31 JANEIRO 2005
As questões de género (masculino e feminino), na sociedade e nas Igrejas, particularmente, na Igreja católica presidida pelo actual papa, João Paulo II, estiveram em reflexão e em debate no Encontro de Cristãs, Cristãos, realizado ontem, domingo 30 de Janeiro, nas instalações do CREU, um Centro de reflexão universitária dos Padres Jesuítas, no Porto. Também fui daqui, de Macieira da Lixa, juntamente, com Maria Laura, Maria José (Zeza), Irene e Deolindinha. Partilhámos a carrinha que me está confiada. O Encontro deveria abrir com uma conferência de fundo, proferida pela conhecida teóloga portuguesa, Teresa Martinho Toldy, leiga casada, doutora em Teologia feminista por uma afamada Universidade da Alemanha, mas a gripe atingiu-a nestes dias e ela, na véspera do Encontro, à noite, ao ver que não melhorava, lá se decidiu a telefonar ao Grupo coordenador, para lhe dizer que não poderia estar presente. Na impossibilidade de, àquela hora, avisar as pessoas convidadas e adiar o Encontro, o Grupo coordenador decidiu mantê-lo e, na abertura dos trabalhos, desafiou aquelas que apareceram a fazerem-no elas próprias. Assim sucedeu. E ninguém, pelos vistos, deu por perdido o domingo. Foi por isso uma aposta ganha.
Eu próprio, que parti para o Encontro mais como ouvinte e observador atento, sem muita disposição para intervir na assembleia, acabei por mudar imediatamente de postura e tentei dar o melhor de mim na reflexão e no debate. Logo que este se iniciou, e a partir das primeiras coisas que ouvi da boca do companheiro Alte da Veiga, comecei a tomar breves notas no meu bloco, em ordem a uma intervenção mais prolongada do que o habitual nestes encontros, já que nos pertencia a nós todas, todos, preenchermos o vazio que a ausência involuntária da teóloga convidada criou. Como é habitual em mim, deixei-me conduzir pelo Espírito e Ele levou-me para onde quis. No fim, dei-me conta que os tópicos constituíam um todo com sentido. Foi então que me inscrevi na lista dos que já se haviam manifestado com vontade de intervir.
À medida que me partilhava com todas, todos – éramos uns 30 participantes, oriundos de diversos sítios do país, com predominância para os concelhos do Norte, até Barcelos – sentia que a boca que falava era minha, mas a mensagem que por ela saía era do Espírito. Senti também que a mensagem deveria estar a calar fundo na consciência das companheiras, dos companheiros, porque ninguém exteriorizava sinais de incomodidade, pelo contrário, era manifesto que “bebiam” as palavras que me saíam da boca. Igualmente, ninguém me interrompeu, nem exteriorizou sinais de impaciência, como noutras ocasiões tem acontecido, apesar dos minutos que gastei com a minha intervenção.
Aliás, a reflexão que partilhei seria, depois, referida e comentada com visível satisfação por várias pessoas, ao longo do encontro. Fiquei feliz como um menino e em eucaristia interior. Eu que também parti para este encontro sob o efeito limitativo duma constipação e de tosse convulsa que se arrastam há já vários dias, fiz das fraquezas força e coloquei-me à mercê do Espírito, para que Ele fizesse comigo o que bem entendesse. Pelos vistos, parece que o Espírito foi mesmo o protagonista e conseguiu “tocar” as consciências de alguns dos presentes, a começar pela minha.
Não vou aqui fazer uma reportagem do Encontro. O que pretendo é partilhar com todas as pessoas que vierem a ler este meu Diário Aberto o “miolo” da minha intervenção. Como vivo nas margens, é das margens que sempre intervenho. Por isso, o meu dizer quase nunca é eclesiasticamente correcto, embora possa ser e creio que tem sido, eclesialmente correcto. Entre eclesiástico e eclesial sempre houve e haverá um abismo intransponível. Infelizmente, a generalidade das pessoas, incluídas as pessoas mais responsáveis da Igreja, não têm consciência disso e até pensam que eclesiástico e eclesial são sinónimos. Não são. Eclesiástico, tem a ver com tudo o que interessa ao Sistema eclesiástico, obra dos pensamentos e das ambições, dos interesses e da sede de poder dos seres humanos. Eclesial, tem a ver exclusivamente com a Igreja-discípula-de-Jesus, convocada e congregada pelo seu Espírito, para ser, no mundo e na História, sacramento do Reino/Reinado de Deus que, como se sabe, foi a grande causa histórico-política que Jesus, o de Nazaré, proclamou e fez presente, por meio de acções libertadoras e integradoras e por meio de palavras cheias de Espírito Santo que atingiam a consciência das pessoas e faziam com que elas nascessem de novo, do Alto. Aliás, foi por este seu serviço maiêutico sem limites à causa do Reino/Reinado de Deus, que Jesus acabou por perder/dar a própria vida.
A esta Igreja, realidade do Espírito na História, praticamente só se conhece na Fé (por isso dizemos: Creio a Igreja), enquanto que ao Sistema eclesiástico toda a gente o conhece e esbarra contra ele, contra o seu moralismo doutrinal, contra os seus funcionários eclesiásticos e os seus cânones de Direito Canónico, contra os seus cultos esteriotipados, os seus templos e altares. Enquanto o eclesial nos remete para a Igreja, realidade do Espírito na História da Humanidade, o eclesiástico remete-nos para uma espécie de empresa multinacional de religião católica, onde pontificam funcionários de primeira, de segunda e de terceira classe, organizados em hierarquia piramidal, e onde tudo está devidamente regulamentado, pronto a funcionar sem qualquer interferência do Espírito Santo. Aliás, quando o Espírito interfere, concretamente, quando consegue fazer-se presente, num ou noutro dos seus funcionários que, inesperadamente, nasce de novo e do Alto e, por isso, passa a comportar-se e a afirmar-se como um ser humano, não mais como um funcionário eclesiástico, logo o Sistema eclesiástico entra em estado de alerta e só descansa, quando consegue reduzi-lo outra vez à condição de funcionário. Porém, se se tornar manifesto que os seus métodos não resultam, então só lhe resta expulsar do seu seio esse membro que deixou de ser funcionário, no momento em que misteriosamente nasceu de novo, do Alto, do Espírito. É a partir desse momento que passam a ser dirigidas a ele aquelas palavras que Jesus, o de Nazaré, dirigiu a todos os seus discípulos, mulheres e homens, que o Espírito Santo sempre há-de congregar através da História e que ficaram conhecidas na tradição da Igreja como as bem-aventuranças, nomeadamente, a última que diz: “Felizes sereis quando vos insultarem e perseguirem, e, mentindo, disserem todo o género de calúnias contra vós, por minha causa. Exultai e alegrai-vos, porque grande será a vossa recompensa no céu; pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam.” (cf. Mateus 5, 11-12). É claro que, aqui, onde está escrito “Céu”, não devemos pensar num outro mundo, como as catequeses eclesiásticas sempre nos enganaram. Céu, na Bíblia, é outro nome para dizer Deus, o Deus Vivo. Quer então dizer que as discípulas, os discípulos de Jesus que vierem a passar por experiências como as descritas nesta bem-aventurança são mulheres e homens que vivem em Deus e Deus vive nelas, por isso, têm, desde já, garantido o futuro, uma vez que Deus, o de Jesus, é o futuro da Humanidade, tal como o imenso oceano é o futuro do rio que corre dia e noite para o mar!
Eis, pois, o “miolo” da minha intervenção no Encontro sobre as questões de género nas Igrejas e nas sociedades em geral:
1. No meu entender, deveríamos iniciar a nossa reflexão sobre esta temática com um ensurdecedor protesto do tamanho do planeta contra o que ainda hoje continua a passar-se no interior da nossa Igreja católica. Não só as mulheres são escandalosamente discriminadas e tratadas como de menoridade, mas também os homens baptizados que não venham a integrar o estatuto de clérigo e a hierarquia, nunca chegarão a ser verdadeiro sujeito da Igreja e na Igreja. Nas sociedades seculares os homens podem ser líderes e ocupar lugares de destaque e da máxima responsabilidade em todas as áreas, mas na Igreja católica serão sempre “leigos”, por isso, infantes, objecto do cuidado pastoral dos clérigos. Mesmo se algum baptizado, excepcionalmente, alcança um lugar de mais responsabilidade e de decisão na Igreja, sempre será tutelado por um clérigo - pároco, cónego, bispo, cardeal, ou papa. Nunca poderá assumir de corpo inteiro e com inteira responsabilidade pessoal, o serviço para que tenha sido nomeado. Aliás, para chegar a esse serviço eclesial, nunca será como resultado duma eleição por parte da Comunidade. Será sempre por nomeação da hierarquia eclesiástica, e segundo critérios que geralmente têm a ver com a sua capacidade de subserviência à hierarquia, mais do que com a sua competência, independência e consciência crítica! É assim que as coisas ainda estão na Igreja, apesar do Concílio Vaticano II e de já estarmos no séc. XXI. Como se pode então falar de género numa Igreja assim tão centrada nos clérigos, em lugar de exclusivamente centrada nas mulheres baptizadas e nos homens baptizados? Acho que sem este preliminar protesto, tudo o que aqui se diga a propósito das questões de género na Igreja católica e nas sociedades cai em saco roto e pode ser quase um insulto às mulheres e aos homens!
2. Na origem desta insultuosa discriminação das mulheres (e dos homens não clérigos) na Igreja, está a Bíblia com o seu relato mítico das origens. Um relato concebido e escrito por homens do poder ou ao serviço do poder. E reiteradamente interpretado, ao longo dos séculos, por homens eclesiásticos, aos quais, para cúmulo, a disciplina da Igreja proíbe o casamento. Curiosamente, a Bíblia contém dois relatos míticos das origens. O segundo corrige o primeiro. E é até com ele que abrem as nossas bíblias. Mas a Igreja ferozmente patriarcal que temos agarrou-se muito mais ao primeiro, porque contém uma concepção de género que diz mais com os seus interesses de poder. Praticamente, esqueceu o segundo. Também nunca admitiu que o segundo relato corrigiu o primeiro. O mais que a Igreja admite é que são dois relatos míticos das origens do mundo e do ser humano que se complementam. Mas não é assim. São dois relatos distintos, como distintos eram os contextos em que foram concebidos e escritos. E o segundo corrigiu o primeiro, suplantou o primeiro, tanto assim que é com ele que o livro do Génesis se inicia.
O primeiro, mais conhecido como "o relato da queda", ou como "o relato de Adão e Eva", foi concebido e escrito nos ambientes da corte dos reis David e Salomão, ambientes de puro poder, de puro e duro patriarcalismo. Vai ao ponto de escrever que a mulher “nasce” do homem, duma costela do homem, quando a realidade quotidiana já então dizia como ainda hoje diz que são as mulheres quem dá a luz, tanto mulheres como homens! É manifestamente um relato mítico que puxou a brasa para a sardinha dos homens do poder, nomeadamente, os homens da casa real de David e Salomão. E que contraria a experiência primordial da Humanidade que - sabemo-lo hoje pela Ciência - foi conduzida e gerida pelas mulheres, o chamado matriarcado. Tanto as coisas foram assim, que ainda hoje os povos que não acolheram o Evangelho libertador de Jesus - andam na Igreja, mas continuam visceralmente idólatras, na linha dos cultos do Paganismo primitivo - mantêm-se quase umbilicalmente ligados à imagem da mítica deusa Virgem e Mãe, a senhora daqui e dali, disto e daquilo, que não existe e mais não é do que uma projecção religiosa da realidade primordial da Humanidade, que teve as mulheres como protagonistas, não os homens.
O segundo relato, conhecido como da "criação em seis dias", é concebido e escrito cerca de quatrocentos anos depois do primeiro, em finais do exílio do povo de Israel na Babilónia, quando a casa real de David estava desfeita e sem hipóteses de voltar a afirmar-se mais. Nesse contexto, privilegiava-se a vida em detrimento do poder. Valorizava-se o feminino como o masculino. O valor maior estava no cuidado, não no poder das armas, ou na dominação dos povos. Em semelhante contexto, o novo relato mítico das origens já não dá a primazia aos homens e ao poder, mas à Palavra criadora de Deus. Já não fala em queda, provocada pela mulher auxiliar do homem, nem em castigos. Fala em vida que acontece misteriosamente pela força da Palavra, não do poder. As mulheres já não saem da costela dos homens, já não são criadas como auxiliares e propriedade dos homens. Neste segundo relato, mulheres e homens são criados em simultâneo e constituem uma unidade indissolúvel que nada nem ninguém pode separar. Diz o relato: “Deus criou o ser humano à sua imagem, criou-o à imagem de Deus. Ele o criou homem e mulher”. Não há o homem primeiro e a mulher depois. Há a mulher e o homem ao mesmo tempo. E os dois constituem uma unidade indissolúvel.
3. Importa sublinhar de imediato que Jesus, o de Nazaré, nunca reconheceu o relato mítico das origens que fala da queda e apresenta as mulheres como saídas e dependentes dos homens. Os Evangelhos nunca registam qualquer alusão a esse relato. Mas já registam uma explícita referência ao segundo relato mítico que corrigiu o primeiro e que proclama a indissolúvel unidade dos homens e das mulheres. Esta postura de Jesus leva-nos a concluir que para ele apenas esta revelação vem de Deus, do Sopro de Deus. A outra, plasmada no primeiro relato mítico, não vem de Deus, mas da corte dos reis David e Salomão, portanto, tem o sopro do poder que domina e divide. Só o poder é que sacrilegamente divide o que Deus concebeu e criou como uma unidade indissolúvel. Só o poder é que mata a criação de Deus, a indissolubilidade de género da Humanidade. Somos mulheres e homens em simultâneo. E sempre que esta unidade é profanada – o poder é que comete tal profanação – a Humanidade entra em desgraça, em desequilíbrio e vai de perversão em perversão até à perversão final.
Importa sublinhar também que a indissolubilidade de que Jesus fala é a indissolubilidade entre homens e mulheres. A do casamento, quando muito, é um sinal desta. Mas onde, como Igreja, temos que ser determinados é na defesa da indissolubilidade entre homens e mulheres. Quanto aos casamentos, já tem muito a ver com tradições culturais dos diferentes povos.
Nunca poderemos contabilizar o mal que fez à Humanidade o primitivo relato mítico das origens, inserido na Bíblia. É um mito, mas a Humanidade tem sido levada a encará-lo como um relato científico. As Igrejas cristãs, iluminadas pela prática libertadora e integradora de Jesus, deveriam ter-se batido pela indissolúvel unidade de género. Mas depressa abandonaram esta revelação de Deus. Não lhes permitia enveredar pelos tortuosos caminhos do poder. Para isso, o primitivo relato mítico das origens, com a referência a uma "queda" e a "castigos" deu-lhes muito mais jeito. Mas não é por aí que sopra a Palavra criadora de Deus, no revelar definitivo de Jesus.
Com Jesus, as mulheres fizeram-se suas discípulas fiéis, ainda antes dos homens. O contexto social não era favorável à existência de mulheres discípulas, mas a presença de Jesus e o seu olhar deveriam reflectir tanto e de forma tão inequívoca a verdade de Deus sobre os seres humanos, que as mulheres, antes ainda que os homens, se deram conta de que nunca homem algum as havia olhado/libertado/dignificado como ele. E dão-lhe a sua incondicional adesão. Reconhecem-se integralmente em Jesus. Os Evangelhos não o dizem com toda esta clareza, ocupados que andam com os homens que Jesus chamou para seus discípulos. As mulheres são discípulas, praticamente desde o primeiro instante. Respondem ao olhar e à palavra libertadora e integradora de Jesus. Marcos, por exemplo, só o reconhece no final do seu relato, quando se refere à presença de mulheres no momento da crucifixão de Jesus. Aí diz que estão presentes mulheres, muitas mulheres, que o acompanham desde a Galileia. O relato até aí está totalmente ocupado por homens que nunca chegam a ser verdadeiros discípulos de Jesus até ao momento da morte de Jesus na cruz. Sonhavam apenas com o poder. Jesus bem lhes explica as coisas em particular, mas eles, cegos pela sede do poder, são como calhaus, não há maneira de o entenderem. Jesus fala a linguagem da Política, mas eles, como a generalidade dos homens hoje, inclusive os homens ordenados da Igreja, interpretam tudo em chave do Poder, a única linguagem que entendem. Para sua desgraça e desgraça de toda a Humanidade.
4. Com Jesus, o de Nazaré, a Humanidade manifestou-se como Deus a concebeu e iniciou a sua criação, há cerca de 80 mil anos atrás. Indissoluvelmente unida em género, mulheres e homens sem nenhuma divisão ou separação. O Evangelho de João parece ter sido o que melhor captou esta realidade em Jesus. No seu relato, sempre nos apresenta Jesus, nos momentos das grandes epifanias e decisões, não sozinho, mas em casal, indissoluvelmente unido a uma figura de mulher. Não é que Jesus fosse casado. Não foi. Mas nos momentos de mais solenidade e de tomada decisões com futuro, essenciais, o relato teológico de João sempre o apresenta acompanhado duma figura de mulher. Logo a abrir a missão, nas bodas de Canã, lá está uma figura de mulher em indissolúvel unidade com Jesus. Ele não actua sozinho. Actua indissoluvelmente unido a uma figura de mulher, chamada “a mãe de Jesus”. A Igreja patriarcal pensa e ensina que essa figura "mãe de Jesus" Maria de Nazaré, mãe carnal de Jesus. Não é. É apenas uma figura de mulher, sob a designação de “mãe de Jesus”, porque, na cultura política oriental, a mãe do rei e não a mulher do rei é que fazia o papel de rainha. Por isso, o par ideal da libertação da Humanidade é Jesus rei (=libertador dos oprimidos e defensor dos pobres) e a rainha, apresentada como "a mãe de Jesus". Por desconhecerem este pormenor, quantos disparates as catequeses eclesiásticas têm ensinado a este propósito. Foram ao ponto de divinizar a criatura Maria de Nazaré, e apresentam-na como aquela que até manda em Jesus, seu filho!... Quando, afinal, o Evangelho de João o que pretende é revelar o ser humano em acção, tal como Deus o concebeu e criou, homem e mulher em indissolúvel unidade! Quando esta unidade é respeitada e os seres humanos, mulheres e homens, actuam em indissolúvel unidade, os frutos da sua intervenção só podem ser de salvação para toda a Humanidade, para todo o Universo. Pelo contrário, quando esta unidade é quebrada, é dividida, os frutos das intervenções humanas são perversos, dividem e matam.
Mas se seguirmos o Evangelho de João, veremos como ele apresenta Jesus em indissolúvel unidade com outra figura de mulher, por exemplo, na hora de evangelizar os samaritanos. Lá está "a mulher da Samaria" a fazer par indissolúvel com Jesus. O mesmo acontece na cruz, onde a figura de mulher volta a ser “a mãe de Jesus”, como no início da missão. Na abertura e no fecho, a mesma figura de mulher. Não, não é Maria, é “a mãe de Jesus”, porque Jesus actua como o rei. E só a mãe poderia ser a rainha, indissoluvelmente unida ao rei, Jesus. Porém, depois da morte na cruz, no primeiro dia da Nova Criação, uma espécie de réplica ao relato mítico das origens, o Evangelho de João apresenta-nos Jesus ressuscitado no jardim a fazer par com outra figura de mulher, chamada Maria Madalena. Os dois, indissoluvelmente unidos, são o ser humano como Deus sempre nos concebeu e está em vias de criar. Não há ser humano enquanto não formos assim indissoluvelmente unidos, mulheres e homens. É por isso que a Humanidade hoje ainda tem mais de selva do que de humanidade. O poder tem dividido o que Deus concebeu e como unidade indissolúvel. E não há volta a dar. Ou a Humanidade aceita nascer deste Sopro de Deus e nós, os seres humanos, passamos a assumir-nos como seres indissoluvelmente unidos, ou continuaremos a cavar a nossa própria destruição, a realizar a descriação que Deus iniciou e quer levar a cabo. Só a indissolúvel unidade de género nos pode salvar como seres humanos. Só quando formos assim é que seremos humanos e dos nossos corações sairão projectos de vida e vida em abundância. As nossas mãos fabricarão instrumentos ao serviço da vida, em lugar de continuar a fabricar instrumentos de morte em massa. O poder dará lugar à Política, que tem a ver com Misericórdia, humanidade, cuidado, vida de qualidade e de abundância para todos.
5. As primeiras comunidades cristãs começaram por ser fiéis a Jesus. Soprava nelas o mesmo Sopro ou Espírito que havia soprado em Jesus, o de Nazaré. Mas depressa o "demónio" do Poder se intrometeu e veio separar o que Deus uniu. Os familiares de Jesus, com Tiago à cabeça, reclamam-se herdeiros de Jesus e Tiago, seu irmão de sangue, fica logo a presidir à Comunidade de Jerusalém. O que valeu - é a acção do Espírito Santo na História - foi que outras comunidades, como as comunidades de base hoje, nasceram do Sopro ou Espírito de Jesus, e mantiveram-se comunidade de mulheres e de homens em indissolúvel unidade. Foram estas comunidades, nas margens do judaísmo oficial, fortemente patriarcal, constituídas por judeus da diáspora e mulheres e homens procedentes do mundo greco-romano, que salvaram o Evangelho e a originalidade do Projecto de Jesus, o essencial da sua prática, com mulheres e homens em indissolúvel unidade e por isso também em radical igualdade. Os Actos dos Apóstolos referem-se-lhes, ainda que discretamente. Falam concretamente da mãe de João Marcos, em cuja casa se reunia a comunidade constituída por mulheres e homens em indissolúvel unidade, presidida por ela, como sua presbítera. Foi de resto esta Comunidade que tornou possível o aparecimento do Evangelho de Marcos, sem dúvida, o primeiro dos quatro evangelhos canónicos e aquele que melhor nos apresenta Jesus, como o Ser Humano em indissolúvel unidade com toda a Humanidade, nos antípodas do Poder.
6. Toda esta novidade de Deus sobre o ser humano, protagonizada e revelada por Jesus e continuada depois nas primeiras comunidades cristãs jesuânicas espiritualmente alimentadas pelo Evangelho de Marcos, veio a perder-se quase por completo, a quando da inculturação do Cristianismo no mundo greco-romano, onde as mulheres eram olhadas e tratadas como seres inferiores, diabolizadas, escravas que os homens utilizavam a seu bel-prazer. Para se implantarem no meio, as comunidades sacrificaram muito da originalidade de Jesus, em nome duma maior eficácia na missão. Esse mundo greco-romano não aceitaria que as mulheres aparecessem em indissolúvel unidade com os homens. De modo que as comunidades cederam ao ambiente social e cultural e começaram a centrar tudo nos homens. Inclusive, adoptam os códigos de comportamento da sociedade envolvente no interior das comunidades. O próprio S. Paulo claudicou e escreve nas suas cartas orientações pastorais que, na prática, são o anti-evangelho de Jesus, nomeadamente quando diz como as mulheres se devem comportar durante as assembleias, na sua relação com os maridos e na sociedade. Inclusive, regressa ao primitivo relato mítico das origens, como se o segundo relato não tivesse corrigido o primeiro e como se Jesus não tivesse realizado até ao extremo a indissolúvel unidade dos seres humanos, mulheres e homens.
É sobretudo com S. Paulo, nas suas cartas, que o mito das origens que fala duma queda original e de Adão e Eva como se fosse dois indivíduos e não simples nomes comuns, que as comunidades cristãs se começam a desviar de Jesus e da sua Boa Notícia, no que respeita à condição dos seres humanos na História. Em lugar de fermentarem a sociedade e fazerem nascer novas práticas verdadeiramente humanas, tornam-se comunidades à imagem e semelhança da sociedade em que estão inseridas. Jesus deixa de ser o Jesus de Nazaré, o paradigma do ser humano, e é cada vez mais olhado como o deus dos deuses, o chefe dos deuses. Quando, depois, pelo século IV, o cristianismo é integrado no Império romano por Constantino, já tudo estava manifestamente enfraquecido no Cristianismo. Só assim é que essa integração pôde ser saudada como coisa boa, quando, afinal, era a certidão de óbito da originalidade cristã, do Evangelho. O Paganismo, com os seus falsos valores e os seus falsos deuses e deusas, acabou por fazer o resto. A Humanidade, como Deus a concebeu e realizou em Jesus de Nazaré, ficou a marcar passo até hoje. E se a memória de Jesus não desapareceu de todo da Humanidade, é porque, ao longo destes vinte séculos, tem havido minorias de mulheres e de homens que se deixaram fazer pelo seu Sopro, pelo seu Espírito. A grande Igreja não pode com elas nem com eles, sobretudo, com elas, trata-os como hereges e, no passado, chegou a mandá-los queimar nas fogueiras. Mas a Humanidade com futuro continua aí a ser uma possibilidade em aberto, graças sobretudo a elas e a eles.
7. Nesta fase pós-integração da Igreja no Império, foi decisiva a acção de Santo Agostinho, no século V, com toda a sua misoginia sem limites e com as suas filosofias maniqueias que o levaram a ver nas mulheres uma espécie de excremento do diabo. Com ele, o mais primitivo relato mítico das origens volta a ser estudado em força. É ele quem inventa a expressão “pecado original” e nos amarra a todos a esse pecado! Na sua escrita, parece que respira ódio às mulheres. E à sexualidade. E ao prazer sexual. Para ele, somos inteiramente pecado. Natureza decaída! Todos fomos concebidos em pecado. E assim será até ao fim dos tempos! É com ele que se desenvolve o anti-evangelho de que todos nascemos em pecado. Com ele, a queda mítica das origens transforma-se numa queda histórica e real que se transmite a todos os seres humanos, através da relação sexual entre o homem e a mulher. Apesar desta teoria ser o disparate dos disparates, nunca mais deixou de ser ensinada como um dogma de fé pela Igreja nas suas catequeses e universidades. Até hoje! De tal modo, que esta mentira tornou-se quase uma segunda natureza e todas as mulheres, todos os homens ainda hoje a trazemos no nosso inconsciente colectivo, como um ferrete anti-humano que não nos deixa ser plenamente seres humanos ao jeito de Jesus.
Foi também a partir desta teoria agostiniana que o Baptismo passou a ser considerado obrigatório para a salvação, assim como a pertença à Igreja, fora da qual – assim se ensinou, durante séculos e séculos, contra a Verdade conhecida como tal – não havia salvação. Tudo gira então em função do pecado, não da graça. Com Jesus, veio o Evangelho ou a Boa Notícia de que nascemos em graça e que a salvação nos é dada por pura graça. Mas com Santo Agostinho, o pecado ocupou o lugar da graça e o terror teológico substituiu o Evangelho. Terror e mais terror, foi o que a Igreja difundiu nos séculos seguintes. As próprias missões “ad gentes” mais não foram, e são, do que o anúncio deste terror. Ou crês nestas doutrinas de terror e aceitas a Igreja e salvas-te, ou estás condenado para sempre ao fogo do inferno!
8. Mas não foi apenas Santo Agostinho que nos tramou com as suas teorias e as suas fobias. Outro cérebro tido como pedra fundamental para esta espécie de anti-Evangelho de Jesus, foi S. Tomás de Aquino, no século XIII. Verdadeiros seres humanos, segundo as suas teologias, são apenas os homens. As mulheres são uma espécie de apêndice, cloacas da Humanidade, por isso, excluídas dos ministérios na Igreja e das responsabilidades na vida pública, limitadas ao seu papel de barrigas de aluguer vaso onde é depositado o sémen dos homens, os verdadeiros seres humanos!!! Agostinho e Tomás de Aquino constituem, por isso, uma dupla de perdição da Humanidade, reduzida a homens machos, a poder! Para desgraça da Humanidade, os ensinamentos de ambos foram obrigatórios, praticamente até aos nossos dias. E ainda são essas doutrinas anti-Evangelho de Jesus, o de Nazaré, que continuam presentes e determinantes na cabeça dos clérigos, a começar pelo papa João Paulo II e a acabar nos influentes clérigos da Cúria romana, nos cardeais e nos bispos em geral, todos eles capazes de proferir discursos sobre as virtudes da mulher, mais ou menos mitificada, enquanto, na sua prática do dia a dia, discriminam as mulheres de carne e osso, ao separá-las dos homens com os quais elas estão indissoluvelmente unidas, segundo nos diz a Revelação de Deus, autenticada por Jesus, o de Nazaré! Deste modo, nem se apercebem que com estas suas posturas, se tornam protagonistas duma ininterrupta cadeia de pecados que bradam aos céus.
9. Como escapar de tudo isto, de todo este anti-Evangelho e regressarmos à alegria de Deus que nos criou homens e mulheres indissoluvelmente unidos? Por mim, não vejo outro caminho, que não seja regressarmos a Jesus, o de Nazaré. Só ele é o caminho, a verdade e a vida. Só por ele é que chegaremos à Fonte da Vida que é o Deus vivo, a mãe e o pai que nos concebeu como mulheres e homens indissoluvelmente unidos e está aí totalmente empenhado em levar a seu termo esta sua criação, iniciada sem nós, mas que só poderá ser consumada com a nossa cooperação. No dizer do Evangelho de João (5, 17), esta é até a principal acção de Deus e nela Ele está ininterruptamente ocupado, sábados e domingos, incluídos. Sintonizemos então com Ele e deixemo-nos fazer pelo seu Sopro ou Espírito. O resto virá por acréscimo!
28 JANEIRO 2005
No meu regresso, esta semana, ao encontro da Comunidade Cristã das Quartas-feiras, em S. Pedro da Cova que decorre, desde há anos, na casa-sede da Associação Padre Maximino, levei comigo como proposta de leitura-escuta, o capítulo 9 do Evangelho de João. Em boa hora o fiz. O capítulo narra uma estória ou parábola cheia de teologia, mas daquela teologia outra que as próprias Igrejas, infelizmente, ainda não conhecem, muito menos vivem, uma vez que são Igrejas com mais de sinagoga do que de comunidade de comunidades convocadas e animadas pelo Espírito de Jesus, o Crucificado pelo Deus do Templo e do Império, a quem Deus – o de Jesus! – surpreendentemente deu razão, ao ressuscitá-lo dos mortos (ao mesmo tempo, a Humanidade ficou também a saber que o Deus do Templo e do Império é um Deus assassino, feito de Mentira. E que o único Deus que potencia a Humanidade para ela chegar a ser ela própria até ao limite e para lá do limite, é o Deus de Jesus que reabilita todas as vítimas dos adoradores idólatras do Deus do Templo e do Império).
Quando as Igrejas se constituem em instituições, em tudo idênticas às outras instituições da sociedade e segundo os mesmos critérios e metodologias, tornam-se dramaticamente incapazes de escutar o Evangelho de Jesus, uma vez que passam a fazer parte do Sistema dominante e, como tal, passam inevitavelmente a ser conduzidas pelo mesmo espírito de mentira e de dominação que anima esse Sistema. Podem continuar – e continuam – a proclamar o Evangelho, pelo menos, nas suas liturgias; podem reflecti-lo e aprofundá-lo com estudos hermenêuticos nas suas Universidades; podem ensiná-lo nas suas catequeses, mas a verdade é que lidam apenas com a letra, não chegam a ser Igrejas, comunidade de comunidades, sopradas, tocadas, iluminadas, conduzidas pelo Espírito Santo. Por isso, melhor fora que não abrissem nunca o Evangelho. Porque assim toda a gente saberia que eram Igrejas constituídas à revelia do Evangelho e só enganavam quem quisesse ser enganado.
Mas as Igrejas fazem questão de continuar a dar grande destaque ao Evangelho, chegam até a transportá-lo, de forma solene, nas procissões litúrgicas e nos cultos, nomeadamente, nas missas dominicais e nas grandes festas de cada ano. Porém, quase mais não fazem do que lidar com a letra do Evangelho. Permanecem sempre estranhas ao Espírito Santo. Ora, como já advertiu o apóstolo Paulo, no início da Igreja, a letra mata, só o Espírito é que dá vida. E, quando se trata da letra do Evangelho, o caso é ainda mais grave, porque mata, quando mais parece que dá vida. São assim as catequeses das Igrejas, os cultos das Igrejas. Constroem-se à base da Palavra da Bíblia, com incidência maior, para o Evangelho, que é oficialmente apresentada como a Palavra de Deus. Era suposto que fossem catequeses e cultos que fizessem viver a muitas e muitos. Mas como são catequeses e cultos feitos à base da letra, e sem o Espírito Santo, mais não fazem do que matar espiritualmente as pessoas que as, os frequentam.
Aliás, se formos apurar dos resultados pelos frutos que resultam de tantas catequeses e de tantos cultos, onde a letra do Evangelho sempre esteve presente, logo veremos que as pessoas que habitualmente as, os frequentam, nem por isso são mais humanas, mais lúcidas, mais sujeito, mais autónomas, mais livres e mais responsáveis, numa palavra, mais políticas no mundo e na História, do que as não põem lá os pés. Em muitos casos, conseguem até ser ainda mais insensíveis e inumanas, dado que são sobretudo sensíveis ao cumprimento das normas moralistas decretadas pelas respectivas Igrejas, sem quererem saber das pessoas concretas para nada. Chegam muitas vezes a ser cruéis, pois colocam a lei e as normas moralistas da sua Igreja – é o caso, por exemplo, dos casados canonicamente que se divorciam e voltam a casar pelo civil; e o caso das mulheres que abortam, quaisquer que tenham sido as circunstâncias em que o aborto ocorreu – e, inclusive, os interesses, tantas vezes, corporativos e mesquinhos, da sua Igreja acima das pessoas e dos seus legítimos interesses. Ignoram estas pessoas eclesiásticas que o Espírito Santo, ao contrário delas, o que sempre põe acima de tudo é a misericórdia, o perdão, a ternura, a compreensão e a tolerância, ao ponto de não hesitar em afirmar como grande princípio orientador da sua prática: O sábado é para o ser humano, não o ser humano para o sábado.
Não sei explicar como, mas a verdade é que estive todos estes meses, desde que passei a morar de novo em Macieira da Lixa, sem voltar a participar no encontro da Comunidade que ajudei a congregar em S. Pedro da Cova, já lá vão muitos anos (tenho ido lá muitas vezes, por outro tipo de actividades e em outros dias da semana, mas nunca ao encontro das quartas-feiras). A Comunidade das Quartas-Feiras é hoje numericamente pequena, como, aliás, sempre devem ser as Comunidades convocadas pelo Espírito Santo. O Evangelho de Mateus chega a falar apenas em duas ou três pessoas. E garante que quando isto acontece, isto é, quando duas ou três pessoas se reúnem em nome de Jesus – as acções do Poder e do Sistema é que costumam juntar muitas pessoas, em forma de rebanho, para mais facilmente as manterem dominadas, anestesiadas, estupidificadas, infantilizadas – o seu Espírito está presente e actuante, como Espírito Criador que é de Consciência lucidamente crítica, e de Liberdade responsável.
As pessoas da Comunidade acolheram-me com muita alegria – havia-lhes anunciado com antecedência que esta semana iria participar – mas nem por isso deixaram de me censurar com carinho, por tanto tempo de ausência. Reconheci o meu falhanço. E declarei-me disposto a mudar o meu comportamento daqui para a frente. Até porque o encontro também me alimenta espiritualmente na caminhada. Às missas das paróquias não preciso nunca de ir e não vou. Não me fazem qualquer falta. Até me fariam mal, se eu continuasse a ir lá. Mas os encontros das pequenas comunidades cristãs jesuânicas são ocasiões de alimento espiritual e confirmam-me no caminho ou via de Jesus. Precisamente, porque as pequenas comunidades são espaços eclesiais de liberdade, onde o Espírito de Jesus sopra e actua à vontade. Porque as comunidades, ao contrário das grandes Igrejas, não têm interesses a defender, só têm vidas prontas a serem dadas todos os dias pela vida. Não têm por que se defender do Espírito Santo, pelo contrário, deixam-se conduzir e surpreender por Ele. Por isso, as pessoas que as constituem são pessoas pobres que progressivamente deixam de frequentar os templos e os altares, à medida que se experimentam progressivamente libertas, lúcidas, dissidentes, autónomas, com a vida nas próprias mãos. São pessoas que já não mendigam nada a Deus. Porque vivem dentro de Deus e com Deus dentro delas. Sobretudo, são pessoas que deixam Deus ser Deus nelas e com elas.
Como sempre, no início do encontro, partilhámos informações sobre os nossos quotidianos e sobre o quotidiano das pessoas que estão mais próximas de nós, assim como das pessoas com problemas que conhecemos e das quais nos fazemos próximos. Dissemos das nossas expectativas em relação ao nosso país. Lembrámos o próximo dia 20 de Fevereiro, com as eleições legislativas antecipadas, e os dias que restam até lá, como dias de militância política, feita de diálogo consciencializador e libertador. Lembrámos também o próximo encontro de cristãs, cristãos, dia 30 deste mês, no CREU, Porto, para ver quem está a pensar marcar presença activa. Olhámo-nos bem olhos nos olhos. Cultivámos os afectos. Tocámo-nos com a força da fraternura. Cantámos juntos poemas que, no início, nos prepararam para escutarmos a Palavra e, no final, para a levarmos à prática nos dias que se seguem ao encontro. Finalmente, lemos-escutamos o capítulo 9 do Evangelho de João que nos conta a estória exemplar de um homem – representa todos os seres humanos, mulheres e homens que, um dia, viemos a este mundo – que nasceu cego, mas que inesperadamente passou a ver, depois que Jesus fez comunidade com ele. O surpreendente, para não dizer, escandaloso, é que este homem - a Humanidade - que deixou de ser cego e passou a ver – que tipo de cegueira é esta com que todos nós, seres humanos, nascemos e que tipo de visão é esta que só o Espírito de Jesus consegue operar na nossa consciência? – nunca mais soube o que era sossego na sua vida pessoal, familiar e social, até que acabou expulso da sinagoga, por inapelável decisão dos fariseus...
A estória é muito conhecida. Na letra. Mas, quando a escutamos em comunidade congregada em nome de Jesus, o que verdadeiramente pretendemos é que o seu Espírito nos atinja e nos faça nascer de novo, do Alto, nos torne mais e mais humanos, menos do Sistema, mais misericordiosos, menos cruéis, mais da Verdade, menos da Mentira, mais libertos, menos manipulados, mais dissidentes, menos rebanho, mais políticos, menos religiosos, mais jesuânicos, menos eclesiásticos. É por isso que as Igrejas podem saber de cor o Evangelho. Mas o que elas sabem de cor é apenas a letra. Não o Espírito, porque este nunca ninguém sabe de onde vem, nem para onde vai. Nem mesmo o papa! Aliás, o Espírito de Jesus nunca se repete, a letra sim que se repete. O Espírito é o Sopro que o Sistema não conhece e jamais conhecerá. Por isso fica sempre furioso em quem ele se manifestar, porque sempre quer e necessita controlar tudo e todos. E como o Espírito não faz parte do Sistema, se calha de actuar dentro dele, é sempre com o propósito de o enfraquecer e, finalmente, derrubar. Por isso é um Sopro que tem muito a ver com os que o Império, através dos tempos, habitualmente chama “terroristas”. E tem também tudo a ver com os insubmissos e os dissidentes de todo o tipo. Faz-se ouvir nos poetas e nos profetas. Canta nas margens e, quando avança Sistema adentro, este que se cuide, porque está à beira de ter que mostrar toda a perversidade de que é capaz. Isso acontece, sempre que o Sistema não suporta as vidas e os gritos que se levantam dentro dele e contra ele, a reclamar vida e vida em abundância para todos os seres vivos. E como o Sistema não suporta essas vidas, avança furiosamente sobre elas e mata-as sem dó nem piedade. Nem que seja só simbolicamente! Mostra, nesse instante, toda a sua crueldade e toda a sua perversão. Mesmo que saia momentaneamente reforçado nas suas posições, deu um tiro no próprio pé. E tem cada vez menos futuro, à medida que a Justiça e a Paz que dela resulta forem progressivamente tudo em todos.
No diálogo que fizemos à volta da mesa, durante grande parte do encontro e que culminou no lanche eucaristicamente partilhado entre nós, deixamos que a estória do Evangelho de João se tornasse realidade em nós. Deixamos que o Espírito de Jesus nos tocasse a consciência e nos fizesse nascer de novo. Consequentemente, deitamos ao lixo, e com convicção redobrada, a teologia deísta e moralista do Sistema dominante, feita de mentira e por isso destinada a manter as pessoas e os povos na opressão e no medo, que ensina, por exemplo, que o mal e o sofrimento que há no mundo são castigos de Deus pelos pecados. O Espírito de Jesus, ao contrário, inspira uma teologia outra que nos faz perceber que Deus – o de Jesus – trabalha continuamente na História não para nos castigar (castigados já estamos nós, só por termos nascido num mundo dominado pelo Sistema de mentira que nos cega e engana com a sua teologia idolátrica e com a sua ideologia absoluta), mas para nos reabilitar e dignificar, como quem leva ao seu termo, em cada uma, cada um de nós, a criação que iniciou sem nós, mas que agora não pode concluir sem nós. De Deus, só nos chega a Vida, o Espírito que nos faz ser cada vez mais humanos e solidários. Também cada vez mais combativos, interventores, militantes de causas que tenham a ver com o desenvolvimento integral da Humanidade.
Quando nos deixamos fazer por este Sopro ou Espírito de Verdade, o de Jesus, os donos do Sistema feito de Mentira não se conformam. Sabem que o seu domínio não se aguenta perante a Verdade. É como o escuro que não se pode manter, quando chega a luz. E quem se governa no escuro sempre se perturba quando chega a luz. Se as coisas são assim, no que tem a ver com o escuro e a luz em sentido físico, muito mais quando falamos de luz e de escuro em sentido figurado. Concretamente, da luz que ilumina as consciências das pessoas e desmascara o Sistema de Mentira que tudo faz para manter as pessoas e os povos sob a sua ideologia.
Enquanto não formos capazes de distinguir ideologia ou Mentira do Sistema e a acatarmos como Verdade, somos escravos do Sistema e agimos como tais, ao seu serviço. Por ingenuidade. Ou por ignorância. Ou por oportunismo. Tornamo-nos então funcionários do Sistema. E tanto pior, se somos inteligentes e cultos. O Sistema é capaz de nos pagar bem, mas para que sejamos toda a vida seus adoradores. Uns servem-no nas esferas do poder económico-financeiro, outros nas esferas do poder político e outros nas esferas do poder religioso e eclesiástico. Nas esferas do poder económico-financeiro, os adoradores do Sistema e da sua Mentira, produzem economias que se alimentam de gente, produzem vítimas em série e arranjam justificações aparentemente plausíveis para nos convencer que todo esse interminável rol de vítimas humanas e da Natureza é inevitável. Nas esferas do poder político, os adoradores do Sistema e da sua Mentira confundem interesseiramente política com poder, ministérios com privilégios, serviço público com mordomias para si e para os seus familiares e amigos. Já os adoradores do Sistema e da sua Mentira que actuam nas esferas do poder religioso e eclesiástico, chegam a pensar que são intermediários entre Deus e a Humanidade e a comportar-se como tal; apoderam-se das consciências das pessoas; invocam sistematicamente a letra da lei e a letra da Bíblia para imporem as suas mentiras e os seus privilégios; permitem-se excomungar quem não disser ámen com eles e presidem às Igrejas como se elas fossem feudos privados deles, sem quererem saber das pessoas e das comunidades para nada. Os três grupos de adoradores do Sistema e da sua Mentira constituem, através dos tempos, o que hoje chamamos as minorias privilegiadas, fazem-se tratar por excelências ou reverendíssimos senhores, sua Santidade, sumo Pontífice, ou como Executivos acima de qualquer suspeita, a quem tudo é permitido e nada é exigido.
É fácil de ver que, se em todo este Sistema constituído na Mentira, aparece, num qualquer dia, um Homem habitado e constituído pelo Espírito de Verdade, o mesmo é dizer, por aquele Sopro outro que o Sistema não conhece e, por isso, não controla, e que, na sua acção quotidiana, reiteradamente consciencializa e liberta de raiz muitas daquelas mulheres, muitos daqueles homens que hoje ainda permanecem cegos, logo as minorias privilegiadas que dão visibilidade e força aos três poderes acenderão de o sinal vermelho de perigo, para que todo o Sistema entre em estado de alerta. Esse Homem terá os dias contados. Acabará expulso do Sistema e, se for necessário matá-lo, a execução ocorrerá fora da cidade, como aconteceu com Jesus. O seu nome será maldito. E ninguém mais se atreverá a pronunciá-lo em público, muito menos a perfilhar dos seus pontos de vista.
Sabemos hoje que Jesus, o Homem que levou este seu duelo contra o Sistema e a sua Mentira até ao limite, não acabou na morte, nem no ostracismo a que os adoradores idólatras do Deus do Templo e do Império o votaram. Quando o Sistema celebrava já o seu triunfo sobre ele, eis que, surpreendentemente, foi posta a circular a Boa Notícia de que Deus – que não tem nada a ver com o Deus-ídolo do Sistema – tomou partido por ele. E soltou duma vez por todas o seu Sopro ou Espírito para que Ele actue, a toda a hora e instante, de um extremo ao outro do mundo.
É com este Espírito que as pequenas Comunidades cristãs jesuânicas, como a das Quartas-feiras, em S. Pedro da Cova, vivem. Os seus membros não vergam às minorias do Poder. Não se lhes submetem. Não as adoram. Elas bem podem estrebuchar, fazer das suas, realizar prodígios, milagres, que os membros das Comunidades cristãs jesuânicas não se lhes rendem. Permanecem insubmissos, dissidentes, irmãs/irmãos, humanos. De olhos postos em Jesus, o de Nazaré, seu mestre e libertador, o irmão mais velho, o Primogénito, aquele de quem toda a Humanidade nascida do Alto procede e em quem toda se realizará plenamente.
Fossem múltiplas em todo o mundo as pequenas comunidades cristãs jesuânicas – verdadeiro fermento na massa – e as minorias que dão corpo aos diferentes poderes, desde os ricos que concentram nas suas mãos o que faz falta às maiorias empobrecidas do mundo, aos políticos que em lugar de permanecerem políticos ao serviço das populações, se apoderam do poder e dos privilégios que ele garante, e a acabar nos clérigos de todo o tipo, desde o papa de Roma, aos bispos residenciais e aos párocos, sentir-se-iam todas muito mais desconfortadas nos respectivos palácios. E a Humanidade estaria fecundamente envolvida e comprometida num processo histórico de desenvolvimento integral acelerado. Daí até passar a ver que o Poder, na sua tríplice manifestação, vai nu seria um passo. Perderia então todo o medo que hoje ainda a mantém tolhida e submissa. E a Insurreição Cívica global que tanta falta faz já não estaria muito distante no tempo.
Só a Verdade liberta e abre os olhos da consciência. Mas quem se deixa hoje consciencializar e libertar - humanizar - pela Verdade, até tornar-se um seu martirial e humilde servidor todos os dias? Infelizmente, é a Mentira do Sistema que continua aí a poder contar com minorias muito activas e esforçadas. Inclusive, as próprias Igrejas que deveriam ser comunidades habitadas e sopradas pelo Espírito de Jesus, trocam de bom grado, só para não perderem privilégios, o Espírito de Jesus que sopra no Evangelho, pela letra que mata. Para serem Igrejas assim, melhor fora que nunca abrissem o Evangelho, nem nos pregassem a Palavra de Deus. Porque não há piores assassinos do que aqueles que todos os dias matam espiritualmente as pessoas e os povos, ao dar-lhes a letra do Evangelho sem o Espírito, quando o Evangelho é essencialmente a Força Criadora e insurreccional de Deus, tal como nós o pudemos ver nos actos e nas palavras de Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou.
22 JANEIRO 2005
O ministério dos doentes desta semana levou-me até ao Lar de idosas e de idosos da Casa do Povo da Lixa, sedeado na vizinha freguesia de Vila Cova. Integrei-me, como de costume, no grupo constituído por Maria Laura, a presbítera não-ordenada da Comunidade, Deolindinha e a nossa eterna menina Irene, de regresso a esta missão, depois de bastantes semanas de ausência. Os pais, certamente, aflitos pelo entusiasmo e pela alegria que ela punha nestes contactos com pessoas em situação de fragilidade, passaram a ocupá-la com serviços numa loja de 300 que adquiriram e a que deram o sugestivo nome de “Lojinha da Irene”. Na primeira semana, a menina, empolgada pela novidade, pareceu esquecer a missão e o ministério dos doentes, como os pais tanto queriam. Mas, poucos dias depois, sucedeu o que eu de imediato intuí: A menina começou a andar cada vez mais nervosa, solitária, ensimesmada. Algumas semanas depois, era outra vez a Irene que eu conheci, quando aqui cheguei, vai para um ano, em quem ninguém tinha mão, se a contrariasse, de tão nervosa e inadaptada que se sentia. Sofri muito com este comportamento dos pais adoptivos de Irene, fiz-lhes sentir que havia sido uma má opção da parte deles, mas de nada valeu. Eles insistiram na deles. E a menina continuava a viver cada vez mais distante das pessoas, triste, de rosto carregado e a reagir de modo descontrolado a tudo o que lhe propunham ou impunham. Até que os pais concluíram que, assim, não poderiam mais fazer farinha da filha. E esta semana a mãe abordou-me aqui em casa, a perguntar se a filha Irene podia voltar a integrar o grupo da Comunidade que dá corpo ao ministério dos doentes. Até a abracei, de contentamento, quer pela Irene, a primeira a beneficiar deste serviço, quer pelo ministério em si, que fica humanamente muito mais enriquecido, quer pelas pessoas que venham a beneficiar dele. Na verdade, Irene, na sua deficiência cerebral, consegue surpreender-nos como uma menina com grande sentido da vida humana, particularmente, naquelas pessoas onde a vida está mais debilitada. Para o grupo, a sua presença é uma graça. E para as pessoas que visitamos também. As pessoas conhecem-na como menina com deficiência e quase se escandalizam por ela integrar este ministério. Mas, depois, vêem-na em acção e ficam sensibilizadas. Ela é Evangelho vivo, a sua presença-acção revela como Deus faz maravilhas de humanidade com os que o mundo tem por menos capazes! Irene conhece praticamente toda a gente e toda a gente conhece Irene. E tem o dom de estabelecer com as pessoas uma boa relação logo à chegada. Digamos que, com Irene à nossa frente, não há porta que se não abra e não há braços que não nos abracem. Ela, qual vento impetuoso, como o Espírito na manhã do Pentecostes, irrompe pelas casas e o primeiro contacto fica logo estabelecido. O resto vem por acréscimo.
Quando, depois do almoço, saímos de casa, era com a intenção de visitarmos o senhor Carvalho, um velho amigo nosso de Felgueiras, dos tempos em que fui aqui pároco. Era um daqueles muitos que então – os tempos eram assim – nunca faltava a uma Eucaristia dominical, daquelas que a PIDE também não perdia pitada. Quisemos apostar no efeito surpresa, saímos sem avisar previamente e demos com o nariz na porta. Ficará para outro dia. E já não apostaremos na surpresa. Foi então que me recordei do Lar da Casa do Povo da Lixa, onde vivem doentes e idosas, idosos do concelho, também da freguesia de Macieira, e sugeri uma visita de todo o grupo. As companheiras acharam bem e lá nos metemos a caminho, na carrinha.
Nem sei o que me parece estar para a aqui a falar destes pequenos pedaços de vida do nosso quotidiano local, quando o país, a poucas semanas das eleições legislativas antecipadas, está afogado, graças aos media, nos ditos e contraditos, nos ataques e contra-ataques, nas promessas e nas mentiras dos partidos políticos, sobretudo, dos seus líderes. Já é mau os media reduzirem a vida política aos partidos políticos com assento no Parlamento. Há mais partidos, mas os media não querem saber deles para nada. E há sobretudo, a sociedade civil, na qual se integram os partidos políticos e de onde emergem. Só que a sociedade civil não se presta a política-espectáculo e por isso também não existe para os media. Mas que pena! E que concepção tão redutora do que é notícia, do que é reportagem, numa palavra, do que é jornalismo...
Decididamente, vivemos hoje sob a ditadura dos media, nomeadamente, das televisões. Gestores e directores de informação e de programas põem e dispõem das nossas vidas. 24 horas sobre 24 horas! Os próprios partidos e os seus líderes (os restantes candidatos que disputam as eleições com os líderes é como se não existissem) raciocinam em função dos media. Não são os partidos que conduzem a política. São os media. Tudo acontece em função dos media. Até os governos governam em função dos media. E as populações, por sua vez, não têm como livrar-se da sua programação. Bem sei que poderiam desligar o aparelho lá de casa, ou do café ou do restaurante que frequentam, mas está visto que isso não é viável. Ninguém opta pelo vazio. E depois os conteúdos que nos impingem têm geralmente tanto de humorismo fácil, que as pessoas, esgotadas e estressadas com um quotidiano por demais pesado e irrespirável, não resistem a ficar a ver e a sorrir, muitas vezes, com lágrimas nos olhos, perante tamanha mediocridade.
Também sei que, por estes dias, o assassino e genocida Bush, dos EUA, tomou posse como presidente, para um 2.º mandato de mais quatro anos à frente dos destinos do Império. Com pompa e requintes de luxo. Uma verdadeira provocação aos pobres que vivem no país e em todo o continente americano! Como costuma acontecer em casa de enforcado, onde é recomendado que ninguém fale em cordas, também Bush, na sua tomada de posse imperial, teve o cuidado de não falar na guerra do Iraque. Passou a maior parte do tempo do seu discurso a falar de Liberdade! Imaginem. Um assassino e genocida do seu calibre a falar de liberdade. É bom de ver que só pode ser liberdade para continuar a matar sem escrúpulos. Ou o mundo se faz súbdito e vassalo do Império, ou já sabe o que o espera. Infelizmente, com o andar dos dias e dos anos, o mundo parece conformar-se a ser todo súbdito e vassalo do Império. É outra a vez a “Pax romana”, em versão século XXI, em plena era da globalização!... E ainda dizem que a História não se repete!
Pobre mundo, quando te acomodas a “pastores”/governantes que só o são no disfarce com que se apresentam, porque efectivamente são ladrões e salteadores que só estão aí para roubar, matar e destruir os respectivos povos. Ao aceitarem o Império, as suas decisões económico-financeiras e políticas, juntamente com o seu Deus cruel, tornam-se com ele líderes assassinos e genocidas. Que outra coisa é hoje o neo-liberalismo desenfreado que não conhece fronteiras? Mas ninguém na Europa parece ver o desastre global. Os milhares de milhões de vítimas, de empobrecidos do mundo, vêem-no na sua própria carne. Mas não têm voz nem vez. E também não têm consciência crítica. Foi-lhes roubada, para que continuem a pensar que a sua situação é uma fatalidade, ou uma maldade da natureza. De modo que aquilo a que hoje mais aspiram é poderem ser como Bush e os grandes líderes mundiais que eles vêem todos os dias a viajar de um lado para o outro e a banquetear-se em palácios construídos de cinismo e de sangue humano.
Nestas circunstâncias, com os grandes media a difundir urbi et orbi o mentiroso e criminoso evangelho neo-liberal mais descarado, feito de sorrisos e de ar de felicidade dos líderes mundiais – é ver como o nosso Durão Barroso está nas suas quintas na União Europeia – quem é capaz de resistir a esta mentira? Todos sonham é ver-se um dia nesse filme e, se não eles, ao menos os seus filhos ou os seus netos!... Mesmo a mim que isto escrevo, não faltará quem sorria com piedade de mim e pense que eu nem pareço deste mundo.
Infelizmente, só quando a Humanidade bater no fundo e uma espécie de tsunami ou dilúvio político universal arrasar esta geração idólatra e corrupta que é a actual geração que dirige os destinos do mundo, é que irá ser possível começar de novo, a partir de alguns Noé que sobreviverem a tão devastadora acção violenta à escala global. Esse dia está cada dia mais próximo! Não o digo com pessimismo. Digo-o com esperança!
“Benditos terroristas”, é o título de um quase-poema com que encerro o meu livro “Como farpas, mas com ternura” (editora AUSÊNCIA). Escandalizei muitas pessoas com este evangelho, aparentemente, pro-terrorista. Mas é por aí que Deus, o dos escravos que não se conformam e se organizam para se libertarem do jugo dos novos faraós, e o de Jesus, que não se fica quando lhe matam o filho – a ressurreição do Crucificado é o seu grito do Ipiranga – gosta de andar. Só não anda por aí, evidentemente, o Deus do Império e o Deus das Religiões e das Igrejas que vivam de mãos dadas com o Império, porque é um Deus cruel que se delicia em matar os pobres e as maiorias empobrecidas. Mesmo sem tiros, nem guerras. Pela fome. Pela pobreza cientificamente programada e produzida.
Esperem-lhe pela volta e verão. Digo-lhes mais: avisados andaremos, se, duma vez por todas, nos posicionarmos do lado das vítimas. Nem que, por via disso, venhamos a ter que conviver com terroristas, esses mesmos a quem Deus diz: Vinde, benditos terroristas do meu Pai… Ou aceitamos acompanhar com eles. Ou acompanhamos todos os dias com Bush assassino e genocida e o seu Império. A escolha é nossa. Em cada dia. Na certeza de que com Bush assassino e genocida mais o seu Império não teremos futuro.
Fui encontrar as idosos, os idosos do Lar da Casa do Povo da Lixa na hora de descanso após-almoço. Todas, todos sentados nos sofás numa sala aquecida. Em ambiente de conforto. Irrompi devagarinho. Sem me fazer anunciar. As companheiras ao meu lado. Pé ante pé, como quem não quer perturbar. Mas também como quem quer despertar docemente. Algumas idosas deram-se logo conta. Arregalaram os olhos. O efeito surpresa resultou. E dentro em pouco já estávamos a conversar e a cantar. Animação é o que é preciso nestas casas. Só dormitam depois do almoço, porque não há quem espevite as pessoas. Desta vez, espevitei-as eu. E elas gostaram. Todas elas. Mesmo as que acordaram minutos depois, quando a animação já era mais ruidosa.
A conversa revelou que nem todas as pessoas ali residentes são provenientes de freguesias do concelho de Felgueiras. Encontrei uma que veio de Santa Maria da Feira, meu concelho natal. E outra, de Vila Real. Muito longe. São as mais tristes e revoltadas. Caíram numa terra onde não conhecem ninguém. E choram de solidão. Provavelmente, morrerão de solidão: A menos que se ponha cobro a esta inumanidade.
Por que vieram de tão longe? Não havia lares disponíveis por lá? Havia. Mas a mensalidade é mais elevada! As filhas, os filhos destas mulheres são desnaturados de duas maneiras: Primeiro, decidem entregar as mães que os pariram a um lar. Segundo, correm montes e vales à procura de um lar mais barato, nem que fique a muitos quilómetros de distância de casa delas, para meter lá as mães. Desgraçados filhos, desgraçadas filhas! Quando o dinheiro vale mais do que uma pessoa, mais do que a própria mãe, é sinal de que já se deixou de ser pessoa, vai-se a caminho de monstro. Monstro humano. Mas monstro. Certamente, o mais perigoso e o mais infeliz de todos. Porque, ao contrário dos verdadeiros monstros, este é um monstro contra-natura.
Foi o momento mais doloroso da visita e da animação, quando me dei conta desta barbaridade humana. Da existência de filhas, filhos ao jeito de Bush, pequenos Bush’s caseiros. Procurei que esta mágoa não passasse de mim para as idosas, os idosos, mas é inevitável que elas, eles a conheçam. Pois se são os protagonistas… desta estória feita de tanto drama…
Protesto aqui, com todas as minhas forças, contra estes crimes. As idosas, os idosos são pessoas. Podem ser hoje improdutivas, mas já deram enorme contributo à sociedade. Se de todo em todo têm que recolher a um lar, ao menos que a opção primeira seja o lar na sua própria terra, ou o mais próximo da sua terra. Para que possam ser visitadas, visitados regularmente por familiares, vizinhos e amigos.
“Aqui, nem as funcionárias conheço”, diz-me Lucinda, uma das idosas que veio desterrada para este Lar. As instalações são novas, mas não fazem esquecer a terra e as pessoas. Ora, de pessoas é que vivemos. Tirem-nos as pessoas e desaprendemos de falar, de ouvir, de sorrir, de comunicar, de gesticular. Ficamos múmias.
Não foi assim esta tarde, enquanto lá estive. Comuniquei e consegui que todas, todos comunicassem comigo e entre si. Maria Laura e Deolindinha e Irene também fizeram outro tanto e ao seu jeito. O jeito de Maria Laura é insuperável. Decididamente, ela tem um dom que lhe foi dado. O seu rosto todo se transfigura em sorriso e em acolhimento, quando comunica com pessoas como estas. Deveria ser assim o rosto e o sorriso de Jesus entre os mais oprimidos e desprezados pelo Templo e pela Sinagoga. O sorriso de Deus entre nós e connosco.
Com todas, todos, cantei/cantámos um canto, sacado do livrinho Canto(S) nas margens (Editora Ausência). Li cada estrofe e cantei-a. As idosas, os idosos procuravam acompanhar-me. Foi um momento eucarístico. Libertador. De Paz. De comunhão.
Prometi voltar. Elas, eles ficaram à espera de mais. Na sequência da visita, apressei-me a escrever um e-mail à directora do Lar que, na altura, não estava presente. Para lhe dar conhecimento. E também para lhe sugerir/pedir que providencie para que passe a haver um regular serviço de animação na instituição. Faz tanta falta como a comida. Espero que ela seja sensível ao meu apelo. Aproveitei, e dei-lhe também uma palavrinha de amigo e de conforto libertador, pelo facto de ela ter ficado nestes dias órfã de mãe. Ela há-de aprender a dar pela presença da mãe, agora definitivamente ressuscitada. Pelo que a sua orfandade dará lugar a uma entrega de vida ainda mais generosa e mais comprometida com as pessoas que sofrem, idosas e não só. Não é assim, dra. Catarina?
18 JANEIRO 2005
Com as eleições legislativas antecipadas cada vez mais próximas e perante o espectáculo degradado e degradante que nos estão a dar a toda a hora e instante os políticos profissionais, tanto os políticos profissionais dos dois partidos ainda no Governo, como até os políticos profissionais dos chamados partidos de Esquerda, o que havemos de fazer para curar de vez o nosso país da doença estrutural que, qual maldição, nos afecta desde o berço da nacionalidade e nos tem impedido, como povo, de encararmos a Política como a nossa principal actividade humana e, sobretudo, nos tem impedido de entrarmos e de estarmos todas, todos na Política com cabeça, tronco e membros, e assim levarmos cada vez mais longe a nossa cidadania e a nossa relação de fraternidade/sororidade uns com os outros?
A sensação que me dá é que, apesar dos mais de 800 anos que já levamos de nação politicamente independente, nunca fomos verdadeiramente capazes, até ao presente, como povo de povos que somos, de cortar o cordão umbilical que, desde as origens da Humanidade, nos mantém infantilmente ligados à Religião e, concretamente, à mítica e aparentemente toda poderosa deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo mais primitivo.
Não há dúvida que no início da nossa nacionalidade houve o corte do cordão umbilical político que nos ligava a Castela, mas o mais dramático da nossa condição de povo em Portugal é que ainda não aconteceu – e quando é que acontecerá? – o corte do cordão umbilical religioso que continua a manter-nos ligados, particularmente, em tempos de crise, à mítica e aparentemente toda poderosa deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo mais primitivo, materializada em múltiplas e variadas imagens mais ou menos toscas de nossas senhoras, e a cuja intercessão as pessoas e os povos – ateus ou agnósticos que sejam – quando se vêem sufocados por problemas muito concretos e aparentemente irresolúveis, na área da saúde, do trabalho, da economia familiar ou empresarial e do bem-estar em geral, infalivelmente recorrem, na ilusão de que alguma dessas nossas senhoras lá acabará por encontrar a tão almejada solução, desde que nós, dia e noite, lhe peçamos com lágrimas e lhe façamos promessa de múltiplos sacrifícios públicos em sua honra, quanto mais cruéis e inumanos eles forem melhor!
A Fé cristã jesuânica e até o simples bom senso atestam que todas estas míticas nossas senhoras, com destaque entre nós para a mais cruel e vampiresca de todas que é a nossa senhora de Fátima, não passam de imagens cegas, surdas e mudas que nem de si próprias são capazes de cuidar e, por isso, têm que ser carregadas em andores e zeladas pelos seus humanos devotos, tanto mulheres como homens, mas a verdade é que as pessoas e os povos, quando desesperam por falta de solução para os seus inúmeros e graves problemas quotidianos e para os seus muitos becos sem saída, nem sequer isso vêem e atiram-se de cabeça, a pé ou de carro, de joelhos ou a rastejar, para os seus santuários, onde as respectivas imagens são cultuadas e idolatradas, sempre sob a gerência de sacerdotes que, por se prestarem a tal ignomínia, para mais, em nome de Deus, têm tanto de mentiroso como de mercenário.
A independência política do nosso país é hoje um facto indesmentível, tanto na Europa como no resto do mundo. Porém, como povo, nunca deixamos de ser até ao presente – hoje, felizmente, já muito menos do que nos séculos passados – um povo de povos ingenuamente dependentes de deuses e de deusas imaginados, criados e alimentados por ancestrais e irracionais medos que nos dominam e controlam, fazem de nós gato-sapato e nos levam a ser súbditos e vassalos de santas e de santos, de jacintinhas e de francisquinhos, de nossas senhoras de Fátima e nossas senhoras de um outro nome qualquer, de videntes e de cartomantes, de bruxas e de curandeiros, de astrólogas e de astrólogos, de chefes de estado e de governo, de políticos profissionais bem-falantes e de vendedores de banha de cobra, de seitas e de pastores carregados de mentira, de clérigos mais ou menos autoritários que pontificam solitários em catedrais e em templos estrategicamente erguidos no centro de cada uma das inúmeras paróquias espalhadas pelo país, de poderosos presidentes de ipss’s e de misericórdias, de subsídios e de rendimentos mínimos garantidos, de ricos benfeitores e de empresários amigos dos clérigos, de casas do gaiato e de fundações do gil, de cáritas e de pirilampos mágicos.
Mais de oito séculos depois da independência política, continuamos a ser um povo de povos condenados a viver em permanente estado de mão estendida, tolhidos por crenças e crendices de todo o tipo, sempre à espera de soluções milagrosas e de um golpe de asa da sorte, tremendamente preguiçosos, sobretudo, quando se trata de inventar e de abrir/percorrer caminhos ainda por andar, e ainda por cima orgulhosos da fama de chico esperto que já se nos colou ao corpo, como povo, e por cujo humilhante apelido somos conhecidos no resto do mundo, por isso, um povo sem ponta de audácia nem ponta de disposição para nos assumirmos, duma vez por todas, no concerto dos outros povos, como um povo progressivamente autónomo e independente, protagonista e senhor do próprio destino, um povo de políticos, em feminino e masculino, nunca mais, como até agora em todos estes séculos, um povo de religiosos e de crédulos adoradores de ídolos, deusas e deuses sem um pingo de realidade e de humanidade.
Não falta quem, por estes dias de luta política partidária, se me dirija a perguntar o que se pode e deve fazer para tirarmos o nosso país do abismo para onde a total incompetência e o total desnorte deste Governo PPD/PP acabou por nos empurrar de modo quase irreversível. A generalidade das pessoas apresenta-se-me desencantada com os políticos profissionais que se degladiam e se descredibilizam reciprocamente e que os grandes media metem pelas nossas casas dentro a toda a hora e instante, em reportagens repetidas até ao vómito. Muitas destas pessoas que me contactam, por e-mail e outros meios, confessam-se inclusive dispostas a abster-se de votar nas próximas eleições, já que não acreditam em nenhum dos candidatos que se apresentam a sufrágio eleitoral. O fundamento é óbvio: nenhum destes homens políticos – é verdade, são mesmo só homens machos os protagonistas deste tipo de politiquice sem ponta de Política – dá convincentes provas de capacidade para dinamizar e mobilizar politicamente as populações, de modo que todos juntos mudemos o rumo do país e iniciemos um irreversível processo de cura estrutural radical, de que nós, como povo, andamos carecidos desde o início da nossa nacionalidade.
Todos estes políticos profissionais da actualidade estão manifestamente apostados, com mais ou menos demagogia, com mais ou menos habilidade, em conquistar uns quantos lugares mais, no Parlamento de Lisboa, para desse modo garantirem continuidade aos privilégios de que já usufruem e de que não querem abrir mão. A generosidade deles, quando muito, vai até ao ponto de tentar alargar esses seus privilégios a mais alguns dos seus fiéis sequazes partidários, sem se importarem que o povo, mesmo aquela parcela que venha a votar neles, continue a ter que viver abaixo do limiar da pobreza.
Os próprios partidos que se assumem como de esquerda, desde o PS ao Bloco – a salutar diferença deste, relativamente aos outros, continua a ser insuficiente, embora, pessoalmente, não possa deixar de a saudar com esperança desde aqui – revelam-se, nesta Babel eleitoral, autistas q. b., como se aqueles que militam num partido fora do seu, fossem todos uns malandros, uns corruptos, uns troca-tintas, uns oportunistas. O mais surpreendente é que os partidos da Direita ainda são capazes de hipocritamente se unir, de se sentar a conversar e lá acabam, depois de muitas piruetas, por fazer acordos pontuais que lhes proporcionem mais garantias de se perpetuarem no poder, ou de dele se reapoderarem, quanto antes, no caso de pontualmente o virem a perder. Mas os líderes dos partidos de Esquerda comportam-se entre si como inimigos primários, no estilo, só eu tenho, à esquerda, as soluções e as estratégias quimicamente puras para vencer os males do país, pelo que aos membros dos restantes partidos desta área não lhes resta outra alternativa que não seja saírem deles e correrem a filiar-se no meu, o único que pode mudar o rumo do nosso país. Alianças? Nem as desejo, nem as proponho, nem as aceito. Cá comigo é assim: o país, se quiser que eu o governe, dê-me/nos a maioria absoluta dos votos e nós cá estamos!...
Recordo-me, a este propósito, que há algum tempo atrás, assinei um Editorial no Jornal Fraternizar, a que dei o desafiador título: ENTENDAM-SE! O título acabou por ser manchete em toda a largura da 1.ª página do Jornal, acompanhado da fotografia dos líderes de cada um dos quatro partidos de Esquerda com assento no Parlamento, mais a fotografia do líder do PCPT/MRPP, doutor Garcia Pereira.
Pois bem, pelo que nos é dado ver hoje no país, tenho de concluir que este apelo continua sem ser ouvido e, consequentemente, sem resposta. Cada partido toma-se mentirosamente pelo todo, quando, como a própria designação “partido” indica, cada um é apenas uma “parte” do todo. Os chefes dos partidos parecem ignorar que a Democracia reside no povo, mesmo que a maioria dele não integre nenhum dos partidos existentes. Eu sei que os partidos são indispensáveis neste tipo de Democracia que temos hoje, mas o seu papel há-de ser junto do povo sobretudo como o da “parteira” junto da mulher que está para dar à luz. Quando os partidos perdem a humildade maiêutica na sua relação com o povo e pretendem arrastar o povo a aclamar o seu iluminado chefe – onde é que já vimos isto?! – deixam automaticamente de ser parte da solução e tornam-se parte do problema. Do alto do seu pedestal, tudo fazem para serem olhados como “Messias” ou salvadores. Chegados aí, crescem os partidos e o poder dos partidos, mais os privilégios dos partidos e dos seus líderes, mas o povo diminui e definha em toda a linha, também, evidentemente, na intervenção política.
Bem sei que o caldo de cultura em que, desde o início da nacionalidade, temos vivido - um povo ininterruptamente ligado à religião, nomeadamente, à crença cega e absurda na aparentemente poderosa deusa mítica virgem e mãe dos cultos do Paganismo mais primitivo - é propício a esta via falsamente messiânica. Por isso é que não hesito em afirmar: Qualquer partido que, em lugar de denunciar e de combater com inteligência e com ciência esta mortal doença estrutural que afecta o nosso psíquico colectivo, procurar aproveitar-se dela para se guindar a partido do poder e no poder, é um partido com sopro ou espírito demoníaco, por isso, mentiroso e assassino. Quanto mais activo estiver, mais vítimas faz entre o povo e no país. Dos seus chefes pode-se dizer o que Jesus diz, no Evangelho de São João (10, 8-10), acerca dos “pastores” (entenda-se: líderes religioso-políticos mais ou menos profissionalizados) que vieram antes dele: são ladrões e salteadores que estão aí apenas para matar, roubar e destruir. Quanto mais crescerem em poder, e em todos aqueles privilégios que o poder infalivelmente garante a quem o serve e detém, mais o povo diminui até acabar por morrer, sem nunca chegar a ser, como está chamado pelo Deus Vivo e Criador, povo autónomo, liberto para a liberdade, protagonista, senhor dos próprios destinos, numa palavra, povo político.
Ora, a solução radical – de raiz – de que o nosso país precisa mais do que nunca é que o nosso povo rompa de vez e para todo o sempre o cordão umbilical que continua a mantê-lo ligado à religião e às imagens de nossas senhoras de múltiplos e mentirosos nomes, as quais visibilizam entre nós a crença na deusa mítica virgem e mãe dos cultos do Paganismo mais primitivo; deixe de vez e para todo o sempre de esperar a solução e a salvação para as suas inúmeras agruras e reais necessidades da intervenção duma qualquer imagem duma nossa senhora (se as imagens nem delas próprias conseguem cuidar, como hão-de cuidar do povo?); e passe a acreditar com todas as suas forças do seu ser em si próprio, como povo, e não apenas como meros indivíduos. Ao mesmo tempo, atreva-se a nascer de novo como povo político, como povo que cresce em política e olha a religião como tentação demoníaca, à qual, por isso, terá que resistir com todas as forças, mesmo quando a dimensão das crises e as aflições colectivas ou individuais parecerem inultrapassáveis.
Ocupemos, como povo, a Política. Sejamos políticos todas, todos. Deixemos que a Política se apodere de nós, nos anime desde dentro. E faça de nós mulheres e homens ilustrados, conscientes, críticos, protagonistas, intervenientes, um povo que leva a vida nas próprias mãos, sem nunca mais a confiar a nenhum deus, a nenhuma deusa, nem tão pouco aos chefes dos partidos políticos, aos líderes religiosos, a nossa senhora de Fátima, ou a qualquer outra nossa senhora feita de mentira.
Quando nascermos deste Sopro, deste Vento, deste Espírito, não há demagogo ou multinacional ou publicidade enganosa, ou novela, ou seita, ou prédica de pastor de olhos postos na conta bancária das, dos ouvintes, que nos enganem, nos verguem ou nos comprem. Seremos um povo ilustrado, lúcido, liberto para a liberdade. Esse será então o primeiro dia do resto da nossa vida. O dia a valer da nossa criação, como eva e adão, isto é, como seres verdadeiramente humanos, inteira e alegremente ocupados com a Terra, não com o céu, menos ainda, com as deusas, os deuses.
11 JANEIRO 2005
Aconteceu mais um encontro-celebração da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Foi no domingo, dia 9 deste mês de Janeiro 2005. Houve uma surpreendente participação de pessoas, como há meses não se via nestes encontros. Ao todo, umas 30 pessoas e todas muito interessadas e muito participativas. O encontro foi um momento alto de Graça. Um verdadeiro encontro de Deus, o de Jesus, connosco. E a prova é que no final todas, todos nos sentíamos mais humanos e com mais vontade de sermos presenças na História que progressivamente humanizam o mundo. O segredo deste inesperado êxito da Graça esteve no recurso a uma nova pedagogia na forma de viver a missão, por parte da Comunidade, e que eu próprio passei a testar e a praticar de imediato. Primeiro, percebi que deveríamos envolver mais as pessoas da Comunidade ou que andam na sua órbita, e responsabilizá-las antecipadamente pelo conteúdo e pelo andamento do encontro-celebração. Depois, percebi que cada encontro-celebração deve andar à volta de um tema ou de um acontecimento que venha a ser olhado e abordado no encontro como um dos sinais dos tempos, através dos quais Deus, o de Jesus, misteriosamente se nos revela e comunica. Finalmente, percebi que deveria abordar pessoalmente – no futuro, cada membro da Comunidade também deverá fazer o mesmo – umas quantas pessoas, com as quais a Comunidade mantém laços de mais proximidade e de afecto e que, por uma razão ou outra, já estiveram nalgum encontro anterior, mesmo que tenha sido há muitos meses ou mesmo anos. Desta vez, a abordagem foi feita por mim, mas no futuro imediato, deverá ser feita por cada um dos membros da Comunidade. E deverá ser feita na véspera, o máximo, na antevéspera do Encontro, para que cada pessoa contactada e convidada experimente na própria consciência a pressão a decidir se diz sim ao convite, ou se, pelo contrário, prefere dizer sim a outro compromisso qualquer que assumiu antes de receber o da Comunidade. Trata-se de um tipo de pressão com a marca do Espírito Santo, que aparece quase sempre em momentos que, nos nossos critérios, temos como menos oportunos, e que é em tudo semelhante àquele tipo de pressão que está presente na parábola lucana contada por Jesus dos convidados para o banquete e que, pelos vistos, todos à uma recusaram, porque já tinham outros compromissos relacionados com os seus próprios interesses e negócios (cf. Lucas 14, 15-24). Nenhum foi capaz de renunciar aos seus interesses e negócios, para se ocupar dos interesses e dos negócios do Reino de Deus, isto é, da Humanidade como nossa família e do Mundo como nossa casa comum. Em contrapartida, os pobres, os estropiados, os cegos e os coxos, numa palavra, os pecadores que já não têm nada a perder, disseram sim ao convite e a sala encheu-se com eles, a revelar que, afinal, é com estes, e não com os outros, que Deus, o de Jesus, conta para mudar o mundo. Porque os grandes, com muita riqueza e muito poder concentrados e, por vezes, também com muita religião à mistura, mais não fazem do que estragar e corromper o mundo, já que, quando actuam na História, é sempre para salvaguardarem e reforçarem os seus ilegítimos interesses, contra os legítimos interesses da Humanidade e do Mundo.
A luz para esta mudança de pedagogia no trabalho de missão aconteceu, no decorrer das minhas caminhadas diárias, que a cardiologista, há anos, me recomendou que fizesse sempre, pelo menos, durante 30 minutos, sempre em passo certo e sem qualquer interrupção. Em geral, faço 40 minutos por dia. Depois que me levanto e tomo o pequeno almoço, saio de casa e percorro com toda a naturalidade um de vários itinerários que já criei, a partir da casinha onde resido, para este fim. Aproveito a viagem pedonal para meditar/mergulhar na Natureza, na sociedade, na vida. Deixo-me conduzir-guiar pelo Espírito. Vou em oração. Como eu a entendo, já se vê, não como a entende a Cristandade, que é um entendimento muito próximo do dos pagãos religiosos. Vou atento e à escuta do Espírito.
Nas caminhadas realizadas na semana em que caía o domingo do Encontro da Comunidade, era este encontro que eu levava no pensamento e no cuidado. Até que, numa delas, começou a fazer-se luz na minha consciência. Percebi que haveria que sair da rotina e investir em cada encontro como se ele fosse um encontro único, sem nenhum outro antes, nem nenhum outro depois. Haveria também que envolver e responsabilizar as pessoas, a começar pelos jovens. Estimulá-los a serem protagonistas em cada encontro. Ninguém, muito menos os jovens, suporta ser objecto, a não ser os preguiçosos. Mas com preguiçosos nem o Espírito Santo vai a lado nenhum. Os preguiçosos só ocupam espaço. São um estorvo e um peso em qualquer grupo. Como os parasitas. Por isso, ou os preguiçosos desistem da preguiça, ou é melhor deixá-los entregues à sua preguiça, enquanto eles assim quiserem.
Foi deste modo que me dei conta, por exemplo, que haveria que envolver em cada encontro os dois casais de namorados, Dária e Rodrigo, Cristina e Isidro, que têm crescido à sombra da Comunidade e que ora têm estado presentes no encontro, de forma bastante passiva, ora nem sequer têm estado. Como este encontro de Janeiro ia ser dominado pela catástrofe que se abateu sobre os países do Sudeste asiático, senti que desta vez havia que lhes confiar uma intervenção no encontro, não muito difícil, para começar. Para tanto, imprimi as duas reflexões que escrevi sobre a tragédia na minha página na Internet e entreguei uma a cada casal de namorados, para que cada um a lesse previamente e sublinhasse as passagens que achasse mais oportunas, em ordem a apresentá-las depois no encontro às demais pessoas. Conversei pessoalmente com cada uma delas, cada um deles e percebi logo que elas e eles ficaram agradavelmente surpreendidos e foram incapazes de se pôr de fora ou à margem. Terá sido esta a primeira vez que o namoro destes dois casais de namorados foi “invadido” por conversas que dizem respeito à Humanidade e com questões que vão muito para lá das habituais questões de namoro, como a generalidade dos jovens o entende e pratica por estas zonas. Cada casal de namorados preparou-se como entendeu. E na hora do Encontro lá estavam ambos, prontos a participar.
Mas a nova pedagogia na dinamização da missão levou-me a mais outras iniciativas e a mais outros gestos, relativamente a pessoas que andam próximas da Comunidade, mas que quase nunca participam nos encontros mensais. Para este tipo de pessoas, senti-me interiormente movido a dirigir-lhes um explícito convite, feito com alguma formalidade. Na véspera do encontro, logo ao início da tarde, fui pessoalmente falar com algumas dessas pessoas, na sua própria casa. Mas para lá das palavras faladas, quis deixar-lhes um convite escrito que havia preparado da parte da manhã no meu computador. Reza a assim o
CONVITE
"Como sabe, este domingo, dia 9 de Janeiro, é o 2.º domingo do mês, por isso, é o dia do encontro da pequenina Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. Como é habitual, o encontro tem início previsto para as 3 horas da tarde, na Casa da Comunidade, e deverá terminar por volta das 6 horas. Entre as 5 e as 6 horas, haverá lanche comunitário feito a partir do que cada pessoa levar para partilhar na mesa comum. Durante o lanche, Partiremos o Pão e o Vinho (e Chã) em Memória de Jesus.
Neste encontro, vamos ter presente sobretudo a tremenda tragédia ocorrida nos países do Sudeste asiático, com os seus mais de 160 mil mortos e os seus milhões de desalojados.
Aceite o meu convite e venha estar connosco, para, juntos, escutarmos o que o Espírito de Jesus nos anda a querer dizer no meio de toda esta tragédia. Basicamente, são duas as questões que levamos para o encontro. A 1.ª questão é: Como fica a Fé em Deus, depois desta tragédia? E a 2.ª questão é: Como fica a Humanidade/o Mundo depois desta tragédia?
Apresente-se vestido com a ternura e a liberdade. E, se quiser, faça-se acompanhar de outras pessoas suas amigas e seus familiares.
Seu companheiro e irmão, Mário, presbítero da Igreja do Porto."
Com várias cópias deste convite numa pequena pasta, dirigi-me a mais de 20 casas da freguesia, todas, à excepção de três, casas de famílias que, uma vez ou outra, já participaram em iniciativas promovidas pela Comunidade, ou pela Associação AS FORMIGAS DE MACIEIRA. As três excepções às casas de famílias foram outros tantos Cafés das redondezas, cujos proprietários aceitaram colocar o convite em destacado lugar para poder ser lido pelos respectivos clientes. Era sábado, a seguir ao almoço. Por isso, encontrei as pessoas nas suas casas. Conversei durante breves instantes e deixei o convite escrito.
Esta nova pedagogia resultou em alguns casos. Noutros não. À hora do encontro-celebração, realizado no dia seguinte ao convite, domingo passado, era grande a minha expectativa. Num primeiro instante, cheguei a temer um total fracasso. Mas, sobre a hora, começaram a chegar pessoas que não são habituais nestes encontros do 2.º domingo de cada mês. Vinham em grupo familiar. E cada conjunto que chegava representava um encorajamento para os que já estavam à espera do início do encontro. A sala quase se encheu. Alguns, precisamente, os de mais longe, foram os primeiros a chegar. Foi o caso duma família de Gondomar, cuja filha visita com regularidade a minha página na net e convenceu a mãe e o pai a virem com ela. Já não é a primeira vez que vêm. Os três foram criativamente participativos e deram ao encontro uma mais valia inesquecível. Foi também preciosa a sua partilha de alimentos para o lanche comunitário. Para as pessoas que residem em Macieira da Lixa, as presenças e as intervenções de pessoas de mais longe são sempre muito importantes. Dão-nos consciência de que não estamos sozinhos neste modelo alternativo de Igreja, dentro da Igreja católica, quase toda reduzida ao tradicional modelo paroquial pagão e idolátrico. Pelo que a pequena aldeia só tem a ganhar com a sua abertura ao mundo. As pessoas perdem possíveis complexos de inferioridade e há também um crescimento muito acentuado na auto-estima e na auto-confiança.
Houve, pois, agradáveis surpresas na resposta afirmativa de certas pessoas da freguesia ao convite pessoal que lhes foi endereçado por mim, enquanto membro da Comunidade. E também desagradáveis surpresas na resposta negativa de outras que eu esperava que respondessem de forma positiva. Mas a nova pedagogia revelou-se fecunda e há que melhorá-la cada vez mais nos próximos meses.
A Comunidade cristã de base de Macieira é numericamente pequenina e pobre. Mas, nesta freguesia do concelho de Felgueiras, é praticamente o único sinal comunitário ou o único sacramento de Jesus, o de Nazaré, o qual, por sua vez, é o sacramento por antonomásia do Deus Vivo que gratuitamente nos habita e que está nos antípodas dos ídolos que existem para nos subjugar. Eu sei que, também aqui, há a paróquia católica, com pároco residente e tudo, mas, em geral, o Deus das paróquias católicas do que se agrada é de religião e não suporta a Política, por isso, é sobretudo um ídolo que subjuga e oprime quem frequenta os respectivos templos. É ver como, lá dentro, ele tira a voz e a vez às pessoas. Como as amedronta com as suas catequeses moralistas, pronunciadas pelos padres-párocos que têm tudo de funcionários eclesiásticos e praticamente nada de presbíteros da Igreja de Jesus. Para cúmulo, os padres-párocos ainda vivem convencidos e agem na convicção de que são intermediários entre Deus e o povo e entre o povo e Deus. Na sua arrogância, não se dão conta que só um Deus-ídolo é que recorre a intermediários do tipo destes clérigos católicos que conhecemos, celibatários à força, eunucos que o Sistema eclesiástico e a sua Cúria romana fazem tais e autoritariamente impõem às populações católicas, sem que estas sejam tidas ou achadas para nada, a não ser para os sustentarem, melhor, para os fazerem enriquecer e, consequentemente, corromper!... O Deus de Jesus, ao contrário, dispensa todo o tipo de intermediários, já que Ele próprio vive dentro de cada pessoa e estabelece com cada pessoa uma aliança que, se for conscientemente vivida por nós, seres humanos – ser crente é ter consciência desta Presença e viver cada vez mais intensamente esta aliança – acabaremos por levar ao máximo o humano que somos, de modo que, com Ele, somos nós quem cresce no mundo e na História, na mesma proporção em que Ele diminui. O Deus-ídolo, ao contrário, cresce e obriga os seres humanos a diminuir. E, se forem seres humanos frequentadores das paróquias católicas diminuem ainda mais do que os seus concidadãos ateus assumidos que nunca lá põem os pés. E a prova é que muitos dos que frequentam os templos consomem grande parte do seu tempo e das suas energias em redor dos altares e das imagens de santos e de nossas senhoras, quando, se fossem crentes no Deus de Jesus, consumiriam esse tempo e muito mais e todas as suas energias no mundo, na Política, a única actividade que pode dar outro rumo à História. É bom que se saiba que a glória do Deus Vivo, o de Jesus, é que os seres humanos vivam e vivam em abundância, particularmente, que os pobres e os humilhados da terra sejam exaltados como gente e se tornem protagonistas na História. Ao contrário, a glória do Deus-ídolo é que os seres humanos diminuam e sejam humilhados, para que só o Deus-ídolo cresça, juntamente com os santuários onde a sua imagem continua a ser idolatrada de múltiplas maneiras!
Entretanto, na sua pequenez, mesmo numérica, a Comunidade Cristã de Base há-de convidar para a sua mesa comunitária as suas concidadãs, os seus concidadãos, nomeadamente, aquelas, aqueles com quem mantém relações de afecto e de serviço maiêutico, na linha da missão de Evangelizar os pobres. É isto que, a partir de agora, haveremos de passar a fazer com muito mais consciência e empenhamento. Neste aspecto, o ano 2005 representará um salto qualitativo em frente. Se formos dignos deste salto, então, em lugar de sermos uma pequenina Comunidade em risco de extinção, como eu próprio já cheguei a admitir, seremos uma pequenina Comunidade chamada a fazer crescer este povo e a Humanidade em geral em consciência ilustrada e evangelizada, em consciência crítica e auto-crítica, cada vez mais afastados dos templos das paróquias católicas, do seu modelo opressor de Igreja e do seu Deus-ídolo que lá é adorado-idolatrado. E esta é uma missão eclesial que nos dá uma alegria e uma paz sem igual, por mais incompreensões que nos possam bater à porta.
A abrir o encontro-celebração, dirigi uma breve saudação a todos os presentes: “A tragédia que se abateu sobre os países do Sudeste asiático, com muitos turistas ocidentais e outros à mistura, tem todos os ingredientes de um apocalipse = revelação. Desde logo, revelou à saciedade a fragilidade dos seres humanos e a estupidez da nossa arrogância, quando nos deixamos dominar por essa pose demoníaca. Revelou que somos todos Natureza e um colectivo, ao mesmo tempo que somos pessoas com a nossa originalidade. Dito de outra maneira: Revelou que não somos nada sem o resto da Natureza. Nem somos nada sem os demais seres humanos. É hoje claro como água que o mundo é a nossa casa comum. Somos-com-a-Natureza, somos-com-os-outros. Ou assim, ou não chegamos a ser!
Convido-vos a fazermos desta tarde de encontro-celebração uma experiência natalícia, um novo parto. Nasçamos de novo. Do Alto. Do Sopro ou Espírito quem vem de todas as vítimas mortas e sobreviventes do Sudeste asiático. Nasçamos como seres humanos. Como seres em relação. Como seres em comunhão.
A partir de agora, e no meio de toda esta fragilidade que somos, cultivemos reiteradamente a Ternura, o Afecto. Quanto tempo estivemos sem nos vermos olhos nos olhos? Quanto tempo estivemos sem nos telefonarmos? E há quanto tempo é que já não nos beijámos? É urgente o afecto. É urgente a ternura. É urgente a fraternura. É urgente vermo-nos, visitarmo-nos, ouvirmo-nos, beijarmo-nos. Não apenas em ocasiões com a deste encontro. Mudemos rapidamente de postura.
Cultivemos o cuidado. Antes de mais, uns pelos outros, e sem a mais pequena discriminação de sexos. Depois, ou ao mesmo tempo e com a mesma intensidade, cultivemos também o cuidado pela Natureza. Se todas, todos o fizermos, o nosso próximo futuro será bem mais humano. Mais nosso. De nós.”
Para o encontro-celebração, sentei-me à escuta e escrevi um canto. Sem criatividade, ainda haverá encontro de Deus Vivo connosco? Contra a rotina dos ritos, a aposta desta pequenina Comunidade é a criatividade. Sem ela não há experiência do Espírito Santo que faz novas todas as coisas. Fiz cópias do canto e levei-as comigo para o encontro. Logo após a saudação e antes de passarmos a escutar os textos que os dois casais de namorados assumiram resumir, seguido duma parábola do Evangelho de Lucas 16, 19-31), cantei sozinho e logo depoiscantámos todos juntos o poema TSUNAMI. É um poema curto, mas intenso. Que nos chama a sermos mulheres, homens de outro espírito, do Espírito de Jesus Ressuscitado. Pode ser cantado com a música do nosso folclore: “Senhora do Livramento”. É uma forma de substituir os conteúdos pagãos idolátricos que proliferam nas cantigas religiosas do nosso povo e que subrepticiamente nos alienam e subjugam por conteúdos jesuânicos que nos libertam e humanizam. Eis:
TSUNAMI
1. Quando o mundo em que vivemos
Se transforma em mar de dor
Pensas logo em culpar Deus
Ou dás as mãos e com audácia
Constróis um mundo melhor?
2. Terramotos, terrorismos
e o horror de qualquer guerra
são coisas da Natureza
ou um produto, horrendo crime
dos poderosos da Terra?
3. Sob o jugo do Império
mentiroso e assassino
com quem vives cada dia:
com os mais pobres ou com os ricos?
Fosses tu como um menino!
4. A exemplo de Jesus
p’lo Império assassinado
que homem/mulher vais ser?
Sempre hás-de ser um companheiro
dissidente, inconformado!
O encontro-celebração passou então para toda a assembleia. Primeiro, falaram os dois jovens casais de namorados com os textos que previamente lhes entreguei para eles lerem e sintetizarem para aquele momento. Os textos estão na íntegra nesta minha página-net, Diário Aberto de 28 de Dezembro 2004 e 5 de Janeiro 2005. Eu próprio proclamei a parábola de Lucas, conhecida como do “rico e do pobre Lázaro” e que apresentei como uma espécie de retrato a preto e branco do nosso mundo contemporâneo que tão criminosamente está metido nesta tragédia sem par. Não tem ainda competência e saber para evitar este sismo no mar da Tailândia e o maremorto que inevitavelmente se lhe seguiu, e por isso não pode ser responsabilizado por isso, mas já poderia ter evitado os milhares de mortos que o maremorto causou. Assim tivesse investido dinheiro na tecnologia que alerta com suficiente antecedência as populações residentes nas redondezas do mar, para a chegada dos maremortos.
Escutada a Palavra, foi o tempo do fraterno e comunitário diálogo. Com tempo bastante para que ninguém ficasse sem usar da palavra. Achegas daqui e dali. Algumas bocas que nunca se tinham ouvido em encontros anteriores, falaram desta vez. Com descontracção e alegria. Numa afirmação pessoal que, com o tempo, pode chegar longe e há-de chegar a ser Política! Foi bonito de se ver. Começaram os que vieram de mais longe. Seguiram-se os de Macieira, elas e eles, indiscriminadamente. Num Pentecostes tão significativo como o relatado nos Actos, já que, também aqui, não se ouviu apenas a palavra de quem presidia, mas sobretudo a palavra de todos os que quiseram fazer uso dela. E foi a quase a totalidade. A experiência não poderia ter sido mais convincente.
Um dado foi lançado à consideração de todos os presentes e que diz bem do tipo de mundo criminoso que é hoje o mundo rico, que fabrica pobres Lázaros em cadeia e em massa. Eis: O mundo rico actual gasta por dia 2.200 milhões de dólares em armamento para matar. Bastariam 9 dias seguidos sem estes gastos e todas as crianças do mundo que hoje passam fome, não têm escola, nem acesso aos medicamentos, veriam satisfeitas todas essas suas necessidades básicas, e poderiam assim ter algum futuro! Infelizmente, ainda não fomos capazes deste pequeno-grande gesto de humanidade. Teimamos em ser Caim uns para os outros, quando temos todos os motivos e mais um para sermos Abel uns para os outros. Será que depois do Tsunami vamos mudar radicalmente, como mundo, como Humanidade?
Ao diálogo comunitário e fraterno, seguiu-se o Lanche, conseguido a partir do que cada pessoa levou consigo para a mesa comum. A abrir o Lanche, a presbítera não-ordenada da Comunidade foi chamada a Partir o Pão e o Vinho (e Chã para os abstémios) em Memória de Jesus. Quando Maria Laura tomou nas suas mãos o Pão e o Vinho, fez-se um impressionante silêncio na sala. Um silêncio gritante. Como no Calvário, a fazer lembrar aquele grito de Jesus: “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” Na Comunidade, este grito já não se ouviu, porque, desde esse momento, há dois mil anos, percebemos para sempre com Jesus que Deus não nos substitui, mas nos potencia, desde o mais fundo de nós e da nossa consciência evangelizada. O Pão partiu-se e ficou ali a reclamar outros corpos entregues às grandes Causas da Humanidade. Os nossos, dos que que aceitámos - e fomos todas, todos - com simplicidade e humildade, comer desse Pão e beber desse Vinho.
O Lanche prosseguiu num clima de comunhão, de conversa fraterna uns com os outros, durante mais de meia hora. A comida partilhada tem este condão: faz-nos mais irmãs e irmãos, mais companheiras, companheiros (= os que comem do mesmo Pão), mais políticos e menos religiosos. É lenta esta conversão da religião à Política. Faz-se com altos e baixos. Com avanços e recuos. Mas é irreversível. Connosco, havemos de levar toda a Humanidade.
Surpreendentemente, ninguém propôs, durante o encontro, que se fizesse uma recolha de fundos para as vítimas da catástrofe. Todas, todos percebemos que a solidariedade mais fecunda e libertadora passa por outras posturas bem mais exigentes e fecundas. Tem que nos envolver por inteiro. Não se trata de dar apenas nem sobretudo as nossas coisas. Trata-se de nos darmos todos os dias como mulheres, homens novos, tocados pela dor e pelo grito das vítimas. Trata-se de passarmos a ser todos os dias mulheres, homens com entranhas de misericórdia, irmãs, irmãos de todos. Trata-se de passarmos a ser mulheres, homens humanos, apostados na edificação de um mundo bem à medida da Humanidade no seu todo, sem que ninguém, pessoa ou povo, fique excluído. Trata-se, finalmente, de cumprir com a Justiça, que consiste na aplicação daquele célebre princípio, hoje escandalosamente esquecido: de cada um segundo a sua capacidade, a cada um segundo a sua necessidade. Trata-se de trabalhar todos os dias da nossa vida para que esta Justiça seja irreversivelmente o pão nosso de cada dia.
Enquanto as coisas não forem assim, continuará a haver tsunamis no Sudeste asiático e noutros pontos do Planeta. Assim como haverá pobres Lázaros à porta dos palácios dos ricos sem nome, a quem estes nem sequer permitem que comam das migalhas que caem das suas mesas. Como que a testemunhar que os ricos são monstros que vestem de gravata, mas para melhor disfarçarem o monstro que efectivamente são. Ou que prometem oferecer grandes quantias de dinheiro para as vítimas dos tsunamis, mas para, com elas, melhor esconderem que eles é que fabricam as vítimas! À fácil solidariedade que corre a dar dinheiro em campanhas mais ou menos hipócritas, preferimos deixar-nos tocar pelo Sopro e pelo Grito das vítimas e fazer das nossas vidas Política com carne e sangue, o nosso sangue e a nossa carne, que contribua para criar um mundo verdadeiramente humano, fraterno, sororal.
05 JANEIRO 2005
1. A nossa actualidade nacional, europeia e mundial continua totalmente dominada pela incomensurável tragédia do Sudeste Asiático. Quando ela aconteceu, comecei por perguntar: Como fica a fé em Deus depois desta tragédia? Agora, perante os mais de 150 mil mortos já contabilizados até este momento (a cifra, infelizmente, não pára de aumentar), 50 mil dos quais, crianças, e a que se juntam os milhões de desalojados, pergunto: Como fica a humanidade depois desta tragédia de proporções verdadeiramente apocalípticas? Vamos esquecer depressa este pesadelo, enterrar a cabeça na areia e continuar a História como se esta tragédia não tivesse ocorrido, ou, a partir dela, atrevemo-nos a mudar radicalmente o nosso jeito de ser e de estar no mundo? Em concreto, vamos continuar a ser, como até aqui, uma Humanidade que entrega infantilmente os seus próprios destinos às religiões, às terríficas imagens de nossas senhoras cegas, surdas e mudas, aos chefes religiosos que nos massacram e aterrorizam com seus discursos moralistas, feitos de Mentira e de Hipocrisia, e nos distraem e desmobilizam com seus cultos sem profecia, e sobretudo às cada vez mais invisíveis elites do poder económico e financeiro que, entretanto, são sempre unha e carne com os chefes religiosos, ou, ao contrário, atrevemo-nos a nascer de novo, do Sopro que vem de todas estas inúmeras vítimas humanas e de muitas outras, e, duma vez por todas, assumimo-nos como um colectivo de mulheres, homens adultos, sororais, fraternos, por isso, irreversivelmente políticos, nunca mais religiosos?
Eis uma nova questão de fundo que aqui levanto, e em torno da qual será mais do que oportuno reflectirmos. Porque depois desta tragédia de proporções apocalípticas, todo o nosso planeta é Sudeste Asiático e todas, todos nós somos os seus sobreviventes, bem marcados pelas profundas sequelas que ela deixa, tanto ao nível da consciência de cada pessoa, como ao nível da nossa consciência colectiva.
A sugestão da ONU, de se guardarem três minutos de silêncio, às 12 horas de hoje em toda a terra, pareceu-me querer apontar para aqui, embora tal não tenha sido devidamente explicitado. O que acho profundamente lamentável. Sem um novo conteúdo, cultural/teológico e politicamente, revolucionário, este gesto de silêncio não passa de mais um gesto rotineiro, mais ou menos mediático para mundo ver, por isso sem consequências de maior, com tanto de espectacular como de estéril. Ora, de gestos cheios de nada, hipócritas, rituais, meramente litúrgicos, estamos nós fartos, quando, bem vistas as coisas, uma tragédia com as proporções desta exige de nós, como Humanidade no seu todo, um novo começo, uma nova criação, um novo génesis. Temos que deixar decididamente para trás a fase infantil em que, como Humanidade, temos marcado passo, desde o início, certamente, por culpa das religiões e também das Igrejas ditas cristãs que, em lugar de prosseguirem a via libertadora e autonomizadora de Jesus de Nazaré, depressa se converteram em novas religiões, com os mesmos vícios, ou até piores, das primitivas religiões. É hora de ousarmos assumir a maturidade humana, de protagonizarmos a fase da liberdade, da responsabilidade, da iniciativa criadora, numa palavra, é hora de sermos seres humanos verdadeiramente autónomos, muito para lá da fase do ancestral medo de deusas ou de deuses que até agora nos têm castrado e impedido de sermos!
Chega a ser aflitivo ver certas reportagens televisivas conduzidas por jornalistas enviados especiais do nosso país ao Sudeste Asiático. A obsessão pelo “milagre” e pelo milagrismo, mesmo no meio de toda aquela destruição de partir a alma, chega a causar arrepios, de tão infantil. Em lugar de destacarem a capacidade humana para resistirmos, mesmo no meio das mais adversas e terríficas circunstâncias, as, os repórteres pelam-se todos por poderem atribuir a esta ou àquela imagem de Buda ou da senhora de Fátima o feito de alguém ter conseguido sobreviver sozinho sem comer e sem beber. Nem sequer vêem a sacrílega contradição em que caem e em que induzem as pessoas que os ouvem e vêem. Porque se se tratasse duma intervenção especial de Deus – é o que significa a palavra milagre, uma realidade que, à luz do Evangelho de Jesus, nunca aconteceu, nem acontecerá e até constitui uma tentação demoníaca a que urge resistir – então só teríamos de concluir que se tratava de um Deus sádico e cruel, pois, embora tivesse podido impedir todas aquelas mortes, não esteve para maçadas e deixou que elas ocorressem, inclusive, em milhares e milhares de crianças! Por outro lado, uma tal linguagem é um vergonhoso convite à mais completa demissão da Humanidade, como se a nossa vida pessoal e colectiva e o futuro do planeta estivessem dependentes do bom ou do mau humor de um Deus, e não, como é felizmente o caso, exclusivamente dependentes de nós, seres humanos.
Eu sei que dá calafrios na espinha atrevermo-nos a colocar as coisas nestes termos, mas são estes os únicos termos verdadeiramente humanos e por isso também os únicos que verdadeiramente dão glória a Deus. Tenho dito e não me cansarei de repetir: Um Deus que nos substitua, que actue no mundo e na História, como se os seres humanos não existissem, é um falso Deus, é um ídolo e não merece que os seres humanos lhe dêem a mais pequena atenção. Não é por aí que vai a Fé cristã jesuânica. E, se as Igrejas disserem ou insinuarem que sim, são Igrejas de mentira, não são Igrejas de Jesus.
Com Jesus de Nazaré, a Humanidade tomou consciência, primeiro, na pessoa dele, depois na pessoa das suas discípulas e dos seus discípulos, que Deus, ao contrário do que se pensava até então, não é nada sem os seres humanos. Por isso, um Deus que actua à margem dos seres humanos ou contra os seres humanos só pode ser um ídolo com que os chefes das religiões e das Igrejas convertidas em religiões cruelmente nos assustam e nos oprimem, se, evidentemente, ainda nos deixarmos guiar pelas suas catequeses e pelos seus sermões terroristas. Infelizmente, apesar de já estarmos no século XXI, ainda são muitas as pessoas que continuam a embarcar por aí. Mas a verdade é outra, muito outra. E pode exprimir-se assim: Deus e os seres humanos constituem uma unidade indissolúvel. Não há Deus de um lado e os seres humanos de outro lado. Há simplesmente seres humanos com Deus dentro deles. Saibam os seres humanos ou não esta boa notícia, creiam os seres humanos ou não neste Evangelho. De modo que a única diferença entre crentes e não crentes, à luz do Evangelho de Jesus, é que os crentes, quando agem no mundo e na História, têm consciência – e a consequente alegria – de que Deus age com eles e, por isso, comportam-se como filhas suas, filhos seus, adultas, adultos, já se vê. Enquanto que os não crentes, quando agem, não têm essa consciência, pelo menos, de modo explícito. O facto, só por si, não representa nenhuma perda para a Humanidade, a menos que se trate de crentes e de não crentes sem nenhum sentido dos demais, egoístas, individualistas, desprovidos de entranhas de humanidade, prepotentes, inumanos, fabricadores de vítimas, ao jeito do mítico Caim bíblico. Quando isto acontece, temos que reconhecer que o Deus em que dizem crer os crentes e o Deus em que dizem não crer os não crentes não passa de um ídolo, com tudo de anti-Deus, de Demoníaco. É por isso que o que efectivamente distingue os seres humanos não é a confissão explícita de crença ou de não crença em Deus. O que efectivamente nos distingue são as nossas práticas de todos os dias. Só práticas pessoais e políticas marcadas pela força do sororal/fraterno que reiteradamente promove a igualdade entre todos os seres humanos sem excepção; só práticas pessoais e políticas marcadas pela força do solidário que reiteradamente promove a autonomia e a independência de todos os seres humanos sem excepção; só práticas pessoais e políticas marcadas pela força do afecto que reiteradamente liberta todos os seres humanos sem excepção; só práticas pessoais e políticas marcadas pela força da liberdade que reiteradamente dignifica todos os seres humanos sem excepção; só práticas pessoais e políticas marcadas pela força da partilha dos bens que reiteradamente faz viver e viver em abundância todos os seres humanos sem excepção, é que nos revelam, todas juntas, como verdadeiros crentes em Deus, entenda-se, evidentemente, o Deus de Jesus de Nazaré que, como sabemos pela História, foi crucificado pelos oficialmente crentes em Deus que, ao tempo, não foram capazes de se reconhecerem no Deus que ele referia como Mãe/Pai, seu e de todos os seres humanos sem excepção. Ao matarem Jesus, os chefes reli