DIÁRIO ABERTO
2007 JULHO 14
Este tempo de férias em que já estamos leva alguns cristãos, elas e eles, a recordar que também Jesus, em determinada altura da sua missão, se retirou com os discípulos para “um lugar afastado” (cf. Lucas 9, 10). Pensam assim que Jesus levou os discípulos a descansar, como numas férias. Tanto mais que essa sua decisão foi tomada imediatamente depois que o grupo dos doze chegou duma missão concreta que ele próprio lhes havia confiado entre o seu povo. Geralmente, ao lermos este relato, pensamos que os discípulos estariam a precisar de descanso e que Jesus providenciou nesse sentido. Mas nada mais errado. Sem pôr em causa o direito das pessoas ao descanso e às férias, nomeadamente, das pessoas que hoje trabalham em condições cada vez mais estressantes e vazias de dignidade humana, a verdade é que não é disso que se trata neste caso. O que Jesus pretendeu, ao agir assim, foi ver se afastava os Doze da nefasta influência da ideologia nacionalista messiânica do judaísmo do seu tempo.
O contacto directo com a população havia-os contaminado. E quando eles regressaram, não eram mais os mesmos. Em lugar de anunciarem o Reino de Deus, como a boa notícia por antonomásia, e assim provocarem a conversão das pessoas ao Deus do Reino, os Doze haviam alimentado o messianismo nacionalista das populações. E o que mais pretendiam, agora, era que Jesus se assumisse como o líder, o Messias do povo e liderasse o levantamento popular armado contra os romanos. Nem os Doze estavam imunes desta ideologia nacionalista messiânica.
Jesus deu-se conta à sua chegada da missão e teve de intervir de imediato com oportunidade e autoridade para evitar semelhante contaminação no grupo. Não terá obtido grandes resultados, porque a contaminação era já profunda e não sairia da mente deles às boas. Foi porventura o “demónio” mais difícil de expulsar da consciência dos Doze, nomeadamente, de Pedro, Tiago e João. E também de Judas, aquele que o traiu. Nem mesmo depois do rotundo fracasso da cruz, eles mudaram de mentalidade e de prática. Pedro só veio a converter-se a Jesus e ao Deus do Reino, anunciado e praticado por Jesus, alguns anos depois, quando acabou por aceitar o Evangelho de Jesus segundo Marcos, da responsabilidade da comunidade jesuânica que se reunia em casa da sua mãe, também ela “afastada” do Templo de Jerusalém, onde, ao contrário dela, fazia questão de reunir a comunidade/Igreja de Jerusalém, dirigida por Tiago, o irmão de Jesus que todo ele se revia, como o resto da sua família, mãe incluída, na expectativa messiânica do povo de Israel.
Nada melhor, pois, do que uma espécie de retiro purificador com todo o grupo. Não se tratou, por isso, de mero descanso. Mas de retiro, no sentido mais profundo do termo e, sem dúvida, o mais difícil de operar. Não se trata de afastamento físico do povo. Mas de afastamento, retiro ou distanciamento da ideologia nacionalista messiânica dominante então no país. Os povos dominados e oprimidos do mundo sempre sonham com um Messias que os liberte. E, se ele for violento, tanto melhor ainda. As multidões do tempo e do país de Jesus não pensavam diferente. Sonhavam também com um líder político que não hesitasse em recorrer à violência armada para expulsar os romanos do território e criar o império judaico de Deus que haveria de salvar a humanidade.
Só que esta não era, não é a via de Jesus, porque também não é a via de Deus. Desde a primeira hora, Jesus quis deixar claro – e por isso os povos não vão muito com ele, apenas com um Jesus mítico criado por eles à sua medida e à medida dos seus sonhos de conquista e de domínio, ou, à inversa, os seus sonhos de eternos beneficiários do Poder – que Deus, ao contrário do que sempre pensara o seu próprio povo, desde os profetas bíblicos, não é Deus de um povo eleito, mas de todos os povos por igual. Não se trata, pois, de haver um povo escolhido por Deus, com a missão de salvar os outros povos.
Esse tipo de messianismo, ainda hoje muito em voga entre os povos da terra, não é o de Jesus, porque também não é o de Deus Pai/Mãe criador de filhas e de filhos. A aposta de Deus, que pudemos conhecer na prática política de Jesus, passa inevitavelmente por todos os povos sem excepção. Todos os povos estão chamados a crescer em liberdade/responsabilidade, em sabedoria e em graça. O mesmo é dizer, em autonomia, até se tornarem povos-para-os-demais-e-com-os-demais. Nunca, pois, um povo ou uma coligação de povos sobre os demais, benfeitores dos demais. Apenas povos para os demais e com os demais. Tal e qual como o próprio Jesus fez questão de ser entre nós e connosco – homem para os demais e com os demais.
Por isso, nem hierarquias, nem privilégios, nem poder. Apenas radical igualdade entre os povos, serviço libertador e recíproco, sororal/fraterno, numa dinâmica de complementaridade. O Reino de Deus é por aí que avança e que se materializa. Converter-se é, antes de mais, mudar de Deus, renunciar de vez ao deus-Ídolo que projectamos e criamos a partir dos nossos ancestrais medos, e aderir com alegria ao Deus de Jesus, que é o Deus do Reino,o Deus de todos os povos. Não é outra a boa notícia que Jesus nos trouxe, nos anunciou e praticou entre nós. Por isso o mataram, porque nenhum povo está pelos ajustes. Todos os povos, quando começam a ser mais poderosos, sonham em dominar os outros, ou sob a forma de crueldade ou sob a forma de benfeitor. O Império é a forma cruel de um povo dominar os outros povos. Não tem, não pode ter futuro. Porque os povos dominados sempre acabam por se erguer em insurreição contra ele, depois que descobrem os pés de barro que todos os impérios têm. Por isso, os impérios mais perigosos são os que se assumem como benfeitores dos povos. Porque podem perpetuar-se por muitas gerações. Parecem bons, mas são tão ou mais perversos que os impérios cruéis. Promovem o infantilismo dos povos. Geram povos subservientes, vassalos, menores. Quando o que Deus, o do Reino ou de Jesus quer é que os povos, todos os povos cresçam em autonomia e em protagonismo, numa reciprocidade sempre em crescendo, de modo que não haja nenhum povo que fique de fora da mesa comum dos bens produzidos por todos segundo as possibilidades de cada qual.
Está visto que ainda não é por esta via jesuânica que os povos do mundo vão. Todos eles ainda se encontram na fase histórica da competição e do crescer para dominar e do dividir para reinar. Haveremos de chegar à cooperação e à comunhão, em lugar da nefasta e cainítica competição em que hoje ainda vivemos.
Para “educar” (= puxar para fora, a partir de dentro) os povos nesta via jesuânica é que existe a Igreja, na multiplicidade de igrejas ou comunidades. Infelizmente, nem elas hoje seguem Jesus, o de Nazaré. Preferem seguir um ídolo com o mesmo nome, que elas imaginam à medida das suas rotinas, das suas mediocridades e dos privilégios constantinianos que, desde o século IV, nunca mais foram capazes de abandonar, pelo contrário, defendem-nos com unhas e dentes.
Vejam como os bispos portugueses, estes dias, se apressaram a mover uma guerra contra o governo, quando perceberam que podem estar em jogo alguns dos privilégios que a Concordata (a existência dela já é uma aberração que uma Igreja que se preze e se reivindique de Jesus tem de abolir para sempre) consagra. Todos, como um só homem, ergueram a sua voz e exigiram ser recebidos pelo primeiro-ministro que não se fez rogado e prontamente os recebeu.
Há mais do que razões, evidentemente, para que os bispos e, com eles, toda a Igreja católica em Portugal, se insurgir contra as políticas do governo de Sócrates que está a levar o país para o abismo, com a complacência e o descarado apoio do mais do que medíocre presidente da República Cavaco Silva, uma espécie de Américo Tomás à civil deste nosso tempo. Uma vergonha sem nome.
Mas, infelizmente, não foi por isso que os bispos católicos portugueses se uniram e levantaram contra o governo. Foi por causa dos seus privilégios e dos privilégios da Igreja instituição que nem eles nem ela estão dispostos a perder. As populações que sofrem e empobrecem não contam para nada para os bispos católicos portugueses. Desde que os privilégios eclesiásticos fiquem salvaguardados, o governo pode prosseguir descansado nas suas políticas de morte e de humilhação das populações.
Como era de esperar, o primeiro-ministro depressa percebeu do que se tratava e apressou-se a receber os bispos, numa representação de alto nível. E estes, por sua vez, apressaram-se à saída da audiência a dizer ao país que tudo não passou de um mal-entendido já superado. Eis!
As populações bem podem esperar que os bispos estejam com elas, para que elas sejam gente. Mas eles, que são o rosto institucional da Igreja, acabam de mostrar que não é com as populações que estão preocupados. É com eles e com a instituição enquanto tal. Um pecado de bradar aos céus.
Mas, se calhar, é melhor assim. Para que as populações deixem de confiar no messianismo dos bispos católicos ou de outros caciques partidários ou não, e sejam elas próprias a levantar-se e a correr com o governo que as desgraça e humilha. É tempo de, como populações, crescermos em sabedoria e em graça, isto é, em autonomia e em cidadania. Para sermos populações para os demais e com os demais. Como Jesus, o de Nazaré.
2007 JULHO 10
Li e quase nem pude crer no que li. Mas está lá, tal e qual na Agência Ecclesia: "Estes irmãos que [hoje] acedem às ordens sacras são certamente fruto da oração da Igreja. E podemos dizer que ainda seriam mais e muitos mais, se também maior e mais insistente fosse a nossa oração. Não nos lamentemos, pois. Agradeçamos o que temos e decidamo-nos a pedir o que falta". Quem isto diz é o Bispo do Porto, Manuel Clemente, na homilia da missa de ordenação, domingo passado, na sua Sé Catedral. É por isso uma afirmação do seu magistério episcopal ordinário. Leio e quase nem posso crer no que leio. Porque esta afirmação revela bem o tipo de Fé que o anima e que anima a generalidade dos bispos e dos presbíteros da nossa Igreja católica, tanto a do Porto, como a das demais Igrejas locais ou diocesanas do país e do Ocidente. E se a Fé da generalidade dos bispos e dos presbíteros é desta qualidade tão pouco jesuânica, o que dizer da Fé dos demais católicos?
O Bispo Manuel Clemente está visivelmente aflito com a falta de padres e de vocações para padre. E culpa Deus por essa falta. Acha que se lhe pedíssemos muito mais do que o temos feito até agora, haveria padres em abundância. E como há falta, muita falta, conclui, ingenuamente, que é porque temos pedido pouco a Deus! Parece que nos culpa a nós, por não termos pedido o bastante. Mas na verdade culpa Deus, porque um Deus que pode fazer com que haja padres em número suficiente na sua Igreja e não no-los dá, só porque nós não lho pedimos a toda a hora e instante, só pode ser um Deus cruel e sádico, com nada de Jesus e tudo de Bush, a quem, por isso, será preciso tentar convencer das nossas necessidades, como se, sem essa nossa persistente intercessão, Ele se estivesse nas tintas para nós.
Por outro lado, com este seu ensinamento, o Bispo Manuel Clemente dá também a entender que a oração que fazemos é para comover e convencer Deus a ser-nos favorável, o que perfaz um insulto a Deus-Amor. Então não é Deus quem sempre toma a iniciativa e nos sai ao caminho? Não é Deus quem primeiro nos ama e cuida de nós? Aliás, orar não é dispormo-nos a deixar Deus ser Deus em nós? No caso concreto da falta de padres, não é dispormo-nos, como Igreja, a abandonar os nossos esquemas eclesiásticos, as nossas tradições de Paganismo católico sem Tradição e, sobretudo, sem Evangelho, este modelo clerical de Igreja que teimamos em prolongar no tempo, à revelia do que de melhor nos revelou e apontou o Concílio Vaticano II? Não é abrirmo-nos ao Espírito que está aí empenhado em fazer novas todas as coisas, também em suscitar ministérios eclesiais outros, mais conformes ao novo tempo que estamos a viver e mais de acordo com as exigências do Terceiro Milénio? Numa palavra, orar não é convertermo-nos a Deus, ao seu projecto, à sua vontade, em lugar de querermos converter Deus a nós, aos nossos projectos, aos nossos egoísmos corporativos, aos nossos privilégios clericais, às nossas rotinas e às nossas vaidadezinhas?
Pelos vistos, vocações para Bispo, ainda há muitas na Igreja. Ninguém pode começar a falar em crise de vocações para Bispo. Por este andar, chegará ainda o tempo em que haverá mais bispos do que padres! Mas o mais curioso e elucidativo foi que, na mesma altura em que o Bispo Manuel Clemente lançava este seu apelo e até fazia publicar uma breve Nota Pastoral sobre o problema da falta de padres, o Papa Bento XVI nomeava mais um bispo auxiliar de Braga, e, com isso, “roubava” mais um padre à diocese do Porto. Poderia e deveria ter escolhido um padre da arquidiocese de Braga, mas não; optou por um da diocese do Porto. E não é que ele aceitou, apesar de haver tanta falta de padres? Trata-se de um padre da Sociedade Missionária Boa Nova, António Couto, de seu nome, residente no Seminário Boa Nova em Valadares, Gaia. Terá, inclusive, de abandonar o cargo de Superior geral daquela Sociedade Missionária, para se tornar bispo auxiliar de Braga, mas, pelos vistos, isso não é problema. O facto, porém, prova que a nomeação para bispo ainda continua a encontrar muitos candidatos disponíveis. E isto, sem ser preciso que os fiéis católicos multipliquem os seus pedidos a Deus em oração!... Na hora, os candidatos sempre aparecem e avançam. E posso aqui afirmar, sem errar, que as nomeações efectivas de bispos ficam sempre muito aquém dos presbíteros disponíveis, o que revela que continua a haver mais candidatos a bispo do que os efectivamente escolhidos e nomeados pelo papa de Roma.
Certamente, os candidatos ao episcopado não o são tanto por fidelidade ao Espírito Santo, como sobretudo por vaidade pessoal. Ou o episcopado não aparecesse aos olhos das populações de tradição católica romana e dos próprios padres/presbíteros, como uma dignidade, uma honraria, aquele passo que lhes faltava para atingirem o topo da carreira eclesiástica e clerical. Se fosse, como deveria ser, a fidelidade ao Espírito Santo que movesse quem aceita ser bispo, os nomeados em causa teriam necessariamente, depois de ordenados, outro comportamento eclesial e social, outra prática episcopal bem mais evangélica e jesuânica. A sua vivência de bispo seria assumida sobretudo como incruento martírio a favor da libertação dos pobres e oprimidos do mundo, não como um privilégio de casta, muito menos como o topo da carreira eclesiástica. Infelizmente, são poucos, muito poucos, os bispos mártires entre nós e na Igreja católica ocidental. Abundam os bispos-poder, os bispos funcionários eclesiásticos, os bispos súbditos da Cúria do Vaticano e vassalos de Roma. Quem, de todos os bispos hoje em exercício na Igreja em Portugal, está a ser inequivocamente bispo mártir? Não são todos meros funcionários eclesiásticos, mais atentos à Cúria romana e ao Núncio apostólico residente no país, do que ao Espírito Santo e aos pobres?
Ao contrário do que ocorreu até há pouco na Igreja católica em Portugal e por todo o Ocidente da Cristandade, são hoje quase nenhumas as chamadas vocações para padre/presbítero. Pode-se por isso dizer que esse já foi chão que deu uvas, quando ser padre ainda aparecia aos olhos das populações católicas humilhadas e empobrecidas do interior como uma oportunidade de o candidato a padre sair da pobreza e da humilhação. Ter um filho padre dava prestígio à família em causa e assegurava-lhe uma certa prosperidade material e social. Só isso explicará a abundância de vocações para padre nos tempos passados que eram também de generalizada miséria imerecida e de generalizado analfabetismo das populações. E explicará igualmente a escassez com que hoje a Igreja se depara. Não é, por isso, uma questão de mais oração, ou de menos oração, como erradamente ensina o Bispo Manuel Clemente. Pelo menos, para se ser padre deste modelo clerical e piramidal de Igreja católica romana.
A oração tem, evidentemente, o seu lugar na Igreja, mas quando é feita para nos converter (não para converter Deus!),concretamente, quando ela é feita para nos levar a desejar/acolher padres/presbíteros cheios de Espírito Santo e de Fé, da mesma Fé de Jesus, como Estêvão e Barnabé, por exemplo, logo no início paradigmático da Igreja, em Jerusalém. Porque, para se ser funcionário eclesiástico, clérigo instalado nas rotinas e nos ritos, como é o que hoje os bispos eclesiásticos, súbditos de Roma, mais pretendem, não contemos nunca com a intervenção do Espírito Santo. Ele simplesmente não tem lugar numa Igreja assim eclesiástica e clerical. E, por isso, a oração, por mais que se multiplique numa Igreja assim não passará de oração à maneira dos pagãos que pensam que é no muito repetir e no muito pedir que serão atendidos. Não são, porque Deus não é Deus de rotinas nem de ritos, nem de carreirismos eclesiásticos, nem de vaidadezinhas clericais. É Deus de vivos, que vê sem cessar a situação de miséria imerecida dos povos oprimidos e escuta os seus clamores e está aí ininterruptamente apostado em libertá-los, mediante sucessivas Páscoas sociais e políticas que visam fazer novas todas as coisas. Porque perante uma Igreja de rotinas e de ritos, como a nossa Igreja católica romana hoje é, também aqui no Porto, Deus Vivo só pode vomitá-la da sua boca.
Rezam os factos que este ano, pela primeira vez nos últimos 50 anos, a diocese do Porto não conseguiu apresentar um único candidato a padre/presbítero nesta habitual ordenação de verão. É verdade que houve ordenações, no passado domingo, mas nenhum dos ordinandos era da Igreja diocesana, propriamente dita. Estão todos sob a jurisdição do Bispo do Porto, mas provêm directamente de Congregações religiosas, que têm a sua própria autonomia canónica; não provêm do seminário da diocese. Este dado objectivo é deveras perturbador, se for visto à luz do actual modelo clerical de Igreja que o Papa e os Bispos insistem em perpetuar como se fosse querido por Deus (que futuro pode ter este modelo de Igreja clerical, se não consegue ter candidatos para ordenar?!). Terá sido este dado que desencadeou no Bispo Manuel Clemente justificada aflição. Como há-de ele continuar a ser o bispo do Porto, se tem cada vez menos padres clérigos para colocar à frente das centenas de paróquias? E se os que actualmente se mantêm à frente delas estão já, na sua maioria, na casa dos 70 anos de idade e, mesmo assim, ainda têm de assumir duas, três ou mais paróquias ao mesmo tempo? Perante uma realidade eclesiástica tão desoladora, o Bispo que veio do Patriarcado de Lisboa, onde era auxiliar, para titular do Porto e que, quando tomou posse, há meses, era todo sorrisos e ar de felicidade, está agora aos papéis, pois vê o chão fugir-lhe de debaixo dos pés. Ao ponto de sair por aí a responsabilizar Deus por este beco eclesiástico sem saída.
Ainda não percebeu o Bispo Manuel Clemente que é este modelo clerical de Igreja que está condenado a desaparecer. E que quem mais está empenhado nisso é o próprio Espírito Santo. Basta sabermos ler os sinais dos tempos para chegarmos a essa conclusão. É por isso que não se trata de pedir a Deus para que nos dê muitos e bons sacerdotes, como sempre fez a Igreja clerical, nos séculos passados e ainda persiste em fazer hoje. Do que se trata é de sermos uma Igreja que consente que Deus, o de Jesus, seja Deus nela e por ela. Com todas as consequências. Os ministérios ordenados e não-ordenados acontecerão então segundo as necessidades e com a roupagem secular que hoje as sociedades já têm e que a Igreja também há-de passar a ter. Por isso, ministérios protagonizados igualmente por homens e por mulheres de Fé jesuânica comprovada, casados, viúvos ou celibatários por opção, com formação académica ou sem ela, mas sempre com capacidade de discernir os sinais dos tempos e de ajudar a fazer crescer na Fé as comunidades, isto é, com capacidade para fazer com que as comunidades cristãs sejam comunidades empenhadas, historicamente comprometidas com as causas da Humanidade, a começar pela mais empobrecida e oprimida.
Infelizmente, o Bispo Manuel Clemente, como de resto, os seus irmãos no episcopado, a começar pelo Bispo de Roma e papa da Igreja universal, preferem assobiar para o lado e convidar as pessoas católicas a multiplicarem a recitação de fórmulas de oração, como se a nós católicos nos pertencesse convencer Deus a ser-nos favorável, quando, afinal, Deus é o primeiro a sair-nos ao caminho, para que lhe demos a oportunidade de ser Deus em nós e por nós, tal como aconteceu em plenitude com Jesus, o de Nazaré. É nesta errada direcção que vai a homilia que ele proferiu na missa de ordenação do domingo passado. E é nessa direcção que vai igualmente a Nota Pastoral, divulgada por ele, na mesma ocasião. Em concreto, são estas as orientações que a Nota Pastoral nos apresenta, por sinal, todas demasiado vagas e, pior, sem que haja quem lhes possa dar corpo na diocese. Por isso, mais parece um falar por falar, ou um falar para não estar calado. Transcrevo:
“Reforçar a pastoral de conjunto; corresponsabilizar ainda mais os vários agentes da pastoral, clérigos e leigos, desenvolvendo a formação para o diaconado e os ministérios; incrementar a formação a todos os níveis; intensificar a pastoral vocacional; acompanhar de perto os padres, diáconos e leigos comprometidos na pastoral; olhar mais criativamente as novas fronteiras da evangelização, na sociedade e na cultura; agilizar os serviços de apoio à pastoral e redefinir eventualmente a quadrícula diocesana (regiões pastorais, vigararias…).”
No meu modo de ver, trata-se de uma orientação pastoral certamente bem intencionada, mas que acabará por deixar tudo na mesma, pois não consegue descolar dos lugares comuns, já tantas vezes repetidos na Igreja católica romana, quando, do que hoje se nos exige é que façamos novas todas as coisas. Para vinho novo, odres novos, sublinha Jesus, o dos Evangelhos Sinópticos. Ora, do que hoje se trata é de termos a humildade e a audácia de deixar de continuar a gastar o melhor das energias das pessoas e das organizações católicas em rotinas eclesiásticas sem sentido e alienantes e de atrevermo-nos a colocar toda a Igreja do Porto em estado de missão, onde a prioridade das prioridades vá inteira, não para os ritos e os cultos sem profecia, para as devoções e os sacramentos sem militância no mundo, mas para a missão de Evangelizar os pobres, oportuna e inoportunamente e, entretanto, saber esperar, com a atenção vigilante e comprometida das virgens sábias do Evangelho, que o Espírito Santo suscite novas formas não mais clericais de fazer Igreja e os correspondentes ministérios que a levem a ser Igreja no mundo e na História, inteiramente ocupada em mudar a face da terra, mediante a implementação de práticas económicas e políticas outras, geradoras de sororidade/fraternidade universal.
2007 JULHO 07
Consolata, ou Nossa Senhora da Ortiga, ou Nossa Senhora de Fátima? A edição de Julho 2007 da revista Fátima Missionária, dos meus irmãos Missionários da Consolata, sedeados em Fátima, não faz as coisas por menos e apresenta-nos as três senhoras à escolha do freguês. Entre as três, a Revista prefere obviamente a Consolata, isto apesar de ter escolhido Fátima para instalar a sua sede em Portugal, precisamente nas imediações do santuário da falsa deusa portuguesa, e ter escolhido o nome Fátima para o registo do seu título de capa. Para a Revista e para os Missionários que a editam, Consolata é que é. Desde logo, porque é a sua patrona e até empresta o seu nome à Congregação. À beira dela, Nossa Senhora da Ortiga ou Nossa Senhora de Fátima nem para criadas servem. Coisas de nossas senhoras. E de crendices humilhantes, por parte de certos seres humanos que continuam a confundir Fé em Deus com beatice e crendice, as mais rascas.
A gente lê isto na Revista e não pode deixar de se espantar e de se escandalizar com semelhante manifestação de paganismo católico, inclusive entre Padres Missionários que têm obrigação de ser mais ilustrados e mais evangelizados. Ora, que se saiba, nenhum deles, alguma vez se insurgiu e exerceu a profecia no interior da respectiva Congregação, a denunciar este grave desvio da publicação da Fé de Jesus e, consequentemente, dos seres humanos, nossos irmãos. Certamente, porque a profecia não dá nem mantém privilégios, muito menos costuma dar dinheiro a ganhar a quem a pratica, oportuna e inoportunamente. Também não dá dinheiro a ganhar a fidelidade ao Evangelho de Deus praticado por Jesus, o de Nazaré, a qual, como se sabe, não admite nem outros deuses e deusas, nem outros cultos fora do culto em espírito e em verdade (cf. Jo 4) que é o único que Deus Pai/Mãe aceita, e que é necessariamente vivido longe dos templos e dos altares, todos eles concebidos/construídos/alimentados pela nossa demência/alienação humana.
Ora, dinheiro, muito dinheiro, é o que qualquer Congregação missionária que se preze mais pretende realizar, para poder manter abertas as suas inúmeras casas e prosseguir todas as suas múltiplas actividades sem sobressaltos. Nem que para isso, a Congregação tenha de recorrer a grande parte do arsenal idolátrico do Paganismo católico, tão do agrado das populações e dos povos ainda não ilustrados nem evangelizados. Por isso, em lugar de profecia, a Revista Fátima Missionária, pelo menos em algumas das suas páginas, quase sempre as mesmas, não hesita em insistir, número após número, nas cedências ao Paganismo católico ainda reinante naqueles países que, durante séculos, foram completamente asfixiados pela velha Cristandade Ocidental e os seus sacerdotes clérigos. Vejamos um primeiro exemplo nesta edição de Julho 2007, porventura, o mais chocante, devido sobretudo aos pormenores de pretensa seriedade com que ele se nos apresenta tecido e enfeitado.
Logo na página 2 (é uma local fixa que aparece em todas as edições), sob o título genérico “Consolata no mundo”, vem uma grande imagem a cores da respectiva deusa. Trata-se da imagem de uma jovem mulher, com aspecto de adolescente, mais do que de adulta. Todo o seu corpo está coberto de roupas, excepto o rosto, o pescoço e as duas mãos. Carrega um menino, de tamanho avantajado e já com ares de querer mandar na suposta mãe, sentado sobre o braço esquerdo dela. Os dois, mãe e filho, têm uma grande auréola em redor da sua cabeça, como a sugerir/denunciar que nem um nem outro são deste mundo, muito menos são seres humanos históricos de carne e osso, apenas entidades do mundo dos mitos, tal como sucede com todas as deusas e todos os deuses criados e projectados pelos nossos mais ancestrais medos. Ao lado da imagem, vem destacado este texto que, hoje, só pode ser gerador de justificado e generalizado ateísmo:
“Formação dos novos missionários
Uma das maneiras mais práticas de colaborar na formação de novos missionários é fundar uma bolsa de estudos. A oferta é de 250 € e pode ser entregue de uma só vez ou em prestações. Quem funda uma bolsa de estudos fica inscrito no livro de honra dos Missionários da Consolata. Torna-se colaborador directo da sua acção evangelizadora, participa dos méritos espirituais do seu apostolado e beneficia de uma missa que é celebrada diariamente por todos os benfeitores.”
Depois deste enunciado, de conteúdo manifestamente pagão católico, destinado a tentar aliciar as pessoas mais resistentes, a investirem do seu dinheiro na Congregação (lá está a referência ao livro de honra; lá está também a referência aos “méritos”, não à graça, e, sobretudo, lá está a referência ao sacrílego negócio das missas, cujos supostos benefícios, pelos vistos – palavra dos Missionários da Consolata – ficam exclusivamente reservados apenas a quem se chegar à frente com a estipulada verba mínima de uma bolsa de estudos), vem ainda uma oportuna informação suplementar, destinada a dar fundadas garantias a quem investir nestas “acções de bolsa” missionária, de que o êxito de semelhante operação está à partida sempre assegurado, ou a Congregação missionária em causa não tivesse a protegê-la uma poderosa deusa, como é a super-deusa Consolata. Diz assim:
“Consolata é a consoladora. Aquela que leva consolação ao povo e aos povos. Tem o seu principal santuário em Turim, Itália [pensavam vocês que em Itália só havia a Nossa Senhora do Caravaggio, exportada para o Brasil, no tempo dos escravos, a tal que dá títulos de campeão mundial à selecção brasileira de futebol, pelo menos no crédulo dizer de Filipe Scolari, actual treinador da Selecção nacional? De modo algum. Como vêem, há também esta, a rivalizar com aquela!], onde, desde há 900 anos, é venerada [entenda-se: adorada, idolatrada] por grandes multidões de fiéis. Em favor deles tem realizado prodígios inauditos [estão a ver, descrentes? Há sempre “prodígios inauditos” para forçar as pessoas a acreditar; só não se percebe como é que com tantos “prodígios inauditos” da Consolata, o povo e os povos continuam aí cada vez mais cansados e abatidos como ovelhas sem pastor, numa situação de pobreza e de opressão em massa, hoje cada vez mais generalizada]. De Turim a imagem e a devoção à Consolata foram levadas pelo mundo através dos emigrantes italianos [foi o ópio que os terá ajudado a suportar a sua condição de inumanidade, quando do que eles então mais precisavam era do Espírito ou Sopro de Deus vivo, o de Jesus, que os erguesse como os protagonistas de um imparável êxodo libertador, pelo menos, em tudo semelhante ao dos escravos hebreus no Egipto dos faraós]. A partir dos inícios do século XX, essa expansão deu-se com maior visibilidade sobretudo através dos missionários e missionárias da Consolata que a foram levando a todos os continentes onde iam abrindo missões [e a gente a pensar que os missionários da Igreja de Jesus existiam para Evangelizar/consciencializar/libertar os pobres e os povos, na peugada do que o próprio Jesus fez e mandou fazer, mas, afinal, eles são os primeiros a orgulhar-se de trabalhar para alimentar o Paganismo religioso das populações, à maneira do que sempre fizeram e fazem os sacerdotes de todas as religiões…]. Por este motivo Ela [com maiúscula, no texto da Revista, como se costuma fazer, quando o pronome está em vez do nome da grande deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo] é hoje conhecida e venerada [entenda-se: adorada, idolatrada] em 26 países.”
Que acham de tudo isto? Não é uma vergonha? Não é uma humilhação à nossa inteligência de seres humanos? Não é um insulto à Fé de Jesus e ao Deus de Jesus? Mas, se depois dermos um salto da página 2 para a antepenúltima página da Revista, deparamos com uma outra imagem da grande deusa virgem e mãe, dos cultos do Paganismo católico, esta muito mais tosca, a revelar muito mais antiguidade que a da Consolata. O menino, muito mais pequeno, apresenta-se sentado no braço direito da sua suposta mãe, cujo corpo está também todo coberto, à excepção do rosto (nem os pés dela se vêem!); a cabeça dela tem uma coroa de ouro, a fazer lembrar as antigas rainhas da terra, mas esta é a rainha do céu! (Que coisas mais parvas estas que a Revista missionária nos dá a ler!) E nome é também outro: Nossa Senhora da Ortiga. A acompanhar a imagem, a Revista insere um texto assinado por uma sua colaboradora habitual, Lucília Oliveira, de seu nome, que reza assim:
“De 1 a 3 de Julho
Fiéis [só podem ser católicos pagãos] celebram Nossa Senhora da Ortiga
No primeiro domingo de Julho e nos dois dias seguintes, a tradição [diz bem a autora da notícia, a tradição, não o Evangelho de Jesus, muito menos, o exemplo de Jesus, o mais fiel dos fiéis a Deus Vivo Pai/Mãe e ao seu projecto do Reino] manda que os fiéis rumem ao Santuário de Ortiga, na freguesia de Fátima [por aqui se vê que a paróquia de Fátima não tem só a senhora de Fátima com o seu grande santuário; também tem a Senhora da Ortiga, muito mais antiga, mas com muito menos devotos]. De discreto santuário, onde as pessoas vão sobretudo rezar, agradecer graças e os turistas [será que os turistas não são pessoas? Só o são os devotos da Senhora da Ortiga?] visitar o local, assume a sua imponência [imponência, pois claro, que são assim os deuses e as deusas do Paganismo primitivo e do Paganismo católico, mai-los seus sacerdotes; todos eles crescem e as populações que os frequentam e aos seus cultos diminuem] nos primeiros três dias do mês sete do calendário.
Traz-se a merenda de casa, monta-se a tenda e faz-se o convívio familiar à sombra das azinheiras [azinheiras? Por isso, a de Fátima também fez questão de empoleirar numa azinheira, só que as da Ortiga nunca se tornaram famosas, nem foram declaradas património nacional pelas entidades locais] das redondezas. Durante os dias de festa, aqueles que o Papa Pio VII concedeu de jubileu a esta capela em 1801 [também já meteu papa no culto, como a de Fátima e, no entanto, nem o país, nem o mundo, hoje, querem saber da Senhora da Ortiga, apenas algumas centenas de pessoas da região] , à celebração de cariz litúrgico junta-se outra animação [sempre assim foi no Paganismo religioso mais primitivo e assim continua a ser no Paganismo católico da actualidade. Basta ver o que sucede em todas as festas católicas por essas paróquias além].
Na tarde de terça-feira do Jubileu, a imagem de Nossa Senhora da Ortiga é levada em procissão pelos rapazes e raparigas que completam nesse ano 20 anos de nascimento [o que tem isto a ver com o Evangelho de Jesus? Não tem tudo a ver com os cultos do Paganismo que já o profeta Jeremias, 700 anos antes de Jesus, combatia entre o seu povo, devido à alienação que alimentava? Leiam todo o capítulo 44 do seu livro, na Bíblia, e perguntem-se porque é que essa leitura nunca é feita em Fátima e nos outros santuários em honra de todas as nossas senhoras rainhas do céu? Os clérigos católicos sabem o que fazem e não querem acabar com semelhante negócio. Pelos vistos, nem os Missionários da Consolata. Andam todos ao mesmo, não é? Tirem o dinheiro desses sítios e verão como os clérigos também desaparecem!]. Reza ainda a tradição que no domingo rapazes e raparigas se encontrassem ali, local onde iniciavam o namoro. Conta-se [como não é nada histórico, só pode dizer “Conta-se”. E é assim, com estas habilidades e estas mentiras que se mantêm as populações enganadas e submetidas, uma geração após outra] que, andando no lugar da Ortiga uma pastorinha muda a guardar o seu rebanho, lhe apareceu Nossa Senhora que lhe pediu uma ovelhinha. A menina sentiu a língua solta e respondeu que não daria a ovelha sem licença do pai que morava no Casal de Santa Maria. Foi a correr falar ao pai que ficou muito admirado ao ouvir a filha falar e disse-lhe que fizesse tudo o que a senhora pedisse. A pastorinha foi falar à Mãe de Deus [vejam as voltas que a autora do texto dá. Começa por chamar “Nossa Senhora” e, aqui, já lhe chama “Mãe de Deus”. Melhor seria que lhe chamasse “Mãe dos deuses”, porque assim é que rezam os mitos mais primitivos, oriundos do tempo do matriarcado. Vê-se que é tudo conforme a vontade do freguês, sem quaisquer critérios de rigor histórico e científico, isto é, de verdade. Tudo isto é sinal de que se está no mundo das devoções, da pura alienação religiosa, da demência humana, da irracionalidade] que lhe ordenou a construção ali de uma capela [primeiro, quis uma ovelhinha e agora já quer uma capela em sua honra. Mas que mania e que mau gosto todas estas “senhoras” têm. Pelos vistos, também a de Fátima exigiu que lhe construíssem uma capela – será mimetismo? – e, em vez disso, ergueram-lhe uma basílica e, agora, não satisfeitos, erguem-lhe um recinto semelhante a uma gigantesca praça de touros, com 6 mil lugares sentados, certamente, a pensar nos chorudos lucros que semelhante investimento há-de proporcionar nos próximos anos, a menos que as populações do país e do mundo abram os olhos, o que, infelizmente, não é previsível, pelo menos para já]. Indo o pai da menina ao local por esta indicado, encontrou sobre uma pedra entre urtigas uma imagem de Nossa Senhora que levou para o Casal de Santa Maria. A imagem desapareceu dali para ser vista novamente entre as urtigas. Naquele local, foi ali construída a pequena capela que, mais tarde, foi ampliada.” [Vejam como tudo é pueril e insultuoso da nossa dignidade humana. A imagem que não sai nunca do sítio, que não come nem bebe, não fala nem se comove, que, nas festas, tem de ser transportada em ombros pelas pessoas, no caso, por rapazes e raparigas namoradeiros, é posta aqui agora a brincar às escondidas com o pai da menina que era muda e começou a falar, depois do susto por que passou e, sobretudo, depois que se dispôs a dar uma ovelha à “senhora”.. Moral da lenda: nem os deuses e as deusas do Paganismo dão nada de graça. São mesmo deusas e deuses à imagem e semelhança dos seres humanos assustados que os criam e projectam e lhes prestam culto. Deusas e deuses nos antípodas do Deus de Jesus, pura graça e puro dom que nos estimula a sermos mulheres e homens à sua imagem e semelhança, por isso, puros dons e pura graça uns para os outros e uns com os outros. Dir-me-eis: é dura esta tua linguagem! Pois é. Mas a verdade é que só os deuses e as deusas que inventamos é que nos alimentam os vícios e nos fazem perversos e corruptos. O Deus Vivo, Pai/Mãe, acontece misteriosamente nas nossas vidas para nos fazer suas filhas, seus filhos ao jeito de Jesus, por isso irmãs e irmãos universais, numa Humanidade toda ela transformada numa só família, em redor de mesas comuns. Sem que ninguém, pessoa ou povo, fique de fora, excluído. Ora, é para aqui que os meus irmãos Missionários da Consolata devem apontar os seus esforços, em lugar de alimentarem o Paganismo católico das populações. Porque este só serve para manter na humilhação as populações já de si humilhadas e oprimidas. Saibam que o que não for assim é pura alienação, demência humana e grave traição ao Evangelho de Deus Vivo e aos povos].
2007 JULHO 03
O terrorismo policial está de volta à Europa. Mais uma vez, na Inglaterra. Chegou com o novo chefe do governo inglês. Como quem quer deixar claro que, depois da terrorista era Blair, a Inglaterra continuará a ter mais Blair, só que agora com outro rosto e outro nome. Por isso o resto do mundo que se cuide, porque os governos da Europa dos 27, apoiados pelas suas polícias, não se mostram nada dispostos a abrir mão nem dos seus privilégios, nem da sua hegemonia mundial, nem dos seus estilos de vida, nem das suas multinacionais, nem dos seus obscenos lucros. São e querem continuar a ser executivos do grande Kapital contra os povos. Não querem ser políticos dos povos e com os povos. Não estão dispostos a converter-se, a mudar de vida, muito menos a mudar de Deus. O seu deus é o Dinheiro e daí não abdicam. Desengane-se, por isso, quem ainda pensa o contrário. Para eles, somos a Europa dos milhares de milhões e de milhões de euros, cada vez mais fortes, cada vez mais agressivos, cada vez mais violentos, cada vez mais terroristas. E, se dúvidas houvesse, lembro-lhes que vem aí para Portugal mais um pacote de muitos milhares de milhões de euros, da parte dos grandes ricos, para que o governo português invista outro tanto em mais formação/educação das populações. A medida parece de louvar. Mas que tipo de formação/educação é essa, financiada pelos grandes ricos? Só pode ser uma formação/educação para fazer de nós um povo cada vez mais dócil e respeitador da sua perversa Ordem Económica e Social global.
O que se está a passar, nos últimos dias, ao nível da comunicação social europeia, é de bradar aos céus. A polícia britânica tomou conta dos telejornais nos países europeus e faz terrorismo noticioso, a toda a hora, sobre os povos. Quer a toda a força convencer os ingleses e todos os demais cidadãos, cidadãs da Europa que a Al-Qaeda está de volta e que temos de viver sob o signo do seu terror. Descobre carros armadilhados em tudo quanto é sítio, lá onde haja milhares de pessoas congregadas. E chega a fazer explodir alguns desses carros para as televisões europeias exibirem nos horários nobres dos diferentes países. Quer convencer-nos a todas, todos de que cada estrangeiro a viver hoje na Europa é um perigoso colaboracionista de Bin Laden e da sua Al-Qaeda. Sobretudo, se forem muçulmanos, iraquianos ou libaneses. Nem que sejam jovens médicos e pais de família, todos são perigosos terroristas. Só ainda não diz abertamente que eles até escolheram ser médicos para melhor poderem matar os europeus que lhes passarem pelas mãos. Ainda não diz, mas é como se já dissesse. Felizmente, os povos europeus parece que não se deixam amedrontar e a prova é que ainda não entraram em paranóia. Pelo contrário, prosseguem as suas vidas com surpreendente normalidade. Por quanto tempo mais?
Tudo indica que a polícia europeia está disposta a desencadear uma acção terrorista só para poder culpar os estrangeiros que vivem entre nós e, assim, ter um pretexto para lançar uma acção em grande escala contra eles. Estejamos atentos e não nos deixemos enganar. Não há pior terrorismo do que o dos grandes ricos e dos grandes privilegiados. Vêem inimigos em todas as suas vítimas. E querem ter mãos livres para poderem desembaraçar-se delas, sem que, entretanto, o sangue delas derramado por eles lhes suje as mãos. Em lugar de se converterem em seres humanos, isolam-se cada vez mais nas suas torres de marfim e nos seus condomínios fechados à prova de bala. São monstros, mas pensam-se deuses. Compram tudo e todos, só não podem comprar modos humanos de ser e de viver. Porque a estes só se chega pela via da conversão pessoal e colectiva. E os grandes ricos não conhecem essa via. Embora ela seja a única via humanizadora que as vítimas têm para lhes oferecer. Assim como é também a única via que poderá salvar esta nossa Europa dos 27. Ou conversão, ou morte. Terrorismo dos grandes ricos é que nunca!
Não é o “terrorismo” dos povos empobrecidos que nos tira o futuro. Só o terrorismo dos grandes ricos e das suas multinacionais. O dos povos empobrecidos nem chega a ser verdadeiro terrorismo. É sobretudo acção política violenta que visa conseguir vida de abundância e de qualidade para todos, a começar pelos que, de momento, estão mais privados dela. Por isso tem tudo de êxodo bíblico e de clamor por Justiça, por Pão, por Dignidade, por Paz. Mas os grandes ricos não entendem semelhante linguagem. Está-lhes vedada, enquanto não abdicarem dos seus privilégios. E sempre vêem as coisas como terrorismo. Essa é a sua desgraça. Porque, perante tais acções políticas violentas das vítimas, em lugar de correrem a converter-se, a mudar de vida, de Deus e de postura, os grandes ricos correm, na sua demência, a pegar em armas, as mais sofisticadas, e a desencadear terrorismos sem conta nem medida, numa escalada cada vez maior. Procedem assim, porque são mentirosos e assassinos e têm na Mentira e no Homicídio/Genocídio/Ecocídio a sua lei/ideologia. Por isso é que eles mais não fazem do que matar, roubar e destruir, pelo menos depois que chegam à conclusão de que já não basta oprimir/explorar os povos.
Nestes seus crimes inomináveis, os grandes ricos e os seus executivos governamentais sempre têm podido contar com os chefes dos sacerdotes das religiões e das Igrejas. Todos eles, salvo raras e honrosas excepções, prontamente reprimidas e neutralizadas ou mesmo assassinadas, continuam a estar na continuação dos chefes dos sacerdotes que pontificavam no Templo de Jerusalém que mataram Jesus, o indomável profeta dos povos e dos pobres. Os Evangelhos canónicos, que isto registam com tanta veemência, outra coisa não querem dizer/denunciar/alertar para todo o sempre. Infelizmente, os povos, na sua estrutural cegueira e nos seus ancestrais medos, não têm querido ver nem ouvir semelhante Evangelho e continuam a dar toda a atenção e todo o respeito aos chefes dos sacerdotes e, o que é pior, a frequentar os seus cultos, como se eles fossem imprescindíveis intermediários entre Deus e os povos, quando eles na prática mais não são junto dos povos do que intermediários do deus dos grandes ricos, que é o deus Dinheiro.
Neste particular, havemos de aprender de Jesus, o de Nazaré, sobretudo, com o Evangelho ou Boa Notícia que salta da sua morte na Cruz e da Ressurreição que, nesse mesmo instante, Deus Vivo realizou, a confirmar que ele, e só ele, é o Caminho, a Verdade e a Vida para todos os povos. Por isso, é nele e só nele que todas, todos havemos de pôr os olhos, não nos sacerdotes que habilmente vivem em aliança com os grandes ricos, à semelhança do que faz também a generalidade dos governos dos países.
Bem sei que é difícil ir por esta via de Jesus, o de Nazaré, mas não há outra fora dele. Contemporizar com o status quo é muito mais fácil, mas não salva, apenas alivia, como o ópio faz ao doente que não suporta mais as dores do seu corpo. Ousemos, pois, entrar dentro de nós próprios e, nesta intimidade, façamos convictamente um pacto de fidelidade e de comunhão com o Espírito de Jesus. Ele será então o nosso guia e o nosso mestre. Conheceremos a Paz. E permaneceremos irmãs, irmãos de todos os povos do mundo, bem nos antípodas do que fazem os grandes ricos e os seus executivos. Por mais que o terrorismo policial dos governos tudo faça para que sejamos inimigos uns dos outros e vivamos a desconfiar uns dos outros. Todo este seu esforço será em vão.