Diário Aberto


2005 AGOSTO 30

 

Nestes primeiros dias de retoma da minha actividade presbiteral longe dos templos e dos altares, mas muito próximo das pessoas e dos seus concretos quotidianos, desloquei-me, 5.a feira 25, à cidade de Viseu, recebi, sábado 27, cá na casinha onde moro, José, um invisual de Lisboa que veio propositadamente para se encontrar-conversar comigo e saber pormenores dos projectos em que tenho andado e continuo a andar envolvido, e no domingo 28, desloquei-me a Braga, mais propriamente ao Centro Social Padre David, em Ruílhe-Aveleda. De cada um destes momentos, aqui partilho o relato teológico, em forma de Boa Notícia ou Evangelho.

1. Tinha-lhes prometido e ontem fui com eles até ao Centro Social Pe. David, visitar os seus quatro filhinhos, três meninas e um menino (há ainda um quinto filho, o mais velho, de 11 anos, que, desde o início das férias escolares, tem estado a viver, aqui em Macieira da Lixa, com os pais, depois de ter estado oficialmente entregue à avó materna; também se integrou nesta visita às suas irmãs e irmão). O Centro Social Padre David é a instituição particular de solidariedade social que o Tribunal de Menores, há mais de um ano, designou como casa de acolhimento para as quatro crianças, quando as retirou aos respectivos pai e mãe. A vida que Paula e Paulo então levavam, perdida entre o alcoolismo e outras degradações de vária ordem, não oferecia o mínimo de qualidade aos cinco filhos que ambos, num curto período de anos, haviam concebido e trazido ao mundo, nem eles sabem bem como. A solução que o Tribunal encontrou na altura – o mais velhinho, em casa da avó materna, e os quatro restantes, nesta conhecida instituição de Braga – não foi a ideal, mas terá sido a possível, dentro dos condicionalismos da hora e das rotinas em que, habitualmente, costumam desenvolver-se as acções das técnicas do Serviço Social do Estado. Tudo poderia ter sido resolvido duma outra maneira, bem mais humana e menos traumática para as crianças, mas infelizmente as rotinas institucionais dos serviços do Estado nunca foram nem nunca serão boas conselheiras. E, na hora do aperto, quem é chamado a decidir quase sempre decide sem alma nem coração. Como se as meninas, os meninos fossem coisas, armários ou embrulhos. No caso em questão, do mal o menos, sobretudo no que respeita aos quatro mais novinhos; já a decisão de colocar o mais velhinho em casa da avó materna parece ter sido desastrada, uma vez que o alcoolismo continua lá quase ininterruptamente presente, o que fez com que o menino, entregue a si próprio, tenha crescido quase como um menino da rua e, hoje, tem já muitos dos seus marcantes vícios, ainda que também algumas das suas surpreendentes virtudes. Bom será que, de futuro, não se continue a proceder indefinidamente assim, para bem das pessoas envolvidas e da sociedade. Se as coisas podem desenrolar-se de modo bem mais humano e bem menos traumático para as pessoas directamente envolvidas, porque não havemos de fazer tudo nesse sentido? Por isso digo: Ai dos juízes dos Tribunais de Menores e das técnicas de serviço social que se instalam nas rotinas institucionais!... Podem garantir a si mesmos, a si mesmas uma vida acomodada e rotineira ao longo dos anos e bons salários ao fim de cada mês, mas nunca chegarão a ser seres humanos de primeira água. Com o rolar dos anos, acabam mais robots do que seres humanos. A magoar as crianças já fortemente magoadas que lhes passarem pelas mãos, quando é suposto que sempre as deverão conduzir, por entre a Ternura e o afecto, para soluções concretas que as destraumatizem, em lugar de as traumatizar ainda mais.

A partida para Braga estava marcada para logo a seguir ao almoço, com saída do pátio da Casa da Comunidade, próxima das casas de onde viriam as pessoas previstas para irem à visita. À hora, apareceram os pais das crianças, acompanhados pelo filho André. Logo atrás, apareceu também outro casal, Júlia e Manuel, de seus nomes, acompanhados por dois filhos, ainda adolescentes, primos da Paula e do Paulo e que, desde a primeira hora, estão apostados, juntamente com Maria Laura, da Comunidade e eu próprio, mais as técnicas do Serviço Social de Felgueiras, a ajudá-los a libertar-se do seu devastador passado, de modo que possam num futuro próximo ter de novo todos os seus filhinhos de volta à casa que, entretanto, já a pensar nisso, alugaram aqui, na freguesia.

Restava ainda um lugar na carrinha que foi preenchido, à última hora, por Amélia, da Comunidade. Amélia não sabia de nada e vinha, como é seu costume aos domingos, até à Casa que é simultaneamente de Maria Laura e dos seus filhos, para passar lá parte da tarde (é epiléptica e, embora viva em casa dos pais, pouco ou nada tem podido contar com a solidariedade e o carinho da família; é na Comunidade que encontra o afecto que não encontra em casa nem na vizinhança, já que as populações que a conhecem e rodeiam podem ser muito católicas de missa ao domingo, mas não são católicas de afectos, só gostam de acompanhar com quem lhes dá jeito e prestígio social, por isso, evitam quem lhes exige trabalho e atenção, ou padece de grave deficiência, como é o caso). Ao vê-la chegar, adiantei-me logo na explicação do que ia fazer com todas aquelas pessoas, suas conhecidas de todos os dias. Convidei-a ir também connosco. E ela não se fez rogada. Sentou-se logo ao lado da Paula. Em silêncio, como é seu timbre. Mas atenta a tudo. E manifestamente feliz, por se sentir acolhida e amada.

A presença de Manuel, marido da Júlia, e de dois dos seus filhos, foi uma agradável surpresa para mim. Não havia a certeza se ele também se integrava nesta visita. A família dele, pais incluídos, não verão com bons olhos esta sua aproximação e da sua mulher Júlia à Casa da Comunidade e, sobretudo, a mim.

(Para algumas pessoas da paróquia, eu sou quase um diabo à solta e até o bem que faço às pessoas, sempre na linha da libertação para a liberdade, só pode ser também obra do diabo. Desde que se tornou pública a minha inequívoca posição de combate contra o paganismo da senhora ou deusa de Fátima, muitas católicas tradicionalistas do nosso país nem sequer podem ouvir falar no meu nome. E viram a cara para o lado, quando têm que passar por mim. Ou cospem para o chão, em sinal de desprezo. E agora que vivo em Macieira, a situação não melhorou, junto das pessoas desse tipo que cá vivem. Até piorou, sobretudo, ao verem que eu, padre/presbítero da Igreja do Porto, nem sequer vou à missa ao domingo e tenho dado a cara, em debates na televisão, sobre questões polémicas que deixam ficar mal a hierarquia eclesiástica que teima em não afinar pelo Evangelho de Jesus, mas sim pelo imoral Código de Direito Canónico e pelo obsceno Catecismo da Igreja Católica).

Pois bem, quando há anos alguns católicos de missa ao domingo aqui da paróquia organizaram um cerco, num sábado à noite, à Casa da Comunidade, contra a minha presença num encontro que ia lá decorrer e, ululantes, exigiam a minha cabeça no meio dos piores insultos (na altura, eu ainda morava em S. Pedro da Cova e apenas vinha aqui regularmente ao segundo fim de semana de cada mês), alguns dos familiares de Manuel também terão estado envolvidos nessa iniciativa terrorista, concebida e fomentada por alguns membros da Fabriqueira, com o explícito apoio do próprio pároco de então (por causa disso acabou por perder a paróquia, graças a uma corajosa decisão do actual Bispo do Porto, D. Armindo Lopes Coelho).

Manuel sabe de tudo isso e, embora tenha sido sempre contra essas iniciativas, tem evitado aproximar-se da Casa da Comunidade, para não ferir susceptibilidades com familiares seus que, ao contrário dele, se deixaram arrastar para elas, embora, hoje já compreendam que foram enganados por uns quantos caciques locais e até se mostrem publicamente arrependidos. Porém, desde que Manuel começou a empenhar-se com a sua mulher Júlia neste caso da Paula e do Paulo e dos seus filhinhos, tem-se revelado como um homem capaz de passar por cima de toda a folha. E acaba de dar mais um passo de gigante, ao aceitar viajar comigo na carrinha até Braga e integrar esta visita conjunta. Provavelmente, terá alguns dos familiares à perna, mas ele está disposto a tudo, para que as cinco crianças tenham outro futuro, pelo menos, como o que ele e a sua mulher Júlia estão a procurar garantir aos seus próprios filhos.

O meu abraço ao Manuel foi, por isso, ainda mais efusivo do que noutras ocasiões. Não tenho, evidentemente, qualquer interesse pessoal nesta sua aproximação, uma vez que nunca tive nem quero ter objectivos proselitistas de nenhuma espécie. O que pretendo, como presbítero da Igreja, é simplesmente que as pessoas dêem passos na sua libertação para a liberdade, porque, uma vez libertos, organizarão responsavelmente as suas vidas como muito bem entenderem. De modo algum, pretendo que integrem fisicamente a Comunidade Cristã de Base que aqui existe e com quem Parto regularmente a Palavra e o Pão em memória de Jesus, uma Comunidade pequeníssima em número de membros, mas grande como uma cidade situada no alto de um monte, no que respeita à sua dimensão de Sinal no país e no mundo.

Por esta sua decisão de ir com a mulher e os filhos na carrinha, quando poderia ter decidido ir à parte, no seu próprio carro, pude ver quanto Manuel é um homem de coragem, quanto está empenhado na reabilitação dos seus primos Paula e Paulo, para que ambos venham a ser achados dignos de ter de novo os seus cinco filhinhos ao seu cuidado maternal e paternal.

A visita no Centro Social prolongou-se por mais de duas horas. Fui encontrar três meninas e um menino, a mais velhinha delas de 9 anos, e o menino, o mais novinho dos cinco, de quase 4 anos, todos muito saudáveis, bonitos, com ar de inteligentes, e cheios de ternura para dar. Um mimo de meninas, de menino. As lágrimas encheram-me os olhos, de emoção, quando vi como estas crianças se agarravam ao pescoço da mãe e do pai, como se mostravam tão fora delas, tamanha era a alegria que lhes ia dentro. Paula e Paulo também se emocionaram todo o tempo. E Manuel, na sua emoção, parecia um verdadeiro pai também. Júlia, habitualmente efusiva e extrovertida, manifestou-se de outro jeito. Muito contida. A emoção como que a paralisou. É uma segunda mãe destas crianças e do mais velhinho que vive com os pais. Já lhe ouvi dizer que nunca estas quatro crianças teriam ido para à instituição de Braga, se, na altura em que a decisão foi tomada pelo Tribunal de Menores, ela tivesse sabido dela a tempo. Teria sido ela e o “seu” Manuel a tomarem conta das cinco crianças. É bem uma Mulher Coragem. Também Maria Laura ficou, num primeiro momento, sem fala, perante o que lhe foi dado ver. Impressionou-se vivamente com o comportamento das crianças com a mãe e o pai. Com aquela saudade de se sentarem no seu colo e de abraçarem demoradamente seu pescoço. Podem ser crianças com traumas dos tempos em que viveram ao deus-dará, mas é maior, infinitamente maior, a ternura, o afecto que nutrem pela mãe, pelo pai. E isto é o Essencial da vida humana.

A visita e o encontro foram para mim mais um grande sacramento de Deus Vivo, de Deus Amor que se nos revelou historicamente em Jesus de Nazaré e também nesta tarde de domingo, no decorrer desta visita. Ao contemplar esta realidade, este sacramento, e ao celebrá-lo quase em silêncio, fiquei com a certeza de que estas crianças irão ajudar a recuperar e a salvar a sua própria mãe, o seu próprio pai. Por isso, nunca mais poderei esquecer o rosto destas meninas e deste menino. Nem as suas traquinices. Nem as suas gargalhadas. Nem os seus abraços. Nem os seus beijos. Nem as suas correrias. Muito menos poderei esquecer o apelo reiterado do mais novinho, o menino João Paulo, no final da visita. Um pedido que ele, na sua inocência, à medida que nos deixava o seu beijinho da despedida, dirigiu expressamente à mãe, ao pai, à Júlia, ao Manuel, à Maria Laura, e a mim: “Leva-me para casa! Leva-me para casa! Leva-me para casa!”

Casa, e enorme, tem ele no Centro Social Pe. David, para onde o Tribunal de Menores, há mais de um ano, ainda ele não tinha três anos de idade, o atirou e às três irmãs. Também tive oportunidade de perceber, no decorrer da visita, que as educadoras e demais pessoal auxiliar são competentes e dão às crianças uma educação cuidada. Mas a verdade é que, apesar disso, todas e cada uma das crianças/adolescentes que lá se encontram – todas ou quase todas filhas do Infortúnio e do Abandono – continuam a sonhar com a casa da mãe e do pai, com o afecto da mãe e do pai, com a relação entre vizinhos, com os cheiros da comida na cozinha da sua casa, com os campos em redor da casa, com os animais, com o cão e o gato, com os sons e os ruídos que uma casa normal de família erguida entre outras casas normais de outras famílias geralmente tem, e que um Centro social, por mais confortável que possa parecer, não tem nem nunca poderá ter.

Se já era inabalável a minha determinação em trabalhar neste caso concreto, para trazer de volta à casa dos pais estas meninas e este menino, a minha determinação é agora ainda mais inabalável, depois desta visita. Igual determinação ouvi da boca de Maria Laura, de Júlia e de Manuel. E da boca da Paula e do Paulo, seus pais, nem se fala. E isto mesmo fiz questão de anunciar a todos, no final da viagem de regresso. Já fora da carrinha, no pátio da Casa da Comunidade, à sombra do diospireiro que acolhe quem chega, improvisámos, espontaneamente, um encontro eucarístico, sem pão nem vinho, só de palavra e de Partilha de sentimentos e de gestos de afecto. Deixei falar o Coração e a Razão e esse falar profundamente humano foi a Palavra de Deus que escutámos. Deixei as minhas mãos e os meus braços tocar e abraçar cada uma das pessoas e esses meus gestos de afecto foram o Pão que comemos. Comovemo-nos todos até às lágrimas muito a custo retidas nos olhos. Ficámos um só corpo, neste combate. Até que as três meninas e o menino regressem para  o meio de nós, a viver na casa dos pais. O irmão mais velho, André, a mãe Paula e o pai Paulo precisam destas meninas e deste menino, para se tornarem mais humanos, mais afectivos, mais realizados. E todas, todos nós que estamos directamente envolvidos neste combate de amor, também precisamos. Felizmente, a partir de ontem, esse dia de festa está agora muito mais próximo!

 

2. “Chamo-me José, sou cego, tenho 42 anos, formado em psicologia das organizações, frequentando pós-graduação em terapias cognitivo-comportamentais. Natural do Funchal, vivo em Lisboa desde os 17 anos de idade, por norma sozinho e neste momento na companhia da minha cadela guia a Delta. Cheguei a si através da leitura do “Fátima nunca mais”. Lá fala-se do Jornal Fraternizar, o qual procurei na net. Fiquei fascinado. Sou filho de um pai que tem agora 77 anos, de quem gosto, mas que foi formado no Seminário do Funchal onde recebeu, como imagina, ensinamentos algo perversos. Ao ler “Fátima nunca mais”, lembro-me bem de estar por obrigação nas igrejas assistindo a celebrações onde se falava daquele inferno que nos assusta a todos e daquele deus, que só na cabeça doente de alguns poderá existir. Ao encontrar na net o Fraternizar, fiquei muito emocionado com aquilo que li e com uma enorme vontade de ir ao vosso encontro. Gostaria pois de saber como fazê-lo? Se é possível encontrar-vos em Lisboa? Em que morada? Ou onde quer que seja neste país, pois sinto uma enorme vontade de conhecer pessoalmente pessoas que pensam desta maneira. Disponho de tempo livre aos fins-de-semana, que urge preencher de modo enriquecedor. Por favor, ou melhor sem favor, mas por prazer responda-me o mais depressa que puder, pois a minha ansiedade é grande. Um muito obrigado, ou sem obrigado, mas de vontade e um grande abraço muito apertado e com muitos parabéns.”

Pode dizer-se que o encontro de sábado, dia 27, com José, vindo de Lisboa, começou com este e-mail, entrado na minha caixa de correio electrónico imediatamente a seguir ao fim das minhas férias. Mesmo sem conhecer quem mo enviou, nem ter qualquer referência a seu respeito, respondi ao e-mail, como sempre faço, de coração aberto. E, depois de mais algumas trocas de e-mails, acertou-se uma data. No dia combinado, José meteu-se num comboio, em Lisboa, desceu na estação de Campanhã, no Porto e entrou num outro comboio que o trouxe até Caíde, onde já eu estava à sua espera com a carrinha, para o transportar até Macieira da Lixa. Os pormenores dos horários foram combinados por telemóvel, mensagem escrita para cá e para lá. Tudo como se José não fosse um invisual total. Mas é. Nem os olhos que se lhe vêem nas órbitas são dele. São artificiais. A cadela Delta é a sua guia. Sabia da existência deste tipo de cães, já os vi em acção em filmes, mas nunca tinha visto um exemplar ao vivo. Foi agora, ao lado e à frente de José. Numa relação de cumplicidade completa, que nenhum ser humano conseguiria manter tão ininterruptamente. Fiquei deveras impressionado. E agora não consigo pensar em José, sem logo lhe associar a sua cadela guia Delta, um exemplo de dedicação animal ao seu dono como não há igual.

Entre pessoas, a nossa relação é de outro tipo e de outra ordem. Não é incondicional dedicação a um dono, já que ninguém é dono de ninguém. José também sabe isso e melhor do que muitas, muitos de nós. Optou por viver habitualmente sozinho, porque não quer criar nenhum tipo de dependências, nem passivas nem activas. Ainda jovem, já fugiu a todo o tipo de paternalismos. Conquistou a sua autonomia a pulso, depois de ter ficado cego aos 11 anos, no termo da evolução duma doença com que nasceu. A família naturalmente superprotegia-o e ele quase sufocava. Não conseguia ser ele próprio. Deixou então a família e veio sozinho para Lisboa. Hoje, tem o seu emprego estável numa grande empresa, onde é exímio telefonista. Mas não se ficou por aí, por uma vidinha de mero animal satisfeito. Um homem, uma mulher, é muito mais do que um simples animal, mesmo que se tenha na conta de racional. É um mistério vivo que tem consciência que o é! E isso faz toda a diferença. Só o mistério que se sabe mistério pode abrir-se finalmente ao Mistério dos mistérios e aceitar relacionar-se com ele, sempre em jeito de resposta. Ao Mistério dos mistérios só se chega às apalpadelas e em jeito de resposta. A iniciativa é do Mistério, não é nossa. Quando parte de nós acaba sempre em idolatria! Por isso é uma relação de pura graça, na dimensão da graça. Nem todas as pessoas se dão conta do Mistério. E das que dão, nem todas lhe respondem. O Mistério bate à nossa porta. A nós pertence a tremenda decisão de abrir ou manter a porta fechada. Se abrirmos, acontece o encontro que tem sempre sabor a Novo Começo, a Novo Nascimento, a Nova Criação. A partir de então, já não somos nós quem vive é o Mistério quem vive em nós. Tudo o que não é essencial deixa de nos cativar, cativos que andamos do Mistério. Enquanto os demais vivem num frenesim, como borboletas em redor da luz, aquelas pessoas que abriram a porta da sua consciência ao Mistério e consentiram que Ele se sente à sua mesa, vivem só para o Essencial. E o que é o Essencial para uma mulher, um homem? É chegar a ser plenamente humano. Em lugar de crescermos em Ter, só queremos crescer em Ser. E pelo Ser é que somos e vamos. Pelo Ter também, mas apenas quando queremos ter para Ser mais. Porque quando queremos Ter para Acumular, tornamo-nos Coisas.

O encontro com José começou logo na carrinha. Poderia ter-me limitado a uma longa conversa com ele na carrinha, uma vez que José é invisual e, ao contrário do que havia previamente anunciado, apresentou-se-me decidido a regressar a Lisboa nesse mesmo dia, num comboio de volta. Pelo vistos, o dia seguinte iria ser muito importante para ele, num encontro que há algum tempo esperava e que, à última hora, se proporcionou e ele não quis deixar para mais tarde. Mesmo assim, não quis ficar ali pela estação de Caíde, a aguardar a hora do regresso a Lisboa. Achei importante trazê-lo até Macieira da Lixa, como se fosse para ele ficar até o dia seguinte. A viagem na carrinha, apesar de José não poder desfrutar da paisagem através do olhar, seria na mesma importante nesta sua deslocação. Seria uma oportunidade de José desfrutar do tempo sentado ao meu lado, mas à mistura com os ruídos do motor e dos outros carros, a trepidação na estrada, a inclinação do corpo nas curvas, o ar a bater com força no rosto. Por isso, fiz-me de imediato à estrada até à casa onde moro. Delta, a sua guia, logo se adaptou a mim e percebeu que eu era um amigo em quem se podia confiar. Prova disso, é que mal entrou na carrinha, procurou logo uma posição confortável para ela, como quem se sabia desobrigada de estar de olhos postos no dono. Confiou-mo a mim e agora o cuidado com ele pertencia-me. Passou a ser um cuidado humano. Por isso uma oportunidade acrescida de ambos irmos muito mais fundo no mistério que somos e no Mistério de onde vimos e para onde vamos!

José partilhou comigo algumas das preocupações que ainda o sobrecarregam e que foram causadas por catequeses terroristas do passado. Mas quis sobretudo saber como pode integrar-se na dinâmica das Comunidades cristãs de base, a partir de Lisboa e, se for caso disso, também com regulares vindas a Macieira da Lixa. Como psicólogo, não está interessado em fazer carreira e ganhar muito dinheiro. Basta-lhe o salário de telefonista. Vive dele com simplicidade. E todo o tempo livre que lhe resta, e muito é, quer gastá-lo em prol de outros que possam beneficiar das suas aptidões e das suas capacidades de invisual, muito mais centrado no Essencial, invisível aos olhos, mas visível a quem tudo faz tudo para deixar de ser cego na consciência, por mais complicações e dissabores que isso lhe traga. Fosse José um medíocre, um instalado, um preguiçoso, um indolente, um acomodado, como tantos que há por aí, no nosso país e no mundo, mesmo entre os católicos de missa ao domingo (até querem um Deus que os dispense de puxar pelos neurónios e faça milagres que alimentem a sua preguiça), depressa se teria deixado cair na situação de “ceguinho” e de “coitadinho”. Felizmente, não é assim este homem. Sem olhos de carne e sangue para ver, vê o que muitas, muitos de nós não vemos, nem queremos ver. E o que mais deseja é colocar ao serviço da libertação e da promoção de outras pessoas tudo o que é, tem e sabe.

A conversa rendeu muito em pouco tempo. Quando nos situamos no Essencial, tudo é mais directo e claro. Por isso ainda deu tempo para eu o levar a visitar e a lanchar à Casa da Comunidade. Levei comigo uma sêmea de Padronelo, Amarante, que havia adquirido ao passar pela cidade da Lixa, num mercadinho meu conhecido. É Pão a sério, daquele que alimenta e por isso pode sempre ser olhado/sentido/comido como sacramento do Corpo entregue e do Sangue derramado de Jesus de Nazaré, o paradigma do ser humano que é guiado ininterruptamente pelo Essencial ou pelo Sopro de Deus Vivo. Irene, filha dos meus senhorios, uma menina portadora de deficiência cerebral que segue todos os meus passos ao redor da casa, foi também na carrinha comigo e com José, participar no lanche comunitário. O que é sempre uma festa para ela. E para mim.

Maria Laura que já havia sido informada por mim da vinda de José, ficou radiante, ao vê-lo. E em profunda comunhão. Passou logo a comunicar com ele com as suas mãos de ternura e com a sua voz de mulher irmã universal, como é seu carisma. O que, no caso de um invisual como José, é a melhor linguagem para ele poder concluir que está a ser acolhido com entusiasmo e com afecto sororal, fraternal. A cadela Delta também entrou pela cozinha dentro como se a casa fosse dela. Sempre de olhos no dono, até ele se sentar à mesa entre companheiras e companheiros. Ao vê-lo assim feliz e entre pessoas amigas, voltou a desligar e acomodou-se sob a mesa, como se não estivesse mais ali. Já o lanche ia a meio, quando apareceu Deolindinha, sem que ninguém lhe tivesse dito nada. Integrou-se de imediato. Comemos do Pão de Padronelo, barrado com manteiga magra e acompanhado de leite meio gordo. E continuámos a conversa com naturalidade e alegria. Da conversa, nasceu em José a vontade, logo transformada em propósito para ser levado à prática, de vir regularmente a Macieira da Lixa, acompanhar ao vivo esta nossa vivência comunitária ao serviço dos mais pobres e desconsiderados da sociedade. E poder inserir-se de corpo inteiro nesta dinâmica de serviço libertador, no decurso das horas que aqui vier a passar. Para já, José apontou para a possibilidade de um fim de semana por mês, a começar já em Setembro. O psicólogo formado que também é poderá assim ser muito útil, concretamente, a crianças e adolescentes, filhos de pais com problemas de alcoolismo e de divórcio, ou de maus tratos. Será um serviço libertador e gratuito, bem na linha do serviço de Jesus de Nazaré. Por isso, será Evangelho vivo e ao vivo, feito acção, prática libertadora e solidária.

Voltei com José na carinha até à estação de Caíde. Mas já não fui sozinho. Maria Laura, Irene e Deolindinha fizeram também questão de nos acompanhar. Numa simplicidade que só visto. Era como se o invisual que é José nos fizesse ver mais e melhor o Essencial. Junto dele e com ele, percebemos, de repente, que a vida só é verdadeiramente humana, quando a vivemos como quem vê o Invisível, o Essencial.

Na estação, Delta voltou a assumir o seu posto, ligada umbilicalmente ao seu dono e à frente dele. Conduziu-o até ao comboio, estacionado na linha, connosco ao lado dele. A despedida foi de festa. A sororidade, a fraternidade aconteceu. José é um companheiro que veio de longe, como o relato teológico da infância do Evangelho de Mateus diz dos Magos do Oriente. José, invisual residente em Lisboa, viu a estrela que brilha em Macieira, na pequenez e na pobreza da nossa Comunidade, dada a conhecer ao mundo, como sinal do Evangelho do Deus de Jesus, através das páginas do Jornal Fraternizar e na Internet. Viu a estrela e veio sem mais demoras. O que aqui viu e ouviu confirmou-o como companheiro nesta nossa caminhada. Por isso decidiu meter-se também nesta dinâmica do Espírito de Jesus. Aqui e em Lisboa, na companhia de outras cristãs, outros cristãos que já não se sentem a jeito nas paróquias territoriais. E eu fiquei em mais intensa e mais profunda Eucaristia. A cantar, juntamente com Jesus, aquele Poema que o Espírito ou Sopro de Deus Vivo lhe inspirou: Bendigo-Te, ó Pai/Mãe, porque escondeste estas coisas aos que têm olhos e tudo cobiçam e as revelaste aos invisuais.

 

3. O passado dia 25 foi inteiramente destinado para eu ir à cidade de Viseu. João Montez e Iriete são um casal de idosos, ele já passou dos 80, ela, um pouco mais nova, ainda trilha a casa dos 70, mas sofre da grave doença de Alzheimer. Por isso, ainda é ele quem cuida dela, é o seu anjo todos os dias e todas as noites. De vez quando, João Montez liga para mim pelo telemóvel. Sente-se tão desamparado e só, que tem necessidade de ouvir uma voz amiga. Eu sou o seu amigo de longe. Nas suas palavras, o único amigo em quem ele diz poder confiar verdadeiramente. A televisão faz destas coisas. Viu-me e ouviu-me há anos num programa, entusiasmou-se até à raiz dos cabelos e do coração, e nunca mais se desligou de mim, depois que conseguiu o meu contacto. Primeiro, foi o Jornal Fraternizar que logo fez questão de assinar. A seguir foram alguns dos meus livros que partilhei com ele e sua companheira/esposa. A distância em quilómetros que nos separa é grande, uns 150 para cada lado, mas estamos mais próximos do que alguns dos meus vizinhos com quem partilho o Lugar da Maçorra. É bem verdade, que a distância são os corações que a fazem. Quando comungamos do mesmo sentir e querer, do mesmo projecto e dos mesmos valores, a distância é nenhuma, mesmo que se esteja fisicamente longe. Quando esta comunhão não se verifica, a distância é enorme, mesmo que se esteja debaixo das mesmas telhas. Já Jesus de Nazaré o disse, quando formulou aquela perturbante pergunta aos que lhe anunciavam que a sua mãe e os seus irmãos estavam lá fora à procura dele. Jesus apontou com mão para a multidão de seguidoras, de seguidores que o escutavam e perguntou: Mas quem é a minha mãe e quem são os meus irmãos? Não eram os que estavam lá fora à sua procura. Eram os que estavam com ele. Os que estavam lá fora à sua procura, tinham-no, naquela altura, por louco e pretendiam deitar-lhe a mão para o retirarem da Revolução em que ele estava directamente envolvido até aos ossos.

João Montez e Iriete vivem em Viseu com muitas dificuldades de toda a ordem. Também materiais. Estão praticamente sozinhos no mundo. O único filho que tiveram, deixou-os na força da vida. O pai está convencido que ele foi assassinado. E ainda não desistiu de passar essa sua convicção para o representante do Ministério Público em Viseu. Os papéis continuam lá metidos. E Montez aguarda uma resposta. De um sobrinho que outrora lhes ligava, também não sabem nada dele, há que tempos. Sabem que está vivo, mas não sabem onde. É natural. Os dois estão numa situação de precisarem, e quem é que hoje está disposto a gastar do seu tempo com idosos como eles? Todo o tempo é pouco para queimarem nas discotecas e nas boites, nas farras e nos futebóis, ou mesmo em peregrinações a pé a Fátima!...

Pela minha parte, evito entrar numa de caridedezinha com estes meus amigos. E já é ponto assente entre nós que a minha amizade passa por outra porta que não essa. Hoje, uma IPSS de Viseu que envia funcionárias ao domicílio, também passa todos os dias lá por casa. As funcionárias fazem alguma limpeza, tudo muito por alto e de qualquer maneira, deixam a comida para o almoço e o jantar e já está. Pelo menos, à fome Montez e Iriete não morrerão. Embora possam morrer de solidão.

O casal vive num bairro, propriedade da Misericórdia. Mas quem dos vizinhos é capaz de usar de misericórdia para com estes dois seres humanos entregues a si mesmos e à sua debilidade? Ninguém, ao que eles garantem, usa de misericórdia para com eles! Montez chega a ter medo de sair fora de casa. Na sua solidão e abandono, convenceu-se que lhe querem fazer mal. E tem algum fundamento para isso. Já lhe entraram em casa e remexeram as coisas, provavelmente, à procura de documentos e de possíveis valores esquecidos. Temo que, com o passar do tempo, o meu amigo Montez acabe a sofrer mais, devido a esta sua convicção, do que à realidade que o cerca.

Não viajei sozinho até à casa dos meus amigos em Viseu. De outras vezes que lá fui, sempre fui acompanhado por mais pessoas minhas amigas e companheiras de caminhada. Também desta vez. Aliás, Montez, quando lhe anunciei que não acabaria o mês de Agosto sem que eu lhe aparecesse lá em casa, para lá de ter ficado contente como um menino com a notícia, logo sublinhou: traga consigo as senhoras que trouxe da última vez. Falei com elas e elas foram comigo. Não só as da última vez, Lena, da Comunidade de base de S. Pedro da Cova e Maria Laura, aqui da Comunidade de Macieira da Lixa, mas duas outras que nunca tinham lá ido, Deolindinha, da Comunidade de Macieira da Lixa, e Belmira, de Pedroso, que integra a Associação Padre Maximino, em S. Pedro da Cova.

Viajámos na carrinha, da parte da manhã. Fomos almoçar a Viseu, num restaurante que serve refeições económicas para trabalhadores das obras. E passámos parte da tarde com o casal no seu apartamento num rés-do-chão. Tive o cuidado de, antes de chegar lá a casa, passar por um supermercado e adquirir alguns miminhos que dissessem com a idade e a condição de saúde deles. Também adquiri o indispensável para partilharmos um lanche em conjunto com eles. O lanche foi o momento alto do encontro e a sua abóbada. O próprio Montez, que não sabia mais o que dizer e o que fazer, para nos mostrar toda a alegria que lhe saltava dentro, sublinhou que esse era o momento do Partir do Pão e que para isso é que eu era presbítero. Esta sua achega, revela que ele, na sua muita idade, continua a ler com atenção o Fraternizar e os meus livros que lhe tenho feito chegar. Além disso, é um homem de profundas convicções, politicamente lúcido, que foi várias vezes preso pela PIDE, nos negros tempos do fascismo salazarista que dominou o nosso país, durante cerca de meio século em pleno século XX. Uma vergonha que hoje parece já esquecida e por isso corre o risco de se repetir de um modo bem mais sibilino. Deixemo-nos dormir e quando acordarmos é já com o ruído das botas cardadas a pisar-nos o chão da casa, senão mesmo o corpo!

Deste modo, nem foi preciso eu dizer nada sobre o sentido eucarístico do lanche. Montez, como bom anfitrião, antecipou-se, a exemplo do que ocorria nas primeiras comunidades cristãs jesuânicas que reuniam/celebravam nas casas onde viviam e, por isso, quem presidia à Fracção do Pão era sempre o respectivo anfitrião ou a respectiva anfitriã. Maria, a mãe de João Marcos, o do Evangelho canónico que leva o seu nome, foi uma dessas anfitriãs presbítera, na Comunidade que reunia em sua casa. Sem ela e sem essa comunidade, será que hoje teríamos o Evangelho de Jesus segundo S. Marcos?

Por mais duma vez, durante o encontro, Montez fez questão de dizer que me sentia menos exuberante do que das outras vezes. E isso intrigava-o. Efectivamente, dei comigo assim. E não encontro outra razão para o facto, senão num pesado sentimento de tristeza que se apoderou de mim, ao ver a solidão deste casal, sem que daqui eu lhe possa valer. A menos que outras pessoas, de Viseu ou de outros pontos do país, que lerem este relato em forma de Boa Notícia ou Evangelho, decidam rumar até lá, de tempos a tempos. Os de longe podem suscitar nos de perto a vontade de também se fazerem próximos deste casal de idosos. Nesse caso, o Bairro que se chama da Misericórdia e que tem sido tão sem misericórdia para com eles, poderá, finalmente, vir a ser o que o seu nome diz. Se tal acontecer, tornar-se-á um Bairro mais do jeito de Jesus de Nazaré que diz: “Misericórdia quero, não religião”.

Quem me dera que, neste início do século XXI, os meus irmãos católicos, elas e eles, trocassem todas as missas de domingo (religião) pela misericórdia feita acção concreta. Em vez de irem rotineiramente à missa, experimentem ir até Viseu, à casa dos meus amigos João Montez e Iriete. Confeccionem e levem convosco no carro uma refeição e batam-lhes à porta. Entrem e comam com eles. Tudo em memória de Jesus. De certeza que nunca mais serão como antes desta Eucaristia viva, deste mergulho no Sopro de Deus Vivo. Fica aqui o convite. E o desafio.

P. S. Quando já estava a chegar a casa, depois de outros 150 kms percorridos, em direcção a Macieira da Lixa, tocou o telemóvel. Pensei logo que seria o meu amigo João Montez, a querer saber se havíamos chegado bem. E era. Mas o que ele me queria dizer foi outra coisa bem mais saborosa e que tem a ver com o Evangelho de Jesus. ”É para lhe dizer que Iriete nem parece a mesma pessoa, com a visita que nos fizeram. Está numa alegria, que até parece que não tem doença nenhuma. E só fala em vocês, nas conversas que pôde fazer com as senhoras e no lanche que lhe soube como o melhor manjar do mundo. Diga às senhoras desta nossa alegria em que nos deixaram”. Digo-o não só a elas. Digo-o a toda a gente. Felizes as, os que lermos e ouvirmos esta Palavra de Deus. E a pusermos em prática. O Sopro libertador de Deus Vivo que perpassa nela fará de nós mulheres, homens mais ao jeito de Jesus. E isso vale infinitamente mais que todo o Ter do mundo!


2005 AGOSTO 24

1. O meu país continua a arder. Mas os governantes do meu país continuam a pensar que os nossos potenciais inimigos são, como antigamente, outros povos e por isso as nossas forças armadas são para permanecer dentro dos quartéis à espera que um qualquer povo inimigo (!) se lembre de nos atacar. Só então os militares se movimentarão para nos defender. Os governantes do meu país não vêem que o inimigo já está a atacar-nos e de que maneira. Está cá dentro e apresenta-se-nos disfarçado de incêndios cada vez em maior número e em múltiplas frentes. Ardem florestas, matas, casas e até vidas humanas. Entretanto, as Forças Armadas do meu país continuam no remanso dos seus quartéis, a reivindicar regalias que outrora lhes foram atribuídas e que agora os seus homens e algumas mulheres recém-incluídas na instituição castrense, não querem de modo algum perder.

Saibam que há umas semanas atrás, um canal de televisão deu-se ao luxo de exibir uma reportagem com alguns militares a intervir nos fogos. Não nas duras penas do duro combate, lado a lado com os bombeiros. Mas como quase turistas, de mochilas carregadas com tudo o que é indispensável para poderem sobreviver durante uns dias fora do quartel. “Acção de prevenção e vigilância”, foi como classificou a operação a repórter tv de verão, uma daquelas estagiárias da universidade que pouco mais sabem do que servir de pé de microfone e nunca são capazes de ir ao fundo dos problemas, na denúncia das verdadeiras causas do crime que as televisões exibem nos telejornais como um espectáculo mais de fogo de artifício, bonito de se ver, terrífico nas suas consequências e nas suas motivações. Viram-se depois os jovens devidamente fardados, como se fossem de passeio, todos muito limpos, de mochila carregada às costas, munidos de mapas e de telefone para avisarem quem de direito sobre possíveis focos de incêndio com que ocasionalmente topassem no decorrer da caminhada a pé pelas matas. Bom passeio, poderia ter dito a repórter. Não disse, mas digo eu com aquela salutar e fecunda ironia que só o amor é capaz de alimentar. Porque com comportamentos destes e reportagens destas, isto não é um país. É uma caserna.

Ora, se os incêndios de verão são actualmente o inimigo maior que nos ataca com requintes de crueldade, como se compreende que as forças armadas e o ministério da defesa não se mostrem capazes de ver o que entra pelos olhos dentro de toda a gente e muito menos se mostrem capazes de decidir do pé para a mão que, a partir de agora e até prova em contrário, as nossas forças armadas passam a existir, antes de mais, para enfrentar os incêndios e para os derrotar em todas as frentes onde eles venham a ser ateados?

Uma decisão destas levará os militares a trocar o sossego e os vícios da ociosidade dos quartéis pelas nossas matas e florestas. Durante os meses do frio, para limpar tudo o que há para limpar e para abrir acessos onde eles mais forem necessários. E durante o verão, para se ocuparem directamente na prevenção e no ataque, por terra e pelo ar, juntamente com os bombeiros, de modo que, daqui em diante, mais nenhum incêndio iniciado tenha sucesso, sempre fique condenado abortar ao nascer. Será que nem o Bispo castrense vê o imperioso duma mudança destas? E se vê, porque não mobiliza os militares para um tipo de defesa e de ataque assim, o único que neste início do século XXI se justifica num pequeno país como o nosso? Deixem os velhos submarinos ir ao fundo de vez, troquem os caças bombardeiros por helicópteros e aviões de combate a incêndios, reconvertam todo o outro material militar, concebido para atacar outros povos e pessoas em guerra, e passem a atacar com eficácia os incêndios. Mas apressem-se, antes que mais dois ou três verões nos queimem de vez, não só as matas e florestas, mas também as populações e as casas que habitamos.

Por outro lado, foi mais do que chocante verificar que, apesar dos fogos, o Governo, primeiro ministro incluído, não quis saber e foi quase todo de férias e por lá se manteve até final delas, como se o país não estivesse a ser atacado pelo inimigo, que desde há sucessivos anos a esta parte, invariavelmente nos rouba e mata no verão. De um ano para o outro, os governantes ainda não foram capazes de alterar os seus hábitos. E insistem em ir de férias em Agosto, como qualquer funcionário público, quando o país fica todo em chamas e os bombeiros não têm mãos a medir.

Parece que enquanto não arder o palácio do Governo, os incêndios nas matas e florestas não têm a ver com o primeiro ministro. E os incendiários que actuam organizadamente pela calada da noite ou pela força do calor da tarde, enquanto as populações das redondezas dormem a sesta ou se remetem a pequenas tarefas domésticas à sombra, têm-lhe feito a vontade. Por enquanto, ainda só pegam fogos nas matas e nas florestas. Ainda não se aproximaram do palácio do governo. Mas o Governo não perde pela demora. Basta que os interesses de minorias sem escrúpulos que estão na origem da maioria dos incêndios de verão cheguem à conclusão que aquela área da cidade de Lisboa pode ser reconvertida num grande centro comercial que rivalize com o Colombo e nem o palácio de S. Bento se salvará de arder. E é bem feito. Afinal, para que é que ele serve? Foi de frades, no passado, é dos profissionais da Política e do chefe do Governo no presente. Também bem pode vir a ser duma dessas multinacionais de consumo que enriquecem desmedidamente, de ano para ano, à custa da manipulação das nossas necessidades, umas reais, outras, a maior parte, artificiais. Se calhar, só assim é que abrimos os olhos e mudamos de comportamento.

Aliás, ainda não percebi como é que as populações do meu país continuam a revelar tamanha paciência e tamanha resignação perante os incêndios agendados para as semanas de verão. Para cúmulo, este ano, as populações até se transformaram em bombeiros, num comportamento próprio de escuteiro, quando o que seria de esperar é que as populações se enfurecessem, indignassem e se convertessem em incendiários, não de mais matas e florestas, mas do regime corrupto, este nosso, que nos devora a dignidade e nos rouba a alegria de viver como seres humanos amigos, fraternos e solidários. Pelo caminho, as populações ainda poderiam aproveitar para fazer cair estes governantes de trazer por casa que nos têm saído na rifa eleitoral, incompetentes e analfabetos em política q. b., como não haverá muitos assim no resto do mundo.

A política que se reduz a discursos, e discursos demagógicos, é o descrédito completo da verdadeira política. A política tem que ser práticas ousadas e inovadoras que acabem de vez com a pobreza em massa, mudem a vida das populações e nos tragam mais felicidade, mais bem-estar, mais cultura e mais riqueza partilhada segundo as necessidades de cada qual. Políticos demagogos são analfabetos em política e criminosos. Não podem continuar impunemente à frente dos nossos destinos. O mandato dura quatro anos? Mas quem disse? Então o povo que vota e elege não há-de ser também quem julga? E se os eleitos, ao fim de poucos meses, começam a dar sinais de que estão no lugar sobretudo para se governarem e governarem a numerosa trupe de amigos e correligionários, vamos consentir que permaneçam lá durante quatro anos a fazer das deles?

(A Caixa Geral de Depósitos é, pelos vistos, e a este propósito, uma vaca com muitas tetas. A prova é que são muitos os que vão para lá ganhar ordenados chorudos, mesmo que não percebam nada da poda. As populações sabem disso e que fazem? Não protestam, não barafustam, não se manifestam, pelo contrário, calam e consentem!... Infelizmente, é assim que está a ser. Por isso disse e repito: Isto não é um país, é uma caserna, onde até já mataram a capacidade de indignação nas populações! Será para conseguir castrar e matar esta capacidade de indignação nas populações afectadas por catástrofes e outros males de grandes dimensões, que hoje está na moda enviar psicólogos para junto delas? O Sistema sabe muito. E se os profissionais psicólogos não se cuidarem, mais não farão do que fretes ao Poder de turno. Mas terá sido para isso que se fizeram psicólogas, psicólogos?)

O meu país está a arder como nunca esteve em anos anteriores. E parece que ninguém tem coragem de o dizer, mas eu digo: um Governo que não é capaz de organizar a defesa do país contra este inimigo que todos os anos ataca, forte e feio, no verão, é um Governo manifestamente incompetente, que não merece esse nome e deverá ser destituído de funções. Não para que os seus membros possam ir a correr ocupar um lugar na administração duma qualquer empresa pública que paga bem aos seus gestores, mas para que todos eles sejam recrutados como bombeiros e passem a combater incêndios, pelo menos, até à idade da reforma. Mas sempre com um outro por perto, dedicado à causa e desinteressado, não vá o antigo governante estar ligado aos interesses obscuros que todos os anos pegam fogos nos sítios aparentemente mais incríveis, onde eles sabem que, num próximo futuro, podem vir a fazer colossais fortunas. É grave admiti-lo, mas a realidade fala por si: está a ser difícil encontrar algum membro de um qualquer governo partidário que se aproveite. Todos se deixam seduzir e envolver em negócios sujos, em interesses obscuros, em fortunas conseguidas a todo o vapor contra a mais elementar justiça. Todos (que me desculpe quem ainda for governante honesto, se algum houver no meu país) são corruptos, ou corruptíveis, todos têm interesses a salvaguardar e a fortalecer, todos devem favores a certa rapaziada que com eles coopera, todos são vaidosos e demagogos, fúteis, numa palavra, inimigos das populações.

Começa por isso a ser tempo de as populações meterem um pauzinho na engrenagem do sistema que as minorias espertalhonas que nos têm (des)governado nos impingem como o menos mau de todos os sistemas de governo. É tempo de dizermos Basta! E buscarmos soluções outras, que nos tragam mais qualidade de vida, que promovam o nosso protagonismo político e o nosso desenvolvimento cultural e cívico, que dignifiquem a política e ousem dar corpo a economias que nos garantam trabalho e produção de bens dentro do respeito pelo nosso ecosistema e pelos valores da justiça, assim como a sua justa distribuição por todas as casas. Mais do mesmo, não, obrigado. É um crime que não pode continuar impune. Pode até compensar alguns, sempre os mesmos, evidentemente, os dos interesses obscuros, mas está visto que mata as populações sem apelo nem agravo.

Apareçam então líderes incorruptíveis, mulheres e homens desprendidos, pobres por opção até ao fim dos seus dias, que se misturem como o fermento e como o sal entre as populações. E que trabalhem em estreita e fecunda ligação com elas. Numa relação maiêutica, socrática, sempre muito humilde e criadora. Para que as populações cresçam em protagonismo e eles, os líderes, diminuam. Não é uma solução para este ano, nem para o ano que vem? É por demais manifesto que não. Mas é uma solução a iniciar já, pois é a única que, à distância, nos libertará deste sistema que nos rouba a identidade e nos reduz à vergonhosa condição de votante e de frequentadores e consumidores mais ou menos compulsivos dos grandes centros comerciais.

 

2. Festas populares de verão. Mas o verão no meu país não é só o tempo de devoradores incêndios. É também o tempo das grandes festas populares que servem sobretudo para que o meu país continue a ser, por muitos anos mais, um Portugal de pequeninos. Fizeram-nos assim, um Portugal de pequeninos, desde o início da nacionalidade. Pequeninos e oportunistas. Preguiçosos e invejosos. Chico-espertos e ladrões. E, pior que tudo, lacaios e lambe-botas de eclesiásticos e de nobres, de fidalgos e de patrões, de multinacionais e de centros comerciais, de telemóveis terceira geração e de carros de luxo. Revelamos invulgar engenho e arte, mas para o gamanço e para o conto do vigário em grande escala, não para a criatividade. Temos um jeito do caraças para viver de habilidades e de estratagemas, mas não para a competência. Temos engenho e arte para fugir aos impostos, como nenhum outro povo do mundo, mas não suportamos a transparência. Há excepções, eu sei, mas só para confirmar a regra. Infelizmente, não são a regra. Por mais que isso nos custe.

Ora, quando assim é, quem tem um pouco mais de lábia e nenhuns escrúpulos, é que é o rei. Ou foge, ou depressa é escolhido pelas populações para autarca. Ou para ministro. Ou para administrador de grandes empresas do Estado. Ou para bispo residencial. Ou para pároco. E é mais do que certo que com uns quantos caciques destes nos lugares de mais influência, nunca chegaremos a ter futuro como país. Viveremos sempre na cepa torta. E na cauda da Europa.

As festas populares do verão são um bom exemplo do que acabo de dizer. Concretamente, o mês de Agosto é um nunca mais acabar de festas e de romarias. Todas, ou quase, em honra duma nossa senhora qualquer. Fica manifesto que há nossas senhoras para todas as já crónicas aflições em que inexoravelmente, vivem mergulhadas as populações empobrecidas.

Este ano, as festas coexistiram com os incêndios. E algumas delas terão sido até causa próxima de mais uns quantos. O fogo nas matas e florestas rivalizou com o fogo das festas. Os foguetes estouraram no ar, como se o país estivesse em festa. Na verdade, está a chorar e a morrer queimado. Diz-se que são as populações que exigem que haja festas assim. Mas é mentira. É mais verdade dizer que as comissões de festas é que o exigem. E os párocos em comunhão com elas, uma vez que, durante elas, a tudo presidem e tudo abençoam. Em troca duma boa maquia, evidentemente, que para isso eles estudaram durante 12 anos no seminário, e é sempre bom fazer engordar, sem nenhum esforço de maior, a conta que têm no banco. Podem assim trocar de carro de luxo com mais frequência e programar dispendiosas férias no estrangeiro. Longe das populações. E dos rotineiros compromissos pastorais que, durante os outros dias do ano, realizam com o ar distraído de um qualquer funcionário público. Ou o seu modo de vida não fosse ser funcionário eclesiástico.

Bem vistas as coisas, e já depois das festas acabadas, só as populações é que saem sempre a perder. Ficam muito mais depenadas. As comissões de festas são hábeis em extorquir-lhes o dinheiro. Nem que seja com recurso aos caciques, a veladas ameaças que estes deixam saltar das suas bocas, quando lhes aparecem à porta a pedir para as festas, e também graças a alguns truques, como o recente truque do apelo à vaidade do “chefe de família, Você dá para cima de x euros para as festas e nós botamos agora mesmo um foguete à sua porta.

(Por sinal, já os fariseus, no tempo de Jesus, conheciam este truque e recorriam a ele. Não botavam foguetes. Mandavam tocar as trombetas, para que toda a gente em redor ficasse a saber que eles haviam dado uma choruda oferta para o tesouro do Templo, ou para ajudar a manter algum miserável na sua crónica miséria).

Comissões há que, depois das festas encerrarem, encontram-se ainda para acertar os números totais e definitivos a apresentar à população, e para comer bem e beber melhor. Tudo por conta das festas. Não é então de estranhar que todos os anos haja sempre quem se inscreva para garantir a realização das festas populares. Altruísmo? Nada disso. Se ser da Comissão das festas não der para encher os bolsos, dá sempre para se promover a cacique da aldeia. Ou, ao menos, para se ficar amigo de algum dos caciques da aldeia. E, é claro, dá também muito jeito tornar-se amigo do senhor abade. É que o poder do pároco numa aldeia continua a ser grande e de modo algum se pode desperdiçar. Podem os da Comissão de festas não querer saber de Deus vivo, o de Jesus de Nazaré, para nada, mas a verdade é que não desperdiçam a oportunidade de beneficiarem da amizade do senhor abade. Afinal, é melhor andar de bem com deus e com o diabo, pensam todos, ou quase, lá para eles. É por isso certo e sabido que os que integram as comissões de festas nunca dão ponto sem nó. Ninguém se iluda. O que faz correr os seus membros são interesses mais ou menos obscuros. Não é a gratuidade, o bem das populações. Se fosse, trabalhariam todo o ano. E trabalhariam com cabeça, tronco e membros. Não apenas com a mão na carteira e o pensamento nos interesses para si e para os seus; se fosse, buscariam o bem das populações, apostariam no seu desenvolvimento cultural e promoveriam o seu protagonismo cívico e político. Ora, não é o que se vê. Aos das comissões de festas só lhes interessa contribuir para estupidificar ainda mais as populações. Sacam-lhes o dinheiro e, em troca, dão-lhes foguetes, altifalantes com música pimba e arraiais sem um mínimo de cultura e de civismo. É tudo rasca. Nalguns casos, do mais rasca que imaginar se pode.

 

3. Também aqui em Macieira da Lixa decorreram, este passado fim de semana, as festas em honra de S. Roque e da senhora da saúde. Três dias de verdadeiro desastre. Barulho ensurdecedor. Sem respeito pelas pessoas, mesmo doentes e acamadas. Os altifalantes gritam e vomitam baboseiras de estarrecer. Os que têm saúde adoecem. Os que estão doentes pioram. Os nervos andam à flor da pele e descontrolam-se. Ninguém cuida de ninguém. Ninguém tem paciência para ninguém. Mas que querem? É a festa do S. Roque e da senhora da saúde. Um desastre que, desde há alguns anos, se repete, durante um alargado fim de semana de Agosto, na freguesia.

Quando fui pároco aqui, a festa nunca se realizou. Bastou eu perguntar aos que pretendiam organizá-la o que é que o santo havia feito de especial que merecesse uma festa em sua honra. Perguntei, porque eu, sinceramente, não sabia.  Ficaram todos atrapalhados. Não conheciam nada de importante que pudesse convencer-me a levar a festa por diante. Apenas um deles se recordou duma anedota que tinha ouvido a um pregador da festa em anos anteriores. Diz a lenda – contou para mim o candidato à Comissão de festas – que Roque tinha um cão com ele. E, quando Roque caiu doente, ficou com o corpo coberto de chagas. Foi então abandonado e desprezado por toda a gente. Valeu-lhe, nessa angustiada situação, o cão que o acompanhava. Cuidava dele, lambia-lhe as chagas com a sua língua, procurava comida para ele nos povoados, fazia-lhe companhia dia e noite. Ouvi a anedota com atenção e concluí com bom humor e fina ironia: Mas então a fazer-se a festa só se for ao cão de Roque, porque o cão é que foi o herói e o santo! A gargalhada dos presentes foi geral e ninguém mais, enquanto fui pároco aqui, veio com a proposta de se fazer a festa em honra de S. Roque.

Sei que, mesmo depois de eu ter sido obrigado pelo Bispo D. António a deixar a paróquia, a festa continuou sem se realizar durante todo o tempo, cerca de dez anos, em que o Pe. Coelho que me sucedeu no cargo, esteve cá como pároco residente. Entendeu ele que a decisão tomada por mim havia sido a mais evangélica e a mais digna para as populações e manteve-a contra ventos e marés. Só depois, quando foi substituído por um outro pároco, com veia para comerciante de Cristo, mais do que para seguidor de Cristo, a festa em honra de S. Roque regressou em força. E nunca mais deixou de se realizar até hoje.

Este ano, as coisas tocaram o pico do mau gosto e da anti-catequese cristã jesuânica. A festa foi um público anti-Evangelho de Jesus. Felizmente, muitos dos jovens da freguesia já não alinharam na alienação religiosa que teve lugar durante ela. Mas, infelizmente, o jovem pároco alinhou. Deveria ser o mais lúcido, o mais jesuânico e infelizmente não foi. Integrou-se na festa e presidiu aos números em que o ritual da festa manda que seja o pároco a presidir. É presbítero da Igreja que está no Porto, tal como eu, mas prestou-se, a exemplo de muitos outros párocos católicos do nosso país e do mundo ocidental, ao papel de sacerdote dos cultos pagãos, todos anteriores ao próprio Cristianismo de Jesus de Nazaré, e que continuam a ocupar e a alienar as populações, graças à Igreja católica romana que, neste capítulo das festas religiosas, tem mais de Paganismo romano do que de Boa Notícia libertadora de Jesus.

Houve missa campal e procissões. Uma de velas, à noite, com a iluminação pública desligada, num manifesto regresso à Idade Média, aos medos dos deuses e dos demónios da Idade Média; e outra em pleno dia. Houve reza pública do terço, junto de um nicho de mau gosto levantado há alguns anos, num cruzamento de caminhos da freguesia e onde uma imagem da famigerada senhora de Fátima, comprada e oferecida para o efeito por uma devota, continua a tolher as populações que ainda não conseguiram libertar-se de todo esse paganismo idolátrico. E não se pense que estou a exagerar.

É o medo que continua a conduzir as populações. O medo das deusas e dos deuses. Também da senhora ou deusa de Fátima. A imagem, em tudo igual a milhares de outras feitas pelo mesmo molde, ou semelhante, é um escarro lançado contra Maria, a mãe de Jesus, e contra todas as mulheres. Olhem bem para ela e concluirão que ela é um dos símbolos mais acabados da mulher submissa, alienada, oprimida, des-sexuada, humilhada. Por isso, materializa um insulto à dignidade dos seres humanos. E uma agressão sem nome, dentro da linguagem dos símbolos, evidentemente. Além disso, remete-nos para os primitivos cultos que as populações de outrora não tinham como evitar em honra das deusas dos lugares. Na sua ignorância e nos seus medos, as populações oprimidas pensavam que as imagens eram a própria deusa que estava junto delas, com as suas bênçãos, se elas se portavam bem, e com os seus castigos, se elas se descuidavam dos seus cultos ou se se portavam mal.

O Evangelho de Jesus, já na peugada do que haviam catequizado os profetas bíblicos, com destaque para Elias, Isaías, Jeremias e Ezequiel, veio-nos dizer que tudo isto é alienação e mentira. Os deuses e as deusas não existem. Existem as imagens que não correspondem a nada. As senhoras disto e daquilo não existem para lá das toscas imagens. São uma doentia criação dos medos das populações. Pelo que as populações só têm a ganhar se conseguirem fugir de tudo isso, de toda essa mentira e passarem a cuidar não das imagens mas de si próprias e uns dos outros, numa relação de amor e de entreajuda que nos promova como pessoas com consciência e dignidade.

O meu espanto e a minha tristeza é constatar que o actual pároco de Macieira da Lixa, que, também nestas alturas, deveria corajosamente anunciar o Evangelho de Jesus às populações, se tenha limitado a assumir, uma vez mais, o alienante papel de sacerdote dos cultos do paganismo primitivo, agora travestidos de culto católico. Deixou por isso as populações ainda mais mergulhadas nos seus medos e na sua ignorância teológica. Pecou publicamente contra a Fé cristã jesuânica. Escandalizou as populações, mesmo que elas não tenham consciência disso. Foi pedra de tropeço. Não libertou. Alimentou um desvio que deveria ter denunciado com audácia. E contribuiu para injuriar publicamente o nome de Maria, ao aceitar que ele tenha sido mais uma vez associado a toda esta palhaçada, a todo este paganismo, a toda esta idolatria. Eu sei que, ao proceder assim, o pároco continua a ter com ele as populações, enquanto elas se mantiverem, ou forem propositademente mantidas, alienadas e teologicamente iletradas. E sei também que, ao proceder assim, ele tem garantidos muitos euros que a Comissão de festas terá que lhe entregar e que vão certamente engordar a sua conta bancária, depois de já ter recebido avultadas verbas semelhantes, provenientes de outras tantas festas com esta, nas freguesias vizinhas, onde também faz de pároco.

Por mim, evitei a festa o mais que pude. No sábado, aceitei o convite do meu amigo Armando, director de O ARRIFANA, e fui com ele a Vila Nova de Cerveira, usufruir da inauguração da XIII Bienal de Arte, marcada para esse dia. E no domingo, atendi o apelo de Maria Laura, presbítera não-ordenada da Comunidade cristã de base de Macieira, cuja casa está situada junto do local onde decorrem as festas, e saí com ela em direcção a Amarante. As festas, com todo o seu barulho e com toda a sua mentira, estavam a deixá-la à beira de um ataque de nervos. São festas para enlouquecer as populações, não para as consciencializar e libertar.

Em Amarante, improvisei com Maria Laura um almoço frugal junto das águas do Rio Tâmega, na proximidade de muitas outras pessoas e famílias que também por lá partilhavam os seus farnéis. E, depois, fui com ela visitar a minha amiga e amiga dela, Martinha, em casa dos seus pais e avó materna, respectivamente, Lurdes, Carlos e Aninhas Matos. Como de tantas outras vezes, Martinha encheu-me a alma com a sua alegria, a sua festa, a sua abundância de vida no máximo da deficiência que carrega em todo o seu corpo, desde que nasceu há uns 19 anos. Com o aval da mãe, proporcionei um passeio de carrinha a Martinha por diversos locais de Amarante. A mãe dela e a avó acompanharam-nos. Maria Laura também. Carlos optou por ficar em casa a descansar de outro jeito.

De regresso a Macieira, ao fim da tarde, a festa continuava ensurdecedora e alienante. Foi então que consegui convencer Maria Laura a vir jantar comigo na casa onde vivo sozinho. Irene, filha do casal meu senhorio, viu a carrinha chegar e correu ao meu encontro de braços abertos. E mais feliz ficou, quando deu pela presença de Maria Laura. Nunca mais saiu de junto dela, enquanto eu estive na cozinha a confeccionar o jantar. Convidei-a a comer comigo e com Maria Laura. E ela ficou a dançar num pé só de alegria. Foi um jantar simples, comido em Memória de Jesus. Um arroz de peixe com legumes e soja. Meloa a abrir e maçãs como sobremesa. Ambas gostaram muito, embora nunca antes tivessem comido um arroz com tais ingredientes.

Propus às duas companheiras que fôssemos na carrinha até Felgueiras, ao conhecido Monte de St.a Quitéria. Era uma outra maneira de evitar a festa na freguesia e o seu barulho estupidificante. Elas aceitaram. Pudemos caminhar com toda a simplicidade e ternura pelo fresco da noite e conversar. Sobretudo, Maria Laura aproveitou para partilhar algumas das dificuldades por que certas pessoas estão a fazê-la passar. É um pedaço de Paixão incruenta, mas dolorosa, que ela sofre por causa do Evangelho. Nada que Jesus já não nos tenha advertido que sempre ocorrerá, quando nos atrevemos a seguir a sua via, em lugar de seguirmos a via da Religião e das festas religiosas que só servem para nos prejudicar e deixar menos humanos. A caminhada e a conversa partilhada mais pareceram um prolongamento daquelas outras que Jesus Ressuscitado fez acontecer com o casal de Emaús, segundo o relato teológico do Evangelho de S. Lucas. Deixou-nos aos três numa grande paz interior e exterior. Essa mesma paz que sempre havemos de dar ao mundo como Jesus deu a sua.

4. JMJ. A sigla andou nestes últimos dias em todos os jornais. Significa: Jornadas Mundiais da Juventude. Este ano, os jovens foram atraídos para a cidade de Colónia, na Alemanha. Da próxima vez, terão que ir até Austrália, se continuarem a dar ouvidos ao Papa-chefe de Estado do Vaticano, um cargo que Bento XVI acumula, em contradição viva com o Evangelho de Jesus, com o serviço de Pedro na nossa Igreja católica. Bento XVI presidiu ao evento. Foi a sua primeira vez, vários dias, fora do Estado do Vaticano. Os media mostram-se espantados com tantos jovens em volta do papa. Uns 800 mil. Um milhão, no dizer de outros. Parecem muitos, mas são uma gota de água no oceano que é hoje a Humanidade. Temos que ter presente que eram jovens provenientes de 194 países do mundo. Até a Igreja católica do distante Timor Leste enviou pela primeira vez uma representação! Bastaria que cada um destes 194 países enviasse cinco mil jovens, para termos essa cifra. Ora, o que são, mesmo em Portugal, cinco mil jovens? Não sei quantos jovens estariam da própria Alemanha. Mas sei o que revelou, dias antes das Jornadas terem início, uma famosa revista semanal daquele país europeu: Ratzinger, quando chegar ao seu país natal, irá encontrar uma Alemanha muito diferente da que conheceu na sua juventude. Hoje é uma Alemanha com as igrejas católicas às moscas, porque os católicos de lá já descobriram outras formas de preencher os seus domingos e não têm pachorra para aguentar celebrações de missas sem frescura e sem comunhão, sem profecia e sem festa, sem política e sem encontro real de Deus vivo com eles. Basta, pois, de continuar a confundir Deus vivo com eclesiásticos esgotados e esteriotipados, que se limitam a ler o Missal e a executar o que manda o Ritual de Roma! Liturgias assim são uma estopada. Por sinal, o papa pediu aos milhares de jovens que voltem a marcar presença na missa dos domingos. Foi um patético apelo que terá a resposta que merece. É que ou a Igreja muda radicalmente de modelo e regressa à frescura do Evangelho de Jesus, ou fica reduzida a um deserto. Por mais apelos do papa. Não é de papas chefe de Estado, nem de bispos monarcas absolutos da Igreja, que os jovens e as outras pessoas precisam. A Idade Média morreu há muito. Os jovens e as outras pessoas do século XXI queremos Jesus, o de Nazaré. Também queremos o Cristo, mas o de Jesus crucificado pelo Império, devido às Causas em que se comprometeu por inteiro e até ao limite, e não o Cristo do Império que sempre justifica e canoniza todos os crimes que o Império de turno comete contra os povos do mundo.

Muita gente deixou-se impressionar com a quantidade de jovens em Colónia. Deveria interrogar-se sobre que tipo de jovens são e como foram arregimentados. Quem lhes pagou as viagens e as despesas por lá. Muitos deles são escuteiros. Muitos outros integram correntes reaccionárias na Igreja, filhas, filhos de papás e de mamãs, com muita grana e muito status social. Opusdeístas, focolorinos, de um catolicismo com quase tudo de anti-cristianismo de Jesus. E como foram arregimentados? Sei que em várias paróquias do nosso país os párocos viram-se gregos para tentar convencer uns quantos jovens a participar. Nem com a garantia de viagens pagas, os jovens aceitaram alistar-se. De Portugal foram uns cinco mil jovens. Um sucesso, ou um tremendo fiasco?

É o que eu digo: Não é de um papa cheio de medo e por isso resguardado por um inestético papamóvel com vidros à prova de bala, nem duma corte de cardeais vestidos ao jeito dos cortesãos do antigo imperador de Roma, que os jovens do século XXI têm fome. De quem eles têm fome é de Jesus de Nazaré, o Caminho, a Verdade e a Vida. E Jesus de Nazaré é o Homem que também eu, desde sempre, procuro conhecer, seguir e anunciar às pessoas. Prosseguirei nesta missão presbiteral. Longe dos templos e dos altares. Como o próprio Jesus fez no seu tempo e país. Não falta quem me combata e tente desacreditar-me. Mas é por aqui que continuarei a ir. Venham então por mim até Macieira da Lixa. Ou chamem-me às vossas casas e às vossas mesas. Quando finalmente vemos Jesus com os olhos da consciência, logo nascemos de novo, do Alto, do seu próprio Sopro. Ficamos nova criatura. Constituídos na liberdade. E na Graça. E constituímo-nos em felizes militantes do Reino, como ele. Apareçam. Espero-vos.

5. Irmão Roger, de Taizé. A morte chegou para ele aos 90 anos. Pelas mãos duma esquizofrénica romena presente na oração que, por estes dias últimos, decorria no espaço habitual, com mais de 2 mil participantes, alguns dos quais portugueses. A mulher aproximou-se do monge em oração, munida duma faca e cortou-lhe mortalmente a garganta, sem que nenhum dos mais de 2 mil orantes presentes se desse conta. O alarme foi dado, minutos depois, quando algumas crianças que brincavam nas proximidades do monge caído no chão, viram o sangue a correr e começaram a chorar e a gritar.

Fico esmagado com o relato dos factos. E perplexo. A que Deus é que os monges da Comunidade Ecuménica de Taizé e os demais crentes cristãos que com eles se reúnem habitualmente se dirigem, para nenhum entre tantos se ter dado conta que uma sua irmã esquizofrénica andava a rondar o irmão Roger com uma faca na mão? Que tipo de oração é esta que acontece várias vezes ao dia em Taizé, e que leva os orantes a permanecer de olhos fechados e alheios ao que se passa à sua volta? Ainda é o Deus vivo que se nos revelou definitivamente em Jesus de Nazaré, como o Deus do Reino, o Deus comprometido com este mundo, com as grandes causas deste mundo e da Humanidade? Mas o Deus de Jesus e do Reino fecha-nos os olhos, ou abre-nos os olhos? Faz-nos evadir deste mundo e da História, ou mete-nos neste mundo e na História? É certo que houve sangue nesta oração e uma vida perdeu-se durante ela. Mas pode dizer-se que foi por causa de Deus e do seu Reino, ou por causa de um deus com tudo de ídolo, por isso, sem Reino e sem Mundo?

Fiquei abismado com a morte do Irmão Roger. Todo eu estremeci por dentro, quando li a notícia, ao abrir a internet. Mas mais ainda, quando tomei conhecimento dos pormenores que a envolveram. Como é possível estar em oração e não ter seguido os movimentos e os passos duma irmã esquizofrénica que também lá se encontrava, para a ajudar a defender-se da sua esquizofrenia, de modo que esta não conseguisse levá-la a consumar o assassinato? Uma oração que nos isola das irmãs, dos irmãos, sobretudo, dos mais carentes de afecto e de auto-controlo, ainda é oração como a de Jesus? Ainda é o Espírito, o Sopro de Deus vivo a manifestar-se em nós? Não é sobretudo alienação, e da mais refinada? Não é uma oração conduzida por um outro sopro, que não o de Jesus?

Temo estar a ser muito injusto. Mas nem por isso posso deixar de partilhar aqui estas perguntas. Não quero julgar e muito menos condenar ninguém. Mas não posso deixar de partilhar todo este tipo de questões que o doloroso acontecimento fez despertar em mim. Creio que isto também é orar no Espírito de Jesus e com o Espírito. Contemplativas, contemplativos de olhos bem abertos é o que o Espírito de Deus vivo, o do Reino, procura. Jesus de Nazaré é o paradigma de contemplativos assim. Mesmo no Jardim das Oliveiras, enquanto os três seleccionados por ele entre os Doze para orarem com ele dormiam, ele orava, mas de olhos bem abertos. E por isso pôde aperceber-se que quem o ia entregar já se aproximava, na companhia de quem o ia prender. Tanto assim que foi logo ter com os três que dormiam e disse-lhes, determinado: “levantai-vos, vamos, que já se aproxima quem me vai entregar!" Orar de olhos bem abertos e para nos tornarmos pessoas de olhos ainda mais abertos, eis o que é decisivo para mudarmos de raiz esta Ordem mundial de trevas e de alienação que estupidamente nos oprime e mata.

Vem, Senhor Jesus! Maranathá!


2005 JULHO 15

1. Esta semana, voltei a Lisboa, aos Estúdios da RTP, no Lumiar. Fui gravar uma entrevista de cerca de 30 minutos, a convite do Bispo António Raposo, da Igreja Vétero-Católica, sedeada em Mafra. A entrevista insere-se num dos tempos de antena que as diversas Igrejas cristãs em Portugal dispõem, aos domingos de manhã, no Canal 2, da RTP. De longe a longe, também a Igreja Vétero-Católica, numericamente pequena, em comparação com a Igreja católica romana em Portugal, dispõe de cerca de 30 minutos seguidos de programação, num dos 52 domingos do ano. Ao ser informado que estava iminente mais um desses tempos de antena, o Bispo António Raposo, meu amigo de há muitos anos, fez questão que todo ele fosse preenchido com uma entrevista comigo. Aceitei o seu convite, evidentemente. Com muita alegria e não menos entusiasmo. Para mais, a entrevista seria, segundo ele me garantiu, para me pôr a falar/testemunhar sobre Jesus, o único Senhor que liberta quem aceita caminhar com ele na intimidade e fazer seu o seu projecto do Reino/Reinado de Deus; o único Mestre que, historicamente, levou até ao extremo a coerência entre a Prática e a Doutrina; o único teólogo que, com a sua prática fecundamente libertadora dos oprimidos e dos empobrecidos, nos revelou o Deus vivo como plenitude dos seres humanos, em oposição às múltiplas deusas, aos múltiplos deuses/ídolos das religiões que sistematicamente alienam e oprimem os seres humanos que entram por essa via cíclica e sem qualquer saída.

Como a gravação seria feita pelas 10 horas da manhã, tive que viajar para Lisboa, de véspera, ao final da tarde. Fui na carrinha até à estação de Caíde. Deixei-a aí estacionada até ao dia seguinte e segui de comboio até Porto/Campanhã, onde tirei o bilhete para Lisboa. Em Lisboa, esperava-me o próprio Bispo António que me conduziu no seu carro até à sede da Igreja, em Mafra, onde pernoitei num quarto sem o mais pequeno sinal de ostentação, situado numa divisão mesmo ao lado de um Lar de idosas que, surpreendentemente, ocupa grande parte daquele espaço eclesiástico e cujas utentes, algumas sem quaisquer recursos materiais e sem quaisquer familiares que cuidem delas, acabam por ser a principal companhia diária do Bispo da Igreja Vétero-Católica que também lá mora.

A entrevista, já gravada, irá para o ar no domingo 24 deste mês de Julho, às 9 horas da manhã. Se todas as pessoas que nesse dia e nessa hora sintonizarem o Canal 2 da RTP gostarem tanto do que eu lá digo, como o pessoal da televisão que esteve envolvido no trabalho da gravação gostou, então será uma surpreendente festa de libertação em muitas vidas e em muitas casas de família.

Infelizmente, as Igrejas, todas elas, mas muito mais a Igreja católica romana onde me integro, não têm sido capazes de anunciar Jesus, o de Nazaré, à Humanidade, tal e qual como as suas conterrâneas, os seus conterrâneos o conheceram na Galileia. Na sua pressa de fazerem dele Deus (mas que jeitão essa proclamação dogmática deu ao Império romano e ao seu todo-poderoso imperador de turno!), logo se esqueceram que o que é verdadeiramente original em Jesus de Nazaré é a sua plena humanidade. E que, se quisermos falar também de Deus em Jesus, nunca o poderemos fazer à custa da sua plena humanidade. Na verdade, se Jesus não é homem, se não é o ser humano integral e definitivo, então nem que fosse proclamado Deus, deixaria de imediato de ter qualquer interesse para os seres humanos. O Deus que ele fosse não passaria de um ídolo mais, a juntar a tantos outros que, na nossa insuficiência e na nossa insegurança, temos imaginado e criado, através dos séculos, tantos deuses e deusas quantas as necessidades com que esbarramos e que nos afligem continuamente.

Ao olhar para trás no tempo, concretamente, para estes dois milénios de Cristianismo, não podemos deixar de reconhecer que nem mesmo as Igrejas cristãs resistiram como deveriam à tentação da idolatria, sem dúvida a tentação-mãe de todas as outras tentações que nos querem desviar da rota que fará de nós seres humanos. Por isso, as Igrejas não descansaram, enquanto não fizeram de Jesus, Deus, sempre em detrimento do homem que ele é, o paradigma do ser humano. Ora, o que de mais sublime se pode dizer de Jesus é que ele é homem, o homem! Pois só nessa medida é que se pode também dizer que ele é Deus. Afirmar que Jesus é Deus, sem mais, não liberta nem salva ninguém, isto é, não humaniza ninguém. Ao contrário, afirmar que Jesus é homem, o homem por antonomásia, já nos liberta e salva a todas, todos.

A Deus nunca ninguém o viu. Nem verá. O que sempre vemos é o homem, o ser humano. Negar o ser humano que é Jesus, para melhor se poder afirmar que ele é Deus, é ser mentiroso. Como se pode afirmar, sem mentir, que Jesus é Deus e não afirmar o ser humano que ele é, se a Deus nunca ninguém o viu? Como podemos dizer que Jesus é Deus, se nunca ninguém viu a Deus, nem verá? Como podemos então saber que ele é Deus? O que vemos em Jesus, inequivocamente, é o ser humano. E só a partir daí é que podemos também dizer que um ser humano assim como Jesus de Nazaré, só pode mesmo ser Deus entre nós e connosco.

O que não for assim é idolatria. E toda a idolatria é Mentira, por isso, fonte de opressão e de alienação humanas. É geradora de escravos. E escravos é o que temos sido, os seres humanos, desde o princípio, desde que passamos a vida a inventar religiões para apaziguar as deusas e os deuses que imaginamos e inventamos no meio dos nossos medos e das nossas debilidades.

Mas foi para a liberdade que Jesus, o de Nazaré, nos libertou. Antes de mais, libertou-nos do medo das deusas e dos deuses. E da religião, de todo o tipo de religião. E, consequentemente, libertou-nos também de todos os outros medos que o medo das deusas e dos deuses sempre gera. Com ele por companheiro e irmão, ficamos progressivamente seres humanos livres, adultos, autónomos, responsáveis, sororais/fraternos, solidários. À imagem e semelhança de Deus vivo que nos criou com o seu Sopro ou Espírito. Para sermos outros Jesus, nos nossos aqui e agora.

Na entrevista é de Jesus, o de Nazaré, que falo/testemunho. A partir do meu mais recente livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo”. A entrevista é a primeira duma série de outras que com todo o gosto estou disposto a dar seja onde for, se para tanto for convidado. Nunca as Igrejas nos falaram de Jesus tal qual ele é. Sempre nos deram gato por lebre. Sempre nos impingiram o Jesus que mais convém às suas hierarquias e que contribui para elas perpetuarem inomináveis privilégios corporativos que atentam contra a sororidade/fraternidade universal que Deus vivo quer ver praticada em todo o universo. Por isso, as populações do mundo continuam aí como ovelhas sem pastor, cansadas e abatidas, à deriva, a correr para santuários e outros templos, numa alienação de partir a alma. E com as Igrejas a abençoar, em lugar de denunciarem esse desvio e anunciarem a Boa Notícia ou o Evangelho de Deus.

Vejam a entrevista. Gravem-na. Divulguem-na entre as pessoas vossas amigas. Debatam-na. E deixem-se entusiasmar por Jesus. Ao mesmo tempo, continuem a mergulhar nas páginas do livro “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo”. Aprofundem tudo com alegria e simplicidade. Garanto-lhes: Jesus, o de Nazaré, nunca nos aliena. É o único que nunca nos aliena. Desaliena-nos. É o único antídoto verdadeiramente eficaz contra a alienação. E contra a idolatria. Escutem-no. Façam-se suas discípulas, seus discípulos. E chegarão à plenitude da liberdade e da autonomia humana. Nem sequer têm que ir a correr matricular-se em nenhuma Igreja, das muitas que estão no mercado religioso. Muito menos, têm que passar a pagar dízimos. Quando muito, passaremos a ter a alegria de começar a Partilhar a nossa mesa com outras pessoas que, como nós, também querem desaguar na plenitude da Liberdade e da Autonomia. Pois sempre que o fizermos, teremos Jesus, o seu Sopro, ou Espírito, garantidamente connosco. E daqui lhes digo: sempre que quiserem que eu me vá juntar a vocês, para testemunhar Jesus ao vivo, é com a maior alegria que o farei.

 

2. Tiago Nuno é um dos novos presbíteros da Igreja católica que está no Porto. Nasceu em Lourosa, Santa Maria da Feira. Tal como eu. A ordenação presbiteral foi no passado dia 10 de Julho 2005, na Sé Catedral do Porto. A Missa Nova será este domingo, 17 de Julho, na igreja paroquial de Lourosa. Fui convidado a participar e a partilhar do almoço de festa, mas não poderei ir. Com pena minha. Já lhe escrevi nesse sentido. Se pudesse estar, pediria a palavra, pelo menos, no final do almoço. Haveria de recordar a minha ordenação presbiteral em 5 de Agosto de 1962 e a Missa Nova, oito dias depois, em Lourosa. Na carta que lhe escrevi, aproveito para lhe lançar um apelo e dar-lhe uma garantia. O apelo é este: Nunca sejas um vendilhão do templo! A garantia é esta: A partir de agora, sempre terás um lugar à minha mesa!

Reconheço que hoje é difícil ser-se padre e não ser vendilhão do templo. Para mais agora, que há cada vez menos padres para tantas paróquias instituídas. Eu vejo pelo que se passa aqui no concelho de Felgueiras, onde resido. Alguns párocos, ainda jovens, vêem-se a braços com três ou mais paróquias. Recebem “obrada” em todas, como se só tivessem uma. E estipêndios de missas e dos serviços paroquiais prestados, nomeadamente, baptizados, casamentos, funerais. Pode dizer-se que o trabalho é a triplicar ou a quadruplicar, mas os lucros também são a triplicar e a quadruplicar. Ao passo que a boca que come e bebe é apenas uma. E o corpo com necessidades concretas para satisfazer com dignidade é apenas um. O que fazem os padres novos a tanto dinheiro que as populações, cegas e fanatizadas pela religião, assustadas por deusas e deuses cruéis que eles ainda por cima ajudam a alimentar, lhes dão sem regatear? Tornam-se facilmente vendilhões do templo! Quando menos contarem, estão a tornar-se funcionários eclesiásticos cruéis como as deusas e os deuses que servem nos templos. Só vêem dinheiro e mais dinheiro. Privilégios e mais privilégios. Deixam-se corromper. Vivem à tripa forra. Mudam de carro de marca todos os anos, ou quase. Fazem-se motards como tantos outros. Fazem férias de rico. E nas paróquias onde são reis e senhores absolutos são cada vez mais meros funcionários eclesiásticos, sem entranhas de misericórdia. E sem Fé. Numa palavra, uns vendilhões do templo.

Ao meu conterrâneo Tiago Nuno, acabo de pedir que não vá por aí. Já que aceitou ser ordenado, neste tempo de Inverno eclesial na Igreja católica, em que as mulheres baptizadas continuam impedidas de ser ordenadas como ele acaba de o ser (nenhum baptizado católico deveria aceitar ser ordenado presbítero ou bispo na Igreja, enquanto a Cúria Romana e o seu Papa chefe de Estado do Vaticano, não puserem fim a este escândalo, a esta vergonha que é a discriminação das mulheres dos ministérios ordenados na Igreja católica), pois então que seja para se bater no interior da instituição para anunciar o Evangelho ou a Boa Notícia de Deus vivo, oportuna e inoportunamente. Mesmo que, por via disso, venha a conhecer uma situação idêntica à que eu hoje conheço, de ficar posto à margem, ser presbítero sem templo nem altar. Uma situação que não é evangelicamente anormal, só o é eclesiasticamente. Porque o normal, segundo o Evangelho de Jesus, é ser-se presbítero sem templo nem altar, tal e qual como Jesus de Nazaré, que nem sacerdote foi, nem quis que ninguém entre as suas discípulas, os seus discípulos, alguma vez o fosse.

Vais ter coragem martirial, querido Tiago Nuno, para seres um presbítero da Igreja assim? Na minha pobreza e pequenez, dei-te o exemplo, até hoje, para que assim como eu fiz, também tudo o faças. E, se possível, vás ainda mais longe em radicalidade jesuânica do que eu fui até hoje. Nesse caso, leva-me também contigo, meu irmão!

 

3. A paranóia securitária dos grandes dos países da União Europeia e das suas polícias, depois das acções políticas violentas em Londres, não pode ser maior. Para eles, todas as cidadãs, todos os cidadãos somos, a partir de agora, “terroristas”, pelo menos, potenciais “terroristas”. Por exemplo, até este Diário Aberto que estou agora a escrever, para poder ser lido na Internet, deverá ficar arquivado por um ano, dois anos ou mesmo três anos, não vá conter nas suas entrelinhas qualquer mensagem codificada que leve a novos “atentados”. É o cúmulo da vergonha. E da mentira. Como se a violência política alguma vez pudesse ser neutralizada com recursos deste tipo. E que dizer da polícia londrina que passou dias e noites a visionar cassetes de vídeo-vigilância, à procura de “terroristas”? E que dizer do troféu humano que ontem fez exibir em todo o mundo, o rosto de um dos jovens que causou uma das explosões assassinas? Mas o jovem em causa foi também uma das muitas vítimas mortais. Quer dizer: tantas câmaras de vídeo-vigilância a controlar todos os nossos passos e, na prática, só servem para “apanhar” os “terroristas” depois de mortos? Que paranóia, senhores!...

Ó dirigentes das nações, abri os olhos! Quereis acabar com este tipo de acções políticas violentas? Mudai as vossas políticas. E as vossas economias. A luta política ganha-se com políticas feitas de Verdade e de Justiça. Atrevei-vos a fazer economias e políticas que garantam aos povos todos do planeta – e não apenas aos europeus – uma vida digna e em paz, sem impérios que nos oprimam, sem templos que nos alienem e sem grandes media que nos mintam e manipulem, e vereis como a Europa e o resto do mundo passarão a ser espaços seguros para os respectivos povos. Os crimes de delito comum, inevitáveis, pelo menos por enquanto, serão facilmente controlados e reduzidos, já que as próprias populações cooperarão nesse sentido. Mas não confundam os campos: Tudo o que é problema político só uma Política feita de verdade e de justiça poderá solucionar. Vão por aqui e chegaremos à paz.


2005 JULHO 11 

1. Celeste, professora já reformada de Paços de Ferreira, veio ontem ao encontro da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Nem o intenso calor que se fazia sentir a demoveu. Havia-me dito pelo telefone que desejava participar pela primeira vez no nosso encontro, para ver se algumas das suas dúvidas seriam iluminadas e ultrapassadas. E cumpriu a palavra dada. A sua presença acabou por ser o motor de todo o encontro. Não lhe foi fácil abrir-se ao Novo. Trazia com ela o seu mundo, a sua visão das coisas, a sua linguagem, a sua personalidade, os seus esquemas mentais e comportamentais. Como qualquer outra pessoa deste tempo. A Palavra, feita Evangelho ou Boa Notícia de Deus, habitualmente escutada na Comunidade, começou, por isso, por bater nos ouvidos da sua consciência como aquela água que bate numa parede de cimento. Molha por fora, mas não penetra o interior. E não fecunda. A Palavra escutada na Comunidade é a Palavra de Deus Vivo feita Jesus de Nazaré, segundo a versão, nesta altura da caminhada, do Evangelho de Marcos que eu publiquei sob a forma de livro em Abril último, e que Celeste, pelos vistos, já adquiriu e começou a ler, mas ainda sem a profundidade e o despojamento necessários, para que a sua leitura resulte em cheio.

Sucedeu o mesmo no início do encontro. Quando, depois, também lhe foi dada a palavra, o que Celeste disse foi como se ainda não tivesse escutado nada. Continuava a ser simplesmente a mulher de Paços de Ferreira, que era antes de ter sido acolhida pela Comunidade. O que significa que ouviu a proclamação da Palavra, mas não a escutou. Somos todas, todos, assim. Ouvimos. Mas não escutamos. Não assimilamos. Não nos deixamos penetrar pela Palavra. Não damos oportunidade à Palavra de se fazer carne em nós. Acabamos então por ser pessoas com muita informação, muitos conhecimentos, muita erudição, mas não há maneira de sermos outros Jesus, no nosso aqui e agora. Sabemos umas coisas acerca de Jesus, mas não somos Jesus. Ora, não é o saber que nos salva, que nos humaniza, que nos faz à imagem e semelhança de Deus. É só pelo Ser que vamos, não pelo Saber. O Saber também é importante, mas na exacta medida em que se torna Ser em nós.

Dei-me conta deste desfasamento, enquanto escutava o que Celeste dizia, e procurei, com ternura, fazer uma nova proclamação da mesma Palavra. Ainda com mais simplicidade que da primeira vez. Como quem se dirige a meninas, meninos. Reabri o Evangelho e voltei a ler, quase palavra por palavra. Aqui na Comunidade, ainda não passamos do capítulo 1, de “O outro Evangelho segundo Jesus Cristo”, nomeadamente daquele momento em que Jesus, depois de se fazer baptizar por João no Jordão, começou a sair da água.

Está tudo aí, nesse instante. Ou nos apercebemos disso e tudo pude mudar nas nossas vidas, ou passamos por cima desse momento e do que ocorreu no mais íntimo da consciência de Jesus e ficaremos como antes, apenas com mais alguma informação sobre Jesus. Quando o que interessa é que sejamos outros Jesus, hoje e aqui.

Diz o relato que, ao sair da água, Jesus viu na sua consciência Deus comunicar-se-lhe directamente, sem qualquer espécie de intermediário, ao mesmo tempo que uma Voz lhe dizia: Tu és o meu Filho muito amado, em ti pus todas as minhas expectativas.

Quer isto dizer que o baptismo que João acabara de ministrar a Jesus e o próprio João, de quem Jesus acabara de se fazer discípulo, não passavam de mais do mesmo, por isso, eram como esterco, obstáculo a Nascer do Sopro de Deus Vivo, mais do que impulso. Na verdade, ou nascemos directa e gratuitamente do Sopro de Deus Vivo, sem a intervenção de ninguém, nem de nenhuma instituição, ou continuamos a ser mais do mesmo, não a Nova Criação, o Novo Começo que a Humanidade precisa que sejamos. Na verdade, não é de quantidade de seres humanos que a Humanidade carece, mas de seres humanos novos, de novas criações em acção, de mulheres e de homens fecundados e gerados, como Jesus, pelo Sopro de Deus Vivo. Só este baptismo do Sopro, ou Espírito de Deus Vivo conta. Tudo o mais, todos os outros baptismos fazem mais do mesmo, e, se forem instituições grandes e poderosas a administrá-los, ainda acabam a fazer escravos domesticados, em lugar de seres humanos rebeldes, livres e libertadores.

Ao baptizar Jesus, João tinha conseguido mais um adepto, um discípulo. A sua estatística de discípulos havia melhorado. E, se os discípulos pagassem o dízimo ao mestre, ele tinha aumentado o seu peso financeiro, como agora acontece com as Igrejas e os respectivos pastores. Por cada novo membro, mais dinheiro no final do mês e do ano. Juntamente com uma estatística mais “gorda”, que dá mais prestígio e mais peso à respectiva Igreja.

Não é esta a lógica de Deus Vivo. Faz filhas suas, filhos seus, quanto mais adultos e autónomos melhor, mas para que vivam no mundo e na História segundo a sua consciência, ininterruptamente fecundada pelo seu Sopro libertador. Por isso Jesus de Nazaré foi único, é único, não se limita a ser mais do mesmo. Mas também por isso passou a sua vida histórica, a partir desse momento, como num deserto, progressivamente odiado por quem apenas queria que ele fosse mais do mesmo e que ajudasse a gerar discípulos que fossem mais do mesmo. É por isso também que Jesus ainda hoje tem muito poucos seguidores, mulheres e homens. Tem, certamente, muitos admiradores, mas muito poucos seguidores.

Com esta segunda proclamação da Palavra no encontro da Comunidade, Celeste ficou perturbada. E desarmada. De repente, viu-se no chão, caída do cavalo. Como Saulo, outrora. Nesse momento, o Encontro foi para ela a sua Estrada de Damasco. Dos seus olhos da consciência caíram escamas. O véu que sempre se interpôs entre ela e a realidade que a cerca e envolve, rasgou-se sem ela saber como. Ficou cega, isto é, sem a orientação do Mundo em que vive mergulhada. E, com o desenrolar do diálogo comunitário, ela pôde começar a ver. Deu-se conta pela primeira vez na vida que havia nascido cega, tal como o homem da parábola teológica do Evangelho de João (cap. 9). E que agora via! Que havia nascido paralítica, tal como o homem da parábola teológica da piscina com cinco pórticos, do mesmo Evangelho (cap. 5). E que agora andava! Era outra mulher. Livre. Solta. Ela própria. E por isso sem mais aquelas, começou espontaneamente a confessar à Comunidade o seu passado. Com alegria. Com confiança. Como quem sente que a sua língua se soltou para sempre. O rosto dela agora brilha. O seu olhar parece o duma menina. E foi assim que ela esteve connosco até final do encontro, mulher outra, nascida de novo, do Alto, do Sopro de Deus Vivo. Quando, finalmente, Maria Laura, no decorrer do lanche Partilhado, Tomou o Pão de centeio nas suas mãos de presbítera não-ordenada, que a própria Celeste havia trazido para a Mesa Comum, Partiu-o com simplicidade em Memória de Jesus Crucificado/Ressuscitado e no-lo deu a comer, ela estava de olhos arregalados e foi a primeira a comer do Pão Partido. Tornou-se assim irmã universal, a começar de cada uma, de cada um de nós, que com toda a simplicidade e pobreza de meios partilhámos com ela esta experiência íntima, da qual eu agora faço questão de testemunhar aqui como Evangelho da Comunidade.

Por isso, quando depois a vimos partir em direcção a Paços de Ferreira, de onde tinha vindo, ficamos com a certeza de que Celeste nunca mais será a mesma. Pode nunca regressar a esta pequenina Comunidade Cristã de base em que nasceu de novo, mas viverá, lá onde estiver, como mulher fecundada pelo Sopro de Deus Vivo. Será, por isso, ao seu jeito e progressivamente, outro Jesus de Nazaré, em feminino, no seu aqui e agora. E a Humanidade só terá a beneficiar desta Nova Criação para a Liberdade que acaba de suceder num dos seus membros. Com a nossa Comunidade como testemunha qualificada, nunca como intermediária.

 

2. Foi uma tarde e início de noite de intenso convívio, de Comida Partilhada, à mistura com um escaldante Momento Cultural, que deixou algumas das pessoas presentes, avessas a toda a mudança estrutural, vivamente incomodadas. Aconteceu no sábado passado, dia 9 de Julho, em Duas Igrejas, concelho de Penafiel, mais propriamente na casa do casal Armando/Alice e das suas duas filhas já universitárias. O mensário O ARRIFANA completou mais um ano de existência e o seu director não dispensa a festa, mesmo que esta lhe invada a casa por inteiro. Convida muitas pessoas, entre aquelas que colaboram na feitura da publicação e as que o acolhem e lêem. Destas, nem todas as que aceitam o convite se revêem por inteiro no que vem escrito nas páginas de cada número do jornal e foram algumas destas pessoas que não sintonizaram com festa no decorrer do convívio.

No que respeita à Comida, ainda vá que não vá. Mas quanto ao facto dela ser Partilhada, a estas pessoas já lhes custa suportar, uma vez que, enquanto dura o acto da Comida Partilhada, as pessoas que o protagonizam são todas iguais, pois cada uma come segundo as suas necessidades e não segundo o seu poder de compra. E é esta utopia da Igualdade das pessoas e dos povos, feita realidade sacramental durante umas escassas horas, que aflige e incomoda estas pessoas que não suportam um presente que anuncie, sacramentalmente que seja, semelhante futuro, absolutamente impensável nos seus privilégios corporativos..

Mas quando o Convívio se abriu a um saudável e fecundo Momento Cultural – foi a primeira vez, nos vários anos que já leva a iniciativa, que se conseguiu esta proeza – o incómodo por parte dalgumas das pessoas presentes foi ao rubro. Não se manifestaram ruidosamente, certamente, por comodismo e por fingida cortesia. Bastou-lhes não se manifestarem simplesmente. Aguentaram com incomodidade até que aquele Sopro libertador passasse e que a Normalidade voltasse a impor a sua lei, na rotina dos dias. Na cegueira dos seus privilégios, estas pessoas nem sequer se apercebem que nada é como dantes, depois do Sopro libertador passar entre nós. Se nem as gigantescas Torres de Babel se aguentam por muito mais tempo de pé, quanto mais pequenos conjuntos de pessoas?! As próprias pessoas incomodadas acabam por sair diferentes do que entraram de momentos como os desta festa de O ARRIFANA. Mais revoltadas do que libertas, certamente, mas também muito menos seguras nos seus privilégios. O que é altamente positivo.

Também estive presente, como aliás acontece desde o primeiro ano de vida de O ARRIFANA. Aliás, até estive nos momentos da sua gestação e da sua vinda à luz. De forma totalmente gratuita e solidária. Com muito afecto e com toda a liberdade do meu ser/viver. Como é timbre entre seres humanos que não têm privilégios a defender, nem a conservar, apenas vidas a viver em moldes progressivamente humanos, que são os da Sororidade/fraternidade, da Solidariedade, da Verdade e da Liberdade.

Desta vez, não fui sozinho. Comigo, na carrinha, foram Maria Laura, Luís Martins, Zeza e Álvaro. Assim se cumpriu a vontade do Armando, cuja alegria é ver a sua casa cheia de companheiras, companheiros, a dar corpo nos seus corpos à Utopia. O sacramento que anuncia como Realidade no futuro o que hoje é apenas Utopia foi o que nós saboreámos neste dia. Falta passar do Sacramento à Realidade anunciada pelo Sacramento. Não é só uma questão de calendário que está em jogo. Também é, evidentemente, uma vez que nestas coisas, o Tempo é essencial. Mas para que o Futuro anunciado pelo Sacramento chegue, é preciso que quantas, quantos saboreámos a Realidade em sacramento, sejamos depois, dia após dia, militantes incondicionais desta Causa, ao jeito de Jesus de Nazaré.

Aqui reside o drama. É que para Comer e Beber, para Cantar e Dançar sacramentalmente a Utopia, ainda há quem o faça (hoje, até esta postura tem menos seguidoras, seguidores), mas dispor-se a fazer do Comer e do Beber, do Cantar e do Dançar alimento para nos tornarmos militantes, um dia depois do outro, são muito menos as pessoas que aceitam dizer Presente. O preço a pagar sempre foi muito alto e hoje não o é menos. Também não será mais alto do que no passado, simplesmente, o ambiente de comodidade e de “direitos adquiridos” que é hoje o nosso e que não estamos dispostos a perder, torna-nos menos disponíveis para figurarmos nas primeiras filas da luta.

Estive na Festa de corpo inteiro, tal como estou na vida. Toda a vida é festa para mim precisamente, porque também a Luta é encarada e experimentada por mim como uma Festa. Na altura do Momento Cultural, protagonizei com toda a simplicidade a Causa dos empobrecidos e oprimidos do mundo, que são também os humilhados e ofendidos do nosso tempo. Nunca os esqueço. Sem a Memória deles, a Festa seria alienação, coisa obscena, insulto, inumanidade. Com eles presentes, em Memória que seja, sempre subversiva, a festa transforma-se em Desafio, Interpelação, Apelo, Militância.

Foi por isso que algumas pessoas presentes se incomodaram. Queriam overdoses de alienação, mais do mesmo, anestesia q.b. Não lhes fiz a vontade, ainda e sempre por amor das pessoas. Não me terão entendido? Nem por isso deverei deixar de prosseguir nesta via. O amor às pessoas a isso me obriga. Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. Nem que os doentes muitas vezes maldigam o médico que se ocupa deles e os quer ajudar a curar, este prosseguirá a sua missão. Quem anda por amor nunca ficará a meio do caminho. A quem lhe bater numa das faces, logo se apressa a apresentar a outra, isto é, jamais desiste de amar, por mais incompreendido que seja na sua missão concreta.

Também nas páginas de O ARRIFANA, a minha intervenção desagrada a certas pessoas. Fazem tudo, sobre a pessoa do director Armando, para que a minha colaboração seja simplesmente dispensada e banida. Em vão. Porque Armando, felizmente, é daqueles companheiros de antes quebrar que torcer, embora, quando é necessário, não deixe de ser também como o vime torcido que segura a videira. São seres humanos assim, firmes como o aço e ternos como as pombas, que fazem a Sociedade avançar para o Futuro, nem que seja à custa de muitas arrelias, muito suor e algumas lágrimas. Parabéns, ARRIFANA! Parabéns, Armando. Parabéns, Alice, a grande mulher que nem a sombra onde habitualmente se refugia consegue esconder! Parabéns, filhas de ambos!

 

3. No dia anterior a esta Festa, 8 de Julho 2005, fui almoçar a casa do meu Amigo de Amarante. A esposa acaba de passar por uma intervenção cirúrgica com algum melindre e ele entendeu que este era o momento mais oportuno para entrar pela primeira vez na sua casa e conhecer toda a família mais próxima. Deu-me liberdade para levar comigo quem eu quisesse, embora chegasse a sugerir dois nomes, concretamente, Pedro, o menino das Passarias sobre quem falei num destes dias atrás neste meu Diário Aberto, e Irene, a menina com deficiência que integra o Grupo do ministério dos Doentes, da Comunidade. Falei com os familiares de Pedro e com o próprio Pedro e tanto ele como eles acharam bem que me acompanhasse nesta visita e neste almoço. Igualmente, as pessoas que integram o Ministério de doentes – Maria Laura, Deolindinha, Isaurinha e Irene – aceitaram ir comigo. E lá fomos, na expectativa do que poderíamos encontrar.

O acolhimento que nos deram foi exemplar em simplicidade e em intimidade. Toda a família estava congregada para nos receber. Como se fôssemos o próprio Deus feito pobre, feito povo. A casa do meu Amigo tem tudo o que é preciso para as pessoas se sentirem lá bem. Ao abri-la agora a este punhado de pobres de Deus e servidores dos doentes que Ele ama, tornou-a num espaço ainda mais humano e mais universal. Apetecia por isso dizer, no final, como Jesus terá dito em casa de Zaqueu: “Hoje, entrou a salvação nesta casa, porque estes também são filhas, filhos de Abarão”.

De  todos os familiares presentes, toda a minha/nossa atenção se concentrou em Pedro, irmão da mulher/companheira do meu Amigo. É um homem, sensivelmente da idade do meu Amigo, mas a deficiência cerebral que o acompanha desde que nasceu, faz dele um permanente menino, como tal a Inocência e a Justiça no meio de nós e connosco. Podemos, pois, dizer, ao olhar para ele, que Deus se fez Pedro e vive no meio de nós e connosco. Pessoalmente, não ia a contar topar de frente com este Mistério. O meu Amigo propositadamente escondeu-mo até ao momento em que entrei na sua casa. Terá querido surpreender-me com ele. A força do Mistério atingiu-me em cheio e, durante todo o tempo que lá estive, pouco falei, tão mergulhado me vi no Silêncio e na Contemplação. Deus estava ali ao alcance do meu olhar, da minha mão e eu não sabia. Fui pelo meu Amigo e acabei por encontrar Deus feito Pedro, este homem-menino, cujo olhar, sorriso, gargalhadas, gestos simples, sons em vez de palavras, corpo bonacheirão, inocentes traquinices, e toda a Bondade do mundo nunca mais conseguirei esquecer.

Hei-de voltar muito mais vezes à casa do meu Amigo. Por ele. Pela sua companheira/esposa. Pelos dois filhos de ambos. Mas também pela sua família alargada, a mãe de Pedro, a irmã de Pedro, que é educadora de infância e o seu marido, a quem, desta vez, apenas vi à chegada e que já estava de saída para o trabalho, e ainda a filhinha e o filhinho dos dois. Fiquei com saudades de todas, de todos. Mas Pedro é quem mais me convoca, me chama, me humaniza.

Querido Pedro, meu irmão: Bendito sejas por teres nascido. Por existires. Por me convocares. Por me acolheres. Por me amares. Bem hajas, pelo teu sorriso de menino num corpo de homem maduro, sensivelmente da mesma idade do corpo do meu Amigo de Amarante e teu cunhado. Era amigo dele. Mas agora, graças a ti, meu menino Pedro Inocência e Justiça, serei também irmão. Assim como de toda a sua casa, a qual, graças a ti, será progressivamente também a minha casa. O Silêncio que se apoderou de mim durante todo o tempo que permaneci contigo na casa do meu Amigo e teu cunhado torna-se agora aqui e sê-lo-á em próximas ocasiões Palavra Partilhada, Evangelho anunciado, Boa Notícia de Deus que nos humaniza e todas, todos. Tu és essa Palavra feita carne. Contigo no meio de nós, seremos progressivamente os mais humanos dos seres humanos, porque para isso é que a Palavra de Deus um dia se fez carne, se fez Jesus de Nazaré, se fez tu próprio, Pedro, o meu-Senhor-sem-poder que fui encontrar na casa da tua irmã e do seu esposo/companheiro, o meu Amigo de Amarante. Bendito sejas para sempre!

Quando, ao final da tarde, regressei a casa com as companheiras e com Pedro, o menino das Passarias que tinha passado um dos dias mais felizes da sua vida em companhia dos meninos da sua idade, filhos do meu Amigo de Amarante e dos seus sobrinhos, o Silêncio continuava a mandar em mim. E a Paz que vive aos beijos com a Justiça, era a roupa que me aconchegava por dentro e por fora.

Depois desta experiência presbiteral, digam-me lá para que preciso eu de templo e de altar para ser presbítero da Igreja que está no Porto, inteiramente dedicado à missão de Evangelizar os pobres?!


2005 JULHO 07

Depois de Madrid, em 11 de Março 2004, e de Nova Iorque, em 11 de Setembro 2001, Londres foi hoje a terceira cidade do Ocidente a protagonizar a Grande Revelação, ou o Grande Apocalipse de Deus, neste início do século XXI e do Terceiro Milénio do Cristianismo. Porém, os chefes dos países do Ocidente rico e opulento, nomeadamente, dos países do G-8, com Georges W. Bush e Tony Blair à frente, que têm feito do terrorismo de Estado a sua grande arma para matar, roubar, submeter e destruir os povos do resto do mundo e o próprio Mundo, juntamente com as suas economias sem entranhas de humanidade e as suas políticas imperialistas sofisticadamente armadas até aos dentes, em vez de encararem assim as acções políticas violentas que hoje tiveram lugar na capital do Reino Unido, limitam-se a repetir, mais uma vez, o estafado discurso contra o “terrorismo” feito em nome dos pobres, e a garantir pateticamente que a democracia ocidental não só não cederá a este tipo de “ataques”, mas também saberá encontrar maneira de os vencer e acabará por esmagar de vez os seus autores.

Até o Papa Bento XVI, nascido na Alemanha de Hitler, quebrou o seu habitual silêncio no pequeno todo-poderoso Estado do Vaticano, de que é o chefe incontestado e absoluto, para vir a correr juntar a sua à voz dos outros grandes do mundo ocidental e condenar sem hesitar o que ele classificou de “crime bárbaro”. E não faltaram outras vozes graúdas de outros homens eclesiásticos europeus, bem instalados nos seus privilégios patriarcais e materiais, que garantem a pés juntos que a acção política violenta levada hoje a cabo em Londres contra a arrogância sem limites do Ocidente constitui “uma blasfémia contra o nome de Deus e um insulto ao homem”.

Também os grandes media do mundo, incluídos os de Portugal, todos eles propriedade das poderosíssimas multinacionais ocidentais de comunicação, alinharam sem excepção pelo mesmo diapasão, na condenação destas acções de hoje. Praticamente, ninguém foi capaz de parar por um instante, para fazer-se as perguntas mais imediatas e mais óbvias que sempre saltam deste tipo de acções políticas violentas: Porque nos querem tanto mal? Porque nos odeiam tanto? Porque há povos no mundo que se sentem impelidos a conceber e, sobretudo, a realizar acções políticas violentas desta envergadura contra os povos dos países ocidentais? O que é que o Ocidente rico e opulento tem a ver com este tipo de comportamentos? Acções políticas violentas como as de hoje em Londres são “terrorismo” puro e duro, ou, pelo coontrário, engenhosas respostas dos humilhados e ofendidos “David” do mundo ao terrorismo puro e duro que o Ocidente rico e opulento, qual “Golias” do século XXI, está aí continuamente a praticar no mundo contra todos os povos, mas de modo mais obsceno e cruel, contra os povos empobrecidos do Terceiro e do Quarto Mundos? O que é, afinal, bárbaro, ou blasfemo contra o nome de Deus e o que é insulto à Humanidade: são acções políticas violentas, como as de hoje em Londres, com o seu quê de espectacularidade, que, em poucos minutos, produziram dezenas de mortos e centenas de feridos graves, ou as economias e as políticas do Ocidente rico e opulento que, pela calada e como se fosse a coisa mais natural do mundo, produzem milhares de milhões de pobres que morrem antes de tempo, pobreza em massa, excluídos sem conta, para lá de guerras de destruição maciça, sempre que lhes dá na real gana, como acaba de acontecer no Iraque, com a Guerra ainda em curso? O “terrorismo” concebido e consumado hoje em nome dos pobres e dos povos empobrecidos do mundo não terá, ao fim e ao cabo, como causa principal, para não dizer única, a arrogância e a opulência do Ocidente? Não se poderá então dizer que quem está na origem das acções políticas violentas de hoje em Londres é o próprio Tony Blair, juntamente com o seu amigo Bush júnior, sem dúvida, o “Golias” n.º 1 do Ocidente? Não foram um e outro, como um só, quem avançou para o Iraque rapidamente e em força, antes que a Comissão da ONU pudesse concluir que não havia armas de destruição maciça naquela região? Fossem outros os comportamentos dos países do Ocidente, resistíssemos todos, na Europa, às ambições imperialistas dos EUA e seus vassalos (aliados?), e acções políticas como as de hoje em Londres ocorreriam de igual modo? E, se ocorressem, teriam por trás a mão da Al-Qaeda, como tudo indica que também estas acções de hoje têm, ou teriam a mão de Bush e da sua mentirosa e assassina administração norte-americana? Ao aliarmo-nos, como Europa, ao “Golias” do nosso tempo, que é o Império puro e duro de Bush, em vez de às suas incontáveis vítimas em todo o mundo, não ficamos inevitavelmente à mercê da incontida ira destas mesmas vítimas, sobretudo, de certas minorias não-ocidentais, inteligentes e organizadas, que prontamente se levantam e atacam em nome delas? 

O fenómeno nem sequer é novo. O que só prova que nós, países do Ocidente, nem sequer aprendemos nada com a História. E, no entanto, orgulhamo-nos das nossas raízes judeo-cristãs, pelo menos, ao nível do discurso. Pois bem, fossem essas as nossas raízes e outros seriam os nossos comportamentos económicos e políticos. As nossas economias e as nossas políticas seriam de Partilha e de Comunhão de bens, segundo aquele sábio princípio de Deus Criador de filhas e de filhos, por isso de irmãs e de irmãos, sem exclusão de nenhum indivíduo nem de nenhum povo: de cada um segundo as suas possibilidades e a cada um segundo as suas necessidades.

Mas não. As nossas raízes continuam a ser as do Paganismo puro e duro, as mesmas que estiveram na origem do Império Romano, do qual somos sagazes continuadores em permanente actualização, e que, até hoje, têm feito de nós povos conquistadores e exploradores, com a Cruz numa das mãos e a Espada na outra. O nosso Deus continua também a ser o Deus do Templo e do Império, em nome do qual, o próprio Jesus de Nazaré, que o denunciou, enfrentou e desmascarou, foi assassinado e, antes dele, todos os profetas também o foram, duma maneira ou de outra. É um Deus que está na origem duma Teologia sacrificialista que precisa de vítimas para se sentir honrado. Pelos vistos, nem hesita em sacrificar as próprias filhas, os próprios filhos para assim se dar por satisfeito e em paz com todos os demais. Como Ele, somos ainda e, hoje de forma mais organizada do que nos séculos passados, visceralmente cruéis e inumanos. Mas continuamos a ter-nos na conta de que somos santos e puros, civilizados e cultos, verdadeiros exemplos para os restantes povos do Planeta e até de outros mundos, caso se venha a concluir que também os há habitados por seres semelhantes a nós.

Fosse judeo-cristão o nosso Deus, bem na linha reveladora do Êxodo bíblico, por exemplo, com Moisés à frente, e então saberíamos que Ele é um Deus que historicamente se revelou em guerra aberta contra o Deus/os deuses do faraó do Egipto, não porque eles fossem falsos deuses, ou porque tivesse ciúmes deles, mas precisamente porque eles eram deuses cruéis, inumanos, sem entranhas de humanidade. Eram deuses como é hoje o Deus do Império (norte-americano) e do Templo ( católico romano) que faz pobres em massa em todo o mundo e, depois, ainda lhes exige que se comportem como submissos escravos dos seus amos, sem quaisquer espécie de direitos humanos, mentalizados e catequizados para nunca se rebelarem contra os seus amos. Eram deuses que, como o de Bush e Blair, Bento XVI e Hierarquia católica em geral, se compraziam e comprazem com grandiosos cultos litúrgicos em grandiosos templos e não se afligiam nada com a miséria e a opressão em que viviam os escravos que os construíam, bem