2004 JUNHO 29

O primeiro-ministro Durão Barroso fugiu hoje do Governo para a Europa. Depois da estrondosa derrota que sofreu nas eleições para o Parlamento Europeu, os seus correligionários do PP europeu decidiram dar-lhe uma mão e ofereceram-lhe o lugar de presidente da Comissão Europeia. Pelos jeitos, nenhum outro primeiro-ministro, com bom senso e noção das responsabilidades, aceitou esse presente. Mas Durão Barroso agarrou-o com as mãos ambas. E por lá anda agora todo sorridente, como um abutre fora da gaiola, naquela inconsciência política que sempre exibiu em Portugal, nomeadamente, durante os dois últimos e penosos longos anos, sem dúvida, os mais deprimentes que Portugal conheceu, depois de Abril de 74. O presente dos seus correligionários europeus é envenenado. Parece uma super-promoção, mas não passa de um verbo de encher. Ganha bem (vinte mil euros/mês é o ordenado-base mínimo) e passeia muito por conta da Europa, mas não decide nada. Era preciso um “bobo” político que ria e faça rir, enquanto os grandes da Europa nos vão ao bolso e fazem as  jogadas que mais lhes convêm. Os senhores Europa não podiam ter escolhido melhor em toda a União. Quem, no nosso país, quisesse trabalhar e tomar decisões que mudem para melhor os destinos de Portugal e do velho Continente, jamais largaria o leme de primeiro-ministro, para mais, depois da estrondosa derrota eleitoral que o Governo e a sua maioria acabam de sofrer. Só mesmo um político inconsciente como Durão Barroso seria capaz de o fazer. E foi o que ele fez, enquanto o diabo esfrega um olho. No Editorial que assino no Jornal Fraternizar n.º 154, de Julho/Setembro 2004, a dada altura, abro um parêntesis para fazer uma constatação e formular uma pergunta. A constatação: “Por vezes, fala-se em remodelação do Governo". E a pergunta: "Mas quem remodela este primeiro-ministro?” A resposta a esta pergunta acaba de ser dada, de forma inesperada. Os correligionários de Durão Barroso armaram-lhe esta cilada. Remodelaram-no de primeiro-ministro de Portugal. A eles faz-lhes muito jeito tê-lo por lá, a tempo integral. E ao senhor José Manuel Durão Barroso, nem se fala! Em Portugal, foi um primeiro ministro que sempre pairou acima dos reais problemas das populações. Na Europa será o presidente-verbo-de-encher duma Comissão Europeia que faz que governa, mas não governa. Há cerca de três anos, o director do PÚBLICO arriscou um Editorial sobre Durão Barroso, então ainda na Oposição. O título não podia ser mais contundente: “Este homem nunca será primeiro-ministro”. Afinal, parece que veio a ser, pelo menos, no dizer das crónicas políticas da altura. Mas será que ele o foi de facto? Será que Portugal, nestes dois últimos anos, teve mesmo um Governo e um primeiro-ministro?! A minha opinião é que não! E a opinião da esmagadora maioria das portuguesas, dos portugueses é igual à minha. O que Portugal teve, nestes dois longos e penosos anos, foi um abutre que habilmente escondeu as suas garras atrás de sorrisos cheios de hipocrisia e de cinismo.

Felizmente, para nós, este primeiro-ministro que nunca o soube ser, acaba de ser remodelado. Pela mão dos seus próprios correligionários europeus. E com o aval dos seus correligionários nacionais. Tudo apareceu feito num abrir e fechar de olhos. Como num golpe de mágica. O próprio processo como tudo sucedeu vem dizer, só por si, que o cargo de presidente da Comissão Europeia não tem qualquer peso político. Não passa duma estúpida honraria que desonra quem se sente honrado com ela. Se fosse um cargo de peso nunca poderia ter sido preenchido tão depressa e de modo tão superficial. Durão Barroso bem se esforça para convencer as portuguesas, os portugueses que é um lugar de relevância política, o maior que algum português alguma vez pode ocupar. Chega a ser caricato que Durão Barroso se ponha assim tão em bicos de pés. Vê-se logo que é disto que o nosso homem gosta: prestígio, honrarias, ser fotografado e fazer as primeiras capas dos jornais da Europa e do mundo, aparecer nos telejornais a falar francês e inglês. Trabalhar no duro, fazer da política uma arte e uma fecundidade em prol da vida e vida de qualidade para todos os cidadãos, mulheres e homens, já não é com ele. Vaidade das vaidades, sim. Aí o nosso homem é forte. Por isso, havemos de estar agradecidos aos deputados do PP Europeu pelo favor que nos fizeram. Teríamos que suportar as suas superficialidades e as suas vaidades durante pelo menos mais dois anos, uma vez que o Presidente da República de Portugal não mexeu uma palha para dar a volta que se impõe ao país, depois do grito de revolta por parte da população portuguesa, nas eleições para o PE. Valeram-nos, nesta emergência, os correligionários políticos de Durão Barroso. Levaram-no daqui, como quem faz um rapto. E o homem lá foi todo contente. Como é timbre dos inconscientes. Só nos resta desejar-lhe boas palhaçadas políticas por essa Europa sem alma e sem coração. (E lembrarmo-nos nós que o papa e as conferências episcopais dos países da Europa ainda se atrevem a falar das raízes cristãs da Europa. Que raízes cristãs? Raízes retintamente pagãs, imperialistas, colonialistas, são as que estão na origem da Europa. Egoísmos corporativos. Uma Europa fortaleza. Um continente que enriqueceu e se impôs aos outros à força de tanto conquistar, explorar, empobrecer o resto do mundo. Hoje, é uma Europa que se une, mas para melhor se defender do resto do mundo, que tem como o seu rival, em lugar de ver irmãs e irmãos em todos os rostos distintos dos dela).

Europa, sim, mas não este modelo de Europa. Se Durão Barroso foi achado o político ideal para ocupar o lugar de presidente da Comissão Europeia, só nos resta concluir que esta Europa a 25 continua a ser uma Europa cruel, sádica, sem entranhas de misericórdia. Cruel, sádico, sem entranhas de misericórdia foi o governo que teve Durão Barroso como primeiro-ministro em Portugal. Só uma Europa à sua imagem e semelhança é que o poderia escolher para presidente da sua Comissão Europeia. Por isso, quando, daqui para a frente, virmos o nosso homem sorridente e a acenar como os bobos e os actores de baixo nível, armemo-nos até aos dentes e resistamos-lhe frontalmente, assim como ao modelo de Europa que se faz servir por homens sem coração e sem entranhas de misericórdia como ele. Cerremos fileiras contra Durão Barroso e o seu modelo de Europa. Defendamo-nos de dirigentes europeus como ele. E do modelo de Europa que todos eles representam. Cuspamos para o chão à sua passagem. Lancemos fortes e vigorosas assobiadelas, quando eles ousarem pisar o chão das ruas das nossas cidades, ou perante o seu simples aparecimento nas televisões, à hora dos telejornais. Concretamente, quando Durão Barroso se atrever a voltar a pisar chão português, depois desta fuga para a Europa, recebamo-lo com vaias monumentais que valham como tantos outros ovos podres que atiramos na sua direcção. Será a melhor forma de lhe mostrarmos o nosso amor. Amar é usar de verdade para com o outro, não de hipocrisia. E de verdade é o que Durão Barroso mais precisa. Assim como a Europa que lhe paga. Ao chamar Durão Barroso para presidente da Comissão Europeia, esta Europa a 25 está a dizer que continua a ser uma Europa sem futuro, desumana, sem alma, sem coração, sem identidade.

Em lugar de nos sentirmos honrados com esta escolha, como prontamente publicitou o próprio Presidente da República - a hipocrisia política a isso o obrigou! -  havemos de nos sentir envergonhados. Uma Europa que escolhe para um dos seus principais líderes quem, em dois anos de presidente do governo nacional, mais desgraçou o nosso país, só pode ser uma Europa que não merece a nossa confiança. Temos que bater-nos por uma outra Europa que tenha critérios de exigência, de qualidade, de competência. Não é com superficiais, com inconscientes, com dirigentes politicamente adolescentes que se pode construir uma Europa aberta ao resto do mundo e ao resto da Humanidade, a começar pelos povos empobrecidos do terceiro mundo. Com dirigentes como Durão Barroso, o resto do mundo que se cuide. Por entre sorrisos e abraços e algumas piadas para desanuviar o ambiente e distrair os jornalistas, este homem serve às mil maravilhas para levar os povos empobrecidos do mundo a abrir as suas portas aos senhores Europa que sonham impérios ainda maiores e mais globalizados que o da actual administração Bush. Temos, por isso, que alertar os povos empobrecidos do mundo, para que não se deixem seduzir por tanto sorriso e por tanta desenvoltura. É que este homem tem um jeito demoníaco para fazer de anfitrião em cimeiras de morte, como a que teve lugar nos Açores, essa mesma que deu luz verde à criminosa guerra do Iraque. Alerta, pois!

E agora? O que há-de fazer o país, depois da fuga para a Europa daquele que se dizia primeiro-ministro de Portugal e com um mandato de quatro anos? Se o Presidente da República for surdo aos clamores da sociedade civil e da totalidade dos partidos políticos que não integram a maioria de direita que acriticamente sempre apoiou Durão Barroso e o seu Governo de morte, e teimosamente insistir na dele de não marcar eleições antecipadas (o mínimo que a decência política pode esperar é que ele as marque sem mais demoras), preparemo-nos para lhe resistirmos activamente. É que, nesse caso, será tempo de metermos pés e mãos e o corpo todo a uma insurreição cívica sem precedentes, uma espécie de greve nacional de braços caídos, ou dum dia de 24 horas de silêncio e de total imobilidade social em todo o território português. Se nos querem transformar em estátuas de sal, à semelhança da mulher de Lot, de que fala a Bíblia, então antecipemo-nos e assumamos livremente, como um sinal, num dia a combinar, essa postura de total imobilidade, em todas as ruas e caminhos das cidades e aldeias do país. Perante uma tal insurreição cívica nacional, ao Presidente da República não restará outra saída que não seja a de dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas. Estou certo que  até a coligação PPD/PSD-CDS/PP, respectivamente, de Santana Lopes e Paulo Portas (por favor, não digam que estes dirigentes partidários são verdadeiros políticos, porque, se o disserem, estão a conspurcar a Política!) meterá a viola da sua arrogância partidária no saco e apressar-se-á a pedir perdão, com contrição sincera ou fingida, ao povo português, por nos ter desgovernado tanto, sob a liderança do primeiro-ministro Durão Barroso. Estejamos atentas, atentos. E alegremente vigilantes. Como aquelas virgens sábias de que fala a respectiva parábola do Evangelho de Mateus. É hora, irmãs! É hora, irmãos!


2004 JUNHO 27

Iniciou-se ontem à noite, na Casa da Comunidade, o estudo bíblico em torno do Evangelho de S. Marcos, anunciado à população da freguesia, através da minha 1.ª Carta Presbiteral, para as noites dos quartos sábados de cada mês. Deveria ter sido iniciado no quarto sábado de Maio passado, mas foi de todo impossível, devido ao facto de eu, nessa altura, estar a regressar da pequena intervenção cirúrgica, a que tive de ser submetido no Hospital de S. João, no Porto. Por sinal, esta noite do quarto sábado de Junho não foi das melhores para iniciar esta actividade, uma vez que coincidiu com as festas concelhias de Felgueiras. Para cúmulo, na noite de ontem, as festas traziam à moderna esplanada de St.ª Quitéria o conhecido cantor português, Luís Represas. Mesmo assim, entendemos manter a iniciativa para as pessoas que aparecessem. Sem deixarmos, ao mesmo tempo,  de pôr de lado a hipótese de, no final, darmos também um salto à festa, para nos deliciarmos com a voz e a intervenção de Luís Represas, o que efectivamente veio a suceder. Tínhamos a nosso favor o facto do início do espectáculo estar anunciado apenas para as 23 horas. Quando chegámos lá, pelas 23,30h, já Luís Represas havia começado a sua actuação, mas mesmo assim ainda pudemos deliciar-nos com várias das suas mais conhecidas canções.

Poucas, muito poucas foram as pessoas que apareceram à primeira sessão do estudo bíblico. E não foi por causa das festas concelhias. Pelo menos, ninguém da população da freguesia se manifestou nesse sentido. As pessoas, na sua esmagadora maioria, é que continuam simplesmente a recusar-se a participar em actividades eclesiais que não tenham o selo da paróquia. A iniciativa do curso bíblico é da Comunidade cristã de Base, não é da paróquia, e faz apelo à consciência de cada pessoa para que participe, quando as populações dos meios pequenos como este de Macieira da Lixa, continuam a não estar habituadas a ser tratadas como pessoas. Durante gerações e gerações foram populações arregimentadas pelos respectivos párocos que punham e dispunham delas a seu belo prazer. Agora, depois de Abril 74, tudo, em teoria, pode ser diferente, mas a verdade é que as pessoas continuam a não estar suficientemente maduras para assumirem comportamentos, comandados pela sua consciência. Preferem comportar-se como "rebanho". Nesta fase, algumas delas já são capazes de resistir a certas iniciativas da paróquia, mas experimentam ainda grande dificuldade em assumir responsabilidades eclesiais alternativas, como as que são propostas pela Comunidade Cristã de Base. Quantas gerações mais irão ser precisas, para que a paróquia perca a sua nefasta influência sobre as pessoas e elas possam tornar-se criadoras de Igreja e não apenas consumidoras de serviços oferecidos pela paróquia, ao jeito de um qualquer supermercado?

Por mim, que estive a orientar a actividade, fiquei muito feliz com as poucas pessoas que apareceram. Ao todo, estiveram presentes pessoas de seis casas distintas, para lá de mim próprio. Três eram adolescentes que, logo de entrada, já se preparavam para se manterem a uma certa distância da actividade, entretidas com os seus telemóveis, num dos extremos da sala. Mas eu, logo a começar, incitei-as a que se sentassem junto de mim "para me aquecerem a alma". E elas não se fizeram rogadas. São elas: Sabrina e Nini, filhas da Zeza, e Neusa, neta da Miquinhas Cancela. Com elas, vieram também a mãe e a avó, respectivamente. Estava também Maria Laura, presbítera não-ordenada e a proprietária da Casa da Comunidade. Os seus dois filhos, já de maioridade, que ainda vivem com ela, Rodrigo Filipe e Andreia Cristina, com os respectivos namorados, Dária e Isidro, optaram pelas festas concelhias e não ficaram connosco. Outras três presenças, de outras tantas casas, foram Deolindinha, Miné e Irene. Da Zeza e suas filhas tenho grande expectativa. Para lá de ser irmã e afilhada de Maria Laura, Zeza está a revelar-se, na Comunidade, uma mulher muito determinada. Foi emigrante, durante muitos anos, na Alemanha, cuja língua fala fluentemente. Juntamente com o marido, Manuel, está à frente duma pequena empresa de fabrico de solas para sapatos. Neste momento, vive horas difíceis, numa desesperada luta contra a exploração a que a querem submeter, em nome da sobrevivência. Tudo nela me diz que é mulher de antes quebrar que torcer, ao mesmo tempo que revela um coração de manteiga e de misericórdia, para com as pessoas que sofrem e que são pisadas nos seus direitos por certos "tubarões" da nossa sociedade felgueirense. Também Neusa vem duma família pobre. Basta dizer que tem que viver todos os dias com a avó, por falhanço dos respectivos progenitores. Mas é graças a este pormenor que ela pode aparecer nas iniciativas da Comunidade, como está ultimamente a acontecer. A avó (que não sabe ler, mas vive atenta aos sinais dos tempos como poucas pessoas) não falta nunca e traz sempre com ela a neta. Neusa tem apenas 12 anos, mas revela grande inteligência e interesse pelas iniciativas. Está também a tornar-se cada vez mais amiga e companheira das duas filhas da Zeza que, por sua vez, gostam muito dela. Quanto à Irene, filha adoptiva dos meus senhorios, é uma jovem mulher com notória deficiência cerebral, que entretanto, se mostra sempre disponível para me acompanhar e acompanhar as iniciativas da Comunidade. Ao contrário dos respectivos pai e mãe que, embora começassem com entusiasmo a participar nas actividades da Comunidade, ultimamente têm faltado, porque tanto a Ceia Eucarística, como o Estudo Bíblico, coincidem com o jantar semanal que ambos mantêm há nos em sua casa com os padrinhos de Irene e com o filho adoptivo já casado e respectiva família, que se resuma à mulher e ao filhinho. Já lhes propus que mudassem o jantar semanal das noites de sábado para as noites de sexta-feira, mas até hoje ainda não aconteceu. Infelizmente, os familiares que costumam vir a este jantar também não ajudam. Bastaria que se mostrassem abertos a essa solução e tudo se modificaria. Por isso, é preciso que as actividades que promovemos sejam de tal qualidade, que eles não aguentem ficar muito mais tempo longe delas. Será que vamos conseguir? O interessante, mesmo do ponto de vista do Evangelho, é que Irene, ao contrário da mãe e do pai, é capaz de deixar tudo para ir comigo para as iniciativas, tanto as que acontecem na Casa da Comunidade, como as que acontecem fora dela, no Porto ou em S. Pedro da Cova, por exemplo. Para mim, essa disponibilidade e a alegria com que a menina deixa tudo e avança são o que há de mais belo. Fossem assim as pessoas que se têm por normais e ajuizadas e o mundo seria bem mais humano e solidário. Quanto às restantes pessoas que vieram ao estudo bíblico, são já presença garantida há anos na Comunidade. E, felizmente, parecem de pedra e cal, prontas para o que der e vier.

Muitas outras pessoas da freguesia e das freguesias vizinhas poderiam ter aparecido. Mas a realidade é esta. Pessoalmente, já não estranho. A via das Comunidades Cristãs de Base integra-se na via da "porta estreita", de que fala Jesus no Evangelho de Mateus (7, 13-14). Como, aliás, é de "porta estreita" toda e qualquer via que faça apelo à liberdade e à consciência de cada pessoa, mulher ou homem. Mas o Curso faz-se com quem aparece. Se nós, que participamos, aproveitarmos dele, já valerá a pena todo o esforço que eu faça, na sua preparação e animação. Uma só pessoa que seja vale todo o esforço do mundo. Esse mesmo esforço poderia ser aproveitado por muitas outras pessoas, mas, quando nos limitamos a apelar à consciência e à liberdade de cada pessoa em concreto, sujeitamo-nos ao risco de não ter ninguém. Mas é por aqui que Deus, o de Jesus, avança. Com uma paciência infinita. Bate à porta da consciência de cada pessoa em concreto e fica à espera a ver o que ela decide. Não força a entrada. É por isso que lidar com liberdades e com consciências é deveras apaixonante. Mas pode ser também muito deprimente, nomeadamente, quando nos deixamos levar pela tentação de querer juntar grandes multidões, em lugar de sempre querermos congregar liberdades e consciências. Só depois que passei a trabalhar fora das estruturas paroquiais e do poder em geral (mas sempre dentro da Igreja-comunidade-de-comunidades) é que descobri todo o valor que é congregar liberdades e consciências, em lugar de "rebanhos". É por isso que encontros como o de hoje me enchem as medidas. As multidões ao jeito dos rebanhos afligem-me. É preciso trabalhá-las para que passem de rebanho a pessoas e de pessoas a liberdades e consciências. De contrário, não avançaremos na História. Os rebanhos depressa aceitam a tirania de novos ditadores e de novos mediadores. Sem nenhuma coragem para serem e se assumirem como liberdades e consciências.

Como era a primeira sessão do estudo bíblico, anunciei às pessoas que em lugar de lhes proporcionar a ocasião de mergulharem de imediato no Evangelho de Marcos, para o estudarmos em conjunto, preferiria partilhar com elas alguns pontos que ficariam como breve introdução ao estudo do Evangelho. Acharam bem e foi o que fiz. Logo a abrir, avancei uma informação: dos quatro evangelhos canónicos, o de Marcos é sem dúvida o mais antigo, portanto, o primeiro a ter aparecido. No Novo Testamento, aparece em segundo lugar, logo depois do Evangelho de Mateus, e seguido dos Evangelhos de Lucas e de João, mas na realidade histórica, foi o primeiro a ser escrito e editado. Avancei depois uma segunda informação: o testemunho mais antigo sobre a existência do Evangelho de Marcos é do ano 140, d.C. É de Papías, bispo de Hierápolis e diz textualmente o seguinte: "E o presbítero [refere-se a um tal João, presbítero da Igreja de Éfeso, muito famoso na altura] disse também isto: Marcos, como intérprete de Pedro, escreveu com exactidão, embora sem ordem, tudo o que recordava dos dizeres e fazeres de Jesus". Esta é uma informação, no mínimo, curiosa, uma vez que tenta vincular Marcos com o apóstolo Pedro. Esclareci as pessoas presentes que este pormenor pode muito bem ser uma habilidade, por parte de Papías, para mais facilmente conseguir que o Evangelho de Marcos, tão contestado no interior da Igreja, fosse reconhecido e aprovado por ela. O que veio a suceder. A referência a Pedro faria dele uma espécie de patrono indiscutível. Mas historicamente as coisas não devem ter sido assim. São vários os argumentos que podem ser invocados nesse sentido. Fixemos este, sem dúvida o mais decisivo: Custa a crer que Marcos tenha ouvido de Pedro tudo sobre os dizeres e fazeres de Jesus, uma vez que é o único dos quatro evangelhos canónicos que diz muito mal de Pedro e nunca o reabilita do princípio ao fim. Todos os outros, cada qual ao seu jeito, depois de dizerem mal de Pedro, não terminam o seu relato sem antes reabilitarem o apóstolo que a tradição da Igreja apresenta como o seu primeiro líder. Marcos é o único que não o faz, o que seria impensável, se Pedro tivesse sido de facto o seu interlocutor principal e a sua fonte informativa. Tudo indica que Marcos conheceu Pedro. Mas este nunca se terá convertido em verdadeiro seguidor de Jesus, até ao momento em que Marcos meteu mãos à obra de escrever o seu Evangelho.

Uma outra informação que deixei e que hoje é já comummente aceite pelos especialistas é que o Marcos do Evangelho é o mesmo que João Marcos, de que nos fala o 2.º volume do Evangelho de Lucas, conhecido por Actos dos Apóstolos, no cap. 12, 12. Neste caso, sabemos que a mãe dele também se chamava Maria, como a mãe de Jesus (um nome então muito em voga entre os judeus) e que, na altura, era o que hoje podemos chamar uma espécie de presbítera não-ordenada da Comunidade Cristã Jesuánica que se reunia em sua casa, como alternativa à Comunidade judaico-cristã de Jerusalém dirigida por Tiago, irmão de Jesus. Parece um pormenor sem grande importância, mas faz toda a diferença. Indica-nos que o Evangelho de Marcos nasceu nos ambientes eclesiais mais abertos e libertos do mundo acentuadamente não-judaico, em oposição aos ambientes eclesiais judaicos que continuavam fiéis à Lei de Moisés que oprimia os judeus e pretendia oprimir todos os povos, como se Jesus, com a sua vida e morte violenta, não nos tivesse libertado de vez da Lei e não nos tivesse introduzido no mundo da Graça e da Verdade, que é também o mundo do Espírito Santo. Curiosamente, no dizer dos Actos dos Apóstolos, foi à porta desta Comunidade que Pedro, depois de ter sido libertado da prisão, veio bater. Não foi bater à porta da outra Comunidade, dirigida por Tiago, irmão de Jesus, sem dúvida, mais oficial, o correspondente hoje à Igreja de Roma, presidida pelo Papa. Na ocasião, pede que levem um recado a Tiago, mas a verdade é que ele não foi lá ter com ele. O que revela alguma incompatibilidade entre ambos. Pedro, nessa altura, já era discípulo de Marcos e do seu Evangelho, o qual já deveria circular pelas mãos dos membros das comunidades cristãs jesuánicas mais ou menos clandestinas. A ser assim, não foi Pedro quem evangelizou Marcos e este, na sequência disso, escreveu o Evangelho que ostenta o seu nome, mas o contrário: Foi João Marcos e as Comunidades que ele e sua mãe dinamizavam que evangelizaram Pedro e o ajudaram a converter-se em verdadeiro discípulo de Jesus e a distanciar-se de Tiago, o irmão de Jesus que, depois da morte violenta deste e da sua ressurreição, logo se apressou a reclamar direitos de herança dinástica! É caso para dizer: Não fosse João Marcos, a sua mãe Maria e as comunidades "heréticas" que ambos dinamizaram, e a Igreja muito provavelmente não teria saído do judaísmo, teria ficado como uma seita mais do judaísmo!

Um outro dado que avancei foi sobre o ano em que terá aparecido o Evangelho de Marcos. As velhas teses que defendiam o seu aparecimento entre os anos 65-75 estão hoje praticamente abandonadas, em favor da tese que fala do seu aparecimento entre os anos 41-44 d. C. É uma verdadeira revolução! Esta data começou a ser defendida depois da descoberta dos Manuscritos do Mar Morto. A razão mais convincente para data tão recente - cerca de 12-14 anos depois do assassinato de Jesus, que terá ocorrido pelo ano 30 da nossa era - é o facto de Marcos ser o único Evangelho que nos dá conta, por três vezes (3, 6; 8, 15; 12, 13), do bom entendimento entre os partidários de Herodes e os fariseus. Ora, sabemos hoje que este entendimento político entre grupos tão rivais só ocorreu no curto reinado de Herodes Agripa I (41-44 d. C.). Tudo indica que terá sido precisamente neste período que o Evangelho de Marcos foi escrito. Limita-se a reproduzir, a este propósito, o que então era público e deveria ser objecto de muitas críticas e de muitos comentários entre os judeus residentes na Palestina.

A juntar a este argumento, está o que diz respeito ao comportamento de Pedro. Para Marcos não registar qualquer mudança no comportamento obtuso e fanático de Pedro, é porque o Evangelho foi escrito muito cedo, nos primeiros anos após a morte de Jesus, quando a Igreja de Jerusalém ainda tentava ser uma alternativa ao Israel dos sumos sacerdotes, e não um novo começo, um novo acontecimento de libertação e de salvação; aparecia como uma simples reforma do Israel que então existia, em lugar da revolução que veio efectivamente a ser e que ainda estamos longe, muito longe, de termos entendido até ao fim. É depois do Evangelho de Marcos já andar a circular nas comunidades, que Pedro faz o seu percurso alternativo, tem a sua estrada de Damasco, concretamente, na casa de Cornélio (cf. Actos dos Apóstolo 10-11). Só o Evangelho de Marcos tornou possível este passo, esta conversão radical de Pedro, graças à abertura constante que o Jesus do seu Evangelho tem relativamente aos povos não judeus, os chamados povos pagãos.

É este Pedro, já radicalmente convertido, que podemos ver e ouvir no primeiro Concílio de Jerusalém (49-50 d. C.), a defender que o Cristianismo não pode ser um simples judaísmo reciclado, mas é um novo começo, um Acontecimento de libertação e de salvação para toda a humanidade, como Dom gratuito de Deus. Pelo que as obrigações que a Lei de Moisés impunha estavam definitivamente ultrapassadas, tanto para judeus, como para não-judeus. Tinham sido uma  espécie de "pedagogo" (a palavra é de Paulo), mas nada mais do que isso. Pedro defende, juntamente com Paulo, esta abertura contra Tiago, o irmão de Jesus e o chefe da Igreja "judaica" de Jerusalém! Era a Igreja de base contra a Igreja hierárquica, demasiado oficial e judaizante. Pois bem, esta tese que fez história no Concílio de Jerusalém, é a tese que está nas páginas do Evangelho de Marcos que Pedro já então conhecia e que Tiago, embora conhecesse, teria começado por rejeitar liminarmente, pelo menos, até ao Concílio de Jerusalém.

Por tudo isto, também nos pareceu mais razoável que o local onde o Evangelho de Marcos foi escrito tenha sido a Galileia. Entre os vários locais apontados pelos especialistas, a Galileia pareceu-nos o mais aceitável, muito mais do que Roma, ou mesmo Antioquia. É na Galileia que Jesus passa mais tempo e desenvolve a sua actividade política libertadora. Pelo menos, no registo do Evangelho de Marcos. O que significará que João Marcos também terá escolhido a Galileia como local para escutar o que o Espírito Santo tinha então a dizer, por seu intermédio, à Igreja nascente. E que Boa Nova, que Boa Notícia esta! Ainda hoje, a Igreja, já com vinte séculos de história, sente enormes dificuldades em escutar este Evangelho e em viver e testemunhar na sua carne, desde Roma até ao local mais recôndito do mundo, esta Boa Notícia. Mas é por aqui que havemos de ir. E a prova é que, quando, no termo desta sessão de introdução, abri finalmente o computador e li/proclamei, todo seguido, numa tradução actualizada que preparei, a partir de diferentes traduções especializadas, o primeiro capítulo do Evangelho de Marcos, a impressão que ficou no pequeno grupo de pessoas que fizemos este estudo foi inesquecível. Foi como se de repente Jesus histórico e ressuscitado se fizesse presente e actuante na sala e no mais íntimo de cada uma, de cada um de nós. A partir daí, a fome da próxima sessão (agora, só depois das férias) passou a ser mais do que muita. Estou convencido que nenhuma das pessoas que estivemos nesta sessão vai conseguir faltar à seguinte. O que só por si é um bom sinal.


2004 JUNHO 25

Depois do que aconteceu ontem no Estádio da Luz, em Lisboa, já nada pode travar a selecção portuguesa de futebol, no Euro 2004. A selecção está nas meias-finais e pode muito bem chegar à final e até erguer a taça. Mas a suadíssima vitória de ontem e as esforçadas vitórias anteriores frente à Rússia, primeiro, e depois frente à Espanha, e as possíveis vitórias que, por este andar, é de admitir que se seguirão a estas três, ficarão para sempre ensombradas pelo infantilismo religioso terceiro-mundista do senhor Scolari, o seleccionador brasileiro, campeão do mundo de futebol, que Portugal contratou há anos, quando a UEFA escolheu o nosso país como organizador do Euro 2004. E porquê? Então não é que o senhor Scolari não se cansa de repetir a toda a hora e instante que todas estas vitórias da selecção portuguesa ficam a dever-se à santinha da sua devoção, que dá pelo nome de nossa senhora de Caravaggio? E como argumento final, para tentar convencer quem o ouve, inclusive, os jornalistas que o entrevistam, dá o exemplo do que aconteceu em 2002 com a selecção do Brasil, com ele a orientar os trabalhos como treinador. No seu discurso, o Brasil sagrou-se campeão do mundo, graças a nossa senhora de Caravaggio. Quer dizer: o treinador esforça-se; os jogadores esforçam-se e dão o melhor de si mesmos; as populações apoiam nos estádios e fora dos estádios; mas nada disso importa. A selecção do Brasil venceu e agora a selecção de Portugal tem vencido jogos difíceis e provavelmente continuará a vencer os jogos que se seguem, porque o senhor Scolari traz com ele imagens e pagelas de nossa senhora de Caravaggio e até oferece exemplares a jogadores e jornalistas. É mesmo de bradar aos céus! Se assim fosse, teríamos de concluir que as outras selecções da Europa e do mundo perdem, porque os respectivos seleccionadores e treinadores não têm fé na senhora de Caravaggio, nem acendem velas à sua imagem, nem lhe fazem promessas. O curioso é que o senhor Scolari, que começou por se confessar fã de nossa senhora do Caravaggio (uma santa ou deusa que por cá ainda ninguém ouvira falar, apesar de ser uma santa ou deusa que os italianos pobres de antanho, quando se viram obrigados a emigrar para o Brasil levaram com eles e espalharam por lá), algum tempo depois, mudou radicalmente o seu discurso e passou a falar também e sobretudo de nossa senhora de Fátima. E há dias até conseguiu convencer um jornalista da RTP que acompanha a selecção portuguesa para que ele lhe fizesse uma entrevista exclusiva. Alguém, entretanto, deve ter lembrado ao senhor Scolari que ele estava em Portugal, não no Brasil, nem em Itália. E em Portugal, a senhora ou deusa que comanda a alienação popular não é, não pode ser, a do Caravaggio ou a de Lourdes, ou a da Aparecida, ou a de Guadalupe, mas apenas a senhora de Fátima! E não é que o senhor Scolari, humildemente (ou habilmente?), deu a mão à palmatória e, nessa entrevista, fez questão de dizer que, como está em Portugal, a santinha ou senhora de Caravaggio que desculpasse, mas desta vez a sua promessa, se ganhar o Euro 2004, será de ir a Fátima, agradecer o triunfo à imagem da respectiva senhora. E não é que a entrevista aconteceu e foi mesmo para o ar, depois de previamente anunciada como um "furo" ou uma "caixa" jornalística da RTP? Resultado: senhora de Caravaggio 1, senhora de Fátima 1. Mas com significativa vantagem para a senhora de Caravaggio, porque o título que ela deu ao Brasil é o de campeão do mundo e o máximo que pode vir a dar a Portugal, pelo menos, este ano, é o de simples campeão da Europa!... E isto, se os jogadores portugueses continuarem a jogar com cabeça, troco e membros, como têm feito ultimamente (estamos todos lembrados que, no jogo inaugural, com a Grécia, eles nunca chegaram a encontrar-se como equipa e foi o que se viu: não houve senhora do Caravággio que lhes valesse! Nesse jogo, a senhora de Caravaggio só teve olhinhos para os gregos, parceiros de Portugal no que toca à posição de cauda da Europa!)

Todo este episódio é altamente caricato, mas começa a atingir contornos que são já preocupantes. Tanto mais quanto, até agora, ainda ninguém conseguiu convencer o senhor Scolari a ter tento na língua. Nem os próprios jogadores, dados como são a crendices, as mais estranhas e bobas. Nem os homens da Federação Portuguesa de Futebol. Nem o primeiro ministro. Nem o presidente da República. Nem o cardeal patriarca de Lisboa. Nem o reitor do santuário de Fátima. Toda a gente faz de conta. E continua a alinhar com o terceiro-mundismo do senhor Scolari. E a verdade é que ele, de cada vez que a equipa de Portugal vence mais um jogo difícil, lá volta à carga com a senhora de Fátima e a senhora de Caravaggio. Ontem, depois de mais esta suadíssima vitória, deu até a entender que os jogadores são capazes de ir para o campo com pagelas das duas senhoras coladas ao próprio corpo, como um talismã. E não é que até os adeptos portugueses já começam a fazer seu o discurso religioso terceiro-mundista do senhor Scolari?

Nestas circunstâncias, é bom lembrar aqui que o futebol profissional é hoje gerido por sociedades anónimas, à semelhança das transnacionais. Não é mais uma sadia competição entre vizinhos e companheiros de escola, como no tempo em que o futebol era jogado com uma bola de trapos, ou por uns quantos "amadores" que, em muitos casos, ainda pagavam do seu bolso para poderem jogar equipados a rigor. Hoje, é um sofisticadíssimo fenómeno de alienação de massas, porventura, o maior depois da religião, a qual, com as suas imagens de deusas cruéis que se alimentam de gente, continua a movimentar milhões e milhões de pessoas em todo o mundo, na sua esmagadora maioria, pessoas que (sobre)vivem em condições de miséria ou de quase miséria, sem meios económicos para garantirem qualidade de vida a si próprias e aos seus filhos e filhas, vítimas de doenças que poderiam ser tratadas e curadas, se houvesse dinheiro para pagar aos médicos e à farmácia, sem meios económicos para se alimentarem como deve ser e para garantirem estudos médios e superiores às filhas e aos filhos. Por isso, nada do que se faz neste campo é por mero acaso. Nada é deixado ao acaso. Mas, infelizmente, ainda não nos demos conta disso. E embarcamos todos, uns mais manifestamente, outros mais reservadamente, no jogo. Como se tudo não passasse de um simples jogo de futebol. E não é assim. O jogo de futebol é o pretexto para o resto. É como o isco para apanhar o peixe, no caso, as pessoas e as populações. Basta ver como os "media", cujos donos são minorias altamente endinheiradas que controlam ideologicamente as sociedades em cada país e no mundo em geral, sabem tirar partido destas competições. Uma rádio privada que passa dias e dias com programação contínua sobre o Euro 2004; um canal de televisão pública, como a RTP, que suspende todos os outros programas e faz programação contínua sobre o Euro 2004 não o fazem de modo inocente. Parece que estão simplesmente a "puxar" pelas pessoas, para que elas apoiem a selecção. Mas essa é a verdade que parece. A verdade real é outra: É ter as pessoas cada vez mais controladas, meros objectos, telecomandadas, a pensar o que as minorias financeiras querem que as pessoas e as populações pensem, ou que não pensem coisa nenhuma, meros consumidores de coisas, simples amibas sem ideal, sem projecto, que comem e bebem, sobretudo, bebem e se entregam aos ruidosos festejos sem festa de mais uma vitória, sem nunca se darem conta que essa vitória é a sua própria desgraça, porque não é acompanhada de outras vitórias bem mais importantes para o nosso bem-estar, por exemplo, nos campos da saúde, da educação, do ensino, do trabalho com direitos e com salários justos, da habitação de qualidade, do desenvolvimento, da cultura, duma merecida e digna terceira idade.

São muitas as pessoas, inclusive, intelectuais da nossa praça, que hoje se interrogam sobre o segredo da magia do futebol que movimenta multidões e mobiliza nações quase inteiras, como, neste momento, está a acontecer com o nosso país. E não falta quem avance respostas. Mas quase ninguém acerta no alvo. Tenho para mim que o segredo está na alienação com dimensão de massas que os grandes "media" conseguiram dar ao futebol. Não houvesse rádio nem televisão a "puxar" pelas massas como actualmente "puxam" e o futebol, mesmo o do Euro 2004, ficaria reduzido à sua dimensão verdadeira, sem nunca alcançar a alienação com dimensão de massas que hoje alcançou. Ora, é esta alienação com dimensão de massas que faz a magia do futebol. Ele chega e é como se de repente a vida parasse, os problemas do quotidiano desaparecessem, ficássemos a pairar acima do real, num sono e num sonho paradisíacos onde não há mais fome, nem desemprego, nem guerra, nem doença, nem morte, nem acidentes na estrada, nem cadeias, nem crimes, nem assaltos, nem império, nem multinacionais, nem minorias que nos controlam e comandam (estas notícias desaparecem como por encanto dos telejornais!). Por instantes, que parecem uma eternidade, as multidões são levadas a pairar acima do real. Como que regressam ao útero materno, onde a vida se faz sem esforço, onde tudo o que carecemos está garantido. Só que o útero materno durou nove meses e todos acabámos expulsos de lá, como condição sine qua non, para sermos e vivermos como seres humanos.

A alienação tem esse demoníaco condão. Cria cenários irreais onde voltamos a sentir-nos como no útero materno, só que agora como adultos. Em lugar de nos incitar a sermos nós próprios, bem adultos; em lugar de nos incitar a assumirmos responsável e criativamente a vida com as próprias mãos, cria um útero artificial à escala de um país, de um continente ou mesmo do mundo, e põe-nos a viver ilusoriamente nele. As multidões deliram, aplaudem, festejam, mas é tudo faz-de-conta. Enquanto, as minorias que estão por trás de toda esta falsa criação dos grandes "media" e não só, se governam e reforçam posições na História, ao nível da economia, das finanças, da Política e da Religião, que dificilmente perderão! E quando as multidões despertarem do sono e do sonho e caírem na real, o amargo de boca será terrível. Mas lá estará a senhora de Caravaggio e a senhora de Fátima ou da Aparecida, ou de Lourdes, ou de Guadalupe para lhes valer, mais ainda e sempre sob a criminosa forma de alienação com dimensão de massas. E assim, de alienação em alienação, as pessoas e as populações nem chegam a abrir os olhos da consciência, durante os anos que durarem as suas vidas individuais. É por isso que eu não me canso de denunciar o comportamento da Igreja, quando ela, em lugar de trabalhar para abrir os olhos da consciência das pessoas, trabalha para os cegar ainda mais, ao fornecer-lhes, como em faz em Fátima, overdoses e overdoses de religião que é o que há de mais perverso nos seres humanos, pois não passa de alienação, de ópio do povo e para o povo. A esta luz, bem pode acontecer que a possível vitória da selecção portuguesa no Euro 2004, sob a batuta do senhor Scolari, represente um grave retrocesso na luta contra a alienação que continua a atacar as pessoas e as populações. Tanto a alienação da religião, com a sua senhora ou deusa de Caravaggio e de Fátima, como a alienação do futebol de alta competição, administrado por sinistras e mafiosas sociedades anónimas. Alerta, povão!


2004 JUNHO 22

Neste fim de semana que passou, estive fora de Macieira da Lixa. Uma das razões, foi para participar no encontro do Grupo de Cristãos de Base do Ferradal (Fiães), dinamizado pelo Valter, que foi também quem fez o contacto comigo e me convidou a passar por lá, a pedido de todo o Grupo. O convite deixou-me feliz, primeiro, por ser um Grupo de Cristãos de Base que se mantém há bastantes anos sem claudicar, apesar do respectivo pároco não querer saber da sua existência; segundo, por ser dinamizado pelo Valter; terceiro, porque sempre que lá vou, saio de lá mais enriquecido com o testemunho que todos os membros do Grupo me transmitem; quarto, por todo o Grupo me reconhecer e reconhecer o ministério de presbítero que vivo em Igreja, não para proveito directo dela, como costumam fazer os clérigos funcionários eclesiásticos, mas para proveito da Humanidade e do mundo. Já não é a primeira vez que passo pela reunião deste Grupo e sempre sou recebido com muito carinho e apreço. Mas há já bastante tempo que isso não acontecia. O carinho voltou a ser intenso e o apreço também.

A razão próxima por que o Grupo me chamou a reunir com todos os seus membros deve-se ao facto de um deles, concretamente, o Noé, ter comprado um livro, cujo título chamou a sua atenção. Leu-o e ficou com bastantes interrogações e dúvidas que, posteriormente, partilhou com todo o Grupo. As interrogações e dúvidas do Noé passaram a ser praticamente interrogações e dúvidas de todos os membros do Grupo, elas e eles. Entenderam então que eu seria o companheiro indicado para os ajudar a esclarecer. "Os anos desconhecidos de Cristo. Onde esteve Jesus Cristo dos 12 aos 30 anos? Uma descoberta histórica que abalará os alicerces da Cristandade", é o título bombástico do livro, editado no ano de 2001 no nosso país pelas Publicações Europa-América, na colecção "Portas do Desconhecido". Elizabeth Clare Prophet é a sua autora. Valter teve o cuidado de me enviar pelo correio um exemplar do livro, depois de saber por mim que eu ainda não o conhecia. Quando o li, confirmei a suspeita que já havia levantado, quando Valter me contactou pelo telefone: não se trata duma obra séria, mas especulativa, muito ao gosto das pessoas que confundem história com estórias e com literatura mais ou menos esotérica. Basicamente, pretende convencer-nos que Jesus de Nazaré, entre os 12 e os 30 anos, viveu longe da Judeia e da família, na condição de monge, ou quase monge budista. Assim se explicaria a sabedoria de que dá provas, quando, pelos 30 anos, inicia a sua missão nas terras da Judeia. O Grupo de Cristãos de Base do Ferradal pretendia saber que credibilidade pode merecer uma obra destas. E, no caso de não merecer credibilidade, como terá efectivamente vivido Jesus até aos 30 anos, dado que, pelos Evangelhos, não sabemos praticamente nada dele em todos esses anos para trás.

A convite do Valter, comecei por almoçar na sua casa, com a mulher, Rosa, e a filha de ambos recém-casada, Ana Maria. O genro não esteve, porque passou o dia todo a trabalhar, nuns biscates, como é muito frequente entre os casais novos, oriundos de famílias operárias. E tais são as duas famílias que estão na origem desta nova família, de que Ana Maria é uma das cabeças de casal. Gostei muito do convite. É um sinal da comunhão que nos anima. O convite do Valter estendeu-se também à Maria Celeste (Lete, para as cristãs e cristãos de base). É uma companheira residente na mesma freguesia de Fiães, com quem o Grupo sabe que pode contar, embora habitualmente não participe das reuniões, devido a quase nunca passar os fins de semana em casa e, quando passa, ter que se ocupar da mãe acamada, vai em oito anos. Desta vez, Lete conseguiu atrasar por umas horas a sua saída de fim de semana e também participou no encontro, a começar pelo almoço. O que foi uma mais valia para todas, todos nós. Creio que também para ela.

A simplicidade da refeição deu-lhe um tom evangélico. Partilhámos umas sardinhas e uns carapaus grelhados nas brasas, acompanhados de batatas cozidas, um caldo verde e cerejas como sobremesa. O vinho maduro tinto, que a cardiologista recomendou que eu devo beber às principais refeições, também nos acompanhou na mesa. Pelos jeitos, é já habitual nas comidas da casa. A conversa trouxe a actualidade do país e do mundo à mesa. Mas também a actualidade da família e da Urbanização Quinta do Areeiro, em que ela está inserida. Valter é um dos principais animadores e responsáveis da Associação "Viver melhor" que anima toda a Urbanização. Motorista de profissão, é um daqueles filhos de pobres que nunca baixou os braços e tem sabido viver de cabeça levantada, sem jamais se tornar arrogante ou insolidário. Pelo contrário, a sua condição de trabalhador por conta de outrem tornou-o vulnerável aos mais pequenos e mais débeis, numa postura que recusa a caridadezinha e está inteira na solidariedade que promove dignidade e participação, para que à volta dele e com ele haja sujeitos e não meros objectos. Os problemas mais candentes da Urbanização também estiveram na mesa. E, depois de termos comido, ainda fomos - ele, a Lete e eu - ver com os nossos olhos algumas das situações que, neste momento, mais afligem as famílias que ali residem e já são largas centenas. Encantou-me sobremaneira o carinho com que o Valter chamou a nossa atenção para as muitas árvores novas espalhadas por toda a Urbanização e que têm sido plantadas, ano após ano, pela Associação. E também o carinho com que nos conduziu a ver uma fonte, localizada no meio da Urbanização, com água potável e sempre a correr dia e noite. A Associação está empenhada na criação de um centro de convívio a céu aberto em redor da fonte e pretende que a água seja aproveitada pelos moradores, depois de bombeada para um grande reservatório a construir num ponto alto da Urbanização pela Câmara de St.ª M.ª da Feira. O investimento será reduzido e os benefícios para a população serão muitos e praticamente a custo zero. Valter contou que estava marcada para daí a dias mais uma reunião com o Município. E é líquido que a Associação não se conformará, enquanto não conseguir concretizar este projecto.

Pelo percurso, tornei a encontrar o José, um dos companheiros do Valter na direcção da Associação, que já me havia sido apresentado logo à minha chegada, antes do almoço. Confirmou que já estava pronto para seguir connosco para a reunião do Grupo dos Cristãos de Base do Ferradal. Pelos vistos, esta será a sua primeira participação, a convite do Valter. Foi apresentado à Lete e logo seguimos para o encontro que estava marcado para as 15 horas. A receber-nos, estavam o Noé e sua mulher. A reunião é habitualmente na casa deles. Como estava calor, ficámos no quintal da casa, sob as ameixoeiras, carregadas de fruto, já quase maduro. Sentamo-nos à mesa. E, pouco depois, teve início o encontro. Enquanto esperávamos pela chegada dos últimos elementos do Grupo, houve um companheiro que ainda não tinha adquirido o meu último livro Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS e fez questão de o adquirir a mim directamente, para que eu o autografasse ali mesmo. O José que veio com o Valter também quis um exemplar para ele. Pode ser o começo duma relação mais profunda com o Grupo, ao nível da Fé cristã explícita, e cujos frutos beneficiarão toda a Urbanização. A ver vamos.

Foi dada a palavra ao Noé, que explicou a estória do livro que havia adquirido e lido. Serviu de introdução ao encontro. Juntamente, com o elenco das interrogações e dúvidas com que todos os membros do Grupo ficaram depois disso. Foi-me então dada a palavra, para o que se me oferecia dizer a propósito. Comecei por me rir com a perturbação que o livro pelos jeitos causou no Grupo. É que não é um livro sério. Chamei a atenção para o facto de a autora ser uma ilustre desconhecida em Portugal. De ninguém, em Portugal, notoriamente credenciado na matéria em questão, se dignar apresentar a obra. De ser uma obra abonada por uma série de leitores totalmente desconhecidos no nosso país, todos de língua inglesa, como a autora da obra. Sublinhei também o facto da edição em Portugal ser das Publicações Europa-América e integrada na Colecção "Portas do Desconhecido". Todos estes dados são reveladores de que se trata duma obra sem credenciais, servida por um título bombástico, destinado a apanhar incautos que entram numa grande superfície e topam com um título destes e logo são levados a pegar o livro nas mãos e a folheá-lo. Dificilmente, voltarão a pô-lo no lugar. Ficam cheios de curiosidade e compram-no. Quando, depois, na calma da casa, começarem a ler, depressa se dão conta de que podem ter sido levados. Neste caso, assim terá sido. Mas ainda bem que o Grupo passou, depois, a dar mais importância às interrogações e dúvidas que a leitura do livro suscitou, do que ao livro propriamente dito. Também o que eu tinha para dizer a este propósito iria inteiro para essas interrogações e dúvidas. O livro não merece que percamos tempo com ele. A sua tese é de todo inverosímil e delirante. Sem pés nem cabeça.

Comecei então por lembrar ao Grupo que, embora os quatro Evangelhos canónicos sejam obras teológicas e não livros de história, nem por isso deixam de conter dados históricos a ter em conta. Hoje, a ciência bíblica já consegue detectar alguns desses dados históricos e resgatá-los da interpretação teológica que os Evangelhos fazem deles. E isto é fundamental. Aliás, para este avanço, muito contribuíram os Manuscritos do Mar Morto, encontrados casualmente por um pastor em meados do século XX. Decisivas foram também as escavações que, posteriormente, foram realizadas em locais sobre os quais passou a haver fortes suspeitas de que lá teria havido povoações que Jesus de Nazaré pode ter conhecido pessoalmente. Lembrei igualmente que dos quatro Evangelhos canónicos, o de Marcos é o mais antigo, portanto, é o que está mais próximo dos factos que terão historicamente ocorrido e que ele interpreta teologicamente. Um desses factos histórico é o que testemunham os conterrâneos de Jesus, na povoação de Nazaré, onde - diz o Evangelho - ele se tinha criado. Marcos é o único Evangelho que garante que Jesus foi carpinteiro/artesão em Nazaré. Quanto aos outros dois Evangelhos sinópticos - Mateus e Lucas - que fazem preceder as respectivas narrativas de dois capítulos, vulgarmente chamados "Evangelhos da Infância", é preciso que se diga sem rodeios: esses dois capítulos não têm qualquer suporte histórico; são puras narrativas ou estórias teológicas, elaboradas a partir, não de factos históricos, mas de factos bíblicos narrados pela Bíblia hebraica ou Antigo Testamento. Como tal, até aquele episódio do Evangelho de Lucas com Jesus a discutir com os doutores, aos doze anos, no Templo, não passa de mais uma saborosa estória teológica, não histórica. Não se pode dizer que aconteceu tal e qual. O que aconteceu de certeza -e é para esse facto histórico que essa estória remete antecipadamente - foram as discussões teológicas que Jesus, já homem em missão, travou com os doutores da Lei e com os chefes dos sacerdotes do seu tempo e país. Discussões que acabaram por despertar neles tanto ódio contra ele, que eles acabaram por o levar à morte na cruz!

Nunca saberemos o que concretamente se passou com Jesus até aos 30 anos. Nem importa. O que importa é o que se passou com Jesus, depois que ele saiu das águas do rio Jordão, após ter sido baptizado por João. A informação do Evangelho de Marcos de que ele foi carpinteiro/artesão é o dado mais objectivo de que dispomos sobre Jesus até aos 30 anos. Artesão era condição digna de um homem daquele tempo. Era uma actividade que mantinha a pessoa que a realizava em contacto com os demais e garantia a sua sobrevivência com o mínimo de dignidade. Ser artesão/carpinteiro em Nazaré, uma pequena povoação que recentes escavações na zona vieram provar que existiu efectivamente, embora nenhum historiador da época se lhe refira nas suas obras, era um estatuto que proporcionava a Jesus frequentes incursões na importante cidade de Séforis. Não podemos esquecer que o país de Jesus era um pequeno país periférico, colónia do Império romano, ocupado pelas tropas imperialistas. Podemos imaginar o que era o dia a dia da população e de Jesus com ela, ao ver como é hoje o dia a dia do Iraque, ocupado militarmente pelas tropas norte-americanas e da coligação. Jesus vive em contacto directo com esta realidade sofrida do povo. Comunga dela. Conhece-a na própria carne. Muitas vezes, à noite, sob as estrelas, terá reflectido sobre o seu povo, desde Abraão, Moisés, Elias, Isaías. E haveria de pensar que futuro para o seu povo, depois de um passado de mil anos como aquele que todas as crianças aprendiam de cor nas escolas rabínicas, das sinagogas e nos ambientes familiares. Até que, um dia, um acontecimento histórico veio revolucionar a vida do país e a dele. Chega a Nazaré a notícia de que, nas águas do rio Jordão, um novo profeta aparecera, de seu nome João, o Baptista. Toda a gente se encaminha ao seu encontro. E Jesus também não resiste a esse apelo. Deixa tudo, a casa e a família, e parte. Quando se apresenta para ouvir João e viver sob a sua influência de mestre, era ainda um ilustre desconhecido em Jerusalém. Como qualquer outro artesão duma pequena povoação do interior. E assim se manteve desconhecido até ao dia em que se fez baptizar por João. Nesse dia, tudo mudou. O contacto com as águas do Jordão não era um contacto qualquer. Aquelas águas tinham um significado simbólico político altamente subversivo e revolucionário. As autoridades judaicas e romanas sabiam disso. Por isso, passaram a ter debaixo de olho o novo profeta que pregava nas margens do rio e convidava o povo a mergulhar nas suas águas. Aquelas águas faziam lembrar novos começos. Subversões políticas. Insurreições como a dos seus antepassados escravos hebreus no Egipto dos faraós.

É hoje um dado adquirido entre os especialistas do Jesus histórico que ele começou por ser discípulo de João. Quem, por isso, começou por ser famoso e temido, no tempo de Jesus, não foi Jesus, mas João, o Baptista. Ao ponto de também Jesus ter sido seu discípulo. Só que, quando Jesus mergulhou nas águas do Jordão para ser baptizado, um grande abalo se deu na sua consciência. E começa aí a história de Jesus que veio a justificar que quem o conheceu e se fez seu discípulo (alguns passaram de João para Jesus, depois da morte violenta de João, às ordens do rei Herodes, incomodado com tanta movimentação popular em seu redor) depois escrevesse os evangelhos, num esforço de interpretar teologicamente a sua vida e a sua intervenção na História. Os Evangelhos são outras tantas variantes dessa interpretação teológica, adaptadas às circunstâncias dos respectivos destinatários ouvintes. Mas então o que é que se terá passado na consciência de Jesus e que Marcos e os outros Evangelhos situam no momento em que ele sai das águas, após o baptismo de João? O que se passou foi a ruptura com João Baptista e o começo da via original de Jesus. João era um profeta escatológico, na linha dos antigos. Valorizava sobretudo o fim dos tempos e entendia que a História estava a chegar ao fim. "O machado já está apontado à raiz da árvore". Era um profeta apocalíptico. O mais importante era preparar-se para ser digno do fim dos tempos que já estava iminente, segundo ele! As pessoas que ouviam e acolhiam este discurso, arrependiam-se dos pecados e faziam-se baptizar para serem dignas do fim dos tempos.

Jesus, pelo contrário, em contacto com as águas do Jordão, experimenta inopinadamente outra visão da História. O seu povo tinha mil anos de história já vividos que tinham sido iniciados com o êxodo ou saída ou insurreição no Egipto, incluía um longo período de exílio na Babilónia e um período ainda mais longo, já de séculos, sob o domínio de sucessivos impérios. As águas do Jordão, inicialmente, haviam consolidado a vitória desse primitivo êxodo, pois significara a conquista e a posse da terra. Porém, essa terra estava agora militarmente ocupada pelo Império romano. E o seu povo era completamente oprimido por uma imensa minoria religiosa que, a coberto do Templo de Jerusalém, do santo Nome de Deus e da Lei de Moisés, convertia a terra prometida em terra/casa de opressão. O seu país tinha-se convertido de novo no Egipto dos faraós. Era necessário um novo êxodo, uma nova insurreição. E agora, não já apenas para os judeus, mas para todos os povos do mundo. Jesus viu tudo claro na sua consciência. E rompe com João Baptista, ao ver que já não conseguia mudar o ponto de vista do seu mestre. Para Jesus, decisivo não era, como era para João, o fim iminente da História, mas a História, o Tempo, como kairós, como oportunidade para mudar as coisas, as situações, pôr fim à opressão e à mentira, à injustiça e à exclusão. Deus, para Jesus, é sempre o do êxodo, o dos novos começos, não apenas o dos fins dos tempos. Em coerência com esta visão, Jesus entrega-se sem reservas a um tipo de missão que haverá de ser prosseguida pelas discípulas e discípulos dele em todas as nações. E vive essa missão, sem se desviar nem para a direita nem para a esquerda. Mais tarde, os Evangelhos, quando interpretarem teologicamente esta mudança radical de Jesus, ocorrida ao sair das águas do Jordão, irão dizer, e bem, que o Espírito Santo, nesse momento, desceu sobre ele como uma pomba. Espírito quer dizer Sopro, Vento, Energia que empurra a tomar decisões. Trata-se de um Sopro ou Espírito nos antípodas do que soprava das bandas do Império romano, do rei Herodes, e dos chefes dos sacerdotes. Por isso se diz que é santo, isto é, diferente, totalmente outro! Quer isto dizer que Jesus, ao contrário de João Baptista que desvalorizava o Tempo, a História e a Política como a actividade maior que se faz no Tempo e na História, valoriza cem por cento o Tempo, a História e a Política, como acção/intervenção no Tempo e na História. Até o título que as multidões lhe atribuem e que os discípulos aceitam, Messias, ou Ungido, ou Cristo, tem tudo a ver com Política, nada a ver com Religião. Cristo ou Unigido era o título que então se dava aos reis, cuja acção é essencialmente política, isto é, virada para o bem-estar das pessoas e dos povos, no Tempo e na História!

Muitas outras coisas adiantei, nesta exposição inicial, que aqui não refiro, para não alongar demasiado. Calei-me depois, para que as companheiras, os companheiros pudessem manifestar-se e dizerem da sua justiça. Surpreendentemente, todas, todos se mostraram agradados e edificados com o que me ouviram. Um deles, de nome Mário como eu, fez questão de levantar uma questão deveras oportuna. Queria saber, perante o que eu acabara de dizer, como é que então se explicava que Jesus Cristo é hoje apresentado como a segunda Pessoa da Santíssima Trindade, se ele, no seu tempo histórico, teve como qualquer de nós de aprender com esforço e de andar atento aos sinais dos tempos, para poder fazer umas determinadas opções e não outras. Estamos habituados a ver Jesus como alguém que já veio pre-fabricado do céu, como Deus que tudo sabe e tudo pode. Afinal, a ser assim como ouvira eu dizer, como é que Jesus pode ser apresentado como a Segunda Pessoa da SS. Trindade? Se, desde o princípio ao fim da sua vida histórica, Jesus nunca saiu da sua condição de ser humano, em tudo igual a qualquer de nós?

É claro que só tive que reforçar esta conclusão a que o Mário, do Grupo do Ferradal, havia chegado. Esclareci que o que as pessoas têm mais dificuldade em aceitar é que para Jesus seja integralmente homem. Queremos que ele seja integralmente Deus e homem apenas na aparência. Aliás, essas foram as principais heresias do princípio. Afirmavam Jesus como Deus, negavam Jesus como homem. Ele era Deus que parecia homem, com um corpo mais ou menos pneumático, que não era de carne e osso. Felizmente, a Igreja sempre recusou ir por aí. E afirmou que Jesus é homem como nós, em tudo igual a nós, "excepto no pecado", escreveu S. Paulo. Aliás, se Jesus não fosse homem, seríamos os mais infelizes dos seres humanos, nós os que cremos nele. Porque não teríamos nele o paradigma do ser humano, que podemos e devemos fixar e seguir, como nosso único Mestre e nosso único Senhor. E acrescentei: Tudo o que hoje a teologia dogmática diz de Jesus, Jesus nunca teve consciência disso, enquanto viveu entre nós até à morte na cruz. Tudo isso faz parte da interpretação teológica da sua vida e da sua intervenção na História. E foi possível fazê-lo, mas só algum tempo após a sua morte na cruz, quando despertou entre as suas discípulas, os seus discípulos, a Fé em Jesus Ressuscitado. Esta Fé em Jesus Ressuscitado é que tornou possível toda a interpretação teológica posterior à morte de Jesus. Mas hoje, até essa interpretação teológica que vem do passado, nomeadamente, dos anos imediatamente a seguir ao imperador Constantino ter reconhecido a Igreja como religião e religião oficial do Império, tem que ser posta em causa, pelo menos nos termos em que ela está formulada. De contrário, podemos andar a ensinar heresias às gerações do terceiro milénio. Urge, pois, uma interpretação teológica de Jesus para o terceiro milénio. Ou a Igreja tem essa audácia, ou Jesus pode vir a desaparecer da consciência das próximas gerações da Humanidade. É dever da Igreja fazer essa interpretação teológica. E não vale uma qualquer. Tem que ser uma interpretação teológica em forma de Evangelho, de Boa Nova para a Humanidade de hoje e do próximo futuro, a começar, evidentemente, pela que está aí como mais oprimida e mais excluída, também mais empobrecida e mais humilhada.

O Grupo de Cristãos de Base do Ferradal ficou feliz com este encontro. E com as perspectivas que abriu, também ao nível dos seus membros. Como sinal dessa alegria, o Noé levantou-se e foi por uma toalha que estendeu sobre a mesa e colocou nela uma regueifa doce que outrora só se confeccionava no tempo da Páscoa. Também colocou pedaços de regueifa branca. E chá em abundância. Para todas, todos comermos e bebermos. Foi o que fizemos com simplicidade e em memória de Jesus, deste mesmo Jesus que, ao contrário de João Baptista, deu todo o valor ao Tempo, à História e à Política. Como ele, também nós, hoje, só podemos seguir pela sua via, não pela de João Baptista. Infelizmente, é manifesto que as Igrejas, a começar pela nossa Igreja católica, têm sido mais discípulas de João Baptista do que de Jesus. Só por isso elas valorizam tanto a Religião e o moralismo. E a escatologia. Quando, como Igrejas de Jesus, teremos que valorizar o nosso hoje e aqui, bem como a Prática Política e a vivência da Liberdade, como responsabilidade. É uma revolução que só agora começa a ser balbuciada. Quando será realizada? Oxalá as Igrejas não se atrasem muito mais tempo!


2004 JUNHO 18

No passado dia 15 deste mês de Junho, completei quatro meses de residência e de vida em Macieira da Lixa. Ainda não é muito tempo, mas já dá para uma breve reflexão pessoal que quero aqui fazer, como quem o faz em voz alta. Tenho que reconhecer que o meu regresso a esta terra e a este povo, desta vez, sem qualquer poder eclesiástico e no meio da maior simplicidade, acabou por acontecer e ser aceite com toda a naturalidade. Ao fim deste tempo, já sou, simplesmente, mais um deste povo. O espanto popular inicial depressa deu lugar à naturalidade de todos os dias. A estrutura paroquial segue o seu ritmo, melhor, a sua rotina, como se eu cá não estivesse. E é assim que eu gosto. Não tenho nada a ver com a paróquia. Nem quero ter nada a ver. Procuro mesmo não me meter em nada, nem sequer quero saber o que se passa em concreto por esses ambientes. A Carta Presbiteral que escrevi, em Abril, e ajudei a distribuir por todas as casas da freguesia disse claramente às pessoas o que me propunha, com o meu regresso, e qual a disposição com que viveria aqui. Ficou claro desde então que, por mais anos que aqui viva, nunca haverei de ser visto a entrar no templo paroquial, até para assim proclamar, duma vez por todas, a este povo e ao mundo que, para se viver em Igreja, os templos paroquiais não fazem qualquer falta, pelo contrário, só atrapalham, dado que levam as pessoas teologicamente menos bem formadas a pensar que Deus está mais nos templos do que em nossas próprias casas, ou nas casas dos vizinhos. E não está. Também levam a confundir Igreja com Religião, quando esta está na continuação dos cultos do velho Paganismo e existe desde que existem seres humanos com mais ou menos medo e com mais ou menos ignorância, relativamente aos fenómenos que os rodeiam; ao passo que a Igreja acontece por obra e graça do Espírito de Jesus ressuscitado e visa dar continuidade ao movimento historicamente libertador e conscientizador que ele desencadeou no século I da nossa era na Palestina e quer ver chegar a todo o mundo, como via alternativa de comunhão com Deus vivo, sempre e só na comunhão com as irmãs e os irmãos com quem partilhamos o planeta, a saber, todas as outras mulheres, todos os outros homens. Foi Jesus quem revelou, contra todas as mentiras dos sacerdotes de todos os tempos e de todas as culturas, que ninguém jamais viu ou verá a Deus. O que vemos, se, evidentemente, fizermos por isso, são os outros seres humanos, de quem nos podemos aproximar, ou não. Enquanto as religiões sistematicamente nos enganam, ao alimentarem em nós a convicção de que, para nos encontrarmos com Deus, temos que ir aos templos e meter-nos nos ritos que aí funcionam, sob a presidência dos sacerdotes, como porta de acesso e de ponte para chegarmos a Ele, Jesus mostrou, com a sua prática e a sua palavra, que a experiência de Deus a quem nunca vemos é sempre indissociável da experiência do próximo, a quem vemos a todo o instante. O próximo é, por isso, o nosso único atalho para Deus, e ainda assim com a condição de que aceitemos que comece sempre por ser percorrido pelo próprio Deus em direcção a nós, antes de ser percorrido por nós em direcção a Ele. É que se não for Deus a tomar a iniciativa de nos saltar ao caminho e encontrar-se connosco, no próximo mais inesperado e mais incómodo, e sempre com a pergunta engatilhada, a mais desafiadora e a mais provocadora de todas as perguntas: "Onde está a tua irmã, o teu irmão? Que fizeste da tua irmã, do teu irmão?" (Génesis 4), então o Deus que confessamos não é ainda o Deus vivo, mas apenas mais um ídolo criado/imaginado por nós, com o qual depois regularmente nos entretemos com práticas religiosas, as mais esotéricas, sem jamais chegarmos a dar-nos conta dos pobres Lázaros que vivem do lado de fora dos nossos palácios e das nossas casas, paredes meias com as nossas fartas mesas, mas sem que alguma vez cheguem a ter acesso às migalhas que caem delas, durante os frequentes banquetes que fazemos, inclusive, com a presença e a bênção dos sacerdotes!

Ao longo destas semanas e meses que levo de vida em Macieira da Lixa, há sempre quem, sem disso ter intenção, acabe a falar-me de algumas iniciativas que ocorrem no templo paroquial da freguesia, iniciativas exactamente iguais a tantas outras, noutras paróquias do país e do mundo católico. Cada paróquia é como se fosse um clone das outras. Reproduzem os mesmos tiques, promovem as mesmas iniciativas, alimentam as mesmas alienações. Todas são filhas do sistema eclesiástico, que tem por pai, não o Espírito Santo, mas o Demoníaco, irmão gémeo da Rotina, da Preguiça, do Sempre o Mesmo. Até as coisas aparentemente mais sagradas que lá se fazem acabam por ser outros tantos sacrilégios.

Ainda há pouco tempo, no chamado Dia do Corpo de Deus, teve lugar no templo paroquial de cá, como no de muitas outras paróquias do país, a primeira comunhão das meninas e dos meninos. O acto, de tão rotineiro, mata, embora o discurso oficial que durante ele se pronuncia, diga que se destina a dar vida. Mas vida é coisa que ninguém viu nessa ocasião, nem noutras ocasiões semelhantes. Tudo o que se fez nesse dia lá no templo paroquial foi para alimentar vaidades, as mais repugnantes, já que este tipo de comunhão que a paróquia promove, todos os anos por esta mesma data, com pompa e circunstância, fica-se apenas pela hóstia que todas as meninas e todos os meninos comungam (não comem, porque comer pressupõe comida a sério e em quantidade suficiente; e que vá ao encontro de necessidades reais das pessoas em causa; e a hóstia não é nada disso, evidentemente, até como pão, como comida, é uma mentira!). Por outro lado, em momento algum há comunhão entre as meninas e os meninos, entre as famílias de umas e as famílias de outros. Cada qual apresenta-se no pedestal da sua vaidade, como para uma passagem de modelos e olha de soslaio e com ciúme para os outros, seus rivais. Entretanto, como ninguém, nessa ocasião, quer passar por pobre e dado que, em todo o tempo que dura a "cerimónia", não há nunca o mais pequeno sinal de comunhão e de partilha entre os que "vão à comunhão", até a família mais pobre da freguesia se sente obrigada a fazer tudo para passar por rica, não vá a sua filha, o seu filho ficar com um trauma para o resto da vida!...

Por mim, soube desta iniciativa, sem fazer nada por isso. O neto do meu senhorio, um menino de oito anitos, foi um dos protagonistas deste desastre e deste sacrilégio, cometido no templo paroquial, sob a presidência do respectivo pároco, por sinal, um homem ainda na casa dos trinta anos, mas infelizmente já tão envelhecido pela rotina e pela paroquialite (além da paróquia de Macieira da Lixa, tem mais outras duas ou três, o que rapidamente o transformou num funcionário do religioso, que vive para fazer o que o Sistema eclesiástico espera de qualquer funcionário zeloso, ao qual hoje paga bastante bem, mas em troca de progressivamente lhe tirar a alma, a identidade e a criatividade). Quando ele um dia acordar - há quem não acorde a vida inteira! - verá que as coisas são exactamente assim como eu aqui as escrevo. Mas, nessa altura, será capaz de dizer como aquele mordomo da parábola do evangelho, a quem Jesus gabou a esperteza saloia que mais não serviu do que para ele se enterrar ainda mais no abismo da sua inumanidade: "Que hei-de fazer? Estou velho, cavar não posso, mendigar tenho vergonha." E, depois, como quem leva a sua inumanidade ao extremo, poderá também acrescentar: "Já sei o que vou fazer". E o que foi? Chamou os devedores do seu patrão e corrompeu-os a todos, para assim conseguir fortuna que lhe permitisse prosseguir o resto da vida como um verme, sem coragem para se assumir como ser humano integral.

A verdade é que nada mudou na vida deste menino, neto do meu senhorio, nem na vida dos seus pais. A primeira comunhão no templo paroquial não passou de um rito, feito de mentira, que deixou tudo como dantes. Melhor dito: deixou tudo pior que antes. Porque o menino, em lugar de ter crescido em consciência e em relação com os demais; em lugar de ver alargado o número das suas irmãs e dos seus irmãos - a comunhão com Espírito Santo tem necessariamente este fruto existencial - depois de tudo aquilo, ficou ainda mais sozinho. A comunhão no templo não lhe deu novos irmãos nem novas irmãs. A sua casa não se tornou, a partir desse dia, na casa dos outros meninos e das meninas que o acompanharam, nem as casas das meninas e dos outros meninos se tornaram casas dele. Cada qual continua, hoje, na sua solidão, no seu deserto, na sua ilha. Quem pode, então, dizer com verdade que houve efectiva comunhão? Domesticação, talvez tenha havido. Porque tanto o neto do meu senhorio, como todos os outros meninos e as meninas que, como ele, foram levados a fazer o rito da primeira comunhão terão percebido, no desenrolar da cerimónia, que vivem num mundo, onde há templos e altares e sacerdotes que pontificam lá dentro, sem que ninguém os possa contrariar. Terão apreendido na sua simplicidade que há superiores a quem devem obedecer, e que há hierarquias que devem respeitar e temer. Numa palavra, todas e todos terão ficado um pouco mais domesticados, quando do que careciam era de darem um passo em frente na vivência da liberdade, da responsabilidade, rumo a um mundo de iguais e de irmãs e de irmãos.

Mas estes quatro meses de vida em Macieira da Lixa têm mexido bastante comigo. Positivamente. O simples facto de estar a viver sem qualquer poder numa terra onde anteriormente vivi uma curta experiência de poder (felizmente, mesmo essa experiência já foi também de provocadora contestação ao poder que o Sistema eclesiástico queria que eu assumisse todos os dias, o que me valeu ser destituído para sempre desse mesmo poder!), faz-me sentir ainda com mais intensidade o apelo a ser e a permanecer simplesmente homem. Quando era aqui pároco, toda a gente me considerava e mais ou menos acatava o que eu dizia e propunha. Muitos dos meus desejos eram ordens que algumas pessoas gostavam de realizar. Não faltavam pessoas à minha volta dispostas a cooperar comigo. Até a fazerem-me segurança, perante certas ameaças da PIDE e de alguns dos seus compinchas locais. Hoje, sem qualquer poder, simplesmente homem entre os demais homens e mulheres, tudo é diferente. Até as iniciativas em que participo e que dinamizo maieuticamente no âmbito da Comunidade de base local, não conseguem congregar um número significativo de pessoas. Para a maior parte da população, a minha vida aqui e as iniciativas em que me envolvo passam-lhes completamente ao lado. O que me faz sentir ainda mais simplesmente humano, faz-me reaprender ainda mais a ser humano, a despojar-me ainda mais de todo o poder. Nestas circunstâncias, sinto-me em melhores condições para escutar o Evangelho de Jesus e para ser presbítero da Igreja totalmente votado à missão de o anunciar aos pobres. Porém, até este anúncio é hoje feito duma forma distinta da de outrora. Hoje, é sobretudo feito com a humildade deste meu viver despojado, em todos os dias. Nesta casinha alugada, onde também estudo, reflicto, escuto a Palavra, me deixo fazer pelo Espírito. E onde escrevo, também este Diário Aberto. E onde mantenho contacto com o mundo através dos meus dois sítios na internet.

Constato também que com a minha presença permanente aqui, até a comunidade de base que apoiei e dinamizei regularmente desde o seu início, parece ter esmorecido. Há, pelo menos, certos companheiros que, desde então, andam mais afastados. Provavelmente, perceberam que agora, comigo aqui a viver, ser Comunidade é coisa ainda mais séria, pois nos espera a missão, onde é fundamental a verdade do nosso viver ao jeito de Jesus. Felizmente, têm-se multiplicado mais os contactos ao vivo com companheiras e companheiros de fora que vêm até cá. Vêm por mim, mas encontram sempre a Comunidade, na sua casa que é simultaneamente a casa de Maria Laura e dos seus filhos. Há encontros eucarísticos e de partilha da palavra à volta da mesa da Comunidade. Há laços que se estreitam e que, fora deste contexto, não aconteceriam, ou, se acontecessem, não chegavam a ter a força e o impacto espiritual que têm aqui. Recordo dois encontros recentes que deixaram marcas profundas em quantas, quantos os protagonizámos. Um, juntou aqui na minha casa, o Pe. Mário Tavares, da Madeira, que veio acompanhado do Assis, de VN Gaia. Vieram propositadamente partilhar comigo o jantar que eu próprio confeccionei com toda a ternura. Convidei Maria Laura a juntar-se a nós três, para que a Comunidade de Base, de que ela é o rosto mais expressivo, na sua qualidade de presbítera não-ordenada, também estive presente e marcasse positivamente todo o encontro. Assim aconteceu, de facto. O outro encontro juntou um grupo de oito pessoas de Gulpilhares, VN Gaia e mais um grupo de três pessoas, provenientes de Almada. Os dois grupos não se conheciam entre si, mas entrosaram perfeitamente. Foi no feriado do 10 de Junho. Vieram com tempo. Chegaram a meio da manhã, passaram aqui pela minha casa, para a conhecerem e me verem no meu ambiente de todos os dias, e seguimos depois todos para a Casa da Comunidade. Trouxeram almoço, em forma de pic-nic, e assim pudemos viver um dia intensíssimo de comunhão, primeiro, à volta da mesa da comunidade, a que se juntaram também os filhos de Maria Laura, depois, em grupo, sentados em forma de quadrado, num encontro de desassombrado testemunho de vida e de partilha da palavra, que nunca mais esqueceremos.

Resta-me prosseguir esta vivência. Como discípulo. Longe do templo. Longe do poder eclesiástico. Longe dos privilégios. Numa comunhão sem intermediários com o povo. Mesmo que as pessoas, na sua esmagadora maioria, continuem sem frequentar as iniciativas da Comunidade de base - a Ceia Eucarística aos segundos sábados de cada mês, com início às 20h, e o estudo bíblico aos quartos sábados de cada mês, com início às 21,30h - frequentarei eu as suas vidas, os caminhos que elas calcorreiam todos os dias e as casas delas que se me abrirem. Esta comunhão encarnada e real, 24 horas sobre 24, humaniza-me muito mais do que todos ritos estéreis de comunhão que se fazem nos templos, em dias e horas certos. É que naquela, o Espírito Santo está sempre presente e actuante, como ar que respiramos. Enquanto que nestes, tudo é mentira que deixa os participantes ainda mais distantes uns dos outros e a olhar o céu, quando, afinal, é na terra que Deus, o de Jesus, vive e trabalha. Ininterruptamente.


2004 JUNHO 13

1. Hoje é dia de votar para o Parlamento Europeu. Vou ter que me deslocar à vila de S. Pedro da Cova, em Gondomar, onde continuo recenseado. São 50 kms para cada lado, mas nem isso me leva à cómoda, preguiçosa e estéril atitude da abstenção. Quero participar. Vou votar. Os "media", nestes dias, quase só nos têm servido futebol europeu. É o Euro 2004, que ontem teve o seu início no nosso país. Como que simbolicamente a dizer que interessa mais o futebol do que o Parlamento Europeu (PE). Todos os países da Europa, apurados para esta fase final do Euro, têm estado e continuam a estar ao rubro com os jogos que ontem tiveram início. Mas para as eleições para o PE nenhum país está minimamente mobilizado. A grande vencedora irá ser a abstenção. Os estádios de futebol estão cheios de europeus de todos os países, mas os locais onde estão as urnas de voto estão quase às moscas. E, no entanto, são locais ao pé da porta das pessoas, ao contrário dos estádios onde se realizam os jogos do Euro 2004, que, desta vez, estão todos em dez cidades de Portugal. Mas as populações preferem ver a bola a correr nos estádios, a votar nas urnas. Bem sei que se os grandes "media" dessem tanto tempo às eleições para o PE como dão ao Euro 2004, as populações teriam outro comportamento eleitoral. Mas quem manda nos "media" não está interessado em ter populações politicamente críticas e participativas. A sua aposta vai noutra direcção. O futebol é escape, é alienação, é falsa mobilização, é mentira. Nem sequer distrai, como mentirosamente se diz por aí. Cansa. Esgota. E só alegra momentaneamente aquelas populações cuja selecção nacional consegue triunfar. Porque as populações cuja selecção perde o jogo entram de imediato em depressão, choram de raiva e de desespero, são a expressão da desolação e do desencanto. Como sucedeu ontem com Portugal que perdeu o jogo inaugural do Euro 2004 com a Grécia. O país foi estupidamente mobilizado pelos "media" e pelos actuais governantes. Criou-se a ilusão de que a nossa selecção era a melhor da Europa. E veio o desastre. Naturalmente. Porque o desastre é, infelizmente, a situação real do país que hoje temos, e que os governantes estão interessados em esconder, para não serem eleitoralmente penalizados. Mas é a realidade mais indesmentível. Aliás, quanto mais subdesenvolvido é um povo, mais mobilizado é pelo futebol. O que me surpreende é que nem alguns dos nossos intelectuais vêem isto. E vêm publicamente tecer loas ao futebol, como se as vitórias da selecção fossem vitórias de Portugal. A verdade é outra. Mesmo que a selecção portuguesa ganhasse o Euro 2004, o nosso país continuaria na cauda da Europa, em todos aqueles campos em que hoje está. E essa vitória nem sequer significaria o início da nossa libertação e recuperação como país. Funcionaria ainda como ópio que nos adormeceria para os reais problemas do país. Seriam bebedeiras em massa, festejos em massa nas cidades e aldeias, mas depois, quando tudo terminasse, o país real estaria ainda mais amargurado, mais vazio, mais sozinho, mais na cauda da Europa. Até os nossos craques da bola acabariam fora dos clubes portugueses, deslumbrados pelas ofertas multimilionárias feitas pelos grandes clubes do mundo que, hoje, são meras máquinas de fazer dinheiro, a pretexto do futebol. Não resisto a referir aqui toda a minha estranheza por ontem ver no PÚBLICO o nome do nosso poeta Manuel Alegre. Assinava uma crónica em forma de loa ao futebol. Nem ele foi ainda capaz de ver a mentira que anda em tudo isto. E a desumanização que tudo isto opera. O desporto é outra coisa. E, dentro do desporto, também o futebol é outra coisa. Mas o Euro 2004 e todas as competições futebolísticas em grande escala como esta têm objectivos que não são os da humanização das pessoas e dos povos. Mobilizam, mas para mais eficazmente alienar as pessoas e os povos. E deixar as pessoas e os povos mais na fossa, no desespero, na depressão. Inclusive, os poucos que, no final da competição, podem festejar a vitória nas ruas, fazem-no, duma maneira geral, de forma tão deprimente, que nos deveria envergonhar a todas e todos: com bebedeiras monumentais, com urros selvagens, com destruições sem sentido, por isso, bem nos antípodas da festa e da comunhão humanas.

2. Ontem à noite, foi a nossa Ceia Eucarística de Junho, na Casa da Comunidade. Um momento alto da vida com sentido. A mesa partilhada está nos antípodas de um estádio de futebol. Desta vez, também eu fiz questão de preparar uma ceia em casa e levá-la para a mesa partilhada. Fez parte da minha preparação pessoal. Costumo comer das ceias que outras pessoas preparam e partilham. Mas não deve ser mais assim. Também aqui devo dar exemplo. Preparei um tacho de arroz com pedaços de um frango caseiro que há dias a Lurdes, aqui da Maçorra e que integra o grupo com que costumo reunir regularmente em casa da sua irmã Rosalina, me ofereceu. Juntei-lhe pedacinhos de cenoura e ervilhas em grão. Levei o tacho ainda quente. Lá, na mesa partilhada, ainda me soube melhor. O corpo de Cristo é também este arroz. É toda a comida que somos capazes de expropriar  para partilhar. Quem participou na Ceia ficou surpreendido com o meu gesto. Mas apreciou-o. E quem provou do arroz gostou muito. Creio que assim há ainda mais verdade na Ceia Eucarística. O gesto é pequeno, mas carregado de significado. Os padres, habituados a presidir à celebração, nunca partilham nada de si. Assumem-se no papel de funcionários. E nada mais. Não são pessoas. Isto é ainda mais verdade nas missas rituais a que eles presidem nos templos, em dias de semana e aos domingos. Nestas, os presentes são convidados a partilhar algum do seu dinheiro, sob a forma litúrgica do Ofertório. Porém, nunca se vê o padre que preside a contribuir com algum do seu dinheiro. O que acontece é o contrário. É ele que recebe todo o dinheiro recolhido na missa. Ninguém se escandaliza com isto. E toda a gente deveria escandalizar-se, porque se trata de um verdadeiro escândalo. Mas as pessoas não se escandalizam, porque, nas missas, elas como que deixam de ser pessoas, ficam meras coisas que estão ali, como as cadeiras, as jarras, as imagens, as toalhas. É tudo faz-de-conta. Também as pessoas. À entrada, deixam cá fora a cabeça, a inteligência, o sentido crítico, a voz e a vez. Entram como meros figurantes do teatro, do ritual, que se vai seguir. Não são pessoas. Com todas as suas capacidades. Se o fossem, como poderia fazer-se o ritual até ao fim? Não é verdade que se alguém lá dentro se esquecesse e passasse de figurante a pessoa viva e interveniente, a missa não consegueria prosseguir até final? É por isso que as missas não são Eucaristia, por mais que os padres e os bispos digam que são. São meros rituais que desumanizam quem os realiza e quem neles participa. Nunca se viu alguém crescer em consciência e em intervenção na História, à medida que frequenta as missas nos templos. O que se vê é exactamente o contrário: Quem mais vai às missas, menos pessoa é no mundo e na História. Os rituais impedem o crescimento da consciência crítica, anestesiam as pessoas, convertem as pessoas em figurantes. E com figurantes não se muda a História. Os figurantes limitam-se ao papel para que foram seleccionados. Não são pessoas. Não são criadores. Fazem apenas o que está previsto e programado. Não surpreendem. Para surpreender, só mesmo as pessoas.

Não falei a ninguém a lembrar que era o segundo sábado do mês, a noite da nossa Ceia Eucarística. As pessoas foram inicialmente informadas pela Carta Presbiteral. Agora, têm que estar atentas e aparecer, se quiserem. Lembrar, pode funcionar como forma de pressão. E não quero que ninguém venha à Ceia Eucarística para agradar a A ou B. Tem que vir por convicção. Tudo o que não é por convicção, desumaniza, avilta, perverte. Tomei esta postura, porque me dei conta de que, ao longo do mês, entre uma Ceia Eucarística e outra, as pessoas que nela participam praticamente não dão qualquer sinal de comunhão fraterna/sororal. O que revela que mesma esta Ceia pode ser mais um momento de mentira. O que não posso de modo algum alimentar. A Ceia Eucarística da Comunidade tem que arrancar de dentro das pessoas. Temos que sentir fome do Pão Partido, da Comida Partilhada, da Palavra conversada e Partilhada, da Ternura dada e recebida, da Vida entregue ao mundo onde vivemos todos os dias. Não interessa ir à Ceia Eucarística como quem antes ia às missas ao domingo. Seria a nossa própria morte e a morte dos demais. De modo algum, hei-de aceitar que as pessoas voltem a ser figurantes. Têm que ser pessoas. Podemos, assim, ficar com quase ninguém, mas é este o caminho. Só a verdade nos liberta e humaniza. Só a verdade nos salva.

A Maria Laura também adoptou comportamento idêntico ao meu e não andou por aí a badalar que ontem era o segundo sábado do mês. Em consequência, vieram poucas pessoas. Mas a Ceia Eucarística foi muito mais libertadora. Vivemo-la como pessoas, não como figurantes. As mais novas também se integraram. O clima foi de intimidade, de ternura, de afecto, de proximidade. Ninguém representou. Todos foram o que são todos os dias. Até o Miné que costuma comportar-se de forma sistematicamente desestabilizadora (demoníaca?), foi muito mais comedido. Eu próprio tratei-o com mais verdade, como pessoa e ele, com o andar da Ceia e da conversa partilhada, acabou por tornar-se mais autêntico, mais ele próprio, mais humano. Por pôr a boca a sintonizar com o coração. Foi uma Ceia Eucarística que ninguém dos que participámos jamais esquecerá e que marcou as nossas vidas para sempre. A abrir, trouxe à mesa o texto crítico da 1ª Carta aos Coríntios sobre a Ceia que eles já realizavam por volta do ano 50, e que, depressa, se corrompeu com determinados vícios, aos quais Paulo, fundador da Comunidade, tentou pôr cobro. O texto (é o cap. 11 da Carta) assentou como uma luva. E foi um bom ponto de partida para a conversa autocrítica, enquanto comíamos. Olhámos com olhos autocríticos para nós próprios. E assumimos propósitos de aperfeiçoamento. Vamos ser mais autênticos, mais pessoas, mais nós próprios. Temos consciência de que avançar por esta via é arriscado, dado que não há rituais e a vida, se não for vivida com seriedade e responsabilidade, pode corromper-se, perverter-se num instante. E lá se vai tudo por água abaixo. Nessa altura, podemos ser levados a pensar que a solução está no regresso aos rituais, às normas, à Lei, mas não está. A solução está na audácia da autocrítica e na coragem de nos assumirmos como pessoas, com toda a força da responsabilidade que isso implica. É por isso que o caminho das comunidades cristãs de base é caminho de porta estreita. As maiorias preferem o caminho do não-esforço, da não-responsabilidade, o caminho dos rituais, das normas, da Lei, do autoritarismo. Ou como diz Jesus, o caminho da porta larga que conduz à perdição, isto é, à perda da identidade, à perda da pessoa que desaparece para dar lugar ao figurante, ao faz-de-conta. Ontem, percebemos isto muito bem e vamos humildemente ser fiéis a esta luz que nos foi dada.

Como texto bíblico depois da Comida Partilhada em conversa fraternal, ouvimos o capítulo de abertura do segundo volume do Evangelho de Lucas, mais conhecido por livro dos Actos dos Apóstolos. A sua escuta, de múltiplas maneiras, foi uma surpresa. Demo-nos conta que até os familiares de Jesus, com a sua mãe à mistura, quiseram apoderar-se dele e da sua "herança", coisa que nunca haviam conseguido durante a vida histórica dele. O Movimento esteve em grave perigo, nesses primeiros tempos de ausência física de Jesus. Não fosse o Espírito Santo, e tudo teria ido por água abaixo. Os próprios apóstolos continuavam a sonhar, mesmo depois da morte crucificada de Jesus, na restauração do Reino de Israel, sinal inequívoco que nunca tinham entendido Jesus, enquanto ele viveu historicamente entre eles e com eles. Nunca entenderam, muito menos aceitaram que o Reino de Deus fosse um projecto político que contemplava todos os povos em radical igualdade. O que pretendiam é que Jesus fosse o Rei dos judeus e eles os seus ministros, cheios de privilégios. Também a este nível, o que valeu foi o Espírito Santo que Jesus sempre prometera que eles haveriam de receber. Não deixa de ser chocante, entretanto, que estes homens, depois da ausência física de Jesus, comecem por cair na tentação de regressarem à vida do passado, ao judaísmo que Jesus contestou, ao Templo de Jerusalém, que Jesus simbolicamente destruiu, às orações ritualizadas e programadas dos judeus piedosos que Jesus tinha abolido, enfim, ao respeito pelas autoridades religiosas que mataram Jesus. Em lugar de assumirem com audácia toda a Novidade que Jesus é e historicamente viveu no meio deles e perante eles, regressam ao antigamente. Seria como se as comunidades cristãs de base hoje regressassem às paróquias e suas estruturas de opressão, à obediência aos párocos, aos rituais, às missas, aos sacramentos sem profecia e sem conteúdo histórico-político. Isto serve de alerta para toda a Igreja e para cada comunidade cristã em concreto. Porque, ou a Igreja se deixa conduzir e empurrar pelo Sopro outro que é o Espírito Santo, em lugar de ser empurrada pelo sopro do Poder e dos Privilégios, ou torna-se um corpo com um cadáver dentro, que corrompe e apodrece tudo o que tocar. Mesmo que o cadáver seja o do próprio Jesus. Só o Espírito Santo faz de Jesus o Ressuscitado, o Vivente que vivifica tudo e todos os que tocar. Sem Espírito Santo, até Jesus é um cadáver que a Igreja ostenta, mas para mal dela e dos povos no meio dos quais ela actua. O livro chama a atenção para este perigo que continua hoje a ser real, tanto mais que já vamos com 20 séculos de Igreja. Os começos da Igreja foram tremendamente problemáticos, quer porque os familiares de Jesus tentaram apoderar-se dele e reduzi-lo à dimensão dos seus próprios interesses corporativos, quer porque os próprios discípulos continuavam a sonhar com a restauração do Reino de Israel, como se tivesse sido esse o projecto de Jesus. Valeu decisivamente o Espírito Santo que alargou as fronteiras do Reino de Deus a todos os povos do povo, sem que nenhum povo tenha qualquer precedência e qualquer privilégio sobre os demais povos. É esse mesmo Espírito Santo que nos há-de valer hoje e sempre. Ou assim e a Igreja vive na História como parteira desse Reino, ou será melhor que ela desapareça da História, porque, nesse caso, como o sal que perde a força, só serve para ser lançada fora e pisada pelos homens. Isto vimos claramente nesta Ceia Eucarística. E, porque o vimos, aqui o proclamamos. Com alegria. E audácia. Como num Pentecostes sem fim.


2004 JUNHO 09

1. Retomo hoje este Diário Aberto. A sua interrupção deveu-se ao facto de eu ter sido chamado pelo Hospital de S. João, no Porto, para uma pequena cirurgia, em cujo serviço estava inscrito há já alguns meses. A lista de espera, finalmente, funcionou para mim. Não quis desperdiçar a oportunidade e fui. Desde há muitos anos que as hemorróidas me incomodavam, mas, passadas as crises ocasionais, logo esquecia e fazia de conta que não tinha mais problemas. Desta vez, não quis continuar a assobiar para o ar. Fui alertado pelo médico de família que havia o risco de outros problemas colaterais de saúde e não quis adiar por mais tempo a intervenção que se impunha. O contacto directo, numa consulta externa no Hospital, com aquele que viria a ser o próprio cirurgião, Dr. Pedro Silva, acabaria por desfazer as minhas últimas resistências. E avancei, resoluto e confiante, quando chegou o dia anunciado. O internamento foi de pouco mais de 24 horas. Entrei numa quinta-feira de manhã, fiz exames durante o dia e, ao fim da tarde, já entrei no bloco operatório, de onde saí, cerca de hora e meia depois, para a enfermaria. No dia seguinte, ao começo da tarde, já me foi dada alta e regressei a casa. Mas as dores eram muitas e nada de pensar em retomar as actividades. Muito repouso e muita paciência. Passei por momentos muito dolorosos, mas tudo já faz parte do passado. A nova qualidade de vida que resultará deste passo que acabo de dar fará esquecer os maus momentos por que tive que passar. E posso dizer com sinceridade a quem esteja em idênticas situações: não deixem de avançar para a intervenção. Sobretudo, se ela for realizada segundo o método que o Dr. Pedro Silva segue. Direi mesmo: Se alguém, entre as pessoas que porventura me lerem, tiver que ser operado a este tipo de problema, não avance sem antes se certificar se o cirurgião segue este novo método, pelos jeitos, inventado por um célebre cirurgião italiano. As dores pós-operatórias não deixam de ser fortes, como no método tradicional, mas, felizmente, apenas durante uns três/quatro dias. Entretanto, já nesses dias, o paciente pode sentar-se normalmente e, depois, lentamente, retoma a sua vida. Pelo método tradicional, tudo é muito mais complicado, como testemunham unanimemente as pessoas que já se submeteram a esta intervenção. Em boa hora, pois, conheci o Dr. Pedro Silva. Não o escolhi, nem ele me escolheu. Saiu-me na escala de serviço do Hospital. Quando fui à consulta externa, já para confirmar se deveria ser operado ou não, foi ele quem me apareceu e me observou. Logo aí me explicou o método novo de operar e venceu todas as minhas resistências à intervenção. Ainda bem que assim sucedeu. Fico-lhe eternamente grato. E não me cansarei de apregoar em toda a parte os benefícios deste método revolucionário.

Quando, uma semana depois, voltei ao Hospital de S. João, para nova consulta externa, agora, pós-operatória, já fui eu a conduzir a carrinha para lá e para cá. E disse isso ao Dr. Pedro Silva na consulta. E logo ele atalhou: Está a ver?, se tivesse sido operado com recurso ao método tradicional, isso seria impossível, a tão poucos dias da intervenção. Levei comigo, para esta consulta pós-operatória, um exemplar do meu novo livro Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS, com uma dedicatória manuscrita. Entreguei-o ao Dr. Pedro Silva, num gesto de gratidão e de ternura. A dedicatória diz, entre outras coisas, "Às suas mãos. Ao seu saber. À sua dedicação". Ele enterneceu-se até às lágrimas. O gesto e a dedicatória foram pretexto para uma conversa de alma para alma. O cirurgião e o paciente deram lugar a dois seres humanos frente a frente, cada qual com o melhor de si próprios. Foi um momento inesquecível. Para ele. E para mim. Daí partimos para uma reflexão altamente teológica e altamente contemplativa, durante a qual ficou claro que este tipo de intervenções nos nossos hospitais em todo o mundo são os verdadeiros milagres de que a nossa vida humana tanto carece. Os milagres que nós, seres humanos, fazemos uns pelos outros e uns com os outros. Os Hospitais são casas humanas de milagres. Os blocos operatórios são ventres onde a vida humana conhece transformações e curas em corpos concretos que, de outra maneira, morreriam precocemente, ou ficariam deformados para o resto da vida. Adiantei que estes são os milagres que dão verdadeira glória a Deus, porque a glória de Deus é que o ser humano viva, se liberte, se autonomize, se torne independente, cresça em sabedoria e em graça, seja protagonista da sua própria vida e da História, seja criador com o Criador e, se possível, ainda mais criador que o Criador. Os outros milagres que, mentirosamente, costumamos atribuir a uma intervenção especial de Deus, conseguida a pedido ou por cunha de uma candidata a beata ou a santa, um candidato a beato ou a santo, não passam de insultos ao santo nome de Deus. Primeiro, porque não há nenhuma intervenção especial de Deus que venha suprir a nossa preguiça, a nossa incapacidade, a nossa ignorância, a nossa rotinice; segundo, não há beatas nem beatos, santas nem santos que mandem em Deus; terceiro, Deus não é como os grandes deste mundo que se deixam corromper e vender por cunhas de outros que se movimentam no circuito da sua intimidade. Deus nunca é para nos substituir ou infantilizar, mas para nos promover e potencializar ao máximo. Deus é para nos fazer fazer. Para isso é Deus em nós e connosco. Emanuel.

O Dr. Pedro estava encantado e sensibilizado. Confessou que é cristão católico, mas que nem sempre se revê em certas posições mais radicais que eu defendo e vivo em Igreja. Mas, agora, ao ouvir estas minhas considerações tão centradas no ser humano e a responsabilizar tanto o ser humano, sentiu-se vivamente tocado por elas. À luz do que ali reflectíamos ambos, era manifesto que o seu serviço diário no Hospital como cirurgião tinha que passar a ser visto com outros olhos, também por ele. A sua comoção, por isso, era enorme. E a sua alegria também. Fez questão de me confiar o seu número de telemóvel e, quando nos levantámos para a despedida, o abraço que demos não podia ter sido mais intenso e mais fraterno. Por muitos anos que eu viva, nunca mais esquecerei este momento. E estou certo que o Dr. Pedro Silva também não. São momentos assim que me fazem sentir em plenitude presbítero da Igreja, não, evidentemente, ao serviço do templo e do altar, mas ao serviço do Evangelho da libertação para a liberdade, o mesmo é dizer, ao serviço da Humanidade, das pessoas concretas de carne e osso, para que elas sejam cada mais pessoas e cada vez mais protagonistas.

Infelizmente, a Igreja, quer ao nível da hierarquia, quer ao nível da multidão de baptizados, mulheres e homens, continua a não ser capaz de ver as coisas assim. E teima em permanecer confinada aos templos e aos altares. Para onde chama regularmente as pessoas e as leva a fazer coisas que ninguém aprecia, sempre as mesmas, mas que, entretanto, pensamos que Deus apreciará e se sentirá especialmente honrado. Mas será que Deus tem assim tão mau gosto? Será que Deus consegue ter mais mau gosto do que nós? A Beleza, o Bem, a Verdade, o Amor, a Liberdade, a Musicalidade, a Poesia que Deus é alguma vez pode sentir-se honrado com todas essas coisas mais ou menos bobas e de incrível mau gosto que as Igrejas insistem em realizar em dias e horas certos nos templos? Dirão que não é Deus quem precisa desses cultos, dessas liturgias. Somos nós, seres humanos, que precisamos. Efectivamente, nem só de Pão vive o ser humano. Também vive de toda a Palavra que sai da boca de Deus. Mas o que as Igrejas fazem nos templos e nos altares aos domingos não passa de simples acções humanas de mais ou menos mau gosto que, inclusive, obstaculizam a acção da Palavra que sai da boca de Deus, a qual, assim, encontra ainda mais dificuldade em chegar até nós, seres humanos.

É verdade, as pessoas que frequentam regularmente os templos e os cultos não chegam a ouvir a Palavra de Deus. Muito menos chegam a ser encontradas por Deus, sobretudo, pelo seu Espírito Criador e Libertador. Vão lá fazer umas quantas coisas supostamente para Deus. Um Deus que elas imaginam, porque efectivamente um Deus assim com tão mau gosto, só existe mesmo na sua imaginação. E a prova é que, depois, regressam a casa ainda mais acomodadas, mais adormecidas, mais conformadas, mais resignadas, mais submissas, mais anestesiadas. Quando, se tivessem sido encontradas por Deus, viriam fatalmente inquietadas, insubmissas, revolucionárias, criadoras, interventivas, comprometidas com as causas da Humanidade mais sofredora. E, provavelmente, tão cedo não voltariam nem ao templo nem ao culto, de tão comprometidas que ficavam com o Mundo, com a Terra, com a Política, com a Vida.

2. A notícia não pode ser mais brutal e foi-me dada, esta manhã, pelo meu amigo, companheiro e irmão, Homero, de Lisboa, via telemóvel: Acaba de falecer o Professor Dr. Sousa Franco, cabeça de lista pelo PS ao Parlamento Europeu. De ataque cardíaco fulminante. Faleceu em plena campanha eleitoral para as eleições europeias. Se os insultos políticos matarem, pode dizer-se que esta morte é um crime político hediondo. Alguém matou o Professor Dr. Sousa Franco com os seus insultos políticos. Dificilmente, uma campanha eleitoral poderá atingir os níveis rascas que esta atingiu. É manifesto que certos elementos da Coligação que assegura o actual Governo não puderam engolir o Professor como cabeça de lista do maior partido da oposição. Ele que, outrora, até foi do PSD, mas que, com o rodar dos anos, fez uma caminhada para a esquerda social-democrata do PS. Competência não lhe falta. Integridade moral também não. Na impossibilidade de o atacarem na substância, tentaram atingi-lo no insulto, no achincalhamento, na injúria. Porca política. É evidente que não é deste tipo de política e deste tipo de políticos que Deus gosta. Quando escrevi o livro titulado E Deus disse: Do que eu gosto é de Política, não de Religião, não é neste tipo de política que estava a pensar. Mas nos seus antípodas. Por isso, o livro não agradou nada nem agrada aos políticos da nossa praça. Nem aos religiosos das nossas igrejas e seitas. Político a valer, só aquele, mulher ou homem, que se assemelhar a Jesus de Nazaré, o Político por antonomásia.

Morreu o Professor Dr. Sousa Franco. Ou mataram o Professor Dr. Sousa Franco? É minha convicção que o insulto político pode matar. E mata. Aqui, terá sido o que aconteceu. Mataram o Professor Dr. Sousa Franco. Em lugar das hipócritas lágrimas de crocodilo e dos hipócritas elogios póstumos do costume, em momentos destes, tenhamos todas, todos a humildade de nos vermos no espelho deste assassinato político. E mudemos radicalmente de ser e de agir. Para que a Política chegue a ser, finalmente, a actividade mais nobre dos seres humanos, a comunhão mais intensa e mais activa com Deus, nosso Criador e Libertador.

voltar