2006 FEVEREIRO 27
Os promotores da festa de homenagem a José Afonso, que decorreu dias 24 e 25 de Fevereiro 2006 na cidade de Guimarães, convidaram-me para participar, na tarde de 25, numa conferência/debate, juntamente com os companheiros Alípio de Freitas, Octávio Fonseca e Viriato Teles. A moderação coube ao jornalista Rui Pereira. A minha intervenção, a seguir à do amigão Alípio de Freitas, suscitou aplausos e certamente alguns dissabores, entre as muitas pessoas presentes no espaço do Café-Concerto, do Centro Cultural Vila Flor. Só os aplausos se manifestaram. É o texto dessa intervenção que hoje aqui partilho, também a pedido de algumas das pessoas que manifestamente vibraram com ela. Ao que me garantiram, querem estudá-la e divulgá-la. Ei-la, pois, na íntegra. Com o meu afecto.
É uma responsabilidade enorme dissertar sobre José Afonso, o Músico, o Poeta, o Homem! Mas pediram-me para o fazer. E eu fui incapaz de dizer que não. A José Afonso nunca se pode dizer que não! Ele sempre se entregou por inteiro, sobretudo, aos Sem-Nada; sempre disse sim aos convites para estar presente com a sua Voz, os seus Poemas, a sua Música e com todo o seu Ser nas Causas dos que, no seu tempo, nunca teriam tido entrada em locais como este Centro Cultural Vila Flor, aqui em Guimarães. Por mim, acho que nunca mais seria digno do seu carinho, nem do seu afecto, se me tivesse recusado a estar aqui inteiro. Por isso, estou. Mas, como escrevo no texto que preparei para o livro ZECA SEMPRE, em boa hora lançado estes dias pela Arca das Letras, do Porto, estou aqui com lágrimas. Porque, a esta distância, nós que aqui estamos já deixamos matar Abril que ele preparou e anunciou como um dos seus maiores precursores (e não só com a sua “Grândola, vila morena”); e que, depois de Abril chegar, ajudou a consolidar como poucos, inclusive, mais, muito mais do que os próprios Capitães de Abril. Ou as Canções de José Afonso não fossem todas uma arma que, ao contrário das armas dos militares, põem de pé e em postura de combate as multidões daqueles que hoje voltamos a consentir que vivam por aí condenados a ser uns Ninguém, como se, alguma vez, a Humanidade pudesse ser, sem eles ao nosso lado e sem nós ao lado deles; sem eles sentados à mesma Mesa que nós continuamos a ter todos os dias mais ou menos abundante e bem regada com vinhos de qualidade; e sem eles ao nosso lado no posto de trabalho, de que ainda usufruímos; ou sem eles ao nosso lado na Universidade que ainda frequentamos como alunos ou como professores.
Escrevi há tempos (o texto integral encontra-se no meu novo livro Na Companhia de Jesus e de Ateus. Livro dos Actos Século XXI (edição de Autor), que isto, entenda-se, Portugal, não é um país. É um ninho de víboras! E a verdade é que já nem os (dos Partidos) da Esquerda se aproveitam. Deram-nos a provar as iguarias dos privilégios, admitiram-nos no clube dos endinheirados, nem que seja a troco de empréstimos bancários ou de cartões de crédito, e já não queremos saber dos proletários, muito menos, dos lumpen-proletários para nada. As democracias burguesas e representativas, como as que temos nos países da Europa e do Ocidente, também produzem os seus proletários e os seus lumpen-proletários. Hoje, eles são mais do que muitos, um autêntico exército que poderia derrubar o Sistema e fazer ir pelos ares as Multinacionais da nossa desgraça. O problema é que agora já não há José(s) Afonso(s) que, como a toupeira ou como a formiga, ou como o andarilho que não tem onde reclinar a cabeça, se metam à estrada, se façam próximos deles, lhes ganhem a confiança, se relacionem fraternalmente com eles e mantenham com eles um continuado e fecundo diálogo maiêutico, ao jeito de Sócrates (o famoso filósofo da Grécia, não, evidentemente, o Sócrates de Portugal que hoje nos caiu em sorte como primeiro-ministro), até fazerem despertar dentro deles a consciência crítica, a consciência da sua própria dignidade, assim como o respeito e o amor por si próprios. Vai daí, de exército libertador que poderiam ser, os novos proletários e lumpen-proletários da Democracia burguesa que nos estupidifica, acabam por ser carne para canhão, a troco de nada, comidos pelo Desemprego e pela Droga, destroçados pelas Novelas rascas em série, pela Senhora de Fátima e pelo Futebol, já não dos clubes, como outrora, mas das empresas SAD, cotadas em Bolsa…
Digo-o com lágrimas, daquelas que se derramam na alma e nos deixam em cólera: Já nem os (dos Partidos) da Esquerda se aproveitam. Já nem os da Esquerda vivemos para derrubar o Poder, cada vez mais corrupto e fonte de corrupção e de idolatria. Pelo contrário, pelamo-nos todos, ou quase todos, por partilhar o Poder, nem que seja num confortável cargo de assessor ou de secretária de um escroque qualquer. Exagero? Poderm pensar que sim, mas apenas porque ainda não batemos no fundo como milhares de companheiras, companheiros nossos já bateram. Porque, também graças a Abril, que José Afonso ajudou a fazer acontecer e consolidar, nos primeiros tempos, ainda somos daquelas, daqueles que pudemos singrar na vida, fazer carreira, instalarmo-nos vitaliciamente numa qualquer direcção de um qualquer sindicato ou duma qualquer central sindical, ou no núcleo duro dum qualquer partido político de Esquerda, ou numa cadeira de deputado em Lisboa ou em Bruxelas (passam sucessivos presidentes da República, com mandatos de dez anos, e eles permanecem sempre os mesmos como os papas da Igreja de Roma). Por outras palavras: porque não somos o mexilhão que sempre se lixa, particularmente, quando as crises generalizadas batem à porta das nações…
José Afonso. Não bastam homenagens destas. Os revolucionários como ele não são para homenagear. Todos eles estão-se borrifando, ou – perdoem-me a crueza da linguagem – estão-se cagando para as nossas homenagens! Os revolucionários, como José Afonso – todo o revolucionário é Músico, Poeta/Profeta e Homem de corpo inteiro e de espinha dorsal erecta – não são honrados com homenagens. A única homenagem que honra os revolucionários como José Afonso é eles poderem ver, lá onde estiverem, que outros homens, outras mulheres estão a prosseguir as suas causas, a correr os mesmos riscos, a protagonizar os mesmos combates duélicos, a gastar as suas vidas longe dos palácios e confundidos com os da base da pirâmide social. Permanentemente, mergulhados na fecundidade do Deserto e da Montanha,
Momentos como este que hoje estamos aqui a viver também são úteis, mas apenas quando, entre uma sessão de homenagem e outra sessão de homenagem – nos 365 dias do ano, de cada ano – estamos efectivamente metidos até aos ossos e até ao limite, naqueles combates e naquelas causas que foram a razão de ser da vida de José Afonso. Se não for assim, deixem que lhes diga que estas homenagens não passam de Missas ateias, com tudo de inócuo e de iníquo e de feira de vaidades que as Missas católicas têm dentro dos templos. As quais eu, padre/presbítero que continuo a ser da Igreja do Porto, felizmente já não frequento há muitos anos.
A Memória de José Afonso, Músico, Poeta, Homem, é como a de Jesus de Nazaré, politicamente subversiva e perigosa. Celebrá-la, só tem sentido se for para suscitar mulheres, homens politicamente subversivos e perigosos, em cada hoje e aqui, também nestes que são os nossos hoje e aqui. Estou desenquadrado nesta minha reflexão? Não creio! Porque uma coisa eu aprendo com Jesus, o de Nazaré, que acabou crucificado: “Pelos frutos, se conhece a árvore”. Portanto, também as festas de homenagem a José Afonso. Se elas não servem para despertar/ressuscitar em cada uma, cada um de nós, o José Afonso que a Democracia burguesa e representativa já conseguiu adormecer ou mesmo matar em nós, então para que servem? Por mais homenagens que lhe façamos, os senhores dos privilégios continuarão aí a explorar à vontade, a desempregar à vontade, a matar à vontade. Porventura, até ao som da música e da voz do nosso querido José Afonso! Só que então, as homenagens que promovemos tornam-se um insulto. Um vómito. E José Afonso terá todo o direito de nos dizer: Cobre-te, Canalha / com a Mortalha / que hoje o Rei vai nu! Só que, neste caso, o rei que vai nu somos nós!...
Concluo com uma lembrança viva: Num daqueles concertos de José Afonso, realizados nas condições mais incríveis em que ele quase sempre actuou, vivi com emoção o concerto que ele deu (digo deu, não vendeu!) uma noite em Massarelos, no Porto, a convite da respectiva Comissão de Moradores. No final, quando fui junto dele pelo abraço fraterno, José Afonso diz-me: Li o teu livrinho Maria de Nazaré (edição Afrontamento, há muito esgotado) e estou empenhado em fazer um LP com poemas que hei-de escrever inspirado na mensagem que o livro transmite. Olhei-o estupefacto. E comovi-me até às lágrimas de alegria. E José Afonso acrescentou: Aquela Maria de Nazaré que canta um Deus que derruba os poderosos dos seus tronos e levanta os pequenos, despede de mãos vazias os ricos e enche de bens os esfomeados é uma Mulher revolucionária que eu quero cantar. Porque é uma Fé cristã assim como a dela que mudará o nosso mundo!
Infelizmente, a Doença não o deixou iniciar e muito menos realizar este Projecto. Haverá aqui, ou noutras zonas do país, quem seja hoje José Afonso e realize este Projecto? Concretamente, que seja capaz de associar no seu viver quotidiano Fé cristã jesuânica e Revolução e que a cante?
Por mim, continuarei a ser o padre/presbítero pobre que desde o início do meu ministério decidi ser e é assim que quero viver até ao fim (presentemente, vivo da minha pequena reforma de jornalista que nem sequer chega aos 450 euros mensais); à semelhança de José Afonso que também viveu e morreu pobre. Prosseguirei como ele alegremente nas Margens, como em Deserto e em Montanha, longe dos Templos e dos Altares, o mesmo é dizer, longe do Poder e dos privilégios que o Poder concede a quem, em lugar de se lhe opor, se torna seu vassalo e servidor. Entre os mais pobres. Para que eles sejam donos dos próprios destinos. Quanto ao Poder que continuamente me/nos bate à porta com as suas seduções e mentiras, que vá para a Puta que o pariu!
2006 FEVEREIRO 24
Foi bonita a festa de lançamento da
primeira Pedra do Barracão de Cultura e
só perdeu quem não foi capaz de deixar tudo
e vir fazê-la connosco. Somos uma pequenina
Associação com muito daquele Sopro de Deus vivo
que também sopra forte e fecundo nos ateus. E os
das Rotinas e do Poder até fogem de nos tocar.
O milénio que vivemos é já o terceiro depois
de Jesus e o século é o vinte e um. Mas as
nossas populações permanecem ainda tão
sob o Medo da Liberdade que preferem viver na
companhia de quem lhes acena com Mercearia
todos os meses a fazerem-se próximas de
quem vive apostado em fazer delas pessoas.
O Sopro de Deus Vivo bem nos grita
- É a Cultura estúpidos é a Cultura! Mas quem
de nós já se dispôs a tornar-se Criação Poema
Dança Acção Política Música Escultura Festa Irmã
Irmão Solidariedade? Muito poucos. Ou a Cultura
como a Sabedoria não fosse um caminho que não
rima nem com Mediocridades nem com Preguiça.
No acto apareceram Amigas e Amigos de Lisboa
e do Porto. E nem faltou a Aninhas Mates nesta
data a viver em Amarante com uma das suas
filhas. É a decana dos associados e coube-lhe
o alegre Serviço de destapar a 1.ª Pedra da nossa
Esperança. O Momento foi de Páscoa e espantou
o que ainda restava em nós de Medo do Futuro.
Rodrigo Filipe esteve no seu melhor. Foi
a sua estreia como presidente da Direcção
e as suas palavras calaram fundo e tiveram
o condão de fazer rebentar lágrimas de alegria
e de compromisso com a causa da Cultura. A
poucos meses de se tornar assistente social
é juntamente com a Dária o nosso Esteio.
A emoção subiu ao rubro quando Maria Laura
avançou firme sobre o chão do Campo que nos
doou e onde os alicerces já revelam o tamanho
do Barracão de Cultura. Jamais esqueceremos
as palavras emocionadas que nos deu. Nem ela
poderá esquecer-se da Ternura com que de repente
se viu envolvida numa festa de abraços e de beijos.
"Quero ser um elo em comunhão com os outros elos
que aqui em Macieira da Lixa estão apostados
em tornar realidade um sonho de muitos anos". As
palavras são de Joaquina a de Mogege. Disse-as
com um rosto onde resplandeciam a Alegria e a Festa
que lhe dançavam dentro do peito. Foi por isso longo
e apertado o abraço que recebeu de Maria Laura.
E quando depois a palavra andou à solta nas
bocas das companheiras e dos companheiros
presentes nem o Doutor Garcia Pereira resistiu
a dar voz a um poema. “O Caminho” que nos leu
desafia-nos a irmos de etapa em etapa até à
meta. É o que sempre faremos com o seu apoio e
o seu afecto e o apoio e o afecto de muitos outros.
Tão pouco o Armando resistiu a cantar para nós
em pleno campo. Ninguém resistiu ao seu exemplo
e todos cantámos com ele numa postura própria
de meninas e de meninos que sempre havemos de
ser. E porque o Poder oprime aterroriza inibe e mata
as populações só como meninas e meninos iremos
erguer o Barracão de Cultura que nos liberta a todos.
Foi de Eucaristia o almoço com Arroz de frango
que aconteceu depois na Casa da Comunidade
onde até velhas Inimizades se desfizeram como
por encanto. Nunca aquela Sala foi tão cenáculo
nem aquela Mesa tão jesuânica. Quando dela nos
erguemos já não éramos só nós mas outros Jesus
disponíveis para darmos a própria vida pelos Ninguém.
Cantem e dancem comigo/connosco. E um destes
dias venham por aí. Com um farnel cheio de Poemas
e de Cantos. Mais o Pão e o Vinho que ao serem
Repartidos entre todas e todos revelarão a disposição de
nos darmos como Jesus se deu para que as populações
cresçam em Cultura e Sabedoria pratiquem a Justiça
partilhem a Riqueza e sejam donas dos próprios destinos.
2006 FEVEREIRO 23
A Páscoa do nosso queridíssimo José Afonso aconteceu já há 19 anos. Em 23 de Fevereiro. Em boa hora, a Editora Arca das Letras, do Porto, decidiu publicar, este ano, um livrinho sobre ele, a que deu o sugestivo título: ZECA SEMPRE. O livrinho contém textos de 22 companheiros, entre os quais, também eu me encontro. Não pude dizer que não, quando o Editor, meu amigo Soares Novais, me convidou. A José Afonso nunca me poderei recusar. Se o fizesse, uma vez que fosse, nunca mais seria digno dele. Alguma vez José Afonso se recusou a alguém, nomeadamente, aos Sem Ninguém? São estes os nomes dos outros companheiros que “fazem” este livrinho: Alípio de Freitas, Camilo Mortágua, César Príncipe, Fernando Peixoto, Francisco Duarte Mangas, Francisco Fanhais, Hélder Costa, João Pedro Mésseder, Jorge Ribeiro, José António Gomes, José Mário Branco, José Viale Moutinho, Leandro Vale, Manuel Alegre, Pedro Barroso, Raul Calado, Soares Novais, Xabier Paz, Xosé Maria Alvarez Cáccamo, Urbano Tavares Rodrigues, Virgílio Alberto Vieira. Fiquem, agora, com o meu texto, escrito sob a forma de carta.
Meu querido Companheiro e Camarada José Afonso
Só posso começar esta minha crónica em tua Memória com abundantes lágrimas. De raiva. E, sobretudo, de vergonha. É que Abril, que tu tanto ajudaste a chegar, já lá vai. E fomos nós quem o despachou, à força de tanto o cantarmos e celebrarmos, em lugar de o actualizarmos em cada novo dia, em cada nova semana, em cada novo mês, em cada novo ano. Na nossa euforia sem luta, nem sequer nos demos conta que o Inimigo andava disfarçado connosco, para mais eficazmente nos trair. Hoje, já sabemos, ou começamos lentamente a saber que não há baile que valha a pena ser bailado, a não ser o dos corpos que simultaneamente se dão às Causas da Humanidade, a começar pela mais empobrecida e oprimida. Todos os outros bailes, que nos desviam das Causas da Humanidade mais empobrecida e oprimida são alienação e ópio do povo e para o povo. Como a Religião. Ou como o estatuto de “ateu” ou de “agnóstico” com que muita gente de Esquerda que ainda te canta e às tuas canções de combate, hoje se enfeita, mas para melhor poder continuar instalada e acomodada nas suas rotinas quotidianas e de fim de semana, sem que “o outro” e o “totalmente Outro” a interpelem e incomodem. Confundimos comer/beber/fornicar à tripa forra e fumar de forma compulsiva com ser-se revolucionário. Deram-nos um dia a provar do vinho e dos festins com que o grande Kapital sempre consegue adormecer aquelas, aqueles que o combatem e, algum tempo depois, já não quisemos outra coisa que não fosse ser e viver como os nossos opressores e os nossos exploradores. E o resultado é o que se vê. O país está hoje feito num oito. Apenas trinta e dois anos depois de Abril!...
Os que se têm na conta de mais resistentes, ainda se mantêm inscritos – não, não militam – em “partidos de Esquerda”. Mas o grande objectivo deles já não é continuar a levar por diante a militância política revolucionária, afim de mudarem o mundo e a vida e criarem uma Terra sem males e sem amos. O que hoje mais os faz correr é a possibilidade de virem a ser deputadas, deputados de Esquerda dentro do Regime, cá no país ou no Parlamento Europeu, e usufruir de todos aqueles privilégios do caraças. Ou, pelo menos, conseguirem um emprego como secretária particular duma deputada, dum deputado, ou duma ministra, dum ministro de um qualquer governo socialista.
A luta contra o Poder dos poderosos que tu, querido companheiro e camarada José Afonso, tão ferozmente assumiste com risco da própria vida, e de um modo consequentemente exemplar – só por isso é que acabaste como acabaste – quase já não tem hoje quem a prossiga. Hoje somos todas, todos muito mais “civilizados” e “democratas”. Até as minorias mais esclarecidas e academicamente mais habilitadas o que agora pretendem já não é derrubar os poderosos dos seus tronos. O que pretendem é chegar a partilhar dos tronos com os poderosos, nem que seja simplesmente comer das migalhas que caem das suas mesas, num subserviente lugar de assessor.
A militância Política, como acção persistente e maiêutica de todos os dias, dá muito trabalho, exige de quem a assumir que voluntariamente desça até à base da pirâmide social e erga a sua casa entre as populações mais oprimidas e mais empobrecidas, numa progressiva comunhão de vida e de mesa, para que estas, com o tempo, deixem de ser populações semelhantes às da cidade de Nínive, do tempo do profeta Jonas bíblico, que não sabiam/não sabem distinguir entre a sua mão direita (política) e a sua mão esquerda (política) e só por isso votam sistematicamente contra si próprias nas sucessivas eleições.
Nunca como hoje, nos últimos cem anos, o grande Kapital esteve tão à vontade no nosso país, na Europa e no resto do mundo. Nem nunca teve tantos e tão hábeis servidores entre as minorias mais escolarizadas. Imagina que o grande Kapital até tem podido contar com a tua Memória politicamente subversiva e perigosa, previamente descafeinada por ele, já se vê. Os seus incondicionais servidores – vendem-se-lhe por um modernizado prato de lentilhas – reduziram-te a simples “cantor de intervenção” de um tempo que já lá vai e que não volta mais. Tornaram-te inócuo, inofensivo, estéril, objecto decorativo nas salas de estar de gente de Esquerda que se orgulha muito do seu ateísmo, sem, entretanto, se dar conta que mais não é do que gente idólatra, adoradora do pior dos ídolos, o deus Dinheiro, precisamente. A tua voz gravada ainda hoje se faz ouvir um pouco por todo o lado, mas é, evidentemente, uma voz desacompanhada de corpos politicamente militantes e de acções de combate consciencializador e libertador. Não, querido companheiro e camarada, não és tu quem está a falhar, pois, no teu tempo histórico, sempre aliaste o teu canto a acções concretas de combate duélico sem tréguas. Somos nós que nos dizemos de Esquerda quem tem falhado. Redondamente. Para sermos dignos de ti e da tua Memória politicamente subversiva e perigosa, teríamos que ter sabido, como tu sempre soubeste, que as tuas só são canções que libertam e realizam Utopias, se sempre lhes emprestarmos os nossos corpos de resistentes e de combatentes; se as cantarmos, devidamente actualizadas, como tu sempre as cantaste, no contexto de incansáveis lutas políticas concretas, as mais imaginativas e fecundas, contra o Poder dos poderosos e contra a Exploração inominável das Multinacionais, até conseguirmos decapitar a presente Ordem Económica e Política Mundial intrinsecamente perversa que nos converte a todas, todos em animais racionais, sim senhor, mas muito mais selvagens uns com os outros e com a própria Natureza, do que os assim chamados por nós.
A minha esperança é saber que tu, querido companheiro e camarada, jamais desistirás desta Terra e deste Universo, onde brilhas como estrela consciente e super-activa. Por mais que tentem reduzir-te a ilustre Voz de um tempo que não volta mais, tu, felizmente, és sempre muito mais que isso. Como Jesus, o de Nazaré, também nasceste e vieste ao mundo para lançar o fogo à Terra e nunca mais tens sossego enquanto não vires tudo incendiado. O Inimigo pensa que tu morreste e faz tudo para te tratar como um ilustre defunto. Mas tu simplesmente explodiste para fazer explodir a muitas, muitos. Queiram ou não queiram os papões, hoje bem mais sanguinários que o papão que tu cantaste para o Menino do Bairro Negro, nenhum Poder consegue deter o Rio que avança para o Mar. Nem fazer calar o Clamor dos milhares de milhões de Empobrecidos e de Oprimidos do Planeta. Podem matá-los à fome ou ao abandono, como população excedentária. Não podem silenciar para todo o sempre o seu Clamor, porque então o seu Silêncio tornar-se-ia ensurdecedor. Pela minha parte, já oiço o rufar dos tambores a anunciar a chegada do Sol de verão. Pode levar ainda muitas gerações, mas a verdade é que a última palavra só pode ser das vítimas, nunca dos seus verdugos. Felizes seremos então se, enquanto durar a História, nunca mais dermos tréguas aos verdugos. Porque se lhes dermos tréguas, seremos seus cúmplices. Cúmplices dos verdugos. Uns pulhas, portanto. E uns canalhas da pior espécie.
2006 FEVEREIRO 19
O 19 de Fevereiro 2006 entrará na História como o dia mais desgraçado da primeira década do século XXI em Portugal. Sobre ele, nunca o Salmista bíblico poderia escrever: “Este é o dia que o Senhor fez!” Se quisesse continuar a utilizar a mesma expressão para se referir a este dia, teria que escrever: Este é o dia que a Mentira fez. Ou: Este é o dia que a Hipocrisia fez. Ou: Este é o dia que o Obscurantismo fez. O que alguns responsáveis maiores da Igreja católica estão a fazer com os restos mortais da Irmã Lúcia, um ano depois da sua morte, é absolutamente imoral. Mas também não é menos imoral o descarado aproveitamento que os três canais generalistas de televisão do nosso país estão a fazer desse acto imoral dos responsáveis da Igreja católica.
Nem depois de morta, os clérigos fatimistas deixam Lúcia, a da paróquia de Fátima, em paz. E exploram-na, utilizam-na, sugam-na até para lá do inimaginável. É o sado-masoquismo na sua versão mais inumana e mais degradante. E tudo com o objectivo demoníaco de tentarem impor, duma vez por todas, ao país e ao mundo, a Mentira de Fátima. A operação vem desde 1917. E desde então para cá, conseguiu, para nossa vergonha como país e como Igreja católica, arregimentar à sua volta Papas, com destaque total para o Papa idólatra João Paulo II, muitos cardeais e bispos católicos de todo o mundo, muitos padres e, sobretudo, muitos milhões de pessoas com problemas, carências e aflições de múltipla ordem, a maior parte, na área da saúde.
O Desespero, como o Medo, sempre foi criador de deusas e de deuses. E atira para a via da Alienação e da Demência beata pessoas que antes tínhamos por lúcidas, equilibradas, sensatas. Basta o médico anunciar-lhes, quando elas se encontram gravemente doentes, um daqueles diagnósticos fatais, como cancro ou sida, e logo o seu equilíbrio interior se parte. E tudo se altera a partir daí. O ateu torna-se crente infantilizado e começa a correr para o santuário de Fátima ou outro, onde reaprende a bichanar avé-marias e pai-nossos em série. E o crente mais ou menos lúcido torna-se um beato compulsivo. Quando mais necessário era manterem a Lucidez e o Bom Senso, para, juntamente, com o médico e outros agentes de Saúde enfrentarem a Doença com inteligência e determinação, num combate sem tréguas, eis que as pessoas deixam-se facilmente cair na Depressão e afundam-se na Beatice mais degradante. Uma “fé” assim é inumana. É capitulação. É desistência. É alienação. É entregar a imagens e a santuários e a clérigos comerciantes a resolução dos problemas que só a nós, seres humanos, compete resolver.
Em lugar de, em tais circunstâncias adversas, Deus vivo acontecer misteriosamente no mais íntimo da pessoa e torná-la lúcida na máxima Luz e combativa na máxima Força, numa luta sem tréguas contra a Doença, o que acontece e se afirma, na maior parte dos casos, é o Desespero e o Medo, qual deles o mais perigoso criador de deusas e de deuses que se alimentam de pessoas e de populações em situação de notória fragilidade psicológica. Então, o ser humano desaparece, para dar lugar à Alienação, à Idolatria, à Religião. E lá onde o ser humano desaparece ou se demite, sempre cresce a Degradação e a Inumanidade. E o Desastre é completo.
Em alturas destas é que os santuários crescem em número de clientes e de devotos. E os negócios da Religião andam de vento em popa. Populações saudáveis e lúcidas, ou mesmo doentes, mas que se mantêm lúcidas, sempre resistirão a descambar da Lucidez para a Demência e para a Beatice. E por isso nunca chegarão a ser clientes dos santuários.
Foi assim com Jesus, o de Nazaré. Nunca recorreu ao Templo de Jerusalém e aos seus inúmeros sacerdotes, nem quando já era um homem marcado por eles para morrer. Nessa altura, entrou no Templo, mas foi para o denunciar como covil de ladrões, como casa de negócio à sombra do Nome de Deus. E ainda teve a audácia de o destruir, mediante um corajoso e lúcido gesto simbólico que lhe custou a vida, mas não a Dignidade! Ele sabia que as Religiões sempre se alimentam da Desgraça e da Degradação. Pessoas escorreitas nunca vão por essas vias ou caminhos. Elas sabem que Deus Vivo só se sente honrado, quando as pessoas e as populações resistem à Alienação e à Humilhação. E tudo fazem para se manterem donas dos seus próprios destinos, como se Ele não existisse.
Nunca as Religiões foram caminho para Deus Vivo, na medida em que também não são caminho de uns seres humanos para outros seres humanos. E os sacerdotes que pontificam nos templos e nos santuários são sempre agentes de Alienação que se alimentam e muitas vezes enriquecem à custa da Alienação das populações, a menos que, a partir desses locais, se atrevam a anunciar o Evangelho da Liberdade e da Responsabilidade humanas que levará as populações a afastar-se deles e a deixar de os alimentar com o seu dinheiro.
Um dia, quando a Humanidade atingir o patamar da Maioridade – só então a Liberdade andará definitivamente de mão dada com a Responsabilidade – os sacerdotes serão todos olhados como inimigos dos seres humanos. E os templos e os santuários onde eles hoje pontificam e medram serão declarados espaços de Degradação humana. Podem continuar abertos, tal como hoje estão abertos os prostíbulos, mas então só quem não tiver coragem para se assumir como se Deus não existisse é que ainda os frequentará.
Nunca como neste dia 19 de Fevereiro 2006, a Hipocrisia e a Mentira andaram tão à solta e foram tão promovidas pelas televisões generalistas do nosso país. Digo-o com lágrimas. Ao mesmo tempo que não hesito em declarar aqui sem rodeios, para que todo o mundo saiba: Os meus irmãos da Igreja católica, nomeadamente bispos e presbíteros, teólogos na Universidade católica ou em Faculdades de Filosofia de Universidades não confessionais têm obrigação de saber como eu sei que Fátima com a sua senhora feita por um santeiro de turno é pura Mentira. Nem Maria, a de Jesus, nem Jesus, o de Nazaré, têm alguma coisa a ver com todo aquele culto e com todo aquele negócio de bradar aos céus. Muito menos têm alguma coisa a ver com toda aquela auto-humilhação colectiva de seres humanos. A Fé de Jesus, que acabou por se tornar também a Fé de Maria, sua mãe, já depois da morte violenta dele na cruz, é absolutamente incompatível com as chamadas “aparições de Fátima”, ou outras “aparições” semelhantes. Como a Luz é incompatível com a Treva. Como a Verdade é incompatível com Mentira. Mas aqui, no caso de Fátima, a Mentira é ainda mais descarada.
É preciso que se diga: Tudo o que ocorreu em 1917 em Fátima foi previamente programado ao pormenor pelo clero da região. Foi ele quem decidiu, como no guião de um filme, que as “aparições” só ocorreriam entre Maio e Outubro. E sempre aos dias 13 de cada mês. De modo que, depois de 13 de Outubro de 1917, o Céu fechou-se para sempre!...
Acham que estou a exagerar? Leiam com sentido crítico a própria Documentação oficial de Fátima, preparada com o objectivo de nos convencer da veracidade das “aparições”. Concluirão que tudo foi programado ao pormenor. E depois realizado perante populações caídas no Obscurantismo, esmagadas pelo Medo do inferno e pelas pregações terroristas dos Padres da Santa Missão e do livro Missão Abreviada. A dramatização em forma de "aparição" devia durar apenas seis meses. Porque se durasse mais tempo, teria sido difícil manter a Mentira de pé.
Acham que estou a exagerar? Leiam o livro As Memórias da Irmã Lúcia e depois confrontem com os depoimentos das três crianças em 1917, recolhidos pelo clero de Fátima que concebeu e executou a Mentira. Perceberão de imediato que estamos em presença de duas Mentiras distintas, a inventada pelo "baixo" clero em 1917 e a inventada pelo "alto" clero que, a partir de 1935, escreveu e fez a Irmã Lúcia escrever juntamente com ele essas “Memórias”. As duas Mentiras são tão distintas entre si, que qualquer pessoa não-fanática de Fátima logo se dá conta da contradição entre uma e outra.
Mas Fátima não é só Mentira. É também Crime. Porque as três crianças envolvidas em toda aquela encenação do clero acabaram por ser também as suas principais vítimas. Apenas o clero saiu vitorioso da inventona. Os dois irmãos, Jacinta e Francisco, de tão ingénuos e infantis que eram, nunca perceberam nada de nada do que se fazia acontecer. Não passaram de meros verbos de encher em todo o perverso processo. E acabaram ambos vítimas da pneumónica, e na ilusão delirante de que os seus inenarráveis sofrimentos eram necessários para que Deus não condenasse mais os “pobres pecadores” ao fogo do inferno, esse mesmo que os pregadores da Santa Missão lhes haviam pintado como tremendo local de horrores sem fim. (Bastaria este anti-Evangelho, para declararmos sem hesitação, que Fátima é Mentira e Crime. Um Deus que é capaz de criar um inferno de fogo eterno para “os pobres pecadores” e que, depois, em lugar de o destruir, ainda manda uma enviada sua à terra a três crianças portuguesas para as convencer a sofrerem horrores e a oferecê-los a Ele para que, assim “os pobres pecadores” não caiam lá mais, é um Deus mil vezes mais cruel que Hitler ou Pinochet e só pode ter sido inventado pelas frustrações de toda a ordem dos clérigos, catequizados desde meninos na aversão ao corpo e ao prazer sexual, por sinal, um e outro tão caros a Deus Vivo, o do Cântico dos Cânticos bíblico!).
Dos três primitos, apenas Lúcia conseguiu sobreviver à vaga pneumónica que então varreu parte do país. Mas para que a Mentira nunca mais fosse desmascarada, teve que ser enclausurada para o resto da vida, por sinal, muito longa, sem nunca mais poder dispor de si própria. A sua morte, há um ano, foi o momento alto da Mentira de Fátima. Mas não foi o último. Eis que, hoje, um ano depois, tudo volta a repetir-se. A orquestração é completa. O poder do Dinheiro é avassalador. E a Mentira de Fátima fica consumada contra um tal padre "marginal" que se atreveu a escrever e a publicar um livro intitulado Fátima nunca mais.
Para sempre? Enganam-se todos os fatimistas, papas e cardeais que sejam. Quando a Maioridade humana chegar, e a Liberdade andar de mão dada com a Responsabilidade, em todas as pessoas e em todas as populações, a Mentira de Fátima e da sua senhora com tanto de branco como de cruel, desfar-se-á como uma montanha de gelo perante a força do calor do Sol. Bendigo, desde já, esse dia. Por agora, só posso chorar. Convulsivamente.
2006 FEVEREIRO 16
Nunca choraremos bastante quando
vemos a Igreja chamada que está a
ser a campeã da Ilustração comportar-se
como a instituição-mãe do Obscurantismo
mais crasso e mais cruel. Então não é que
um ano após a morte e o funeral da Irmã Lúcia
a Igreja insiste em dar-nos mais do mesmo?
A Mentira das Aparições de Fátima continua
assim a fazer das suas. Ninguém entre
os responsáveis maiores da Igreja levanta
a voz contra semelhantes manifestações
necrófilas e de lágrimas. São até habilmente
estimuladas. Tirem à Igreja o culto pagão dos
mortos e o que ficará é pouco mais que Nada.
Se dúvidas houvesse de que Fátima e a sua
senhora são invenção do clero da região
bastaria ver como desde o princípio as três
crianças foram objecto da mais descarada
exploração eclesiástica. Francisco e Jacinta
acabaram abandonados à Pneumónica num
mar de dores. E Lúcia teve um viver de morta.
Mas como se já não bastasse tamanha
exploração em vida das três crianças ainda
acresce agora a exploração dos seus
cadáveres na basílica. O clero sabe que
as populações não ilustradas e ainda por
evangelizar correrão lá com suas dores e seu
dinheiro. E que só as dores voltarão com elas.
A senhora de Fátima não passa de mítica
imagem de madeira ou de gesso feita pelas
mãos do santeiro de turno. As populações
peregrinam até ela em busca de milagres que
nunca ocorreram nem ocorrerão. Como iria a mítica
senhora operar curas aos devotos em aflição se
já foi incapaz de valer a Jacinta e a Francisco?
Domingo certas ruas do País voltam a encher-se
com as lágrimas e as flores de multidões a quem
os sucessivos governos da Nação enganam e
oprimem com requintes de crueldade. Fosse
a Política o que Deus que dela gosta quer que
a Política seja e os santuários acabariam todos
convertidos em outros tantos ninhos de ratos.
Depois de Fátima nunca mais ficou claro
aos olhos de todo o Povo que Jesus o de
Nazaré e Maria sua Mãe saem ofendidos de
todos aqueles cultos idolátricos e inumanos
que têm lugar em Fátima a toda a hora. Do que
Jesus e Maria verdadeiramente gostam é de ver
as populações a gerir os seus próprios destinos.
“Deixa que os mortos enterrem os seus
mortos”. A afirmação é posta na boca de
Jesus e tem a força do seu Sopro libertador. Mas
a Igreja que se reivindica do seu Nome faz
questão de ao invés desenterrar cadáveres para
os oferecer em macabro espectáculo pelas ruas
a populações que mastigam Morte a toda a hora.
Deixem a Irmã Lúcia com os seus fantasmas
e os Bispos e demais clero fatimista com a sua
perversa Mentira. Saibam que nunca houve e
jamais haverá uma aparição digna de crédito.
Ousemos sim viver todos os dias a mesma Fé
de Jesus e os milagres que em vão temos
esperado do Céu ocorrerão mas feitos por nós.
E se na trasladação dos restos mortais da Irmã
Lúcia tiverem que chorar não sejam por ela
as vossas lágrimas mas por Vocês que todos
estes anos se têm deixado enganar. Enxuguem
depressa as lágrimas e ousem ser pessoas de
olhos abertos. Mandem às urtigas Fátima e a
sua senhora e atrevam-se a viver fora do Medo.
2006 FEVEREIRO 11
Num país desempregado e à deriva vem
a Banca dizer-nos todos os dias que
os seus negócios vão de vento em popa
e os seus lucros são uma pirâmide cujo
vértice está cada vez mais perto do céu onde
deus - o do Dinheiro e do Poder - tem o seu
trono de vampiro. Mais macabro é impossível.
É bom que se produza Riqueza mas é
ainda melhor que a Riqueza produzida
seja equitativamente Repartida segundo
as necessidades de cada qual. Riqueza
concentrada e acumulada é um Demónio
que desumaniza a sociedade. Torna ricos
uns poucos à força de empobrecer muitos.
Já repararam no ar afectadamente seráfico
com que um qualquer administrador de Banco
comunica via tv aos seus fiéis os lucros do seu
templo sagrado? E na luxúria do olhar com que ele
anuncia a decisão de abrir novos balcões/altares
ao serviço do deus Dinheiro? E que dizer da
reverência com que o país o escuta e admira?
Por força da evolução é suposto que a vida
avança da animalidade para a Humanidade
e do Egoísmo para a Comunhão. Mas a chegada
em força do deus Dinheiro está a ferir de morte
este salutar processo evolutivo e hoje é já patente
que a Humanidade regride para a Animalidade
e pode muito bem acabar numa simples Coisa mais.
O Dinheiro está a matar o Ser Humano. E o que
agora mais existe por aí são Coisas. Um pouco mais
e desaprenderemos de falar e de sorrir. Seremos
os senhores milhões e milhares de milhões. Comeremos
euros e defecaremos montes de cêntimos num
ritmo estonteante sem nenhum tempo para o Poema
nem para a Dança. Nem para o prazer do Envelhecer.
Felizes os que resistimos ao Dinheiro e à sua
sedução. E que à Riqueza sabemos dar aquela
dimensão humana que ela sempre adquire quando
anda ligada a Causas e Projectos que interessam
à Humanidade no seu todo. A Riqueza que
se transforma em Dinheiro é um Demónio que
converte o seu dono num vaso de luxo cheio de lixo.
Estremeçam quando virem o deus do Templo
de mão dada com o deus Dinheiro. E fujam para
o Deserto se puderem. Refugiem-se em pequenas e
sororais Comunidades onde o Amor mútuo
é Comida e Bebida servido em Mesas partilhadas
nas quais o Pobre tem sempre a precedência. São
estas Mesas Partilhadas que salvarão o Mundo.
Podem acenar-me com o Dinheiro e as suas
muitas e variadas seduções. Recuso-me a ir
por aí. Já provei a Riqueza Partilhada e sei que
só ela me faz irmão universal. Quero por isso
manter-me pobre até ao fim dos meus dias. Porque
só assim a Riqueza produzida será sempre
riqueza Repartida. E nunca chega a ser Dinheiro.
2006 FEVEREIRO 06
Caricaturas de Maomé publicadas num
jornal da Dinamarca estão a incendiar
o mundo islâmico. Que digo? Incendiar?
A Opressão entre os muçulmanos feita em
nome de Maomé é tanta que parece não
haver Fogo trazido à terra que ponha cobro
a Obscurantismo tão tamanho. E só posso chorar.
Repetem há séculos que Maomé é o Profeta e
que Alá é o único Deus. Mas pelo andar da
carruagem o discurso deveria ser mudado e
proclamar: Maomé é o único Deus e Alá é
o seu profeta. Na sua fúria os seguidores de
Alá e do seu Profeta nem sequer se ficam pela
velha Lei de Talião e fazem do Ódio a sua Lei.
Poderiam responder às caricaturas com outras
semelhantes num jornal do seu país ou até
no mesmo jornal que publicou as do seu Mentor.
Não é por aí que vão. Às caricaturas respondem
com Ódio e destruição numa fúria que tem tudo
de demoníaco e nada de humano muito menos de
fraterno. Alá e o seu Profeta só poderão chorar.
Por aqui no Ocidente aconteceu há mais de duzentos
anos a Modernidade e com ela a Revolução das
consciências. Mas se ela ainda não aconteceu em
todo o cidadão ocidental o que dizer dos cidadãos
muçulmanos que vivem paredes meias connosco?
Partilham do nosso chão mas guiam-se por uma
consciência que ainda nem chega à perna de Talião.
Não me acenem com limites à Liberdade
acabem é com a Opressão. O pecado não
está nas caricaturas nem na sua publicação.
O pecado está no Ódio e na Destruição que
adeptos de Alá e do seu Profeta protagonizam
em países que os acolheram e que agora o que mais
desejam é vê-los crescer também em Liberdade.
Sem Liberdade não há culto que possa agradar
a Deus. E se Alá e o seu Profeta não são para
fazer as pessoas e os povos crescer em liberdade
nem sequer merecem o nosso respeito quanto
mais o nosso culto. Nem Deus nem profeta rimam
com Opressão de pessoas e de povos. Lá onde
falta a Liberdade Deus e Profecia são Mentira.
Uma Revolução como a da Modernidade tem
que ser exportada para todo Planeta até incendiar
todas as consciências. Porque é um património de
toda a Humanidade tão pouco pode ficar refém
de Tradições ou de Religiões. Mas que fazer quando
os escravos de tão alienados que se encontram
se rebelam contra quem os desafia com a Liberdade?
O princípio ético é peremptório – Liberta o Oprimido!
Põe fim à Pobreza estrutural! A Paz é o Pão
dos Povos! Mas depois da guerra no Iraque feita
pelo Império de Bush e seus vassalos ocidentais
não há tão cedo Ocidente que mereça a confiança
dos Povos do Islão. E até a Liberdade soa aos seus
ouvidos como liberdade para matar roubar e destruir.
Ou corremos até aos Povos do Islão para lhes dizer
que pecamos quando invadimos o Iraque e
declaramo-nos dispostos a reparar com generosidade
todos os danos causados ou teremos que suportar
o seu Ódio sem medida e sem controlo. Os dias
que vivemos já disseram que eles são suicidas e só
param quando já não houver mais pedra sobre pedra.
Entendamo-nos: a Liberdade que nos faz humanos
também nos faz fraternos/sororais dos outros
povos. Mas é Jesus quem nos vem lembrar que não há
Liberdade sem Verdade. “Amai a Verdade que a
Verdade vos fará livres”. Por isso morreremos no nosso
Pecado ocidental, se nos não rebelamos contra a Mentira
em que são peritos o Império de Bush e a Ordem Mundial!
2006 FEVEREIRO 03
Chamam-lhe o homem mais rico do mundo
e caíram-lhe todos aos pés nos dois dias
que ele se passeou por Portugal. Todos
menos os pobres que esses não ficam
bem na fotografia entre os grandes e os
ricos do mundo. Onde estiverem são sempre
um espinho cravado nas suas consciências.
Veio dos Estados Unidos dos dólares
e no pródigo dizer dos grandes media
é o maior benfeitor do mundo. Os seus
computadores estão em todo lado e a
sua fortuna não pára de crescer. Mesmo
a dormir ou a dar entrevistas a sua conta
sobe em flecha. É bem o homem-dólar.
Tudo o que fez e exibiu nestes dois dias
os media acharam bonito e digno. Só o que
eles não disseram foi que até os actos
de benfeitor que subscreveu são rentáveis
negócios disfarçados de ajuda aos países
pobres. Quem duvida que as vendas dos
seus produtos vão agora subir em flecha?
Dir-me-ão que é melhor um rico benfeitor
que um rico avarento. Sem audácia para
atacarmos o mal na raiz, preferimos entre
dois males aquele que nos parece menor e
com isso já nos temos por inteligentes e sábios.
Mas inteligência e sabedoria sem audácia já
são suficientes para revelar seres humanos?
Ai dos ricos. O grito é de dor e só a infinita
Ternura de Jesus de Nazaré foi capaz de
lhe dar timbre na História. É uma boa notícia
mas até hoje nem os ricos nem os pobres a
entenderam e acataram. Os ricos porque se têm
na conta de abençoados por Deus. E os pobres
porque o que mais desejam é tornar-se ricos.
Felizes os pobres. É esta a outra face da boa
notícia de Jesus de Nazaré que poucos ou
nenhuns de nós até hoje temos sido capazes
de entender e acatar. O Mundo só estará em
vias de salvação quando todos – pessoas e
povos – escolhermos ser pobres. Só então
a riqueza produzida é equitativamente partilhada.
Desculpem-me esta confidência: mas ao olhar para
este homem mais rico do mundo vi de repente
o antípoda de Jesus de Nazaré. E fiquei triste
até as lágrimas. Tanto aparato policial para o
proteger e aos pequenos grandes que o rodeavam
como satélites mostrou-me um excêntrico com
a cabeça a prémio. Não um irmão universal.