de

DIÁRIO ABERTO


 

2008 FEVEREIRO 29

 

O Arcebispo de Braga quer que venha a ser instalado na cidade onde reside e onde se ergue a velha Sé Catedral, juntamente com o seu escandaloso tesouro, visita de turistas nacionais e estrangeiros, uma sucursal do Banco Alimentar contra  Fome. E já está a fazer diligências nesse sentido. Inclusive, até já reuniu com a responsável-mor da instituição, Isabel Jonet. Como é do domínio público nacional, a pobreza cresce a olhos vistos, também neste nosso país governado pelo socialismo moderno do eng.º Sócrates e presidido pelo impagável social-democrata Cavaco Silva, sempre com aquele seu esgar sorriso perante as câmaras de televisão que o "perseguem" para onde quer que ele vá de passeio no país ou no estrangeiro. E, ao que confirmam as estatísticas oficiais, a pobreza cresce ainda mais no extenso território por onde a riquíssima Arquidiocese de Braga está implantada, com todo o seu incontável património de igrejas e de residências paroquiais, santuários, capelas, seminários, terrenos e dinheiro, muito dinheiro, todo ele isento de impostos, com destaque para o dinheiro que cada ano cai, aos muitos milhões, nos cofres do S. Bento da Porta Aberta, um santuário e um culto pagãos que ninguém da Arquidiocese, nem mesmo o Arcebispo Jorge Ortiga, tem a lucidez e a audácia de denunciar e de mandar encerrar, senão mesmo mandar derrubar, e também nos cofres dos santuários da mítica Nossa Senhora do Sameiro e do Bom-Jesus, o que, no conjunto, perfaz uma orgia financeira que ninguém, a não ser uns quantos, muito poucos, chega a saber quanto é ao certo e, sobretudo, o que se faz com ele. Pelos vistos, todo esse dinheiro e toda essa riqueza patrimonial não são para distribuir pelos pobres, como ordenou e ordena Jesus a todo o Homem rico preocupado em garantir para si próprio a vida eterna, depois que a morte vier pôr fim a todos os privilégios e prazeres que está já a desfrutar nesta efémera vida, e isto apesar de significativa parte desse dinheiro da Arquidiocese continuar a ser dado por muitos desses mesmos pobres, os quais, aterrorizados pela fé religiosa que os possui como um demónio, são os primeiros a tirar o pão à sua boca e à boca dos filhos e filhas, bem como aos cuidados com a sua saúde e a saúde das filhas e dos filhos, para o irem lá levar, quais antigos condenados às galés, como pagamento de promessas que nunca teriam feito na vida, se já fossem pobres verdadeiramente evangelizados. Mas não são, que os templos paroquiais e as catequeses que frequentam na Arquidiocese e no país não os evangelizam, apenas aterrorizam cada vez mais com missas beatas, rezas de terços e muitas outras devoções cheias de paganismo e de religião que já vem dos tempos mais primitivos, muitos milhares de anos antes de Jesus, o de Nazaré, ter nascido e da qual, por isso, é hoje muito difícil libertarem-se de raiz. A riqueza da Arquidiocese é para manter e, se possível, aumentar. Não é para distribuir pelos pobres que crescem no território por onde ela se estende, muito menos para distribuir pelos pobres do país. Nisso, o arcebispo Jorge Ortiga nem chegou com certeza a pensar. Acha tão natural ser arcebispo duma Igreja rica e poderosa, como a de Braga, que nem lhe passa pela cabeça convidá-la a converter-se (o tempo da Quaresma que toda a igreja católica no mundo está a viver por estes dias é apenas mais um estéril ritual pagão, não tem nada de Evangelho de Deus Vivo e de Jesus, o de Nazaré), isto é, não a convidou nem convida a tornar-se uma Igreja pobre, uma arquidiocese pobre e libertadora dos pobres. Há pobreza a crescer no extenso território da arquidiocese? Pois então que venha para a cidade de Braga uma sucursal do Banco Alimentar contra  Fome. Porque na riqueza da arquidiocese ninguém, nem o arcebispo, pode mexer, tocar, a não ser para a fazer crescer cada vez mais. Nisto estamos. Uma mentira sem nome. Uma indignidade sem nome. Ora, quando nem a Igreja é evangelizada e, por isso, não é capaz de viver de acordo com a Liberdade do Evangelho de Deus Vivo, na peugada de Jesus, como é que ela poderá Evangelizar os pobres, a prioritária missão, para não dizer, a única missão para que foi convocada pelo Espírito Santo na História? É claro que não pode. Mas então perde toda a sua razão de ser e só pode ser lançada fora e pisada pelos homens, pelas mulheres, tal e qual como se faz, deve fazer ao sal que perde a força de salgar / conservar a sociedade imune à corrupção, neste caso contribuir para libertar da pobreza imerecida as populações, os povos. Fico escandalizado com todo este comportamento eclesiástico e clerical tão nos antípodas de Jesus e do que deve ser a Igreja que se reivindica do seu nome. Mas é, infelizmente, o que hoje mais abunda por aí no universo católico. Em Portugal, o cancro eclesiástico maior e mais assassino está demoniacamente instalado e activo em Fátima, nas suas duas basílicas e na sua famigerada capelinha das "aparições", cuja função principal, de umas e de outra, é manter discretamente abertas, dia e noite, as inúmeras bocas de cofre pelas quais entram moedas e sobretudo notas de euros e de dólares, ouro, muito ouro, e muito provavelmente - é caso para a polícia investigar - muito dinheiro sujo que urge branquear, para poder passar a circular regularmente. A esta perversa função financeira, junta-se-lhe ainda uma outra não menos perversa e não menos assassina, de ordem ideológico-moralista idolátrica, a da catequese terrorista, negação do Evangelho de Deis Vivo, o de Jesus, e que dá pela genérica designação de "mensagem de Fátima". Pode a pobreza aumentar em Portugal, pode o número de pobres e de famílias pobres subir aceleradamente em Portugal, que a Igreja católica não é capaz de entregar os seus muitos bens e o seu muito dinheiro para projectos de libertação e de dignificação / promoção das populações e dos pobres que as, os levem, elas próprias, eles próprios a sair da pobreza e até a erradicá-la de vez da face da terra. O mais que ela faz, na pessoa dos seus líderes, é rezar pelos pobres e pôr os seus fiéis a pedir a Deus que os ajude. Ela e os seus líderes não mexem nem um dedo contra as causas que provocam a pobreza. Eu sei que é a Igreja católica que mais IPSSs e Misericórdias tem em funcionamento no país, mas todas subsidiadas pelo Estado, não por ela e por eles. E ao que consta, sem nunca ter sido desmentido, ela e eles ainda ganham financeiramente com isso e, se não ganharem financeiramente, ganham em influência e em domínio moralista sobre as populações que, se quiserem beneficiar daquelas migalhas, têm de ir ao beija-mão dela e deles e mostrar-se, com alguma regularidade, nos seus cultos. Uma indignidade organizada, sob a aparência de ajuda e de caridade, de solidariedade. Mas uma indignidade também e ainda maior, porque, enquanto isto faz, a Igreja católica dispensa-se da sua fundamental missão profética, componente essencial da missão de Evangelizar os pobres. E deste modo ajuda a manter esta Ordem Mundial do Dinheiro, do Poder e da Religião, intrinsecamente perversa, assassina e mentirosa. Não só ajuda a manter-se. Ela própria é parte integrante dela. Para a abençoar e canonizar (já repararam que, nas missas de domingo, na chamada oração dos fiéis, habitualmente se reza / pede a Deus pelos "nossos governantes", como se eles, assassinos de Estado com as economias e as políticas que concebem e levam por diante, fossem assim como os seus braços na sociedade?!). Se ela, em vez disso, ousasse ser Igreja na peugada de Jesus, dentro desta Ordem Mundial mas sem nunca ser dela, o que ela sempre faria era denunciar com audácia essas suas economias e essas suas políticas assassinas e mentirosas, geradoras de pobres e de pobreza em massa. O exemplo do arcebispo Jorge Ortiga é por demais eloquente. Diz bem o tipo de Igreja que ainda somos, ao nível da hierarquia. Uma Igreja que, no fundamental, se mantém nos antípodas de Jesus, o de Nazaré. O mais que faz é promover a caridadezinha com o dinheiro dos outros, não com o seu, nem sequer com aquele muito dinheiro que muitos dos próprios pobres, aterrorizados pela fé religiosa que os possui como um demónio - a Fé de Jesus, ao contrário, liberta e levanta os pobres contra as causas da sua pobreza - vão entregar, depois de dias e dias a pé, como condenados pagadores de promessas, aos santuários pagãos católicos que certos párocos e reitores, com o beneplácito e até com a nomeação oficial dos respectivos bispos, administram num regime de total secretismo que dá vómitos. Está visto que a cidade de Braga terá, dentro em breve o seu Banco Alimentar contra a Fome. O Arcebispo é suficientemente poderoso e influente e obterá com facilidade o que pretende. Vem portanto aí mais caridadezinha que desmobilizará politicamente ainda mais os pobres, vítimas da pobreza em massa que o socialismo moderno do governo Sócrates está a fomentar no país, com o aval do impagável presidente social-democrata, Cavaco Silva. Entretanto, nas missas de domingo, continuar-se-á a rezar a Deus para que ajude os pobres na sua pobreza e, se Ele for capaz, que acabe também com a pobreza que todos eles sofrem. Parece uma coisa boa, não é? Mas é uma abominação sem nome. A minha esperança é que os pobres humilhantemente assistidos abram os olhos da consciência e descubram toda a marosca. E, em vez de continuarem a frequentar os santuários e a encher com os seus medos os seus cofres, fujam deles a sete pés. E, se for caso disso, passem a apoderar-se sem pagar dos bens essenciais para a sua sustentação que continuam hoje a abarrotar nas prateleiras dos grandes supermercados. Porque, quando há fome - é da doutrina moral, não moralista, da Igreja de Jesus - os bens essenciais deixam de ser propriedade deste ou daquele, para serem de todos os que têm fome. Os tempos estão a ficar maduros para semelhante Insurreição Cívica contra a fome. Saibamos que, se a protagonizarmos desarmados, mas determinados e organizados, damos glória a Deus, porque dignificamo-nos a nós próprios. E a glória de Deus é simplesmente a nossa dignidade como pessoas e como povos!

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2008 FEVEREIRO 28

 

"Urge não prender os leigos ao altar, porque o seu campo de acção é o da vida e das realidades temporais, pois aí se processam as suas responsabilidades familiares, profissionais e sociais". As palavras podem surpreender muita gente da nossa Igreja, mas são assinadas esta semana pelo Bispo António Marcelino, emérito de Aveiro. Até a mim elas conseguem surpreender, agradavelmente, sobretudo por virem de quem vem. Obviamente, eu nunca as subscreveria tal e qual. Elas contêm algo novo, de inesperado na boca de um Bispo católico em Portugal, mas continuam a saber a pouco, a muito pouco. Trata-se de uma afirmação manca, coxa, que nem sequer a meio do caminho a ter de ser percorrido pela Igreja que ainda hoje somos fica. Sobretudo, trata-se duma afirmação que enferma de uma mortal contradição que o Bispo, na sua condição de hierarca que já foi Poder eclesiástico efectivo na diocese e hoje, mesmo na condição de emérito, ainda o continua a ser, pelo menos, ao nível da Conferência Episcopal, não está, não pode estar em condições de ver como tal. E por isso é que a escreve e subscreve tal e qual. Digo que o Bispo não está em condições de ver. E digo-o, não, obviamente, pelo facto de ele ser Bispo da Igreja e na Igreja, mas apenas por ele ser Poder da Igreja e na Igreja, em comunhão de poder com os demais bispos, os quais, no seu conjunto, dão a chamada Hierarquia, ou Poder sagrado, coisa mais absurda na Igreja de Jesus. Nessa condição, o Bispo António Marcelino não pode ver a contradição de que enferma a sua afirmação, aparentemente ousada, porque a Luz, como magistralmente nos revela o Evangelho de João que vai ser lido / escutado (?!), no próximo domingo, o IV da Quaresma, em todas as missas de todos os templos e santuários católicos romanos do mundo - o Missal assim obriga! - não acontece, não pode acontecer nos centros de Poder, de nenhum Poder, também no eclesiástico e religioso, apenas nas periferias e nas margens, entre as suas inúmeras vítimas, as quais, se, porventura, vierem a abrir os olhos da sua consciência crítica, isto é, passarem a perceber porque é que são vítimas e quem são os responsáveis directos do seu estado de cegueira desde nascença, ainda mais vítimas ficarão, porque os seus vitimadores, eclesiásticos e religiosos que sejam, jamais as reconhecerão como do seu "redil", não as suportarão, difamá-las-ão e acabarão por expulsá-las e riscá-las dos seus livros oficiais como malditos. E a quem tiver maieuticamente contribuído para lhes abrir os olhos e as fazer ver, acabarão por matar, nem que seja de forma incruenta, como o maldito dos malditos, para que nunca mais as vítimas oiçam as palavras de semelhante ser humano, nunca mais sigam o seu exemplo, nunca mais recordem as suas palavras e as suas práticas maiêuticas, e nunca mais leiam os seus escritos. Está tudo nesse espantoso e denso relato teológico do Evangelho de João, capítulo 9, um dos mais subversivos e conspirativos de todo o Novo Testamento. Só que, infelizmente, quem sempre o lê, ou, pelo menos, quem sempre o comenta nas missas de domingo são exclusivamente os do Poder eclesiástico, os párocos e os bispos residenciais (os Pastores, nas Igrejas do ramo protestante) e por isso lêem-no e comentam-no sempre em chave moralista e milagreira (= demoníaca), nunca, como deveria ser, em chave jesuânica e política. De modo que o resultado final só pode ser um, o de causar ainda maior cegueira entre aquelas, aqueles que se mantêm fiéis às missas e aos cultos deles. Isto é um crime, mas ninguém dá por nada. E por isso fica impune, de geração em geração. Mas é por essas e por outras que as missas não são, não podem ser Eucaristia, Memória viva de Jesus, mas sacrílego instrumento de alienação das populações que o Poder eclesiástico usa e abusa para se perpetuar e aos seus privilégios. Uma sacanice sem nome. E sem perdão. Uma indignidade. Um pecado contra a Luz, contra o Espírito Santo. Vou então mostrar agora onde está a mortal contradição na citada afirmação do Bispo António Marcelino. Eis. Se, como ele escreve, o campo de acção dos leigos - certamente, também das leigas, embora ele se lhes não refira! - é o da vida e das realidades temporais, pois é aí que se processam as suas responsabilidades familiares, profissionais e sociais (vejam como ele evita falar de responsabilidades políticas, de práticas políticas, fica-se apenas pelas familiares, profissionais e sociais!), então para que servem os não-leigos, as não-leigas da Igreja, a saber, os bispos residenciais, os párocos, as freiras e os frades? E para que serve tudo aquilo que eles e elas fazem e com que se ocupam? Nomeadamente, para que servem as missas a que presidem todos os dias, as rezas e mais rezas canónicas e não canónicas que fazem todos os dias e a diferentes horas do dia e da noite, os sacramentos que administram em série, as catequeses que promovem durante anos e anos para as mesmas crianças e os mesmos adolescentes até ao Crisma, as reuniões e mais reuniões que realizam e as visitas pastorais com pompa e circunstância que levam sucessivamente a efeito nas paróquias de cada diocese, numa palavra, tudo o que fazem, todos os dias das suas vidas, os párocos e os bispos residenciais, os frades e as freiras? Se o lugar dos leigos e das leigas é o do vida e das realidades temporais, onde é então que fica o lugar dos clérigos e das freiras e dos frades? Fora da vida e das realidades temporais? Longe da vida e das realidades temporais? Se urge não prender os leigos e as leigas ao altar, para elas e eles poderem estar inteiros na vida e nas realidades temporais, porque se há-de continuar a prender ao altar todos os outros membros da Igreja, precisamente, a chamada fina flor da Igreja, cujos dias são passados no altar, em função do altar e a partir do altar? Se a vida não se passa nos altares, mas longe deles e dos templos e santuários onde eles estão plantados - e assim é, de facto - para que há-de haver pessoas na Igreja que são retiradas da vida e das realidades temporais, para serem especialistas de altar e dos templos? Desconhece o Bispo António Marcelino que os altares e os templos e santuários, assim como o sacerdócio e os sacerdotes são de origem puramente pagã, não têm nada de Jesus, o de Nazaré, e por isso, também não deverão ter nada a ver com a Igreja que se reclama de Jesus? Não está então tudo pervertido na nossa Igreja? Os que ainda hoje se têm e se fazem passar perante os demais - os leigos e as leigas - como a fina flor da Igreja católica não serão, afinal, os mais inúteis, os mais estéreis, os mais alienados da realidade concreta de todos os dias, os mais perdidos, os menos humanos? Não deveria o Bispo António Marcelino ter levado até aqui as suas palavras? Não seriam então palavras muito mais jesuanicamente correctas? Não punham o dedo na verdadeira ferida da nossa Igreja? Efectivamente, a Igreja que temos é essencialmente romana, é quase só aquilo que ainda resta do desfeito Império romano e da velha Cristandade Ocidental. Mas enquanto assim for, e na medida em que assim for, nessa mesma medida ela já não é a Igreja una, santa, católica e muito menos apostólica que deveria ser. É apenas, ou sobretudo, romana. O Concílio Vaticano II bem ousou meter esta Igreja romana nos eixos, nos trilhos. Reconduzi-la às fontes canónicas, que são as primitivas comunidades que estão na origem dos quatro Evangelhos canónicos. Infelizmente, não conseguiu acabar - os tempos ainda não estavam preparados nem maduros para semelhante colheita! - com a divisão entre clérigos e leigos. Muito menos, conseguiu acabar com a hierarquia, poder sagrado, em que, com o tempo, se tornaram os bispos residenciais e, uns degraus bastante mais abaixo deles, também os párocos. Mas uma coisa o Concílio Vaticano II conseguiu e já foi uma revolução em semente, um grão de mostarda, que há-de tornar-se árvore onde as pessoas e os povos, nomeadamente, os sem-casa, os sem-família, os sem-trabalho, os sem-terra, os sem-afectos, os sem-nome, os sem-lugar, os sem-ninguém, hão-de voltar a encontrar acolhimento e abrigo, não como assistidos, mas como sujeitos, como protagonistas, como Igreja viva, a de Jesus, por isso, historicamente subversiva e conspirativa, bem na linha de continuidade de Jesus, o de Nazaré, terceiro milénio fora. E que coisa foi essa que o Concílio Vaticano II conseguiu? Conseguiu colocar o Povo de Deus à frente da hierarquia - bispos residenciais e párocos - e das freiras e dos frades, todo esse exército de eunucos, não do Reino / Reinado de Deus, dos quais fala Jesus com alegria, mas sobretudo do Deus-Ídolo que os tira do mundo, da vida, das maiêuticas Práticas Políticas, para os reduzir a rezadores e a beatos, a moralistas, a corpos estéreis e quase sempre agressivos, sem afectos e sem ternura, muito ao jeito dos Fariseus do tempo e país de Jesus. Ora, dizer Povo de Deus é dizer todos os povos do planeta e do universo, porque todos os povos, enquanto tais, são fruto único e irrepetível do amor criador que Deus Vivo, o de Jesus, é. Só o Deus-Ídolo é que criou o Poder, a hierarquia eclesiástica, os clérigos e os leigos, tudo o que já não é, deixou de ser simplesmente humano, sororal / fraterno. Pois bem, dentro deste Povo de Deus que são todos os povos da Terra e do Universo, haverá, suscitados pelo Espírito de Deus Vivo, o de Jesus, carismas e ministérios, dons vivos que, como o sal da terra, a luz do mundo, o fermento na massa e a sentinela na cidade, contribuirão, estão já a contribuir maieuticamente com as suas vidas, sobretudo, com as suas Práticas Políticas libertadoras - o Poder deixará de ter lugar e, se teimar em despontar aqui e ali deve ser logo decapitado para que nenhuma mulher mais, nenhum homem mais volte a ser apanhado por ele - para tornar progressivamente mais humano, por isso, mais sororal / fraterno o nosso mundo. As mulheres, os homens, nas nos quais estes carismas e ministérios se manifestarem - é pelos frutos como os que Jesus, o de Nazaré, produziu e continua a produzir mediante o seu Espírito, que elas, eles serão reconhecidos - passarão a fazer parte, nem as próprias, os próprios saberão nunca como nem porquê, daqueles dois ou três que se reúnem em nome e em memória de Jesus. Sempre de forma discreta, quase clandestina, mas sempre muito fecunda, porque será o Espírito de Jesus a habitá-los e a trabalhar neles, com eles e por meio deles. Para aqui caminhamos. E mais depressa do que se possa pensar. Porque a Igreja romana, pré-Vaticano II, por mais que esperneie, não tem amanhã, já apanhou o golpe de misericórdia que a remeterá para o reduto da Arqueologia, que é o destino de todos os dinossauros, de todos os impérios, de todo o Poder. O Futuro é do Povo de Deus, feito de todos os povos da terra e do universo, é dos seres humanos simplesmente. E para aí vamos, nem que seja empurrados pelo Vento, aquele Sopro que ninguém sabe de onde vem nem para onde vai, mas que derruba os poderosos dos seus tronos, juntamente com os seus tronos, para que ninguém mais caia na tentação de os voltar a ocupar! E tudo sem templos nem altares. Sem sacerdotes nem sacerdócio. Apenas mulheres e homens com carismas, ministérios, dons, que o Espírito de Jesus suscitar no povo de Deus que são todos os povos do planeta e do Universo. A revolução será completa. E já está a acontecer, aqui e ali. Não vêem? Por isso, os do Dinheiro, os do Poder e os da Religião, todos juntos como um só, ao serviço da Besta, andam cada vez mais frenéticos e num corre-corre de demência que os conduzirá mais depressa ao abismo. Fujamos deles e da sua perversa influência. Resistamos-lhes activamente. Levantemos a cabeça. E alegremo-nos. Está próxima a Hora dos Povos-Povo-de-Deus. Dos Povos-com-Espírito. A Hora da nossa Libertação.

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2008 FEVEREIRO 27

 

A generalidade do nosso país não sabe, mas a verdade é que o senhor Cardeal Patriarca de Lisboa já proferiu três conferências nos três primeiros domingos da Quaresma e prepara-se para proferir a quarta conferência no próximo domingo, que é o quarto da Quaresma. Não. As conferências não são clandestinas. São abertas ao público que ainda frequente os espaços eclesiásticos católicos que o senhor Cardeal Patriarca de Lisboa habitualmente frequenta, se mais não for, por inerência da função que um dia aceitou exercer e à qual, até hoje, nunca renunciou (teria certamente renunciado, se, no último consistório para a eleição do papa, a maioria dos seus pares tivesse votado nele e o tivesse escolhido para sucessor do imperador Constantino, perdão, de Pedro). O que tem sucedido é que aquilo que o Cardeal José Policarpo diz nessas conferências sobre "O mistério da Palavra de Deus na vida e missão da Igreja" não tem tido nada que interesse ao quotidiano da vida das pessoas, nem sequer daquelas que se dizem e são católicas. E é por isso os profissionais da comunicação social não se lhes têm, obviamente, referido. Não é má vontade por parte dos profissionais. As conferências é que não contêm quaisquer conteúdos que cheguem a ser notícia. Apenas a Agência oficial ou oficiosa da Igreja católica se lhes tem referido, pois para isso existe, e até as tem registado na íntegra, domingo após domingo, no seu portal na net. Já li na íntegra as três primeiras conferências e por isso sei do que estou a falar. Para a temática geral destas suas conferências, o Cardeal José Policarpo foi inspirar-se, não no país real e no Mundo real seu contemporâneo, mas no papa Bento XVI que foi o primeiro a propô-la, nesses precisos termos, para o próximo Sínodo dos Bispos. E estas conferências pretendem ser, segundo o próprio cardeal José Policarpo reconhece, a sua contribuição pessoal para esse Sínodo. Sou o primeiro a dizer aqui que a temática em si não deixa de ser oportuna no interior da Igreja católica e, até, de algum modo, na Sociedade em geral. Tudo depende é da forma como cada Igreja local agora agarra essa temática, a desenvolve e  a aprofunda. E aqui é que bate o ponto. Porque a forma como o cardeal José Policarpo o tem estado a fazer, é, no meu modo de ver de presbítero da Igreja do Porto e de jornalista de profissão, simplesmente desastrosa. Todas as três conferências já proferidas, apesar de previamente preparadas e até previamente escritas para serem lidas por ele, revelam-se aflitivamente inócuas, no que respeita aos conteúdos. Tudo se passa fora do Tempo. Tudo gira à volta de conceitos. Tudo é abstracto. Tudo é cerebral, intelectual, no que este adjectivo pode ter e, no caso tem, de pejorativo. Tudo é politicamente vazio. Tudo são palavras, meras palavras sobre a Palavra de Deus, mas de um Deus que não é o de Jesus, o de Nazaré, apenas o Deus de um Cristo ou de um Jesus-Cristo que não se sabe muito bem de onde veio, um Cristo sem país real, sem história, sem prática política, sem projecto político, sem conflitos, sem confrontos com os poderes estabelecidos, sem chicote no Templo, sem causas, sem dores, sem duelos teológicos até à perda da própria vida contra os teólogos oficiais do Templo de Jerusalém do seu tempo, sem tentações, numa palavra, sem Humanidade real, como a nossa. Por isso, um Jesus-Cristo mais mito do que Homem, do que ser humano de carne e osso; mais de um céu que ninguém sabe onde fica, do que da terra que habitamos e que se encontra hoje gravemente doente e em estado de pre-Insurreição Cívica Global. Numa palavra, mais do Além do que do Aquém. As conferências até estão bem estruturadas, do ponto de vista literário, pressupõem alguma investigação académica sobre o tema, mas vê-se logo que é uma investigação que nunca chega a sair dos livros deste e daquele autor, de preferência, eclesiásticos católicos, também eles politicamente inócuos. Neste aspecto, o Cardeal José Policarpo nem sequer chega a ser fiel à Grande Tradição da Igreja, a da Profecia, muito menos à Grande Tradição bíblica, a dos Profetas, desde Moisés a Zacarias e a culminar em Jesus, o Profeta dos Profetas. Podem pensar que estou aqui a ser injusto com o Cardeal José Policarpo. Mas não estou. Se lerem os textos das conferências - provavelmente, elas serão editadas em volume, muito em breve - confirmarão com os vossos próprios olhos e com a vossa própria consciência que as coisas são mesmo assim como eu aqui estou a dizer. É tudo muito eclesiástico, não eclesial. É tudo muito cristológico, não jesuânico. Ora, Igrejas há muitas, como há muitas Cristologias. Mas apenas a Igreja de Jesus, convocada pelo Espírito de Jesus, é o Grande Sinal / Sacramento de Salvação da Humanidade. Também há muitas Cristologias e muitos Cristos, mas apenas o de Jesus de Nazaré é o Alfa e o Ómega de Deus Vivo, da Revelação do Deus Vivo e da Revelação do Ser Humano. Porém, este explosivo Evangelho, esta explosiva Boa Notícia, o Cardeal José Policarpo parece que ainda a desconhece, ainda não acolheu, ainda a não fez sua. Continua entretido / enredado com um mítico Cristo que vem directamente do Império Romano, do imperador Constantino, e, consequentemente, com um mítico Cristianismo que se tornou Religião oficial e única desse mesmo Império e, de lá até cá, de todos os outros impérios que lhe sucederam, inclusive do Império católico, que outra coisa não foi, durante os últimos 16 séculos, a chamada Cristandade Ocidental. Ora, um tal Cristo, sem Jesus, o de Nazaré, e até contra Jesus, o de Nazaré, a quem barbaramente o Império Romano condenou e matou na Cruz, em conluio com o Templo de Jerusalém, o mais que pode ser é sinal ou sacramento do Deus-Ídolo, o único que gosta de religião, de ritos, de cultos, de santuários, de sacerdotes, de cardeais, de privilégios, de poder, mas não gosta nada de Política, de Misericórdia, de Práticas Políticas maiêuticas e de Práticas de Misericórdia que levantem os humilhados e os ofendidos e derrubem os poderosos, juntamente com os seus tronos, eclesiásticos que sejam. Infelizmente, não é apenas o cardeal José Policarpo que vive fora desta via Jesus, o de Nazaré, e de Deus Vivo, o de Jesus. Com ele está praticamente toda a Igreja católica romana, a começar, evidentemente, pelo Papa Bento XVI e a sua Cúria, mai-los cardeais todos que a integram nas diversas Congregações em que ela se materializa dentro do Estado do Vaticano. E também estão com ele praticamente todas as outras Igrejas do ramo protestante que, quando se separaram de Roma, não foi em resposta ao Espírito de Jesus, o de Deus Vivo, mas por motivos muito mais mesquinhos que não vem agora ao caso referir. E a prova disto que acabo de dizer é que lá, onde as Igrejas do ramo protestante são maioritárias, reproduzem praticamente os mesmos vícios da Grande Igreja católica romana que começaram por denunciar, quando se separaram dela. É verdade que foi nas Igrejas do ramo protestante que a Palavra da Bíblia foi mais tida em consideração, mais lida e proclamada, mais estudada e aprofundada. Isso lhes devemos todas, todos nós, os católicos e a Humanidade em geral. Mas, também aqui, vale a sábia advertência de Jesus contra os escribas e fariseus hipócritas do seu tempo e país: "Fazei tudo o que eles dizem, mas não façais nada do que eles fazem". E porquê? Porque a Palavra, quando é de Deus, o de Jesus, não é, nunca é do pastor, do líder desta ou daquela Igreja, do hierarca católico, do cardeal ou do papa, numa palavra, dos Executivos eclesiásticos. Quando ela é do pastor, do hierarca ou do papa, dos Executivos eclesiásticos, a Palavra torna-se palavra-Poder, por isso, palavra de submissão, de alienação, de terror, de ameaça, anunciadora de castigos, reivindicativa de dízimos e de muitos outros privilégios em prol da Igreja concreta que a está a pregar e a anunciar. E isso é fundamentalismo, é perversão, é mentira, é crime, é castração, é assassínio incruento, porventura ainda mais perverso, porque não se vê logo, do que o assassínio cruento, executado de um só golpe. Todas as Igrejas que, com o tempo, se converteram em religiões, ou já nasceram como religiões, são pagãs, são idólatras, são adoradoras do Cristo do Império, são instrumentos de alienação dos povos e de desmobilização política dos povos. A Igreja de Jesus, o de Nazaré, do Cristo Crucificado / Ressuscitado que é Jesus, o de Nazaré, será simplesmente a daqueles dois ou três que se reúnem mais ou menos clandestinamente em seu Nome e em sua Memória, por isso, subversiva quanto ele, conspirativa quanto ele, politicamente perigosa quanto ele, perseguida e vigiada quanto ele, martirizada e crucificada quanto ele. E também Luz quanto ele, Caminho Verdade e Vida quanto ele, entranhas de humanidade quanto ele, maieuticamente política quanto ele, metida no mundo quanto ele, mas também sem nunca ser do mundo quanto ele. Apenas Jesus, o de Nazaré, é, ao mesmo tempo, a Palavra definitiva de Deus, o Alfa e Ómega de Deus Vivo e o Alfa e o Ómega dos seres humanos. E a Igreja, em todas as Igrejas em que ela hoje subsiste, tem que saber que não é, nunca pode ser a dona, a proprietária, a depositária desta Palavra definitiva de Deus Vivo, que é Jesus. Quando o faz, torna-se sacrílega e blasfema. A Palavra definitiva de Deus Vivo que é Jesus não é de nenhuma Igreja, muito menos de nenhuma religião. Jesus é da Humanidade e, no seu Espírito, vive actuante no mais íntimo dela. Às Igrejas concretas compete apenas testemunhar / anunciar à Humanidade este Mistério para que ela tome progressivamente consciência de que é uma Humanidade permanentemente habitada por ele, mais íntimo a ela do que ela própria. E se lhe abra. Sobretudo, o deixe ser nela, por ela e com ela, até ela chegar a ser toda humanidade jesuânica, da mesma estatura de Jesus, o de Nazaré, Deus-connosco-e-entre-nós. Por isso, Humanidade em estado de maioridade, responsável pela História e por si própria, enquanto Povo de muitos povos.. Deste modo, as Igrejas concretas sempre terão de ser Igrejas que diminuem, para que a Humanidade cresça. Até que um dia o que se há-de ver será apenas a Humanidade com o Espírito de Deus Vivo, o de Jesus, dentro dela, e tão íntimo a ela, que parecerá que nem sequer Ele existe, apenas ela. Saibam que tudo o que, na Igreja, nas Igrejas, não for para aqui que aponte e caminhe é demoníaco, é tentador, é perverso, é idolatria. Como tal, assassino e mentiroso, por mais que se diga de Deus. Porque semelhante Deus só pode ser o Deus-Ídolo, o Todo-Poderoso, o Inimigo número um da Humanidade.

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2008 FEVEREIRO 26

 

É preciso que se diga, duma vez por todas, que o conhecido e badalado diálogo entre Jesus e a mulher samaritana, relatado ao pormenor no capítulo 4 do Evangelho de João, nunca existiu tal e qual. O relato é inteiramente teológico e construído pelas Comunidades cristãs que escreveram o quarto Evangelho canónico. Não é um relato jornalístico ou uma reportagem. Tem a ver com a surpreendente abertura dos samaritanos à Fé de Jesus, já depois da sua Morte violenta e da sua Ressurreição, e à consequente revolução teológica libertadora que essa mesma Fé constitui na História da Humanidade. Uma revolução teológica de tal ordem, que ainda hoje, dois mil anos depois, a Humanidade continua sem sequer a entender em profundidade, continua a distorcê-la e, sobretudo, continua a recusá-la liminarmente, na esmagadora maioria das pessoas e dos povos, crentes e não-crentes. Neste aspecto, surpreende-me que até o meu amigo Frei Bento Domingues, na sua crónica no PÚBLICO, do passado domingo 24 de Fevereiro, se lhe tenha referido (era leitura obrigatória na liturgia da Igreja católica desse dia), como se ele descrevesse um facto real, histórico, como se Jesus tivesse mesmo estado sentado, num determinado dia de sol e de calor, no poço de Jacob, a falar descontraidamente com uma mulher samaritana e lhe tivesse pedido de beber. E como se essa mulher samaritana fosse uma daquelas mulheres que se portava mal. E - o que é ainda mais grave - como se Jesus fosse uma espécie de adivinho ou de fariseu-polícia de costumes que andasse por ali a espiar o comportamento moral-conjugal-sexual das mulheres e, por isso, soubesse tudo acerca daquea mulher sem nome próprio que, nessa hora, calhou de vir com o seu cântaro buscar água ao poço aberto pelo seu antepassado Jacob. Inclusive, soubesse esse pormenor moralista que ela em vão tentou esconder-lhe, mas que ele, como faria um qualquer zeloso fariseu da altura, logo ali pôs a nu, sem mais aquelas, concretamente - vejam só! - que ela já havia tido cinco maridos e aquele que de momento ela tinha nem sequer era dela. Infelizmente, todas as Igrejas, a começar, obviamente pela Igreja católica que também integro e sou, sempre têm feito esta perversa leitura deste relato teológico e, com ela, cometem um pecado sem perdão, porque continuam a manter a Verdade cativa na Injustiça, na Mentira organizada que todas elas são, juntamente com a chamada Ordem Mundial, de que todas são parte integrante. Como Igrejas moralistas que todas elas são, umas mais outras menos, é em chave moralista que sempre lêem-escutam o Evangelho de Jesus - este relato e todo os outros - o que constitui um tremendo desastre e, à partida, impede que alguma vez elas próprias cheguem ao cerne, ao miolo, à essência da Boa Notícia de Deus Vivo que Jesus, o de Nazaré, é e trouxe à Humanidade e que mandou que fosse anunciada a todos os povos. Acabam assim as Igrejas por fazer de Jesus o fundador de uma nova religião, a delas, e ainda por cima, até guerras elas são capazes de promoverem, só para a imporem aos demais povos do mundo, na convicção (ou conveniência?) de que ela é a única religião verdadeira e todas as outras que a precederam ou que apareceram depois dela são falsas. Ora, a revolução teológica de Jesus, nascida da sua Fé-com-Espírito, e que este relato teológico do Evangelho de João tão claramente revela / anuncia é que todas as religiões que existem à face da terra são falsas, todas são perversas, todas são invenção dos seres humanos, todas são tentativas de manipular Deus e o seu santo Nome, todas são fonte de egoísmos e de fariseísmos / moralismos, todas são indignas dos seres humanos, todas são mentira organizada. Mais. Esta revolução teológica de Jesus diz / revela que Deus Vivo, o da sua Fé-com-Espírito, não gosta de nenhuma religião, vomita-as a todas, aborrece-as a todas, não se revê em nenhuma delas. E o que Ele mais quer é que todas elas desapareçam da face da terra quanto antes. Não que dialoguem umas com as outras, que se entendam umas com as outras, que façam pactos de não agressão ou de cooperação, mas sim que todas desapareçam, pura e simplesmente. Porque todas elas são más e tornam más as pessoas que as frequentam e praticam, assim como os povos. Nunca as religiões foram caminho para chegar a Deus, o de Jesus. Todas são caminho para chegar ao Ídolo, ao Deus-Ídolo que elas e quem as adopta, pratica e, sobretudo, dirige inventaram, imaginaram e habilmente lhe promovem toda essa parafernália de ritos e de cultos, os mais absurdos, os mais bizarros, os mais esotéricos e também os mais inumanos. O que Jesus nos revela - e este relato teológico não pode ser mais expressivo e eloquente - é que todos os santuários construídos pela mão do homem (do Poder, do Dinheiro e da Religião) são mentira. São locais de idolatria, a mais perversa, por isso, locais de inumanidade, de humilhação dos seres humanos que os frequentarem com devoção e fé religiosa. Aliás, a própria fé religiosa que faz das populações, onde se alojar, eternas pagadoras de promessas, as mais aviltantes e cruéis, é - vê-se, inclusive, pelos frutos que produz - o que há de mais degradante, de mais humilhante nos seres humanos e nos povos. Nas pessoas e nos povos onde ela se desenvolve, cultiva-se o medo, a auto-humilhação, a auto-flagelação, o auto-aniquilamento. As pessoas e os povos sempre diminuem, quando ela cresce. Porque o Deus-Ídolo que a fé religiosa imagina e inventa e adora e ao qual se submete, é um Vampiro que se alimenta das suas próprias vítimas que são todas as pessoas e todos os povos que se deixem possuir por ela. Quanto mais esse Deus-Ídolo cresce, mais as pessoas e os povos que se deixam possuir pela fé religiosa que as, os amarra a ele, diminuem. Aliás, à luz da revolução teológica de Jesus, a fé religiosa, ao contrário da Fé de Jesus, que é sempre Fé-com-Espírito, é parte integrante e essencial do Demoníaco que nós, os seres humanos, nos nossos medos e nas nossas fraquezas, também nas nossas inseguranças e nos nossos egoísmos, como nas nossas habilidades e nos nossos chico-espertismos, somos capazes de produzir e que depois apresentamos como coisa sagrada, que, convencionalmente, ninguém pode discutir ou pôr em causa. Mas o Demoníaco é a nossa progressiva auto-descriação como seres humanos que Deus Vivo, o de Jesus e da Fé de Jesus, quer ver cheios de graça e de verdade, em estado de maioridade, autónomos, livres, responsáveis, sujeitos, protagonistas, numa palavra, políticos, isto é, inteiramente ocupados não com Ele, mas com a Terra, uns com os outros, na edificação de uma Ordem Mundial bem à medida de todos os povos da terra, sem a exclusão de nenhum, e bem à medida da nossa dignidade de seres humanos. Todo este relato do capítulo 4 do Evangelho de João é teológico e está magistralmente construído para apresentar a grande revolução teológica de Jesus, fundada na sua própria Fé-com-Espírito, não na fé religiosa, sempre mais do mesmo que os povos conhecem desde o início da Humanidade. Atentem nos pormenores com que todo o relato é construído Vejam, por exemplo, que a mulher não tem nome. Pela simples razão de que não é uma mulher concreta, de carne e osso. É uma personagem do relato teológico, criada pelos autores do Evangelho, para representar toda a Samaria e todos os samaritanos, hoje, também os "Samaritanos" que somos todos nós, os povos da Terra. Os samaritanos concretos do relato - é da Bíblia e da História deles - não apenas uma mulher, muito menos esta mulher, é que, ao longo da sua história, já tinham tido cinco maridos (o número também é teológico e não um simples número), isto é, tinham tido cinco deuses-ídolos. É de Idolatria que o relato fala, não de casamento ou de adultério ou de prostituição. Na linguagem dos Profetas que Jesus bem conhecia e as primeiras comunidades cristãs também, o adultério e a prostituição, quando aplicados às relações entre Deus-Iavé e o povo de Israel, significavam sempre idolatria, culto dos ídolos, de outros deuses, que não Iavé. Para os Profetas bíblicos, como para Jesus e a Fé de Jesus, a Idolatria era, é ainda hoje a grande Tentação, o grande Tentador das pessoas e dos povos. Os sacerdotes cultivam-na e vivem dela, porque todos os cultos religiosos a que eles presidem e dos quais vivem e até enriquecem são pura Idolatria. Só o Deus-Ídolo gosta disso, desses cultos de mentira, faz-de-conta. Iavé, o Deus dos Profetas bíblicos, do que gosta é de Política, de Prática Política que se traduza na libertação do Pobre, do Órfão e da Viúva, das Vítimas, que hoje são milhares de milhões em toda a terra. E esse é também o Programa político de Jesus que ele apresenta em síntese, ao iniciar a sua Missão, na Sinagoga de Nazaré, no dizer-testemunhar do Evangelho de Lucas (cf. capítulo 4). Nada de religião, nada de ritos, nada de cultos, nada de oferendas a Deus, nada de templos, nada de santuários. Tudo isso é coisa dos sacerdotes, do Paganismo, dos funcionários do Religioso ao serviço do Deus-Ídolo, dos especialistas em ritos e em cultos que humilham, alienam e desmobilizam politicamente as pessoas e os povos que vão por aí. Para lá de lhes tirar a própria camisa, ou mesmo a própria pele! Porque é de Idolatria que o relato do Evangelho de João fala, é que se justifica que seja neste contexto que a Comunidade que o concebeu e escreveu aproveite para anunciar a grande Revolução teológica de Jesus e da sua Fé-com-Espírito, geradoras, uma e outra, de libertação e de dignidade dos povos, contra a fé religiosa, geradora de Idolatria / Religião e de Humilhação dos povos. "Mulher [título bíblico utilizado por este Evangelho e, que, aqui, remete para o Povo infiel a Iavé, por isso caído em idolatria, à semelhança duma esposa que deixa o próprio marido e vai com outro; já no relato das bodas de Canã e junto à cruz, onde o mesmo título aparece, remete para o Povo fiel a Iavé que não o trocou por outro deus, necessariamente um deus-ídolo], acredita em mim: chegou a hora em que, nem neste monte [Garizim], nem em Jerusalém, haveis de adorar o Pai [...] Os verdadeiros adoradores hão-de adorar o Pai em espírito e verdade, pois são assim os adoradores que o Pai pretende. Deus é espírito; por isso, os que o adoram devem adorá-lO em espírito e verdade" (Jo 4, 21-24). Nesta revolução teológica de Jesus, decorrente da sua Fé-com-Espírito que está nos antípodas da fé religiosa, até Deus deixa de o ser. "Pai / Mãe", é o seu verdadeiro Nome, para indicar que as relações dEle connosco, com as pessoas e os povos, não são nunca na base do Medo e do culto, dos ritos e das humilhações, mas sempre e só na base do Amor, da Confiança, da Ternura, dos Afectos, da Intimidade, da Liberdade, da Responsabilidade, da Maioridade. Tudo o que não for assim é fé religiosa, é Religião, é Demoníaco, é Perversão. Mais. Nesta declaração-revelação de Jesus desaparecem por completo e de vez o Templo, nos múltiplos e variadíssimos templos e santuários levantados pela mão do Homem (do Poder, do Dinheiro e da Religião). Na relação Pai / Mãe-Filha / Filho, em estado de maioridade, que havemos de ser nós, os seres humanos e os povos, não há lugar para sacerdotes nem pastores, como intermediários entre Ele e nós, pessoas e povos. Nem há lugar para espaços sagrados. Só há lugar para Afectos praticados, para um Tu-a-Tu vivido na base da confiança e da ternura, só há lugar para a intimidade, para a Espiritualidade mais completa, iniciada sempre pelo Pai / Mãe que nos gerou e ama e (cor)respondida por nós, suas filhas, seus filhos em estado de maioridade, nunca como menores. Pelo menos, com Jesus, e com a Fé de Jesus, chegamos definitivamente à maioridade humana. Acabou-se, diz o próprio Paulo na Carta aos Gálatas, o Pedagogo, a Lei. Fica apenas a Responsabilidade, como se Deus não existisse! É como dizer que Deus existe para nos potenciar, fazer chegar à maioridade / responsabilidade e, depois, discretamente desaparece, sai de cena, para que fiquemos apenas nós, os seres humanos. E a glória de Deus é que nós nos assumamos assim na História, como se Ele não existisse, como criadoras, criadores de Humanidade, de Sororidade/fraternidade, de Igualdade, de Liberdade. Saibam que, enquanto houver aí activos sacerdotes e pastores, religiões e santuários, ritos e cultos, as pessoas e os povos estarão sempre impedidos de crescer em estatura moral, em maturidade, em sabedoria, em graça e em responsabilidade. Serão uns eternos assustados, uns eternos pagadores de promessas, uns humilhados, ou, no outro extremo, uns chico-espertos, uns corruptos, uns canalhas uns para os outros, em vez serem irmãs / irmãos, todos diferentes, todos iguais, cooperadores e amigos, uma família de muitas famílias, a transbordar de afectos e de ternura. São as Igrejas e as religiões em geral que, nos seus moralismos e nas suas mentiras, alimentam a Idolatria, o culto do Deus-Ídolo, gerador e alimentador de um mundo sem humanidade, sem entranhas de humanidade. Foram elas, na pessoa dos sumos-sacerdotes do Templo, que primeiro decidiram matar Jesus - não puderam com a sua revolução teológica - e depressa conseguiram convencer também os do Poder e os do Dinheiro a juntarem-se a elas para continuarem a manter, através dos séculos, a Verdade cativa na Injustiça, na Ordem Mundial intrinsecamente perversa, assassina e mentirosa, da qual fazem parte integrante também todas as religiões. Cabe aos seres humanos e aos povos abrirmo-nos à Fé de Jesus, a Fé-com-Espírito, libertarmo-nos de todas elas, crescermos em liberdade / responsabilidade e comportarmo-nos na História como irmãs / irmãos em estado de maioridade e não mais como canalhas, como chico-espertos, ou como lobos uns dos outros. É por aqui que vai Jesus, o de Nazaré e quem verdadeiramente o aceita e vive da sua mesma Fé-com-Espírito. É por aqui que vai também o Deus Vivo, que Jesus nos revelou como a Boa Notícia que, entretanto, dois mil anos depois, continuamos, insensatamente, a recusar, hoje ainda mais do que no passado, em vez de a acolhermos e passarmos a viver em conformidade com ela. Mas a verdade é que continuamos a preferir manter-nos na Idolatria, na Religião, na Menoridade, na Mentira, no Deus-Ídolo, nos santuários. Só por isso é que o nosso Mundo está como está. Quando é que ganharemos juízo e passamos a comportar-nos como seres humanos e como povos em estado de maioridade?! Basta de tanta canalhice. E de tanta Mentira.

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2008 FEVEREIRO 25

 

Para o meu querido Amigo angolano e cidadão do mundo, Joaquim Pinto de Andrade, chegou, nestes dias últimos de Fevereiro, já a rebentar por todo o lado de sinais de Primavera, a sua última Páscoa dentro da História. Com ela, Joaquim, de 81 anos, não nos deixa órfãos, apenas tornou-se invisível aos nossos olhos. A Morte nunca é o Fim para os seres humanos que um dia, sem nunca chegarmos a saber como, acontecemos na História. A Morte - a nossa irmã Morte - é o último Parto que, à semelhança do primeiro que nos expulsou do útero materno, para podermos continuar a crescer e ser mais, expulsa-nos definitivamente desta Ordem Mundial que criámos e mantemos a ferro e fogo, sem que até hoje tenhamos conseguido ainda perceber, devido à nossa inteligência demente, que ela é uma Ordem Mundial intrinsecamente perversa e, por isso, não só indigna de nós, como até nossa assassina, no que há em nós de humanidade e de sororidade / fraternidade. Essa Ordem Mundial que criámos e teimamos em manter, sim, voltará ao Nada, em tudo aquilo que ela tem de Perverso, e é quase tudo. Dela somos definitivamente expulsos e, assim, nos vemos livres dela, à medida que chega para cada uma, cada um de nós a nossa última Páscoa, como acaba de chegar agora para o meu querido amigo angolano e cidadão do mundo, Joaquim. Não saímos da Vida com a Morte. Pelo contrário, com a Morte, estes seres humanos concretos que somos, únicos e irrepetíveis, mergulhamos mais e mais na Vida, no Oceano da Vida. Entre a Fonte de onde vimos e o Oceano para onde vamos, acontecemos um dia como seres humanos e, desde então, nunca mais deixaremos de ser. Com a Morte, apenas o que em nós há de demente e de inumano - obra nossa e da nossa inteligência demente - é que voltará ao Nada. Mas para que nós, finalmente, cheguemos a ser. É por isso que desde agora podemos e devemos dizer que, graças à Morte, todas, todos somos o que seremos. A Morte é o nosso Parto Maior que nos faz sair, nos expulsa de vez desta Ordem Mundial que criámos e teimamos em manter a ferro e fogo, apesar de ser indigna de nós, porque é Demência organizada. O meu Amigo Joaquim Pinto de Andrade conheceu bem esta Demência organizada que é a Ordem Mundial que, desde um princípio, criámos e temos continuado sucessivamente a criar e a manter a ferro e fogo. Conheceu-a melhor do que ninguém e experimentou na sua própria carne toda a Demência organizada que ela é. Porque, desde cedo, despertou nele o Homem, o ser humano e ele, na peugada de Jesus, o de Nazaré, seu Mestre e Paradigma, soube também resistir ao Tentador. Podia, com o rolar dos anos, ter negociado com o Tentador. Podia ter vendido caro a sua traição, a sua cooperação com ele. Mas resistiu-lhe. E manteve-se até ao fim na sua condição de ser humano com entranhas de humanidade. Nada mais. Podia, quando se tornou adulto, ter corrido a refugiar-se num convento ou num mosteiro para o resto da vida, como ainda hoje fazem certas pessoas que depois são apresentadas pelos Executivos religiosos e eclesiásticos da Ordem Mundial, como exemplos de virtude e até de santidade. Mas não. Desde cedo, Joaquim percebeu que aos seres humanos pertence viver até ao fim na Ordem Mundial, mas sem nunca chegarem a ser dela. E por isso ficou nela até ao fim, sem nunca se lhe vender. E não só. Ficou nela até ao fim, sempre em posição de combate permanente, de luta sem tréguas, de denúncia, de duelo. E como uma alternativa viva e concreta a ela, feita de total fragilidade, a dele próprio. Os Executivos da Ordem Mundial não lhe perdoaram semelhante postura de princípio e de prática. E fizeram da vida dele um indescritível inferno, que é, de resto, o que todos os Executivos da Ordem Mundial, também os religiosos e eclesiásticos, sabem fazer. São criadores de infernos para os seres humanos que os não reconhecem / idolatram, que se atrevem a dissentir deles e ainda por cima atestam com as suas vidas de Luz e de Sal, de Fermento e de Sentinela, que são más, mentirosas e assassinas, as suas economias, as suas políticas e as suas religiões. Desde cedo, eu soube da existência de Joaquim, angolano e cidadão do mundo. Eram ainda os tempos de chumbo em Portugal (hoje, também são, mas agora sob a roupagem da democracia, que faz com que o Regime seja ainda mais perverso do que então, porque hoje não se mostra tal e qual é e então mostrava-se e por isso havia quem o combatesse até à perda da própria vida). Era ainda o tempo em que as falas tinham de ser ciciadas, porque havia delatores e bufos em todo o lado, inclusive entre alguns dos que eram do nosso sangue e que estavam feitos com o Regime. Joaquim era padre católico da Igreja que está em Angola, mas foi condenado a ter de viver em Portugal e não podia exercer o ministério presbiteral para o qual havia sido ordenado. Vivia com residência fixa. O ditador Salazar e a sua Pide assim determinaram. Dificilmente, alguém poderia chegar à fala com ele, porque um agente da Pide vigiava, dia e noite, a casa onde ele tinha de residir, controlava quem lá entrava e quem de lá saía, e seguia todos os passos que Joaquim desse pelas redondezas,fora dessa casa. E ainda mantinha-se sempre por perto, para tentar escutar de que é que se falava, quando acontecia algum encontro de alguém com Joaquim. Nessas circunstâncias e porque eu era ainda estudante, e depois já padre, mas ainda nos meus começos de vida presbiteral, nunca cheguei à fala com Joaquim. Apenas sabia dele, da sua luta, da sua postura em relação ao futuro de Angola, que sonhava que fosse o que ainda hoje não é, uma nação politicamente autónoma e independente, constituída de cidadãs e cidadãos livres num mundo de povos também autónomos e livres. Durante muitos anos, enquanto não aconteceu Abril de 1974, Joaquim viveu entre as residências fixas e as cadeias políticas, que então tudo era pretexto para a Pide o prender e condenar à prisão em Caxias ou em Peniche. Conheceu quase sempre as famigeradas medidas de segurança e, por várias vezes, quando estas se esgotavam e o tempo de prisão terminava, chegou a ser posto em liberdade, mas para ser de novo preso, uns duzentos ou trezentos metros adiante. Fizeram dele gato sapato, numa tentativa de lhe quebrar a espinha, a resistência e, assim, ganhá-lo, com toda a sua inteligência, toda a sua sabedoria e toda a sua capacidade de mobilização que ele tinha junto do seu povo de Angola contra a Perfídia organizada que então era o Fascismo de Salazar, tanto aqui, como nas colónias africanas. Joaquim nunca vergou, tudo suportou, firme e bem-humorado, como toda aquela mulher, todo aquele homem que vê o Invisível. Fui encontrá-lo, numa dessas frequentes prisões suas em Caxias, quando a Pide também me prendeu, na minha condição de pároco de Macieira da Lixa e me levou para lá. Na minha primeira prisão sem caução, em 1970, e no decurso de uma mudança de cela, qual não foi a minha surpresa, quando me meteram numa outra, onde já estava, sozinho e em indignado protesto, Joaquim. Ele já sabia de mim e eu já sabia dele, mas nunca nos tínhamos encontrado face a face. Caímos de imediato nos braços um do outro e, depressa, ambos percebemos que estávamos a ser vítimas de uma discriminação, sobre o disfarce de protecção e de privilégio. Retiraram-nos a ambos das celas onde cada um de nós estava, juntamente com outros presos políticos, daqueles bem metidos nas lutas políticas e com grandes currículos de combates, o que fazia deles uns mestres para principiantes como eu. Quando Joaquim percebeu a marosca, tomou logo uma drástica decisão que anunciou ao guarda prisional: iniciávamos, nesse mesmo momento, uma greve de fome, até que voltássemos, ele e eu, às celas de onde havíamos sido afastados, para prossseguirmos junto dos companheiros que nos tinham roubado. Nesse fim de tarde, já não tocámos na comida que nos trouxeram ao jantar. E no dia seguinte, a greve de ambos prosseguiu, firme e irreversível. Para mim, que estava a dar os primeiros passos nesse tenebroso mundo do Fascismo, Joaquim, já mais do que "doutorado", devido a tantas prisões políticas, foi é meu primeiro grande e inesquecível mestre. Bastou-me seguir-lhe as pisadas e deixar-me iluminar pela Luz que dele irradiava. Amadureci como nunca em poucas horas, poucos dias. A Prisão Política foi, por isso, a minha confirmação na maturidade de homem e de presbítero. Se a Guerra Colonial e a minha expulsão dela, por lá ter anunciado o Evangelho da Paz, foi o meu Baptismo no Espírito Santo, a Prisão política e esta Partilha da mesma cela em Caxias com Joaquim, durante um curto mas fecundo espaço de tempo, foi o meu Crisma, a minha Confirmação no mesmo Espírito. Abriram-se-me os olhos da consciência para sempre. E, desde então para cá, tem sido sempre um abrir sem fim, tanto em largura como em profundidade e em altura. Só assim é que pude crescer como Presbítero da Igreja do Porto, e diminuir até desaparecer de vez como funcionário eclesiástico. Desde então, nem a Igreja do Porto, na pessoa dos sucessivos Bispos que têm sido nomeados pela Cúria Romana para a ela presidirem, me compreende. Só me compreenderia, se, também ela, pelo menos, na pessoa dos bispos e do papa, aceitasse pôr-se em causa, ser evangelizada. Mas é quase pedir-lhe o impossível. Porque esses que a servem nesses lugares de privilégio e de poder vivem com a convicção de que estão na verdade. E dificilmente aceitam colocar-se no papel de discípulos, daquele que lava os pés aos demais. Uma vez colocados no topo da pirâmide, fazem tudo para a manter, quando deveriam fazer tudo para a derrubar. E acabam, para sua e nossa desgraça, guias cegos a guiar outros cegos. Dissentir na Igreja é então o que havemos de fazer, quando recusamos ser e ficar reduzidos a funcionários eclesiásticos. Quando decidimos manter-nos presbíteros, simplesmente. O meu amigo Joaquim acabou mais tarde por mudar o rumo à sua vida na Igreja. Casou e deixou de exercer o ministério presbiteral. Mas manteve-se sempre na Grande Luz e no Grande Combate. Nunca se passou, muito menos se vendeu ao Poder e à sua Ordem Mundial. E a prova é que nunca aceitou tornar-se um seu Executivo. Nunca aceitou integrar o Poder. Nunca deixou de ser pobre por opção e de manter-se pobre até ao fim. Outros antigos companheiros seus que estiveram com ele no princípio da Luta deixaram-se seduzir pelo Tentador. Foram tudo o que o Tentador quis que eles fossem. Inclusive, assassinos de Estado. Podem ficar - ficarão de certeza - na História de Angola, mas só naquela que é mandada escrever pelos vencedores. O meu amigo Joaquim Pinto de Andrade não terá lugar nessa História dos vencedores e assassinos de Estado. Felizmente. O seu nome está escrito no Livro da Vida, esse mesmo que nem a Morte, quando acontece, consegue destruir. Porque a Morte só destrói a História mandada escrever pelos vencedores. Porque ela é parte integrante da Ordem Mundial que criámos e, na nossa inteligência demente, teimamos em manter a ferro e fogo. A esta Ordem Mundial, a Morte mata. Porém, para aquelas e aqueles que lhe resistem, que estão nela mas não são dela e que até a combatem, a desmascaram e ajudam a derrubá-la, a Morte, quando chega, é a última Páscoa, o Parto que faltava para nos tornar plenamente Humanos. O meu amigo angolano e cidadão do mundo, Joaquim Pinto de Andrade, é por aí que já anda. Definitivamente. Por isso não me / nos deixou. Apenas se tornou invisível aos nossos olhos. Continuaremos juntos, na comunhão maior. Eu ainda na visibilidade. Ele na invisibilidade. Mas ambos no Combate. Os Executivos religiosos da Ordem Mundial bem podem pedir ao seu Deus-Ídolo, "Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso", que Ele não os ouve. Simplesmente, porque não existe. Não passa de um ídolo, o Ídolo, com que eles aterrorizam as pessoas e os povos. O meu amigo angolano e cidadão do mundo, Joaquim Pinto de Andrade, continua aí, na invisibilidade, os Combates, mais ainda do que quando estava na visibilidade. Com ele e tantos outros, a quem a Ordem Mundial e todos os seus Executivos, também os religiosos e eclesiásticos perseguiram, maltrataram, caluniaram, humilharam, condenaram à fome, à miséria e à pobreza, e depois, ainda por cima atraíram / arrastaram para o seus Templos e as suas luxuosas Basílicas de Mentira, os Combates de libertação e pela Dignidade continuam, até que ela e eles caiam de vez. Cada dia que passa, estamos mais próximos da Dignidade. E da Liberdade. Por mais que pareça que nunca como Hoje a Besta esteve tão forte e tão assassina. Tanta fúria é prenúncio do seu fim. O meu amigo Joaquim, na sua invisibilidade, é também este Evangelho, esta Boa Notícia de Deus que nos grita. Ouçamo-lo. E ousemos ser mulheres, homens como ele e com ele. E prossigamos com redobrada audácia os seus combates e as suas causas.

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COMENTÁRIOS:

 

1. Boa tarde Pe. Mário, hoje li o seu diário aberto e queria falar sobre o que lá está escrito. Primeiro queria falar sobre o seu amigo angolano que faleceu. Pelo o que eu li, ele foi um homem lutador, não teve medo do poder, não se vendeu á ordem mundial etc. Para mim foi um Homem com H Grande!! Agora ele continua vivo mas invisível aos nossos olhos. Mas agora eu levanto um problema, os homens da grande ordem mundial, tipo Sócrates, Vladimir Putin, Bush etc, também, quando morrerem estarão vivos mas invisíveis aos nossos olhos?

Muito boa tarde e um grande Abraço, Ricardo

 


 

2008 FEVEREIRO 23

 

Foi como se, inesperadamente, eu apanhasse um potente murro no estômago, quando ouvi a notícia, no jornal da tarde da RTP1. Uma mulher-mãe de três filhos, casada, a residir com a família em Vilar de Andorinho, VN de Gaia, voltou a engravidar, certamente sem querer, aos 36 anos de idade, só deu conta da gravidez já ia com 16 semanas, portanto muito para lá dos prazos legais para se decidir por um possível aborto, negou sempre às vizinhas a gravidez e, depois que o seu quarto filho lhe nasceu clandestinamente em casa, estrangulou-o de imediato e escondeu o pequenino cadáver na arca frigorífica. "O crime hediondo" - foi assim que classificou este acto o próprio jornalista que apresentava o jornal da tarde, e essa sua classificação é que fez com que a notícia tivesse em mim o efeito de um potente murro no estômago - só foi descoberto cerca de uma semana depois de tudo consumado. E agora esta mulher-mãe anda às voltas com os homens da Polícia e dos Tribunais. E da Lei. Pouco depois de ouvir semelhante notícia e ainda não refeito do murro que ela me deu no estômago, abro o portal da net da Igreja católica em Portugal e deparo com uma outra que me transporta até Fátima, onde, pelos vistos, acaba de ser inaugurado um novo convento do Carmelo, propriedade das chamadas Irmãs Carmelitas, e, ao que refere a notícia, é o que se pode dizer o último grito em construção ecológica, dentro do qual, a partir de agora, algumas mulheres de diferentes idades, certamente, mais idosas do que jovens, vão passar enclausuradas o resto das suas vidas, cada qual na sua cela com janelas estreitas e colocadas acima das cabeças das irmãs que as habitam, de modo que elas possam receber a luz do exterior, mas não possam ver a vida que se passa cá fora, nas ruas, como se a vida cá de fora pudesse constituir para estas mulheres carmelitas enclausuradas uma tentação que as desvie de Deus, a quem elas nunca viram, mas ao qual, quais esposas a tempo inteiro, estranhamente decidiram dedicar-se em exclusivo. Entre estas mulheres carmelitas - que renunciaram ao casamento, aos afectos e à maternidade real, e decidiram viver todos os dias das suas vidas enclausuradas num convento novo de raiz, construído de acordo com todas as regras e vantagens ecológicas, ao serviço exclusivo de um Deus com tudo de rei Salomão bíblico que também tinha no harém do seu requintado palácio 900 concubinas à sua disposição dia e noite - e a mulher-mãe, casa e integrada numa família em tudo semelhante às demais, o meu coração de homem e de presbítero da Igreja do Porto vai mais depressa para esta que agora carrega com o ferrete de mulher-mãe infanticida, do que para as mulheres carmelitas que desistiram de ser mães e decidiram passar o resto das suas vidas enclausuradas num convento, como concubinas de um Deus que, pelos vistos se agrada de mulheres que se lhe dediquem deste modo, sem nunca chegarem a ver-lhe o rosto, nem a ouvir a sua voz. No meu entender teológico jesuânico - sei que escandalizo muita gente que se tem na conta de boa perante os demais, ao escrever o que acabei de escrever e vou continuar escrever a seguir - acho que também Deus Vivo, o de Jesus, é mais com esta mulher-mãe, agora com o ferrete de infanticida, que está, do que com as mulheres que desistiram de o ser, para se tornarem concubinas de um Deus que se compraz em tê-las o resto das suas vidas encurraladas na cela de um convento, a viver exclusivamente para Ele, a pensar nEle, a dizer-lhe orações ritualizadas em diferentes horas do dia e da noite, numa rotina com tudo de alienação e de demência, de esquizofrenia e de suicídio interior. Jamais poderei acusar e condenar uma mulher-mãe de três filhos, casada e inserida numa família que nunca deu problemas de maior a ninguém, que, perante uma gravidez indesejada, não programada, tenha sofrido um tremendo trauma no mais íntimo dela que lhe roubou toda a capacidade de discernimento e de diálogo com os demais. Num instante, tudo dentro dela se desmoronou e foi como se o mundo desabasse. A solidão tomou conta dela. Perdeu a capacidade de falar, de comunicar, de ser sobre essa dimensão da sua vida. Nas outras dimensões da sua vida, ainda conseguiu manter-se activa, mas nesta dimensão tudo se desmoronou. E nunca mais foi ela própria. Nunca mais se reencontrou consigo mesma. Ficou completamente perdida. Na casa. No seio da família. Entre os vizinhos. Perdeu todas as pontes. Até que chegou a hora do parto. Podia o novo filho ter sido a sua libertação / salvação. Mas nem o filho recém-nascido lhe apareceu como tal. Apareceu-lhe como o tremendo trauma feito corpo que há meses a perseguia, não como o filho das suas entranhas. Porque um filho humano, para o ser na plenitude, é alguém que foi programado e planeado, desejado, sonhado, é fruto de um diálogo de amor que dura, pelo menos, nove meses, e de um amor fecundo e criador que o fez acontecer, primeiro dentro da própria mulher-mãe e, depois, já fora dela e que, por isso, quando chega, é recebido em festa e lavado em lágrimas de incontida alegria. Para esta mulher-mãe de Vilar de Andorinho, o parto não foi de um filho assim, mas foi o culminar do tremendo trauma que de algum modo matou nela todo o discernimento e lhe roubou toda a alegria, a voz e a vez, a comunicação. Há traumas que matam, ainda que não fisicamente, visivelmente. E este terá sido assim. E então só quando tudo veio a ser descoberto, é que aquela mulher-mãe voltou a si, a recuperar a fala, o discernimento, a plena capacidade e voltou a ser ela própria. Os vizinhos que, nos últimos tempos, perceberam que algo de gravemente anormal se passava com esta mulher-mãe, nunca foram capazes, infelizmente, de a interpelar e desamarrar, de a libertar do trauma que, meses atrás, havia matado uma parte importante dela própria. Deixaram para lá. Como se o trauma que matou parte desta mulher-mãe também tivesse matado uma significativa parte deles. Só agora, depois de tudo consumado, é que as línguas de todas, todos voltaram a soltar-se e todas, todos voltam a recuperar a fala e a vida. Mas será que, no meio de tudo isto, haverá quem maieuticamente liberte / salve esta mulher-mãe e estes vizinhos? Ou, ao contrário, vão deixar o caso exclusivamente nas mãos dos homens das Polícias e dos Tribunais, da Lei que é cega e quase sempre cruel e até assassina? Temo que a Rotina institucionalizada em que vivem todos os dias aquelas outras mulheres carmelitas, em exclusiva dedicação a um Deus-Ídolo que se compraz com a mais completa esterilidade delas, vá também impor-se, aqui no caso, em forma de Rotina secular e laica, estritamente legal, na vida desta mulher-mãe. Quase sempre é isso que fazemos, nós os seres humanos. Sem nos darmos conta de que essa Rotina institucionalizada, religiosa ou laica, é parte do Demoníaco que estamos sempre a criar e a alimentar nas nossas vidas e que faz de nós inconscientes assassinos como Caim, em vez de Misericórdia Viva e Perdão Vivo como Jesus, o de Nazaré. E como Deus Vivo, o de Jesus, a Fonte de onde todas todos provimos, que não tem nada de Rotina, muito menos de Rotina institucionalizada, apenas é Amor, o Amor-em-acção, o Amor-em-acto, sem nunca se repetir, e que sempre cria e faz novas todas as coisas. O Carmelo e as suas mulheres carmelitas, por mais que o seu actual convento seja novo de raiz e construído segundo todas as vantagens ecológicas, e, junto com ele, todos os demais conventos e mosteiros que têm sido erguidos e povoados ao longo dos séculos, são expressão do Demoníaco que nós, os seres humanos, criámos e alimentámos e continuamos aí a criar e a alimentar. Como tal, são parte do Hediondo, do Crime, do Horrendo que nos aliena, desresponsabiliza, oprime, infantiliza e, finalmente, mata, ainda que nos mantenha activos como autómatos, a repetir em múltiplas horas do dia e da noite fórmulas e fórmulas de oração. Chamamos santas a essas pessoas, mulheres e homens, uma designação que constitui uma parte mais do Demoníaco que todos os dias criamos e alimentamos, e que, como Jesus nos diz / revela, no Evangelho de João, é sempre mentiroso e pai - por isso, gerador - de Mentira. Na nossa cegueira - o Demoníaco que todos os dias criamos e alimentamos é Treva e por isso cega quem vai por ele - não chegamos a ver a Verdade e por isso também não chegamos a ser livres e humanos. Tornamo-nos progressivamente inumanos, monstros, uns, monstros sagrados, como as freiras e os frades enclausurados por toda a vida em conventos, outros, monstros laicos, seculares, mundanos, Executivos das nações, mas inumanos, monstros todos. A Lei e as instituições que criamos e mantemos inalteráveis, geração após geração, são também parte do Demoníaco, obra das nossas cabeças e das nossas mãos. Se esta mulher-mãe que acaba de ser vítima de um tremendo trauma que, durante meses, fez dela gato sapato, e que só agora foi descoberto, tiver a graça de ser acolhida no afecto e na ternura, poderá libertar-se / curar-se / reabilitar-se e voltar a ser o que era e até ainda melhor do que era. Se, pelo contrário, tiver a desgraça de ficar enredada nas malhas da Lei, na Rotina institucionalizada, nas mãos dos Polícias e dos Tribunais, ou nas mãos dos Moralistas religiosos e eclesiásticos, acabará ainda mais perdida do que já esteve. Porque tudo isso, embora legal, é parte do Demoníaco que criamos e alimentamos todos os dias e o Demoníaco mais não faz - é essa a sua horrenda especialidade - do que matar, roubar e destruir, mesmo quando diz que apenas pretende salvar e proteger a sociedade. Só o Amor-em-acto que é Deus Vivo e quem na História - mulheres ou homens ou povos - o deixar ser Deus-Amor-em-acto nelas, neles, é que nasceu e veio o mundo para dar testemunho da Verdade e, com ela, fazer com que todas, todos tenham vida e vida em abundância. É por isso que o meu coração de home e de presbítero da Igreja do Porto está mais com esta mulher-mãe de Vilar de Andorinho, agora nas mãos dos Polícias e dos Tribunais e da Lei, do que com as mulheres carmelitas  do novo convento de Fátima, instaladas na Rotina e ao serviço exclusivo de um Deus que não passa de um Ídolo, o Demoníaco maior, absoluto, que nós, os seres humanos, criamos e alimentamos todos os dias, e que nos devora e à nossa liberdade, responsabilidade e dignidade. Provavelmente, nunca havíamos pensado nisto, não é? É que, neste particular, até as Igrejas e as Religiões que por aí funcionam, como Rotina Religiosa Institucionalizada, são parte do Demoníaco. Como tal, fazem tudo, não para o desmascarar / denunciar e à sua Idolatria, mas para o sacralizar e apresentar como se ele fosse Deus. E é! Mas apenas o Deus-ìdolo, não o Deus Vivo, o de Jesus. Por isso, irmãs, irmãos, olho vivo é preciso. Inteligência ilustrada e evangelizada é preciso.

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2008 FEVEREIRO 22

 

O alarme foi dado ontem pela SEDES -Associação para o Desenvolvimento Económico e Social - e hoje é notícia nos jornais, rádios e telejornais. O país vai mal. Vai nu. Embora a SEDES não chegue ao ponto de utilizar esta última expressão, o país vai nu, de si, tão reveladora. Prefere dizê-lo por palavras mais comedidas. Ou a SEDES não fosse uma instituição constituída por uma elite politicamente moderada e correcta e toda muito bem na vida. Mesmo assim, o seu alerta-alarme deixa bem claro que já nem os seus homens - também haverá mulheres na instituição, mas a verdade é que não aparece nenhuma mulher a assiná-lo - alinham no discurso cor de rosa do primeiro-ministro e dos ministros que diariamente o acompanham e reproduzem, na repetida mentira com que a toda a hora sistematicamente nos martelam a cabeça. Porém, as preocupações dos homens da SEDES não são de modo algum as preocupações da maioria da população portuguesa, hoje cada vez mais desempregada ou emigrada de segunda a sexta-feira em Espanha, com destaque para a Galiza; cada vez mais envelhecida e a ser devorada pelos bancos de jardim onde regularmente se senta em intermináveis jogos de cartas, num confrangedor espectáculo que nos humilha a todas, todos; cada vez mais condenada a ter de permanecer na casa das mães e dos pais, sem se atrever a constituir família própria e a chamar filhas e filhos à vida que garantam futuro ao nosso presente; cada vez mais alienada e drogada no fugaz momento presente, onde já não cabem, nunca caberão projectos a breve e a médio prazo. Os homens da SEDES estão aflitos e preocupados, porque os seus privilégios e os privilégios das minorias que se lhes assemelham no país, ainda que porventura a não integrem a ela, mas já integram, por exemplo, os partidos com representação parlamentar, os da direita e os da esquerda, por igual, ou os executivos das multinacionais, dos Bancos, e de outras grandes empresas, começam a estar em perigo. Eles já terão percebido - o seu alerta-alarme é disso sinal - que o actual Governo de maioria absoluta de José Sócrates, na continuação dos Governos que o precederam, está a levar o país para uma Insurreição Cívica que, se vier a despoletar, ninguém sabe, muito menos eles, aonde irá levar. Uma coisa eles sabem, que a História das Insurreições não engana: Os privilégios deles e das minorias da direita e da esquerda que hoje comem do bolo do Poder de Estado, correm perigo com ela, e o seu actual bem-estar, assim como a sua actual segurança conhecerão dias de grande mal estar, de grande instabilidade. E isso eles não querem. Daí o seu alerta-alarme. O Governo de Sócrates, que eles começaram por aplaudir e apoiar, nas "corajosas" medidas que tomou contras as maiorias, porque no seu socialismo moderno revelou-se disposto a ir até onde o neoliberalismo global mais cruel pretende ir, começa agora a assustá-los. O homem está completamente sem freio nos dentes e na língua, avança como um demente político por cima de toda a folha, quer ser o campeão do sucesso, é um compulsivo seguidor e adorador da Besta, está completamente fascinado pelo Senhor Deus Dinheiro e pela sua alta e eficiente tecnologia sem humanidade. E age na convicção de que fora do Grande Dinheiro e da sua Ideologia / Idolatria não há salvação, nem há futuro para o país e para os povos do mundo. Por isso, corre sem parar, faz questão de ir no pelotão da frente, arrastar o país para a Modernidade e Pós-Modernidade do Senhor Deus Dinheiro. Vejam e pensem. Para que até os homens da SEDES tenham decidido sair discretamente a público a lançar o aviso, o alerta, o alarme, é porque o Governo do socialismo moderno e pós-moderno do Eng.º Sócrates está a ultrapassá-los pela direita, está a ser ainda mais neoliberal do que o próprio neoliberalismo do resto da Europa do Grande Capital. E, a continuar assim, já não serve os interesses das minorias dos privilégios, a minoria da SEDES e todas as outras. Torna-se no seu inimigo. Já que consegue ser ainda mais cruel, mais sem entranhas de humanidade, mais demente do que o Grande Dinheiro. Pelo menos, estará a ir mais depressa do que convém à estratégia do Grande Dinheiro. E tanta pressa pode acabar num desastre para as minorias dos privilégios que comem todas à mesa do Poder de Estado, tanto à direita como à esquerda. Também eu reconheço - e quem não reconhece entre as maiorias empobrecidas, envelhecidas, desempregadas, subsidiadas, doentes, emigradas, impedidas de sonhar e de chamar filhas e filhos à vida? - que o país vai nu, está mal. Está doente e duma doença que começa a ter contornos de ser mortal. Porque os países, as nações, também morrem, podem morrer. E o nosso país é para aí que avança hoje a passos largos. Sempre tenho dito e não me cansarei de o lembrar a tempo e fora de tempo, que o Grande Dinheiro é assassino e mentiroso. É genocida. É ecocida. Mata mesmo. As pessoas. Os povos. A Natureza. O planeta que hoje habitamos. É o Inimigo número um que, se não for decapitado a tempo, nos decapita a nós, pessoas e povos, nações e planeta. E é para aí que hoje está a avançar o nosso país, sob o braço de ferro de Sócrates, cada vez mais politicamente demente, descontrolado, desorientado. E perante o infantilismo político, a raiar já o pornográfico, do presidente Cavaco Silva. Para até a SEDES sair a terreiro com o seu alerta-alarme, é porque a situação de descalabro começa a ficar sem controlo, está à beira de se tornar irreversível. Nada que eu já o não tenha dito aqui. Sem que me ouçam, porque o Senhor Deus Dinheiro, embora seja assassino, genocida e ecocida, também é mentiroso e pai de mentira. Por isso consegue seduzir, enganar o mais pintado, a começar por aqueles que um dia decidiram, no seu íntimo, ser ricos, custe o que custar, em lugar de decidirem ser pobres, manter-se pobres a vida inteira, de resto, a única maneira inteligente e sábia de a ninguém do mundo, pessoa ou povo, faltar o indispensável para vivermos com dignidade e em paz.. Aquela Paz que nasce do coito de amor entre a Verdade e Justiça. Não me revejo, obviamente, nas razões que estão por trás do alerta-alarme da SEDES. Nem nas suas preocupações. Onde eles se mostram aflitos, eu sou capaz de encontrar razões de esperança e de alegria. A possível Insurreição Cívica que os homens da SEDES tanto temem, a mim alegra-me e inspira-me confiança. A acontecer, é o princípio da nossa libertação como país. Também poderá ser, é certo, o agravamento das dores, porque o Grande Dinheiro, quando perde as hipócritas boas maneiras, sai para a rua com as garras bem afiadas que habitualmente traz escondidas, disfarçadas. Mas será, ao mesmo tempo, o princípio da nossa libertação, da mudança, da cura. Os homens da SEDES não querem perder os seus privilégios, nem o controlo da sociedade. Querem continuar a ser, juntamente com as outras minorias dos privilégios, os condutores do país, sempre com as rédeas do Poder de Estado nas suas mãos. Não querem a mudança, o Novo Começo, um país finalmente sororal / fraterno. Querem continuar com o controlo da situação, como benfeitores dos povos. Querem que os povos permaneçam povos em estado de menoridade, tutelados por eles e pelas restantes minorias dos privilégios. A Insurreição Cívica não lhes convém, porque introduz a Ruptura. Mas é a Ruptura que possibilita Novos Começos, sem os quais, apenas haverá mais do mesmo. E, como diz uma canção que, infelizmente, há muito deixou de ser cantada, "P'ra melhor, está bem, está bem / P'ra pior, já basta assim!". O país está à beira da Insurreição Cívica? Esse é o medo dos homens da SEDES e o que os leva a lançar o seu alerta-alarme! Seja então o motivo da nossa Alegria e da nossa Esperança. Porque é por aí, de Insurreição Cívica em Insurreição Cívica, que vamos, que os povos avançam em humanidade. As maiorias empobrecidas das nações não têm nada a perder. Só as minorias dos privilégios. Alegremo-nos com os medos dos homens da SEDES e dos seus pares. E preparemo-nos para darmos corpo à Insurreição Cívica que já deveria até ter ocorrido. Derrubemos de vez Sócrates e o seu Governo de Mentira. Derrubemos o Poder que nos mata e humilha. Ousemos dar corpo à Política. Ousemos a Ruptura Política. Vem, Revolução! Vem, Insurreição Cívica! Aquela que recusa todas as armas do Poder e do Grande Dinheiro. E aposta tudo nos seres humanos, na sua capacidade de amar e de fazer novas todas as coisas. É por aqui que sempre anda(rá) o Espírito de Jesus, se, obviamente, as maiorias empobrecidas e mantidas violentamente em estado de menoridade, lá estiverem. Porque é sobretudo nelas que Ele está. E com elas. Connosco. Nunca, em vez delas. Em vez de nós.

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1. Pe Mário. Nem digo mais nada. Hoje nem vale a pena. Está tudo na crónica. Senti a mesma coisa que sentiu. As coisas, quando a SEDES, um clube de ricos, se agonia só podem ir bem. Não tenhamos medo. O nosso lado é o lado dos que não têm nada e por isso nada perdem. Que sejamos capazes, preparados de dar as mãos e avançar. Não pelo poder mas por nós próprios, pelo homem…

 

O meu abraço, Elísio

 


 

2008 FEVEREIRO 21

 

Eu sei, sabemos todas, todos, que o padre esteve sequestrado e ameaçado de morte, durante umas boas 20 horas. E que estar naquela posição, assim tanto tempo, foi um pesadelo. Mas só isso. Porque deu para perceber, logo desde o início, que tudo não passava de uma hábil encenação teatral, para chamar a atenção de quem de direito para algo que aqueles dois reclusos, de repente auto-promovidos a actores, tinham como demasiado importante. O sequestro era o dedo que apontava para a lua. Mas o Tribunal que agora acaba de julgar o caso, não foi capaz de ter a simplicidade de um menino, uma menina, muito menos a lucidez que só costuma verificar-se nas margens, nunca nos lugares de Poder - e o Tribunal é, porventura, a magna e mais sagrada instituição do Poder absoluto - de olhar para o essencial. Preferiu fixar toda a sua atenção apenas no encenado sequestro, como se ele não tivesse sido concebido e realizado para apontar para um determinado essencial da vida dos reclusos, deles e dos demais. Em consequência, o Tribunal condenou, sem apelo nem agravo, os réus João Lopes, 56 anos, e António Guerra, 36 anos, já condenados e a cumprir pena na cadeia, a mais seis anos de prisão. O padre Júlio Lemos, 38 anos, neste momento pároco em Odemira, que, na altura, entrou na encenação do sequestro, só porque lhe pertencia rezar a missa de domingo, à qual os dois presos, juntamente com mais dúzia e meia, tinham estado a assistir, tentou não dar, já nessa ocasião, muita importância pessoal ao caso. Até falou que gostava de beber uma cerveja com os dois reclusos sequestradores. Mas a verdade é que deixou as coisas correr os trâmites da Lei que, como se sabe, é sempre muito justiceira contra os fracos e os já condenados, e totalmente inexistente, quando se trata de grandes crimes e de grandes criminosos como os Executivos das nações, quase todos eles grandes criminosos de Estado, em conluio com os grandes criminosos das transnacionais que hoje tudo fazem e desfazem a seu bel-prazer, sem que ninguém da chamada Justiça lhes vá à mão. Como tal, não foi capaz de, nesta circunstância única da sua vida presbiteral, testemunhar a verdade do Evangelho de Deus Vivo, o de Jesus, que lhe cumpre anunciar oportuna e inoportunamente. Neste caso, seria inoportunamente. Deveria, a meu ver, ter pedido a palavra no Tribunal, mesmo à margem da Lei, ou, pelo menos, convocar os jornalistas antes de o julgamento acontecer, e sair em defesa dos dois acusados. Trataram-no mal? Mantiveram-no durante horas sequestrado e sob ameaças de morte? Ele responderia agora com o bem e com o Perdão sem condições. Aliás, nem se pode dizer que os dois reclusos em causa o trataram assim tão mal. Cuidaram dele, providenciaram para que ele se alimentasse, conversaram sempre com ele, nunca o agrediram. No fundo, acabaram todos como parceiros num sequestro com tudo de faz-de-conta, de coisa encenada. O padre deveria, por isso, ter tido a humilde audácia de pedir a palavra na audiência e reclamar do Tribunal que não condenasse ainda mais quem já está tão condenado e a cumprir pena numa prisão. Os dois cometeram certos crimes - um deles terá até assassinado uma pessoa - que os levaram à prisão? Não venho aqui dizer que não. Mas posso e devo vir aqui perguntar com oportunidade: E quem de nós é que pode reclamar-se de total inocência, sempre que alguém, mulher ou homem, é condenado por um Tribunal, concebido e organizado à medida dos nossos egoísmos colectivos e das nossas injustiças estruturais? O juiz que os condena? A sociedade que os conhece e com eles conviveu todos os dias e não foi capaz de evitar que eles enveredassem por aí? As vítimas dos seus actos, ou as famílias das vítimas? A Lei que foi concebida por uns quantos juristas e pelo Estado dito de direito - deixem-me rir, ou chorar, pois onde é que há um Estado de direito?! - precisamente para condenar, não para reabilitar, levantar, curar, trazer de volta à dignidade quem, naquelas circunstâncias concretas e com aquele percurso de vida concreto, acabou por realizar e consumar aquela acção, objectivamente reprovável? Não somos todos réus, quando constituímos alguém réu? O mundo que estamos aceleradamente a descriar, a inumanizar, a bestializar, não é que precisa de ser libertado, curado, transformado, humanizado? É com Juízes que condenam (sabiam que na Bíblia, a palavra "juízes" quer dizer "libertadores", "salvadores"?!), com leis que condenam, com tribunais que condenam, com prisões que condenam, com sociedades que condenam, que alguma vez chegamos lá, a sermos mais humanos? O padre em questão até poderia / deveria ter encenado no Tribunal, por meio de palavras e de gestos, aquele conhecido episódio teológico da mulher idólatra que foi apanhada em flagrante pelos fariseus-polícias da Lei de Moisés, a praticar a idolatria (= adultério, no dizer dos profetas bíblicos e que o Evangelho de João também fez seu no belíssimo relato que nos conta), e que eles de imediato prenderam, arrastaram pelas ruas da cidade até junto de Jesus e logo ali pretendiam apedrejá-la publicamente, também com o aval dele. E, tal como Jesus, também o padre poderia e deveria, perante o Tribunal, concluir com a mesma solenidade com que ele concluiu perante os fariseus, já de pedras na mão para atirarem contra a mulher idólatra: "Aquele que aqui estiver sem pecado, isto é, que nunca tenha sido idólatra, atire a primeira pedra". Pelos vistos, o padre Júlio Lemos não foi capaz de semelhante audácia. Limitou-se a levar com ele, escondidas, não pedras, mas cervejas, com a intenção de as beber com os dois reclusos, o que, a ter acontecido, constituiria uma crueldade sem nome, porque, como pode alguém celebrar, confraternizar, quando acaba de saber que a condição de recluso e de condenado em que já se encontrava, foi ainda mais reforçada e prolongada? Não seria sadismo? Se queremos celebrar, confraternizar com reclusos, primeiro, derrubemos as cadeias, soltemos os presos, mandemo-los para casa em liberdade. Numa cadeia, o mais que se pode fazer é o que os dois reclusos em causa fizeram: encenar um sequestro, para chamar a atenção dos que vivem acomodados cá fora que as cadeias existem, com milhares de homens e de mulheres lá dentro, em condições tantas vezes de inumanidade, tratados com sobranceria e até crueldade por funcionários que se sabem protegidos pelas armas de fogo que usam à cinta ou nas mãos, e pela Lei e pelo Tribunal que, está visto, estão todos contra os que um dia tiveram a infelicidade de atravessar aqueles portões de ferro e aqueles grossos muros altos sem brechas. Tenho pena pelo meu colega. O seu comportamento cheio de superficialidade e tão vazio de humanidade deixou que as coisas fossem parar aqui, quando ele - outro Jesus, hoje e aqui, como presbítero da Igreja - tudo deveria ter feito para que o objectivo que os dois reclusos tinham em vista, quando o utilizaram naquela encenação de sequestro, fosse devidamente tido em conta, ponderado e solucionado. Pertencia-lhe este papel, este protagonismo libertador, esta acção ditada pelas entranhas de humanidade que são sempre as entranhas de Deus, o de Jesus. Não o fez. E por isso perdeu em toda a linha. Deixou que a Lei sem entranhas de humanidade que os que se têm na conta de bons porque a conceberam, aprovaram e fazem aplicar mas são, porventura, os mais idólatras e por isso também os mais cruéis - toda a idolatria é crueldade - seguisse o seu curso. E ela seguiu. Condenou ainda mais, sem apelo nem agravo, os que já estavam condenados. Deveria ter acontecido no julgamento Evangelho, Boa Notícia de Deus, Misericórdia, Perdão, Humanidade. Houve Crueldade, Condenação, Prisão sobre prisão. Rezam as crónicas dos jornais de hoje que o padre em questão ainda acha que o caso merece um filme. Mas só se for para perpetuar a sua vergonha, a sua leviandade, a sua superficialidade, a sua falta de entrega, de empenho, de militância, a sua beatice disfarçada de fé. Em tudo isto, ele comportou-se como um funcionário eclesiástico mais. Não nos surpreendeu, não nos mostrou Jesus, o de Nazaré. Não defendeu as vítimas. Não polemizou com a Lei, nem com os juízes. Não se meteu no duelo contra a Lei. Não foi solidário com os dois reclusos e, na pessoa deles, com todos os outros, elas e eles. Por isso, só me apetece chorar. E não posso deixar de recordar um caso algo semelhante a este, em que, inopinadamente, me vi metido, logo a seguir ao 25 de Abril 1974. Um dia, fui chamado a depor em Tribunal para confirmar se um um tal Júlio de Sousa Lemos, que havia sido presidente da Junta de Macieira da Lixa, na altura em que a Pide me prendeu, havia sido o meu delator e se efectivamente havia colaborado com a Pide na minha prisão política. Quando lá cheguei, deparei com três juízes sentados na cátedra da Justiça, dispostos a fazer justiça, no caso, dispostos a condenar o considerado réu. O antigo heróis-delator, no regime fascista, era agora réu no regime de Abril. E eu, sua vítima, antes, era agora posto ali no papel de acusador. Pelo menos, era isso que o Tribunal, constituído para julgar / condenar os antigos delatores e colaboradores da Pide, esperava de mim. Entrei na sala vestido com o meu sorriso fraternal. E com a minha paz. Olhei o ambiente. Vi o meu antigo delator curvado no banco dos réus e não me contive. Falei com veemência e quase contundência aos três Juízes, a exigir que mandassem aquele senhor em liberdade, porque ele não havia passado de um joguete nas mãos do fascismo, do Estado fascista. Condenassem o Estado fascista. Não condenassem aquele senhor, vítima à sua maneira da ideologia / idolatria fascista. Os juízes reagiram (quase) indignados contra mim. Queriam manifestamente condenar e, perante o meu desassombrado depoimento, não puderam fazê-lo. Tiveram de absolver e mandar em liberdade aquele senhor. Sentiram-se quase palhaços. Mas foi assim que a Misericórdia e o Perdão venceram a Justiça da Lei, criação nossa e por isso sempre mais ou menos cruel. O que é decisivo, determinante, é salvar o que está perdido, humanizar o que está inumanizado, libertar o que está oprimido, levantar o que está caído, dignificar o que está humilhado, ressuscitar o que está morto. É por aí que vai Deus Vivo, o de Jesus. É por aí que havemos de ir todas, todos. É por aí que sempre tenho procurado ir. O que não for assim é crueldade, por mais que se disfarce de Lei e de Justiça. E para esse peditório não contem comigo.

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2008 FEVEREIRO 20

 

A idade e sobretudo as doenças que habitualmente a acompanham ditam a sua irrevogável lei, e Fidel Castro acaba de decidir, e bem, sair de cena, que não da luta política. Faz o que o papa João Paulo II, por exemplo, na sua enorme vaidade pessoal, não foi capaz de fazer. Os do Grande Dinheiro e do Grande Poder rejubilam com esta sua saída de cena. Cuba socialista e pobre, mas sempre de pé perante eles, foi, ainda é e, certamente, continuará a ser por mais tempo o pequeno-grande espinho cravado na sua garganta. Nem o bloqueio que desde o início lhe impuseram, alguma vez, a fez capitular. Cuba, a de Fidel, nunca se lhes rendeu. E isso eles não perdoam a ninguém. Ou tu, pessoa ou povo, nos reconheces e adoras, submetes-te a nós e vais por nós, ou morres. À palavra de ordem da Dignidade que diz: "Liberdade, ou Morte!", sempre contrapõem a deles: "Capitulação / Submissão, ou Morte!". Desconhecem que a dignidade dos povos, como a das pessoas, nunca é, não pode ser objecto de compra e venda. Os do Grande Dinheiro e do Grande Poder sempre foram e serão completamente analfabetos em dignidade humana. Só conhecem o seu próprio brilho, que é a mais densa Treva planificada e organizada que alguma vez se abateu sobre o nosso Mundo. Um brilho - Ideologia / Idolatria - que cega e mata as pessoas e os povos que se formem na sua escola. Todos os pecadilhos de Fidel e da Cuba de Fidel, na sua heróica resistência ao longo destas dezenas de anos, ao Grande Dinheiro e ao Grande Poder são como mosquitos comparados com os camelos, perdão, com os monstros que os dois são, juntamente com o Grande Templo erguido em honra do Grande Ídolo das Religiões. Mas o nosso Mundo, dominado pela densa Treva da Perversa Trindade do Grande Dinheiro, do Grande Poder e do Grande Ídolo das Religiões, não sabe distinguir a realidade mais real, nem consegue ver o óbvio. Por isso sempre se refere a Fidel Castro como um ditador ou tirano, e ao genocida G. W. Bush por presidente dos Estados Unidos da América. Pessoalmente, nunca fui a Cuba. Bem pena tenho. Mas sei de amigas minhas, amigos meus que já foram lá passar férias e quase todos vieram decepcionados com o que viram e encontraram. Foram com os olhos encandeados pelo Grande Dinheiro e pelo Grande Poder que nos têm a todas, todos, aqui no Ocidente, como reféns. Certamente, que se os Sem-Abrigo da Europa, da África e de todos os outros países da América Latina, lá fossem, sentiriam a diferença, e para melhor. Cuba seria reconhecida por eles como a sua mátria, a sua pátria. Iriam sentir-se, pela primeira vez, em casa. O mesmo sentiriam os meninos, as meninas da rua. E os milhares de milhões de pessoas portadoras de doenças que não dispõem de dinheiro para poderem frequentar as clínicas privadas e os hospitais privados que, mesmo entre nós, começam cada vez mais, e sem alarido, a ocupar os lugares deixados vazios pelos hospitais públicos que o Governo do socialismo moderno de Sócrates está sucessivamente a fechar. O meu amigo Frei Betto, do Brasil, que até já foi assessor do presidente Lula, nos primeiros meses em que Lula presidente ainda tinha olhos e ouvidos e entranhas de homem para as maiorias oprimidas e empobrecidas do Brasil - depressa se deixou desses "pruridos" humanos e meteu-se a servir o Grande Dinheiro e o Grande Poder, como qualquer outro que conseguiu aquele cobiçado lugar e quer perpetuar-se nele e, por isso, o meu amigo Frei Betto deixou-o entregue à sua idolatria e à sua traição - é o único amigo meu que conhece Fidel e Cuba de Fidel, como poucos, e, por isso, tem sabido discernir e falar de um e de outra sem nunca ferir a verdade e a realidade. Porque,  todas as vezes que o meu amigo Frei Betto aterra em Cuba, e muitas são, só este ano já foram pelo menos duas, sempre leva com ele a realidade sofrida do seu próprio país e de todo o continente latino-americano e do resto do mundo que ele bem conhece, dado ser muito viajado, por força do seu carisma de membro da Ordem dos Pregadores. E percebe facilmente que Cuba é pobre, mas não é analfabeta. Sabe, por exemplo, que a taxa de alfabetização da população é de 99. 8%. Sabe que Cuba dispõe de 70.594 médicos para uma população de 11. 2 milhões de pessoas, o que dá em média 1 médico para 160 habitantes. Sabe que Cuba tem um índice de mortalidade infantil de 5. 3 por cada mil nascidos, enquanto nos EUA, essa taxa é de 7 e, no seu próprio Brasil, é de 27. Sabe que Cuba dispõe de 800 mil diplomados em 67 universidades. E que, em cada ano, entram na universidade em média mais 606 mil estudantes. Sabe que Cuba mantém actualmente médicos e professores a trabalhar em mais de 100 países empobrecidos e promove em toda a América Latina a chamada "Operação Milagre", destinada a curar gratuitamente doenças dos olhos, bem como a campanha de alfabetização "Eu também posso", cujos espectaculares resultados estão à vista de toda a gente que queira ver. E em quais outros países latinoamericanos, africanos, asiáticos e mesmo europeus, nos quais o Grande Dinheiro, o Grande Poder e o Grande Ídolo das Religiões andam à rédea solta, sem que os povos subjugados por eles lhes barrem a carnificina cada vez mais obscena em que os três como um só são peritos, poderiam ser colocados à entrada nas ruas das respectivas capitais, cartazes como os que se podem ler à entrada em Havana: "Em cada ano, morrem 80 mil crianças vítimas de doenças evitáveis. Nenhuma é cubana", e "Esta noite, 200 milhões de meninos, meninas dormirão nas ruas do mundo. Nenhum, nenhuma é cubano"?! Em quantos e quais? O Grande Dinheiro e o Grande Poder, juntamente com o Grande Ídolo das Religiões, organizados em sistema, hipocritamente, chamado Ordem Mundial, constroem grandes palácios, grandes santuários, grandes cidades, grandes arranha-céus, grandes Torres Gémeas ou de Babel, grandes condomínios fechados, grandes estádios de futebol, grandes pontes, grandes auto-estradas, grandes ilhas de luxo e de opulência, juntamente, com grandes Exércitos e potentes bombas de destruição maciça, com que encandeiam / amedrontam / esmagam as pessoas e os povos. Só que por cada um que eles põem a viver no luxo, condenam milhares de outros a ter de sobreviver no lixo. Os famintos de Pão e de Saúde, de Trabalho e de Afecto, são também os famintos de Dignidade humana. São pessoas e povos excedentários, condenados a desaparecer da face da terra. Para que fiquem apenas as minorias dos privilégios que, desde que aceitaram incluí-las, deixaram de ser seres humanos, para serem meros humanóides que comem, bebem, correm para todo o lado e fornicam sem que daí venha nada de bom para o mundo, porque só quem ama é que é chega a ser fecundo. E o Grande Dinheiro, o Grande Poder e o Grande Ídolo das religiões são intrinsecamente assassinos, perversos, mentirosos, por isso, totalmente incapazes de fecundar, gerar, amar. O mais que conseguem é fornicar. Compulsivamente. E, ainda assim, só com recurso a fármacos que disfarcem toda a sua impotência sexual. A idade e, sobretudo, as doenças que quase sempre a acompanham, ditam a sua irrevogável lei e, por isso, Fidel Castro decidiu e bem sair de cena. Não sai, obviamente, da Luta Política. Cuba socialista e pobre prosseguirá o seu caminho de resistência e de dignidade. A vigilância do seu povo terá agora que redobrar ainda mais, porque o Grande Dinheiro e o Grande Poder e o Grande Ídolo das religiões, os três como um só, já estão a afiar os dentes e as garras para se lançarem sobre a pequena Ilha que, qual David bíblico, lhes resiste e muito gostaria de os decapitar como David fez a Golias. Por quanto tempo mais o duelo se vai manter? Previsivelmente - é a História que no-lo diz - Cuba, ao contrário do David da metáfora bíblica, é que acabará por ser decapitada por Golias. Tal como sucedeu com Jesus, o de Nazaré, que levou o seu duelo até ao limite e para lá do limite e, por isso, acabou crucificado pelo Inimigo das pessoas e dos Povos. Não nos preparemos para celebrar esse dia, se ele vier a acontecer. Preparemo-nos, sim, para chorarmos inconsoláveis nesse dia. Porque será o triunfo dos Porcos. Da Treva. Da Idolatria. Do Perverso. Da Mentira. Do Assassínio. Da Besta. Porém, depois de chorarmos nesse dia, enxuguemos rapidamente as lágrimas e mudemos imediatamente de postura. Troquemos o luto pela luta. As lágrimas pelo canto e pela dança. Regressemos à Montanha. Ao Deserto. À Galileia. À Sierra Maestra, onde tudo começou e começa. Regressemos ao Duelo feito de muitos duelos. Porque o Futuro com dignidade humana abre-se mais e mais, sempre que a Besta triunfa sobre as vítimas que lhe resistem. Cada triunfo da Besta é mais um degrau que ela cava na sua própria sepultura. Porque a última palavra será sempre das Vítimas. Da Besta, apenas a penúltima. Foi assim paradigmaticamente com Jesus. Será assim com os povos crucificados. Só mesmo a Besta é que não vê. Porque é Besta!

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para

padremario@sapo.pt

 

COMENTÁRIOS:

1. Também eu nunca fui à ilha. Com pena. Mas torço por ela. Sofro quando ela sofre das perversas agressões. Também eu tenho amigos que lá foram. Podiam ter visto os velhotes de Vila Real de Santo António que morreriam cegos dos olhos, cá, e que numa semana ficaram a ler os jornais e a ver os entes queridos, consultas a perder de vista, neste recanto de liberdade para os que têm dinheiro, e operação para depois de terem morrido. Mas não viram. Não foram com olhos, cabeça, coração e entranhas de humanidade para verem aquilo que Cuba tem para mostrar.

 

De Frei Betto tenho o livro com a entrevista que Fidel lhe concedeu já vai um ror de anos.

 

E tenho as impressões das visitas de uma professora primária, freira sem hábito, irmã da mesma comunidade de uma Assistente Social colega da Aurora, que sempre que tinha oportunidade, isto há uns 20 anos, se espantava para Cuba, nas férias. E o que contava não tinha nada que ver com a postura de suas eminências, os cardeais e os bispos de Cuba, vermes ao serviço do império…

 

Cuba, para bênção de todos nós (veja que utilizei a palavra bênção), sobreviverá. O império agoniza. Sabemos que tem muita força, mas agoniza. O exemplo e a sobrevivência de Cuba são um farol ao fundo do túnel, que a juventude cubana não deixará extinguir. Alguma coisa de novo e bom lá existe, porque não é possível controlar os muitos milhares de internacionalistas, professores, médicos, enfermeiros, que cumprem a sua missão em muitos países da América latina. Não é possível. Fugiriam todos… Todavia aguentam-se. Ou me engano muito ou muito brevemente as novas Cubas a fermentar na América Latina romperão para o esplendor da vida. E cairão agoniados para sempre os Lulas que restam.

 

O meu abraço, Elísio

 


 

2008 FEVEREIRO 18

 

O 11.º Encontro de Espiritualidade, promovido pelo Jornal Fraternizar voltou a juntar ontem em S. Pedro da Cova as companheiras e os companheiros dos encontros anteriores, mais umas quantas pessoas que sempre se nos juntam pela primeira vez. O dia marcou a ferro em brasa as nossas consciências. Deixou-nos mais humanos. Por isso, mais conspirativos. Mais dissidentes. Mais insubmissos. Mais de olhos abertos. Mais vigilantes aos passos da Besta que hoje domina as nações, também a nossa, e o mundo. E também mais próximos das vítimas, mas numa relação cada vez menos assistencialista e cada vez mais maiêutica ou jesuânica, a única que dá dignidade às vítimas e a quem delas se faz próximo e com elas é solidário. O invisível e fecundo Espírito ou Sopro de Jesus congregou-nos e trabalhou-nos, como só Ele sabe fazer. De dentro para fora. No mais íntimo de cada uma, cada um. A Eucaristia, sob a forma de almoço partilhado, uniu a manhã e a tarde. Foi tão sororal / fraterna, que só pode ter sido presidida por Jesus, o Crucificado que ressuscitou e, desde então, nos anima / levanta / guia / fortalece pelo seu Espírito. É sempre em seu nome que nos reunimos e encontramos. A Luz foi tão intensa, nas nossas consciências, que já começámos a sentir necessidade de avançarmos para a Missão - não confundir com a tradicional Acção Missionária nem com Missionários enviados pelas Grandes Igrejas, coisa de conquistas e de imperialismos, de roubos e de humilhações dos povos - por isso, a sairmos da sala deste que tem sido o nosso até agora indispensável Cenáculo e a nossa sala de cima. Outras mulheres, outros homens precisam de protagonizar experiências semelhantes às nossas. Porque só pessoas cujos olhos da consciência se abrirem é que passarão a resistir às investidas da Besta que sempre nos quer infantilizados e tolhidos de medo, a viver toda a vida mergulhados na maior das alienações. O futuro está nas pessoas e nos povos cujos olhos da consciência se abrirem. Semelhante Acção Política - Missão! - é arriscada, porque até as vítimas da Besta, não apenas a Besta, podem virar-se contra quem delas se faz próximo e estabelece com elas uma relação dessa qualidade. Mas é a única Acção Política Consciencializadora e Libertadora que vale a pena realizar. É a única coisa necessária, no dizer de Jesus. Estes Encontros de Espiritualidade têm sido Momentos de Graça, outros tantos Kairós. Ninguém os conduz, a não ser o Espírito de Jesus. Por isso são cada vez mais surpreendentes e cada vez mais exigentes. Ele está apostado em fazer de nós outros Jesus, agora, no século XXI, em masculino e em feminino. Neste 11.º Encontro, fomos todos convidados a ler-escutar, antes dele e como trabalho de casa, dois textos do Novo Testamento. O Capítulo 15 do Evangelho de João e o capítulo 13 do Apocalipse, ou Revelação, com que encerram as nossas Bíblia. Partilho aqui, de seguida, dois textos que, como coordenador, ao jeito da parteira, do Encontro, comecei por escutar-escrever na véspera, recolhido e sentado num monte, nas proximidades de Macieira da Lixa, onde resido. O primeiro, de saudação-abertura do Encontro. O segundo, de participação pessoal no debate propriamente dito. Valem como pontos de partida. Porque, no acto de serem partilhados de viva voz e no contexto do Encontro, estas palavras ditas por mim sempre adquirem outra força criadora e libertadora, outro impacto em nós que as escutámos - eu sou sempre o primeiro ouvinte e, porventura, aquele que mais é interpelado por elas e pelo Sopro que as atravessa - que só quem protagoniza o Encontro e o vive com todas as suas forças chega a captar e a receber. Os dois textos poderão ser melhor compreendidos, se, antes de os lermos, começarmos por ler-escutar, respectivamente, os referidos capítulos 13 do Apocalipse e 15 do Evangelho de João. Eis.

Saudação ao Encontro: Saúdo-vos em nome das vítimas, dos milhões e milhões de vítimas da Besta que hoje domina o nosso Mundo e que só reconhece e dá oportunidade àqueles, àquelas que a reconhecem também a ela e ao seu domínio global. Espero que nenhuma, nenhum de nós traga consigo para este Encontro de Espiritualidade, nem no seu dia a dia, as marcas da Besta, apenas as marcas das vítimas. Espero que quantas, quantos aqui viemos estejamos já a viver todos os dias em Deserto. E em Trincheira. Espero que nenhuma, nenhum de nós conheça a paz que a Besta garante a quem a serve. Muito menos, conheça o conforto, o bem-estar, os luxos que ela dá aos eunucos que incondicionalmente a servem. Espero que nos apresentemos aqui assinaladas, assinalados com as marcas dos combates, das lutas, das perseguições, dos maus tratos, das incompreensões, dos desprezos, das calúnias, das exclusões e até excomunhões que sempre conhecem e sofrem na carne aquelas, aqueles que não só não servem a Besta, como ainda e sobretudo a combatem, num Duelo permanente, onde se pode perder tudo, inclusive a vida. Aquelas mesmas marcas que Jesus, o de Nazaré, conheceu na sua carne finalmente crucificada. Quaisquer outras marcas que possamos trazer / ostentar que não estas, saibamos que não são dignas de seres humanos que se prezam. São as marcas da Besta que fazem de quem as tem bestas também, nem que sejam de colarinho branco, de mãos muito limpas e de pele macia, clérigos ou laicos. Num mundo dominado e controlado pela Besta e pelos seus Executivos, suas Igrejas, suas Religiões, suas multinacionais, só é verdadeiramente humano e digno da Humanidade quem, como Jesus, traz as marcas dos combates que travam todos os dias, dos duelos concretos a que se resume a sua vida de todos os dias. Não basta, neste Mundo da Besta e dominado por ela, sermos boas pessoas, género, não matar, não roubar, não fazer mal a ninguém, dar esmolas aos pobres. Nem sequer basta sermos mulheres, homens ao jeito de Madre Teresa de Calcutá ou da Irmã Lúcia, ou do Papa Ratzinger, ou do Papa João Paulo II, ou dos Párocos, dos Pastores, dos Bispos residenciais nos seus palácios episcopais. É preciso vivermos todos os dias em e na Trincheira, em e no Deserto, em Duelo permanente, feito de muitos e sucessivos duelos concretos. É preciso vivermos vigilantes e de olhos bem abertos a todos os passos que a Besta dá, nos inúmeros Executivos, laicos e religiosos, que incondicionalmente a servem, dia e noite, ininterruptamente. Às marcas da Besta com que ela assinala quem a serve, temos de opor as marcas que os combates que travamos todos os dias nos deixam na carne. Como deixaram em Jesus. Para sempre. Mesmo já depois de Ressuscitado (as narrativas teológicas das aparições fazem questão de dizer que lá estavam ainda as marcas dos cravos e da lança com um soldado do Império lhe atravessou o corpo, directo ao coração). Não basta sermos boas pessoas. Jesus, o de Nazaré, aos olhos da Besta e de todos os seus Executivos da altura, não foi olhado como boa pessoa. Foi a Subversão em pessoa. Foi a Insurreição em pessoa. Foi a Conspiração em pessoa. Foi a Dissidência em pessoa. Foi a Luz em pessoa que brilhou no meio da Treva que é a Besta e mostrou que eram más todas as obras da Besta e dos seus Executivos - os seus sistemas económicos, as suas políticas, as suas religiões, as suas tradições, os seus usos e costumes, as suas leis, as suas instituições, numa palavra, a sua Ideologia / Idolatria. E por isso acabou excluído, morto, expulso da sociedade, com todas as marcas do Maldito dos malditos (O Jesus que hoje as Igrejas nos apresentam não é este, é um Jesus light, politicamente inócuo, um ícone, um ídolo). Mais. Neste mundo dominado pela Besta, que marca / assinala os que são dela e a servem, também já não basta sermos ateus, não crentes. Ou sermos crentes de uma qualquer religião e do Deus que elas adoram, já que o Deus de uma qualquer religião, inclusive da chamada religião católica (não confundir com o Deus de Jesus, nem com a Fé de Jesus!), é sempre um ídolo criado e reconhecido pela Besta e ao seu serviço. Hoje, a tradicional divisão entre crentes e não-crentes, entre crentes e agnósticos, entre religiosos e ateus, está de todo ultrapassada. Hoje, a divisão é entre os que são das vítimas da Besta e os que são dos seus Executivos (cúpulas das Igrejas e das Religiões, incluídas). A divisão é entre os que são Humanos e os que são Idólatras (neste contexto, todas as Religiões são Idolatria, são Idólatras e todas devem ser superadas pelos seres humanos, nenhuma se aproveita e de nada vale pô-las a dialogar umas com as outras. Todas têm que ser superadas, sob pena dos seres humanos nunca o chegarmos a ser em pleno, na estatura de Jesus!). Mas não se trata de sermos quaisquer Humanos. Apenas Humanos da mesma estatura de Jesus, o de Nazaré, por isso, Humanos que vivem em permanente Duelo com a Besta e em maiêutica / jesuânica comunhão com as suas inúmeras vítimas, sem ter medo de vir a acabar vítima também com elas e como elas. E mesmo no que respeita à idolatria, temos de ter presente que hoje, neste mundo globalizado da Besta, toda a Idolatria / Religião é má, perversa, mas a pior e a mais perversa de todas é a Idolatria da Besta, materializada no Grande Dinheiro, no Grande Poder e no Grande Deus-Ídolo, sem dúvida, a mais perversa Trindade que, como um só, está hoje aí cientificamente / demencialmente organizada e determinada, com recurso aos mais sofisticados meios, a matar o Mundo e a Descriar os seres humanos. Por mim, só conheço uma maneira de sermos Humanos, para não sermos automaticamente, ateus incluídos, do mundo dos Idólatras, por acção ou omissão: é trazermos na nossa carne as marcas das vítimas, por estarmos metidos até aos ossos, com a cabeça, o tronco e os membros - com tudo o que somos e temos - no Grande Duelo, feito de muitos pequenos e sucessivos duelos concretos, destinado a desmascarar / denunciar / decapitar a Besta, nomeadamente, a sua Ordem Mundial Global. Quem não traz estas marcas, já traz, mais ou menos, as marcas da Besta. E, por isso, beneficia dos seus favores, tem aces