DIÁRIO ABERTO
2007 FEVEREIRO 26
A diocese do Porto tem novo bispo residencial. Manuel Clemente deixa o Patriarcado de Lisboa, onde tem sido bispo auxiliar, e vem para a diocese do Porto, como bispo titular e residencial. O papa Bento XVI assim decidiu e assim passou canonicamente a ser. Sem que a Igreja que está no Porto fosse tida ou achada neste processo. Por aqui se vê que a nossa Igreja católica teima em manter-se hierárquica e piramidal, em lugar de sororal/fraternal e ministerial. E, enquanto assim for, os bispos aparecem à frente das dioceses totalmente à revelia da Igreja local que é, deve ser cada uma delas. Esta prática eclesiástica é uma aberração de peso, nomeadamente, nestes tempos que já não podem deixar de ser de eleições e até de referendos, no que respeita ao funcionamento da sociedade civil, assim como da generalidade das associações e instituições particulares. Só na nossa Igreja católica é que os tempos ainda não são assim. Basta esta aberração, para a Igreja já não ser mais o sinal levantado que está chamada a ser no mundo e na História. E, se deixa de ser sinal levantado, no meio do mundo, só pode ser contra-sinal levantado no meio dele. Pedra de tropeço. Sal que perde a força. Presença que corrompe os seres humanos e a sociedade. Mais perigo público do que salvação. Mais vírus do que vacina. Mais massa do que fermento. Mais Treva do que Luz.
Estão hoje cada vez mais longe os tempos em que os que dirigiam as nações caíam do céu, sem que os respectivos povos fossem tidos e achados. Dizia-se então, com a pompa e a circunstância das grandes Mentiras, que os reis eram escolhidos directamente por Deus e impostos por Ele aos respectivos povos. Foi uma crassa mentira que demorou séculos a ser desmascarada e a cair. Mas foi desmascarada e caiu. Em seu lugar, vigora, hoje, cada vez mais generalizado na sociedade civil, o princípio eleitoral. Sabemos que o processo de o exercer é pervertido de mil e uma maneiras, mas o princípio em si representa um avanço qualitativo na humanidade, um avanço civilizacional. Só na nossa Igreja católica é que as coisas continuam ainda como nos tempos das velhas monarquias absolutas. Não porque Deus, o de Jesus, assim queira, mas porque os homens de cúpula da Igreja assim o entendem e determinam.
Tudo seria já diferente, se os nomeados por Roma para bispos residenciais recusassem, um a um, entrar neste viciado processo e exigissem ser eleitos pela respectiva Igreja local, à qual hão-de presidir no amor mais desinteressado, sempre como aqueles que servem e não como os que mandam. Infelizmente, cada bispo que é nomeado pelo papa apressa-se logo a aceitar o lugar, sem querer saber para nada do processo utilizado na sua eleição e, por isso, este infantilizado estado de coisas mantém-se, ano após ano, geração após geração. É um estado de coisas que não tem, não pode ter a marca do Espírito Santo, mas, para o poder eclesiástico, isso é um pormenor sem importância. O Poder, todo o poder é surdo e cego. E insensível. Muito mais o poder eclesiástico, que se pensa sagrado e procedente directamente de Deus.
O dramático é que nada pode estar bem e respirar saúde nas instituições humanas, quando é feito contra a verdade. Porque agir contra a verdade é agir contra o Espírito Santo. E agir contra o Espírito Santo é agir contra os seres humanos e os povos. No caso em presença, é, antes de mais, agir contra a Igreja que assim deixa de o ser, para se tornar numa multinacional mais, da religião católica que vem dos tempos de Constantino e do seu Império romano, não de Jesus, o de Nazaré.
Não se pode, pois, dizer que o Bispo Manuel Clemente começa bem o seu ministério episcopal na Igreja que está no Porto. Não se pode dizer que ele entra pela verdadeira porta que é Jesus, o bom Pastor (cf. Jo 10). Não entra. Digo-o, obviamente, ao nível do institucional, não ao nível do pessoal, do individual. As intenções do Bispo Manuel Clemente são, certamente, as melhores. O processo que acaba de o colocar à frente da Igreja do Porto é que está inquinado. E bom será que o Bispo Manuel Clemente esteja consciente disso, desde a primeira hora. E se defenda do vírus mortal que, se não for neutralizado e isolado, acabará por matar a sua alegria e a sua generosidade de Bispo. E matará igualmente os sete dons do Espírito Santo, absolutamente indispensáveis para alguém poder ser Bispo, no seio duma Igreja local concreta.
Aliás, as palavras com que o Bispo Manuel Clemente acaba de saudar a Igreja que está no Porto, revelam já, preocupantemente, um homem mais eclesiástico do que jesuânico Vejam só. Nessa mensagem, confessa-se disposto a “entregar-se a Deus, à Virgem santíssima e à comunhão dos santos”. Esta afirmação é certamente um vulgar lugar comum católico, repetido até à exaustão por gente eclesiástica. Mas, por mim, não posso deixar de ficar perplexo, ao ver o Bispo Manuel Clemente misturar Deus com a Virgem santíssima e com a comunhão dos santos. Que Deus é este que ele aqui invoca? Ainda é o Deus de Jesus, ou é outro Deus bem mais eclesiástico e católico romano, indissociável da mítica deusa virgem e mãe e dos santos que parecem fazer de corte celestial em redor dEle e, nessa circunstância, têm a função de lhe meter cunhas a favor dos seres humanos que a eles recorram, à semelhança do que costumam fazer quando pretendem obter certos favores dos grandes senhores deste mundo? Preocupante é também que o Bispo Manuel Clemente, na mesma saudação à Diocese do Porto, anuncie que tem como “programa”, “um só propósito, total e absoluto: conhecer, amar e servir a Diocese do Porto”. Para um bispo da Igreja de Jesus, é manifestamente insuficiente. Porque o Bispo tem que ter um coração jesuânico do tamanho do coração de Deus Criador e Libertador, e não um coração meramente eclesiástico, muito menos do tamanho duma diocese. Tem de sentir as dores de parto pela humanidade no seu todo e dar a vida por ela, em particular a mais oprimida e empobrecida, independentemente dela ser Igreja ou não, ser baptizada/crismada ou não. Tem que fazer seu e prosseguir aqui e agora o programa de Jesus de Evangelizar os pobres, libertar os oprimidos, mandar em liberdade os cativos, fazer ver os cegos e andar os paralíticos, ao mesmo tempo que há-de ser capaz de anunciar, oportuna e inoportunamente, por onde está a PASSAR a Acção de Deus Vivo na História. O eclesiástico, por si só, nunca foi bom conselheiro. Sempre acabará, se não nos pusermos em guarda, por transformar as pessoas mais generosas da Igreja em funcionários, porventura, generosos funcionários eclesiásticos. Mas não é para isso que alguém é ordenado Bispo da Igreja. Muito pelo contrário. No entanto, é o que a Cúria Romana, presidida pelo Papa, parece pretender em exclusivo ou, pelo menos, prioritariamente dos bispos que nomeia. Em concreto, que cada Bispo residencial seja, na respectiva Igreja local, uma espécie de alter ego do papa de turno. E que converta a Igreja local a que preside numa espécie de Estado do Vaticano e de Cúria Romana em ponto pequeno. Nada de mais aberrante!
Não foi para isso que o Espírito Santo fez acontecer o Concílio Vaticano II na Igreja. Mas, pelos vistos, é para isso que existe a Cúria romana e o papa em Roma. Cada Igreja local é Igreja completa, segundo o Concílio Vaticano II. Mas a Cúria romana e o papa pretendem que cada Igreja local seja sobretudo uma sucursal eclesiástica, na dependência da Cúria Romana. Não uma Igreja na comunhão com a Igreja de Roma e com as outras Igrejas locais do mundo, mas uma sucursal na dependência de Roma, à semelhança de todas as outras Igrejas locais que também o deverão ser. O facto do Bispo residencial ser nomeado pelo papa de turno, totalmente à revelia da Igreja local, à qual é chamado a presidir, é já revelador desta dependência. Se, depois, a prática episcopal vai nessa direcção, então nunca chegará a haver Igreja de Jesus a sério, mas apenas mais do mesmo do que se faz e diz em Roma. Deste modo, a Igreja comunhão de Igrejas que o Espírito Santo e o Concílio Vaticano II quiseram que acontecesse, terceiro milénio além, em alternativa à Igreja Cristandade Ocidental de má memória que esteve em vigor nos dezasseis séculos anteriores, não chegará a acontecer. E ficaremos condenados a ter mais do mesmo, numa apagada e vil tristeza.
Temo bem que seja mais do mesmo que o Bispo Manuel Clemente venha ajudar a fazer, quando é imperioso e urgente que a Igreja que está no Porto se liberte do férreo controlo da Cúria romana e do papa chefe de Estado, para ser Igreja obediente ao Espírito Santo em comunhão com a Igreja que está em Roma e em tantas outras partes do mundo. Conseguirá o Bispo Manuel Clemente esta proeza? Ou vai comportar-se como súbdito da Cúria romana e do seu papa-chefe-de-estado, sob o olhar mais policial do que eclesial do Núncio apostólico que está em Lisboa? A opção é martirial. Mas, ou ele tem a audácia de a fazer, desde a primeira hora do seu ministério episcopal no Porto, ou não passará de um Bispo residencial sob tutela, vassalo da Cúria romana e do seu papa imperial, infalível e dotado de poder absoluto, ao qual, pelos vistos, até Deus terá que se submeter…
Melhor do que ninguém o Bispo Manuel Clemente sabe deste real perigo. Ou não fosse ele formado em História e, até agora, professor de História da Igreja na Universidade católica. Bom será que o historiador que ele é o seja na fidelidade à Verdade que nos faz livres, o mesmo é dizer, na fidelidade ao Espírito Santo. Tudo vai depender da concepção que o Bispo Manuel Clemente tenha do exercício do seu ministério episcopal. Através dos séculos, houve bispos, inclusive na Igreja do Porto, que prometeram muito e, depressa, acabaram súbditos e vassalos da Cúria romana e do seu papa, em lugar de irmãos na comunhão com o Bispo de Roma, a quem compete o humilde serviço de presidir no amor mais gratuito e criador à Igreja universal. O que os terá levado a isso? Todos terão cometido um erro gravíssimo, um grave pecado mortal. Uma vez no lugar, acharam que tinham de servir os interesses da instituição, em lugar de servirem o Evangelho de Jesus, em comunhão real e de corpo com o seu Espírito. Caíram no grave pecado mortal de confundir os interesses eclesiásticos com os interesses de Deus e do seu Evangelho que são - imaginem vocês - os interesses da Humanidade e do Universo. A partir daí, ficaram reféns da Cúria de Roma, por isso, quase sempre mais papistas do que o papa. Tornaram-se bispos residenciais em estado de menoridade, em estado de pecado mortal. Nunca mais fizeram acontecer a Igreja de Jesus, só a Igreja eclesiástica, empresa multinacional de religião, em lugar de Sinal levantado no coração da Humanidade.
O que, neste momento, mais posso desejar ao meu irmão Bispo Manuel Clemente é que ele resista a esta tentação e evite cair neste grave pecado mortal. O ideal será que, ao chegar à Igreja do Porto, comece por trocar o mastodôntico e opressivo paço episcopal, onde fizeram questão de viver os seus antecessores, por uma casa simples e acessível às mulheres e aos homens da rua, sem a mediação de nenhum porteiro. Na medida do possível, continue a viver do seu trabalho profissional, em lugar de se assumir como Bispo a tempo inteiro. Mais do que pôr-se a fazer sozinho na Igreja, faça a Igreja toda fazer. Não hesite em dispensar os três bispos auxiliares e, se não houver Igrejas locais disponíveis para cada um, que eles passem a viver o ministério episcopal numa paróquia ou num conjunto de paróquias da diocese, não a administrar sacramentos do Crisma a torto e a direito e a celebrar ritos litúrgicos em série, mas a escutar as populações e a comer com elas em redor de Mesas Partilhadas, onde o Evangelho de Jesus seja anunciado e escutado no que ele tem de mais essencial. Recuse, logo de início, as chamadas visitas pastorais às paróquias, coisa mais mentirosa e mais contrária à simplicidade do Evangelho e à prática pastoral de Jesus, o de Nazaré. Em vez dessa mentira organizada, ocasião de hipocrisia e de promiscuidade política e católica de pôr os cabelos em pé, telefone pessoalmente ao pároco aonde deseja intervir e apareça com algumas mudas de roupa e os seus objectos pessoais e fique uns dias com ele como irmão e companheiro, numa afirmação de proximidade e de comunhão de mesa que valerá, certamente, mais do que todos os ritos litúrgicos que pudesse vir a realizar no templo paroquial, no decurso de uma visita pastoral tradicional. Do mesmo modo, avance sem aviso prévio até às fábricas e às empresas espalhadas pela diocese e peça para se encontrar com as trabalhadoras, os trabalhadores, nem que seja apenas durante a hora do almoço. Coma com elas, com eles e oiça as suas dores, os seus dramas, as suas expectativas. Frequente com regularidade e com naturalidade os espaços culturais e converse descontraidamente com quem também tiver aparecido nessas mesmas ocasiões. Jamais distinga entre católicos e não católicos, pelo contrário, veja sempre os seres humanos que todas, todos somos. E deixe-se evangelizar por todos, para poder evangelizar a todos. E àqueles que a Igreja do Porto, nestes últimos anos, mais tem humilhado e ostracizado, ou que até condenou à não-existência oficial, corra a abraçá-los e a sentar-se às suas singelas mesas, como quem pede perdão e faz questão de reconhecer os carismas que o Espírito Santo aí tem conseguido desenvolver para bem da Humanidade, no seu todo. Finalmente, quando abrir a boca em público, faça-o como verdadeiro e despretensioso profeta, sem moralismos eclesiásticos de qualquer espécie, e sempre para dizer/testemunhar o Evangelho de Deus que é Jesus Cristo Crucificado pelos sacerdotes e pelos poderosos do Império, sacramentalmente presente e em interminável agonia nos milhões de oprimidos e empobrecidos do mundo, a quem, por isso, há-de também ajudar a tirar maieuticamente da cruz. Para que eles vivam e vivam em abundância.
2007 FEVEREIRO 23
“Hão-de olhar para aquele que trespassaram”. A afirmação já tem cerca de dois mil anos. É do Evangelho de João (19, 37), o último dos quatro Evangelhos canónicos, escrito por volta do ano 90 da nossa era. Pois é com esta afirmação velhinda de quase dois mil anos, que o papa Bento XVI abre a sua muito pouco jesuânica Mensagem para a Quaresma 2007. O que vale é que a Sociedade civil está cada vez mais liberta da tutela da hierarquia da nossa Igreja católica (o resultado do último referendo à Lei do aborto é apenas mais um expressivo exemplo), e já não quer saber dessas coisas da Quaresma eclesiástica para nada, nem do que sobre ela ainda insiste em escrever o papa de turno. Infelizmente a hierarquia da nossa Igreja católica teima em manter-se fiel ao chamado calendário litúrgico, tal e qual como nos obscurantistas séculos da defunta Cristandade Ocidental. Pensa, certamente, que está a fazer bem, ao persistir nesta sua opção pelo eclesiástico e pelo religioso em detrimento do histórico e do político. Mas faz mal, muito mal. Com isso, fica ainda mais fora da História e dos acontecimentos que a tecem, enquanto que a Sociedade civil lá segue o seu caminho, misteriosamente guiada pelo Espírito Criador de Deus, o qual, por sinal, nunca quis saber da hierarquia da Igreja católica para nada, a não ser para a contestar e derrubar, enquanto poder sagrado que é.
Deveria a Igreja ser vanguarda da História, ocupar a primeira linha de combate, lá onde todos os dias a vida se ganha ou se perde. Mas não. É cada vez mais uma Igreja politicamente desmobilizada e carro vassoura. Excessivamente eclesiástica. Sem audácia. Sem juventude. Sem entusiasmo, isto é, sem Deus Vivo dentro dela. Vive lugrubemente refugiada nos deprimentes templos e catedrais, mais do que ultrapassados no seu característico cheiro a cera queimada, e sempre às voltas com altares e iniciativas eclesiásticas carregadas de infantilismo e de moralismo que tresanda. Ao contrário do seu mestre e inspirador, Jesus, o de Nazaré, que se meteu lucidamente no coração dos conflitos históricos, nomeadamente, ideológico-teológicos e políticos, e até acabou como a sua vítima histórica maior e como o maldito dos malditos.
Aliás, é para aqui que aponta também aquela afirmação do Evangelho de João, com que o papa abre a sua Mensagem, mas sem ter chegado a entendê-la minimamente, ou o lugar de papa-poder absoluto que Ratzinger hoje ocupa na Cúria romana não lhe cegasse os olhos da inteligência e do coração para o entendimento das coisas de Deus Vivo, só reveladas àqueles pequeninos dos quais nos fala o Evangelho de Jesus. Na verdade, nunca teriam podido olhar para aquele que trespassaram, se Jesus – é a Jesus que se refere o pronome Aquele – também se tivesse limitado a seguir, como fazem hoje o papa e o resto da hierarquia católica, no seu tempo e país, um calendário litúrgico, paralelo ao da Sociedade civil, e a frequentar os ritos religiosos do templo de Jerusalém, na mais completa subserviência aos chefes dos sacerdotes, totalmente desligados dos acontecimentos com que já então se tecia a História. Mas Jesus, o de Nazaré, não teve outro calendário que não o da Humanidade. Não teve outra História que não a da Humanidade. Não teve outro Mundo que não o da Humanidade. Foi um verdadeiro Homem do seu tempo. O que sempre o distinguiu e distinguirá dos demais, a começar pelos chefes dos sacerdotes e a concluir nos poderosos do Império, é apenas o Espírito que o habita e anima e ao qual ele foi fiel até ao limite da vida e para lá do limite – o Espírito Criador e Libertador de Deus Vivo que gosta de Política, não de Religião, que está metido na História e jamais desiste de levar ao seu termo a Criação de filhas e de filhos à sua imagem e semelhança.
Não é assim, infelizmente, que o papa Bento XVI e a generalidade dos bispos católicos vêem as coisas. Nem estimulam a Igreja a que presidem a ver. A teologia deles não é a de Jesus, o de Nazaré. É a teologia de um Cristo-deus estranho a Jesus, mais mítico do que histórico, por isso, fonte de Mentira, de Opressão e de Homicídio/Genocídio em série. Um Cristo-deus que tem tudo a ver com os míticos deuses das religiões primitivas do Paganismo, hoje, os míticos deuses do Templo e do Império, que sempre aterrorizam as populações e os povos não ilustrados e não evangelizados, e que lhes exigem a toda a hora e momento sacrifícios e mais sacrifícios de vítimas inocentes, e sangue, muito sangue, sem o que jamais estabelecerão relações amistosas com a Humanidade pecadora.
Só uma teologia assim, de um Cristo-deus mítico, é que consegue olhar para Jesus, como o papa Bento XVI olha, e falar dele como o papa Bento XVI fala: “A Quaresma é tempo propício para aprender a deter-se com Maria e João, o discípulo predilecto, ao lado d’Aquele que, na Cruz, cumpre pela humanidade inteira o sacrifício da sua vida”. Só uma teologia sacrificialista, é que poderá falar assim de Jesus e de Deus. É uma teologia, de raiz deísta, que não tem nem jamais poderá ter a marca do Deus de Jesus, pura Graça e puro Amor, apenas tem a marca dos míticos e cruéis deuses e deusas das religiões do Paganismo, ainda hoje, todas elas muito caras à dupla perversa e assassina – o Templo e o Império – que oprime e empobrece as populações e os povos do mundo sem dó nem piedade.
Bem sei que esta teologia sacrificialista também está presente em múltiplos textos do Novo Testamento, nomeadamente, nas cartas atribuídas a Paulo e a Pedro, e nos discursos postos na boca de alguns líderes da Igreja primitiva pelo autor do livro dos Actos dos Apóstolos, e que já não é mais a teologia de Jesus, resultante da sua Fé traduzida numa prática política radicalmente libertadora e fecundamente autonomista das pessoas e dos povos. Por isso, apesar de estar no Novo Testamento da Bíblia, não faz parte do núcleo central da Revelação jesuânica de Deus. Resulta, quando muito, duma desastrada inculturação que significativa parte da Igreja primitiva fez de Jesus e da Fé de Jesus. O contexto cultural e religioso de então, tecido de cultos públicos em honra de míticas deusas e de míticos deuses que os respectivos sacerdotes faziam nascer/morrer/ressuscitar ritualmente todos os anos, de acordo com os ciclos da natureza e o ritmo das fainas agrícolas e pastorícias, terá levado esse sector da Igreja a aplicar a Jesus uma “receita” ou uma chave de interpretação a condizer, para que as respectivas populações e os respectivos povos catequizados por ela mais facilmente aceitassem trocar os míticos deuses e deusas da sua alienação e da sua desgraça pelo Deus de Jesus. A intenção, naquele contexto, é compreensível, mas não deve ser considerada nem exemplar nem paradigmática. Muito menos, poderá passar a fazer parte da essência da Revelação de Deus em Jesus, o de Nazaré. Coisa que, como se vê por esta sua Mensagem para a Quaresma 2007, o papa Bento XVI insiste em fazer para seu e nosso mal e, com ele, a generalidade dos bispos e teólogos das universidades católicas do mundo ocidental.
Já foi mau que a primitiva Igreja agisse assim, porque as populações embora tivessem trocado os seus míticos deuses e deusas por Jesus, não trocaram os respectivos conteúdos teológicos. Tão pouco trocaram de Fé. Apenas trocaram de nomes. Os conteúdos continuaram a ser os mesmos do crasso e inumano paganismo religioso. E a prova é que ainda hoje, 20 séculos depois, as populações não ilustradas e não evangelizadas continuam aí confrangedoramente mergulhadas nos seus ancestrais medos e a fazer toda a espécie de sacrifícios, mesmo os mais cruéis, numa desesperada tentativa de desagravar Deus e de lhe agradar. É por isso um crime sem perdão que a hierarquia católica, com o papa Bento XVI e os cardeais da Cúria romana à cabeça, comete, ao instigar as populações a perseverar, geração após geração, nessas práticas sacrificialistas, com particular incidência, durante as sinistras quatro semanas da Quaresma, da semana da Paixão e da Semana Santa, sem dúvida o teatro religioso medieval mais macabro que, para nossa v ergonha, conseguiu entrar já terceiro milénio além!
A Mensagem para a Quaresma 2007 do papa Bento XVI, ao enveredar por esta tradição/cultura religioso-pagã, acaba por ser um tremendo erro e um tremendo crime teológico. Ofende Deus, o de Jesus. E ofende Jesus, o de Nazaré. Consequentemente, ofende também a Humanidade em geral e as populações católicas em particular. Em lugar de arrancar as populações do sacrificialismo pagão, incute-lho ainda mais com pseudo-argumentos teológicos de autoridade, que resultam do lugar de chefe incontestado da Igreja católica que Bento XVI goza dentro dela, os quais só podem estar na continuidade das perversas teologias deístas do Paganismo religioso, contra as quais Jesus se insurgiu e conflituou até ao sangue e, por isso, acabou como a sua vítima maior e paradigmática.
Não se pense, porém, como erradamente ensina o papa, na peugada de um certo Cristianismo mítico e pagão, que não na peugada do Cristianismo de Jesus, o de Nazaré e da sua teologia libertadora, que o sangue derramado por Jesus é que nos salva e ao Mundo. O que nos salva é a prática histórica e política de Jesus, feita essencialmente de Misericórdia reabilitadora e integradora e de Luta/Combate ideológico-teológico até ao sangue contra o sacrificialismo das religiões e contra as crenças populares nos míticos deuses e deusas do Paganismo que incitavam as populações oprimidas e empobrecidas a enveredar por essas práticas sacrificialistas, sado-masoquistas, nas quais muitas vezes perdiam a própria vida, ou faziam perder a vida aos seus próprios filhos e filhas.
Foi contra todas estas práticas sacrificialistas de seres humanos e de animais que Jesus se levantou, numa luta duélica e martirial, em que acabou por perder a vida. Com esta sua entrega incondicional à radical libertação da Humanidade, o Templo e o Império que, ainda hoje, continuam a promover, de múltiplas maneiras, tais práticas sacrificialistas religiosas e até as abençoam – é sobretudo graças a elas que um e outro disfarçam toda a sua crueldade e perversão – não lhe perdoaram e mataram-no na Cruz. A Morte que lhe deram constituiu, por isso, o crime dos crimes, o pecado dos pecados. Como tal, de modo algum pode dar glória a Deus. Ou salvar a humanidade. Nunca o crime dos crimes e o pecado dos pecados podem ser fonte de salvação para ninguém. E um Deus que se agradasse de semelhante coisa seria a própria Perversão em acção. O que verdadeiramente agrada a Deus Vivo e por isso Ele se apressou a glorificar/ressuscitar Jesus, isto é, a dar-lhe razão e a ficar incondicionalmente do seu lado, e não do lado dos sacerdotes do Templo e dos poderosos do Império que o mataram, é a prática radicalmente libertadora e fecundamente solidária que ele assumiu até ao limite e para lá do limite, contra a ideologia-teologia idolátrica que, onde estiver em vigor, sempre justificará a existência do Templo e do Império e abençoará e canonizará os seus algozes/verdugos sacerdotes e poderosos, sem alguma vez denunciar quem assim tanto o odiou e o fez sofrer. Esta prática jesuânica intrinsecamente libertadora e salvadora que sempre havemos de prosseguir, através dos tempos e em toda a parte, também hoje neste início do século XXI, nós os seres humanos que nos revemos em Jesus e o aceitamos como o nosso Paradigma e como o nosso Mestre. O que não for assim é alienação e pecado mortal, ou pecado que mata. Por mais que se disfarce de teologia.
Mentira, e Mentira institucionalizada são, pois, todas as Religiões e os deuses/deusas das Religiões. São Mentira e Perversão. Soubemo-lo, de forma contundente, à luz da subversiva prática política de Jesus, o de Nazaré, e ainda mais contundentemente, à luz da sua Morte violenta na Cruz. Quando o Templo e o Império se uniram e o mataram desse modo, foi porque perceberam que, com Jesus, a Luz do Mundo, o seu tempo tinha chegado ao fim. E para que ambos pudessem prosseguir, só havia uma saída: tinham de se unir como um só, prender Jesus, julgá-lo sumariamente, condená-lo à morte mais vergonhosa e, finalmente, executá-lo na cruz. Desse modo, até o seu nome seria o de um proscrito e o de um maldito que ninguém mais pronunciaria sobre a terra. Foi o que logo fizeram. Com manifesto êxito. Mas esse crime dos crimes não foi ainda suficiente, sobretudo, a partir do momento em que algumas discípulas, alguns discípulos desse Homem começaram a dizer que Deus Vivo, e a Verdade e a Razão estavam com ele, e não com os do Templo e do Império. Quando viram que não conseguiam silenciar semelhante Boa Notícia ou Evangelho anunciado aos pobres e aos oprimidos, logo avançaram noutro crime ainda mais perverso: converteram o Homem Jesus num mítico Deus das religiões do Paganismo. E como o nome Jesus não se prestava muito a esta Mentira, porque sempre remetia para um homem histórico e para a sua prática radicalmente libertadora e salvadora, passaram a chamar-lhe de preferência Cristo. E assim ficou até hoje. Ao mesmo tempo, cobriram de privilégios e de mordomias os chefes dos sacerdotes da nova religião que deveria cultuar o seu nome e promover-lhe o culto entre as populações feitas cristãs à força. E seria esta religião que acabou por tornar-se a única religião oficial do Império.
É nesta corrente de Mentira que se insere o teor da Mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2007. Nela, o papa insiste em dizer ao Mundo que Deus continua muito magoado com os seres humanos, porque, nas origens da Humanidade, os dois primeiros seres criados, uma tal Eva e um tal Adão, O ofenderam miseravelmente, por instigação da astuta Serpente que lhes falou no paraíso onde eles viviam nus e sem problemas. Semelhante ofensa nunca mais foi esquecida nem perdoada. E, desde então, a Humanidade ficou condenada a penar. Valeu-nos, nesta desgraça, o próprio filho único de Deus que, há pouco mais de dois mil anos atrás, se terá oferecido ao sádico Deus pai para vir ao mundo sofrer até à morte, derramar todo o seu sangue, como sacrifício de expiação pelos pecados dos seres humanos e em seu nome. O sádico Deus pai achou muito bem e agradou-se até dessa sua imolação. E, perante todo aquele sangue derramado, lá perdoou aos seres humanos, embora todas as mazelas que são atribuídas a esse horrendo pecado das origens continuem aí, incompreensivelmente, a afligir os seres humanos todos, se bem quemais as maiorias pobres do que as minorias ricas. Por outro lado, o perdão não terá sido nem total nem duma vez por todas. Porque desde então, os seres humanos ficaram obrigados oferecer diariamente a Deus aquele mesmo sacrifício nos templos e altares, se bem que agora de modo incruento. E, a esse sacrifício de Cristo, ainda têm de juntar também os seus próprios sacrifícios, os mais difíceis e dolorosos - jejuns e abstinências e outros muito mais sádicos - que os seres humanos forem capazes de suportar. Mas não só. Ainda têm de pagar aos sacerdotes do Templo que a tudo presidem diariamente em nome deles. Assim como têm de obedecer aos chefes do Império que a tudo superintendem no mundo. Sem esquecer que ainda hão-de aceitar, eles e os filhos deles, geração após geração, ser carne para religião/santuário e carne para canhão/guerras, sem o que nem o Templo nem o Império poderão subsistir!...
É claro que toda esta teologia, subjacente à Mensagem de Bento XVI para a Quaresma 2007, é manifestamente deísta e pagã. Apresenta-se-nos tecida de Mentira e de sadismo, própria de um Deus-Mentira-e-Ódio que se compraz na opressão, na depressão, no sofrimento e até na morte das pessoas e dos povos (basta apenas lembrar aqui que Adão e Eva nunca existiram como dois seres humanos e que o pecado original historicamente também nunca existiu a não ser nos relatos míticos das origens. Consequentemente, toda a teologia eclesiástica, como a desta Mensagem do Papa para a Quaresma 2007, que assenta nestes dois mitos fica sem base de apoio, pelo que insistir em ir por aí é ser contumaz e pecar contra o Espírito Santo). Trata-se por isso duma teologia que oprime e mata as pessoas e os povos, que é avessa à sua felicidade, ao seu desenvolvimento integral, à sua autonomia e à sua liberdade e responsabilidade perante a História.
Contra ela, e em alternativa a ela, ergue-se, felizmente, como Luz na Treva, a teologia de Jesus, o de Nazaré, própria de Deus-Verdade-e-Amor que não quer o sofrimento nem a morte das pessoas e dos povos, e, ao contrário, tudo faz, em ininterrupta comunhão connosco, os seres humanos, mediante o seu Espírito criador, para que nos tornemos suas filhas, seus filhos, criadores, livres, autónomos, responsáveis, protagonistas da História, numa palavra, sororais/fraternos. Em Jesus, o de Nazaré, foi assim que Deus Vivo se nos deu definitivamente a conhecer e a este seu Projecto Boa Notícia ou Evangelho. Desde então para cá, Deus Vivo só pode esperar que nós alegremente nos abramos a Ele, que O deixemos ser Deus em nós e connosco e que cooperemos com Ele como suas filhas e seus filhos em estado de maioridade, numa prática eucarística cada vez mais consequente e cada vez mais abrangente!
2007 FEVEREIRO 19
Foi na noite da passada sexta-feira, 16, na UNICEPE, Cooperativa Livreira, no Porto. Aconteceu o 83.º Jantar de Amizade, seguido de Tertúlia. Chamou-se-lhe e bem “Jantar de Emaús em comunhão com Abbé Pierre definitivamente vivo”. Fui convidado, juntamente com o Pe. Serafim Ascensão para animarmos a tertúlia ao nosso jeito. Primeiro, falou o meu querido amigo e colega, sobre quem o folheto-convite recorda que passou já por diversas paróquias da diocese do Porto, numa das quais, a paróquia de S. Martinho do Campo, concelho de Valongo, onde quase acabou “crucificado”. Os grandes interesses da região não lhe perdoaram que ele sistematicamente extravasasse os ritos e as missas dominicais sem profecia; muito menos que tivesse uma prática pastoral que abria os olhos às populações mais empobrecidas. E fizeram-lhe a vida negra, até que conseguiram que o Bispo da Diocese o retirasse de lá, com escândalo para muitas, muitos. É por isso um padre muito próximo do Abbé Pierre. Como ele, também o Pe. Serafim Ascensão gosta de olhar nos olhos as pessoas e é incapaz de passar adiante, quando nos olhos delas decifra solidões e muitas dores ainda não escutadas, muito menos acompanhadas e curadas. Um padre/presbítero assim, com tanta simpatia (= sofrer com) pelos Ninguém, só poderia acabar a trocar de vez os privilégios e as seguranças das paróquias católicas e das suas rotinas eclesiásticas pela Comunidade Emaús, na Rua do Almada, Porto, na condição de companheiro-animador entre companheiros. A tempo inteiro! O texto que se segue é a reflexão integral que eu próprio procurei escutar durante a tarde daquele mesmo dia para, depois, a partilhar à noite na Tertúlia. Vejam se conseguem não tropeçar no salutar escândalo com que esta reflexão teológica se tece e mergulhem desarmadas/desarmados na Mensagem libertadora que a atravessa. Eis.
Este é um encontro com Abbé Pierre definitivamente vivo. Por isso tem de ser um encontro fecundamente perturbador. Subversivo. Não pode ser um encontro de homenagem. “Depois de fazerdes tudo o que devíeis, dizei: Somos servos inúteis”. É de Jesus, o Homem que jamais havemos de homenagear e que nunca homenageámos. Apenas nos reunimos em seu Nome e em sua Memória. Em assembleias/Mesas Partilhadas que têm de ser sempre conspirativas, coisa que, infelizmente, ninguém vê acontecer por aí nessas missas rotineiras, realizadas semana após semana no país e no resto do mundo ocidental e que mais não são do que ritos vazios, sem profecia, concebidos e realizados para sossegar consciências atormentadas, de pessoas co-responsáveis por uma Ordem Económica Mundial feita de Mentira e de Homicídio. À porta de cada templo, igreja paroquial e catedral, havia de estar afixado em grandes letras, para ter de ser lido por quem vai entrar: “Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste da tua irmã/do teu irmão? O seu sangue derramado, a sua fome, a sua humilhação, o seu grito de dor, o seu desemprego, a sua miséria clamam do chão, da rua, por Mim. Que fizeste?” (Génesis 4)
Não se trata de homenagear Abbé Pierre, porque ele, como ser humano consciente e ilustrado, mais não fez do que devia. Do que se trata é de nos deixarmos encontrar, como ele deixou, por Jesus definitivamente vivo nos nossos diversos caminhos de Emaús e de nos deixarmos contagiar pela sua Palavra prenhe de Espírito libertador e interpelador, presente sobretudo nas vítimas da História, ora como a brisa de Ternura duma festa nos cabelos ou dum beijo, ora como o tsunami duma Acção Política Violenta, estilo 11 de Setembro, em Nova Iorque, ou 11 de Março, em Madrid. E, depois, à luz dessa Palavra com Espírito, e empurrados/espicaçados por ela, vermos este nosso Mundo onde nascemos e vivemos na sua verdade nua e crua, sem os habituais disfarces das cínicas ideologias dominantes e sem os moralismos farisaicos das religiões em geral e das igrejas em particular. Se tal suceder, veremos então acender-se a nossa Mente e inflamar-se o nosso querer em Insurreição, em combate político; sentiremos o Coração bater acelerado e, a partir daí, já não conseguiremos pensar nem querer outra coisa na vida que não seja tornarmo-nos mulheres/homens do jeito desse mesmo Jesus definitivamente vivo que nos saiu ao caminho, e prosseguirmos, incansáveis e imaginativos, as suas Causas maiores, os seus Combates, as suas Lutas, os seus Conflitos, os seus duélicos Enfrentamentos teológicos, até que todos os fabricadores de vítimas, os seus sistemas, as suas religiões e as suas igrejas, mais os seus grandes media nos detestem, nos caluniem, nos maltratem, nos excluam, nos persigam, tratem o nosso nome como infame/maldito, numa palavra, nos excomunguem definitivamente do seu mundo de privilégios e de crimes sem perdão, de Mentira e de Homicídio em massa. E nós deixemos irreversivelmente de ser deles e passemos a viver ao lado das suas vítimas e com elas, muitas vezes, até incompreendidos por elas, nomeadamente, aquelas cujo sonho maior é, não destruir as fábricas de produzir vítimas aos milhões, mas passar-se para o mundo dos privilégios, nem que seja para tornar-se verdugo às ordens das Administrações e dos Executivos que estão à frente dessas fábricas…
“Que fizeste da tua irmã/do teu irmão?” Num mundo assim, como este nosso, que Abbé Pierre conheceu por dentro como poucos e quis mudar/salvar/humanizar, onde é que temos hoje os nossos pés, a nossa cabeça, o nosso coração? A que classe pertencemos? Que grupo social integramos? Em que grupo ou classe nascemos e estamos neste momento, em 2007? Em que grupo ou classe vamos um dia morrer/explodir?
É manifesto que não integramos a minoria dos grandes ricos, como aquele grande rico da parábola evangélica de Lucas. Eram tantos e tais os seus luxos e privilégios e as suas riquezas, que ele nem via o pobre Lázaro que jazia à sua porta na companhia dos cães e em condições abaixo da deles. Não temos estômago para semelhante crueldade, para semelhante inumanidade (não temos estômago, ou apenas nunca tivemos oportunidade para chegarmos tão longe, para subirmos tanto na vida em solidão, para crescermos tanto em riquezas e em poder, em insensibilidade e em inumanidade? Sim, porque muitas vezes só não estamos aí, porque nunca tivemos oportunidade. Desejo/ambição/sonhos para isso não faltaram. Não seremos, por isso, grandes ricos frustrados? Não gostaríamos de ser um Gates, um Belmiro de Azevedo, nem que seja a pretexto de que, se o fôssemos, seríamos bons grandes ricos?!)
É igualmente manifesto que também não integramos a multidão incontável dos Lázaros, mulheres, homens e povos do mundo, nossos contemporâneos, condenados a ter de viver hoje abaixo de cão. Nem sequer Abbé Pierre alguma vez integrou. Foi sempre, como ele próprio reconhece, um filho de família, um abbé (abade/padre), uma vedeta, uma personalidade, votada e reconhecida, ano após ano, pelos franceses. E na hora final do seu percurso histórico, até pôde contar no funeral do seu cadáver com a presença de grandes personalidades, entre as quais o próprio chefe de Estado francês, um cardeal a presidir, juntamente com vários bispos da Igreja católica. Tão pouco os media de França e do Mundo puderam titular em manchete: MORREU UM MALDITO! Mas foi exactamente o que disseram de Jesus, o de Nazaré, ao crucificá-lo entre outros dois subversivos políticos! (é por isso que o nosso carinho e o nosso afecto podem ser muito grandes para com Abbé Pierre, até estremecermos perante o exemplo da sua vida fraterna e solidária, mas precisamente porque ele nos faz sentir ainda mais saudades de Jesus, o Homem por antonomásia, a quem o Templo e o Império do seu tempo e país crucificaram como o Maldito dos malditos!). E quem são os Lázaros, hoje, cuja incontável multidão de seres humanos não integramos? São os muitos muito pobres, melhor, empobrecidos, os oprimidos, os escorraçados, os sem eira nem beira, os Ninguém. Todos os do Terceiro Mundo, do Quarto Mundo e do Quinto Mundo!...
É então manifesto que os que aqui estamos neste jantar de amizade e nesta tertúlia, só podemos estar no enorme grupo ou classe que fica entre os dois grupos extremos que não se comunicam, como se entre eles houvesse um abismo intransponível, por isso, muito justamente chamada classe média – média baixa, média ou alta. É aqui, nesta classe média que nós os que aqui estamos nascemos; ou é aqui que, mais cedo ou mais tarde, acabamos por vir parar. Somos dos que abriram os olhos, dos que subiram mais ou menos na vida, dos que arranjaram emprego estável, dos que estudaram, quando era difícil consegui-lo, dos que têm tido saúde e meios para a tratar, dos que evoluíram, dos que vivem dotados de consciência ilustrada, dos que têm conta bancária, dos que têm casa, dos que têm carro, um curso, bom nome na praça, crédito, influência, amigos, afectos, família, beleza, boa apresentação, educação, boas maneiras. E até viemos a este jantar/tertúlia, onde a incomensurável multidão dos muitos muito pobres nunca se atreveria a entrar, tão pouco chega a saber que ele está aqui agora a decorrer…
“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” Os grandes ricos não ouvem esta pergunta, por mais que ela esteja a ser ininterruptamente formulada! “Têm Moisés e os profetas: que os oiçam!”, responde a personagem Abraão, da parábola evangélica de Lucas, quando o grande rico, do seu abismo de Solidão e de Inumanidade, se lhe dirige a pedir que mande Lázaro aos palácios onde vivem todos os outros muito ricos, para que caiam na real e se convertam em seres humanos. Mas o dramático é que eles não ouvem sequer os profetas que falam em nome das vítimas, muito menos ouvem/vêem as vítimas. Nunca as olham nos olhos. São cegos, surdos, insensíveis, numa palavra, inumanos, monstros! “Nem que um morto ressuscite e lhes fale, nem assim eles mudarão, eles converter-se-ão em seres humanos. Continuarão a ser o que são: monstros!" É o que Abraão, a referida personagem da parábola de Lucas, responde ao grande rico definitivamente perdido na sua Solidão e na sua Inumanidade. Isto quer dizer que, da parte dos grandes ricos e dos seus sistemas/religiões/igrejas não poderemos esperar nunca a libertação/salvação/humanização do mundo. Deles, só vem perdição/opressão/humilhação/solidão/vítimas/morte. Eles e os seus sistemas/as suas religiões/igrejas/ideologias são Mentira e Homicídio/Genocídio.
“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” Jesus, no mesmo Evangelho de Lucas (capítulo 6), diz isto mesmo, logo nas suas palavras programáticas: “Felizes vós, os pobres, porque é vosso o Reino de Deus”; e: “ai de vós, [grandes] ricos, porque já tendes a vossa consolação!” Não se refere à classe média (baixa, média, alta), onde estamos todas/todos os que aqui nos encontramos nesta sala. Quer dizer que Jesus sabe que não pode contar connosco na primeira linha do Combate, da Revolução, que há-de mudar/salvar/humanizar este nosso mundo concebido e edificado segundo o sopro descriador que atravessa a actual Ordem Mundial do Dinheiro, da Mentira/Poder e da Religião. Por isso é que não se refere a esta classe ou grupo social nas suas palavras programáticas de Acção Política Revolucionária/Criadora/Libertadora. O Evangelho chega a dizer que ele ainda terá pensado em alguns deste grupo ou classe social na primeira linha desse Combate político, mas depressa percebeu que não seria viável. Foi quando escolheu o Grupo dos Doze para andarem com ele e cooperarem com ele na libertação/salvação/humanização do mundo. A verdade é que todos vieram a falhar redondamente! Depois de escolhidos por ele, um a um, começaram logo a sonhar com lugares cimeiros, de poder, uns à sua direita e outros à sua esquerda, exactamente como os grandes ricos. E é exactamente assim que ainda hoje procedem os que se reclamam de seus sucessores (!), os bispos da Igreja, que o são mais na sede de privilégios e de Poder sagrado, do que na disposição de entregar/doar incondicionalmente a própria vida!... (As excepções, que as há, só confirmam a regra).
Com quem Jesus conta para libertar/salvar/humanizar o mundo é com os muitos muito pobres. Lá está: “porque é vosso o Reino de Deus”. Isto é, aos muitos muito pobres pertence dar corpo na História ao Reino de Deus, à Ordem Mundial alternativa, concebida e edificada segundo o Sopro/Espírito de Deus vivo e criador de filhas/filhos à sua imagem e semelhança, por isso, livres, autónomos, responsáveis, de maioridade, sororais/fraternos, em relação/partilha/comunhão de vida e de bens uns com os outros. Ou, por outras palavras, ainda mais políticas: A vós, os muitos muito pobres pertence fazer a Páscoa/Passagem deste mundo cruel e inumano, fabricador de vítimas aos milhões, para o mundo da Sororidade/Fraternidade, da Liberdade, da Dignidade, da Responsabilidade, da Justiça, da Paz.
“Onde está a tua irmã/o teu irmão? Que fizeste?” E então nós, os que integramos a classe média (baixa, média ou alta), não temos missão política a fazer na História? Por sinal, é isso que pretendem os grandes ricos, as suas igrejas e religiões que tudo fazem para nos distrair, entreter, adormecer, desmobilizar politicamente. Mas é aqui que o exemplo de Abbé Pierre definitivamente vivo nos fala e se nos revela fecundamente paradigmático. Porque se não tivermos a audácia de descermos até nos fazermos voluntariamente pobres em comunhão com os muitos muito pobres e passarmos a integrar a multidão dos sem-tecto, sem-família, sem-afectos, sem-salário, sem-mesa, numa palavra, a multidão dos excluídos, dos escorraçados, dos malditos, ao menos, coloquemos todas as nossas capacidades, a nossa inteligência, o nosso saber, o nosso querer, o nosso ser e o nosso ter, numa palavra, o nosso viver ao serviço da Revolução que os empobrecidos do mundo têm que realizar, na primeira linha do combate político. Em lugar de colocarmos todas as nossas capacidades, a nossa inteligência, o nosso saber, o nosso querer, o nosso ser e o nosso ter, numa palavra, o nosso viver ao serviço do Sistema, das Religiões, das Igrejas. Façamos pelo menos como Abbé Pierre. E ainda muito mais do que ele, como o bispo salvadorenho Óscar Romero, o Bispo francês Jacques Gaillot, felizmente, ainda a viver entre nós, Che Guevara, Martin Luther King, Ignacio Ellacuría e os seus companheiros, todos barbaramente massacrados pelas tropas salvadorenhas ao serviço do Império ianque. Sejamos, como todos estes e muitos outros, elas e eles, foram, verdadeiros “intelectuais orgânicos” no meio dos muitos muito pobres do mundo e com eles. Parteiras/parteiros junto deles e com eles. Sem nunca os substituirmos. Sem nunca nos arvorarmos em seus líderes. Maiêuticos sempre, para que eles sejam Cristo=Messias=Libertadores. Porque, se nos atrevermos a ser ainda mais radicais que Abbé Pierre, talvez acabemos na Cruz como Jesus, o de Nazaré. E malditos quanto ele.
2007 FEVEREIRO 15
Os bispos católicos portugueses continuam reunidos em Fátima. Desde a passada 2.ª feira, 12, o dia seguinte à vitória do SIM no referendo à Lei de despenalização do aborto. Ao que informaram alguns jornais, estão em retiro. E, como mandam as (más) regras, enquanto o retiro durar, os bispos não falam. Pelo menos, para o país. O mesmo já não sucederá entre eles, certamente. Terá sido tão violento o choque pela estrondosa derrota do NÃO no referendo à lei de despenalização do aborto e de descriminalização das mulheres que por sua opção abortarem nas primeiras dez semanas de gravidez, que os bispos católicos portugueses até perderam a fala. Pelo menos por uns dias. Depressa a recuperarão, concerteza. Será que o farão para começar por pedir perdão às populações pelo mau exemplo que lhes deram, durante a pré-campanha e a campanha do referendo, e pelo pecado grave que cometeram contra elas? Ou, pelo contrário, vão dar-lhes mais uma pública reprimenda por elas esmagadoramente não terem ido votar e, sobretudo, por entre as que foram votar, terem votado esmagadoramente SIM à lei, quando eles tudo fizeram, desde os apelos às ameaças, das missas aos inúmeros jornais diocesanos e paroquiais e muitos outros regionais que controlam no país, para que elas votassem NÃO?
O país tem que esperar que suas excelências reverendíssimas se decidam a pronunciar-se. Deveriam ter falado, logo na noite do dia 11, após terem sido divulgados os resultados do referendo. Deviam uma palavra às populações em geral e em especial às inúmeras católicas, aos inúmeros católicos que, por sua inspiração e por seu apelo, se organizaram, mobilizaram e deram a cara em múltiplos Movimentos pelo NÃO. Mas os bispos optaram pelo mais completo mutismo e pela mais completa ausência. O que, em meu entender, foi a pior das opções. Foi um mutismo ensurdecedor e uma ausência esmagadoramente opressiva. Com muito de crueldade. De abandono das suas hostes, dos seus cruzados pelo NÃO. Primeiro, atiraram-nos, a elas e a eles, para a refrega, a defenderem o NÃO, de forma muitas vezes irracional e terrorista e, na hora da derrota, nem um deles apareceu a dar a cara. Nem sequer o presidente da Conferência Episcopal.
Ainda são humanos? Será que os bispos ainda não perceberam que, em tempos tão mediáticos como os nossos, esta sua postura colectiva “fala” e o que diz é crueldade? Afinal, que tipo de homens são os bispos católicos portugueses? Têm entranhas de humanidade? Têm sentimentos? Emocionam-se? Ou são meros robots, funcionários eclesiásticos sem alma, sem coração, sem capacidade de se comover, de rir e de chorar? Homens assim, tão eclesiásticos, tão distantes das populações, tão homofóbicos, tão rígidos, tão hieráticos, tão formais, alguma vez nos fazem lembrar Jesus, o de Nazaré, habitualmente em más companhias? Ou apenas nos fazem lembrar a Cúria Romana, a mais cruel das instituições eclesiásticas?
Não apareceram a dar a cara. Não disseram uma palavra. E, para cúmulo, no dia seguinte, foram todos a correr meter-se em Fátima em retiro, para assim prolongarem o seu mutismo e a sua ausência. Mas que opção mais desastrada, esta dos bispos católicos portugueses. E logo haviam de ir todos a correr refugiar-se/esconder-se em Fátima. Não é nada evangelicamente saudável semelhante decisão colectiva. Para mais em Fátima. E sabem porquê? Porque Fátima, com o seu santuário em honra da mítica deusa virgem e mãe, é o lugar mais moralista e mais idolátrico que há no país e na Europa. E também o mais cruel. O mais inumano. O mais mentiroso. O mais contrário ao Evangelho, à teologia e à prática teológica de Jesus. O mais contrário à dignidade dos seres humanos. O sopro/espírito/vento que atravessa aquele Santuário e a sua esplanada é de perversão e de mentira. Por isso, nos antípodas do Sopro/Espírito/Vento de Deus Vivo que se nos revelou definitivamente em Jesus, o de Nazaré. É um sopro/espírito/vento que faz dos seres humanos onde entrar e onde se fizer sentir, mentirosos e suicidas/assassinos, de modo incruento, quase sempre, e, algumas vezes, até de modo cruento. Basta ver o que paradigmaticamente esse mesmo sopro/espírito/vento fez, pelo ano 30 da nossa era, na pessoa dos sacerdotes do Templo/Santuário de Jerusalém e dos chefes privilegiados do Império romano na Judeia. Uns e outros não suportaram o Sopro/Espírito/Vento que possui e anima Jesus, o de Nazaré, e por isso o mataram na Cruz, como a deixar claro, para todo o sempre, que o sopro/espírito/vento que possui e anima os do Templo e os do Império é Mentiroso e Assassino, tal e qual como o seu deus, o Diabo (entenda-se, a Mentira e o Ódio institucionalizados, o Inimigo número um dos seres humanos e dos povos).
Provavelmente, nem os bispos católicos portugueses estão conscientes da fixação que têm em Fátima e particularmente na imagem da sua mítica deusa, com tanto de branco como de cruel. Mas a verdade é que duma fixação se trata. E das piores. Ou os bispos se libertam dela, ou acabam tão cruéis quanto ela. Sempre, é claro, sob a aparência de muito santos, puros, devotos, boas pessoas. Tal como a imagem da deusa que tem olhos mas não vê, tem boca mas não fala, tem ouvidos mas não ouve, tem cabeça, mas não pensa, tem mãos mas não toca ninguém, tem pés mas não se faz próxima. É um ídolo sedento do sangue das populações pobres e deprimidas, das suas dores, dos seus sofrimentos, das suas frustrações, das suas depressões. E também e sobretudo do seu ouro e do seu dinheiro. Do alto daquela Serra d’Aire, onde a colocaram, como numa torre de marfim, atrai para ela e para o seu Santuário as populações não ilustradas e não evangelizadas que vão lá pela lã da saúde e da vida, da paz e da dignidade, e regressam, horas depois, às suas casas totalmente tosquiadas, ainda mais adoentadas e agoniadas, violentadas e humilhadas. O único que sai a ganhar com toda esta Mentira organizada é o Santuário, o tesouro do Santuário. E, é óbvio, saem também a ganhar os Sacerdotes e outros comerciantes do sagrado que estão por trás a gerir todo o negócio e a esfregar as mãos de satisfação. Uma satisfação demoníaca, diga-se, feita de crueldade, de sadomasoquismo, o mais blasfemo e o mais sacrílego.
Tenho pensado no porquê desta fixação dos bispos católicos portugueses em Fátima e na imagem da sua senhora/deusa. Não será porque todos eles são clérigos a viver sem mulher e sem afectos, mais por imposição da lei eclesiástica do celibato do que por opção pelo Reino de Deus? Não será também porque, no fundo, o que eles mais querem é que todas as mulheres do seu “rebanho” sejam como a representada na imagem de Fátima, por isso, mulheres sem sexo, sem seios, sem beleza, sem cabelos soltos, sem braços para abraçar, sem boca para falar e beijar, sem movimento, sem mãos livres, sem homem, sem prazer sexual, sem orgasmos, sem olhos, numa palavra, apenas servas/escravas obedientes dos senhores que são eles próprios, sem emoções, sem entranhas de ternura e de misericórdia?
Escrevo tudo isto com dor. Porque gostaria que os bispos, meus irmãos, fossem de outro jeito. Não do meu, evidentemente, mas do jeito de Jesus, o de Nazaré. Assim, são do jeito do Poder. E quanto mais são do Poder, menos humanos são, menos companheiros, amigos e próximos das pessoas. Temo que eles vivam tão fora da realidade, tão acima e tão fora deste mundo, tão distantes dos seres comuns que somos quase todas, todos nós, que nem sequer entendam esta minha reflexão, cheia daquela violência que só a ternura fraterna é capaz.
Abandonem, meus irmãos bispos, os vossos tronos de marfim e desçam ao encontro das mulheres e dos homens de carne e osso. Vivam connosco e entre nós. Todos os dias. Habitem casas como as dos demais. Sem porteiro e sem criadas e criados. Vivam à intempérie. Frequentem os locais que toda a gente frequenta. E sereis mais companheiros nossos, porque também mais companheiros de Jesus. Aprendereis a conversar, longe das catedrais e das homilias. Sede Missas vivas no meio das populações e com elas, em lugar de homens dos ritos nas catedrais, dos rituais, dos báculos, põe-mitra-tira-mitra, a cheirar a sacristia e incenso e a cera queimada. Vereis que o resto virá por acréscimo.
Sei que estou a pedir-vos o impossível. Mas, depois do SIM no referendo, não tendes outra saída. O país não é mais como vós pensais que é. Não é mais católico romano, como vós ainda sois. É um país mais humano e, por isso, bem menos cruel do que vós. Disse SIM à lei de despenalização do aborto e de descriminalização das mulheres que optarem pelo aborto até às primeiras dez semanas de gravidez. Vós dissestes NÃO. Aliás, ainda hoje continuais sadicamente a dizer NÃO, mesmo naqueles três casos excepcionais de aborto que a lei, independentemente deste referendo, já admite. Assim como dizeis NÃO ao uso responsável do preservativo, da pílula como método contraceptivo, e da pílula do dia seguinte. Sois cruéis. Não tendes entranhas de humanidade nem de misericórdia. Regulais-vos por um princípio que tem por pai o Diabo, o Princípio-Lei, em lugar de vos regulardes pelo Princípio que tem Deus vivo por Mãe/Pai, o Princípio-Misericórdia, que é o de Jesus e do Evangelho de Deus, que ele é. Sois cruéis. Sois pela penalização e condenação das mulheres que abortarem, quaisquer que sejam as circunstâncias. Bem sabeis, pelo menos em teoria, que a letra mata e que só o Espírito é que dá vida. Mas optais pela crueldade da lei penal e ainda pensais que é assim que se defende a vida!
E agora, meus irmãos bispos, depois deste resultado do referendo, o que ides fazer? O que ides dizer? Como ides viver? Será que ides continuar como até aqui? Será que não vos deixais evangelizar pelas populações portuguesas? Só pela Cúria Romana? Não vedes que a Cúria Romana é cruel? Porque lhe dais ouvidos? Porque fazeis o que ela vos diz para fazer? Porque não sois dissidentes dela? Não vedes que só assim sereis bispos da Igreja de Deus? A quem ireis seguir? À Cúria Romana, ou a Jesus, o de Nazaré? De quem quereis ser discípulos? Esqueceis o grito que vem da primitiva Igreja e de Jesus que diz: Mais vale obedecer a Deus do que aos homens do Poder? E não são homens do Poder os cardeais da Cúria Romana? E o próprio Papa? O Serviço de Pedro na Igreja não é um ministério totalmente distinto do que tem sido e continua a ser o Papado?
O país é testemunha de que vós apostastes tudo no NÃO à lei que foi referendada. E perdeste em toda a linha. A vitória do SIM foi como um tsunami para vós e para a Igreja hierárquica católica que sois. Mas foi um pequeno Pentecostes para as populações, nomeadamente, as mais empobrecidas e oprimidas. E para a Igreja de Jesus, feita de misericórdia e de ternura. E também de conflito, ou ela não tivesse que resistir até ao sangue a toda a idolatria, a começar pela do Moralismo religioso e a acabar na do Dinheiro. O pior que podereis fazer é fazer de conta que isto não foi mais do que um pesadelo. Foi muito mais. Foi um Apocalipse. Uma Revelação. Pôs a nu que o vosso Deus não é o de Jesus. É um Deus cruel. Um ídolo. Veio revelar que a vossa fé não é a de Jesus. É uma fé idolátrica e deísta. É uma fé que se agrada de sacrifícios humanos, não de combates duélicos para lhes pôr termo.
Por isso, tendes de mudar de Deus. Tendes de mudar de Fé. Tendes de vos converter ao Evangelho e acreditar na boa notícia de Deus que ele é. Sois capazes de tanto? Oxalá. O país espera isto de vós. Renunciai de vez ao Poder sagrado. Desisti de ser hierarquia eclesiástica. É ela que vos cega e faz cruéis, sem entranhas de humanidade. Sede bispos, simplesmente. Assumi o episcopado como o ministério dos ministérios, o Serviço dos serviços libertadores na Igreja, para que toda a Igreja seja serva libertadora da Humanidade. Fugi do Episcopado como Poder sagrado, como hierarquia. Esta é a hora, Depois da derrota que sofreste, esta é a hora da conversão ao Evangelho. Compreendei que foi o Poder sagrado, foi a hierarquia eclesiástica católica que sofreu esta derrota. Aceitai esta derrota com humildade e alegria. Morrei como bispos-Poder eclesiástico. Ressuscitai como bispos-Servos do Evangelho de Deus que é Jesus, o de Nazaré. Morrei para a fé deísta e ressuscitai para a Fé de Jesus. Trocai o Moralismo pela Liberdade. A Lei eclesiástica-canónica pela Graça e pelo Espírito Santo. Trocai a Mentira, que nos faz escravos e menores, pela Verdade que nos faz livres e responsáveis. Abandonai as catequeses e os sermões terroristas pelo Evangelho. E vereis que o 11 de Fevereiro 2007, o dia do SIM no referendo, marcará o início de uma nova era no nosso país, na Europa e no resto do mundo. A era dos seres humanos livres e responsáveis. Progressivamente fraternos e comunitários. Sereis capazes de tanto? Cantarei e dançarei em Eucaristia como um menino, se vir que sim. Dai-me/dai-nos esta alegria!
2007 FEVEREIRO 12
Com a inquestionável vitória do SIM no referendo de ontem, a vida com dignidade e, mais especificamente, a vida e a dignidade das mulheres portuguesas acabam de conhecer um irreversível passo em frente no nosso país e, por arrastamento, na Europa e no resto do mundo. O mesmo se diga da autonomia da sociedade civil portuguesa frente à Igreja católica romana, cuja hierarquia (bispos residenciais e párocos, assessorados por Movimentos de leigas/leigos feitos à imagem e semelhança deles!), infelizmente, nesta matéria, não soube manter-se no seu lugar e continuou a comportar-se como se ainda vivêssemos sob o famigerado regime de Cristandade que o próprio Concílio Vaticano II, de feliz memória, oficialmente enterrou para sempre, mas que ela não se tem cansado de tentar restaurar. No que tem sido vergonhosamente apoiada pela conservadora e moralista Cúria Romana e seus sucessivos papas, os quais têm estado muito longe do espírito de abertura e de macroecumenismo do seu antecessor João XXIII, o mesmo que convocou aquele Concílio, para que ele fosse uma saudável e fecunda Revolução no interior da Igreja católica em todo o mundo.
Estou feliz com este passo em frente, o primeiro de muitos outros que o país terá agora de dar, para consolidar e corporizar esta vitória e para a alargar a outros âmbitos da sexualidade humana e da vida humana em geral que, até agora, têm sido tratados como tabu, também e sobretudo por estúpida imposição do Moralismo sem moral da referida hierarquia católica. Estou feliz e acho que também Deus, o de Jesus, está, porque a sua alegria é que a vida, e vida em abundância e em qualidade tenha cada vez mais oportunidade na História e seja garantida a todas as pessoas, a começar pelas mais fragilizadas e mais pobres.
Dei muito de mim para esta causa maior, assim como muitas mulheres e muitos outros homens, católicas e católicos incluídos, do país. É legítimo que nos sintamos contentes e cheios de esperança. Estaremos também vigilantes, para não consentir que o Poder do Obscurantismo e do Moralismo eclesiástico tente recuperar na secretaria o que acaba de perder no terreno. Por isso, não desmobilizo nesta Causa maior. E peço às minhas irmãs, aos meus irmãos do SIM que não desmobilizem também. Toda a atenção é necessária. E todo o acompanhamento lúcido. Porque os das Trevas costumam ser sempre mais hábeis, nos seus negócios, do que os da Luz. Vigiemos!
A partir deste SIM, o Parlamento tem agora ainda mais luz verde para alterar a actual lei e o Código Penal e terá obrigação moral de ajudar a dotar progressivamente a Sociedade civil de serviços que garantam às populações a possibilidade de saírem de vez do obscurantismo e da ignorância em que grande parte delas ainda hoje vive, neste campo da vida.
É de esperar que os párocos e os bispos aprendam a lição deste referendo e sejam os primeiros a converter-se ao Evangelho de Jesus que não suporta o Moralismo dos fariseus, nem o legalismo em que eles gostam de dar cartas. Já que não evangelizaram as populações, tenham ao menos agora a humildade de se deixarem evangelizar por elas. Neste campo, as populações católicas portuguesas, sobretudo do Centro e do Sul do país, mostraram estar muito adiante da hierarquia. Apenas no Norte do país e nas Ilhas, as populações continuam ainda sob a tutela dos párocos e dos bispos. Mas até aí a situação está em vias de alteração. As novas gerações, mais escolarizadas e mais ilustradas que os seus pais e avós, já não suportam as velhas catequeses eclesiásticas, carregadas de moralismo e de mitos. Bem sei que correm o risco de atirarem fora com a água do banho a Boa Notícia de Deus que é Jesus com a sua prática libertadora e cheia de Misericórdia, mas, mesmo assim, é melhor do que permanecerem prisioneiras do Moralismo e dos Mitos eclesiásticos, como aconteceu com a generalidade das gerações que, desde o imperador Constantino, as precederam até agora. Afinal, a Boa Notícia de Deus que é Jesus chega-lhes, hoje, por outras vias mais seculares, com destaque para a via das Ciências sociais e humanas, que se debruçam sobre os seres humanos e a vida em geral, uma vez que entre Deus, o de Jesus, e a Ciência não há contradição mas convergência, ao contrário do que se passa entre Deus e a Religião, em que a contradição é total.
Perante os resultados do referendo, os bispos residenciais e os párocos católicos farão bem, se reconhecerem humildemente perante o país que perderam em toda a linha. Mas não só. Para que esta sua confissão seja sinónimo de conversão, os bispos e os párocos católicos têm de reconhecer igualmente que a derrota deles é a grande vitória do Evangelho de Deus que é Jesus e a sua prática libertadora e misericordiosa. Se o não fizerem, permanecerão no seu pecado e, como estão canonicamente à frente da totalidade do institucional na Igreja católica, constituem-se num dos mais perigosos inimigos das populações que continuarem a dar-lhes credibilidade e atenção. Serão contumazes guias cegos que arrastarão as populações para o abismo. Dos quais as populações precisam de saber defender-se a toda a hora. E de ensinar as suas filhas, os seus filhos a defender-se também.
Por sua vez, as populações católicas têm que tirar igualmente as suas conclusões. Se votaram NÃO no referendo, por instigação dos párocos e dos bispos, terão de concluir que fizeram mal, porque, em questões de tanta monta, como são as questões da bioética, ninguém, nenhuma pessoa pode alguma vez decidir pela consciência de outro, nem por indicação de outro. Apenas pela própria consciência. E se o outro em questão é pároco ou bispo da Igreja, ainda mais grave será terem decidido por sua indicação ou por sua instigação. Será gravíssimo. Neste caso, farão bem as populações se, de agora em diante, nunca mais derem ouvidos aos conselhos e às ameaças dos respectivos párocos e dos bispos em geral. O descrédito deles, perante as populações do país, é agora ainda maior, depois desta vitória do SIM à Lei de despenalização do aborto. E se, nem assim, os bispos e os párocos derem mostras de verdadeira conversão ao Evangelho de Deus que é Jesus e a sua prática cheia de Misericórdia e de Ternura, então as populações católicas deverão afastar-se definitivamente das suas homilias e das suas catequeses. E passarem a reunir-se umas com as outras em nome de Jesus, nas casas umas das outras, guiadas pelo Espírito Santo que está presente e actuante, sempre que duas ou três pessoas se reúnem em nome e em memória de Jesus.
Esta é, por isso, uma hora de grandes audácias, na Sociedade civil e na Igreja católica. A Vida humana deu um grande passo em frente com a vitória do SIM. A dignidade humana também. Sejamos dignas, dignos desta hora.
2007 FEVEREIRO 09
Os párocos do concelho de Felgueiras protagonizaram no passado domingo uma iniciativa como a cara deles. Convocaram as populações católicas de todas as paróquias que estão sob o seu comando, para o Monte de Santa Quitéria, sobranceiro à cidade de Felgueiras, a fim de, lá do alto, elas e eles gritarem em uníssono NÃO à Lei de despenalização do aborto que vai a referendo este domingo, 11. Responderam à sinistra convocatória apenas aquelas populações que os párocos ainda conseguem manter subjugadas e tolhidas pelas suas catequeses moralistas dominicais. A esmagadora maioria, felizmente, esteve-se nas tintas. Apenas quem ainda se não libertou do Medo de Deus e do Inferno e dos seus Sacerdotes sem entranhas de Misericórdia e de humanidade, mais funcionários de carreira eclesiástica do que irmãos, é que compareceu. E todos com ar de toupeira e de forçados pagadores de promessas. A começar pelos próprios párocos que a tudo presidiram. Como se, de repente, neste início do século XXI, a Idade Média estivesse de regresso a este concelho do distrito do Porto.
Tive de passar àquela hora, a caminho do 8.º Encontro de Espiritualidade em S. Pedro da Cova, Gondomar, por um dos locais onde as populações deveriam começar por se concentrar, e pude ver, já na berma da estrada, um dos párocos com a sua pequena corte de adolescentes de coro, devidamente trajados a rigor. Todos, pároco e adolescentes, vestiam de branco, túnicas dos ombros até aos pés, sobre as suas roupas de uso domingueiro que assim ficavam escondidas. A pose era de envergonhados e humilhados. De condenados. Seres assim, não são gente. São abortos. Não são mulheres nem homens. São uniformes. São súbditos. A começar pelos párocos, súbditos do bispo residencial e do Código de Direito Canónico e dum Moralismo rançoso e imoral que faz deles eunucos à força, quando do que a Humanidade mais precisa é de mulheres e homens livres e insubmissos. E mulheres e homens livres e insubmissos é o que deve fazer o Celibato pelo Reino de Deus, praticantes da libertação, alegremente centrados no Essencial que é invisível aos olhos, nomeadamente, aos olhos dos hierarcas episcopais, condenados a ter de viver solitários na cátedra do poder sagrado e dos respectivos paços, como inacessíveis e intocáveis vestais de carne e osso, mas sem afectos.
Tudo o que o Moralismo sem moral sabe fazer são funcionários ao seu serviço, carne para religião e para santuários, prostitutos do sagrado que engordam e enriquecem à custa de ritos e de cerimónias alienantes que Deus, o de Jesus, só pode vomitar. E que outra coisa são, por exemplo, as missas rotineiras sem profecia e carregadas de Moralismo estupidificante que todos os domingos os párocos realizam, semana após semana, mês após mês, ano após ano, geração após geração, senão vómitos de Deus, o de Jesus? E a prova é que, quanto mais os párocos as fazem, mais as populações que as frequentam ficam adoentadas, tolhidas, oprimidas, aterrorizadas, abortadas, desmobilizadas social e politicamente. Ora, como pelos frutos se conhece a árvore, está à vista de todas as pessoas o que são as missas que tais frutos produzem. O mesmo se diga de todos os outros ritos e todas as outras actividades que os párocos e os bispos residenciais fazem, num corre-corre com tudo de inumano e de prostituído. Nem sequer são actividades inócuas, inofensivas, daquelas que não fazem nem bem nem mal. Não. São actividades prejudiciais. Portadoras de veneno. Carregadas de vírus. Como esta peregrinação ao Monte de Santa Quitéria contra a Lei de despenalização do aborto e das mulheres que em consciência optem por abortar.
De todas estas actividades dos párocos e dos bispos residenciais, as populações precisam de fugir. Parecem actividades pastorais, mas são actividades carregadas de Moralismo e, por isso, carregadas de vírus que, em muitos casos, chegam a ser mortais. Se fossem actividades pastorais, seriam da mesma qualidade das de Jesus, o bom Pastor. Mas não. Andam tecidas de Mentira e de Cinismo, de Hipocrisia e de Humilhação. Aliás, o primeiro a fugir delas foi o próprio Deus, o de Jesus. Pelo menos, desde que os Sacerdotes do Templo lhe mataram o filho muito amado, Jesus, o de Nazaré, nunca mais Deus quis nada com eles. Ao ressuscitar Jesus, Deus disse urbi et orbi, com essa sua Acção/Insurreição, que nunca mais queria nada com os Sacerdotes, seja de que religião ou Igreja for. Muito menos com as religiões que eles promovem e alimentam. Vomita-os a todos e às religiões que eles promovem e alimentam.
De quem Deus gosta é de Jesus, o seu filho muito amado. E do que ele faz. Os Sacerdotes é que não gostam nada que Jesus abra os olhos aos cegos, nem que faça ouvir os surdos e falar os mudos. Nem que faça andar os paralíticos e levante/ressuscite os mortos. Mas Deus é do que verdadeiramente gosta em Jesus, o de Nazaré, e por isso o reconheceu como o seu filho bem amado e colocou-o para todo o sempre como o modelo acabado, perfeito, de ser humano para todos os povos, quaisquer que sejam a sua cor e a sua língua. Os Sacerdotes não gostam e por isso matam-no. E como hão-de gostar dele se, ao fazer todas essas acções libertadoras e promotoras de seres humanos autónomos e sororais/fraternos, Jesus está a dar-lhes cabo do negócio e do poder sagrado, que outra coisa não são as religiões e os cultos a que todos eles presidem em exclusivo nos templos e outros santuários sobre a terra? Então uma mulher, um homem que, graças a Jesus e ao seu Espírito, abre os olhos da própria consciência e, assim, se torna capaz de ver as falcatruas que os Sacerdotes realizam em nome de Deus; ou que começa a ouvir os clamores das vítimas das religiões e das mentiras dos Sacerdotes; ou que começa a falar com ciência e com liberdade; ou que começa a andar sobre os seus próprios pés, sem precisar mais do “apoio” dos Sacerdotes; ou que sai dos túmulos em que os Sacerdotes insistem em mantê-la, mantê-lo a vida inteira, não é uma mulher, um homem que os Sacerdotes nunca mais conseguem subjugar e enganar? Como poderão eles tolerar quem assim os desmascara e lhes estraga tão chorudo e tão prostituído negócio e tanto poder sagrado?
Bem sei que todos ou quase todos os Sacerdotes que hoje pontificam nos templos e altares são, eles próprios, as principais vítimas de catequeses mentirosas e terroristas e moralistas. E de teologias idolátricas, nos antípodas da teologia de Jesus. Convenceram-nos, durante os decisivos anos da sua formação, de que Deus gosta de Religião e que a Religião é que salva a Humanidade. E eles, de posse dessa (in)formação, de bom grado, alistaram-se para essa actividade apresentada como a mais sublime e a mais digna e também a mais salvadora. Mas tudo isso não passa de crassa Mentira. Uma Mentira que eles, os Sacerdotes, têm obrigação, à medida que desenvolvem e reflectem as suas práticas rituais e rotineiras, de detectar e logo passar a lutar contra ela e defender-se dela. Sob pena de serem cúmplices e carrascos das populações. Só Sacerdotes, a quem convém ser cegos, para não perderem estúpidos privilégios, é que não querem ver isto. Mas então não têm desculpa.
Avisadas andarão, pois, as populações que os deixarem a falar e a oficiar sozinhos nos templos e nos altares. Na verdade, Deus, o de Jesus, não gosta nada de Religião. Do que Deus gosta é de Política, enquanto actividade maior dos seres humanos, uma actividade da mesma qualidade e do mesmo Sopro da actividade e do Sopro de Jesus, o de Nazaré. E como poderia a Religião salvar a Humanidade, se toda ela é fruto do Medo e alimentadora do Medo, nomeadamente daquele Medo mais inumano que é o Medo alojado no nosso Inconsciente colectivo, desde os tempos mais tenebrosos, como foram os começos da Humanidade, um Medo que leva quem dele anda possuído a fazer coisas contra si próprio, contra o o seu próprio desenvolvimento integral, contra a sua própria felicidade, contra a sua integridade física e cultural/espiritual, e também contra o seu próximo, sempre a pretexto de que age assim por amor de Deus?
Acham que exagero? Vejam o que se passa em redor de certos santuários de nomeada, no nosso país e no resto do mundo. Apresentados oficialmente como espaços sagrados, mais não são do que espaçosos antros onde os seres humanos que os frequentam são incitados/pressionados/violentados a assumir posturas pessoais e de conjunto carregadas de indignidade, abaixo até de animal, e onde são literalmente sugados do seu dinheiro e do ouro que têm e até do que não têm, como paradigmaticamente denunciam os Evangelhos Sinópticos, ao narrarem o caso concreto daquela viúva pobre do tempo histórico de Jesus que, já então, se sentiu incitada/pressionada/violentada pelo ambiente religioso a dar ao tesouro do Templo de Jerusalém o último cêntimo de que dispunha. O escândalo e a indignação apoderaram-se a tal ponto de Jesus que ele não se conteve e correu a chamar as discípulas, os discípulos que o acompanhavam, para que vissem com os próprios olhos aquele crime de lesa-seres-humanos, nomeadamente, de lesa-pobres, e de lesa-Deus-Vivo que acabava de ter lugar ali diante de toda a gente. E, não satisfeito com isso, levou ainda mais longe a sua justificadíssima cólera: dumas cordas fez chicote e com ele em punho expulsou na hora todos os comerciantes que negociavam no Templo, verdadeiro covil de ladrões, sem se esquecer dos que vendiam rolas e pombas, isto é, os que faziam negócio com a miséria dos pobres, como aquela pobre viúva.
Bem sei que, aparentemente, são as populações que frequentam esses locais que fazem questão de se desfazer do que têm e do que não têm para entregarem ao santuário e ao cofre do santuário, geridos e administrados pelos Sacerdotes. Mas na verdade são os Sacerdotes que a tudo presidem que estão por trás de tudo e que, com o Moralismo que constantemente pregam às populações, desencadeiam e alimentam dentro delas sentimentos de tanta culpa e de tanta indignidade, que elas não têm outra saída senão humilhar-se e sacrificar-se, a vida inteira, como bestas de carga, auto-flagelar-se (quase) até à morte, reduzir-se à condição de abjectos cumpridores de promessas, na convicção de que é assim que agradam, desagravam e dão glória a Deus. Sem que nenhum dos Sacerdotes, oportuna e inoportunamente, lhes diga que, com tais comportamentos, o que conseguem é dar vómitos a Deus, o de Jesus! Porque a Deus, o de Jesus, o que lhe dá glória é ver cada mulher, cada homem que vem a este mundo crescer em idade, em estatura, em sabedoria e em graça, exactamente como Jesus, o Filho do Homem que mais se parece com Ele, tanto que - diz o Evangelho de João - quem o vê, vê o próprio Deus.
Foi por isso um pecado gravíssimo o que os párocos do concelho de Felgueiras cometeram, no passado domingo, um daqueles pecados que O Evangelho chega a dizer que não tem perdão. Numa postura conjunta de sadomasoquismo, arregimentaram as populações católicas que sacrilegamente ainda manipulam e fizeram-nas avançar, manhã cedo, pelas ruas da cidade a rezar o terço à mítica deusa virgem e mãe do Paganismo religioso, contra a Lei de despenalização do aborto e das mulheres que, porventura, continuem a abortar, inclusive nas primeiras dez semanas de gravidez. Ao agirem assim, mostraram bem o que são. São Sacerdotes. Não são pastores. São mercenários que negoceiam com o obscurantismo das populações. Não são profetas. Se fossem pastores ao jeito de Jesus, e profetas desassombrados como ele, em vez de iniciativas deste jaez, havíamos de vê-los a trabalhar incansavelmente com as populações, para que elas fujam do obscurantismo das religiões e se abram à Fé de Jesus, o de Nazaré, de modo a serem capazes de, como ele, discernirem os sinais dos tempos e perceberem por onde é que está a PASSAR o Espírito de Deus criador e libertador de seres humanos à sua imagem e semelhança. Populações assim ilustradas e evangelizadas, é que veriam, em cada momento e em cada situação, o que é bom e o que é mau e decidiriam em consciência. No caso concreto da Lei de despenalização do aborto, a referendar este domingo, as populações ilustradas evangelizadas depressa concluiriam que votar SIM no referendo é, no nosso aqui e agora português, a postura que mais defende a vida e que mais dignifica as mulheres, por isso, é também a que dá mais glória a Deus, o de Jesus, esse mesmo que quer posturas de Misericórdia e vomita todas as posturas de Crueldade, por mais moralistas que elas se apresentem.
Nota: Não se pense que este meu libelo contra os párocos, mais Sacerdotes do que Pastores, mais funcionários eclesiásticos do que Presbíteros da Igreja, se deve ao facto de eu ter deixado de ser pároco. Nada disso. É uma denúncia essencial, decorrente da Fé de Jesus, a única que a Igreja deve fazer sua e prosseguir no tempo e no espaço. Aliás, foi precisamente nos poucos anos em que fui pároco, que comecei a dar-me conta desta perversão clerical. E, ainda sem ver muito claro, como hoje felizmente vejo, logo comecei a combater privilégios clericais e a interrogar-me sobre o para quê de muitas coisas que como pároco tinha que fazer. Com o passar dos meses, vi-me a ser cada vez menos Sacerdote e cada vez mais Presbítero da Igreja, na peugada de Jesus, o de Nazaré. E foi por isso que o Bispo, a partir de determinada altura, deixou de confiar em mim como pároco e passou a olhar-me como uma espécie de "cavalo de Tróia" dentro da Igreja. Até que me retirou a paróquia e sentenciou contra mim, sem que me fosse dada qualquer hipótese de defesa: enquanto for bispo do Porto, você nunca mais será pároco na Diocese. Para ele, isto era uma sanção canónica. Mas para mim, com o passar dos anos, mais não foi do que uma graça que eu agora só posso desejar que todos os que ainda são párocos venham também a receber. A Igreja de Jesus sairá a ganhar. E a Humanidade também. Pelo andar da carruagem, já não faltará muito tempo para que os párocos-Sacerdotes que hoje temos, mais eunucos à força por imposição do Sistema eclesiástico do que eunucos livres e responsáveis por amor do Reino de Deus, dêem lugar a Presbíteros Pastores, cheios de graça e de verdade, de Misericórdia e de Lucidez, verdadeiras leoas humanas, sempre prontos e determinados a sair em defesa dos pobres e dos oprimidos e a denunciar sem descanso as Economias e os Poderes que os fabricam aos milhões.
2007 FEVEREIRO 06
Realizou-se no passado domingo, 4 de Fevereiro, em São Pedro da Cova, concelho de Gondomar, o 8.º Encontro de Espiritualidade com o ateísmo e a idolatria generalizados em fundo. A iniciativa destes encontros é do Jornal Fraternizar. Até ver, tenho sido chamado a animar e coordenar a actividade, o que é motivo de grande alvoroço e entusiasmo para mim e ocasião de grande crescimento espiritual. Desta vez, o Encontro andou às voltas das Tentações descriadoras dos seres humanos que estão aí a bater à porta das mulheres/dos homens e dos povos deste Século XXI, quando, à escala global, paira sobre o Mundo a obscena e cainítica Ordem Económica e Financeira do Império, feita de Mentira e de Homicídio, mas, mesmo assim, sacralizada pelas Religiões, as tradicionais e as mais recentes. A iluminar-nos a Mente e a aquecer-nos o Coração, em ordem à Acção política que se impõe hoje como prática global de salvação da Humanidade e do Mundo, esteve Jesus, o de Nazaré, que paradigmaticamente venceu as três (= todas) tentações que lhe bateram à porta, logo após ele ter decidido e ter passado a ser homem-para-os-demais, com uma prática radicalmente libertadora e salvadora, que fez dele o salvador do Mundo. O Encontro foi inesquecível para quem nele participou. Abriu-nos os olhos da Mente, fez-nos crescer no entusiasmo e enviou-nos, não a explicar o Mundo, mas a transformar/salvar o Mundo. Cabe agora a cada uma, cada um de nós que lá estivemos encontrar as formas concretas de o fazermos nos espaços que são os nossos. O texto que se segue é a saudação integral que partilhei, a abrir o encontro, com as companheiras, os companheiros presentes. O conteúdo da conversa-debate que aconteceu até à hora do almoço partilhado e ainda depois dele fica na consciência e no coração de cada uma, cada um de nós. Eis:
Pela oitava vez, reunimo-nos aqui na casa-sede do Jornal Fraternizar. Vimos atraídos por Jesus, o de Nazaré. O Crucificado pelos sacerdotes do Templo de Jerusalém e pelos representantes do Império romano. Com o aval/a concordância do povo.
Intriga-nos este Homem, filho de Maria, oficialmente apresentado pelas primeiras comunidades de discípulas, discípulos como Homem sem pai, entenda-se, Homem que não se parecia com nenhum dos outros homens conhecidos. “Nascido de mulher”, escreverá Paulo de Tarso, ex-fariseu, depois que se tornou também seu discípulo e apóstolo.
Que Sopro/Espírito possuía Jesus e o empurrava (= que espiritualidade era a sua), para ele ter tido um final historicamente tão trágico e teologicamente tão empolgante? Trágico, porque acabou como o maldito dos malditos, cujo cadáver foi lançado à vala comum, para que o seu nome nunca mais fosse pronunciado por ninguém. Empolgante, porque dois mil anos depois ainda aqui estamos nós reunidos em seu nome e atraídos/seduzidos por ele e pelo Espírito que o possuía e empurrava. E, sobretudo, determinados a sermos mulheres, homens como ele, do seu jeito, possuídos e empurrados pelo mesmo Espírito.
Que tem Jesus de tão único, de tão original, de tão invulgar, para ter sido tão odiado – odiado de morte! – pelos sacerdotes do Templo e pelos senhores do Império? Mas também que tem Jesus de tão sedutor, de tão atraente, de tão único no seu jeito de ser homem/de ser humano, que suscitou discípulas/discípulos então e através dos tempos e ainda hoje nos convoca a nós no século XXI? O que tem Jesus de tão único, que faz dele o Futuro dos seres humanos, da Humanidade, melhor, o primeiro e o último, o Alfa e o Ómega da Humanidade? De ninguém mais alguma vez se disse isto, o primeiro e o último da Humanidade!... E porquê dele?
É sempre à volta desta questão, como sabeis, que temos andado nestes nossos encontros de espiritualidade e continuaremos a andar, terceiro milénio além. Com emoção. Com entusiasmo. Com alegria. Com ternura.
Pensar Jesus, caminhar com Jesus, escutar Jesus, ser amiga/amigo e companheira/companheiro de Jesus, ser discípula/discípulo de Jesus, acolher Jesus e sentar-se à mesa e comer todos os dias com ele, como o casal de Emaús, faz-nos mais humanos, mais sororais/fraternos, mais saudáveis, mais universais, mais simples, mais como um menino, uma menina, numa palavra, mais centrados no Essencial. E isto é tudo o que há de melhor e de mais belo na vida dos seres humanos. Quem de nós não sabe por experiência que é assim?
Estes encontros trimestrais são outros tantos momentos especiais neste caminhar com Jesus. São Emaús ao vivo. São encontros de espiritualidade, a de Jesus, mas hoje com o ateísmo e a idolatria generalizados em fundo. Não apenas com a Religião (Templo) e o Poder (Império) em fundo, como no tempo de Jesus, no século I. Neste encontro, todo ele feito de partilha de palavra(s) – a nossa e a de cada uma/cada um dos outros, por isso, também palavra de Deus, o completamente Outro – e de Mesa partilhada a partir dos "cinco pães e dos dois peixes" que cada uma/cada um de nós trouxe consigo para colocar sobre ela, vamos ficar a perceber ainda melhor como é saudável ser-se ateu de um certo Deus que é Satanás ou Diabo (= Inimigo/Adversário dos seres humanos que é o que quer dizer Diabo ou Satanás, dois conceitos, respectivamente, em grego e em hebraico, para dizer a mesma realidade), mas também como é muito mais saudável ser-se anti-idólatra absoluto.
E porque é que é preferível sermos anti-idólatras absolutos do que sermos ateus absolutos? O ateísmo, só por si, pode levar-nos a negar ou mesmo a matar o Mistério (que nos lembra que a Realidade é sempre mais do que captam os nossos sentidos) e, nesse caso, ficaremos progressivamente seres sem relação, cínicos, frios, cruéis, metidos na nossa concha, no nosso casulo, auto-satisfeitos, meros observadores/espectadores da História, meros explicadores da História, sem jamais nos implicarmos nela e nos seus múltiplos desafios. O ateísmo, só por si, e se for absoluto, pode levar-nos a confundir Deus com o Diabo/Demónio. E, se o ateísmo não chegar tão longe, leva-nos, pelo menos, a não considerarmos nunca Deus no nosso viver, a não O reconhecermos nunca, por mais que Ele, inesperadamente, nos salte ao caminho como um ladrão, não para nos roubar, obviamente, mas para nos levar ao colo, ou para nos dar a Mão, como só o Amor que Ele é sabe fazer!...
A verdade é que ainda não tínhamos pensado nEle, ainda não tínhamos dirigido para Ele o nosso pensamento ou o nosso olhar, a nossa palavra, o nosso apelo e já Deus, o de Jesus, nos sustentava, nos acompanhava, nos carregava ao colo, nos iluminava a Mente e nos aquecia o Coração (é disto, desta vivência, que os ateus absolutos andam privados a vida inteira).
Saibam que há um Deus, o de Jesus, que não é Adversário/Inimigo dos seres humanos, mas o seu Aliado maior, tão decisivo que é gratuito, por isso, não necessário (se nos fosse necessário, já seria Adversário/Inimigo, pois sempre acabaria por nos fazer dependentes dEle, seus súbditos, seus escravos); um Dom tão decisivo que é uma Presença sempre ausente/presente, como se não existisse.
Ora, o ateísmo absoluto fecha-nos esta porta ou janela e deixa-nos assim um pouco órfãos, a viver todos os dias sem o brilhozinho nos olhos, desencantados, sem entusiasmo (= sem theos/Deus dentro), à semelhança de um carro a circular sem estar lubrificado, ou duma locomotiva a andar fora dos carris…
Entendo por experiência pessoal que é saudável sermos ateus, mas não de modo absoluto. Apenas ateus dos deuses, das deusas que são Diabo/Satanás/Inimigo dos seres humanos, como são todos os deuses, todas as deusas inventados das Religiões, e também das Igrejas que se converteram em religiões, do Império e da sua Ordem Económica mundial…
Por isso aqui digo e proclamo: é muito mais saudável sermos anti-idólatras, de modo absoluto, porque assim somos também ateus de todos os deuses e deusas fabricados e impostos pelo Templo e pelo Império, nomeadamente, aqueles deuses e deusas que querem dominar-nos por inteiro na consciência, fazer de nós gato-sapato, súbditos, subservientes, abortos de mulher e de homem a vida inteira, vassalos, funcionários, carne para canhão e carne para religião e finalmente Caíns para os demais, verdugos/carrascos, em lugar de irmãs/irmãos e companheiros/companheiras.
Veremos, no debate que vamos já iniciar, que Jesus, o de Nazaré, é assim. O Espírito que o possui e empurra levou-o ao deserto durante toda a vida de missão. Nos relatos evangélicos não tem nome este deserto, para mostrar que não é um deserto em sentido geográfico, é o deserto interior em que Jesus vive permanentemente (é o que significa a expressão 40 dias e 40 noites), em oposição ao Mundo/Sociedade dominado pelo Templo e pelo Império, onde Jesus, como todos os seres humanos, se movimenta e actua/intervém, mas possuído e empurrado por um outro Sopro/Espírito, o de Deus Criador e Libertador, não é o do Templo e do Império. Jesus tornou-se Homem assim, a partir do momento em que decidiu na sua consciência e passou a ser ininterruptamente homem-para-os-demais todos os dias da sua vida, passou a dar/gastar a sua vida todos os dias pelos demais, passou a ser homem com os demais, homem-Abel, nunca homem-Caim (é o que significa ter-se feito baptizar/submergir nas águas do Jordão).
Sintonizemos hoje e sempre com Jesus, com o seu Espírito ou Sopro. Ousemos ser como ele homens/mulheres-para-os-demais, com os demais, Abel, nunca Caim. E este debate será iluminador, fecundo, levar-nos-á ao deserto onde seremos cada vez mais Jesus com outro nome, o nosso, mulheres/homem possuídos e empurrados pelo seu mesmo Espírito.
Apenas uma palavra mais para centrar melhor o debate-diálogo marcado para este 8.º Encontro de Espiritualidade. Em lugar da formulação do tema – ”As tentações de Jesus e as nossas hoje” – formulemo-lo assim: À luz das três tentações de Jesus, quais serão as tentações das mulheres/homens e povos do século XXI, nomeadamente, das mulheres/homens e povos que já se dispuseram a dar o melhor de si mesmos para transformar-salvar o nosso mundo? Que rostos assume hoje o Diabo/Satanás perante os homens/as mulheres que hoje já se assumem como políticos, isto é, que, como Jesus, também estão a fazer tudo para transformar/salvar o nosso mundo? O que e quem são hoje “as feras” que atacam e combatem estes homens e mulheres, e o que e quem são hoje “os anjos” ou aliados com quem estes homens e mulheres podem contar na realização de tão nobre objectivo jesuânico e humano?
Enquanto o Espírito/Sopro de Jesus não nos possuir e empurrar, não passaremos ao deserto. Seremos pessoas e povos dominados pelo sopro/espírito do Templo e do Império. Nem sequer tentados seremos. Simplesmente faremos parte do Sistema. Não passaremos de meros consumidores, coisas, súbditos, funcionários, carne para canhão às ordens dos senhores do Império, e carne para Religião, às ordens dos senhores do Templo, sempre disponíveis para alimentar respectivamente as guerras que eles decidam desencadear e os santuários que eles decidam construir e administrar.
Mas então, infelizes de nós! Porque nascemos sob o domínio do Templo e do Império e nunca chegamos a saltar fora da sua perversa Ordem mundial para o Deserto da Resistência, da Desobediência, da Dissidência, numa palavra, nunca chegamos a ser outros Jesus, mulheres/homens possuídos e animados da sua mesma Fé e do seu mesmo Sopro/Espírito!...
2007 FEVEREIRO 02
No último dia de Janeiro, estive em Braga, a participar numa conferência-debate sobre o próximo referendo, promovida pelo Movimento MÉDICOS PELO SIM. Pelo caminho, enquanto conduzia a carrinha, fui sempre à escuta do Espírito. À entrada na cidade, estacionei e permaneci dentro da carrinha a tentar pôr por escrito o que deveria dizer, quando me fosse dada a palavra. Como estava em Braga, pensei sobretudo nas minhas irmãs, nos meus irmãos católicos do NÃO. Senti que as minhas palavras deveriam dirigir-se especialmente a elas, a eles. E escrevi um texto em forma de carta-aberta. É esse texto, retocado e melhorado à medida que o digitalizava, que aqui partilho com alegria. E como eu gostaria que ele fosse lido por todas as mulheres, todos os homens em idade de votar no referendo do dia 11. Leiam e, se assim o entenderem, difundam-no.
Ao iniciar esta minha breve intervenção, aqui em Braga, nesta sessão promovida pelo Movimento MÉDICOS PELO SIM, saúdo cordialmente as minhas irmãs católicas, os meus irmãos católicos do NÃO. Ao mesmo tempo, envio-lhes um alerta que pode ser também um fraterno reparo em três/quatro pontos. Eis:
1. Se vão votar NÃO, porque pensam que a pergunta que vai a referendo dia 11 de Fevereiro 2007 é se somos a favor do aborto ou contra o aborto, então deverão reconhecer que estão enganados, porque a pergunta que vamos referendar, sim ou não, não é essa. Se fosse, também eu votaria NÃO. A pergunta é se concordamos com a despenalização das mulheres que porventura abortem nas primeiras dez semanas de gravidez. Por isso, eu voto SIM. Porque uma lei assim, que despenaliza as mulheres que abortem nas primeiras dez semanas de gravidez acaba de vez com a lei que está actualmente em vigor e que condena as mulheres que abortarem, mesmo naquelas condições, até três anos de prisão, depois de as ter humilhado publicamente num julgamento quase sempre mediatizado nos tribunais.
2. Mas vós, minhas irmãs, meus irmãos do NÃO, devereis ter em consideração um outro pormenor importante e, então, talvez passareis do NÃO ao SIM. É que com o vosso NÃO estais a dizer à Sociedade civil e ao Estado português que quereis que as mulheres que decidiram abortar nas primeiras dez semanas de gravidez continuem a poder fazê-lo apenas na clandestinidade; e, se são pobres e vivem em condições de degradação e no seio de famílias completamente desestruturadas, que continuem a fazê-lo apenas nas abortadeiras/habilidosas, com todos os riscos para a sua saúde e sempre com o medo de virem a ser denunciadas, presas e condenadas em tribunal. É isto que queremos para as mulheres pobres que decidirem abortar nas primeiras dez semanas de gravidez? Que elas o façam apenas nestas condições de desumanidade? Eu, por mim, não quero que semelhante situação de desumanidade se arraste por mais tempo e por isso voto SIM à lei que vai a referendo. Porque com a aprovação da nova lei, também as mulheres pobres que decidam abortar passam a poder fazê-lo (nunca serão obrigadas a fazê-lo e oxalá elas não queiram nunca fazê-lo!) nos estabelecimentos públicos de saúde ou noutros devidamente autorizados, o que é muito menos traumatizante para elas e muito menos perigoso para a sua saúde (ora, como sabem, as mulheres pobres também são pessoas, não apenas as mulheres ricas e com estudos para facilmente se desenrascarem em situações como esta de que estamos aqui a tratar, a duma gravidez indesejada e não assumida). Não quereis acompanhar-me neste voto SIM? Não vedes que o vosso voto NÃO acaba por ser cruel, já que condena as mulheres pobres que abortem (as ricas safam-se sempre, porque têm outros meios para isso) a fazê-lo apenas na mais abjecta clandestinidade e às mãos de abortadeiras/habilidosas?
3. Mas há outro pormenor que deveis ter em conta e que não posso calar por mais tempo. Com o vosso NÃO à lei de despenalização do aborto estais a impedir que as mulheres grávidas passem a estar no centro da decisão de levar por diante a gravidez, ou de a interromper, caso seja esta última hipótese a sua escolha, sempre dolorosa, indubitavelmente, e por demais difícil, mas a sua escolha. E porquê? Porque a lei que vai a referendo diz que só poderá haver aborto nas primeiras dez semanas de gravidez, nos hospitais ou outros estabelecimentos de saúde devidamente autorizados, por opção da mulher grávida. E este é, para mim, o aspecto mais importante da pergunta e da lei a referendar. Porque coloca as mulheres no centro da decisão. É por opção delas, não é por opção nem dos pais, nem do marido, nem do namorado, nem das amigas, nem da pressão social, nem do Estado, nem do pároco, nem do confessor ou director espiritual, nem do bispo, nem do papa. Apenas por opção das mulheres na condição de grávidas. É por isso que eu voto SIM. E gostava que todas as minhas irmãs católicas, todos os meus irmãos católicos me acompanhassem neste SIM.
4. E aqui tenho que fazer uma pausa e perguntar-vos: Sabeis porque a hierarquia da nossa Igreja católica – os bispos e os párocos – se mostra tão furiosamente contra a lei de despenalização do aborto? (eles preferem dizer que são furiosamente contra o aborto e evitam falar em despenalização do aborto, mas é a despenalização do aborto que vai a referendo, não a liberalização do aborto e muito menos a sua imposição; porque se fosse, também eu, como já disse, votaria NÃO, obviamente). Vou revelar-vos o segredo, nem que, por causa disso, os nossos bispos se zanguem comigo. A verdade é para se dizer e praticar, porque só a verdade, como diz Jesus, o do Evangelho de João, nos faz livres. Os nossos bispos, devido, sobretudo, à (de)formação clerical que receberam e da qual não querem abdicar, para não perderem o lugar nem os privilégios, não admitem, não podem admitir que alguma vez as mulheres estejam no centro de decisões tão importantes como esta que vai a referendo dia 11. Apenas eles, nunca elas! Como sabeis, sempre foi assim nos tempos da velha Cristandade Ocidental e na Idade Média. Mas não pode continuar a ser assim. Vede, por exemplo, o que eles – bispo de Lisboa, párocos de VN Ourém, confessores/directores espirituais – no início do século XX, fizeram com a pequenita Lúcia, de Fátima; como a meteram no Asilo de Vilar, no Porto, a levaram sequestrada para um convento na Galiza e, depois, não satisfeitos, ainda a meteram num convento de clausura, até ao fim dos seus dias, sem que a pobre alguma vez pudesse decidir sobre a sua vida e o seu futuro… É isto humano? É isto evangélico? É isto cristão jesuânico? Os bispos e os párocos acham que são os únicos que sabem o que as mulheres devem fazer ou deixar de fazer, em matérias tão delicadas como as da bioética. Como diz a nova novela das noites da RTP1, “Paixões Proibidas”, as mulheres não têm que pensar, saber, entender coisa nenhuma. Apenas têm que obedecer ao pai e, na sua ausência, ao irmão mais velho e, depois de casar, ao marido; finalmente, ao pároco, ao bispo, ao papa. Ora, é aqui que reside todo o valor evangélico e cristão jesuânico da pergunta e da Lei a referendar dia 11. “Por opção da mulher”. Os bispos e os párocos que estão em campanha pelo NÃO querem convencer-nos que isto é arbitrariedade, mas não é. Isto é Maioridade, é Liberdade, é Reponsabilidade. E só por esta via chegaremos a ter mulheres verdadeiramente adultas, livres, responsáveis. E só com mulheres assim, bem no centro das decisões que a elas dizem respeito, é que se dá glória a Deus e poderemos construir uma sociedade humana e sororal.
5. Finalmente, deixo-vos, irmãs católicas, irmãos católicos, mais uma revelação decisiva para mudardes o vosso voto do NÃO para o SIM. Já repastes (infelizmente, não temos procurado ser católicos bem informados e andamos quase sempre muito distraídos do essencial) que o Código de Direito Canónico (CDC), da Igreja, ainda é mais penalizador contra as mulheres católicas que abortarem do que a actual lei do Código Penal português? Vede só esta barbaridade canónica: as mulheres católicas que abortarem ficam automaticamente excomungadas, portanto, fora da comunhão da Igreja! Nem é preciso o Tribunal eclesiástico proferir a sentença. É automático! Porém, se as mulheres católicas grávidas, para não serem excomungadas, decidirem levar a gravidez ao fim e, logo após o parto, matarem o bebé, já não sofrem qualquer sanção canónica. Cometem, obviamente, um pecado mortal de infanticídio, mas não sofrem nenhuma sanção canónica. Estremeceram com o impacto desta revelação? Mas a realidade é esta. E porquê esta sanção canónica contra as mulheres que abortam e não contra as mulheres que matem o próprio bebé acabado de nascer? Porque decidir levar a gravidez ao final ou abortar é uma opção que só as mulheres grávidas podem protagonizar. Mais ninguém. E para que nunca as mulheres sejam sujeito de opções de tanta monta, é que a hierarquia católica recorre à excomunhão, o que, reconheça-se, em tempos de Cristandade como eram os da altura em que o CDC foi publicado, era praticamente o mesmo que matar as mulheres por apedrejamento. Mas digam-me uma coisa, irmãs, irmãos: Sem mulheres desta estatura moral, capazes de optar em matérias de tanta monta, ainda se pode falar em mulheres? Ou apenas em coisas, ou em simples barrigas de aluguer?
6. Pensem nisto e votem SIM, como eu, para que a nova lei que vai a referendo seja aprovada. Com este voto SIM estaremos, como católicas, como católicos, a dizer também à hierarquia da nossa Igreja católica que altere o CDC e deixe de excomungar as mulheres que abortem, tal como o Estado português irá deixar de as penalizar com prisão até três anos, se a lei for aprovada, como espero.
Percam os medos, irmãs, irmãos. Pensem pela vossa cabeça. E decidam segundo a vossa consciência pessoal. Deixem de pensar e de decidir pela cabeça e pela consciência funcional do clero. Façam como eu que penso pela minha cabeça e decido segundo a minha consciência pessoal. E por isso voto SIM no referendo do dia 11. Quem de vós me acompanha nesta liberdade/responsabilidade?
Dou-vos o meu afecto e a minha Paz.
Mário, Presbítero da Igreja do Porto