DIÁRIO ABERTO JUNHO 2008

 


 

2008 JUNHO 24

 

“Não tenhais medo de anunciar Cristo aos jovens da vossa idade. Mostrai-lhes que Cristo não é um entrave para a vossa vida, nem para a vossa liberdade, pelo contrário mostrai-lhes que Ele nos dá a vida, nos torna livres para lutar contra o mal e fazer das nossas vidas algo de bom”. As palavras são do papa Bento XVI, a concluir a mensagem que proferiu, via satélite, no encerramento do Congresso Eucarístico Mundial, realizado no passado fim de semana no Canadá. Escutaram estas palavras uns 11 mil peregrinos, idos de todo o Mundo, à frente dos quais se podiam ver, em lugares de destaque e de honra, nas suas luxuosas vestes talares e litúrgicas, cerca de 50 cardeais e mais de 100 bispos. Transcrevi aquelas palavras do papa, porque não sei o que é que ele, através delas, pretende dizer aos jovens do século XXI. Teria sido interessante ouvir os jovens presentes, para saber da sua boca o que é que eles entenderam deste apelo do papa e, sobretudo, o que é que entendem desse mítico Cristo sem corpo, sem história e sem práticas políticas e económicas maiêuticas, de que o papa insistentemente fala nos seus discursos. A Agência eclesiástica internacional que dá a notícia não se deu a esse trabalho de saber. Provavelmente, porque quem estava de momento de serviço ai no Congresso também não terá entendido nada destas palavras, para lá de um vago apelo de circunstância feito pelo papa de Roma. Duma coisa, porém, a Cúria Romana não pode ser acusada: de não recorrer e de não utilizar os meios mais sofisticados de comunicação que hoje estão à disposição de quem tem o Poder no Mundo e dispõe de muito dinheiro para os adquirir. A verdade é que o papa, chefe da Cúria Romana e o seu principal rosto, na impossibilidade de se deslocar fisicamente ao Congresso - a idade não perdoa, os problemas de saúde também não e o papa, embora bispo de Roma, entende que não deve resignar apesar da idade, como de resto faz questão que os demais bispos residenciais resignem, quando eles atingem os 75 anos de idade! - não hesitou em recorrer ao satélite para se fazer presente e comunicar directamente, com a sua própria voz e a sua imagem virtual. Entretanto, o mais pateticamente dramático da hierarquia da Igreja é que a Cúria Romana dispõe hoje do que há de mais sofisticado em tecnologia para se fazer ouvir em todo o Mundo, mas a mensagem que transmite aos Povos através desses meios anda pelos antípodas do que Jesus, o do Século XXI, e o seu Espírito andam a querer dizer às Igrejas e ao Mundo. Este apelo do Papa aos jovens é disso inequívoco exemplo. Ninguém sabe, provavelmente, nem o próprio papa Bento XVI, o que ele quis dizer aos jovens de todo o Mundo, com destaque para os que ainda se assumem como católicos, hoje cada vez menos. É um apelo vago, de mera circunstância, um daqueles apelos que, depois de escutado, deixa um grande vazio no Coração dos jovens e uma grande Treva na Mente/Consciência deles . Desorienta, em lugar de orientar. E porquê? Porque entre o papa e o Espírito de Jesus, o do Século XXI, não há comunicação possível. Como não há comunicação possível entre a hierarquia católica e todos os demais líderes das Religiões ditas cristãs e o Espírito de Jesus, o do Século XXI. Ainda pode haver e há certamente em todos eles algum conhecimento das Escrituras, da letra da Bíblia Hebraica ou Antigo/Primeiro Testamento e dos livros que constituem o chamado Novo ou Segundo Testamento, mas comunicação do Espírito, o de Jesus do Século XXI, não há. Pela simples razão de que o Espírito, o de Jesus, não frequenta esses ambientes, não se revê nesses cultos, não sopra nesses Congressos, não fala a linguagem do Religioso, do Poder, do Privilégio e da Ostentação/Vaidade . Entre o Religioso, o Poder, o Privilégio e o Espírito, o de Jesus do Século XXI, a incompatibilidade e a incomunicação são totais. O papa, a hierarquia católica e os líderes das religiões cristãs bem podem falar e discursar, e hoje falam e discursam cada vez mais, mas tudo o que dizem não faz aquecer-arder o coração das pessoas que os ouvem, como sucedeu, por exemplo, com as palavras de Jesus, o do Evangelho de Lucas, quando pelo caminho de Emaús, ele, como um mais qualquer com-eles, falava ao casal de discípulos que, desde as categorias religiosas por que teimavam em reger-se e às suas vidas, não eram capazes de entender o que havia sucedido em Jerusalém naqueles dias, concretamente o assassinato do próprio Jesus, na Cruz do Império romano, um assassinato consumado a pedido, melhor, por exigência dos sumos sacerdotes do Templo da capital do país. O Religioso nunca foi nem será a linguagem do Espírito, o de Jesus, muito menos do Jesus do Século XXI. Aliás, já não foi do Jesus do Século I, o de Nazaré. De resto, foi o próprio Religioso que tomou a decisão de matar Jesus e, depois, ainda teve o desplante de recorrer ao Poder do Império, ocupante do seu país, para que executasse a sentença, o que ele fez de bom grado e sem qualquer escrúpulo, porque para isso existe, para roubar, matar e destruir, nunca para Repartir-Partilhar o Pão, dar a vida pela vida das pessoas e dos Povos, preservar e cuidar da Natureza. Nem o Religioso, nem o Império alguma vez entenderão a Eucaristia, muito menos serão Eucaristia, Pão Partido e Repartido, Vinho Derramado por todas, todos, isto é, Vidas Humanas Desarmadas e Entregues até ao sangue pela vida do Mundo. Um e outro sempre foram e são assassinos, ladrões e salteadores. Vampiros. No que ao Religioso diz respeito, até chega a devorar a casa das viúvas, isto é, dos mais pobres dos pobres, ou chega a obrigá-los a frequentar os seus cultos sob pena de condenação eterna depois da morte, e sempre a pretexto de sucessivas rezas e de longas orações, de cultos diários ou semanais, de dízimos e de obradas, de missas pelos mortos bem pagas e de correntes e mais correntes de oração. Quando o Religioso fala em Eucaristia e organiza Congressos Mundiais da dita, os pobres e os povos do Mundo que se cuidem. Querem-nos ir ainda mais ao bolso e à nossa própria vida. Querem-nos ainda mais seus súbditos, seus adoradores, seus fiéis, seus pagantes, seus clientes, seus cortesãos. Sem os pobres e os povos, os líderes do Religioso não teriam oportunidade de brilhar nas suas vestes vermelhas e nos seus luxos, não teriam oportunidade de ser hierarquia - para haver alguma pouca hierarquia tem de haver muitos súbditos - não poderiam habitar nos palácios episcopais, muito menos poderiam presidir aos seus luxuosos cultos com tudo da velha pompa e circunstância da corte dos antigos reis e da corte de César de Roma. E seria uma enorme frustração para eles! Como é para os adolescentes, quando lhes faltam as claques de apoio. De repente, vêem-se reduzidos à sua condição de adolescentes, nem criança nem adulto, sem identidade, nem carne nem peixe, uma sensação mais que desconcertante. Assim também os líderes do Religioso, a hierarquia católica e os outros. Sem os milhares de "peregrinos", sem claques de apoio, sem admiradores, sem mirones nas margens das estradas por onde eles passam em cortejo naquelas suas vestes talares e litúrgicas de outro mundo, todos eles ver-se-iam, de repente, reduzidos à sua condição de palhaços (com perdão para os profissionais que não têm culpa destes péssimos imitadores), de não-humanos, de Poder sem súbditos a admirá-los e a pagar a conta. Acham que o Espírito de Jesus, o do Século XXI, pode estar com este tipo de seres, fazer-se ouvir por meio deste tipo de seres? Se Ele já não esteve nem se fez ouvir no Século I, quando as Sociedades ainda eram teocráticas e todas do Religioso, muito menos agora, que elas são cada vez mais secularizadas. Hoje, o Espírito de Jesus anda por aí como o Vento ou o Sopro, ora brisa suave, ora tsunami, e faz-se ouvir por quem já não vai mais no Religioso, nem no Poder, nem no Privilégio, mas simplesmente em Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas como as de Jesus, o de Nazaré, e em Partilha Efectiva de Afectos. A Eucaristia tem tudo a ver com estas Práticas e com esta Partilha Efectiva de Afectos. Por isso acontece, não nestes grandes Congressos Eucarísticos Mundiais, como o do passado fim de semana no Canadá, com milhares de "peregrinos", cerca de 50 cardeais e mais de 100 bispos, cada qual o mais vaidoso e o mais pavão de penas levantadas, mas somente lá, onde dois ou três vivem (re)unidos em seu Nome, isto é, a dar todos os dias a sua própria vida pela vida do Mundo. Nunca o papa Bento XVI, nem os cardeais da Cúria Romana, nem os bispos residenciais com os seus privilégios, dos quais não há maneira de abdicarem, nem sequer por já estarmos a viver em sociedades secularizadas, entenderão, muito menos, serão-viverão a Eucaristia, por mais missas triunfais a que eles presidam. É uma Realidade tão de outro Espírito, nos antípodas do Poder e do Privilégio que o Religioso sempre faz questão de dar aos seus líderes, que eles não chegarão nunca a enxergá-la, a vê-la, a entendê-la. Muito menos a sê-la/vivê-la. Fazem os ritos previstos, mas nunca tocam no Corpo de Jesus, nunca são tocados por Jesus, pelo seu Espírito, como tal, nunca são outros Jesus. Ficam sempre do lado de fora do seu Espírito, ainda que dentro das catedrais e dos santuários e dentro daquelas roupas exóticas e de manifesto mau gosto. Pela simples razão de que o Espírito, o de Jesus, não está lá onde eles estão. Lá, estão apenas hóstias brancas, feitas de farinha de trigo sem fermento, dentro de vasos de prata ou de ouro, e um pouco de vinho em cálices de prata ou de ouro. Não está o Espírito. E sem o Espírito, o de Jesus, jamais haverá Eucaristia! Haja aí quem me desminta! É por isso que podem continuar a multiplicar-se os congressos eucarísticos mundiais, nacionais e diocesanos; podem continuar a multiplicar-se os ritos das missas à semana e ao domingo; podem os peregrinos continuar a correr Seca e Meca, para estarem presentes nesta e naquela Missa do papa, que nem assim o Mundo se torna mais humano. Bem pelo contrário. O que faz a Eucaristia não é a hóstia branca e o cálice de ouro ou de prata com um pouco de vinho dentro, nem o rito, nem o bispo, nem o papa, nem o pároco. São apenas aqueles dois ou três que vivem (re)unidos em nome de Jesus, o das Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e da Partilha Efectiva dos Afectos, diariamente disponíveis para as prosseguirem, hoje e aqui, até à entrega da sua própria vida. Porque lá onde houver estas Práticas, também há o Espírito, o de Jesus, o de Nazaré, o do Século XXI e o de Sempre. Nunca o Religioso foi caminho para o Humano. Sempre foi caminho para o Demoníaco, para o Inumano, porque sempre é caminho para o Deus-Ídolo, para a Idolatria, a Negação absoluta da Eucaristia, porque a Negação absoluta do Humano, de cada ser humano concreto. O papa Bento XVI ou reconhece o seu pecado, o pecado estrutural que é a Cúria Romana e o seu Papado, totalmente nos antípodas do Ministério de Pedro na Igreja, ou tudo o que faça e diga vem sem a marca do Espírito, o de Jesus, por isso, não consegue pôr os nossos corações a arder como Jesus, o Ressuscitado, pôs os corações do casal de Emaús e que eles só reconheceram, depois, ao Partir do Pão, quando já sentados à mesa da sua casa, não em redor de um altar, muito menos, no decurso de uma missa ritualizada paga por alguns dos presentes, sempre rotineira, feita dentro de um templo, sem que ninguém chegue a ter voz nem vez, seja apenas cliente, plateia pagante, estatística. Uma vergonha. Uma blasfémia. Um sacrilégio. Uma Descriação que se repete todos os dias, sobretudo, todos os domingos e dias santos de guarda. Ai, papa Bento XVI, meu irmão! Ai bispos residenciais, meus irmãos! Ai párocos, meus irmãos! Acabais por seres piores que os ateus e os agnósticos que, pelo menos, não blasfemam do santo Nome de Deus, o de Jesus, como vós o fazeis quase a toda a hora. Não admira que o nosso Mundo globalizado seja hoje esta gigantesca fábrica de produzir Pobreza e Pobres em massa, por força de um Sistema Económico-Financeiro com tudo de Anti-Eucaristia. E, se hoje não tendes a audácia de Jesus de serdes Eucaristias Vivas, como ele historicamente foi, pelo menos, não continueis mais a ser Sacerdotes Pagãos do Religioso, não continueis a abençoar e a consagrar a Anti-Eucaristia que é hoje a Globalização do Grande Capital. Melhor será que façais como os Ninivitas do tempo do profeta Jonas: deixai o altar e as vestes litúrgicas com que puerilmente vos enfeitais e vesti-vos de saco e cinza, em sinal de arrependimento e de verdadeira conversão da Idolatria à Eucaristia! Sabei que é com a violência da Ternura que vos digo estas palavras. Dou-vos, por isso, a minha Paz.

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2008 JUNHO 23

 

O PSD voltou a mudar de líder. Foi este fim de semana, em Guimarães. Depois de Durão Barroso que fugiu para presidente da Comissão Europeia, de onde lhe acenaram com boa vida e ordenados chorudos; depois do impagável Santana Lopes, em dupla com Paulo Portas (só de me lembrar desta dupla ainda hoje rio às gargalhadas e, ao mesmo tempo, choro pelo meu país que tais governantes pariu); depois do meteórico Luís Filipe Meneses que ainda não tinha acabado bem de tomar posse, já estava a dizer que todos os mais o estavam a apunhalar pelas costas e por isso pouco depois bateu com a porta, chega, finalmente, Manuela Ferreira Leite, a desejada e a detestada, uma espécie de D. Sebastião em feminino, sem o sonho daquele, mas com uma imagem habilmente fabricada de incorruptível e de "durona". Com ela ainda há poucas horas ao leme do Partido, já o Professor Maquiavel Rebelo de Sousa que, todos os domingos, logo a seguir ao Telejornal, dirige o PSD (e o país?) a partir do Canal 1 da RTP, cantava de galo e admitia que o seu partido, de que também já foi um dos líderes, pode muito bem regressar ao Poder, nas próximas eleições legislativas, se ainda não com maioria absoluta, pelo menos, com uma maioria relativa, em aliança com CDS de Paulo Portas, ou simplesmente com um governo minoritário. Os barões e os baronetes do Partido estão, por isso, quase todos de volta e, com eles, a redistribuição dos maiores tachos que para isso serve o Poder, para distribuir mordomias a este e àquele que, matreiramente apoiaram e apoiam quem vai ao leme do partido, agora Manuela Ferreira Leite. Mas não se pense que à Esquerda do PSD e do PS o Verão vai ser de férias e de praia nos Algarves ou noutras paragens mais paradisíacas, no estrangeiro, para os respectivos líderes e seus próximos. Nada disso. O Bloco de Esquerda, por exemplo, enquanto ainda decorria o Congresso do PSD que consagrou Manuela Ferreira Leite como a nova líder e a nova candidata a primeiro-ministro, aproveitou para anunciar que realizará em todo o país nada menos do que 20 comícios, de preferência nos locais do litoral, onde ficam as praias, certamente, para lembrar a quem ainda faz férias em Portugal que a luta pela conquista do Poder continua e não se compadece nem com as férias. Fica assim claro que não é por falta de partidos activos que o país está hoje de tanga e a pique para o abismo. Os seus líderes estão aí e, este ano, nem nas férias descansarão. Só que não é o país, o bem do país, que faz correr os partidos, à direita e à esquerda. É o Poder que exerce uma atracção irresistível sobre os seres humanos, tanto à direita como à Esquerda. E, quando há indícios de que a maré lhes vai favorável - o primeiro-ministro Sócrates já é cadáver, embora pesarosamente ainda continue a aparecer aqui e ali - é ver as hostes partidárias a esfregar as mãos de satisfação e a sacrificar tudo pela conquista do Poder. O sonho do Bloco é, para já, ver se consegue ultrapassar o PCP, velho de muitos e pesados anos, com uma máquina mais do que ultrapassada e um comité central demasiado rígido e intolerante, a fazer lembrar a Cúria Romana dos cardeais e a hierarquia da Igreja católica. As sondagens têm dito, ultimamente, que o Sócrates, mentiroso compulsivo, está em queda livre (o "não" da Irlanda ao Tratado de Lisboa acaba de lhe dar mais um duro golpe mortal!) e que a Esquerda, agora até com o Manuel Alegre a jogar por ela, está em ascensão. Louçã, que é muito mais novo em anos que o secretário-geral do PCP, Jerónimo de Sousa, e tem canudos académicos em economia e finanças, como a Manuela Ferreira Leite do PSD, que o militante Jerónimo de Sousa não tem, prepara-se para tentar batê-lo ao sprint na corrida pelo país. É a grande oportunidade histórica da vida dele. Ou agora, ou nunca. Os 20 comícios já anunciados serão a escada que ele trepará, para tentar ultrapassar o PCP e chegar-se mais à frente no Poder, quer no Parlamento, quer nas Autarquias. Quem sabe, se, depois, não vem também uma parceria com um qualquer Governo minoritário do PS, ou até a própria chefia do Governo da nação, que a febre do Poder, posta a delirar, não tem limites. Estes são os factos que estão hoje em cima do tabuleiro do Poder. O que não augura nada de bom para o próximo futuro do país. Quando o Poder se fortalece, os povos que se cuidem. Porque o Poder sempre come os povos. E, se veste de Esquerda, tem certamente um discurso mais social e uma prática de mais benfeitor. As populações, propositadamente mantidas num atroz infantilismo político, chegam a gostar disso, porque, enquanto infantilizadas, não estão para maçadas, muito menos, dispostas a crescer como sujeitos dos seus próprios destinos e dos destinos do país e do mundo. Preferem entregar o seu futuro a outros e obedecer-lhes, com um ou outro inócuo protesto, de quando em vez. O Poder, por sua vez, do que mais tem medo é da Política. Ele sabe que, a Política, onde chegar, desaloja sempre o Poder. Porque dizer Política é o mesmo que dizer populações a sair do estado infantil, a crescer em sabedoria e em graça, em capacidade de autogestão, em liberdade e em protagonismo. As minorias intelectuais, se o fossem verdadeiramente, sempre seriam minorias orgânicas entre as populações e com elas. Seriam minorias maiêuticas, não só com discursos, mas também e sobretudo com práticas e estilos de vida maiêuticos. Viveriam entre as populações e com elas como o fermento na massa e o sal na comida. Seriam, na dimensão secular, o que a Igreja de Jesus deverá ser na dimensão de Fé cristã jesuânica. E, assim, ajudariam, como outras tantas parteiras, as populações a crescerem de dentro para fora, até dispensarem definitivamente o Poder, quer ele vista de Autoritário-Opressor, quer de Paternalista-Benfeitor. Mas, infelizmente, nem as populações estão hoje para aí viradas. Tão pouco as minorias intelectuais. Desde o princípio do Mundo que o Poder seduz as minorias a servi-lo e subjuga/esmaga as maiorias. Tanto assim, que podemos dizer sem errar que a Humanidade nunca conheceu a Política, apenas o Poder. E, quando a conheceu, matou-a na Cruz. Hoje, as coisas estão ainda pior do que nos séculos passados. Porque o Poder é, pela primeira vez na História, Global. E concentrado. Cientificamente organizado. Praticamente, invencível. Pelo menos, tenta fazer passar essa mensagem, para que não haja quem lhe resista e lhe faça frente. Se ele até as minorias intelectuais consegue arrastar para o seu lado - paga-lhes bem e elas vendem-se, como prostitutas de luxo - deixa no ar a impressão de que fica sem alternativa. Saibam, porém, que esta generalizada ideia é uma mentira posta a circular pelo Poder, ou ele não fosse de sua natureza mentiroso e, até, pai de mentira. Quando mente, está apenas a revelar a natureza de que é feito. Está no seu terreno. O Futuro da Humanidade, enquanto tal, está fora do Poder. Está na Política, isto é, em populações e povos a crescerem de dentro para fora em sabedoria e em graça, até se tornarem sujeitos das suas próprias vidas e da História. A Morte do Poder é a Vida do Mundo. Só a Política salvará o Mundo. Só a Política desalojará e decapitará o Poder. Utopia? Não! Em Jesus, o de Nazaré, o ser humano já chegou a esta plenitude. A Utopia tornou-se Topia. A Política desalojou o Poder. Desmascarou-o. Decapitou-o, quando ele mais pensou que a decapitou a ela, na Cruz. Desde então, a Política anda aí na História, mas como Vento, como Sopro, como fecunda brisa, como Espírito, como Subversão, como Conspiração. Está sempre lá onde dois ou três vivem (re)unidos a conspirar, a subverter, a despertar consciências, a dizer/praticar Poemas, a Descer até aos Porões da Humanidade, a Partilhar Mesas comuns, decididos a serem por toda a vida não-ricos, pobres por opção. Provavelmente, a Política, enquanto durar a História, nunca desalojará de vez o Poder nem derrubará de vez os seus tronos. Mas nunca ela será Poder. Preferirá mil vezes a Morte, a ser Poder, a passar-se para as suas fileiras. Será um Pequeno Resto, um Pouco de Fermento, um Pouco de Sal, mas é graças a ela, em mulheres e homens que o são assim, que a Humanidade subsistirá humana, apesar do Poder. Segundo os Livros, a Esquerda seria a Política organizada contra o Poder. A verdade é que nunca o foi, a não ser nos Livros. E, quando o foi, nem os da Esquerda vendidos ao Poder a reconheceram e correram a ajudar a crucificá-la. Ousemos ser daquelas, daqueles que resistem à sedução do Poder. Ousemos crescer de dentro para fora, de modo a dispensarmos os favores do Poder. Ousemos ser Política-viva-em-acção. Ousemos ser nós próprias, nós próprios em plenitude. Em comunhão uns com os outros. Sempre em trânsito para os Porões da Humanidade, nunca para as cúpulas nem para os tronos. É nos Porões da Humanidade que sempre havemos de erguer a nossa tenda e viver em permanente rede de afectos e em redor de mesas partilhadas. Sempre a conspirar e a subverter. Como só o Vento, o Espírito, o Clamor da Vítima sabe fazer. Sempre a tirar o tapete ao Poder. Sempre a sair-lhe ao caminho, para lhe dizer o Perverso que ele é, o Assassino que ele é, por mais que se vista de líderes de Partidos de direita e de esquerda. Ou de papa. Ou de bispos residenciais, refugiados nos seus palácios, vigiados/protegidos por guarda-costas e soldados armados, aos quais primeiro lavaram os respectivos cérebros, para que os sirvam e protejam, em lugar de serem os primeiros a derrubar os seus tronos.

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2008 JUNHO 20

 

Não devo ter sido o único, mas terei sido um dos muito poucos que ontem não choraram sobre a derrota-afastamento da Selecção Portuguesa de Futebol do Europeu 2008. Não vou dizer que senti uma grande satisfação interior, mas digo que senti um grande alívio. Poderia ter sentido uma grande satisfação interior e nem assim me poderiam acusar de "traidor à pátria", ou de insensível. Porque uma coisa é a Selecção Portuguesa de Futebol, outra, muito outra, Portugal, o país que me serviu de berço, mátria-pátria, mas só isso, o que, para começar, é tudo, ou quase tudo. Como qualquer mãe e qualquer pai devem fazer tudo para que as suas filhas, os seus filhos cresçam e, depois, humilde e desprendidamente, devem deixá-los ir viver a sua própria vida, como se a suas respectivas mães e os seus respectivos pais não existissem, assim o País onde nascemos. Todas, todos temos um país, uma mátria/pátria, mas para mais e melhor podermos chegar a ser cidadãs, cidadãos do Mundo, povo de povos, família de todos os Povos, uma só Humanidade em muitas línguas e cores de pele, um só Povo de muitos povos. O que não for assim já é perversão. Nem as mães/os pais biológicos gostam muito que as coisas sejam ditas e apresentadas assim. Muito menos as mátrias/pátrias. Mas só vistas e vividas assim é que as coisas são saudáveis. A Selecção Portuguesa de Futebol não é o País. Nem sequer é um símbolo do País. Pelo menos, não é o maior símbolo do País. E mal, muito mal vai um país, quando a sua selecção nacional de futebol é o seu símbolo maior. E não é que, desde os sinistros tempos do Fascismo, sempre têm querido que a Selecção Portuguesa de Futebol, ou, pior ainda, que um certo Clube de Futebol de Lisboa, ou mil vezes pior ainda, que um certo jogador de futebol, seja o símbolo maior de Portugal? Nunca como nestes últimos anos a Demência causada e alimentada pelo Futebol dos Milhões foi tão longe, nos degradou tanto e tão profundamente. A Humilhação é total, mas já nem damos por isso. E não o digo, obviamente, pelo futebol em si, muito menos pelos seus praticantes. Digo-o, apenas por este tipo de Futebol dos Milhões que já não tem nada de saudável prática desportiva, é apenas o Futebol dos Milhões, das Máfias, das sucessivas e impunes Lavagens de Dinheiro, das Inteligências dementes, das Idolatrias, do Culto do Vazio, da mais crassa Alienação das Massas e até das Minorias intelectuais, da total e confrangedora Ausência de Causas, numa palavra, a Obscenidade lúdica maior dos nossos séculos XX-XXI. Não. Não me venham dizer que o Futebol dos Milhões é arte, magia, inteligência em acção, cultura sobre a relva, beleza. Acordemos! Tudo no Futebol dos Milhões é Demente e Perverso, ainda que sempre nos seja apresentado/embrulhado de arte, magia, inteligência, cultura, beleza. Os cronistas desportivos e os grandes media, especialmente aqueles que respiram o Futebol dos milhões em todas as páginas e câmaras de tv, 24 horas sobre 24 horas, são hoje - perdoem-me que aqui o escreva - os mais obscenos dos profissionais da comunicação dita social. São os escribas do Futebol dos Milhões e ao incondicional serviço das Máfias que estão por trás de tudo, a comandar todos os cordelinhos com a sua inteligência demente. São contratados e pagos para isso. Como a prostituta do sexo é contratada para aquele tipo de actividade e dela vive e sustenta a família. Esta é, obviamente, uma indignidade humana, mas de tão generalizada que hoje está, já começa a ser considerada ainda mais digna do que trabalhar a terra. Sobretudo, se se trata de prostitutas dos Executivos das nações e das Máfias do Futebol dos Milhões. Como elas, também aqueles cronistas colocam, mais ou menos ingenuamente, as suas vidas ao incondicional serviço do Perverso Organizado que é hoje e cada vez mais o Futebol dos Milhões. O mais confrangedor é que nem eles próprios quase nunca se dão conta disso, de tão euforicamente alienados que andam e vivem. No país onde actuam, estão na linha da frente daqueles que trabalham para mobilizar as massas e as minorias intelectuais em torno de Nada e de Coisa Nenhuma. O que digo? De Nada e de Coisa Nenhuma? Não! Sempre em torno do Perverso Organizado e da Demência Organizada que é hoje o Futebol dos Milhões. Os Povos do Planeta morrem de fome; mais de metade da população mundial vive praticamente abaixo do limiar da pobreza; as catástrofes ditas naturais (são provocadas, senhoras, senhores, pelas criminosas e genocidas/ecocidas Economias dos Milhões, mas nós enterramos a cabeça na areia e continuamos a fazer de conta que são catástrofes naturais e não cientificamente programadas e provocadas, como de facto são) continuam aí a suceder-se em ritmo cada vez mais vertiginoso; as fábricas de armamento cada vez mais sofisticado continuam aí a laborar dia e noite e sempre com lucros obscenos, a droga continua aí a matar gerações inteiras e a sida a dizimar povos em massa, mas que importa? Os cronistas do Futebol de Milhões são cegos que cegam as massas e até as minorias intelectuais. Têm esse condão, pérfido condão. Porque a Alienação, a Evasão, a Fuga do Real, a Borracheira, a Decadência, a Degradação, o Abismo sempre atraíram as massas, sempre exerceram um irresistível fascínio sobre as massas e, por contágio / arrastamento, também sobre as minorias intelectuais. Chega, por isso, a ser heróico resistir a tanto Perverso organizado, a tanto Poder demente organizado e tão habilmente servido/vendido. Nunca o Veneno se disfarçou tanto e tão bem, ao ponto de até arrastar as minorias intelectuais que, assim, deixam de o ser, para serem massas, ainda que com linguagem e estilo de vida de minorias intelectuais, mas tão massa quanto as massas, não mais fermento na massa, luz nas trevas, como seria de esperar que fossem e seria seu dever histórico. O Futebol dos Milhões nivela a todos por baixo, despolitiza-nos, faz-se sair do real que é duro e tantas vezes cruel. Os Executivos das nações deliram, investem a receita dos impostos em estádios de futebol, os mais requintados, quais catedrais de diversão das massas, onde todos os fins de semana decorrem Missas laicas, liturgias laicas, com mais de alienação do que as dos templos paroquiais e dos grandes centros comerciais. Há cantos, há ritos, há proximidade física, há ajuntamentos de corpos, há multidões, há festa, há gritos, há manifestações orquestradas, há euforia nas vitórias, há lágrimas nas derrotas e, sobretudo, há uma bola sempre a saltar, durante noventa minutos, e 22 homens jovens, atléticos, na força da vida, a correr atrás dela, a agredi-la, a chutá-la, a tentar introduzi-la na baliza adversária, uma espécie de grande vagina de mulher, desflorada de cada vez que a bola, qual cabeça de um colectivo pénis duma multidão em fúria, entra violentamente por ela dentro e se aloja, parada e sem graça, no fundo das redes. Tudo é encenado para resultar. E resulta. Tudo é encenado para alienar. E aliena. Tudo é encenado para funcionar como uma colectiva prostituição/violação e funciona. No final, todos estão esgotados, cansados, uns de correr atrás da bola, outros de tanto berrar e esbracejar. Parece uma Comunhão, mas só parece. Porque não tem Causas. E não há Comunhão sem Causas. Ou então tem causas, mas são causas sem Causas, são causas de coisa nenhuma. É assim como um colectivo Orgasmo sem relação de amor, sem leito, sem afectos, sem olhos nos olhos. Um colectivo Orgasmo resultante duma Violação Colectiva. No final, vêm todos embora, cada qual com a sua montanha de problemas. Esmagadoramente sós. De bolsos vazios. Sem afectos. Uns Ninguém! Foi exactamente assim que o nosso País ontem ficou, ao final da tarde. Numa Depressão nacional. Numa Solidão nacional. Numa Frustração nacional. Correram e saltaram em redor de Nada, de Coisa Nenhuma. Fomos todos violados. Ultrajados. Humilhados. Ofendidos. Derrotados. Esvaziados. É Noite no País. E temos agora de, às apalpadelas, reaprender a viver. Erguer-nos deste Desastre. Culpados? Há culpados. Muitos. E bem conhecidos. Todos mercenários. Homens não são. Mercenários são. A começar pelo sr. Scolari. Viram aquele seu ar de pateta bem disposto, que já tem garantido um lugar de mais prestígio e de mais Milhões noutro país da Europa? Ontem, ele foi o rosto maior e mais cínico do Mercenário do Futebol dos Milhões. Durante cinco anos, fez-se passar por português. E muitos portugueses adoptaram-no, fizeram dele um dos seus. Ingenuamente. Foram pelo que ele lhes disse. Pelas suas crendices. Pelas suas rezas. Pelas suas mentirosas publicidades. Pura ilusão nacional. Ele veio até nós pelos Milhões e já se vai embora pelos mesmos Milhões. Bastou um Clube europeu oferecer-lhe muito mais Milhões e ele foi. Teria ficado, se daqui lhe dessem, pelo menos, os mesmos Milhões que a Máfia que está por trás do Clube inglês que acaba de o contratar lhe garante, cada mês, cada época. Não lhe deram. E ele, como bom Mercenário que é, vai-se embora para Inglaterra. O Futebol dos Milhões é assim. O Perverso Organizado. A Demência Organizada. Descriador dos seres humanos e dos povos. Com o sr. Scolari, o Mercenário, até a minoria dos intelectuais foi atrás, impressionada pelas multidões, pela movimentação das massas que ele conseguiu fazer acontecer. Nem essa minoria vão viu que é a Inteligência demente que tudo comanda. Em vez de alertar as massas, para o perigo que correm, para o Abismo que as espera no termo de toda esta liturgia laica e sem Causas, a minoria dos intelectuais disse com elas. Cobardemente. Demitiu-se do seu papel, da sua missão histórica. Tornou-se cúmplice. A mais culpada. Como a sentinela que adormece no seu posto e deixa que a cidade seja invadida e destruída. Nisto estamos. O século é já o XXI. O Milénio é já o Terceiro, depois que a Luz veio ao Mundo e o Homem em plenitude ergueu a sua tenda entre nós. Matamo-lo depressa, para podermos prosseguir na nossa Demência Colectiva, no nosso Infantilismo Colectivo, na nossa corrida colectiva para o Nada. Crescer em Humanidade e chegar à Maioridade custa que se farta. Tornarmo-nos adultos e responsáveis, como se só nós existíssemos é do caraças. Não nos venham com essa - dizem as Massas em fúria - de que temos de ser povo de povos, cultos, de olhos bem abertos, lúcidos, em estado de maioridade, Homens/Mulheres em plenitude, senhores dos nossos destinos e dos destinos do Planeta. Não nos venham com essa de que cada aldeia tem de ter no seu chão um Barracão de Cultura, qual ventre onde as populações hão-de desenvolver-se e crescer em sabedoria e em graça, até dispensarem Deus, de tão íntimo Ele ser a elas, mais do que elas, e de actuar tão discretamente com elas, que elas nem chegam a ter consciência disso. Não! Plantem sim em cada aldeia mais um novo templo, em substituição do velho. Plantem mais um nicho da senhora de Fátima, em cada esquina, ou da senhora de Caravagio. E plantem também um Estádio de Futebol dos Milhões que venha a despertar nos putos o vício do Futebol dos Milhões, os Ronaldos e os Mourinhos da nossa desgraça e da nossa vergonha. Cultura? Poesia? Música? Literatura? Teatro? Filosofia? Xadrez? Debates? Tertúlias? Momentos de Contemplação? Tempos de Silêncio? Humanidade? Maioridade Humana? Espiritualidade sem religião? Mas para quê? perguntam as massas. Eu sei que, por agora, as massas e os mercenários que as manipulam podem rir-se de mim. Mas é por aqui que vai a minha aposta. Porque, desde já eu sei que ir por esta "porta estreita" é garantir Futuro à Humanidade. Porque é por esta via que nós, quais parteiras, ajudamos a vir à luz Mulheres/Homens em estado de maioridade, cultos, capazes de auto-gestão e universalmente fraternos/solidários. Podem ser poucos. Mas o que importa é que nunca se vendam ao Futebol dos Milhões como a minoria dos intelectuais deste nosso tempo se vendeu. O que importa é que nunca se tornem Mercenários. Pelo contrário, tenham a audácia - e que audácia hoje é preciso! - de se manterem Humanos por toda a vida. Como meninas. Como meninos. Numa palavra, tenham a audácia de ser outros Jesus, não o das Religiões e o dos Milhões, mas aquele que as Religiões e os Milhões mataram, e que, desde então, vive para sempre e é a Fonte Viva de viveres humanos subversivos e conspirativos, agora Terceiro Milénio além! E quanto ao Futebol dos Milhões, a Demência Organizada, que ele vá definitivamente para Trevas que o conceberam e pariram, como pais/mães de Mentira que são, a mais Obscena e a mais Descriadora dos seres humanos.

 

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2008 JUNHO 19

 

Desta vez, foi um casal de idade próxima da minha que veio propositadamente de Vila Nova de Gaia, acompanhado de uma filha e do  respectivo genro, à minha procura na Lixa. Viram-me e ouviram-me todos os quatro no programa Praça da Alegria da RTP1, a dissertar sobre o meu último livro QUANDO A FÉ MOVE MONTANHAS, e meteram-se a caminho, confiantes de que haveriam de me encontrar. Não lhes foi nada fácil. Porque, já no território com essa designação, perguntavam pelo Padre da Lixa e as pessoas interpeladas remetiam-nos naturalmente aos quatro para o actual pároco da cidade da Lixa, ou, em alternativa, para o actual pároco de Macieira da Lixa. Sei (não que eles mo digam a mim, mas porque o dizem, agastados, a outras pessoas próximas de mim, para que elas, por sua vez, mo digam a mim) que os dois párocos em causa andam a ficar pior do que estragados com estes sucessivos e frequentes enganos, mas não terão outro remédio senão suportá-los; e, se forem verdadeiros irmãos meus no Presbiterado, darão a devida informação às pessoas que, por equívoco, os procuram ao vivo, por telefone, por mail ou por carta. Porque, afinal, não é a eles que as pessoas que vêm de longe procuram. É a mim. Para estas pessoas que vêm de longe, Padre da Lixa sou apenas eu, Padre Mário, não eles. Tanto que, geralmente, as pessoas nem chegam a dizer Padre Mário da Lixa. Dizem apenas Padre da Lixa. E para elas, Padre da Lixa não são eles, bastante mais novos e com outros nomes e outra história de vida, feita só ou quase só do tradicional e rotineiro funcionalismo eclesiástico-canónico e clerical, sem um pingo de Profecia e, sobretudo, sem nenhuma Boa Notícia de DeusVivo, o de Jesus. Padre da Lixa sou apenas eu. A História Humana tem destas coisas, aparentemente inexplicáveis. Mas a verdade é que depois de quase 40 anos - fui pároco de Macieira da Lixa entre Outubro de 1969 e Fevereiro de 1974, embora com muitos meses de ausência no território, ao todo quase dois anos, porque nesse período tive de suportar duas prisões políticas em Caxias e um arreliador exílio de três meses em Madrid, imposto pelo Bispo da Diocese, ao tempo, António Ferreira Gomes - continuo ainda hoje a ser mais conhecido em todo o lado como o Padre da Lixa.  Outros padres têm passado pelas paróquias da cidade da Lixa (Borba de Godim e Vila Cova) e pela paróquia de Macieira da Lixa, mas o Padre da Lixa continuo a ser eu. Nenhum deles, nem sequer os que estão presentemente em funções, são assim conhecidos, ainda que canonicamente o sejam. São-no de ofício, e por força de um decreto canónico episcopal, não por força do Espírito, o de Jesus. Digo-o sem qualquer jactância, ou intuito de vanglória. Digo-o como um Crucificado. Porque ser Padre da Lixa por força do Espírito trouxe-me, ao longo de todos estes anos, todo este meu ser-viver dissidente na Igreja, e em consequência, todo este Desprezo hierárquico que tenho conhecido desde que, em Março de 1973, fui preso pela segunda vez pela Pide, todo este Ostracismo institucional a que, desde então, ainda hoje continuo votado, toda esta Exclusão com sabor a Excomunhão por parte de todo o Presbitério (há alguns padres/presbíteros que ainda me tratam com alguma deferência pessoal e privada, mas, entretanto, todos eles conseguem continuar a "funcionar" institucionalmente, como se eu não existisse, o que, no meu entender, rompe a unidade presbiteral/eclesial e faz com que tudo o que eles fazem não tenha a marca do Espírito, o de Jesus que, como sabemos, sempre deixa as noventa e nove muito ortodoxas e rotineiras e vai à procura da única dissidente, entre as cem, não porque a dissidente esteja perdida e precise de ser integrada no "rebanho", mas porque as noventa nove, apesar de muitas, sem a dissidente-com-elas-e-entre-elas, é que estão perdidas, apodrecidas, quer dizer, tornam-se progressivamente menos humanas, desprovidas de entranhas de misericórdia e de humanidade, cheias de rotinas, repetitivas, cínicas, auto-satisfeitas como os fariseus do tempo de Jesus, fanaticamente eclesiásticas, e, por isso, tudo o que façam não humaniza o Mundo, não salva o Mundo, pelo contrário, está ferido de Morte, e daquele tipo de Morte que mata tudo e todos em redor. Não. Não pensem que é fácil ser-se Padre da Lixa por força do Espírito, sem o reconhecimento institucional. Não é fácil. Mas também não é impossível. Posso testemunhar que é ser-viver Crucificado. Mas, ao mesmo tempo, é espantosamente fecundo, porque me faz ser um grãozito de trigo caído na terra, que morre/vive e, assim, dá muito fruto. É também espantosamente humanizador do Mundo, porque me faz ser-viver despojado de todo o tipo de Poder, de Privilégios, ser um sinalzito de contradição, sem qualquer identidade institucional, sem comunhão institucional, dos outros para mim, ainda que com toda a comunhão de mim para todos os outros, sem qualquer nome institucional, sem qualquer reconhecimento por parte dos outros irmãos da mesma igreja que em Agosto de 1962 me fez Presbítero ordenado e, uns doze anos depois, passou progressivamente a envergonhar-se de mim, a caluniar-me, a fazer constar que sou um doente/demente, um louco, um oportunista, porque insisto em manter-me Presbítero da Igreja do Porto, quando nem os Bispos que, depois do Bispo António Ferreira Gomes, têm sucessivamente presidido à Diocese, Manuel Clemente incluído, sequer me procuram, me visitam, me falam, me telefonam, tão pouco reconhecem a minha simples existência de padre/presbítero sem ofício pastoral oficial, mas sempre a trabalhar como poucos, em Igreja e com a Igreja, na causa do Evangelho que é preciso, imperioso e urgente anunciar aos Pobres e aos Povos ("ai de mim se não Evangelizar", já clamava, em seu tempo, no meio de todo o tipo de adversidades/perseguições, o dissidente Paulo de Tarso, cujos 2000 anos de nascimento a Igreja institucional está este ano de 2008 a celebrar, sem se dar conta de que está a reconhecer finalmente um dissidente que se afirmou na vida como o Apóstolo dos apóstolos, sem nunca ter integrado o Grupo dos Doze, e que, sozinho e perseguido, inclusive pelos seus irmãos de Fé, foi muito mais apóstolo do que todos os Doze juntos, de tal modo que é do seu testemunho, da sua dissidência e da sua dedicação, que ainda hoje vivemos). Não é nada fácil ser Padre da Lixa por força do Espírito. Mas é a única maneira de se ser Presbítero da Igreja e na Igreja. Porque o que entrar no Presbitério por outra Porta, que não a do Espírito de DeusVivo, o de Jesus, é ladrão e salteador, mercenário, comerciante de missas, funcionário eclesiástico, a quem as populações, à medida que perderem os ancestrais medos que inconscientemente as tolhem, abandonarão e deixarão a falar sozinhos. Porque são uns estranhos para elas e ninguém segue a voz dos estranhos. Não sou quem o diz. É o próprio Jesus, o do Evangelho de João, o tal Evangelho que esteve para não integrar os Evangelhos Canónicos, de tão subversivo, anti-institucional, dissidente e fonte de Dissidência ele é. O difícil resulta do facto de que ser Padre da Lixa por força do Espírito, o de Jesus, é ser Presbítero que anuncia aos Pobres e aos Povos, ateus e crentes, outro Deus, o de Jesus, que não tem nada a ver com o Deus tradicional das Religiões e das Igrejas convertidas em outras tantas Religiões, e que não passa de um Deus-Ídolo que se alimenta de gente, de populações ingénuas, humilhadas, empobrecidas, oprimidas, sofridas, sem consciência crítica, sem capacidade de auto-gestão, criminosamente infantilizadas, tolhidas, não-ilustradas, não-evangelizadas, apenas catequizadas por catequeses moralistas e terroristas, como aquelas que deram origem à Mentira e ao Crime Organizado e Institucionalizado que é hoje Fátima S.A., mai-la sua mítica senhora cega, surda e muda, que devora os pobres e as viúvas, leva-lhes o ouro, o couro e o cabelo, a pretexto de longas e repetitivas orações. Mas porque eu, ao contrário dos padres/presbíteros das Religiões, anuncio DeusVivo, o de Jesus, que gosta de Política, de Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas, como as que Jesus sempre realizou e que as Igrejas convertidas em religiões insistem em dizer que são "milagres", coisa que DeusVivo jamais faz, apenas o Deus-Ídolo faz, porque assim mantém subjugadas e assustadas as populações, nem as próprias Igrejas convertidas em religiões me perdoam e perseguem-me. Nunca me reconhecem e sempre me tratam como um louco, um desmiolado, um ressentido. Só me reconheceriam, se, entretanto, também elas mudassem de Deus, do Deus-Ídolo para o DeusVivo, o de Jesus. Por mim, ainda espero que esta radical Conversão, esta Metanoia evangélica aconteça. E para isso trabalho incansavelmente. Porque, quando o Cristianismo for de novo o Cristianismo de Jesus, o de Nazaré, não mais o Cristianismo católico pagão do Império Romano que assim se prolongou na História até aos nossos dias, graças à Cristandade Ocidental, o Mundo tornar-se-á bem mais Humano, bem mais Sororal/Fraterno, bem mais Afectivo, bem mais Mesa Partilhada, bem mais Autónomo, bem mais Secular, em estado de Maioridade, sem necessidade de templos e de altares, de cultos nos templos, sem sacerdotes, sem Deus para cultuar nos santuários, porque DeusVivo viverá com ele, dentro dele, mais íntimo a ele do que ele próprio. Para isso sou Presbítero da Igreja do Porto, Padre da Lixa por força do Espírito, o de Jesus, não por força de um decreto episcopal. Curiosamente, foi por força de um decreto episcopal, do Bispo António Ferreira Gomes, que comecei a ser padre da Lixa e da Zona Pastoral da Lixa. Mas depressa o Espírito de Jesus se apoderou de mim e passou a agir em mim e eu vi-me a fazer e a dizer coisas paras as quais não estava programado, formatado pelo Seminário. Percebi, como numa revelação na consciência, que DeusVivo, o de Jesus, não coincidia com o Deus da Igreja católica romana convertida em religião. E percebi isto, precisamente, quando o Bispo passou a não me reconhecer e a censurar o meu ministério, a não querer que eu Evangelizasse os pobres e os Povos. Tive de optar por qual das fidelidades haveria de seguir. E optei para sempre pela fidelidade ao Espírito, tal como fez Samuel, o da Bíblia, no seu tempo e, sobretudo, Jesus, o de Nazaré, séculos depois. É esta fidelidade ao Espírito que me fez e continua a fazer Presbítero dissidente na Igreja, não fora dela, como muitos dos meus concidadãos gostariam que eu fosse. Jamais o serei, porque o Espírito me faz dissidente, mas na Igreja e por amor dela. É, por isso, um ser-viver Crucificado, mas, ao mesmo tempo, duma Paz que a hierarquia eclesiástica não conhece, não tem, nem pode dar. E duma Alegria que não tem nada a ver com as festas sem Festa deste Mundo do Dinheiro e da nossa Humilhação Humana. E duma Ternura que me faz ser como um menino e caminhar por toda a parte desarmado e sem guarda-costas com uma flor na lapela e de sorriso nos lábios. E dum Afecto universal que integra todos, mulheres e homens, velhos e novos, de preferência os Sem-Afecto, os portadores de deficiência, os Ninguém. Todo o Mundo é a minha casa. E todos os Povos são o meu Povo, a minha Família, meus irmãos e minhas irmãs. O casal de VN de Gaia que me veio procurar, chegou no momento em que eu ia iniciar o meu frugal almoço. Já não cheguei a meter na boca o naco de fruta com que ia começar a refeição. Pousei-o de novo na mesa e saí da cozinha ao seu encontro, de braços abertos, olhar em festa, coração aos saltos de ternura. Celeste, é assim que se chama a mulher do casal. e foi ela também que fez todos os outros saírem de casa ao meu encontro, ficou em festa, quando me viu ao vivo e disse logo ao marido, Vai buscar os nossos filhos (a filha e o genro) para que também vivam este encontro e participem desta conversa que vamos ter com o Padre Mário. Ele obedeceu com uma alegria que a mulher nunca lhe tinha visto antes. O encontro decorreu durante quase uma hora. E mais não durou, porque os quatro, de repente, se recordaram que eu ainda estava sem almoçar e por isso deram o encontro por terminado, saciados que já estavam de Alegria e de Paz. Também de Luz nas suas consciências e de Afecto nos seus corpos. Quiseram levar com eles um exemplar do livro com que me viram na RTP. E com o livro, vão também todos os meus contactos. De modo que, um dia destes, já depois do livro lido e mastigado, eu sei que o telefone vai tocar. Ou o fixo ou o móvel. Celeste deu-me essa garantia. Por palavras. Mas também pela alegria e pelo apertado abraço que me deu e recebeu de mim à despedida. Fiquei assim como um menino. Em intensa Eucaristia. Com todo o Mundo sentado à minha Mesa, na pequenina cozinha da casa alugada onde moro. O meu ser-viver de Padre da Lixa por força do Espírito é, como testemunho aqui, um viver Crucificado. Mas - acrescento agora mais este pormenor que faltava testemunhar - é também e sobretudo, como foi para Jesus, o de Nazaré, um ser-viver Ressuscitado. Por isso, como eu gostava que todos os meus irmãos no Presbiterado pudessem entender este meu ser-viver e também eles fossem padres/presbíteros por força do Espírito e não apenas por força de um decreto episcopal, ou duma Ordenação que teve tudo de Poder episcopal, de Opressão eclesiástica, quando deveria ser tão-só Acontecimento do Espírito que sopra onde quer e faz ouvir a sua Voz, sem que jamais saibamos de onde ele e ela vêm nem para onde nos levam. Porque o Espírito é assim como o Vento cuja Voz ouvimos e seguimos. Contra todas as outras vozes feitas de Poder e de Privilégios, de Mentira e de Religião/Medo, por isso, opressoras e assassinas. Pensem(os) em tudo isto que hoje o Espírito me levou a partilhar convosco, sem que eu estivesse sequer a contar, quando comecei a escrever esta crónica teológica. Fiquem com o meu abraço. E a minha paz.

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2008 JUNHO 18

 

Nem o meu querido amigo Baptista Bastos, grande escritor e grande jornalista que, desde há muitos meses assina uma crónica semanal (quartas-feiras) no DN, nem o nosso Nobel da Literatura, José Saramago que recentemente foi entrevistado pelo PÚBLICO e por um canal de televisão, parece terem ainda entendido que o que separa e distingue a Esquerda da Direita, em Política, são sobretudo as práticas quotidianas, não as ideias. As ideias também são importantes, mas, só por si, sem práticas quotidianas consequentes, não derrubam os poderosos dos seus tronos, muito menos, derrubam os tronos. Quando muito, fazem-lhes alguma mossa, mas acabam sempre a reforçar os poderosos e os seus tronos. Exactamente, o que, neste momento, faz com perfeição o nosso Nobel da Literatura, José Saramago, cada vez mais aceite e aclamado pelas elites do Dinheiro e do Poder, ou ele não fosse um deles, e dos mais brilhantes, precisamente, porque tem ideias de Esquerda, mas não tem práticas quotidianas consequentes. E as práticas quotidianas é que nos distinguem. Desde logo, o local que escolhemos para viver. Quem, como José Saramago, optou por viver no remanso duma ilha e numa torre de marfim, longe dos maltrapilhos e dos mal-cheirosos, dos leprosos de todo o tipo, das vítimas humanas que hoje são milhares de milhões e com tendência a serem ainda cada vez mais, dos empobrecidos à força de serem sistematicamente roubados-explorados, dos desempregados, dos Sem-Abrigo, numa palavra, dos Ninguém, jamais poderá ser de Esquerda, por mais que dela se reivindique. Na verdade, quem assim procede é de Direita, a Direita em todo o seu esplendor, culta, civilizada, aristocrática, vestida de privilégios de toda a ordem, a nata da Direita, a fina flor que o Poder aprecia e financia, premeia e promove. E escuta, embevecido. Desde que aceitou o Nobel da Literatura e se prestou àquele papel de ir a um dos centros do Poder da Europa do Dinheiro, de fraque e tudo, ainda que com um discurso de Esquerda que correu mundo, nos grandes media do Poder, José Saramago emigrou definitivamente da Esquerda e foi instalar-se na Direita, tornou-se um dos seus principais rostos, porventura, o mais mediático dos seus intelectuais. Nunca mais as suas palavras, os seus livros, os seus discursos tiveram a força da Subversão e da Conspiração que é timbre da Esquerda sem fissuras. Saiu definitivamente do Tugúrio dos Excluídos e dos Malditos e foi instalar-se na sua luxuosa casa em Lanzerote. Saiu definitivamente da clandestinidade para a ribalta. Da Abjecção para a Celebridade. Ser de Esquerda é essencialmente uma postura de vida, uma prática, não um simples pensamento, uma ideia. Todos os nossos intelectuais que não sejam intelectuais orgânicos são fatalmente de Direita. O seu discurso pode continuar a ser de Esquerda, mas a sua postura, o seu viver é de Direita. E a postura, o viver é o que nos define. Já o disse e bem numa das suas teses um dos grandes filósofos da Esquerda: Não basta interpretar o Mundo; o que é preciso é transformá-lo. E são as práticas correctas que transformam o Mundo. As ideias correctas apenas o interpretam. Não mexem um dedo para o transformar. Os poderosos agradecem. E até costumam pagar bem a quem tem boas ideias. Os poderosos sabem, desde o princípio do Mundo, que se tiverem com eles os intelectuais, seja a que preço for, têm salvaguardados os seus tronos e os seus privilégios. Nunca os intelectuais transformarão o Mundo, a partir do momento em que aceitam partilhar da mesa dos privilégios que os poderosos e o Dinheiro dos poderosos sempre garantem. Se pensamos que os prémios Nobel são para dar força à Esquerda, somos ainda do grande número de ingénuos em Política. Ingénuos altamente ilustrados, mas ingénuos. Porque na verdade os prémios Nobel pensam correcto, mas não fazem o que pensam. Dizem correcto, mas não actuam em conformidade. Pelo contrário, fazem e actuam à revelia do que pensam e do que dizem. São como os intelectuais do tempo e do país de Jesus, sobre os quais ele sabiamente nos adverte: Fazei o que eles dizem, mas não o que eles fazem. Deixem-me ser ainda mais objectivo. Diz-me onde vives e dir-te-ei quem és. A Esquerda sem fissuras nunca aceitará viver nos palácios, nem nos privilégios. Quando aceita, vendeu-se aos poderosos e frequenta os seus tronos. E quanto mais insistir em continuar a frequentar o discurso da Esquerda, mais está a servir a Direita. Porque, com esse discurso, ela engana até as vítimas que a ouvem e aplaudem e, entretanto, continuam nos seus quotidianos de desgraça e sem horizontes, mas com a ilusão de que têm naquela Esquerda um aliado, quando, na verdade, têm nela um estranho, um mercenário, um vendido. Nunca a Esquerda que o queira ser pode partilhar da mesa dos privilégios da Direita. É por isso que Jesus, o de Nazaré, o tal que foi crucificado por causa das suas práticas políticas e económicas maiêuticas, diz a quem o quiser seguir, isto é, a quem quiser ser politicamente de Esquerda: Vai, vende tudo o que tens e dá o dinheiro aos pobres. Depois vem e segue-me". Sem esta radical postura, não há Esquerda que transforme o Mundo, apenas Esquerda que interpreta o Mundo, mas o deixa tal e qual ele está, porque só assim ela continua a ter garantido o seu lugar de deputado da Oposição, o seu lugar no Parlamento Europeu, o seu lugar entre os Nobel do Mundo, o seu lugar de bispo residencial, o seu lugar de pároco, o seu lugar de administrador duma grande empresa multinacional, numa palavra, o seu lugar na Mesa dos Privilégios, onde a esmagadora maioria da Humanidade nunca se poderá sentar, porque ela é do tamanho de apenas alguns poucos, hoje cada vez em mais reduzido número. Podem correr e saltar. Mas não há outro caminho para se ser de Esquerda sem fissuras. O primeiro passo, o mais decisivo e porventura também o mais difícil, é escolher ser pobre e por toda a vida, ou, se preferirem, é escolher ser não-rico e por toda a vida. Trata-se duma escolha de fundo. Aquela que é a espinha dorsal de todo o nosso viver enquanto permanecermos na História. Este é o pilar fundamental sobre o qual se constrói uma mulher, um homem de Esquerda. É a pedra angular, sem a qual o edifício Esquerda cai. O segundo passo, que decorre do primeiro, é erguer a sua tenda entre os mais pobres e viver entre eles e com eles, numa relação de vizinhança física, de afectos partilhados, de mesas partilhadas, de acções maiêuticas partilhadas. À semelhança do grão de trigo lançado à terra que só assim pode dar muito fruto. Podemos e devemos ser os mais intelectualmente desenvolvidos, os mais cultos, os mais científicos, os mais peritos em todos os ramos do saber, mas para tudo partilharmos com os últimos, para servirmos maieuticamente os Ninguém. E nunca como benfeitores, como faz hoje e sempre fez através dos tempos um qualquer cacique ou um qualquer candidato a cacique. Sempre com a humildade de quem serve, sempre com a simplicidade e o respeito da parteira perante a mulher em trabalho de parto, sempre como o servo inútil que apenas faz o que deve. De modo que todo o protagonismo na História venha a ser progressivamente do Iletrado, do Pobre, do Desempregado, do Ninguém. Porque enquanto as maiorias oprimidas, empobrecidas e excluídas não forem os sujeitos da História, o Mundo não se transforma, apenas muda alguma coisa para que tudo possa continuar na mesma. Em terceiro lugar, é preciso paciência, doses e doses de paciência revolucionária. Porque o Mundo não se transforma numa geração nem em duas. É uma Operação/Criação que tem de atravessar todas as gerações. Devo acrescentar que as coisas nem seriam muito difíceis assim, se, entretanto, a Direita não estivesse tão activa dia e noite como está. E se ela não tentasse os intelectuais a passar-se para o lado dela, a troco de muitas benesses, de muitos privilégios. Mas a verdade é que a Direita trabalha e está activa dia e noite. Ininterruptamente. E de mil e uma maneiras, as mais sofisticadas. Ronda-nos a porta, desde antes do nosso nascer até depois do nosso morrer. Sem nunca desistir, até conseguir ganhar-nos para ela. Vejam que ela foi até capaz de criar prémios Nobel para ganhar para ela os intelectuais mais resistentes. Quando eles, como José Saramago, aceitam ser propostos e, sobretudo, quando aceitam o prémio e aceitam ir pessoalmente por ele, já estão definitivamente ganhos para a Direita. Porque o Dinheiro, quando é muito, mexe sempre com a cabeça de quem o recebe e muda-a radicalmente. Se o Dinheiro não for de imediato dado aos pobres, concretamente, a causas e projectos que ataquem e destruam as fábricas de fazer pobreza e pobres em massa, transtorna progressivamente a cabeça de quem fica com ele. Ora, o pior que pode acontecer a um intelectual, a um cientista, a um artista, a um escritor, a um poeta, a génio da bola, a um treinador de futebol dos milhões é tornar-se demente. Aparentemente, continua a ser o que sempre foi, mas, com o Dinheiro e tudo o que o Dinheiro traz com ele, a sua inteligência torna-se progressivamente mais demente do que sapiente. E sem que o próprio dê por isso. Os pobres, as vítimas, os Ninguém é que sentirão a diferença. Porque ele afasta-se progressivamente deles, até deixar de os conhecer e reconhecer. Continua aí vivo e a produzir, mas já é para dar força ao Poder que o comprou. Nem que seja para ser Oposição domesticada. Paga por ele. Quando a Dissidência não vai até às últimas consequências, já não é dissidência. É folclore. É um arremedo de dissidência. Mas ir até às últimas consequências é aceitar, como Jesus, o de Nazaré aceitou, acabar fora do Poder, fora da cidade, como o maldito dos malditos. Ninguém, dentro desta Ordem Mundial em que vivemos, ou apenas  muito poucos, quer semelhante coisa na sua vida. Ninguém, ou apenas muito poucos, quer semelhante coisa para um filho seu, uma filha sua. Jesus, o de Nazaré, quis. Foi consequente até esse limite e para lá desse limite. Por isso é o único Homem de Esquerda em plenitude (ou Homem do Espírito em plenitude) que se conhece. É a ele que temos de regressar, neste início do terceiro milénio, se quisermos transformar o Mundo, não apenas interpretá-lo. Temos de partir da Cruz em que o mataram, sobretudo, temos de partir da grande pergunta Porque o mataram?, e ir depois para as nossas Galileias onde ele também começou, para aí prosseguirmos as suas mesmas subversivas e conspirativas práticas políticas e económicas maiêuticas. Sempre em redor de Mesas Partilhadas, nas quais os Afectos Partilhados haverão de ser o Pão principal que habitualmente se serve aos sem-afecto, a todos aqueles, todas aquelas que não têm lugar nem sequer nos Templos, porque são deles escorraçados e impedidos de entrar. Só uma Esquerda assim, feita Prática duélica e solidária, transformará o Mundo. Mas onde estão hoje os militantes que a protagonizem todos os dias? Que mães, que pais querem que as suas filhas, os seus filhos acabem como Jesus acabou e, por isso, querem que elas, eles comecem as suas vidas públicas como ele começou a dele, nas Galileias - nas favelas e nas aldeias - dos seus países e acabem depois na Cruz? Se as suas filhas, os seus filhos começarem assim, não vão logo a correr, como os familiares de Jesus foram, mãe incluída, ter mão neles, nelas, para que não venham a ser a vergonha da família? O problema maior está aqui. E é por isso que há tão pouca Esquerda Praticada a transformar o Mundo e há muita Esquerda Bem-falante a interpretar o Mundo, para ele poder continuar a ser como é, um Mundo indecente, obsceno, demoníaco, fabricador de pobreza e de pobres em massa, uma aberração de todo o tamanho, uma Besta de muitas cabeças, totalmente mergulhado na Idolatria, a do Deus-Dinheiro. Onde, entretanto, aquelas, aqueles que forem excepcionalmente inteligentes e hábeis, sempre têm lugar de destaque e são estrelas como José Saramago ou como Cristiano Ronaldo, ou como José Mourinho. Saibam que, por mim, num Mundo assim, prefiro mil vezes integrar a multidão dos Malditos, dos Excluídos, dos Excomungados, dos Escarnecidos, dos Desprezados, numa palavra, dos que não têm lugar nos Templos nem nos Altares, nem nos Parlamentos, nem nos Palácios dos Executivos das nações.

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2008 JUNHO 17

 

Os Bispos portugueses estão de novo reunidos em Fátima. Bem poderiam mudar de vez a sua residência para lá, para evitarem ter de andar neste corre-corre entre Fátima e o seu paço episcopal. O problema é que não há em Fátima um palácio episcopal para cada um deles. Cada um tem lá a sua suite privativa, mas não é a mesma coisa que ter um palácio episcopal. E os nossos bispos não dispensam o palácio episcopal. Dá-lhes estatuto social. Não são uns pobretas quaisquer, nem andam assim por aí misturados com a ralé e o pé descalço, muito menos com drogados e prostitutas. Isso era coisa de Jesus, o de Nazaré, que nunca soube escolher as suas companhias, nem manter as distâncias. Os nossos Bispos não vão por aí. Aprenderam com o Grande Inquisidor a corrigir Jesus e a corrigir o Evangelho. Nisso são peritos. Fazem quase tudo ao contrário de Jesus e ensinam quase tudo ao contrário de Jesus. Agora, estão em Fátima, desde ontem e por lá vão ficar até à próxima quinta-feira. Sabem a fazer o quê? Ora, o que havia de ser!? Eles não são empresários como outros quaisquer, com a única diferença de que os outros empresários produzem riqueza ou vendem bens materiais e eles produzem liturgias e vendem sacramentos e outras coisas que tais? As dioceses que eles administram não são empresas? As paróquias não são sub-empresas, para as quais eles nomeiam funcionários especializados, ainda que todos apenas com contrato a prazo, renovável, se eles tiverem dado provas de merecerem ser reconduzidos? A Igreja católica romana não é uma multinacional ou transnacional, com sede em Roma, melhor, no Vaticano, e as dioceses territoriais não são outras tantas suas sucursais em cada país? Ora, pelos vistos, os nossos bispos, gestores que são de empresas eclesiásticas, acabam de concluir que têm sido maus gestores de empresa, que estão cada vez mais desfasados em relação às novas exigências do Mercado das Religiões, e, por isso - vejam só! - decidiram frequentar um mini-curso intensivo que os prepare para serem melhores gestores da sua empresa. Para tanto, nada melhor do que fazerem esse curso em Fátima, a sede da maior multinacional do catolicismo português e romano (há já quem admita que, um dia, até o o Papa e a Cúria Romana vêm por aí com armas e bagagens instalar-se em Fátima, para dali dirigirem a Igreja em todo o mundo. A enorme basílica pode até já ter sido concebida a pensar nisso. E o aeroporto de que também já se fala para Fátima, nas imediações do santuário, é peça fundamental para se poder concretizar esse projecto católico romano. O que é preciso é que o santuário de Fátima continue a render cada vez mais milhões de euros por ano e a juntar cada vez mais milhões de fiéis, oriundos de todas as partes do Mundo. Não é sabido que o Vaticano, com os seus cardeais e as suas múltiplas Congregações, é perdido por ouro e por euros - até colocou a efígie do papa no euro - como se diz que o Diabo é perdido por almas? Embora, isto do Diabo ser perdido por almas, é só uma gracinha de mau gosto, porque o Diabo pelo que é perdido, é por dinheiro, ele próprio é o Senhor Deus Dinheiro, que quer ter todas as pessoas e todos os povos, bispos e párocos incluídos, a seus pés). O curso terá como conferencistas alguns empresários católicos de sucesso no nosso país que ensinarão os nossos Bispos - vejam que até alguns Bispos eméritos estão lá a frequentar as aulas! - a gerir cada empresa-diocese, todas e cada uma delas com tantas paróquias e com tanto património. Surpreendentemente, a primeira aula, ou conferência foi dada ontem pelo próprio Bispo de Leiria-Fátima. Só podia ser. Ele, que recentemente trocou a pobretana diocese de Viseu pela riquíssima diocese de Leiria-Fátima, só pode ser um perito em gestão de empresas, de contrário, depressa levaria o santuário de Fátima à falência. E a Cúria Romana não brinca em serviço, nem dorme em serviço. Se lhe confiou a diocese do grande negócio de Fátima é porque ele lhe deu garantias de que seria um bom gestor de empresa. E é, tanto que agora até foi escolhido para ser o primeiro conferencista deste curso ministrado por empresários. António Marto, bispo, aproveitou para recordar aos seus colegas empresários das outras dioceses do país, algumas figuras bíblicas - era previsível que o fizesse, já que a Bíblia é a biblioteca que os bispos e demais clérigos conhecem! - precisamente aquelas que, no seu entender, são exemplo de bons empresários e de gestores. Entre outras figuras, recordou Moisés e, obviamente, o próprio Jesus. Imaginem a blasfémia e o sacrilégio! Jesus, o de Nazaré, como exemplo de bom empresário e de gestor de empresas-diocese! Mas a verdade é que o bispo António Marto não hesitou em referi-lo. Esqueceu-se foi de citar o nosso Poeta Maior, Fernando Pessoa, que escreveu num dos seus poemas que Jesus não percebia nada de finanças. Fernando Pessoa não era bispo da Igreja católica, mas era Poeta e, por isso, soube captar e dizer a verdade sobre Jesus. Disse que Jesus não percebia nada de finanças e que é até por isso que ele está para sempre no coração da Humanidade, mesmo da mais ateia e agnóstica. António Marto, que é bispo da diocese-empresa Leiria-Fátima, mas não é poeta, vem agora desdizer Pessoa e apresenta Jesus como um dos exemplos de bom empresário e de bom gestor. Vejam só para onde nos estão a querer levar estes nossos bispos portugueses, tão doentiamente agarrados a Fátima e à sua mítica deusa que nem lapas às rochas. Só mesmo a senhora de Fátima e os seus muitos milhões podem estar a fazê-los perder a cabeça e a torpedear assim às escâncaras o Evangelho de Jesus e o próprio Jesus. Mas não pensem que sou eu que estou para aqui a inventar. São factos que a própria Agência Ecclesia divulga. Bem sei que o Bispo António Marto não disse as coisas assim com esta crueza com que eu aqui estou a dizer. Habilmente, embrulhou a sua doutrina empresarial e de gestor da empresa Fátima S.A., em palavras evangélicas, mansas, suaves, muito devotas, santas. Como já no tempo e no país de Jesus, também os fariseus hipócritas faziam. O problema é que com semelhante embrulho, feito de palavras mansas, tudo fica ainda mais envenenado. E mais sacrílego. O que o Bispo António Marto e, certamente, os outros empresários católicos que estes dias vão falar aos nossos bispos portugueses nunca serão capazes de lhes dizer é o Evangelho que Jesus disse ao homem rico que o procurou preocupado com ganhar a vida eterna, quando já tinha bem ganha e bem garantida a sua vida efémera: Se queres ser perfeito, isto é, se queres ser homem (mulher) em plenitude, vai, vende tudo o que tens, dá o dinheiro aos pobres; depois vem e segue-me! E, no entanto, estas e só estas são as palavras certas que os nossos bispos mais precisam de escutar. Porque estas são as palavras de salvação, de humanização. Do que se trata, meus irmãos Bispos, não é de como haveis de ser bons gestores da empresa-diocese. É de como haveis de acabar com a empresa-diocese, de como haveis de ser Igreja comunidade de comunidades, de como haveis de ser Igreja pobre, sem bolsa nem alforge, sem paços episcopais, sem catedrais, sem basílicas, sem paróquias e sem casas paroquiais, sem igrejas e capelas em tudo quanto é sítio, de como haveis de ser Igreja sem património para gerir, de como haveis de desfazer-vos de tudo e acabar pobres e livres como Francisco de Assis. Esta, meus irmãos Bispos, é que é, hoje, a questão essencial da Igreja que vos ordenou bispos. Porque é para aí que nos chama o Evangelho, o de Jesus. O Mundo do Dinheiro e das grandes empresas multinacionais nunca irá por aí. Mas a Igreja, se quiser ser de Jesus, é apenas por aí que deve, tem de ir. Porque só assim ela será o sal da terra, a luz do mundo, o fermento na massa, a sentinela na cidade. O Sinal ou o Sacramento de Jesus, aquele mesmo que mataram na cruz, mas que vive e sempre está presente e activo lá onde dois ou três se reúnem em seu nome, e dispostos a prosseguirem, hoje e aqui, as suas mesmas práticas políticas e económicas maiêuticas. Por aqui havemos de ir, como Igreja, meus irmãos bispos. Sabei que seria este Evangelho que eu próprio vos convidaria a escutar, a dialogar, a praticar, se, apesar da minha dissidência dentro da Igreja e por causa dela, me tivésseis convidado a estar algum tempo convosco. Pela minha parte, teria de engolir sapos vivos para pisar de novo essa terra de perdição e de idolatria que Fátima cada vez mais é - nem como local de turismo deve ser visitada por ninguém, porque sempre adoece quem nele entra e quem pisa o seu tenebroso chão - mas, por amor de vós e do Evangelho, tudo eu suportaria. Por favor, meus irmãos Bispos. Bem sabeis, lá no mais fundo de vós mesmos, que é por aqui que havemos de ir. Nem que os cardeais da Cúria Romana vos digam o contrário, ousai ir pelo Evangelho. Os cardeais da Cúria Romana são hoje o Grande Inquisidor. Continuam a fazer tudo para corrigir Jesus e o Evangelho de DeusVivo. Resisti-lhes. Não vos deixeis enganar, como os ingénuos, com as suas vestes, nem com os seus exemplos. Sede, antes, como Francisco de Assis e resisti-lhes, como ele lhes resistiu. Encontrai maneira de vos desfazerdes de todo o património eclesiástico, para serdes, finalmente, bispos pobres duma Igreja pobre. Assim, o Mundo acreditará e descobrirá que Jesus, precisamente por não saber nada de finanças, mas por saber tudo de afectos, de mesas partilhadas, de práticas maiêuticas, é quem nos humaniza e sororiza/fraterniza. Nunca as grandes multinacionais da nossa desgraça. Só que em Fátima, jamais sereis capazes de ir tão à raiz das coisas, tão ao Essencial, sempre invisível aos olhos. Apenas no Deserto é que os vossos olhos abrir-se-ão e os vossos ouvidos. Resistireis então como Jesus resistiu à tríplice Tentação e, como ele e com ele, direis sim a DeusVivo. Quanto ao Deus-Ídolo que até agora tendes seguido, decapitai-o duma vez por todas. Sede finalmente bispos irmãos, amigos, companheiros, sem ter onde reclinar a cabeça, porque, se fordes como Jesus, itinerantes e pobres, todas as casas dos verdadeiros discípulos de Jesus serão também vossas casas. Mas não vos iludais: Primeiro, mudai de Deus. Deixai o Deus-Ídolo do Religioso e acolhei/patricai DeusVivo, o de Jesus. Porque só depois é que tudo o mais virá por acréscimo!

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2008 JUNHO 16

 

Pessoalmente, nunca fui naquele seu jeito de ser homem. Eu percebia que tudo nele é oco. Infantil. Comprável. Só não sabia o preço, quantos 30 dinheiros ele exigiria para se vender. Agora, já todos sabemos. O preço nem é assim por aí além, se pensarmos que estamos a falar do mundo do futebol do Senhor Milhões. O empresário, com tudo de proxeneta, que acaba de o comprar, nem teve de puxar muito pelos cordões à bolsa, apesar de ser um empresário proxeneta que nada em milhares de milhões e, por isso, pode comprar todos os jogadores de futebol do mundo e todos os treinadores, porventura, todos os árbitros. E podem os povos do Mundo estar descansados que nenhum Executivo das nações da Europa dos milhões se perguntará de onde vem a esse empresário proxeneta tanto dinheiro, que essa não é, nunca será preocupação de nenhum Executivo das nações. Todos os Executivos das nações rastejam perante empresários proxenetas, quando eles derem sinais exteriores de riqueza. Nenhum dos Executivos das nações quer saber de onde vem toda a riqueza que eles têm. Os meios com que a produziram nunca conhecem regras, que a ética nunca entrou nem entrará nesse tipo de mundo. Quanto mais milhões acumulados tiverem, mais bem-vindos são aos Executivos das nações do Mundo. O Pobre é que está sempre sob suspeita. Os grandes empresários proxenetas não. Apenas o Pobre. Sobretudo, quando o Pobre se torna milhares de milhões, como hoje já acontece. E quando todos começarem a dar sinais de que estão, finalmente, a organizar-se. Porque o Pobre organizado é um potencial subversivo, um potencial conspirativo, um potencial homem-bomba, multiplicado por milhares de milhões, que pode fazer explodir o Planeta. E não por demência. Mas por fome e sede de Pão e de Água. Também de Justiça e de Dignidade. Os Executivos das nações sabem disso. Sempre souberam. Aliás, os Exércitos que eles criaram; as Forças Policiais de Segurança que eles organizaram; os arsenais de armas cada vez mais sofisticadas que eles fabricam e armazenam são para manter sob controlo o Pobre e nunca permitir que ele alguma vez chegue a ser consciente, organizado, protagonista. Em todos estes séculos de História, os Executivos têm até conseguido esta coisa espantosa: incluir o Pobre nos seus Exércitos e nas suas Forças Policiais de Segurança, bem como nas fábricas de produção de armas cada vez mais sofisticadas. E o Pobre ainda lhes agradece. Sem nunca chegar a ganhar consciência de que tudo aquilo existe para o conter, o controlar, o subjugar, o manter quieto, atento e reverente. Submisso. A degradação maior do Pobre é essa. Não é a Pobreza em si. É chegar a cooperar, activa e agradecidamente, com os Executivos, contra si próprio. É chegar a virar contra si próprio e contra os seus irmãos e irmãs a arma que os Executivos lhe meteram nas mãos. É chegar a ser funcionário armado dos Executivos. É chegar a ser como Mateus, o Publicano do tempo e do país de Jesus. É chegar a ser cobrador de impostos do outro Pobre como ele. É chegar a tirar ao outro Pobre a esfarrapada camisa que ele tem no corpo para a entregar ao Executivo do Império de turno. Isto constitui a Humilhação das humilhações. O Intolerável. Ora, quando no Pobre as coisas chegam a este nível de Indignidade e de Humilhação, os Executivos das nações podem viver e dormir descansados. Quem mais os poderia/deveria derrubar, até coopera com eles. Faz-lhes a segurança. Arrisca a própria vida para os defender, para defender o seu Opressor, o seu Assassino. Porque disso se trata. Todos os Executivos das nações existem para roubar, matar e destruir o Pobre. Nenhum existe para Repartir a Riqueza, fazer viver e erguer o Pobre e, por ele, com ele e nele, o Mundo. É da natureza dos Executivos das nações roubar, matar e destruir. Enquanto existirem, nunca o nosso Mundo conhecerá a Justiça, nem a Dignidade, nem a Paz. Das bandas dos Executivos das nações, sempre vem o Perverso. Os Executivos das nações são sempre o Perverso organizado e em ininterrupta acção. Contam sempre com as melhores cabeças, os melhores cérebros ao seu serviço. E até com os corpos e a ingénua dedicação do Pobre. São a Besta que bestializa o Pobre. E que se faz adorar pelo Pobre em toda a parte. O sr. Scolari é hoje um dos seus trunfos, um dos seus vultos mais vistosos. Parece uma estrela a brilhar na Terra, mas todo ele é densa Treva. É tão infantil, que é capaz de matar a própria Mãe, o próprio Pai e, depois,  ainda fica a rir, a rir, a rir. Os muitos anos que já passaram sobre ele nunca o amadureceram. Infantilizam-no progressivamente. Acaba de revelar que alcançou o grau mais baixo do Infantil. Nunca o Homem que ele deveria ser o foi tão pouco. Mas é sempre assim. Quando, com o passar dos anos, não crescemos em Humanidade, acabamos no Infantil. Os Executivos das nações, que existem para servir e defender o Senhor Milhões e os seus principais empresários proxenetas, têm então o que mais desejam para se poderem perpetuar. São sempre os srs. Scolaris de todo o tipo que mais contribuem para que o Pobre nunca acorde, nunca cresça em sabedoria e em graça, em maturidade humana e política. Nunca alcance a Maioridade Humana. Nunca saia do Medo. Nunca se liberte da Alienação. Vejam como os grandes media agarraram de imediato no caso do sr. Scolari e fizeram dele o assunto maior. Conseguiram que todo o Mundo passasse a falar dele. E a roer as unhas de inveja. Todo o Mundo gostaria de ser o sr. Scolari. A esmagadora maioria nunca o será. Mas a verdade é que hoje todo o Mundo já é o sr. Scolari, em desejo, em sonhos. E isso basta, para que o Pobre nunca chegue a despertar. Nunca chegue a ser Pobre consciente e organizado. Para o Pobre chegar a esse patamar, tão cedo não estará disponível. Todo ele está hoje possesso do Desejo e do Sonho de vir a ser sr. Scolari. A Voz da Profecia pode ainda fazer-se ouvir, mas só no Deserto. Onde nem o Pobre que sonha e deseja ser sr. Scolari vive, porque embora esteja aí o seu corpo, não estão aí nem o seu Desejo, nem o seu Sonho. É por isso que o Pobre não é apenas pobre. É empobrecido. É explorado. É sugado. É sequestrado. É roubado. Arrancam-lhe a Alma. Metem-lhe dentro, como um Demónio, o Desejo e o Sonho de chegar a ser um qualquer sr. Scolari. E, enquanto assim for, nunca o Pobre chegará a ser Pobre consciente e organizado. Politicamente consciente e organizado. A mim, o sr. Scolari nunca me enganou. Quando o vi chegar a Portugal e, poucos dias depois, pregar a senhora do Caravágio e, mais tarde, a senhora de Fátima; quando o vi ir em peregrinação a esses locais da nossa vergonha como seres humanos e povos que somos; quando o vi dar a cara por essas ignóbeis crendices; quando o vi assim tão infantil; quando o vi ir à missa ao domingo como um um pagão católico romano mais, sem um pingo de Sapiência; quando o vi fazer depender as suas vitórias nos jogos de futebol de amuletos que entrega aos jogadores; quando o vi mobilizar as populações do nosso país em torno do Futebol do Senhor Milhões; quando o vi dar a cara em tudo o que é publicidade ao serviço do Senhor Milhões, tive a certeza de que ele era, é simplesmente um pau-mandado dos Executivos das nações, chamado Scolari, não era, não é um Homem da estatura, da sabedoria e da graça de Jesus, o de Nazaré, assassinado pelos Executivos das nações do seu tempo, porque, em lugar de cooperar com eles, enfrentou-os com lucidez e audácia, totalmente desarmado, como um menino, não como um infantil que faz tudo o que os Executivos das nações ao serviço do Senhor Milhões querem que seja feito. Vai-se agora daqui para a Inglaterra. Apenas porque de lá lhe acenaram com muitos mais milhões do que aqueles que ele já ganhava aqui, sem fazer nada que o justificasse! Vendeu-se como qualquer prostituta do sexo, como qualquer prostituto do sexo. O nosso país fica livre da sua peçonha, do seu infantilismo, da sua senhora de Caravagio, das suas crendices, das suas porcas publicidades, da sua bacoquice e da sua parvoíce. Estou certo de que os seus dias na Inglaterra não serão muitos, porque a Inteligência Humana por aquelas bandas anda mais activa e a Dignidade Humana também. Basta ver que não há lá o Demoníaco da senhora de Fátima nem a peçonha do Paganismo católico romano (não confundir com Igreja católica, a de Jesus), como religião oficial do país. Há certamente, outras Idolatrias, mas há também mais Lucidez, mais Racionalidade Humana. Esta é, por isso, a hora de acordarmos, como Povo e vermos bem o abismo para onde o sr. Scolari, nos poucos anos que esteve entre nós, nos arrastou. Temos agora pela frente, como povo, uma grande tarefa de desalienação e de humanização. Acordemos. O pesadelo sr. Scolari chegou ao fim. Regressemos ao caminho da Dignificação e da Humanização. O Pobre expulse de dentro de si o Desejo e o Sonho de chegar a ser um sr. Scolari. Seja Pobre com Espírito de Jesus dentro. Comecemos, num primeiro passo, por derrubar o Executivo Sócrates, no próximo combate político que se avizinha. Não será ainda a Paz que resulta da Justiça e da Dignidade. Mas pode ser uma etapa ganha nessa direcção. Não há tempo a perder, depois de todos estes anos do Sr. Scolari a fazer-nos andar para trás, a regredir ao Infantil, e connosco ainda por cima a aplaudir. Quanto aos ingleses, que se cuidem e se defendam. Ponham os olhos no que ele nos fez de perverso e não consintam que ele repita com eles o que nos fez a nós. Sair do Infantil e tornarmo-nos cultos, adultos, é preciso. Permanecer no infantil não é preciso. Trata-se de derrotarmos o Senhor Milhões, servido por todos os Executivos das nações do Mundo e pelos grandes empresários proxenetas. Só o Pobre sapiente e organizado poderá protagonizar um tal feito histórico, juntamente com os intelectuais orgânicos que fizerem corpo com ele. Mas o Pobre com o Espírito de DeusVivo, o de Jesus, dentro. É Hora! Ousemos. Os outros Povos do Mundo agradecer-nos-ão.

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2008 JUNHO 13

 

A notícia de que as missas católicas passam a ser mais caras, a partir do próximo dia 1 de Julho 2008 já nem o chega a ser, de tantas vezes o ter sido, em anos anteriores. O que é verdadeiramente notícia é o descaramento dos senhores bispos da chamada Província Eclesiástica de Braga que, em conjunto, assinam o decreto que impõe este aumento por igual em todas as dioceses que a integram. E não é um aumento qualquer, já que as missas passam dos actuais sete euros e meio para os dez euros! O que, no caso de um pároco que reze uma só missa por vinte almas de pessoas falecidas, dá uma receita imediata, a pronto pagamento, de 200 euros, ganhos em pouco mais de dez minutos, conseguidos a troco da recitação mais ou menos atabalhoada e rotineira dos textos litúrgicos do dia, tais quais eles vêm no Missal Romano. Não acham isto um escândalo? Uma indignidade? Uma blasfémia? Um sacrilégio? Transcrevo aqui textualmente a Agência Ecclesia: "O estipêndio da Eucaristia [ao utilizar o substantivo "Eucaristia", em vez do tradicional substantivo "missa", a Agência realça ainda mais, sem querer, a blasfémia e o sacrilégio que todo este negócio eclesiástico católico das missas é], nas dioceses pertencentes à Província Eclesiástica de Braga, passa de sete euros e meio para dez euros. Este aumento é uma das novidades do decreto relativo às taxas e tributos que foi assinado ontem [11 de Junho] e que entra em vigor no dia 1 de Julho, para o quinquénio 2008 – 2013. O decreto foi assinado por D. Jorge Ortiga, Arcebispo de Braga, D. António dos Santos, Bispo de Aveiro, D. António Montes Moreira, Bispo de Bragança-Miranda, D. Albino Cleto, Bispo de Coimbra, D. Jacinto Botelho, Bispo de Lamego, D. Manuel Clemente, Bispo do Porto, D. Joaquim Gonçalves, Bispo de Vila Real, D. José Pedreira, Bispo de Viana do Castelo, e D. Ilídio Leandro, Bispo de Viseu. O novo documento recorda ainda a obrigatoriedade da criação de um Conselho Económico em cada paróquia, assim como a existência de um Fundo Paroquial. Para este fundo deverão canalizar-se os emolumentos pagos pelos fiéis aquando da administração de sacramentos, bem como as suas ofertas. As novas tabelas podem ser consultadas no site da Arquidiocese de Braga: www.diocese-braga.pt." Precisamente, no momento em que os grandes monopólios portugueses e multinacionais estiveram à beira de fazer parar por completo o país, só para que os seus astronómicos lucros não cheguem a ser sequer beliscados e, em poucos dias, conseguiram vergar o Governo de Sócrates e as chamadas forças de segurança do Estado - em boa verdade, não vergaram, já que sempre tiveram, um e outras, ao seu incondicional serviço - eis que os senhores Bispos da Igreja católica das dioceses do Centro e do Norte do país vêm, em conjunto, a terreiro com este decreto que, na sua crueza e insensibilidade, perfaz uma blasfémia e um sacrilégio sem perdão. E que deverá merecer o mais vivo repúdio, por parte dos fiéis leigos, elas e eles, da Igreja, os eternos pagantes das vaidades e das ostentações dos senhores bispos e do clero que os serve, de modo atento e reverente. Volta, por isso, a ser actual o canto de José Afonso: "Eles comem tudo, eles comem tudo, eles comem tudo e não deixam nada!". Primeiro, já é uma blasfémia cobrar dinheiro pela Eucaristia, sacramento maior da Igreja, em que celebramos a Entrega sem reservas de Jesus feito Pão Partido e Repartido e feito Vinho Derramado para a vida do Mundo. Só o facto de na Igreja haver bispos que se põem de acordo para ganhar dinheiro com este Sacramento Maior, diz bem que eles são todos uns comerciantes de Deus, adoradores do Deus Dinheiro, teologicamente blasfemos, homens sem entranhas de misericórdia. Depois desta cruel medida, tudo o que eles possam dizer e fazer é pura hipocrisia. Vem tudo envenenado. Não passam de hipócritas, sepulcros caiados, discípulos, não de Jesus, mas dos escribas e dos fariseus hipócritas do tempo e do país de Jesus, que, já então, devoravam as casas das viúvas e dos pobres a pretexto de longas orações, agora, a pretexto de Missas. Vejam: Obrigam as pessoas a ir à Missa, sob pena de pecado mortal, e depois exigem que elas ainda a paguem. O Evangelho bem diz que demos de graça o que de graça recebemos. Mas os bispos católicos romanos permitem-se corrigir o Evangelho, corrigir Jesus, e dizem: Paguem dez euros por cada Missa que Deus, o de Jesus, nos dá de graça! São uns farsantes. Parecem santos e bons, justos e piedosos. São uns hipócritas. Desculpem esta linguagem tão dura. Mas a minha indignação não pode ser maior. Porque os senhores bispos existem na Igreja para vigiar e garantir a fidelidade ao Evangelho de Jesus, a fidelidade ao Espírito Santo. Não existem para trair o Evangelho e o Espírito Santo. Ao agirem deste modo, os Bispos o que pretendem é continuar a salvaguardar os seus privilégios e a viver na ostentação. O facto é tanto mais grave quanto acontece à revelia de tudo o que vem da melhor Tradição da Igreja, desde Jesus. O Concílio Vaticano II bem quis reconduzir a Igreja às suas origens, mas os bispos residenciais, na sua esmagadora maioria, nunca foram por ele, ainda que o citem, quando lhes dá jeito. Sempre o boicotaram. Porque já não sabem ser bispos pobres, longe dos palácios episcopais, nem das catedrais da nossa vergonha. Apresentam-se como senhores feudais, sem sequer perceberem que já estamos no século XXI e que as paróquias estão cada vez mais às moscas. Fossem as nossas populações verdadeiramente evangelizadas e, com um decreto destes, no próximo domingo ninguém apareceria nas Missas, como protesto perante semelhante blasfémia e semelhante sacrilégio. Aliás, é preciso que se diga - e eu digo-o aqui sem que a voz me trema - Deus, o de Jesus, não vai nunca em Missas, muito menos, em Missas pagas como um qualquer produto vendido no supermercado ou na farmácia. As Missas pagas são um mero negócio eclesiástico. Não têm nenhum valor de salvação. Nem tiram do purgatório nenhuma alma dos fiéis defuntos. É tudo mentira eclesiástica e clerical. Porque nem sequer há purgatório. Tão pouco há almas a penar. Todas essas doutrinas são terroristas e têm de ser denunciadas. Deus, o de Jesus, não vai em Missas, muito menos em Missas pagas, e cujo preço acompanha a inflação, em percentagens ainda maiores que as que os governos das nações costumam fazer para os seus impostos. A Graça de Deus é de graça. Os dinheiros na Igreja fazem dela uma instituição perversa, de Poder e de prepotência. A salvação das pessoas e dos povos não depende das Missas. Quem disser o contrário do que acabo de dizer é mentiroso e oportunista. Vão por mim, que há muito deixei de frequentar esses locais de negócio e de idolatria que são os templos paroquiais e as catedrais. E saibam que não deixei de ser presbítero ordenado da Igreja do Porto. Pelo contrário, desde que, há muitos anos, deixei de frequentar esses locais e esses cultos idolátricos, tornei-me ainda mais presbítero da Igreja do Porto. Mais do que os meus colegas que continuam lá a fazer essas coisas perversas e a alimentar esses negócios eclesiásticos e essas mentiras que mantêm as populações sequestradas e tolhidas. Igreja, a de Jesus, acontece apenas lá, onde e quando dois ou três nos reunimos em seu nome e com a disposição de prosseguirmos, hoje e aqui, as suas mesmas causas. Tudo o que não for assim é mentira, é religião, é idolatria. Saibam que as Missas não salvam ninguém. São puro negócio que só contribuem para perder ainda mais as populações que se deixam enganar com essas catequeses. Sou eu quem lhes diz: Fujam das Missas. Deixem os párocos a falar sozinhos, a pregar sozinhos, a rezar Missas sozinhos. Nunca mandem rezar uma Missa pelos que já morreram. Nunca! Só perdem dinheiro e os que já morreram não têm qualquer benefício com isso. Sabem o que quer dizer salvar? Quer dizer simplesmente Humanizar, tornar mais humanas as pessoas, tornar mais humanos os povos. Salvar é dignificar as pessoas e os povos. É libertar as pessoas e os povos. É ajudar maieuticamente as pessoas e os povos a serem-no cada vez mais. Quando formos plenamente humanos, também somos plenamente salvos! Para isso acontecemos um dia na Evolução. Para chegarmos a ser plenamente humanos. Ora, não é com Missas, rezadas por clérigos comerciantes que lá chegamos, que nos tornamos plenamente humanos. É pelo amor que tivermos uns aos outros. Os bispos que acabam de decidir aumentar em dois euros e meio o preço das missas são sacrílegos e blasfemos. São comerciantes de Deus. Negoceiam com a vida entregue de Jesus. Ele deu a sua vida. E eles vêm agora negociar com ela, ganhar dinheiro com ela. São sacrílegos e blasfemos. Fujam deles, para que eles percebam que estão errados e se convertam ao DeusVivo, o de Jesus, que quer que demos de graça o que de graça recebemos. Não nos deixemos enganar. As Missas não salvam ninguém, pela simples razão de que DeusVivo, o de Jesus, não é um comerciante. É puro dom, pura dádiva, pura graça. Salva-nos de graça, da mesma maneira que nos chamou à vida de graça! Comerciantes podem ser, e são, os párocos e os bispos. E também os pastores das outras Igrejas que juntam dinheiro sobre dinheiro. Mas saibam que lá onde entrar dinheiro, DeusVivo nunca está presente, por mais que o seu nome seja invocado. Onde entrar o Dinheiro, só está presente o Deus-Dinheiro. As Missas fazem parte dos cultos ao Deus-Dinheiro. Sempre fizeram. Por isso, eu, desde que me tornei presbítero consciente da Igreja, nunca mais aceitei um cêntimo pelo exercício do ministério presbiteral. Sou presbítero de graça. E jornalista de profissão, agora já reformado pela Caixa dos Jornalistas. Não recebo um cêntimo da Igreja. É para mim uma questão de honra e de dignidade. Por isso posso viver longe dos templos e dos altares. E vivo. Porque o Deus do templos e dos altares não é o DeusVivo, o de Jesus. É o Deus-Dinheiro, cujos sacerdotes até se permitem aumentar os preços dos produtos que vendem aos fiéis. Fujam desses locais de negócio, desses covis de ladrões. Assumam-se como filhas adultas, filhos adultos de DeusVivo. Reúnam-se em nome de Jesus, mas na casa uns dos outros, em redor de mesas comuns e partilhadas. E Jesus, no seu Espírito, estará sempre com vocês, para fazer de vocês outros ele, outros Jesus, hoje e aqui. Vão por mim, como eu procuro ir por Jesus e pelo Espírito de Jesus, que é o Espírito de DeusVivo. Para isso sou presbítero da Igreja do Porto. Para anunciar a todas as mulheres, a todos os homens, a todos os povos, este Evangelho, esta Boa Notícia de Deus. Fujam da idolatria, de toda a idolatria, também da idolatria católica romana e da idolatria religiosa em geral. E, obviamente, da idolatria do Deus-Dinheiro que, neste momento, já tem como seus reféns, o Governo do nosso país e os governos das restantes nações da Europa e do Mundo. Resistamos-lhe até ao sangue. E chegaremos a SER mulheres e homens em plenitude.

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2008 JUNHO 12

 

O meu novo livro, QUANDO A FÉ MOVE MONTANHAS, fez-me andar numa roda viva estes últimos dias. Na segunda-feira, 9 de Junho, passei pela Praça da Alegria, na RTP-1. Viajei depois, de comboio, na tarde desse mesmo dia, até Lisboa, de onde passei a Carcavelos. Aqui, esperava-me um bom número de pessoas, na sua maioria homens, apenas duas mulheres, que me haviam convidado a jantar com elas num restaurante da terra. O jantar tinha como ementa principal debater o meu novo livro e aprofundarmos, juntos, em diálogo vivo, algumas das múltiplas questões nele abordadas. O debate-conversa, rico em intervenções, só terminou, e com manifesta pena de todos, quando o dono do restaurante disse que tinha de fechar as portas, por força do estipulado na lei. Todos os participantes fizeram questão de levar com eles para casa um exemplar do livro devidamente autografado por mim. E alguns prometeram que vão prosseguir o diálogo comigo, via e-mail. Dormi por lá e, no dia seguinte, vim almoçar a Lisboa, com um outro grupo de pessoas, aqui mais mulheres do que homens. O almoço foi mais de convívio e de partilha de afectos, do que de debate de ideias. Mas o livro esteve sempre presente, do princípio ao fim, até porque quase todas as pessoas presentes já o tinham adquirido e lido na totalidade ou em grande parte. A alegria foi por isso o Pão principal que nos alimentou neste almoço. Tanto assim, que, lá mais para o fim, eu próprio não resisti a cantar dois dos meus preferidos Cantos Nas Margens, o que deu a  todo o restaurante um clima de alegria e de humanidade que habitualmente ele não conhece. Segui dali, a pé, Avenida da Liberdade acima, com uma boa parte das mesmas pessoas que tinham estado no almoço, até à Feira do Livro, onde, à chegada, já me esperavam muitas pessoas que desejavam encontrar-se comigo e queriam também o meu autógrafo nos meus livros que ali mesmo haviam adquirido. Primeiro, estive no pavilhão da Campo das Letras. Depois, no pavilhão da Quasi Edições / Magnólia. Pessoas houve que foi a primeira vez na sua vida que foram à Feira do Livro. Nem sequer sabiam que ela só abria da parte da tarde e já saíram de casa da parte da manhã. Nem isso as fez desistir de se encontrarem comigo. Uma boa parte destas pessoas havia-me visto e ouvido no dia anterior na Praça da Alegria. E não resistiram a saírem ao meu encontro na Feira. A alegria que traziam estampada nos seus rostos diz bem do impacto que a minha conversa com Sónia Araújo, na RTP-1, havia tido nas suas vidas. Muitas das pessoas nem esperaram que eu passasse para o pavilhão da Magnólia, onde o novo livro está à venda. Por sorte, os dois pavilhões ficaram próximos um do outro e as pessoas iam pelo livro lá e vinham com ele para eu o autografar, ali mesmo no pavilhão da Campo das Letras. Foi uma tarde indescritível de alegria, de festa, de partilha de vidas, de testemunhos entusiasmados pela Fé, tal como eu a vivo e anuncio e que, afinal, mais não é que a mesma Fé de Jesus. Pude perceber que, naquela tarde, em toda a Feira do Livro, eu fui o único presbítero da Igreja católica que esteve presente em sessão de autógrafos que, por sinal, pelo menos, no que me diz respeito, é sempre muito mais do que isso. É sobretudo um intenso momento de Evangelizar, de partilhar / anunciar / testemunhar a Boa Notícia que Deus, o de Jesus, é para as pessoas e para os povos, e que deita por terra - por isso, elas não me perdoam e tudo fazem para tentar desacreditar-diabolizar este meu ministério presbiteral! - todo o tipo de idolatria em que as Igrejas e as Religiões, infelizmente, têm sido férteis. Todo o tempo da Feira foi intenso de comunicação, de alegria, de entusiasmo. Deus Vivo, sempre invisível aos olhos, quase se palpava ali. Vi-O nos olhos de muitas mulheres e de muitos homens. Até nos olhos de um menino que os pais sabiamente enviaram sozinho até mim com um exemplar do meu novo livro para eu autografar, sem que eles chegassem sequer a aparecer-me, ainda que estivessem a ver e a acompanhar anonimamente toda a cena, entre as muitas outras pessoas que estavam pelas redondezas do pavilhão onde eu me encontrava. O menino veio, nos seus nove anitos, até junto de mim. Trazia com ele o livro, dentro do saco de plástico, e pretendia que eu o autografasse. Era, segundo me disse, para o seu pai. Parei tudo o que estava a fazer para o acolher e atender, como se só ele existisse. E tive o cuidado de registar no livro aquele momento, através da dedicatória que nele escrevi. Porque, para lá do nome do pai que ele me disse para escrever, acrescentei também o nome do filho menino que veio até mim com o livro. A dedicatória foi para os dois, mas a mensagem foi sobretudo para o menino que amanhã será jovem e adulto, quando o próximo Futuro já for presente na vida dele. Estou certo que, para este menino, o dia 10 de Junho de 2008 foi o primeiro dia do resto da vida dele. E para mim, foi um miminho que o Espírito de Deus Vivo me deu, no universo de tanta incompreensão e de tanto ostracismo eclesiástico, por parte da Igreja católica que integro e que não tem sido suficientemente universal, sobretudo, na sua hierarquia, para me integrar a mim, à minha liberdade, à minha originalidade e à minha saudável dissidência dentro dela. Problema dela, obviamente. É hoje uma Igreja tão sectária e tão caída na Idolatria, que já nem consegue ver e ouvir o Espírito de Deus Vivo que lhe grita em todo o meu viver de presbítero longe dos templos e dos altares, mas tão próximo das pessoas, particularmente, das mais fragilizadas e das mais ostracizadas na sociedade. A Feira do Livro de Lisboa, este ano, foi sem descanso para mim, do princípio ao fim. E toda ela emocionante. Nunca mais esquecerei muitos dos momentos especiais que ela teve. Assinalo mais três, para lá do protagonizado pelo menino. Primeiro, o encontro ao vivo com duas jovens mulheres que já me haviam contactado via e-mail, a saber se eu aceitaria abençoar com a minha presença de presbítero da Igreja do Porto a sua união para-matrimonial lésbica, a realizar por todo este ano, lá mais para o final. Como lhes disse que aceitava - Jesus, o de Nazaré, não faria o mesmo? - as duas fizeram questão de me procurar na Feira, para se darem a conhecer e me conhecerem ao vivo. Quando as vi chegar, todo eu explodi de alegria. E abracei-as ao mesmo tempo, como se fossem uma só que, pelos vistos já são, por força do amor que as une. Anunciaram que haverão de procurar-me com tempo aqui na casa onde moro, para podermos conversar mais profundamente e, assim, prepararmos juntos esse Dia, o primeiro do resto da vida delas. Vi-as, depois, afastar-se dançantes de alegria interior, por perceberem que DeusVivo, o de Jesus, está com elas e nelas, na sua diferença. E que elas são também filhas amadas dEle, como Jesus, o modelo acabado de Filho e de Ser Humano. E eu fiquei em Eucaristia por elas e em comunhão. O segundo momento inesquecível, foi a chegada de uma outra mulher, fisicamente alta e com ar determinado, bonita e exuberantemente feliz por me encontrar ali ao vivo e assim tão à mão de semear. Nunca nos tínhamos visto antes, mas foi como se sempre nos tivéssemos conhecido. Ela apresentou-se-me como Pastora ordenada de uma Igreja protestante. E logo eu me levantei como uma mola a que tiram o peso de cima, para a poder abraçar e beijar. A conversa aconteceu rápida, porque outras pessoas me queriam também. O que dissemos, mais com os olhos e com os gestos sororais do que com palavras, levou-a a adquirir de imediato o meu livro SALMOS VERSÃO SÉCULO XXI, que autografei logo ali com uma dedicatória muito especial e ecuménica. Tenho a certeza de que o livro vai selar uma comunhão eclesial que as cúpulas das respectivas Igrejas nunca conseguirão realizar entre si, porque fazem dos privilégios o seu pão de todos os dias, o que as torna idólatras, formalistas, hipócritas, sem Espírito Santo, o de Jesus. O terceiro momento inesquecível, foi protagonizado por um casal, já na casa dos quarenta e tantos, com especial destaque para o homem. Os olhos dele brilhavam como dois sóis. Nunca vi tanta luz em olhos humanos. Havia-me visto e ouvido na véspera na RTP-1. Toda a alegria que, segundo ele dizia, eu irradiava à medida que falava com Sónia Araújo; toda a energia que saía de mim, dos meus olhos, do meu rosto, das minhas mãos sempre em movimento; e, sobretudo, a força do meu testemunho vivido. Só porque para mim a Fé não é uma doutrina, é um amor que vivo, uma comunhão única com Jesus, o que mataram e que DeusVivo ressuscitou e que, desde então, vive para sempre connosco e entre nós, no Espírito de DeusVivo que o habitou em plenitude e em permanência e que o faz ser o Homem em plenitude que ele é, o alfa e o ómega da Humanidade. Até a esposa deste homem, Tino, de seu nome, se mostrava espantada com o marido. Nunca o vira assim tão entusiasmado, quase fora de si. E com aqueles olhos de fogo sempre a saltar-lhe nas órbitas, mais os gestos e as palavras de alegria que mais faziam dele uma explosão viva de paz. Ao saber que, para lá do meu novo livro, havia outros livros meus também importantes, quis levá-los todos e só os não levou porque não vinha prevenido de dinheiro. Mas ainda lhe tive de autografar mais uns quatro, pelo menos. E ele falava, falava, falava, a dizer-testemunhar a sua alegria. Até que, finalmente, a mulher Alice passou a associar-se também a ele. E já falavam ambos, como uma menina, um menino. Foi, por isso, para os dois, o primeiro dia do resto das suas vidas de casal. E o que daqui resultará, só o Espírito de DeusVivo o sabe. Mas que será bom, não tenho dúvidas. Quando, já perto das 23 horas, e depois de um frugal jantar, regressava, exausto, mas intensamente feliz, no Metro que me iria levar à gare do Oriente, onde, às 00,30h, haveria de tomar o autocarro que me iria trazer ao Porto e daí a S. Pedro da Cova, onde, na tarde desse novo dia, havia de participar no Encontro da pequenina Comunidade Cristã das Quartas-Feiras, eu recordava a conversa que, no dia 9, tivera em directo com Sónia Araújo, na Praça da Alegria, da RTP-1. Pude então perceber, depois de tudo o que a Feira do Livro me revelou, quanto essa conversa foi um momento de intensa alegria e de fecunda boa notícia de DeusVivo, no país que a viu e ouviu. As pessoas que a viram e ouviram em directo foram, muitas delas, interiormente "tocadas" pelo Espírito, o de Jesus. Se calhar, pela primeira vez nas suas vidas, terão compreendido que não basta falarmos de Fé. Temos sempre de saber de que Fé é que falamos, porque Fés há muitas, mas apenas uma verdadeira. E quando digo apenas uma verdadeira, digo apenas uma potenciadora e libertadora do que há em nós de humano sapiente e afectivo. Porque todas as outras Fés, que não a mesma Fé de Jesus, são geradoras e alimentadoras de alienação, são ópio do povo, são fonte de humilhação das pessoas e dos povos, lá onde elas proliferarem e, infelizmente, proliferam em quase todas as pessoas e em quase todos os povos ainda por Evangelizar. Pude perceber que a primeira a ser surpreendida foi a própria Sónia, quando me ouviu dizer, com irrefutável convicção, que a única Fé que move montanhas, antes de mais a montanha da alienação, do Medo e da Inteligência demente que há em nós, é exactamente a mesma Fé de Jesus, o de Nazaré, porque é também a única Fé que não é religiosa, como tal, é a única que não tem quaisquer laivos de idolatria. É Fé política, não religiosa, que leva as pessoas em quem misteriosamente acontece, a nascerem de novo, do Espírito de DeusVivo, como pessoas autónomas e livres, ocupadas com a Terra, não com o Céu, porque ela, como Política que é, sempre nos pergunta pelo Próximo, mais do que por Deus, o que fizemos pelo Próximo, mais do que o que fizemos por Deus. E do Próximo, particularmente, daquele de quem nos temos de fazer próximos, porque vive habitualmente desfigurado e nem tem aspecto de humano. Só uma Fé assim, a mesma de Jesus, nos faz verdadeira e integralmente humanos, sororais/fraternos, livres, iguais, mulheres e homens com DeusVivo dentro, ocupados com a Terra, por isso, políticos como Jesus e a realizar as mesmas práticas libertadoras, maiêuticas, que ele realizou no seu tempo e país. Deixem-se abrir a esta Fé e verão como crescerão em humanidade, até à estatura de Jesus, o de Nazaré. Conhecerão então duelos, porque os Poderes que dominam o Mundo passarão a ver em nós inimigos deles e não nos perdoarão. Mas nunca como então nos sentiremos tão humanos. Olhem que sou eu quem lhes diz e sei do que falo. Experimentem e verão.

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para

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2008 JUNHO 06

 

As respostas não chegaram a 4 mil, no conjunto das paróquias do Patriarcado de Lisboa. O que só por si já é um desastre. E estas tão poucas respostas ao inquérito lançado ano passado pelo Patriarcado entre as pessoas católicas que ainda frequentam a missa ao domingo e cujos resultados foram ontem divulgados à comunicação social revelam um outro desastre ainda maior. Revelam que a esmagadora maioria destas poucas pessoas que se deram ao trabalho de responder ao inquérito, embora já tenha a Bíblia em casa, habitualmente não a lê, nem a nível pessoal, nem a nível familiar. É caso então para perguntar: Afinal, o que andam a fazer os párocos e os bispos e todos os chamados agentes de Pastoral da Igreja católica? Os dados do estudo revelam que tudo o que fazem continua a passar ao lado do essencial. Limitam-se à gestão corrente da empresa eclesiástica, sem nunca se interrogarem sobre o sentido e o valor do que fazem. A mim, não me surpreende. Porque sempre tenho dito que as coisas são, infelizmente, assim. A Igreja católica tem-se limitado a ser uma grande empresa clerical e para-clerical destinada, fundamentalmente a alimentar o Religioso das populações, sem nunca ter tido a audácia de ser uma presença viva e activa, ao jeito da parteira, entre as populações e com elas, para ajudar a despertar, no mais íntimo delas, a mesma Fé de Jesus, a única que move montanhas e faz das populações pessoas humanas, criticamente conscientes, lúcidas, adultas, em estado de maioridade. Mas como é que a Igreja pode chegar a ser uma presença assim entre as populações e com elas, se tudo nela está orientado para ela ser simplesmente uma empresa destinada a alimentar o Religioso que as populações, nos seus ancestrais medos, continuam a não dispensar? Porém, uma Igreja que não fosse mais assim, empresa destinada a alimentar o Religioso das populações, pelo contrário, se atrevesse a ser o que Jesus quis e quer que ela seja, sal da terra, luz do mundo, fermento na massa, sentinela na cidade, seria inevitavelmente uma Igreja perseguida pelas populações e ostracizada pelos Executivos do país em que está presente e actuante. Em lugar de privilégios, conheceria desprezos. Em lugar de louvores, conheceria ataques e ameaças até de morte. Em lugar de concordatas e de mordomias com os Poderes deste Mundo, conheceria calúnias e rejeições de toda a ordem. Se DeusVivo, o de Jesus, não tem lugar neste Mundo dos Poderes, como é que a Igreja que se reclama dele pode ter? Só porque traiu a sua Missão e se converteu numa grande empresa multinacional do Religioso. Os dados do inquérito não me surpreendem. Confirmam o que ando a dizer há muito tempo, sem que me queiram ouvir. Até me tratam como um doente do foro psiquiátrico e um ressabiado, tão incómodo é o meu testemunho e tão certeira, a minha denúncia. Acham pretensiosismo da minha parte. Como se, nestas coisas da Verdade, as maiorias tivessem de ter sempre razão. Quase nunca têm. As maiorias regem-se por comportamentos de massa. E estes seguem sempre a lei do menor esforço. E do gasto mínimo de energia. Não é desta ordem a Verdade. A Verdade segue a lei do máximo esforço e do gasto máximo de energia. Habitualmente, rema contra a corrente. Não vai na corrente, mas contra a corrente, contra o Rotineiro, contra o Tradicional. Não foram as maiorias que tiveram razão, quando Galileu afirmou/garantiu que era a terra que girava em volta do sol e não o sol que girava em volta da terra. Como também não têm razão, quando ainda hoje, dois mil anos depois de Jesus ter dito/revelado o contrário, que é o Religioso que salva/humaniza o Mundo. As Igrejas todas também o dizem, até para assim poderem continuar a justificar as práticas pastorais em que apostam todos os dias. Mas não é verdade. E o problema mais grave é que, nem perante os dados que este estudo do Patriarcado de Lisboa acaba de revelar, a Igreja católica se mostra capaz de tirar as devidas conclusões. Pelo contrário, persiste nas mesmas práticas pastorais de alimentação do Religioso das populações. Inclusive, pretende recorrer mais à Bíblia, mas como alimentação do Religioso, quando a Bíblia e a Palavra de Deus que pode estar a PASSAR pelos seus múltiplos livros, se sempre a soubermos ler/escutar em sintonia com o Espírito de DeusVivo, o de Jesus, são tudo menos um manual com receitas para alimentar o Religioso das populações. Reduzi-la a isso constitui uma perversão bíblica de todo o tamanho. Desde Jesus, o de Nazaré, ficou claro - deveria ter ficado claro para sempre - que a Bíblia só é Palavra de Deus, se, ao escutá-la, escutarmos o Espírito de DeusVivo que a atravessa, como atravessa a História de todos os povos, todos eles Povo-de-Deus, em plena igualdade com o Povo de Israel, sem mais nem menos privilégios uns do que outros, já que em DeusVivo não há acepção de pessoas nem de povos. Se esta Acção, com força de Nova Criação, não chegar a acontecer, a Bíblia não passará de uma pequena-grande biblioteca - é o que quer dizer o substantivo plural "Bíblia" - sem nenhum especial interesse para a Humanidade, que outros livros, outras bibliotecas também não tenham. Será mera letra. E, como mera letra, pode até matar, mais do que vivificar; destruir, mais do que edificar. Quantos disparates se não escreveram e ensinaram ao longo dos séculos de Cristandade e, ainda hoje se continuam a escrever e a ensinar, em nome da Bíblia! E quantos crimes se não cometeram e justificaram em nome da Bíblia, a começar pelo maior de todos, o assassinato de Jesus, o de Nazaré, só porque ele teve a lucidez bastante para ver e a audácia bastante para dizer que o que ensinavam os teólogos oficiais do Templo de Jerusalém e o que faziam os seus sacerdotes, comandados pelo Sumo-Sacerdote, era pura Idolatria, já que o Deus a que se dirigiam não passava de criação deles, um ídolo porventura muito respeitado, mas um ídolo, totalmente ao serviço dos seus mais perversos interesses! Hoje, as gerações jovens estão a crescer, na sua quase totalidade, à margem da Bíblia, o que, só por si, não é mal nem bem. É simplesmente um facto. O que resultará daí para o próximo futuro, só no futuro se saberá. O facto, enquanto tal, não me aflige por aí além. Porque, afinal, a História revela que muitos foram os crimes que se cometeram e justificaram em nome da Bíblia. E, se for para prosseguir por aí, é bem melhor então não a abrir nunca mais. De resto, o Espírito de DeusVivo que PASSA na Bíblia, também passa nas nossas vidas e nos acontecimentos de que é feita a História, ou Ele não fosse mais íntimo a nós que nós próprios. O determinante é vivermos abertos a Ele, atentos a Ele. Mais: É deixarmos que Ele seja Espírito de DeusVivo em nós, como Jesus deixou. Se deixarmos, veremos que Ele não nos desperta para o Religioso, mas para práticas políticas maiêuticas, como fez paradigmaticamente com Jesus. Por isso é que não é a Bíblia, enquanto tal, que é importante. Importante mesmo, é Jesus, o de Nazaré. É por ele que sempre havemos de ir. Mas como, se nem as Igrejas é por ele que vão, apenas pelo Religioso e pelo Deus-Ídolo ao qual o Religioso sempre se dirige? Pensemos maduramente nisto. Igrejas e populações. Na certeza de que, quando o Espírito de DeusVivo, o de Jesus, nos atingir, nesse Momento, nasceremos dEle. E logo abandonaremos o Religioso e a Idolatria que ele fomenta e alimenta, para nos tornarmos Mulheres, Homens como Jesus, a