DIÁRIO ABERTO
2007 JUNHO 29
Viram e ouviram esta semana, no parlamento, toda aquela arrogância do nosso primeiro-ministro José Sócrates, durante o debate sobre a Europa? Sobretudo, durante o período de respostas que teve de dar às pertinentes perguntas-questões formuladas pelos deputados da Oposição? O mais surpreendente é que nenhum dos grupos parlamentares achincalhados por sua Excelência se tenha levantado e saído da sala. E o nosso homem que bem merecia que o deixassem a falar só para a sua bancada socialista confrangedoramente subserviente e reverente, como um capacho!... Mas que querem? As maiorias absolutas têm destas desgraças. Com facilidade fazem o poder subir à cabeça do chefe do bando e ele não hesita em fazer da humilhação das minorias a sua principal arma de ataque. Muito mais, agora, que se soube que o nosso homem, coitado, terá de viver para sempre com o complexo de que o seu título académico de engenheiro parece estar ferido de morte.
A Europa e o país que se cuidem com este nosso homem, porque sempre lhe há-de sobrar em arrogância o que lhe falta em excelência académica e, sobretudo, em excelência humana. O homem é um mentiroso político compulsivo. Ter palavra não é com ele. E não é que as populações parecem gostar? A crer nas sondagens (só hoje terão começado a descer drasticamente, depois de meses e meses sempre em alta!), as populações gostarão de dirigentes políticos trapaceiros, mentirosos, que dão o dito por não dito com a mesma facilidade com que mudam de camisa. Talvez, porque assim também essas mesmas populações podem fazer o mesmo que eles. Só que, quando se chega tão baixo, o país fica sem conserto, vai a pique para o lamaçal. Em lugar de crescermos em humanidade, tornamo-nos numa selva, onde o mais trapalhão é rei, no caso, é governo da nação. É por isso que o prometido referendo ao agora chamado Tratado Reformador, substituto da chumbada Constituição Europeia, ficará lá para as calendas, ou para o dia de S. Nunca à tarde. O nosso homem ainda não rasgou todo o segredo, mas já deu todas as voltas necessárias que vão levar a este mais do que previsível desfecho. Oxalá me engane, mas é quase certo que, como país, não teremos essa sorte.
Políticos assim descredibilizam a Política. Como os crentes em Deus que mantêm práticas muito religiosas, mas sistematicamente insolidárias e de costas voltadas para o resto da Humanidade, como se ela não existisse, são dos principais causadores do ateísmo generalizado que hoje vivemos nas sociedades ocidentais. Infelizmente, são políticos assim, sem escrúpulos, os que mais fazem carreira. Porque as populações não apreciam quem é justo e usa de verdade para com elas. Políticos que falem e pratiquem a verdade fazem populações verdadeiras. Ora, salta à vista que as populações preferem a mentira à verdade, sobretudo, quando elas próprias ainda não estão dispostas a assumir-se na vida e na História como populações em estado de maioridade e de responsabilidade. E este é o drama. Os políticos profissionais percebem depressa que, para se perpetuarem nos lugares cimeiros, têm de nivelar-se e nivelar as populações por baixo, não por cima. Por baixo, têm os votos da maioria das populações. Por cima, têm a oposição da maioria das populações que não estão para maçadas, o que mais querem é que lhes dêem “pão e jogos”, Fátima e futebol, novelas e pornografia. E dinheiro fácil, sem o suor do rosto, conseguido à base de subsídios, de falcatruas, de corrupção e de caridadezinha.
Aqui chegamos. Sem que as Igrejas cristãs que historicamente são convocadas, quando autênticas, pelo Espírito de Jesus e constituídas para serem o sal da terra e a luz do mundo, revelem a mínima capacidade para mudar este estado de coisas. Movimentam-se muito, mas como canas agitadas pelo vento. As suas agendas passam sempre ao lado da agenda do nosso mundo e da agenda dos povos. Ocupam-se exclusivamente com os seus mosquitos eclesiásticos e nem dão pelos camelos que esmagam as populações e os povos. Refugiam-se nos templos, em lugar de fazerem parar as cidades, a exigir outra economia e outra política. Assumem-se como multinacionais religiosas, ao lado das outras multinacionais que nos devoram sem dó nem piedade, quando deveriam fazer corpo com todas as suas vítimas, inclusive, com o risco de perderem a sua própria vida. Preferem ser Igrejas nem frias nem quentes, assim-assim, sem profecia e sem martírio. E, quando assim é, os políticos-lobo que hoje são governos das nações ficam com o caminho livre para, em coligação com as multinacionais, engendrarem economias e políticas destinadas a roubar, matar e destruir as populações e os povos. Terão, por isso, de ser os ateus e os agnósticos da Europa e do resto do mundo a levantar-se e a intervir. E também os estudantes. Mas se até estes grupos, habitualmente inconformados e não alinhados com a Ordem estabelecida, hoje se passam para o bando dos do Dinheiro, como poderá haver futuro humano para o nosso presente?
Está então tudo perdido? De momento, não se vislumbra uma saída libertadora no horizonte. Esta deveria ser a hora dos povos, mas está a ser cada vez mais a hora do Dinheiro, do deus-Dinheiro, por manifesta demissão dos povos. Em lugar de crescerem em consciência política e em liberdade/responsabilidade, como é próprios de povos em estado de maioridade, eis que eles se comportam como povos alienados, descapacitados, impotentes, drogados, à deriva. E a verdade é que nunca ao longo da História o deus-Dinheiro conseguiu ter, como hoje tem, a generalidade dos governos das nações do mundo sob o seu mais completo domínio e ao seu incondicional serviço. Ele pode, por isso, fazer gato-sapato das populações e dos povos, e já está a fazê-lo de forma manifestamente obscena, sem que nem elas nem eles reajam e se sublevem. Um a um, todos os direitos conquistados em anos e anos de sangrentas lutas operárias, estudantis e populares, estão hoje a ser sucessivamente negados, rasgados, pisoteados. Parece até que de repente regressamos à situação de "miséria imerecida" e de total negação dos direitos dos trabalhadores do século XIX. Com o deus-Dinheiro a realizar tudo o que pretende, como num dilúvio social avassalador, e sem qualquer oposição a sério.
Está então tudo perdido? Responderei como Jesus respondeu aos seus discípulos, quando viram o homem rico afastar-se dele e deles, triste, sem audácia para repartir os seus bens pelos pobres e, assim, tornar-se homem-para-os-demais, como ele o havia convidado a ser, e que é, de resto, a única maneira de se ser homem/mulher a valer, sem fingimento. Nessa ocasião os discípulos perguntaram, aflitos, a Jesus: “Quem pode então salvar-se?”, e ele respondeu-lhes. “Aos homens é impossível, mas a Deus não, porque a Deus tudo é possível” (cf. Marcos 10, 17-27). Como Jesus, também eu respondo à pergunta: "Está então tudo perdido?": O Espírito Criador de Deus vencerá o deus-Dinheiro. Só que, de momento, ainda não sabemos como. Cumpre-nos, por isso, estar atentos e vigilantes. Por agora, é ainda o poder da Treva, ou da idolatria do Dinheiro, que está a conseguir vergar praticamente todos os governos das nações e todas as populações aos seus caprichos. Mas não será por muito mais tempo. As suas inúmeras vítimas, hoje em números de milhares de milhões, vão despertar da resignação e da humilhação em que subvivem e sublevar-se. Como num tsunami libertador. Esta é, por isso, a hora da Fé cristã jesuânica. É a hora de nos abrirmos ao Espírito que habitou Jesus e de O escutarmos, também e sobretudo no clamor das vítimas do deus-Dinheiro e da sua excludente Ordem Mundial. É também a hora de, pelo menos algumas, alguns de nós termos a simplicidade e a humildade de sermos outros Jesus, mas agora bem ao jeito do século XXI. Por mim, não quero outra coisa. Por isso, permaneço surdo ao deus-Dinheiro, resisto às suas seduções, recuso-me a ser rico e continuo a querer ser pobre. Um pobre com Espírito, como os pobres das bem-aventuranças de Jesus. E com Causas. Todas as Causas da Humanidade e do Universo. Quem está disposto a alinhar comigo?
2007 JUNHO 26
1. O Porto esteve em debate ontem à noite no programa Prós e Contras, da RTP1. Em directo do salão árabe do Palácio da Bolsa. Foram muitas as individualidades convidadas. Ao Bispo do Porto Manuel Clemente, ninguém o viu nem ouviu. Certamente, porque nem sequer foi convidado pela responsável do programa. O facto é revelador da total inanidade dos bispos residenciais portugueses, inclusive, do Bispo da capital do nosso país e da capital do norte do país. Na prática, o Bispo do Porto não foi convidado porque, no entender da jornalista Fátima Campos Ferreira, não teria nada de relevante para dizer sobre o presente e o futuro do Porto, neste momento em generalizada crise de identidade, como, de resto, todo o nosso país. Somos hoje (ou desde sempre?!) um país deprimido, triste, sem horizontes, envelhecido, cansado, de braços caídos, derrotado, sem vontade de lutar. Um país sem Espírito, o de Jesus. Um país tolhido e reprimido. Cheio de religião, de santuários, de igrejas, de templos, de senhoras de Fátima nas bermas dos caminhos e dentro das casas das pessoas, de festas sem festa em honra de santas e de santos de pau carunchento, mas sem um pingo da Fé de Jesus, a única que nos faz plenamente humanos e sororais/fraternos. E o Porto reflecte o país que hoje somos.
O Bispo Manuel Clemente, ainda recente na Igreja do Porto, depois de anos como bispo auxiliar do Patriarcado de Lisboa, bem pode então limpar as mãos à parede da sua catedral, porque estar no cargo e não estar é a mesma coisa para o país. A sua existência é igual a não existência. O Porto foi a debate e, do Bispo Manuel Clemente, quem o organizou nem sequer se lembrou. Não creio que seja por anticlericalismo primário. Embora, o anticlericalismo seja uma realidade tipicamente portuguesa, não porque os portugueses sejam piores do que os demais europeus. A causa é outra. Não houvesse clérigos e clérigos tão clericais (perdoe-se-me a redundância) e não haveria anticlericalismo em Portugal. Houvesse presbíteros no mundo sem serem do mundo, elas e eles e não apenas eles, em tudo iguais aos demais cidadãos, cidadãs, e certamente não haveria anticlericalismo. Há anticlericalismo, porque há clericalismo que tresanda. Felizmente, hoje em vias de extinção, porque as novas gerações já não alinham mais nessa idiotice, nessa doença, nessa esquizofrenia que é ser clérigo, e clérigo celibatário à força (escrevo isto com lágrimas, porque o que mais desejo é que este modelo clerical de Igreja passe e dê lugar ao modelo comunidade de comunidades, sem lugar para clérigos de nenhuma espécie, apenas para ministérios ordenados e não-ordenados, protagonizados por quem tiver carisma para isso, tanto mulheres como homens em tudo semelhantes aos demais, excepto na Mentira e na Corrupção). O facto de as novas gerações já não alinharem mais por este modelo clerical de Igreja só me alegra e deveria alegrar a Igreja enquanto tal. Só perturba os clérigos que ainda insistem em ser Igreja-gheto, na sacristia e no templo, Igreja de ritos e de rotinas, Igreja-fortaleza, sem audácia para ser Igreja-fermento à intempérie, na rua, bem longe das salas de cima dos cenáculos, de onde o Espírito Santo a tirou, logo no início, naquele que se convencionou chamar o dia da festa do Pentecostes, só para assim deixar sempre tudo na mesma.
Reconheço que o Bispo Manuel Clemente veio para a Igreja do Porto acompanhado de uma grande expectativa. Sempre era alguém que vinha de Lisboa, do Patriarcado de Lisboa e da Universidade católica, presença residente aos domingos na Rádio Renascença e no programa Ecclesia, da RTP2. Mas depressa revelou que iria ser um mero bispo eclesiástico como os demais. Por isso, mais do mesmo. Sem audácia. Sem Espírito. Institucionalmente, como um bispo ordenado, é o homem do Espírito. Mas só institucionalmente. Porque é sabido que o Espírito Santo, ou de Jesus, não encaixa no institucional, menos ainda no eclesiástico. Felizmente. É sempre subversivo. Até conhecermos Jesus, ainda poderíamos ignorar que o Espírito Santo é assim. Mas depois de termos conhecido Jesus, não. Em Jesus, o Espírito sempre foi subversivo e conspirativo. Nunca é mais do mesmo. É sempre Aquele que faz novas todas as coisas. E todos os dias. A todo o instante. Ora, o Bispo Manuel Clemente entrou na Igreja do Porto, à frente de um cortejo feito de pompa e circunstância e foi logo meter-se na catedral e no paço episcopal, donde sai, de vez em quando, de visita às paróquias. Improvisa aqui, improvisa ali, diz inanidades em todo o lado, está aflito com a falta de clérigos celibatários à força, quando deveria alegrar-se com o facto deles estarem e vias de extinção. Ao mesmo tempo, deveria ousar transformar esta presente situação da Igreja do Porto num kairós, ou tempo favorável, para assim ajudar a dar à luz um novo modelo de Igreja, segundo o que o Concílio Vaticano II e o Espírito Santo que o fez acontecer no século passado e que o conduziu com êxito já apontaram. Sem audácia para o Novo e para erguer a sua tenda no mundo, longe da tenebrosa catedral de outras eras que já não voltam mais, e longe das velhas paróquias que vêm do Império romano e dos espaços eclesiásticos cheios de ranço e de paganismo católico, verdadeiros antros de vaidades e de esterilidades, o Bispo Manuel Clemente lá avança cada vez mais para o abismo, sempre a sorrir e infantilmente vestido, como um palhaço, pelos símbolos do poder episcopal (a recente procissão do Corpo de Deus, na cidade do Porto, a que ele presidiu com pompa e circunstância, foi sem dúvida o momento maior em que ele revelou ao país toda a sua inanidade, ao canonizar semelhante folclore eclesiástico e pagão, nos antípodas de Jesus e do Deus de Jesus). O pior é que não vai sozinho para o abismo. Com ele, leva também a Igreja do Porto. E o país.
Estivesse a ser outra, muito outra a sua prática, fossem outras as suas opções como Bispo do Porto, tivesse provocado, logo à chegada ao Porto, um saudável e fecundo cataclismo eclesial, tivesse posto desde então em polvorosa a Igreja a que preside, e certamente a jornalista que conduz o programa Prós e Contras tê-lo-ia convidado para o debate. E o país teria parado para ver e ouvir o que ele teria para nos dizer como Boa Notícia ou Evangelho de Deus sobre o presente e o próximo futuro do Porto e do país. Assim, é como se não houvesse Igreja no Porto. Porque uma Igreja que se limita ao templo e às missas, que não sai daquele esquema litúrgico, que não inventa novas linguagens, novos gestos, novas formas de estar e de comunicar e, sobretudo, que não tem a audácia de trazer o Evangelho de Deus para o século XXI é uma Igreja votada ao esquecimento, é como o sal que perdeu a força de salgar e de incomodar, de perturbar e de curar!
Será que o Bispo Manuel Clemente ainda vai conseguir ler este sinal dos tempos e tem a audácia de mudar radicalmente? Ou prefere prosseguir nas suas rotinas, nas suas bizantinices, nas suas coisas eclesiásticas, nas suas inanidades? Esta é a hora para assumirmos rupturas e nascermos de novo. Carregamos, como Igreja católica, com dezasseis séculos de desvios do essencial. Tornamo-nos numa Igreja em pecado mortal. Uma Igreja contra o Espírito Santo. E os frutos estão bem à vista. Não os frutos do Espírito, mas os da resistência ao Espírito. O país está como está, porque desde o berço da nacionalidade temo-lo condenado, como Igreja católica, a ser um país doente. Nunca fomos capazes, como Igreja católica, de o tirar do Paganismo. Limitámo-nos a baptizar de católico o paganismo em que sempre viveram as populações. Ainda hoje é o que mais fazemos! E com isso reduzimos as populações a populações espiritualmente órfãs, isto é, sem Espírito Santo, desfalecidas, povoadas de ancestrais medos de Deus, sempre a correr para os templos e para os santuários, para os santos e as santas, em lugar de as estimularmos a assumirem a vida, a sua e a do país, nas próprias mãos, como se Deus não existisse.
É imperioso e urgente mudar, nascer de novo, do alto, do Espírito. O Bispo Manuel Clemente tem de perceber isto. E avançar. Sem ficar à espera que a Cúria do Vaticano o preceda. Nunca fará isso, porque no dia em que ela o fizer lavra a sua própria sentença de morte e de extinção. É preciso avançar à revelia dela. Porventura contra ela. Obedecer ao Espírito, mais do que à Cúria romana. Ou assim ou morreremos no nosso pecado. E fazemos morrer o país. Quem não vê isto?
2. Os bispos portugueses estiveram reunidos em Fátima. O local é doentio, mas eles não desistem de lá. Parecem sadomasoquistas compulsivos. Para seu e nosso mal. Estiveram durante uns dias a aprender a arte de comunicar, com a ajuda de especialistas, vindos de Espanha. Mas parece que se esqueceram que não basta saber comunicar. É preciso ter o que comunicar. E eles manifestamente não têm nada a comunicar. Até poderiam ser desajeitados na arte de comunicar, mas tivessem eles o que comunicar. Infelizmente, nem uma coisa nem outra. São, por isso, um desastre em toda a linha. Bispos inanes. Mais prejudiciais do que benfazejos. Quando deixarão de existir assim como são? Bispos assim só nos fazem mal. Quem não vê? Bispos príncipes, bispos vaidosos, bispos sem Evangelho, bispos sem Igreja, bispos sem a Fé de Jesus, bispos beatos, bispos sem teologia jesuânica, bispos cheios de devoções mas vazios do Espírito Santo. Com semelhantes bispos a dirigir as respectivas Igrejas locais para onde iremos?
Mas o mais surpreendente, desta vez, é o que, a propósito, escreveu a agência Ecclesia de notícias, no seu sítio na Internet. A notícia do evento é do que há de mais eloquente, a revelar o estado desgraçado a que chegaram os nossos bispos em Portugal. Pela voz de um deles, precisamente, o secretário e porta-voz da CEP. Há quem, levianamente, me acuse de passar a vida a dizer mal da Igreja. Ainda não perceberam que o que eu quero é que ela seja Igreja outra, mais de acordo com o Evangelho e com Jesus, o de Nazaré. Ainda assim, esqueçam tudo o que eu tenho dito e escrito. E vejam esta espantosa notícia da Agência Ecclesia. Transcrevo-a de seguida na íntegra. Digam-me, depois, se se pode dizer pior dos bispos que hoje temos. O desastre é total. Transcrevo a notícia em itálico, para lhe dar ainda mais realce. Leiam:
Os bispos portugueses receberam formação na arte de presidir e de comunicar porque o século XXI "exige qualidade estética" - disse à Agência ECCLESIA D. Carlos Azevedo, Secretário da Conferência Episcopal Portuguesa (CEP).
De 18 a 21 de Junho, realizaram-se, em Fátima, as Jornadas Pastorais do Episcopado subordinadas ao tema: "O ministério do Bispo e a arte de presidir e de comunicar". Com esta iniciativa demonstrou-se o "reconhecimento da necessidade de formação numa área onde houve um descuido" - referiu o Secretário da CEP.
Os especialistas - teóricos e práticos - ajudaram os presentes a "enquadramo-nos dentro da área da Comunicação Social". E acrescenta: "Ajudaram-nos a perceber as exigências e os critérios da Televisão, Rádio e dos restantes órgãos" porque os critérios da Comunicação Social "não são aqueles a que estamos habituados".
Os lamentos são frequentes. Muitas vezes, os bispos "queixam-se que a Comunicação Social não está preparada para nos questionar e não está por dentro dos mecanismos da Igreja".
"Mas também acontece o contrário, nós não estamos preparados para entender os mecanismos da Comunicação Social" - sublinha D. Carlos Azevedo. Em relação à comunicação dentro da própria Igreja, o secretário da CEP realça que esta, "muitas vezes, não funciona"
O conteúdo e a mensagem da Igreja "tem valor e é muito rico" mas "necessitamos de novas formas de cuidar do embrulho". A forma é fundamental na "transmissão da fé" - frisou. Ao olhar para as celebrações, D. Carlos Azevedo nota que as "músicas são de fraca qualidade e os nossos gestos não têm beleza". E avança: "A beleza também fala de Deus". Depois de ouvir os conselhos dos oradores, o secretário da CEP afirma que as "homilias têm que ser muito bem preparadas e pensadas para que a mensagem passe". Até, os improvisos têm que ser "muito bem preparados".
Aos presidentes das celebrações falta "dotes de comunicadores" porque se deixou de ensinar "eloquência oratória nos seminários". Como os fiéis "são inteligentes", muitas vezes andam à procura "de igreja em igreja de uma celebração que tenha dignidade estética e beleza formal". As pessoas não vão às celebrações por "mera rotina," mas porque querem "sair de lá com alguma esperança e renovação espiritual". E avança: "fomos aconselhados pelos oradores que comunicar «exige muito trabalho»".
Quando questionado se o Evangelho necessita de embrulhos, D. Carlos Azevedo realça que "não adianta estarmos a dizer verdades muito interessantes quando as pessoas estão distraídas". Uma homilia que tenha "mais de dez minutos sujeita-se a não ser assimilada". E acrescenta: "É preciso saber como captar a atenção dos fiéis".
Como vários oradores do país vizinho, o secretário da CEP afirma que em quase todos os aspectos da vida da Igreja os espanhóis "vão a léguas de nós" visto que "têm uma grande tradição teológica". E conclui: "Andamos muito na rotina" mas "temos recebido vários avisos - decréscimo das vocações, diminuição da prática dominical e abandono dos jovens da igreja". Eis!
3. E que dizer daquele falso padre que, segundo os jornais, andou por aí, meses e meses, de norte a sul do país, a baptizar e a casar e a rezar missas em série, tudo a troco de dinheiro, de muito dinheiro, sem que ninguém desse por isso? Acaba de ser apanhado em flagrante e detido. Mas o facto, só por si, diz bem do estado desgraçado a que chegou a nossa Igreja católica, neste modelo de Cristandade em que ela teimosamente persiste contra o Espírito Santo. Fica assim bem manifesto que o sacramento da Ordem não é preciso para nada. Um qualquer que saiba ler bem e tenha um mínimo de jeito para representar, pode fazer de pároco. E andam os bispos com o papa a exigir que os párocos sejam clérigos e clérigos celibatários à força. Para quê? Afinal, basta ser-se bem-falante, sem um pingo de Evangelho, para que as populações fiquem contentes, ou elas não fossem constitutivamente pagãs.
Ora, bem-falantes, parece que é o que os próprios bispos portugueses agora também querem passar a ser. Não importam os conteúdos. Basta que se seja bem-falante. É, pois, o descrédito total. Será que não vemos? E continuaremos a bater no ceguinho, isto é, a fazer mais do mesmo? Não é urgente mudar de modelo de Igreja? Não no-lo exige o Espírito Santo? Preferimos morrer no nosso pecado? Mas então não nos queixemos que as populações nos deixem a falar sozinhos… Nomeadamente, quando abrirem os olhos. Porque até lá, elas até gostarão de falsos padres bem-falantes. E de bispos palhaços que vão até elas vestidos com todos aqueles símbolos do poder eclesiástico, para serem recebidos por elas com tapetes de flores e foguetes. Como quem diz: Vem até nós, mas deixa o Evangelho de Deus de parte, porque o que queremos de ti é que alimentes o nosso Paganismo católico. Nada mais. Desgraçada Igreja, quando a isto se presta!
2007 JUNHO 23
O meu amigo Prof. Manuel Sérgio foi alvo de pública homenagem. E fez questão que eu também estivesse presente. Não pude dizer-lhe que não. E meti-me no comboio até à estação do Pragal, em Almada, onde fica o pólo principal do Instituto Piaget. A sessão de homenagem decorreu no seu salão nobre do Instituto. E congregou individualidades do país, no meio das quais eu me senti como um menino, vestido de calça de ganga já bastante usada e de camisa de manga curta por fora da calça, mais o boné na cabeça que tirei à entrada, mas que depois voltei a colocar à saída. Foi apertado e longo o abraço que demos um ao outro, quando o Prof. Manuel Sérgio me viu junto dele. Era tão grande a sua alegria por me saber ali com ele, que, depois, fez questão de me apresentar a todos os outros seus amigos presentes, numa manifestação de afecto fraterno para comigo que me deixou ainda mais como um menino. O almoço, já tardio, aconteceu num restaurante junto ao monumento Cristo-Rei, de iniciativa católico-fascista, ao tempo da dupla Salazar-Cerejeira, com uma soberba vista sobre o Tejo e Lisboa. Uma maravilha que apetecia ficar ali a ver sem vontade de comer. Infelizmente, tinha assumido um compromisso com a Editora Campo das Letras que, ao saber que eu ia para as bandas de Lisboa, logo me convidou a ficar o resto daquele dia e o seguinte em várias sessões de apresentação do meu livro SALMOS VERSÃO SÉCULO XXI e de autógrafos, em outras tantas livrarias, em Lisboa e na área metropolitana e que constituiu uma experiência inesquecível, pelo menos, para mim e que vou diligenciar para que se prolongue por outras livrarias do país. Tive de comer com alguma pressa, porque a primeira dessas sessões estava marcada para as 17 horas desse dia 21 de Junho. Nada fazia prever que a sessão no salão nobre do Instituto Piaget se iria arrastar por toda a manhã e começo da tarde, mas as emoções foram muitas e a todas foi dada vez e voz. Por mim, mantive-me em silêncio e à escuta. É sabido que sou avesso a sessões deste género, que não as aceito feitas a mim, mas também não sou fundamentalista e por isso sou capaz de me associar a algumas, quando elas acontecem com pessoas dos meus afectos e que, ao contrário de mim, ainda as aceitam. Foi o caso. Aceito estar presente, mas, na hora procuro ser sempre muito contido. Na manifestação dos afectos sou muito exuberante, mas contido nas palavras e nos gestos encomiásticos. Acho que nunca somos tão grandes como quando somos simplesmente humanos e fraternos/sororais entre os demais e com eles.
Um dos momentos da homenagem começou um pouco mais de um ano antes desta sessão pública, com a elaboração de um livro, com textos de amigos do Prof. Manuel Sérgio. Também tive de escrever, porque assim o "exigiu" o próprio Professor aos organizadores. Se havia livro, tinha de conter um texto meu. Por isso, também fui contactado por um dos responsáveis do livro. E não fui capaz de dizer que não. Mas optei por um texto em forma de carta ao Professor Manuel Sérgio, a partilhar com ele algumas das minhas preocupações e que sei serem também preocupações dele, ou em relação às quais ele não é de modo algum indiferente. Pois bem, agora que o livro já está a entrar no circuito comercial com o título maior MOTRISOFIA, e com o subtítulo, Em homenagem ao Prof. Manuel Sérgio, aqui partilho o texto dessa carta, tal e qual como ela poderá ser lida no livro. Faço-o, não para que se sintam dispensados de adquirir e ler o livro, mas sim para se sintam ainda mais estimulados a adquiri-lo e a lê-lo. Eis.
Meu querido Amigo
Prof. Manuel Sérgio
Convidaram-me a participar com um texto meu num livro que, pelos vistos, está a ser elaborado (quase) em segredo por alguns dos seus amigos mais próximos, elas e eles, e que constituirá, só por si, um dos momentos maiores duma justa e pública homenagem com que tencionam surpreendê-lo. Como não tenho nenhum jeito para panegíricos, mesmo quando os panegíricos mais não dizem do que a óbvia verdade sobre a pessoa que é alvo de alguma homenagem, prefiro partilhar consigo uma inquietação, em vários pontos, sobre o nosso hoje e aqui, como País, na Europa e no Mundo. Uma inquietação que, tenho a certeza, é também sua, ou não fôssemos nós irmãos gémeos nas causas jesuânicas por que nos batemos todos os dias, e na utopia. Eis.
1. Somos um país que nasceu torto e desde o nascimento ficou condenado a viver sob o completo domínio do clero católico e da nobreza/burguesia. E se, hoje, esse domínio, pelo menos no que respeita ao clero católico, já não é, felizmente, tão sufocante como sempre foi, durante os oito séculos passados, a verdade é que o país continua aí confrangedoramente desfigurado por uma nova tirania com dupla face, a tirania do D. Dinheiro – o deus que praticamente não conhece ateus, nem mesmo entre os da chamada Esquerda – e da D. Mediocridade. E a dirigi-lo, conta com um conjunto de governantes e de parlamentares pretensamente sexys, palradores e grosseiramente peritos em demagogia, com tanto de cínico como de incompetente.
2. Nem mesmo Abril de 1974 – pretendeu que o nosso país deixasse de ser duma vez por todas o país da Menoridade, da Alienação e da Repressão, e passasse a ser o país da Poesia, da Liberdade libertadora e criadora e da Maioridade humana de todo o nosso Povo, em relação e em comunhão com os demais Povos do mundo – conseguiu alcançar o nobre objectivo que se propôs. E, hoje, apenas trinta e dois anos depois, o país até tem à frente dos seus destinos um presidente da República e um primeiro ministro que não frequentam a Poesia maior da nossa Sophia de Mello Breyner Anderson ou de Fernando Pessoa, nem os sonetos de Camões e de Florbela Espanca, e chegam a confundir o sensual e provocador canto dos melros nas manhãs de sol com os ruídos e a gritaria que o D. Dinheiro diariamente provoca nas Bolsas em todo o mundo onde é rei e senhor absoluto, segundo regras que ele próprio cria e descria a seu bel-prazer.
3. Em consequência, o País da Poesia e da Dignidade, da Liberdade libertadora e criadora e da Maioridade humana teve que voltar a exilar-se, agora, já não em França, na Suíça, ou na Alemanha, ou num qualquer país do resto do Mundo, como antigamente, uma vez que tudo hoje – o continente europeu e o resto do Mundo onde nos inserimos como nação – é do D. Dinheiro que, como sabemos, já não conhece fronteiras e tudo e todos devora, numa sofreguidão de Vampiro e de Monstro e com uns requintes de crueldade que nunca antes se havia visto na História da Humanidade. O exílio, hoje, tem que ser vivido entre os nossos próprios concidadãos e concidadãs, na fidelidade à própria consciência que nos estimula a enveredar por um estilo de vida em Deserto, feito de vigilância e de resistência e de alternativa ao que sibilinamente o D. Dinheiro e o seu Mercado nos propõem a toda a hora e momento.
4. Será que ainda não demos por isso? E como haveríamos de dar, se as televisões do D. Dinheiro – haverá alguma televisão que o não seja?! – nos bombardeiam dia após dia com overdoses de novelas e anedotas rascas e “prós e contras” geralmente domesticados e imbecis, cada qual o mais politicamente (in)correcto; com futebóis sem limite de tempo, sempre sob o cínico comando de presidentes das SAD’s que, da noite para o dia, “comeram” os velhos Clubes desportivos, espaços de debate e de participação popular; com funerais em primeira e segunda edição do cadáver da portuguesa mais alienada e manipulada do século XX, Lúcia, de seu nome, da freguesia de Fátima (esperem mais uns meses, e assistirão ainda a uma terceira edição deste mesmo funeral televisionado, quando, naquele recinto mais desgraçado de Portugal, entrar em funcionamento a nova Catedral S.A., perdão, da SS. Trindade); ou com documentários e filmes a granel do novo santo súbito, João Paulo II, o maior fabricador de beatos e de santos de que há memória, com destaque para o anti-santo protector dos banqueiros, José Maria Escrivá de Balaguer, que, já em vida, sempre optou pelas elites do Poder e do Dinheiro contra as maiorias oprimidas e empobrecidas.
5. Mas será que ainda não nos apercebemos que o país e o mundo vivem sob a ditadura de D. Dinheiro? Que hoje o D. Dinheiro tudo controla e dita as regras do jogo? Que somos um país com bandeira, é certo, mas que esta pouco mais é do que um pano verde-vermelho a flutuar ao vento, sem ter por base qualquer autonomia nem qualquer independência? Só cegos que o queiram ser é que não vêem que hoje o deus que tudo decide é o D. Dinheiro, indiferente aos clamores e às manifestações de protesto. Veja-se, por exemplo, que nesta democracia – a democracia avançada do D. Dinheiro – até há lugar para o protesto e para a greve, para partidos políticos de direita e de esquerda e para novas e velhas Religiões. Só não há lugar para a Política, a menos que esta aceite ser a escrava do D. Dinheiro e se limite a executar as suas decisões, as suas leis e as suas orientações. Política que escute os clamores das vítimas e realize os seus legítimos anseios, meta na ordem o D. Dinheiro e as suas Multinacionais, é coisa que já foi, quando a Humanidade, por breves períodos da História, chegou a experimentar viver sob a influência do Sopro ou Espírito da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade, e quando a Solidariedade se materializou em gestos efectivos e afectivos que iam de encontro à fome e à sede de justiça das populações e dos povos. Hoje, nesta democracia avançada do D. Dinheiro que nos desemprega em massa, nos transforma em excedentários e nos deprime, já nem lugar há para seres humanos com entranhas de humanidade. E se, aqui e ali, ainda aparecem alguns, verdadeiras excepções à regra, são logo olhados e tratados pelo conjunto do rebanho humano como uns tolos, uns extra-terrestres, uns bichos exóticos, seres fora de moda e em vias de extinção.
6. Está então tudo perdido? Não creio. Se assim fosse, a História teria chegado ao fim. E seria o Inverno absoluto e definitivo. Mas então nem o D. Dinheiro teria sobre quem reinar, nem sobre quem exercer a descriadora acção em que é perito. Não deixo, no entanto, de dizer que o perigo da História ter chegado ao fim é real e está aí hoje sobre as nossas cabeças como espada de Dámocles. Não! Nem é já no inferno nuclear que estou a pensar. Esse é também um perigo real e tremendo, mas não é hoje nem o mais perigoso, nem o mais perverso. Querem convencer-nos disso e distrair-nos com isso, para não nos darmos conta do que é hoje verdadeiramente perverso para a Humanidade. Em verdade, em verdade lhe digo, meu querido Amigo Prof. Manuel Sérgio: O que é hoje verdadeiramente perverso para a Humanidade é o D. Dinheiro. Ele é o deus mais cruel de todos os falsos deuses, muito pior que a Religião e os deuses da Religião. A Religião, como muito bem viram os companheiros Marx e Lenine, é respectivamente o ópio do povo e para o povo. Mas convenhamos que o D. Dinheiro, enquanto ídolo ou falso deus que também é, é mil vezes pior que o ópio do povo e para o povo. O D. Dinheiro é o Perverso que perverte os seres humanos que se deixarem fazer por ele, pior, é o Perverso e o Mentiroso que descria os seres humanos. Ele é o anti-Deus vivo e Criador. Enquanto o Deus vivo que se nos revelou definitivamente na prática libertadora e sororal/fraterna de Jesus, o de Nazaré, é criador de seres humanos à sua imagem e semelhança, por isso, criadores e livres, fraternos e políticos, o deus Dinheiro é o descriador dos seres humanos, até os converter em coisas, em euros ou em dólares, em corpos com umbigo à mostra mas sem entranhas de humanidade, verdadeiros monstros à mercê de títeres, como Bush e Blair, só para citar os dois maiores que, actualmente, fazem de dirigentes do mundo.
7. Num mundo assim, nem sequer temos para onde fugir. Estamos condenados a ter de viver sob a ditadura global do D. Dinheiro. Do deus Dinheiro. Ele está hoje em toda a parte, como deus/ídolo que é. Tudo vê. Tudo controla. Tudo governa. Tudo pode. Tudo submete. Vejam que até os que se dizem de Esquerda estão hoje totalmente à sua mercê. Ainda se agitam e discursam à esquerda, mas é tudo estéril. É tudo vaidade. O D. Dinheiro é que lhes paga para eles se agitarem e falarem assim. E paga-lhes bem. A tempo e horas. Não só em ordenados, mas também em privilégios para eles e para os seus. Por isso, as novas clandestinidades e as novas conspirações que é urgente começarmos a protagonizar quanto antes, têm que ser mesmo novas. Não podem ser mera reprodução das antigas clandestinidades e das antigas conspirações.
8. É também por isso que neste regime de democracia avançada do D. Dinheiro em que hoje vivemos, à escala global, é preciso muito mais audácia e muito mais lucidez que outrora, quando as ditaduras eram locais e provincianas. Concretamente, temos que ter a audácia e a lucidez de sermos pobres por opção e mantermo-nos pobres a vida inteira por opção. Temos que ter a audácia e a lucidez de resistirmos ao D. Dinheiro e a todas as suas múltiplas seduções. Temos que ter a audácia e a lucidez de sermos e permanecermos até ao fim mulheres e homens com entranhas de humanidade. Temos de ter a audácia e a lucidez de nos deixarmos fazer e construir pelo Sopro outro, que não o do D. Dinheiro, e que só pode ser o perturbante mas fecundo Sopro que vem das suas inúmeras vítimas. Temos de ter a audácia e a lucidez de sermos fraternos/sororais, todos os dias, e libertadoramente solidários, todos os dias, em lugar de apenas ocasionais benfeitores. Temos de ter a audácia e a lucidez de saltar fora dos ghetos e dos túmulos que são hoje as nossas casas cheias de coisas que nos entretêm e estiolam, para passarmos a viver à intempérie. Temos de ter a audácia e a lucidez de fechar a televisão, quando nos servem mediocridades e imbecilidades, e tornarmo-nos criadoras, criadores. Temos de ter a audácia e a lucidez de sairmos por aí, como Diógenes, outrora, de lanterna/telemóvel/e-mail na mão, à procura de homens e mulheres que já resistem ao D. Dinheiro e às suas seduções e criarmos com todas, com todos laços de comunhão viva, alimentada pela gratuidade do amor fiel até para lá da morte.
9. Hoje, o mundo e as nações do mundo – também Portugal – são escandalosamente do D. Dinheiro. Precisam de voltar a ser dos seres humanos, mulheres e homens, e dos povos. Mas mulheres e homens novos. Povos novos. Constitutivamente políticos, em vez de constitutivamente religiosos, como sempre foram até agora. Homens/mulheres e Povos livres-que-reciprocamente-se-libertam. A viver em comunhão sororal/fraterna. No âmbito de pequenas frátrias de Partilha de bens e de vida. Resistentes ao D. Dinheiro e ao Poder e aos privilégios que ambos garantem a quem lhes obedece. Por isso, insubornáveis, sempre. E unha e carne com as vítimas mais vítimas da História.
10. Será longa, sem dúvida, a travessia do Deserto, mas não vejo outra via para derrotarmos de vez o D. Dinheiro e voltarmos a colocar os seres humanos e os povos no centro da Política e como o objectivo último do nosso viver quotidiano em sociedade. E como o objectivo último da Economia. Neste contexto, não quero deixar de sublinhar que o mais cínico dos cínicos, hoje, é quem se atreve a manter o B.I. de ser humano, mas depois vive todos os dias sob o sopro e as ordens do D. Dinheiro, totalmente indiferente às vítimas da História e aos seus clamores.
11. Que fazer? Em palavras proféticas e teológicas, certamente, bem mais profundas e radicais que as do próprio Lenine, no seu livro com este mesmo título, Que fazer?, direi com a convicção e a humildade de quem já vive nas Margens, mas também sem que a voz me trema: É imperioso regressarmos a Jesus. O de Nazaré, evidentemente, que foi crucificado pelo Templo e pelo Império de turno. Não ao Jesus light que as Igrejas criaram depois que se amancebaram com o Império e adoptaram a Religião idolátrica que nele pontificava em honra de deusas e de deuses. Vejam só! São de Jesus, o de Nazaré, estas sábias palavras, as mais sábias palavras que alguma vez se ouviram à face da Terra: Ninguém pode servir a dois senhores. Não podeis servir a Deus e ao Dinheiro. O que, em tradução mais secular e por isso ainda mais jesuânica, dá assim: Não podeis servir às Vítimas e ao D. Dinheiro que as fabrica em massa. Ou então assim: Não podeis ser políticos e poder.
12. Bem sei que Jesus, hoje, está demasiado prisioneiro das Igrejas e das Religiões. Por isso o que há a fazer, já, é resgatá-lo, tanto da Igreja católica romana com a sua Cúria de vermelho vestida – o vermelho do sangue de incontáveis vítimas que a velha Cristandade produziu ao longo dos séculos – como das Igrejas mais recentes com sotaque brasileiro, cujos dízimos sacrilegamente cobrados pelos pastores aos fiéis perfazem um pecado que brada aos céus. Resgatemo-lo e deixemo-nos fazer pelo seu Sopro libertador e humanizador. Ele é o Caminho (estreito, por isso, nunca franqueado por muitos), a Verdade (que nos liberta para a liberdade e para a maioridade) e a Vida (que nos faz ser mulheres/homens-para-os-demais). Não há outro assim integral fora dele. E, se pensarmos que isto que escrevo é beatice, só nos prejudicamos como Humanidade. Por isso, mesmo aos ateus e agnósticos, meus contemporâneos, deixe o meu querido Amigo Prof. Manuel Sérgio que lhes diga com toda a ternura e também com toda a violência do Sopro que liberta: Sejam ateus, mas do deus Dinheiro e dos deuses da Religião que se alimentam de gente. De Jesus e do Deus de Jesus, o de Nazaré, ousemos ser seus companheiros todos os dias e prosseguir as suas causas, as quais têm exclusivamente a ver com a gigantesca tarefa histórica de levar ao seu termo a Criação, iniciada há uns 15 mil milhões de anos com o Big-Bang. Nem que, por causa disso, nos aconteça o que historicamente aconteceu com Jesus. A saber: Que também a nós o D. Dinheiro e o Templo nos matem. Porque a morte só é abjecta, quando é sem causas ou, pior ainda, quando acontece ao serviço do D. Dinheiro e do seu Império.
13. A concluir, permita-me, meu querido Amigo Prof. Manuel Sérgio, que partilhe consigo este quase-poema que escutei nestes dias de Páscoa 2006, durante os quais também redigi esta carta. Receba-o como o meu público abraço de Comunhão e de Exaltação. E também de Bem-haja, por um dia ter nascido para nós e sobretudo por ter sabido fazer do seu viver entre nós e connosco um Poema de liberdade e de Partilha de vida e de bens. Eis:
PÁSCOA 2006
A cruz só entrou na vida de Jesus porque
o Templo e o Império lha impuseram. Os dois
não lhe perdoaram que ele os identificasse
com o Perverso e o Mentiroso. Havemos por
isso de nascer/viver longe dos Templos e dos
Impérios. Em frátrias de bens Partilhados que
nos façam crescer em ser e em liberdade.
O Templo e o Império não se deram por
vencidos e prosseguiram indiferentes a ser o
Perverso e o Mentiroso. Sabem os seus chefes
de turno que esses são os meios mais eficazes
para perpetuarem uma Ordem mundial que lhes
garante privilégios e ainda os trata como deuses.
E até as suas inúmeras vítimas lhes prestam culto.
A traição maior é a das Igrejas. Aconteceram um
dia por obra e graça do Sopro/Espírito de Jesus
para prosseguirem na História a sua subversiva e
libertadora postura contra o Mentiroso e o Perverso
que são o Templo e o Império. Mas acabaram elas
próprias templo e império. E até da cruz fizeram a sua
identidade. Em lugar das frátrias de bens Partilhados.
O mandamento maior de Jesus é que as Igrejas
Partam o Pão e o Vinho em Sua Memória num clima
de amor recíproco. Para se consolidarem como
frátrias de bens Partilhados no meio do mundo. E
fazerem crescer a vida dos povos em ser e liberdade.
Mas logo vieram os Ritos e os Rituais soprados
pelo Templo e o Império. E tudo se perverteu de novo!
Sem Igrejas-frátrias de bens Partilhados crescem
mais e mais o Templo e o Império. E o Perverso
e o Mentiroso que eles são. Os séculos tornam-se de
chumbo e não têm conta os crucificados. São de
sangue e lágrimas os rios e os mares. A Terra
enlouqueceu e desistiu de ser jardim para ser túmulo.
E hoje até a História parece ter chegado ao fim.
São já vinte os séculos sobre a Páscoa de
Jesus e nunca como hoje o Império e o Templo
produziram tanta Perversão e Mentira à escala
global. Por isso ou regressamos a Jesus e à via
libertadora que ele abriu ao identificar o Perverso
e o Mentiroso com o Templo e o Império ou não
chegaremos nunca a ser homem/mulher. Nem povos.
Tudo o que decidem e fazem o Templo e
o Império é Perverso e Mentiroso. E só não
chegamos a reconhecer tão hediondos crimes
porque tudo nos é habilmente apresentado como
conquistas e sucessos. E na História mandada
escrever pelos seus chefes de turno jamais constará
um só registo sobre as suas inúmeras vítimas.
É subversiva e perigosa a Memória de Jesus mas
quando realizada em ambientes de clandestinidade
longe do Templo e do Império e como alimento de
fecundas conspirações contra eles. Quem come daquele
Pão Partido e bebe daquele Vinho Derramado torna-se
outro Jesus pronto a desmascarar perante o mundo o
Perverso e o Mentiroso que são o Templo e o Império.
Padre Mário de Oliveira
2007 JUNHO 20
A Europa comunitária volta a estar em peso em Portugal, quando, por estes dias, o nosso primeiro-ministro assumir a presidência da União Europeia. Aliás, pode dizer-se que já cá está em peso, uma vez que ele já começou, há semanas, a multiplicar viagens e contactos, como preparação para a presidência. Temo, por isso, que o país fique ainda mais à deriva do que já está, durante os próximos seis meses da presidência portuguesa da União. Por outro lado, não vejo que a presidência nos diga respeito a todos, como povo. Não somos tidos nem achados. Provavelmente, só teremos de pagar a factura. No que respeita a tomar decisões, não existimos. Tratam-nos como coisas. Provavelmente, é assim nos 27 países que constituem a União. Se é, estamos perante um verdadeiro desastre europeu. Os cidadãos europeus, de que tanto se fala com orgulho na voz, não passam duma ficção. Tudo acontece nas nossas costas. Sem nós. Reduzem-nos a meros espectadores. Os executivos, e só eles, correm de um lado para o outro. De avião em avião. Multiplicam encontros e reuniões. Parece que trabalham muito. Que estão muito preocupados com o nosso bem-estar e a nossa felicidade. Mas a verdade é que não querem nada connosco. Somos zeros à esquerda. Numa Europa de executivos e de multinacionais, somos zeros à esquerda. O que é gravíssimo. E já nem protestamos. Parece até que preferimos que as coisas sejam assim.
Puxar pela cabeça, ter ideias, avançar sugestões e propostas, elencar problemas, encontrar soluções, assumir novas práticas, desencadear dinâmicas de intervenção, numa palavra, sermos cidadãs, cidadãos europeus no pleno sentido da palavra, não é connosco. Com que facilidade abdicamos das nossas capacidades e renunciamos aos nossos deveres comunitários! Castraram-nos e nós consentimos e ainda votamos a favor de quem assim nos trata. Nem sequer nos damos conta de que uma Europa assim é um tremendo desastre. Os executivos cozinham tudo nas nossas costas e, quando dermos por isso, já estaremos com a corda na garganta.
Tudo seria diferente, se nenhum passo importante fosse dado na Europa sem a nossa efectiva participação, sem a efectiva participação das cidadãs, dos cidadãos dos 27 países membros. Não apenas dos executivos. Para cúmulo, ainda mais de uns executivos do que de outros. Porque os executivos dos países mais ricos e mais poderosos pesam mais do que os executivos dos países pobres e pequenos como Portugal. Mostra-me o teu orçamento do país e dir-te-ei quanto vales. E é por isso que, mesmo numa União de países, como a Europeia, os grandes continuarão a comer os pequenos, à semelhança do que sucede com os peixes no oceano. Só que as sociedades e os países e a Europa não são meros oceanos. Mas até parece. Porque os executivos fazem tudo para nos manter à margem de tudo. Deliberações, decisões, é só com eles. Nós somos meros consumidores de eleições, cidadãs, cidadãos sem alma, sem garra, sem projectos comuns. Simplesmente passivos. Atentos e reverentes. Submissos.
Não há Europa comunitária, enquanto não houver cidadãs, cidadãos participativos. Nada pode ser decidido nas nossas costas. Se consentimos, uma e outra vez, cometemos uma espécie de suicídio colectivo. Demitimo-nos da dimensão maior que nos cabe como pessoas humanas, como cidadãs, cidadãos. Os executivos agradecem. Porque assim ninguém os atrapalha. E eles podem decidir à vontade. Segundo os interesses das grandes multinacionais. Ao serviço das quais todos eles mais ou menos estão. Não sabiam? Quando não são os cidadãos, elas e eles, que governam os países, os continentes e o mundo, as multinacionais ocupam tudo como um enorme polvo e decidem de acordo com os seus interesses corporativos e egoístas. Os executivos dos diferentes países, entregues a si próprios e uns aos outros, sem os respectivos povos, caem fatalmente sob a alçada dos do Dinheiro e do Poder que nunca se submetem a eleições, nem nunca mostram a cara, porque nunca tiveram cara para mostrar. São máfias. De colarinho branco e de mãos bacteriologicamente limpas – os horrendos crimes de sangue que cometem encomendam-nos sempre aos executivos dos países! – sempre sem rosto.
Infelizmente, hoje, nem as Igrejas que estão na Europa comunitária se mostram capazes de agitar estas águas paradas em que nos fazem viver. Basta ver como as conferências episcopais dos diversos países e a própria Conferência Episcopal ao nível do continente continuam a passar ao lado de toda esta problemática. Por exemplo, a Conferência Episcopal Portuguesa está, nestes dias, reunida mais uma vez em Fátima. Pensam que é a Europa e a presidência portuguesa da União Europeia que (pre)ocupa os nossos bispos? Nada disso. O que os (pre)ocupa, nesta altura do ano, é “o ministério do Bispo e a arte de presidir e de comunicar”. Vejam só! E, para isso, ainda estão a ser ajudados por especialistas de diversas áreas, como a liturgia, a comunicação social ou o mundo da cultura. Querem, no dizer do respectivo secretário, o Bispo D. Carlos, “apresentar correctamente a fé”. Mas que Fé, pergunto eu? E, comigo, podem perguntar também os portugueses, elas e eles. Sabem ao menos os bispos portugueses que uma Fé que não for jesuânica, comunhão efectiva com a mesma Fé de Jesus, é sempre fonte de alienação e ópio do povo? Temo bem que eles ainda não saibam, porque se neles actuasse já a mesma Fé de Jesus, outro, muito outro seria o seu comportamento pastoral no país. Muito mais profético, muito mais maiêutico, muito mais socrático, muito mais libertador e transformador da sociedade.
Quando acordaremos, como país, como sociedade, como Europa comunitária? Quem nos há-de acordar? Onde estão as sentinelas dos povos que façam soar o alarme? Vamos a caminho do abismo e ninguém nos adverte? Onde estão os intelectuais portugueses e europeus? Já se congregaram e funcionam como um todo, como um só corpo na União Europeia? Já se assumem como intelectuais orgânicos? Ou só cuidam dos seus problemas corporativos, de melhores e mais pingues vencimentos mensais? Já têm consciência de que um intelectual que se preze tem que colocar os interesses dos povos acima dos seus próprios interesses? Ou desconhecem que a quem muito foi dado, muito será pedido? Não sabem que são responsáveis pelos seus povos? Se não sabem e muito menos praticam esta responsabilidade, então são intelectuais vendidos aos executivos e às multinacionais da nossa desgraça. Pode-se muito bem atar-lhes uma pesada mó de moinho ao pescoço e lançá-los ao mar. Para que morram como funcionários dos executivos e ressuscitem como seres humanos, irmãos e irmãs dos seus povos, verdadeiros intelectuais orgânicos, mártires vivos a favor dos seus povos.
É por aqui que sempre procurei ir, como padre/presbítero da Igreja do Porto. Quando percebi que a instituição eclesiástica queria que eu fosse um seu funcionário atento e reverente, não me submeti. Também não renunciei. Ocupei os postos que me confiaram, mas sem nunca trair o povo no meio de quem vivia e para quem trabalhava. Acabei sempre a servir o povo, mais do que a instituição. E esta, obviamente, não me perdoou. E desde muito cedo deixou de me confiar novas tarefas. Mas já não conseguiu asfixiar-me, porque eu já não conseguia viver sem povo. É nele que continuo a ter os pés, as raízes. É por ele que respiro. Assim deverão ser todos os intelectuais. E todos os homens, todas as mulheres que adquiriram um pouco mais de saber e de consciência crítica do que a generalidade das populações. Os que não forem assim, desumanizam-se e vendem a sua alma aos executivos. Deixam de ser. Tornam-se uns abortos, em lugar de seres humanos. Como os executivos a quem servem.
Acorda, Portugal! Acorda, meu Povo! Não vês que te estão a anestesiar todos os dias, para que tu nunca te apercebas para onde te estão a levar?
2007 JUNHO 15
A partir desta segunda quinzena de Junho último, Jesus segundo Filipe de La Féria, está em cartaz na cidade do Porto. Por mim, gostava mais que fosse Jesus, o de O outro Evangelho segundo Jesus Cristo, que eu próprio publiquei na Editora Campo das Letras. Não por ser o meu livro, evidentemente, mas por ser o Jesus que está mais próximo do Jesus histórico. Mas para este Jesus dificilmente haverá alguma vez lugar numa sala de espectáculos. O Jesus de La Féria, sim, porque é um Jesus inofensivo, como foi inofensivo o filme Jesus Cristo Superstar em que se baseia o espectáculo. Na altura em que o filme passou nas salas de cinema, também eu fui ver. E já então percebi que não ia além de um Jesus light, para distrair consciências pesadas e entreter pessoas desocupadas. Hoje, depois do escandaloso sucesso editorial que foi o livro “Código da Vinci”, este espectáculo está mais do que ultrapassado, no que respeita a possíveis escândalos à volta de Jesus, daqueles escândalos que vendem e ainda são patologicamente aceites/comentados pelas pessoas como se fossem a realidade, e não puro negócio. À beira do romance de Dan Brown, os pequenos escândalos à volta de Jesus, aflorados no espectáculo de La Féria mais parecem coisa de crianças. Por isso, o show no Rivoli do Porto valerá pelo espectacular da encenação à La Féria. E pouco mais.
Muito se tem dito e escrito sobre Jesus, ao longo dos dois mil anos de cristianismo e de igreja. Mas poucas pessoas terão conseguido até hoje “apanhar” o essencial de Jesus. Quase tudo o que se tem dito e escrito é interesseiro. Por isso, mentiroso. Diz-se e escreve-se não para revelar Jesus, tal e qual ele é, mas para o esconder. Fabrica-se e difunde-se um Jesus segundo os interesses corporativos de quem escreve. Um Jesus contra o verdadeiro Jesus da História. Um Jesus que nos desvie do Jesus da História, demasiado chocante, incómodo, provocador, blasfemo, sacrílego.
Chego a pensar que ninguém na História terá sido tão atraiçoado como Jesus. Escrever sobre ele é quase sempre traí-lo. Incomoda-nos tanto a sua originalidade, a sua humanidade integral, que nós instintivamente o deformamos, inventamos outro, mais conforme aos nossos interesses. E, no entanto, Jesus é património da Humanidade, o nosso maior património. Apetece-me até escrever que sem Jesus não há Humanidade. Jesus é a Humanidade que ainda não somos, a não ser nele. Talvez por isso, não conseguimos passar ao lado de Jesus, ignorar Jesus. Nem mesmo os que se dizem ateus. Mas, depois, para que o Jesus da História não nos perturbe, nem perturbe os nossos privilégios e as nossas mesquinhas ambições, logo corremos a produzir um outro Jesus à nossa medida. E isso só tem uma classificação: traição.
Desde o princípio da Igreja, que as coisas têm sido assim. E o nosso tempo não é excepção. Aliás, poucas vezes, teremos tido tanto atrevimento na desfiguração de Jesus, como nestes anos que foram os últimos do século XX e os primeiros do século XXI. Digamos que hoje a Ordem Económica Mundial é tão perversa e tão inumana que nós, os que vivemos enquadrados por ela, não podemos suportar Jesus, tal e qual ele é, a sua plena Humanidade, a Luz que ele é. E temos logo necessidade de o denegrir, de o conspurcar, de o nivelar pela nossa mesquinhez e pela nossa mediocridade, pela nossa inumanidade. Para podermos continuar sem quem nos sirva de confronto e de referência.
As Igrejas deveriam por isso estar mais atentas a esta desfiguração de Jesus e intervir a denunciá-la e a desacreditá-la. Não que Jesus precise que nós o defendamos. Somos nós, seres humanos, que precisamos de o defender, para sermos mais seres humanos. Defendê-lo, é defendermo-nos como seres humanos, nomeadamente, os seres humanos que ainda não somos, mas que estamos chamados a ser. A desfiguração de Jesus não pode deixar-nos indiferentes. Porque se a consentimos, ela sempre abrirá caminho à desfiguração de todas, todos nós. Desfigurar Jesus é ficar com as portas escancaradas para desfigurarmos todos os seres humanos. Impunemente. Como se fosse uma coisa natural. E não um crime de lesa-humanidade.
Mas como hão-de as Igrejas intervir neste combate, se elas próprias são as primeiras a desfigurar Jesus? Então não é que elas, depois que se constituíram, correram logo a fazer de Jesus, Deus, só para que ele não chegue a ser entre nós verdadeiro homem? Deveriam saber as Igrejas que a dificuldade maior no que respeita a Jesus não é nós negarmos que ele seja Deus. É nós negarmos que ele seja Homem, o ser humano por antonomásia. Sempre foi assim, desde o início. Digamos que as Igrejas não descansaram enquanto não definiram dogmaticamente que Jesus é Deus. Eu sei que também dizem que ele é homem. Mas se o apresentamos como Deus e Homem, inevitavelmente, o Deus que dizemos que Jesus é, logo “come” o Homem que dizemos que Jesus também é. Deus absorve por completo o Homem e este, na prática, desaparece de cena. Porque se Jesus é Deus e Homem, então nunca chegaremos aos seus calcanhares. Porque nós só somos seres humanos, mulheres ou homens, não somos Deus. E com esta maneira de apresentar as coisas, lá deitamos tudo a perder. Mentimos. E nunca crescemos em humanidade até alcançarmos a estatura de Jesus, quando para isso é que ele nos foi dado!
O que sempre haveremos de dizer é que Jesus é o Homem integral, o Ser Humano completo, tal e qual como todos os demais seres humanos havemos de ser. Ele é a nossa fonte que há-de tornar-se rio e o nosso oceano aonde finalmente mergulharemos. O nosso nascente e o nosso poente. O nosso alfa e o nosso ómega. Dizer que ele é Deus é, de certo modo, traí-lo. Não é por Jesus ser Deus que nos salva, isto é, que é o nosso paradigma, aquele em quem havemos de pôr os olhos. É por ser Homem, o Homem! Em tudo igual a nós, excepto no pecado. E porquê excepto no pecado? Porque o pecado é próprio do ser humano ainda a caminho, ainda em vias de criação. O Homem integral já não conhece pecado. E esse é Jesus, o de Nazaré.
Se repararem, as Igrejas não gostam de Jesus. Gostam mais de Cristo. De Jesus, simplesmente, não gostam. Quando muito, gostam de Jesus Cristo. E quando falam de Jesus Cristo, é sempre mais de Cristo do que de Jesus que elas falam. As Igrejas preferem Cristo a Jesus. Porque Cristo tem uma dimensão mítica que fica fora da História e transporta-nos ao imaginado âmbito de Deus, melhor dos deuses do Paganismo, das Religiões, por isso, uma dimensão inventada/imaginada pelos nossos medos e pelas nossas fragilidades. Também pelas nossas ambições e pelas nossas inumanidades.
O medo criou os deuses. É científico. O medo criou também os Cristos. Deuses, eles próprios, ou intermediários entre os deuses e nós, os seres humanos. Vêm depois os sacerdotes, como profissionais do sagrado que vivem à parte dos demais, e a quem cabe a quotidiana tarefa de cuidar dos cultos com que nós os seres humanos havemos de amansar/adorar/agradar/apaziguar os deuses. É assim, pelo menos desde que existe o homo sapiens, o patamar mais desenvolvido a que os seres humanos já chegamos na Evolução.
Ora, quando entre nós aconteceu Jesus, o ser humano integral, a Humanidade pôde perceber, como num relâmpago, à luz da sua prática política e sororal/fraterna que a Verdade dos seres humanos não é assim como dizem as Religiões e os nossos medos. O que dizem as Religiões e os nossos medos é Mentira. E só a Verdade nos fará livres, quer dizer plenamente humanos. Ao contrário do que constantemente nos repetem as Religiões e os nossos medos, para que sejamos mulheres e homens submissos aos deuses e cumpramos com os nossos deveres para com eles, Jesus atreveu-se a viver no mundo e na História como se Deus não existisse. E, no entanto, manteve como ninguém com Deus, a quem ele experimentava como “o seu Pai” ou “o seu Abbá/a sua Mammá, uma relação de intimidade total e ininterrupta que, em lugar de o diminuir, o guindou à condição de Filho muito amado de Deus, ele próprio Deus entre nós e connosco, o Homem! Até hoje, ninguém mais alcançou semelhante patamar de humanidade. Digo humanidade, não digo divindade. E com isso revelou que era mentira tudo o que dizem os nossos medos, as Religiões e os sacerdotes que a elas presidem.
Mas, porque Jesus revelou que era Mentira a condição em que vivemos, ditada pelos nossos medos, mais as religiões e os sacerdotes, os cultos aos deuses e às deusas, os templos e os altares, foi logo rotulado de sacrílego e de blasfemo e também de subversivo e de conspirativo. A sua morte foi decretada e ele rapidamente executado. Num género de morte, que não deixou dúvidas a ninguém que este Homem era um perigo público. De modo que ninguém mais, em tempo algum e em lugar algum, quisesse ser como ele, ou sequer pensasse nele como algo de bom para a Humanidade. O seu nome tão pouco deveria ser alguma vez mais pronunciado. Assim decretaram os que o mataram. E assim deveria ser para todo o sempre.
Foi então que aconteceu o inesperado. Um punhado de mulheres, entre aquelas que haviam sido suas discípulas, deram-se conta de que o Espírito de Jesus prosseguia presente e actuante na História. Afinal, a morte de Jesus na cruz não tinha tido a última palavra. A sentença dos sacerdotes e dos representantes do Império não teve valor definitivo. Foi mesmo desautorizada e revogada! E a prova é que elas próprias experimentavam-se agora seres humanos como ele, do mesmo jeito dele. Se assim era, então a História não tinha que ser sempre e apenas mais do mesmo. Tudo podia e devia ser diferente, como agora era claro aos olhos delas. Na sua morte/explosão, Jesus acabou por dar ao mundo e à História o seu próprio Espírito, para que outras mulheres, outros homens se atrevam a ser como ele, outros Jesus, no seu aqui e agora. Desde então para cá, sempre tem sido assim. E ainda hoje é assim. Embora menos. Porque, infelizmente, as Igrejas preferem Cristo, mítico, a Jesus, o de Nazaré. Ora, só Jesus, o ser humano integral, nos humaniza. E do que nós precisamos é de nos humanizarmos, não de nos divinizarmos. Divinizar-se é desumanizar-se. É subir, em lugar de descer. É tornar-se Poder e Privilégio perante os demais. É perverter-se. E não há ser humano mais completo que aquele que um dia se descobre irmã, irmão dos demais e assim vive a todo o instante.
Curiosamente, foi Pilatos, o prefeito do Império de Roma em Jerusalém, quem, no dizer do Evangelho de João, se referiu a Jesus como o Homem. Eis o Homem! Para cúmulo, fê-lo, quando Jesus havia acabado de ser açoitado por ordem dele, o que o tinha deixado num lastimoso estado. Era uma chaga só. Um corpo de sangue. Um ninguém. E é assim, como um ninguém, que Pilatos o apresenta à multidão que pedia a sua morte na cruz. Apresenta-o com essas palavras: Eis o Homem! Como a significar que mais ninguém ali o era. Muito menos o próprio Pilatos, o carrasco maior de Jesus. Nem os chefes dos sacerdotes do Templo de Jerusalém, com o sumo-sacerdote à frente, que tudo fizeram para que Jesus caísse nas mãos de Pilatos e acabasse crucificado. Eis o Homem! Como quem diz: Fora de Jesus, não há seres humanos. Só carrascos. Lobos. Feras. Selva. Tanto pior, se eles vestem de sacerdote, ou de chefes de governo e de estado, numa palavra, se vestem de Privilégio!
A comunidade de discípulas, discípulos de Jesus que reunia na casa de Maria, mãe de Marcos, terá sido aquela que mais conseguiu “apanhar” o essencial de Jesus, o Homem, tal e qual ele foi no seu pequeno país. É desse ambiente familiar e íntimo de liberdade e de sororidade/fraternidade sem fronteiras étnicas ou outras que nos vem o Evangelho de Marcos, esse mesmo que eu trabalhei para o século XXI e publiquei com o título O outro Evangelho segundo Jesus Cristo. Mergulhar com tempo nestas páginas é descobrir/encontrar Jesus, o Homem, o ser humano. E, ao mesmo tempo, descobrir como havemos de ser até sermos como ele. Mergulhem, pois, nessas páginas. E se, num destes dias, forem ao Teatro Rivoli, no Porto, ver Jesus segundo La Féria, mais necessidade deverão sentir de mergulhar depois no Jesus do Evangelho de Marcos que o meu livro apresenta para o nosso hoje e aqui. Em comunhão com ele e com o seu Espírito, perderemos todos os medos. Nasceremos de novo, do Alto, do Espírito de Jesus. Deixaremos de vez a mentira das religiões, o medo dos deuses e das deusas. E viveremos no mundo e na História como se Deus não existisse, isto é, como filhas adultas, filhos adultos do Pai/Mãe que nos está ainda a criar, e cuja alegria maior é ver-nos crescer todos os dias em responsabilidade e em criatividade no mundo e na História. Como irmãs, irmãos dos demais. E da própria Natureza. Numa palavra, ver-nos ser outros Jesus.
2007 JUNHO 11
1. A minha passagem pela Feira do livro de Lisboa foi memorável. Pessoas houve que adquiriram seis exemplares duma assentada do livro SALMOS e fizeram questão que eu autografasse cada um deles com a respectiva dedicatória às pessoas concretas a quem eles se destinavam. As horas que passei na Feira, entre as 16 e as 20, estive sempre acompanhado por pessoas que queriam falar comigo sobre os meus livros e sobre o bem que a sua leitura lhes tem feito. Foi para mim uma tarde de intensa Eucaristia interior. Na maior parte dos casos, eram pessoas que eu ainda não conhecia e que me encontravam pela primeira vez. Outras houve já repetentes nestas andanças, mas cada vez que aparecem é como se fosse a primeira, tamanha é a alegria e tão visível é o entusiasmo com que me abraçam e beijam. Desta vez, antes de me colocar à disposição das pessoas no Stand da Editora Campo das Letras, comecei por aparecer no Auditório da Feira, para apresentar o meu livro. Assim estava programado e anunciado. Na sessão, comecei por ler um salmo do livro e, logo de seguida, dirigi-me às muitas pessoas presentes com o meu calor e a convicção que me são habituais. Creio que o Espírito de Deus Vivo atravessou as mentes das pessoas e ninguém ficou indiferente. São estes os tópicos do que disse nessa sessão:
Apetece-me começar esta minha intervenção com uma saudação inspirada nas palavras que o Evangelho de João (atenção, ateus e agnósticos presentes, o Evangelho é sempre subversivo, não coisa de beatos!) coloca na boca de Jesus: Dou-vos a minha paz, a minha paz vos dou. Não vo-la dou como o Império, o Templo e o Dinheiro a dão, uma paz sem justiça, sem revolução contínua, uma paz assassina e de mentira, sem conversão, sem novo nascer, sem abertura ao Espírito/Sopro criador de Deus que está aí continuamente a trabalhar na História para levar ao seu termo a Criação ainda em curso no processo evolutivo; por isso, uma paz sem agitação social, apodrecida como as águas paradas de um reservatório, uma paz doente, semelhante a uma enfermaria hospitalar ou mesmo uma paz de cemitério, de mortos (saibam que Deus Vivo está mais na Desordem desencadeada pelos famintos de pão e de beleza, de justiça e de dignidade, do que na Ordem! Só o Deus-Ídolo é que se dá bem com esta Ordem estabelecida!).
A paz que vos dou é a paz ainda por chegar, a paz que anda aos beijos e abraços com a justiça, lá e em quem a verdade e a justiça são práticas quotidianas; por isso, a paz que vos dou é sobretudo o clamor reprimido e silenciado na garganta do Pobre e do Humilhado, nomeadamente, dos povos empobrecidos e humilhados do Planeta, com destaque para os povos de África, Ásia, América Latina e o numeroso Quarto Mundo que sobrevive dentro da Europa e do Ocidente, e que constitui sem dúvida a realidade mais real que teimamos em não querer ver, a não ser episodicamente, e que, só por si, torna constitutivamente obscena e eticamente intolerável a presente Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Império e do Templo.
Este livro de SALMOS SÉCULO XXI que coloco nas vossas mãos é desta realidade que fala e o que mais pretende é meter-nos nela a todas, todos até aos ossos. Porque só assim nos salvamos como seres humanos. Fora desta realidade mais real que é o mundo do Empobrecido e do Humilhado, sempre nos perderemos como seres humanos. Tornamo-nos selva. Uns monstros. Porque orar, ao contrário do que pensam ateus e agnósticos e a generalidade dos seguidores de todas as religiões e Igrejas-religiões, não é actividade de beatos, nem de eclesiásticos, nem de religiosos. Isso fazem os pagãos e os idólatras. Orar é a actividade mais humana e mais humanizadora de todas as actividades humanas e também a mais política. Porque é ESCUTAR o clamor do Pobre e do Humilhado, dos povos empobrecidos e humilhados do mundo, as incontáveis vítimas da presente Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império. E, de seguida, ter também a audácia de organizar a vida, o tempo, a inteligência e os afectos – a nossa vida, o nosso tempo, a nossa inteligência e os nossos afectos – como outras tantas respostas políticas, económicas, sociais e culturais a esse subversivo e conspirativo clamor.
Por isso estes Salmos têm tudo a ver com profecia e com profetas, hoje, por sinal, muito raros inclusive no interior das Igrejas, nas quais, infelizmente, o que mais abunda são funcionários do Religioso. Eles dão expressão e voz literária/poética/orante ao clamor do Pobre e do Humilhado (o “eu” que os atravessa a todos). E têm de tornar-se também Acção Política subversiva e conspirativa, insurreccional. Para tanto, a sua leitura orante estimula o aparecimento de mulheres, homens insurrectos e desarmados (os violentos mais fecundos são sempre os desarmados!), a insurreição de práticas históricas alternativas às práticas ditadas e impostas pela Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Templo e do Império.
Por isso é que eu começo por dizer, no Prefácio, que, se calhar o melhor mesmo é não lerem este livro. O melhor mesmo é comprá-lo, não para fazer dele livro de cabeceira, mas para o queimar como nos tempos da Inquisição e do Index dos livros proibidos. Só mesmo pessoas muito audazes, politicamente comprometidas, é que farão dele livro de cabeceira. Mesmo assim, o melhor será ler/orar, pelo menos, um salmo de preferência ao levantar, não vá acontecer que a sua leitura ao deitar nos tire o sono. Ao levantar, rasga-nos horizontes e inspira-nos práticas alternativas que hão-de marcar cada um dos nossos dias.
Este é o livro que me faltava, depois de O outro Evangelho segundo Jesus Cristo e de Na companhia de Jesus e de ateus. Livro dos Actos século XXI. Todos os meus livros, mas sobretudo estes três ficam como que a base, o alicerce do Cristianismo jesuânico, de onde há séculos temos andado arredados, para nosso mal e ao qual havemos de regressar, para nosso bem.
Com este livro desnudo-me perante as pessoas, dou a conhecer de que Espírito/Espiritualidade sou, qual o Espírito que me anima e alimenta, onde tenho o coração e o olhar, o ouvir e os pés, numa palavra, onde tenho o Agir. Ao lê-lo, vereis que não me deixo impressionar pelas Torres do Império, nem pela grandiosidade do Templo e dos inúmeros santuários, muito menos pela voluptuosidade do Dinheiro. Tudo isso existe e está aí bem à vista de toda a gente, mas como Tentação para os seres humanos, como Mentira e Esterco, como “porta larga” que conduz, não à vida e vida em abundância, mas à perdição, ao suicídio/genocídio. Curiosamente, o Dinheiro, o Templo e o Império estão aí apostados, como um deus-Ídolo uno e trino, em arrastar os seus fiéis – e como são poucos os ateus consequentes desta Trindade! – em descriar-nos como seres humanos soroarais/fraternos, constituídos na liberdade e protagonistas na História. Ao contrário, querem transformar-nos em seres amorfos. Lesmas. Minhocas. Porventura, nutridos, mas sem entranhas de humanidade. E sem espinha dorsal.
Estes são Salmos de resistência e de denúncia. Originam mulheres, homens alternativa. São também Pão/alimento para quantas, quantos estejamos dispostos a permanecer humanos até ao fim, até para lá da morte (está visto que há, ou parece que há quem prefira ser monstro até para lá da morte!).
Mergulhem, pois, nas palavras destes Salmos. São palavras cheias do Espírito de Jesus. Alimentem-se com elas. Deixem-se fazer por elas. Vistam-se com elas. Sobretudo, sejam estes salmos vivos, mais do que simples leitoras, leitores deles. Verão então crescer no mais dentro de vocês a Paz que lhes dou e que o Dinheiro, o Templo e o Império não dão nem podem dar, porque não a têm e tão pouco a conhecem.
2. O meu colega de Gondomar reagiu de imediato à minha última resposta ao seu mail anterior. Mas, infelizmente, para colocar um ponto final no incipiente diálogo, melhor, na incipiente troca de e-mails. Não aguentou a força das minhas convicções. O seu mundo eclesiástico e religioso é para ele toda a realidade. Fora dela, só há perdição. E ele de modo algum quer “perder-se”, “sujar-se”, tornar-se “impuro”. Dá a entender, com este seu comportamento, que ainda é um homem mais na continuidade dos sacerdotes dos cultos do Paganismo/Judaísmo, do que na continuidade de Jesus, o de Nazaré, crucificado pelo Império como rei dos judeus, e cuja prática sócio-política libertadora e integradora quebrou todas as fronteiras e proclamou “puros” todos os alimentos e todas as pessoas então tidas como oficialmente excomungadas. Também por isso é que ele não foi sacerdote, mas leigo. É certo que a Carta aos Hebreus atreve-se a dizer que ele é o único sacerdote, mas tem logo o cuidado de sublinhar que ele é sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque, não segundo a ordem de Aarão. O que é outra maneira teológica de dizer que ele é o exemplo acabado, paradigmático, do anti-sacerdote, porque não só vive e actua fora do Templo, mas sobretudo soube fazer da entrega da sua própria vida pela vida do mundo – sem dúvida o acto político por antonomásia – o único culto que verdadeiramente agrada ao Deus Vivo, esse mesmo que gosta de Política, não de Religião. Lamento este abrupto desfecho. Mas não tive como evitá-lo. Ainda assim, confio que não terá sido em vão. Para mim, sei que não foi. E para o meu colega também não terá sido. O futuro há-de dizê-lo. Eis respectivamente o seu mail e a minha resposta. Limitei-me, como das vezes anteriores, a retirar o nome do colega em causa.
Caro presbítero Mário
A partir de hoje, ponto final. Não vale a pena dialogar com quem está obcecado com a ideia de que é o centro do mundo e não abre a mais pequena brecha, por onde possa entrar um raio de luz. Confirmaste aquilo que mais ou menos eu sabia. Curiosa a tua plena concordância com o regímen do déspota de Cuba que tem as cadeias cheias de presos políticos, inclusive jornalistas teus «colegas» e artistas e onde há pouco, antes da doença do ditador, foram fuziladas algumas pessoas.
Olha que até o Saramago protestou... Mais! Para ti o tirano é um ser quase divino: «jesuânico». Curioso adjectivo...
Sugiro que passes lá uns oito dias, não num hotel de luxo capitalista, mas numa qualquer pensão popular.
A tua obsessão revelaste-a perante mim, pela primeira vez, numa palestra feita a um grupo de seminaristas em Moselos, em que depois de lançar um labéu sobre os teus irmãos no sacerdócio, exortaste os jovens seminaristas a serem como tu. Eu discretamente, para não te desautorizar, afirmei que modelo de padre só havia um: Jesus Cristo.
Pensa o que quiseres. Não espero qualquer resposta nem estou disposto a dar-te mais troco. Ao meu lado, está uma «pasta» que diz lixo.
O que poderei fazer é, nas minhas pobres orações, pedir a Cristo que tenha pena de ti. E tem de certeza. A Igreja nunca excluiu quem quer que fosse das suas orações.
Desculpa mais uma vez uma certa crueza da minha parte, mas pensei que um abanão pudesse, apesar de tudo, acordar-te.
Por mim, tenho apanhado alguns que me têm feito muito bem.
Teu irmão no sacerdócio…
…, meu colega
Fico com pena que dês por terminado o diálogo. Mas se o iniciaste com o intuito de me fazer regressar ao mundo do rito e do eclesiástico, ao templo e ao altar, o processo estava viciado à partida. Era um diálogo não gratuito, mas interesseiro, por isso, com algo de perverso.
É natural que penses que esse é o mundo da salvação e o lugar do presbítero da Igreja. Mas, se quiseres ser verdadeiro contigo, terás de concordar comigo e reconhecer que nem os profetas bíblicos, nem Jesus, o de Nazaré, o Evangelho vivo de Deus entre nós e connosco, pensam assim. Mas é esse o mundo em que vives e, admitir por um instante que seja, que ele pode não ser o melhor dos mundos, seria um drama para ti, porque poderia abrir-te à possibilidade de, também tu, teres de iniciar um êxodo libertador em direcção ao Profano e ao Histórico, onde Deus, o de Jesus, trabalha continuamente, sábados e domingos incluídos. E lá se iam os privilégios clericais por água abaixo, com destaque para o da honorabilidade do padre/pároco. É duro vestir a pele de maldito e de excluído que é a sorte que cabe a quem, em lugar de defender e de justificar o Poder clerical com que um dia se viu revestido, decide viver longe dele e junto das suas vítimas, ao mesmo tempo que denuncia perante toda a gente que o que todos têm por santo, afinal, faz parte do Perverso.
Sabes bem que o próprio Jesus pagou caro por uma postura assim. A morte crucificada que padeceu sob Pôncio Pilatos deve-se muito a isso. Fizesse ele unha e carne com os sacerdotes do templo e sobretudo com o sumo-sacerdote que a tudo presidia; colocasse ele César de Roma no lugar de Deus, em vez de mandar dar a Deus o que é de Deus, e outro, muito outro teria sido o seu destino. Ora, é dele que somos discípulos, não de César, por mais que o nosso papa continue a viver em Roma nos palácios que têm tudo a ver com os que foram de César e no meio de luxos e de costumes que devem tudo ao Império e nada a Jesus, o Crucificado pelo Império.
Não disse que concordava com Fidel de Castro, nem com o regime de Cuba. O que te disse foi que estranhava que tu, assim sem mais nem menos, me pedisses uma condenação formal de Fidel de Castro e do regime de Cuba, sem que, entretanto, da tua parte, me dissesses uma palavra sequer contra Bush e o seu Império, nem sequer depois que Bush desencadeou a intolerável e absurda Guerra do Iraque, com todo o seu cortejo de vítimas e de horrores. Convidar-te, como o fiz na minha mensagem anterior, a realçar o que há de libertador e de jesuânico na Revolução cubana não é o mesmo que canonizar sem mais todo o processo revolucionário. É recusar-me a fazer juízos precipitados de condenação daquele e de todos os processos revolucionários, porque, nesse caso, corremos o risco de deitar fora com a água suja do banho a criança acabada de lavar nela. Aliás, ao proceder assim, não faço mais do que actualizar a lucidez do Livro bíblico do Segundo Isaías, quando chama "Cristo" (= Ungido de Deus) a Ciro, rei da Pérsia, só porque ele, depois de conquistar a Babilónia, e sem deixar de ser o que era, foi capaz de um gesto de magnanimidade, ao autorizar o regresso dos israelitas exilados à sua pátria...
Por outro lado, não aceita a nossa Igreja como canónico o Livro do Êxodo, onde se relata a Páscoa dos hebreus liderada por Moisés, apesar de lá se dizer que a libertação só aconteceu depois que todos os primogénitos do Egipto, a começar pelo de Faraó, homens e animais, apareceram mortos? Bem sei que é uma violência literária, objectivamente reprovável, mas a verdade é que ela não deixa de fazer parte do relato. Não nos convida à violência, evidentemente, como defendem os fundamentalistas, mas convida-nos certamente a olhar para a violência dos oprimidos e dos excluídos com inteligência e bom senso, sem emitirmos a torto e a direito precipitados juízos de condenação, como se alguma vez pudesse haver processos revolucionários quimicamente puros.
Lamento, mais uma vez, que o nosso diálogo tenha de ficar por aqui. Mas a decisão é tua. E só me resta acatá-la. Ainda assim, obrigado pelo breve tempo que durou. Pelos vistos, e segundo o que me dizes, o destino desta minha mensagem vai ser o caixa do lixo. É outra decisão tua que lamento. Por mim, e em relação às mensagens que me enviaste, prefiro continuar a guardar e a meditar no meu coração tudo o que me disseste através delas.
Dou-te o meu abraço. E a minha paz. Mário
2007 JUNHO 07
1. Acabo de regressar a Braga, a antiga cidade dos arcebispos. Hoje, uma cidade cada vez mais secular. A velha Sé de Braga ainda lá está, é certo, mas sobretudo como uma espécie de museu-fantasma a lembrar tempos idos que, felizmente, não voltam mais. A Igreja católica, enquanto Poder clerical e episcopal, está em vias de extinção. Para honra e glória de Deus e para bem da humanidade. Nunca deveria ter existido. Não tem a marca do Espírito Santo, o de Jesus. Só a marca de César de Roma e do seu Império. O que mais desejo é que também ela nasça de novo, do Espírito, e seja na História a constante actualização da presença-acção de Jesus.
Fui a convite de um grupo de pessoas que, de 15 em 15 dias, promove uma tertúlia num espaço público, tipo bar, muito especial, chamado Shallom, no Campo das Hortas. O encontro abre com a exibição de um filme documentário, quase sempre, uma estória de vida de alguém mais na berra no mundo das artes e das letras. Desta vez, era a estória de vida do autor do livro “Conversas com Deus”, best-seller em várias línguas, também bastante lido em Portugal. Aceitei o convite que me chegou via telefone, embora não conhecesse nem a iniciativa, nem o local onde ela decorre, desde finais de Abril passado, nem tão pouco nenhum dos elementos que a promovem. O assunto da tertúlia era “Deus, hoje”, a partir da estória de vida que nos foi dado visionar. Não fui capaz de dizer que não. E à hora marcada lá estava.
O documentário foi longo. Demais. Não me edificou. Nem me convenceu, como comecei logo por dizer, no final da sua exibição, quando me foi dada a palavra no início da tertúlia. É mais uma americanada light. Começa com o autor do livro a falar de Deus aos muitos fãs, elas e eles, e termina com o autor a falar de Dinheiro, de muitos milhões de dólares que a venda dos seus livros lhe proporciona. Percebe-se nitidamente o que eu já suspeitava: que o Deus destas “Conversas com Deus” é o Deus norte-americano do sucesso, não o das suas inúmeras vítimas, o do êxito, o do triunfador, o Deus da vitória, da riqueza acumulada e concentrada. O problema é que há o outro lado, o mundo da pobreza e do fiasco, das vidas destroçadas, humilhadas, assassinadas, o muno das vítimas. Deus, nesta versão norte-americana, não tem entrada aí, a não ser para sacar um ou outro mais espertalhão e menos escrupuloso e promovê-lo a triunfador. Quem não triunfa, não é exaltado, não tem Deus. E também não tem estória de vida para contar e para documentar em filme. Exactamente ao contrário do que canta a primitiva Igreja que escreveu o Evangelho de Lucas: Canta o Deus que exalta os humilhados e humilha os exaltados; enche de bens os esfomeados e despede de mãos vazias os ricos e os fartos. Disse-lhes que de um Deus assim preferia ser ateu. E falei-lhes do Deus que dá sentido à minha vida de padre/presbítero longe dos templos e dos altares. Falei a partir de uns tópicos que preparei previamente. Ei-los aqui:
Como podemos conversar com Deus a quem não vemos nem veremos nunca, se não conversamos nem sequer com os vizinhos do mesmo prédio, a quem vemos, a não ser que os evitemos de propósito, e muito menos conversamos com o Pobre e o Humilhado a quem também não podemos deixar de ver, nem que seja nas estatísticas? Conversas com Deus, ou um auto-enganador solilóquio? E Deus é de conversas? Um Deus que vai em conversas, sempre-pronto-a-usar, ainda é Deus? Não é uma projecção nossa, uma criação nossa para justificação e canonização de práticas inumanas e cruéis?
No Livro Apocalipse, há uma afirmação posta na boca de Deus que é bem elucidativa. Diz assim: “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, eu entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo” (3, 20). Quem, de entre nós, já passou por semelhante experiência mística? Hoje, esta experiência é cada vez mais rara. Basta ver que as casas que construímos ficam em zonas fechadas, condomínios isolados do Pobre e do Humilhado que assim, nem que queira, nunca nos pode bater à porta, muito menos, atrever-se a cear connosco. E pode haver encontro com Deus a quem não vemos, sem haver encontro com o Pobre e o Humilhado a quem não podemos deixar de ver? Conversas com Deus? Que Deus? Se até as casas nos isolam do Pobre, do Humilhado, do Imigrante, do Estrangeiro, do Diferente, como pode Deus chegar a nós, à intimidade connosco? Casas que não se abrem, ou apenas se abrem aos iguais, e mesmo assim não a todos, só a alguns mais iguais, aos amigos, e não a todos, só a alguns mais amigos… como se pode dizer que Deus entra e está na nossa vida e conversa connosco? E se insistimos em dizer que sim, então que Deus é esse? Não é um Deus criado por nós?
As pessoas dizem com frequência que falam com Deus, que conversam com Deus. O mesmo diz o autor do livro “Conversas com Deus”. E faz sucesso de vendas entre as pessoas em todo o mundo. Mas que Deus é esse com quem conversamos, sempre que nos apetece ou sempre que estamos em apuros? E de que é que ele conversa connosco? Interpela-nos? Tira-nos o sossego? Tira-nos o sono? Abre-nos aos demais? Como é que fica a nossa vida depois que conversamos com Deus? Tornamo-nos mais humanos, mais solidários, mais comprometidos na Política, mais militantes no mundo? Ou ficamos mais beatos, mais religiosos, mais frequentadores de santuários, mais isolados do mundo e da história, mais de costas para a Política e para a Realidade mais real que nos cerca – o mundo do Pobre e do Humilhado?
Para nós, crer em Deus é fácil ou difícil? Sabem por experiência que crer em Deus é o acto humano mais exigente, mais radical, mais audaz, mais difícil, mais complicado? Crer em Deus é comprometer-se 24 horas sobre 24 horas com a sua Criação ainda em curso. E por isso é arriscar-se a perder a vida para a ganhar! Cómodo e burguês é ser agnóstico e ateu. Ou crer em Deus, mas num Deus-ídolo, como o Deus de todas as Religiões e de todas as Igrejas transformadas em Religiões… Ao contrário, o Deus que vive ininterruptamente ocupado com a criação do mundo e dos seres humanos salta-nos ao caminho como um ladrão e sempre nos pergunta: Onde está a tua irmã, o teu irmão? Que fizeste da tua irmã, do teu irmão? E o irmão, a irmã sobre quem nos pergunta não é outro senão o Pobre, o Humilhado, o Excluído, hoje, milhares de milhões em todo o mundo.
Os antigos profetas bíblicos diziam que ninguém pode ver a Deus (=crer em Deus) e continuar vivo. Deus, na pessoa concreta onde acontecer, ocupa todo o espaço. Ocupa-nos por inteiro, com o seu Projecto. Não é isto que vemos ter acontecido em Jesus, o Homem totalmente possuído/habitado pelo Espírito de Deus vivo? Ora, Jesus, ao contrário do autor de “Conversas com Deus”, não falou muito de Deus. Até nunca falou. E quando o fez foi por pressão de algum doutor da lei da altura que vivia regaladamente à custa do nome de Deus e da sua profissão de teólogo… Do que Jesus fala e fala quase obsessivamente é do Reino de Deus, entenda-se, da Criação de Deus ainda e sempre em curso na História. Do Reino de Deus, falou e bateu-se por ele, até à perda/entrega da própria vida. Por isso é que foi constituído por Deus como o Caminho, a Verdade e a Vida, o Paradigma de ser humano! Ora, Reino de Deus é sinónimo duma Ordem Económica Mundial outra, bem ao gosto de Deus Criador, portanto, bem ao gosto do Pobre, do Humilhado, do Imigrante, do Excluído da mesa e da casa comum; uma Ordem que substitua de raiz a que actualmente temos, intrinsecamente perversa e inumana, e que mais não é do que a Ordem Económica Mundial do Dinheiro, do Lucro, do Grande Capital financeiro, das Multinacionais.
Deus tem a ver com quê? Com Deus? Com templos? Com rezas? Com cultos? Com senhoras de Fátima? Ou com Política? E com Economia de produção e de Partilha de riqueza, segundo as necessidades de cada qual? E com cuidado pelo Planeta? E com uma Ordem Económica mundial onde não haja lugar para ricos e pobres, apenas para seres humanos iguais e diferentes, próximos, fraternos, cultos? Não é isto que dá glória a Deus?
O pior da Humanidade – sei que vos escandalizo, mas não posso deixar de o dizer – é a Religião. O Deus com que a Religião lida não passa de criação dos seres humanos, um Deus à sua medida, pior, à medida dos seus interesses, das suas ambições, dos seus egoísmos corporativos. É também o Deus das “Conversas com Deus”, sempre à mão de semear, pronto-a-usar, o protector dos nossos negócios, inclusive dos mais sujos e sobretudo dos mais sujos que, assim, passam por ser limpos e transparentes. A Religião coloca Deus onde deveria colocar o ser humano, especialmente o Pobre e o Humilhado. Semelhante Deus só pode ser um ídolo. E ídolo é o Deus de todas as Religiões.
Em Jesus, Deus fez-se ser humano! É a grande revolução teológica! Desde então, quem quiser encontrar Deus, tem de começar por encontrar o ser humano, a começar pelo Pobre e o Humilhado. Fora do Pobre e do Humilhado não há Deus. Só ídolos, muitos ídolos com os quais nos alienamos e perdemos como seres humanos. Quando perceberam isto, os chefes da Religião do país de Jesus foram os primeiros a conspirar contra ele e, todos à uma, mataram-no na cruz. Para que nunca mais ninguém ousasse repetir o que ele disse, ver o que ele viu, praticar o que ele praticou. Mas Deus ressuscitou-o, isto é, constituiu-o como Paradigma de todo o ser humano que vem a este mundo. Com esta sua postura, Deus quis dizer que nem que tenha de fazer das pedras filhas, filhos de Abraão, e dos “terroristas” filhas suas, filhos seus, a verdade é que nada nem ninguém o segurarão.
Conversas com Deus? Ou com o Pobre e o Humilhado? Ou com os povos empobrecidos e humilhados do mundo que já nem capazes são de bater à nossa porta e de fazer ouvir a sua voz?
Convertam-se, diz-desafia Jesus! Sabiam que converter-se, na boca de Jesus, é mudar de Deus? É deixar o Deus-ídolo que criamos e, em seu lugar, acolhermos o Deus Vivo que me/nos abre ao Pobre e ao Humilhado e me/nos faz ser mulher/homem-para-os-demais. O que não for assim é alienação, é idolatria.
Por isso digo, a concluir: Se organizas a tua vida, o teu tempo, o teu trabalho para ajudares a dar corpo a uma Ordem Económica Mundial outra, que vá de encontro às mais profundas aspirações dos povos empobrecidos e humilhados do mundo, Deus, o de Jesus, está contigo e vive/actua contigo. De contrário, por mais que converses com Deus, não passas ou de um crente num ídolo, ou de um ateu de um ídolo!
2. Voltei a ter mais um e-mail do meu colega do concelho de Gondomar. Como já sucedeu das duas vezes anteriores que me escreveu, também agora não me autoriza a divulgar a mensagem. Mas eu limito-me a não divulgar o nome do colega. Quanto ao conteúdo, acho que a causa da verdade só sai a ganhar com a sua divulgação. E por isso a mensagem aqui fica. Na íntegra. Seguida da minha resposta. A partir daqui, fico na expectativa quanto ao próximo futuro. Se o meu colega vier a concretizar a ameaça que me faz neste e-mail, esta terá sido a sua última mensagem. Se voltar a escrever, é sinal de que ainda foi sensível à minha argumentação para que não o faça. Afinal, é melhor que o meu colega mantenha esta ponte comigo, do que continue a viver na sua ilha clerical, a dialogar apenas com os colegas que pensam da mesma maneira, porque lhes está proibido que pensem. Apenas poderão reproduzir o pensar e o dizer do papa e do bispo diocesano. Numa Igreja-empresa, os funcionários exemplares são assim e comportam-se assim. Só na Igreja de Jesus, cuja alma é o Espírito Santo, é que cada membro pode e deve exprimir-se na sua própria língua e pensar pela própria cabeça. Eis.
Caríssimo
Por delicadeza, respondo á tua mensagem e partir daqui, concluo que tu falas muito em diálogo, mas não o praticas. Assim não vale a pena perder tempo. Não estou disposto a pactuar com aqueles que, talvez inocentemente, fazem o jogo d