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DIÁRIO ABERTO
2008 JANEIRO 31
O Governo do nosso Pinóquio primeiro-ministro está em queda livre. O seu descrédito é já total. Só ele é que não vê. Os seus mais próximos também não, agarrados que estão ao Poder e à perversão da maioria absoluta. Todo o Poder é corrupto. E corruptor. E o Poder absoluto é absolutamente corrupto e absolutamente corruptor. Diante do Poder, ou o decapitamos, ou é ele que nos decapita a nós. Ai de quem o serve. Torna-se seu refém. Seu funcionário. Descria-se de dia para dia. Desumaniza-se de dia para dia. Envelhece precocemente de dia para dia. E - pior que isso - também envilece de dia para dia. Quando hoje esbarramos com o nosso primeiro-ministro ou ele nos atropela, ao aparecer-nos a toda a hora, em todos os telejornais, é sempre o Poder que encontramos, quando era suposto encontrarmos um ser humano. Hoje, o Engenheiro (?) Sócrates - o ponto de interrogação na frase tem a fundamentá-lo uma história bem conhecida de toda a gente e que nunca foi suficientemente esclarecida perante o país, como teria sido necessário, porque mais vale um primeiro-ministro com a escolaridade mínima obrigatória, mas humano, humilde, transparente, discípulo do seu povo, do que um engenheiro Pinóquio chico-esperto e muito agitado a correr para todo o lado, sempre cheio de nada - está já irreversivelmente em declínio. Em boa verdade, nunca saiu daí. Sempre foi uma estrela cadente. Um satélite. Como a lua em relação ao sol. O seu brilho não vem de dentro. É tudo carnavalesco. Máscara. Uma grande encenação. Sente-se logo ao primeiro contacto, mesmo através das simples imagens das televisões, mortíferas quase sempre, quando mostram corpos humanos cheios de nada. Como acontece com ele. Custa ter de o reconhecer, aqui, mas o nosso primeiro-ministro é mesmo uma cassete. Um papagaio. Do socialismo só sabe o que o Grande Capital lhe ensinou. Não o que O Capital, a Bíblia do Socialismo, escrita por Karl Marx nos ensina / revela e que ele nos deixou como luminoso património da Humanidade, numa espécie de actualização para o nosso tempo da Boa Notícia de Jesus, o de Nazaré, e da mensagem profética da Bíblia hebraica, nomeadamente, dos livros do Primeiro, do Segundo e do Terceiro Isaías, de Jeremias, de Oseias, de Elias e, antes deles, de Moisés e de Samuel. (Sabiam que o ateísmo de Marx é sobretudo ilustrada desmontagem e sábia rejeição da Idolatria do Senhor Deus Dinheiro e, como tal, está mais próximo da Fé de Jesus, do que a própria Fé religiosa dos sacerdotes de todos os tempos e lugares?! Pois seria bom que soubéssemos e lhe seguíssemos as pisadas, tanto os que hoje se dizem ateus, como os que nos dizemos católicos, mas depois, uns e outros, à semelhança dos Saduceus do tempo de Jesus, deixamos perceber no nosso dia a dia que gostamos mais do Dinheiro do que do Pobre e do Oprimido, e de Deus Vivo, o de Jesus, o que perfaz um tremendo equívoco e um desastre pessoal e universal de consequências irreparáveis!). O país está hoje à beira duma Insurreição Desarmada, mas fecunda, tamanha é a humilhação a que o Governo de Sócrates o tem sujeitado e às suas populações, sempre em nome de um suposto futuro melhor, que mais não é do que um futuro melhor para o Grande Dinheiro e todos os seus executivos em toda a Europa e no resto do mundo, cada vez em menor número e cada vez mais ricos. O clamor hoje é geral no país, nas ruas e nos mails, nos blogs e nas conversas de café, até nos campos de futebol, que, quando a crise é grande, sobrepõe-se sempre ao ópio da bola e clama ao céu de Lisboa, entenda-se, contra o Governo que nos está a levar para um beco sem saída, na esteira, aliás, do que já fizeram antes dele os Governos de Durão Barroso, o Fugitivo, e da impagável dupla política Santana Lopes / Paulo Portas. Tarde e a más horas, e já em desespero de causa, o nosso Pinóquio primeiro-ministro acaba de atirar pela borda fora dois dos seus ministros, melhor, um ministro e uma ministra. Coloca nesses mesmos lugares uma ministra e um ministro. Tudo cozinhado muito à pressa e por isso mal cozinhado. A posse foi logo marcada e decorreu - vejam a coincidência e a força dos símbolos em Política - no mesmo dia em que teve lugar junto às portas do Parlamento o primeiro grande ensaio da Insurreição Desarmada já em curso. As agendas de toda a gente envolvida neste acto de fachada em que o Poder é perito foram todas alteradas e ninguém dos Privilegiados que têm de estar nestas ocasiões faltou à chamada. Só que a cerimónia teve tudo de velório, como a anunciar que este Governo está manifestamente sem futuro, é um comboio de carruagens completamente desgovernado e que já saltou dos trilhos, embora continue a correr a grande velocidade e por isso a atropelar mortalmente as populações. O nosso Pinóquio primeiro-ministro enganou-se mais uma vez nas decisões que acaba de tomar. Vejam que correu com dois ministros - uma ministra e um ministro - quando o que deveria fazer era demitir-se ele próprio. Porque o problema é ele, mais, muito mais do que qualquer dos ministros que o acompanham e que foram escolhidos por ele. O problema é ele e as políticas que ele está a impor / praticar no país, segundo os interesses do Grande Dinheiro e do Grande Poder, não segundo as legítimas expectativas das populações que, enganadas pelo seu discurso de mentira, nele ingenuamente votaram. Com ele, não há Política. Há simplesmente Poder. E o Poder mata e rouba, empobrece e desemprega, subsidia e marginaliza. Estamos a ser cada vez mais um país de desempregados, de subsidiados, de pobres à força, de paralisados, de subaproveitados, de excluídos. Um deserto no sentido físico do termo. Ou emigra-se, ou morre-se. Espanha, aqui ao lado, na região da Galiza, é já hoje a pátria de mais de 80 mil portugueses, quase todos homens, que andam, com risco das próprias vidas, lá e cá, todas as semanas, para poderem garantir a continuidade da casa que habitam com a família e algum futuro sem vergonhas de maior às filhas, aos filhos, forçosamente em reduzido número, porque mesmo assim não dá para mais. Mas o Eng.º Sócrates não se demitiu. Não foi capaz de reconhecer perante o país que não está, nunca esteve, à altura do Momento e da Responsabilidade que assumiu há mais de dois anos. Na sua vaidade, no seu vazio interior e político, vê-se ao espelho e continua a achar que é o maior. Esquece que o verniz e a máscara com que se apresentou disfarçado aos portugueses, durante a campanha eleitoral, já caíram há muito, logo nos primeiros dias, depois da sua tomada de posse. Houvesse um Tribunal para julgar os políticos profissionais que prometem e não cumprem, e ele teria sido de imediato demitido, quando passou a governar de acordo com um programa que não correspondia ao que havia apresentado durante a campanha eleitoral. Mas o Poder é que faz as leis e está sempre acima delas. Por isso é Poder. Por isso é assassino e mentiroso. E ele não se demitiu. Nem foi demitido. E tão pouco agora se demitiu. Nem foi demitido. Apressou-se a demitir dois da equipa que lidera. E ainda tem o descaramento de dizer, nesta mesma hora, que mudou dois dos seus ministros, mas não vai mudar de políticas. Assim, continuaremos aceleradamente sem futuro. Nem os subsídios que acaba de atribuir aos idosos e às jovens mães o salvam e salvam o país. Fazem ainda parte do carnaval que é o seu jeito de governar. Parece que dá, mas apenas subsidia. E humilha. Direitos são direitos. Não podem ser subsídios. Os subsídios sempre humilham quem os recebe e quem os dá. De resto, senhores do Poder, o problema maior nem é de dinheiro. O problema maior é de Dignidade. E só a Política nos devolve a Dignidade que o Poder todos os dias nos rouba, porque todos os dias nos humilha, mesmo que, por hipótese, nos enchesse de dinheiro. Entramos já no século XXI. E, ou decapitamos o Poder e damos toda a oportunidade à Política, ou desapareceremos como seres humanos. O Poder é de alguns profissionais, progressivamente desumanizados, robotizados, canas agitadas pelo vento do Senhor Deus Dinheiro, sem terem tempo para a família e para os afectos. Sem terem tempo e sem terem sequer capacidade, porque como todos os robots, são estéreis, sem entranhas de humanidade. Ainda têm sexo, mas não têm afectos. Não fazem amor. Muito menos o Amor os faz. Só prostituição. Ao contrário do Poder, a Política é, tem de ser de todas as pessoas. Só com a Política, não com o Poder, haverá sociedade. Só com a Política haverá cidadania e cidadãs, cidadãos. Livres, criadores, responsáveis, protagonistas dos próprios destinos e dos destinos de todos em conjunto. O Poder, como assassino que é, mata toda esta vida. Mata a cidadania. Em lugar de cidadãs, cidadãos, faz assistidos, subsidiados, desocupados, inúteis, deprimidos, desmotivados. Está visto que o Eng.º Sócrates já não é mais o chefe de Governo. É o desgoverno em movimento. E quem o deixar prosseguir assim desgovernado é igual a ele. As populações estão à beira - parece estarem à beira - da Insurreição Desarmada, a mais fecunda de todas. Só posso desejar que não desmobilizemos mais. Mas atenção. Não basta fazermos cair Sócrates e entregarmos depois os destinos do país a outro semelhante ou ainda pior do que ele. É preciso que a Insurreição Desarmada suscite o aparecimento de populações dispostas e determinadas a tomarem os seus destinos nas próprias mãos. Não podemos continuar a confiar a outros o que só a nós diz respeito. Temos de mudar radicalmente, nós também. Sermos mulheres e homens do século XXI. Cidadãs, cidadãos de corpo inteiro. Participativos as vinte e quatro horas de cada dia. Como fazemos já nas nossas casas, assim havemos de passar a fazer no país. Poder nunca mais. Política, sempre. Assistidos e subsidiados, nunca mais. Cidadãs, cidadãos, sempre. Seremos capazes de semelhante PÁSCOA, de semelhante Transformação? Só assim a Insurreição Desarmada já em curso tem sentido e vale a pena. Porque será um Novo Começo, um Novo Nascimento. E um Nascimento do Alto, isto é, que tem por mãe a Política e o Espírito Santo, o de Jesus, que de sua natureza, são criadores de vida e vida em abundância para todas as pessoas e para todos os povos, e nunca querem nada com o Poder, sempre assassino e mentiroso. Vem, Política, vem! Vem, Espírito de Jesus, vem!
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2008 JANEIRO 30
Ainda não consegui perceber porque é que a abertura oficial do ano judicial em Portugal há-de incluir uma missa na sé catedral de Lisboa, presidida pelo respectivo bispo cardeal patriarca. O Poder tem destas coisas e destas prostituições, disfarçadas de sagrado. Porque ele sabe que é intrinsecamente perverso, que existe para oprimir o Pobre, o Órfão e a Viúva - os três tipos de pessoas que, no falar dos profetas bíblicos, melhor caracterizam as vítimas que o Poder produz, explora e continuamente violenta - e por isso precisa de recorrer a estes estratagemas para se disfarçar de legítimo. Mas, com isso, só consegue pôr ainda mais a nu todo o Hediondo que é. Porque o Deus que ele invoca é um ídolo, nem que seja invocado no decurso de um rito presidido por um bispo cardeal patriarca católico, como é aqui o caso. A promiscuidade e a obscenidade são assim completas. Aliás, se não fosse um ídolo o Deus invocado em liturgias católicas como a de ontem na sé patriarcal de Lisboa, só nos restaria o ateísmo como a única postura de saúde mental. Mas é um ídolo e por isso não é para o ateísmo que havemos de ir, mas para o Deserto, para a Trincheira, para o Combate ideológico e sobretudo teológico, assumido martirialmente como um duelo. E é aí que eu procuro viver, todos os dias, pelo menos, desde que me tornei presbítero da igreja do Porto. Saibam que o Deus que as religiões invocam é sempre um ídolo ao serviço dos mais obscuros interesses, os das minorias dos privilégios. Talvez por isso o combate maior e mais imperioso a ser feito durante todos os dias da nossa vida, é o combate ideológico / teológico. Os deuses existem e estão em combate aberto e permanente contra Deus e contra os seres humanos. Trata-se de um combate em que Deus, no decurso da História, sempre sai a perder e os deuses sempre saem a ganhar. Porque só os deuses que são ídolos é que são omnipotentes, omniscientes e omnipresentes. Recorrem a todo o tipo de meios para obterem os seus fins. Não sabem nada de escrúpulos, nem de ética, nem de moral, nem de justiça, nem de humanidade, nem de misericórdia. Apenas de vitórias. De sucessos. Esmagam. Assassinam. Caluniam. Mentem. Corrompem. São a Inteligência demente e demoníaca em acção na História. Até hoje, têm sido eles que dirigem o mundo, que fazem o mundo à sua imagem e semelhança. Quem sonha dominar, vencer, triunfar, enriquecer, esmagar, afirmar-se sobre os demais, eliminar os demais, tornar-se o maior e o mais temido é por eles que vai, é a eles que presta culto, é a eles que se dirige, é com eles que conta. Por isso é que a Idolatria é o Grande Pecado do Mundo. Para não dizer, o único Pecado do Mundo. O único Pecado que nos mata como seres humanos. Hoje, rodeia-nos por todos os lados. Nascemos e crescemos rodeados de Idolatria, a mais perversa de todas, a do Senhor Deus Dinheiro. E, se não entramos por ela, como a generalidade dos demais, somos tomados por parvos, por tolos, por anormais. Ser idólatra hoje é o que está a dar. Ou adoramos os deuses, os ídolos, ou ficamos de fora da roda do sucesso. Na simples condição de seres humanos, pobres e sem poder por opção, por isso, não idólatras por opção. São os deuses que hoje formatam os seres humanos. Nas Famílias. Nas Igrejas. Nas Religiões. Nas Escolas. Nas Empresas. Nos grandes media. Nunca como hoje a Idolatria esteve tão agressiva, tão global e tão poderosamente sedutora. Os deuses estão em toda a parte. Deus morreu, já o disse há anos um dos grandes Mestres da Suspeita. Só não disse e deveria ter dito, porque assim é que a sua afirmação teria sido fecundamente maiêutica, que foram os deuses, os ídolos, que mataram Deus. Disse que fomos nós, os seres humanos, que O matamos. E isso é mentira, a Grande Mentira. Os seres humanos nunca conseguiremos matar Deus, porque a Deus nunca ninguém O viu. Nem verá! O que nós, seres humanos, temos feito - e essa tem sido porventura a nossa mais demente especialidade - é corrermos insensatamente atrás dos deuses, dos ídolos. É adorarmos os deuses, os ídolos. Temos sido quase compulsivamente idólatras. Temos renunciado a sermos seres humanos, simplesmente. Ora, nunca os seres humanos se degradam tanto, como quando seguem os deuses, os ídolos, se tornam idólatras, adoradores dos deuses. Não! Não matamos Deus. Os deuses é que matam Deus, para fazerem dos seres humanos seus escravos, na ilusão de que assim se tornam super-homens. Na nossa cegueira e na nossa inteligência demente, nem sequer vemos que somos bestas, escravos dos deuses, por isso, Caim uns para os outros, fratricidas, opressores, monstros, nas mais diversas categorias e funções que os deuses liberalmente distribuem por quem mais e melhor os serve. Quando mais subimos no Poder, no Privilégio, mais super-homens nos julgamos. E somos monstros. Somos tudo, menos seres humanos. Os mais perigosos de todos são, evidentemente, os idólatras de colarinho branco, os que vestem de executivos das nações, os que ocupam cargos e funções de grande Poder, as hierarquias religiosas e sagradas, os grandes ricos. Perigosos, e muito, são também os lacaios que todos os dias os servem, sempre roídos de inveja das mordomias e dos privilégios que eles possuem. Todos quantos estão a servir o Poder são idólatras. Nenhum deles se reconhece como tal, porque a Idolatria disfarça-se de religião, numa sociedade sacralizada, ou de serviço à causa pública, numa sociedade acentuadamente laica. E a religião sempre se fez passar, inclusive numa sociedade laica, pela dimensão mais nobre dos seres humanos. Nunca ouviram nenhum homem do Poder, laico que seja, dizer que a religião faz parte do Perverso, é o Perverso. Sempre nos fazem crer que é o mais sublime do Humano. Na verdade, é a perdição do Humano. Porque é Idolatria. Por isso, ou matamos os deuses, ou tornamo-nos seus escravos. Como não nos atrevemos a tanto, pelo contrário, insistimos em ser criadores de novos deuses e alimentadores de deuses, são então os deuses que criamos e alimentamos que matam Deus e, depois, ou ao mesmo tempo, nos matam também a nós, os seres humanos. Eles exigem que os idolatremos. E assim desumanizam-nos cada vez mais. O bispo cardeal patriarca de Lisboa, José Policarpo, parece que ainda não viu esta realidade mais real. E provavelmente, nunca verá, pelo menos, enquanto se mantiver no cargo que os deuses criaram para ele. Não poderá ver. O Poder e o Privilégio sempre cegam, e ele só consegue ver o que o Poder e o Privilégio lhe põem na frente dos olhos. Aceita a Ordem Mundial do Poder que é a Idolatria e movimenta-se exemplarmente - não dissidentemente - dentro dela. Ocupa a sua função dentro dela, tal como o papa de Roma. Como os párocos. Como os demais pastores das outras Igrejas. Como os Executivos das nações. Como os Partidos Políticos. Como os banqueiros. Como os juízes. Como os deputados. Tudo o que é Poder reina, triunfa, tem voz e vez, tem oportunidade, faz carreira, sobe na pirâmide criada pelos deuses. Quem quer fazer carreira é por aí que entra, pela Idolatria, pelo culto dos deuses. O início do ano judicial é, por isso, no nosso país, um dos momentos-chave deste culto. Todos os grandes do Crime, perdão, da justiça, lá se juntam. Todos defendem a Lei. Deles. Dos deuses. Do Poder e dos poderosos. Todos berram contra a Corrupção, em que todos são quotidianamente praticantes. Pois para isso é que todos eles existem. Quem não vê que é assim? O bispo cardeal patriarca de Lisboa também entra nesta dança, nesta liturgia idolátrica da Mentira. Faz parte do núcleo duro dos deuses. Tem a confiança deles. É o que os abençoa a todos. O que lhes garante que os deuses estão com eles. Se ele não fosse do núcleo duro dos deuses, dos ídolos, mas de Deus, o de Jesus, não teria saído ontem na sua homilia, como saiu, em defesa da Lei. Sairia em defesa do Pobre, do Órfão e da Viúva, das Vítimas. A Lei é dos deuses. É do Poder. É homicida. E mentirosa. A Lei mata, porque é obra dos deuses, do Poder. Vejam que o bispo cardeal patriarca até lhe chamou "Lei natural", para nivelar tudo por baixo. Mas a Lei natural é nada mais nada menos do que a Lei dos deuses. Eles são naturais, são obra das mentes dementes dos seres humanos, quando se deixam apanhar pelo Medo e pelo Poder e pelo Privilégio. O Medo gera os deuses, gera o Poder, gera o Privilégio. Gera a chamada Lei natural. Por isso a homilia do bispo cardeal patriarca de Lisboa não podia vir mais a propósito desta marcante celebração do Poder, dos deuses. É a homilia da Idolatria. A missa a que presidiu foi o rito religioso da Idolatria. Deu culto aos deuses. Oprimiu, empobreceu, fragilizou e deixou ainda mais desamparados o Pobre, o Órfão e a Viúva. E reforçou ainda mais o Poder que impunemente os fabrica. Pode dizer-se que ontem foi de novo sexta-feira santa. Os deuses voltaram a matar, a crucificar Deus, agora, no Pobre, no Órfão e na Viúva. O bispo cardeal patriarca de Lisboa foi o Sacerdote desta liturgia idolátrica. Enalteceu a Lei, a mais rasca, a dos deuses, a que justifica a existência duma Ordem Mundial que fabrica pobres e pobreza em massa, vítimas humanas e muitas outras em massa. O Poder pode assim prosseguir impunemente nos seus crimes. Os deuses ganharam mais uma batalha contra Deus. Os pobres e os povos do mundo que se cuidem. Deus, o da Graça e da Verdade, o de Jesus, que está sempre em luta duélica contra os deuses da Lei e da Ordem que todos os dias nos descria e desumaniza e nos faz Caim uns para os outros, foi mais uma vez assassinado. Esta continua a ser, por isso, a Hora da Treva, do Poder à solta, dos deuses, dos ídolos. Mas é também a Hora do Combate ideológico e, sobretudo, teológico. Os deuses estão aí em força, servidos por minorias espertalhonas e sem escrúpulos, com tanto de dementes como de assassinas. Têm de ser combatidos, desmascarados, denunciados. Querem-nos lacaios e súbditos. Temos de ser livres e autónomos. Querem-nos idólatras e Caim uns para os outros. Temos de ser responsáveis pela História e sororais-fraternos uns com os outros. Fixemo-nos em Jesus, o de Nazaré. No seu combate teológico contra os deuses. Nunca a Política, feita prática libertadora e solidária, foi tão longe como com ele. Enfrentou os deuses e desmascarou-os, num duelo em que perdeu / deu a sua própria vida pela Vida. Recusou a Idolatria institucionalizada e combateu-a duelicamente. Por isso, os deuses o mataram. Mas desde então sabemos que os deuses são o Perverso e que a Idolatria / Religião é o Pecado do Mundo. Podemos não conhecer todo o caminho da Graça e da Verdade que, percorrido / vivido até ao fim, nos faz outros Jesus, mas, pelo menos, já sabemos que não podemos ir pelos deuses, nem pela sua Lei, nem pela sua Ordem que são Assassínio e Mentira. Por mais que se façam cobrir de ritos religiosos, presididos por graúdas figuras do Poder religioso e eclesiástico. Só a Perversão é que precisa de se disfarçar e de se esconder por trás de toda essa Sacralidade idolátrica. A Verdade, ao contrário, é como a Luz. E faz-nos livres, autónomos, (co)responsáveis uns pelos outros e pelo Universo.
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2008 JANEIRO 29
"Falange de leigos apostólicos". Todo eu estremeci, ao esbarrar com a palavra "Falange" a que o Bispo de Coimbra recorreu para se referir aos leigos da sua diocese (as leigas parece que continuam a não existir no seu discurso episcopal, mas a verdade é que são sobretudo elas quem ainda garante nas paróquias a maior parte daqueles serviços que não envolvam parcelas de poder de decisão, porque os que envolvam exercício de poder eclesiástico continuam a ser exclusivos dos párocos e dos bispos, todos homens e homens celibatários à força, auxiliados por alguns poucos "ajudantes", aos quais eles chamam pomposamente de diáconos casados, também só homens, nem sequer casais de diáconos, ela e ele, como poderia e deveria ser). A expressão onde está aquela horrenda palavra que nos remete automaticamente para o ditador e fascista Franco, de Espanha, parceiro na tortura e no catolicismo fascista do português Salazar, saltou no decurso da homilia que o Bispo Albino Cleto proferiu na missa das suas bodas de prata de ordenação episcopal, celebrada no passado domingo, na Sé Nova de Coimbra, logo após uma sessão solene realizada no auditório da Reitoria da Universidade daquela mesma cidade. Não pensem que foi um simples lapsus linguae. Corresponde, antes, a uma concepção de Igreja e de bispo católico. Porque toda a homilia andou à volta dessa temática. O Bispo Albino Cleto não quis saber do país e do mundo concretos onde a Igreja está e actua, nem quis saber das populações que vivem no território onde está implantada a diocese de Coimbra. Pelos vistos, o seu ministério episcopal paira acima das pessoas e dos seus quotidianos, hoje de muita aflição e de muita insegurança, de muita precariedade e até de muita desesperança. O Bispo, nos seus 25 anos de ordenação, pairou acima dessa realidade e dissertou platonicamente sobre a missão do Bispo, nem sequer da Igreja, apenas do bispo. Fê-lo, certamente, naquela convicção que é partilhada também pela da generalidade dos bispos católicos, de que eles, apenas eles, são a Igreja e todos os mais, leigas, leigos, diáconos e presbíteros são simplesmente seus ajudantes e cooperadores. Igreja, Povo de Deus? Sim, os bispos também falam duma Igreja Povo de Deus, mas sempre como se quantas, quantos constituímos o povo de Deus, fôssemos meros súbditos deles, seus cooperantes ou cooperadores. Porque eles, na concepção hierárquica e piramidal que têm de Igreja, é que são o Povo de Deus, e todos os mais só o são, se lhe forem fiéis, se seguirem as suas directrizes, as suas orientações pastorais, se se comportarem como seus vassalos. Oh! como todos eles gostam de repetir, em jeito de slogan dogmático, aquela célebre frase, carregada de paganismo e de imperialismo romano, por isso, totalmente esvaziada de Evangelho e de Jesus, o de Nazaré, que um dia, quando a Igreja já se preparava para vir a ser Poder, e poder episcopal, saiu da boca de um "Padre da Igreja", por isso mesmo, logo imortalizado por eles: "Nada sem o Bispo". Em lugar de todos eles combaterem ferozmente esta afirmação nos antípodas do Evangelho de Jesus, agarraram-se e ainda se agarram a ela, como se ela fosse ditada directamente por Deus e emanasse directamente da boca de Jesus. "Nada sem o Espírito Santo, o de Jesus", é como sempre se deveria ser / agir / dizer na Igreja. E, complementarmente, também nada sem aqueles "dois ou três reunidos em nome de Jesus", entre os quais não há nunca condições para a existência do Poder, eclesiástico que seja. Mas que querem? Os bispos, os nossos queridos bispos, carregam nos seus cromossomas dezasseis séculos de constantinismo, de Cristandade Ocidental, durante os quais foram príncipes e donos das terras e das populações e dos povos. De servos na Igreja e no mundo que sempre deveriam ser, até darem a própria vida pelas pessoas, na defesa das pessoas e dos povos e na defesa dos direitos e das justas causas das pessoas e dos povos, tornaram-se depressa senhores das pessoas e dos povos, como se de deuses se tratasse. E deuses seriam, mas falsos deuses, como o são todos os deuses inventados para justificar o injustificável, abençoar o inominável, canonizar o intolerável. Formatado também assim desde menino, porque desde menino o hoje Bispo Albino Cleto sempre viu que eram assim os bispos que conheceu, nos antípodas de Jesus e das suas práticas maiêuticas e martiriais a favor dos pobres e dos oprimidos, é praticamente impossível que ele hoje seja, pense e actue de outra maneira. Reconheço que é quase pedir-lhe o impossível. Assim como aos outros bispos seus pares, cada qual à frente da respectiva diocese, como o seu senhor, sempre com o "D.", ou "Excelência Reverendíssima" antes do nome. E esse é o problema crucial da nossa Igreja católica do século XXI. Os tempos mudaram radicalmente, mas os bispos que estão à frente da Igreja continuam formatados para serem bispos como nos tempos após a queda do Império romano, quando os povos eram iletrados e até os reis eram iletrados. Ora, como em terra de cegos quem tem um olho é rei, os bispos eram os reis, os senhores, o Poder dos poderes. Detinham o saber e o poder e ainda a posse das terras. E dispunham da vida das pessoas. Nada sem o bispo! Era manifesto que sim. Tudo girava em redor deles. Os bispos eram o sol. Todos os outros, seus satélites. Existiam, se os bispos consentissem. Se decretassem o seu desaparecimento, a sua extinção, a sua excomunhão, voltavam ao nada de onde haviam saído. O Poder dos bispos era absoluto. Foram os séculos da Cristandade. Do Obscurantismo. Do Pensamento Único. Da intolerância eclesiástica. O Pecado organizado. Em nome de Deus, mas apenas do Deus dos bispos. Não do Deus de Jesus. Nem sequer Jesus tinha lugar na Cristandade Ocidental. E é por isso que o século XXI que (quase) já se libertou dos bispos e da Igreja que eles ainda prosseguem como se fosse um feudo deles, embora cada dia que passa estejam cada vez mais a falar sozinhos e a celebrar sozinhos nas suas soturnas catedrais, mesmo que novas, corre o risco de deitar fora, juntamente com os bispos e a sua Igreja paganizada, também o próprio Jesus. Esse é o perigo maior que correm os povos do século XXI e do terceiro milénio. Confundirem os bispos que ainda temos por aí com todos os tiques dos bispos da Cristandade Ocidental que felizmente já faleceu, com Jesus, com o Evangelho. E se como pessoas e povos do século XXI podemos viver muito bem sem este tipo de bispos e sem este tipo de Igreja que eles são e insensatamente continuam a querer manter como indispensável para a salvação do mundo, já não podemos viver sem Jesus e o seu Evangelho que precisamos de redescobrir em toda a sua originalidade e autenticidade, nomeadamente, na sua essencial dimensão política, nos antípodas do Poder. Os bispos e a Igreja que eles corporizaram durante séculos e ainda hoje corporizam escondeu-nos Jesus, o de Nazaré e o seu Projecto do Reino / Reinado de Deus para todos os povos. Fez ainda pior. Não só escondeu. Distorceu. Roubou-nos Jesus e apresentou-nos em seu lugar nojentas caricaturas dele, cada qual a mais abominável. Acreditem que escrevo isto com lágrimas, com dor, com muito sofrimento. Porque os bispos continuam aí cegos, mas na função de guias dos povos. Não há maneira de caírem na conta de que são guias cegos que levam os povos para o abismo, aonde eles próprios cairão também. Deveriam todos demitir-se. Deveriam todos reconhecer que não estão à altura dos novos tempos. Deveriam fazer-se discípulos dos povos. Sei que é pedir-lhes o impossível, formatadas como estão as suas cabeças. Se dúvidas houvesse de que assim é, bastaria debruçarmo-nos sobre o conteúdo das bodas de prata da ordenação episcopal do Bispo Albino Cleto, de Coimbra. E sobre as bodas de prata de ordenação de todos os seus pares. Elas são eloquentes, mas no pior. Dizem o que não deve ser um bispo hoje. O que nunca deveriam ter sido os bispos, ao longo dos séculos da Cristandade. E o que nunca deveria ter sido a Igreja que eles são. Temo que já não sejamos capazes de inverter a situação, tão longe se foi neste desvio histórico. Mas, se não formos, então melhor será que fique o vazio eclesial, durante uma ou duas gerações, e que depois a Igreja nasça de novo, do Alto, do Espírito Santo, o de Jesus. Será melhor esse vazio eclesial, do que prosseguirmos nesta caminhada para o abismo e para o descrédito total. Parar é preciso. Regressar aos dois ou três reunidos em nome de Jesus, é preciso. Para que de comunidades assim pequeninas, discretas, sororais / fraternas, fermento na massa, luz do mundo, sal da terra e sentinela na cidade, também surjam novos ministérios e novos modos de viver os tradicionais ministérios que vêm das origens. Uma Igreja com bispos, presbíteros e diáconos não é que está mal. Está mal é este tipo de bispos, de presbíteros e de diáconos. Fundamental é a Igreja de irmãs, irmãos. Os ministérios surgirão, suscitados pelo próprio Espírito Santo, o de Jesus, que só não se manifesta nem actua lá onde houver a presença do Poder e dos Privilégios. Não me aflige tanto pela Igreja, mas pela Humanidade, pelos povos do mundo que, juntamente com este tipo de Igreja, podem deitar fora de vez das suas vidas Jesus e o seu Projecto económico-político, e assim ficam sem Futuro. Que deitem fora este tipo de Igreja que as bodas de prata do Bispo de Coimbra evidenciaram, não me aflige. Farão até muito bem. Mas já me aflige, e de que maneira, se confundirem Jesus e o seu Projecto económico-político para todos os povos com este tipo de Igreja. Porque então será o Inverno da Humanidade, da História. Será a Hora da Treva. O triunfo da Mentira e do Genocídio. Será a Descriação dos seres humanos. Não será o Fim da História. Mas as dores das pessoas e dos povos serão por demais. Até que Aconteça um Novo Começo, finalmente jesuânico. Porque fora de Jesus, o de Nazaré e do seu Projecto não há Futuro para os povos. Nada nos garante que avancemos já com Jesus. Seria o ideal. Mas parece que a situação hoje está mais para continuarmos a avançar, ainda sem Jesus, o de Nazaré, e sem o seu Projecto. O que, a suceder, representará um longo Inverno na História, um longo período de Descriação Humana. Aprenderemos entãoe lentamente com os nossos próprios erros. E, um dia, cairemos na conta de que nos desviamos e regressaremos à via ou caminho que é Jesus e o seu Projecto. Tudo, porém, será mais célere, se a Igreja de hoje tiver a percepção da gravidade deste Momento e, em lugar de continuar a cavalgar o modelo de Cristandade Ocidental, for capaz de morrer para o que foi em todos estes séculos, converter-se radicalmente, mudar de Deus, enamorar-se de Jesus, o de Nazaré, e não fazer mais nada que Evangelizar os pobres e os povos, anunciar / suscitar Jesus entre os pobres e os povos. Terá de diminuir, como Igreja, para que Jesus e o seu Projecto económico-político surjam em todo o seu esplendor e em toda a sua Verdade libertadora. Estaremos, como Igreja, à altura de tamanho desafio e de nascer de novo, do Alto, do Espírito de Jesus? Ou vamos, ingenuamente, infantilmente, cinicamente continuar a festejar bodas de prata episcopais e a pairar acima dos cada vez mais inumanos quotidianos das populações e dos povos, esmagados que estamos todas, todos sob o Império do Senhor Deus Dinheiro?
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COMENTÁRIOS:
1. Bom dia Lida a sua crónica de hoje não posso deixar de pensar. Pensar no mal que esta igreja católica fez à humanidade desde que foi tornada religião oficial do império. Antes não sei, apenas que havia desinteligências sérias entre os cristãos – e não preciso de citar ninguém, porque o tenho lido a si. Sou ateu, mas não posso fechar os olhos a esta igreja e a nenhuma das outras, porque são elas que quase sempre determinaram a vida humana.
Lida a sua crónica só posso perguntar: mas então esta não é a igreja de Paulo (claro que não lhe apareceu ninguém, como não apareceu aos pastores de Fátima), de Agostinho, de Aquino? Como pode ser diferente?
Mesmo a nós, aos ateus, também nos caberá algum papel para uma transformação sadia dessa igreja e das outras. Provavelmente até pelo número, – talvez sejamos os mais numerosos, em termos absolutos –, mas ainda não descobri de que maneira… Somos tudo e não somos nada, porque se nos organizarmos (também não sei de que forma) podemos começar a funcionar, sem tardança, como mais uma religião. E religiões é o que já mais há. E todas más.
Há dias, li uma coisa muito engraçada, já não sei onde e gostava de o encontrar novamente: “(…) sabemos que toda a vida houve pessoas boas a fazer coisas boas, toda a vida houve pessoas más a fazer coisas más, mas para uma pessoa boa fazer coisas más só precisa da ajuda de uma religião”… E isto não deixa de ser verdade. Por mim nem preciso de sair da minha família para o saber… Um abraço, Elísio.
2. Boa tarde senhor Mário, gostaria de comentar o que escreveu hoje dia 29.Todos nós sabemos que estamos a passar uma fase complicada, e a nossa igreja não está ajudar em nada! Aquelas vestes que eles usam fazem-me confusão, pois Jesus nunca andou assim e reflecte Poder. Poder esse que Jesus de Nazaré sempre negou, e sempre disse que quem tem o poder tem por pai o diabo. Bispos e padres mais parecem que estão na idade média, mas eles não se importam. Companheiro Mário, o nosso mundo ainda levará séculos para ficar um mundo fraterno? Sei que não sou a pessoa indicada para perguntar tal coisa, mas será que os meus filhos e netos ainda vão passar as passas do Algarve? Eu não o conheço pessoalmente, mas acredite que lhe tenho muita estima e respeito! Um Abraço, João
2008 JANEIRO 28
Bastou o novo bastonário dos advogados dizer umas "bocas" a uma rádio sobre a escandalosa existência da corrupção em Portugal, inclusive ao nível dos órgãos mais altos que estão à frente do país, para que os do Poder político que a fomentam, praticam, dão-lhe cobertura e dela beneficiam - só os ingénuos é que ainda pensam que a multiplicação das leis que eles aprovam é para combater a corrupção; na verdade é para a promover, proteger e dar-lhe até um certo ar de legitimidade - saíssem a terreiro, como pudicas virgens ofendidas na sua honra, uns a exigirem que o bastonário divulgue nomes de corruptos, e os outros a jurarem a pés juntos, perante os microfones e as câmaras de televisão dos cúmplices e mudos jornalistas que as instituições oficiais funcionam e que a corrupção não existe, não senhor, é tudo um calunioso delírio do novo bastonário da Ordem dos Advogados, manifestamente descontrolado e sem tento na língua. Mas digam-me uma coisa: Pode alguma vez haver Poder sem corrupção? O Poder, todo o Poder, não é corrupto por natureza? O Poder, todo o Poder, não é a própria corrupção em acção? Quando, em sociedade, aceitamos pacificamente a existência do Poder, não abrimos de par em par as portas à corrupção? O que pretende, então, o senhor bastonário dos advogados com a sua denúncia? Acabar com a corrupção e, consequentemente, com o Poder que a produz e protege? Ou, pelo contrário, pretende ganhar mais Poder, mais protagonismo pessoal e corporativo, entrar ainda mais na esfera do Poder e tirar daí ainda mais dividendos? Está zangado, porque há outros que levam fatias ainda maiores do que as dele e as dos que dão corpo à sua Ordem? Pretende alcançar uma maior fatia nos benefícios que o Poder, sempre corrupto, distribui aos que o servem? Como interpretar as suas palavras? Uma arrojada denúncia contra o Poder e contra a corrupção que ele sempre produz, e que lhe pode vir a custar a própria vida? Desencadear no país uma salutar Insurreição das populações? Despoletar um levantamento nacional contra a corrupção institucionalizada e, por isso, contra o Poder e contra toda essa imensa minoria dos privilégios que é estruturalmente corrupta e vive da corrupção que o Poder é e sempre proporciona a quem o serve? Será que inesperadamente o senhor bastonário decidiu fazer-se pobre por opção, converter-se, mudar de campo, de Deus, tornar-se homem, simplesmente? Ou, pelo contrário, está manifestamente assanhado, porque há outros que "comem" muito mais do que ele e os da sua Ordem e ele quer que haja mais "justiça" na distribuição dos despojos da corrupção entre a imensa minoria dos privilegiados que servem o Poder e os grandes interesses dos grandes poderosos? Quem não sabe que os advogados - há honrosas excepções e mesmo essas só em alguns casos - acabam por estar todos, uns mais outros menos, com destaque para aqueles que sobem na vida, fazem fortunas, ganham temido nome na praça, no burgo, ao serviço dos poderosos, dos grandes grupos económicos e financeiros, são altamente financiados para defender a grande corrupção, mafiosamente organizada? Pode um advogado fazer fortuna, se passar a sua vida profissional a defender as causas do Pobre, da Vítima, do Oprimido, do Órfão e da Viúva? Não terá de ser, neste caso, um profissional quase missionário, mais profeta do que advogado, pobre por opção e por toda a vida? Aceitar fortunas para ir defender em Tribunal causas que se sabem à partida indefensáveis, perante a Verdade e a Justiça, não é ser corrupto, fazer o jogo da corrupção, trair o Pobre, a Vítima, o Pequeno, a Viúva, o Órfão, o Oprimido? E não é o que mais se faz por aí, no país, na Europa e no mundo? O que pretende então o senhor bastonário dos advogados com as suas declarações? E o que pretendem os que saíram logo a terreiro, a apoiar ou a protestar? Não pretendem, ele e eles, que tudo fique na mesma, ou ainda pior? Vem aí, de tudo isto, algum benefício para as vítimas da justiça sem Justiça, que os Tribunais diariamente cometem? Ora, se não é para acabar com o Poder, o pai de toda a corrupção, saibam as populações do país que as declarações do bastonário dos advogados nem sequer uma pedrada no charco são. São fonte de mais e mais corrupção, essa mesma que compra tudo e todos, só precisa de saber qual o preço que tem de pagar para poder prosseguir o seu reinado. A corrupção hoje é de tal ordem, que já nem conseguimos conceber uma sociedade sem corrupção. O objectivo dos menos corruptos já não é acabar com a corrupção, mas que a corrupção seja um pouco mais controlada, não ande tão à rédea solta como hoje já acontece, e não se pratique tão às escâncaras. Mas desde que o Dinheiro passou a Grande Dinheiro e está aí cientificamente organizado segundo as suas próprias leis, sem qualquer controlo por parte da Política, que hoje até deixou de existir, para se converter em Poder, o chamado Poder político organizado no Estado, inclusive sob a forma de Oposição, a Corrupção passou a andar também à solta e pratica-se por aí às escâncaras, sem qualquer pudor, protegida por capangas sem escrúpulos, para lá das leis, das Polícias, dos Tribunais e dos militares formados e acantonados nos quartéis. Soldados ao lado do povo, prontos a proteger as vítimas dos grandes poderosos e dos grandes ricos, foi sol de pouca dura, depois do 25 de Abril de 1974,em Portugal. Porque depressa veio o 25 de Novembro de 1975 restabelecer a velha Ordem do Poder e abrir avenidas cada vez mais largas ao Grande Dinheiro e ao Grande Poder que hoje estão aí ambos à rédea solta. E saibam que o que hoje nos é dado ver e sofrer ainda é só o começo das dores. Porque o Grande Dinheiro e o Grande Poder, se não forem depressa decapitados pelos povos, devoram tudo o que virem mexer diante deles. Até devoram os seus próprios servidores, os seus próprios beneficiários. Comem-lhes a identidade. Sugam-lhes o sangue. São a Grande Besta apocalíptica do século XXI, e está tudo dito. Quando ambos, como um só, conseguirem implantar o seu próprio Executivo à escala mundial - é a globalização do Grande Dinheiro e do Grande Poder, em todo o seu despudor - deixará de haver lugar para os seres humanos, todos reduzidos a autómatos e a idólatras. É isso que queremos?! "Tende cuidado com o fermento dos fariseus e com o fermento de Herodes". A advertência política, oportuníssima, é de Jesus, o dos Evangelhos Sinópticos. Tem quase dois mil anos, mas continua por acolher e praticar. É uma sábia advertência que valoriza a Política e que alerta os povos para os mortais perigos do Poder, nomeadamente, do Grande Poder, sempre corrupto e fonte de grande corrupção. É óbvio que o fermento a que se refere Jesus é a ideologia do Grande Poder que é perito em fazer leis para se auto-proteger, a pretexto de proteger as pessoas e os povos. Protege-se a si próprio e às suas minorias privilegiadas contra as pessoas e os povos. É uma ideologia mentirosa e assassina. Jesus percebeu melhor do que ninguém que quanto mais leis, mais corrupção, porque mais Poder. Quanto mais Poder, mais leis e por isso também mais corrupção. Lá onde se multiplicam as leis, diminuem os seres humanos íntegros, livres, responsáveis, autónomos. Multiplicam-se os escravos, os súbditos, os corruptos, os infractores, os chico-espertos. Os pequenos corruptos são sempre apanhados nas malhas das leis e logo castigados. Os grandes corruptos constituem os Executivos das nações, são deputados, são administradores de grandes empresas, de transnacionais, de bancos, de Igrejas e de Religiões. Integram a imensa minoria dos privilégios, essa mesma que oprime as maiorias e as mantém sob o jogo das suas leis e dos seus tribunais. E, quando, excepcionalmente, algum dos grandes calha de cair em apuros, lá estão os advogados de renome para o defender em troca de grandes somas de dinheiro, peritos que são em levar as leis a dizerem o contrário do que nelas está escrito. Avisados andarão, pois, os povos e os seus intelectuais orgânicos - ainda há exemplares desta espécie hoje em franca extinção?! - se tiverem em linha de conta o alerta político de Jesus: "Tende cuidado com o fermento dos fariseus e de Herodes", isto é, a imensa minoria dos privilegiados que fazem / aprovam / executam as leis e dão corpo ao Poder político - juízes, chefes militares e de polícia, deputados e sobretudo os Executivos das nações, quer os actuais Sócrates ainda em exercício, quer todos aqueles que já se preparam para lhes suceder, quando aqueles passarem a ser sucata do Poder, como outros tantos obsoletos computadores. Sem nos esquecermos, é claro, de incluir nessa minoria também os advogados, pelo menos, aqueles que fazem fortuna no exercício da advocacia, sinal inequívoco de que não defendem as causas do Pobre, do Órfão e da Viúva, mas as dos grandes corruptos. Novos fariseus e novos Herodes é o que hoje não faltam por aí. Esta é, por isso, uma Hora difícil para os povos do mundo, porque até os que deveriam ser suas sentinelas estão cada vez mais feitos com o Grande Dinheiro e o Grande Poder. Fecham os olhos aos grandes crimes e á Grande Corrupção. E as bocas. Ou então falam e apontam, mas para ganharem mais protagonismo, mais adeptos e subirem na carreira e na sua conta bancária. Têm de ser os próprios povos a estar vigilantes, de olhos abertos. Fixem esta regra de libertação, que decorre daquela sábia e oportuna advertência política de Jesus: Lá, onde houver riqueza acumulada e concentrada e Poder a crescer, saibam que o fermento, a ideologia que esses seres humanos respiram é de corrupção e de opressão. Nem que pareçam solidários, são lobos disfarçados de cordeiros. Não podemos confiar-lhes nunca as nossas causas. Sempre acabarão a entender-se uns com os outros contra nós, os pobres e os povos. Dos novos fariseus e dos novos Herodes só vem desgraça para os povos. Deixemos então de confiar a eles as nossas causas. Organizemo-nos pobres com pobres, povos com povos. E conspiremos cada vez mais em novas clandestinidades. Porque só assim resistiremos e seremos Futuro, como povos livres e responsáveis, protagonistas da História. Saibam que não é fácil. Mas alguma vez foi fácil ser-se mulher, homem, povo?
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COMENTÁRIOS:
1. Boa Tarde, Mário! Realmente a Grande Besta Apocalíptica do século XXI tomou conta do mundo. Aqui, no Brasil, até nas cidades rurais mais simples, antigos "fortes" de honestidade, a corrupção e a mentira deslavada em juízo na Justiça tomou conta. As pessoas, muitas, estão se corrompendo! Como frear esta peste? Estão indo pelo caminho apontado pelos "grandes" como toupeiras, achando-se assim espertas e vencedoras! Só um dilúvio para limpar toda esta podridão! Abraço! Celia.
2. Caro Mário,
Li o seu texto sobre a corrupção a propósito das declarações do advogado Marinho Pinto. Certeiro e autêntico o sentido do texto! Nem precisava de tantas palavras, mas fez bem colocá-las lá, no sítio. Para despertar as consciências adormecidas. Vou incluir este texto no meu Diário de Felgueiras. Um abraço forte, José Carlos Pereira
2008 JANEIRO 26
O Bispo Manuel Clemente chegou apenas há dez meses à Igreja do Porto e já está a fazer um primeiro balanço da sua actividade episcopal. A sua última Nota Pastoral dá conta disso. Segundo ela, perspectiva-se, no horizonte, uma grande Missão no espaço da diocese, no culminar da primeira década deste nosso século XXI. Parece inovador. E audaz. Será? Sem querer ser desmancha-prazeres, sinto que tudo não passa de mais do mesmo. E, se for, é um desastre. Um tremendo desastre. Uma frustração de difícil cura. Há agitação na diocese, muita; há reuniões, muitas; há comissões disto e daquilo, muitas; criam-se outras, a juntar às muitas já existentes; os bispos auxiliares movimentam-se pela diocese; o bispo titular também; mudam as pessoas que estão à frente de certos organismos diocesanos. Numa palavra, há frenesim, há mexidas, há mudanças, há agitação. E, no entanto, a Igreja do Porto, como a do resto do país continua a não ser notícia nos grandes media, muito menos boa notícia. Quando o é, é quase sempre pelas piores razões: é pela Concordata que foi revista mas continua por regulamentar; é pelos capelães dos hospitais e dos quartéis que vêem os seus ordenados pagos pelo Estado em perigo; é pelas aulas de religião e moral nas escolas públicas que a hierarquia quer que prossigam e que o Estado laico pague aos respectivos professores escolhidos por ela e obrigatoriamente nomeados por ele; é pelas romarias religiosas aos santuários de nomeada que são outras tantas manifestações do primitivo Paganismo religioso; e por muitas outras coisas do género, todas à margem das graves e profundas preocupações quotidianas das populações do país. Por exemplo, ainda esta semana, o clero da diocese da Guarda esteve dois dias numa jornada de formação sobre a "Palavra de Deus", realizada no velho estilo de catequese para crianças, no caso, cerca de cem clérigos que se reuniram num local para ouvirem dois "peritos" dissertar sobre o assunto, mas como quem disserta sobre matemática ou gramática, sem que, por isso, daí resultasse qualquer fruto, qualquer mudança, qualquer inovação na linha daquelas coisas novas que o Espírito de Jesus sempre faz acontecer, lá por onde passar. Sabe-se também - é apenas outro exemplo da estéril agitação que por aí ocorre na Igreja do país - que estão já em preparação umas jornadas de Teologia, a realizar em meados de Fevereiro próximo, promovidas pelo ISET, abertas a toda a gente que queira inscrever-se e participar. Sobre estas jornadas, o Doutor Jesus Ramos, actual director do Instituto promotor, mostra-se preocupado com a falta de leigos não só preparados, mas também convencidos. E acha que estas Jornadas vão contribuir para chegarmos a ter leigos preparados e convencidos. Será que vão? Perdoem-me todos os meus irmãos da Igreja, a começar pelo nosso bispo do Porto, Manuel Clemente, que, como os demais, anda certamente animado da melhor boa vontade e das melhores intenções, mas tudo isto que ele faz e que a Igreja em Portugal também está a fazer, soa-me a oco, a mais do mesmo. Daqui, onde vivo, neste discreto Lugar Teológico do Deus que gosta de Política, não de Religião, perscruto com ternura e com preocupação pastoral tudo o que se faz e diz e soa-me a oco, a vazio, a mais do mesmo. Desculpem, mas não posso deixar de vos dizer que o Espírito de Jesus não anda por aí, não está a passar por essas actividades e iniciativas, por mais numerosas que elas sejam e aparentemente oportunas. Mesmo que elas tenham significativa adesão por parte das pessoas católicas que ainda frequentam as missas da paróquia, são todas iniciativas sem Espírito Santo, o de Jesus, por isso, estéreis e até prejudiciais. Porque, se o Espírito de Jesus não andar por aí, não estiver a passar por todas essas iniciativas e realizações, é tudo perda de tempo e alienação a rodos. Melhor seria que não se realizassem, que a nossa Igreja tivesse a coragem e a lucidez de fazer uma pausa, para, finalmente, escutar o que o Espírito de Jesus lhe anda a querer dizer, sem que ela lhe dê tempo, ocupada que anda, como a Marta da Comunidade / Igreja de Betânia, da qual o Evangelho de Lucas nos dá notícia, com muitas coisas, todas elas desnecessárias, não essenciais. A única coisa necessária, essencial, é, neste momento, parar tudo, sentar-se, como Maria, da mesma Comunidade / Igreja de Betânia, aos pés de Jesus, centrar-se na sua pessoa, na sua prática maiêutica, libertadora e promotora de sujeitos, de protagonismos, de pessoas em estado de maioridade que depressa dispensem de vez os clerigos, os párocos, os bispos-hierarquia-e-gestores, os organismos tutelados por estranhos, as missas rotineiras, os ritos sempre os mesmos, e elas próprias, finalmente, se experimentem Igreja viva em pequenas comunidades de dois ou três reunidos em nome de Jesus, sem clérigos e sem hierarquias a presidir e a atrapalhar. Apenas com Jesus e o Espírito de Jesus a animar, a congregar, a enviar em Missão que transforme as pessoas e o mundo, não apenas entretenha infantilmente as pessoas e as desvie do essencial, da única coisa necessária que é darmos corpo ao Reino/Reinado de Deus, tal como fez Jesus e nos recomendou que fizéssemos também. Desculpe-me, Bispo Manuel Clemente, desculpem-me, todos os outros meus irmãos da Igreja. Sou Igreja convosco, mas não me revejo em nada do que fazeis, do que promoveis. E por isso não me vedes nas vossas missas, nem nas vossas jornadas de formação, nem em nenhuma das vossas iniciativas abertas a quem queira inscrever-se. Eu não quero. Não tenho querido. E, pelo andar da carruagem, continuarei a não querer. Sou Igreja convosco, mas prefiro ir por outro caminho, o de Jesus. O caminho eclesiástico que trilhais ainda é o da velha Cristandade Ocidental, agora um pouco, e só um pouco, mais reciclado. Ainda assenta essencialmente no território. Na diocese com fronteiras territoriais. Nas paróquias territoriais, à frente das quais está um clérigo de confiança, mero funcionário eclesiástico, nomeado pelo respectivo Bispo diocesano, o Ordinário do lugar (já vistes que designação canónica mais caricata, até injuriosa, o ordinário do lugar? Mas é o que, na prática todos os bispos residenciais são, embora vestidos com toda aquela pompa e circunstância, sobretudo, quando hierarquicamente presidem às missas, durante as quais não é admitido qualquer espaço para o contraditório). Bastaria este facto, duma Igreja agressivamente territorial, como na velha Idade Média - mas há milhentos outros, qual deles o pior - para deitar a perder todas as iniciativas que possais promover, por mais bem intencionadas que elas sejam. Todas elas estão, à partida, feridas de morte. Pior, são até assassinas. Matam a criatividade, matam a liberdade, roubam a voz e a vez, inibem, diminuem, infantilizam quem lá vai e se deixa envolver por tudo aquilo tão retintamente eclesiástico. Neste aspecto, os dez meses que o Bispo Manuel Clemente já leva de Bispo do Porto são o mais expressivo exemplo. Já deu para ver que ele é dos mais novos bispos da Igreja em Portugal, mas apenas em idade biológica. Não é novo, no Espírito, o que em Igreja é absolutamente decisivo e determinante. Pode aparecer mais vezes e ser quase omnipresente na diocese e até no país, que a idade assim lho permite - mesmo assim não é omnipresente, porque em boa verdade quase se limita a ir aonde o chamam e aonde sabe que vai ser acolhido com pompa e circunstância, ser venerado / idolatrado, escutado e tratado como Poder, como hierarquia, como aquele que preside, não como aquele que ocupa o último lugar e daí não sai, o lugar de discípulo - mas, depois de tudo terminado, lá se vai embora e tudo regressa ao de sempre. Não houve Boa Notícia, não houve escândalo, daquele tipo de escândalo que Jesus sempre foi, é e será, lá onde aparecer, porque, hoje como ontem, continua a não ter lugar na Ordem Mundial organizada segundo o Senhor Deus Dinheiro, não segundo o Deus Vivo e Criador de filhas e filhos em estado de maioridade. Por isso, nem que em 2010, a diocese do Porto venha a estar envolvida, como prevê a última Nota Pastoral do Bispo Manuel Clemente, numa grande Missão, não se pense que ela o será na continuação da Missão de Jesus, o de Nazaré. Só o seria, se, antes, a Igreja do Porto e o seu Bispo Manuel Clemente e os seus bispos auxiliares nascessem de novo, do Alto, do Espírito de Jesus. Escolheriam, nesse caso, a melhor parte, aquela que ninguém, nem o Poder dos Privilégios, alguma vez lhes podem dar, muito menos tirar. Não julguem que é fácil, que basta escrever, aprovar e fazer publicar um Decreto diocesano nesse sentido. Não! O Bispo - os bispos - teria de morrer como hierarquia. Teria de abandonar os privilégios. Teria de deixar de ser o primeiro, sempre, e passar a ocupar o último lugar. Teria de deixar de frequentar tanto, muito menos exclusivamente, aqueles que são hoje os seus braços compridos nas paróquias. Teria de deixar aquele imponente e absurdo paço episcopal que mais parece um sepulcro de luxo que oprime, esmaga, envenena, asfixia e mata quem lá permanece, um dia após outro. Teria de despojar-se de todos os sinais exteriores de Poder e de riqueza. Teria de aparecer ignoto nas paróquias e nas missas de domingo, um entre os demais, sem que ninguém desse pela sua presença, para ver em directo a vergonha que aquilo é, a humilhação que aquilo é e, de imediato, mandar fechar aquele espaço eclesiástico. Teria de frequentar preferencialmente os malditos da Igreja, os excluídos, os dissidentes, os excomungados, os padres casados e os não-casados, mas ainda mais ostracizados que os casados. Teria de comer com os ateus e agnósticos, de preferência a comer com os católicos que lhe beijam o anel e lhe são indecentemente subservientes. Teria de reaprender a ser um homem irmão, simplesmente, nunca mais hierarquia. Teria de fazer-se discípulo dos que nunca entrarão na sua catedral, nem nunca escutarão uma homilia dita por ele do alto daquela sua cátedra, a lembrar / perpetuar entre nós a Idade Média. Teria de abandonar a empresa de serviços religiosos que é hoje a diocese a que preside. Teria de deixar de ser o gestor desta empresa. Teria de passar a ser outro Jesus, agora à século XXI, até acabar crucificado como ele, antes de mais pelos seus pares, os outros bispos residenciais e pelos seus párocos e pelos seus católicos de missa ao domingo. Porque, se ele vier a fazer isto, ou, ao menos, uma boa parte disto, todos eles irão dizer, com convicção, que ele está louco varrido, possesso do demónio, e que está a dar cabo da igreja. E terão razão. Porque o Bispo Manuel Clemente, se assim vier a ser - só então a minha alegria de presbítero da Igreja do Porto seria completa! - e assim vier a agir, dará efectivamente cabo desta Igreja-empresa de serviços religiosos, desta Igreja cheia de Paganismo religioso e iniciará, no seu corpo de homem jesuânico a Igreja do Espírito Santo, o de Jesus, que o mundo ainda não conhece, muito menos os católicos que o temos sido só por tradição e rotina, não por alguma vez termos sido evangelizados a valer. Evangelizar é preciso. Evangelizar os pobres e os povos. E hão-de ser os pobres e os povos evangelizados que, por sua vez, evangelizarão a Igreja dos católicos, nem que seja depois de muitos dos pobres e dos povos evangelizados terem sido crucificados pelo fanatismo deles. Não foi assim com Jesus? Não foi só depois que o crucificaram que Jesus verdadeiramente atraiu a si a muitos, até o grupo dos Doze que antes lhe fez a vida negra, o traiu, o vendeu, o negou e o abandonou? Mais do mesmo, na Igreja que se reclama de Jesus, não obrigado. Mudar é preciso. Antes de mais, mudar de Deus. Renunciar ao Deus da Religião, do Paganismo religioso que gosta de hierarquias e acolher-praticar todos os dias o Deus de Jesus. Então sim, o mundo pode começar a mudar também, a renunciar ao Senhor Deus Dinheiro e acolher-praticar o Deus-Amor, fonte de Economias globais de Partilha dos bens e de Políticas globais integradoras e sororais/fraternas. Vamos a isso, Bispo Manuel Clemente e demais meus irmãos, irmãs católicos? Ontem já era tarde.
2008 JANEIRO 25
Tal como previ antes dela se iniciar, encerra hoje a centésima Semana de Oração pela Unidade das Igrejas, sem que o Deus, ao qual elas se dirigiram nestes dias, atendesse os seus pedidos. A desejada (?) Unidade das Igrejas continua assim sem acontecer. Para vergonha de todas elas. Para descrédito de todas elas. "Quem fez a divisão, agora que a conserte", parece Deus dizer com uma sonora gargalhada, esse mesmo Deus ao qual as Igrejas durante a semana de oração que hoje termina têm andado a rezar. Não! Não é o Deus de Jesus, que esse com o que está deveras preocupado é com a unidade dos povos, na diversidade das línguas, cores e culturas. E não uma qualquer unidade, mais ou menos folclórica, em que os Executivos das nações costumam ser peritos. Mas, antes de mais, a unidade económica de todos os povos. Uma só Mesa de muitas mesas, com todos os povos sentados nela, todos os dias, sem que nenhum deles fique de fora, seja a que pretexto for. Sem esta unidade económica, melhor, macro-econónica, que todos os dias faça sentar todos os povos sem excepção à mesma Mesa, falar prioritariamente de unidade das Igrejas e preocupar-se prioritariamente com isso é sempre, será sempre um insulto. E insulto é o que mais praticam as Igrejas ditas cristãs (não esqueçam que há por aí muitos Cristos que nada têm de Jesus, o de Nazaré, são até seus antónimos e dão cobertura a Obscenidades e Máfias organizadas em seu nome, que enganam até os que se têm por muito ilustrados), quando, ano após ano, todas, ou quase, se unem no espaço de culto de uma delas, a pedir a Deus o fim da divisão que elas próprias criaram e fazem questão de alimentar e agravar, durante as outras 51 semanas de cada ano. Aliás, a chamada semana de oração pela unidade das Igrejas é, ela própria, fonte de mais divisão entre as Igrejas. Desde logo, porque obedece, não a uma séria e empenhada vontade de unidade dos povos e das Igrejas que devem existir para os servir maueuticamente, mas a uma rotina anual cheia de hipocrisia e de mentira. Já estive presente, como jornalista, em várias dessas iniciativas, em sucessivos anos e sei do que falo. Cada líder apresenta-se aos demais, nos seus trajes litúrgicos ou talares, cada qual o mais bizarro. A marcar bem a diferença entre eles. Não são seres humanos, simplesmente. Não são discípulos de Jesus, o de Nazaré, simplesmente. Não são irmãos, simplesmente. São os líderes temidos e respeitados das respectivas Igrejas. Cada qual no seu galho, no seu poleiro. Reverência, para aqui, reverência para ali. Reconheço-te como chefe duma Igreja, tu reconheces-me como chefe de outra Igreja. Nenhuma espontaneidade, no decorrer do ritual, da cerimónia (disse bem, porque é disso que se trata, um murcho ritual e uma cerimónia cheia de vaidade, que o mesmo é dizer, cheia de nada). Nenhum imprevisto, tudo muito previsível e previamente aprovado por todos. Nenhuma palavra fora do texto. Nenhum gesto que brote do coração. Até o abraço que, a dada altura, trocam entre si é um abraço sem abraço, sem afecto, puro automatismo, puro ritual, sem quaisquer consequências práticas, quase como quem diz, "Até à próxima, já acabou esta estopada, cá nos voltaremos a ver para o ano, etc e tal". Semana de oração pela unidade das Igrejas, isto? Ou, pelo contrário, uma pequena feira de vaidades, uma pequena montra de líderes, cada qual o mais infantil, o mais bizarro, o mais pedante, o mais caricato? Deus em tudo isto? Sim, mas não o Deus de Jesus, apenas o Deus deles, dos líderes das Igrejas, o Deus das Igrejas que por uns momentos estão todas juntas, mas para melhor poderem viver separadas depois o ano inteiro. O Deus de Jesus, ao contrário do que pensam e fazem crer os líderes das Igrejas, não se revê em nenhum destes líderes nem em nenhuma destas Igrejas, todas elas proselitistas, todas à cata de novos membros, de novos contribuintes, de novos dizimistas, para poderem depois exibir as estatísticas e dizer qual delas é maior que as outras. Um vómito, portanto. Não estranhem que as coisas se passem assim, estejam ainda neste pé. Enquanto não nascermos de novo, do Alto, do Espírito Santo, o de Jesus, somos todos, eclesiásticos ou não, assim, uns filhos da mãe, para não utilizar uma expressão bem mais feia e chocante. Jesus, o tal que os líderes das "Igrejas" da época e do país mataram na cruz do Império romano e todos em conluio com ele, foi o primeiro a ver toda a marosca, toda a Perversão e todo Negócio sujo que por aí sempre se fez e continua a fazer à boca cheia e em todo o lado, em nome de Deus - os que se dizem crentes - e / ou em nome da Democracia, do Estado, ou da Civilização - os que se dizem laicos. Só que Jesus viu, e não fez de conta, como nós habitualmente fazemos. Muito menos, correu a juntar-se às minorias que estão por trás de tudo, e a exigir a sua parte da fatia do Bolo, sob a ameaça de os desmascarar a todos. Não! Jesus era, é a Luz / a Vida. E como tal, não se vendeu nem vende à Treva / ao Assassínio. Jesus era, é a Verdade. E, como tal, não se vendeu nem vende à Mentira, por mais que ela esteja aí cientificamente / demencialmente organizada e seja compulsivamente Opressora e Assassina, do tipo mais perverso, o que não tem quaisquer escrúpulos. Oprime e mata sempre que é preciso e não se pensa mais nisso. A frio. De forma metódica. Com profissionalismo. E depois segue em frente, como se nada fosse, sem ponta de remorso. Até, pelo contrário, com a visível satisfação do tirano que acaba de esmagar o que ousou fazer-lhe oposição. Jesus era, é o Caminho. E como tal, não se vendeu nem vende à Religião, que é sempre um atalho que os humanos assustados e fragilizados inventamos e com que tentamos ter por nossa conta um Deus à nossa medida e que nos seja sempre favorável, esteja connosco e com os nossos negócios por mais sujos que eles sejam, e não esteja com os nossos vizinhos, muito menos com os nossos rivais e inimigos. Ora, porque Jesus, e só ele, é o Caminho, a Verdade e a Luz/Vida, também só dele podemos dizer sem quaisquer reservas que é o Homem, o Ser Humano, porque o foi até ao fim, até ao limite e para lá do limite. Foi tentado como eu e como tu, como todas, todos nós, mas não cedeu nunca, não quebrou nunca. Jamais saiu da sua condição de Humano, para se fazer outra coisa. Nunca se fez Poder, Dinheiro, muito menos se fez Deus. Homem, sempre, e Homem até ao fim, até à morte na cruz. Nada, ninguém o desviou. Nunca se passou para o outro lado. Por isso, a Treva, a Mentira, o Poder, a Religião e o Deus da Religião - numa palavra, tudo o que não é Humano, que se pretende mais do que Humano - não lhe perdoaram. E mataram-no com a morte mais ignominiosa e maldita. Já o tenho dito e redito, mas nunca é demais repeti-lo, porque este é o núcleo central, o essencial, o específico de Jesus. É o que faz de Jesus património vivo da Humanidade, de todos os povos, não das Igrejas, fora do qual não há salvação, isto é, não há verdadeiros seres humanos, mulheres e homens, haverá apenas abortos, coisas, fantoches, hierarquias, chefes, ditadores, executivos, lacaios, servos, súbditos grandes e pequenos; súbditos do Dinheiro e da sua Engrenagem / Mentira que é o Poder / Império e súbditos destes súbditos; súbditos da Religião e do Deus da Religião e súbditos destes súbditos. Uma planetária tragicomédia humana, onde será muito difícil descortinar um Homem, um Ser Humano, só lacaios em tamanho grande, em tamanho pequeno e em tamanho médio. Pois bem, como Jesus foi o único Homem que viu toda a marosca, toda a Mentira organizada que era, é a Ordem Mundial do Dinheiro, do Poder, da Religião e das Igrejas convertidas em outras tantas religiões, e ainda Deus a dar cobertura e justificação a todo esse Perverso / Pecado Organizado, lançou, desde o seu pequeno país, o seu alerta, a sua Boa Notícia, o seu Evangelho a toda a navegação, a todos os povos do mundo. E é esse Alerta, essa Boa Notícias, esse Evangelho que havemos de escutar, acolher, praticar. E qual é? Eis: Todos vós, povos e pessoas, tendes de nascer de novo, do Alto, do Espírito Santo, este mesmo que me habita em plenitude. Todos tendes de nascer deste Sopro que me habita e faz. Todos tendes de ser povos e pessoas ao meu jeito, segundo o meu Sopro, o meu Espírito. Não basta nascer e vir ao mundo. É preciso nascer de novo, do Espírito que me fez nascer a mim, para resistirdes, como eu, à Tentação, ao Tentador, ao sopro ou espírito do Dinheiro, da Mentira / Poder, da Religião / Deus, e assim permanecerdes humanos simplesmente, nunca vos passardes. Porque, em verdade, em verdade vos digo, só quem permanecer Humano até ao fim, até ao limite e para lá do limite, como eu, é que será salvo, será Ser Humano integral, íntegro, sem dolo. Saibam que até Deus, o que eu conheço como Abbá / Mãe-Pai universal é para isso que existe e é mais íntimo a nós do que nós próprios, para que todos permaneçamos humanos até ao fim. E tudo o que não for assim é Tentação, é Engano, é Mentira, é Desvio, é Alienação, é Pecado, por isso, Inumanidade. Nunca, é claro, as Igrejas nos disseram esta Boa Notícia, este Evangelho. Usam estas palavras e outras semelhantes, mas dão-lhes sempre outro conteúdo, outro sopro, o conteúdo e o sopro da Mentira. Por isso, e nessa medida, também elas fazem parte do Perverso, do Demencial organizado em Ordem Mundial, do Inimigo dos povos e das pessoas. Há também por aí um certo tipo de Ateísmo que vai igualmente por aí e por isso também integra o Perverso, o Demencial organizado em Ordem Mundial, o Inimigo dos povos e das pessoas. Nascer de novo, do Alto, de Fora do Perverso, do Demencial organizado em Ordem Mundial, do Inimigo dos povos e das pessoas é preciso. Só o Sopro ou o Espírito de Jesus vem daí, de fora, do Alto. Nascer dele é preciso. Permaneceremos Humanos, simplesmente, como ele, é preciso. Tão Humanos, que Humanos assim como ele, só mesmo Humanos com Deus, o de Jesus, dentro de nós. Universalmente irmãs, irmãos. Intrinsecamente livres e autónomos / responsáveis. Visceralmente políticos. Numa palavra, Mulheres, Homens-para-os-demais. Sem nada possuirmos, porque tudo é de todos os povos e para uso de todos os povos. Estamos ainda longe desta Topia, desta Realidade, desta Verdade, duma Ordem Mundial assim? Sem dúvida, mas por culpa sobretudo das Igrejas que, desde cedo, se esqueceram, a começar pelos chamados líderes, de nascer de novo, do Alto, do Sopro / Espírito de Jesus e foram a correr juntar-se às minorias dos Privilégios que corrompem, alienam, pervertem, oprimem, aterrorizam e matam os povos e as pessoas. Numa actualização, para pior, da tão falada traição de Judas e da menos falada traição do Grupo dos Doze, sempre a sonharem com os melhores lugares, os do Poder e do Dinheiro e da Religião, como fazem ainda hoje todos os líderes que se pensam e dizem sucessores deles, em vez de serem simplesmente outros Jesus! Não nos deixemos enganar. Pelo contrário, amemos ainda mais a Verdade, porque só a Verdade nos faz livres. E humanos, como Jesus.
2008 JANEIRO 24
A última edição do semanário da Diocese do Porto, de 23 de Janeiro de 2008 que ontem me chegou às mãos, graças a uma cordial permuta com o Jornal Fraternizar, é, sem que os seus responsáveis tenham disso consciência, uma alarmante radiografia da mortal leucemia que está a atacar, hoje, e, provavelmente de forma já irreversível, a nossa Igreja do Porto. Nem a entrada do novo Bispo Manuel Clemente que veio de Lisboa precedido de um coro de vozes que anunciavam novos começos eclesiais e novos futuros para a Igreja do Porto está a dar os anunciados frutos. As amendoeiras que deveriam florir no inverno, já secaram. O inverno eclesiástico tomou conta de tudo, até das amendoeiras. Não vou dizer que a culpa é do Bispo Manuel Clemente. Ou dos responsáveis da VP-Voz Portucalense. O que digo é que nem a chegada do novo Bispo mudou o rumo à situação que já vem de trás, pelo menos, desde o encerramento do Concílio Vaticano II que nunca chegou a ser acolhido / praticado / actualizado entre nós, por manifesta má vontade da hierarquia episcopal e dda generalidade dos seus párocos (não confundir hierarquia episcopal e párocos com bispos e presbíteros da Igreja que são, têm de ser outra coisa que não o que habitualmente nos é dado a ver em cada diocese, também nesta nossa do Porto). Somos hoje uma Igreja gravemente doente. Atacada de incurável leucemia que está já a miná-la por dentro. Irreversivelmente. O semanário diz-nos isto sem dizer. Melhor seria que o dissesse aos gritos. Mas diz sem dizer. Porque quem está com a responsabilidade de o apresentar a tempo e horas, todas as semanas, está também tão metido no sistema eclesiástico, que não tem o distanciamento / discernimento necessário para conseguir ver a doença mortal que atinge a Igreja do Porto. Também a do país, mas desta o semanário habitualmente não dá notícia, porque lhe compete apenas noticiar sobre a sua "paróquia", o seu "campanário". Todas as semanas, VP dá notícia da mortal doença que afecta a Igreja do Porto, mas fá-lo como quem pensa que está a dar notícia da sua grande vitalidade. O doente grave, como é sabido, dificilmente reconhece o seu estado. Prefere auto-enganar-se, auto-iludir-se, para não cair em depressão e no desespero total. Podia e devia optar pela postura mais correcta e mais saudável que é a da verdade sobre o seu estado e, assim, corajosamente cooperar com o médico, no caso da Igreja, com o Espírito Santo, o de Jesus, para chegar a alcançar a cura, inclusive, a ressurreição. Quando porém o doente já não é capaz de tanto, é porque a grave doença que o habita já se tornou irreversível. E seguirá o seu curso, até acabar a sua obra. Será então a morte da Igreja do Porto. Uma morte já anunciada. E também a morte da igreja que está em Portugal. Se calhar, a morte da Igreja do Porto e da Igreja que está em Portugal até já aconteceu e o que vemos por aí ainda a mexer é apenas fruto da inércia, da rotina. Tudo deveria estar já eclesiasticamente parado, como num nacional cemitério. Mas ainda mexe. Por inércia, por automatismo, por rotina, por habituação, por tradição. Neste caso, a situação é ainda mais grave do que comecei por escrever neste dia. Já não é doença para a morte. É a morte consumada. Já não é uma Igreja mortalmente doente. É uma Igreja morta. Como Lázaro, o da comunidade de Betânia, juntamente com Maria e Marta. Uma Igreja morta. E sepultada. Há quatro dias. Atada de mãos e de pés. De olhos vendados. A cheirar mal. Sal sem força. Treva em vez de luz. O semanário VP é isso que mostra, sem se dar conta do que mostra. Fá-lo sob um manto de palavras sonantes, mas todas de outras eras, de outros tempos, por isso, totalmente vazias de actualidade, de contemporaneidade, de hoje, de século XXI. Dois assuntos, entre outros, dominam esta última edição, até pelo espaço que ocupam nas suas páginas. O principal é o das Jornadas Pastorais para o clero da diocese do Porto. As Jornadas já aconteceram. A notícia, por isso, é sobre o facto já consumado. Pensam que desses dias de trabalhos, cerca de uma semana, saiu alguma coisa de jeito? Que aconteceu algo de novo aos padres-párocos que estiveram reunidos na Casa Diocesana de Vilar, Porto? Nada. Eles - faltaram muitos - estiveram lá. Com bispos e tudo. Mas o resultado é um grande e tremendo vazio. O texto que se lhe refere contém muitas palavras. Nenhuma boa notícia. Nenhuma mudança de fundo. Nenhum novo começo. Apenas palavras, muitas palavras. E nem sequer as palavras são novas, no que poderia constituir uma operação de cosmética pastoral. Não! São as mesmas velhas palavras de sempre. Eclesiásticas q. b. e clericais que tresandam. Sobre coisas que não interessam nem ao menino-jesus. Palavras com Espírito Santo? Nenhuma. Palavras geradoras de novas posturas pastorais? Nenhuma. Palavras conspirativas, como as que o Jesus do Evangelho de João diz / grita ao doente-defunto Lázaro de Betânia? Nenhuma. E que falta de palavras assim todas, todos nós, crentes e ateus, hoje sentimos. Mas nenhuma aconteceu nas Jornadas. Por isso, os párocos, a maior parte, já de muita idade, que ainda se deram à maçada de vir às Jornadas a eles destinadas, lá tiveram de regressar, no final, de mãos e pés atados, de olhos vendados, às paróquias-túmulo onde habitualmente residem e onde continuam a funcionar - o verbo é o certo, apesar de chocante, porque funcionários é o que fez deles o Sistema eclesiástico que um dia os contratou - mais por força do hábito, da inércia, da rotina, do que pela força do Espírito Santo, o de Jesus. Este, faz até os velhos ter sonhos, como canta eufórico o profeta Joel, citado pelo autor do Evangelho de Lucas, no início do seu segundo volume. Mas para o Espírito Santo, o de Jesus, actuar no decurso das Jornadas, tinha de ser acolhido nelas e ser o seu principal protagonista. Não foi. Foi lá o grande ausente. Porque lá, onde está o Poder eclesiástico, não pode estar o Espírito Santo, o de Jesus. E, se estiver, será sempre como incómodo Sopro, como subversivo e conspirativo Vento. Também pode ser como suave brisa, mas só a da Fecundidade do Amor Criador-libertador que sempre derruba o Poder, também o Poder eclesiástico e todos os seus tronos sagrados, e faz novas todas as coisas. Ora, o texto-notícia da VP sobre as Jornadas, apresentado em forma de comunicado em vários pontos, é a expressão mais acabada do que aqui acabo de escrever. O que diz, di-lo em muitas palavras, mas é igual a nada. Por ele se vê que nas Jornadas não aconteceu nada. O Vento, o Sopro, o Espírito de Jesus não passou por lá. Não levantou ninguém. E, se esteve e levantou alguém, o texto-comunicado não o diz. Mas não esteve. Porque uma Igreja, como a do Porto e de Portugal, mesmo já cadáver e a cheirar mal, como o Lázaro da comunidade-Igreja de Betânia, sempre que é atravessada pelo Espírito Santo, o de Jesus, logo sai do túmulo, das estruturas eclesiásticas em que está sepultada, rebenta com as amarras das mãos e dos pés e com as vendas dos olhos e passa a ser Igreja ressuscitada, insurrecta, levantada, subversiva, conspirativa, centrada no Essencial que é simplesmente Evangelizar os pobres e os povos. O semanário da Diocese do Porto não nos dá notícia de nada disto. Apenas do rotineiro, do mesmo, do já sabido, do de sempre, do previsível. Como num velório. O texto-comunicado até poderia muito bem ter sido escrito antes das Jornadas, tão previsíveis elas foram. Querem ainda mais sinais de que a Igreja do Porto e do país está mortalmente doente, ou mesmo já morta? O outro assunto que ocupa (quase) uma página desta edição do semanário da Diocese é igualmente revelador. Trata-se do chamado "Ano Gonçalino", em Amarante. Pelos vistos, completam-se, em 2009, 750 anos sobre a morte do chamado São Gonçalo (de Amarante). E o pároco, padre Amaro, não está com meias medidas. Tantos anos merecem, no seu pastoral entender ainda não-evangelizado, celebração à altura. Para ele, o já lendário Gonçalo de há 800 anos continua a ser, neste nosso século XXI, modelo de santidade e de humanidade para as crianças, os jovens, os pais, as mães e os idosos. Por isso, um ano inteiro dedicado a ele. O facto, na sua ingenuidade pastoral e também na sua brutalidade, diz bem por onde anda a Igreja do Porto e de Portugal. Distante de Jesus, o de Nazaré. Ocupada com folclore, com santinhos, com tradições, com lendas, com estórias sem História. Incapaz de agarrar o Hoje, vira-se para o Ontem, quanto mais remoto melhor. Incapaz de se deixar agarrar pelo Hoje, deixa-se agarrar pelo Ontem, quanto mais remoto e lendário melhor. É assim uma Igreja santeira, milagreira, infantil, casamenteira, igrejeira, folcórica. Sem Espírito Santo, o de Jesus. Sem Hoje. Ocupada e entretida com o acessório, a cera, as toalhas de altar, os paramentos, os ritos, as imagens mortas e inestéticas, as lendas, o imaginário mais ou menos maravilhoso. Sem nenhuma audácia para o Real, para transformar o Real. O pároco, ele próprio, dá conta, na VP, do que vai ser o "ano gonçalino" e deixa perceber todo o seu infantil entusiasmo pela efeméride que o afastará e ao seu povo ainda mais de Jesus, o de Nazaré, do Evangelho vivo de Deus que Jesus, o Crucificado / Ressuscitado, é. E como, além de pároco de Amarante - o que já lhe dá um suplemento de Poder que os demais representantes do Poder da região não podem deixar de ter em conta - o Padre Amaro ainda é, por acumulação, desde há algum tempo, "patrão" do poderoso Colégio São Gonçalo, sedeado na cidade de Amarante, não é difícil antever o que vai ser de anti-Igreja e de anti-Jesus o chamado "Ano gonçalino", já em curso. É, pois, esta a Igreja do Porto e do país que temos hoje. Contudo, não se aflijam por aí além. Porque o Espírito Santo, o de Jesus, se já não pode contar com ela para fazer novas todas as coisas, há-de fazê-las mesmo sem ela e, porventura, até contra ela. Por isso, a notícia de que a Igreja do Porto (e do país) está ferida de morte, ou até já morta há quatro dias, como o Lázaro da Igreja de Betânia, tem também o seu lado de boa notícia. Este nosso século XXI e o terceiro milénio conhecerão a Igreja que nunca antes se viu / conheceu, e que já está aí em gestação. Só pelos frutos que produz se saberá dela. Porque a sua presença na História será tão discreta e tão fecundamente maiêutica, quanto o Espírito Santo, o de Jesus. É óbvio que desta Igreja o semanário da Diocese do Porto não d(ar)á notícia. Ela é demasiado viva, subversiva, conspirativa, espiritual, para ter lugar nas suas páginas. O Poder eclesiástico que mata a Igreja do Espírito Santo não lho permite. Por isso, quem quiser saber dela tem de viver atento aos Sinais dos Tempos e saber lê-los / interpretá-los. Acreditem que hoje são já muitos os motivos que temos para nos alegrarmos com o que o Espírito Santo, o de Jesus, está aí a realizar na História, também com ela.. Alegremo-nos, então! Eucaristicamente.
2008 JANEIRO 23
Inopinadamente, a Confissão de joelhos aos pés de um clérigo católico, sentado algures num confessionário inesteticamente plantado nas igrejas paroquiais e capelas abertas ao culto, voltou ao debate em Portugal por meio de duas crónicas do meu querido amigo Frei Bento Domingues, nas páginas do PÚBLICO. Pelos vistos, entre as duas crónicas, publicadas em dois domingos seguidos, ainda houve um encontro-debate ao vivo com o próprio Frei a coordenar, no Convento de São Domingos, e que terá sido muito participado e muito acalorado, ao ponto de o Frei dominicano chegar a ser alertado por alguns dos presentes do perigo que correria de, juntamente com a água suja do banho, deitar fora também o bebé acabado de ser lavado nela. Fico espantado / escandalizado com tudo isto, pois pensava que a Idade Média alta, que no Ocidente, se estendeu até ao Concílio Vaticano II, realizado tardiamente já na segunda metade do século XX, tinha falecido e sido definitivamente sepultada. Pelos vistos, não foi. Pelo menos, para um certo sector da nossa Igreja católica, necessariamente reduzido, porque, se reduzido já é hoje o número de católicos que ainda se assumem como praticantes de missa ao domingo, muito mais reduzido terá de ser o número dos que se assumem praticantes da Confissão semanal, mensal, ou mesmo anual. Não sei, em tudo isto, o que mais me causa espanto / escândalo: se a paciência e a bonomia do meu amigo Frei Bento, se o catolicismo medievo ainda activo no século XXI, e em Lisboa, onde o referido debate aconteceu e onde as duas crónicas do PÚBLICO foram dadas à luz. O facto da Confissão auricular em si, histórica e objectivamente tão inquisitorial e pidesco, inumano e anti-jesuânico, não mereceria, obviamente, qualquer referência neste meu Diário Aberto. Ignorá-lo, seria certamente o mais avisado. Mas não quero que restem dúvidas a este respeito, não vá o meu silêncio poder ser interpretado como concordância com o que foi dito e, pelos vistos, ainda está a ser praticado por aí em certas paróquias que se podem ter por muito católicas, mas jesuânicas é que elas não serão. Eis. Desde que o IV Concílio de Latrão (1215) a tornou obrigatória para todos os fiéis católicos - então, praticamente, toda a população que habitava os territórios da Cristandade Ocidental - a Confissão auricular nunca mais foi sacramento da Igreja, muito menos de Jesus. Tornou-se, isso sim, uma arma espiritual e também social - e que arma! - do Poder eclesiástico e clerical. Uma arma de horror. E de terror. Terrorismo sob a capa de virtude, sem dúvida o pior terrorismo. Nesse dia, as populações, se fossem populações em estado de maioridade - e pode haver Cristianismo de Jesus sem pessoas / populações em estado de maioridade?! - ter-se-iam rebelado contra o IV Concílio de Latrão e suas decisões, e se os eclesiásticos-mor que estavam à frente das respectivas dioceses ainda persistissem na deles, deveriam pura e simplesmente deixar de continuar a frequentar os espaços eclesiásticos onde eles eram senhores e amos - Jesus, o de Nazaré, também não deixou de frequentar o Templo de Jerusalém?! - pelo menos, até que semelhante decisão / norma fosse abolida. O carácter obrigatório da Confissão retirou-lhe automaticamente tudo o que aquela acção sacramental pudesse ainda ter de humano e de salutar para certas pessoas. O que até então poderia ser graça, passou automaticamente a ser tortura. E que tortura! Nenhum de nós é, felizmente, desses funestos e medonhos tempos de domínio clerical e eclesiástico absoluto. Mas dá para perceber, até por esta decisão / norma da Confissão obrigatória, que eram sinistros e medonhos tempos, bem piores do que os sinistros e medonhos tempos da Pide, nos anos do ditador Salazar, de má memória. Sou presbítero da Igreja do Porto, nascido por ocasião do Concílio Vaticano II (Agosto de 1962) e conheci a Confissão, primeiro, no papel de "réu", como "obrigação" semanal, durante os anos do Seminário e nos primeiros anos de exercício do ministério presbiteral, e, já depois de ordenado, também no papel de "juiz". Recordo-me, como se fosse hoje, o horror que era aquele momento semanal, a humilhação que era aquela prática da confissão semanal no Seminário. Na capela do dito, os que desejavam confessar-se com a regularidade semanal (quem não desejasse passaria a ser olhado de viés pelos demais e pelos próprios "superiores" que controlavam todos os nossos passos, um dia após outro), teria de deslocar-se, durante a celebração da missa diária, do seu lugar habitual no banco e dirigir-se, perante toda a assembleia, para o fundo da capela, onde aguardava, juntamente com outros, a vez de se confessar. O acto decorria numa salinha ao fundo da referida capela, onde o "juiz" nos esperava todos os dias, àquela mesma hora, durante a celebração da missa, oficiada e presidida por um outro padre. Os "penitentes" daquele dia e daquela semana juntavam-se todos ali ao fundo. E entravam na salinha, cada qual na sua vez. O padre "juiz", de preto vestido, esperava-nos sentado numa cadeira, com um genuflexório ao seu lado, onde o "réu" que entrava deveria ajoelhar-se e passar a confessar todos os seus pecados, cometidos desde a última confissão que havia sido há precisamente uma semana. O mais complicado era arranjar pecadilhos novos, para não estar sempre a repetir os mesmo, semana a semana. Uma verdadeira tortura, para adolescentes e quase-jovens que já então todos éramos, no Seminário de Vilar. E tudo se manteve igual, depois, no Seminário da Sé, já em pleno curso de Teologia. Para lá desta tortura semanal, havia ainda, de tempos a tempos, a passagem obrigatória pelo director espiritual. Era por ordem alfabética, para que ninguém escapasse. O encontro realizava-se a sós, no quarto do padre director espiritual do Seminário. Nem vos digo os calafrios que sentíamos quando chegava o dia e a hora de termos de ir ao "picadeiro". Íamos manifestamente como "réus". A humilhação era total. Libertação? Quem pode falar aqui de libertação nesta prática regulamentada e imposta? Só respirávamos de alívio, quando o director espiritual nos dava "alta" e podíamos regressar à nossa intimidade, à nossa privacidade, sempre controlada, sempre vigiada, que para tanto havia em cada corredor, em cada salão, nos recreios, pelo menos, um prefeito, padre, mas prefeito, vigilante atento, autoritário e repressivo / agressivo, sempre que fosse achado necessário. Sinal de Graça e de Perdão esta prática eclesiástica? Sinal de Misericórdia? Horror, isso sim. Tortura, isso sim. Total devassa da nossa privacidade e da nossa intimidade, isso sim. O que mais me espanta / escandaliza, ainda hoje é como houve padres que se prestaram, como infantis ou adolescentes, a estes inquisitoriais papéis. Como acataram essas normas. Como não lhes desobedeceram. Como não se indignaram perante elas. Como não objectaram contra elas. Como as realizaram "santamente", "piamente". Como acharam normal, saudável, santificador este tipo de práticas, manifestamente demoníacas, opressivas, inquisitoriais, pidescas, catastróficas no harmonioso desenvolvimento dos candidatos a padre/presbítero. Depois de ordenado, vi-me, de um dia para o outro, no duplo papel de ainda "réu" (a obrigação de me confessar uma vez por semana mantinha-se! Pelo menos, eram essas as instruções que trazia para alimentar a minha vida espiritual presbiteral e que eu inicialmente cumpri escrupulosamente) e, agora, também no de "juiz". E foi no exercício deste papel de "juiz" que tudo veio a desmoronar-se. Até hoje. Se o papel de "réu" perante o padre "juiz" já me perturbava e humilhava, o de "juiz" tornou-se-me absolutamente intolerável. Eu, um "puto" à beira daqueles homens e daquelas mulheres que tinham idade para serem meus pais, mães, avôs, avós, sentado e eles de joelhos diante de mim, a tremerem por todos os lados de vergonha e de humilhação, e tudo isto, para que Deus lhes perdoasse os pecados, era absolutamente intolerável. Era o intolerável. A vergonha das vergonhas. Um verdadeiro pesadelo, antes de mais para mim. Era a Humilhação no seu pior. O caso atingia o paroxismo da humilhação, quando, de longe a longe, um colega padre como eu fazia questão de se confessar a mim, de ajoelhar perante mim, de quase me forçar a ouvi-lo de confissão. Até suores frios subiam pelo meu corpo, nessa ocasião. Sacramento de Deus, isto? Sinal de Graça e do Amor de Deus, este rito? Ou o horror dos horrores?! A princípio, ainda tentei levar as coisas para o campo da des-confissão. Deixava que as pessoas se aproximassem para o "confesso", mas, depois, tentava rir-me com elas e libertá-las daquele pesadelo, no género: Mas acha que isso que me diz é algum pecado? E foi para confessar essas ninharias que me veio procurar? Não acha que é tempo de nos deixarmos destas coisas sem sentido? Deus pode estar envolvido nestes actos eclesiásticos católicos? E se, em vez de andarmos nisto de ano para ano, crescêssemos todos mais na Fé? Consegui, em muitas ocasiões, que as pessoas passassem dos nervos miudinhos para a gargalhada, quase escandalosa dentro do templo. E essas, sim, terão sido as únicas vezes em que o sacramento da Confissão aconteceu! Com o "réu" e o "juiz" a rirem a bom rir, a bandeiras despregadas! Este problema de ter de atender assiduamente de confissão as pessoas pôs-se-me, sobretudo, quando fui pároco. Nas aldeias, a obrigação de se confessar era escrupulosamente cumprida por quase todas as pessoas, nomeadamente, na quaresma / páscoa. Uma verdadeira estupada! Chegavam a formar-se longas filas na igreja paroquial, como de verdadeiros condenados ao patíbulo. E o padre lá estava a tentar dar vazão a tudo aquilo, em condições que tinham tudo de tortura, inclusive para ele, nada de graça. Foi sobretudo nesses poucos anos que eu dei uma volta de mais de 180 graus na minha consciência. Praticamente, recusava-me por princípio, a ouvir a lista de pecados que as pessoas traziam mais ou menos engatilhada. Aproveitava aquele momento para evangelizar as pessoas, uma a uma - por isso, cada encontro era mais demorado - e assim tentar convencê-las de que aquela fosse a última vez que se viessem confessar, porque Deus, o de Jesus, não queria, não quer, não pode querer nada destas coisas objectivamente abomináveis. Estas coisas, dizia-lhes com convicção, são uma injúria ao seu Nome. São puro domínio clerical e eclesiástico sobre as vossas consciências. São uma prepotência. Um abuso. Um sacrilégio. Uma devassa intolerável. Obviamente, os meus colegas párocos das redondezas acabaram por saber das minhas "confissões", já que há sempre alguma "ovelha" mais fiel ao amo e senhor do "rebanho" que vai alertá-lo para o que de subversivo e de libertador um outro pároco andava por ali a fazer no seu "redil". E a verdade é que eu, ainda pároco de Macieira da Lixa, lá deixei de ser convidado pelos párocos vizinhos para as chamadas "confissões de desobriga", na quaresma de cada ano. O que, para mim, foi um verdadeiro alívio. E, na paróquia, avancei com audácia criadora para a celebração comunitária do Perdão, onde a Palavra escutada e o Espírito que nela Sopra actua(va)m misteriosamente na consciência da assembleia e na de cada um dos seus membros, sem que eu tivesse de interferir directamente, caso a caso. Desde então, eu próprio, nunca mais me vi no papel de "réu" - nunca mais me confessei! - nem no papel de "juiz" - nunca mais confessei ninguém. Acolho as pessoas e sou acolhido por elas na Comunidade que reúne em nome e em memória de Jesus, e o Espírito de Deus que nos conhece melhor do que nós próprios é quem nos perdoa e recria, nos faz Novos a cada instante. E Confissão, como Tribunal da Inquisição, nunca mais! Por isso, em verdade, em verdade vos digo: Não temam, vocês também, deitá-la fora juntamente com a água suja do banho. Façam-no sem hesitar. Ela é a água suja do banho! Uma prática eclesiástica católica sem remissão. Mantê-la, século XXI adiante, seria perpetuar a Idade Média que nunca deveria ter existido. Evangelizar os pobres é preciso. Confessar nestes moldes eclesiásticos não é preciso. É até pecado! Populações evangelizadas - para Evangelizar os pobres é que existem o ministério presbiteral e o ministério episcopal na Igreja - são populações convertidas, perdoadas, eucarísticas, sororais, fraternas, militantes, alegres, políticas, metidas não nos templos e nos ritos, mas no mundo e na História, como o fermento na massa, a luz no meio da cidade, o sal da terra, a sentinela que alerta para a aproximação do Inimigo da Humanidade que hoje vem até ela disfarçado de Deus, o Senhor Deus Dinheiro e o Senhor Deus Religião, para que ela permaneça, séculos e séculos, infantil, em lugar de crescer como Jesus em idade, estatura, desenvolvimento, sabedoria e graça. Vão por mim. Aceitem o desafio e tornem-se mulheres, homens adultos na mesma Fé de Jesus, não nessa fé religiosa e eclesiástica que é sobretudo medo e infantilismo. E hão-de ver que o resto virá por acréscimo.
2008 JANEIRO 22
Enquanto os trabalhadores portugueses estão a ir cada vez mais morrer a Espanha, nas estradas de Espanha (só ontem, foram mais quatro!) e nas obras de construção civil de Espanha - mesmo assim, o nosso Pinóquio primeiro-ministro não se cansa de repetir que o país nunca esteve tão bem como nestes últimos anos em que ele é o chefe do Executivo e, pelos vistos, nem sequer é remodelável, a não ser que haja uma Insurreição Política do Minho ao Algarve e dos Açores à Madeira, o que de momento não se afigura previsível - também o Grande Dinheiro que hoje domina o Mundo, está aí manifestamente cada vez mais louco e a deixar enlouquecido o Planeta. Os jornais de hoje enchem as suas primeiras páginas com títulos onde a palavra "pânico" é das mais frequentes. Recorrem igualmente a uma outra, escrita e pronunciada em inglês, para só alguns eleitos entenderem, mas que, trocada em miúdos, quer dizer uma "gigantesca catástrofe financeira", das piores dos últimos dez anos. Como um daqueles sismos que, lá onde ocorrem, deixam cidades e aldeias soterradas, autênticos cemitérios onde as populações, de repente, foram enterradas vivas para sempre. No meio de toda esta demência, parece que já nem os jornalistas se aproveitam. Todos, ou quase todos limitam-se a ser cada vez mais mensageiros do Grande Dinheiro, em vez de serem os mais lúcidos e aguerridos mensageiros das vítimas do Grande Dinheiro. Aparecem todos, também eles, muito aflitos com a catástrofe e o sismo planetário do Grande Dinheiro, mas como se toda a nossa realidade fosse essa e não houvesse povos, nem populações, nem pessoas concretas. Eles próprios, enquanto seres humanos, como que desaparecem, para ficar apenas o mensageiro-pé-de-microfone-e-digitalizador-de-computador ao serviço do Grande Dinheiro. Muito mal, muito doente vai o mundo, quando até os mensageiros só têm olhos e ouvidos para o Grande Dinheiro e são uma espécie de altifalante do Grande Dinheiro e das suas minorias cada vez mais reduzidas e cada vez mais invisíveis e cruéis que estão sempre por trás dele, a mexer os cordelinhos. A situação é assim apresentada como um sismo, sim, mas sem causas e sem responsáveis. Porque é da natureza do Grande Dinheiro ser sempre mentiroso, comete o crime, mas esconde-se, nunca dá a cara, a culpa nunca é dele. É infalível. Ele sempre faz o mal e a caramunha. Por isso, depois de tudo, apresenta-se invariavelmente de mãos limpas de sangue, de colarinho impecavelmente branco e sem pecado. E não é que os povos que ainda trabalham e ainda produzem riqueza - o Grande Dinheiro há muito que já se deixou disso e faz / desfaz fortunas da noite para a noite (do dia, ele não gosta nada, como também não suporta a Luz), apenas com recurso aos seus jogos da Bolsa, ao Mercado sem regras a não ser as impostas por ele, e a muitas outras maneiras perversas, cada qual a mais obscena e assassina. Os povos não se apercebem de nada, são cada vez mais analfabetos nestes escusos caminhos. Tão pouco as escolas públicas e privadas alfabetizam nesta direcção, limitam-se às rotinas do dia a dia e a interpretar o que aparece à superfície, sem nunca irem ao âmago da Perversão e do Assassínio organizados que é hoje o Grande Dinheiro à solta. Por este andar, o nosso Mundo poderá implodir a qualquer momento, porque o Grande Dinheiro é demente, é louco, é como um gigantesco buldozer que avança descontrolado e que nada nem ninguém conseguem fazer parar. Arrasa tudo por onde passar. E hoje ele passa por todo o lado, está em todo o lado, é o Senhor Deus Dinheiro omnisciente, omnipresente e omnipotente, como, durante séculos e séculos de catequeses eclesiásticas terroristas e mentirosas, se ensinou que Deus era. Mas esses são os três atributos, não de Deus, o de Jesus e dos pobres, mas do Deus-Ídolo, do Deus que nas nossas impotências e nas nossas limitações imaginamos e projectamos para fora de nós. Os três hoje encaixam às mil maravilhas no Grande Dinheiro, o Senhor Deus Dinheiro que destronou todos os outros deuses e deusas do passado, do Paganismo religioso. E, se ainda os não destronou de vez, é porque, de momento, eles podem ser-lhe úteis. E ele consente que eles se mantenham, na condição de lhe serem absolutamente leais e meros executores da sua vontade, do seu projecto. Até ao dia em que o Senhor Deus Dinheiro se tenha tornado tão eficiente em todos os domínios, que acabará de vez com eles, para ficar apenas ele a reinar. Estamos todos a alimentar esta nova Besta do Apocalipse, só que à beira dela, a antiga Besta não passa de um tigre de papel. O Grande Dinheiro criou as Bolsas, segundo regras que lhe convêm e, desde então, joga com elas como mais lhe convém. Os próprios Executivos das nações hoje não passam de ingénuos meninos de coro de antigamente, uns eunucos políticos e uns bobos da corte que correm / voam como borboletas tontas de um lado para o outro, sem saberem por que correm e atrás do que correm. Simplesmente correm, para parecer que fazem alguma coisa. Na verdade, só ajudam a Nova Besta a medrar. Os mais generosos, mas também porventura os mais ingénuos, ainda chegam a pensar que lhe vão fazer frente e travar os seus devoradores apetites. Puro engano, que o Grande Dinheiro não brinca em serviço, nem se distrai com as distracções que vende aos povos. Saibam que, mesmo esses Executivos mais generosos só se mantêm nos cargos, enquanto a sua permanência for útil, vantajosa, ao Grande Dinheiro. Quando deixar de ser, eles aparecem mortos na manhã do dia seguinte, se forem achados perigosos, ou simplesmente despedidos / promovidos a administradores desta ou daquela grande empresa do Grande Dinheiro, com escabrosos salários, de tão elevados, mas que eles aceitam, sem chegarem sequer a perceber que esse é o preço do seu silêncio, da sua morte antecipada, da sua total inutilidade política daí em diante. Quantos destes ex-Executivos é que hoje não estão já depositados como objectos, como estátuas de sal, totalmente inúteis e estúpidos, nas prateleiras dos estaleiros dourados do Grande Dinheiro, à frente deste ou daquele Departamento continental ou mundial? E ainda há quem lhes inveje a sorte e se mostre escandalizado com as somas de milhões e milhões que eles recebem da parte do Grande Dinheiro. Até esse ponto vai a ingenuidade das populações e dos povos, o nosso analfabetismo político, a nossa ignorância, a nossa demência, a nossa cegueira. Nem sequer vemos que, quando o Grande Dinheiro quer matar alguém, sem derramar sangue, uma operação ainda perturbadora para certas sensibilidades com restos de humanidade, o que ele tem assim mais à mão para o conseguir e ainda suscitar inveja nos próximos deles, é empanturrá-los de dinheiro, para que eles nunca mais sejam gente, nunca mais sejam pessoas, nunca mais sejam humanos. O crime é perfeito e o assassinado ainda fica grato o resto da vida ao seu assassino, o Grande Dinheiro. Em verdade, em verdade vos digo: A Demência anda hoje à solta e está aí cada vez mais generalizada. Mais um pouco de tempo e o nosso mundo do século XXI será como as duas bíblicas cidades de Sodoma e de Gomorra, onde, segundo a narrativa, já nem o mínimo de dez justos havia, em atenção aos quais as duas cidades não seriam destruídas. Assim, foram destruídas. Saibam que se trata, evidentemente, sobretudo duma narrativa teológica, carregada de sentido e de alerta, também para o nosso Hoje. Repito: A Demência anda à solta e está cada vez mais generalizada. O causador dela, o pai desta Demência, é - o que mais podia ser? - o Grande Dinheiro. Desde que ele se disfarçou de Senhor Deus Dinheiro, fonte de felicidade e de bem-estar para as pessoas e os povos - uma coisa ele já conseguiu: que todas as pessoas sonhem com ele e sonhem ser ricas e festejem até às tantas, rodeadas da inveja dos vizinhos, se alguma vez lhes sair o euromilhões - o Grande Dinheiro deixou de ser temido e combatido, para passar a ser cobiçado e festejado. Ele é, por natureza, assassino, genocida até, não consegue existir sem deixar de matar a vida, as pessoas, os povos e a Natureza. Mas passa por ser benfeitor e distribuidor de felicidade e até de festa. Ele é mentiroso e pai de mentira, não faz mais do que mentir e matar a toda a hora e instante, mas tudo o que depois diz através dos seus grandes media é tomado como verdade e seguido à risca em todo o mundo. Nem os Executivos das nações, nem os Executivos das Igrejas e das Religiões, nem os próprios povos do mundo descobrem a marosca e vivem todos ao serviço do Grande Dinheiro, como sempre fizeram, no passado, em relação aos deuses e deusas do Paganismo religioso. Só que hoje o Grande Dinheiro, em comparação com esses deuses e deusas do passado, é pura Crueldade, pura Mentira, puro Assassínio. É omnisciente, omnipresente, omnipotente. É a Inteligência demente no grau absoluto. E cientificamente organizada. Nada escapa ao seu controlo, ao seu olho electrónico espalhado por toda a parte, até em nossas casas, se tanto for preciso, e sem que os próprios sequer suspeitem. O mal, o nosso mal foi termos consentido que o Grande Dinheiro se tornasse independente dos Povos, o mesmo é dizer, da Política. E se tornasse cientificamente organizado. Na nossa demência e ambição do tudo dominar e tudo possuir, criamos este monstro que agora dificilmente controlaremos. Com a agravante de que tão pouco estamos sequer interessados em controlá-lo, apenas em servi-lo e tentar aproveitar das migalhas de muitos milhões que ele distribui a quem se mostrar mais dócil perante ele e as suas loucuras. Corremos, por isso, sério risco de extinção como Humanidade, esta Humanidade que hoje somos. A Evolução, no decurso da qual um dia também nós, seres humanos, acontecemos, deveria passar a ser, a partir desse momento, conduzida por nós, que para isso fomos criados pelo Deus Vivo, pelo Deus Amor, no decurso da Evolução. Porém, fascinados com semelhante missão, em vez de nos assumirmos responsavelmente, fomos a correr vender-nos ao Inimigo. Tornamo-nos idólatras, sem sequer percebermos que isso fazia de nós uns monstros. O resultado está aí cada vez mais à vista. O Grande Dinheiro é hoje a Demência em acção, a Mentira em acção, o Homicídio / Genocídio em acção. Servi-lo é tornarmo-nos dementes como ele, mentirosos como ele, homicidas / genocidas como ele. Aqui chegamos neste início do século XXI. Prosseguiremos esta demência, esta mentira, este homicídio / genocídio? Ou seremos ainda capazes de perceber que já fomos longe de mais e mudamos de Deus, de vida e de rumo, regressamos à via da Inteligência sapiente, do Amor recíproco, da Liberdade / Responsabilidade perante a História? Regressamos ao nosso papel de timoneiros da História, de sujeitos, de protagonistas? Se ainda quisermos ter Futuro, uma acção temos de fazer já, com lucidez e audácia: decapitar o Grande Dinheiro, antes que ele tome de vez e de forma irreversível o controlo da História, e regressarmos à Política como a arte de amar o Próximo. Se o não fizermos já, então a Humanidade e o Planeta serão em breve e de novo as cidades de Sodoma e Gomorra, mas agora à escala global. Saibam, entretanto, que, se formos por esta Demência, nem assim tudo estará definitivamente perdido, porque mesmo depois da global destruição, a vida com dimensão humana e sororal / fraterna voltará a rebentar dos escombros. Porque há sempre um resto de resistentes que não se vergam ao Grande Dinheiro, por mais que ele se faça passar por Senhor Deus Dinheiro. Morreremos todos, resistentes e idólatras, na Grande Catástrofe, como todos os mais, mas as mortes dos resistentes serão como as do Grão de Trigo. Ao terceiro dia, já estarão aí a garantir Futuro à Humanidade, num Novo Começo que, desde já, está aí em gestação. Não vêem?! Então não sabem que é esse o principal Serviço libertador e salvador - messiânico - que as Vítimas assassinadas, estranguladas oferecem à História? Essa Fecundidade da Vida assassinada, essa Potência da Fragilidade espezinhada, esse Futuro da Humilhação suportada, nunca o Grande Dinheiro poderá, conseguirá destruir. Por isso é que ele, por mais que mate, que roube, que minta, que humilhe, que devasse, que espezinhe, nunca terá Futuro. O Futuro é exclusivamente dos que lhe resistem e, sobretudo, das vítimas que ele faz aos milhares de milhões, geração após geração! O que escolhemos? Onde nos posicionamos? Com que(m) iremos? Com o Grande Dinheiro? Com os que lhe resistem e escolhem ser pobres e manter-se pobres por toda a vida? Com as inúmeras vítimas que ele diariamente faz? Escolher é preciso. Decidir é preciso. Já.
2008JANEIRO 21
Foram contundentes, mas dificilmente irrefutáveis, as minhas palavras no debate sobre a Pobreza, no passado sábado, na cidade de Penafiel. O Café Sociedade foi pequeno para conter todas as pessoas. Mas ninguém arredou pé, apesar da contundência das minhas palavras. Fui o único, entre os vários elementos convidados para a mesa do debate que agarrei o problema pelos cornos e pus os pontos nos iis. Nestas coisas, não suporto o politicamente correcto. Nem o moralismo. Acho que tem de ser pão, pão, queijo, queijo. Falar claro é preciso. E mesmo isso é pouco, comparado com o facto massivo da Pobreza que hoje propositadamente produzimos e mantemos no mundo. O facto da Pobreza em massa tem de ser visto em toda a sua amplitude e não apenas caso a caso, família a família. O crime da pobreza é um crime estrutural. E, ou lhe pomos fim, mediante decisões económicas e políticas drásticas, estruturais, ou somos monstros dos piores. Ainda pensei que alguns dos presentes me iriam cair em cima, no final da minha intervenção. Ou saíssem do Café. Mas não. Ninguém arredou pé. E foi impressionante o silêncio, durante a minha comunicação. As reacções orais, no final, foram, senão de rasgado aplauso - tomei isso como um bom sinal - de concordância e de manifesta incomodidade interior. A consciência das pessoas presentes ficou abalada e pesada. Interpelada. Alguém, na hora, usou a expressão "Senti-me julgado pelas suas palavras". Disse-o não no sentido de quem se sentiu acusado, mas de interpelado. Só pude alegrar-me com esse testemunho que espelhava bem o da generalidade das pessoas presentes. Porque a Palavra, quando sai atravessada e carregada de Espírito, o do Deus de Jesus que é também o Deus dos pobres, é um dos efeitos que produz em quem a ouve / acolhe. Sou sempre o primeiro ouvinte da Palavra que sai da minha boca. Por isso, sou sempre o primeiro a ser julgado / iluminado / tocado / interpelado / transformado por ela. A Palavra, quando anda carregada e atravessada pelo Espírito de Deus, o de Jesus e dos pobres, não condena ninguém. Liberta-nos, torna-nos mais humanos, menos monstros, mais próximos uns dos outros e sobretudo dos pobres, mais abertos, mais livres e por isso mais responsáveis uns pelos outros e pela História. Num primeiro momento, a sensação é que a Palavra nos condena. É por isso uma sensação de desconforto. Mas logo percebemos que esse desconforto é como o do bebé recém-nascido. De repente, vê-se fora do útero materno, onde sempre havia vivido até então. E de um momento para o outro, passa a ser um novo ser fisicamente separado, autónomo, da mãe, independente, carregado de futuro que ele próprio há-de abrir e percorrer, num processo sem fim. O desconforto é total. Mas, ou assim, ou nunca chegaremos a ser nós próprias, nós próprios. Ora, a Palavra com Espírito, o do Deus de Jesus e dos pobres, quando é escutada / acolhida / praticada produz em nós um Novo Nascimento, um Novo Começo. É como um Novo Parto. Não segundo a Carne e o Sangue, ou segundo a Ideologia do Sistema-Ventre que é a Ordem Mundial onde estamos fisicamente situados, mas segundo o Espírito do Deus de Jesus e dos pobres. O desconforto é por isso inevitável, porque entre a Ideologia da Ordem Mundial e o Espírito do Deus de Jesus e dos pobres não há qualquer compatibilidade, nem reconciliação possível. Os dois são entre si como a Treva e a Luz, a Mentira e a Verdade. Onde estiver um, o outro não pode estar. A Treva odeia de morte a Luz. A Mentira odeia de morte a Verdade. E quando os da Luz e da Verdade tentam reconciliar-se com os da Treva e da Mentira acabam sempre reféns da Treva e da Mentira. Nem frios nem quentes. Por isso, vomitados da boca de Deus, o de Jesus e dos pobres. As Religiões e as Igrejas quando se convertem em religiões, é por essas águas turvas que navegam. Os partidos políticos que se formam para tomar o Poder, chegar ao Poder, partilhar do Poder, é também por essas águas turvas que navegam. A Treva e a Mentira agradecem a umas e e outros. E concedem benesses, mordomias, bons salários, muitas regalias. Ainda que algumas, alguns pareçam muito aguerridos nas suas intervenções, não passam de tigres de papel, figurantes mais ou menos folclóricos. O mais que podem suscitar nos adversários / concorrentes dos outros partidos, das outras religiões são sorrisos de condescendência e de bonomia. Depois da refrega, já estão todos à mesma mesa - a dos privilégios - a disputar mais uns nacos de carne e a dividir o bolo entre todos, sem nunca chegarem a derrubar a mesa - a Ordem Mundial - que os alimenta a todos. Os pobres do mundo - as maiorias empobrecidas - é que nunca chegam a ter assento nela. E se algum membro dessas maiorias, porque excepcionalmente mais dotado, ronda a mesa dos privilégios, pode ser convidado a integrá-la, contanto que acate as regras do jogo. Porque, se for para a fazer implodir, depressa é assassinado. Porque a Treva e a Mentira não conhecem Moral, nem Ética, fora da sua própria moral e da sua própria ética, as do Assassínio e as do Roubo ou Exploração, ditadas pela Ideologia por que ambas se regem. Por isso é que Jesus, o de Nazaré, foi banido da Ordem Mundial. Não só foi morto, de morte crucificada, mas foi banido da Ordem Mundial. Em seu lugar, ficou um mítico Cristo que as Igrejas ditas cristãs, mas não jesuânicas, cultuam como o seu Deus, em tudo igual aos demais deuses inventados pelos nossos medos e pelos nossos crimes. Deuses à nossa imagem e semelhança. E à nossa medida. Ídolos que justificam todos os crimes da Ordem Mundial e dos seus chefes de turno, e até os abençoam, a começar pelo crime da Pobreza em massa. Jesus foi o primeiro Homem, o primeiro Ser Humano que nasceu e veio ao mundo para dar testemunho da Verdade. Ele é a Verdade. Ele é a Luz, escreve o Evangelho de João, logo no Prólogo. A Treva e os da Treva, a Mentira e os da Mentira não o suportaram. E a razão salta à vista: As obras deles, todas as obras deles são más. Sempre foram. E serão. Por isso é que os que um dia viemos, nascemos neste mundo, temos de escolher. Ou somos Treva e dos da Treva, Mentira e dos da Mentira - da Ordem Mundial em que estamos fisicamente inseridos e não há como lhe escapar - ou somos Luz e dos da Luz, da Verdade e dos da Verdade, mulheres e homens jesuânicos, companheiras / companheiros de Jesus, seguidores dele e prosseguidores do seu Projecto e das suas Causas. Porém, se para Jesus, a Luz e a Verdade, não houve lugar dentro da Ordem Mundial, tão pouco haverá para nós, à medida que formos como ele, formo ele. Daí, o desconforto que inevitavelmente sentimos, quando escutamos a Palavra carregada e atravessada pelo Espírito do Deus de Jesus e dos pobres. Acolhê-la e, sobretudo, praticá-la faz-nos nascer de novo, de Fora da Ideologia da Ordem Mundial, por isso, do Espírito do Deus de Jesus e dos pobres que Sopra dentro dela, para a derrubar, para a fazer implodir. D |