham e ao seu nome, até que o desgraçado endinheirado fique reduzido a menos que lama.

 

15 Se, como seres humanos, ainda alinhamos nesta estratégia do Poder e dizemos amen com ela; se nos escandalizamos como o Poder quer que nós nos escandalizemos; se repetimos, uma e outra vez, "Olha-me só aquele sacana, o traste que aquele tipo era", revelamos bem quão ingénuos ainda somos. Porque não é este ou aquele que, inopinadamente, é apanhado na ratoeira que o próprio Poder armou, que é corrupto. Muito menos, o corrupto. Corrupto, intrinsecamente corrupto e corruptor, é o próprio Poder. Só que o Poder, para continuar a perpetuar-se e a reforçar-se cada vez mais, precisa, de vez em quando, de fazer passar a imagem de que é impoluto, incorruptível, a garantia maior de que, com ele ao comando, a Corrupção não tem qualquer hipótese.

 

16 O Poder faz tudo isto, porque é hipócrita, porque é Corrupção organizada e institucionalizada. Porque é a Corrupção. Tudo o que toca fica de imediato corrompido, inquinado, entra em acelerado processo de desumanização, de descriação humana. Este ou aquele que, inopinadamente, cai na ratoeira que o próprio Poder cria e arma não passa de um desgraçado bode expiatório, porventura, podre de dinheiro, mas desgraçado bode expiatório. É linchado /queimado nas fogueiras inquisitoriais dos grandes meios de comunicação social e das opiniões de todas as tascas, de todos os cafés, de todas as bancadas de Futebol, o dos Milhões. Enquanto o Poder que o corrompeu, que o utilizou, que matou o que nele ainda havia de Humano e de Dignidade, sai por cima, passa por o Incorruptível!

 

17 Outra, muito outra, é a postura da Sabedoria na História. Quando a Sabedoria se fez Fragilidade Humana e Crucificada, em Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, recusou todo o Poder, toda a espécie de Poder. Em vez disso, cresceu em idade, em estatura, em sabedoria e em graça. Não em Poder. Em nenhum Poder. Nem Poder Religioso-Sacerdotal. Nem Poder Político-Imperial. Nem Poder Económico-Financeiro. Cresceu apenas em Humano, até alcançar a plenitude do Humano e passar (PÁSCOA) para lá da plenitude do Humano, pelo menos, no que toca ao que nós, os seres humanos ainda a viver na História, podemos ver.

 

18 E como é que Jesus, o Ser Humano por antonomásia, chega a tal plenitude do Humano, ao ponto de se constituir no Caminho que todos os demais seres humanos, de todas as culturas e nações, haveremos de percorrer-viver, se quisermos chegar também a ser tão plenamente Humanos quanto ele, porventura, até mais do que ele, pelo menos, enquanto seres humanos situados dentro da História?! A questão é fulcral. Decisiva. E ninguém, ateu ou crente, ilustrado ou analfabeto, pode evitá-la, ignorá-la, sem sair gravemente lesionado no Humano que constitutivamente todos os seres humanos somos.

 

19 Por isso, é preciso, imperioso e urgente, resgatarmos Jesus das Igrejas e das Religiões, o chamado Poder Eclesiástico-Religioso que manipula o seu nome e faz dele gato-sapato, fá-lo dizer o que ele não diz, abençoar o que ele não abençoa, canonizar o que ele denuncia como Ídolo e como Idolatria. E resgatá-lo, também, do Poder Económico-Financeiro e do Poder Político-Imperial. Este é o primeiro passo - Resgatar Jesus, o da História - sem o qual não se pode passar ao segundo!

 

20 O segundo passo é regressarmos, sem mais demoras, a Jesus, o da História, perceber porque o mataram e logo naquele género de morte na Cruz do Império; e regressarmos ao seu Sopro ou Espírito, de modo a actualizarmos, hoje e aqui, as suas mesmas Práticas Maiêuticas e os seus Duelos Teológicos desarmados. Não há alternativa fora desta: Ou nos deixamos fazer pelo Sopro /Espírito maiêutico /libertador de Jesus, o Ser Humano por antonomásia e crescemos, hoje, século XXI e Terceiro Milénio além, em Humano, tanto quanto Jesus cresceu no século I, no seu pequeno país da Palestina, então colónia do Império Romano, militarmente ocupada pelas legiões do Exército romano, ou nos deixamos fazer pelo Sopro /Espírito mentiroso e assassino do Poder, de todo o Poder, hoje, bem à cabeça de todos e quase o único, o Poder Financeiro Global - o Dinheiro Acumulado e Concentrado - e crescemos em Inumano, até desaparecermos como espécie do Planeta Terra.

 

21 Escolher é preciso. Digam-me a escolha que fazem e dir-lhes-ei quem ou o que serão. Escrevo assim - quem ou o que - porque se, ao contrário de Jesus, escolhermos o Sopro /Espírito do Poder, seguiremos uma via nos antípodas da via Jesus. Não estranhemos, então, se formos cada vez mais corruptos, mais inumanos, mais monstros, mais sem afectos, mais insolidários, mais coisas, mais varas ou saramagos agitadas, agitados pelo vento, numa palavra, mais "o que", em vez de "quem". Porque "quem" só se pode dizer do Humano, e tanto mais quanto, como seres humanos, mais crescemos em Humano, até nos tornarmos, pelo menos, outros Jesus, porventura, de novo crucificados como ele, só que agora já não naquela tosca cruz de madeira do Império Romano, mas simbolicamente, o que é, porventura, bem pior. Escolher é preciso! Escolhamos bem!

 

Capítulo 22

 

1 É no seio das famílias de sangue, e só no seio das famílias de sangue, que a Morte continua aí a fazer estragos, e que estragos! E famílias de sangue são todas as famílias que ainda vivem dentro da Ordem Mundial do Império Financeiro e fazem parte dela, ao ponto de adoptarem-seguirem-praticarem o seu mentiroso e assassino evangelho. Este convence-as de que a Morte é o principal Inimigo da vida. As famílias de sangue interiorizam de tal modo esta Mentira, que, depois, vivem, desde o nascer ao morrer, sob o medo-terror da Morte. Tudo o que fazem e projectam leva, fatalmente, a marca do medo-terror da Morte. Chegam a tornar-se famílias exploradoras e assassinas dos demais, numa tentativa de prolongarem as suas próprias vidas e as dos seus. Todos os outros que não são do seu sangue, da sua família de sangue, ou que o são, mas de um ramo já mais afastado, são sempre olhados /tratados como estranhos que, depressa, passam à categoria de inimigos que importa manter sempre à distância. Daí a explorá-los e, até, a matá-los vai apenas um passo.

 

2 A exploração dos estranhos faz crescer a riqueza das famílias exploradoras. E a morte-assassínio dos estranhos faz desaparecer concorrentes de facto, ou potenciais concorrentes. O caminho fica, assim, cada vez mais livre, para as famílias de sangue se afirmarem. Só que estas são famílias que, para se afirmarem e viverem, exploram e matam os demais. Mas, ainda hoje, século XXI, não são estas famílias vencedoras dos demais, aquelas que o mentiroso evangelho da Ordem Mundial do Império Financeiro Global mais reconhece, mais teme, mais respeita, mais distingue, mais elogia, mais louva? Não são estas famílias, aquelas que até os pobres da Terra, as suas principais vítimas, mais temem, mais reverenciam e mais admiram? E não são estas famílias, aquelas que ocupam os primeiros lugares nas religiões, nas Igrejas, nas grandes empresas, e nos cargos do Poder Político?

 

3 Não são assim, as famílias que já aceitaram nascer do Espírito ou Sopro de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, e do seu Evangelho de vida e vida em abundância para todos os povos da terra. Estas são famílias que, embora vivam dentro da Ordem Mundial do Império Financeiro, já não fazem parte dela, menos ainda adoptam-seguem-praticam o seu mentiroso e assassino Evangelho. O Evangelho por que pautam as suas vidas na História é exclusivamente o de Jesus, a Sabedoria Desarmada que desmascarou toda a Demência-demência institucionalizada que é a Ordem Mundial do Império Financeiro Global e o seu mentiroso e assassino evangelho. E, por o ter feito, é que foi quase de imediato Crucificado por ele e pelas suas mais influentes famílias de sangue, essas mesmas que pautam as suas vidas pelo mentiroso e assassino evangelho do Império Financeiro Global. E que se têm e são tidas na conta de famílias-bem, quando são famílias que só estão aí para matar, roubar e destruir.

 

4 Ora, só nas famílias outras, já nascidas do Sopro ou Espírito de Jesus, é que até a própria Morte é encarada como boa notícia; como um momento mais da vida, o derradeiro, dentro da História, o novíssimo, quer dizer, o último e simultaneamente o primeiro de muitos outros Momentos ainda por conhecer e por viver; é encarada como Páscoa ou Passagem de um viver em dimensões estreitas, para um viver em dimensões outras que nem os olhos viram, nem os ouvidos ouviram, nem a nossa imaginação consegue imaginar. Se o nascimento de uma filha, de um filho é celebrado, também a morte de um dos membros destas famílias já nascidas do mesmo Espírito de Jesus e informadas pelo Evangelho de Jesus, é igualmente celebrada. Tanto o nascer, como o morrer, é sempre a vida humana no seu misterioso Acontecer. E, se nascer é festa, também morrer é festa. O parto, como chegada de alguém a esta Ordem Mundial, e a Morte, como saída/partida desse mesmo alguém desta Ordem Mundial, são dois momentos únicos que unem ainda mais as famílias já nascidas do mesmo Espírito de Jesus. São dois fecundos e intensos momentos que se complementam. A filha, o filho que, um dia, nos foi dada, dado, pousada, pousado nos nossos braços, quando, mais tarde, chega a fruto maduro, desprende-se da árvore, torna-se invisível aos olhos dos demais, mas para, desse modo, continuar ainda mais intensamente presente nas nossas vidas.

 

5 Ao contrário do que sempre nos tem ensinado o mentiroso e assassino evangelho pregado pelas Igrejas e pelas Religiões da Ordem Mundial do Império Financeiro Global, Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, que nem por um instante da sua vida adulta, esteve sob o jugo desse mentiroso e assassino evangelho, pelo contrário, sempre se lhe opôs, lhe resistiu, o desmascarou como mentiroso e assassino, jamais se (pre)ocupou com os mortos, nem ressuscitou quaisquer mortos. Inclusive, a quem, catequizado pelo mentiroso e assassino evangelho do Império Financeiro Global, pretendia e ainda pretende antepor o cuidado dos mortos, concretamente, enterrar o próprio pai, à imediata entrega pessoal à Missão, toda ela feita de Práticas Políticas, Económicas e Sociais Maiêuticas e de Duelos Teológicos Desarmados, logo Jesus ordena, peremptório: "Deixa que os mortos enterrem os seus mortos. Tu vem e segue-me!" Por outras palavras: Tu entrega-te de imediato à Missão, mete-te já a fazer tuas e a prosseguir aí onde vives as mesmas Práticas Maiêuticas e os mesmos Duelos Teológicos que me vês a mim fazer! Sem medo dos riscos que essas Práticas e esses Duelo desarmados trazem a quem vai por elas, por eles.

 

6 E porque é que Jesus é assim e quer que todas, todos sejamos assim? Porque Jesus, à medida que cresceu em idade e em estatura, também cresceu em Sabedoria e em Graça. Quer isto dizer que Jesus jamais se deixou fazer, como nós deixamos, uns mais, outros menos, pelo mentiroso e assassino evangelho do Império Financeiro Global, pregado, no seu tempo e país, pelo Templo de Jerusalém e pela Sinagoga, hoje, pelas Universidades e pelas Igrejas /Religiões e, ainda mais, pelos chamados Meios de Comunicação Social que mais não são do que poderosíssimos Meios de Propaganda e de Difusão do mentiroso e assassino evangelho do Império Financeiro Global que os pariu a todos. Por isso, Jesus, quando chega a adulto, depressa se apercebe de que vive dentro duma Ordem Mundial que leva as pessoas a terem medo da Morte, como se ela fosse o Inimigo da vida, só, para desse modo, melhor as poder ter a todas na mão. Como se morrer não fosse tão natural como nascer. Semelhante evangelho, mentiroso e assassino, é que era, é, o Inimigo dos Povos que urge desmascarar-combater-neutralizar-desacreditar.

 

7 Quem o aceita e pratica fica como que possesso de Medo da Morte e passa a organizar toda a sua vida contra os demais, aos quais explora e mata, para, desse modo, garantir mais e mais bens e, com eles, mais e amais vida. Como se a vida dependesse da abundância dos bens. Não depende. Mas o Medo da Morte leva a pensar que sim. E, enquanto este mentiroso e assassino evangelho continuar a ser anunciado /praticado pelas Universidades /Igrejas /Religiões /Meios de Comunicação Social, as populações e os povos é por ele que vão, não pelo Evangelho de Jesus, Pão Partido /Repartido e Vinho Derramado pela vida do Mundo . Tornam-se pessoas, famílias egoístas, exploradoras e assassinas, em lugar de pessoas, famílias, Dádivas-vivas pela vida dos Povos. Nasce assim o culto dos Mortos e da Morte, cujo reverso da mesma medalha é o Medo da Morte. Com as pessoas centradas em redor dos cemitérios, em lugar de centradas em redor umas das outras. Ocupadas com os mortos, em lugar de ocupadas com os vivos. A demência-demência chegou hoje a tal ponto, que os mortos têm muito mais atenção do que os vivos, nomeadamente, os vivos mais fragilizados, os idosos. A estes, os familiares despejam-nos em lares. Ao passo que, quando eles morrem, passam a ser adorados, têm direito ao culto dos familiares.

 

8 Nunca Jesus se ocupou com os mortos. Nunca ressuscitou os mortos. Nunca cuidou de construir um cemitério para enterrar os mortos que servisse de exemplo a outros. Todo o seu tempo é gasto /consumido /entregue a cuidar dos vivos e a enfrentar /desmascarar /derrubar os Poderes instituídos, as famílias de sangue que, levadas pelo Medo da Morte, progressivamente se organizaram em Poder Económico-Financeiro, Religioso e Político Judicial Armado, e constituíram-se como as donas /senhoras dos demais. Exploram, roubam, matam. E tudo lhes é permitido e até elogiado, porque souberam criar um mentiroso e assassino evangelho que anunciam, difundem e impõem em tudo quanto é sítio. Com o tempo, a Humanidade chegou ao século XXI e, hoje, toda esta superestrutura ideológica /idolátrica está aí cientificamente organizada de tal modo, que até parece natural, para não dizer, de origem divina. Não é. É tudo Perverso. O Perverso Organizado. Tudo tem como base e como ideologia o Ídolo dos ídolos. Tudo é Idolatria! Como tal, tudo é Mentira. Tudo tem de ser derrubado. Tudo tem de implodir. Jesus, no seu tempo e país, viu as coisas assim e agiu em consequência. Por isso o mataram. Na Cruz.

 

9 A sua Morte Crucificada, às ordens do Templo e do Império, mostra bem que Jesus nunca teve medo da Morte. Nunca teve medo de morrer. Nem sequer teve medo dos que podiam matá-lo. E a prova é que os enfrenta a todos, desarmado. Para que eles mostrem bem todo o Hediondo, todo o Perverso Organizado que são e de que são capazes. E eles não se fizeram rogados. Mataram-no desarmado. Mataram o Homem, o Ser Humano Desarmado!E, com isso, mostraram todo o Hediondo Organizado que são e de que são capazes. Os Povos da Terra, ainda dominados pelo medo da Morte, facilmente, aderiram ao mentiroso e assassino evangelho das famílias de sangue organizadas que mataram Jesus. Aclamaram os assassinos armados até aos dentes e ridicularizaram o assassinado desarmado. Reconheceram como seu "rei" César de Roma, os crucificadores, e vaiaram /cuspiram /escarraram /ridicularizarm o Crucificado por eles. E, ainda hoje, dois mil anos depois, o sonho maior que acalentam, é virem a integrar o reduzido círculo das famílias de sangue todo-poderosas. Ou, pelo menos, serem reconhecidos por elas.

 

10 Historicamente, Jesus perdeu a batalha. Não perdeu o Duelo Teológico Desarmado que continua, séculos adiante. Ainda hoje. E com que força! E com que actualidade! Nem que sejam as pedras a prossegui-lo, à falta de seres humanos, o Duelo Teológico Desarmado continua! Os Povos, por cuja vida ele arriscou e deu a sua própria vida, o mais que fizeram, e por influência do mentiroso e assassino evangelho do Império Crucificador de Jesus, foi irem a correr transformá-lo num deus morto. Prestam-lhe culto, não nos cemitérios, mas nos templos e nos santuários que são outros tantos covis de ladrões, casas de exploração e de difusão do mentiroso e assassino evangelho do Império Financeiro Global. De modo algum, os Povos, no seu todo, se mostram ainda dispostos a prosseguirem, hoje e aqui, as suas mesmas Práticas Maiêuticas e os seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados. São Povos atolados na Idolatria! Querem apenas que ele opere milagres a favor deles, lhes dê o que eles, preguiçosamente, não estão nada dispostos a conseguir com o trabalho das suas mãos. De Jesus, não querem mais nada. Para agravar a situação, até as Igrejas /Religiões insistem em dizer /ensinar que as Práticas de Jesus não foram Práticas Maiêuticas, mas apenas Práticas de bem-fazer, de benfeitor, milagreiras. Chegam ao cúmulo de dizer que Jesus, no seu afã de bem-fazer, até chegou a ressuscitar mortos, concretamente, o filho da viúva de Naím, a filha de Jairo e Lázaro de Betânia, sepultado há quatro dias, irmão de Maria e de Marta! Nem sequer vêem que se assim fosse, nunca Jesus teria sido Crucificado!

 

11 Desconhecem, e fazem tudo por desconhecer que, para Jesus, como para todas as pessoas que já nasceram do seu mesmo Sopro ou Espírito, o acto de Morrer é tão natural como o acto de Nascer. Por isso, nunca Jesus iria ocupar a reanimar cadáveres. Nem se ocupa a enterrar cadáveres. Deixa essa serviço a outros. Jesus sabe que ninguém de nós nasce para morrer. Todas, todos morremos para nascer /viver sempre. A Morte com que Jesus se preocupou e contra a qual se levantou até à morte, e morte na Cruz do Império, é a Morte que o Medo da Morte desencadeou e implantou no Planeta como assassínio. É o Hediondo. O Perverso. Mas o Medo da Morte organizado em Império Financeiro Mundial gerou um mentiroso e assassino evangelho que ensina /diz /prega /divulga /apresenta esse Hediondo, esse Perverso como coisa boa, heróica, necessária, numa palavra, justificada, justa. De modo que a Morte Matada, no dizer popular, passa de Hediondo a acto bom, sempre que é praticado pelo Império Financeiro Global e em sua defesa!

 

12 Mas até nem é tanto a Morte do corpo que é o Hediondo dos hediondos. O Hediondo dos hediondos é a Morte da alma, isto é, da Identidade de cada ser humano, de cada Povo. É o acto descriador do Humano em cada ser humano, em cada Povo. Esta Morte do Humano em cada ser humano, em cada Povo é que é o Horrendo dos horrendos, o Perverso dos perversos, o Crime dos crimes. E não é que, contra esta Morte, o Horrendo dos horrendos, nem as Religiões /Igrejas, nem as Universidades, nem os Filósofos, nem os Teólogos de renome, nem os grandes Meios de Comunicação Social, nem as Paróquias, nem os líderes das religiões, de todas elas, dizem uma única palavra? Não é que todos fazem de conta que ela nem sequer existe? E, afinal, foi apenas contra este tipo de Morte que Jesus verdadeiramente se insurgiu, lutou, desmascarou e por causa de o ter feito, com a Sabedoria com que o fez, com a Lucidez com que o fez, acabou crucificado e maldito. Para sempre!

 

13 Saibamos que até as narrativas de "ressurreições" de que nos falam os Evangelhos canónicos, é a este tipo de Morte que se referem. Exclusivamente. Não a reanimações de cadáveres! Saibamos, entretanto, que a Morte Crucificada de Jesus está aí, como espinho cravado na garganta do Império Financeiro Global. E ele acabará apodrecido e cairá, não sem antes fazer das dele, como hoje já está a fazer. Em seu lugar, está a erguer-se o Humano pleno e integral, a partir de cada ser humano que vem a este Mundo. A esta Acção Política, chama a Teologia de Jesus, a Salvação! Alegremo-nos, pois. E prossigamos sem descanso e na primeira linha as mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus e os seus Duelos Teológicos Desarmados! A Família de sangue pode esperar. E, se não quiser esperar, meta-se, ela também, a prosseguir essas mesmas Práticas Maiêuticas e esses mesmos Duelos Teológico Desarmados!

 

Capítulo 21

 

1 Ainda a família. Quando colocamos a nossa própria família em primeiro lugar, inclusive até à frente das Práticas Económicas, Políticas e Sociais Maiêuticas, as únicas que são geradoras de uma Humanidade outra e de uma Ordem Mundial outra, progressivamente Humanas, e à frente dos Duelos Teológicos Desarmados, sem os quais a Idolatria institucionalizada que, mentirosamente se faz passar por Deus, e sob a qual todas, todos, a começar pelas nossas filhas, pelos nossos filhos, um dia nascemos, continua aí a  fazer-se passar por verdadeiro Evangelho contra o Evangelho-Jesus, e, como tal, a descriar-nos, dia após dia, geração após geração, é sinal de que ainda estamos a milhas de integrarmos o número das poucas discípulas, dos poucos discípulos - aqueles dois ou três que se reúnem em seu nome - de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, o único Evangelho ou Boa Notícia que faz Humanos-humanos e sapientes-sapientes, os seres humanos e os Povos da Terra. Eu sei que esta minha afirmação só pode escandalizar. Mas quem de nós, se não for nem quiser ser rotundamente insensato, pode dizer que é uma afirmação exagerada? Ou uma afirmação errada?

 

2 A afirmação escandaliza-nos, porque, infelizmente, ainda somos, continuamos a ser e, o que é pior, continuamos a querer ser muito mais discípulas, discípulos do Ídolo dos ídolos que está na raiz do Ocidente e da chamada Civilização Cristã Ocidental, com tudo o que ele e ela têm do Evangelho do Império Romano, hoje, do Império Financeiro Global, o do Dinheiro Acumulado, Concentrado e Globalizado, esse mesmo que, à semelhança do fermento envenenado, tudo perverte, domina, influencia, corrompe, esteriliza, inclusive as Igrejas e as nossas mentes. E que nós, na nossa ingenuidade, na nossa demência-demência de seres humanos concebidos e nascidos dentro do Império Financeiro Global, filhas, filhos da Idolatria que temos como Deus verdadeiro ou como Ideologia salutar, sempre confundimos com o Evangelho de Jesus, sem sequer nos darmos conta de que foi, é, esse mesmo Império, então Romano, hoje Financeiro Global, que crucificou, crucifica Jesus na sua Cruz e, desse modo, tornou, torna para sempre Maldito não só a ele, mas também o seu Nome e, sobretudo, o EvangelhoVivo que Jesus é e que tem de ser anunciado /proclamado /praticado em todas as nações da Terra!

 

3 Saibam que cada uma, cada um de nós ainda não havíamos sido sequer concebidos e já o Evangelho do Império Financeiro Mundial, como um mítico Demónio, pronto a devorar-nos a alma, nos rodeava por todos os lados, nas pessoas da nossa mãe, do nosso pai, e dos seus familiares e amigas, amigos. Feliz, pois, aquela, aquele, cuja mãe, cujo pai, antes de nos conceberem, decidem ambos, nem que seja à revelia do resto da família, fazer-se pobres por opção livre e alegre e assim se mantêm, por toda a vida, por mais fortes e sedutoras que sejam as tentações, os aliciamentos do Tentador, o Ídolo dos ídolos, cujo Evangelho descriador do Humano é, continua a ser, ininterruptamente anunciado /propagandeado por todos os meios, qual deles o mais potente e eficaz. Quando então nos concebem, já estão resistentes ao vírus do Império Financeiro Global e do seu Evangelho descriador do Humano. Bendita mulher, bendito homem, bendito casal que assim se faz e assim se prepara para chamar uma filha, um filho à vida. Porque, então, o Evangelho-Jesus, apesar de ser olhado e oficialmente apresentado como Maldito, é o Evangelho que mais irá marcar já a concepção daquele novo ser humano. Tenho para mim que foi o que se passou comigo, com a minha concepção no ventre da minha mãe. O que é, porventura, a maior Graça que me foi, é dada!

 

4 Na Bíblia, a do Segundo Testamento, chama-se a uma concepção assim, uma concepção por obra e graça do Espírito Santo. E deixem que lhes diga que esta maneira de dizer está, literária e teologicamente, correcta. Quer dizer que se trata duma concepção que resulta, não do Ídolo dos ídolos, mas do Sopro Maiêutico ou libertador de DeusVivo, o único que actua na História ao jeito da parteira. Por isso, não de fora para dentro, como sempre faz o Sopro do Império e o seu Verbo, o seu Evangelho /Publicidade. Mas sempre e só de dentro para fora. Como tal, é o único Sopro que não oprime, não esmaga, não espolia, não rouba, não tira, não dita leis, não impõe, não julga, não condena à morte, não castiga, não tortura, não difama, não humilha, e, finalmente, não crucifica, como sempre faz - é o grande especialista na matéria - o Sopro do Império, hoje o Império Financeiro Global, o do Ídolo dos ídolos, que continua aí a fazer-se passar por Deus e, como tal, tem com ele toda a gente, todas as universidades, todos os professores, todas as instituições, todas as Igrejas, concretamente, todas as dioceses territoriais ou pessoais, todas as paróquias, todos os templos, todos os santuários, todos os bispos residenciais, todos os párocos, todos os pastores. É a ele, ao seu Império Financeiro Global e ao seu Evangelho, que elas, eles acatam, adoram, cultuam, reconhecem, deixam-se levar /fazer por ele. E, consequentemente, acham bem, muito bem, tudo o que ele faz, inclusive os seus mais nefandos crimes, cometidos em nome da "pátria", da "civilização", da "defesa da democracia", da "religião", da "Ordem", numa palavra, em defesa do "Institucional".

 

5 A família, quaisquer que sejam os modelos que ela hoje adopte ou vista, nas mais diversas culturas, costuma ser entendida e definida como a célula-base da Sociedade. Só que quem assim a entende é precisamente o Evangelho do Império Financeiro Global. Não é Jesus, o Evangelho Vivo que é todo o seu ser-agir-falar, concretamente, todas as suas Práticas Económicas, Políticas e Sociais Maiêuticas, sempre acompanhadas dos seus Duelos Teológicos Desarmados com os quais ele desmascara, a tempo e fora de tempo, o Império e as suas Instituições, o seu Ídolo dos ídolos e a Idolatria Organizada que, no seu conjunto, se faz passar por Deus verdadeiro e, desse modo, tem sob o seu jugo, sem qualquer sublevação, todos os Povos da Terra. Apenas as, os do Império Financeiro Global, do seu Ídolo dos ídolos e do seu Evangelho mentiroso e assassino dizem que a família está sempre primeiro. Porque todos eles o que pretendem são seres humanos e povos progressivamente descriados do Humano, desestruturados, sem espinha dorsal, sem Sabedoria, sem Graça; seres humanos e Povos que nunca cheguem à Liberdade, menos ainda, à Maioridade, e menos ainda, à Sororidade /Fraternidade Universal, numa palavra, uma única Família, constituída por muitos Povos, todos diferentes, todos iguais, em redor duma única Mesa, constituída por muitas mesas. Sabem bem que, no dia em que os seres humanos e os Povos da Terra forem plena e integralmente Humanos, autónomos, de olhos da mente bem abertos, de consciência crítica, sororais /fraternos, numa palavra, Humanos-humanos, o reino deles cai. E quantos vivem de toda essa Idolatria Organizada caem também com ele.

 

6 O ódio mortal e absoluto que nutrem a Jesus, o da História, vem daqui. Há uma incompatibilidade absoluta e total entre o Império Financeiro Global, o seu Ídolo dos ídolos e o seu Evangelho, e Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, Deus Vivo, o de Jesus, e o Evangelho vivo que o próprio Jesus é no seu ser-agir-falar, concretamente, nas suas Práticas Económicas, Políticas e Sociais Maiêuticas e nos seus Duelos Teológicos Desarmados. Sim. A incompatibilidade é absoluta e total. Não sabiam? Nem sequer os ateus? Mas assim é. A incompatibilidade é absoluta e total. Onde estiver um, nunca está, não pode estar o outro. Por isso, o Império Romano, contemporâneo de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, teve de acabar com Jesus. Na sua própria Cruz. Ele sabia, porque ocupava militarmente o pequeno país, que só a morte daquele Judeu, de nome Jesus, na sua própria Cruz, a do Império Romano, o constituía Maldito para sempre. Por outras palavras, declarava-o Não-existente para sempre. Excluído da História para sempre. Uma espécie de Não-concebido, Não-Gerado, Não-Nascido. Para tanto, juntou-se ao Templo de Jerusalém e aos sumos sacerdotes. E ao rei Herodes que, na ocasião, exercia o Poder Político na Judeia, embora como vassalo da Roma imperial e vigiado pelas legiões do Império, presentes e activas no pequeno país dos Judeus, então colónia romana. Os três inimigos figadais, que não se podiam ver entre si, uniram-se no mesmo objectivo de liquidar /irradiar /erradicar da História e da memória dos Povos Jesus e o Evangelho Vivo que é o seu ser-agir-falar. Para que só exista o Império, hoje o Império Financeiro Global, o seu Ídolo dos ídolos e o seu Evangelho de mentira e de assassínio.

 

7 No Império Financeiro Global, com o seu Ídolo dos ídolos, e o seu Evangelho de mentira e assassínio, as pessoas que fazem questão de dizer que a Família tem de estar sempre primeiro, inclusive, tem de estar à frente das Práticas Económicas, Políticas e Sociais Maiêuticas que visam criar uns seres humanos outros e uns Povos outros, alternativos aos criados pelo Império Financeiro Global, e à frente dos Duelos Teológicos Desarmados contra o Ídolo dos ídolos e o seu Evangelho de mentira e assassínio, que se fazem passar por Deus verdadeiro e têm com eles e ao seu serviço o Império Financeiro Global e tudo o que é Institucional, desde a Escola à Religião, desde o Poder Político ao Poder Religioso-Eclesiástico, só podem estar a falar de uma família ao jeito do Império, do seu Ídolo dos ídolos e do seu Evangelho de mentira e assassínio. Uma família concebida, não por obra e graça do Sopro de Jesus e do Evangelho Vivo que é o seu ser-agir-falar, mas apenas por obra e graça do Sopro do Império e do seu Evangelho descriador do Humano nos seres humanos e nos Povos.

 

8 Ora, esta é, sem dúvida, a família que mais convém ao Império Financeiro Global que hoje tudo domina e descria, quase sem que ninguém se lhe oponha no Planeta! E, infelizmente, tais são as famílias que hoje temos. Todas, umas mais, outras menos, existem aí para garantirem ao Império Financeiro Global, ao seu Ídolo dos ídolos e ao anúncio do seu Evangelho de mentira e assassínio os melhores cérebros e até a melhor carne para canhão de que eles necessitem. E também os sacerdotes e pastores, os ministros e deputados que difundam em todas as nações o seu Evangelho, a sua Ideologia /Idolatria, bem nos antípodas do Evangelho Vivo que é Jesus, o seu ser-agir-falar e o Reino ou Reinado de DeusVivo, em cuja edificação na História, ele gastou /consumou a sua curta vida, depressa assassinada, e em cuja edificação continua aí a trabalhar dia e noite, só que, desde então, de forma clandestina, invisível, mediante o seu mesmo Espírito.

 

9 Nesta Missão de Evangelizar os Pobres e os Povos, Jesus - hoje, o seu mesmo Espírito - conta com os poucos seres humanos que já não dizem como a esmagadora maioria dos outros ainda diz, que a família está, tem de estar sempre primeiro. Já se deram conta de que um tal falar-agir só pode ser fruto do Sopro envenenado do Império Financeiro Global, do seu Ídolo dos ídolos e do seu Evangelho mentiroso e assassino. O Espírito de Jesus conta com os poucos seres humanos que já não têm família. E, se ainda a têm, fazem como o próprio Jesus, o filho de Maria, que, mesmo dentro da família, subverteu tudo o que estava até então estabelecido, quando, sem que a voz lhe tremesse, anunciou o Evangelho outro, nos antípodas do Evangelho do Império Financeiro Global: "Procurai primeiro o Reino /Reinado de Deus [não o Reino /Reinado do Ídolo dos ídolos] e tudo o mais se vos dará por acréscimo" (cf. Mateus 6, 35).

 

10 Só ao agirem desta maneira, as mães, os pais podem dizer que amam verdadeiramente as filhas, os filhos. Porque, primeiro, entregam-se, dia e noite, às Práticas Económicas, Políticas e Sociais Maiêuticas que são geradoras do Reino /Reinado outro, o de DeusVivo, nos antípodas do Império Financeiro Global; e, ao mesmo tempo, entregam-se aos Duelos Teológicos Desarmados contra o Ídolo dos Ídolos e contra o Evangelho de Mentira e de Homicídio que ele está aí, dia e noite, a anunciar a todas as nações da Terra - chama-se Missão, a mesma de Jesus e na prossecução da dele, a um viver assim! - e, deste modo, é que essas mães, esses pais estão a proporcionar às suas filhas, aos seus filhos, um presente e um próximo futuro outro, de Justiça, de Riqueza Partilhada, de Mesas Comuns e Compartilhadas, de Sabedoria e de Graça, numa palavra, de Paz, não a paz do Império Financeiro Global, armada até aos dentes, mas a Paz que brota do beijo entre a Justiça e a Liberdade, sem nenhum lugar para a Idolatria!

 

11 Mães, pais assim, são raros. Sempre foram. Filhas, filhos que se orgulhem de mães, pais assim, ainda mais raros são. Mas são mães, pais assim, filhas, filhos assim que estão na peugada de Jesus, o filho de Maria, assassinado na Cruz do Império. Quando convidados para a Missão, sempre martirial, por isso, altamente arriscada, de aceitarem ser, hoje e aqui, século XXI e no Mundo do Império Financeiro Global, do seu ídolo dos ídolos e do seu Evangelho de mentira e assassínio, outros Jesus, não respondem como responderam os convidados para o grande banquete que certo homem da parábola contada pelos Evangelhos de Mateus e de Lucas ia dar(cf. Mateus 22, 1-14; Lucas 14, 15-24). Todos os convidados de eleição declinaram o convite. Um invocou como pretexto para não ir ao grande banquete, a compra de um terreno e precisava de ir vê-lo. Um segundo invocou como pretexto para não ir ao grande banquete, ter comprado cinco juntas de bois [hoje cinco tractores, ou cinco camiões de transporte de mercadorias] e precisava de ir experimentá-las. Finalmente, um terceiro (três, no Evangelho, indica uma totalidade, no caso, todos recusaram) invocou como pretexto para não ir ao grande banquete, esta coisa surpreendente: casei-me e por isso não posso ir.

 

12 São todos pretextos, objectivamente sérios, o último dos quais, é até a família acabada de constituir. Mas são todos pretextos que não absolvem quem os invocou ou invoca. Porque referem-se aos três pilares, ainda hoje, do Império Financeiro Global. Por isso mesmo, só podem ser invocados pelos do Império Financeiro Global, do seu Ídolo dos ídolos e do seu Evangelho de mentira e de assassínio. Porque pelas, pelos de Jesus, têm de ser todos desmascarados e derrubados. Jesus percebeu, com lágrimas, que as pessoas, mesmo as mais generosas, acabam por colocar a sua generosidade, o melhor delas próprias, ao serviço do seu próprio Inimigo Organizado, do Inimigo maior dos seres humanos e dos Povos, que é o Império Financeiro Global, o Dinheiro Acumulado e Concentrado. Quando, com essa sua generosidade e esse melhor delas, deveriam trabalhar para desmascarar o Inimigo e derrubá-lo.

 

13 Mas como, se o Inimigo lhes aparece travestido de Império Financeiro Global, de Ordem Mundial, de Deus, de Ideologia /Religião? É tudo Idolatria, é certo, mas ninguém o desmascara, ninguém o diz. Nem a Teologia! O Império Financeiro Global, o seu Ídolo dos ídolos e o seu Evangelho são Mentira e Assassínio organizados. São Idolatria Organizada. Trabalhar para eles é, pois, um Crime. Antes de mais, contra as próprias filhas, os próprios filhos. É trabalhar para engordar ainda mais, fortalecer ainda mais o Ídolo dos ídolos que nos devora a todos, os seres humanos e os povos, a começar pelas nossas filhas, pelos nossos filhos. Será que não vêem? Por este andar, nunca mais chegaremos ao Grande banquete para todos os Povos, sem discriminação /exclusão de nenhum, nem de nenhum ser humano!

 

14 Diz o Evangelho de João (cf. capítulo 7) que "nem sequer os seus irmãos criam nele". Aos olhos das irmãs, dos irmãos, Jesus é um fora de lei, um marginal, um louco, um parvo. Às opiniões das irmãs, dos irmãos, juntavam-se as das multidões: Uns diziam: É um homem de bem. Outros, porém, afirmavam: Não; o que ele anda é a desencaminhar o povo. Outros ainda: Tu tens o demónio! Outros perguntavam: Será ele o messias?. Até que - sublinha o Evangelho - a conversa "chegou aos ouvidos dos fariseus. Então, os sumos sacerdotes e os fariseus mandaram guardas para prenderem Jesus". Só que os guardas foram e, algum tempo depois, regressaram de mãos a abanar, como hoje se diz. Os sumos sacerdotes e os fariseus perguntaram aos guardas: "Porque é que não o trouxestes?". E os guardas responderam: "Nunca nenhum Homem falou como este Homem!" E, depois de acesa discussão, cada qual foi para sua casa. De modo que é assim: Ou as famílias se propõem como prioridade enfrentar /desmascarar /derrubar o Império Financeiro Global, o seu Ídolo dos ídolos e o Evangelho de Mentira e de Assassínio que o Império difunde dia e noite em todas as nações e com os mais potentes e mais sedutores meios e, assim, ajudam maieuticamente a tornar progressivamente Humanos as suas filhas, os seus filhos e o resto do Mundo, ou perdem-nas, perdem-nos para sempre e ao resto do Mundo. Porque o Império devora-lhes a alma, come-lhes os ossos, rouba-lhes o nome. E ainda acaba por destruir o Planeta. Quem tiver ouvidos para ouvir que oiça!

 

Capítulo 20

 

1 Família. Todas, todos nós nascemos de uma família mais ou menos estruturada. Dizem os psicólogos e os pediatras do Sistema financeiro global, hoje, cientificamente organizado e a trabalhar dia e noite sem descanso, sempre na tentativa de acabar de vez com o que ainda há de Humano nos seres humanos, que o ideal é nascermos de uma família bem estruturada, estabilizada. Têm em mente um certo ideal de família. Exactamente o modelo que podemos chamar de família aburguesada, onde nada falta às filhas, aos filhos, desde o momento da concepção até ao da morte. As filhas, os filhos, um, ou dois, três, no máximo, quando são concebidos, já têm "um berço de ouro" à sua espera, são acompanhados, durante a gestação pelos melhores especialistas em pediatria e, quando, um dia, os seus pais lhes faltarem, ficará no lugar deles uma avultada herança que, só por si, seria mais do que suficiente, para as filhas, os filhos viverem o resto da vida na abundância sem mais necessidade de trabalhar. Famílias assim são famílias tipo eucalipto que, para se afirmarem, têm de roubar /retirar aos demais o que lhes faz falta. E estão-se nas tintas para as filhas, os filhos dos outros que não têm sequer o mínimo indispensável para poderem ser-viver. Por isso pergunto: Famílias bem estruturadas, ou famílias-monstro?

 

2 A este tipo de família, quase me apetece contrapor, como modelo de família ideal, a família onde falta praticamente tudo, só não faltam os afectos. Não há dinheiro para pagar a especialistas em pediatria. A concepção acontece sem ter sido cientificamente programada, mas, logo que dá sinais de já ter acontecido, é uma festa na casinha dos seus pais onde falta quase tudo. Não que haja uma especial efusão de abraços e de beijos. Ou que os vizinhos sejam logo postos a par do acontecido. Nada disso. O quotidiano de um casal de pobres que recusam vir a ser ricos prossegue como até ali. Apenas com uma diferença substantiva, mas, porque é uma diferença essencial, é sempre invisível aos olhos de todos os vizinhos e colegas de trabalho de ambos: As suas entranhas de mãe e de pai, estremeceram /estremecem de emoção e de misteriosa alegria. Ambos percebem que a filha, o filho que Aconteceu - não sabem se é menina ou se é menino, nem é coisa que os preocupe - não é propriedade deles. É um dom, uma dádiva. E eles, a mãe e o pai que a, o conceberam na sua união maior de amor, sentem-se apenas como as suas parteiras. Hão-de ajudar a sua filha, o seu filho acabado de conceber, a formar-se no ventre de ambos, unidos como uma só carne, e não apenas no ventre da mãe. Até ao dia em que a filha, o filho seja dada, dado à luz, o mesmo é dizer, à Humanidade, ao Mundo.

 

3 A filha, o filho nascerá daí a uns nove meses, mais dia, menos dia, e encontrará à chegada uma mãe, um pai que têm muito afecto para lhe dar. Riqueza não têm, nem ambicionam vir a ter, nem querem ter, recusam ter, apenas o mínimo indispensável para que a filha, o filho se alimente e cresça, cada dia, um pouco mais, em Sabedoria e em Graça. Para isso, nada melhor do que os afectos, sem dúvida, o melhor leite, o melhor alimento. Tudo o mais pode faltar em casa. Mas nunca os afectos da mãe e do pai. E afectos ao jeito da parteira, não ao jeito do dono, do proprietário, que se apodera da sua cria. Afectos que libertam progressivamente a filha, o filho para a Liberdade /Maioridade. Porque uma filha, um filho, nunca é da mãe nem do pai. É um dom, uma dádiva à Humanidade e ao Mundo e, como tal, há-de ser educado /puxado, um dia após outro. As carências de muitas das coisas que o Sistema Financeiro Global inventou e propagandeia no seu Mercado, feito de muitos supers, no seu Templo, feito de muitos templos, e na sua Universidade, feita de muitas universidades, como absolutamente indispensáveis para o equilibrado desenvolvimento das crianças (não é com as crianças que o Sistema Financeiro Global está preocupado; é apenas com ele próprio, pois quer que os seus Lucros subam em flecha) não o chegam a ser. Pelo contrário, essas carências são Graça. É com elas que a filha, o filho se faz mulher, homem /mulher-com-os-demais-e-para-os-demais.

 

4 Heranças para as mães, os pais deixarem às suas filhas, aos seus filhos, são coisa que as mães, os pais que recusam ser ricos nunca terão para deixar. E nisso, são a mãe e o pai ideais. Essencial é que ambos puxem pelas filhas, pelos filhos, para que elas, eles, em lugar de crescerem rodeados de abundância de bens, na fartura de tudo, cresçam em Sabedoria e em Graça. E aqui não há escapatória: quando as mães, os pais tudo fazem para que as filhas, os filhos cresçam na abundância de tudo o que o Sistema Financeiro Global e os seus psicólogos e pediatras de serviço recomendam como importante, estão, inevitavelmente, a impedir que as filhas, os filhos cresçam em Sabedoria e em Graça. A Vida saudável e equilibradamente desenvolvida não depende da abundância desse tipo de bens, de coisas. Pelo contrário. Depende da carência desse tipo de bens, de coisas. No Vazio criado pela carência desse tipo de bens, de coisas, sempre supérfluos, supérfluas, é que as filhas, os filhos chegam a crescer em Sabedoria e em Graça. São filhas, filhos que nasceram e estão a crescer no Sistema Financeiro Global, mas não são dele. E o que as suas mães, os seus pais mais querem é que, por toda a vida delas, deles, nunca cheguem a ser dele. Pelo contrário, cresçam cada vez mais contra ele. Até serem visceralmente contra ele, olhado por elas, por eles, como o Inimigo maior dos Povos e do próprio Planeta.

 

5 Se há tempo histórico em que seja difícil ser-se mãe, pai assim, é neste nosso Século XXI, terceiro milénio adiante. A dificuldade resulta de, pela primeira vez na História, estarmos sob o jugo - e que jugo! - do Sistema Financeiro Global, cientificamente organizado, em que não só a Política, mas a própria Economia estão ambas sob o seu férreo jugo. Nunca antes havia acontecido. Até há pouco mais de 50 anos, tudo era muito artesanal, local. A Riqueza era patrimonial, estava aí bem à vista de todas, todos. Só que esse tempo já era. Não é mais. Hoje, vivemos no tempo do Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado, por aí totalmente à solta, sem que ninguém, fora do seu núcleo duro que ninguém sabe quem é, nem onde está, tenha mão nele. Os do Poder Político estão de cócoras diante dele. Vivem para a servir. Dia e noite. Ele é o Ídolo dos ídolos que se faz passar por Deus. Um Deus sádico, cruel, que exige vítimas humanas. Exige, inclusive, que as mães, os pais lhe entreguem as suas filhas, os seus filhos. E, antes de lhas, lhos entregarem, já as, os eduquem, desde o momento da concepção, de tal modo que elas, eles venham a integrar o exército dos privilegiados sabedores /doutores, se possível, venham a ser os melhores cérebros, para ele logo os adquirir /comprar por muitos milhões e colocar ao seu incondicional serviço. São, serão, as novas escravas, os novos escravos, cheios de Milhões, mas confrangedoramente esvaziados de afectos, de Causas, de Humano-Humano, de Entranhas de Humanidade, ídolos à imagem e semelhança do Ídolo dos ídolos que é ele próprio, o Senhor Dinheiro. Mulheres, homens é que não são.

 

6 No tempo do mais ou menos lendário Abraão bíblico, o Ídolo dos ídolos, que então se fazia passar por Deus, andava ainda associado às religiões, todas elas, via ou caminho para o Ídolo, por isso, todas elas via ou caminho para a Idolatria. A própria Bíblia Hebraica ou Antigo Testamento, no dizer das Igrejas cristãs, católica incluída, apresentam Abraão a ser tentado a imolar /sacrificar o seu filho único Isaac, ao Ídolo dos ídolos, o Baal /Dono lá do sítio que, como todos os ídolos, alimentam-se de gente e das filhas, dos filhos da gente, quanto mais escorreitos e mais capacitados melhor. O relato bíblico do Génesis que isto conta ao pormenor diz que Abraão preparou tudo para o sacrifício: a lenha, o cutelo, o fogo. Convida o filho Isaac a ir com ele ao Monte (os ídolos vivem sempre distantes dos Povos, não se misturam com os Povos; são seus donos, dão-lhes ordens através dos seus sacerdotes e outros intermediários, que os Povos têm de executar, sob pena de ameaças de pesados castigos e de maldições!). O filho Issac carrega o feixe da lenha para o sacrifício, mas estranha que se leve tudo para o alto do Monte, menos o animal que haveria de ser imolado /sacrificado. Chega a perguntar ao pai e obtém dele uma resposta evasiva, que equivale a uma não-resposta.

 

7 O surpreendente neste relato do Génesis, a boa notícia que nos é revelada /anunciada por meio dele, da letra com que ele se tece, é que, quando já estava tudo preparado para o sacrifício /imolação, e Abraão levanta o cutelo para sacrificar /matar o próprio filho amarrado sobre o feixe de lenha, inopinadamente, um anjo segura-lhe a mão e impede que ele cometa tão horrendo crime! O horrendo crime de filicídio! E, em substituição do filho, aponta-lhe um cordeiro para ser sacrificado /imolado. Nem o Nobel da Literatura 1998, José Saramago, é capaz de ver, mais de três mil anos depois, toda a Revolução Teológica contida neste relato bíblico. Porque é ateu, o que, até, nem é preocupante por aí além. Mas não é só ateu. É um ateu idólatra, isto é, é ateu do Deus das Religiões, mas, ao mesmo tempo, é um fanático adorador do Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro. Até um dos cérebros mais mundialmente conhecido que vive ao incondicional serviço do Sistema Financeiro Global, hoje cientificamente organizado e a trabalhar dia e noite sem parar. O Anjo, de que fala o relato bíblico é uma outra maneira de dizer DeusVivo, o Inominável, sem nunca o dizer, porque a DeusVivo, nós, os seres humanos, nem sequer lhe podemos pôr nome. E, quando lhe pomos um nome, já o convertemos num Ídolo! Ele é como o Vento. Não sabemos de onde vem, nem para onde vai. Acontece. PASSA (Páscoa) na História. Atravessa a História. É mais íntimo a nós que nós próprias, nós próprios. Sem que alguma vez possamos ter mão nEle. Não. Não está na nossa cabeça, como diz Saramago. É como o Relâmpago. Tão pouco faz parte do Sistema Financeiro Global. É, de resto, o seu mais feroz inimigo. Como tal, não tem nada a ver com as Religiões, todas elas via ou caminho de Idolatria.

 

8 Em Abraão e, nele, pai de um grande Povo que há-de incluir todos os Povos da Terra, pela primeira vez na História Humana, um ser Humano foi capaz de ver-sem-ver DeusVivo, Deus-outro, que não o Ídolo dos ídolos que sempre se tem feito passar por Deus. E este, como DeusVivo, Deus outro que é, destronou /destrona os deuses das religiões que, entretanto, não se conformaram e têm continuado aí, à revelia da Fé abraâmica, a roubar, matar e destruir o que há de Humano, nos seres humanos. Fazem deles gato-sapato. Deuses e deusas, qual deles, delas, o mais cruel! Basta ver o que todos os dias se passa em Fátima, o local português de maior Idolatria. E o que se passa em redor de outros santuários de renome. É a Humilhação Humana no seu pior! Mas não só. Temos de ver, igualmente, o que faz o Ídolo dos Ídolos, o Baal dos baals, o Dono dos donos, o Senhor dos senhores, que é, hoje mais ainda do que no passado, o Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Senhor Dinheiro e o seu Sistema Financeiro Global que até o nosso ateu Nobel da Literatura, Saramago, tão incansavelmente serve, mesmo na idade avançada em que já se encontra. Está a revelar-se um fanático adorador e um militante empenhado ao serviço do Senhor Dinheiro e do seu Sistema Financeiro Mundial, esse mesmo que, em 1998, não hesitou em atribuir-lhe o Nobel da Literatura. E Saramago, no seu ateísmo ídólatra, não hesitou em receber, metido até aos ossos naquelas pompa e circunstância todas, pura Hipocrisia!

 

9 Com Abraão acabaram - deveriam ter acabado - as Religiões, todas elas via ou caminho de Idolatria. Nasceu a Fé abraâmica, que vê o Invisível e escuta o Essencial, sempre invisível aos olhos das mentes ofuscadas pelo Ídolo dos ídolos, o Senhor Dinheiro, ou ainda as deusas, os deuses das Religiões mais ou menos agrárias do Passado que, como constamos hoje, entram pelo Século XXI dentro e pelo Terceiro Milénio além. Infelizmente, nem Saramago é capaz desta Fé. O Senhor Dinheiro e o seu Sistema Financeiro Global, tão cientificamente organizado, não o deixam dar este salto qualitativo, o único que nos faz, ou, pelo menos, nos coloca no caminho da Fé abraâmica que, se for percorrido até ao fim, nos torna integralmente Humanos. Teria de saltar fora desse Sistema e do culto que o Sistema Financeiro Global dia e noite rende ao Senhor Dinheiro. Teria de fazer o Êxodo da sua vida. Sair da sua ilha de Lanzarote, passar ao Deserto, erguer a sua tenda entre as vítimas do Senhor Dinheiro e do seu Sistema Financeiro Global. Em concreto, teria de realizar a proposta que Jesus, em seu tempo e país, fez a um homem que possuía muitos bens, para além do desejo de possuir muitos mais. Uma proposta que Jesus, então, formulou assim: "Falta-te uma coisa: Vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres e terás um tesouro no céu [= serás integralmente Humano, coisa absolutamente impossível dentro do Sistema Financeiro Global]; depois, vem e segue-me".

 

10 O Homem ouviu a proposta de Jesus que não tinha onde reclinar a cabeça, mas não foi capaz de a realizar, de a fazer sua. Não foi sequer como Abraão que não sacrificou /imolou /matou o filho. Retirou-se de junto de Jesus. Muito triste! Nestes nossos tempos, também Saramago e todos os ateus com ele preferem apostrofar contra o Deus das Religiões. E, nesse particular, fazem muito bem. Também eu apostrofo. Mas, entretanto, já não apostrofam o Deus Dinheiro Acumulado e Concentrado e continuam até a dar o melhor deles próprios, para que o Deus Dinheiro possa cada vez mais sacrificar /imolar /matar vítimas humanas aos milhões. E eles, não só não lhe fazem frente, como ainda lhe fazem chegar mais e mais vítimas. São ateus dos deuses e deusas das Religiões, mas já não são do Deus Dinheiro. Mais de três mil anos depois, ainda não são Abraão. Não vêem o que Abraão, há mais de três mil anos, chegou a ver. Depois de dizerem NÃO aos deuses /deusas das Religiões, precisam de dizer NÃO ao Deus Dinheiro. E isso eles não fazem. Pior: Nem querem fazer. Porque não querem ser pobres por toda a vida. Querem ser ricos e cada vez mais ricos por toda a vida. Para depois deixarem loucas Heranças aos filhos, filhas, ou outros herdeiros, cães que sejam. São homens, mulheres, mães, pais dentro do Sistema Financeiro Global, que não só trabalham para o Senhor Dinheiro até à exaustão, sem tempo para afectos e Causas, como ainda concebem, dão à luz e educam filhas, filhos para depois as, os entregarem de mão beijada e agradecida ao Senhor Dinheiro e ao seu intrinsecamente perverso Sistema Financeiro Mundial.

 

11 Famílias assim, pais e mães assim, são dementes-dementes, completamente vazios de Sabedoria e de Graça. Idólatras. Religiosas ou ateias, mas idólatras. Nos antípodas de Abraão e da sua Fé abraâmica, a primeira Fé anti-idolatria, na altura, ainda apenas anti-Idolatria das deusas e dos deuses - os Baals - das Religiões. E, infinitamente mais nos antípodas de Jesus, o Crucificado pelos das Religiões e pelos do Senhor Dinheiro, e da sua Fé jesuância anti-Idolatria, já não só em relação às deusas, aos deuses das Religiões, mas também e sobretudo, em relação ao Deus-Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Senhor Dinheiro, o único que todos os dias está aí a fabricar pobreza e pobres em massa, milhões e milhões de vítimas humanas. Já que está apostado /determinado a matar, duma vez por todas, o que resta ainda de Humano nos seres humanos, ou ele não fosse, como é, um Deus-Ídolo descriador do Humano, nos antípodas de Deus Criador, o de Jesus. Por isso é que Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, diz /grita: Ninguém pode servir a dois Senhores, nos antípodas um do outro: Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro! Insensato é quem, depois deste sábio alerta, continuar a pensar que pode. E decidir-se por servir o Senhor Dinheiro. Felizmente, a minha mãe e o meu pai conceberam-me, deram-me à luz e educaram-me para eu nunca trair os pobres, as vítimas das Religiões e, sobretudo, do Senhor Dinheiro. E eu aqui estou, feito fragilidade humana, Presbítero da Igreja do Porto, ao jeito da parteira, nunca por nunca ao jeito do Poder Religioso-Eclesiástico e dos Privilégios. E que feliz eu sou! Como Jesus, também eu digo: "Mas quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos? E percorrendo com o olhar as, os que estavam sentadas, sentados à sua volta, diz [eu digo com ele]: Aí estão a minha mãe e as minhas irmãs, os meus irmãos. Aquela, aquele que fizer a vontade de DeusVivo, essa, esse é minha irmã, meu irmão e minha mãe". Eis.

 

Capítulo 19

 

1 Dos intelectuais não-orgânicos, sabedores /doutores carregados de privilégios, com salários muitas vezes acima do salário mínimo, a viverem escandalosamente em mansões muralhadas, totalmente inacessíveis aos pés descalço, ou - desplante ainda maior! - até em ilhas privadas, só deles, os Pobres e os Povos da Terra têm sempre, mas sempre, de se acautelar. Como já se acautelam das serpentes portadoras de veneno mortal. Intelectuais assim não são nunca de fiar. São seres sem entranhas de ternura e de humanidade. Cruéis. Sádicos. Vingativos. Ou, na linguagem bíblica do mito Caim e Abel, são Caim. Sempre matam os seus irmãos. Não que eles andem por aí aos tiros. Mas porque o seu Saber e o seu Viver são peças-chave do perverso Sistema Financeiro Mundial, que tem no Dinheiro Acumulado e Concentrado, ou Grande Capital, o seu deus, melhor, o seu Ídolo de estimação. Aliás, só por isso é que alguns deles são prémios Nobel disto e daquilo, concedidos pela Academia sueca dos ditos, prémios que incluem astronómicas somas de Dinheiro Assassino, entregue em mão aos laureados, no decurso de sessões anuais muito badaladas nos grandes media, todas elas a abarrotarem de pompa e de circunstância, uma palhaçada de luxo, com fraques e tudo, destinadas a desviar a atenção dos Pobres e dos Povos da Terra dos cruéis quotidianos em que uns e outros foram /são condenados a ter de viver, um dia após outro, por toda a vida.

 

2 Em verdade, em verdade vos digo: Os intelectuais não-orgânicos não são de fiar. Nunca são /serão de fiar. Todos eles, indistintamente. Do maior ao mais pequeno. Digam-se eles publicamente ateus ou crentes. Agnósticos ou religiosos. Todos são cruéis e assassinos. Todos são Caim. Todos matam Abel. Por outras palavras, todos contribuem, com o seu Saber Ilustrado, para roubar, matar e destruir os Pobres e os Povos da Terra. Ou o Saber, todo o Saber Ilustrado, quando recusa converter-se em Sabedoria, não seja, de sua natureza, mentiroso e assassino. É. Sempre é. Escandalizamo-nos com esta afirmação? Percamos a Ingenuidade. Saibamos, duma vez por todas, que o Grande Capital, ou o Dinheiro Acumulado e Concentrado, e o seu Sistema Financeiro Mundial sempre dizem: Quem não é contra nós, já é por nós. E, se calha de haver alguns intelectuais não-orgânicos entre os demais intelectuais não-orgânicos, que, nos seus discursos /escritos, até se nos apresentam como abertamente anti-capitalistas, anti-Mercado Global, saibamos que nem  mesmo esses são de fiar. São, porventura, até os mais perigosos dos intelectuais não-orgânicos. Porque, com tais discursos /escritos, são capazes de enganar a muitas, muitos, que olham apenas para o que eles dizem /escrevem, não olham para o que eles fazem, muito menos para o seu quotidiano, isto é, para o como eles vivem.

 

3 "Abel", neste nosso século XXI e início do Terceiro Milénio, são todos os Pobres em massa e todos os Povos da Terra condenados a terem de viver, todos os dias, abaixo do limiar da pobreza. Uma pobreza estrutural, imposta, produzida pelo Sistema Financeiro Mundial que está aí só para continuar a garantir longa vida assassina /genocida ao Dinheiro Acumulado e Concentrado. Um objectivo só alcançável, se esse mesmo Sistema Financeiro Mundial tiver um exército de intelectuais que recusem ser intelectuais orgânicos. E que, em vez disso, se coloquem e a todo o seu Saber, isto é, coloquem tudo o que concebem /pensam /dizem /escrevem /fazem ao serviço do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Tais são as mulheres, os homens do Saber ilustrado. Não são mulheres, homens da Sabedoria.

 

4 O Sistema Financeiro Mundial que existe para garantir longa vida ao Dinheiro Acumulado e Concentrado não olha a meios para obter os seus fins. E paga o que for preciso aos intelectuais não-orgânicos - hoje, a esmagadora maioria dos intelectuais - para que eles se disponibilizem para servirem incondicionalmente o Dinheiro Acumulado e Concentrado, o deus-Ídolo maior, o único que diz aos seus crentes, aos seus fiéis: "Vês tudo isto, toda esta riqueza /grandeza /opulência? Tudo eu te darei, se tu, prostrado, me adorares". E os intelectuais, seduzidos - e, depois, ainda têm o desplante de virem dizer aos Pobres e aos Povos da Terra que são ateus; idólatras, e dos piores, é o que todos eles são! - logo respondem, sem hesitar: "Eis-me aqui. Por ti, para te servir, deixarei tudo: a família, os afectos, os amigos, a vida-com-sentido, a alma, a própria identidade."

 

5 O Dinheiro Acumulado e Concentrado logo investe neles, para que eles se tornem peritos, os melhores e os maiores, nos diversos ramos do Saber Ilustrado. E eles tornam-se, então, Sabedores /doutores como nenhuns outros. São progressivamente colocados nos postos-chave do Sistema Financeiro Mundial. E os que mais se distinguirem em dedicação, entrega e eficácia, acabarão a liderar o Sistema. E não é que há sempre por aí uns quantos filhos da Puta (atenção, utilizo aqui o termo em sentido teológico, não em tom brejeiro e rasca, como é frequente ouvir-se por aí, mesmo entre os intelectuais não-orgânicos); uns quantos filhos do deus-Ídolo Dinheiro Acumulado /Concentrado, que dão o melhor de si ao serviço do Sistema Financeiro Mundial?! Aos do topo do Sistema Financeiro Mundial, ninguém os conhece. Nunca se vêem por aí. E, se, alguma vez, andarem por aí, será sempre sob falsas identidades e em falsas funções.

 

6 São deuses, por uns tempos, por uns meses ou anos, ainda que se confessem ateus /agnósticos, ou crentes /religiosos. Negam Deus, pela simples razão de que só eles são deus. Mesmo assim, um deus menor, porque o maior é sempre e só o Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Grande Capital. Pensam-se deuses. Na verdade, são ídolos. Pequenos ídolos com pés de barro. E, como todos os ídolos animados, não passam de máquinas de produção de Dinheiro Acumulado e Concentrado que os come, primeiro, a eles, e, depois, ou ao mesmo tempo, come os Pobres em massa e os Povos da Terra que, por isso, são cada vez mais Pobres e cada vez mais Povos oprimidos, empobrecidos, tolhidos, desesperados, sem voz nem vez. E tudo isto os intelectuais não-orgânicos fazem, sem quaisquer escrúpulos, precisamente, porque são intelectuais não-orgânicos, o mesmo é dizer, intelectuais insensíveis, cruéis, cínicos, assassinos. Numa palavra, são Caim. Exactamente, como as máquinas, os robots que eles concebem /fabricam/ exportam.

 

7 "Naquele mesmo instante, Jesus estremeceu de alegria, sob a acção do Espírito Santo, e disse: Bendigo-Te, ó Pai, Senhor do Céu e da Terra, porque escondeste estas coisas aos sabedores /doutores e as revelaste aos pequeninos. Sim, Pai, porque assim foi do teu agrado. Tudo me foi entregue por meu Pai; e ninguém conhece quem é o Filho senão o Pai, nem quem é o Pai, senão o Filho e aquele a quem o Filho houver por bem revelar-lho". As palavras, emocionadíssimas palavras, vêm no Evangelho de Lucas 10, 21-22. Os setenta (e dois) haviam chegado da Missão e viram como até as Ideologias e as Idolatrias mais fanáticas e mais mentirosas e assassinas perdiam terreno, na consciência dos Pobres e dos Povos da Terra. Nomeadamente, as Ideologias e as Idolatrias do Dinheiro Acumulado e Concentrado ou Grande Capital, e do Sistema Financeiro Mundial, então, chamado Império Romano. E também do Sistema Religioso Mundial, representado então no Templo de Jerusalém. Os setenta (e dois) haviam ido em Missão Maiêutica. Não em missão religiosa, nem em missão de Poder, nem em missão ideológica. Numa palavra, haviam ido em Missão Maiêutica, não em missão Idolátrica! Nada de caridadezinhas. Nada de ameaças. Nada de anúncios de Terror e de Horrores. Nada de anúncios de castigos. Nada de manifestações de Poder que sempre deixa os Pobres e os Povos da Terra ainda mais e mais tolhidos.

 

8 Quando regressam, tempos depois, contam a Jesus o que havia acontecido. E Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, por isso, nos antípodas dos Sabedores /doutores ou grandes e pequenos intelectuais não-orgânicos, crentes ou ateus, agnósticos ou religiosos, tanto faz, vê-os chegar e escuta, emocionado, os seus testemunhos. Os Setenta (e dois) não eram do número dos privilegiados Sabedores /doutores. Tão pouco faziam parte do chamado Povo eleito, escolhido, preferido de Deus. A sua origem étnica era dos Povos da Terra, dos Pagãos, por isso, "impuros" perante a Lei de Moisés. Não eram peritos nas coisas da Lei de Moisés, não frequentavam assiduamente o Templo, onde a sua entrada era até proibida pelos sacerdotes e fariseus, nem sequer frequentavam a Sinagoga. Eram "impuros", "hereges", o mesmo é dizer, do número dos Excluídos, dos Sem-Nome na praça, dos Desprezados pelos Sabedores /doutores /teólogos /intelectuais não-orgânicos das mais afamadas Universidades de ontem e de hoje, em cujos corredores e em cujas cátedras todos eles apodrecem, um ano após outro, sem nunca terem quaisquer contactos orgânicos-maiêuticos com os Pobres e os Povos da Terra, tidos /olhados /tratados por eles como Mal-Cheirosos, Malditos, Analfabetos, Pés Descalço, Prostitutas, Bêbedos, Drogados, Sem-Terra, Sem-Tecto, Sem-Família, numa palavra, uns Ninguém.

 

9 Ao constatar que a Missão Maiêutica, Fragilizada, opcionalmente pobre, sem quaisquer meios sofisticados, vestida apenas de muitos Afectos e de Ternura, de Abraços e de Beijos, de gestos /atitudes /práticas acolhedoras e libertadoras, de Mesas Compartilhadas, cheias de Sabedoria e Graça, e de Duelos Teológicos Desarmados contra o Ídolo /a Idolatria camuflada e institucionalizada, conseguiu fazer de alguns dos Pobres e dos Povos da Terra, seres humanos em estado de Liberdade e de Maioridade, sem mais necessidade de intermediários de qualquer espécie, senhores dos seus próprios destinos e, por isso, Dádivas vivas uns para os outros e até para os, à primeira vista, estranhos, Jesus, o camponês-carpinteiro de Nazaré, terra de má fama, e o filho de Maria, o mesmo é dizer, um Ninguém aos olhos dos seus próprios vizinhos, mas o Ser Humano integralmente habitado e guiado pelo Espírito Santo, isto é, pelo Sopro Maiêutico, fonte de Sabedoria e de Graça, nos antípodas do Sopro do Sistema Financeiro Mundial e do Dinheiro Acumulado e Concentrado, com que andam habitualmente habitados /guiados os Sabedores /doutores, todos os intelectuais não-orgânicos, ateus ou crentes, agnósticos ou religiosos, tanto faz, estremece de alegria, e irrompe num espantoso Poema Teológico anti-Idolátrico de Louvor e de Sabedoria, que só mesmo os pobres que o são por opção e por toda a vida, são capazes, alguma vez, de escutar /cantar /dizer /viver.

 

10 À beira deste Canto-Poema Teológico, objectivamente anti-Nobel da Literatura, porque todo ele atravessado pelo Sopro Outro que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, mas sempre se faz sentir como o vento, ora brisa, ora tornado, Sopro Outro Maiêutico /Libertador, nos antípodas do sopro castrador e assassino do Império, hoje, o Sistema Financeiro Mundial que existe e está aí de pedra e cal para garantir longa vida ao Grande Capital ou Dinheiro Acumulado e Concentrado que sempre enche de privilégios os sabedores /doutores, todos os intelectuais não-orgânicos, ateus ou crentes, agnósticos ou religiosos, que se colocam incondicionalmente ao seu serviço, nas funções para as quais são nomeados ou escolhidos pelos do topo do Sistema Financeiro Mundial, ou pelos seus fiéis alter-ego, os poemas e toda a literatura do Mundo que é achada digna de ser laureada com o Nobel atribuído pela respectiva Academia sueca, não passam, na sua ilustrada erudição, de esterco. E porquê?

 

11 Porque, ao contrário deste Canto-Poema Teológico de Jesus, os poemas e toda a Literatura /Arte do Mundo andam, geralmente, atravessados do sopro do Império, do Sistema Financeiro Mundial e, como ele, apenas contribuem para ajudar a empobrecer ainda mais os Pobres em massa e a manter ainda mais oprimidos /tolhidos /ignorantes /ostracizados /dependentes /sem voz-e-sem vez os Povos da Terra. O que perfaz um Crime de lesa-Humanidade, se mais não for, por conivência, por cumplicidade, por omissão. E isto, deixem-me que lhes diga: nem o papa chefe de estado do Vaticano, nem Saramago, Nobel da Literatura 1998, nem Obama, Nobel da Paz 2009, são capazes de ver, ainda que se tenham na conta e sejam tidos na conta, até pelos próprios Pobres e pelos próprio Povos da Terra, suas vítimas, como os mais sabidos de todos. São cegos que guiam /produzem outros cegos, mediante os inúmeros intelectuais não-orgânicos que, ingenuamente, ou habilmente, integram o Sistema Financeiro Mundial e colocaram todo o seu Saber, todo o seu Ser, todo o seu Ateísmo /Agnosticismo ou toda a sua Fé Religiosa-Idolátrica (é uma fé nos antípodas da Fé Maiêutica de Jesus!) ao incondicional serviço do Ídolo-Dinheiro Acumulado e Concentrado.

 

12 Não contem comigo, para esse peditório. É por Jesus e pelo seu Espírito que vou, tento ir todos os dias, como aprendiz de discípulo dele. E quem mais quiser ir por Jesus e pelo seu Espírito, saiba que a primeira coisa que tem a fazer, ateu, agnóstico ou religioso que se diga, é mudar de Deus e, depois, ou ao mesmo tempo, fazer-se pobre por opção e por toda a vida! A Sabedoria é por aqui que navega. O Saber dos Sabedores /doutores, pelo contrário, sempre diz /ensina que a primeira coisa que alguém tem a fazer é fazer seu o Ídolo-Dinheiro Acumulado e Concentrado, tornar-se um dos quadros /funcionários do Sistema Financeiro Mundial, cada vez mais reconhecido por ele e, depois, ou ao mesmo tempo, tornar-se cada vez mais rico por opção e por toda a vida. Estes que assim procedem são Caim. Aquelas, aqueles que vão por Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, são Abel. Escolher é preciso. Imperioso. Urgente! Escolhamos.

 

Capítulo 18

 

1 "O insensato diz no seu coração: Não há Deus!" Esta afirmação, manifestamente controversa, abre o Salmo 14 da Bíblia Hebraica, hoje, dita judeo-cristã-católica. É controversa esta afirmação, porque não diz de que Deus se trata. Ora, sempre que falamos de Deus, para o afirmarmos, ou para o negarmos, já somos insensatos, se não começarmos por esclarecer de que Deus é que falamos /afirmamos /negamos. Deus, sem mais, pode muito bem ser um ídolo. Um grande ídolo, que se faz passar por Deus e que certos interesses instalados e organizados há centenas, milhares de anos, continuam aí empenhados em fazer passar por Deus. É por isso insensato ou sem juízo, dizer /escrever sem mais, como faz o autor ou autores do Salmo 14, logo a abrir: "O insensato diz no seu coração: Não há Deus!". Porque se o substantivo "Deus" esconder, sob toda a solenidade e toda a sonoridade do conceito, um Ídolo, insensato é dizer que é insensato quem faz uma tal afirmação. Porque, se, por baixo do substantivo "Deus", anda escondido um Ídolo, quem faz aquela afirmação não é nada insensato, mas uma mulher sábia, um homem sábio. É um ser humano sensato. Vive carregado de bom senso. De juízo. Numa palavra, de Sabedoria.

 

2 Insensato é também o ateu, mulher ou homem, que afirma no seu coração, ou boca fora, em sessões públicas e muito concorridas, ou menos públicas e pouco concorridas: "Não há Deus!". Ou: "Deus não existe". Ou: "Deus é pura invenção dos seres humanos". Primeiro, o que se diz ateu deveria esclarecer de que Deus é que está a dizer-se ateu; de que Deus é que diz, assim com tamanha certeza, que ele não existe. Porque se não for de um Ídolo que se faz passar por Deus e que os grandes interesses instalados e organizados há centenas, milhares de anos, fazem passar por Deus, quem faz essa afirmação é, no mínimo, temerário, um insensato, alguém que, manifestamente, é órfão, vive todos os dias na orfandade. Em toda a sua arrogância e insensatez, carrega dentro de si um vazio que o torna cruel e sádico, porventura, sob a roupagem de Ilustrado, mas cruel e sádico, sem entranhas de Humanidade, cego e demente-demente, já que, nessa sua arrogância, todos os dias, filtra mosquitos e engole camelos. Vive mergulhado na mais densa Treva, por mais que esta se mascare de Ilustração. É de Amargura o seu quotidiano viver, a mais envenenada e envenenadora Amargura, que torna sem Graça e sem Festa o seu viver e, por arrastamento, o viver de muitos outros seres humanos deste nosso Planeta Terra.

 

3 É por ter consciência destas coisas que têm a ver com a Teologia feita de Sabedoria, à qual os sabedores /doutores deste Mundo ou desta perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado não têm acesso, nem nunca podem ter, pelo menos, enquanto se não fizerem pobres por opção, condição sine qua non para se tornarem irmãs, irmãos universais, a partir das vítimas humanas - hoje, milhares de milhões em todo o Planeta Terra - que eu próprio, enquanto presbítero da Igreja do Porto, chamado e marcado pelo Espírito ou Sopro de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, à martirial Missão de Evangelizar os Pobres e os Povos, oportuna e inoportunamente, me senti, ainda recentemente, no dever de meter mãos ao trabalho de reescrever os Salmos da Bíblia, numa versão para o nosso século XXI. Para já, apenas reescrevi e editei em livro os primeiros 50 Salmos. Eles são 150, no total. Não sei se alguma vez conseguirei reescrever os outros 100. Mesmo que não consiga, o livrinho já editado vale como Sinal e, na sua simplicidade, aponta por onde, como Humanidade, haveremos de ir, se quisermos crescer em Sabedoria e em Graça, até nos tornarmos, terceiro milénio além, outras, outros Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana e Crucificada, sem dúvida, o que de mais difícil se pode pedir a alguém, esperar de alguém humano, a vivermos dentro desta perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado.

 

4 "Os poderosos do mundo como Bush e Blair, neste início do século XXI e os donos das multinacionais [e os intelectuais ao seu serviço] dizem no seu íntimo: não há Deus!". É deste modo que abre o mesmo Salmo 14 nesta versão Século XXI. Diz, depois, mais abaixo, o mesmo Salmo nesta versão: "A quem lhes resiste e não acata as suas ordens, [os poderosos do Mundo] apelidam de ateus e terroristas; e mandam-nos executar no decurso de sumaríssimos processos". E logo adianta, com espanto: "Um dia caiu-lhes [aos poderosos do Mundo] nas mãos um Homem que lhes disse sem que a voz lhe tremesse que tinha nascido e vindo ao Mundo para dar testemunho da Verdade". E que aconteceu a esse Homem? Aconteceu o que sempre acontece, quando a Sabedoria se faz Fragilidade Humana e Crucificada, bem nos antípodas da arrogância e do cinismo dos Sabedores /doutores, ingenuamente ou vilmente, ao serviço dos poderosos do Mundo: "[Os poderosos do Mundo] perderam o sono nessa noite e logo se puseram de acordo em dar-lhe a morte".

 

5 A decisão [dos poderosos do Mundo] foi pouco tempo depois concretizada e o Homem em causa, que recusou ser poderoso ou simplesmente colocar-se ao vil serviço dos poderosos de turno, "foi crucificado e tudo foi consumado". "Não sem antes" - adverte o Salmo 14 reescrito para o Século XXI - os mesmos poderosos exigirem "que os reverendos pastores e os sacerdotes dissessem da sua justiça sobre esse Homem. E todos eles concluíram que a sua morte na cruz daria glória a Deus." Mas não foi só isto que os poderosos fizeram, já que os poderosos do Mundo sabem muito bem o que fazem e fazem muito bem (não ao calha!) tudo o que fazem. "O povo subjugado por todos eles foi também chamado a pronunciar-se e, a uma só voz, gritou: Á morte! À morte!". E o Homem foi crucificado. Ora, com tudo assim definitivamente consumado, como é que reagiram /reagem os poderosos do Mundo? "Deus não existe!, voltaram a repetir no seu íntimo e ainda com mais convicção os poderosos do Mundo e os donos das multinacionais [e os intelectuais ao seu serviço]".

 

6 "E a prova - prossegue o Salmo 14 reescrito para o Século XXI - é que [os poderosos do Mundo] continuam aí a comer os pobres como quem come pão, numa anti-Eucaristia com tudo de satânico e de inumano". O Salmo 14, reescrito para o Século XXI, conclui, com uma proclamação de todo inaudita e de todo desafiadora aos ouvidos do coração de toda e qualquer mulher, de todo e qualquer homem, de todo e qualquer Povo da Terra: "Foi então que Tu com o Teu Sopro me formaste no ventre da minha mãe e me fizeste nascer e vir ao Mundo para continuar a dar testemunho da Verdade. E eu aqui estou como um menino." Sem que nada o fizesse esperar, como sempre acontece quando um ladrão nos entra em casa ou no estabelecimento e nos aponta uma arma carregada à cabeça, no Salmo 14 reescrito para o Século XXI, aparece /apresenta-se um "Tu" maiúsculo com o seu "Sopro", igualmente maiúsculo. O inaudito Acontecimento, que é a presença de semelhante Tu com o seu Sopro sempre invisível aos olhos e inaudível aos ouvidos, apenas visível e audível ao Coração, nunca é programado. Sempre se apresenta como pura Graça que espera ser acolhido. Quer isto dizer que não faz parte do Mundo dos poderosos. Vem sempre de fora de todos os seus Sistemas, de todas as suas Instituições, religiosas-eclesiásticas que elas se digam, de todas as suas Ideologias, até de todas as suas Teologias. Vem da banda das Vítimas dos poderosos, dos seus perversos Sistemas, das suas Instituições, religiosas-eclesiásticas que se digam, das suas Ideologias, e até das suas Teologias.

 

7 É um Tu, um Sopro outro, que põe a nu todo o Perverso Organizado que é a presente Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado e, sobretudo, o Ídolo disfarçado de Deus que o justifica e o impõe aos Povos da Terra e, deste modo, lhe garante plena e indiscutível legitimidade perante eles, ao ponto de só o Perverso Organizado e o seu Ídolo, mai-los seus fiéis servidores laicos ou religiosos, serem tidos e achados, terem voz e vez, terem legitimidade sobre a toda a Terra e sobre todos os seus Povos, quaisquer que sejam os seus actos, os seus crimes, já que tudo, à partida, está justificado pelo Ídolo que a tudo preside e é invocado como Deus, o único Deus com culto público e solene nos templos e nos santuários, nas basílicas e nas catedrais. É um Tu, um Sopro que, como facilmente se compreende, não tem Lugar dentro do Perverso Organizado que é esta nossa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado. E, sempre que esse Tu Acontece aqui e ali, e ganha visibilidade nesta ou naquela Mulher, neste ou naquele Homem, nesta ou naquela Acção Maiêutica Conspirativa /Subversiva, logo é perseguido de morte. No Perverso Organizado, legitimado pelo respectivo Ídolo, este Tu, este Sopro, que vem da banda das vítimas, não tem Lugar. O sinal de que é realmente o Tu maiúsculo, o Sopro maiúsculo, é que Ele, dentro desta perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado, sempre se apresenta sob a forma de Fragilidade Humana e Crucificada. De modo que os do Perverso Organizado, se quiserem acolhê-lo e chegarem a ser seus interlocutores, têm de fazer o êxodo (= sair de vez) do Perverso Organizado e passar (PÁSCOA) a viver todos os dias em Deserto, um viver feito de Práticas Maiêuticas e de Duelos Teológicos Desarmados, até reduzirem a Nada o Ídolo que o legitima. Por outras palavras, têm de fazer-se Pobres por opção. Política Praticada sem nenhuma espécie de Poder e Privilégio. Sabedoria, vivida como Fragilidade Humana Crucificada, nos antípodas do Saber dos sabedores /doutores.

 

8 Pode parecer impossível esta Revolução vir a Acontecer algum dia. Mas a verdade é que ela já está a Acontecer na História. E até já a vimos, paradigmaticamente concretizada na História, em Jesus, o carpinteiro de Nazaré, o filho de Maria, nomeadamente, nas suas Práticas Maiêuticas e nos seus Duelos Teológicos desarmados. O Momento Maior deste Acontecimento Paradigmático, o seu clímax, foi na Cruz do Império, primeiro, naquele grito-pergunta sem resposta do próprio Jesus Crucificado, "Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?", e depois, ou simultaneamente, naquele eloquente Silêncio/ Revelação e naquele acolhedor Abandono /Colo de Abbá /Mãe-Pai que toma partido e reconhece como o seu Filho muito Amado o Homem Crucificado, não o Império Crucificador, como sempre faz o Ídolo dos ídolos. Sem dúvida, este é o Momento Maior da História da Humanidade e de DeusVivo-com-ela. É o Alfa e Ómega da História que nos fez /faz /fará Acontecer a todas, todos nós como seres humanos, concebidos por obra e Graça desse mesmo Sopro ou Espírito. Só por isso é que somos um Eu-em-relação-com-o-Tu, nossa Mãe /nosso Pai comum, e podemos dizer, como Jesus e com Jesus, Eu Sou. Só mesmo o Tu, o seu Sopro, é que nos faz ser um Eu, ao ponto de podermos dizer Eu Sou!

 

9 Acontecemos todas, todos, por pura Graça no decurso da Evolução. E só porque Acontecemos por pura Graça, é que podemos dizer Eu Sou. Os próprios ateus podem dizer "Eu sou ateu", porque um dia, no útero materno, Aconteceram, por pura Graça, como seres humanos, este ser humano concreto, único e irrepetível, que cada um de nós, mulher ou homem, é. Ninguém de nós se fez. Ninguém de nós conhece a Mãe/o Pai, o Mistério ou o Tu que nos gerou, nos fez Acontecer, por pura Graça, na História, no decurso da Evolução, como um concreto Eu Sou, único e irrepetível. Podemos imaginar /criar deuses, deusas. A Demência-demência que anda em nós, seres humanos ainda em fase de Criação na História, a isso nos leva. Todas essas deusas, todos esses deuses são ídolos, imagens, mais ou menos toscas, do Ídolo dos ídolos criado pelo Perverso Organizado que é esta Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Mas nós, cada uma, cada um de nós é um concreto Eu Sou, gerado /criado pelo Mistério /Tu, pelo único Sopro que não é o sopro do Perverso Organizado, mentiroso e assassino, pai de Mentira, por isso, fabricador de vítimas humanas em série e em massa, concretamente de pobres e de pobreza em massa.

 

10 Inclusive, o nosso José Saramago, o Ateu português e europeu mais conhecido e mais lido do Mundo, devido a ter sido laureado com o Nobel da Literatura 1998 pela mesma Academia que laureou o presidente Obama, indiscutivelmente, o chefe da Administração imperial mais assassina e mais exploradora do Mundo, com o Nobel da Paz 2009 - a vergonha das vergonhas, a Demência das demências! - para, um dia, ter chegado a ser, no decurso da Evolução, o Eu Sou concreto, que hoje ele é, já com muitos anos de vida, teve, também ele, de ser concebido no ventre da sua mãe, por obra e graça do Sopro ou Espírito outro (= santo), o Sopro desse Tu que nunca ninguém viu nem verá, e que não faz parte do Perverso Organizado que é esta Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado, nem tem nada em comum com o seu Ídolo, obra, um e outro, das nossas mentes dementes-dementes e das nossas mãos assassinas, cainitas, que, enquanto assim permanecermos, mais não fazemos do que roubarmo-nos uns aos outros, matarmo-nos uns aos outros e destruirmo-nos uns aos outros e ao Planeta. Em vez de sermos Dádivas-vivas uns com os outros, e uns para os outros.

 

11 É por isso que o Ateísmo de Saramago, assim como a Fé religiosa do presidente Obama, coincidem ambos num ponto: o Deus que o Ateísmo de Saramago nega e que a Fé religiosa do presidente Obama reconhece /adora é o mesmo Ídolo, pior, o Ídolo dos ídolos. Ao negá-lo, sem nunca chegar a abrir-se a DeusVivo, o de Jesus, que está com os Crucificados da História, lhes dá razão e os reconhece como seus filhos muito amados, contra o Império e o seu Ídolo dos ídolos que fabrica os crucificados, Saramago é, hoje, na sua ilha de Lanzarote, o Lázaro mais público e notório da parábola teológica do Evangelho de João (cf. capítulo 11), morto e sepultado, há quatro dias, isto é, inequivocamente morto, e atado de mãos e de pés, com uma venda nos olhos da Mente, cujo hálito /sopro /ideologia envenenado está a envenenar os Povos, a começar pelas inúmeras vítimas desta nossa perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado /Concentrado, a mesma que o distinguiu com o Nobel da Literatura 1998, tal como distinguiu o presidente Obama com o Nobel da Paz 2009 e que, funcionalmente, é, neste final da primeira década do Século XXI, o assassino número um do Mundo. De Ateísmos assim como o do Saramago e de Fés religiosas assim, como a do presidente Obama, o Ídolo dos ídolos gosta que se farta e premeia os seus melhores fiéis. De quem o Ídolo dos ídolos que justifica a perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado não gosta nada e não premeia, antes odeia e mata na Cruz do Império. é de Jesus, e de todas as mulheres, todos os homens que se abrem à sua mesma Fé, o mesmo é dizer, às suas mesmas Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e aos seus Duelos Teológicos Desarmados. Mas é o hálito /sopro destas mulheres, destes homens, outras, outros Jesus, que está a levantar os Povos e a fecundar o Amanhã ainda em construção, feito de uma Mesa comum, onde todos os Povos e todas as pessoas individuais têm lugar garantido. É esta mesma Fé de Jesus, este mesmo Sopro /Espírito de Jesus, que nos faz ser-viver como dádivas vivas na História, bem nos antípodas do ser-viver de Saramago e do presidente Obama.

 

Capítulo 17

 

1 Perante a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada, os sabedores /doutores de todos os tempos e lugares ficam sempre sem jeito. E para não darem parte de fracos, tornam-se ainda mais cínicos do que habitualmente já são. Passam a vida a fazer troça das pessoas, suas conhecidas que, ao Saber, preferiram e continuam a preferir a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada. Ao ponto de conseguirem, até, transformar o Saber que adquirem, dia a dia, em mais e mais Sabedoria. No seu demencial cinismo, os sabedores /doutores têm-se na conta de serem os únicos entendidos. E humilham sistematicamente quem, ao contrário deles, segue a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada, em vez de se tornar mais um sabedor /doutor como eles se tornaram. Sem se darem conta, os sabedores /doutores mostram bem quanto são perversos. Inumanos. Cruéis. Antes de mais, com eles mesmos. Depois com todas as outras pessoas, a começar pelas que lhes são mais próximas. Tudo o que dizem, tudo o que tocam, tudo o que fazem, leva sempre a marca do Cinismo, da Arrogância, da Humilhação. Por mais ares de virtude e de civilidade que ostentem, são perversos. Vestem-se de Perversão. Alimentam-se de Perversão.

 

2 Viver, para os sabedores /doutores, é igual a humilhar os demais. Eles têm o condão de transformar em servos deles, súbditos deles, todos os que vivem na sua órbita. No seu pequeno círculo de vaidades, só eles brilham. Um brilho feito de Treva Ilustrada. É vê-los inchados, satisfeitos, nas suas torres de marfim. Sempre que se vêem ao espelho, vêem-se sempre como os melhores, os maiores, os mais bem sucedidos na vida, os mais bafejados pela Sorte. Nunca vêem que são monstros. De tão cegos que são, nunca vêem que são monstros. Dignos de dó. Mas é o que efectivamente são. E só não caem do pedestal em que vivem, porque ele está seguro pela Demência-demência organizada que é este nosso Mundo pensado /dirigido pelos sabedores /doutores. Quando a Sabedoria, feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada for, finalmente, reconhecida como a única via que faz plenamente Humanas as pessoas, plenamente Humanos os Povos, os sabedores /doutores deixarão de ter quem os sirva, quem aceite viver das migalhas que eles deixam cair das suas mesas. E só então perceberão quão insensatos, dementes-dementes têm sido, ao longo dos séculos.

 

3 Junto dos sabedores /doutores, a relação com os demais nunca é maiêutica. É sempre e só de Poder. Geradora de súbditos. De lacaios. De hipócritas aduladores. De contidos ódios. E, no máximo, de traidores e até de potenciais assassinos pelas costas. Maiêutica, e sempre, é a relação que a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada cria, lá, onde Acontecer. E só ela. Onde a Sabedoria for o Alimento e a Companhia, em lugar do Saber, sempre haverá pessoas e povos a crescerem em autonomia, em liberdade e em maioridade humana. Só os sabedores /doutores são capazes de congeminar acções e levá-las a cabo, mediante algozes ou carrascos que contratam por tuta-e-meia, contra a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada. Não podem com ela e só descansam, quando a souberem banida da História. Ela é sempre Desarmada e Crucificada. Mesmo assim, ou por isso mesmo, incomoda os sabedores /doutores. Tanto, que em cada geração, os sabedores /doutores têm necessidade de lhe fazer o mesmo que os que os precederam já fizeram. Não suportam que possa haver pessoas, povos maiêuticos. Sábias, sábios. Vêem-nas, vêem-nos como o seu principal inimigo. E matam quem maieuticamente as, os faz ser assim.

 

4 Todo o Saber é perverso e gerador de perversos. Só a Sabedoria é Humana e geradora de Humanos. O Saber faz sabedores /doutores. A Sabedoria faz sábias, sábios. Os sabedores /doutores acabam todos funcionários, em diferentes escalões hierárquicos, da Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado. As sábias, os sábios acabam todos ostracizados pela Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado que elas, eles, de resto, continuamente denunciam e desmascaram como perversa, mentirosa e assassina. Algumas delas, alguns deles, acabam mesmo crucificados. Sucedeu assim, de forma paradigmática, com Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria. E com bastantes outros, na peugada dele. Porém, como Jesus, só mesmo Jesus. Por isso ele é nosso paradigma. É a Sabedoria em pessoa. O mais odiado dos Humanos. O mais excluído. O mais ostracizado. O mais crucificado. Ainda hoje, as suas Práticas Maiêuticas e os seus Duelos Teológicos Desarmados permanecem sem lugar na Sociedade, na História. E ai de quem tente fazê-las suas, fazê-los seus. Actualizá-las, actualizá-los. Nunca mais terá lugar entre os sabedores /doutores.

 

5 Conta o Evangelho de Lucas (10, 25-37) que, um dia, um sabedor /doutor da Lei do tempo e do país de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada, se lhe dirigiu pessoalmente. Como aparece sem nome, na narrativa, representa todos os sabedores /doutores de então e de todos os tempos e lugares. Também de hoje e aqui. Revela bem que os sabedores /doutores não podem com Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada. Como não podem com ele, querem sempre desacreditá-lo perante as pessoas e os povos. Mais do que isso, querem liquidá-lo de vez. Ou eles, ou ele. E não hesitam. Eles, não ele. Em seu perverso saber, um Mundo entregue à Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada seria um Mundo demasiado Humano, de pessoas e povos em estado de liberdade e de maioridade. E, num Mundo assim, que seria deles, sabedores /doutores e que seria dos seus privilégios?

 

6 Diz a narrativa de Lucas: Levanta-se o doutor da Lei e pergunta a Jesus, "para o experimentar". A pergunta não é de discípulo que quer chegar a sábio, é de sabedor /doutor que quer meter a ridículo a Sabedoria e desacreditá-la, para, assim, poder prosseguir no seu estatuto de privilegiado na sociedade. Digam lá se os sabedores /doutores não são mesmo perversos. Não olham a meios (e de muitos eles dispõem!), para salvaguardarem os seus privilégios. Na sua perversão, vão até ao crime mais hediondo, mas sempre a pensar que estão a fazer bem. Confundem a defesa dos seus privilégios, com a defesa da Humanidade. Confundem a defesa da Humanidade com a defesa da Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado que lhes garante, a eles, os privilégios de que desfrutam! Só que, à pergunta do sabedor /doutor que não quer ser sábio, mas apenas desacreditar a Sabedoria - "Mestre, que hei-de fazer para possuir a vida eterna?" - Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada, responde com outra pergunta: "Que está escrito na Lei? Como lês?"

 

7 Por esta é que o sabedor /doutor não contava. Fica manifestamente aos papéis. Ia caçar. Ficou caçado. Fez uma pergunta dos livros, não da vida. Fez uma pergunta sobre o Saber que se aprende nas Universidades, não da Sabedoria que se desenvolve na Universidade da vida. E Jesus, a Sabedoria, não foi no seu tipo de pergunta. Em lugar de responder, põe-no a repetir /papaguear o que dizem os livros da Lei."Como lês?" E o sabedor /doutor não teve outro remédio que não papaguear o que aprendeu dos livros. Revelou erudição, Saber, como todos os sabedores /doutores. Nenhuma Sabedoria, que essa é Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada. É maiêutica. Faz sábias, sábios, capazes de se tornarem Dádivas vivas para os demais, com os demais. Escutada a resposta dos livros, aprendida das Universidades da Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado /Concentrado - "Amarás ao Senhor teu Deus com todo o teu coração, com toda a tua alma, com todas as tuas forças, e com todo o teu entendimento, e ao teu próximo como a ti mesmo" - Jesus só teve de acrescentar: "Respondeste bem; faz isso e viverás".

 

8 O Saber dos sabedores /doutores é apenas isso: Saber. Não é Fazer. Fazer, e fazer maieuticamente, é a Sabedoria. Só a Sabedoria se traduz em Práticas Maiêuticas dentro da História, de modo a tornar as pessoas e os povos cada vez mais autónomos, em estado de liberdade e de maioridade, protagonistas, sem necessidade de sabedores /doutores, de intermediários de nenhuma espécie. E em Duelos Teológicos Desarmados que desmascarem toda a Idolatria que se esconde por trás do Saber e que faz arrogantes, cínicos, nos primeiros lugares, os sabedores /doutores. Não estranhem que insista nos Duelos Teológicos Desarmados. E silencie os Duelos Filosóficos Desarmados. É que por trás de toda a Ideologia, antes de uma Filosofia, está uma Teologia. Está uma Idolatria. Está um Ídolo disfarçado de Deus, de Valor Absoluto, um daqueles que exige vidas humanas, como é timbre de todos os Ídolos!

 

9 "Faz isso e viverás". Faz e viverás. Dois verbos que os sabedores /doutores não conjugam. Muito menos, praticam. São sabedores /doutores, não são Praticantes, que isso é específico da Sabedoria. Toda ela desmultiplica-se, dia e noite, em Práticas Maiêuticas e em Duelos Teológicos Desarmados. Sem nunca se cansar! Obviamente, o sabedor /doutor da Lei ficou desconcertado com Jesus, mas nem assim desistiu. É difícil, porventura, impossível, transformar um sabedor /doutor num sábio. Os sabedores /doutores não arredam dos privilégios e, por isso, nunca se fazem sábios. A Sabedoria é Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada. E isso os sabedores /doutores nunca querem ser. Fogem dessa via. Jesus bem a apontou, mas o sabedor /doutor que se lhe dirige recusou entrar por ela. Preferiu voltar à carga e dirige outra pergunta a Jesus, sempre "para o experimentar", para ver se o apanha e pode desacreditá-lo perante as populações. Antes de matar /crucificar a Sabedoria, os sabedores /doutores, primeiro, tentam desacreditá-la perante as pessoas e os povos. Se conseguirem, já não precisam de a matar /crucificar. E não é que, hoje, século XXI, têm inúmeros meios para o conseguirem, sem terem de recorrer ao escândalo da Morte Cruenta da Sabedoria?

 

10 "E quem é o meu próximo?" A pergunta só pode ser do sabedor /doutor da Lei. É uma pergunta típica dos livros, das universidades, do Saber confrangedoramente estéril. Pretende meter Jesus nas discussões estéreis em que as universidades da Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado são peritas. Perdem tempo e fazem-no perder. Gastam rios de dinheiro em debates e mais debates, em conferências e mais conferências, em cursos superiores e mais cursos superiores, em livros e mais livros, em simpósios  e mais simpósios nacionais e internacionais. Tudo estéril. Tudo esterco. Tudo lixo. Tudo isso apenas serve para fazer sabedores /doutores, muitos, não serve para fazer uma única sábia, um único sábio. Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada que é, não se deixa enrolar. Recusa-se a sair da vida de todos os dias, não arreda um instante que seja das Práticas Maiêuticas, nem dos Duelos Teológicos Desarmados. E, perante esta pergunta armadilhada do sabedor /doutor da Lei, "Quem é o meu próximo?", avança com uma estória, uma parábola, uma narrativa fundada nas suas próprias Práticas Maiêuticas e nos seus próprios Duelos Teológico Desarmados. Deixa os saberes para os sabedores /doutores e mergulha nas Práticas Maiêuticas e nos Duelos Teológicos Desarmados.

 

11 A parábola que conta é o espelho das suas Práticas Maiêuticas e dos seus Duelos Teológicos Desarmados. Essas mesmas, esses mesmos que lhe custaram a vida! É uma parábola por demais conhecida, mas não resisto a reproduzi-la aqui. Eis: "Certo homem descia de Jerusalém [cidade santa] para Jericó e caiu nas mãos dos salteadores que, depois de o despojarem /roubarem e encherem de pancadas, o abandonaram, deixando-o meio morto. Por coincidência, descia por aquele caminho um sacerdote que, ao vê-lo, passou ao largo. Do mesmo modo, também um levita passou por aquele lugar e, ao vê-lo, passou adiante. Mas um samaritano que ia de viagem chegou ao pé dele e, vendo-o, encheu-se de compaixão. Aproximou-se, ligou-lhe as feridas, deitando nelas azeite e vinho, colocou-o sobre a sua própria montada, levou-o para uma estalagem e cuidou dele. No dia seguinte, tirando dois denários, deu-os ao estalajadeiro, dizendo: Trata bem dele e o que gastares a mais pagar-to-ei quando voltar. Qual destes três te parece ter sido o próximo daquele homem que caiu nas mãos dos salteadores? O doutor da Lei respondeu: O que usou de misericórdia para com ele. Jesus retorquiu: Vai e faz tu também o mesmo!"

 

12 Escrevi no capítulo anterior que, se quisermos transformar uma mulher, um homem num monstro, progressivamente insensível perante e com os demais e a própria natureza, façamos dela, dele uma mulher religiosa, um homem religioso. Aqui, nesta parábola, esta realidade está bem à vista de toda a gente. Monstros são os sabedores /doutores que, no seu saber, tornam-se os mais perigosos salteadores das consciências e dos bolsos das pessoas e dos povos. E, se o não são directamente, são-no indirectamente, porque todo o seu Saber é só para justificar o injustificável, concretamente, a perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado /Concentrado, dentro da qual, eles são sabedores /doutores, cheios de privilégios que a esmagadora maioria da Humanidade não conhece, nem é bom que conheça. Porque os privilégios são todos para derrubar, não para alargar a todos os povos. A todos os povos havemos de alargar apenas as Práticas Maiêuticas e os Duelos Teológicos Desarmados de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Desarmada e Crucificada. Monstros - e que monstros! - são também os sacerdotes e os levitas que frequentam a cidade santa, o Templo, percebem de sacrifícios, de cultos, de ritos, de orações papagueadas, mas são absolutamente incapazes de se fazerem próximos, de forma gratuita, das pessoas e dos povos espoliados, roubados, excluídos, marginalizados, malditos. Porque, afinal, também eles são unha e carne com os sabedores /doutores e comem dos mesmos privilégios deles.

 

13 Sejam eles sabedores /doutores, sacerdotes e levitas, párocos e bispos residenciais, figuras académicas altamente credenciadas, a verdade é que tudo o que fazem, tudo o que dizem - e muito é - só serve para ajudar a espoliar ainda mais as pessoas e os povos, uma vez que o que fazem e dizem não são Práticas Maiêuticas nem Duelos Teológicos Desarmados. São mera Ideologia que justifica e abençoa a perversa Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado que, no seu agir dia e a noite, está aí só para roubar, matar e destruir as pessoas e os povos, ao mesmo tempo que garante montes de privilégios aos seus múltiplos sabedores /doutores, nos mais diversos pelouros e graus hierárquicos em que todos eles são peças fundamentais. Nos antípodas do samaritano. Este pode nem sequer perceber nada da Lei, ser oficialmente um maldito aos olhos dos sabedores /doutores, mas tem entranhas de Humanidade, é mulher, homem de Práticas Maiêuticas e de Duelos Teológicos Desarmados. É Sabedoria-em-Acção na História que promove autonomias, liberdade, maioridade, faz das pessoas e dos povos protagonistas, senhoras, senhores dos seus próprios destinos.

 

14 "Vai e faz tu também o mesmo". A narrativa de Lucas não diz que o doutor da Lei mudou do Saber para a Sabedoria. Sinal de que não mudou. Nem que um morto saísse do túmulo (o que nunca se viu nem verá!), o sabedor /doutor deixaria de ser o que é. A via da Sabedoria é a única que nos faz humanos, mas quem dos que vivem nos privilégios quer, alguma vez, tornar-se simplesmente Humano? Alguma vez o papa, por exemplo, é capaz de renunciar ao Papado e de o derrubar, para se tornar simplesmente Humano, outro Jesus, prosseguidor das suas mesmas Práticas Maiêuticas e dos seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados? E o presidente do Império norte-americano? Até um simples pároco de aldeia, alguma vez desiste desse privilégio e aceita ser simplesmente Humano, no caso, presbítero sem qualquer espécie de Poder eclesiástico e sem qualquer privilégio clerical? Mas é de mulheres, homens prosseguidores das mesmas Práticas Maiêuticas de Jesus e dos seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados que precisamos, hoje, como de pão para a boca. De sabedores /doutores estamos mais que abastecidos. Para nossa desgraça. E para nossa vergonha. Jesus é o caminho. Entremos por ele. Nunca mais nos arredemos dele, por maior que seja a Sedução /Tentação que nos vem dos sabedores /doutores, tudo gente estéril e prejudicial à Humanidade.

 

Capítulo 16

 

1 Querem transformar uma mulher, um homem num monstro progressivamente insensível perante e com os demais e a própria natureza, um monstro sem entranhas de humanidade, sem afectos, sem coração, numa palavra, sem Sabedoria? Então façam dela, dele, uma mulher religiosa, um homem religioso. E quanto mais fanática, fanático, mais monstro. O Religioso é a raiz de todos os males. De todas as perversões Porque tem na sua origem mais profunda, o Medo. O medo das míticas deusas, dos míticos deuses que, depois, pela vida fora, funcionam como se fossem reais. E o Medo, onde medrar, só faz monstros. Activos, uns. Passivos, outros. Activos, as minorias dos Privilégios. Passivos, as maiorias desfavorecidas, tolhidas /dominadas /subjugadas /manipuladas pelas minorias dos Privilégios. Mas monstros, todos. Nos antípodas do Humano, todos. Nunca no-lo disseram. Nunca no-lo dizem. Nunca no-lo dirão. Pelo menos, aqueles - intelectuais que sejam - que têm como sonho e ambição maiores tolher /dominar /subjugar /manipular o Mundo, as populações e os povos. E tais são as minorias dos Privilégios, as únicas que costumam ter voz e vez, estão à frente de todo o Institucional e chegam a pensar-se e até a ter-se na conta de predestinadas pelas míticas deusas, pelos míticos deuses para conduzirem a História.

 

2 Nem mesmo a Bíblia Hebraica ou dos Judeus escapou a esta tentação. Tão pouco o Alcorão, o livro-base do Islamismo, dos Muçulmanos. Os primeiros relatos que estão na origem do que depois veio a ser a Bíblia Hebraica, hoje judeo-cristã, foram mandados escrever pela casa real de David /Salomão, com o perverso objectivo político de tentar convencer os povos em redor, a começar pelos povos cananeus, acabados de conquistar /subjugar pelas tropas lideradas por Josué, de que o povo hebreu /povo judeu conquistador de Canaã, era o povo escolhido por Deus. Como tal, era o povo que haveria de conduzir todos os outros povos, mediante o domínio e a submissão de todos eles. Seria então de todo inútil lutar contra o povo hebreu /judeu, uma vez que Deus o havia escolhido, estava com ele e ele seria sempre o povo vencedor. Aos outros povos nada mais restava do que aceitar o facto, submeter-se ao povo hebreu /judeu e cooperar de boamente com ele.

 

3 Nasceu assim o mito da casa real de David /Salomão, da supremacia da casa real de David /Salomão, graças também e sobretudo à influência dos sacerdotes que oficiavam no Templo que o rei Salomão havia mandado construir, logo a seguir à construção do seu próprio palácio e nas proximidades dele, e a cujo culto oficial fazia questão de presidir. Todas as outras tribos hebreias, uma a uma, acabaram por aceitar o domínio da casa real de David /Salomão. E os povos em redor também. Quando, alguns séculos depois, a casa real de David /Salomão foi ao fundo e levada para o Exílio na Babilónia (hoje, Iraque), e o Templo de Jerusalém, construído por Salomão, foi derrubado e saqueado, a fé religiosa do povo judeu viu-se de repente sem chão religioso onde se apoiar. O ridículo era o pão que o povo judeu tinha para comer. A vergonha era a roupa que o povo judeu tinha para se vestir. A humilhação era a sua quotidiana e amarga condição.

 

4 Deveria o povo judeu, nessa altura, ter concluído que havia edificado a sua História sobre a Mentira, mas não. Deveria ter concluído que Deus, ou é Deus de todos os povos do Mundo por igual, ou não passa de um perigoso ídolo, descriador do Humano, gerador de Medo, por sua vez, gerador do Religioso, por sua vez. gerador de mulheres, homens progressivamente monstros insensíveis e cruéis, consigo mesmos e uns com os outros, ladrões e assassinos. Mas não. E ainda hoje, todos estes séculos depois, continua a pensar que é o povo escolhido, o povo eleito. Consequentemente, continua a fazer das dele, na convicção de que tem Deus-com-ele e que há-de dominar o Mundo. Mas não é só o povo judeu a pensar /agir assim. Como ele, todos os outros povos que se se têm na conta de povos eleitos de Deus. Seja o povo norte-americano. Ou seja o povo muçulmano.

 

5 Não no-lo têm dito, mas a verdade é que a principal razão da Morte Crucificada de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada entre nós e connosco, tem tudo a ver com este mito histórico, que ele liminarmente recusou fazer seu. Jesus, judeu nascido em Nazaré, uma aldeia que nem sequer figurava no mapa, o carpinteiro, o filho de Maria, o mesmo é dizer, um Dom Ninguém qualquer que não tinha onde reclinar a cabeça, atreve-se a dizer /revelar, na sua Fragilidade Humana absoluta, que toda a História do seu povo está edificada sobre a Mentira. E, enquanto assim se mantivesse, nunca mais conheceria a Paz, porque tão pouco seria Humana, os Judeus tão pouco seriam seres humanos com entranhas de Humanidade. Pelo contrário, seriam todos ladrões e salteadores, mentirosos e assassinos, que nasciam e cresciam só para matar, roubar e destruir. Jesus chega, inclusive, a dizer /revelar, no testemunhar sumamente teológico e sumamente sábio do Evangelho de João, que todos os Judeus e todos os outros povos que vieram antes dele e também se tiveram na conta de povos eleitos, casa real de David /Salomão incluída, foram, são ladrões e assassinos que vieram, vêm só para roubar, matar e destruir.

 

6 Tais palavras, na boca de um judeu galileu do século I, nação totalmente dominada e militarmente ocupada pelo Império Romano, soavam a blasfémia, pior, a absurdo. Os chefes dos judeus, seus contemporâneos, só poderiam tapar os ouvidos de raiva e de ódio de morte, para não terem de as ouvir. Só poderiam considerar quem as proferia, um endemoninhado ou demente-demente. Só poderiam virar /levantar contra ele todo o povo. Só poderiam tramá-lo, persegui-lo, caluniá-lo, prendê-lo e, finalmente, condená-lo à morte. E matá-lo. Só poderiam banir para sempre da memória do seu povo o nome dele. Torná-lo, até, impronunciável para sempre. Para tanto, não poderiam matá-lo por apedrejamento, como dizia a Lei de Moisés que se procedesse em tais casos. Tinham de matá-lo na Cruz do Império, para que, desse modo, o seu nome ficasse para sempre maldito. E não só o seu nome. Também a sua memória. É por isso que, quando decidem agir contra Jesus, tudo fazem para ganharem para a causa deles o representante máximo do Império Romano no país, porque só a Morte Crucificada na Cruz do Império tornava maldito o judeu que a sofresse. Assim o prescrevia a mesma Lei de Moisés. E assim se fez. Em Abril, do ano 30, desta nossa era comum.

 

7 Falta acrescentar /lembrar que eram todos religiosos, até chefes religiosos, os judeus que assim procederam contra o judeu Jesus. Eram os próprios sumos sacerdotes do Templo de Jerusalém. E não agiram sozinhos. Com eles, estavam todos os outros chefes religiosos do país. Todos os teólogos oficiais do Templo. Foi o Religioso institucional como tal que concebeu tudo e tudo executou. E, depois de tudo executado, o Religioso prosseguiu na dele, como se tivesse acabado de realizar o feito maior, o mais sublime. Nada que o próprio Jesus já não tivesse advertido: que todos eles agiriam assim, na firme convicção de que, desse modo, davam glória a Deus. E deram. Não ao DeusVivo, Criador de filhas, filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, cheios de Humanidade, sábias, sábios na peugada de Jesus, mas apenas ao mítico Deus que está na génese ou origem de todo o Religioso. E que é um Ídolo. Criador de monstros humanos, que para isso servem todos os ídolos da nossa demência-demência. Quando eles nos fazem monstros humanos, insensíveis, sem entranhas de Humanidade, sem afectos, sem coração, numa palavra, sem Sabedoria, fazem-nos à sua imagem e semelhança. Que para isso, só para isso, serve o Religioso, todo o Religioso, gerador do Medo.

 

8 Nunca a Sabedoria pode ser considerada geradora do Religioso. Só a Demência-demência. A Sabedoria, o que gera é apenas Sabedoria, Sapiência-sapiência e, com ela, o Humano progressivamente integral. Saibamos então que o crime maior que fizemos contra Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, nem sequer foi o crime da sua Morte Crucificada. Esta perfaz, sem dúvida, um crime hediondo. Mas não é o mais hediondo. O crime mais hediondo que cometemos contra Jesus, já depois da sua Morte Crucificada, foi termo-lo convertido no fundador de uma nova Religião. Pior, no mítico Deus, chamado Cristo, duma nova Religião, por isso, um nome para sempre associado ao Religioso. Ao ponto de, ainda hoje, Jesus, o Ser Humano por antonomásia que mais desmascarou o Religioso e foi morto por ele na Cruz do Império, continuar a ser apresentado na História como o fundador da Religião cristã-católica. Este é, sem dúvida, o mais hediondo crime que cometemos contra Jesus. Porque foi o Religioso que Jesus desmascarou como o pai /o gerador que é de mulheres, homens monstros, que o matou na Cruz do Império Romano. E, depois de todo esse hediondo crime consumado, eis que ainda convertemos Jesus no fundador duma nova religião. Este sim é o mais hediondo dos crimes! O absurdo dos absurdos!

 

9 A Igreja, como Religião católica ou como religião cristã, nunca deveria ter nascido. Como religião, é mais do mesmo. Dela se pode e deve dizer o que Jesus, o do Evangelho de João, diz de todos os povos que se têm na conta de povos eleitos de Deus, povo judeu incluído: Todos os que vieram antes de mim - e pode-se vir antes de Jesus, mesmo quando historicamente nascemos depois dele, mas sem a influência do seu Sopro ou Espírito - são ladrões e salteadores que vieram só para roubar, matar e destruir. Saibamos - e escusamos de nos escandalizar com isso, melhor será que nos deixemos mover-conduzir pelo mesmo Espírito de Jesus que é a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada e feita Vento /Sopro libertador - que a Igreja que hoje conhecemos não foi fundada por Jesus. Nunca Jesus quis a Igreja-povo-eleito-de-Deus. Podem vir todas as sumidades eclesiásticas dizer-nos que sim. Todas mentem. Jesus nunca quis a Igreja-povo-eleito-de-Deus. Muito menos, a Igreja, como o novo-povo-eleito-de-Deus. Pois se ele até ao seu próprio povo recusou reconhecer que ele fosse povo eleito de Deus, como poderia ir depois a correr fundar um novo povo eleito de Deus?

 

10 A Igreja, tal como a conhecemos, nunca haveria de ter nascido. Ela é obra, não do Espírito Santo, o de Jesus, como se diz que é, mas é obra do Império Romano, do Império de Constantino. Assim é que é verdade. A Igreja, tal como a conhecemos (e as Igrejas protestantes procedem todas da Igreja tal como a conhecemos, portanto, são todas mais do mesmo, ainda que reformadas /retocadas aqui e ali, às vezes ainda para pior!), tem por pai o Império Romano de Constantino, que a pariu. Tem tudo a ver com o Religioso. Com o mítico Cristo-Deus-Ídolo do Império. Praticamente, nada tem a ver com Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada pelo Império, ao tempo do imperador Tibério. Tem tudo a ver com o Religioso. Por isso ela é tão geradora de Medo nas populações e nos povos, um Medo que faz as populações religiosas, o mesmo é dizer, progressivamente insensíveis, cruéis, sem entranhas de Humanidade, sem afectos, sem coração, numa palavra, sem Sabedoria.

 

11 Quanto mais religiosas, religiosos forem as mulheres, os homens, mais monstros, mais cruéis, mais vazios de afectos, de entranhas de Humanidade, mais dementes-dementes elas, eles são. Populações religiosas são populações que correm para os templos e santuários da Idolatria, para os ritos religiosos que lá se fazem em dias e horas certos; são zeladoras de altares, de imagens de santas, santos, de deusas, deuses, confrangedoramente incapazes de se fazerem próximas de quem está caído na valeta da vida, de quem é apontado pelos chefes do Religioso como pecador, como excomungado, como maldito. Pensam-se as melhores mulheres, os melhores homens da aldeia, da cidade, do país, do mundo. São os mais perversos dos seres humanos, como as míticas deusas, os míticos deuses que elas, eles adoram, veneram, idolatram. Dos seres humanos de carne e osso, nomeadamente, daqueles que já se libertaram do Medo, do Religioso, e só têm braços para abraçar e mãos para levantar quem está caído e é excluído /marginalizado, as mulheres, os homens do Religioso fogem a sete pés. Não querem nada com eles.

 

12 Têm-nos a todos por malditos, só porque são seres humanos que já se libertaram do Religioso e do Medo que gera e alimenta o Religioso. Em contrapartida, têm-se a si mesmas, a si mesmos por as mulheres, os homens mais santas, santos, mais puras, puros, mais virtuosas, virtuosos. E, afinal, são monstros, porque totalmente incapazes de conviver /sentar-se à mesa da generalidade das pessoas do Mundo, só porque, na sua orgulhosa cegueira religiosa, têm-nas a todas por pessoas pecadoras, malditas, excomungadas, blasfemas! Como diz Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, estão sempre prontas, prontos a ver o cisco que está no olho dessas pessoas que já se libertaram do Religioso e do Medo, e não vêem nunca a trave que anda nos seus próprios olhos.

 

13 Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana Crucificada, não fundou a Igreja, tal como hoje a conhecemos. Para Jesus, todos os povos são povo eleito de Deus. Todos os povos são povo amado de Deus, nosso Abbá comum. Todos os povos somos povos eleitos /escolhidos de Deus, chamados a sermos, em cada tempo e lugar, em todas as nações, outros Jesus, Sabedoria feita Humanidade Fragilizada, muitas vezes, Crucificada, por isso, de mãos dadas uns com os outros, sem acepção de pessoas, sem discriminação de nenhuma pessoa, de nenhum povo, como faz inevitavelmente o Religioso, lá onde quer que ele medrar e for praticado por alguém. Jesus não fundou a Igreja, tal como hoje a conhecemos. O que Jesus, a Conspiração política por antonomásia, o ser humano integralmente habitado e conduzido pelo Espírito, fez, foi desencadear maieuticamente na História um Movimento Político de Conspiração e de Libertação que, lá, em quem ele Acontecer-Despoletar-Nascer, sempre faz mulheres, homens progressivamente Humanos e universalmente sororais /fraternos, que Império algum jamais consegue deter, fazer parar. Felizes, pois, as mulheres, os homens que formos filhas, filhos deste Movimento e do Sopro /Espírito que está na origem deste Movimento. O Religioso e os do Religioso não podem connosco. Perseguem-nos como malditos. Odeiam-nos de morte. Mas são mulheres, homens assim que, na sua Fragilidade Humana Crucificada /Ostracizada, estão a tornar mais Humano o nosso Mundo e a garantir futuro ao nosso Mundo.

 

Capítulo 15

 

1 Estamos no século XXI, mas a Sabedoria - e com ela, a Liberdade e a Maioridade - continua ainda por acontecer no generalizado viver das populações. É ainda no Medo - e que Medo! - gerador de Submissão e de Menoridade, que as populações hoje vivem. Não na Sabedoria, geradora de Liberdade e de Maioridade. Arranquem o Medo às populações, sem ser por, entretanto, as fazerem maeuticamente crescer em Sabedoria e em Graça, e logo verão como elas regressam à selva. Que digo? Abaixo da selva. O Medo, e só o Medo, é que continua a manter as populações subjugadas, tolhidas, aterrorizadas cumpridoras das leis, sobretudo das leis da Religião (as populações podem dizer "Deus" ou "leis de Deus", mas é de "Religião", de "leis da Religião" que elas falam, já que para elas Religião e Deus são uma e a mesma coisa).

 

2 De resto, é o Medo que torna as populações religiosas, frequentadoras dos templos, dos cultos. É até para isso que a Religião serve. Para alimentar e manter as populações no Medo. Todas elas populações subjugadas. Todas elas populações tolhidas. Todas elas populações unidas umas às outras, mas exclusivamente no Medo, não unidas na Sabedoria, muito menos na Liberdade e na Maioridade que resultam da Sabedoria. Arranquem às populações o Medo, sem, entretanto, as terem ajudado maieuticamente a crescer em Sabedoria e em Graça, e logo elas passam a sacanear-se /roubar-se umas às outras. A matar-se umas às outras. A comer-se umas às outras.

 

3 Quando as Sociedades - cidades e aldeias - eram todas ainda dominadas pela Religião, que concebia Deus como o-Todo-Poderoso, quase nem era preciso polícia. O Polícia-mor e mais eficaz era o próprio Deus-Todo-Poderoso da Religião. Um Polícia alojado no Inconsciente colectivo das populações. Que, no entender das populações, via tudo. Sabia tudo. Podia tudo. Castigava sem dó nem piedade quem praticava o mal. Premiava depois da morte quem praticava o bem. Sim, também perdoava, mas era preciso que as populações, primeiro, fizessem muita penitência, se arrependessem, vestissem de saco e de cinza, fizessem jejuns e abstinências, peregrinassem penosamente como penitentes públicos aos santuários, se autoflagelassem até ao sangue, pedissem reiteradamente perdão em altos clamores.

 

4 Ah! E também mostrassem firme propósito de emenda, perante os chefes todo-poderosos da Religião. De contrário, não haveria perdão para ninguém. Apenas castigos. E que castigos! O mais temido era, sem dúvida, o mítico inferno. De fogo. De fogo eterno. E nem sequer do mítico purgatório, as pessoas das populações, tidas por mais cumpridoras da Religião e das leis da Religião, escapavam. Tinham de penar, que tempos, no purgatório, até ficarem totalmente purificadas, limpas. Daí, as rezas dos vivos pelos mortos. E as missas pagas e bem pagas pelos vivos e mandadas rezar pelos mortos. Para, através delas, os familiares já falecidos deixarem mais depressa o mítico purgatório e suas terríveis penas, em tudo iguais às do inferno, só que as do purgatório não eram eternas, tinham fim algum dia. Enquanto as do inferno, não tinham fim! Eram para sempre! Para sempre! Para sempre!

 

5 O Medo, gerador de Submissão e de Menoridade, ainda hoje está aí alojado na consciência das populações. E como as Sociedades hoje são generalizadamente seculares, já não é tanto do Deus-Todo-Poderoso da Religião de outrora que as populações têm Medo. É cada vez mais do Deus /Ídolo-Todo-Poderoso que é o Poder Económico-Financeiro - o Senhor Dinheiro - que manda no Mundo, assessorado, à sua direita, pelo ainda todo-poderoso-Poder Religioso-Eclesiástico ou Hierarquia, e, à sua esquerda, pelo cada vez mais todo-poderoso-Poder Político e Armado até aos dentes, que as populações têm Medo. Porque elas já sabem que esta Trindade de Poderes - os três são um só! - depois de nos poder matar o corpo e de nos poder roubar os bens, se não dissermos amen com ela e não frequentarmos as suas missas, os seus cultos religiosos e os seus cultos seculares, os seus futebóis e as suas demências-demências, ainda nos pode denegrir o bom nome, fazer de nós uns malditos, uns desprezados, uns proscritos, uns Ninguém, cujo nome nunca mais é pronunciado, é para sempre riscado /expurgado da memória colectiva.

 

6 E isto, estas penas, estes castigos, estas represálias da trindade dos Poderes, as populações tolhidas de Medo, em estado de Submissão e de Menoridade, por isso, vazias de Sabedoria, consequentemente, ainda sem Liberdade e sem Maioridade, não são de modo algum capazes de suportar. Não suportam ter de passar por um tal estado e ter de viver, pelo resto da vida, num tal estado. Preferem, mil vezes, submeter-se ao que for preciso, só para continuarem a ser hipocritamente reconhecidas, respeitadas, louvadas, temidas, subirem na vida, gozarem de bom nome, serem consideradas merecedoras de ocupar cargos de alta responsabilidade na esfera do Poder Religioso-Eclesiástico, ou na esfera do Poder Político e Armado, ou na esfera do Poder Económico-Financeiro.

 

7 Se são populações que ainda se movimentam na área do todo-poderoso Poder Religioso-Eclesiástico, o sonho delas é chegarem ou verem algum dos seus filhos chegarem, um dia, a papa, ou a bispo residencial, ou a pároco de várias paróquias, ou a menino-menina-de-coro, ou a catequista da paróquia, ou a membro do grupo coral da paróquia, ou a diácono casado, ou a cónego, ou a monsenhor. Ou, pelo menos, a ministra/ ministro-extraordinário-da-comunhão na paróquia. Ou, no mínimo dos mínimos, a funcionária, funcionário do cartório paroquial. Ainda há, nesta área, populações cujo sonho é ter na família uma filha freira, de hábito e tudo, género Irmã Lúcia ou Madre Teresa de Calcutá, um filho frade, género São Nuno Álvares Pereira ou São José Maria Escrivá de Balaguer. E, se não dá para chegar tão longe, que, ao menos, uma qualquer dessas pessoas importantes do Poder Religioso-Eclesiástico - frade, freira, bispo residencial, pároco de várias paróquias - seja visita frequente da casa delas, seja amiga /amigo da família, venha regularmente sentar-se à sua mesa e que toda a gente em redor saiba que isso acontece, para, assim, ficarem a ser ainda mais estimadas /admiradas /respeitadas /aplaudidas /louvadas.

 

8 Se são populações que se movimentam na área do todo-poderoso Poder Político e Armado, o sonho delas é chegarem ou, pelo menos, verem que alguma das suas filhas, algum dos seus filhos, ou todas, todos, conseguem fazer carreira por essa via e chegam a presidente de junta ou de câmara, deputado, secretário de estado, ministro, primeiro-ministro, presidente da república, presidente da comissão europeia, chefe do império, alferes, capitão, general, marechal, polícia, chefe de esquadra, chefe da casa civil do presidente da república, chefe da casa militar do presidente da república. Ou, ao menos, secretária particular de um desses graúdos do Poder Político e Armado, nem que seja acompanhante de luxo para todo o serviço, coisa-chique, nada que se pareça com essas prostitutas que se vendem por aí nas bermas da estrada a camionistas porcos e sem nome, uns mal-cheirosos que não têm onde cair mortos e o mais que podem oferecer é uma viagem no seu incómodo camião, nada que se compare com viagens de avião e hotéis de cinco estrelas ou mais.

 

9 Se são populações que se movimentam na área do todo-poderoso Poder Económico-Financeiro - o Senhor Dinheiro - o sonho delas é serem contratadas ou, pelo menos, verem as suas filhas, os seus filhos brilharem na universidade, serem os melhores em Economia e Finanças, serem contratados de imediato pelos grandes Bancos, ou pelas grandes empresas multinacionais. As populações sabem que, neste caso, dificilmente, voltarão a ver as suas filhas, os seus filhos, mas isso pouco importa. O que importa é saberem que as suas filhas, os seus filhos são os maiores, ganham milhões por ano, são executivos que sobem na empresa e, amanhã, quem sabe, poderão chegar a ser administradores das empresas, porventura, até donos delas. E, quando, de tempos a tempos, passarem pela casa dos pais, na aldeia ou na cidade, fazem um figurão com aqueles carros topo de gama e com aqueles fatos que não se encontram num pronto-a-vestir. Os vizinhos apercebem-se da sua passagem e vêm à janela ou à porta e olham para aquele luxo todo e roem-se de inveja. E dizem, Que sorte a vizinha, o vizinho teve! Parabéns, vizinha, vizinho, pela sua filha, pelo seu filho!

 

10 Conta o Evangelho de Lucas (10, 38-42) que Jesus, a Sabedoria, geradora de Liberdade e de Maioridade, toda ela feita de Práticas Económicas e Políticas Maiêuticas e de Duelos Teológicos Desarmados contra a mentirosa e assassina Idolatria do Dinheiro, do Poder Religioso e do Poder Político e Armado, depois que decidiu meter-se a caminho de Jerusalém, não para tomar o Poder e tolher ainda mais as populações já de si tolhidas e paralisadas pelo Medo, gerador de Submissão e de Menoridade, mas para profeticamente o desmascarar e desacreditar perante as populações, desembaraçou-se, por uns dias, dos seus discípulos, os Doze, que, entretanto, seguiram sozinhos para diante, na convicção de que ele ia lá tomar o Poder. E entrou, sozinho, numa aldeia. No Evangelho, aldeia representa um espaço vital todo ele tecido de Medo, o mesmo é dizer, um espaço habitado por populações caídas na Submissão e na Menoridade, vazias de Sabedoria, por isso, incapazes de Liberdade e de Maioridade. O que se pode chamar com toda a propriedade, uma "Casa de Opressão", como o antigo Egipto dos faraós, só que aqui em ponto pequeno.

 

11 Narra o Evangelho que uma mulher, de nome Marta, recebeu-o em sua casa. Acrescenta, depois, que esta mulher tinha uma irmã chamada Maria. Ao contrário do que sempre nos tem sido ensinado pelas catequeses de mentira das paróquias, nem Marta, nem Maria, as desta narrativa de Lucas, têm alguma coisa a ver com Marta e Maria, irmãs de Lázaro, de Betânia. Aqui, Marta e Maria vivem numa aldeia que aparece sem nome na narrativa. E que representa a Sociedade fechada, caída no Medo, por isso, na Submissão e na Menoridade. Nos antípodas duma Sociedade /Reinado de Deus, em que as pessoas, já ao jeito de Jesus, vivem cheias de Sabedoria, por isso, em estado de Liberdade e de Maioridade. Hoje, século XXI, esta aldeia pode ser o nosso Mundo, chamado "aldeia global", todo ele caído no Medo gerado pela trindade dos Poderes, vazio de Sabedoria, por isso, em estado de Submissão e de Menoridade, não em estado de Liberdade e de Maioridade. E pode ser cada aldeia ou cada cidade, pequena ou grande, tanto faz, onde as populações continuam reféns do Medo, por isso, em estado de Submissão e de Menoridade, totalmente à mercê da Trindade dos Poderes, o Económico-Financeiro e os seus dois braços, o Poder Religioso-Eclesiástico ou Hierarquia e o Poder Político e Armado.

 

12 A narrativa de Lucas - um monumento de Sabedoria Jesuânica - diz que Marta e Maria são irmãs. Mas diz também que vivem nos antípodas uma da outra, ainda que na mesma casa! (Não é também o que acontece hoje com algumas, alguns de nós?! Na mesma casa, do mesmo sangue, mas nos antípodas uns dos outros). Marta é a dona da casa ("recebeu Jesus em sua casa"). É a proprietária. É o Poder. É toda Institucional e do Institucional. É toda da Ordem Mundial dominante. É toda da Lei de Moisés e do Templo. E dos Sacerdotes. É do Institucional todo-poderoso, fonte de Medo, por sua vez, gerador de pessoas /populações em estado de Submissão e de Menoridade. E como é, também actua, vive. Toda ela é acção. Acção incansável. Não tem tempo para ninguém. Nem sequer para Jesus que ela recebeu na sua casa. Está toda ocupada nas tarefas que a Trindade dos Poderes lhe impõe, e que exige dela. É uma mulher executiva. Executiva exemplar. Cumpridora de todas as normas. O Sistema gerador do Medo pode contar com ela. Ela não pára. Corre de um lado para o outro. Executa tudo o que a Lei de Moisés ou de Deus, ou da Religião oficial manda executar. Não falha em nada. Primeiro, a Lei, a Religião, os deveres religiosos, os cultos, depois, a Lei, a Religião, os deveres religiosos, os cultos, depois a Lei, a Religião, os deveres religiosos, os cultos. As pessoas nunca chegam a ter lugar. No Reino da Trindade dos Poderes, as pessoas nunca chegam a ter lugar. Estão sempre a mais. Só atrapalham. Devem viver no Medo. Inactivas. Tolhidas. Na Submissão. Na Menoridade. Sem voz nem vez. Sem nunca chegarem a SER. Há os Executivos superactivos. E as populações cheias de Medo, em estado de Submissão e de Menoridade. Que fazem o que a Trindade dos Poderes diz para fazerem. Nada mais.

 

13 Em contraste com Marta, está Maria. Na mesma casa. É manifesto que, na narrativa, a casa de que se fala é a casa de Israel. A aldeia onde a casa fica situada é todo o país de Jesus (hoje, qualquer país da Europa e do resto do Mundo), dominado pelo Medo, por isso, em estado de Submissão e de Menoridade. Vazio de Sabedoria, fonte de Liberdade e de Maioridade Humana. A Sabedoria é Jesus. A grande e única alternativa ao Medo, gerador de Submissão e de Menoridade. Jesus, na narrativa, vai a caminho de Jerusalém, determinado a enfrentar a Trindade dos Poderes. De onde já não chegará a sair vivo! Porque a Trindade dos Poderes, como um só, não o suporta e mata-o na Cruz do Império, para que ele fique maldito para sempre. Maria, irmã de Marta, mas nos antípodas dela, representa as discípulas, os discípulos de Jesus, da Sabedoria, pessoas que saíram do Medo, por isso, do estado de Submissão e de Menoridade e se constituíram como mulheres, homens em estado de Liberdade e de Maioridade. Completamente, incompreendidas pelas populações, mergulhadas ainda no Medo, por isso, na Submissão e na Menoridade.

 

14 Maria (ao contrário de Marta que não tem tempo para Jesus, para a Sabedoria feita Fragilidade Humana; que não tem tempo para ser ela própria, apenas para ser Executiva do Sistema, da trindade dos Poderes), Maria está sentada aos pés de Jesus, no relato, chamado "Senhor". Não é senhor no sentido que a trindade dos Poderes, fonte do Medo, gerador de Submissão e de Menoridade, dá aos seus Executivos, mas no sentido que a Sabedoria, fonte de Liberdade e de Maioridade Humana, dá às pessoas que se lhe abrem e a acolhem e a praticam. Senhor, na dimensão da Sabedoria que é a dimensão da Liberdade e da Maioridade, é toda aquela mulher, todo aquele homem que não tem mais Medo, consequentemente, que não é mais Súbdito, Vassalo, Servo da trindade dos Poderes. É dono dos seus próprios destinos. É livre para a Liberdade e para a Maioridade. Por isso, cem por cento, Dádiva, Pão-Partido-para-os-demais-e-com-os-demais. Alguém nos antípodas da trindade dos Poderes. Como uma menina. Como um menino. Alguém que a trindade dos Poderes não suporta e, por isso, persegue, calunia, ostraciza, excomunga, mata, porque não está mais ao seu serviço, antes, a denuncia, desmascara, contesta, desacredita, derruba. Para que as pessoas e os povos, já livres dela, se constituam na Liberdade e na Maioridade, nunca mais sejam pessoas e povos mergulhados no Medo, em estado de Submissão e de Menoridade.

 

15 Marta, como boa Executiva da trindade dos Poderes, fonte de Medo, gerador de Submissão e de Menoridade, chega ao ponto - vejam só! - de repreender Jesus, a Sabedoria-feita-Fragilidade-Humana, fonte de Liberdade e de Maioridade (não é também o que faz ainda hoje essa mesma trindade dos Poderes, nomeadamente, a Cúria romana?!): "Senhor, não te preocupa que minha irmã me deixe sozinha a servir? Diz-lhe que me venha ajudar". Ela é dona, é Executiva. Não tem tempo nem para Afectos partilhados, nem para a Contemplação, nem para a Espiritualidade, nem para a Ternura, nem para a Festa, nem para a Liberdade. Todo o seu viver é para o Sábado. Não é capaz de colocar o Sábado ao serviço do seu viver. Ela é a superactiva da trindade dos Poderes que desgraça, inferniza, oprime, tolhe, domina, escraviza, infantiliza o Mundo, as populações, os povos. É um dos rostos da trindade dos Poderes, fonte do Medo, gerador de Submissão e de Menoridade nas populações e nos povos. Nos antípodas de Jesus, o rosto por antonomásia da Sabedoria, a fonte de Liberdade e de Maioridade., geradora de mulheres, homens e povos livres para a liberdade e para a maioridade, sujeitos, protagonistas, sem mais necessidade de intermediários!

 

16 "Marta, Marta, inquietas-te e andas estressada com tanta coisa, quando só uma é necessária. Maria escolheu a melhor parte, e essa não lhe pode ser tirada por ninguém". É como dizer: Podem denegrir o seu nome, podem insultá-la do pior, podem ostracizá-la, podem bani-la da face da terra, podem olhá-la com desprezo, podem tê-la por louca, por perdida. Mas ela escolheu a Sabedoria, fonte de Liberdade e de Maioridade. Vê como ela cresceu. Vê como ela deixou para trás o Infantil. O Medo. Vê como ela se libertou dos ritos. Dos cultos. Dos templos. Dos altares. Do Religioso. Do Institucional. Da trindade dos Poderes. Vê como ela cresceu em Sabedoria. Como cresceu na Fé, a mesma que eu, Jesus, também vivo. Vê como ela se fez Mulher-menina. Como se tornou Afectos e Causas. Como ela é feliz. Como ela acolhe. Como ela se faz Dádiva, todos os dias. Como ela é Pão-Partido e Vinho-Derramado, todos os dias. Vê como ela é Liberdade. Como ela é Maioridade. Como ela é Sábia. Nem Salomão alguma vez se pareceu com ela. Ela parece-se é comigo, Jesus, o Crucificado na Cruz do Império. E, como eu, também ela é Crucificada. Não lhe perdoam que ela se tenha libertado do Medo; que tenha largado de vez o estado de Submissão e de Menoridade em que ainda vive a maior parte das populações e dos povos; se tenha enchido de Sabedoria e, graças a ela, tenha chegado à Liberdade e à Maioridade.

 

17 Marta não terá entendido nada desta linguagem de Jesus. A narrativa de Lucas não o diz. Sinal de que Marta ficou na dela. Só Maria, irmã de Marta, mas nos antípodas da sua irmã, seguiu com Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana. A trindade dos Poderes que Marta representa prosseguiu na sua. E a prova é que matou Jesus, na Cruz do Império. Não quer saber dele para nada. Só dela própria, enquanto trindade dos Poderes. Para que o Medo continue aí a gerar e a alimentar populações em estado de Submissão e de Menoridade. Felizmente, a Sabedoria, geradora de Liberdade e de Maioridade, mesmo Crucificada, é que anda carregada de futuro. E só quando as populações e os povos do mundo saírem do Medo e acolherem a Sabedoria, que é Jesus, o Crucificado pela trindade dos Poderes, passarão, finalmente, da Submissão e da Menoridade à Liberdade e à Maioridade. Serão, finalmente, como Maria, a irmã de Marta! Nos antípodas de Marta!

 

Capítulo 14

 

1 O pior que pode acontecer à Sabedoria é cair nas mãos dos sabedores /doutores. Reduzem-na logo a Saber. No pior dos casos, a mero conceito. No menos pior dos casos, a mera doutrina. A mera filosofia que explica o Mundo, mas nunca transforma o Mundo. A mera economia que produz riqueza, mas nunca distribui a riqueza produzida segundo as necessidades de cada qual. A mera literatura que fabrica universos que não existem realmente, enquanto deixa completamente no esquecimento ou à margem os universos concretos que realmente existem e carecem de ser maiêutica e politicamente  acompanhados. A mera retórica que discursa, discursa, discursa, mas nunca mexe um dedo para mudar a realidade; nunca chega a ser profecia; muito menos chega a ser Prática Política Maiêutica e Duelo Teológico que desmascara e desacredita a Idolatria Organizada. Os sabedores /doutores sempre desconhecem que a Sabedoria é uma pessoa. Um ser humano. Um ser humano com Projecto que vale mais que a sua própria vida individual. Um ser humano que o é tanto mais, quanto mais Fragilidade Humana é. O seu nome é Jesus, o carpinteiro. O filho de Maria. E o Projecto é o Reino /Reinado de Deus em edificação na História. Sempre ferozmente combatido pelo Império de turno, com a bênção do Templo-mor de turno.

 

2 Até a Palavra de Deus, quando cai nas mãos dos sabedores /doutores fica logo reduzida a mera doutrina. Quase sempre, a mero Moralismo, o que é ainda mil vezes pior. As parábolas com que a Palavra de Deus literariamente se diz e se transmite são apenas parábolas. Nunca chegam a ser Revelação. Apocalipse. Os relatos são apenas relatos. Nunca chegam a ser Acções Económicas e Políticas Maiêuticas. Muito menos Duelos Teológicos desarmados. As narrativas são apenas narrativas. Nunca chegam a ser uma pessoa concreta-em-acção. Um ser humano concreto-em-acção. Uma pessoa, um ser humano com Projecto Político Global que vale mais que a sua própria vida individual. Porque o Projecto é, em si mesmo, a própria Vida-em-Acção, na qual cada vida individual, um dia Aconteceu e sucessivamente Acontece, adquire pleno sentido e durabilidade eterna, sem fim à vista. Já que até a própria Morte individual tem, no seu bojo, tudo de Explosão /Criação de novos e surpreendentes universos, mediante a qual cada EU SOU concreto que somos todos e cada um dos seres humanos, passa a ser. Definitivamente.

 

3 Vejam, por exemplo, o que, ao longo dos séculos, temos feito à própria Bíblia, essa pequena-grande biblioteca de 73 livros, pelo menos, na chamada versão católica. Desde que a Bíblia caiu nas mãos dos sabedores /doutores, tem servido para tudo. Até para justificar os piores e os mais hediondos crimes. A mais hedionda e humilhante Idolatria. De resto, não foram os sabedores /doutores que, quando a Sabedoria, um dia, inopinadamente, se fez carne, se fez a máxima Fragilidade Humana, concretamente, se fez Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, saíram logo a correr a ter mão nele, cercaram-no por todos os lados, caluniaram-no do pior, disseram que ele estava possesso do Diabo, que é o mesmo que dizer que estava absolutamente "louco", que era o ser humano mais demente-demente e mais perigoso, entre todos os seres humanos, e que a Humanidade só voltaria a recuperar a sua saúde e o seu equilíbrio institucionais, quando se desfizesse por completo dele? Não foi até por isso que, quando decidiram matá-lo e o mataram mesmo, recorreram a um género de morte, tido na altura, como o mais indigno, concretamente, a Cruz do Império, para que, desse modo, até o nome dele fosse para sempre impronunciável no decurso da História e até a sua memória fosse tida para sempre como indigna, como maldita?

 

4 O nosso Mundo está hoje como está, porque, quase desde o início, caiu nas mãos dos sabedores /doutores, os quais, onde estiverem activos, expulsam logo os poucos sábios, mulheres e homens, com que esbarrarem. A Sabedoria não tem, nunca teve, nunca terá lugar nos palácios dos sabedores /doutores. As próprias universidades - as confessionais e as laicas - são todas outros tantos antros de luxo do Saber. Não. Não são casas-ventre de Sabedoria. A Sabedoria nunca tem lugar nas universidades. Se tivesse, estas seriam frequentadas por muito poucas pessoas. Provavelmente, até estariam desertas. Como, ao contrário, são outros tantos antros de luxo dos sabedores /doutores que existem para formar mais sabedores /doutores, as universidades estão hoje a abarrotar de estudantes, candidatos a sabedores /doutores. São antros de luxo do Saber; não são casas-ventre da Sabedoria.

 

5 De resto, o Saber anda sempre casado com o Poder. Todos os sabedores /doutores são Poder. E fora dos sabedores /doutores não há Poder. A Sabedoria é a Fragilidade Humana. Não é a Opulência. Não é o Poder. A Sabedoria só se dá bem no Deserto. Não nos palácios dos reis. Nem nas catedrais. Nem nas universidades. É no Deserto que a Sabedoria é fecunda. E quanto mais Crucificada, mais fecunda. Exactamente, como o grão de trigo caído na terra. Ao morrer, é que dá muito fruto. Um fruto que, ao aparecer /manifestar-se - Epifania - é logo perseguido por todos os sabedores /doutores em conluio com todos os do Poder Político e Armado, os do Poder Religioso-Eclesiástico, e os do Poder Financeiro. Não diz o Evangelho de Mateus, num paradigmático relato teológico carregado de Sabedoria, que o rei Herodes, ao ouvir dizer que Jesus havia nascido em Belém, convocou de imediato os sabedores /doutores de Jerusalém para ser por eles informado de tudo acerca daquele perigoso, subversivo, conspirativo menino? E não diz, depois, que esse mesmo rei Herodes, devidamente informado de tudo pelos sabedores /doutores, logo ali deliberou matar aquele menino?

 

6 Ao longo dos séculos, os sabedores /doutores foram sempre e continuarão a ser, nos séculos futuros, os primeiros a ler esta paradigmática notícia teológica do Evangelho de Mateus. Só que, depois, limitam-se a reproduzi-la até à náusea, nas suas aulas de exegese bíblica, nas suas catequeses, nos seus sermões, sem nunca, em tempo algum e em lugar algum, chegarem a ver-se a si mesmos nesse mesmo papel. Igualmente, os sacerdotes de todos os cultos religiosos. São capazes de ler e comentar esta paradigmática narrativa teológica, mas nunca se vêem a si mesmos reproduzidos nesse mesmo papel. Nunca concluem: Estes somos nós. Para tanto, tinham de renunciar ao seu estatuto de Privilégio, tinham de cair do pedestal em que vivem, tinham de derrubar o pedestal, fazerem-se Fragilidade Humana, numa palavra, tinham de fazer-se discípulos da Sabedoria. Tinham de passar a viver em Deserto como a Sabedoria e com a Sabedoria. Tinham de deixar para sempre o Poder a falar sozinho. Tinham de sair /fugir dos Palácios, das catedrais, das basílicas, dos santuários, ligar-se para sempre às inúmeras vítimas do Saber /Poder e passarem (PÁSCOA) a fazer corpo com elas, até acabarem vítimas quanto elas.

 

7 Um ou outro entre eles pode, aqui e ali, fazê-lo, mas a esmagadora maioria dos sabedores /doutores jamais o faz. Pelo contrário, ainda por cima continuam aí todos a trabalhar dia e noite para que nenhum dos seus faça semelhante coisa. E, quando não conseguem impedir que algum dos seus o faça, logo os principais deles se reúnem num dos seus antros de luxo do Saber e do Poder e declaram guerra àquela, àquele que traiu a corporação dos sabedores /doutores. Nunca mais essa, esse terá sossego na vida, nem qualquer credibilidade perante os sabedores /doutores. É excomungado por eles. Banido. Aniquilado. Reduzido a menos que Ninguém. E, ao descer assim tão baixo (de Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana, diz a Bíblia que ele desceu tanto, tanto, tanto, que já nem sequer aspecto Humano tinha e até o seu cadáver crucificado, depois de retirado da Cruz do Império, foi atirado à vala comum!), acontece que, algum tempo depois, já nem sequer as vítimas o acolhem entre elas e com elas. Chega a ser considerado indigno, aos olhos até das próprias vítimas humanas dos sabedores /doutores. E são essas vítimas, quase sempre, as primeiras a oferecerem-se para vaiar quem, depois de ter desperdiçado a oportunidade de ter tudo na vida - para tanto, bastava ter-se mantido, como mais um, entre os sabedores /doutores - deitou tudo a perder, só para se poder tornar, pelo menos, aprendiz de discípula, discípulo da Sabedoria, a Fragilidade Humana feita Jesus, e Jesus Crucificado.

 

8 Conta o Evangelho de Mateus (25, 14-30), que a Sociedade alternativa à Sociedade do Saber /Poder Político e Armado, a Sociedade fundada na Sabedoria /Fragilidade Humana, entende-se bem melhor, se a pusermos em confronto com um homem rico que, ao partir para longe, chamou os servos e confiou-lhes os seus bens. A um deu cinco talentos [o correspondente, na época, a 180 quilos de ouro], a outro deu dois e a outro deu um, conforme a capacidade de cada qual. Os dois primeiros meteram-se logo a negociar com os talentos recebidos e conseguiram dobrar a parada do que haviam recebido do seu patrão ou dono. São depois louvados /premiados pelo seu senhor que, em recompensa, confia-lhes outras missões muito mais importantes na linha do Saber /Poder. O terceiro, ao contrário dos outros dois, mal recebeu o talento, foi a correr cavar um buraco na terra e esconder lá o talento do seu senhor. Quando, depois do regresso do seu senhor, se apresenta perante ele, diz-lhe: "Sempre te conheci como um homem duro, que ceifas onde não semeaste e recolhes onde não espalhaste. Por isso, com medo [negrito meu], fui esconder o teu talento na terra. Aqui está o que te pertence". O senhor dele, ao ouvir semelhante confissão, fica furioso com o servo. Chama-lhe "servo mau e preguiçoso". Manda tirar-lhe o talento e dá-lo ao que recebeu cinco talentos e havia ganho outros cinco. Diz textualmente a parábola: "Tirai-lhe o talento e dai-o ao que tem dez talentos. Porque ao que tem será dado e terá em abundância; mas ao que não tem, até o que tem lhe será tirado". E acrescenta: "A esse servo inútil, lançai-o nas trevas exteriores; ali haverá pranto e ranger de dentes".

 

9 Saibam que o pior que se pode fazer - e, infelizmente, sempre se fez até hoje - é deixar cair esta parábola (e todas as outras) nas mãos dos sabedores /doutores. Eles interpretam-na sempre a partir dos seus próprios universos, os dos antros de luxo que são as suas universidades e Faculdades de Filosofia e de Teologia, ou os palácios dos reis, ou as empresas transnacionais, ou os Bancos nacionais, ou o Banco Mundial, ou as basílicas e as catedrais dos bispos residenciais, onde todos eles são reconhecidos pelos respectivos pontífices do Poder Político Armado, do Poder Religioso-Eclesiástico e do Poder Financeiro que lhes paga e garante os privilégios de que desfrutam por toda a vida. Mas é o que, em todos estes séculos passados, mais temos feito. Sacrilegamente. Criminosamente. Deixamos cair nas mãos dos sabedores /doutores esta parábola e todas as outras parábolas de Jesus. Pior. O próprio Jesus. E toda a Bíblia.

 

10 O resultado desta nossa demissão, desta nossa preguiça intelectual, bíblico-teológica, só pode ser perverso. Já que os sabedores /doutores, no que respeita à Sabedoria, são sempre os mais cegos dos seres Humanos. Os Privilégios com que institucionalmente se apresentam vestidos e com que se alimentam todos os dias cegam-nos totalmente, e eles não chegam nunca a ver o Invisível, nem chegam nunca a escutar o Essencial. Não enxergam nunca a Sabedoria, a Fragilidade Humana, Jesus, o filho de Maria. Aliás, a Sabedoria sempre se apresenta Crucificada, sempre é Crucificada com o aval, o veredicto e a bênção dos sabedores /doutores, alguns dos quais são também sacerdotes. Como poderão eles enxergá-la? Sobretudo, como poderão fazer-se discípulos dela, se a Sabedoria aos olhos deles é a Loucura, é o Fracasso, é a Derrota, é a Perda, é o Fiasco, é o Indigno por antonomásia, o Maldito por antonomásia?

 

11 Na sua demência-demência, os sabedores /doutores chegam a confundir este senhor da parábola de Mateus, que partiu para longe e, antes de partir, confiou os bens que possuía aos seus servos que estavam dia e noite e incondicionalmente ao seu serviço, com o próprio Deus, o de Jesus. É a demência das demências! A blasfémia das blasfémias. Como se Deus, o de Jesus, alguma vez, fosse, pudesse ser, fonte de Medo, quando Ele é, só pode ser, a Fonte da Liberdade e da Maioridade Humana. Ou como se Deus, o de Jesus, tivesse, pudesse ter, servos dia e noite ao seu incondicional serviço, quando apenas tem, só pode ter, filhas, filhos e o que mais quer, mais pode querer, é que todas, todos cresçamos em Sabedoria e em Graça e vivamos na História em estado de Liberdade e de Maioridade, outros Jesus. Nunca mais no Infantil e no Medo, muito menos na Ganância e no Roubo /na Exploração. No Acumular /Concentrar a Riqueza em poucas mãos.

 

12 Ou como se Deus, o de Jesus, alguma vez fosse para longe, pudesse ir para longe e deixasse, pudesse deixar, a sua casa - a Criação - entregue aos servos, quando Ele sempre é, só pode ser, dia e noite, mais íntimo a nós do que nós próprias, nós próprios, para que todas, todos nós sejamos dons, dádivas uns para os outros, mulheres /homens Pão Partido e Vinho Derramado pela vida do Mundo. Ou como se Deus, o de Jesus, alguma vez premiasse, pudesse premiar, os grandes exploradores, os grandes financeiros, os grandes banqueiros que fazem dinheiro com dinheiro, sem nunca chegarem a produzir qualquer riqueza, ou, quando a produzem, mantêm-na depois Acumulada e Concentrada nas suas poucas mãos; e, depois, ainda por cima, fosse tirar às maiorias empobrecidas do Mundo o pouco que elas têm ou que não têm, para o dar aos que têm mais, quando, afinal, Ele é, só pode ser, DeusVivo-Pura-Graça, Puro-Dom, Pura-Dádiva que salva /reabilita todos os Humanos, a começar pelas vítimas dos exploradores, sem nunca se esquecer dos mais perdidos de todos os Humanos que são esses mesmos exploradores que, de tão perdidos, acabam por tornar-se perdedores /assassinos de muitas, muitos.

 

13 Esta parábola de Mateus - um monumento de Teologia, a de Jesus, e de Sabedoria feita Fragilidade Humana - revela, com claridade meridiana (só mesmo os sabedores /doutores ao serviço do Poder Político-Armado, do Poder Religioso-Eclesiástico e do Poder Financeiro é que não vêem, porque são cegos que querem sê-lo por toda a vida, para, assim, desfrutarem de Privilégios sem conta), como é a Ordem Mundial concebida e alimentada pelos sabedores /doutores. É uma Ordem Mundial que reduz todos os ser humanos, que lhe não resistam e com ela até passem a cooperar, a servos, a escravos, a súbditos, a coisas. É uma Ordem Mundial que mantém os seres Humanos, os povos, por toda a vida no Infantil. No Medo. Ou então na sagacidade mais demente-demente, que leva, quem dela está apetrechado - todos os sabedores /doutores - à Exploração mais desenfreada e global, ao Poder mais absurdo e mais cruel, à Idolatria mais mentirosa e assassina que atiram as populações e os povos, hoje ainda mais do que ontem, para as "trevas exteriores", para as periferias, para os bairros degradados, onde viver mais não é do que choro e ranger de dentes, dia e noite, e uma geração após outra!

 

14 Neste tipo de Ordem Mundial, concebida, justificada e alimentada pelo Saber e pelos sabedores /doutores, em vez de pela Sabedoria /Fragilidade-Humana-Jesus e pelas suas discípulas, pelos seus discípulos, todos os seres humanos, ou somos do número dos Opressores /Exploradores /Mentirosos /Assassinos / Corruptos / Violadores / Tiranos, ou somos do número das vítimas destes e, como tais, ficamos por toda a vida Lesmas, Infantis, Cheios de Medo, Cheios de Religião (o Medo criou os deuses!), Canalhas, Súbditos, sempre a correr para os Templos, Tolhidos, Paralíticos, Cegos, Surdos, Mudos, numa palavra, Lázaros mortos e sepultados há quatro dias, a vivermos todos os dias atados de mãos e de pés, e com uma venda nos olhos! Por outras palavras, ou somos do número dos Crucificadores e, pelo menos, cúmplices passivos dos Crucificadores que todos os dias caluniam, perseguem e matam quem conspira contra a Ordem Mundial dos sabedores /doutores e desmascara os seus crimes,  por mais disfarçados de virtude que eles se apresentem, ou somos do número dos Crucificados, por conspirarmos todos os dias contra a Ordem Mundial dos sabedores /doutores e estarmos a tentar dar corpo, nos nossos fragilizados e desarmados corpos, a uma Ordem Mundial alternativa, o Reino /Reinado de Deus, constituído por Povos em progressivo estado de Liberdade e de Maioridade, em que cada qual dá o melhor de si para o bem de todos e tudo é de todos, segundo a necessidade de cada qual. De que número é que somos?!

 

Capítulo 13

 

1 Querem-nos a viver permanentemente na Demência-demência. Não nos querem a viver permanentemente na Sabedoria, na Sapiência-sapiência. Tudo está organizado para que as pessoas e os povos nunca se encontrem consigo mesmos. Nunca cheguem à Autonomia, à Maioridade, à Liberdade. Numa palavra, nunca sejam sábias, sábios. Quando muito, sabedores /doutores. E, mesmo assim, nem todas as pessoas, nem todos os povos. Só uma minoria. Uma elite privilegiada. As maiorias deverão permanecer toda a vida ignorantes. Toda a vida tuteladas. Pela elite dos sabedores /doutores. Só pode ser. Já que as pessoas sábias, os povos sábios nunca tutelam ninguém. As pessoas sábias e os povos sábios, entre as maiorias e com as maiorias no meio das quais vivem, todos os dias, sempre despertam autonomias, maioridades, liberdade. Nunca tutelam ninguém. E esse é, de resto, o dramático do ser-viver das pessoas sábias, dos povos sábios. Como nunca tutelam ninguém, ao contrário, sempre despertam autonomias, maioridades, liberdade, nem sequer as maiorias gostam delas, deles.

 

2 As maiorias, todas as maiorias, sempre gostam de ser tuteladas. Têm um medo que se pelam da autonomia, da maioridade, da liberdade. Correm para as elites dos sabedores /doutores. Evitam as pessoas sábias e os povos sábios. Não vão nunca na sua peugada, nem no seu exemplo. Não querem ter nas pessoas sábias e nos povos sábios uma referência para as suas vidas. Dizem, até, à guisa de autojustificação, que a Sabedoria não enche barriga. Não dá emprego. Não traz benefícios materiais. Não faz subir na vida. Não ajuda a fazer carreira. Apenas torna espantosamente Humanas, sororais /fraternas as pessoas e os povos. Mas isso o que é, numa Sociedade como a nossa, em que tudo está em função do Mercado? E em que só quem tem unhas é que toca guitarra? Por isso, à Sabedoria, preferem o Institucional e os seus sabedores /doutores,

 

3 Tudo está organizado na Sociedade para que as pessoas e os povos, na sua esmagadora maioria, nunca cheguem a ser sábias, sábios. E quando digo "tudo", é mesmo tudo. O Institucional, no seu fervilhar de instituições, as mais diversas, trabalha dia e noite, sem descanso, para as pessoas e os povos nunca cheguem a ser sábias, sábios. O Institucional sabe - é sabedor /doutor e, por isso, sabe - que pessoas sábias, os povos sábios são pessoas, povos que depressa o dispensam. As pessoas sábias, os povos sábios nunca são pessoas tuteladas, povos tutelados. Nem tutelam, nem são tuteladas, tutelados. No dia em que as pessoas forem todas sábias, os povos forem todos sábios, o Institucional perde a sua razão de ser. E isso, o Institucional jamais poderá consentir. Desapareceria da História. Passaria a objecto de museu. Coisa do passado. Fóssil.

 

4 É por saber isso que o Institucional não olha a meios para fazer pessoas, povos sabedores /doutores. E também não olha a meios para impedir que as pessoas, os povos cheguem a ser pessoas sábias, povos sábios. Hoje, as instituições do Institucional são mais do que muitas. E todas superorganizadas. A sua frequência, por parte das pessoas, dos povos, não só é estimulada, como chega a ser obrigatória. Uma criança, por exemplo, ou adolescente /jovem que não frequente a escola, tem a GNR, alguns dias depois, à porta. E a família em causa sofre represálias, por parte do Institucional Estado, se não mudar de comportamento em relação ao menor. Mas será que o Institucional Estado está deveras empenhado em que as pessoas, os povos sejam sábias, sábios?

 

5 Desenganem-se. O Institucional Estado apenas está empenhado em formatar as pessoas, os povos, em cada geração, para que elas, eles sejam o que ele quer que elas, eles sejam. Os mais capazes, das pessoas, dos povos, verão abrir-se diante deles as portas do sucesso, para fazerem brilhante carreira. Subirão na vida. Algumas, alguns, até ao topo. Mas sempre tuteladas, tutelados. Serão, porventura, os maiores sabedores /doutores, aos quais o Institucional confiará tarefas de grande responsabilidade, a troco de benesses sem conta. Mas ai dessas pessoas, desses povos, se, algum dia, caem na conta de que estão a ser tuteladas, tutelados e ousam lançar aos ares o seu grito do Ipiranga. Ai dessas pessoas, desses povos, se algum dia decidem passar de sabedores /doutores a sábias, sábios! Ai delas, deles!

 

6 O Institucional nunca mais lhes larga o pé. Fica de olho nelas, neles. Dia e noite. Até que elas, eles regressem ao estatuto de meros sabedores /doutores e desistam duma vez por todas de serem sábias, sábios. E quase sempre é o que acontece. São então estes sabedores /doutores que, um dia, viram a Luz, a Sabedoria, mas, mais ou menos conscientemente, recusaram ir por ela, que virão a ser, na História, os piores carrascos, os piores algozes das pessoas, dos povos e do próprio Planeta. São Treva Ilustrada, sabedores /doutores sem alma, sem entranhas de Humano, numa palavra, o Perverso-em-acção. Das suas cabeças, saem projectos de destruição em massa. Das suas mãos, saem iniciativas, as mais cruéis. Viram a Luz, a Sabedoria, e negam-na, para poderem continuar a viver na Treva, no Saber, que faz delas, deles sabedores /doutores de primeira grandeza, no universo dos Privilégios. São os mais infelizes dos seres humanos. Meras máquinas humanas geradoras de mal-estar e de infelicidade, à escala global, planetária.

 

7 Tal como o Institucional Estado, também o Institucional Religioso-Eclesiástico está aí totalmente empenhado em formatar as pessoas e os povos que vêm a este mundo, uma geração após outra. Com a agravante de que actua em nome de Deus. Desde o Papa e da sua Cúria Romana ao pároco da aldeia mais ignota da Terra, tudo está eclesiasticamente pensado e a funcionar para impedir que as pessoas e os povos cheguem a ser sábias, sábios. As dioceses, as paróquias, as catequeses, os cultos, as liturgias, as universidades, os meios de comunicação das múltiplas igrejas e congregações, toda a actividade editorial, os santuários, as basílicas, as peregrinações, as viagens do Papa, tudo está pensado, montado e em acção para impedir que as pessoas cheguem a ser sábias, os povos cheguem a ser sábios. Quando muito, cheguem a ser sabedores /doutores, pelo menos, as pessoas, os povos intelectualmente mais dotados, já que às maiorias basta que sejam mais ou menos religiosas, beatas, devotas de imagens de santas e de santos, de nossas senhoras, as mais estapafúrdias e bobas.

 

8 Se repararmos bem, tudo no Institucional Religioso-Eclesiástico gira em função deste objectivo. As pessoas, os povos nunca deverão alcançar a autonomia, a maioridade, a liberdade. Sempre haverão de ser pessoas tuteladas, povos tutelados. Sempre hão-de sentir necessidade de recorrer a intermediários, a pastores, a párocos, a bispos residenciais, a sabedores /doutores. Desde o nascer ao morrer. Até para casarem. E para o funeral dos cadáveres dos familiares, quando essa hora chegar. A elite eclesiástica sempre tem de estar aí como uma necessidade absoluta que as pessoas, os povos jamais poderão dispensar. Seria o caos, dizem-nos, a toda a hora e instante. Comer-nos-íamos uns aos outros, voltam a insistir, uma e outra vez. De modo que só o simples acto de pensarmos uma Sociedade sem todo esse exército de intermediários, chega a parecer uma impossibilidade. Pior, um absurdo. E atrever-se a formular semelhante hipótese já é tido como subversão, coisa demoníaca, perversa. Isto diz, obviamente, o Institucional Religioso-Eclesiástico. Para que as pessoas e os povos nunca cheguem a ver que o que é verdadeiramente perverso é a existência do Institucional como tal. Nomeadamente, a partir do momento em que o Institucional "pensa" que veio para ficar. Em vez de "pensar" que veio para progressivamente desaparecer, até se tornar de todo dispensável, inútil.

 

9 Vivemos hoje, mais do que ontem, sob o domínio dos Sabedores /Doutores. Esta é a pior das ditaduras. A pior das tiranias. E nem damos por elas. São os sabedores /doutores que dão corpo ao Institucional. Fazem as leis. Criam toda a gama de instituições, fora das quais a vida humana chega a parecer-nos inviável. Nascemos sob a tirania e a ditadura do Institucional. Crescemos sob a tirania e a ditadura do Institucional. Vivemos por toda a vida sob a tirania e a ditadura do Institucional. E morremos sob a tirania e a ditadura do Institucional. O mais preocupante é que achamos tudo isto natural. E procuramos meter-nos nos moldes, nas formas, que o Institucional criou e impõe a todas as pessoas e a todos os povos.

 

10 Parece que somos pessoas, povos. Mas só parece. Na verdade, somos pessoas tuteladas, povos tutelados. Somos pessoas formatadas, povos formatados. Todas, todos pronto-a-vestir. O Essencial da Vida passa-nos ao lado. Ocupamo-nos com as coisas mais banais e as mais venais. Somos uns tristes. Uns frustrados. Umas lesmas. Sem Projecto que nos galvanize e humanize. Sem vontade própria. Sem originalidade. Sem criatividade. Sabedores /doutores, o bastante, apenas para servirmos o Institucional e o Institucional se servir de nós. Sem nunca chegarmos a ser nós próprias, nós próprios. Sem nunca chegarmos a ser Eu. Sem nunca chegarmos a poder dizer EU SOU! Porque no dia em que isto acontecesse, o Institucional estremeceria e cairia diante de nós. Perante um EU SOU, o Institucional não o é mais. Cai por terra. Fica apenas o Ser Humano. Fica a Autonomia. Fica a Maioridade. Fica a Liberdade.

 

11 O Institucional, todo o Institucional, sabe disto. E trabalha dia e noite, sem olhar a meios, governativos, judiciais, financeiros, escolares, militares, policiais, tecnológicos, de comunicação, para que tal nunca venha a acontecer. O caminho para lá chegarmos é a Sabedoria, não o Saber. Pessoas sábias, povos sábios são Autonomia-em-acção, Maioridade-em-acção, Liberdade-em-acção. São EU SOU-em-acção! Multiplicados por milhões, milhares de milhões. Só quando chegarmos aí, a esse patamar, o Humano estará ao leme, ao comando do Mundo. E com o Humano, a Sabedoria. O Institucional, todo o Institucional trabalha que se farta e investe que se farta para que esse Dia nunca chegue. Cabe a nós, pessoas e povos, contrariá-lo, impedir que ele leve a dele avante. A Luta é duélica. Martirial. Mas inevitável. As pessoas sábias, os povos sábios entraremos nela, tais quais somos. Simplesmente Humanos. Desarmados. A Fragilidade feita pessoas, feita povos. Só assim, ganharemos o Futuro.

 

12 Jesus, o de Nazaré, é a nossa Luz, a nossa Sabedoria. Os sabedores /doutores do seu tempo e país surpreendem-se com a Sabedoria que sai da sua boca e das suas mãos. E dizem, entre o intrigado e o sarcástico: não é ele o carpinteiro, o filho de Maria? Os seus irmãos e as suas irmãs não estão aqui entre nós?! Mas Jesus, que tudo ouve, não se deixa perturbar. É o Caminho, a Verdade e a Vida. E não se desvia nem um milímetro do que é. Os do Institucional não lhe perdoam. Tentam-no de todos os modos. Em vão. Ele é o Caminho e percorre-o até ao fim. Ele é a Verdade e pratica-a até ao fim. Ele é a Vida e vive até para lá da Morte. Ao vê-lo em acção, vemos a Sabedoria, vemos o Ser Humano Sábio. Os do Institucional perceberam depressa que, deixar viver este Homem Sábio, era o mesmo que assinar a sua própria extinção pura e simples. E que iriam fazer depois, sem o Institucional à sombra do qual viviam, vivem, enriqueciam, enriquecem, eram respeitados, são respeitados?

 

13 Decidem então matar Jesus, não sem antes tudo terem feito para o atrair às suas fileiras, às suas elites privilegiadas. Ou o Institucional, com todo o arsenal de instituições em que ele se materializa, ou Jesus. Não havia alternativa. Ou o Institucional ou Jesus. E não hesitaram. Mataram Jesus, para salvarem o Institucional, à sombra do qual viviam, vivem, engordavam, engordam. E mataram-no no género de morte, a Cruz do Império, que o matava para sempre, já que o constituía como o Maldito dos malditos. Desconheciam, sempre desconhecem - os sabedores /doutores são os mais infelizes dos seres e os mais frustrados, por isso, precisam de se enfeitar tanto e de se mascarar tanto, para parecerem outra coisa, nunca o que verdadeiramente são! - que há sempre um terceiro dia que não consta nos calendários do Institucional. E que as pessoas sábias, os povos sábias são as únicas, os únicos que conhecem.

 

14 Ora, é no Terceiro Dia que já vivem, desde agora, as pessoas sábias, os povos sábios. Os do Institucional ignoram tudo a esse respeito. São cegos que guiam outros cegos. Por isso estão aí a levar o Mundo para o Abismo. Cabe-nos, pessoas, Povos, fugir deles, evitá-los, não consentir que tenham influência em nós. Por outras palavras, cabe-nos ser pessoas sábias, povos sábios. E vivermos cada vez mais longe do Institucional, dos seus sabedores /doutores. Alimentados exclusivamente pela Sabedoria que é Jesus, a Luz do Mundo. De olhos da Mente cordial postos no Invisível. De mãos livres agarradas ao Essencial. Outros EU SOU como Jesus. Outros Caminho-no-Caminho, Verdade-na-Verdade e Vida-na-Vida que é Jesus, o Alfa e o Ómega da Humanidade Sapiente-sapiente, sem mais necessidade do Institucional, nem dos seus homens de mão, os sabedores /doutores. Quem de nós se atreve?

 

Capítulo 12

 

1 Ao contrário do Poder que só se dá bem a vencer, a esmagar, a excluir, a atropelar, a roubar, a mentir, a fingir, a matar e a destruir, a Sabedoria só se dá bem a fazer crescer as pessoas e os povos, a promover autonomias, a libertar dos medos as pessoas e os povos, a suscitar e a alimentar maioridades, a distribuir por todos, os bens de que todos necessitamos para sermos-vivermos em plenitude humana, a despertar o que há de melhor e de mais genuinamente Humano em cada ser humano e em cada povo. Só a Sabedoria garante futuro à Humanidade. O Poder é de sua natureza ladrão e assassino e faz da mentira a sua principal arma. Mesmo assim, é o Poder que hoje mais atrai as pessoas e os povos. A Sabedoria é olhada com desdém por todos, até pelas próprias maiorias vencidas e oprimidas. A Sabedoria é a Fragilidade e veste Fragilidade. Ninguém - ou muito poucos - a reconhece como via a ser percorrida para nos tornarmos Humanos. Quase toda a gente só vê no Poder a via de se afirmar, de sair da sua condição de Humilhado. Eis o grande Engano. A Grande Mentira! Mas que continua aí a recolher a adesão da esmagadora maioria dos seres humanos e dos Povos. Inclusive, das vítimas.

 

2 O Poder tem sempre, logo à partida, as pessoas e os povos na mão. Mal nascemos, começamos de imediato a posicionar-nos no terreno, para deixarmos os mais fragilizados para trás. O vencedor é o herói, o aclamado, o laureado, o reconhecido, o ovacionado. E todos os mais, até os vencidos, se apresentam diante dele a felicitá-lo e a prestar-lhe vassalagem. O ritual social assim obriga e assim se cumpre. O leme ou o comando do país e do Mundo é de quem vence, nunca de quem é vencido. Só no Reino da Sabedoria, as coisas serão pensadas e urdidas de modo inverso. Os vencidos serão sempre os mais escutados, os mais tidos em consideração. Só nas mãos dos vencidos, o leme ou comando do país e do Mundo estará bem entregue. Mas isto será um Mundo às direitas. O que temos, é o Mundo do Poder, um Mundo às tortas. Demente-demente. Sem que cheguemos sequer a dar por isso. É um Mundo de pernas para o ar. Mas nós pensamos que é um Mundo às direitas. Cegos, que somos!

 

3 Os vencidos são a esmagadora maioria das pessoas do Planeta. Todos os povos da terra são povos vencidos. Mesmo aquele povo que, entre os demais povos, se tem na conta de vencedor, como é o caso do Povo do Império de turno, na realidade, é também ele um povo vencido. Porventura, até o mais vencido de todos. As suas elites afirmam-se sobre ele e ele é levado a rever-se nelas, a confundir-se com elas. Mas são sempre as elites do Império, não o povo, quem detém o Poder e quem tudo decide, na vez dele. Nunca é o povo a decidir. As coisas estão pensadas e organizadas para funcionarem assim. E ninguém, mesmo entre os chamados intelectuais, se atreve a pensar de outra maneira. De resto, é timbre dos chamados intelectuais pensarem as coisas assim. Nomeadamente, quando são intelectuais sobre os povos, não intelectuais orgânicos com os povos. Coisa cada vez mais rara nos tempos que correm.

 

4 Intelectuais orgânicos, sempre houve, mas sempre muito poucos. E intelectuais orgânicos, por toda a vida, ainda muito menos. Há quem ainda comece, mas depressa se deixa de sonhos e de utopias. E, com o avançar da idade, acaba rendido à sedução do Comodismo e do Aburguesamento. O Privilégio fala mais alto que a Liberdade. A mesa farta e garantida para o resto da vida é mais sedutora que o simples e precário Pão Nosso de cada dia. E poucos são os intelectuais que resistem a tão suculentos pratos de lentilhas. Passam-se com armas e bagagens para o bando do Poder. Os mais escrupulosos, para o Poder de Oposição ao Poder Executivo. Neste caso, o discurso deles ainda soa a discurso de Intelectual orgânico, mas é totalmente estéril. A grande Palavra que o Poder não suporta é a que brota de um viver orgânico, por toda a vida, com as maiorias vencidas, com as vítimas. Mesmo que o intelectual orgânico nunca faça um discurso inflamadamente revolucionário, o seu viver orgânico é a grande e fecunda palavra que o Poder vencedor mais teme. Mais vigia. Mais controla. Mais tenta desacreditar!

 

5 Entre Poder e Sabedoria é preciso escolher. Só que, à partida, tudo está já montado para que as pessoas que vêm a este Mundo, sejam todas levadas a escolher a via do Poder. A via da Sabedoria fica de fora das escolhas da esmagadora maioria das pessoas. É a única que humaniza quem a protagoniza. Mas não seduz. Depressa percebemos que quem quiser afirmar-se e ficar por cima dos demais nunca escolherá a Sabedoria. Sempre escolhe o Poder. E o Poder que estiver melhor posicionado para sair vencedor no mais curto espaço de tempo. O Mundo é então um planetário covil de ladrões. De mentirosos. De assassinos. De malabaristas. De demagogos. De mercenários. Seres Humanos, a crescer em Humano, são raros. Podemos procurá-los de lanterna na mão. Não os encontramos.

 

6 Nem Jesus, o Ser Humano que levou o Humano ao limite e para lá do limite, conseguiu descobrir outros Humanos como ele. Esforçou-se por isso. Chamou-os. Escolheu-os, um a um. Chegou a pensar que havia encontrado. Mas, no final, percebeu que até ele se havia equivocado. Aqueles homens haviam deixado tudo, mas só na mira de virem a ganhar tudo. Desde o princípio, sonharam com os primeiros lugares no novo Reino. Viram, depois, que, afinal, nem Reino havia. Muito menos, primeiros lugares. Havia apenas a Cruz do Império para quem ousasse manter-se na via da Sabedoria até ao fim. Sábia, sábio, no reino do Poder, do Império, só mesmo Crucificada, Crucificado. Que o Poder não faz as coisas por menos. Quem não é por ele, é contra ele. E ele não tolera opositores. Só adoradores. Só vassalos. Súbditos. Aos opositores crucifica-os!

 

7 Na Sabedoria, o reino é a própria Sabedoria. Só que a Sabedoria é a Fragilidade. Não tem lugares para oferecer, muito menos, primeiros lugares. Isso faz o Poder. A Sabedoria, ao contrário do Poder, é Dádiva, é Entrega, é Pão Partido, é Vinho Derramado. Onde acontecer, faz pessoas e povos dádiva, entregues, pão Partido e Repartido, Vinho Derramado pela vida do Mundo. O seu Reino não se organiza fora dos seres humanos, fora dos povos. Rebenta como fonte dentro dos próprios seres humanos, dos povos. Cresce com os seres humanos, com os povos. O Reino da Sabedoria são os próprios seres humanos e os povos a crescer, ao leme ou comando do país e do Mundo. No reino da Sabedoria, o Institucional não existe. Existem só os seres humanos e os povos. Autónomos. Livres. Sujeitos. Protagonistas. Em estado de Maioridade. Sem necessidade de tutores, nem de intermediários. No Reino da Sabedoria não há lugar para o Poder. Só para os seres humanos e os povos. Ao contrário, no reino do Poder não há lugar para a Sabedoria. Tão pouco há lugar para os seres humanos e os povos. Só há lugar para o Poder. As elites estão ao leme ou comando do país e do Mundo. As maiorias são suas vítimas. Esmagadas. Subjugadas. E ainda por cima têm de estar disponíveis para aplaudirem os seus opressores, sempre que eles passarem por perto.

 

8 Vivemos no reino do Poder. Devíamos viver no Reino da Sabedoria. O reino do Poder faz-nos escravos. Inumanos. Vassalos. Só o Reino da Sabedoria nos faz Humanos. Mas quem está hoje disposto a ser Humano, a crescer em Humano? Quando até os intelectuais fogem de ser intelectuais orgânicos e gastam o melhor tempo das suas vidas em demenciais e fratricidas lutas pela conquista do Poder Político, a pretexto de que serão um "bom Poder" a favor das maiorias crucificadas, temos de reconhecer que a Sabedoria não goza hoje de qualquer simpatia junto das pessoas e dos povos. É a única via do Humano, mas ninguém quer entrar por ela. Ou muito poucos, que quase não chegam a fazer História. De resto, a História é sempre escrita pelos vencedores. E não tem páginas disponíveis para dedicar aos vencidos. De modo que dos vencidos não reza a História. Só dos vencedores. Os vencedores não sabem, mas a História reza deles, só para sua vergonha. Eles pensam que é para sua glória. É para sua vergonha.

 

9 Quando, amanhã, a Sabedoria, finalmente, for reconhecida como a única via que faz o Humano chegar à sua plenitude - pode levar séculos ou milénios a chegarmos lá, mas havemos de chegar, ou nunca chegaremos a ser integralmente Humanos - então chegará o tempo da vergonha para os vencedores dos quais a História fala. Em boa verdade, não é bem a História que fala dos vencedores. Porque nem se pode falar de História, enquanto o leme ou comando de cada país e do Mundo estiver nas mãos dos vencedores. Apenas se pode falar de pré-História. A História só começa, quando, finalmente, chegarmos ao Reino da Sabedoria. Sem vencedores, nem vencidos. Só Humanos, simplesmente. Aos vencidos, aos crucificados cabe o papel mais preponderante para chegarmos à Sabedoria. Eles têm de deixar de esperar a sua libertação do Poder e das suas elites. Têm de atrever-se a sair da sua condição de "paralíticos". Têm de atrever-se a levantar-se, a pegar na enxerga em que jazem há trinta e oito anos, isto é, toda a vida, e passar a andar. Contra todas as leis instituídas. Contra o que rezam todos os rituais do Poder instituído. Porque as leis do Poder instituído e os seus rituais não são para serem obedecidos, executados, respeitados pelas vítimas. São para ser desrespeitados, subvertidos, desobedecidos pelas vítimas.

 

10 As vítimas do Poder Político só podem ser conspirativas. Não podem ser subservientes. Nem obedientes. Nem submissas. Têm de ser conspirativas. O Poder não gosta. Mas não há o que lhe fazer. O Poder não tem direito a existir. Só a Sabedoria. Se o Poder insiste em estar aí, em manter-se ao leme ou comando do país e do Mundo, às suas inúmeras vítimas, às maiorias que ele mantém esmagadas, sem voz nem vez, em estado de menoridade, cabe o histórico papel da rebeldia, da Insurreição, da Desobediência, da Insubmissão, da Conspiração. O Poder pode crucificar quem assim se comporta com ele. Nem isso deve levar as vítimas a desistir. Pelo contrário. Por cada crucificado, levantem-se milhares de outros. Para que o Poder Político mostre bem a sua face de Besta, de Mentiroso, de Assassino, de Ladrão, de Descriador do Humano que é. Nos actos oficiais, o Poder Político faz-se passar por bom. Engana os mais distraídos. E chega a convencer até certos intelectuais que desistiram de ser intelectuais orgânicos com as vítimas e os vencidos. Mas, quando os vencidos e as vítimas abandonam a enxerga em que jazem, se levantam sobre os seus próprios pés e se põem a andar, irreversíveis, sem medo nem mesmo da Cruz, o Poder Político tem os dias contados. Só lhe resta mostrar toda a Crueldade de que é capaz. E perderá em toda a linha, quando as vítimas perceberem que ele é assassino e mentiroso.

 

11 Chegará então a Hora da Sabedoria. E com ela, a Hora do Humano. As vítimas e os vencidos tomam o leme ou comando do país e do Mundo nas próprias mãos. São a Fragilidade e é como Fragilidade que se manterão, sem nunca deixarem de o ser. Nunca, em momento algum, recorrerão aos meios do Poder. Passariam de vítimas e de vencidos a verdugos /carrascos e a vencedores. Seria mais do mesmo, apenas com mudança de protagonistas. A Sabedoria é a Fragilidade e sempre será Fragilidade. Sempre se apresenta como é. Humana. Desarmada. De braços abertos. Pode ser Crucificada, que não crucifica. Destrói todas as cruzes. Destrói todas as armas. Transforma as armas em utensílios de produção de bens para todos os povos, segundo as necessidades de cada qual. Não sabe de guerras, nem de bombas. Apenas de Pão Partilhado, de vidas feitas dádiva. E de afectos, muitos afectos.

 

12 Os do Poder não suportam a Sabedoria. Nem a presença de mulheres sábias, de homens sábios. Fazem tudo para as, os ganhar para as posições do Poder. Até benfeitores das vítimas se fazem, se for caso disso. Distribuem subsídios sem conta. São mãos largas. Para que os vencidos, as vítimas pensem que eles são bons e que o Poder é bom. Procedem assim porque são mentirosos, porque são demagogos, porque são ladrões, porque são assassinos, porque são hipócritas. Estamos ainda sob o reino /reinado do Poder Político. Não faltam aí elites e candidatos a elites disponíveis para servirem o Poder. As maiorias oprimidas e vencidas que se cuidem. São muitos os que nos querem paralíticos por toda a vida. Cumpre-nos ser conspiradores por toda a vida. A Sabedoria é a Fragilidade. Mas não é a Cobardia. É a Fragilidade, mas não é a Paralisia. É a Fragilidade, mas é a Conspiração-em-acção. Só a Fragilidade pode ser fecundamente conspirativa. Porque pode acabar Crucificada, sem nunca chegar a ser Crucificadora.

 

13 Esse é o segredo da fecundidade da Sabedoria. É por isso que só a Sabedoria tem futuro. O futuro nunca é dos Carrascos, dos Crucificadores, dos Assassinos, dos Vencedores. Só dos Vencidos, dos Assassinados, dos Crucificados, das Vítimas. Temos, por isso, todos os motivos para vivermos alegres, em paz. Só os do Poder é que vivem em constante sobressalto. Eles sabem que das suas mãos escorre sangue humano. E que as suas vítimas clamam dia e noite contra eles. E não há censura que silencie o clamor dos vencidos, das vítimas. Porque só as vítimas, os vencidos, os crucificados têm um terceiro dia. E não há poder nenhum do Mundo, nem haverá jamais, que consiga impedir que o terceiro dia aconteça. E quando o terceiro dia acontece, o Poder só tem uma saída: tornar-se ainda mais cruel, mais assassino. Só que, com isso, cava ainda mais a sua própria sepultura. Aos vencidos, às vítimas cabe o papel histórico de viverem a conspirar. Dia e noite. Continuamente. Quanto mais reprimidos, mais conspiradores. A Sabedoria, com pessoas e povos em estado de liberdade e de maioridade, está então cada vez mais próxima. Alegremo-nos e conspiremos. Sem descanso! Dia e noite. Sábados e domingos incluídos.

 

Capítulo 11

 

1 A tragédia maior que atravessa /asfixia /estrangula a presente Ordem Mundial Global é ela não ter lugar para a Sabedoria. Tem-se na conta de uma Ordem Mundial Global muito desenvolvida, evoluída, civilizada, ilustrada /sabida, mas continua a não ter lugar para a Sabedoria. Melhor seria que se tivesse na conta de uma Ordem Mundial Global demente-demente, que é o que ela é, selvagem, que é o que ela é, inumana, que é o que ela é, cruel, que é o que ela é, mentirosa, que é o que ela é, assassina, que é o que ela é, idólatra que é o que ela é. Mas não. Tem-se na conta de uma Ordem Mundial Global muito evoluída, muito desenvolvida, muito civilizada, muito ilustrada /sabida, já muito para lá da Idade das Cavernas, do Obscurantismo, da Ignorância, das Trevas. E essa é, sem dúvida, a sua maior tragédia. A sua maior desgraça. Porque, assim, não só não tem lugar para a Sabedoria, como nem sequer está aberta à possibilidade de um dia lhe abrir a sua porta. Sabedoria, acha ela, a Ordem Mundial Global, que já tem a rodos, só porque a confunde com Saber e, sobretudo, com Saber Tecnológico! Mesmo assim, a Sabedoria anda por aí e, hoje, até mais activa do que nunca. Mas anda à total revelia da Ordem Mundial Global. Na mais completa clandestinidade. Como o Vento, que a Ordem Mundial não sabe nunca de onde vem nem para onde vai. Nem nunca saberá. O que a deixa patologicamente perturbada, com necessidade de se armar até aos dentes. Com câmaras de vigilância instaladas em todo o canto e esquina. Dentro em pouco, até no interior de cada casa particular. E, finalmente, no interior da cabeça de cada ser humano. Numa desesperada tentativa de saber, momento a momento, o que cada cabeça de cada ser humano está a pensar /arquitectar /decidir.

 

2 A Ordem Mundial Global só se aguenta e se eterniza assim. Parece um paraíso. O paraíso. É um inferno. O inferno. O inferno global. Toda ela está convertida numa planetária fábrica de produção de vítimas. De um dia para o outro, sobe vertiginosamente o número de vítimas. Diminui, na mesma proporção, o número de privilegiados. Mais um pouco de tempo, e só haverá vítimas. Vítimas enlouquecidas, como aquelas cinco virgens da parábola do Evangelho de Mateus que foram para as bodas da sua vida, mas se esqueceram de levar azeite com elas para alimentarem as suas lâmpadas. O noivo atrasou a sua chegada e, quando, madrugada além, era preciso estar de lâmpadas acesas para o receber, as lâmpadas delas estavam apagadas. E elas ficaram de fora das bodas, onde a Comida que se serve é a Sabedoria, não apenas o Saber. Uma comida, a Sabedoria, que a Ordem Mundial Global não serve, não fomenta, não come, porque nem sequer conhece. Tão pouco quer conhecer. Pelo contrário, sempre que inopinadamente depara com ela, chama-lhe os piores nomes, despreza-a, atira-a para as periferias. E, se ela, mesmo assim, insiste em ir perturbá-la nalgum dos seus redutos fechados e vigiados, a Ordem Mundial Global manda a sua tropa de elite prendê-la e executá-la fora da cidade, num lugar bem alto, para que sirva de lição aos demais. E fique na lista dos Malditos. Dos Não-existentes. Dos Ninguém.

 

3 Sem a Sabedoria para se alimentarem, as populações limitam-se a comer o veneno que lhes é servido pela Ordem Mundial Global. Sem nunca chegarem a perceber que estão a envenenar-se por suas próprias mãos, à semelhança do célebre filósofo Sócrates, da clássica Grécia, que bebeu da cicuta a que foi condenado pelos Sabedores /Doutores da Cidade, sem que fosse necessária a intervenção de um qualquer verdugo ou carrasco, para o obrigar a beber. Ao servir veneno por comida às populações e aos povos, a Ordem Mundial Global serve do que tem. As entranhas dela são por natureza estéreis. São como as entranhas do Espinheiro. As do Espinheiro, só produzem espinhos e abrolhos. As da Ordem Mundial Global, só produzem robots, máquinas, as mais sofisticadas, tecnologia de ponta, cada vez mais avançada. Ela própria, a Ordem Mundial, tornou-se Mercado Global, a abarrotar de filhos seus, perdão, de produtos seus sem conta nem medida, qual deles o mais sofisticado, de encher o olho e de roubar a alma das populações e dos povos.

 

4 Poderiam ser sofisticados instrumentos nas nossas mãos humanas que nos ajudassem a ser, cada dia, mais e mais Humanos. Não são. Isso faria a Sabedoria, que é fecunda por natureza. Gera filhas, filhos humanos em estado de Liberdade e de Maioridade. E chega ao limite de dar a própria vida pela vida do Mundo. Coisa que o Saber é incapaz de fazer. Porque é estéril. E mais do que estéril, é assassino da vida, do Humano. Em lugar de instrumentos nas nossas mãos, esses produtos da Ordem Mundial Global são os nossos novos amos, os nossos novos donos, os nossos novos senhores, os nossos novos tiranos. Dão-nos ordens, substituem-nos, tornam-nos excedentários, reduzem-nos a escravos. Deles e da Ordem Mundial Global. As populações pensam, ao adquiri-los, que levam comida para casa. Levam veneno. Alimentam-se todos os dias com veneno. Acabarão, sem darem por isso, reduzidas a robots, como os que adquirem e comem.

 

5 Nunca como hoje a tecnologia de ponta está aí em toda a parte. A brilhar. A atrair-nos para ela. Parece Luz. Atrai-nos cada vez mais a ela. Torna-se irresistível aos nossos olhos, aos nossos desejos. Estendemos a mão. Adquirimo-la. Damos o último, se for necessário, para a adquirirmos. E comemo-la com voracidade. Logo ficamos confrangedoramente nus. Mas nem damos por isso. Pensamo-nos mais vestidos do que nunca. Até os mais vestidos de todos. Os melhores vestidos entre todos os outros nossos contemporâneos. Só quando, inopinadamente, deparamos com a Sabedoria, feita Mulher, Homem despojado, pobre por opção, não apenas por condenação, ou por produção da Ordem Mundial Global, é que caímos na conta de que estamos nus. E o que fazemos? Se não nos decidimos, na hora, a entrarmos também pela via da Sabedoria, passamos de imediato ao ataque contra ela. Denegrimo-la, caluniamo-la, perseguimo-la. Ostracizamo-la. E, se for necessário, matamo-la. E, assim, prosseguimos, como vencedores, como heróis (todos os vencedores são heróis!), só que cada vez mais prisioneiros /reféns da nossa demência-demência individual, familiar, nacional, continental, global.

 

6 Felizmente, a Sabedoria não é como o Saber. O Saber, quando cai em desgraça aos olhos do seu amo, é despedido na hora, quaisquer que tenham sido os anos de incondicional dedicação ao seu amo. E, uma vez despedido, deixa de ser-existir. Ou dá um tiro na cabeça. Ou entra no Deserto dos derrotados do Saber, à procura de uma legião de outros derrotados do Saber que, antes dele, também caíram em desgraça e foram despedidos na hora. Junta-se um ressabiado com outros ressabiados. Junta-se Ódio com Ódio. Vingança com Vingança. Formam um exército de mercenários. Uma alcateia de esfaimados lobos. E, quando, uma noite de densa Treva, entrarem na cidade, os amos dela que se cuidem. Conseguem infiltrar-se. Ganhar para a homicida causa deles outros ressabiados ainda no activo dentro dos palácios do amo, ainda ao serviço do amo. E, na hora em que menos pensar, o amo será abatido por um dos seus que ele tinha por fiéis. A tiro. Ou, mais discretamente, como fizeram ao papa João Paulo I, o amo da Cúria Romana, com recurso a mortal veneno incolor e que não deixa vestígios no sangue da vítima. A Ordem Mundial Global rejubila, ao saber da notícia. Aclama de imediato os novos vencedores. Reconhece-os como dela. E fica ainda mais poderosa do que antes. Com as populações a virem para a rua em massa a aclamar os novos heróis, os novos amos. Aclamam-nos como vencedores, como libertadores. E eles são. Mas para seu próprio proveito e dos do seu clã. E para proveito da Ordem Mundial Global, sem a qual eles não seriam amos, não seriam vencedores. Seriam Humanos, simplesmente. Irmãos dos demais, de todos os demais.

 

7 Felizmente, a Sabedoria não procede como o Saber. Perseguida, caluniada, ostracizada, crucificada, ela é o Grão de Trigo que morre sob a Terra e dá fruto. Quanto mais perseguida, caluniada, ostracizada, crucificada, amaldiçoada, desacreditada, mais fecunda. Porque a Sabedoria é Luz. É Vida. É Liberdade. É Maioridade. É toda ela Entranhas de Humanidade. É Ternura. É Lucidez Desarmada. É como uma menina. Como um menino. Não sabe de ódios nem rancores. Só de braços abertos. Só de Perdão. Só de Afectos. Só de Entrega de si e da própria vida pela vida de quem a persegue, calunia, maltrata, crucifica, desacredita. A Sabedoria é como a Oliveira que nunca deixa de dar os seus frutos, as suas azeitonas, o seu Azeite. Frutos de mais e mais Sabedoria, a florescer em outras tantas vidas humanas militantes que recusam os caminhos do estéril Saber e jamais trocam a Sabedoria por nada, por nenhuma riqueza, por nenhum título, por nenhum lugar de Poder nesta Ordem Mundial Global da Demência-demência.

 

8 Ao contrário do deserto que os derrotados do Saber frequentam, o Deserto da Sabedoria é Fecundidade-em-Acção. Quem o frequenta, como Jesus, a Sabedoria feita Fragilidade Humana, feita Prática Maiêutica e Duelo Teológico Desarmado até ao limite e para lá do limite, sempre regressa dele ainda mais Humana, até chegar a ser integralmente Humano, de antes quebrar que torcer. Nunca mais a Ordem Mundial Global faz farinha dessas mulheres, desses homens. Permanecerão por toda a vida como Pão Partido e Repartido que se dá a comer, Vinho Derramado que se dá a beber. Não saberão nada de privilégios. Nem de prémios atribuídos pelos seus Sabedores /Doutores da Ordem Mundial e Global . Terão sempre presentes e fazem, até, também suas, aquelas palavras da Sabedoria Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o Ninguém: "Ai de vós, quando todos [os Sabedores /Doutores da Ordem Mundial Global] disserem bem de vós. Era precisamente assim que os pais deles tratavam os falsos profetas" (cf. Lucas 6, 26). A esses prémios e a esses privilégios atribuídos pelos Sabedores /Doutores da Ordem Mundial Global, as suas Hierarquias, as suas Universidades e as suas Academias, as mulheres, os homens da Sabedoria experimentarão como doces favos de mel, os seus desprezos e os seus ódios. Lembrados daqueloutras palavras da Sabedoria Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o Ninguém, palavras que fazem suas também: "Felizes sereis, quando os homens [Sabedores /Doutores da Ordem Mundial Global] vos odiarem, quando vos expulsarem, vos insultarem e rejeitarem o vosso nome como infame, por causa do Homem, do Ser Humano. Alegrai-vos e exultai nesses dias" (cf. Lucas 6, 22-23).

 

9 Dirão então à Sabedoria, os Sabedores /Doutores da Ordem Mundial Global: Mas então, até nós, Sabedores /Doutores da Ordem Mundial Global, que temos cátedra cativa e vitalícia nas suas Universidades principais e nas renomadas Faculdades de Teologia e de Filosofia, também somos cegos e guias cegos? E a Sabedoria responde-lhes com prontidão: Oxalá vos tivésseis na conta de cegos, porque, a todo o instante, ao deparardes inopinadamente com a Sabedoria feita Fragilidade Humana, Prática Maiêutica e Duelo Teológico Desarmado, um Ninguém crucificado e lançado depois à vala comum, poderíeis passar a ver e nunca mais serviríeis a Ordem Mundial Global, mentirosa e assassina. Mas vós, nessa vossa condição de Sabedores /Doutores da Ordem Mundial Global, passais a vida a dizer e a comportar-vos como os (únicos) que vêem, os que têm os olhos abertos, os guias dos demais. Essa é a vossa desgraça (cf. João 9, 40-41). Porque, nem que a Sabedoria passe, inopinadamente, perante os vossos olhos, eles nunca a enxergam. E o que enxergam não é nunca a Sabedoria, mas uns reles Ninguém, em tudo semelhantes àquele Jesus Crucificado pelo Império e pelo Templo, o carpinteiro, o filho de Maria, o maldito, digno de todo o desprezo. Sois por isso os mais cegos dos seres humanos! Por quem só posso chorar. Inconsolável!

 

Capítulo 10

1 Ai das mulheres, dos homens que vivem para servir o Institucional! E o seu Ídolo. Sim. E o seu Ídolo. Porque o Institucional, todo o Institucional, é sempre ele e o seu Ídolo (Ideologia /Idolatria). E não se pense que hoje são tão poucos assim esses homens, essas mulheres. Não são. Caem e vivem na alçada deste "Ai!", tanto as mulheres, os homens religiosos, como as mulheres, os homens ateus /agnósticos. E, neste nosso século XXI, caem e vivem na alçada deste "Ai!", ainda mais as mulheres, os homens ateus /agnósticos do que as mulheres, os homens religiosos. Com uma leve diferença substantiva. As mulheres, os homens ateus /agnósticos têm-se na conta de que são muito mais ilustrados e modernos que as mulheres, os homens religiosos. E até podem ser, mas não deixam de continuar a ser tão cegos quanto as mulheres, os homens religiosos. Porventura, até mais cegos, porque, na sua presunçosa cegueira, nem sequer vêem que são tão cegos quanto as mulheres, os homens religiosos, às, aos quais geralmente criticam, e das, dos quais, sobranceiramente, se riem, a revelarem-se, assim, sem o saberem, como os novos fariseus, agora, seculares, deste nosso tempo.

2 As mulheres, os homens ateus /agnósticos parecem ainda desconhecer que não há pior cegueira do que a cegueira que se tem na conta de ilustrada e, depois, para cúmulo, até se acha no direito de passar a viver instalada em alguma das inúmeras ilhas-palácio de Lanzerote, espalhadas pelo mundo, com tudo de caixa-forte, nas quais o Institucional e o seu Ídolo gostam de colocar, bem vigiados e bem domesticados, por isso, mais do que politicamente inofensivos, os seus mais importantes adoradores /servidores. Se um dia todas estas mulheres, estes homens ateus /agnósticos, funcionários incondicionais do Institucional e do seu Ídolo, chegarem e acordar e a ver o Labirinto e a Prisão em que estão metidos e de onde não conseguem mais sair, a não ser no momento da Morte - mas como vão tais mulheres, tais homens ateus /agnósticos acordar e ver, se a sua é uma cegueira ilustrada, por isso, a pior e a mais resistente à Luz /Sabedoria?! - nada mais lhes restará então do que passarem o resto das suas vidas a recorrer a todo o tipo de estupefacientes que as, os ajudem a suportar o fantasmagórico Vazio que é todo esse seu viver cheio de Tudo, um Tudo que é fétido Esterco, porque Vazio do Essencial. Como, de resto, é todo o viver humano, religioso ou ateu /agnóstico, quando vivido ao incondicional serviço do Institucional e do seu Ídolo.

3 Foi a Grande Cidade que criou o Institucional e o seu Ídolo, tais como hoje os conhecemos, nas suas múltiplas formas. As mais sedutoras de todas, e também as mais assassinas de todas, são, sem dúvida, as múltiplas formas seculares, criadas a partir da Revolução Francesa, hoje hiper-desenvolvidas e frequentadas mais por mulheres, homens ateus /agnósticos, do que por mulheres, homens religiosos, cada vez mais confinados que estão aos templos e aos santuários, aos ritos e às sacristias. Os primitivos séculos de vida humana errante e itinerante já chegaram a conhecer os seus gurus e os seus locais sagrados, as suas míticas deusas, os seus míticos deuses, mas tudo era ainda muito provisório, muito frágil, muito funcional, à semelhança das tendas de ramos de árvores sob as quais se abrigavam e logo deixavam para trás, abandonadas, sempre que era preciso acompanhar os rebanhos em constante busca de novas pastagens. Tudo era muito precário, sem oportunidade para o Institucional e o seu Ídolo, como hoje os conhecemos, medrarem e se desenvolverem.

 

4 Pode, pois, muito bem dizer-se que, no princípio, era o Provisório, o Não-Institucional, era o Ser-Viver de natureza. Nasceram depois as grandes cidades. E, com elas, o Institucional e o seu Ídolo. Os dois, como um só, comeram o Ser-Viver de natureza. E impuseram a sua Ordem Mundial Global, sob a qual todas, todos nós inevitavelmente nascemos e na qual temos de viver na História. Feitos com ela, ou contra ela. Nela e dela, ou nela (é inevitável), mas sem sermos nunca dela (é opcional, não é inevitável). Nela e a cooperarmos com ela, ou nela e a trabalharmos dia e noite para ajudarmos maieuticamente a edificar um ser-viver humano alternativo ao dela e que a derrube de vez e quanto antes.

 

5 Durante séculos e séculos, o Institucional e o seu Ídolo foram brutos e cruéis no seu agir e afirmar-se. Inclusive, faziam gala disso. Impunham-se às populações e aos povos pelo Terror. Subjugavam as populações e os Povos pela violência sem escrúpulos. Pela Espada. E pela Cruz, como suplício político e humilhação sem nome. Já neste nosso século XXI, o Institucional e o seu Ídolo vestem-se de Executivos, quanto mais sexy, melhor. Desfizeram-se definitivamente das fardas militares e de todos os aparatos bélicos. Apresentam-se trajados à civil e acompanhados das suas mulheres institucionais (as outras nunca aparecem, só nas alcovas!), vestidas por costureiros de renome internacional. As tarefas mais sujas, que as há, hoje ainda mais, muito mais do que no passado, o Institucional e o seu Ídolo deixam-nas para os seus verdugos ou carrascos de elite, treinados em sofisticadas Academias Militares e de Segurança, que as executam com a consciência de verdadeiros heróis (na verdade são assassinos profissionais ao serviço do Institucional e do seu Ídolo, porventura, abençoados, até, por um qualquer bispo castrense, que os há por aí sempre disponíveis!), enquanto os respectivos Executivos, com as suas elegantes e provocantes mulheres, primeiras-damas, prosseguem nos seus requintados encontros-banquetes, ou nas suas requintadas missas solenes, umas e outros, transmitidos em directo pelos grandes media mundiais, a operarem cada vez mais em rede, porque, embora muitos, são todos propriedade do mesmo dono.

 

6 Trata-se de um dono ou senhor sem rosto. Pelo menos, sem rosto humano vivo. Mas com nome. E que nome! Euro, é hoje o seu nome. Antes, foi Dólar. Mas, hoje, o mais sonante e o mais jovem é o Euro. É também o mais forte. O mais poderoso. O mais temido. O mais desejado. O mais cobiçado. Com o qual todas as populações da Europa e do Mundo, os indivíduos e os povos sonham, melhor, são levados a sonhar, tamanhas e tão repetitivas são a publicidade e a pressão que ele, o senhor Euro, exerce sobre as suas consciências. E sonham todos. Tanto os que já dispõem dele em quantidades impensáveis. Como os que hoje não dispõem sequer de um Euro por dia para viverem. Todos sonham com o Euro. Dia e noite. É, sem dúvida, o novo Senhor da Europa. Até do Planeta. E já é olhado /temido /adorado como o novo Senhor de todo o Universo. "Tu és Euro, e sobre ti, Euro, edificarei a Europa", disse, há anos, no acto da sua apresentação ao Mundo, o religioso-catolicíssimo português, António Guterres, na altura um dos Executivos europeus. Assim se fez. E não só a Europa se edificará sobre ele. Também o resto do Mundo. E o próprio Universo! Nunca o Institucional e o seu Ídolo haviam chegado tão longe e tão fundo em Descriação do Humano.

 

7 O Institucional e o seu Ídolo sabem o que fazem. Criaram o Euro para mais facilmente levarem a água ao seu moinho. Pensam as populações e os povos que está tudo no Euro. Que ter o Euro é ter Tudo. Consequentemente, é pelo Euro que se deixam encandear e seduzir. É com ele que sonham, mesmo acordados. Mas o Euro é só a imagem visível do Institucional e do seu Ídolo, sempre invisíveis aos olhos das mentes humanas em geral. Pelo menos, aos olhos e às mentes das mulheres, dos homens religiosos e das mulheres, dos homens ateus /agnósticos. Parecem antípodas entre si, os religiosos e os ateus. Não são. São apenas duas faces distintas da mesma Cegueira Humana. É com as mulheres, os homens religiosos e ateus /agnósticos que o Institucional e o seu Ídolo, ambos invisíveis aos olhos da mente delas, deles, hoje mais contam. Elas, eles não se dão conta disso, de que estão a ser utilizados, vergonhosamente utilizados. Porque não vêem o Institucional e o seu Ídolo. O que vêem por aí a mexer são apenas os seus Executivos, políticos e religiosos, do topo à base, os seus palácios, multinacionais, sofisticados laboratórios, universidades, parlamentos, repartições múltiplas, mai-los seus templos, santuários, basílicas. E é sobretudo com as mulheres, os homens ateus /agnósticos que o Institucional e o seu Ídolo mais contam, porque são elas, eles os mais cegos dos seres humanos, já que se têm na conta de ilustrados e na conta das, dos que mais vêem. Na verdade, são cegos, mesmo quando escrevem Ensaios sobre a Cegueira.

 

8 Há, hoje, felizmente, como já ontem houve e como haverá garantidamente amanhã, um pequeno resto de mulheres, de homens, a quem cabe a tremenda responsabilidade histórica de verem o Institucional e o seu Ídolo em Acção, geralmente, invisíveis aos olhos e às mentes ilustradas ou não, das mulheres, dos homens religiosos e ateus /agnósticos. Que Cegueira e da grossa, é o que, geralmente, produzem, tanto o Religioso como o Ateísmo praticantes. Este pequeno resto de Mulheres, Homens que deixam de ser cegos de nascença e passam um dia a ver o Institucional e o seu Ídolo em Acção (cf. João 9), são mulheres, homens em quem algum dia, inopinadamente, despertou e se desenvolveu no mais íntimo das suas consciências a mesma Fé de Jesus, que é a Fonte da Sabedoria e da Graça. Tais mulheres, homens vêem, e cada vez com mais nitidez, o Institucional e o seu Ídolo em Acção e, sobretudo, vêem o que ambos têm de Perverso, de Mentiroso, de Assassino, de Descriador do Humano. Chega até um dado Momento, nas suas vidas pessoais e comunitárias, que elas, eles vêem que o Institucional e o seu Ídolo são a Própria Perversão-em-Acção, a própria Mentira-em-Acção, o próprio Assassínio-em-Acção. E que estão aí só para matar, roubar e destruir. Por isso, preferem mil vezes morrer de pé, como as árvores, a adorarem /servirem alguma vez o Institucional e o seu Ídolo. E tudo aquilo que fazem, tudo aquilo que dizem é para desacreditarem /derrubarem /matarem o Institucional e o seu Ídolo. Não de forma violenta, armada, que isso é o que o Institucional e o seu Ídolo sempre fazem e pretendem que os seus Opositores façam também.

 

9 Fazem-no sempre, sempre, de forma Desarmada. Como uma menina, como um menino. Como as pombas. Como cordeiros. Nunca como lobos. E fazem-no, antes de mais, com as suas Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas, na base das quais está a opção radical por se ser pobre (não rico) por toda a vida. E também com os seus Duelos Teológicos Desarmados e anti-Idolátricos, cheios de Ternura. Na prossecução das mesmas Práticas Maiêuticas, dos mesmos Duelos Teológicos de Jesus, o Crucificado pelo Institucional e o seu Ídolo. Desde que elas, eles experimentaram, entre as Vítimas do Institucional e do seu Ídolo e ao serviço maiêutico delas, experimentaram, no mais dentro da sua consciência, que Jesus, o filho de Maria, não do Institucional e do seu Ídolo, é quem está certo, é quem vê e faz ver ou revela (= tira o véu, a venda dos olhos da Mente) toda a Perversão, toda a Mentira e todo o Assassínio que são o Institucional e o seu Ídolo em Acção, nunca mais puderam ser mulheres, homens como antes. Experimentam-se continuamente habitados pela mesma Fé de Jesus que não é Fé religiosa, muito menos idolátrica. É Sabedoria /Luz /Lucidez (pode manifestar-se até em analfabetas, analfabetos e em ateus/agnósticos) que leva a Práticas Maiêuticas e chega a ser Palavra-Duelo Teológico Desarmado e anti-Idolátrico. Apesar do Institucional e do seu Ídolo continuarem aí a fazer-se passar pela Verdade e pela Realidade mais real, sobre a qual vale a pena todas, todos edificarmos a nossa vidas, este pequeno resto de mulheres, homens não vai por aí. Nem que acabem praticamente sozinhos, elas, eles sabem que o Crucificador e o Fabricador de vítimas humanas em massa jamais pode ser a Sabedoria, a Luz do Mundo. É, indubitavelmente, a Idolatria-em-Acção, a Mentira-em-Acção, o Assassínio-em-Acção, capaz, no entanto, de seduzir e enganar o mais pintado, a mais sabida!

 

10 Para lhe resistirmos e sermos das, dos de Jesus, só temos uma porta, por sinal, estreita: decidirmo-nos ser - é o primeiro passo, sem o qual todos os outros a seguir falham! - e permanecer pobres, ou não ricos, por toda a vida. Sejam quais forem as solicitações /oportunidades em sentido contrário. E sejam quais forem as consequências. Esta opção /decisão inquebrantável tem de ser vivida não apenas como privação, mas sobretudo como plenitude de Entrega de mim mesmo, de mim mesma, aos demais, sempre a partir das Vítimas do Institucional e do seu Ídolo. Sempre a partir dos Ninguém, de junto dos quais nunca posso afastar-me, sob pena de, a páginas tantas, já estar a fazer o jogo do Institucional e do seu Ídolo. Diz-me onde tens os pés, a casa e dir-te-ei como é o teu ser-viver, o teu ver, o teu analisar, o teu pensar, o teu dizer, o teu agir.

 

11 Fora das Vítimas, longe das Vítimas, não há salvação, isto é, não há Ser Humano que se desenvolva até à mesma estatura do Humano Jesus, a quem o Institucional e o seu Ídolo tiveram de matar na Cruz do primeiro. Só há vassalos, lacaios, súbditos, uns religiosos, outros ateus /agnósticos, todos com mais ou menos privilégios, conforme o posto que ocupem dentro do Organigrama do Institucional e do seu Ídolo. E nos quais cresce o Institucional e o Ídolo /Idolatria, na proporção inversa que diminui, até acabar por desaparecer, o Humano.

 

12 Escolher é preciso. Ai das mulheres, dos homens que escolhem o Institucional e o seu Ídolo, seja como religiosos, seja como ateus /agnósticos! Bendito o pequeno Resto de mulheres, homens, da mesma Fé de Jesus, que resistem a entrar por essa "porta larga". Serão desprezados, ostracizados, caluniados, achados dignos de todas as ignomínias, até de perderem o nome. Mas é com eles que Deus, o de Jesus, que gera filhas, filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, está. É neles que se revê, como historicamente se reviu em Jesus, o de Nazaré. Não, nunca, nos seus algozes. Nos seus carrascos. Nos seus verdugos, que o são às ordens do Institucional e do seu Ídolo. Sabedoria é preciso. Humildade, também. E Alegria a jorros. Essa Alegria que é fruto do Espírito ou Sopro de Jesus, não fruto do sopro do Institucional e do seu Ídolo.

 

Capítulo 9

 

1 Na raiz de todo o Institucional está a Idolatria. De todo o Institucional? Até do Institucional Família? Até do Institucional Religião? Até do Institucional Igreja? Até do Institucional Governo das nações? Até do Institucional Império? Sim, responde a Sabedoria. Até do Institucional Família. Até do Institucional Religião. Até do Institucional Igreja. Até dos Institucional Governo das nações. Até do Institucional Império. Só a Sabedoria vê a raiz das coisas. Os olhos não vêem a raiz das coisas. Os olhos vêm o exterior das coisas. Vêem a pele das coisas. Vêem como a máquina fotográfica vê. Os olhos nunca vão ao miolo das coisas. Nunca chegam à raiz das coisas. Nunca tocam a alma das coisas. Menos ainda, a alma das mulheres, dos homens, dos seres humanos e dos povos A raiz das coisas, das Mulheres, dos Homens, dos Povos, os do Institucional não conhecem, nem podem conhecer. Os do Institucional nunca conhecem nem nunca conhecerão o Essencial. O Essencial passa-lhes sempre ao lado. Chegam, até, a matá-lo e pensam que com isso são heróis, com direito a serem aclamados pelas multidões e pelos povos. E ainda mais do que aclamados, sufragados, em sucessivos actos eleitorais, todos tecidos de Hipocrisia /Mentira, sem dúvida, é a maior assassina da Liberdade.

 

2 Quem diz Idolatria, diz Ídolo. Todo o Institucional é um Ídolo. Só a Sabedoria é capaz de o ver, descortinar, enxergar. E vê. Descortina. Enxerga. Se, depois, a Sabedoria, dá um passo mais e se faz carne, Fragilidade Humana - só a Fragilidade Humana pode ser a habitação da Sabedoria - logo o Institucional, todo o Institucional, do topo à base, do maior ao mais pequeno, se sente ameaçado e corre a organizar-se ainda mais, a armar-se ainda mais, para se defender da Sabedoria, Fragilidade Humana. E se depois de se fazer carne, Fragilidade Humana, a Sabedoria ainda se faz Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas dentro da História, e, finalmente, Palavra em forma de Duelos Teológicos Desarmados, então o Institucional, todo o Institucional, do topo à base, do maior ao mais pequeno, perde a compostura e as estribeiras. Arma-se até aos dentes. Faz-se Bomba Nuclear. Mobiliza-se numa concertadíssima Acção de Ódio assassino sem precedentes. E a Sabedoria não tem como lhe escapar.

 

3 E como se comporta a Sabedoria, nestas circunstâncias? Faz-se, desafiadoramente, ainda mais Palavra em forma de Duelos Teológicos Desarmados e, assim, Palavra em forma de Duelos Teológicos Desarmados, ela avança, resoluta, ao encontro do Institucional, até ao coração do reduto principal do Institucional, habitualmente, só acessível aos seus mais íntimos, os Sacerdotes do Ídolo. Avança até esse reduto. Com a simplicidade de uma menina, de um menino. De uma pomba. E a Atenção-Vigilância de uma sentinela. De uma serpente. O Institucional fica, por momentos, perplexo. Sente-se descoberto. Nu. E não sabe o que fazer. Num primeiro momento, esconde-se e envia emissários a tentar negociar com a Sabedoria feita Fragilidade Humana. A tentar seduzir a Sabedoria. Oferece-lhe tudo, até o próprio trono e o próprio altar onde ele, o Institucional, habitualmente vive e de onde sempre se dirige aos seus súbditos, os povos da Terra. Convida a Sabedoria a tornar-se o Sumo Pontífice. O Sumo Sacerdote. Mais. A tornar-se Deus, o único Deus. E a fazer-se adorar.

 

4 O Institucional procede assim, porque é demente-demente. É a Demência-demência Organizada, que é uma outra maneira de dizer Idolatria. Quando fala e age assim, o Institucional fala do que lhe é próprio. Age de acordo com a sua natureza intrinsecamente perversa. E quando faz propostas como aquelas que o Institucional faz à Sabedoria feita Carne, Fragilidade Humana, Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e Palavra em forma de Duelos Teológicos Desarmados, o Institucional tem todo o ar de sinceridade, que leva muitas vezes ou quase sempre na onda, até o que se tem por mais lúcido. Só mesmo a Sabedoria feita Fragilidade Humana vê que o ar de sinceridade do Institucional é ardilosamente mentiroso e assassino. Nem o próprio Institucional consegue ver que é assim, ardilosamente mentiroso e assassino. E como haveria de conseguir ver, se o Institucional jamais viu nem jamais verá o Essencial? Se o Institucional jamais tocou nem jamais tocará a alma das coisas? Se o Institucional jamais chegou nem jamais chegará à raiz das coisas? Se o Institucional é, de sua natureza, mentiroso e assassino? Se tudo o que o Institucional toca fica inquinado, envenenado, ferido de morte? Se até o seu hálito /sopro é mortal, adoece incuravelmente e mata tudo e todos, a começar pelos principais cérebros humanos que, um dia, demencialmente, aceitaram colocar-se ao seu incondicional serviço?

 

5 A Sabedoria que vê o Essencial e vai à raiz das coisas, também vê que todo o Institucional é um Ídolo. E a Sabedoria, mesmo sozinha, sabe o que os Sabedores /Doutores do Institucional, todos juntos, jamais souberam e jamais saberão. Ela sabe que, com o Ídolo que é todo o Institucional, nunca se pode negociar. Quando alguma mulher, algum homem aceita negociar com o Institucional, logo fica refém dele, do seu Ídolo. Entra pela porta grande do seu reduto. Do seu palácio. Da sua catedral ou basílica. Deixa que o seu hálito a, o atinja. Que o seu sopro a, o penetre. E fique nela, nele para sempre. Nunca mais aquela mulher, aquele homem voltará a ser o que era. Perde a Inocência. Perde a Sabedoria. Fica nu. Passa, então, a sentir, desde esse instante, uma incontida necessidade de ir a correr vestir-se. Cobrir a sua nudez. Nem que seja com folhas de árvores. Mas vestir-se. Cobrir-se. Enfeitar-se. Os grandes palácios e as grandes catedrais e basílicas são as principais roupas com que o Institucional se veste. Juntamente, com toda aquela parafernália de roupas garridas, as mais exóticas. De objectos e de adornos, os mais inimagináveis. É sempre a primeira coisa que o Institucional faz., constrói. O seu palácio. Mai-la catedral ou basílica, ali ao lado, ou ali por perto. Sempre ao alcance da sua mão exploradora e assassina. Para que o abençoe e o canonize. Abençoe e canonize os seus crimes. E os transubstancie em actos heróicos, em feitos guerreiros, credores dos ruidosos aplausos das multidões, suas súbditas, e dos povos, seus súbditos.

 

6 Sempre que uma mulher, um homem, negoceia com o Institucional, perde-se. Quase sempre, definitivamente, até que a Morte, quando acontecer, a, o liberte de raiz. E a Sabedoria, finalmente, volte a encontrá-la, encontrá-lo, na sua Inocência inicial. E a, o abrace e lhe diga: Vem, milha filha, meu filho. A Sabedoria procede e fala assim, porque é a Sabedoria. Não é o Institucional. O Institucional, nem mesmo quando a Morte acontece e lhe arrebata aquela, aquele que ele manteve sequestrada, sequestrado a vida inteira, consegue deixar de ser o que é, mentiroso e assassino. Como o seu pai, o Ídolo. Nem nesse Instante, os seus olhos se abrem. Fica perplexo e confuso. Mas, porque é cego de natureza, não consegue nunca ver o Essencial. Mete-se, por isso, inclusive, nessas alturas, a promover funerais de encher o olho. Com as mais altas e mais dementes figuras que o servem todos os dias. Cardeais e bispos residenciais aos montes e outro clero mais rasteiro, mas tiranetes q.b. nas respectivas paróquias que lhes estão confiadas, de olhos postos, dia e noite, como lobos e mercenários que são, nos bolsos dos seus cegos seguidores. Aos cardeais e bispos residenciais e ao outro clero mais rasteiro, juntam-se inúmeros chefes de estado e de governo, provenientes de todas as partes do mundo. Mas o que seria do Institucional e do seu Ídolo, sem estas Encenações? Sem estas Hipocrisias /Mentiras? Sem estes Rituais assassinos? Acham que subsistiria por muito mais tempo?!

 

7 Hoje, como, de resto, acontece todos os dias que são sempre "Hoje", o Institucional, bem justificado e canonizado pelo seu Ídolo, decide apresentar-se perante a Sabedoria feita Fragilidade Humana, Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e Palavra em forma de Duelos Teológicos Desarmados. Já que a Sabedoria recusa ir até ele e negociar com ele, entrar pela porta grande do seu Palácio e do seu Templo - quando lá entra, é sempre Palavra-Chicote em punho e Palavra-Espada de dois gumes que fazem em cacos todas as Máscaras com que o Institucional sempre se apresenta vestido perante as multidões e os povos da Terra - o Institucional faz os seus Sabedores /Doutores ir ter com ela, lá onde a Sabedoria vive e se movimenta, sempre provocadoramente Desarmada. Levam com eles uma pergunta armadilhada e disparam-na à Sabedoria, bem diante de toda a gente, com o inconfessado objectivo de a desacreditarem perante todo o mundo. Pensam, lá para eles, que a Sabedoria, desta vez, não terá como escapar-lhes e acabará por cair na armadilha, por sinal, bem arquitectada por eles, que também para isso é que eles são Sabedores /Doutores. Ignoram os Sabedores /Doutores do Institucional que a Sabedoria, ao contrário deles, vê constantemente o Essencial e vive na raiz das coisas. E ainda a questão ardilosamente arquitectada pelos Sabedores /Doutores não está explicitamente formulada, já a Sabedoria a conhece, porque a Sabedoria conhece o interior das coisas. Vê sempre para lá das aparências. Dos rostos. Das máscaras.

 

8 A questão que lhe colocam é a questão fulcral em todos os "Hoje" da História dos Povos. É a questão do Institucional e do seu deus-Ídolo. Aparentemente, tem tudo a ver com o Dinheiro, com os Impostos que o Institucional exige a todas as pessoas suas súbditas (quem se atrever a recusar definitivamente o estatuto de súbdito do Institucional, deixa, pura e simplesmente, de existir para ele). Mas só aparentemente. Na verdade, a questão que eles levantam tem tudo a ver com o Institucional, como tal. Se a existência do Institucional, como tal, é ou não legítima. Porque se a existência do Institucional é legítima, então as pessoas e os povos não têm como lhe escapar. Têm de o reconhecer, de lhe obedecer, de o adorar e ao seu deus-Ídolo. Exactamente como fazem todos os Sabedores /Doutores do Institucional que trabalham dia e noite, incansavelmente, para O servirem com o melhor deles próprios, numa dedicação que vai ao ponto de darem as suas próprias vidas por ele e pelo seu deus-Ídolo. Mas se, pelo contrário, a existência do Institucional é ilegítima, então a Ordem Mundial que dele decorre fica sem fundamento e tudo ruirá como um castelo de cartas, como as Torres gémeas de uma qualquer Babel do Mundo. As populações e os povos perceberão, como num relâmpago, que o Institucional é tudo Mentira e Assassínio Organizados. E gritarão em uníssono o seu Grito do Ipiranga ou da Libertação para a Liberdade e Maioridade, sem que Institucional algum, deus-ídolo algum, consigam mais ter mão nelas, neles.

 

9 A Sabedoria, feita Fragilidade Humana provocadoramente Desarmada, escuta a questão com o coração e logo vê a Armadilha que ela subtilmente esconde e que está pronta a explodir. Vê também toda a Hipocrisia com que sempre se apresentam vestidos os Sabedores /Doutores do Institucional. E, como uma menina, um menino entre eles e diante deles, ordena-lhes com a Força da Fragilidade e da Verdade, com tudo de Sororidade /Fraternidade Universal, que, ao menos uma vez nas suas vidas, aceitem ver /tocar /palpar o Ídolo escondido com rabo de fora que está na base - que é o pai - de todo o Institucional que eles tão demencial e dedicadamente servem dia e noite e do qual tiram privilégios sem conta. Sem nunca perceberem, na sua cegueira ilustrada, de que estão a ser aceleradamente descriados e a ficar profissionais da Mentira Organizada e do Assassínio Organizado, exactamente, como o seu pai, o deus-Ídolo do Institucional que eles incondicionalmente servem dia e noite.

 

10 Com esta sábia Réplica da Fragilidade Humana Desarmada que é a Sabedoria, os Sabedores /Doutores do Institucional divinizado /idolatrado não contavam. De modo algum. Ficam manifestamente aos papéis. E mais aos papéis ficam, quando finalmente o Ídolo do Institucional lhes cai diante dos olhos e nas mãos. Não sabem, então, onde se meter. Não têm o que argumentar. E ainda mais aos papéis ficam, quando a Sabedoria, Fragilidade Humana Desarmada, lhes diz /ordena com o Sopro da Verdade que nos faz livres para a Liberdade /Maioridade: Dai ao Institucional o que é do Institucional. Por outras palavras, lançai todo esse Esterco ao esterco, à geena. E sede Mulheres, Homens Humanos, simplesmente, Sororais /Fraternos, a crescer todos os dias em Sabedoria e em Graça, Dádivas vivas uns com os outros e uns para os outros. Mulheres, Homens Humanos em quem o deus-Ídolo não tem mais entrada, porque é o Perverso Organizado e Institucionalizado. Apenas a Sabedoria e o seu Sopro Criador e Libertador, Maiêutico, Ternura, Abraço, Beijo, Colo, Abbá Universal, mais íntimo a cada uma, cada um de nós do que nós próprias, nós próprios.

 

11 Pensam que os Sabedores /Doutores do Institucional acabam a reconhecer a Mentira em que laboram e que ensinam em tudo quanto é Templo e Universidade, Catequese e Escola, Família e grandes e menos grandes Media, numa palavra, em tudo quanto é Institucional /Idolatria? De modo algum. Crescem ainda mais em Ódio assassino. E, poucos dias depois, Jesus, o filho de Maria, a Sabedoria feita carne, Fragilidade Humana Desarmada, é preso por eles e pelos seus homens de mão, como subversivo e conspirativo, julgado, condenado à morte e executado na Cruz do Império. Com as multidões, habilmente manipuladas por todos eles, os Sabedores /Doutores do Institucional, juntamente com todos os seus Sacerdotes - para isso é que eles existem e trabalham e são bem financiados e desfrutam de privilégios sem conta - a darem também o seu aval, a sua concordância. Sem audácia para atirarem o Institucional todo-poderoso e o seu deus-Ídolo à geena, ao lixo, ao esterco. Porque lixo, esterco, é o que todo o Institucional e o seu deus-Ídolo são. Intrinsecamente. E ai de nós se, demencialmente, pensamos que as coisas são de outro modo. Porque não são. São assim como a Sabedoria nos acaba de dizer /revelar.

 

Capítulo 8

 

1 O Silêncio é a grande Palavra da Sabedoria. É a Palavra-Sopro-Maiêutico, fonte de vida, e vida em abundância e de qualidade. Como, de resto, é assim, Silêncio, toda a Palavra que sai da boca de Deus. Este é, evidentemente, um modo nosso, humano, de falar. Dizer boca de Deus é um modo nosso, humano, de falar. Como é pela boca que saem as nossas palavras, também nos atrevemos a referir-nos à Palavra-Silêncio que sai da boca de Deus. Mas é só um modo nosso, humano, de dizer o Indizível. Quem pode dizer boca de Deus senão aquelas, aqueles que nunca vimos Deus? É um modo nosso, humano, de dizer. Por sinal, muito belo. Poético. Cheio de profundidade. De fecundidade. Porque intui o Misterioso Abismo de Proximidade, de Intimidade que há entre os Humanos que nunca vimos Deus, e esse mesmo Deus-que-nos-habita, mais íntimo a nós do que nós próprias, nós próprios. E nos faz progressivamente Humanos, à medida que escutamos e nos deixamos fazer pelo seu Silêncio-Palavra que sai, invariavelmente, da boca das inúmeras Vítimas da História e da boca de todos os Crucificados da Terra. Silêncio-Silêncio das Vítimas que nos faz nascer dos Porões da Humanidade. E Silêncio-Grito dos Crucificados que nos desinstala e mobiliza politicamente para as Grandes Causas da Humanidade e da Terra.

 

2 Haverão de reparar como nós, os seres humanos do Século XXI, temos tanto horror ao Silêncio-Palavra-da-Sabedoria. Como ficamos tomados de pânico, quando nos vemos frente a frente com o Silêncio-Palavra-da-Sabedoria. Não o suportamos. E corremos logo a encher de Ruídos, de palavras-sem-Palavra ou de palavras-sem-Sopro o nosso acanhado universo. Corremos a atordoar-nos até à Exaustão no Barulho-da-Demência-demência que esta habilmente produz dia e noite contra o Silêncio-Palavra-da-Sabedoria. Pressentimos /intuímos /experimentamos, sem nunca sabermos bem como, que o Silêncio é a grande Palavra-Verdade, a grande Palavra-Luz, a grande Palavra-Sabedoria que nos fala, mas que nós de modo algum queremos escutar-comer-praticar. São hoje poucas, muito poucas - haverá uma em mil, uma em um milhão? - as pessoas que suportam a Verdade /a Luz /a Sabedoria e que se deixam engravidar /habitar /fazer por Ela. Por isso, temos tanto horror ao Silêncio-Palavra-da-Sabedoria.

 

3 Este nosso tempo é o da Incomunicação Global. Do Ruído. Do Barulho. Da Intoxicação verbal. Só mesmo a Mentira Institucionalizada que é a presente Ordem Mundial, é capaz de chamar a este, o tempo da Comunicação Social. Morremos diariamente asfixiados, esmagados, baleados por palavras-sem-Sopro. Ainda não nascemos e já as palavras-sem-Sopro nos atacam, dia e noite, no útero materno. Querem matar-nos ainda antes de nascermos. Pelo menos, tornar-nos definitivamente surdos. Para cúmulo, hoje os úteros das Mulheres andam aí praticamente todos vazios, durante os melhores anos das suas vidas em que haveriam de andar grávidos e a gerar filhas, filhos. E os poucos úteros que andam grávidos são freneticamente bombardeados, dia e noite, por palavras-sem-Sopro. Para que as poucas filhas, os poucos filhos que as Mulheres e os Homens ousarem chamar à vida, se conseguirem sobreviver a tanto ataque verbal demencial organizado, nasçam todas, todos forçosamente surdas, surdos para ouvir o Silêncio-Palavra-da-Sabedoria. E, se surdas, surdos, também mudas, mudos. E, se surdas /mudas, surdos /mudos, também politicamente desmobilizadas, desmobilizados. Durante todo o seu viver na História.

 

4 Em verdade, em verdade vos digo: Por mim, já não sei viver senão no Silêncio-Palavra-da-Sabedoria. Subo muitas vezes à Montanha. Melhor, vivo praticamente na Montanha, mesmo que me vejam passar - Páscoa - pela Planície. A Montanha é o meu universo de eleição. E, quando as palavras-sem-Sopro, cheias de Ódio Teológico me atacam forte e causam alguns estragos na minha consciência, é a Montanha que sempre me acolhe e alimenta. O Silêncio-Palavra-da-Sabedoria volta então a falar mais alto. Fecunda-me com o seu Sopro. E eu canto, rio e torno-me palavra falada, escrita, partilhada, conversada. Mas como as aves do céu. Como os lírios do campo. Como o grão de trigo enterrado. Como o Pão-Partido-que-se-dá-a-Comer. Como o Vinho-Derramado-que-se-dá-a-Beber. O meu Alimento é o Silêncio, a Palavra-Sopro. Não me vêem por aí num corre-corre. Tão pouco necessito atravessar os mares para chegar aos confins do Mundo. Quanto mais palavra-Sopro eu for, mais estou a chegar aos confins do Mundo. Este é o segredo da Sabedoria que nos faz Humanos. Integralmente Humanos, se também integralmente Sábias, Sábios. Coisa rara, agulha em palheiro, nestes dias de Demência-demência organizada.

 

5 É vê-la, aí, à Demência-demência organizada, num corre-corre sem parar. A todo o vapor. A todo o gás. Alimenta-se de ruído e mais ruído. Bebe palavras-bala. E, depois, vomita palavras-sem-Sopro. Palavras-que-matam. Que dizem coisa nenhuma. Repetidas até à náusea, aqui, ali, acolá, e mais além. Neste frenesim, a Demência-demência nem chega a ver que a sua é boca de metralhadora carregada, sempre em posição de tiro de rajada. Dispara palavras-bala em todas as direcções. Palavras-bala que anestesiam. Ensurdecem. Esmagam. Desmobilizam. Matam. Discurso aqui, discurso acolá, todos os seus inúmeros agentes são dementes que não se chegam nunca a encontrar consigo próprios. O que todos mais almejam é alcançar o Poder. Ser Poder. Tornar-se os Profissionais da Mentira Institucionalizada. Todos querem estar aí só para matar, roubar e destruir.

 

6 Ninguém consegue ter mão neles. Estão todos tão possessos, que dos seus corpos já só saem palavras assassinas, autênticas balas de rajada. Os seus mais próximos, familiares de sangue e outros, se não fogem deles, já; se não se divorciam deles, já, acabam todos baratas tontas, embriagados quanto eles por toda a Demência-à-solta que os move. Parecem vivos. Na realidade, são mortos. Parecem saudáveis. Na verdade são enfermos. Parecem humanos. Na verdade são coisas. Parecem seres erectos. Na verdade são víboras. Parecem felizes. Na verdade são os mais desgraçados dos seres. Possessos de Demência-demência. Quando, amanhã, se apoderarem do Poder, forem Poder, no Governo ou na Oposição, serão os nossos novos carrascos, os nossos novos verdugos, os nossos novos tiranos. Capazes de nos tirarem a pele, só para ampliarem ainda mais os seus Privilégios. Acabarão, com o tempo, por devorar-se uns aos outros. E só então chegará a Hora dos Povos. A Hora da Sabedoria. A Hora da Política Praticada.

 

7 O Silêncio é a grande Palavra Maiêutica que sai da boca de Deus, a quem nunca ninguém viu, nem verá, pelo menos, enquanto permanecemos nesta nossa espantosa condição de visibilidade. Para a qual - haveríamos de o reconhecer com Humildade e Gratidão - não contribuímos, da nossa parte, com nada. Tudo nos foi dado. Somos Dádivas vivas. E é como Dádivas Vivas que haveremos de viver na História. Dádivas vivas uns para os outros e uns com os outros. Acontece, porém, que quando a grande Palavra Maiêutica que sai da boca de Deus, um dia, se fez carne, integral Fragilidade humana entre nós e connosco, logo os Sabedores /Doutores do Templo, do Império ou Poder Político e do Dinheiro correram a tentar silenciá-la. Quando perceberam que a integral Fragilidade humana recusava liminarmente vestir algum dia a máscara do Poder, fazer-se passar por Deus /Ídolo e por Messias vencedor dos seus opositores, rotulados todos como inimigos a submeter e a matar, sempre que se rebelarem contra o todo-poderoso, mataram-no.

 

8 A Cruz do Império foi o instrumento de tortura e de morte. Ao tempo, o mais humilhante. O mais repugnante. O mais intolerável. Mas foi assim que os seus algozes conseguiram que a Integral Fragilidade humana, de seu nome histórico, Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, acabasse não só Crucificada, mas também Maldita, por isso, excluída para sempre da Ordem Mundial criada e alimentada e servida pela Demência-demência. Para a escutarmos e chegarmos a ser habitados por Ela, jamais o conseguiremos, junto dos Sabedores /Doutores do Templo, do Império ou Poder Político e do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Por esses ambientes só se respira Demência-demência, por mais que esta se disfarce de Ilustrada. Resta-nos então erguer a nossa tenda entre as Vítimas da Ordem Mundial, entre os Crucificados da Terra. Pisar o mesmo Chão que elas, eles pisam. E como elas, como eles estarmos na Ordem Mundial, sem nunca sermos dela.

 

9 Escutaremos então a Palavra-Silêncio que nos fará nascer dos Porões da Humanidade. Ou Palavra-Grito que nos desinstala e mobiliza politicamente para as Grandes Causas da Humanidade e da Terra. Cresceremos em Humano, que é igual a crescermos em Sabedoria e em Graça, Dádivas Vivas uns com os outros e uns para os outros. Até para os nossos carrascos e verdugos, aos quais havemos de amar com os nossos duelos teológicos desarmados. Sem nenhum medo da Cruz que eles, em qualquer momento, e em desespero de causa, podem de novo erguer num qualquer calvário para nós. Amá-los-emos até esse limite. Até para lá desse limite. E eles hão-de acabar também Humanos, se mais não for, no derradeiro Instante na História, em que a irmã Morte destruirá todas as suas Máscaras e o Humano voltará a brilhar em todo o seu esplendor!

 

Capítulo 7

 

1 Vou dizer-vos, hoje, minhas irmãs, meus irmãos, Aquilo que haveis de temer. Não haveis de temer os Grandes Sabedores /Doutores, nem os Grandes Poderosos, nem os Grandes Ricos, nem os Grandes Chefes Religiosos, todos eles cheios de Cinismo e de Ostentação que, naturalmente, se riem de vós a toda a hora, vos odeiam, caluniam, desprezam, ostracizam, desacreditam e, porventura, até mandam matar, se preciso for. Tão pouco haveis de temer as suas inúmeras vítimas que continuam aí, de geração em geração, sem audácia para se rebelarem politicamente contra tamanha Indignidade institucionalizada, que é essa sua condição, esse seu estatuto de vítimas dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos. Pelo contrário, tudo fazem, até, para manterem e perpetuarem esse seu estatuto de Indignidade que lhes garante e às suas filhas, aos seus filhos, o acesso às migalhas que caem da mesa dos seus Carrascos, precisamente, os Grandes Sabedores /Doutores, os Grandes Poderosos, os Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos. De modo que todas elas acabam fatalmente por juntar-se ao coro dos seus Carrascos e Amos contra vós que, ao contrário delas, tendes a Audácia de resistir aos Grandes Sabedores /Doutores, aos Grandes Poderosos, aos Grandes Ricos e aos Grandes Chefes Religiosos e preferis viver por toda a vida a pão e água e, até, vir a cair às suas mãos assassinas, mas só de pé, como as árvores, a terdes de alinhar, um dia só que seja, pela Ideologia e pela Idolatria com que todos eles, demencialmente, alinham e até se alimentam.

 

2 O que haveis, então, de temer? Haveis de temer a Ideologia e a Idolatria deles, dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos. A Isso, e só a Isso, haveis de temer. Porque os Grandes Sabedores /Doutores, os Grandes Poderosos, os Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos, todos juntos, ou cada um por si, o máximo de mal que podem fazer contra vós é matar ou mandar matar o vosso corpo. Jamais conseguirão matar-vos a Alma /a Mente /a Consciência /a Dignidade, numa palavra, o Humano em vós. Isso, só mesmo a Ideologia e a Idolatria deles, Grandes Sabedores /Doutores, Grandes Poderosos, Grandes Ricos e Grandes Chefes Religiosos, o podem fazer e fazem, de facto, lá em quem entrarem. Quando a Ideologia e a Idolatria dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos, entram num ser humano, mulher ou homem, é o que sempre nos fazem. Apresentam-se-nos disfarçadas de Vida, de Bondade, de Luz, de Sabedoria, de Verdade, de Sagrado, até, de Divino. São o Perverso institucionalizado, a Treva institucionalizada, a Demência-demência institucionalizada, a Mentira institucionalizada. E existem, estão aí, só para matar, roubar e destruir o Humano em cada mulher, homem, que vem a este Mundo.

 

3 Digo-vos mais, minhas irmãs, meus irmãos. A Ideologia e a Idolatria dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos, sempre nos rodeiam a porta, por toda a vida, a ver se conseguem entrar e instalar-se em nós. São bastantes as pessoas que, numa primeira fase do seu viver na História, a chamada fase das grandes generosidades e dos grandes sonhos, conseguem manter-se de portas e janelas trancadas e resistir-lhes. Chegam, inclusive, a organizar-se politicamente para as denunciar /combater /destronar /derrubar. Conhecem incompreensões de toda a ordem, a começar, a maior parte das vezes, pelos seus próprios familiares, os quais, já completamente apanhados pela Ideologia e pela Idolatria dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos, sonham para as suas filhas, os seus filhos, o maior Sucesso, o maior Êxito e investem o que têm e até o que não têm para que elas, eles entrem por esse caminho de Perdição do Humano e venham, um dia, a integrar a imensa Minoria dos Privilégios, coutada dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos. São esses os dias mais belos das suas vidas jovens e menos jovens, todos eles vividos à Intempérie, na Trincheira, no Perigo, na Entrega, sem Bolsa nem Alforge, em que Ninguém é de Ninguém, Tudo é comum, Tudo é de todas, de todos.

 

4 Na sua inexperiência, resultante da natural Imaturidade juvenil, e na sua Euforia colectiva, estas pessoas parecem desconhecer, e desconhecem de facto, que a Ideologia e a Idolatria dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e dos Grandes Chefes Religiosos não se afastaram de vez delas e das suas vidas. Andam, é verdade, durante uns tempos, mais ou menos prolongados, por lugares áridos que são os lugares que essas Ideologia e Idolatria fabricam para elas e para os que se alimentam todos os dias com elas, já que são, por natureza, intrinsecamente estéreis, mentirosas, assassinas e tudo o que elas tocam torna-se inevitavelmente estéril e árido. Porém, quando menos se pensar e contar, a Ideologia e a Idolatria dos Grandes Sabedores /Doutores, dos Grandes Poderosos, dos Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos estão de volta. Ao chegarem, deparam com vidas cheias de Simplicidade, cheias de Afectos Compartilhados, de Sonhos e de Práticas carregadas de Generosidade, quase a Utopia Praticada. Deparam também com Alegria a rodos. São vidas que, no seu desarrumo e no seu desalinho, podem ser comparadas a uma casa limpa, arrumada, asseada, arejada, ou a uma tenda de campismo selvagem, com apenas o Essencial para se ser-viver como Pão Partido e Repartido que se dá a Comer, como Vinho Derramado que se dá a Beber. Impossível, por isso, aquelas Ideologia e Idolatria entrarem naquelas vidas. Mas não pensem que a Ideologia e a Idolatria desistem. Pelo contrário, tomam de imediato uma decisão, uma tremenda decisão, antes que venha a ser tarde de mais para agrirem. Tomam a decisão de passarem de imediato ao ataque, ao assalto final e definitivo. E é o que fazem.

 

5 Vão, então, aos lugares áridos que são os delas, buscar Aquilo que, servido /comido /ingerido em dose total, faz nascer os Grandes Sabedores /Doutores, os Grandes Poderosos, os Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos. Por outras palavras, vão buscar todo o arsenal da Ideologia e da Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião, juntamente com todo o seu poder de Sedução, de Mentira, de Tentação. E procuram o Momento propício para atacar. Quase sempre, de Noite, que é quando a Ideologia e a Idolatria que fazem os Grandes Sabedores /Doutores, os Grandes Poderosos, os Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos mais gosta de lançar os seus ataques-surpresa, ou as duas, como uma só, não fossem a Treva institucionalizada-em-ininterrupta-acção-de-Descriação-do-Humano nas Mulheres e nos Homens concretos que habitam o Planeta e, até, de Descriação do Planeta, no seu todo. Atacam de noite. Quando cada pessoa, sozinha e desprevenida, sem conseguir pôr olho, começa a pensar no que vai ser o resto da sua vida individual. Vê, então, meia a dormir, meia acordada, passar diante dela todas as possibilidades de Sucesso e de Êxito que estão ali ao seu alcance, se, obviamente, ela se decidir a adorar, isto é, a fazer suas, como os seus pais e os pais de todos ou quase todos os seus amigos, há muitos anos, fizeram, a Ideologia e a Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião.

 

6 É difícil, impossível, mesmo, resistir a tanta Sedução. E, sem que nenhuma das outras pessoas suspeitem, a pessoa que está a ser atacada /seduzida, diz SIM. Na manhã seguinte, o seu ar já não é mais o mesmo de antes. Desculpa-se com o facto de ter dormido mal, de ter tido um pesadelo que a atacou durante o Sono. E fica-se por aí. Dá-se conta, pouco depois, que não é só ela que está diferente. A quase totalidade das outras pessoas com quem tem vivido à Intempérie, também estão diferentes. Todas foram atacadas durante a Noite, como ela acaba de ser. E, como ela, também se deixaram seduzir e habitar /possuir pela Ideologia e pela Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião. Ninguém confessa essa decisão acabada de tomar. Todas fingem. Todas fazem de conta. Como a confirmar que a Mentira é, a partir daquele momento, a sua Verdade. A Ambição é, a partir daquele momento, a sua Entrega. O Assassínio é, a partir daquele momento, a sua Vida. E diz solenemente para consigo mesma: Nasci e vim ao Mundo só para matar, roubar e destruir. Sob a capa ou manto, é claro, da Ideologia e da Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião, as quais fazem dessa pessoa e de todas as outras pessoas que tomaram idêntica decisão, os Grandes Sabedores /Doutores, os Grandes Poderosos, os Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos, entre os quais, depois, são escolhidos, um a um, todos os dirigentes do nosso Planeta.

 

7 Na precipitação de chegarem o mais depressa possível aos lugares mais cobiçados que a Ideologia e a Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião, têm reservados para os seus discípulos e adoradores mais fiéis e incondicionais, nem reparam numa ou noutra pessoa que não partilha da sua Euforia. E que, em vez disso, fica até esmagada de Tristeza, perante tamanho triunfo da Ideologia e da Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião. Na sua simplicidade de menina, menino, essa pessoa teve, tem a audácia de dizer NÂO à Sedução /Tentação, quando todas as outras, ou quase, disseram SIM. Sabe que ficará só, mas, mesmo assim, jamais trairá o Humano-com-Espírito que há em si, que a habita, a plenifica e que faz dela um Dom, uma Dádiva-para-os-demais, a começar pelas inúmeras vítimas da imensa Minoria dos que disseram e dizem SIM à Sedução /Tentação. Irá aprender, com o tempo e sempre às suas custas, que nem sequer junto das inúmeras vítimas da imensa Minoria dos que disseram, dizem SIM, será compreendida. Isso é o que mais lhe custará suportar. É uma Cruz demasiado pesada. Um Cálice demasiado amargo.

 

8 Pois nem assim ela desanima e desiste. Pelo contrário, todo o Ostracismo a que se vê votada é convertido em fecundo Sopro Libertador, Maiêutico, que, sem que ela saiba como, faz falar mudos, ouvir surdos, andar paralíticos, integrar excluídos /leprosos, e até ressuscitar mortos. Ao mesmo tempo que promove Autonomias, aqui e ali, Rebeldias, Dissidências, Conspirações, Maioridades, numa palavra, Liberdade Sororal /fraterna. Vive em permanente estado de Deserto, misteriosamente fecundo, sempre a ver o Invisível e a escutar o Essencial. Esse é o seu Alimento, o único que verdadeiramente alimenta o HUMANO que há em cada pessoa que vem a este Mundo, até acabar por o tornar sal da terra, luz do mundo, fermento na massa, sentinela na cidade. E, finalmente - Poema dos Poemas! - Pão-Partido-e-Repartido-que-se-dá-a-Comer e Vinho-Derramado-que-se-dá-a-Beber todos os dias para a vida do Mundo.

 

9 Esta é a verdadeira Sabedoria que os da Ideologia do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião não conhecem. Nem nunca poderão conhecer. Como a Treva não pode nunca conhecer a Luz. E o Grande Poder Poder não pode nunca conhecer a Liberdade que nos faz irmãs e irmãos universais. É por isso que, quando a Sabedoria em pessoa, um dia, se fez Fragilidade Humana - é o que, na Bíblia, quer dizer a expressão evangélica "fez-se carne" - em Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, logo a Ideologia e a Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião tudo fizeram para ganhar Jesus para a sua perversa causa institucionalizada. Em vão o tentaram. Jesus, felizmente, resistiu-lhes sempre, do primeiro ao último momento da sua curta e perseguidíssima vida histórica. Até que acabou - tinha que acabar, só podia! - como a Sabedoria Crucificada. Mas a verdade é que é graças a Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, que pudemos, e continuamos a poder,  ver "claramente visto" - por isso, ele é a nossa Luz, é a Luz do Mundo - todo o Perverso institucionalizado que são a Ideologia e a Idolatria do Grande Saber, do Grande Poder, do Grande Dinheiro Acumulado e Concentrado e da Grande Religião. E quanto são institucionalmente mentirosos, exploradores e assassinos os Grandes Sabedores /Doutores, os Grandes Poderosos, os Grandes Ricos e os Grandes Chefes Religiosos que, como mercenários, estão aí, em todos os países do Mundo, ao seu incondicional serviço, como idólatras de profissão. Sem dúvida, os mais infelizes e os mais desgraçados dos seres humanos, à face da Terra! Acerca dos quais diz Jesus /a Sabedoria feita Fragilidade Humana: "Ai de vós!"

 

Capítulo 6

 

1 Nunca ouviram dizer que a Luz brilha na Treva e que a Treva tudo faz para a extinguir, sem, porém, jamais o conseguir, duma vez por todas? E quem diz Luz, diz Sabedoria. Tal como quem diz Treva, diz Saber. Há na História da Humanidade um ininterrupto Duelo de morte entre a Sabedoria e o Saber. Entre a Luz e a Treva. O mais surpreendente, escandaloso até, é que, neste Duelo de morte, a Sabedoria apresenta-se sempre Desarmada. Como um menino. Enquanto o Saber traz sempre com ele o pleno dos três Poderes - o Económico-Financeiro, o Político-Militar e o Religioso-Eclesiástico - qual deles o mais esmagador, o mais mentiroso, o mais assassino, o mais enganador, o mais sedutor, o mais destruidor do Ser (Humano), da Vida, e até do (Bom) Nome de quantas, quantos não reconhecerem algum deles ou todos eles e se opuserem a algum deles ou a todos eles. Os três, embora distintos, actuam sempre como um só. Quando um deles está a ser mais ameaçado pela Luz /Sabedoria, logo os outros dois se aliam ao mais ameaçado, fazem corpo com ele e avançam juntos como um carro de combate em linha de batalha. Contra a Luz /Sabedoria.

 

2 A Luz /Sabedoria é então sistematicamente Humilhada. Ridicularizada. Escarrada. Ostracizada. Caluniada. Desprezada. Atirada para a Valeta da Sociedade e da História. Torna-se objecto de Chacota em todas as conversas. E depressa passa a ser olhada como Loucura pelos bem-pensantes da Sociedade e por todos os demais, pés-descalços-que-sejam, a imensa multidão das, dos que aceitam passar a sua curta vida na História a comer das migalhas que caem da mesa assassina dos bem-pensantes de algum dos três Poderes, ou dos três Poderes, ao mesmo tempo. E, sempre que todas estas práticas destruidoras /descriadoras /enganadoras /sedutoras da Treva /Saber se revelarem insuficientes para neutralizarem e destruírem a Luz /Sabedoria, a Luz /Sabedoria é, então, finalmente Assassinada. Nunca, porém, como nessa Hora - a Hora! - a Luz /Sabedoria brilha tanto no meio da Treva /Saber.

 

3 É então que a Treva /Saber, desesperada, não tem mais remédio senão constituir-se em Sistema, cientificamente organizado, todo-poderoso, global, servido pelos melhores cérebros - todo o tipo de sabedores, doutores, generais, juízes, advogados, economistas, banqueiros, sacerdotes e quejandos, do mais exímio ao maior charlatão, aos quais ela paga o que for preciso, para assim poder continuar, impunemente, a Roubar, a Matar e a Destruir, sem que ninguém lhe vá à mão. Pelo contrário. Quanto mais a Treva /Saber organizada em Sistema todo-poderoso global agir assim, mais Temida é. Mais respeitada é. Mais Adorada é. Mais Aplaudida é. Mais Reconhecida é. E poucos são os seres humanos que não correm a meter-se sob a sua toda-poderosa protecção. Inclusive, a Treva /Saber chega a fazer-se passar por Luz /Sabedoria. E engana a muitas, muitos. Só que ela é sempre e só Treva /Saber. É a Treva /Saber.

 

4 A Sabedoria não tem, nem nunca terá lugar no Sistema criado pela Treva /Saber, embora o Sistema sempre se faça servir pelos melhores cérebros. No Sistema, só há lugar para o Saber. Entre o Saber e a Sabedoria o Duelo é de morte. Lá, onde está a Sabedoria, nunca está, não pode estar o Saber. E, como a Sabedoria se apresenta sempre Desarmada e vive como um menino, à intempérie, ela acaba sempre fora dos lugares onde se deseja que brilha o Saber. Tragicamente, o nosso Mundo tem, hoje, um excesso de Saber e um confrangedor défice de Sabedoria. Abundam os Sabedores, os Doutores, em masculino e em feminino, tanto faz. Há uma aflitiva carência de Sábias, Sábios. Nem mesmo os pobres gostam de Sábias, Sábios em sua casa, à sua mesa, nas suas vidas. Apenas gostam dos Sabedores, Doutores.

 

5 Das Sábias, Sábios, todas as mais, todos os mais riem-se delas, deles e fazem chacota. Meneiam a cabeça, quando elas, eles passam. E dizem /pensam, nem sempre em voz baixa, em manifesta provocação: Coitadas, Coitados! Depois, nas horas mais marcantes e festivas das suas vidas, ou das vidas das suas filhas, dos seus filhos, de quem, até mesmo os pobres-que-apenas-comem-das-migalhas-que-caem-das-mesas-dos-sabedores/doutores, sempre se lembram para convidarem a estar com eles, a comer /conviver /conversar por uns momentos com eles, é dos Sabedores, dos Doutores, em feminino ou em masculino, tanto faz, já que o Saber é sempre masculino, como o Poder. Desconhece tudo, absolutamente tudo, o que tem a ver com a Ternura, o Afecto, a Vida Compartilhada /Desarmada e à Intempérie. Só percebem de Privilégios sobre Privilégios.

 

6 Conta o Evangelho de Marcos - o de Mateus e o de Lucas também - e conta-o por três vezes - o de Mateus e o de Lucas também - (três vezes, quer dizer o máximo possível de vezes, e sempre sem nenhum resultado positivo, já que os discípulos que integram o chamado grupo dos Doze não conseguem entender nada do que ouvem), que Jesus e os Doze iam pelo caminho, subindo a Jerusalém. Jesus vai à frente, lúcido e determinado /desarmado, como é próprio da Sabedoria-em-Acção-na-História. Os Doze estão desconcertados. E as, os demais que seguem Jesus, mas não integram o grupo dos Doze, vão com medo. Jesus toma com ele os Doze (sem dúvida, os mais casmurros e ambiciosos de todos, que, no seu Saber, só sonhavam com a tomada do Poder em Jerusalém, tal como hoje os partidos políticos em todos os países do Mundo onde impera o chamado regime democrático) e põe-se a dizer-lhes o que está para lhe suceder a ele próprio, à Sabedoria-em-Acção que ele é. "Olhai - diz - estamos a subir a Jerusalém, e o Homem [entenda-se, o Não-Poder-em-acção, por isso, a Sabedoria-Desarmada-em-Acção] vai ser entregue aos sumos sacerdotes e aos doutores da Lei [entenda-se, os Teólogos oficiais do Templo /Sistema]; condená-lo-ão à morte e entregá-lo-ão aos Pagãos [entenda-se, ao Império romano, na pessoa de Pilatos, na altura, o procurador de Roma na Judeia]; troçarão dele, cuspir-lhe-ão, açoitá-lo-ão e matá-lo-ão."

 

7 Seremos insensatos, por sinal, bem na peugada de todos os muito Sabedores /Doutores da nossa praça, se pensarmos, como todos eles pensam e dizem /ensinam, que este Acontecimento é coisa anacrónica, de um Passado distante. É o que todos os Sabedores /Doutores dizem, que para isso eles são Sabedores /Doutores e para isso são pagos e bem pagos pelo Sistema. E é o que, depois, repetem mimeticamente até à exaustão, todos os seus seguidores vassalos e imitadores. Não deixo de admitir que, pelo menos, muitos dos seguidores e imitadores dos Sabedores /Doutores, o fazem na convicção - demente convicção, diga-se - de que esses eram tempos de Treva, enquanto, hoje, os nossos, são tempos de Luz. Confundem, assim, Saber ilustrado /Treva, com Sabedoria /Luz.

 

8 Desconhecem, na sua cegueira e inconsciência, na sua subserviência e ingenuidade, na sua mediocridade e banalidade de viver, que já nasceram, cresceram e estão hoje aí a viver dentro do Sistema cientificamente organizado pelos três Poderes como um só. Desconhecem também que este Sistema se faz servir pelos melhores cérebros, em todos os ramos do Saber /Treva. Desconhecem, sobretudo, que o próprio Sistema é tão sabedor /doutor, que chega a fazer-se passar por Luz, quando é a Treva Organizada; por Verdade, quando é a Mentira Organizada; por aquele-que-nos-faz-viver, quando é o Assassínio-Organizado-em-permanente-acção.

 

9 Na nossa cegueira - a Treva Ilustrada cega, como um potente holofote direccionado aos nossos olhos os cega e como um brilhante discurso de um Sabedor /Doutor cega a nossa Mente - nem sequer vemos /percebemos que aquele Acontecimento, testemunhado no Evangelho, é paradigmático para todo o sempre, enquanto durar a História. Como tal, não é nunca do Passado. Pelo contrário, é Prática corrente, todos os dias, no decurso de cada geração que vem a este Mundo totalmente ocupado e dominado pelo Sistema, de modo a não permitir que, alguma vez, dentro dele, nasça e cresça a Sabedoria que faz Sábias, Sábios e as, os alimenta com um alimento que os demais não conhecem. Apenas nasça e cresça o Saber que faz Sabedores /Doutores, todos ao seu incondicional serviço, tenha o Sistema de lhes pagar o que for preciso, para eles lhe permanecerem fiéis, por toda a vida. Neste particular, somos todos, mais ou menos iguais àqueles Doze que andavam com Jesus, mas sempre a ver como haviam de se servir dele para subirem mais e mais, terem nome e fama, chegarem aos melhores lugares, entenda-se, aos lugares mais bem remunerados e que nos garantam mais Poder e Influência, dentro do Sistema cientificamente organizado. Poucas, poucos, muito poucas, poucos queremos ser como Jesus, outros Jesus, hoje e aqui.

 

10 Quando assim é, depressa começamos a deixar de frequentar e até a fugir do convívio da Sabedoria que sempre se apresenta Desarmada e Pobre como um Menino, perante o Saber Armado até aos dentes e Rico. E, pouco a pouco, começamos também a deixar de frequentar as poucas Sábias, os poucos Sábios que a Sabedoria faz e alimenta, Porém, mesmo que a Sabedoria sempre se apresente e movimente Desarmada e vá progressivamente em direcção a Jerusalém (entenda-se todo e qualquer Lugar onde se concentre o Saber /Poder assassino organizado, Cúria Romana ou Pentágono que sejam, ou alguma das inúmeras outras Cúrias romanas mais pequenas, ou algum dos inúmeros outros Pentágonos mais pequenos, inclusive, ao nível duma aldeia, onde, como se sabe, quem é cacique político ou pároco ou mais rico ou professor é rei), ela sempre vai /avança à frente, lúcida e determinada, frágil e desarmada, como um Menino.

 

11 Porém, todos os mais, mulheres e homens, que ainda não desistiram de vez de frequentar a Sabedoria e tão pouco desistiram de continuar a integrar o reduzido número de Sábias, Sábios que ela faz e alimenta, em vez de frequentarem o infindável número dos Sabedores /Doutores e todos os seus incontáveis vassalos, sentem-se cada vez mais desconcertados ou com medo. E quase sempre, ao verem o Perigo a rondar-lhes a porta, o Bom-Nome a ir parar à Lama, o Emprego a ser ameaçado, acabam por desertar, por fugir, como desertaram, fugiram os Doze. Ou ainda permanecem, mas sempre a meio pau, o mesmo é dizer, sempre de longe. O Evangelho é o que testemunha /revela. Por isso recusamo-nos a frequentá-lo, a mergulhar na Sabedoria que ele é. Sobretudo, recusamo-nos a praticá-lo e à Sabedoria que ele é, e do mesmo jeito de Jesus, só que, agora, à Século XXI, por sinal, bem mais difícil ainda do que então. Ou não vivêssemos hoje no Tempo da Demência-demência organizada, cientificamente organizada e globalizada /mediatizada. O que não acontecia então.

 

12 Não há então Esperança? Há e muita e com um Fundamento inamovível, que Império algum, Treva /Saber alguma, Sistema algum, por mais cientificamente organizado que esteja e se faça servir pelos melhores cérebros em todas as áreas do Saber, jamais conseguirá derrubar de vez. Bem pelo contrário, será o Império assassino e mentiroso, o derrubado. Porque - e essa é a causa maior da Alegria que anda sempre casada com a Sabedoria e que é uma constante no ser-viver das Sábias dos Sábios e totalmente ausente, até desconhecida, no ser-viver do Saber e do ser-viver dos Sabedores /Doutores, em masculino e feminino, tanto faz - a Sabedoria, três dias depois de Assassinada /Crucificada pelos Sabedores /Doutores, ressuscitará.

 

13 Quer isto dizer que a Sabedoria, quanto mais perseguida, caluniada, ostracizada, ridicularizada, esmagada, espezinhada, amaldiçoada, denegrida e, finalmente, crucificada, mais fecunda é, mais se afirma e desenvolve na História. O feitiço vira-se contra o Feiticeiro. Porque todas essas malfeitorias que o Saber e os Sabedores /Doutores fazem à Sabedoria redundam sempre, sem eles perceberem nunca como, em outras tantas Explosões /Ressurreições /Levantamentos /Insurreições. Desarmados, já se vê. E por isso espantosamente fecundos. Pode não se dar logo por isso. Porque somos lentos em perceber os sinais através dos quais a Sabedoria se nos revela e assinala a sua Passagem /Presença. Leva-nos sempre um período mais ou menos longo de tempo. Três dias, diz Jesus, o do Evangelho. O que significa uma totalidade de tempo, às vezes, anos, às vezes, uma, duas, três ou mais gerações. Percebem, agora, porque eu, presbítero da Igreja do Porto, Canto e Danço nas Margens, definitivamente longe dos templos e dos altares, dos palácios, todos eles sem excepção, cheios de Mentira e de Treva, de Hipocrisia e de Subserviência, de Inveja e de Murmuração, de assassínio e de ódio?!

 

Capítulo 5

 

1 Não há ser humano, mulher ou homem, mais temido e odiado por todas as elites do Dinheiro Acumulado e Concentrado, do Poder Político e do Poder Religioso-Eclesiástico, inevitavelmente banais /venais, e por todos os seus inúmeros vassalos, elas e eles - são capazes de passar toda a vida a desejar /sonhar /lutar para ver se conseguem chegar um dia a integrá-las, ou, ao menos, as suas filhas, os seus filhos - que um ser humano, mulher ou homem, que cresce todos os dias em Sabedoria e em Graça. O Banal e o Venal são a regra, dentro da presente Ordem Mundial do Mercado Global. A Sabedoria e a Graça, a excepção. Não estranhemos, então, que a Sabedoria e a Graça andem habitualmente arredadas dos chamados meios de comunicação social, os grandes e os pequenos. Todos eles estão preenchidos e ocupados, vinte e quatro horas sobre vinte e quatro, com o Banal e o Venal, a regra. Sem nenhum lugar, muito menos, lugar de destaque, para a Sabedoria e a Graça, a excepção.

 

2 A Luz /Lucidez, o outro nome, por sinal, bem expressivo e muito belo, da Sabedoria e da Graça, sempre foi, é e será incompatível com a Treva, o outro nome, também ele bem expressivo, mas muito feio, do Banal e do Venal. Lá, onde estiverem o Banal e o Venal, a Treva, não pode estar a Sabedoria e a Graça, a Luz /Lucidez. A Treva - o Banal e o Venal - odeia a Luz /Lucidez - a Sabedoria e a Graça. Odeia e mata. Porque não suporta que a Luz /Lucidez, mesmo que não diga nada, simplesmente esteja aí a brilhar em toda a sua fragilidade humana desarmada, ponha a nu todo o Perverso que está por dentro e por fora do Banal e do Venal organizados em Sistema.

 

3 Apresso-me a esclarecer, desde já, que o Banal e o Venal não são um desgraçado monopólio das elites do Dinheiro Acumulado e Concentrado, do Poder Político e do Poder Religioso /Eclesiástico, e de todos os seus vassalos. Podem também estar presentes e, geralmente, estão, como o trigo e o joio que habitualmente crescem juntos num campo onde quem o trabalha semeou apenas trigo, em todos os demais seres humanos, inclusive, nas inúmeras vítimas das elites banais e venais. Mas, nas não-elites, estão de modo muito distinto daquele em que estão nas elites banais e venais. Muito mais inofensivo. Ainda que, regra geral, seja sobre elas, as inúmeras Vítimas humanas das elites banais e venais, que o Poder Policial /Judicial, instituído por essas mesmas elites banais e venais, mais actua e mostra serviço. Ao ponto de ter as cadeias ou prisões de cada pais do Mundo cheias de pequenos ladrões, de assassinos de uma ou duas pessoas, numa palavra, de pequenos gangs, se comparados com os crimes, hediondos crimes, do Império de turno, por exemplo.

 

4 Tudo isto acaba por ser assim, porque, por um lado, o Banal e o Venal têm o pérfido condão de serem invulgarmente fecundos e de se reproduzirem em ritmo superior ao da progressão geométrica. Por outro lado, as próprias elites onde o Banal e o Venal são a regra, trabalham que se fartam, dia e noite, para que todos os seres humanos venham a ser contaminados por esse mesmo Vírus que as habita e faz. Os meios de comunicação social, grandes e pequenos, são, indiscutivelmente, um dos mais eficazes instrumentos de propagação e de infiltração desse Vírus entre as suas inúmeras vítimas humanas. Um Vírus, de sua natureza, compulsivamente mentiroso e assassino. Nas vítimas das elites banais e venais, o Vírus está presente e activo, mas sempre em pequena escala, o bastante, porém, para fazer delas criminosas, segundo a Lei em vigor, concebida e aprovada pelas elites banais e venais. Nas elites banais e venais, o Vírus está presente em tão grande escala, que faz delas, por exemplo, governantes das nações, heróis nacionais, quanto mais mentirosos e corruptos, mais admirados /aplaudidos /idolatrados até pelas suas inúmeras vítimas.

 

5 Mas há também outros instrumentos não menos eficazes, ainda que muito mais disfarçados /mascarados, para as elites banais e venais multiplicarem e espalharem o Vírus do Banal e do Venal entre as populações e os povos. Duma maneira geral, tudo o que é Institucional, a começar pelo Institucional dito e tido por Sagrado ou Divino (nada de confundirmos o chamado Sagrado ou Divino com DeusVivo, o de Jesus!), é invariavelmente um fecundo ventre gerador /multiplicador do Banal e do Venal. Além disso, as elites que cultivam o Banal e o Venal e se alimentam com o Banal e o Venal, como não suportam seres humanos, mulheres ou homens, que, dentro desta Ordem Mundial do Mercado Global, teimam em continuar a crescer em Sabedoria e em Graça, movimentam todos os dias este mundo e o outro, para conseguirem que todos os seres humanos sejamos banais e venais. Como elas.

 

6 Fazem ainda mais as elites banais e venais. Quando elas topam alguns seres humanos, intelectualmente dotados, nascidos fora delas e a viver longe delas, logo os fazem frequentar as suas Escolas e as suas Universidades, e levam-nos a acrescentar doutoramento a outro doutoramento, e a mais outro e ainda a mais outro. Só que, depois, exigem-lhes que passem a ser os mais banais e os mais venais de todos os seres humanos sobre a Terra. Pois só assim - e é muito difícil a um ser humano com tanto Saber Acumulado e Concentrado resistir à Sedução, à Tentação do Banal e do Venal organizados - é que eles, alguns, até filhas, filhos de Ninguém, verão finalmente abrir-se-lhes, de par em par, todas as portas dos Privilégios, essa tenebrosa criação de todas as Máfias que estão aí activas ao leme da presente Ordem Mundial do Mercado Global. Sem que a maioria de nós, seres humanos, sequer dê por isso. E, se estes seres humanos aceitam entrar por aí, acabarão, ao fim de poucos anos, como os campeões do Banal e do Venal. Os reis do Banal e do Venal. Mesmo que vistam de Papa, de Cardeal, de Bispo residencial, de Primeiro-Ministro, de Presidente da República, de Presidente da administração do Banco Mundial, de Dono da Multinacional das multinacionais, ou de Presidente do Império de turno.

 

7 A presente Ordem Mundial do Mercado Global é, indiscutivelmente, a Demência-demência organizada à escala planetária. Como tal, só pode ser geradora, propagadora e alimentadora do Banal e do Venal, a Treva. Quanto mais trabalha - e trabalha que se farta, investe que se farta - mais banais e venais produz, inclusive e sobretudo, entre as suas inúmeras vítimas humanas. Que, assim, acabam também banais e venais, à imagem e semelhança das elites banais e venais que estão ao leme da presente Ordem Mundial do Mercado Global. E tudo está tão bem congeminado, que chega a parecer natural, senão mesmo, caído do Céu, isto é, criação de Deus. Não é. É tudo fruto do Institucional, criado e alimentado pelas elites banais e venais que jamais aceitam perder o leme da presente Ordem Mundial do Mercado Global. Nem que, para tanto, tenham de matar, roubar e destruir nações inteiras, continentes inteiros, o próprio Planeta. A História passada e contemporânea fala por si. O Banal e o Venal organizados são mesmo assim. Um Sistema intrinsecamente perverso. Mentiroso. Assassino.

 

8 Como então resistir-lhe e mantermo-nos, todos os dias e por toda a vida, seres humanos simplesmente, a crescer mais e mais em Sabedoria e em Graça, Luz /Lucidez? A questão é fulcral. Felizmente, já há resposta para ela. O difícil mesmo, é acolhê-la, praticá-la. Mas nunca eu disse que sermos seres humanos, a crescer todos os dias e por toda a vida, em Sabedoria e em Graça, era coisa fácil. Jesus, a Sabedoria e a Graça, a Luz /Lucidez em plenitude - nele e só nele, nunca houve Treva, o Banal e o Venal nunca tiveram lugar no seu Ser-Viver-para-os-demais-e-com-os-demais, por isso dizemos que ele é o Ser Humano por antonomásia - é ele próprio o Caminho ou a Via que havemos de percorrer /prosseguir, nos antípodas do Institucional e das elites banais e venais que o Institucional sempre gera e sem as quais ele próprio depressa desapareceria.

 

9 O segredo reside no tipo de Alimento que havemos de comer todos os dias. Há por aí um generalizado tipo de Alimento que quem o come diariamente medra cada vez mais, mas em Banal e em Venal. Torna-se mais e mais banal e venal. Alguns, muito poucos, na privilegiada condição de elites banais e venais que, em cada geração, estão ao leme da presente Ordem Mundial do Mercado Global. Todos os outros, na desgraçada e humilhante condição de vítimas das elites banais e venais. Quem come desse tipo de Alimento, produzido e fornecido /vendido pelo Institucional, adoece e morre como ser humano. Em vez de crescer em Sabedoria e em Graça, como Jesus, cresce em Banal e em Venal. No estatuto de elite, muito poucos. No estatuto de vítima da elite, a esmagadora maioria sofrida do Planeta, pessoas e natureza.

 

10 Há, porém, um outro tipo de Alimento que quem o come diariamente cresce em Sabedoria e em Graça. E, ao contrário das elites banais e venais, que vêm todas para roubar, matar e destruir, as, os que comemos desse outro tipo de Alimento, sempre estamos - havemos de estar - aí para sermos um DomVivo, uma  DádivaViva, Luz, Fermento, Sal, Sentinela, Pão-que-se-dá-a-Comer, Vinho-que-se-dá-a-Beber pela vida do Mundo. Saibam que nem sequer os discípulos mais próximos de Jesus, o chamado Grupo dos Doze, chegaram a entender suficientemente Jesus, pelo menos, até o Momento da Morte Crucificada dele na Cruz do Império de turno, na altura, o Romano. Nem eles se mostraram dispostos a Comer do mesmo Alimento de Jesus. Nem sequer, no decurso da chamada última Ceia, realizada na clandestinidade, poucas horas antes de Jesus ser preso, julgado, condenado e executado na Cruz do Império. Nem nessa Ceia final, eles foram capazes de comer do mesmo Alimento de Jesus. Ele bem lhes disse: Tomai e comei, é o meu Corpo entregue por vós, mas, no testemunhar do Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, não se chega a dizer que eles comeram. Nesse Momento, ainda preferiam o tipo de Alimento que faz medrar, em quem o come, o Banal e o Venal, concretamente, o Poder Político sobre os demais, ou o Poder Religioso, ou o Poder Económico-financeiro. Quando o tipo de Alimento que Jesus dá e que é ele próprio, faz medrar, em quem o come, a Entrega da nossa própria vida aos demais, a começar pelos Ninguém. Como fez nele. O que não for assim, ainda é mais do mesmo. Ainda é mais do Banal e do Venal, puro rito, puro faz-de-conta.

 

11 "Tenho um outro Alimento para comer, que vós não conheceis". É o Evangelho de João, o último dos quatro canónicos a ser escrito /editado, que põe na boca de Jesus estas palavras. Vêm no capítulo 4, numa belíssima narrativa teológica, ainda hoje profundamente perturbadora e nada entendida pelo Institucional Eclesiástico e o outro, mais secular. Trata-se de uma narrativa protagonizada por uma Mulher da Samaria, em representação do Povo Samaritano da altura em que  o Evangelho é escrito. Uma narrativa que continua a ser conhecida como o episódio da Samaritana. As catequeses tradicionais falam desta narrativa como se ela tivesse ocorrido tal e qual. Não ocorreu. Foi escrita assim, com todos os pormenores com que se apresenta tecida, para ver se chega a "mexer" connosco e a tornar-se realidade em cada uma, cada um de nós que, ao longo da História, a lermos-escutarmos, mais escutarmos do que lermos. E a escutarmos com coração sapiente. Os discípulos, diz-se na narrativa, tinham ido à cidade comprar alimentos. Deixaram Jesus sozinho. E, quando chegaram com os alimentos comprados, ficaram visivelmente incomodados /escandalizados por Jesus estar a falar com tanta intimidade teológica com uma Mulher, para mais, Samaritana e que já tinha tido cinco maridos - entenda-se, cinco deuses - e agora vivia com um outro (deus) que não era dela! Não disseram nada a Jesus, mas o que eles não terão dito /comentado /murmurado uns com os outros. Nem queiramos imaginar!...

 

12 É nessa ocasião teológica que Jesus, que já tinha feito revelações teológicas à Mulher Samaritana, que ainda não tinha tido ambiente favorável para as fazer aos seus irmãos Judeus, nem sequer ao grupo dos Doze, escolhido por ele, por manifesta falta de compreensão da parte de todos eles, sempre tão preocupados / ocupados com o Banal e o Venal (vejam só como são tão delicadas as coisas da Sabedoria e da Graça, da Verdade e da Liberdade e como são tão poucas, poucos os que criam condições subjectivas para as acolherem-praticarem!), faz então aquela afirmação, tão desconcertante, pelo menos, para eles, os Doze, e, certamente, também para nós, ainda hoje. A reacção deles à afirmação de Jesus é própria de dementes-dementes. Uma reacção ditada pelo Banal e pelo Venal que andavam ainda na cabeça deles e no seu viver, como, de resto, no nosso, hoje. "Será - dizem uns para os outros - que alguém lhe trouxe de comer?" Esta reacção revela que eles /nós, fora do Banal e do Venal, ficavam sempre /ficamos sempre manifestamente aos papeis, às aranhas, como hoje se diz.

 

13 Ora, o tipo de Alimento que sempre nos fará pessoas humanas Sábias e GraçaViva /DádivasVivas-entre-os-demais-e-com-os-demais é a Prática quotidiana, pela nossa parte, do mesmo Projecto Político que, historicamente, fez ser-viver Jesus, por causa do qual ele foi assassinado na Cruz do Império. Trata-se, de resto, do mesmo Projecto Político do próprio DeusVivo, no qual DeusVivo, sempre no testemunhar de Jesus, está continuamente a trabalhar, sábados e domingos incluídos, como, de resto, fazem, só que demencialmente, as elites do Banal e do Venal, no que respeita à implementação e ao reforço do seu projecto de Poder Político, materializado, neste nosso século XXI, na presente Ordem Mundial do Mercado Global, intrinsecamente perversa, mentirosa e assassina, como tal, em completa Oposição ao Projecto Político de DeusVivo, nosso Abbá. E que consiste em congregar numa mesma Mesa Comum, feita de múltiplas mesas, tantas quantas as nações da Terra, todos os Povos, sem deixar nenhum de fora, todos irmãos uns dos outros, autónomos, sujeitos, protagonistas, a crescermos em Sabedoria e em Graça. Não mais no Banal e no Venal. Por outras palavras, trata-se de implementare de dar corpo, na História, uma Ordem Mundial Outra, nos antípodas da presente Ordem Mundial do Mercado Global, que mais não é do que uma planetária fábrica de produzir vítimas sem conta, numa operação de Descriação do Humano, de fazer partir o coração ao mais insensível!

 

14 Para bem, haveríamos de fazer das nossas Comidas diárias, Comidas como as de Jesus. Comidas que nos façam crescer em Sabedoria e em Graça, no Humano e no Sororal-Fraterno Universal, e nos converta a todas, todos em Pão e Vinho uns para os outros. Comidas, onde o Banal e o Venal não tenham mais lugar. Comidas cheias de Palavra libertadora, maiêutica, politicamente mobilizadora em torno das grandes e das pequenas Causas da Humanidade. Comidas que nos consciencializem. Nos despertem. Nos levantem. Nos ressuscitem. E nos atirem para a Missão, para o Trabalho, o mesmo Trabalho de DeusVivo, o mesmo Trabalho de Jesus. Infelizmente, o Banal e o Venal, com as suas Rotinas e os seus Sem-sentido, mais todas as suas Demências e Infantilidades, até à Mesa se impõem quase sempre e ditam as suas leis. Deste modo, comemos, mas não nos alimentamos com o tipo de Alimento com que Jesus sempre se alimenta. Em consequência, comemos, mas não crescemos em Sabedoria e em Graça, como Jesus crescia. Em Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas. Menos ainda em Duelos Teológicos Desarmados. Sem disso termos consciência, fazemos a maior parte dos dias da nossa curta vida visível na História o jogo da Ordem Mundial do Mercado Global e das suas elites banais e venais. E, quando assim é, decrescemos em Humano. Decrescemos em Liberdade. E em Alegria. E em Festa. E em Entrega uns aos outros. E em Revolução Desarmada. Quando dermos por isso, estamos reduzidos a meras Coisas-que-mexem. Uma Mercadoria mais. Cúmplices, pelo menos, por omissão, das elites banais e venais. Alerta, pois, minhas irmãs, meus irmãos!

 

Capítulo 4

 

1 Às pessoas humanas, só as conhecemos bem com o coração. Pois só com o coração é possível ver /conhecer o Essencial, sempre invisível aos olhos, também o Essencial que as pessoas são. Porém, conhecer bem as pessoas humanas com o coração é o que, hoje, nestes tempos de Demência-demência ou de anti-Sabedoria organizada em Ordem Mundial, menos acontece por aí. Estamos cercados de Lobos e de Víboras em forma humana, que nos envenenam e infernizam a vida. De Mercenários que nos mentem e exploram e, ainda, nos instigam a mentir e a explorar, como eles que se têm na conta de nossos mestres e de nossos líderes /pastores /chefes. Estamos, como pessoas, cercadas de Juízes-de-trazer-por-casa (por vezes, até familiares de sangue) que nos julgam e condenam. E também de Moralistas que nos ostracizam como se fôssemos uns reles pecadores públicos, só porque não vamos pelo seu Moralismo sem entranhas de Ternura, sem abraços e sem beijos, apenas palavras e olhares - as, os deles - que são outras tantas espadas afiadas. Pelo que não há mais alternativa. Ou alinhamos no chamado, política e religiosamente, correcto, e somos reconhecidos e valorizados, ou, pelo contrário,  ousamos ser e viver como saudáveis e fecundos Dissidentes entre os demais e com os demais, e que é uma outra lúcida maneira de sermos Sábias, Sábios. Mas, então, logo nos vemos /veremos inevitavelmente mergulhados em estado de Deserto. Por toda a vida.

 

2 Querem, hoje, a toda a força, que nos batamos, e por toda a vida, por sermos grandes em Poder Económico-financeiro ou Dinheiro, muito Dinheiro. Querem que nos batamos, e por toda a vida, por sermos grandes em Poder Político, se possível, que cheguemos a estar à frente como chefes do Império, ou do país, ou do concelho ou da freguesia, ou, então, de um grande ou pequeno partido político da Oposição, ou de uma grande ou pequena família estável, de uma repartição pública, de uma empresa, de uma multinacional, sei lá, até de uma simples IPSS ou pequeno Centro Social. Querem que nos batamos, e por toda a vida, por sermos grandes em Poder Religioso-Eclesiástico, papa, se possível, ou então cardeal, bispo residencial, pároco de uma ou de várias paróquias, quanto mais financeiramente rentáveis melhor. Diz-me o Poder que tens, dir-te-ei o respeito, a consideração, a aceitação que terás. Não tens nenhum Poder?! Então, também não tens nenhum respeito, nenhuma consideração, nenhuma aceitação. Todos te cagam em cima. Todos te ignoram. Ninguém te (re)conhece. E até aquelas, aqueles que tens como tuas amigas, teus amigos, mas que não vão nada nas tuas "loucuras", te olham de soslaio e meneiam a cabeça, desconcertadas, desconcertados. Ao mesmo tempo que, quais comadres e compadres de língua afiada, comentam e escarnecem entre si semelhantes gostos teus.

 

3 Ai daquelas pessoas que recusam o Poder, e que o recusam por toda a vida. Ai daquelas pessoas que fazem tudo o que está ao seu alcance, vida fora, para nunca terem /exercerem o Poder, nenhuma espécie de Poder. E que, sobretudo - escândalo dos escândalos, loucura das loucuras - recusam alguma vez adorar o Deus/Ídolo-Todo-Poderoso que fundamenta, justifica e até abençoa todo o Poder. E, consequentemente, também recusam adoptar, como orientação /doutrina última do seu viver na História, a Ideologia /Idolatria que está na génese de todo o tipo de Poder. E ai dessas pessoas porquê? Porque tais pessoas são pessoas fatalmente votadas ao ostracismo. Uma vez que o universo delas - todas pessoas pobres por opção, pessoas frágeis e desarmadas por opção, pessoas seculares e sem religião /templo por opção - é todo ele tecido de Valores que não valem nada no Mercado de valores. É todo ele tecido de Valores outros, que o Mercado de valores não conhece nem pode conhecer. Muito menos, divulga e apoia. Desapareceria, pura e simplesmente, como Mercado de valores, se desse semelhante passo. E isso, o Mercado de valores nunca fará, enquanto existir na História. Porque o Mercado de valores é, de sua natureza, homicida. Compulsivamente homicida. Mas o que ele não é - isso lhes garanto - nem nunca será, é suicida!

 

4 Cabe às pessoas - por sinal, sempre muito poucas pessoas, ao longo da História e, hoje, ainda menos (uma em mil, uma num milhão?) - que conscientemente recusam, por toda a sua vida, o Poder, todo o tipo de Poder, até o simples Poder de usufruir de bom nome entre os demais, viverem em Deserto, que é um estado que o Poder jamais consegue suportar, muito menos, fazer seu. Ainda que por lá passe assiduamente, mas apenas como Tentador, melhor, como o Tentador por excelência. O Poder, em nenhum dos três Poderes com que se veste /disfarça, jamais consegue viver em Deserto. Depressa desfaleceria e desapareceria. Já a Sabedoria é apenas em Deserto e numa Espiritualidade jesuânica em Deserto, que ela vive e se alimenta. Sem jamais se descuidar. Bem pelo contrário. A Sabedoria tem consciência de que viver em Deserto, dentro da presente Demência-demência organizada em Ordem Mundial, em que vivemos como Povo de povos, tem de ser um viver todos os dias em estado de vigia, de alerta. Porque o Poder, embora não viva em Deserto, está continuamente a passar pelo nosso viver, sob múltiplas formas e sob múltiplos disfarces, até familiares e amigos, para Tentar quantas, quantos de nós decidimos viver em Deserto e uma Espiritualidade em Deserto. E não é que, infelizmente, o Tentador obtém, todos os dias, visíveis resultados? Não conseguiu, de resto, grandes resultados, inclusive, entre o grupo dos Doze, encabeçado por Simão Pedro e fechado por Judas Iscariotes, apesar de todos eles terem sido escolhidos um a um pelo próprio Jesus, sob a inspiração /acção do Espírito Santo, depois de Jesus ter passado uma noite inteira em oração?!

 

5 É aqui que são precisos muito Discernimento e muita Sabedoria. Dois Valores que o actual Mercado de valores desconhece, mas que, por exemplo, já as meninas-servas, os meninos-servos e quem for como elas, como eles, conhecem bem, nomeadamente, aquelas meninas, aqueles meninos como a minha Amiga Martinha, de Amarante, que, estes dias, voltei a visitar, já depois das férias, e junto da qual alimentei ainda mais o meu contínuo nascer de novo, do Alto, do Sopro que vem da banda das Vítimas do Poder, dos três Poderes (será que a sua mãe e o seu pai biológicos já terão caído na conta da Dádiva /Graça, chamada Marta, Martinha para quem lida mais frequentemente com ela, que, há 23 anos, lhes entrou em casa? Só se, também eles, a olharem todos os dias com o coração!). A deficiência física de Martinha é tão grande, desde o parto, que toda ela fala /comunica /partilha Sabedoria. Sem que, entretanto, nos 23 anos que já leva de vida na História, Martinha tenha, alguma vez, conseguido articular /dizer uma única frase, muito menos, obviamente, uma única frase dessas muitas frases dementes-dementes com que todos os agentes /mercenários do Poder Político, em tempo de campanhas eleitorais e mesmo depois delas, nos oprimem, massacram e matam em todos os telejornais e jantares-de-campanha com tudo de anti-Eucaristia, de anti-Sabedoria. Mas aquele seu sorriso para mim, aquelas suas gargalhadas para mim, aqueles seus olhos repletos de Graça e de Verdade que me fitam são EvangelhoVivo, são Sabedoria feita Mulher, feita Menina.

 

6 Só se as conhecermos com o coração, é que chegamos a conhecer bem as pessoas que nos rodeiam. Porque lá, onde houver este conhecer com o coração, não há mais lugar para as rotinas. Tudo é novo cada dia. Quando nos olhamos /encontramos, é sempre a primeira vez. Até porque a pessoa que olhamos /encontramos nunca é como já a conhecemos. É sempre mais. Infinitamente mais do que a conhecemos. É por isso que as rotinas, quando entram e se alojam nas relações entre as pessoas, são tremendamente devastadoras do Humano em nós, quando, porventura, as protagonizamos. Por sua vez, os preconceitos moralistas com que frequentemente olhamos as pessoas que mais nos frequentam e que mais frequentamos são sempre mortalmente fatais. E Aquilo que outras pessoas, porventura, cansadas de lutar e de viver em Deserto, decidiram parar no Tempo e acomodar-se, pelo resto da vida, ao politicamente correcto e ao familiarmente correcto, hoje nos venham ou possam vir a dizer de menos favorável acerca desta ou daquela pessoa que vive em Deserto, ou do nosso próprio viver em Deserto, é demoniacamente demolidor. Mas então, e o que dizermos da Vulgaridade /Habituação do nosso olhar para as pessoas que já conhecemos de longa data? É bem a trave - não o cisco, mas a trave - que temos nos olhos e nos impede de ir além das aparências e nos faz tomar a pessoa pelo que ela nos parece que é. Quando, na realidade, a pessoa (quase) nunca é o que nos parece que é.

 

7 Aliás, a pessoa humana que conhecemos em concreto, nunca nós a conhecemos em pleno. A pessoa humana é essencialmente Mistério. Como DeusVivo, o Totalmente Outro, de quem as pessoas humanas, enquanto tais, não enquanto Poder que aceitaram tornar-se, somos sua imagem e semelhança. Como pessoa humana que é, ela está continuamente a revelar-se, a dar-se a conhecer. E é sempre mais, infinitamente mais do que tudo o que já possamos conhecer dela. Por isso é que só quando olhamos as pessoas humanas, cada pessoa humana, com o coração é que conseguiremos abrir-nos de par em par e deixamos que o Essencial de cada uma delas, inconfundível em relação ao Essencial de qualquer outra, chegue, progressivamente, até nós. Com tudo o que ele tem de original. De irrepetível. De único. Ora, quando um tal encontro /comunhão acontece, acontece também o Deslumbramento. A Festa. O Abraço. O Beijo. A Ternura. A Alegria. E - atentem bem! - a Missão, isto é, aquela Acção Política Maiêutica conjunta que haverá de ser levada a cabo por essas mesmas pessoas encontradas, para que o Poder seja desmascarado como Descriador do Humano e perca todos os dias súbditos atentos e reverentes, mais ou menos vestidos /enfeitados /borrados de Medo, muitas vezes, até do vizinho, ou do filho, ou do pai, ou do marido, ou do patrão, ou do chefe do partido político, ou do pároco, ou do bispo residencial.

 

8 Então, todas as palavras que dizemos /partilhamos e até os Silêncios que vivemos /partilhamos são fecundamente maiêuticas, maiêuticos. libertadoras, libertadores. geradoras, geradores de vida e vida em abundância. Como as palavras de Jesus, o da História e, hoje, porventura ainda mais do que as palavras do Jesus da História, também as palavras de Jesus, o do seu Espírito. Juntamente com todas as suas práticas políticas maiêuticas. E os seus duelos teológicos desarmados. Em suma, toda a sua Missão. Só os do Poder instituído - os dos três Poderes que actuam como um só - e os candidatos ao Poder instituído é que não suportam Jesus, nem as suas discípulas, os seus discípulos. Igualmente, o não suportam todos os inúmeros oprimidos /dominados pelo Poder, convertidos em lacaios do Poder, que têm medo de se assumirem na vida e na História, como Liberdade Praticada, ainda que vivida em estado de Deserto. À Liberdade Praticada, vivida em estado de Deserto, preferem a Segurança Domesticada e Domesticadora. Já no século I, na Palestina, foram todos esses que, sem audácia para serem pessoas humanas a valer, historicamente cercaram Jesus, quase desde o primeiro dia da sua Missão Política Maiêutica. Armaram-lhe ciladas. Olharam-no sem coração, já que coração é coisa que os do Poder, de todo o Poder, e os seus lacaios não têm. São todos mais ou menos lobos e víboras. Mercenários que vêm e vivem só para roubar, matar e destruir. Desacreditaram-no em todo o lado e perante toda a gente. E, finalmente, mataram-no. Na Cruz do Império. A única maneira de conseguirem que Jesus ficasse Maldito para sempre! O Desaparecido por antonomásia da História. E o mesmo fazem, hoje também, embora por outros processos e por outras vias, às suas discípulas, aos seus discípulos.

 

9 Em vão o fazem. Porque o Amanhã-que-vem é já Hoje, nos nossos corpos entregues e nas nossas vidas compartilhadas, bem nos antípodas das vidas dos do Poder do Dinheiro Acumulado e Concentrado, dos do Poder Político e dos do Poder Religioso-Eclesiástico. Vidas que como o grão de mostarda crescem em Sabedoria e em Graça, por mais violento que possa ser o Ostracismo a que são sistematicamente votadas. Garanto-lhes que não é sonho, muito menos, quimera. É vida também no meu fragilizado e desarmado viver presbiteral, todos os dias à intempérie e na trincheira. Porque, um dia, também eu disse NÃO! ao tapete do Poder eclesiástico que me estenderam! O representante em causa desse mesmo Poder não me perdoou tamanha deslealdade. Muito menos, me perdoou o desafio-convite, cheio de Ternura, que, em alternativa, lhe dirigi, para que deixasse definitivamente o palácio do Poder Eclesiástico e viesse erguer, como bispo da Igreja de Jesus, a sua tenda entre algumas das suas inúmeras vítimas. Não deixou, nem veio. E foi o que se sabe. Os do Poder rejubilaram e continuam rejubilar. Os seus muitos lacaios, também. Não assim as suas inúmeras vítimas.

 

Capítulo 3

 

1 De Jesus, dizem as pequenas Comunidades das suas discípulas, dos seus discípulos que escreveram o Evangelho de Lucas - pequenas Comunidades de pobres por opção, por isso, pequenas Comunidades de mulheres sábias, homens sábios - que ele crescia em Sabedoria e em Graça. Dizem-no com incontida alegria. E como uma Boa Notícia ou Evangelho para todos os Povos da Terra. Não dizem, como hoje seria certamente de esperar que dissessem, que Jesus crescia em Saber e em Ter. Em Poder e em Lucro. Não. Para aquelas pequenas Comunidades, o Saber e o Ter, o Poder e o Lucro eram, são sempre intrinsecamente descriadores do Humano. Assim mesmo! Ai, então, daquelas mulheres, daqueles homens que crescem em Saber e em Ter, em Poder e em Lucro, em lugar de crescerem em Sabedoria e em Graça. Nunca chegam a Ser, pelo menos, enquanto não nascerem de novo, da Ruah, da Ternura Criadora e Libertadora. Perdem-se historicamente como Humanos. Tornam-se Coisas-que-mexem. Um permanente perigo público, lá onde estiverem. E quanto mais activos, pior. Porque são compulsivamente mentirosos e assassinos.

 

2 Não significa isto que tais mulheres, homens saiam por aí todos os dias e a todas as horas a mentir a torto e a direito e a matar tudo e todos. Pelo contrário, comportam-se, até, pelo menos, aparentemente, como grandes senhoras, grandes senhores. São as primeiras damas no país ou na empresa. São os senhores presidentes, no país, no governo ou na empresa. Porém, sempre que a situação em que elas, eles vivem e reinam se lhes tornar desfavorável, logo essas mulheres, esses homens mostram o que efectivamente são. De resto, são mulheres, homens assim que todos os dias concebem, dão à luz e alimentam esta Ordem Mundial em que presentemente vivemos, fabricadora de pobres e de pobreza em massa. E, depois, ainda, a defendem com unhas e dentes, inclusive, com o recurso a armas, as mais sofisticadas, e sempre sem quaisquer escrúpulos. O cúmulo do Saber e do Ter, do Poder e do Lucro é o Império. Que é, de sua natureza, intrinsecamente mentiroso e assassino. Por mais que se disfarce de benfeitor e se faça adorar por todos os Povos da Terra. É o lobo voraz por antonomásia, (mal) disfarçado de cordeiro. Sempre de garras afiadas, ainda que escondidas sob pesado e tenebroso manto, o pesado e tenebroso manto da Ideologia.

 

3 Jesus - diz-nos /revela-nos o mesmo Evangelho de Lucas - cresceu tanto em Sabedoria e em Graça, que acabou por não ter mais lugar dentro da Ordem Mundial do Saber e do Ter, do Poder e do Lucro. Ou ele, ou eu, disse, diz ainda hoje, o Império. O mesmo disseram o seu Templo e o seu Ídolo. E os seus sacerdotes, a começar pelos Sumos. No inevitável e duélico confronto humano-teológico, o Império saiu facilmente o vencedor, até porque Jesus, a Sabedoria feita Ser Humano por antonomásia, apresenta-se sempre desarmado neste duelo. É o antípoda do Império. Logo após a vitória sobre Jesus, o Templo e o seu Ídolo saíram à rua a aclamar o Império pela vitória alcançada, e a abençoá-lo com visível satisfação. De modo que a Ordem Mundial do Império pôde prosseguir como se nada tivesse acontecido.

 

4 A Normalidade armada é uma das leis do Império. A paz armada é uma das regalias do Império. A Segurança armada é um dos benefícios do Império. As populações e os Povos gostam, aplaudem, dançam, festejam. Tanto eles e eles gostam, que até entregam os seus filhos e as suas filhas ao Império, como soldados, e como funcionários de todo o tipo. Cresce, então, ainda mais o Saber e o Ter, o Poder e o Lucro. Cresce ainda mais a Idolatria. Diminui, na proporção inversa, o Humano, tanto nas mulheres como nos homens e nos Povos do Planeta. Porque apenas a Sabedoria nos faz Humanos uns com os outros e connosco próprios. Só que à Sabedoria, ninguém a quer. Ou muito poucas, muito poucos a querem. E, quando a querem, nem sempre a querem por toda a vida. De repente, passam-se, com armas e bagagens, para o Império, o seu Templo e o seu Ídolo.

 

5 Porque ser Humano e permanecer Humano por toda a vida é difícil, muito difícil. É como um camelo entrar pelo fundo de uma agulha. Coisa impossível. A menos que permaneçamos todos os dias de portas abertas à Sabedoria que vem até nós como um Dom, uma Dádiva. Para fazer de nós, mulheres e homens e Povos, outras tantas Dádivas vivas para os demais e com os demais. Uma postura de vida que, hoje, praticamente ninguém quer. Nem sequer os pobres em massa, possessos que estão, eles também, de desejos do Saber e do Ter, do Poder e do Lucro. Só mesmo os pobres por opção. E que o queiram ser com alegria e por toda a vida. Coisa cada vez mais rara, nos tempos do Império Global e da sua Publicidade a funcionar aí, dia e noite, como o mais mentiroso e o mais assassino dos Evangelhos, por isso, o Anti-Evangelho, a Anti-Sabedoria, o Anti-Jesus, o Anti-Humano.

 

6 Se há hoje coisa difícil de se conseguir, dentro desta Ordem Mundial do Império, é precisamente, sermos e permanecermos Humanos. Porque o Humano é incompatível com o Império. E, segundo as leis do menor esforço, da rotina e do Institucional, pelas quais a maioria das mulheres, dos homens habitualmente nos regemos dentro da Ordem Mundial do Império, ganha sempre, quase sempre, o Império, em detrimento do Humano. Dentro do Império e da sua Ordem Mundial, o Humano vive sempre na condição de Derrotado, de Vencido e, muitas vezes, acaba até na condição de Desaparecido, de Não-Existente. Nesses períodos, podemos dizer com toda a propriedade que chegou a hora da Treva. A hora da Demência Organizada. Sem que ninguém, ou quase ninguém chore ou jejue. Pelo contrário, comem, bebem e gozam à tripa forra. Atropelam tudo e todos. Não conhecem ninguém. São os maiores!

 

7 Vivemos hoje um desses períodos históricos. Tão mergulhados na Mentira, no Inumano, na Idolatria, que - vejam lá! - até achamos natural desaparecermos progressivamente como Humanos, como Seres Humanos, para nos tornarmos Coisas-que-mexem. Consumidores. É o cúmulo da Demência Organizada. Mas nós achamos natural. Tanto, que festejamos ruidosamente a promoção do nosso filho, da nossa filha dentro da Hierarquia do Império. E se o nosso filho chega a presidente do Império, ou a general, ou a papa, a cardeal, ou mesmo a bispo residencial ou a pároco do Império, logo toda a família corre a festejar e a receber os parabéns dos demais. Ao mesmo tempo que conhece na pele, disfarçada de hipócritas sorrisos, a inveja de todos eles. Só porque o eleito pelo Império não foi o filho deles, como eles tanto desejavam que fosse.

 

8 Permanecer Humano e crescer todos os dias em Humano, é permanecer Sábia, Sábio, e crescer sempre mais e mais em Sabedoria e em Graça. Não é crescer em Saber e em Ter, em Poder e em Lucro. Crescer em Saber e em Ter, em Poder e em Lucro é o que fazem o Império, o seu Templo e o seu Ídolo. Porque o Império, ao contrário do Humano, veio e está aí organizado só para matar, roubar e destruir. O Humano, pelo contrário, veio e, lá, onde estiver, é só para se dar, para se partilhar, para se fazer Pão Partido /Repartido que se dá a Comer e Vinho Derramado que se dá a Beber pela vida de muitos, que é o mesmo que dizer, pela vida de todas, todos e do próprio Planeta, nossa Casa Comum. O Humano é, por isso, Eucaristia viva, em acção. É a Grande Dádiva de DeusVivo e Criador ao Universo /Pluriverso.

 

9 Porém, quem, hoje, dentro do Império, está disposto a ir por esta via, a da Sabedoria? O Império é de tal modo dono e senhor das pessoas, juntamente com o seu Templo e o seu Ídolo, que muito poucas das pessoas que nascemos dentro desta sua Ordem Mundial, conseguimos aperceber-nos da situação e, sobretudo, resistir-lhe activamente. Vamos todas, ou quase, na corrente ideológica do Império, cada vez mais caudalosa e agressiva, sedutora e activa. Até cairmos no Abismo, no Nada. Nascemos dentro do Império e morremos dentro do Império, sem nunca termos chegado a sair dele, a protagonizar o Êxodo pessoal da Casa de Opressão para a da Liberdade, que há-de ser cada Mulher, cada Homem que vem a este Mundo. Então, só mesmo a Morte, quando chegar, nos fará saltar fora, sair do Império. Obviamente, a Morte, tal como ela é entendida pela Sabedoria, como a nossa derradeira Oportunidade, o nosso derradeiro Nascer. O nosso Nascer de Novo definitivo. Seremos, então, integralmente Humanos. Por pura Graça.

 

10 A Sabedoria é uma Dádiva que vem de fora do Império. Não faz parte do Império. Do Império, só o Saber. E o Ter. E o Poder. E o Lucro. A Sabedoria é um Dom, uma Dádiva. De fora do Império e contra o próprio Império. Vem, como Sopro, do Mundo das suas inúmeras Vítimas. Naquelas mulheres, naqueles homens em quem ela estiver activa e for quotidianamente praticada, a Sabedoria converte o seu Viver na História em Duelo Teológico Desarmado contra o Império, o seu Templo e o seu Ídolo. Porque o Império sempre diz: Ou eles, ou eu. E sabe que, quando fala assim, tem sempre com ele o seu Templo e o seu Ídolo. Todos mentirosos e assassinos.

 

11 Mas, se a Sabedoria, ao contrário do Saber, é sempre um Dom, uma Dádiva, então ela é, inevitavelmente, o que há de mais exigente para uma mulher, um homem. A Sabedoria nunca cai do Céu. Sempre rebenta, irreprimível, do viver solidário por toda a vida, próximo e em comunhão maiêutica com as Vítimas do Império, do seu Templo e do seu Ídolo. Até nos tornar, a nós também, Dom, Dádiva para os demais e com os demais. Nos antípodas de tudo quanto aí é presidente do Império, do país-colónia-do-Império, do Templo do Império, do Ídolo do Império. É a via do Humano, do integralmente Humano. Poucos, muito poucos, são os que acertam com esta via e entram por ela e permanecem nela por toda a vida.

 

12 Sei do que falo. Porque esta é a via que procuro frequentar e percorrer, desde que nasci da Ti Maria do Grilo, jornaleira pobre a vida inteira, e do Ti David, operário pobre a vida inteira, ambos felizes, cheios de Sabedoria, sem quaisquer ambições em ordem ao Saber e ao Ter, ao Poder e ao Lucro. Dentro do Império, do seu Templo e do seu Ídolo, esta Via é Via Crucificada /Ressuscitada /Dissidente, porque progressivamente Humana, nos antípodas da via do Império, do seu Templo e do seu Ídolo. Mesmo assim, não quero outra, ou esta não seja a via que Jesus, a Sabedoria feita Ser Humano por antonomásia, abriu com o seu Ser-Viver Humano até ao limite e para lá do limite. A via em que ele próprio se tornou e é! Para sempre.

 

Capítulo 2

 

1 Ai daquelas, daqueles que confundem Sabedoria com Saber. O Saber, ao contrário da Sabedoria, é o filho primogénito do Dinheiro Acumulado e Concentrado. O Saber não tem mãe. Só tem pai, precisamente, o Dinheiro Acumulado e Concentrado. E, como o seu pai, o Saber é mentiroso e assassino. Naquelas, naqueles onde o Saber entrar e medrar, faz inevitavelmente mentirosos e assassinos como ele. Gera mulheres /homens-Caim em lugar de mullheres /homens-Abel.

 

2 Ou nos atrevemos, hoje e aqui, a darmos toda a primazia à Sabedoria, e chegaremos à plena Liberdade, na Sororidade /Fraternidade universal, ou continuaremos a correr, a largos passos, como seres humanos e Povos, para o Não-Ser. Para a Grande Submissão Planetária. Nos antípodas da Grande Explosão ou Big-Bang, de há 13.700 milhões de anos, essa mesma que está na origem do Universo, melhor, Pluriverso, porque feito de muitos universos, qual deles o mais medonhamente belo, o mais medonhamente terno, o mais medonhamente próximo /distante, o mais medonhamente solidário, o mais medonhamente amigo e companheiro. Pluriverso, onde, recentemente, Aconteceu o planeta Terra. E, muito mais recentemente ainda, Acontecemos nós, os seres humanos, mulheres e homens, unidade indissolúvel, em radical igualdade feita de fecundas e substantivas diferenças que fazem de cada uma, cada um de nós, um ser único e irrepetível.

 

3 Em verdade, em verdade vos digo: Só a Sabedoria está a criar /salvar todos os dias o Mundo. Já o Saber é a contínua Descriação /Destruição do Mundo. Ao contrário do Saber que tem apenas pai, a Sabedoria tem apenas mãe. É intrinsecamente feminina. O Saber é intrinsecamente masculino. A Sabedoria é plenamente fecunda. O Saber é estéril, e, mais do que estéril, é assassino. A Sabedoria gera mulheres /homens-Abel. O Saber gera mulheres /homens-Caim.

 

4 Precisamos de avançar depressa para o Princípio feminino. Colocá-lo como o Princípio de tudo o que somos e fazemos. E permanecermos nele para sempre nele. O mais longe possível do Princípio masculino. A Sabedoria tem de ser quanto antes o nosso Pão e o nosso Vinho de cada dia. Nunca mais o Saber. O Saber, onde estiver, mente e mata. A Sabedoria, ao contrário, é permanente fonte de vida. Vida em abundância. E vida de qualidade.

 

5 Nas Escolas, inclusive, nas Escolas ditas superiores, só há Saber. Não há Sabedoria. Porque o Saber é a grande trave mestra da presente Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Foi o Saber que a concebeu e a estruturou. E é o Saber que a justifica e propagandeia como a melhor, oriunda directamente do próprio Deus. Por isso, ela, como ele, é também mentirosa e assassina. Excludente. Sem nenhum lugar para os seres humanos e para os Povos da Terra. Nem para a Sabedoria, a fonte da Vida-Comunhão-Partilhada. Apenas para as Mercadorias e os Robots. Também os robots em forma humana.

 

6 Ai daquelas, daqueles que crescem em Saber, quando só deveríamos crescer em Sabedoria. O Saber, quanto mais se desenvolve num ser humano, mais o descria /desumaniza, porque, tal como o seu pai, é mentiroso e assassino. As mães, os pais, hoje, e toda a Sociedade em geral, estão empenhados em fazer as suas filhas, os seus filhos crescer em Saber. Fazem-no, certamente, na convicção de que estão a dar-lhes o melhor. Os Governos das nações, por sua vez, orgulham-se de disporem hoje de populações com mais Saber. Apostam muito nas Escolas. As próprias Igrejas criam universidades e apostam muito no Saber. Os seus quadros principais, párocos, pastores e bispos residenciais, são hoje homens de muito Saber. Doutores, como gostam e fazem questão de serem chamados.

 

7 Parece que deveríamos ser, então, Sociedades felizes, humanas, sororais /fraternas, solidárias. É manifesto que não somos. Porque o Saber, filho de pai mentiroso e assassino, faz populações à sua imagem e semelhança: Egoístas. Indiferentes. Insolidárias. Populações sem olhos. Sem ouvidos. Sem mãos. Sem pés. Pelo menos, para o seu próximo, o de perto e o de longe, para o seu semelhante e, até, para o próprio Planeta Terra. Graças ao Saber, os nossos olhos, os nossos ouvidos, os nossos pés e as nossas mãos são (quase) só para servir os interesses do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Que para isso, só para isso, serve o Saber que as Escolas e as Catequeses das Igrejas integradas na Ordem Mundial ministram, todos os dias, muitas horas por dia e por semana.

 

8 A Sabedoria não vem das Escolas da presente Ordem Mundial, concebida e gerada pelo Saber, por sua vez, concebido e gerado pelo Dinheiro Acumulado e Concentrado. A Sabedoria é um dom, uma dádiva do Espírito Santo, o de Jesus. Tem por mãe a Ruah, a Ternura, a Força Criadora, a Grande Explosão, a Força Libertadora, numa palavra, a Vida, a Acção, a Prática Política maiêutica, o infinitamente pequeno. No princípio era a Acção. Acção Criadora. Acção Libertadora. Acção Salvadora. Acção Política Maiêutica. A Sabedoria não frequenta as Escolas, nem as Universidades. Nem sequer as catequeses das Igrejas. É um dom, uma dádiva. E, como todas as dádivas, só a encontramos naquelas pessoas que lhe abrem a porta, o seu mais íntimo e se deixam habitar /fecundar por ela. "Eis que estou à porta e bato. Se as pessoas me abrirem a porta, entrarei, sentar-me-ei à Mesa e cearei com elas" (cf. Apocalipse 3).

 

9 O problema é que, por incrível que pareça, as pessoas, mergulhadas nesta Ordem Mundial, dentro da qual tudo se compra e se vende, entendem cada vez menos a Sabedoria e cada vez menos se deixam habitar /guiar por ela. Preferem o Saber à Sabedoria. Gastam anos e anos das suas vidas a frequentar as Escolas, as Catequeses das paróquias, as Universidades nacionais e do estrangeiro, mas são incapazes de gastar um dia, um fim-de-semana, muito menos todo o seu viver, com os Ninguém, com as vítimas, com o Pobre, com o Excluído, com o Diferente, com o Excomungado, com o Dissidente. Assemelham-se muito mais ao sacerdote-pároco e ao bispo residencial de hoje (cf. Lucas 10), que nunca deixam de presidir às missas paroquiais de domingo e à missa catedral, do que ao Excomungado e ao Dissidente que se faz próximo daqueles que estão aí caídos, depois de, geração após geração, terem sido roubados e espancados e deixados meio-mortos na valeta da estrada da vida. São pessoas que nunca chegam a fazer-se próximas nem sequer do seu próximo. Por vezes, nem sequer dos familiares que vivem sob o mesmo tecto.

 

10 A Sabedoria tem poucas discípulas, poucos discípulos. O Saber tem multidões. Porque a Sabedoria não é deste mundo, desta Ordem Mundial do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Acontece dentro desta Ordem Mundial, mas não é nunca dela. A Sabedoria nem se compra nem se vende. É um dom, uma dádiva. Não se vai buscar às Escolas. Nem ao Mercado. Rebenta, como misteriosa e surpreendente fonte, dentro daquelas, daqueles que vivem na condição e no estado de descidos e próximos, contacto directo, olhos nos olhos, mão na mão, com os Ninguém. Com as Vítimas do Saber mentiroso e assassino. A Sabedoria é Prática Política Maiêutica. De Mãos vazias de coisas, que não de Afecto, muito Afecto, de Escuta, muita Escuta, de Acolhimento, muito Acolhimento, de Acompanhamento Maiêutico, muito Acompanhamento Maiêutico.

 

11 Já o Saber distancia-nos das Vítimas, dos Excomungados, dos Dissidentes, porque é mentiroso e assassino. É Caim. E tal é o Saber das Escolas e das Catequeses paroquiais. O mais que é capaz de fazer é ir de visita aos Ninguém, ao nível material - aos Dissidentes e Excomungados como tais, nunca chega a ir - mas sem nunca sujar as mãos. Não é capaz de fazer sua, por toda a vida, a mesma condição dos Ninguém. Pode levar-lhes uma sopa quente, um cobertor, nas noites gélidas de inverno, mas não é capaz de o sentar habitualmente à sua própria mesa. A porta da sua casa não se abre para os Ninguém. Muito menos a sua mesa principal. Os Ninguém nunca chegam a ser Alguém. Serão Ninguém por toda a vida. E ainda vão ajudar a enriquecer o currículo de quem os visitou, para que o Institucional que eles servem possa apresentar uma boa folha de serviços e, com isso, colher mais dividendos, obter mais privilégios.

 

12 A Sabedoria, ao contrário do Saber, tem mãos, tem olhos, tem ouvidos, tem pés, tem entranhas de humanidade. É Abel. É irmã. É companheira. Abraça. Beija. Senta à sua Mesa. Chega, até, a ser capaz de frequentar as Escolas da Ordem Mundial, mas sem nunca ser delas. Frequenta-as como uma infiltrada, um infiltrado. Conhece o que elas ensinam, nunca para, depois, fazer o que elas ensinam, mas sempre o seu contrário. Frequenta as Escolas da Ordem Mundial, mas para as minar por dentro, até as derrubar. Com Práticas Maiêuticas. Não com bombas. Até do Saber, a Sabedoria tira partido. Muda-o em Sabedoria. Faz do Saber uma arma contra o próprio Saber. E contra a sua Ordem Mundial mentirosa e assassina. Excludente. Desmascara os seus interesses e os seus métodos. Porque a Sabedoria jamais tira os seus pés do mesmo chão do Pobre, do Oprimido, dos Ninguém. Não vai nunca a correr erguer a sua casa e a sua Mesa longe do Pobre, do Oprimido, dos Ninguém. É com eles que vive. Todos os dias. É entre eles que se faz mulher, homem. É para eles que maieuticamente existe. É com eles que maieuticamente caminha. Porque todas as capacidades que tem foram-lhe dadas para erguer os Caídos e fazer dos Ninguém, Alguém-com-os-demais-e-para-os-demais.

 

13 A Sabedoria tem um rosto e um nome. Porque a Sabedoria, pelo ano 4 /5 antes desta nossa era comum, fez-se Menino. Ser humano. Com tudo de Feminino. Fez-se o Alfa e o Ómega da Humanidade. E dos Povos. Nasceu, quando o Saber era o Império Romano e o Templo de Jerusalém. Cresceu, não em Saber, mas em Sabedoria. O Saber, mai-lo seu Templo e o seu Império mataram-no na Cruz deste último. Foi a sua Grande Explosão, o seu Big-Bang que a História nunca antes havia conhecido e nunca mais conhecerá igual. Dois mil anos depois, ainda somos pequenos aprendizes de Jesus, a Sabedoria Crucificada e para sempre Semeada /Levantada na História. O Saber continua aí a persegui-lo, como quando ele nasceu. Faz-se passar por Sabedoria. Por Luz. É apenas Saber. Procede assim, porque é mentiroso e assassino. E tenebroso. A Sabedoria nunca morou nem morará nos palácios dos grandes. Nos palácios dos grandes apenas mora o Saber mentiroso e assassino. E tenebroso. A Sabedoria, ao contrário, vive dia e noite entre as inúmeras Vítimas do Saber e da sua Ordem Mundial mentirosa e assassina. E, quando não está a chorar, inconsolável, canta /dança o Canto que só ela, Sabedoria, conhece: Bendigo-te, ó Mãe /Abbá, porque escondeste estas coisas aos doutores das grandezas e dos privilégios e as revelaste aos pequeninos, todas as suas inúmeras Vítimas (cf. Lucas 10, 21-24).

 

Capítulo 1

 

1 São de demência-demência os tempos que vivemos na Europa e no Mundo. Precisam de ser de sapiência-sapiência. Até as palavras hoje se tornaram loucas. Insensatas. Cheias de nada. O que dizem é coisa nenhuma. Escondem, quando deveriam revelar. E, sem palavras substantivas, não há Ser-Humano. Só figurantes com aspecto de humano. Máscaras. Bonecos articulados. Mecanicamente animados. Ruídos, muitos ruídos. Querem-nos reduzir a figurantes. E nós alinhamos. Deixamo-nos comprar e vender. Como quaisquer outras mercadorias. O Mercado é o Senhor. Nós, a mercadoria que lida com outras mercadorias. Que produz outras mercadorias. Sobretudo, que consome outras mercadorias.

 

2 Rimos. Rimos muito. Mas somos tristes. Somos a Tristeza. Multiplicamos as festas. Saltamos dumas para outras. Freneticamente. Todas festas sem Festa. Pode haver Festa no Mercado e entre mercadorias? Não pode. Só barulho. Muito barulho. Estão a roubar-nos a Noite. O Ser. O Viver. E nós, sem a Noite, não Somos. Não Vivemos. Agitamo-nos. Corremos de uma banda para outra. De uma terra para outra. De um país para outro. De um continente para outro. Sem nunca chegamos a encontrarmo-nos, porque nunca encontramos os outros-como-nós. Apenas nos tocamos uns aos outros, como as mercadorias se tocam umas às outras. Acotovelamo-nos. Empurramo-nos. Esmurramo-nos. Agredimo-nos. Insultamo-nos. Atropelamo-nos. Matamo-nos. Tornamo-nos sucata. Lixo. Uma grande Lixeira humana a céu aberto

 

3 Roubam-nos, todos os dias, a palavra. Em seu lugar, só articulamos sons. Sons sem sentido. Sem nexo. Um berra que se farta. O outro berra ainda mais. É (quase só) para o que servem hoje as rádios e as televisões. E os funcionários maiores do Poder Político e dos Partidos ditos políticos. E todos os outros funcionários do Poder Religioso e do Poder Financeiro. Parece que falam. Na verdade, emitem grunhidos. Parecem humanos. Na verdade, são papagaios. Nunca dizem o que pensam. Já nem pensam. Limitam-se a repetir o que é suposto ser politicamente correcto. E por aí se quedam. Olhos esbugalhados. Esgazeados. Sem um sorriso. Sem nenhum descanso. Sem nenhum Ser. Sem nenhuma Substância. Ocupam todos os dias as rádios e as televisões. São a nossa vergonha. Todos eles, sem excepção. Os que já andam nisto há muitos anos, toda uma vida. E os que só agora acabam de chegar ao trono e ao altar. São a Demência-demência em todo o seu esplendor de Treva. De Vazio. De Esterilidade. De Superficialidade. De Banalidade.

 

4 Como as aves do céu. Como os lírios do campo. Sejam como as aves do céu. Como os lírios do campo. Recomenda-nos quem sabe. A própria Sabedoria em pessoa. Exactamente, a Palavra que está no seio do Ser e que, sem deixar de aí permanecer, se fez /faz carne, fragilidade humana, que é, de resto, a única maneira de todas, todos chegarmos à dimensão de Seres Humanos. Olhai as aves do céu. Olhai os lírios do campo. As aves do céu não semeiam nem ceifam, nem guardam em celeiros. E os lírios do campo? Não trabalham nem fiam. E hoje estão aí, mas amanhã já não estão. E, no entanto, saibam que nem Salomão, em toda a sua magnificência, alguma vez se vestiu como um deles. O Mercado não entende estas palavras. Não pode entender. Tão pouco as entendem os funcionários do Poder. De todo o tipo de Poder e de todo o tipo de Privilégio. Também as não entendem as mercadorias em que, para nossa infelicidade, nos estamos progressivamente a tornar, cada dia que passa.

 

5 O Essencial é invisível aos olhos. Só se deixa ver com o Afecto. Nunca fomos tão cegos como neste início do terceiro milénio. Porque nos reduziram, e nós próprios nos reduzimos, a mercadorias. Ora, as mercadorias não sabem nada de Afecto. Só de Mercado. Só de Dinheiro. Muitos de nós já só são Dinheiro. Nos antípodas das aves do céu e dos lírios do campo. O Essencial é também intocável às mãos. Tocamos e vemos mercadorias, em lugar de tocarmos e vermos pessoas, seres humanos. Fazemos ritos e vivemos de ritos. Incomoda-nos o Ser, o Real, o Humano, que é sempre como os lírios do campo. E como as aves do céu. Ao Essencial, não chegamos nem a dar por ele. Porque ele é assim como um menino. Veste-se de Ser. De Festa. De Sorriso. De Ternura universal. Sem quaisquer preconceitos. O Essencial é sempre invisível aos olhos das mercadorias que hoje querem que sejamos e que nós próprias, nós próprios fazemos questão de querermos ser. É também intocável às mãos que hoje só estão habituadas a lidar com Dinheiro, o Senhor Dinheiro. E com mercadorias de todo o tipo.

 

6 No Mercado, não há lugar para o Humano. Para o Ser. Para o Ser-Humano. Só para a mercadoria. A graúda e a miúda. Também eu vivo no Mercado, como toda a gente. Porque ele hoje é tão global, que já não há outro sítio no Planeta Terra onde se viver. Vivo no Mercado. Mas resisto a ser mercadoria. Só que, assim, acabo invisível aos olhos dos que só têm olhos de mercadoria e para as mercadorias. Acabo intocável às mãos dos que só têm mãos de mercadoria e para as mercadorias. Passo por entre os demais e não dão por mim. Falo palavras substantivas e não me escutam. Tomam-me por um fantasma. Por um doido varrido e inofensivo. Por um endemoninhado. Por um desalinhado. Por um politicamente incorrecto. Por um fora de prazo. Por um falhado. Sou, procuro ser, todos os dias, Pão Partido que se dá a comer, Vinho Derramado que se dá a beber. E (quase) não há quem me queira Comer, muito menos, Beber. Deixam-me só. Na Trincheira onde vivo todos os dias. Porque não sou, recuso-me a ser mercadoria. Porque não sou, recuso-me a ser Dinheiro. Porque não sou, recuso-me a ser Poder. E, ainda por cima, porque sou assim como um menino. Ou, nas palavras de Jesus, a Sabedoria feita Ser-Humano, porque insisto em ser-viver como as aves do céu. E como os lírios do campo. Uma postura absolutamente impensável e inadmissível neste século XXI.