2005 JUNHO 28
1. Pedro é um menino do Lugar das Passarias, desta freguesia de Macieira da Lixa. Frequenta a escola primária, agora chamada ensino básico. É filho da Degradação. A mãe, alcoólica, prostitui-se com regularidade e depois deixa os filhos para aí ao deus-dará. A avó é que cuida deles, como pode. E pode pouco. A degradação em que vive toda a família ataca por todos os lados. E é difícil manter-se todos os dias acima da linha de água que separa a Degradação da Dignidade humana. As diligências que se têm feito para alterar esta situação têm sido muitas. As vezes que eu próprio já corri para o coração da situação! E não só eu. Também a pequenina Comunidade Cristã de base de Macieira da Lixa, nomeadamente, Maria Laura, a sua presbítera não-ordenada e outras companheiras mais. Aliás, as minhas diligências junto desta família e outras famílias carenciadas do Lugar já começaram na década de setenta, ainda eu era o pároco de Macieira da Lixa. Na altura, todo o Lugar das Passarias era um lugar maldito. Ninguém dava nada por ele. E até se escandalizavam por eu, como pároco, correr tanto para lá. No Inverno, os acessos eram difíceis, e só com galochas de cano alto é que eu podia passar pelos caminhos enlameados e encharcados. Mesmo assim, nunca desisti. E cheguei a organizar encontros regulares numa tasca do Lugar, o único espaço que então consegui que se abrisse a uma iniciativa do género. Na noite marcada, lá entrava eu tasca dentro e o encontro acontecia com quem lá se encontrasse. Durante o dia, procurava ser também presença frequente nas casas das pessoas, em contactos directos e afectivos. Nunca consegui grandes resultados em Dignidade humana. E a prova é que todos estes anos depois, o Lugar das Passarias continua com algumas manchas de degradação de nos partir a alma. Por isso, quando fixei de novo residência nesta freguesia, o Lugar voltou a ser um dos meus lugares mais frequentados. Cheguei até a procurar casa para lá morar. Não consegui. Quem dispunha de casa para alugar, não quis alugá-la a mim. Ainda agora, as pessoas, na sua generalidade, não aceitam que um padre viva paredes-meias com a degradação humana. Mas a verdade é que os malditos são, sempre foram e serão os benditos para mim. Aprendi com Jesus, o de Nazaré, a ser homem assim. Não aprendi com a hierarquia da Igreja, geralmente, neste aspecto mais próxima dos fariseus do tempo de Jesus, do que do próprio Jesus. Também neste particular, sempre fui anti-hierarquia no meu jeito de viver. Sempre andei com más companhias. Sempre fui amigo dos últimos, dos empobrecidos, dos marginalizados, dos malditos. As prostitutas sempre tiveram e têm um lugar no meu coração. Nunca quis ser discípulo dos fariseus. Só de Jesus. Entendo que um ser humano que despreza outro ser humano, a pretexto de que ele se porta mal, não é exemplo de ser humano para ninguém. Um ser humano que se preze há-de ser sempre o primeiro a estender a mão para ajudar a levantar quem está caído. Só serei ser humano, quanto todos os outros também o forem. Não ver assim as coisas é ser como Caim que, estupidamente, pergunta: “Acaso sou guarda do meu irmão?” Mas Caim é o paradigma do assassino dos seres humanos. Não é o paradigma dos seres humanos. Como pode alguém dizer-se humano, se não cuida dos outros seres humanos como ele? É por isso que este nosso tempo está a ser de crueldade e de desumanidade organizadas. Ninguém quer saber de ninguém. Cada qual vive na sua concha e no seu castelo, mete-se no seu carro e corre sem saber para onde, apenas sabe que não corre para a casa de quem possa estar a precisar de atenção, de carinho, de presença, de ternura, de apoio, de afecto, de serviço. A desumanidade cresce à medida que cresce o desenvolvimento tecnológico. Com os benefícios do progresso tecnológico, sentimo-nos pequenos deuses e deixamos de olhar para o lado. Pensamos que já não precisamos de ninguém, e passamos a vida a correr de um lado para o outro, mas sem objectivos que o justifiquem. Fugimos dos vizinhos. Erguemos muros em redor das nossas casas apalaçadas. Isolamo-nos, para que ninguém tenha acesso à nossa porta. Procedemos ao contrário de Deus Criador que, em Jesus de Nazaré, não descansou enquanto não ergueu a sua tenda entre nós e connosco, a partir dos últimos.
Nestes dias, voltei a passar pelo Lugar da Passarias e procurei os familiares de Pedro. As casas onde os mais próximos de Pedro vivem continuam degradadas. No último grau da Degradação. O ambiente em redor também é degradado. O resto do Lugar olha para estas famílias com alguma sobranceria e muito distanciamento. Aproximar-se destas casas e falar para as pessoas que lá moram já é um acto de coragem. As pessoas que nos vêem aproximar não dizem nada, mas os seus olhares dizem tudo o que as bocas não dizem. Voltei a passar por lá estes dias. Sabia que não encontraria lá o meu amigo Pedro, nos seus irrequietos 10 anitos. Mesmo assim, fui, pois queria saber como é que ele se tem dado com o ATL que, há algumas semanas, passou a frequentar. Também aqui, o combate foi duro. Havia vagas promessas das técnicas do Serviço Social, feitas à avó materna, mas havia muito mais obstáculos. Tanto que ela já tinha desistido de ver o neto no ATL. As técnicas prometiam, mas não concretizavam. Foi então que decidi meter-me pessoalmente no assunto. Contactei directamente a técnica responsável. Pressionei. Argumentei. Supliquei. Falei de crime de omissão, se deixássemos que a Degradação continuasse a fazer das suas naquelas famílias, Pedro incluído. Quase chorei e fiz chorar a técnica. É preciso – disse-lhe eu – acabar com este ciclo de miséria. Custe o que custar. E só acabaremos com ele, se proporcionarmos já o ATL a este menino. E porquê? Porque este menino é um líder nato. E será o ungido de Deus Vivo, ou o Cristo, que pode tirar a família da Degradação em que ela se encontra há várias gerações. Ou conseguimos isto, ou deixaremos que a Degradação leve a melhor e, com ela, leve também o próprio Pedro. A técnica compreendeu e garantiu que, por esses dias imediatos, haveria de encontrar um lugar no ATL para Pedro. E assim aconteceu. Uma carrinha passou a vir diariamente “apanhar” Pedro, à saída da Escola e a transportá-lo para o ATL, no Alto do Ladário, na cidade da Lixa, onde, à chegada, o aguarda uma boa refeição, coisa que o menino quase não sabia o que era, nos anos para trás. Só depois é que vêm as actividades de tempos livres com outros meninos e meninas.
Na sua rebeldia, Pedro chegou-me a dizer que nunca aceitaria trocar os caminhos da vadiagem pelo ATL. Não sabia o que dizia. Por isso, nunca dei grande importância a essas suas palavras. E a verdade é que tenho agora a confirmação. Depois que provou, nunca mais quis desistir. E lá vai todos os dias, qual presidente da república – a expressão é dele próprio, no testemunhar das professoras da Escola básica – na carrinha que vem por ele para o transportar até ao ATL. Pedro não será nunca nem papa, nem presidente da república. Mas será muito mais que os dois juntos. Será um ser humano solidário, militante, defensor dos fracos, um libertador ao seu jeito, um Cristo popular (já o é ao seu jeito e à sua medida). Tem na sua consciência toda a escola da Degradação humana. São marcas que nunca mais se apagam. Mas será ele, qual novo Moisés, quem vai arrancar a sua família da Degradação em que ela tem vegetado há várias gerações.
Hei-de voltar às Passarias e ao sítio onde Pedro vive com aos familiares. Num dia e numa hora em que ele esteja presente. Quero ver-lhe os olhos a brilhar. Quero ouvir o seu testemunho. Os seus palavrões. As suas estórias. A sua convicção. Desde o primeiro instante que o vi, disse-lhe que ele seria o líder que haveria de conduzir a família e todo o Lugar das Passarias para a Dignidade. Pedro, então pelos seis anos, nunca mais esqueceu estas minhas palavras. E ficou para sempre meu amigo. Reguila quanto baste, rebelde em toda a linha, mas um menino onde são visíveis as marcas do Espírito de Deus. Não tem nada de beato, de menino de coro, de menino de catequese da paróquia católica, que felizmente nunca frequentou. Tem tudo de rebelde e de menino da rua. É um líder nato. Os outros meninos, mesmo os que vivem em casas afidalgadas, não são nada sem ele. É um líder que liberta. Porque chama os outros a ser rebeldes como ele. Liberta-os para a liberdade, não para os privilégios.
Por mais duma vez, Pedro já esteve presente com a avó em encontros da Comunidade. E olha para a Casa da Comunidade como a casa onde sabe que sempre encontra quem o apoie e entenda. Curiosamente, para chegar à Escola, tem que passar diante da Casa da Comunidade. Em Maria Laura, que lá mora com dois dos seus três filhos, encontra a companheira mais velha em quem sempre se pode apoiar na sua fragilidade de menino. E que entra pela Escola dentro, em defesa dele, sempre que é necessário. Mas Pedro não é um mimalho. É um líder como poucos. E é como líder que se relaciona com a Comunidade. Filho de mãe prostituta e alcoólica que não se tem deixado recuperar. Pai não conhece. A avó tem sido o seu principal esteio familiar, ainda que a casa e o ambiente em redor sejam degradação sobre degradação. Tudo, por isso, levaria a concluir que deste menino não há nada a esperar de jeito. Mas a verdade é que este filho duma prostituta é sobretudo filho do Espírito Santo, do Sopro Criador e Libertador de Deus. Por mim, percebi isso, desde o primeiro momento em que fixei no dele o meu olhar. Tanta limpidez em olhos de um menino, tanta determinação, tanta inteligência, tanta rebeldia logo me disseram que Pedro só podia ser filho do Espírito Santo. E é. Como Jesus de Nazaré.
Escandalizo ao escrever estas coisas? Os caminhos de Deus não são os caminhos dos fariseus, de nenhuma espécie de fariseus. Os caminhos de Deus, como pudemos ver em Jesus de Nazaré, são os caminhos da Verdade e da Justiça que brilham como a luz nas trevas, como a Dignidade na Degradação a mais inumana. Por isso, bendito és tu, Pedro, meu amigo e meu irmão. Todos os degradados e humilhados do mundo hão-de cantar o teu nome e, sobretudo, o Deus que te soprou e fez nascer do corpo de uma mulher prostituta e alcoólica, a tua mãe Eduarda, minha irmã, a quem beijo com muita ternura, sempre que a Vida me coloca no seu caminho, ou a coloca a ela no meu caminho. De resto, quem estiver sem pecado, que lhe atire a primeira pedra! Não há ninguém? Pois não! Nenhum das muitas pedras que haja para atirar há-de ser para atirar contra esta mulher, ou contra outras mulheres iguais a ela. Todas serão poucas para atirarmos contra a puta que pariu esta Ordem Mundial feita de Mentira que mantém a Verdade cativa na injustiça, e que estupidamente endeusa os Poderosos e os Fariseus, ao mesmo tempo que humilha todas as suas inúmeras vítimas. A minha alegria só será completa, quando esta Ordem cair sem apelo nem agravo, para dar lugar ao Reinado de Deus que felizmente não pára de crescer na História.
2. Do menino Pedro, do Lugar das Passarias, Macieira da Lixa, passo para João Paulo II, que, durante mais de 25 anos, fez de Pedro na Igreja. Hoje, precisamente, às 19 horas de Roma (18 horas de Portugal) é oficialmente aberto o processo da sua beatificação. Ao grito de “Santo, subito” (“Santo, já!”), habilmente orquestrado pela multidão presente no seu funeral, a Cúria Romana responde com esta decisão súbita de abrir já o respectivo processo de beatificação. Fico triste com esta decisão. Uma Igreja que insiste em auto-canonizar-se, sobretudo, na pessoa dos seus chefes incontestados, é uma Igreja sem humildade e, por isso, sem verdade. Bem sei que não sou acompanhado nesta minha afirmação por mais ninguém, ou sou-o por muito pouca gente católica, mas tenho comigo o sentir de ateus e agnósticos, que o são também devido a comportamentos eclesiásticos deste tipo.
Não há maneira da Igreja entender os tempos que hoje vivemos, carregados de idolatria. Em lugar de ser um antídoto a esta tentação popular, a Igreja, com atitudes como esta de beatificar rapidamente e em força os seus chefes maiores, impulsiona esta tentação e converte-a em virtude. Ao contrário do que possa parecer, as populações não estão nada interessadas em que João Paulo II seja beato e santo. O que elas querem é ter mais um ídolo a que se agarrar. Não querem confiar em si mesmas, partilhar da mesma fé de Jesus, que é visceralmente anti-idolátrica. O que elas querem é confiar os seus destinos a santos e santas, a deuses e deusas. Nas aflições, não querem ter que queimar as pestanas e os neurónios para as vencerem, o que querem é ter uns quantos santos, umas quantas santas a quem recorrer, numa postura humilhante de partir a alma. Está visto que o interesse de terem João Paulo II como santo, é para poderem ter mais alguém, que até conheceram pela televisão ou em directo, a quem meter as suas cunhas, para que ele, por sua vez, as meta a Deus. A relação é de pura promiscuidade, de puro negócio, o contrário da gratuidade e da transparência. Deus, nesta concepção das coisas, não passa de um monarca que vive distante, na sua corte, inacessível ao comum dos mortais, a quem só podemos chegar por meio de empenhos e de cunhas.
Ao agir como age, neste particular, a Igreja alimenta estas concepções pagãs de Deus. Não o faz sem motivo. Também a ela esta concepção pagã de Deus é a que mais lhe interessa, porque é a única em que ela aparece como a grande intermediária entre as populações empobrecidas e Deus.
A minha voz de denúncia destas posturas eclesiásticas é uma voz no deserto, mas não deixa de estar mais conforme à verdade do Evangelho e à Revelação de Deus em Jesus de Nazaré. Por isso, prosseguirei por esta via, na certeza de que a via da Verdade é sempre via de porta estreita, enquanto a via da Mentira que o Paganismo propõe, é a da porta larga. Às populações que teimam em seguir pela porta larga da Mentira, apenas direi que a sua opção não as torna mais libertas nem mais protagonistas, mas mais dependentes e submissas, por isso, menos humanas. Só me resta chorar, se as populações insistirem em na via da porta larga, que é de perdição, como sublinha o próprio Evangelho de Jesus.
Porém, o mais asqueroso neste comportamento oficial da Cúria Romana é que ela beatifica e canoniza o Poder monárquico absoluto que João Paulo II historicamente foi, não beatifica nem canoniza as suas vítimas. Ora, o Poder absoluto é demoníaco, seja exercido pelo Papa, seja exercido pelo imperador de turno. Como tal, é mentiroso e assassino. Pode não matar o corpo das pessoas e dos povos, mas mata-lhes a alma, a identidade, a originalidade de cada uma, de cada um, precisamente essa dimensão humana que melhor visibiliza o Rosto invisível de Deus Criador.
Pelo simples facto de aceitar ser papa-em-forma-de-poder-absoluto, João Paulo II foi o anti-sacramento de Jesus o Crucificado e o Maldito. Como pode agora ser declarado beato e santo? Com esta decisão, o que a Cúria Romana pretende é beatificar-se e canonizar-se a si própria e aos seus crimes de lesa-Evangelho e de lesa-Igreja de Jesus. O que ela pretende é prosseguir nos seus crimes, sem que ninguém os veja como tais. Um papa que não se atreva a ser anti-papa nunca chega a ser sinal ou sacramento de Jesus, o único santo, precisamente, porque acabou historicamente como o maldito dos malditos, o pecador dos pecadores. Pelo menos, no dizer oficial dos grandes do Templo de Jerusalém e do Império de Roma na Palestina.
Estou a escrever isto e a pensar que quem me ler só pode concluir que estou louco. Mas então – dirão as pessoas – será ele não vê que, se for verdade o que aqui acaba de escrever, é toda a Igreja, pelo menos, ao nível dos seus chefes, que está errada? E será que nem esta conclusão lhe faz tremer a mão para que não escreva o que acabou de escrever? Assim é, de facto. Mas o que aqui acabo de escrever foi à luz da Morte Crucificada de Jesus de Nazaré que o escrevi. À luz da Verdade que “saltou” da sua Morte Crucificada. Esse momento da Morte Crucificada de Jesus foi o Momento da Luz, da Revelação, do Apocalipse. O maior da História da Humanidade. Tudo, a partir daí, deveria ter começado de novo. Mas quem usufrui de privilégios e não está disposto a perdê-los, sistematicamente nega a Verdade conhecida como tal. Para poder prosseguir nos seus privilégios. Por isso, os chefes que não querem deixar de o ser nunca podem ser profetas nem evangelizadores. E, quando mentirosamente se fazem passar por tais é para mais e melhor se perpetuarem nos privilégios. A Morte Crucificada de Jesus de Nazaré gritou este Evangelho de Deus. Mas a Cúria Romana prefere continuar a gritar ao mundo o anti-Evangelho de Deus, que é a Mentira. As populações subjugadas e mergulhadas na idolatria aplaudem. E continuam a pedir a morte de Jesus, o Ser Humano por antomomásia.
Fica então manifesto que é assim que a História avança e progride em humanidade, não com as decisões tecidas de mentira dos poderosos e dos seus chefes, mas com a denúncia e as humilhações das suas vítimas. É por isso que Jesus proclama beatos, felizes, bem-aventurados, não os poderosos absolutos como o Papa João Paulo II, que o foi durante mais de 25 anos, mas as suas vítimas. Concretamente, e em palavras que o Evangelho de Mateus apresenta como de Jesus: “Felizes (= beatos) os pobres. Felizes os que choram. Felizes os fracos. Felizes os famintos e os sedentos de justiça. Felizes os que têm entranhas de humanidade. Felizes os que sopram a Verdade, quando falam. Felizes os que dão à luz a paz. Felizes os perseguidos por causa da justiça. Felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa.”
Se quisermos ser honestos, temos que reconhecer que nenhum papa chefe de estado do Vaticano e monarca absoluto, como João Paulo II o foi do princípio ao fim do seu pontificado (nem sequer teve a humildade de renunciar, quando completou os 75 anos, pelo contrário, quis acabar a sua vida histórica na máxima apoteose mundial, com todos os demais grandes do mundo a não se fazerem rogados nos aplausos e nos elogios) encaixa em qualquer destes enunciados de Jesus. Por isso, se a Igreja católica o vai agora precipitadamente proclamar beato, feliz, bem-aventurado, só pode estar a mentir e a tentar beatificar-se a si mesma perante as multidões súbditas e sem coragem para se assumirem como senhoras dos próprios destinos e como protagonistas da História que, para ser História verdadeiramente humana, tem que ser História de libertação para a Liberdade.
3. Este último domingo, 26 de Junho, houve mais um Encontro de Espiritualidade com o ateísmo em fundo. Aconteceu, como os anteriores, na sede do Jornal Fraternizar, em S. Pedro da Cova. Participaram poucas pessoas. Quase ninguém gosta, mesmo entre as cristãs, os cristãos mais progressistas, deste tipo de espiritualidade que nos leva a vivermos na História como se Deus não existisse. Do que as maiorias gostam é de Religião em honra de um Deus-tapa-buracos, um Deus-que-faz-milagres. É um Deus que faz pessoas alienadas? As populações pouco se importam, contanto que Ele também as anestesie, as livre de toda a sensação de angústia. Por mim, prefiro o Deus de Jesus, a quem o próprio Jesus no momento maior da sua vida histórica sentiu como uma Presença escandalosamente ausente, ao ponto de gritar: “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?” É este o Deus que me faz ser sem me substituir, sem me diminuir, sem me infantilizar.
O Encontro foi dinamizado pela Lete e pelo Valter. Assim havia sido decidido no encontro anterior. Foi uma reflexão teológica a partir do livro “A verdadeira história de Jesus de Nazaré”, do biblista de língua inglesa, E. P. Sanders. A manhã foi intensa. A muitas vozes. Também partilhei o meu sentir e pensar, em forma de testemunho. Houve escândalo, quando algumas vozes disseram que Jesus foi um desconhecido entre o seu povo, até ao momento em que se fez baptizar por João Baptista no Jordão. E que João Baptista foi muito mais conhecido que Jesus. E que da sua intervenção pública na Galileia e, depois, na Judeia, não consta sequer uma linha na História do Império romano. Daí a pergunta inevitável: E então como é que hoje Jesus é o mais conhecido dos homens e marcou tanto a História do Ocidente e até da Humanidade em geral? A resposta foi dada em vários tons. Mas a resposta mais chocante acabou por ser a que eu me permiti sugerir: Jesus tornou-se a figura mais importante do Ocidente, porque foi traído pelos que, depois de Constantino, passaram a ser considerados e tratados como “os príncipes da Igreja”. Na verdade, o Jesus que mais marcou o mundo ocidental não é o Crucificado pelo Templo e pelo Império, mas o Jesus que o Templo e o Império, de mão dada, fabricaram e difundiram. De maldito, passou a bendito. De militante do Reino de Deus, passou a Deus do Império Romano. Adorado pelas populações, tal e qual como os antigos deuses e deusas dos cultos do Paganismo religioso que sempre estiveram florescentes no Império Romano até à “conversão” do imperador Constantino. Quando foram proibidos, ficou em seu lugar o culto a Jesus, tratado como o Deus n.º 1 do Império Romano que, todos os anos nasce, morre e ressuscita, tal e qual como sucedia a certos deuses dos cultos politeístas, quando esses cultos ainda não haviam sido proibidos pelo imperador de Roma!
Resgatar Jesus de toda esta canga pagã, religiosa, é a operação mais necessária hoje. Mas quem se atreve? As Igrejas deveriam fazê-lo, mas infelizmente, são elas as primeiras a alimentar a tendência idolátrica das populações. Nem sequer conseguem que as populações idolatrem preferencialmente Jesus, uma vez que o que as populações fazem contra ventos e marés é idolatrar a imagem da Deusa virgem e mãe. Chega quase a parecer que Jesus veio em vão. E que as populações continuam estruturalmente pagãs, na sua versão mais primitiva, a matriarcal, materializada no culto da imagem da Deusa virgem e mãe com o filho sentado no seu braço esquerdo. Pelo menos, a Igreja católica que ficou no lugar do Império romano, quando ele implodiu, é por aqui que vai. Tem santuários em tudo quanto é sítio e quase todos eles com a imagem da Deusa como padroeira ou patrona. A Jesus, nem como ídolo, as populações o aceitam. Menos ainda como o ser humano por antonomásia. Ninguém, ou quase ninguém quer ser homem/mulher ao jeito de Jesus. Todos queremos ser deuses como os míticos deuses do Paganismo. Um Deus que se faz homem e o último dos homens é um escândalo. Semelhante boa notícia não tem ouvintes, menos ainda, mobiliza discípulos, mulheres e homens. Mas é por aí que anda Jesus. Nem o livro de Sanders nos diz rasgadamente esta verdade. Embrulha-se numa linguagem demasiado erudita e acaba por deixar praticamente tudo como dantes. Ora, sem uma refundação do Cristianismo de Jesus, não vamos lá. Urge, pois, regressarmos a Jesus de Nazaré, o mesmo que foi historicamente crucificado pelo Templo e pelo Império. Sem cedências. E, a partir daí, começarmos tudo de novo. Teremos coragem?
Para tanto, o próximo encontro, marcado para 23 de Outubro, no mesmo local, poderá ser decisivo. Como ponto de partida, teremos o meu livro “O Outro Evangelho Segundo Jesus Cristo”, da Campo das Letras. Cada participante deste encontro ficou de o ler-estudar-reflectir até lá. Depois será um pôr-em-comum, segundo a sensibilidade de cada qual. Estou muito esperançado. Afinal, é nestes pequenos grupos de pobres e de pequenos que o Espírito de Deus Criador se sente mais a jeito. Se Ele conseguir soprar nesse Encontro com força e quem nele participar se deixar afectar saudavelmente por Ele, esse Pentecostes poderá como o primeiro, em Jerusalém, mudar a face da Terra. Estou cheio de confiança. Até porque de Roma e da sua Cúria o sopro que nos chega é o do Poder absoluto, por isso, o da Mentira. Há que estar alerta. Simples como as pombas. E prudentes como as serpentes. Jesus que fez esta recomendação às suas discípulas, aos seus discípulos lá sabia porquê. O que prova que ele de ingénuo não teve nada! Só por isso é experimentado por nós como o nosso Libertador e o nosso Salvador.
2005 JUNHO 22
1. O mês de Junho caminha para o seu termo. O calor é intenso e já só se pensa nas férias, passadas à beira-mar, ou numa fresca sombra do campo ou da montanha. Junho é o mês do solstício de Verão, como Dezembro é o mês do solstício de Inverno. Para tentar acabar com as festas pagãs ou populares em honra do deus Sol, que, segundo as concepções pré-científicas do Universo, nasce em Dezembro e atinge o seu zénite ou maturidade em Junho, a Igreja católica tentou substituí-las, respectivamente, pela festa do natal de Jesus e pelas festas de três dos seus santos mais austeros, a saber, Santo António, São João Baptista e São Pedro. É com estas festas que, nestes dias de Junho, andamos todas, todos mais ou menos envolvidos.
Ora, depois de dois mil anos de Cristianismo católico, o Sol pode já ter deixado de ser olhado como um Deus, por parte das populações, mas a verdade é que as festas pagãs em sua honra continuam aí tal e qual, só que agora têm os nomes daqueles três santos como figura de cartaz. A Igreja faz de conta que as festas são em honra dos três santos. E as populações também. Mas todos, Igreja e populações, sabem que as festas deste mês de Junho continuam a ser as velhas festas pagãs em honra do Sol, no seu zénite, na sua máxima força, tal como a festa de natal, em Dezembro, por mais que oficialmente se diga que é de Jesus, continua a ser a festa pagã do natal do Sol. Os três santos estão, pois, nestas festas de Junho como a 4.ª feira de Cinzas na 3.ª feira de Carnaval. O povo é quem mais ordena e dita a sua lei. A Igreja católica vai a reboque. Na sua ânsia de ter o povo com ela, aceita que ele dite as regras do jogo. Faz ao contrário de Jesus e do Movimento iniciado por Jesus, quando, como Igreja que diz ser, deveria ser a continuação do Movimento de Jesus, em cada tempo e em cada espaço.
O Movimento de Jesus aposta na mudança das mentalidades e da vida das populações. Vive com as populações, mas para ser fermento libertador no meio delas. Puxa pelas populações, mesmo que elas lhe resistam e se lhe oponham. E prefiram seguir na rotina dos dias e dos anos, bem mais conforme aos ritmos da natureza, em vez de seguirem a Liberdade e a Graça, que exigem Criatividade e autonomia e independência em relação à Natureza. O Movimento de Jesus sabe que passar da condição de simples natureza a ser humano consciente e adulto, constituído na Liberdade e na Comunhão, é, porventura, o projecto mais audacioso de Deus Criador. E, pelo andar da carruagem, é manifesto que é um projecto que continua ainda muito longe de estar conseguido, se bem que já tenha sido conseguido, de forma paradigmática, na pessoa de Jesus de Nazaré. Em ninguém mais, pelo menos, de forma integral como aconteceu em Jesus.
Somos todos, mulheres e homens, seres humanos ainda em vias de criação. Descolar da Natureza é, porventura, o passo mais difícil. Mas não há outra via para lá chegarmos, uma vez que nem Deus Criador, para nos criar à sua imagem e semelhança, encontrou outra maneira de o fazer, que não fosse dentro de um processo evolutivo que está a levar muitos milénios de História. O processo foi iniciado, há uns 15 mil milhões de anos, com o big-bang, e, nesta altura, ainda não passou da infância. Neste aspecto, temos que dizer que a História, como tempo de criação de seres humanos à imagem e semelhança de Deus Criador, não só não acabou, como está ainda no seu começo.
A dificuldade maior reside em passarmos do mundo pesado da Natureza/Lei e do Egoísmo para a atmosfera da Liberdade e da Graça. Há momentos em que tudo parece fácil, mas outros momentos há em que tudo parece voltar à estaca zero, tal como acontece hoje no nosso mundo, com a implantação do cruel Sistema neo-liberal e seu Mercado sem entranhas de humanidade. São avanços e recuos, mais recuos que avanços, num processo histórico que não sabemos quando estará concluído. O dramático é que o processo, agora, não poderá prosseguir sem nós, os seres humanos. Porque o Criador que iniciou o processo sem nós, não o pode prosseguir sem nós. A criação de seres à imagem e semelhança de Deus Criador exige o “sim” reiterado dos mesmos seres em vias de criação. Este é, por isso, um projecto próprio de um Deus Criador, completamente impensável fora dEle. Todos os outros criadores, fora de Deus Criador, o mais que conseguem fazer são robots, ídolos, objectos, coisas, onde jamais sopra a Liberdade e a Graça. Por isso, podemos dizer que cada ser humano já o é, naquela medida em que é Liberdade e Graça. Porque continua a ser simples natureza, no muito que ainda tem de Rotina e de Egoísmo.
A própria Religião que os seres humanos inventaram e praticam é do âmbito da Rotina e do Egoísmo, por isso, é coisa da Natureza. Ainda é cá Debaixo, não é do Alto. É da Lei, não da Liberdade. É da Natureza, não da Graça. A Religião não nos tira da Natureza, integra-nos nela como súbditos exemplares. O Deus que a Religião adora não passa de um ídolo, como o Sol, ou como a imagem dos santos populares. Longe de nos aparecer como um desafio, a Religião aparece-nos como o incentivo maior à resignação e ao conformismo. Não nos desperta para a Rebelião, mas para a Obediência. Centra-nos no nosso umbigo, nas nossas coisas, nos nossos êxitos, nos nossos fracassos, não nos faz desabrochar em dom para os demais. Por isso é que todos os regimes autoritários não dispensam a Religião, mas já não suportam o Movimento de Jesus. E encaram o ateísmo como subversão. Por isso, não me canso de repetir: a Religião é inimiga da Liberdade e da Graça. Onde existir, a Religião atrasa o processo histórico de criação de seres humanos à imagem e semelhança de Deus Criador, uma vez que contribui para fazer seres à imagem e semelhança dos ídolos, seres na natureza e da natureza, nos antípodas dos seres constituídos em Liberdade e em Graça.
Ao render-se às festas pagãs do Solstício de Verão e do Solstício de Inverno, ao ponto de as fazer suas, a Igreja católica decai da Liberdade e da Graça, afasta-se do Movimento de Jesus e torna-se um fermento entre as populações e os povos, mas como o fermento dos fariseus do tempo de Jesus, que contribui para atrasar o processo de criação de seres humanos à imagem e semelhança de Deus Criador. As missas que ela celebra por ocasião destas festas, nos seus templos e capelas, acabam por ser actos de culto pagãos, por mais que os seus sacerdotes falem em Jesus. O Paganismo tem esse perverso condão: pode até transformar Jesus em mais um deus do seu panteão. Domestica-o. Faz dele um deus que apela à submissão e à resignação das populações e dos povos e que alimenta os medos que as populações e os povos continuam a experimentar dentro desta Ordem autoritária que é a Ordem do Templo e do Império. E a verdade é esta: Quanto mais missas, menos Liberdade e mais Lei. Menos Graça e mais Egoísmo. Estes não são factos indesmentíveis hoje, em pleno ano 2005 da era católica?
2. Na sua habitual crónica de domingo, no PÚBLICO, Frei Bento Domingues OP abordou este domingo 19 de Junho, a temática da religião e dos santuários que a religião criou e canonizou como espaços sagrados e como casas da Divindade. A favor da sua tese, citou uma mão cheia de autores que intervieram num Congresso sobre a mesma temática realizado recentemente em Fátima e cujas actas acabaram de sair agora em volume. Em todo o seu texto, Frei Bento pareceu subscrever o que escreveram e disseram os autores citados, tidos, ao que parece, pelo próprio Frei Bento como sumidades no assunto. Mas, a dado passo da sua crónica, aconteceu em Frei Bento Domingues um momento de lucidez jesuânica e evangélica que o fez escrever um parágrafo que desmente tudo o que estava a ser dito e aplaudido por ele próprio até então. É este o parágrafo:
“No plano cristão, cada um de nós está chamado a ser templo do Espírito Santo e Deus, a casa de todos. Os santuários cristãos ou servem para nos ajudar a fazer e a alimentar essa descoberta, ou tornam-se lugares de perversão. Não posso esquecer que algumas festas e romarias do Alto Minho terminavam, quase sempre, em sangrentas lutas entre aldeias e grupos rivais. Não eram vislumbre do divino, eram espectáculos de sangrentas vinganças.”
Se me alegro com este momento de lucidez jesuânica de Frei Bento Domingues, já tenho que me lamentar por ela não ter sido levada até ao fim pelo meu amigo dominicano, coisa que, infelizmente, é muito frequente em pessoas especializadas em determinadas áreas e que venham a ser contratadas para escrever em publicações destinadas ao grande público. A radicalidade de Jesus e do Evangelho, em matéria de religião e de santuários, é tão chocante, que quase sempre é aligeirada pelos seus discípulos, para poder ser incluída na publicação que os contratou e para os seus autores poderem continuar a escrever nela, semana após semana.
E onde é que a lucidez jesuânica de Frei Bento Domingues não foi levada até ao fim? Precisamente, quando ele escreve: “Os santuários cristãos”, etc. É que não há santuários cristãos, pelo menos, no Cristianismo de Jesus. E, se alguém insiste em falar em “santuários cristãos”, só pode ser de um Cristianismo que não o de Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo e pelo Império. No Cristianismo de Jesus não há santuários, não há templos. Todo o templo como casa de Deus é mentira. E covil de idolatria. Nem há casas de Deus. As que existem com esse nome e assim se apresentam às populações são mentira. Fazem parte da idolatria que mantém as populações subjugadas e infantilizadas. O que elas são é casas de Opressão onde os medos das populações são regularmente alimentados. A Liberdade e a Graça não têm outro corpo que não seja o corpo de Jesus de Nazaré e todos os outros corpos de mulheres e de homens que aceitem viver na História para lá da Lei e do Egoísmo. O que não for assim é Religião e, como tal, cai sob a alçada da idolatria.
Nunca os santuários, de pedra ou de madeira, de prata ou de outro, podem ser espaços de Liberdade e de Graça. Basta terem sido concebidos e erguidos pela mão dos humanos. São obra das suas mãos, como os ídolos. Subjugam. Amedrontam. Humilham. Sacrificam o que há de melhor nos seres humanos, precisamente, a Liberdade e a Graça. Os santuários são outras tantas coutadas de Deus, mas de um Deus que é criação dos próprios seres humanos. Não de Deus Criador de seres humanos à sua imagem e semelhança. Aliás, uma das razões do atraso que hoje se verifica na concretização deste projecto criador de seres humanos, por parte de Deus Criador, reside na Religião e na existência de múltiplos santuários. Nestes espaços, mentirosamente, chamados casas de Deus, quem efectivamente reina lá dentro são os sacerdotes, que, salvo raras e honrosas excepções, sempre integram as minorias dirigentes e privilegiadas do mundo. Tudo é então controlado e dirigido por eles e por elas, em grande cumplicidade. Ao contrário, lá, onde houver Liberdade que promove maioridades humanas e protagonismos políticos, e onde houver Graça que sopre no mais fundo e no mais dentro dos seres humanos, até os fazer seres-para-os-demais, aí há também misteriosa Presença de Deus Criador.
Gostava de ter visto o meu amigo Frei Bento Domingues ir até ao fim na sua radicalidade de teólogo cristão jesuânico. A simples existência de santuários em actividade já constitui, no testemunhar martirial de Jesus de Nazaré, um atentado à dignidade dos seres humanos. Uma tal existência pressupõe uma outra: a existência de um Deus que habita esses espaços, e que sistematicamente recorre a um corpo de privilegiados intermediários humanos para poder chegar às populações e aos povos. Por isso, um Deus Mentira e opressor, um Deus Alienação, que nos é estranho e nos torna estranhos aos nossos próprios olhos e uns para com os outros. Um Deus que é sempre um ídolo.
Não tenhamos dúvidas: Por mais “cristão” que se diga, a simples existência de um santuário em actividade remete-nos sempre para um Deus distinto do Deus Criador que se nos revelou em Jesus de Nazaré, o único que faz de cada ser humano que se abre à Liberdade e à Graça a sua casa. Como tal só pode ser um espaço que esmaga os seres humanos que lá entrem e se submetam a todos aqueles ritos sem sentido. Quem é que ainda pode ter dúvidas, depois de ver com olhos de ver o que fizeram estes dois mil anos de santuários e basílicas e catedrais e capelas do catolicismo romano e estes quase cem anos portugueses de esmagador e vampiresco domínio do santuário da senhora de Fátima?
É por isso que não hesito em afirmar com toda a simplicidade de um menino e com toda a frontalidade de um discípulo de Jesus: Lá onde houver um santuário activo não há Deus Criador de seres à sua imagem e semelhança. Só há súbditos, seres assustados, humilhados, resignados, egoístas, sempre em busca de um Deus-Demoníaco-só-para-eles-e-para-os-seus-interesses.
3. O PR, Dr. Jorge Sampaio, cujo segundo e último mandato está já a chegar ao fim, anda, por estes dias, em mais uma das suas presidências abertas, com o objectivo de revelar ao país empresas e empresários de sucesso. As poucas empresas que ele tem para revelar através dos media deixam-nos ainda mais deprimidos, como país. Afinal, há tão pouca coisa que valha a pena mostrar… Melhor seria, por isso, que o PR se ocupasse em ser presidente e, em comunhão com os ministros do actual Governo, os deputados da AR e os autarcas do país, os empresários e os Sindicatos, ajudasse a definir economias e políticas concretas que, maieuticamente, nos façam sair da depressão e do beco para onde economistas, políticos, empresários e sindicalistas incompetentes nos têm atirado. É hora de tocar a reunir! E de agir com sabedoria e prudência.
Em vez disso, o PR meteu-se ontem a desancar na Banca e nos respectivos gestores que somam lucros sobre lucros, em conformidade, aliás, com a cartilha do Sistema financeiro pela qual ela e eles se orientam, também com o aval do próprio PR, enquanto o país se afoga em dívidas e mais dívidas. O discurso, aparentemente improvisado, foi por isso demagogia barata. E um péssimo exemplo em Política. Revelou igualmente um PR à beira de um ataque de nervos. Jorge Sampaio tem razões de sobra para andar nervoso. Dois mandatos presidenciais depois, o país está bem mais ingovernável e na miséria do que antes. Também por manifesta incompetência do PR, o maior magistrado da Nação. Presidir à República é mais do que viajar, debitar um discurso aqui e outro discurso ali, receber aplausos “espontâneos” das populações. Ser o mais alto magistrado da Nação é assumir o país e as populações como se fossem a sua própria casa e a sua própria família.
Não é de discursos, nem de homilias laicas que o país precisa. O que o país precisa é de quem o ame com dedicação e coloque todo o seu saber e toda a sua capacidade na busca concertada de soluções que nos arranquem desta apagada e vil tristeza em que progressivamente nos afundamos. Mas quem, como o Dr. Jorge Sampaio, foi capaz, sem eleições antecipadas, de dar posse a um governo Santana Lopes/Paulo Portas e, depois, ainda por cima protagonizou todo aquele doentio espectáculo político que se lhe seguiu, durante quatro penosos meses, será que ainda tem autoridade moral para concertar esforços e políticas que levantem de novo o país?
2005 JUNHO 19
1. Até bispos, uma vintena deles, da Igreja católica que está em Espanha saíram ontem à rua em Madrid. Para exigirem, juntamente com muitos milhares de católicas e católicos de organizações laicais, que as suas irmãs lésbicas e os seus irmãos homossexuais, do mesmo país, não cheguem nunca a ver reconhecidos os seus direitos na sociedade espanhola. O Governo socialista, em boa hora, no início de Abril passado, aprovou o casamento gay e o direito dos casais gay poderem adoptar crianças, em pé de igualdade com os casais heterossexuais. Mas a hierarquia da Igreja católica perdeu a cabeça, já nessa altura, e agora veio mesmo para a rua gritar contra esta lei, antes que ela seja definitivamente aprovada pelo Senado espanhol e entre em vigor. Pessoalmente, só posso lamentar e ficar triste com esta posição da hierarquia da Igreja católica. Deveria ser ela a primeira a apoiar e até a aplaudir a lei aprovada pelo governo socialista e, em vez disso, vem vergonhosamente para a rua exigir a sua não aprovação pelo Senado. O mais grave é que ela o faz à revelia dos múltiplos colectivos católicos de base do país vizinho, entre os quais se inclui o que há de melhor e de mais salutar no pensamento teológico e bíblico da mesma Igreja católica que está em Espanha. O facto consuma, objectivamente, uma insanável ruptura no seio da Igreja católica, cujas consequências, neste momento, são difíceis de prever. Creio por isso que, desta vez, nem o papa Bento XVI poderá ficar calado, como tem sido seu timbre, desde que sucedeu a João Paulo II. Terá que pronunciar-se e agir. É manifesto que o seu lugar será entre os que ontem se manifestaram na rua. Mas, se avançar por aí, arrisca-se a perder a maior parte da população de Espanha que, hoje, felizmente, já não se limita a dizer “ámen” a tudo o que vem de Roma, nem que sejam pronunciamentos teológicos disparatados, ou pronunciamentos moralistas imorais. Como é o caso deste pronunciamento moralista da hierarquia católica de Espanha contra os direitos das lésbicas e dos homossexuais do país. A divisão e a ruptura, nesta matéria, parece, pois, evidente, inclusive entre a própria hierarquia católica. Basta dizer que o actual presidente da Conferência Episcopal Espanhola, de feição bem mais aberta às grandes questões da Humanidade, não alinhou na manifestação de ontem e não terá visto com bons olhos que colegas seus o tenham feito. Por isso a ruptura eclesial, nesta matéria dos direitos dos gay, é ainda mais acentuada e pode muito bem fracturar a Igreja. Mas a parcela da Igreja que tem futuro é, evidentemente, a que está ao lado das lésbicas e dos homossexuais. Só esta parcela de Igreja se constitui sacramento de Deus Criador que, no início, nos criou seres humanos à sua imagem e semelhança, e nos criou mulheres e homens, heterossexuais e homossexuais, em radical igualdade, por isso, sem qualquer espécie de discriminação. Durante séculos, a Igreja ostracizou e diabolizou as lésbicas e os homossexuais, cometeu toda a espécie de crimes contra elas, contra eles. Fê-lo sempre em nome de Deus. Foi neste particular uma Igreja anti-sacramento de Deus, tal como Ele se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré. Catequizou gerações e gerações de pessoas nestes seus erros teológicos e moralistas, os mais grosseiros. Criou nas populações e nos povos rejeições e discriminações que geraram comportamentos próprios de monstros, quando é da sua missão pastoral mais autêntica, ser uma presença que torne cada vez mais humanas as pessoas e os povos. Hoje os tempos são outros, no seio da Humanidade em geral, mas, mesmo assim, uma significativa parcela da Igreja continua aferrada a catequeses do passado, sem chegar a compreender que são catequeses por onde não passa o Sopro de Deus Criador.
Pudesse eu fazer-me ouvir por esta parcela da Igreja que continua aferrada a este tipo de catequeses inumanas. Com humildade e verdade, haveria de a convidar a deixar de vez o fanatismo moralista que está a fazer dela um monstro na sociedade espanhola, um contra-sinal de Deus Criador e de Deus Amor. Haveria de a convidar a olhar nos olhos, uma por uma, todas as lésbicas de Espanha e do mundo, um por um, todos os homossexuais de Espanha e do mundo. Tenho a certeza que este olhar haveria de dar lugar ao abraço sororal e fraterno entre umas e outras, entre uns e outros. E haveria em Espanha e no mundo uma grande alegria, porque esta parcela da Igreja católica que está perdida se reencontrou com a Verdade que nos faz irmãs, irmãos universais, também das lésbicas e dos homossexuais. É para aqui que aponta a minha esperança. E quem sabe se esta minha singela palavra evangélica não acabará por ser ouvida e dar muito fruto. Essa seria a minha maior alegria.
2. Nem queiram saber as agradáveis surpresas que me estavam reservadas, quando, anteontem,17 de Junho, fui até Lisboa, para participar num debate organizado pela Livraria Almedina, do edifício Atrium Saldanha. A surpresa começou logo pelo convite da livreira responsável, Rita Bernardes. Fui de comboio de Caíde até ao Porto e do Porto até à Gare do Oriente, sob um calor abrasador. Da Gare do Oriente, segui no metro, com mudanças de linha em várias estações. A Livraria é um monumental espaço, uma verdadeira catedral de livros, onde apetece permanecer horas sem fim. No debate, fui convidado a sentar-me ao lado de dois jovens “bloguistas”, um jornalista do PÚBLICO e outro animador cultural no Barreiro. Entre as pessoas que não dispensaram o debate, predominavam jovens de ambos os sexos, rostos sorridentes e abertos ao futuro, uma certeza num amanhã muito mais humano e culto. Senti-me em casa, apesar do tema a debater ser os blogs e os livros. O minha página na net, nomeadamente, o meu Diário Aberto, é vista como um “blog” e foi nessa condição que me convidaram. Mas para mim foi mais uma ocasião de Evangelizar, porque para isso é que nasci e vim ao mundo e também estou na net. Depressa percebi que, também ali, é de Evangelho libertador que as pessoas estão famintas. E, por isso, escutaram-me com o coração aberto e a mente sem preconceitos. Durante o debate, dei-me conta que, entre toda aquela juventude, também figurava de pé um homem de cabelos brancos, olhos muito vivos e mexidos, que bebia as minhas palavras e me sorria com frequência, em sinal de satisfação e de acolhimento. Parecia mais um jovem entre todas aquelas jovens, todos aqueles jovens que “faziam” a assembleia do debate. No final, veio até junto de mim com um exemplar do livro EM NOME DE JESUS, para eu autografar. E disse que já havia estado comigo, há anos, num jantar de solidariedade em Braga. Avivou-me a memória e eu viajei no tempo até esse jantar solidário com o então Governador Civil de Braga, cujo lugar, na altura, estava a ser fortemente contestado pelos poderes do Obscurantismo do Distrito. Foi, por isso, muito apertado o abraço que lhe dei, juntamente com o livro autografado. A conversa prosseguiu, minutos depois, quando o senhor, de seu nome Afonso Queiroz, especialista em Direito de Contratos, me apresentou a companheira e ambos me convidaram a viajar com eles, no seu carro, para o Porto, onde trabalham. Tinha programado regressar ao Porto de comboio, mas logo troquei e aceitei a boleia. Ficaram tão contentes por me terem com eles como companheiro de viagem, que logo decidiram fazer um jantar de festa. Levaram-me a jantar num restaurante de sonho, daqueles que eu, na minha condição de padre voluntariamente pobre, nem sequer suspeitava que pudessem existir. Por momentos, entrei no mundo das minorias com grandes possibilidades financeiras. Não é que o casal que me acolheu seja desse mundo, mas quis, num excesso de alegria e de festa, celebrar este nosso encontro com um banquete, realizado num local muito especial. Não me escandalizei e em tudo me comportei como um menino, ao ver que, também nesse restaurante, muitas das pessoas presentes me reconheceram da televisão, a começar pela menina que fazia o acolhimento a quem entrava. O jantar e a viagem até ao Porto foram de rasgada confissão e partilha. Foram sacramento. Solidificaram uma relação de amizade e de comunhão que ainda não sei aonde poderá levar. Em todo este tempo, só me lembrava de Jesus e dos banquetes em que ele esteve, alguns dos quais, como este meu, a convite de pessoas com possibilidades financeiras que, depois de comerem com ele, nunca mais eram as mesmas de antes. Quando me deitei, na casa da Associação Padre Maximino, em S. Pedro da Cova, eram 3 horas da manhã. Depressa adormeci, como um menino que vive permanentemente no colo do Amor e da Ternura que é o nosso Deus-Mãe/Pai.
Na manhã seguinte, saí a pé em direcção a Valongo, onde deveria tomar o comboio que me levaria de novo a Caíde. Perdi o autocarro e acabei por me fazer à estrada, com o ar de quem precisa de boleia. Andei cerca de 500 metros e passou um casal que me reconheceu e parou. Levou-me até à estação. Mas não havia comboio senão daí a cerca de 2 horas. Regressei à estrada e coloquei-me na paragem, à espera duma camioneta que me levasse à Lixa. Mas logo pensei: E se arranjasse boleia? Escrevi então a palavra “Lixa”, em caracteres bem visíveis, numa folha A4 e coloquei-me de pé a mostrar aos carros que passavam. Até que passou um que parou e me deu boleia. Ficou radiante, quando viu que acabou de dar boleia ao padre Mário (da Lixa). Ele próprio era da Lixa. Conversámos toda a viagem, uma verdadeira sessão de evangelização e de catequese libertadora. Por isso o senhor fez questão de me trazer até à casinha onde moro, numa solicitude que me desvaneceu e humanizou ainda mais. Entrei em casa, pousei a pouca bagagem e voltei a sair em direcção à Casa da Comunidade, onde já me esperava a carrinha, devidamente consertada e com ar de novo. Uma mensagem de telemóvel tinha-me avisado que poderia ir por ela lá. E fui. Foi uma alegria, quando à mesa, partilhei com Maria Laura e os dois filhos que vivem com ela, tudo o que havia vivido nesta minha deslocação a Lisboa. Ficámos os quatro em mais intensa Eucaristia.
3. Na véspera de me deslocar a Lisboa, ainda vivi um outro momento de grande alegria. Na falta da carrinha, fui no carro do R. Filipe, cedido por ele para esse serviço, acompanhar Paula, a mãe do menino André, de quem já falei neste Diário Aberto, à técnica da Acção Social da Câmara Municipal. Pelo telefone, tinha conversado com ela a expor o caso do menino e dos outros seus quatro irmãos que foram confiados pelo Juiz de Menores a uma instituição de Braga, na sequência de comportamentos “perdidos” da mãe. Mas Paula está agora a ser uma mulher “encontrada”, assim como o seu companheiro Paulo, respectivamente mãe e pai dessas cinco crianças. Em Macieira, nas proximidades da Casa da Comunidade, Paula descobriu razões para mudar radicalmente de vida. Primeiro, foi a prima Júlia e o marido. Depois, foi Maria Laura, da Casa da Comunidade, a pedido de Júlia. Depois fui eu, a pedido de Maria Laura e de Júlia. Os passos que têm sido dados estão a resultar. E André, que tem estado confiado à sua avó materna, já vem passar os fins de semana com os pais, na casinha que eles alugaram nas proximidades da Casa da Comunidade. A relação desenvolve-se cada vez mais. E Paula não quer outra coisa que não seja tornar-se mulher de cabeça erguida e reaver a custódia dos seus cinco filhinhos, a começar pelo André, o mais velho. Vive numa alegria que ninguém imagina, muito menos sabe explicar. A técnica social, quando a contactei pelo telefone, foi duma sensibilidade e duma disponibilidade invulgares. E marcou logo para o dia seguinte uma sessão com Paula. Fui com ela. Maria Laura foi também, já que tem sido, neste processo, a sua verdadeira mãe espiritual. “Mãe dos pobres”, é como lhe chama a vizinha Júlia. E tem razão, tanto ela se desfaz em vida pela vida das pessoas mais excluídas e mais degradadas. Paula, neste momento, é a mulher que mais precisada está de apoio. E está a revelar-se cada dia que passa uma mulher capaz de dar uma volta completa ao que foi até há poucos meses atrás.
A viagem até Felgueiras foi de festa. E a chegada ao serviço também. Quando me anunciei, a dra. Cláudia fez questão de deixar o que estava a fazer e veio pessoalmente acolher Paula. Conversou, durante uns minutos connosco. As apresentações ficaram feitas. A conversa pormenorizada seguiria, depois, quando ela concluísse a audiência que tinha em curso. Estes minutos de conversa deram para ela esclarecer quem eu era. É ainda nova no serviço e em idade, por isso, só sabe de mim de ouvir falar. Quando pelo telefone lhe falei, ela relacionou o meu nome com o pároco de Macieira. Só depois é que se recordou que o nome do pároco é outro. E ficou baralhada. Agora, ali ao vivo, ela contou como descobriu quem eu era. E mostrou-se muito agradada de poder contar com a cooperação de Maria Laura, da Casa da Comunidade, e a minha. No seu rosto, pude ler a grande confiança que a anima. E a garantia de que, a partir de agora, Paula e os seus filhinhos estão em boas mãos. Primeiro, será tratado e resolvido o caso de André, bastante mais fácil que o dos outros quatro filhos de Paula e de Paulo. Provavelmente, no próximo ano lectivo, o rapazinho já poderá frequentar a escola básica de Macieira e viver com a mãe e o pai. Depois, virão os outros filhinhos. É indescritível a alegria de Paula. Ela vibra com todos estes momentos e abre-se à vida como poucas mulheres, das que nunca conheceram o estatuto de “mulher perdida”.
Na sua alegria de mulher e de mãe, vejo continuamente a alegria de Jesus que sempre disse que veio para “as ovelhas perdidas da casa de Israel”, para “os pecadores”, não para “os justos”. O dramático é que, também aqui em Macieira, como na Palestina do tempo de Jesus, os que se têm na conta de justos são, afinal, os que se revelam incapazes de acolher e de acompanhar mulheres como a Paula, homens como o Paulo. Não só não mexem um dedo para ajudar pessoas nestas condições a encontrar-se consigo mesmas, como até são capazes de mover montanhas para ver se as enterram ainda mais. São justos sem justiça, como os fariseus. Melhor fossem pecadores. Nunca entenderão Jesus e só podem escandalizar-se com o seu Evangelho que diz como boa notícia maior esta: “Há mais alegria no céu por um só pecador que se reencontra com a dignidade do que com 99 justos que sabem despertar mais justiça e dignidade humana em seu redor”. Ou esta: “Em verdade, em verdade vos digo: os publicanos e as prostitutas hão-de preceder os teólogos moralistas e fariseus, papas e bispos que sejam, no Reino de Deus”. Na minha simplicidade de vida, sem carreirismos de nenhuma espécie, sempre soube que o Evangelho de Deus é assim. Mas agora, Paula e Paulo estão a confirmar-mo uma vez mais. Por isso vivo tão feliz por ter conhecido e ser amigo deste casal e a sua família em vias de reencontro. Quero lá saber que “os justos” da Paróquia católica de Macieira me critiquem e digam cobras e lagartos de mim, por andar com estas companhias?
2005 JUNHO 16
Eu nem queria acreditar no que os meus olhos liam. Mas estava lá, preto no branco, na 1.ª página do Semanário oficioso da Diocese do Porto. É mesmo a manchete maior da edição n.º 23, de 15 de Junho de 2005: “Nossa Senhora do Bom Despacho Padroeira da Maia”. E, logo abaixo, como que a justificar o título, o Decreto Episcopal, na íntegra, assinado pelo Bispo titular, D. Armindo Lopes Coelho. Por sinal, escrito num português de péssima qualidade. E eu nem queria acreditar, porquê? Porque tão destacada notícia, ilustrada com a fotografia duma boneca fartamente vestida e ridiculamente coroada, juntamente com uma outra notícia que preenche toda a segunda metade da mesma 1.ª página – “Relíquia de S. Telmo ingressa na Igreja de Massarelos” – são a expressão máxima da presença viva do Paganismo na Igreja do Porto. E tudo é feito e apresentado com o ar mais natural do mundo, a comprovar que estes homens eclesiásticos, postos como guias e garantes da Fé cristã jesuânica na Igreja católica, nem sequer se apercebem da gravidade dos seus actos. Constituídos como bispos da Igreja, para evangelizar os pobres, confundem este martirial ministério episcopal com andar de terra em terra a presidir a tudo quanto é mediocridade e rotina, beatice e devocionismo sem um pingo de dignidade humana, como se Jesus, o Crucificado pelo Templo e pelo Império, nunca tivesse existido e não passasse de um mítico deus mais entre os inúmeros deuses que, ao tempo, granjeavam a simpatia dos povos do Império romano, tanto os de Atenas, como os de Roma. As populações do nosso país e dos países do Ocidente que nunca foram verdadeiramente evangelizadas, assim o querem? Provavelmente. Mas os bispos e os párocos católicos é que não podem estar aí, no meio delas, quais sacerdotes dos cultos do Paganismo, para as atender e confirmar no seu Paganismo. Evangelizar as populações é a sua prioritária, para não dizer, exclusiva missão. Mas, está visto Evangelizar as populações não é com estes homens da cúpula eclesiástica. Exigiria, como exigiu a Jesus, total fidelidade ao Espírito Santo, o Sopro de Jesus crucificado, a quem Deus glorificou e reconheceu como o seu Filho muito Amado, e estes homens da cúpula eclesiástica não estão para aí virados. Vestem diferente, como os fariseus no tempo de Jesus, para serem olhados e tratados como santos, pessoas de outra condição, quase divinos ou mesmo divinos. Fazem-se rodear de clérigos ao seu serviço, como se fossem generais e a Igreja um exército de menores e de súbditos, passeiam-se pelas paróquias da diocese, com o à vontade do dono duma grande quinta, são recebidos com pompa e circunstância pelas populações como se estas ainda hoje continuassem a ser seus servos da gleba, não dispensam arcos enfeitados e tapetes de flores, foguetes à chegada, os cumprimentos das autoridades locais da freguesia, do concelho e do distrito, dos representantes das colectividades e dos empresários da região. Igualmente, não dispensam banquetes com brindes e discursos cheios de lugares comuns, tecidos de elogios baratos que são um nojo de subalternidade e de vassalagem. Ah! E também presidem a celebrações de Crisma e de Missa, onde só eles usam da palavra, e que são a negação da Ceia de Jesus e da Eucaristia em sua memória crucificada e, por isso, uma blasfémia e um vómito.
Infelizmente, não é caricatura o que escrevo. E chego a perguntar-me o que se terá passado na vida destes eclesiásticos, para se terem convertido em nadas ambulantes, seres sem espinha dorsal, inconscientes, ingénuos, sempre a rodopiar num mundo virtual, como em permanente delírio, na mais refinada das alienações. E não sei se enxergo a razão. Chego a pensar que, provavelmente, quando, um dia, aceitaram ser funcionários eclesiásticos e fazer carreira sempre a subir, renunciaram para sempre a ser homens, desistiram da Liberdade. E tornaram-se presa do Demoníaco que subsiste nas instituições religiosas e eclesiásticas, assim como nas financeiras. Também nas económicas e políticas, mas hoje bem menos que naquelas. E nunca mais se encontraram consigo próprios. Vão de alienação em alienação, até à alienação total que é a perda da identidade. O Sistema devora-os, à medida que os cumula de privilégios, e eles nem se dão conta, de tão alienados que andam. As adulações que recebem também contribuem para os endeusar. E quanto mais eles se sentem deuses, supostamente cheios de poder, menos humanos são. Por isso, não passam de uns pobres diabos cheios de privilégios, a quem roubaram tudo, sobretudo a consciência, a dignidade, a liberdade.
Como eu choro por vós, eclesiásticos católicos meus contemporâneos. Escolhêsseis ser pobres como Jesus, e sem poder e sem privilégios, e seríeis humanos, seres humanos como ele foi. Assim sois um joguete nas garras do Poder. Profissionais da alienação, guias cegos, que levais as populações para o abismo.
A 1.ª página da Voz Portucalense a que me estou a reportar é disto acabado exemplo. Só um bispo que existe para servir o demoníaco Sistema eclesiástico é que pode escrever um Decreto Episcopal como este e presidir a actos tão vazios de humanidade e de dignidade humana como os que nele são referidos. E fazer homilias como aquela que a mesma página do semanário da Diocese diz que D. Armindo fez a propósito da “relíquia de S. Telmo”. Não resisto a transcrever o Decreto na íntegra. E a destacar algumas das afirmações mais desgraçadas da homilia. Para que conste. E para que, como Igreja que está no Porto, olhemos para estes exemplos e coremos de vergonha. Tanto pior, se já nem coramos. É sinal que estamos já tão desumanizados, tão alienados, que nem vergonha sentimos. E pensar que um Bispo, no dizer etimológico da palavra, significa “vigilante”. Quando o “vigia” preside a actos de tão baixo calibre cultural e de tanto obscurantismo, e tudo sem que a Igreja que está no Porto reaja, é caso para perguntar se ainda há Igreja no Porto, ou se ela já é tão só Paganismo religioso e mais Paganismo. Eis, pois, o Decreto tal qual o pude ler na 1.ª página da Voz Portucalense, de ontem:
“Considerando a secular devoção que o Povo da Maia consagra a Nossa Senhora sob o título de Nossa Senhora do Bom Despacho; considerando que a imagem de Nossa Senhora do Bom Despacho, por nós coroada em 13 de Junho de 2003, se encontra na Igreja Matriz de S. Miguel da Maia, entretanto mais conhecida pela devoção a Nossa Senhora do Bom Despacho; atendendo ao pedido do Reverendo Pároco, ouvido o parecer do Senhor Vigário da Vara em nome do Clero da Vigararia da Maia, e interpretando o sentimento consensual do Povo e Autoridades concelhias,
HAVEMOS POR BEM
- proclamar Padroeira do Concelho da Maia, Nossa Senhora do Bom Despacho
- Declarar a Igreja Matriz de S. Miguel da Maia, Santuário Mariano, em virtude da reconhecida devoção do povo cristão da Maia a Nossa Senhora do Bom Despacho.
Porto, Solenidade da Anunciação do Senhor, 25 de Março de 2004, no Vigésimo Quinto Aniversário da nossa Ordenação Episcopal.
+ Armindo Lopes Coelho, Bispo do Porto.”
O Bispo do Porto tenta disfarçar o Paganismo de tudo isto com a declaração da igreja matriz da Maia, “santuário mariano”. É pior a emenda do que o soneto. Porque Nossa Senhora do Bom Despacho nunca foi nem será Maria, a mãe de Jesus. A imagem que a representa, como todas as imagens de Nossas senhoras que por aí abundam com nomes os mais disparatados, é sistematicamente a imagem duma boneca com um menino sentado sobre o seu braço esquerdo. Esta sempre foi a representação principal da mítica Deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo, desde o mais primitivo, quando as sociedades ainda eram matriarcais. Por isso, muitos séculos antes de Maria de Nazaré ter nascido e de ter dado à luz Jesus.
Por mais que a Igreja católica tente identificar estas imagens e os seus nomes com Maria, mãe de Jesus, é tempo perdido. Para lá de produzir mentira, ela não consegue, por essa via, arrancar do inconsciente das populações ainda não evangelizadas a imagem da mítica Deusa, que estas, nos seus ancestrais medos, sempre projectam no alto céu como toda poderosa, para lhes valer nas múltiplas e distintas aflições e necessidades. Só a projecção ou imagem duma Deusa toda poderosa, ao mesmo tempo, virgem e mãe, poderá dar a sensação às populações que estão a ser protegidas e apoiadas a toda a hora e instante. Na realidade, a Deusa nunca socorre, porque não passa de imagens e de projecções criadas pelas criaturas em situação de aflição e de fragilidade. Mesmo assim, as populações sentem-se consoladas e preferem esta ilusão e este ópio à realidade nua e crua que é de, enquanto durar a História, contarem apenas consigo mesmas e com os demais, se estabelecerem com eles laços de comunhão.
Outra, muito outra, é a postura existencial da Fé de Jesus que as populações têm tanta dificuldade em acolher e fazer sua e que consiste em vivermos na História como se Deus não existisse. Na verdade Deus existe, mas para nos convencer que somos nós e só nós os responsáveis pela História. Nós com Deus dentro, mas sem Ele alguma vez nos substituir, apenas nos potencia, para sermos nós próprios até ao limite das nossas possibilidades e para lá das nossas possibilidades. As populações sempre fogem desta via difícil, a única que nos dignifica como seres humanos e que dá glória a Deus Criador de seres à sua imagem e semelhança. E já acolhem de braços abertos a via pagã das deusas e dos deuses, diante de cujas imagens se prostram, rastejam, dizem orações, tocam-nas, enfeitam-nas, e deixam o último cêntimo e o último fio de ouro ou o último brinco. Numa degradação humana que o mundo em redor, em lugar de chamar assim, mentirosamente chama “manifestação de fé”!...
Nossa Senhora do Bom Despacho. O templo paroquial da Maia bem se chama de “S. Miguel da Maia”, certamente o seu orago ou padroeiro de outros tempos. Mas, apesar de miticamente ser o arcanjo vencedor, acaba de perder aqui esta batalha a favor da imagem da Deusa virgem e mãe, sob a invocação de Nossa Senhora do Bom Despacho. Compreende-se. As populações é da mítica Deusa que gostam. E só dela. É verdade que agora, já não haverá despachos a esperar da parte dos reis, quase sempre autoritários, e das rainhas, que esses tempos já lá vão, mas permanece o título dela e a suposta função. Nem que seja para ela despachar desgraças e maldições para os vizinhos com quem as suas devotas cortaram relações, de tudo a Nossa Senhora supostamente se encarrega. Do bom e do mau. Ou ela não fosse um misto de Deus e de Demoníaco, como tudo o que não é simplesmente humano, como Jesus, o de Nazaré. E como Maria, sua mãe, mulher histórica como qualquer das nossas mães, nunca, por isso, uma mítica deusa!
Passo agora à homilia que o Bispo do Porto proferiu, segundo garante o Semanário da Diocese, no dia 12 de Junho último, por ocasião da cerimónia de entrega duma relíquia do pregador dominicano S. Telmo que terá vivido entre os séculos XII e XIII e se tornou patrono dos marinheiros. E que patrono ele seria, nesses remotos tempos de obscurantismo popular, para até o nosso Camões se lhe referir em “Os Lusíadas”!... A relíquia veio expressamente de Tui, cidade da Galiza, em cuja catedral se encontra o que resto do que lendariamente se supõe ser o corpo do santo. Veio num relicário, transportado pelo actual pároco de Massarelos para a sua igreja paroquial, da qual passa a ser também o padroeiro! Imaginem-se na Idade Média e na cerimónia religiosa. E oiçam pedaços da homilia do Bispo, sem esquecerem que estamos no ano 5 do século XXI e do Terceiro Milénio do Cristianismo de Jesus!
Abre assim: “S. Pedro González Telmo (nós dizemos S. Pedro Gonçalves Telmo) nasceu em Frómista (Palência, outros dizem em Astorga) pelo ano 1190. Terá falecido em 1243 (ou 1246). Sobrinho de um bispo, foi muito novo nomeado cónego, e chegou a deão. Certo acidente daquela vida jovem e despreocupada provocou-lhe uma mudança profunda. Fez-se dominicano, passando a ocupar o tempo na pregação e no ministério da confissão. Também participou em campanhas contra os mouros, ao lado do rei, mas a sua vocação e preocupação religiosa fê-lo passar por Compostela, Lugo, Ribadávia, Amarante (Cf. Tradição de S. Gonçalo) e principalmente Tuy, onde morreu. A esta actividade de pregador está ligado o milagre que se lhe atribui. Estando a pregar, em Bayona, enfrenta uma tempestade que perturba o ambiente. Como Cristo, segundo os Evangelhos, Pedro González imperou ao vento e aos outros elementos. E voltou a tranquilidade e a bonança. É o padroeiro dos marinheiros e mareantes.”
Mais adiante, lá vem a referência lendária a um outro suposto milagre, com o qual se tenta justificar o seu papel de padroeiro: “Segundo documentação transcrita em arquivo, no ano de 1394 um galeão com o nome de S. Pedro dirigia-se de Londres para o Porto, comandado pelo Capitão António Espírito Santo Silva, sendo gajeiro Inácio de Sousa, com uma tripulação de mais de vinte e sete homens. Tendo chegado ao mar da Viscaya foram surpreendidos por um violento temporal que fez correr perigo a vida de todos os passageiros. Invocaram S. Telmo (o barco chamava-se “S. Pedro”, mas os passageiros esqueceram-se do seu patrono e trocaram-no por S. Telmo!), e logo a sua imagem apareceu no topo dos mastros com três faróis acesos. A tempestade acalmou, seguiram viagem e aportaram em Vigo. No dia seguinte dirigiram-se a Tuy agradecer a S. Telmo junto do seu túmulo. E prometeram erguer uma ermida na sua terra, aqui, onde chegaram em 20 de Dezembro de 1394.”
“Devo confessar – diz ingenuamente o Bispo do Porto, lá mais para o final da homilia – que não estou angustiado por não conhecer toda a verdade ou realidade da riquíssima simbologia que sugerem a tradição, a literatura, hagiográfica ou não, e as próprias artes plásticas. Tem especial significado a tríplice luz dos faróis como afirmação da Trindade de Deus em tempo da crise albigense. Como permanece o mistério do «fogo de santelmo» (…) «pequena chama, devida à electricidade atmosférica, que aparece ocasionalmente na extremidade dos mastros e das vergas dos navios ou nos filamentos dos cabos».
Eis, pois, a crendice em toda a sua extensão! Como se ainda não tivéssemos passado pelo crivo da Modernidade e da Lucidez. Como se a Morte crucificada de Jesus de Nazaré não nos tivesse aberto os olhos da consciência e levantado do chão da humilhação em que as mentiras das religiões, primeiro, e dos clérigos, depois, prostraram as populações analfabetas, infantilizadas e assustadas, cheias de medo de deusas, de deuses e de diabos. E cheias de medo também dos poderosos clérigos e das suas infernais ameaças! Oh! Bispo D. Armindo, em que tempo pensa que está?
Mas a verdade é que o Bispo do Porto não esteve sozinho nesta operação de obscurantismo crasso e de puro Paganismo religioso. Com ele esteve também, segundo palavras do próprio D. Armindo ainda na homilia, “S. Ex.cia Rev.ma o Senhor Bispo de Tuy-Vigo (vejam como eles se tratam uns aos outros diante das populações!) e toda a Comitiva presidida pelo senhor Bispo Emérito de Tuy-Vigo”, aos quais o Bispo do Porto agradeceu “a mercê que nos fazem de nos doar e trazer uma relíquia de S. Pedro Telmo, a fim de podermos deste modo refazer a relação que aqui foi lembrada”.
Desculpem a crueza da verdade que nos faz livres. Mas, depois de ler tudo isto, o que ironicamente mais poderei lamentar é que a relíquia de S. Telmo tenha vindo só agora para a igreja de Massarelos, junto ao Rio Douro, na cidade do Porto. Quem sabe se ela já lá estivesse, na altura em que caiu a Ponte de Entre-os-Rios, provavelmente, nem a Ponte teria caído e, se caísse, as muitas dezenas de pessoas que pereceram nas suas águas ter-se-iam salvo todas. Por milagre de S. Telmo!...
Haja modos, senhor Bispo do Porto. Como é que se pode ir tão baixo em catequeses alienadoras? Isto são verdadeiras overdoses de ópio doutrinal, senhor Bispo D. Armindo. À luz da prática libertadora de Jesus, tudo isto perfaz um pecado que brada aos céus! A que Deus é que quer honrar com comportamentos destes e com catequeses destas? Ao Deus que se revelou em Jesus de Nazaré, é que não é. Não pode ser. Ou Jesus não fosse o rosto definitivo de Deus entre nós e connosco!
2005 JUNHO 13
1. Vai hoje a enterrar o cadáver do General Vasco Gonçalves, o “Companheiro Vasco”. Foi um Primeiro Ministro ao jeito do 25 de Abril 1974. Entusiasta. Afectuoso. Terno. Humano. Quase mítico. Todos os seus governos foram provisórios. E todos muito curtos no tempo. Abril estava-lhe na mente e no corpo todo. Mas revelou-se um General sem tropas. Abril habitava-o e possuía-o. Mas muitos dos que o rodeavam, ainda que parecesse que partilhavam de Abril, o que verdadeiramente tinham era interesses. Pela porta de Abril pretendiam conseguir interesses que de outra maneira nunca conseguiriam. E quando assim é, Abril e todo o sonho que Abril representa, esfumam-se. Os interesses assassinam o sonho. E destruíram Abril. De certo modo, também destruíram o companheiro Vasco. Mas o Homem durou até agora. Só agora é que explodiu e ressuscitou. Diz a ciência que o actual Universo, onde o planeta Terra gira em redor do Sol, resulta da morte/explosão duma estrela. E o que sucede a homens como Vasco Gonçalves, habitados e possuídos pelo sonho e por Abril, quando morrem/explodem? Será que se convertem numa estrela? Não precisarei de fixar o céu estrelado à noite para o ver. Terei que olhar a Terra, o Mundo. Porque um Ser Humano, quando se converte em estrela é como Jesus, o de Nazaré: Só pode ser para ficar ainda mais com os outros seres humanos ainda por explodir. Particularmente, as vítimas dos Poderosos e dos Ricos que só têm interesses e desconhecem o Sonho que comanda a vida. Explodiste, Companheiro Vasco! O nosso mundo tornou-se por isso um pouco menos inumano. A luta continua. Agora, também com o teu Sopro. A messe é grande, mas os operários são poucos. O dono da messe bem se esforça por chamar operários para trabalharem na Messe. São inúmeros os que se apresentam. Mas quando se apanham um pouco mais favorecidos, depressa trocam o sonho por interesses. E fazem atrasar a História, ou põem-na a marcar passo, sem sair do sítio. Sopra forte e terno, Companheiro Vasco. Isto vai. Mais devagar do que gostaríamos? Mas vai. O Futuro é do Sonho. Dos interesses é a Morte, o Nada.
2. Nunca falei com ele cara a cara. E já há vários anos que o seu nome deixou de se pronunciar e a sua voz deixou de se ouvir. Ele próprio quis assim? Não sei. Só sei que hoje, quando o dia ainda ia na madrugada, também explodiste. E o teu nome, Camarada Álvaro Cunhal, voltou a todas as bocas. Será que o Sopro do Companheiro Vasco te espicaçou e tu percebeste que este País está a tornar-se irrespirável para quem continua a guiar-se pela Utopia como tu? O que sei é que agora que explodiste e o teu Sopro não nos deixa nunca mais adormecer sobre a exploração não já do homem pelo homem, mas do homem e da mulher e dos povos pelo Sistema sem entranhas de humanidade, não faltam vozes carregadas de hipocrisia que te tecem loas e mais loas. Calassem-se elas e teria muito mais dignidade o seu silêncio. São vampiros que espreitam as próximas vítimas humanas e até a Natureza. Acham que a tua morte lhes facilita a vida de vampiros. Elogiam-te, para ver se com isso desarmam ainda mais as vítimas. Não sabem que está a chegar um Tempo Novo, em que já não serão necessários líderes sentinelas, nem Partidos sentinelas. Cada Mulher, cada Homem, cada Povo será sentinela de si mesmo, ao mesmo tempo que operário. Está a terminar o Tempo da Menoridade humana, da pré-História. O teu Sopro e o de tantas e tantos outros portadores do estandarte da Utopia, juntamente com o Sopro de Jesus de Nazaré, estão a apressar a chegada desse Tempo Novo. Já lhe oiço os rumores. Os vampiros também ouvem. E por isso andam tão nervosos e tão violentos. Têm azar. O Futuro joga contra eles. A Utopia é que há-de tornar-se Topia. A distância que nos separa é apenas a duma vogal. A vogal U. E tu, Camarada Álvaro Cunhal, serás mais determinante do que nunca, na chegada deste Tempo Novo, agora que te tornaste Sopro, Corpo ressuscitado no Corpo Ressuscitado de Jesus, o Camarada que nos faz irmãs, irmãos universais na Justiça e na Liberdade.
3. Não sei o que vos deu, mas hoje nem o Poeta Eugénio de Andrade teve paciência para permanecer aqui connosco a cantar as Mortes/Explosões destes dois Irmãos de luta e de esperança. E correu a juntar-se à Poesia e ao Poema que, durante os anos maiores da sua vida na História, tanto o fizeram falar a língua que diz o Indizível. A partir de hoje, todo ele é indizível no Indizível que nos diz a todas, a todos nós. E sem Quem nunca teríamos chegado a ser. Tinhas tantas saudades da Poesia e do Poema, que não aguentaste mais tão grande orfandade. Entraste Mar adentro e agora és Rio no Mar. Não nos deixas órfãos. O que queres é que deixemos de nos contentar com os teus poemas, para sermos nós próprias, nós próprios Poemas vivos, Militantes de Causas que nos chamam do Futuro e que não podem ser ditas e cantadas enquanto nós que estamos no Tempo as não dissermos e cantarmos. Por mim, não quero outra coisa. O Poema está a chamar-me e eu não lhe sei resistir. O Império já range os dentes. Sabe que o Inferno foi criado só para ele. E que os gemidos e os gritos lancinantes das suas vítimas em todo o mundo são outros tantos Poemas que haveremos de dizer e de cantar. As madrugadas estão agora ainda mais à porta, graças a ti, Poeta Eugénio, e a ti, Camarada Álvaro, e a ti, Companheiro Vasco. Deixo-me abraçar por vós. E assim ficarei no Tempo, até me tornar também Sopro convosco, no Sopro de Jesus, o de Nazaré!
4. Ontem, 2.º domingo de Junho, Partimos o Pão em Memória de Jesus. Juntamente com a Palavra feita Sopro. Em redor da Mesa Comum da Casa da Comunidade. Tudo foi invulgarmente terno e violento. As pessoas que nos conhecem e rodeiam ao perto e ao longe evitam entrar nestes espaços fraternos, sororais. Pressentem que eles são o ventre onde quem lá entra tem que nascer de novo. E preferem continuar como “homem velho”. A Liberdade assusta. Exige que sejamos Pobres. Que deixemos os Interesses. Ora, as maiorias andam tão possessas de Desejos, de Interesses e de Coisas, que não suportam ser despossuídas e libertadas. Querem conjugar Liberdade com Interesses, com Coisas acumuladas, com Riqueza Concentrada. Por isso evitam entrar nestes espaços de Comunidade. A Mesa comum, o Pão Partido, a Palavra feita Sopro exigem Nascer de Novo. Morrer para os Interesses. Erguer-se para a Vida feita dom para os demais. Erguer-se para os afectos. Para a Ternura. Para a Revolução. Para a Festa. E para a Alegria. Pressentem que é este o Sopro que PASSA nos espaços de Comunidade e não querem uma tal Páscoa de Liberdade. Preferem as cebolas do Egipto. Os caldeirões de carne. A Alienação à solta. A Droga. A Mediocridade. O Vazio. A Superficialidade. As Águas Paradas e Apodrecidas.
Somos poucas, poucos? É verdade. E os que somos, companheiras e companheiros, ainda jogamos muito à defesa. Não vá o Sopro arrebatar-nos como se diz que arrebatou o profeta Elias e o fez desaparecer num carro de fogo. Mas o Sopro não se faz rogado e sopra. Sopra continuamente. Por isso, nunca mais esqueceremos cada um destes momentos, como o da tarde de ontem . Nem o Fogo que nos incendeia. Nem Enamoramento que nos arrebata.
Connosco, esteve um casal de Amarante. Raul e Ana, Ana e Raul. A palavra feita Sopro que soprou mais forte e nos abalou a todas, todos saiu da boca de Raul. Quase nos deixou prostrados e sem fala. Temos que morrer para o Inútil, para o Acidental, para o que nos condiciona e aprisiona, para vivermos exclusivamente e entusiasticamente para o Essencial. Só no Essencial é que somos. E existimos. No Invisível é que vemos e vivemos. A tarde foi de muita violência e de muita Ternura, como só o Espírito ou Sopro de Jesus é capaz. Ou não fosse Sopro libertador que nos levanta e humaniza e nos reduz ao Essencial. O sopro do Império é assassino. Oprime e mata. Subjuga e esmaga. Nem que seja sob o peso de privilégios sem conta. O Poder é Golias preso e esmagado pelo peso da armadura. A Liberdade é David acompanhado pela funda da Ternura e da Profecia que, muitas vezes, funciona como Farpas!
Nunca mais o nosso viver é igual, depois deste Encontro de ontem com o Sopro, feito Palavra Partilhada e Pão Partido e Comido. A Liberdade é o nosso destino. E a Maioridade é a nossa condição de todos os dias. Por isso canto com todas as forças: Bem-aventurados os pobres. Felizes os que querem ser pobres. Raul e Ana foram os portadores deste Evangelho. Para sempre.
2005 JUNHO 12
1. Ontem, voltei à feira do Livro do Porto. Desta vez, a convite da Editora Ausência, onde tenho dois livros publicados: “Como farpas. Mas com ternura” e “Canto(S) nas Margens”. Se os olhares matassem, dificilmente, teria saído vivo da Feira. Não foram muitos, mas alguns olhares houve que, se pudessem, ter-me-iam reduzido a nada. A minha simples presença, sempre desarmada e sem quaisquer guarda-costas, desperta ódios de exclusão e de morte em certas pessoas, católicas fanatizadas, porventura. Felizmente, não são muitas. É muito maior o número de pessoas em quem a minha presença desperta contentamento e admiração. Pude constatá-lo ontem mais uma vez. Nem todas se aproximam de mim, certamente, para não perturbarem o serviço que estou a fazer. Mas algumas não resistem. Mesmo que já possuam os livros, acabam por se aproximar. Com um sorriso. Um cumprimento. Um abraço. Um beijo. E com algumas palavras de muito afecto.
Durante a tarde de ontem, voltou a ser assim. Um companheiro houve que procurava o livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo”. Teve de ir por ele ao stand da respectiva Editora Campo das Letras. Não sem, primeiro, me fazer dissertar por instantes sobre ele. Quando foi por ele, já ia com o coração a arder. Como aquele casal de discípulos de Emaús, de que nos fala o Evangelho de Jesus segundo S. Lucas. Foi num pé e veio noutro. Para que eu escrevesse uma dedicatória autografada. Só depois, à despedida, é que me confidenciou que era membro da Igreja Metodista. Aproveitei e enviei por ele um especial abraço fraterno ao Bispo Ireneu Cunha, meu amigo pessoal. Só espero é que este companheiro cristão protestante leve a boa notícia aos outros membros da Igreja. Para que toda a Igreja se abra a este Jesus e caminhe com ele, terceiro milénio além.
Um outro companheiro fez questão de permanecer comigo bastante mais tempo. Tinha questões várias a colocar-me, por sinal, todas elas muito pertinentes. Solicitou uns dez minutos, ficou mais de meia hora. E ainda lhe soube a pouco. Por isso, prometeu que, um dia destes, mete pés a caminho e vem até Macieira da Lixa, para prosseguirmos a conversa com mais tempo. Incitei-o a que faça como diz. É a conversar que nos entendemos. Os Nicodemos são de todos os tempos e povos, não apenas do tempo de Jesus e dos judeus. O encontro é sempre com Jesus. Agora, o Jesus que também vive em mim, enquanto seu discípulo, graças ao seu Sopro, ou Espírito. É esta a condição das discípulas, dos discípulos de Jesus. A sua alegria. E também a sua responsabilidade. É por isso que ser Igreja de Jesus, mais do que um privilégio, é um serviço, uma responsabilidade. “Sereis minhas testemunhas”, é o que Jesus espera de nós. Mas as Igrejas, com o tempo, tornaram-se castas, seitas, fortalezas, empresas, ocupadas com muitas coisas, como Marta, irmã de Maria, sem se darem nunca conta que a única coisa que haviam de fazer – Evangelizar os pobres – acaba por nunca ser feita. Por isso a Humanidade é hoje tão doente. E tão deprimida. E tão violenta. E tão desfraternizada.
De toda a conversa, deixo aqui um registo do Evangelho que mais se fez ouvir por ambos: Não há um Cristianismo apenas, há Cristianismos. Uns anteriores a Jesus de Nazaré. Outros contemporâneos de Jesus de Nazaré. E outros posteriores a Jesus de Nazaré. O Cristianismo de Jesus de Nazaré é único. Todos os outros Cristos que vieram antes de Jesus – é o Evangelho de S. João quem se atreve a fazer esta afirmação – são ladrões e salteadores. Vieram apenas para matar, roubar e destruir! Igualmente, os que vieram depois de Jesus. Só Jesus veio para que todas, todos tenham vida e a tenham em abundância! O surpreendente, para não dizer, o escândalo – é esta a palavra que S. Paulo utiliza, quando escreve aos coríntios – é as primeiras comunidades cristãs, lideradas por mulheres, como por exemplo Maria, a mãe de João Marcos, e, sobretudo, Maria Madalena (a mãe de Jesus acabou por integrar alguma destas comunidades, mas nunca liderou nenhuma!), terem chegado a “ver” no Crucificado Jesus o Ressuscitado, isto é, o Filho Amado de Deus, o Cristo de Deus. Esta “visão”, ocorrida ao nível da consciência, foi de tal modo chocante e escandalosa, isto é, tão contrária aos critérios da cultura e das religiões do Paganismo então dominante, que as comunidades, durante muito tempo, não se atreveram a contar a ninguém semelhante boa notícia, semelhante Evangelho. Aliás, o Evangelho de Marcos é assim que conclui a sua narrativa. Com esta “visão” das mulheres e com este medo delas em contar a Boa Notícia a alguém. E também com este seu silêncio! O que o meu livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo” vem revelar é que o Cristianismo que as Igrejas, a começar pela Igreja católica, seguem tem mais a ver com o Cristo do Império romano de Constantino, do que com Jesus de Nazaré. É um Cristo imperial, vitorioso, triunfador dos inimigos. Por isso, o Império e a Igreja que com ele se aliou no século IV, fala mais de “Cristo” e de “filho de Deus” do que de Jesus de Nazaré. Daí, Cristianismo, em lugar de Jesuanismo. E o Cristo de que fala não coincide com Jesus de Nazaré que o Império, sob Pôncio Pilatos crucificou, como um perigoso subversivo, muito mais perigoso que Barrabás, mas apenas com o Cristo do Paganismo, o mítico “filho de Deus” que todos os anos nascia, morria e ressuscitava nos cultos que os sacerdotes oficiavam nos templos. Para isto ser possível, a “ressurreição” de Jesus teve que ser interpretada em termos de vitória sobre os inimigos, não em termos de reconhecimento de Deus, como efectivamente é, no dizer da genuína teologia cristã jesuânica. O reconhecimento de Deus consiste em Deus estar inteiro com Jesus crucificado pelo Templo e pelo Império coligados, e não com o Templo nem com o Império. Consiste em Deus dar total razão a Jesus crucificado pelo Templo e pelo Império coligados, e não ao Templo, nem ao Império. Ora, o que Constantino e a Igreja de então fizeram foi negar esta Boa Notícia, ou Evangelho e proclamar urbi et orbi que Deus está com o Templo e o Império (Poder) e com o que eles façam; que Deus dá razão ao Templo e ao Império. De modo que as pessoas e os povos devem submeter-se igualmente a um e a outro, devem respeitar a Ordem Mundial que um e outro sancionam, porque é a única Ordem querida por Deus! Eis a mentira das mentiras, que mantém a Verdade cativa na injustiça, e em consequência, a Humanidade estruturalmente oprimida. Que é, de resto, a nossa condição ainda hoje! Por isso, eu tenho dito e repito que o meu livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo” é o meu livro mais polémico e o mais revolucionário de todos. E é o livro da minha vida. Se o tomarmos a sério, teremos que reconhecer que o Cristianismo que conhecemos e em que ainda hoje vivemos no Ocidente e no mundo é o Cristianismo do imperador Constantino e do Papado romano, não é o Cristianismo de Jesus de Nazaré, o Crucificado que Deus ressuscitou. Em consequência, teremos que começar tudo de novo, refundar o Cristianismo de Jesus, refundar a Igreja de Jesus. Por outras palavras, temos que regressar a Jesus de Nazaré o Crucificado, temos que regressar ao Evangelho segundo São Marcos. É também por isso que o meu maior desejo é que este meu livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo” entre em cada casa de Portugal e seja traduzido em todas as línguas, pelo menos, naquelas em que a Bíblia já está traduzida. Porque só com o autêntico Jesus de Nazaré e com a mesma Fé de Jesus de Nazaré é que a Humanidade chegará a ser verdadeiramente humana, verdadeiramente ela própria, verdadeiramente autónoma e protagonista na História. Será que temos coragem? Ou preferimos enterrar a cabeça na areia e dizer que o mensageiro deste Evangelho é um louco e um ressentido?
2. Mas às crianças, senhores, porque lhes mentis tanto? Faço esta pergunta a propósito do que voltou a ocorrer no passado dia 10 de Junho em Fátima. A data é feriado nacional, enquanto dia de Portugal, de Camões e das Comunidades portuguesas espalhadas pelo mundo. Mas para a hierarquia católica portuguesa a data é dia de peregrinação anual das crianças a Fátima. Há sucessivos anos que é assim. Com a conivência do Presidente da República, do Governo, dos Deputados da Nação, dos Autarcas (são todos muito laicos, mas é de garganta, porque, na prática, não passam de sacristães dos bispos, nomeadamente, do cardeal patriarca de Lisboa, seja ele Cerejeira, ou Policarpo). E também com a conivência das mães e dos pais das crianças que, neste dia, são arregimentadas pelos párocos das Paróquias católicas, especialmente, do norte do País, para irem em autocarros, de peregrinação até Fátima.
Párocos e Bispos mentem que se fartam. E que mintam às pessoas adultas, é mau, mas as pessoas adultas já podem dar-se conta da marosca e virar as costas a quem insiste em tratá-las como crianças ou como analfabetas. Mas mentir às crianças é o cúmulo do escândalo e do pecado. Mas é o que os párocos e os bispos da Igreja católica fazem, quando, no dia 10 de Junho de cada ano, organizam e patrocinam a peregrinação nacional das crianças a Fátima. E onde está a mentira? Aqui: convencem as crianças que vão ao encontro de Maria, mãe de Jesus, quando o que as crianças encontram lá é uma imagem da mítica deusa ou senhora virgem e mãe, dos cultos do Paganismo mais primitivo, os quais sobreviveram até aos nossos dias, graças à Igreja católica romana e aos seus mentirosos “cultos marianos”.
Ora, a mãe de Jesus, mulher histórica como qualquer das nossas mães, não anda por aí a “aparecer” a criancinhas, muito menos a aterrorizar e a fazer morrer antes de tempo criancinhas, como aconteceu com duas das três crianças da Paróquia católica de Fátima, em 1917. E quem disser que anda, mente com quantos dentes tem na boca. Os bispos e os párocos católicos têm obrigação de saber isto tanto como eu sei. E se não o dizem publicamente como eu digo, é por conveniência, é por medo, é por cobardia, é por interesses mais ou menos obscuros que não estão dispostos a perder. Desafio aqui qualquer um a desmentir-me. Com recurso ao Evangelho de Jesus e à Teologia cristã jesuânica. Nunca nenhum o fará. Jamais! Não podem fazê-lo. A menos que inventem outro Evangelho e outra Teologia. Em nome de Jesus, é absolutamente impossível desmentir-me!
Por isso é um crime de lesa-crianças o que eles fazem, quando arrastam as crianças para Fátima. Um crime mais grave que os crimes de pedofilia que hoje, muito justamente, repudiamos, sem que, entretanto, repudiemos, pelo menos, com a mesma energia, este crime ainda maior, mais grave. Só a verdade, diz Jesus, nos faz livres. A mentira faz-nos escravos, oprimidos, tristes, súbditos, subservientes. E tais são os frutos que a mentira senhora de Fátima produz. Mesmo que as pessoas digam que se sentem lá bem, é um sentir-se bem como o da droga, não é um sentir-se bem como o da liberdade.
Em verdade, em verdade lhes digo a todas, a todos: A senhora de Fátima não só não faz parte da Fé cristã católica, não tem cabimento na Fé de Jesus, como até lhe é completamente estranha e contrária. Onde houver Fé cristã jesuânica, não pode haver senhora de Fátima. Digo-lhes mais: Quem hoje quiser ser cristã jesuânica, cristão jesuânico, tem que começar por renunciar à senhora de Fátima e a todas as senhoras com outros nomes que por aí proliferam como cogumelos. Todas são imagens das míticas deusas do Paganismo que invadiram o Catolicismo romano, quando ele se desviou do Cristianismo de Jesus. Oiçam esta Boa Notícia que lhes digo e creiam nela. A vossa vida passará a ser mais alegre, mais saudável, mais liberta, mais feliz. Vão por mim, na medida em que eu vou pelo Evangelho de Jesus! Vivamos a mesma Fé de Jesus. E o resto virá por acréscimo!
Mas este ano, a “peregrinação” a Fátima ainda foi mais chocante e vergonhosa. Teve foros de circo. Só faltaram os palhaços (desculpem os profissionais, esta referência menos abonatória, mas é inevitável). Ou talvez não. Se pensarmos bem, temos que reconhecer que nem os “palhaços” faltaram neste circo de Fátima. Foram uns quantos cadetes das Forças Armadas portuguesas (será que o seu chefe máximo, o PR Jorge Sampaio, foi sabedor?) fazer esse papel. Mais uns quantos para-quedistas. As crianças puderem vê-los ao vivo e de perto. Talvez, quem sabe, para um dia, com a falta de emprego que grassa pelo país, se alistarem na tropa e irem servir a “paz” nas fileiras do Exército! (Que longe se está do Cristianismo de Jesus, quando quem fosse militar nem sequer podia candidatar-se ao sacramento do Baptismo! Agora, parece que os militares são o exemplo acabado de discípulos de Jesus! Mas que Jesus? Só se for o do Império romano, ou do Império de Bush!). Espantam-se com o que acabo de escrever? Então leiam um extracto da reportagem que o DN, do dia 11 de Junho 2005 em boa hora publicou. Leiam e deixem-se estarrecer. É de pôr os cabelos em pé. Eis:
“As crianças que participaram em grupos organizados eram mais de 20 mil, tendo o número total de peregrinos que conseguiu assistir às celebrações, ultrapassado os 125 mil. Este ano o Santuário preparou uma cerimónia cheia de surpresas para os mais novos, incluindo a participação dos três ramos das Forças Armadas. Foram convidadas as escolas dos três ramos Marinha, Exército e Força Aérea. Estiveram presentes 15 cadetes de cada ramo. Fizeram guarda de honra à cruz e ao altar, intervieram na comunhão e levaram o andor com a imagem de Nossa Senhora para a Capelinha das aparições durante a Procissão do Adeus. Esta presença foi explicada pelo capelão da Marinha, padre José Ilídio pelo tema deste ano - V Mandamento: “Não matarás!”. Para o padre, a simbologia que os militares ali levaram é esta: “As Forças Armadas devem garantir a paz para não se fazer a guerra”. Assim, tal como as orações rezadas no recinto, os cadetes desempenhavam ali uma “missão pela paz”. Foram motivo de grande admiração por parte dos miúdos que não estavam à espera de os ver, mas disseram que gostaram. O Rafael Carvalho e a Cláudia Pereira, ambos com 10 anos saíram de Felgueiras de madrugada. Para eles “foi muito bonito”.
Já no final, o reitor, Monsenhor Luciano Guerra foi entretendo a criançada que torrava ao sol e começava a mostrar sinais de impaciência. Estava à espera do lançamento de pára-quedistas que constituía a surpresa final. Depois dos cânticos e dos jogos de pergunta-resposta sobre o que poderia acontecer lá apareceu o avião que lançou os cinco homens. Começaram por ser pequenos pontos no ar, desde logo aplaudidos em grande ovação.”
3. Não resisto a transcrever também aqui neste meu Diário Aberto um texto do Bispo de Aveiro, D. António Marcelino, a propósito do pedido formulado pela Associação “República e Laicidade”, para que venham a ser retirados das escolas todos os símbolos católicos, a começar pelos crucifixos. O pedido é mais que legítimo e oportuno. Mas alguns membros da hierarquia católica, com destaque para o Bispo de Aveiro e para o Arcebispo de Braga, actual presidente da CEP, enfureceram-se de tal modo que não perdem pitada e lá voltam ao ataque sempre que podem e podem muitas vezes, como se sabe, dado que, lá onde eles intervêm, toda a gente se cala e acata com hipócrita reverência!...
Ofereço-lhes aqui o texto integral dum artigo que D. António Marcelino assinou, dia 15 de Maio 2005, no órgão oficial da Diocese, titulado “Correio do Vouga” (o título está bem apanhado, quem diria que por trás deste título se esconde o órgão oficial – nem sequer oficioso – da Diocese de Aveiro? Mas é essa a verdade!). Leiam e vejam como até os bispos perdem a compostura, quando sentem que o seu poder e os seus privilégios estão em risco. A mim, pessoalmente, o que mais me escandaliza é que os bispos da nossa Igreja católica que deveriam ser os primeiros a exigir que os crucifixos e outros símbolos católicos sejam retirados das escolas, ainda venham protestar contra quem o faz por eles. Repito: Deveriam ser eles os primeiros a fazê-lo. Em nome da boa convivência democrática. E da igualdade de tratamento de todas as Igrejas e Religiões perante o Estado português, que é constitucionalmente laico. Em nome da Liberdade. Em nome da dignidade humana. E, sobretudo, em nome de Jesus que não tem nada que ser representado por um símbolo dos cultos do Paganismo do tempo do Império Romano, como é a cruz com a imagem de um crucificado. Leiam. E pensem: quando um bispo católico reage assim, como D. António Marcelino, aqui reage, o que pretende esconder? Do que é que tem medo? Eis, pois, o texto na íntegra:
“Os crucifixos das escolas e as alminhas das estradas....
Quando há anos saudei o Dr. Manuel Alegre, então responsável do Ministério da Comunicação Social, para lhe desejar o melhor êxito, num campo ainda muito armadilhado mas de grande alcance público, tinha eu, ao tempo, igual responsabilidade no mesmo sector da Conferência Episcopal Portuguesa. Recebi dele um cartão de agradecimento, muito expressivo e gentil. Nele me dizia que o PS sempre respeitaria a Igreja, pois tinha consciência de que a história de Portugal não se pode fazer, sem ter presente a acção da Igreja ao longo dos séculos. A Igreja era, então, tida como uma benemérita do povo, que atravessava o tempo. As pessoas cultas, crentes ou agnósticas, respeitam, sem favor, a verdade histórica e percebem nela o entrelaçado que a tece e o dinamismo que a comanda. Só por cegueira ou preconceito, se pode turvar água limpa que jorra e corre para bem de todos. Apareceu há tempos uma associação, da qual não se discute a legitimidade de ser o que quiser, com o objectivo, por exigência do laicismo, de apagar sinais do cristianismo, conspurcar a acção histórica da Igreja, fazer tábua rasa de valores morais e religiosos da nossa tradição e cultura. O alvo é sempre a Igreja Católica, como se os seus membros responsáveis fossem um grupo de bandoleiros que pretendem impedir a luz e os ventos que sopram da Europa laica. E o braço político, temerário e submisso ante pequenos grupos aguerridos, parece entrar na campanha, tão pobre de cultura, como de cidadania. Agora, é a caça aos crucifixos que, depois da Revolução de Abril, ainda se vêem em algumas escolas do Estado. Temo-los visto, aqui e ali, por vezes limpos e com flores, e, também, com pó e teias de aranha. Vá lá limpá-los quem é pago pelo estado laico!...O Crucifixo! O mais significativo gesto de amor da história humana, com sinais de séculos na bandeira nacional, agora ofende o laicismo!... A senhora Ministra já deu ordens para que se saiba das transgressões, se tomem providências, se acabe com o escândalo do que resta ainda de sinal religioso nas escolas. A inquirição, segundo a denúncia feita, atinge ainda os que permitem estranhos a falar de Deus nas escolas. O grande problema da educação em Portugal é, então, a existência de sinais religiosos que desorientam crianças e não respeitam o laicismo de todos! Os professores que educam crianças concretas, em terras e famílias concretas, não podem ter critérios educativos próprios, a menos que sejam critérios laicos… O Estado é o dono das crianças e seu protector. Os pais que não se metam onde não são chamados, tanto mais que há agora gente laica, que ninguém conhece, preocupada com os seus filhos… A associação está tão zelosa por defender “o espaço público que garanta a laicidade de todos”, que não me admiro que venha a pedir também a retirada dos símbolos religiosos da bandeira nacional, onde estão desde há séculos, e a exigir a destruição das “alminhas”, devoção do povo “ignorante”, espalhadas por essas estradas do país, a poluir os horizontes de todos e a incomodar os não crentes incómodos. Não me admiro que se mova uma cruzada que expurgue das vias publicas tudo quanto é nome de santo, de igreja e convento, e se ordene um bota abaixo de estátuas de gente ligada à religião cristã, porque as ruas e praças de todos são precisas agora para personagens da família laica a promover, gente de que ninguém conhece pai nem mãe, nem feitos que mereçam honras… Um vendaval de zelo anti cristão, mais sofisticado que o da I República, que prometeu acabar com a religião em poucas gerações…Tudo em nome da Constituição da República. Esta consagra, de facto, a separação da Igreja e do Estado ou o Estado não confessional. Todos aceitamos ser este um regime actual e benéfico. Mas é isto o “estado laico”, que parece querer uma guerra religiosa, tão tola como fora do tempo? Se entramos num regime pidesco que, sob pretensão de legalidades, se põe a agir, desprezando o bom senso e o povo que não é órfão e sabe o que quer, certamente que não é a paz o que procuram ou pretendem os novos laicos.”
2005 JUNHO 09
1. Continuo privado da carrinha. Teve que ir para o oficina, depois do acidente e ainda por lá permanece. Tenho recorrido ao automóvel do R. Filipe, sempre que necessito de me deslocar mais longe. Desde a primeira hora que ele se disponibilizou para me prestar esse serviço. Não tenho querido abusar, mas quando tem que ser, não hesito. Para já, foram duas as vezes que o utilizei. Mas ontem de tarde precisei de ir à cidade da Lixa entregar a participação do acidente a uma agência de seguros e, em lugar de recorrer ao carro do R. Filipe, recorri à boleia. Saí a pé para a estrada, na esperança de ver alguém conhecido a conduzir em direcção à Lixa. Não tive que andar muito a pé. Logo apareceu uma camioneta de carga que se disponibilizou a dar-me boleia. Deixou-me à entrada na cidade. O resto do percurso até à agência de seguros, no Terreiro, fi-lo a pé. Já passava das 17 horas, mas o calor continuava intenso. Na minha alegria, avancei em passo firme, como quem procura dominar o calor. As pessoas surpreendiam-se por me verem a pé, assim tão ao alcance das mãos delas, e também tão determinado na passada. Correspondiam à minha saudação com um sorriso. Senti-me ainda mais próximo de todas elas. E não pude deixar de pensar nos benefícios de proximidade e de humanidade que temos perdido, à medida que passamos a andar de carro a toda a hora e instante. O carro faz-nos chegar depressa a qualquer sítio. Mas com a mesma velocidade afasta-nos das outras pessoas. E, quando menos cuidamos, até de nós próprios já andamos fugidos, não sabemos mais quem somos, nem porque corremos tanto. Por mim, já sabia deste perigo, mas ontem, ao atravessar a cidade da Lixa a pé, tomei mais consciência dele. Ora, a grande distância que precisamos de vencer para sermos nós próprias, nós próprios, é a distância que nos separa dos demais. Quando vencemos esta distância, somos humanos, reconhecemo-nos da mesma raça humana, da mesma família humana, somos irmãs e irmãos. Ao contrário, se vencemos todas as outras distâncias e cada vez mais nos afastamos umas das outras, uns dos outros, então podemos ganhar até o mundo inteiro, mas perdemos a nossa alma, a nossa identidade. E, com o passar dos anos, acabamos sem sequer saber quem somos e porque corremos tanto. Somos a alienação em figura de gente!
Encontrei a Agência e entreguei a declaração. Estava conforme. Os poucos minutos que permaneci parado dentro da Agência deixaram-me alagado em suor. Mesmo assim, sentia-me alegre e feliz. Nunca deixei que o calor me dominasse. Continuei a impor-me a ele. E lá voltei à rua, disposto a pedir nova boleia. Mas antes, quis parar num pequeno mercado, para comprar pão de Padronelo, Amarante. Há tempos, descobri que aquele mercadinho vende deste pão de qualidade e, desde então, sempre que passo lá e estou desfalcado de pão em casa, paro para me abastecer. Quando digo que é pão de qualidade, quero dizer que é pão escuro, de farinha não refinada. Muito melhor para a saúde. Em geral, as pessoas preferem o pão branco, sem fibra. Desconhecem que o pão escuro é que é o pão de qualidade. Pagam mais dinheiro e alimentam-se pior. Não vou por aí. No que respeita a pão, o “parolo” é que é o melhor.
A dona do mercadinho já me conhece e também conhece os meus gostos. Desta vez, não estava sozinha. Aliás, quase nunca está sozinha. O ambiente é familiar e há pessoas das redondezas que aproveitam e vão até lá conversar e conviver. Quando me viram entrar, logo sorriram de cumplicidade, como quem diz: Lá anda o padre Mário às compras (coisa rara num padre)! E não faltou quem aproveitasse logo a minha presença assim tão tu-cá-tu-lá, para me colocar questões teológicas que gostaria de ver esclarecidas. O diálogo aconteceu por cerca de 10 minutos. Mais uma vez lá tive eu que desmentir as catequeses da hierarquia católica que insistem em ensinar que “nossa senhora” é outro nome para dizer Maria, mãe de Jesus. Não é. A conversa foi animada. Quem entretanto entrou no mercadinho integrou-se naturalmente na conversa, sem pressas de ser aviado. O Pão da doutrina ganhou mais importância do que o outro pão que se compra e se vende. O da doutrina foi dado de graça. Faz parte do meu ministério e do meu magistério presbiteral. Assim, sem mais aquelas, voltou a acontecer, ali, em pleno mercadinho. Os olhos das pessoas – éramos umas seis – estavam iluminados. Também surpresos. E felizes. A Verdade que nos faz livres aconteceu por instantes. Os efeitos libertadores perdurarão pelo resto das vidas das pessoas que dela beneficiaram. Mas a conversa soube a pouco. Por isso, a dona do mercadinho propôs um encontro com tempo, para uma quinta-feira a combinar, e fora do mercado. Ela própria se encarregará de comunicar às pessoas interessadas. Ao que diz, são muitas, ali das redondezas. Aplaudi a proposta com as mãos ambas. E lá irei com todo o gosto ao encontro. A minha alegria é Evangelizar os pobres. Sem qualquer outro interesse que não seja contribuir para a libertação das pessoas. Nem prosélitos quero fazer, porque não estou interessado em fazer uma Igreja paralela. De resto, o que hoje mais há são Igrejas. Prefiro que as pessoas, à medida que acolherem a Verdade e se libertarem, descubram como organizar-se, se em pequeno grupo, se em pequena comunidade. Constato que a maior parte não faz uma coisa nem outra. Fica simplesmente mais liberta e em auto-gestão. Também é uma postura possível e legítima. E que me deixa igualmente feliz e contente. Para isso nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da Verdade. Não como mestre, evidentemente, mas como discípulo. Discípulo da Verdade. Discípulo de Jesus, a Verdade por antonomásia.
Saí do mercadinho com o pão que comprei e pus-me a olhar para todos os carros que avançavam em direcção a Macieira da Lixa. Pouco depois, o condutor de um dos muitos carros que passaram por mim, reconheceu-me na postura de quem procura boleia e fez sinal de parar mais adiante. Corri para ele. Foi então que vi tratar-se de Eduardo e sua mulher, conterrâneos meus, do lugar de Marco de Simães, por sinal, o casal a quem pertence o muro que involuntariamente derrubei, na noite do acidente. Nem de propósito. Ainda de manhã tinha estado a conversar com Eduardo e com Jaime, seu vizinho, que também trata de seguros, mas não da companhia em que está segurada a carrinha, sobre a participação que ontem mesmo tencionava entregar à Companhia. E foram eles quem me indicou a agência na cidade da Lixa. Ao ver que era Eduardo o condutor, extravasei a minha satisfação pela coincidência. E aproveitei a boleia até casa dele. Ficou ele contente e eu. E dei comigo a constatar que o acidente está a ter uma dimensão de Graça, de Salvação, de Bem, que me deixa agradavelmente surpreendido. A partir dele, tornei-me mais próximo de pessoas que até agora me olhavam de longe, sem nenhuma salutar cumplicidade, quase como pessoas estranhas. Agora, olham-me como o seu próximo. Eu próprio vejo-me ainda mais próximo dessas pessoas e de todas as outras. Por isso mais humanizado. O que me leva a confirmar que até o desastre é Graça. Tudo é Graça, até um desastre.
Mas esta maravilha da Graça que me rodeia e me faz não acaba aqui. Depois que deixei Eduardo e sua mulher, voltei a meter os pés à estrada, em direcção à casa onde moro, na Maçorra. De repente, toca o telemóvel. Quem havia de ser? O meu grande amigo de Amarante, que ganhei recentemente, via internet. Soube do meu acidente, ao ler o meu Diário Aberto, e logo me telefonou, preocupado. E a querer saber por quanto ficará o conserto da carrinha. Na altura, não lhe soube dizer. Voltou agora de novo à carga, para que eu lhe dissesse. A verdade é que continuo sem saber quanto será a despesa do conserto, mas já lhe soube dizer o nome da oficina onde está a carrinha e a sua localização. O meu amigo agradeceu e garantiu-me que vai passar, ele próprio, por lá a saber. Disse-me que quer ajudar a pagar o conserto. E eu fico assim sem palavras. Mas em intensa eucaristia, que é, afinal, a atitude que mais sei ter na vida. Na minha condição de padre pobre, vivo em permanente Eucaristia. Não faço missas para ganhar dinheiro, como a maior parte dos meus colegas ainda faz, para sua vergonha, num ritual que materializa um sacrilégio e perfaz um insulto ao nome de Deus. O que faço é viver em permanente Eucaristia, ou Acção de Graças.
Acho, até, que só os pobres podem viver em Eucaristia. Os outros, ou são padres que fazem missas para ganhar dinheiro, ou são fiéis católicos que pagam aos padres para que lhas rezem, tudo no estilo de quem negoceia com Deus: Dou-te isto, para que Tu em troca me dês aquilo. É por isso que eu não suporto a Religião. Basicamente, a Religião é um negócio com Deus. O que me enoja. Deus é a Pura Graça, o Puro Dom, a Pura-Gratuidade-em-Acção. Por isso, negociar com Deus é o maior insulto que se pode fazer ao seu nome. Mas a Religião, na prática, não é outra coisa que negociar com Deus. Os próprios sacerdotes são os “intermediários”, os que metem “cunhas” a Deus. Nunca a Humanidade desce tão baixo, como quando envereda pela Religião. Em lugar de viver a aventura da Graça e tornar-se ela própria dom, reciprocidade, na comunhão com o Sopro ou Espírito de Deus, corre a inventar a Religião e assim se perverte por completo.
A esta luz, tenho que dizer que a Religião é a Mãe de todas as perversões. Nunca os seres humanos descem tão baixo, se pervertem tanto, como quando se fazem religiosos. E andam as Igrejas a ensinar que ser religioso é a expressão máxima do humano! Fazem-no, certamente, para justificar toda a actividade religiosa que desenvolvem. Mas razão tem o livro do Apocalipse, ou da Revelação última, quando nos descreve a cidade ideal como um espaço cheio de mulheres, de homens, mas sem nenhum templo, sem nenhuma religião, uma cidade em que Deus é tudo em todas, todos, e em que todas, todos são puro dom umas para as outras, uns para os outros.
Creio que o meu grande amigo de Amarante também é assim que já está a ver as coisas. Já terá percebido que o meu viver pobre (desde que me reformei como jornalista, passei a viver basicamente com a reforma que acaba de me ser atribuída, exactamente, 429 euros/mês, uma vez que os direitos de autor pela venda dos livros continuam a reverter integralmente a favor da construção do Barracão de Cultura), mas saudavelmente alegre e feliz é uma ininterrupta Eucaristia que está a fazer bem ao mundo, também a ele e à sua casa. Só assim se explica que o meu Amigo de Amarante vibre tanto com a minha vida. Ao ponto de querer colocar parcelas dos seus bens ao serviço de causas e de projectos que visem abrir os olhos da consciência das pessoas, libertar os oprimidos, mandar em liberdade os alienados pela religião, dignificar os pobres, ao ponto de fazer deles os protagonistas do seu próprio processo de libertação.
Disse, pois, ao meu amigo o nome da oficina e a localidade em que ela fica. E senti que ele ficou contente. Se tudo acontecer como já estou a prever, então o desastre que sofri é ainda mais Graça, mais Festa, mais Vida. E eu só tenho que concluir que tudo me é dado, sem que eu nada mereça, tudo me é dado por pura Graça. Para tanto, basta que eu aceite continuar a viver como as aves do céu que não semeiam nem ceifam, nem guardam em celeiros, e como os lírios do campo que não trabalham nem fiam. E, no entanto, continuam a viver entre nós e connosco, desde o princípio do mundo. Infelizmente, nem as Igrejas acreditam neste Evangelho de Deus, anunciado e vivido por Jesus de Nazaré. E a prova é que não descansaram enquanto não converteram esta Boa Notícia de Deus em Religião. Com ela, garantem a sua segurança, aumentam o seu património, crescem em influência e em privilégios, mas são anti-sacramentos de Deus no meio do mundo. Melhor fora, por isso, que os pobres do mundo lhes atassem mós de moinho ao pescoço (certamente, nas pessoas dos seus chefes) e as lançassem ao mar. Porque, em lugar de serem Igrejas que libertam os pobres da sua alienação, alienam-nos ainda mais e constituem-se em outras tantas pedras de tropeço, nas quais os pobres do mundo sistematicamente esbarram e se desmobilizam politicamente.
Por isso, só posso dizer destas Igrejas o que Jesus terá dito dos doutores da lei e dos fariseus hipócritas do seu tempo e país (cf. Mateus 23): Ai de vós Igrejas, porque fechais aos homens o Reino do Céu! Nem entrais vós, nem deixais entrar os que o querem fazer. Ai de vós, Igrejas, que devorais as casas das viúvas, com o pretexto de prolongadas orações! Por isso sereis mais rigorosamente julgadas. Ai de vós, Igrejas que percorreis o mar e a terra para fazer um prosélito e, depois de o terdes seguro, fazeis dele um filho da perdição, duas vezes pior do que vós! Ai de vós, guias cegos, que dizeis: Se alguém jura pelo santuário, isso não tem importância; mas se jura pelo ouro do santuário, fica sujeito ao juramento. Ai de vós, Igrejas, que nas vossas liturgias vestis de linho branquíssimo, quando por dentro estais cheias de rapina e de iniquidade. Ai de vós, Igrejas, porque sois semelhantes a sepulcros caiados: Formosos por fora, mas por dentro cheios de ossos de mortos e de toda a espécie de imundície! Assim também vós, Igrejas: por fora pareceis justas aos olhos dos outros, mas por dentro estais cheias de hipocrisia e de iniquidade. Ai de vós, Igrejas, que edificais sepulcros aos profetas e adornais os túmulos dos justos, dizendo: Se tivéssemos vivido no tempo dos nossos pais, não teríamos sido seus cúmplices no sangue dos profetas. Deste modo, confessais que sois filhas dos que assassinaram os profetas. Acabai então de encher a medida dos vossos pais! Serpentes! Raça de víboras! Como podereis escapar ao juízo das vítimas da História?
2. No nosso país, os incêndios nas matas e florestas já estão de volta. E ainda é primavera. É assim todos os anos por estas alturas.. A par destes incêndios nas matas e florestas, sobe de intensidade o incêndio do descontentamento social. Mas, a ser verdade o discurso oficial, é o próprio Estado português que está a correr a pique para a falência. Será que vamos voltar à idade da pedra? Não sei. Sei que, também no nosso país, os ricos são cada vez mais ricos. E que os pobres são cada vez mais pobres e em maior número. Constato, entretanto, que os estádios de futebol continuam a encher, mesmo em dias de semana. Porém, o tom da contestação social sobre nos meios de comunicação social e ameaça subir também nas ruas, embora eu ainda não tenha visto nenhuma marcha de desempregados!... No entanto, dizem as estatísticas nacionais que os desempregados nacionais já são à volta de meio milhão! Um exército que pode muito bem derrubar o actual governo de maioria absoluta socialista. Temos, pois, por um lado, o calor meteorológico a subir de dia para dia. E, por outro lado, a seca generalizada que nos ataca por todos os lados. Nem as devotas, os devotos da senhora de fátima se lembram mais de recorrer a ela. Todas as procissões que se organizaram há meses, falharam redondamente. Está visto que a senhora de fátima não passa de um pedaço de madeira em forma de corpo de mulher, por sinal, um corpo muito pouco feminino, sem nenhum dos encantos que os corpos das mulheres nos costumam oferecer a todas, todos, para glória de Deus. Canso-me de dizer isso, mas as católicas, os católicos não me têm querido ouvir. Agora, talvez me comecem a dar razão. Mas é preciso mais, muito mais. É preciso que o país deixe de ser um país de futebóis e de santuários "marianos", de romarias e de promessas à senhora de fátima, a santa rita, ou ao s. bentinho da porta aberta, e passe a ser um país de mulheres políticas, de homens políticos praticantes. Está visto que não há salvadores da