2006 JANEIRO 31
Entre um frio de fazer bater o dente e
o Fogo do Espírito venceu o Fogo do
Espírito. Pelo menos foi assim para as cerca
de 50 pessoas que no domingo 29 fomos até
à sede do Fraternizar em S. Pedro da Cova fazer e
viver o 5.º Encontro de Espiritualidade. Todas
no final éramos bem mais humanas e sororais.
Coube-me o serviço maiêutico de introduzir
e dinamizar o encontro. Missão difícil? Tê-lo-ia
sido se eu não vivesse nas Margens onde o Espírito
de Jesus Passa e faz ouvir a sua voz sem que
saibamos de onde ela vem nem para onde vai.
Ou se o Encontro tivesse acontecido dentro de
um Templo onde nunca acontece Pentecostes.
O Ateísmo que hoje nos cerca por todos
os lados nunca foi problema de monta para
Jesus. Todo o Ateísmo que nega/recusa um Deus
que se alimenta de gente tem indubitavelmente
a sua fonte no Espírito de Jesus e só enobrece
os seres humanos. Como tal até glorifica o Deus Vivo.
O que sempre nos envergonha e avilta é a Idolatria.
Há contudo um Ateísmo que nos deixa órfãos
e pode descambar em Idolatria. É quando nos
fechamos ao Mistério e como Tomé reduzimos
a Realidade ao que os nossos olhos vêem e as
nossas mãos palpam. Nunca o ser humano é tão
ser humano como quando vive aberto ao Mistério
e se deixa fazer pela Presença do Invisível.
Não se trata de sairmos por aí de lanterna
na mão à procura de Deus. Trata-se de sermos
como meninas meninos atentos aos sinais dos
tempos e sensíveis aos clamores das Vítimas
humanas e da Natureza. Em lugar de ilhas
somos caminhos e pontes que nos levam aos
demais e os trazem até nós num universo de amor.
Lá onde houver Amor praticado há Comunhão
e na Comunhão realizada já não há lugar nem para
aquele Ateísmo que pode descambar em Idolatria. Tão
pouco haverá lugar para a Religião. O Medo que cria os
deuses e as deusas é superado pela Confiança. Depois
a sororidade/fraternidade sem fronteiras faz o resto.
E Deus Vivo é o Sopro que nos une e faz fecundos.
Não! O Deus Vivo não é para ser procurado nem
para ser invocado. As Igrejas e as Religiões é que
insistem nessa Mentira e promovem práticas rituais
e de culto que alimentam nas populações a ilusão de
que por essa via chegam a Deus e lhe agradam.
Mas ai das populações que vão por aí! O que alcançam
é um Ídolo que se alimenta delas como um vampiro.
Não tenho que ir a este Templo ou àquele Monte
para encontrar Deus. Todos os santuários
são Mentira. E todas as Religiões são falsas.
Quem vai por esses atalhos pode sentir algum
alívio nas suas dores e solidões mas sempre e só
no jeito de quem toma a sua dose regular de ópio
ou de droga. Nunca chegará a ser livre nem fraterno!
Não se trata de sair por aí à procura de Deus.
Do que se trata – e essa é a maior dificuldade –
é de consentir que Deus Vivo me bata à porta e se
encontre gratuitamente comigo. E me desinstale de todas
as seguranças religiosas ou ateias que construí para me
justificar e defender dos demais. Afinal crer em Deus
Vivo é tornar-se homem/mulher-para-os-demais.
Nunca a Religião foi caminho para Deus Vivo. Nem
o Poder nem o Dinheiro. Todos três são caminho
para o Ídolo. Deus Vivo é quem nos alcança e logo
faz de nós mulheres/homens políticos ao jeito de Jesus
empenhados como ele todos os dias na missão de fazer
viver a muitas/muitos e de enfrentar com Lucidez e Audácia e
Ternura os Verdugos que produzem vítimas aos milhões.
Quando também eu consinto que o Sopro de Jesus
seja o Sopro que me faz ser/viver todos os dias
nunca mais me sinto só. Nem que todos me abandonem
e o Sofrimento seja esmagador sempre me experimento
acompanhado. O Amor Criador que me um dia me fez
acontecer na História nunca mais deixará de soprar
forte e terno em mim. É nele que eu sou. E que serei.
2006 JANEIRO 27
Nestes nossos dias que são de Ódio organizado
e a Mentira é o ar que nos dão a respirar
eis que candidamente salta do Vaticano uma
carta Encíclica a lembrar ao Mundo que Deus é
amor. Mas o Mundo dominado pelo Império
não deixou de continuar a crescer no Ódio nem
de fazer da Mentira a mais eficaz das suas armas.
Do Vaticano e de Bento XVI ainda pode vir alguma
coisa boa? As suas cartas Encíclicas podem
conter alta filosofia e até alta teologia. Mas
porque nascem despojadas do Sopro de Jesus
de Nazaré conterão sempre palavras sem profecia e
sem força bastante para desmascarar/derrubar
o Império e as Multinacionais da nossa vergonha.
Palavras sem profecia são todas filhas do Império
que as pariu ainda que tragam o selo do Vaticano
falem muito em Deus e repitam até à saciedade
Deus é amor! Deus é amor! O que todas elas mais
têm conseguido é distrair-nos do Essencial que é
agir dia e noite para pôr fim à Pobreza e derrubar
a presente Ordem Económica Mundial que a justifica.
Deus é amor? Mas que tipo de amor é que
Deus é? Porque Bush também ama e nem por
isso deixa de ser o rosto humano do Império
que hoje tanto empobrece e oprime os povos
graças à Mentira organizada que difunde em
contínuo para todos os cantos do Planeta
através de grandes e sofisticados media.
A Bento XVI agrada sobremaneira que
o Amor se identifique com Agapê do grego antigo.
Parece desconhecer que Agapê sem Eros
é Amor sem Sopro Político Insurreccional
por isso muito distante dos Empobrecidos e dos
Oprimidos do Mundo os únicos à altura de poderem
converter ricos e poderosos em seres humanos.
Não falta quem se mostre agradavelmente
surpreendido com Bento XVI e esta sua carta Encíclica
sobre o amor. Mas um amor que não subverte o Império
nem torna o mundo mais decente ainda é amor? E ainda
é aquele Deus que em Jesus enfrentou os sacerdotes
do Templo e os chefes do Império e por isso acabou
crucificado às mãos coligadas de uns e de outros?
Deixa que te pergunte meu irmão Bento XVI:
O que sabes tu do amor que é Deus para te
pores a discorrer sobre ele numa carta Encíclica
sem antes teres tido a humildade de renunciar
ao Poder de chefe de Estado do Vaticano e da
Cristandade que faz de ti um monarca absoluto
bem nos antípodas de um irmão universal?
A tua carta Encíclica sobre o amor teria
abalado o Império e comovido a Humanidade
se quando decidiste escrevê-la logo decidisses
também abandonar o Estado do Vaticano e ter passado
a viver entre os Pobres e com eles tal como antes de ti
fez Jesus o de Nazaré. Mas um amor assim jamais
pode acontecer no Vaticano. Para tua/nossa desgraça.
2006 JANEIRO 24
Afinal, foram várias eleições nesta eleição presidencial do nosso país. Dos seis candidatos, apenas um teve como aspiração ganhar no passado dia 22 de Janeiro. E ganhou. Os outros cinco, todos de Esquerda, queriam apenas, nesse mesmo dia, passar à segunda volta. Por isso, já entraram derrotados, quando se meteram nesta esforçada feira de vaidades messiânicas. E a prova mais inequívoca é que nem se importaram de passar o tempo da pré-campanha, longuíssima, e da campanha, três enfadonhas semanas, a dar tiros nos pés dos camaradas e companheiros. Nunca, em todo esse tempo, os cinco candidatos de Esquerda foram capazes de encontrar um dia e uma hora para se sentarem todos juntos e em intimidade à volta da mesma mesa. Que companheiros são estes que recusam comer do mesmo pão à volta da mesma mesa, quando até o próprio vocábulo “companheiros” significa “os que comem do mesmo pão”? Inimigos políticos é o que são. Pelo menos, é o que têm sido. Quem é o meu inimigo?, pergunta o ditado popular. E responde: O que tem o mesmo ofício que eu. Poderíamos traduzir aqui por: O que tem o mesmo objectivo que eu, no caso, o que pretende ter mais votos do que eu e, consequentemente, ficar com mais Poder do que eu. Quando as causas entre os que se dizem de Esquerda não passam de tentar obter mais lugares de Poder bem pagos, à mistura com alguns outros importantes privilégios, ainda são de Esquerda esses que assim se dizem? De Direita é o que são, por mais que se digam de Esquerda. E porquê? Porque Direita e Poder, Direita e Privilégios são sinónimos. Esquerda é ter como causas todas as causas da Humanidade, a começar pela mais sofredora e mais desamparada. E, ao mesmo tempo, atrever-se a viver todos os dias entre as maiorias da Humanidade e com elas, como uma, um mais, numa relação maiêutica, para que elas se desenvolvam e cresçam em protagonismo político, enquanto eles próprios diminuem.
Mas nesta eleição presidencial, havia uma outra eleição em disputa entre dois candidatos, concretamente, Soares e Alegre: ambos pretendiam ser o segundo candidato mais votado no dia 22 de Janeiro. Soares perdeu em toda a linha. Mas Alegre também. Repararam como ele não dissimulou a decepção, ao sublinhar, na sua declaração política, que perdeu apenas por umas décimas? Só que aquelas décimas são mais de 60 mil votos que ele não conseguiu retirar a Cavaco Silva! Além do mais, uma pequena fortuna em dinheiro do Estado, já que cada voto, para os candidatos que obtiveram mais do que 5% nas urnas, também vale dinheiro do Estado português!...
Havia ainda uma terceira eleição em disputa dentro desta eleição presidencial. Era saber quem, entre Jerónimo e Louçã, ficava em terceiro lugar no dia 22 de Janeiro. Louçã perdeu, embora os dois, cada qual ao seu jeito, tivessem afirmado, perante as câmaras das televisões, que eram os que estavam em melhores condições para virem a ser o próximo presidente da República de Portugal. Felizmente, para ambos, e para os respectivos partidos que os apoiaram, o ridículo político não mata, porque se matasse…Não mata, mas descredibiliza. E dá trunfos e mais trunfos à Direita. Com políticos assim, tão seduzidos e tão encandeados pelo Poder, para onde vamos senão para o abismo?
A vitória de Cavaco Silva e da Direita à primeira volta é uma vergonha política e cultural para o Portugal que já foi de Abril. Mas a vergonha não é Cavaco Silva ser, desde domingo à noite, o presidente da República eleito do nosso país (a posse está marcada para 9 de Março 2006). Honra lhe seja feita: Trabalhou para isso, durante os últimos dez anos. Não improvisou a campanha como fizeram todos os que se dizem de Esquerda. O próprio Alegre confessa – e o pior é que não o faz como quem vê aí o principal falhanço da Esquerda nestas eleições presidenciais, mas como quem avança um dado desculpalizante a seu favor – que, no caso dele, teve apenas dois meses e meio (primeiro, disse três meses, mas ontem, dia 23, já reduziu para dois meses e meio) para pôr de pé o “Movimento de Cidadania” que se congregou em seu redor e que contabilizou mais de um milhão de votantes. Para mim, é aqui que está a vergonha. Com uma Esquerda assim, de tão baixa qualidade política, qualquer candidato de Direita ganharia estas eleições. É manifestamente uma Esquerda dividida (não confundir com Esquerda plural, o que seria altamente saudável), preguiçosa, adormecida, refastelada, anos e anos a fio, nos directórios dos partidos e dos sindicatos, com lábia q.b., mas sem nenhuma prática militante junto das populações proletarizadas e lumpen-proletarizadas, hoje de novo analfabetas e mendigas de rendimentos mínimos e de subsídos, de bancos alimentares contra a fome e de droga. Nos antípodas da dignidade humana.
Pode, por isso, dizer-se que a Esquerda perdeu estas eleições presidenciais por falta de comparência. Não, evidentemente, por falta de candidatos, já que estes foram em excesso. Mas por falta de qualidade participativa. Umas eleições não se improvisam, sobretudo, quando, como hoje, o Kapital está aí sem rei nem roque a fazer das suas, a multiplicar as suas vítimas sem apelo nem agravo. Esperem para ver. Um pouco mais de tempo e seremos cerca de uns cinco mil milhões de pessoas excedentárias, num universo de pouco mais seis mil milhões que é quanto totaliza a população mundial. Eis a vergonha. Eis a humilhação. Enquanto a Esquerda se comportou como a cigarra da fábula, a Direita, na pessoa de Cavaco Silva, comportou-se como a formiga. Por isso, não é vergonha ele ter ganho estas eleições presidenciais. É vergonha a Esquerda tê-las perdido. E mais vergonha ainda é ser-se Esquerda como estas eleições deixaram bem a nu. Ou mudamos radicalmente e sem demora, ou desaparecemos como Esquerda. Absorvidos pela Direita. Aliás, já é o que está a acontecer. Quando nos batemos mais por lugares de Poder bem remunerados do que pelas causas da Humanidade mais sofredora e mais desamparada; quando aceitamos privilégios que as maiorias nunca poderão usufruir; quando pactuamos com as discriminações estruturais entre pessoas e grupos sociais que o Poder institui e impõe como coisa natural, só porque parte delas também nos beneficiam e aos nossos, já somos de Direita, ainda que continuemos a esconder-nos sob o rótulo de Esquerda. Mas não tenhamos ilusões. Depressa acabaremos deitados fora pela Direita, porque a Esquerda é como o sal. Quando perde a força de transformar a sociedade, nem para a Direita serve. A Direita pode começar por aproveitar um ou outro elemento reciclado, mas só para daí a pouco o abandonar à sua sorte e o levar a enforcar-se.
E agora, que tudo está consumado, o que fazer? Oxalá, acordemos! E aceitemos ressuscitar num mais ou menos próximo terceiro dia. Aceitemos nascer de novo. Do Alto. Dos clamores dos Oprimidos e dos Empobrecidos. Busquemos a unidade na pluralidade. Sejamos companheiras, companheiros, em igualdade. Sentemo-nos à mesma mesa. Escutemo-nos. Ousemos ser contra-Poder. Contra-Privilégios. A Política é que poderá humanizar o mundo que o Poder sempre desumaniza e corrompe. Percebamos, depressa, o que, nestes trinta anos de Abril, ainda não percebemos: que o Poder não se conquista, combate-se. Só mulheres e homens libertos para a liberdade e para a responsabilidade constituem sociedades e países decentes. Quem sonha com o Poder nem sequer entende esta evidência. E nunca poderá ser de Esquerda.
Por isso, cuidado, Manuel Alegre! Mais facções de Poder não. O Movimento de Cidadania de que falas faz-se com cidadãs, cidadãos. Não com Messias. Se queres ser o primeiro neste Movimento faz-te o último. Renuncia ao Poder. Torna-te Poeta casado com a Poesia, sem cedências à Mentira/Ideologia/Idolatria. Torna-te Político, sem cedências ao Poder e aos Privilégios. Sê efectivamente justo, amigo, fraterno. Como Francisco de Assis, mas agora na Política. As duas coisas ao mesmo tempo, não. Porque são incompatíveis, meu irmão.
Vêm aí, pelo menos, cinco anos de pesadelo. De chumbo. Entremos em Deserto, durante 40 dias e 40 noites, isto é, durante o tempo duma geração. Em intensa, fecunda e discreta actividade política. Porque do que se trata não é de derrotar Cavaco Silva, já daqui a cinco anos. Do que se trata é de fazer nascer um País que existe oficialmente há mais de oitocentos anos, mas que na verdade ainda não nasceu como Povo livre e responsável, justo e fraterno, aberto ao Mundo e solidário.
Com muita humildade, alegria e sem sinais de cansaço, aceitemos ser as parteiras deste Acontecimento. Iniciemos, hoje mesmo, o muito que há a fazer de Acção Política até lá. Para que não venha aí mais um aborto, a juntar a tantos outros que já ocorreram, ao longo da nossa História.
2006 JANEIRO 21
Convidam-nos à reflexão depois
da tortura que foi uma campanha eleitoral
sem ideias e sem dignidade. Por mim só
posso chorar pelo meu país sem sonho
e sem asas. Ao cabo de oito séculos
mais parecemos um Povo que trocou
o voo da águia pela segurança da capoeira.
Precipitamo-nos como galinhas esfaimadas
sobre as minhocas com que o Sistema
nos acena. Os mares ainda nos chamam
mas já só respondemos aos apelos
do Dinheiro e dos Privilégios. Parecemos
garnisés que adoptam cães e gatos
quando deveríamos parir filhas e filhos.
Tivemos a Revolução nas mãos
e deixamo-la fugir. E agora desencantados
viramo-nos de novo para as senhoras
de Fátima e para os messias salvadores
sem nos darmos conta que com isso
desistimos da Dignidade e da Autonomia
e trocamos a Liberdade pela vassalagem.
Ai de um Povo que entrega os seus destinos
nas mãos de outrem em lugar de nas
suas próprias. Depressa passará
dos ruidosos festejos do Carnaval à
lúgubre quarta-feira de cinzas. O Messias
aclamado ao final do dia nas ruas já será
o seu opressor ao romper do novo dia.
Nem Alegre nem Soares nem Jerónimo
nem Louçã perceberam que o Poder
não se conquista. O Poder só se combate
num duelo em que sempre acabaremos
por perder como Jesus de Nazaré. Mas
não há outro jeito da Humanidade crescer
em consciência e em Intervenção Política.
O Poder é das Trevas não da Luz. Só
a Política nos faz crescer em consciência
e em protagonismo. A partir de amanhã
afastemo-nos do Poder e entremos em
Deserto para nascermos Políticos-parteira.
Renunciemos aos Privilégios e voltemos
a ser simples cidadãs/cidadãos-com-os-demais.
Nunca como então seremos fecundos
cresceremos em credibilidade e em
força libertadora. As multidões que correrão
amanhã a votar em falsos Messias descobrirão
que ou são Messias elas próprias em conjunto
ou ficarão eternas reféns do Poder que
tudo corrompe e a todos infantiliza e subjuga.
2006 JANEIRO 19
Detesto o Poder e a Religião
diz Deus. Mas todo Eu vibro
com a Política. O Poder é a Opressão
dos Povos. A Religião é o culto/cultivo
do Medo. Vejam como os poderosos e os
chefes das Religiões sempre se encontram
no acto de oprimir e de alienar os Povos.
Política quero. Não quero nem Poder
nem Religião. É pela Política que
os Povos despem a consciência ingénua
tornam-se lúcidos e protagonistas
e abrem caminhos ainda por andar
para chegarem a viver uns com os outros
numa Comunhão que espanta o Medo.
Tornar-se política/o longe do Poder
é conhecer-Me. Os poderosos
e os sacerdotes não Me conhecem
ainda que passem o tempo a pronunciar
o meu Nome. Os palácios que habitam
e os templos que frequentam são sepulcros
caiados onde já se apodrece em vida.
Vãos e perversos são os cultos
que Me prestam. As suas línguas
dizem palavras de louvor e de súplica
mas todos os seus projectos têm
as marcas da Alienação e da Opressão.
E do Assassínio. Ai dos Povos que
se deixem ensinar e dirigir por eles.
Saibam os Povos que Eu não frequento
nem Missas nem os outros cultos dos poderosos
e dos sacerdotes. Pela Política é que vou
e é com ela que continuo a levar por diante
a Criação de filhas e de filhos em tudo iguais
e semelhantes a mim. E a minha alegria maior
é vê-los crescer em Acção Política e Eu diminuir
Desistam por uma vez dos poderosos
e dos sacerdotes que vos oprimem e enganam.
Resistam aos seus discursos de Mentira
e às suas perversas publicidades. Deixem-se
guiar pelo Meu Sopro libertador e acabarão
envolvidos como Eu e comigo na Acção Política
geradora duma Ordem Mundial assente na Partilha.
2006 JANEIRO 15
1. É enorme o berreiro nacional contra as escutas telefónicas. Bastou um diário, habitualmente tido como pouco credível pelos autores do berreiro, atirar cá para fora umas quantas listas com nomes e números de telefone de figuras graúdas do Estado e do mundo do Poder e do Dinheiro, para todos eles, à uma, saírem para os grandes media a dizerem da sua indignação. Não nos deixemos impressionar com esse berreiro. Não passa duma manifestação de hipocrisia, a mais refinada. Eles próprios, os grandes, criam as leis e as penas para os infractores, mas também criam os truques para, depois, as poderem furar sempre que lhes der jeito. E agora ainda têm o despudor de vir para a praça pública exibir uma indignação que só pode ser hipócrita!... Deixemo-los comer-se uns aos outros. Para ver se, já sem eles, nos decidimos, finalmente, a criar um país decente, porque este que temos ainda não é um país que se apresente. Até agora, temos sido sobretudo um covil de ladrões e de mentirosos.
A verdade é que, logo à partida, tivemos um início desastroso, com o próprio “pai” da pátria. (porque não mátria?! Pátria remete-nos de imediato para o Poder, para o Patrão, para o Tirano, para o Conquistador, para o Mentiroso, para o Assassino, para o Explorador, para o Opressor…) Meteu-se a separar o que estava natural e geograficamente unido. E depois ainda continuou por aí a roubar, a matar e a destruir a torto e a direito, com o apoio de “Cruzados” que tinham tanto de católicos como de anti-Cristãos e de anti-Humanos, para, desse modo, conseguir alargar até aos Algarves o território que hoje nos define como Portugal. E o que não conseguiu fazer em vida, (também os conquistadores são efémeros, não eternos e, se a sua memória perdura no tempo, ainda é para sua vergonha, não para sua glória!) os seus imediatos sucessores e descendentes conseguiram-no. E hoje, mais de oito séculos volvidos, continuamos a ser um covil de ladrões. Com um arremedo de democracia à mistura.
É assim. As populações elegem alguém para autarca, ou para deputado, ou para o Governo. Da noite para o dia e enquanto o Diabo esfrega um olho, os eleitos desistem de ser seres humanos, para se tornarem seres abaixo de besta, meros súbditos e vassalos do deus Dinheiro e do deus Poder. Estes dois deuses sobem-lhes à cabeça e é um ver se te avias. Cada qual quer ser o maior, o mais poderoso, o mais rico, o mais corrupto, o mais traidor, o mais mentiroso. Vale tudo aos do topo da pirâmide. Enquanto os de baixo roem-se de inveja e só sonham com o dia em que poderão vir a ser como os de cima, se possível, passar-lhes a perna e serem ainda mais ricos e mais poderosos do que eles. Todos querem ser ricos. Todos querem ser poderosos. Todos querem ser deuses. Ninguém que ser simplesmente ser humano, mulher/homem. Muito menos, companheiro, irmão, próximo, amigo. Nem que seja preciso emigrar para poder aparecer, daí a uns anos, na terra onde nasceram com um carro de marca superior ao do vizinho, não se hesita, emigra-se. A aspiração não é tornar-se mais humano, o que seria de louvar, não é conseguir condições de vida mais humana. Não. É ter mais que o vizinho. É tornar-se rico e poderoso. É sentir-se admirado, temido pelos mais pobres do que ele. É ser como o autarca lá da terra. Como o deputado. Como o ministro. Como o presidente da república. Como o médico. Como o engenheiro. Como o banqueiro. Como o pároco. Como o bispo. Como o papa. Ou como o patrão da Sonae.
Não suporto esta hipocrisia institucional e nacional. Cada qual aferra-se aos seus privilégios e todos se comportam como cães agarrados ao osso. Tentem aproximar-se deles e verão e ouvirão como eles se indignam e rosnam. A democracia em que presentemente vivemos é a do Cão agarrado ao osso. Berra-se na praça pública, mas quando vamos a ver a minoria que o faz é só para melhor salvaguardar o seu “osso”, entenda-se, os seus privilégios de casta. O trapalhão do Souto Moura pode ter sido desajeitado no papel que lhe cabe nesta guerra infernal de salvaguardar os privilégios dos grandes do Poder, do Dinheiro e da Religião, mas alguém acredita que ele está naquele decisivo lugar de “procurador da República” (vejam só os nomes pomposos sob os quais os grandes do Poder e do Dinheiro e da Religião habitualmente escondem os seus perversos projectos e as suas perversas ambições!...) apenas pelos seus lindos olhos? Se não fosse um pau mandado dos Poderosos e dos Ricos, acham que ele tinha sido escolhido para o cargo? E que se ele, depois destes anos de exercício de funções, não soubesse demais, já não tinha sido corrido a pontapé? Mesmo assim, Souto Mora que se cuide, porque não só o seu lugar está na mira dos Poderosos e dos Ricos, como também a sua cabeça. Ou pensam que a Máfia é só coisa do Pentágono, da Itália, ou do Estado do Vaticano e da sua Cúria Romana? Não é da natureza do Poder e do Dinheiro e da Religião matar, roubar e destruir quem lhes resiste? Os três não são um só e não são todos mentirosos e assassinos, pais da Mentira? Alguma vez são capazes de ter escrúpulos, quando estão em jogo os seus grandes interesses? Não foram já estes três falsos deuses, como um só, que mataram Jesus, o de Nazaré, quando perceberam que ele não só não estava com eles, como ainda por cima os denunciava e desmascarava perante as multidões do povo?
É tempo de perdermos a ingenuidade. Para nos tornarmos mulheres, homens lúcidos e conscientes. Mas sem jamais resvalarmos para o bando dos assassinos e mentirosos. Ousemos viver a lucidez e, ao mesmo tempo, permanecer teimosamente como seres humanos, mulheres e homens. Como Companheiros. Como Irmãos. Como Próximos. Como Seres-em-relação. Como Seres-em-comunhão. Ousemos ser outros Jesus, como o de Nazaré. Podemos não ir muito longe neste mundo dominado pelos Poderosos, pelos Ricos e pelos chefes da Religião. Mas seremos, como Jesus, semente de futuro. Porque semente de Humanidade. Ao mesmo tempo que alicerces de um País que, depois de mais de oito séculos de existência histórica, ainda continua por nascer.
2.
É por ti que eu choro inconsolável
deixaste que o Dinheiro te possuísse
e que o Poder te dominasse. Tornaste-te
rico e poderoso. Inumano. Pior que besta
sem entranhas de humanidade e sem
ternura. Um cão agarrado ao osso
que não suporta que alguém se aproxime
Tudo em ti é Mentira e Assassínio
mesmo os projectos que concebes
para gerar empregos. As tuas empresas
são fábricas de morte. Os teus salários
são exploração desenfreada. Tudo o que
tocas fica inquinado. E os teus sorrisos são
mais mortíferos que o vírus da gripe das aves
O pior que te podia ter acontecido foi
teres tido êxito nos teus negócios juntares
fortuna sobre fortuna sem alguma vez
chegares a olhar para o lado para ouvir
o Clamor dos que contrataste como teus
trabalhadores. Teriam sido eles e o seu Clamor
por Justiça a manterem-te humano e fraterno
O Poder domina-te por inteiro e
o Dinheiro é o deus maior ao qual tu
todas as manhãs pedes que te abençoe
e aos teus negócios. Avanças sobre toda
a folha como o maior mas só tens súbditos
e vassalos a teus pés. Cresceu-te um Império
mas tu deixaste de ser Homem
2006 JANEIRO 12
Felizes as pessoas que decidem
ser pobres e manter-se pobres a vida
inteira. Que não confundem frequentar
Universidades e tirar um ou mais
doutoramentos com direito a usufruir
de privilégios sobre as maiorias que
nem a Primária conseguiram frequentar
Sonho com uma sociedade de pessoas
que decidam ser pobres e que recusem
acumular riqueza seja a que pretexto for.
Só assim ninguém será pobre ou excluído
à força. Todos seremos irmãs/irmãos
uns dos outros. E quem sabe mais é
também quem mais serve com alegria
Nasci pobre. Sou filho de mãe pobre
a ti Maria do Grilo jornaleira quase
analfabeta e de pai pobre o ti David
operário numa fábrica de serração
e depois emigrante em África. Mas se
tivesse nascido rico repetiria Francisco
de Assis e fazia-me pobre na alegria
Quem decide ser rico e manter-se rico
renuncia nesse dia a ser um ser humano
para se transformar num monstro. Os ricos
são como os eucaliptos que secam tudo
em seu redor. Do alto dos seus privilégios
nem se dão conta que vivem rodeados
de vassalos que os odeiam e amaldiçoam
Só quem decide ser pobre e manter-se
pobre a vida inteira é que pode tornar-se
político. O Poder jamais poderá contar
com ele. É por isso que no dia em que todos
os políticos decidirem ser pobres e manter-se
pobres a vida inteira o Poder morrerá
por falta de servidores. E nascerá a Paz.
2006 JANEIRO 09
A pergunta: “Como será Portugal, depois do dia 22 de Janeiro 2006?” continua a perseguir-me. Ainda ontem, 2.º domingo do mês, serviu de mote à celebração da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. E contribuiu para que ela fosse uma celebração agitadíssima, como poucas vezes tem acontecido assim. Pelo que ali se viu, imagino o que seria, se as missas das paróquias católicas tivessem algo de semelhante à das celebrações eucarísticas da nossa pequenina Comunidade. Para mal de todas, todos nós, não têm. E também para mal das paróquias e da Igreja, no seu todo, que teima em manter-se aferrada a esse modelo de Igreja, apesar dele ter tudo de anti-Igreja, de anti-Assembleia do Povo de Deus. Na minha qualidade de presbítero, não fui capaz de resistir ao Espírito Santo, esse Sopro Libertador de Deus vivo que é eminentemente político e não religioso, e propus que escutássemos como Palavra de Deus na Bíblia o apólogo de Jotam, que vem no Livro dos Juízes 9, 8-15. A escolha deste apólogo tem tudo a ver com o facto de ontem mesmo ter tido início a Campanha oficial para as eleições presidenciais no nosso país. O texto bíblico é conhecido, mas nem por isso deixo de o divulgar aqui na íntegra. Eis:
“As árvores puseram-se a caminho para ungirem um rei [= Messias, Cristo] para elas. Disseram então à oliveira: Reina sobre nós! Disse-lhes a oliveira: Irei eu renunciar ao meu óleo, com que se honram os deuses e os homens, para me agitar sobre as outras árvores? As árvores disseram à figueira: Vem tu reinar sobre nós! Disse-lhes a figueira: Irei eu renunciar à minha doçura e aos meus bons frutos, para me agitar sobre as outras árvores? Disseram as árvores à videira: Vem tu reinar sobre nós! Disse-lhes a videira: Irei eu renunciar o meu mosto, que alegra os deuses e os homens, para me agitar sobre as outras árvores?. Então todas as árvores disseram ao espinheiro: Vem tu e reina sobre nós! Disse-lhes o espinheiro: Se é de boa mente que me ungis rei sobre vós, vinde abrigai-vos à minha sombra; mas se não é assim, sairá do espinheiro um fogo que há-de devorar até os cedros do Líbano!”
Não foi difícil relacionarmos o apólogo com o próximo acto eleitoral e com os seis candidatos em presença. A conclusão foi terrível: só indivíduos, cujas vidas não estão a dar frutos de vida às pessoas e à sociedade em geral é que se disponibilizam para ser “rei”, no caso, presidente da república. São Messias estéreis, espinheiros cheios de espinhos e de fogo devorador. São candidatos a opressores, a privilegiados, em última instância, a tiranos. Ai de quem os contrariar, de quem lhes resistir activamente. Ai de quem não lhes obedecer, não contribuir financeiramente para a realização dos seus sonhos de poder.
O apólogo revela que há um tipo de Messias, de rei, de chefe, de líder, por sinal o mais frequente, para não dizer, o único que a História regista, que é como o espinheiro, estéril, cheio de picos, incapaz de dar frutos de vida e vida em abundância. E é para aqui que apontam os seis candidatos a presidente da República. Eu sei que há diferenças de qualidade entre os seis candidatos a presidente da República, e que cada um, de per si, é um cidadão mais ou menos honesto. Mas no dia em que se tornar Poder, tudo se altera. Deixa de ser sensível aos apelos da vida e vida em abundância para todas, todos nós, em radical igualdade, para ser sensível aos apelos dos grandes interesses do país e do mundo. Ou assim, ou é derrubado quase logo, ou assassinado. João Paulo I, por exemplo, eleito papa de Roma, não se aguentou dois meses no cargo, só porque quis permanecer humano e não tornar-se Poder. Foi envenenado, para dar lugar a outro que, ao contrário dele, disse sim a tudo o que os grandes interesses do mundo quiseram, ainda que o fizesse com a roupa e o estilo de cordeiro. Pelos vistos, com grande resultado. Todos os grandes do mundo lhe renderam homenagem, no momento do funeral, e as multidões foram levadas a gritar: “Santo súbito!”, “Santo já!”, ao contrário do que fizeram com Jesus que, em idênticas circunstâncias, foram levadas a gritar “Crucifica-o!” e ele foi mesmo crucificado. Tornou-se Messias, Rei, Líder, mas crucificado com outros crucificados. Não Messias crucificador.
O problema maior com que a Humanidade anda confrontada desde que se concentrou em grandes cidades, é o problema do Poder. As minorias que as dominam propositadamente confundem Poder com Política e Política com Poder. Continuam a entender e a ensinar que são dois conceitos sinónimos. Ainda não quiseram perceber que são antónimos. Um exclui o outro. Os dois na mesma pessoa não podem coexistir. Quando aparece o Poder, morre a Política. E sem Política, apenas com o Poder, acabamos como os mais desgraçados dos seres criados e nos maiores causadores de desgraça. Porque só pela Política é que chegaremos a ser humanos, criadores, participativos, protagonistas, sujeitos, autónomos, sororais/fraternos. Nunca pelo Poder. O Poder é como o espinheiro do apólogo de Jotam. A Política é como a oliveira, a figueira, a videira, do mesmo apólogo bíblico. Onde estiver, vive para fazer viver. O Poder, pelo contrário, é como o espinheiro, vive para submeter, escravizar, dominar, agitar-se sobre as pessoas e os povos, mentir, assassinar. Quem lhe resistir, em nome da vida e vida em abundância para todas, todos, depressa é abatido, neutralizado, silenciado, marginalizado, assassinado. O Poder não faz irmãs/irmãos, aliados, cooperantes. Faz competidores, vassalos, subservientes, competidores, inimigos. Mas é o Poder que nos tem governado, não a Política. E como vivemos num mundo feito à imagem e semelhança do Poder, segundo as suas exigências absolutas, idolátricas, quem ingenuamente se candidatar a um lugar de Poder, ínfimo que seja, a pretexto de que será um Poder amigo das populações, depressa perderá a ingenuidade, se chegar a ocupar o lugar. Prova dos privilégios e, dificilmente, aceita regressar à condição de ser humano simplesmente, em tudo igual aos demais seres humanos. Aliás, na raiz de qualquer candidatura a um posto de Poder, está sempre uma perversão. É uma questão de investigar com profundidade. As pessoas como a videira, a figueira, a oliveira, nunca responderão afirmativamente aos apelos do Poder. Sempre recusarão trocar os frutos de vida que consecutivamente partilham para fazer viver as pessoas, pela esterilidade que é passar o resto da vida a agitar-se sobre as outras pessoas, num tipo de discurso, de postura e de actividade que deixa as pessoas menos pessoas e os poderosos mais poderosos e cruéis.
É por isso que cada vez mais me revejo na pessoa de Jesus de Nazaré e no seu tipo de messianismo, intrinsecamente político, ao jeito da oliveira, da figueira e da videira, e nos antípodas do Poder, ao jeito do espinheiro. Entre Jesus e César (de Roma ou de Lisboa, ou da capital dos EUA) não há qualquer ponto de contacto. Onde estiver um, não está o outro. Os primeiros cristãos terão percebido isso, quando recusaram sem apelo nem agravo prestar culto a César. Podiam ser mortos em nome de César, mas não cediam, não vergavam. A morte, em tais circunstâncias, era a maior afirmação da Vida humana. A sobrevivência em troca da cedência em questão tão essencial e fundamental, por mais privilégios com que essa cedência fosse agraciada, era a pior das mortes. Jesus é o Messias, o Cristo, mas exclusivamente na linha da Política, sem qualquer cedência ao Poder. Reconhece-o, mas para lhe resistir, nunca para lhe fazer o jogo, muito menos, para lhe dar corpo no seu próprio corpo. O seu próprio corpo é todo para lhe resistir até ao sangue. “Tomai e comei, isto é o meu corpo entregue por vós”. “Tomai a bebei, este é o Cálice do meu sangue derramado por vós”. E daqui Jesus não sai. Por isso se tornou no Ser Humano por antonomásia, no Caminho que havemos de percorrer, se quisermos chegar a ser mulheres, homens em plenitude, que é sermos sororais/fraternos à escala universal, global, mas a começar por aquelas mulheres que me estão mais próximas, aqueles homens que me estão mais próximos. O que não for assim é mentira, é ideologia, é interesse, é demoníaco, é perversão, é princípio descriador dos seres humanos, é caminho para a inumanidade.
É aqui que estamos caídos, hoje. Nunca como hoje, a Humanidade esteve tão à beira de se descriar. E é o Poder que crucificou Jesus de Nazaré, que nos está a descriar progressivamente. Cegos pelos privilégios com que o Poder nos tem encandeado, não nos damos conta. E, nestes dias, em lugar de resistirmos a todos os Messias-espinheiros, preparamo-nos para votar no pior de todos os que, nestas eleições, se candidatam ao lugar. Por isso preocupadamente pergunto: Como é que será o nosso país a partir do dia 22 de Janeiro 2006, quando a dupla Cavaco/Sócrates, como um reforçado espinheiro, ficarem a conduzir os nossos destinos? Como vamos reagir? Como vamos resistir? Como vamos organizar-nos? Como vamos defender-nos? Como vamos impedir que o país acelere para o abismo, para a desumanidade, para a desfraternidade/des-sororidade? Eis a questão de fundo que levanto e que aqui partilho.
Mas atenção. Precisamos, não só nós, Portugal, mas também a Europa e o resto do Mundo, de Política como de pão para a boca. A Política é a Palavra de Deus em acção na História. Por isso é criadora de justiça e de paz, de liberdade e de sororidade/fraternidade, de comunhão e de unidade. Numa palavra, de vida. O Poder é o Demoníaco em acção. Quanto mais Poder, menos humanidade, menos sororidade/fraternidade, menos comunhão, menos unidade, menos liberdade, menos justiça, menos paz. Numa palavra, menos vida.
No próximo dia 22, o Poder atingirá o seu pleno, para desgraça de todas, todos nós, inclusive, daquelas, daqueles que tiverem dado o seu voto para que as coisas fiquem assim. Mas a alternativa, a construir, não passa pelo Poder. Passa pela Política. Carecemos de lideranças políticas como de pão para a boca. Mas ao jeito de Jesus, ao jeito da oliveira, da figueira, da videira. Não ao jeito do espinheiro. As lideranças do Poder são as que nos oprimem, exploram e matam. Ao contrário delas, as lideranças políticas têm que ser constituídas por mulheres e homens que escolhem ser pobres, como Jesus. E que fazem das suas vidas entrega aos mais empobrecidos e mais oprimidos, não de forma paternalista/maternalista, como faz o Poder, mas de forma maiêutica, como faz a parteira. Em lugar de darem, fazem sair de dentro dos empobrecidos e oprimidos os seres humanos libertadores e comunitários, alternativos aos opressores e exploradores em que o Poder nos quer a todo o custo converter. Se escolhermos ser pobres, como Jesus, em lugar de continuarmos com a nossa vidinha e o nosso emprego e as nossas horas extras e os nossos salários mais ou menos avantajados, de bom grado aceitaremos converter-nos em mulheres e homens que dedicam o melhor de si próprias, de si próprios aos demais, a partir dos mais oprimidos e empobrecidos, dos mais analfabetos. Investiremos tudo o que somos e temos na Política-em-comunhão-com-as-populações-mais-oprimidas-e-exploradas. Com alegria. Com entusiasmo. Com Ternura. Para que, discretamente, ganhe forma a verdadeira alternativa ao Poder. Bem sei que, por esta via, não chegaremos a ver o Dia da Humanidade liberta para a liberdade, constituída na comunhão sem excluídos de nenhuma espécie, mas que importa? A Utopia só se tornará Topia/Realidade histórica, quando houver mulheres e homens que apostam tudo na sua concretização. Porque são mulheres, homens tão sororais/fraternos, que preferem apostar tudo na edificação do Invisível bem à medida do Humano, em lugar de contribuírem para perpetuarem este presente intrinsecamente inumano a que o Poder nos tem condenados. Mas quem está disposto a ir por esta via política, que é a de Jesus de Nazaré? Manifestamente, é via de porta estreita, mas é a única que nos traz salvação e nos devolve a dignidade de seres humanos. Haja audazes, mulheres e homens, que se atrevam. Sem a sua entrega, estaremos condenados ao abismo, à inumanidade.
2006 JANEIRO 05
Como será Portugal depois do dia 22 de Janeiro 2006? O “salvador da Pátria” está de regresso. E vem para ficar. A Esquerda apresentou-se tão esfrangalhada nestas eleições presidenciais, que o candidato da Direita nem precisava de fazer campanha eleitoral. A sua mais que previsível vitória eleitoral no dia 22 de Janeiro vem dizer que a Esquerda em Portugal vai nua. Não há Esquerda em Portugal que se apresente. A que se apresenta é um aborto de Esquerda. É uma elite de Esquerda que, depois de Abril 74, provou do vinho e dos festins da Direita e nunca mais quis outra coisa. Instalou-se no aparelho partidário, no aparelho sindical e no aparelho do Regime; e é um ver se te avias. Os privilégios que o Regime concede aos seus principais "quadros" são muitos e nem os da Esquerda estão dispostos a trocá-los por nada. O país está numa crise sem precedentes? Mais uma razão para eles se agarrarem ao “tacho” e não perderem pitada do banquete. São “vampiros” de Esquerda, que vivem à custa da crise e do sangue das vítimas da crise.
Ao contrário da Esquerda, o “salvador da Pátria” não improvisa em serviço. Derrotado uma vez nas eleições para a Presidência da República, preparou-se com tempo e inteligência. Já o Evangelho de Jesus anda a dizer, há dois mil anos, que os filhos das Trevas (a Direita) são mais hábeis nos seus negócios que os filhos da Luz. Como paradigmático filho das Trevas que se preza de ser, o novo “salvador da Pátria” nunca deu um passo em falso. Manteve-se discreto, aparentemente desinteressado do Poder, e ocupado apenas com as suas tarefas de avô e de professor. Ludibriou todos os seus opositores à Esquerda. Deixou-os na dúvida até ao limite do possível. Ao mesmo tempo que, na sombra, trabalhou, trabalhou, trabalhou, a preparar uma vitória que pretende esmagadora. Ele sabe que uma campanha eleitoral ganha-se muito tempo antes da campanha propriamente dita começar. Com muito trabalho realizado longe dos holofotes das televisões. Não é coisa de improviso. O improviso é timbre duma Esquerda-à-cata-de-privilégios, como a actual Esquerda em Portugal. A Direita nunca improvisa. E, se alguma vez improvisou, foi precisamente quando perdeu.
Como será Portugal depois do dia 22 de Janeiro 2006? O “salvador da Pátria” ocupará o posto de mais alto magistrado da nação. Por culpa da Esquerda. Para lá de esfrangalhada, ainda se revelou profundamente amadora em política. Improvisou. Deu tiros e mais tiros no próprio pé. Todos os dias. Passou o tempo a tentar denegrir e diminuir o “salvador da Pátria”. Só os desesperados em política agem assim. Não sei durante quantos anos mais Portugal vai ficar refém do novo “salvador da Pátria”. Com Salazar, foram 48 anos. Agora, um ou dois mandatos já parecerão uma eternidade. Enquanto a Esquerda não se tornar humilde, madura, inteligente, desprendida do Poder, avessa aos privilégios, unida, dialogante e, sobretudo, enquanto não fizer unha-e-carne com as maiorias empobrecidas e oprimidas, a Direita terá o país como sua coutada.
Comecemos já a preparar o futuro. Ou nascemos de novo como Esquerda-com-as-maiorias-empobrecidas-e-oprimidas, ou teremos muito que gemer e por muito tempo. Porque o novo “salvador da Pátria”, tal como os que o precederam no tempo, é tirânico, autoritário, opressor, mas gosta de vestir de benfeitor. Ou de cordeiro, para melhor disfarçar o lobo rapace que é. Não percamos tempo. Entremos em “deserto” no próprio dia 22 de Janeiro. Porque só na fecundidade do “deserto” é que poderemos recriar a Esquerda humanista e maiêutica que Portugal precisa. E o resto da Europa e do Mundo também.
2006 JANEIRO 01
Como eu desejo que 2006 seja
um ano de Graça para toda a Terra!...
Mas o meu desejo de nada vale
se não conseguir acabar de vez
com a Pobreza em massa nem com
a Opressão – as duas faces do Pecado
que nos mantém na pré-História e na Selva
Não me venhas com piedosos discursos
ou considerações esvaziadas de Prática Política
Vomito essa Religião e esse Ateísmo que te deixa
viver em paz no meio da Pobreza em massa e
da Opressão mais descarada. Ou derrubas comigo
esta Ordem Económica e Política Mundial ou
blasfemas sempre que dizes o nome de Deus
Se não trocas os Interesses por Solidariedade
Nem és capaz de renegar dos Privilégios
com que o Poder sempre compra o teu Silêncio
só posso chorar sobre o teu frenesim político
e sobre a tua Erudição académica. Não passas
de um pobre diabo bem falante e destituído
de humanidade ao serviço do Sistema
Procuro companheiras/companheiros
que se atrevam a ser Pobres por opção
e façam da Política uma prática criadora de amor
aos mais Pobres e mais Oprimidos do Planeta
que afaste os Poderosos do comando do mundo
reparta a Riqueza Concentrada e jamais consinta
que os Privilégios regressem para nos desumanizar
Achas que só posso estar louco? Que deliro?
Então não é por mim que choro mas por ti
poderás continuar a comer e a beber
à tripa forra e a fornicar a todo o instante
como qualquer animal racional que se preze
mas jamais saberás por exeperiência o que é
ser Homem/Mulher irmã/irmão universal