DIÁRIO ABERTO
2007 JANEIRO 29
Neste momento, ando às voltas com a dinamização de um leilão de obras de arte, marcado para o dia 17 de Maio 2007, às 21,30 horas, no Ateneu Comercial do Porto. O leilão é a nossa aposta maior para podermos levar por diante e, porventura, concluir a construção do BARRACÃO DE CULTURA, já iniciado aqui em Macieira da Lixa. ANTÓNIO REIS, da Companhia de Teatro SEIVA TRUPE, será o leiloeiro de serviço. A iniciativa tem como patrono maior HENRIQUE SILVA, Director do Museu de Arte Contemporânea de Vila Nova de Cerveira.
A este propósito divulgo aqui na íntegra a Carta-apelo que estou a tentar fazer chegar ao maior número possível de artistas, elas e eles, para que nos ofereçam alguma das suas obras para o leilão, e também ao maior número possível de potenciais compradores (coleccionadores e outros), para que se apresentem no leilão e adquiram as obras que lá vierem a ser leiloadas. Leia a Carta-apelo e faça sua, com imaginação e generosidade, esta Causa. Bem-haja. Eis:
1. Aqui, em Macieira da Lixa, onde, desde há três anos, decidi voltar a viver, numa casinha alugada, estamos apostados, eu e a Associação Cultural e Recreativa AS FORMIGAS DE MACIEIRA, em erguer um Sinal que ajude a despertar e a alimentar estilos de viver alternativos, fecundamente humanos e solidários. Baptizámo-lo BARRACÃO DE CULTURA. É a concretização de um sonho que nos aconteceu, no decurso dos encontros mensais da pequenina Comunidade Cristã de Base que, desde há 18 anos, animo e acompanho nesta freguesia do concelho de Felgueiras. Longe, por isso, dos centros do Poder, mas muito perto dos fecundos e libertadores ambientes que são as Margens, onde o Ser sempre leva a palma sobre o Ter.
2. Nesta altura, já está concluída e paga a chamada fase de construção em grosso ou de pedreiro. Esta construção, com tanto de simples como de potencialmente acolhedor, ergue-se num campo, situado no Lugar das Cruzes, que foi oferecido para esse fim pela associada Maria Laura, viúva, e os seus três filhos, dois dos quais (ela animadora num ATL, ele assistente social recém-formado e já a trabalhar em Lousada) integram presentemente a Direcção da Associação. O dinheiro gasto nesta 1.ª fase, 62.000 euros no total, resultou de voluntárias partilhas de companheiras/companheiros, segundo as possibilidades de cada qual; a parte mais avantajada resultou dos meus próprios direitos de autor que, de há anos a esta parte, decidi passar a partilhar integralmente para este fim. A Companhia de Teatro SEIVA TRUPE, do Porto, ofereceu-nos o produto integral das entradas de um espectáculo seu, levado à cena no Auditório Municipal de Lousada. E os nossos amigos cantores José Mário Branco, Tino Flores e Francisco Fanhais ofereceram o produto integral das entradas de um Concerto único que os três juntos como um só vieram realizar em Penafiel, num amplo espaço cedido pela respectiva Câmara Municipal.
3. Para concluirmos a obra já iniciada, necessitamos ainda de mais cem mil euros, no mínimo. E toda a nossa expectativa está agora concentrada num leilão de obras de arte, nomeadamente, pintura, a realizar dia 17 de Maio 2007, no Ateneu Comercial do Porto. Neste momento, temos já garantida a oferta de alguns quadros de outros tantos pintores amigos. Os dois mais conhecidos do público são o Director do Museu de Arte Contemporânea de VN de Cerveira, o pintor Henrique Silva, e o Mestre José Rodrigues que, há sucessivos mandatos, tem estado empenhadamente à frente da direcção da Cooperativa Árvore, do Porto.
4. Para que o leilão venha a ser um sucesso a favor da finalização do Barracão de Cultura, precisamos de muitas mais obras, oferecidas por muitos mais artistas, assim como precisamos de um bom número de pessoas que se disponham a participar no leilão e a adquirir as obras que lá vierem a ser leiloadas. Se tal acontecer, como sinceramente espero, concluiremos que não estamos só neste nosso sonho e mais garantidamente poderemos concretizar o Sinal que nos propusemos erguer nesta pequena freguesia do interior, cujo nome está para sempre ligado ao meu nome, desde que a PIDE, na passada década de 70, passou a frequentá-la com regularidade aos domingos de manhã, numa vã tentativa de reprimir o Vento da Liberdade e da Paz que já então aqui soprava, indomável. Nessa altura, como é público, revelou-se aqui, com o exercício do meu ministério presbiteral/pastoral (fui pároco de Macieira da Lixa entre Outubro 1969 e Fevereiro 1974 e nessa condição por duas vezes preso político em Caxias e outras tantas julgado no Tribunal Plenário do Porto), um Deus outro que, ao contrário do Deus da Cristandade ocidental, gosta de Política e não de Religião, prescinde dos templos e dos altares e dos respectivos cultos e ritos mais ou menos alienantes, mas de modo algum prescinde da Cultura, da Liberdade, da Paz e da Dignidade dos seres humanos, uma vez que a sua glória maior consiste em que as populações cresçam em cultura, vivam de olhos abertos, promovam a Justiça, partilhem os seus bens e sejam progressivamente donas dos próprios destinos.
5. Como já disse, o Barracão de Cultura que sonhamos e desejamos ver concretizado nesta freguesia quer ser um Sinal/Sacramento secular e não-confessional deste Deus outro, totalmente apostado em criar seres humanos criadores e libertadores, e cujos principais adoradores se encontram não entre os crentes tradicionais das Religiões, mas sim entre os agnósticos e os ateus que o são do Deus do Templo e do Império, tal como eu próprio sinceramente procuro ser, na peugada de Jesus, o de Nazaré. É por isso que gostamos de comparar o Barracão de Cultura ao útero duma mulher, onde quem nele entrar/passar há-de ser para nascer de novo, isto é, para nascer do Vento libertador e autonómico que sempre atravessará todas as iniciativas e todas as actividades que vierem a acontecer dentro dele. Mas o que de modo algum queremos é que o Barracão de Cultura seja uma espécie de empresa, muito menos uma IPSS ou um Centro Social. É Barracão, isto é, um espaço aberto a todas as pessoas que o queiram ser cada vez mais na dignidade, no desenvolvimento, na solidariedade e na responsabilidade que só a Liberdade é capaz de gerar. E é de Cultura, de cultura libertadora, obviamente, não de caridadezinha ou de assistencialismo, nem tão pouco de religião.
6. Depois de construído, faremos acontecer no seu interior polivalente, em horas e dias diferentes, Oficinas de iniciação à Pintura, à Escultura, à Música, à Poesia, ao Romance, ao Jornalismo, à Rádio, à Dança, ao Cinema, ao Teatro, ao Canto individual e coral. Muitos dos nossos artistas vivos, cantores, poetas, escritores, jornalistas, actores, dançarinos, escultores, pintores, músicos encontrarão no Barracão de Cultura uma oportunidade para, uma vez por outra, virem cá PARTILHAR os seus saberes com pequenos núcleos de crianças/adolescentes/jovens/adultos/idosos de Macieira da Lixa e das freguesias das redondezas, numa relação de proximidade que, para ser digna para ambas as partes, terá de ser maiêutica e não bancária, isto é, terá que ajudar a despertar nas pessoas ainda não iniciadas os talentos e as capacidades que existem em todas e cada uma delas como em semente. O importante e decisivo nesta acção será sempre aquele “despertar/acordar” que é, ao mesmo tempo, um tornar-se consciente dos próprios talentos e das próprias capacidades. Porque, depois, será cada uma, cada um, em diálogo com os seus familiares e amigos, a decidir avançar para as respectivas Escolas e instituições especializadas, onde se formarão e se realizarão como outras tantas pessoas cultas e desenvolvidas.
7. A par destas Oficinas, geradoras de distintos grupos que actuarão no palco do Barracão de Cultura, promoveremos também no seu interior frequentes jantares-debate sobre temas da actualidade, no estilo do programa televisivo “Prós e Contras”, que nos alimentem no corpo e na dignidade, nos deixem mais abertos ao mundo e também com mais voz e vez.
8. E de modo algum descuraremos a regular leitura em grupo de poemas e de livros que farão parte da Biblioteca Barracão de Cultura. Temos a certeza que essa leitura em grupo constituirá um bom ponto de partida para saborosas e libertadoras conversas, inclusive, entre pessoas analfabetas.
9. Pretendemos também que, num futuro próximo, o Barracão de Cultura de Macieira da Lixa venha a ser incluído no roteiro das Companhias de teatro e dos artistas de outras áreas que façam da itinerância o seu modo de estar na vida-das-populações-e-com-elas. Queremos que venham até nós e aceitem permanecer uns dias connosco e com as populações, numa relação afectiva e de partilha de saberes, como quem desperta criadores e não apenas como quem vende espectáculos em série.
10. Mas o Sinal que queremos que o Barracão de Cultura sempre seja estende-se também às pessoas de mais idade da freguesia, nomeadamente, as mais carenciadas de bens e de afectos. Reservamos-lhes um pequeno espaço para as acolher ou só de dia, ou de dia e de noite. Não no estilo de muitos lares massificados que por aí já se conhecem e onde quem lá entra (quase) perde a sua identidade e todos os laços afectivos e de vizinhança, até que a morte aconteça. Nada disso. No Barracão de Cultura, viverão pessoas idosas da freguesia ou das freguesias vizinhas. Não como assistidas, mas como sujeitos, chamadas a fazer render as suas capacidades e os seus saberes. Por regra, não haverá funcionárias assalariadas, quase sempre sem entranhas de humanidade. Haverá pessoas voluntárias das redondezas do Barracão de Cultura que partilharão com as pessoas idosas que nele viverem do seu tempo e dos seus serviços, sempre ao jeito da parteira na sua relação com a mulher que está para dar à luz, nunca ao jeito da funcionária assalariada que faz sozinha o que há para fazer, em lugar de fazer fazer e de estimular as pessoas idosas a fazerem o que podem e sabem, e até para lá do que podem e sabem..
11. Deste modo, o Barracão de Cultura será um espaço onde quem lá entrar/passar e integrar alguma das suas Oficinas ou beneficiar de algum dos espectáculos e concertos que venham a acontecer no seu interior, sempre há-de sair de lá progressivamente mais consciente, mais culto, mais lúcido, mais criador, mais humano, mais solidário, mais livre, mais autónomo, mais responsável, mais interveniente na sociedade, mais protagonista, mais politizado, mais amante do belo e da vida, numa palavra, mais artista e mais cidadã/cidadão do mundo.
12. Eis em traços largos o Barracão de Cultura que sonhamos e queremos erguer como um Sinal em Macieira da Lixa. Se vibrarem com este nosso projecto, peço-lhes que nos ajudem a concretizá-lo, ou mediante a oferta de um dos Vossos quadros para o leilão do dia 17 de Maio de 2007, ou mediante a Vossa presença interessada entre os potenciais compradores nesse mesmo leilão. Com a Vossa solidariedade, iremos longe neste Sinal. Estimulamos a dignidade dos seres humanos, a partir duma freguesia do interior e da periferia, e contribuiremos significativamente para salvar a Humanidade e o Mundo.
Conto com todas, todos. Fiquem com a minha Paz e o meu Afecto.
Padre Mário de Oliveira (ou Padre Mário da Lixa).
2007 JANEIRO 25
Causou algum sobressalto na comunicação social e no país a posição do Bispo de Viseu sobre o próximo referendo. Ilídio Leandro quebrou a muralha de aço do unanimismo que tem sido o discurso moralista da hierarquia eclesiástica católica sobre o assunto. Admitiu votar SIM no referendo à Lei de despenalização do aborto, se a pergunta fosse só sobre isso. Mas o Bispo entende que não é e, por isso, vai votar NÃO. Com alguns remorsos na consciência, acrescento eu, porque o seu coração, a julgar por algumas palavras que ontem proferiu no decorrer de um debate, está com as mulheres que abortam, nomeadamente, as mulheres dos bairros degradados e de famílias destroçadas, desempregadas e quase obrigadas a prostituir-se, pelo menos, ocasionalmente, para assim poderem sobreviver e garantir a sobrevivência dos próprios filhos ainda pequenos. Vejam o que, a este propósito, escreve hoje a Agência Ecclesia: “Num debate na Escola Superior de Educação, em Viseu, o bispo disse que no contexto da lei actual – com as três situações que já permitem o aborto – e que se a pergunta fosse apenas se «aceitava que a mulher fosse despenalizada, eu votaria sim». E acrescenta: «normalmente a mulher é a vítima destas situações porque é abandonada pela sociedade e Estado – ausência de apoios – muitas vezes também pelo companheiro, e o profissional de saúde aceita esta prática para ter benefícios».
Ora aí está. Um bispo que pensa e sente assim, se depois vota NÃO no referendo à lei que despenaliza o aborto realizado dentro das primeiras dez semanas de gravidez, só pode votar com remorsos. Porque não está a ser consequente nem coerente com o seu pensar e sentir. Tem à sua frente a possibilidade de contribuir para libertar as mulheres que abortam do pesadelo duma lei, como a actual, que, se for aplicada, as penaliza, concretamente, pode mandá-las para o tribunal e até para a cadeia, e depois, devido a um mecanismo cruel que ainda perdura indevidamente na sua consciência, em resultado de catequeses terroristas do passado e do presente feitas por homens de proa da Igreja católica que nunca puderam casar nem ter filhos, pelo menos, assumi-los publicamente como seus, recusa dar esse seu contributo. Quem assim procede só pode ficar com remorsos. Comete o que se pode chamar um pecado de omissão. Não leva até ao fim o seu sentir e o seu pensar. Não é consequente nem coerente. Não é capaz de pôr as mulheres de carne e osso à afrente do Moralismo, como, ao contrário, sempre faz Jesus, o de Nazaré.
Por mim, entendo que são ainda as catequeses terroristas do passado, concebidas e ensinadas na Igreja católica pelo seu clero à revelia do Evangelho de Jesus e brutalmente reproduzidas na actualidade pelos Movimentos de católicas e católicos defensores do NÃO à Lei de despenalização do aborto, que continuam a condicionar a consciência do Bispo de Viseu e a impor-lhe uma opção que ele próprio já sente como cruel e indefensável, mas que, mesmo assim, diz que irá ser a dele. Só posso ficar com pena do Bispo. Afinal, ele está à beira, nesta opção concreta, de se tornar cristão jesuânico e não é capaz de dar o salto. Opta por permanecer no grupo dos fariseus católicos contra as mulheres que abortam, embora já não seja daqueles que se apresentam com pedras na mão para lhes atirar. Francamente, não gostaria de estar na pele dele.
Bem sei que o preço a pagar, inclusive dentro da Igreja católica romana, por nos tornarmos discípulos de Jesus, o de Nazaré, é muito elevado. E muito mais para um bispo católico residencial, como é o caso em questão. Mas só assim é que se nasce do Alto, do Espírito Santo. E o que eu mais posso desejar para os meus irmãos bispos é que eles aceitem nascer do Espírito Santo. Como Jesus nasceu. Que todos eles sejam baptizados no Espírito Santo. A água baptismal eclesiástica, por mais benta que se diga, não faz mulheres e homens libertos para a liberdade. Não faz nascer em nós entranhas de humanidade. O mais que consegue fazer – e hoje, já cada vez menos, felizmente – são funcionários eclesiásticos que presidem a cultos litúrgicos rotineiros e sem Liturgia que só servem para alimentar deprimidos e pessoas politicamente resignadas e conformadas.
O sobressalto causado pelo Bispo Ilídio Leandro não passou disso. Fez-nos conter, por breves instantes, a respiração. Mas quando íamos cantar e dançar de alegria por, finalmente, termos um bispo cristão jesuânico, também neste campo da prática da despenalização do aborto, o que tivemos foi mais um aborto. Um aborto no seu processo de libertação para a liberdade. Um processo que assim foi abruptamente interrompido. O Bispo não teve a coragem de ser consequente e coerente. Com isso, deixou triste o Espírito Santo. Como aquele homem dos Evangelhos Sinópticos a quem Jesus convidou a vender tudo o que possuía e a dar o dinheiro aos pobres para depois o seguir. O homem não foi capaz. E Jesus ficou triste. Assim como o homem em causa.
São abortos deste tipo que mais entristecem o coração de Deus. Quando o Espírito está à beira de conseguir fazer de um funcionário eclesiástico ou outro um ser humano com entranhas de misericórdia e de humanidade e ele, por falta de audácia, interrompe o processo e recusa dar o salto em frente, é a Humanidade toda que sai prejudicada. O funcionário em causa garante a continuidade dos privilégios com que o Poder (um demónio, no dizer da linguagem mítica do Evangelho) o mimoseia, por o servir incondicionalmente, mas não se desenvolve em humanidade, em liberdade, em alegria, em paz. E todos os demais seres humanos perdemos com esta perda. Nunca tinham pensado nisto? Pois pensem, que é por aqui que passa o nosso futuro, como Humanidade.
O Bispo de Viseu chegou a falar, na sua intervenção nos telejornais de ontem nos 35 mil abortos que se cometerão cada ano em Portugal. E fala até dos profissionais de saúde que aceitam esta prática a pensar nos benefícios materiais que daí tiram. E mesmo assim, anuncia que vai votar NÃO à lei de despenalização do aborto. Vejam a crueldade em que o Bispo cai com a sua falta de audácia. Porque essa é a outra questão que a Lei que vai a referendo quer ajudar a resolver. Actualmente, as mulheres que na sua consciência decidem abortar, no período das primeiras dez semanas de gravidez, não têm outra saída que não a clandestinidade, nas clínicas privadas, no caso de disporem de dinheiro para pagar, ou nas abortadeiras e outras habilidosas, no caso de serem pobres e desempregadas, e quase sempre abandonadas pelos homens que as engravidaram. O Bispo, pelos vistos, sabe do facto real. Refere os números com precisão. E que decide? Que as mulheres continuem entregues à sua desgraça como até aqui. Não é uma crueldade? Ora, não é por a Lei ser aprovada que passará a haver 35 mil abortos/ano em Portugal. Eles existem já. Só que na clandestinidade. E nas condições de indignidade que as mulheres pobres que alguma vez abortaram bem conhecem. Ao votar NÃO à lei, o bispo fecha-lhes a porta dos hospitais, as portas da saúde pública. Como quem diz: ai querem abortar? Então abortem, mas nas abortadeiras! Nos hospitais públicos é que nunca!
Eis a crueldade no seu pior. Porque se não houvesse abortos na clandestinidade e nas condições de indignidade e de riscos para a saúde das mulheres, certamente a sociedade portuguesa não seria chamada a votar esta Lei de despenalização em referendo. Mas essa chaga social existe. É um facto. Não vale fechar os olhos a ela. Existe. E é para tentar introduzir nela uma réstia de humanidade e de dignidade humana, que a Lei de despenalização vai a referendo. E é por isso que eu, padre/presbítero da Igreja católica, ao contrário do Bispo de Viseu e de toda a hierarquia episcopal, votarei SIM no referendo. Sem hesitar. Como um acto de ternura para com as mulheres pobres do meu país!
2007 JANEIRO 22
Não choremos por Abbé Pierre, o fundador, melhor, co-fundador do Movimento Emaús em França, só porque hoje ele acaba de tornar-se invisível aos nossos olhos. Pelo contrário, cantemos e dancemos esta sua PÁSCOA, porque, a partir de agora, ele está ainda mais com os Sem-Abrigo de todo o mundo, no seu novo corpo ressuscitado feito Sopro ou Espírito, em comunhão com o Sopro ou Espírito de Jesus, o de Nazaré, cuja Fé partilhou e cujos combates políticos contra as causas da Miséria tão generosamente prosseguiu sem desfalecimento. Os anos, muitos, quase cem, já lhe pesavam no frágil corpo e todo ele ansiava por este PARTO que agora aconteceu e que tem tudo de EXPLOSÃO de vida. Por isso, eu te saúdo, meu irmão e companheiro Pierre! E em ti saúdo as irmãs, os irmãos e as companheiras, os companheiros da Rua, eloquentes Profecias vivas que, mesmo em silêncio, denunciam o Crime institucionalizado e o Pecado organizado que é hoje o Sistema capitalista totalmente à rédea solta, e anunciam/reclamam o Mundo-mesa-comum que nos cabe a todas, todos erguer na História, mediante práticas económicas e políticas justas, solidárias e sororais/fraternas.
Não faltarão, nesta ocasião, os discursos elogiosos e as lágrimas carregadas de hipocrisia das minorias do Poder em França e na União Europeia, as quais todos os dias praticam políticas sem Política e economias sem Economia, geradoras umas e outras de vítimas humanas aos milhões, entre as quais também se incluem os grandes exércitos dos Sem Abrigo dos países europeus e do resto do Mundo, em cujas fileiras Abbé Pierre desde muito cedo se alistou como voluntário e como o seu companheiro maior. Tentarão canonizá-lo nos seus discursos e apresentá-lo como herói nacional, para, desse modo, tentarem esconder os exércitos dos Sem-Abrigo a quem ele deu incómoda e perturbadora visibilidade
Na sua insensatez e cegueira, as minorias do Poder ainda hoje pensam que a Morte física é o fim do caminho, o regresso ao nada, o final da vida, a saída definitiva do mundo e da História. Os seus membros têm-se na conta de iluminados, mas são ignorantes, pois desconhecem que a vida, uma vez acontecida, nunca mais acaba, sempre se transforma. Só isso explica que todos os seus pensamentos e todos os seus projectos continuem a ser de morte, não de vida, continuem a ser pensamentos e projectos assassinos, não fecundos. O deles é um mundo sem horizontes, fechado, semelhante a pequenas ilhas cercadas de vítimas humanas e cadáveres humanos por todos os lados. Os sucessivos banquetes em que se sentam são outras tantas anti-Eucaristias que progressivamente os asfixiam, ao mesmo tempo que os alimentam e confirmam como malfeitores e assassinos. Não são minorias biófilas. São minorias necrófilas. Não são Cristos. São anti-Cristos. Não são Abbés Pierres. São anti-Abbés Pierres. Não são Seres Humanos. São anti-Seres humanos. Quem as não conhece? Temo-las também aqui no país, nos cargos de cúpula do Governo e da Presidência da República, dos Partidos e dos Bancos, das grandes Empresas multinacionais e dos Grandes centros comerciais. Nadam em privilégios e sempre correm a fazer leis à medida deles, que os favorecem agora nos dias que correm e, depois, nos dias da reforma, quando ela chegar.
As populações e os povos insistem em confiar-lhes os seus destinos, certamente ofuscados e encandeados pelos seus hábeis discursos de mentira, pelas roupas caras e de luxo que eles vestem, pelos palácios e hotéis de luxo que eles frequentam e pelas constantes viagens de negócios e de passeio em que eles gastam o seu tempo e o dinheiro dos nossos impostos. Não se dão conta de que tudo isso e tudo o mais que eles fazem para televisões mostrarem em horário nobre é oco e só serve para encobrir e disfarçar que todos eles andam nus. De tempos a tempos e por momentos, as populações e os povos ainda chegam a admitir que assim será, nomeadamente, quando aparecem mulheres e homens como Abbé Pierre. Dão-se conta, como num relâmpago, que só com homens e mulheres como ele a vida de todas, todos nós tem oportunidade e horizontes. Mas depois, quando chegam as dificuldades, logo vacilam e não sabem mais a quem hão-de seguir, nem em quem hão-de acreditar e a quem hão-de imitar; sobretudo, não sabem mais em quem hão-de confiar, vida fora.
O coração diz-lhes que são os Abbés Pierres de cada tempo e lugar os portadores de vida e vida em abundância e de qualidade humana. Mas logo o instinto da Segurança lhes recorda que tudo nesses Abbés Pierres é fragilidade, pelo que, se as populações e os povos quiserem confiar neles, terão de começar por apostar, não neles que são manifestamente frágeis, mas nas suas próprias capacidades/fragilidades e passar a andar sobre os seus próprios pés. Semelhante desafio que os Abbés Pierres lançam às populações e aos povos dá-lhes tonturas e, por isso, as populações e os povos voltam a deixar-se dominar pelo Medo, a exemplo do apóstolo Simão Pedro, no meio das ondas do Mar em que de repente se viu envolvido, quando por momentos trocou a estéril Segurança da barca pela fecunda Agitação do Mar. Se vencessem o Medo, as populações e os povos chegariam a ser populações e povos livres e fecundas/fecundos, autónomas/autónomos e donas/donos dos próprios destinos. Infelizmente, não vencem, ou quase nunca vencem e só por breves períodos históricos. A esmagadora maioria prefere gastar a vida inteira na Segurança da barca, no chão firme da praia, a vivê-la no Mar encapelado da vida em Liberdade e em Responsabilidade. A História mostra que, às primeiras dificuldades no processo da libertação para a liberdade, logo as populações e os povos recuam e voltam à subserviência e à humilhante protecção do Poder e dos poderosos.
Mas nem assim deixa de ser verdade que são os Abbés Pierres em masculino e em feminino de todos os tempos e culturas que garantem futuro a cada sucessivo presente da Humanidade, pois, como Jesus, o de Nazaré, não se limitam a ser benfeitores no mundo e na História. Podem até começar por ser benfeitores, perante a manifesta urgência de acções concretas destinadas a impedir que milhões e milhões de seres humanos morram de fome e de doenças curáveis. Mas depressa elas e eles compreenderão, como Jesus compreendeu que a Miséria tem causas muito concretas e, por isso, depressa passam a privilegiar a luta política contra elas, em lugar da caridadezinha e do assistencialismo, tão do gosto das minorias dos poderosos. E fazem-no para poderem continuar a ser honestos consigo mesmos e com a realidade. E para não se tornarem injustos. Nem cúmplices do Pecado organizado e do Crime institucionalizado que fabricam miséria e miseráveis em série.
Quando há causas históricas que provocam o aparecimento de vítimas humanas aos milhões, não é honesto limitarmo-nos a ser simples benfeitores, no decurso da nossa vida pessoal. Temos que ir à raiz dos problemas, às causas que provocam a Miséria e os miseráveis em série, passar de benfeitores a libertadores, tornarmo-nos políticos ao jeito de Jesus, em lugar de assistencialistas ao jeito dos poderosos e seus cúmplices.
Felizmente, é por aqui que Abbé Pierre desde muito cedo aprendeu a ir. E nunca mais deixou de ir, pelo resto da sua vida na História. Por isso o Movimento Emaús que ele ajudou a fundar na passada década de quarenta/cinquenta é sadiamente revolucionário e libertador. O Capital organizado em sistema, hoje à rédea solta, não gosta de movimentos assim. E tudo faz para os corromper. Também ao Movimento Emaús. Cabe aos Companheiros da Rua, elas e eles, e aos Amigos do Movimento, elas e eles, vigiar e resistir até ao sangue, se for caso disso. De geração em geração. Para que vinguem a Revolução e a Libertação, nas quais sempre anda a inconfundível marca do Espírito Santo, e o Capital organizado em sistema regresse ao Nada. O combate, inevitável, é duélico, mas poderemos contar, a partir de hoje, com a presença fecunda, amiga e companheira de Abbé Pierre, para sempre corpo ressuscitado, Sopro que nos empurra para a Liberdade e para a Dignidade, e brisa que nos conforta e humaniza.
2007 JANEIRO 18
São 21.500 (vinte e um mil e quinhentos) milhões de euros que Portugal irá receber da Europa, via Governo, até 2013. É muito dinheiro que vem aí. É também muita corrupção que vem aí? O que aconteceu com os muitos milhares de milhões que, nos anos passados, já nos vieram dessa Europa comunitária não abona nada a nosso favor. Tudo indica que o muito dinheiro, oferecido no estilo, Pomos à vossa disposição todo este dinheiro e vós agora concebei projectos concretos nos quais ele seja aplicado, é igual a muita corrupção. Preparem-se para ver. Melhor, preparemo-nos para resistir à onda de corrupção que aí vem, a muitos níveis, como um tsunami.
Por mim, preferia que fosse ao contrário. Preferia que fosse Portugal a PARTILHAR com povos empobrecidos do mundo todo esse dinheiro em projectos muito concretos que os fizessem sair da miséria imerecida em que eles ainda vivem e obriga a emigrar, ao mesmo tempo, que os despertasse para também serem solidários com outros povos ainda mais empobrecidos do que eles. Porque não se trata de sair da miséria para sermos todos ricos. Trata-se de sair da miséria para sermos todos pobres. É por aqui que vai Jesus, o de Nazaré, e é por aqui que hão-de ir os povos do mundo, se quiserem ter futuro humano. O que não for assim pode parecer muito aliciante, mas é perverso.
A raiz de todos os males é a ambição do Dinheiro. Quando alguém, indivíduo ou povo, se propõe ser rico e tudo faz para se tornar rico, em lugar de tudo fazer para se manter pobre, inicia um processo de progressiva desumanização, até se tornar irreconhecível, com muito de monstro. A riqueza produzida só é boa e uma bênção se for riqueza repartida.
Acumular riqueza, nem que seja à custa de muito suor e lágrimas (pior, se é conseguida à custa de muito suor e lágrimas alheios), é criar um ídolo em casa. Um ídolo que, como todos os ídolos, progressivamente nos corrompe e devora. Sem darmos por isso, passamos a viver para ele, para o fazer crescer, para o engordar. Depressa começamos a não ter tempo para as filhas, os filhos, para os pais, as mães, para as amigas, os amigos. E nem enxergamos as vizinhas, os vizinhos. De progressivamente criadoras/criadores de relação, de sororidade/fraternidade, de comunhão, de amizade, de projectos comuns, que todas, todos nós estamos chamados a ser, de acordo com o Sopro ou o Espírito que, num princípio, nos fez acontecer, passamos progressivamente a des-criadoras, des-criadores. Tornamo-nos sós, sem laços com ninguém. Sem afectos. O ídolo que estamos a criar é ciumento e não permite mais ninguém na nossa vida. Nem mulher, nem marido, nem filhas, nem filhos, nem amigas, nem amigos. Só ele. E se tivermos sucesso, tanto pior, porque não faltarão admiradoras, admiradores que nos invejam e querem ter algum proveito junto de nós, nem que seja de algumas das migalhas que caem da nossa mesa. E isso pode dar-nos a ilusão de que temos o mundo aos nossos pés, mas na verdade não temos o amor de ninguém. Vivemos sós, infelizes, a desconfiar de todas as pessoas que nos rodeiam, como se fossem nossos inimigos. É assim, ao nível dos indivíduos. E é assim ao nível dos povos.
Desde que nos meteram na União Europeia e os dinheiros dos países ricos começaram a invadir-nos, nunca mais nos encontramos como Povo. Provámos o gosto do Dinheiro e nunca mais apreciamos outro gosto. Desde então para cá, o que queremos é Dinheiro, muito dinheiro, é sermos ricos, cada vez mais ricos. Agimos na convicção de que o Dinheiro compra tudo, até as pessoas. Até Deus! E assim parece ser e é em muitos casos. Mas para nossa desgraça individual e colectiva. Porque se ninguém se deixasse perverter e comprar, ainda poderíamos acordar do pesadelo em que vivemos, quando decidimos ser ricos. Mas como o Dinheiro compra tudo, até as pessoas, dificilmente daremos conta de que somos sós, terrivelmente sós.
Mas a verdade é que hoje já (quase) não há conversas nem tertúlias, já não há poemas nem canções, já não há amigas/amigos, já não há família, e muito menos família de famílias. Há ruídos, muitos ruídos, bebedeiras, chutos e charros, cocaína e prostitutas/prostitutos, ritmos loucos e frenéticos que nos convertem em bonecos articulados, há carros, muitos carros e a velocidades cada vez mais loucas, há mortos sobre mortos nas estradas, corruptos e traidores, insónias e pesadelos a dormir e mesmo acordados. Numa palavra, há desumanidade, há des-criação, há inumanidade. Parece que progredimos. Na verdade regredimos e corremos a alta velocidade para o não-ser.
Não se trata de sermos todos ricos na Europa e no mundo. Trata-se de sermos todos pobres na Europa e no mundo. Trata-se de sermos seres em relação e em comunhão. Família de famílias. Povo de povos. Em redor de Mesas comuns, verdadeiramente eucarísticas.
Sei bem que ninguém, ou muito pouca gente me vai tomar a sério no que aqui estou a escrever. Serei objecto de riso e de chacota, por parte de muitas pessoas. Isso, porém, não invalida o que acabo de escrever. Ficarei sozinho, ou quase, nesta minha postura que é a do Evangelho de Deus para todos os povos. Mas nem assim desistirei de anunciar este Evangelho de Deus que se nos revelou em Jesus, o de Nazaré
Sei muito também que o Templo e o Império (não confundir nem com a Igreja de Jesus, nem com os Povos do mundo) anunciam e seguem outro evangelho, que não o de Jesus. Anunciam e seguem o evangelho do ídolo. Segundo esse (falso) evangelho, todos os povos devem ser ricos e fazerem por isso, custe o que custar. Este (falso) evangelho tem muitos seguidores e o Evangelho de Deus, revelado em Jesus, tem muito poucos? E surpreendem-se? Então não sabem que os ídolos sempre tiveram mais adoradores do que o Deus Vivo e Criador? É um facto incontornável: a Mentira e o Perverso sempre tiveram mais praticantes do que a Verdade e a Liberdade. Os caminhos largos e as portas largas contam sempre com multidões disponíveis para irem por eles e por elas. Os caminhos estreitos e as portas estreitas são frequentados por muito poucos. Admiram-se?
Nunca ninguém disse que criar seres humanos, mulheres e homens do jeito e da estatura de Jesus, o de Nazaré, é um projecto fácil. É o mais difícil. E ainda mais, agora que sabemos pela Ciência que Deus Vivo e Criador decidiu criar-nos, não do Nada, como erroneamente se ensinou, mas no decurso da Evolução da vida e com a cooperação livre dos próprios seres humanos. É o que há de mais difícil. Porque entretanto também apareceram o Templo e o Império, obra exclusivamente nossa, durante o longo período histórico em que, como Humanidade, permanecemos mergulhados na fase correspondente ao Infantário, por isso, totalmente possuídos por medos e por deuses/demónios que ingenuamente imaginámos/projectámos/criámos a cada instante. Para cúmulo, com o rolar dos séculos, o Templo e o Império tornaram-se poderosos e fizeram-se passar por deuses perante os Povos, e rivalizam com o Deus Vivo e Criador. Nunca como hoje, eles estão aí furiosa e desesperadamente apostados em des-criar o que o Deus Vivo e Criador está apostado em criar. Por isso, tudo pode ser ganho e tudo pode ser perdido. A última palavra cabe-nos a nós, os seres humanos, como indivíduos e como Povos.
Infelizmente, neste início do século XXI e do terceiro milénio, o Templo e o Império ainda continuam a levar a melhor sobre os Povos. Os seus principais adoradores estão desesperados, porque percebem que o seu reinado está ameaçado, visto que estamos à beira de darmos um salto qualitativo em frente. Estamos à beira de inaugurar a hora dos Povos. Os principais adoradores do ídolo percebem que o seu tempo pode estar a chegar ao fim e estão desesperados. São séculos e séculos de domínio absoluto que eles não querem perder. Por isso, fazem tudo para manter os Povos no Medo e na Mentira, na fase do Infantário, onde eles são reis e senhores absolutos, incontestados, infalíveis.
Cabe-nos perceber o Momento e dar o salto qualitativo em frente. É hora do Parto. De cresceremos em Ser, em lugar de continuarmos a crescer em Ter. O Ter mente. É Mentiroso e Perverso. Faz escravos e sós. Mata os afectos, a Relação, porque é Homicida. Só o Ser casa com a Verdade e gosta da Verdade. Só o Ser faz livres e desenvolve a vida-em-relação-e-com-afectos, como é timbre da vida quando sai do Infantário e atinge o patamar do Humano e do Sororal/Fraterno.
Insistir no Ter e pretender que todos os Povos se tornem ricos é o falso evangelho pregado e praticado pelo Templo e pelo Império, que faz infelizes, sós, escravos, idólatras quem vai por ele e por eles. Por isso, Jesus, enquanto Evangelho vivo de Deus Criador de seres humanos que se reconhecem irmãos e vivem em redor de Mesas comuns, adverte com entranhas de ternura, “Mas ai de vós, os ricos!” (Lc 6, 24).
Insistir no Ser e pretender que todos os Povos saiam da miséria e se tornem pobres é o cerne do Evangelho de Deus Vivo e Criador, anunciado e praticado paradigmaticamente por Jesus, o de Nazaré, que nos faz felizes, comunitários, livres, sororais/fraternos. Por isso Jesus proclama com alegria e emoção, “Felizes vós, os pobres” (Lc 6, 20).
Só tem futuro quem cresce no Ser, quem é pobre. Não tem futuro quem cresce no Ter, quem é rico. Não há meio-termo: Ou escolhemos ser ricos e a nossa vida converte-se num inferno que criamos e fazemos crescer dia após dia, onde não há lugar para pessoas nem para afectos, apenas para mercadorias, inclusive, mercadorias em forma humana; ou escolhemos ser pobres e a nossa vida converte-se no Reino de Deus dentro de nós e à nossa volta, onde crescem as pessoas e os afectos e as casas são progressivamente comuns, assim como as mesas.
Vêm aí para o nosso país mais vinte e um mil e quinhentos milhões de euros, oferecidos pelos países mais ricos da Europa. O actual governo sem Espírito Santo que nos (des)governa e está a arrastar para o abismo do não-ser esfrega as mãos. Cuidemo-nos. Porque se embarcamos na Mentira de que o Dinheiro nos salva, isto é, nos humaniza, nos sororiza/fraterniza, acabaremos convertidos em mercadoria e sós.
Um povo só cresce em humanidade, quando cresce em Ser, não em Ter, quando escolhe ser pobre, não quando escolhe ser rico. Quem disser o contrário, está a fazer o jogo do Templo e do Império, a dupla Mentirosa e Assassina que nos quer manter para sempre na fase do Infantário. Essa dupla sabe que, se crescermos em Ser, cresceremos infalivelmente em consciência, em liberdade, em responsabilidade, em criatividade, em protagonismo, em alegria, em comunhão. E não quereremos saber mais dela para nada. Nem do seu ídolo.
Então, Deus Vivo e Criador habitar-nos-á em permanência, será Deus em nós e connosco, como aconteceu com Jesus, o de Nazaré. E nós seremos o seu Templo vivo!
2007 JANEIRO 15
Houve mais um encontro da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Algumas companheiras, alguns companheiros de fora da freguesia vieram juntar-se a nós. Sabem que é sempre aos segundos domingo do mês e apareceram sem qualquer aviso prévio. O que nos alegrou e emprestou ao encontro mais graça e verdade. Não vou fazer aqui o relato do encontro. Limitar-me-ei a partilhar os três textos que preparei previamente. A saudação; o Canto A hora dos Povos (foi cantado por nós com a música duma conhecida canção, cujos primeiros versos rezam assim: “Os teus olhos negros negros / são gentios, são gentios da Guiné”); e o Salmo 20, numa nova versão século XXI. Eis.
1. SAUDAÇÃO
É de esperança, de alegria e de paz a minha palavra de saudação, a abrir este primeiro Encontro de 2007, da nossa pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Sempre há-de ser assim, porque nos reunimos não em nome do Templo e do Império, mas em nome e em memória de Jesus, o de Nazaré, que lúcida e corajosamente enfrentou/desmascarou um e outro. Acabou historicamente esmagado por eles, mas foi desse modo que, duma vez por todas, revelou que um e outro e os dois juntos são o Perverso do mundo e da História. Na verdade, um e outro e os dois juntos fazem-se ideologicamente passar por honestos e justos, benfeitores, até com direito a serem obedecidos, mas efectivamente são o Perverso institucionalizado, a cujas orientações, mandamentos e falsos valores havemos de resistir por toda a nossa vida. Vivemos dentro da sua Ordem mundial, mas sem sermos dela. Não somos dela, nem dos seus falsos valores que levam à destruição do Planeta, da vida, da Justiça e da Paz e nos transformarão em mortos vivos, se formos por eles. Tanto um como o outro e os dois juntos são mentirosos e assassinos. Não somos deles. Não vamos por eles. Somos de Jesus, o de Nazaré e é por ele que vamos. Ele, e só ele, crucificado por eles, é o Caminho, a Verdade e a Vida. Não reconhecemos nenhum outro e quanto mais poderosos eles se nos apresentarem, mais perversos serão aos nossos olhos.
Nestes dias, anda à solta no país o Moralismo mais cruel e mais hipócrita do Templo. Estes são por isso dias de Treva, de violência verbal, de terrorismo moralista. A campanha do Referendo à Lei de despenalização do aborto acaba de soltar todos os demónios do Moralismo e está deixar o Templo e o Império à beira de um ataque de nervos. Os seus seguidores, elas e eles, dizem-se hipocritamente contra a Lei de despenalização do aborto, mas cometem o pior dos abortos, que é tudo fazerem para manter as populações na ignomínia e no infantilismo, e impedir que a sociedade civil cresça em autonomia e em responsabilidade.
Afinal, porque têm tanto medo duma lei que, se vier a ser aprovada, não obriga nenhuma mulher a abortar? Só pode ser porque têm medo que as populações cresçam em responsabilidade cívica e moral. Não querem que as populações sejam sujeito, capazes, por isso, de opções responsáveis. Querem-nas infantilizadas, geração após geração, para eles continuarem a ser os seus donos e os seus senhores.
Estes são dias de Treva. Mas aqui na Comunidade são dias de Luz. E é para que assim continue a ser que nos reunimos em nome e em memória de Jesus. Ele é a Luz do mundo. E quem o segue não anda na Treva.
Convido-vos, pois, à Alegria, à Esperança e à Paz. Nem que, na pior das hipóteses, os da Treva, cheios de dinheiro e de arrogância, vencessem, a sua vitória seria uma derrota. Porque seria a vitória do Obscurantismo, da Violência, da Hipocrisia e do Medo. Ora, o nosso futuro, o futuro da Humanidade é a Liberdade e a Paz, por isso, a autonomia das populações e dos povos. Não é aquele que esmaga que tem futuro, mas o que é esmagado. Isto aprendemos de Jesus e com ele. Por isso, cantamos e dançamos.
2. A HORA DOS POVOS
1. Os teus olhos de menina/o
são p’ra veres como é bela
ai como é bela a Humanidade.
Com seus Povos bem unidos
brilha mais que uma estrela.
2. Quando os Povos se afirmam
cai por terra o Império
ai o Império e mais o Templo
há mais Paz e Liberdade
e até Deus é Deus a sério.
3. Sem o Império, sem o Templo
são os Povos a reinar
ai a reinar em Liberdade
em Justiça e em Partilha
como manda o verbo AMAR.
4. Só os Povos que partilham
a mesma Fé de Jesus
ai de Jesus Crucificado
serão sempre a Luz do Mundo
mesmo que PASSEM pela Cruz.
5. Ai dos Povos que adoptam
o deus das Religiões
Religiões, cultos do Medo
ficam escravos do Império
na pior das servidões.
6. O Império e o Templo
não gostam nada de ateus
ai de ateus que desmascarem
os deuses que ambos inventam
contra o verdadeiro Deus.
7. Qu’reis saber porque o Templo
juntamente com o Império
ai com o Império matou Jesus?
Mas não sabem que o Perverso
odeia de morte a Luz?
8. É já hora de deixarmos
a Tristeza, a Depressão
a Depressão que nos esmaga
põe-nos fora de combate
comidos pela Solidão
9. A vós Povos do Planeta
cabe esta nobre Missão
nobre Missão de pôr aos beijos
a Justiça e a Paz
num mundo de Comunhão.
Avancem Povos da Terra
com Jesus por companhia
por companhia e Paradigma
ergamos Mesas comuns
de Paz, Pão, Sabedoria.
3. SALMO 20
1 Recuso-me a invocar o Teu Nome quando
os soldados dos poderosos e dos grandes ricos
saem a fazer a guerra contra outros povos
mais pobres e mais fracos do que eles;
2 pois Tu és a Fonte da Paz e a Mãe/o Pai
de todos os povos.
3 Toda a guerra é crime e pecado que Tu
não podes abençoar muito menos tolerar que
alguma vez possa ser feita em Teu Nome
ou com a Tua bênção.
4 Todas as Tuas Acções são criadoras de vida
e de bens; ninguém que Te invoque pode ser
criador de morte e de pobreza.
5 Nunca na vida hei-de cantar as vitórias militares
dos poderosos; e o que mais posso desejar
é que todas as suas guerras acabem mal.
6 Agora tenho a certeza que o silêncio e a dor
das vítimas dos poderosos são a Palavra
interpeladora com que Tu reiteradamente
nos sais ao caminho.
7 Os poderosos e os grandes ricos confiam
nos carros e aviões de combate e na eficácia
de sofisticadas tecnologias de matar e de destruir.
8 Eu confio na fecundidade do Teu Sopro
que é capaz de levantar do chão do desânimo
os povos do mundo com fome de Pão
e de Justiça.
9 As vitórias militares dos poderosos
e dos grandes ricos são outros tantos momentos
de Des-criação da Humanidade.
10 Por isso Te confio este meu mais profundo
desejo: Que eles percam todas as guerras
em que se envolverem!
2007 JANEIRO 11
Deveriam ser boa notícia os rostos e as vozes da Igreja católica que aparece nos meios de comunicação social, mas duma maneira geral não são. Nem nos conteúdos, nem nas imagens visuais e sonoras através das quais os conteúdos são veiculados para as populações. Por exemplo, sempre que reúnem em Fátima (ultimamente, está a suceder com muita frequência), os Bispos católicos portugueses deixam-se filmar para os telejornais e até há um deles que faz de porta-voz de todos. O facto em si só merece aplausos. Mas a imagem que, depois, passa e que fala para as pessoas, ateus e agnósticos incluídos, é geralmente um desastre! Mostram um conjunto só de homens. Nenhumas mulheres. Homens, em geral, misóginos e de idade avançada. Em redor duma mesa supostamente de trabalho, todos sentados e justapostos, sem qualquer sinal de comunhão entre si. De aspecto sisudo. Olhos no chão ou nos papéis. Herméticos. Solitários. O negro e o cinzento são as cores com que habitualmente se apresentam vestidos. O que, só por si, é deprimente, para eles mesmos e, sobretudo, para quem os vê na televisão. Não aparecem como seres humanos libertos para a liberdade nem psiquicamente saudáveis. Podem ser, e serão, certamente, mas não aparecem como tais. Aparecem como meros funcionários de cúpula duma instituição, no caso, a instituição eclesiástica católica romana, com tudo de quartel-general eclesiástico, moralista e canónico. Não se vêem nessas imagens cores alegres e vivas a vestir os seus corpos. Todos vestem fatos negros ou acizentados equiparados a fardas. E com aquele horrível colarinho branco a apertar-lhes o pescoço, como se todos eles sofressem da coluna e fossem obrigados a ter de andar com aquele objecto todos os dias, faça calor ou faça frio. Eu sei, todas/todos sabemos que os bispos são seres humanos, mas a verdade é que nem parecem.
Quem os vê assim, não diz que são livres, nem sequer no acto de vestir, quanto mais no acto de pensar e de dizer/viver em sociedade. Um simples ser humano não anda fardado, a não ser quando está a fazer um determinado papel que não é seu, de ser humano. A farda esconde sempre o ser humano e revela o funcionário institucional. Mas os bispos católicos portugueses não vestem como seres humanos. Sentem-se obrigados a andar permanentemente fardados, não vá o diabo tecê-las e eles perderem de repente a compostura e passarem a comportar-se como seres humanos em sociedade, com afectos e tudo. E depois? Pelos vistos, seria um perigo, no entender da instituição que os bispos representam e que os obriga - e eles aceitam!... - a vestir assim. Por mim, sinto grande compaixão pelos nossos bispos. São os meus irmãos bispos, mas nenhum deles mostra ser capaz de se comportar como tal e a prova é que nunca nenhum deles tomou a liberdade, por exemplo, de me visitar, de me contestar, de me falar, muito menos, de se deixar interpelar pelo meu viver e pelo meu dizer em Igreja. Se eu me dirijo a eles, por ocasião de alguma actividade pública, eles correspondem no mínimo dos mínimos, sempre a medo e sem o à vontade que a fraternidade e a liberdade sempre dão à saudável manifestação dos nossos sentimentos. São funcionários eclesiásticos de proa, mas muito infelizes, os meus irmãos bispos. Todos sempre assim tão alinhados, tão iguais, tão rebanho, tão unânimes, tão sem mijar fora do testo. Parece que foram feitos num molde, numa forma, num pronto-a-vestir.
O próprio porta-voz oficial que, pessoalmente, conheço muito bem e que era meu amigo, antes de ser ordenado bispo (digo “era”, não digo é, porque agora já não sei se é, uma vez que, quando algum padre é ordenado bispo católico logo entra naquela forma e nem amigo sabe continuar a ser dos seus amigos, não vá perder autoridade episcopal!...), sempre foi um homem cordial e simpático, bem relacionado e espiritualmente fecundo. Pois bem, desde que foi ordenado bispo e passou a exercer funções no Patriarcado de Lisboa e de porta-voz da CEP, parece ter sofrido uma profunda mutação, a julgar pelas imagens - e é só a partir delas que me pronuncio, evidentemente - que dele nos chegam pelos telejornais. Apresenta-se sistematicamente com aquele ar de gestor de grande empresa, com uns tiques de superioridade moral e de cinismo (que ele me perdoe, mas é o que as imagens mostram, para tristeza minha), como quem fala para analfabetos na matéria em questão. Não se nota na sua postura uma relação afectiva, cordial, saudável, fraternal. É uma postura própria de quem se impõe, de quem pensa que está em presença do inimigo, por isso, de pé atrás, desconfiado, à defesa. As palavras não lhe saem com a simplicidade e a naturalidade com que a água sai da respectiva fonte.
Quem o vê e ouve em casa, durante os telejornais, fica sempre desconfortado. O que, objectivamente, perfaz um tremendo desastre comunicativo, porque, assim, não consegue persuadir, convencer, muito menos “agarrar-nos” para as posições que tenta defender/impor, mais do que propor. Pelo contrário, o que consegue é suscitar nos telespectadores que não frequentam as catedrais nem as missas dos domingos sentimentos de distanciamento da Igreja católica e até de rejeição. Os seres humanos, ao jeito da Liberdade e, por isso, ao jeito de Jesus, o de Nazaré, não são assim como ele se apresenta. Assim, são os homens do Poder, do Moralismo, da Lei, do Código de Direito Canónico, do Catecismo da Igreja católica, da Ordem, do Dogmático, do Autoritário, do Sem-Afecto.
Mas, senhores bispos, as Igrejas existem na História para, quais parteiras, ajudarem a tornar mais humanas as pessoas e as sociedades. Como pode então a Igreja católica que está em Portugal realizar esta sua missão evangélica, se os que se têm na conta de seus chefes ou líderes maiores são assim tão pouco humanos na vida de todos os dias e na relação uns com os outros e com os respectivos fiéis, apesar de liturgicamente os chamarem por irmãs, irmãos?
Mas o mais dramático em tudo isto é que continua a ser verdade, também hoje, que uma imagem vale mais do que mil palavras. Por isso, melhor seria que não houvesse imagens dos bispos católicos portugueses nos telejornais. Mas o nosso é o tempo das imagens. Não aparecer é (quase) não existir. Mas aparecer como os bispos católicos portugueses estão a aparecer é um desastre. Porque, em lugar de serem sacramento duma Igreja humana e sororal, os bispos estão a ser anti-sacramentos da Igreja e de Deus, o de Jesus. Quanto mais aparecerem assim, mais a Igreja católica perderá credibilidade. Esta será uma das razões e das mais decisivas para que as novas gerações já estejam a crescer fora da Igreja católica. Porque uma Igreja necrófila, que tem medo da vida e da alegria, que cultiva o Moralismo em lugar da Liberdade responsável, o Dogmatismo em lugar da Proposta, e a Religião em lugar de práticas políticas libertadoras e solidárias, nem para idosos serve, quanto mais para as novas gerações. Mas é esta imagem de Igreja que os telejornais fazem entrar nas casas das pessoas, quando dão notícia da Conferência Episcopal Portuguesa reunida em Fátima!... Escrevo-o aqui, não como quem se congratula com o facto, mas como quem alerta e pede que ousemos ser Igreja de outro jeito, o jeito jesuânico que tem tudo a ver com uma Igreja de rosto humano, vivo, alegre, festivo, solidário, maiêutico.
É assim a imagem da Igreja que dão os nossos bispos, quando aparecem nos telejornais. E como é a imagem de Igreja que dão os leigos, elas e eles? Desenganem-se, se pensam que é melhor. Habitualmente, a imagem que nos chega pelos telejornais é pura e simplesmente a da sua não-existência. Nos telejornais, dizer Igreja ainda continua a ser dizer bispos. E alguns clérigos, poucos, no estilo do Padre Borga, nas manhãs da Praça da Alegria, demasiado eclesiásticos e clericais. Porém, nestes últimos dias que são já cada vez mais de campanha para o referendo à lei de despenalização do aborto, a Igreja de leigos, mais de leigas do que de leigos, está a chegar mais a nossas casas através dos telejornais e do som das rádios. É um dado novo. Alegrar-me-ia, se fosse o habitual e tivesse conteúdos outros que não os conteúdos agressivamente moralistas destes dias. Assim, não me alegro, porque sei que é só nestes dias de campanha. E muito menos me posso alegrar com os conteúdos que ela, a Igreja de leigos, se apresenta a veicular e defender.
Assim como está a ser é mais um desastre. Primeiro, os conteúdos. São muitos movimentos, todos defensores do NÃO à lei de despenalização do aborto, pelas razões moralistas as mais rançosas. Católicas, católicos há com boa formação humanista e portadores de sensibilidade, já revelada noutras alturas e a propósito de outras causas humanas, mas que estão ausentes destes movimentos, ou estão presentes, mas, nesta causa, revelam-se duma crueldade atroz e duma falta de bom senso e de inteligência pastoral verdadeiramente confrangedoras. A multiplicidade de movimentos é só numérica. Porque a mensagem e a linguagem é sempre a mesma, como numa cassete. no seu espírito de cruzada, não querem saber para nada das mulheres e dos homens de carne e osso que estão do outro lado da barricada, a defender o SIM à Lei de despenalização do aborto. Tratam-nos a todas, todos como assassinos, verdugos, carrascos, os piores terroristas. Em lugar de revelarem capacidade e disponibilidade para dialogar com os do SIM à lei de despenbalização, revelam-se obtusos, fanáticos, cruzados, cegos, absolutamente incapazes de se deixar interpelar pelas situações tantas vezes dramáticas das mulheres que um dia se viram obrigadas a abortar. Apresentam-se sobranceiramente como defensoras, defensores da vida, mas logo se percebe que da vida humana quase só conhecem a delas próprias, deles próprios e que mais não é do que a vida dos privilégios e a das mesas fartas, das casas cheias de conforto, com divisões suficientes, comodidades, nível cultural superior, com filhas e filhos na universidade católica ou nos colégios de freiras e de frades, só acessíveis a filhas, filhos de mamã e de papá!
Por favor, senhoras leigas católicas, minhas irmãs, senhores leigos católicos, meus irmãos. As populações em geral estão a ver-vos e a ouvir-vos, nos telejornais, a discorrer sobre estas coisas do aborto e sobre as razões que vos levam a defender o NÃO à lei de despenalização e logo, sem que vós lho mostreis, começam a ver também o outro lado da realidade que é a vossa vida de privilégios. E não podem tomar-vos a sério. Tudo em vós soa a oco, a hipocrisia, a faz-de-conta. Na verdade, sois católicas, católicos de barriga cheia, de privilégios, dotados de capacidade financeira para, nas aflições duma gravidez indesejada, recorrerdes a clínicas privadas clandestinas no país ou, de preferência, no estrangeiro. As populações sabem que é assim, por mais que vós tenteis convencer o país do contrário.
Convido-vos, por isso, a gravar o que dizeis e mostrais nos telejornais (nestes dias até ao dia do referendo a 11 de Fevereiro 2007, vão ser inúmeras, até à náusea, a vossas intervenções!) e a vê-las depois, mas com os olhos das mulheres e dos homens empobrecidos que não dispõem de condições económicas, financeiras e culturais como as vossas. Descobrireis então que o vosso NÃO à Lei de despenalização do aborto (sabei que o NÃO ao aborto toda a gente defende, até as mulheres que alguma vez tiveram de recorrer a ele na clandestinidade e na abortadeira) soa como um insulto aos ouvidos e aos olhos de quem vos ouve e vê nas casas abarracadas, com maridos alcoolizados e filhos na droga.
Digo-vos mais: experimentai entrar nas tascas de bairros degradados à hora dos telejornais onde os vossos gritos mais ou menos histéricos pelo NÃO à lei de despenalização vão aparecer e vede/ouvi as reacções e os comentários das pessoas remediadas e ostracizadas que habitualmente as frequentam. O que elas dizem de vós, é o que dirão da Igreja fanática e sem entranhas de compreensão e de humanidade que vós mostrais por estes dias que são de treva, de muita treva, no nosso país, sobretudo por causa de vós.
Entendo que teria todo o sentido, se vós vos organizásseis em movimentos, independentemente dos bispos católicos portugueses, mas para marcar a diferença em relação a eles. Não para repetirdes, como cassetes, o que eles dizem. Para discursos moralistas e sem entranhas de misericórdia, já existem eles. Mais do mesmo, não, obrigado, minhas irmãs, meus irmãos! Com semelhante postura, o que vós ides conseguir é levar a gritaria a níveis impensáveis e insuportáveis, que acabarão por dar da Igreja católica em Portugal uma imagem desgraçada de intolerância nos antípodas da imagem jesuânica de tolerância que muitas mulheres e muitos homens defensores do SIM à Lei de despenalização do aborto já estão, felizmente, a dar por estes dias, e algumas delas, alguns deles assumidamente ateus!
Pensem nisto que aqui lhes digo. E, se ainda forem capazes, renunciem duma vez por todas à intolerância e digam NÃO ao aborto, como eu também digo, mas digam SIM à Lei de despenalização do aborto, como eu também digo. E, como sabereis, não é por isso que deixo de ser padre/presbítero da Igreja católica que está no Porto.
De resto, se não é para sermos na sociedade campeões de humanidade e de compreensão, para que nos dizemos de Deus? Tenho para mim que o próprio Deus, o de Jesus, se tivesse direito a voto, não hesitaria na escolha a fazer. Entre a actual prática do aborto clandestino, em condições as mais indignas, e a Lei de despenalização do aborto que não obrigará ninguém a abortar, mas que garante condições de dignidade a quem, em consciência, decidir realizá-lo, Deus, o de Jesus, votaria SIM à Lei de despenalização do aborto. Sejamos como Ele. E, depois, tudo façamos, em todos os dias do ano e de cada ano para que nenhuma mulher nossa irmã alguma vez se veja obrigada em consciência a ter de lançar mão da Lei aprovada.
Só a Igreja que agir assim tem a marca do Espírito de Deus e de Jesus. A que não agir assim tem a marca da Intolerância e do Moralismo. E como eu gostaria que todos nós, os que nos dizemos de Jesus, o Cristo, partilhássemos também do seu Espírito! Em lugar de sermos simples correias de transmissão do Moralismo dos fariseus do tempo de Jesus, como, infelizmente e nesta matéria, os Bispos católicos portugueses estão a ser. Para sua vergonha. E para prejuízo da dignidade humana e da liberdade.
2007 JANEIRO 08
Acabo de escrever para a última edição on-line do Jornal Frarternizar um pequeno texto de apresentação. A edição aguarda que o meu amigo Alberto, da Coopicart, regresse dumas curtas férias bem merecidas para a colocar na respectiva página (www.padremariodalixa.cjb.net). O texto retoma algumas das ideias expostas no Editorial do Jornal, já aqui divulgado na íntegra. Mas acrescenta oportunos pormenores que não resisto a partilhar também neste Diário Aberto. Leiam como quem mastiga. E, se ainda não são assinantes da edição em papel do Jornal Fraternizar, visitem por estes dias aquela minha outra página e cliquem em Textos Fraternizar, edição n.º 164. Eis.
Ninguém se descuide nem atrase
ESTA É A HORA DOS POVOS!
A edição n.º 164, referente ao trimestre de Janeiro/Março de 2007, do Jornal Fraternizar apresenta-se com uma boa notícia em manchete: O Império e o Templo estão a cair, para darem lugar aos Povos de toda a Terra. Esta é, pois, a hora dos Povos! Como boa notícia ou Evangelho que é, é preciso mudarmos de campo, despojarmo-nos da ideologia da Ordem Mundial dominante, e erguermos a nossa tenda entre as vítimas do Templo e do Império para podermos acreditar nela. Os que fabricam as vítimas, embora sintam que o chão do Poder e dos Privilégios já está a fugir-lhes de debaixo dos pés – aos olhos delas, não passam hoje de histriónicos cortesãos e de fantoches manipulados pelas grandes transnacionais do mundo, sem uma única ideia que se aproveite nas suas cabeças – não só não acreditam nesta boa notícia, como até esboçam sorrisos amarelos com tudo de estupidez e de cegueira, como se o seu Poder e os seus Privilégios fossem eternos. Não são. O 11 de Setembro de 2001 revelou para todo o sempre que não são. E se duraram todos estes séculos, foi porque a Humanidade foi habilmente mantida por eles na opressão e no medo e num estado de subdesenvolvimento e de infantilismo de bradar aos céus. Felizmente, o século XXI e o terceiro milénio não serão mais do mesmo. Esta é, por isso, a hora dos Povos. Mas a sua chegada anuncia, também, o fim da dupla histórica, intrinsecamente perversa e assassina, formada pelo Império e o Templo juntos. Até ao fim do século XX e do segundo milénio, as populações (mais populações do que Povos, que só agora emergem na História) foram brutalmente ensinadas e catequizadas para verem no Templo e no Império manifestações de Deus na terra, cujas leis e decisões tinham que acatar e realizar religiosamente, sob pena de maldição e de condenação eternas, o que perfaz um crime de lesa-Humanidade sem perdão!
Sabemos hoje que bem poderia não ter sido assim, pelo menos desde há dois mil anos para cá. Na verdade, pelo ano 30 da nossa era, houve um homem que revelou ao seu povo e, nele, a todos os povos da Terra – e revelou-o com o seu próprio sangue derramado – que o Templo e o Império eram, são o Perverso, o Mentiroso e o Homicida que jamais deveremos adorar, pelo contrário, sempre deveremos enfrentar, combater, derrubar e destruir. Logo um e outro como um só condenaram-no à morte e executaram-no na Cruz, para que o seu nome nunca mais fosse pronunciado sobre a Terra e ninguém mais se atrevesse a reconhecer na sua prática e na sua palavra e, sobretudo, na sua PÁSCOA ou Passagem pela História, a presença efectiva e definitiva da libertação e da salvação da Humanidade e do Universo.
Mas quando semelhante propósito se revelou de todo impossível de conseguir, logo o Império e o Templo decidiram ir ainda mais longe na sua perversão e converteram esse Homem feito maldito pela crucifixão, num mítico deus, o seu deus maior, absolutamente inofensivo, enquanto eles próprios passaram de seus carrascos ou verdugos a seus máximos representantes sobre a terra!...
As multidões, ainda medonhamente oprimidas e tolhidas pelo medo, acataram ingenuamente esta Mentira oficial e até aos nossos dias continuaram dispostas a ser carne para os canhões do Império e carne para as múltiplas religiões do Templo. Mas a verdade é que Jesus, o de Nazaré – é este o Homem de quem nem o Templo nem o Império podem sequer ouvir falar, tamanho é ódio que nutrem contra ele – está hoje à beira de ser resgatado do controlo de todas as religiões do Templo e de todos os ideólogos do Império. A Humanidade deste século XXI, felizmente cada vez mais ateia de todos os deuses que se alimentam de gente, está prestes a reconhecê-lo como património seu, vivo e actuante. E hão-de ser todos os Povos da Terra, finalmente unidos e organizados à escala global, que irão realizar com alegria e entusiasmo o seu Projecto de libertação para a liberdade/responsabilidade e para a sororidade/solidariedade universal.
Acreditemos nesta Boa Notícia. Procuremos ser dignos dela. Organizemo-nos desde já em pequenas comunidades ou núcleos de afectos e de mesas partilhadas, sem exclusão de ninguém. Ao mesmo tempo, comecemos a recusar executar as leis e as ordens dos mandantes das religiões do Templo e dos ideólogos do Império. Deixemos uns e outros a falarem sozinhos. Habitemos com simplicidade entre os Povos da Terra e com eles como humildes intelectuais orgânicos e como “parteiras”. Até que os Povos da Terra se assumam como um exército em linha de batalha sororal/fraternal, derrubem o Templo e o Império com a violência da Ternura e da Cultura e façam nascer um novo jeito de ser Homem/Mulher e de viver humanamente sobre a Terra: – o jeito jesuânico, feito de misericórdia e de perdão, de responsabilidade política e de partilha/comunhão económica e financeira entre todos eles. É hora, irmãs, irmãos! Ninguém se descuide nem atrase!
2007 JANEIRO 05
Estou triste com os meus irmãos bispos católicos portugueses. Acabam de protagonizar, em conjunto, mais uma acção de intolerância que nos envergonha a todas, todos os que somos Igreja católica em Portugal. As suas homilias de natal e de Ano Novo foram verdadeiras declarações de guerra contra a lei de interrupção voluntária da gravidez, que vai a referendo no dia 11 de Fevereiro próximo. Para seu mal e para mal da Igreja, à qual deveriam presidir na caridade e no serviço, os bispos voltaram a não surpreender positivamente. E é pena. Voltaram a ser mais do mesmo. O que perfaz um tremendo desastre. E não só os bispos da Igreja católica que está em Portugal. Também o Bispo de Roma, o papa Ratzinger, certamente feito com eles, juntou a sua à voz deles e fez afirmações, nomeadamente, no dia primeiro de Janeiro, que raiam o terrorismo doutrinal. Tamanha unanimidade episcopal contra a autonomia da sociedade civil de um pequeno país como Portugal reveste foros de um inqualificável pecado de intolerância, causador de ateísmo.
Que os bispos sejam contra a prática do aborto é obviamente saudável e previsível. Qualquer pessoa de bom senso só pode ser contra o aborto. Não é preciso ser-se bispo da Igreja católica. Nem padre católico. Basta ser-se pessoa humana de bom senso. Mas aquele tom sem entranhas de humanidade com que todos os bispos católicos portugueses, mais uma vez, disseram que são contra o aborto, como se apenas eles o fossem, chega a ser perverso. Soa a farisaísmo que tresanda e mata. Soa àquele tipo de santidade farisaica que, no seu tempo e país, arrancou sucessivos “ais” ao próprio Jesus. E que costuma desenvolver-se em ambientes religiosos nos antípodas de Deus, o de Jesus, invariavelmente vazios de entranhas de misericórdia e de perdão, de acolhimento e de ternura para com todas as vítimas, também as vítimas de certa moral imoral que se faz sem as pessoas nas suas situações concretas.
Dói-me que os meus irmãos bispos tenham voltado a falar, do alto da sua cátedra, como os campeões da moral, os puros, os defensores da vida. E como se todas as outras pessoas, inclusive católicas/católicos que já não vão pelos moralismos das suas homilias sem profecia fossem um bando de terroristas, assassinos, devassos, perversos, numa palavra, pecadores. Haja modos, senhores bispos!
Felizmente, a sociedade portuguesa, na sua esmagadora maioria, (quase) já nem ouve este tipo de homilias dos nossos bispos, proferidas em espaços eclesiásticos e em assembleias pretensamente litúrgicas, nas quais continua a não haver lugar para nenhuma espécie de contraditório por parte de alguém, muito menos, alguém que fale sob a inspiração do Espírito Santo. Não haverá por isso o risco – oxalá não me engane – duma guerra civil entre os defensores do NÃO e os defensores do SIM à Lei de despenalização do aborto. Mas que as homilias dos bispos católicos portugueses, às quais também se juntou a do papa Ratzinger em Roma, são objectivamente uma declaração de guerra contra a referida lei e contra os defensores do SIM, é mais do que óbvio. Com elas, os bispos deram também cobertura às vergonhosas e terroristas posturas das senhoras católicas defensoras do NÃO, em lugar de publicamente as chamarem à razão, como seria eticamente desejável, contra o manifesto fanatismo de cruzada em que todas elas estão a ser medonhamente férteis.
No meio de todo este ensurdecedor ruído eclesiástico católico contra a lei de despenalização do aborto, dou-me conta de que os meus irmãos bispos até se têm esquecido das muitas mulheres, nomeadamente das mais pobres, mais marginalizadas e menos letradas que, todos os anos, abortam clandestinamente em Portugal e que continuarão a abortar desse mesmo modo, se, entretanto, a lei de despenalização do aborto voltar a não ser aprovada por culpa de todo este terrorismo moralista católico, orquestrado por eles. O facto, só por si, leva-me a concluir que, afinal, os meus irmãos bispos não estão assim tão contra a prática do aborto, como parece. Basta ver que todos os anos realizam-se milhares e milhares de abortos clandestinos em Portugal. E os bispos católicos portugueses não dizem sequer uma palavra contra eles nas suas homilias. Os bispos sabem que eles se fazem, mas nada dizem. Não levantam a sua voz contra semelhante prática. Só quando a sociedade civil se preocupa com esse flagelo dos abortos clandestinos e procura uma solução legal que lhe ponha cobro ou, pelo menos, o diminua drasticamente, é que os bispos gritam e barafustam. Até parece que lhes dá mais jeito a prática generalizada do aborto clandestino do que a prática de abortos em hospitais públicos. Mais. Parece, até, que enquanto for clandestino, o aborto não é um mal assim tão grave. Grave é haver uma solução legal que tente pôr cobro a esse flagelo. Grave é haver uma lei de despenalização do aborto que abra a porta dos hospitais públicos às mulheres que, em consciência, e de forma irreversível decidiram abortar. Enquanto tais mulheres apenas puderem recorrer ao aborto clandestino, os bispos católicos não se importam por aí além. Pelo menos, ninguém os ouvirá falar disso, desse mal, nas suas homilias, muito menos, nas homilias de natal e de ano novo, o dia mundial da paz. O que verdadeiramente põe furiosos os nossos bispos católicos é a possibilidade de o aborto ser realizado em condições de segurança e de higiene, de dignidade humana e sem exploração financeira, como sucederá, se a lei for aprovada. Não é o aborto em si, muito menos, o aborto clandestino, feito nas piores condições que os põe furiosos. Esse, pelos vistos, pode continuar a realizar-se e até aumentar, que os bispos católicos não dizem uma palavra.
Como se explica esta postura? É aqui que é preciso inteligência para percebermos todo o perverso escondido no moralismo por que se norteiam os nossos bispos católicos. Está visto que o que está verdadeiramente em questão para eles, não é a prática do aborto. Se fosse, os bispos seriam capazes de trocar os altares das suas catedrais (isto é, os templos onde eles têm as suas cátedras!) pelas portas das clínicas privadas onde todos os dias se realizam abortos clandestinos, para, desse modo, tentarem convencer as mulheres que lá se dirigem a desistirem dessa sua decisão. Ao mesmo tempo, domingo, após domingo, ergueriam a sua voz nas homilias das missas, para condenarem semelhante prática contrária à vida humana. Até conseguirem convencer todas as mulheres a nunca mais abortarem. E, sobretudo, seriam incansáveis na realização duma concertada acção política que proporcionasse a criação de condições de vida digna a todas as mulheres do país, de modo que, quando elas decidissem engravidar, a gravidez tivesse sempre as condições objectivas indispensáveis para poder ir até ao fim.
Desenganem-se, porém. Porque não é a prática de abortos que está em questão. Essa é a cortina de fumo que os bispos católicos portugueses e do Ocidente gostam de formar e a bandeira que gostam de agitar para melhor esconderem o que verdadeiramente os faz correr/gritar nas homilias e nos confessionários; e que os leva a mobilizar exércitos de senhoras-bem e com muito tempo livre para darem visibilidade à guerra contra a lei de despenalização do aborto, muitas das quais, sempre que foi preciso, correram já a abortar, elas próprias, ou a acompanhar as suas filhas e netas adolescentes às clínicas privadas, em Espanha ou noutros países da Europa, e quase sempre com a bênção do respectivo pároco que é visita frequente da casa, senão mesmo do bispo amigo, com quem chegaram a partilhar a sua momentânea aflição…
Fixem então o que aqui lhes digo. O que os meus irmãos bispos não podem tolerar é que a sociedade civil progressivamente se afirme perante eles e acabe a dispensá-los de vez. O que os meus irmãos bispos não podem tolerar é que a Cristandade Ocidental, em que eles foram senhores absolutos e divinos, com precedência sobre a nobreza e o povo-servo-da-gleba, desapareça de vez da História, como, felizmente, está em vias de suceder. O que os meus irmãos bispos não podem tolerar é que a sociedade civil se autonomize irreversivelmente deles e chegue a ser capaz de legislar, inclusive, sobre questões éticas, como o aborto e a eutanásia. Esta perda de poder clerical/episcopal é que os meus irmãos bispos não podem suportar. Jamais o dirão, de viva voz, evidentemente, mas em verdade, em verdade vos digo: é sobretudo isso que os faz correr.
Por mim, padre/presbítero da Igreja do Porto, só encontro razões para me alegrar com a crescente afirmação da sociedade civil. Sei que a Lei de despenalização do aborto é da sua responsabilidade e saúdo-a. Não é uma lei da Igreja católica. Sei também que, se ela vier a ser aprovada, como desejo, nenhuma mulher grávida será obrigada a ir por ela. Jamais. É apenas mais uma porta que se abre às mulheres grávidas, se alguma delas em consciência decidir abortar. Reconheço que a Lei não será a solução ideal contra o flagelo dos abortos clandestinos, mas não tenho dúvidas em afirmar que é muito menos má que a presente situação de abortos clandestinos. Por isso, voto SIM no referendo do dia 11 de Fevereiro de 2007.
Se ganhar o SIM, ganha a vida humana com mais dignidade. Ganha a sociedade civil que se afirma mais e mais. Ganha a cidadania de cada uma, cada um de nós, crentes, agnósticos ou ateus.
Se ganhar o NÃO, ganha o Medo, o Moralismo farisaico, a Hipocrisia, o Infantilismo, que são outras tantas formas de fascismo contra as populações, nomeadamente, as mais pobres e as menos ilustradas. O que seria intolerável.
2007 JANEIRO 01
Neste primeiro dia de 2007, Dia Mundial da Paz, tomo a liberdade de partilhar aqui, neste meu Diário Aberto, o EDITORIAL que escrevi para a edição n.º 164, do Jornal Fraternizar, Janeiro/Março 2007, que amanhã será enviado, via CTT, para os respectivos assinantes, elas e eles. A HORA DOS POVOS, é o título que lhe dei e que faz a principal manchete na capa. É uma reflexão teológica, em forma de Evangelho ou Boa Notícia de Deus para o nosso Hoje global, que gostaria de ver debatida em todo o lado pelas pessoas. Sonho com o dia em que a Teologia, que está na raiz de tudo, venha a ser tema de conversa e de salutar debate nos cafés e nas ruas, nos locais de trabalho e nas famílias. Se quiserem, comecem já com esta reflexão. Porque só povos em estado de menoridade é que se deixam cair na armadilha de passarem o melhor do seu tempo a debater futebol de alta competição, o dos clubes, que hoje, como sabemos, são mais SADs do que CLUBES, e que desse modo nos anestesiam e alienam. Confrangedoramente. O texto é fecundamente violento, como violenta é a vida que irrompe nova do útero materno. E como violenta é a Liberdade que nos faz seres humanos criadores de sororidade/fraternidade e de Paz. Deixemo-nos fazer por ele. E seremos mulheres, homens de Paz. Em 2007 e sempre. Eis:
Anuncio-vos uma grande alegria que o será para todos os povos do mundo: o Império está a cair. E juntamente com ele, também o Templo está a cair. A queda de um leva sempre no bojo a queda do outro, tal como a arrogância de um favorece sempre a arrogância do outro. Os dois, o Templo e o Império, têm por pai a Mentira e por mãe o Assassínio e o Genocídio. Mesmo quando parece que protegem os povos, como benfeitores, oprimem-nos. E quando anunciam ao mundo que vão intervir nesta ou naquela região do globo para protegerem a vida dos Povos que lá habitam, o que invariavelmente fazem é mobilizar os mais saudáveis e os mais fortes entre os homens e as mulheres sob a sua jurisdição, organizá-los em exércitos sofisticadamente armados até aos dentes e enviá-los com a missão única de os amedrontar e submeter, reprimir e matar sem dó nem piedade. O que, nestes últimos anos, tem estado a acontecer no Iraque é paradigmático do que sempre fazem o Império e o Templo juntos.
Até agora, os povos têm abdicado da sua autonomia e da sua iniciativa política a favor do Império e do Templo. Foram séculos e séculos de menoridade dos povos que nunca se acharam com capacidade para se afirmarem perante o Templo e o Império. Limitaram-se sempre a dizer amen às suas decisões e a obedecer aos seus chefes todo-poderosos e temidos, olhados até como representantes de Deus na terra.
Inicia-se agora, em 2007, um novo Tempo. Esta é a hora dos Povos e da sua efectiva autonomia no mundo. Passam do estado de menoridade e de súbditos do Império e do Templo, nas pessoas dos poderosos e dos sacerdotes, ao estado de maioridade e de senhores dos seuS próprios destinos e dos destinos do mundo. A mudança é radicalmente revolucionária e digna da mudança de Milénio. Representará, por isso, a início da verdadeira História dos Povos que, até aqui, tem sido apenas a história do Templo e do Império, da carnificina e do latrocínio, da violência e do genocídio generalizados, cometidos em nome da Lei que ambos, Templo e Império, têm feito aprovar para defesa dos seus perversos interesses de minoria contra os legítimos interesses das maiorias.
Os Povos terão que aprender rapidamente a viver à intempérie e como em deserto, sem nunca mais aceitarem a protecção opressora e castradora do Império e das suas minorias privilegiadas e corruptas, e sem a bênção infantilizadora do Templo e dos seus sacerdotes mercenários. Cabe aos Povos não só derrubar os poderosos dos seus tronos, mas também os tronos todos, e expulsar de vez o Poder da face da terra. Em seu lugar, implantarão a Política em todo planeta, protagonizada por eles mesmos, sem nenhuma espécie de intermediários profissionais que a primeira coisa que invariavelmente fazem, quando os Povos os elegem, na ingénua convicção de que serão os seus fiéis servidores, é reforçar os seus privilégios de elite e ampliá-los até para lá do intolerável e do obsceno.
Bem sei - e os Povos do mundo também sabem por aquele saber de experiência feito - que a Política hoje anda totalmente pervertida. O Império e o Templo perverteram-na de propósito. De senhora que era, fizeram dela uma prostituta. A mais infame das rameiras sobre a terra. Direi, até, a única rameira, a única prostituta. À beira dela, as prostitutas de ofício que, desde que o mundo é mundo, vendem o seu corpo pelas estradas e pelos bares da sua desgraça e da nossa vergonha, pode dizer-se que são verdadeiras virgens. Já os antigos profetas bíblicos viram o que agora eu ando aqui a tentar fazer ver também. Tal como Jesus, no seu tempo e país - paradigmaticamente dominado pelo Templo e pelo Império - também os profetas bíblicos nunca se ralaram por aí além com o "pecado" das prostitutas de sexo. Com o que eles se preocuparam e combateram com risco das próprias vidas foi com a Prostituição/Idolatria das minorias dirigentes das nações que estava na origem de todas as opressões e injustiças estruturais no mundo. Já com as suas inúmeras vítimas, os profetas e o próprio Jesus foram duma ternura e duma solidariedade incondicionais. Eles viam que essas opressões e injustiças estruturais não eram uma fatalidade, como o Império e o Templo faziam crer, mas o amargo fruto das políticas e das economias sem entranhas de humanidade que ambos invariavelmente fomentam sobre a terra, quando os povos delegam neles e nos seus políticos de turno as suas próprias iniciativas e responsabilidades políticas.
Felizmente, os Povos, hoje, já estão a dar-se conta de que não há outra maneira de se salvarem e de salvarem o Planeta, que não seja pela Política (com "P" grande). Até agora - pode bem dizer-se - nunca houve Política na terra. Houve Prostituição política. Houve políticos profissionais que se prostituíram com o Dinheiro e o Poder, o Poder solitário e pessoal, próprio de todos os caciques, ou o Poder do Império e do Templo, sempre transnacional e, hoje, pela primeira vez na História da Humanidade, global.
Pois bem, com a queda do Império, hoje já irreversível, e com a inevitável queda do Templo que aquela sempre arrasta consigo, soou a hora dos Povos da terra. A Guerra do Iraque veio revelar ao Mundo e aos Povos do mundo - é o Apocalipse maior do século XXI, iniciado já com o 11 de Setembro de 2001 - que o Império e o Templo são o Perverso que sempre torna perversos o mundo e os próprios seres humanos que se deixarem fazer pelo seu sopro ou espírito. E tal tem acontecido com o mundo e com os Povos que, manifestamente, têm-se deixado fazer pelo sopro ou espírito do Império e do Templo, graças à poderosa operação mediática de propaganda sem precedentes que os dois têm podido realizar 24 horas sobre 24 horas. Nunca como hoje, o Império e o Templo conseguiram uma hegemonia tão grande em todo o planeta. O seu pensamento tornou-se o pensamento único, como única é a sua ideologia que impera em toda a parte. É uma espécie de Ideologia/Id(e)olatria global que tem mantido subjugadas (quase) todas as pessoas, assim como todos os Povos. Ninguém parece escapar ao seu Poder e ao seu domínio, o poder e o domínio da Besta, que tal é o nome com que o Apocalipse que encerra o Segundo Testamento designa o Império e o Templo, quando ambos se tornam globais, como sucede também hoje, nestes tempos que são os nossos. O sopro ou espírito do Império e do Templo apoderaram-se demoniacamente dos Povos e todos à uma o que mais têm querido ultimamente é ganhar um lugar no seu condomínio fechado. Nem que seja na condição de minhoca ou de escaravelho!
Mas eis que está a chegar ao fim este tempo de servidão global. A queda do Império e do Templo assinala a hora dos Povos em toda a terra. Pela primeira vez na História da Humanidade. Porque também pela primeira vez o domínio do Império e do Templo foi global, graças aos media que fazem com que todos os Povos estejam a par, momento a momento, dos passos dados por um e por outro, na pessoa dos seus principais representantes. Por isso, a queda de ambos já em curso é igualmente global, e está a ser acompanhada por todos os Povos do mundo.
Cabe aos Povos do mundo despertar do sono de séculos, abandonar a alienação e a menoridade em que têm sido obrigados a viver. Esta é a sua hora, que eles não podem desperdiçar de maneira nenhuma. E a principal arma que podem brandir, que têm de brandir com ambas as mãos, com muita cabeça e o máximo de entranhas de humanidade, é a Política praticada por eles próprios, sem intermediários. Só os Povos do mundo organizados e unidos forçarão a História a dar um salto qualitativo em frente. Levantem-se, pois, como Povos com voz e vez. Destronem e neutralizem as multinacionais que o Império e o Templo conceberam, geraram e pariram, e que continuam aí, sem rosto, a decidir sobre os nossos destinos e os destinos do Planeta. Em lugar delas, perfilem-se eles, Povos de toda a Terra. É a hora!
Jesus, o de Nazaré, assassinado pelo Império e pelo Templo, por não ter corrido a colocar as suas capacidades de Homem ao serviço deles, antes ter-se assumido como um verdadeiro intelectual orgânico entre o seu povo, é o melhor exemplo de militante para esta hora. Resgatemo-lo e ao seu Evangelho das garras do Império e do Templo. Abramo-nos ao seu Sopro ou Espírito e disponhamo-nos também a viver maieuticamente com os Povos do mundo, para que eles se tornem Povos políticos ao serviço da vida, e vida em abundância.
Vosso companheiro e irmão, Mário, presbítero da Igreja do Porto.