DIÁRIO ABERTO
26 FEVEREIRO 2005
A semana que hoje termina foi para mim uma semana cheia e, felizmente, toda centrada na missão Evangelizar os pobres, o ministério prioritário, para não dizer, o único que compete ao presbítero da Igreja de Jesus. É por isso que não deixa de ser, no mínimo, curioso que a diocese do Porto a que pertenço, como presbítero, continue, há mais de 30 anos, a não me atribuir qualquer ofício pastoral específico. Até ela parece já ter concluído que é melhor assim. Ao não me atribuir nenhum ofício pastoral concreto, deixa-me inteiramente livre para a missão fundamental de qualquer presbítero, que é Evangelizar os pobres. Tomara eu que todos os bispos e presbíteros da Igreja católica também vivessem em exclusividade o ministério eclesial para que foram ordenados. Tudo o mais que deixassem de fazer, para não deixarem de realizar o ministério de Evangelizar os pobres, acabaria por não fazer falta e, certamente, cada Igreja local, entenda-se, diocesana, encontraria depressa nos demais membros, leigas e leigos, as pessoas dotadas de carismas para se ocuparem dessas outras tarefas, grande parte das quais, aliás, poderiam e deveriam ser até assumidas por funcionários eclesiásticos contratados para o efeito, ou então, por diáconos permanentes, pelo menos, enquanto não nos atrevermos a avançar para uma Igreja toda ela baptismal com ministérios, o mesmo é dizer, toda ela laical, sem hierarquia de nenhuma espécie, verdadeira fraternidade/sororidade como o próprio Jesus quis que o seu movimento fosse, no decurso da História. Ou assim, ou já não poderá reivindicar-se com toda a propriedade do seu nome! Os séculos para trás, desde Constantino até hoje desviaram-nos gravemente desta rota e, o que é pior, criaram tradições, desenvolveram eclesiologias e teologias justificadoras e legitimadoras que, agora, serão muito difíceis de abandonar por parte da grande instituição. Mas esta terá que o fazer, se quiser ter futuro e influência humanizadora na História. O Evangelho de Jesus é inequivocamente claro a este respeito. Só mesmo um cego que não queira ver é que não vê que terá que ser assim. Infelizmente, os bispos e os presbíteros da Igreja continuam a preferir assumir-se como funcionários eclesiásticos, uns muito zelosos, outros nem por isso. Por outro lado, quando ordenam diáconos permanentes (ainda não se atreveram, para seu mal e mal da Igreja, a ordenar diaconisas permanentes, em pé de igualdade com os diáconos) é para os pôr a fazer mais do mesmo. Não há, nesta decisão de ordenar diáconos permanentes uma mudança qualitativa, apenas quantitativa. O que perfaz um desastre completo. Sabe-se que, na primitiva Igreja o problema já se levantou e foi paradigmaticamente solucionado a favor da missão de Evangelizar os pobres. Quando o serviço das mesas exigia pessoas a tempo integral, os apóstolos começaram por assumir essa tarefa, com prejuízo da missão de evangelizar os pobres. Mas logo as Comunidades emendaram a mão, com a eleição de diáconos. O espantoso é que, nessa altura, até os diáconos, acabados de instituir para servir às mesas, logo perceberam que toda a urgência ia para a missão Evangelizar e não para o serviço das mesas. Este limita-se a alimentar a comunidade no ponto em que ela está, até que a morte individual dos seus membros aconteça e os leve a todos. Sem Evangelizar os pobres, a Igreja desaparecerá com o desaparecimento do último membro. Só a missão Evangelizar os pobres, correctamente realizada, ao anunciar a todos povos e a cada geração que chega a este mundo a Boa Notícia de Deus, realizada em Jesus, o de Nazaré, é que desperta novas comunidades cristãs jesuânicas, não necessariamente como as anteriores, mas verdadeiramente inculturadas nas sociedades em que misteriosamente acontecem por acção do Espírito de Jesus ressuscitado. Por mim, é assim que vejo as coisas. E por isso é também assim que procuro viver como presbítero da Igreja do Porto.
Felizmente, a semana que hoje termina foi assim para mim. Por isso, me experimento cada vez mais o que efectivamente sou na Igreja: presbítero ordenado para o ministério de Evangelizar os pobres. Na 2.ª feira, 21 de Fevereiro, fui até Barcelos, ao encontro duma senhora que tem lido alguns dos meus livros, conhece-me da televisão e , uns tempos antes, me contactou pelo telefone para um primeiro encontro cara a cara. Na 4.ª feira, 23 de Fevereiro, almocei mais cedo em casa e fui na carrinha participar no encontro da pequenina Comunidade das Quartas-feiras, em S. Pedro da Cova. Fiz-lhes essa surpresa. Sei que sou sempre desejado. E sei também por experiência que saio de cada encontro sempre mais alimentado e fortalecido na missão e no ministério. Na 5.ª feira, 24 de Fevereiro, integrei o grupo da pequenina Comunidade de Base de Macieira da Lixa que protagoniza o ministério dos doentes, desta vez, acrescido de Isaurinha, depois de mais de um ano de ausência. Voltámos a visitar as idosas, os idosos do Lar da Casa do Povo da Lixa. Finalmente, ontem, 25 de Fevereiro, fui e vim de comboio a Lisboa, a convite do Bispo da Igreja Vetero-Católica, o meu amigo António Raposo, para gravar uma entrevista de 25 minutos sobre Fátima, conduzida por ele. A entrevista preencherá integralmente o tempo de antena, no Canal 2 da RTP, que aquela Igreja irá dispor na manhã de domingo, 6 de Março. Espero que o programa não seja boicotado, em nome de um qualquer tonto pretexto católico. Seria um escândalo que eu não deixaria de denunciar em todo o lado.
1. Em Barcelos, fui acolhido na própria casa da senhora Maria de Fátima. É uma enfermeira profissional, acabada de entrar na reforma. Casada. Mãe de dois filhos, já casados, e uma filha. Vive com o marido e a filha ainda solteira. Comigo, foi Maria Laura, presbítera não-ordenada da Comunidade de Macieira da Lixa. A sua vida também está toda soprada para a missão de Evangelizar os pobres. A saúde dela não é famosa, nesta altura, mas a verdade é que quando ela avança em missão, os seus problemas de saúde como que desaparecem. É mulher do povo, sem estudos superiores, mas com muito Espírito. É o exemplo mais completo de mulher carismática que eu conheço na actualidade. Nem ela tem consciência disso, o que é um bom sinal. E, quando lho digo, ou o testemunho a outras pessoas, ela sempre reage com algum constrangimento e diz sempre que são os meus olhos que vêem assim. Felizmente, na hora de dar testemunho de Jesus e da originalidade da sua via, toda ela se transfigura e comunica. Não tem um discurso burilado. Não tem argumentos bíblicos e teológicos aprofundados. Mas comunica Espírito Santo. E sabedoria, que não é a mesma coisa que saber académico. Todo o seu rosto fala, os seus olhos brilham. E, o que é mais conclusivo, é que as pessoas que a acolhem com simplicidade e sem preconceito, no final, experimentam-se misteriosamente mais libertas, mais humanas, mais solidárias e mais militantes. Ora, não são outros os frutos do Espírito Santo, como sabemos.
Quando pelo telefone coloquei a possibilidade a Maria de Fátima de me fazer acompanhar por Maria Laura, logo ela, mesmo sem a conhecer, se mostrou particularmente feliz com a ideia e insistiu que a levasse comigo. Assim aconteceu. Em boa hora. O encontro ganhou outra riqueza espiritual. E, desde então para cá, Maria de Fátima já contactou Maria Laura pelo telefone, por mais de uma vez. A minha alegria é que seja Maria Laura a evangelizá-la e a ser evangelizada por ela. Mais do que eu próprio.
O encontro na casa de Maria de Fátima iniciou-se de manhã, pouco depois das 11 horas. E concluiu já depois do lanche, para lá das 17 horas. Almoçámos em conjunto, na sala de jantar da casa. A filha do casal, Raquel, trabalha, mas veio almoçar connosco. Trouxe toda a sua graciosidade juvenil e todo o seu calor afectivo. O almoço pareceu correr veloz, de tão intenso e íntimo. Quando teve de regressar ao trabalho, Raquel já não era a mesma. E prometeu que haveríamos de voltar a sentar-nos com tempo, num dia em que o horário de trabalho não funcione, para que possamos ser tudo para todos, todos para todos. Maria de Fátima, radiante com este desejo da filha, também concordou. Aliás, faz mesmo questão que, da próxima vez, estejam presentes também os dois filhos, as noras e o seu marido.
Desta primeira vez, foram tantas as perguntas que Maria de Fátima tinha engatilhadas, que eu quase não pude respirar. O à vontade aconteceu de imediato e eu andei de um lado para o outro com ela, entre a sala e a cozinha, para lhe escutar as perguntas e ela ouvir as respostas que eu avançava. Nos curtos intervalos, ocorria sempre alguma salutar cumplicidade entre ela e Maria Laura, como se ambas já se conhecessem e lidassem há muitos anos. É assim a vida, quando não são os formalismos a conduzir-nos, mas a verdade e a simplicidade, próprias do Espírito Santo. Não temos nada que ter maneiras piedosas, ares de sacristia, a cheirar a incenso ou a cera queimada, como é timbre dos ambientes eclesiásticos e religiosos. Temos que ser humanos, simplesmente. O mais humanos que nos for possível. E sororais/fraternos até ao limite. Se possível, logo de entrada, mesmo no começo duma relação, como foi o caso presente. Porque o que o mundo carece é de humanidade, não de sacristia. O mundo vive no artificial, no faz-de-conta, na aparência, na hipocrisia. Ora, a marca do Espírito Santo, nas relações entre pessoas, é a verdade. E onde houver verdade, há logo humanidade no relacionamento. Procurei ser intensamente humano, em casa de Maria de Fátima e com ela. O mesmo, Maria Laura. E Maria de Fátima, assim como a sua filha Raquel, acabaram por ser humanas também. A comunhão aconteceu. O encontro deu-se. As palavras, muitas palavras, que dissemos, que partilhámos podem desaparecer da nossa memória. Ficará a experiência única de humanidade que vivemos, neste dia. Mas para que sejamos humanos é que há a missão Evangelizar os pobres. Para que sejamos humanos é que Deus, em Jesus, o de Nazaré, se fez Deus-entre-nós-e-connosco. Não foi para que sejamos religiosos. Religiosos, já os povos eram cem por cento, quando entre nós aconteceu Jesus, o de Nazaré. Ele aconteceu para que sejamos humanos. Religiosos, já os povos são desde o princípio da Humanidade. Quanto mais religiosos, menos humanos. Com Jesus, o movimento é inverso. Diminui a religião e cresce o humano. Até nos tornarmos irmãs, irmãos universais. O humano tem que crescer até esta profundidade. Não se trata de subir, mas de descer. Descer até nos tornarmos irmãs, irmãos uns dos outros. Quando chegaremos aqui? As religiões só atrapalham. São mentira e engano. Dizem-nos que a nossa grandeza humana está em subir até Deus, um Deus que elas imaginam lá em cima, no mais alto dos céus. Com Jesus, o de Nazaré, pudemos ver que a grandeza humana está em descer até nos tornarmos irmãs, irmãos uns dos outros, a partir dos últimos da História. Porque Deus, o de Jesus, não está no mais alto dos céus (ele não é um super-Bush!...), mas na base, no último dos últimos (cf. Mateus 25, 31-46).
As perguntas de Maria de Fátima foram muitas. Mais serão noutros encontros. Não me preocupei com responder a todas. Com o tempo, ela irá descobrir que o importante, para Jesus, para o Deus de Jesus, não é saber, é ser; não é muita erudição, é viver com simplicidade; não é subir, é descer; não é tornarmo-nos como deuses, é tornarmo-nos irredutivelmente humanos, na dimensão mais funda de todas, que é ser irmã, irmão universal, a partir dos últimos de todos. É por isso que foi muito bom Maria Laura ter viajado comigo em missão. Com ela, esta revelação será mais depressa apreendida por Maria de Fátima. O resto é com o Espírito Santo!
2. Na Comunidade das Quartas-feiras, estavam adoentadas três companheiras. O encontro fez-se apenas com a Lena, o Rogério e eu. Comentámos as eleições do domingo anterior. A mudança que se operou no nosso país. A nova oportunidade que se abriu com este surpreendente resultado eleitoral. Mostrámos a nossa alegria e confiança. Com moderação. Os actuais sinais dos tempos são portadores de alegria e de esperança. Não vamos ficar de braços cruzados. Vamos viver cada dia com inteligência e muito coração. É na Política, não na Religião, que Deus, o de Jesus, se nos revela. É por aí que Ele anda e actua. Todos os dias. Longe dos templos. É desta Eucaristia feita de entrega de vida que Ele gosta. Das missas não gosta. Não as suporta. Embora a nossa Igreja católica insista em ir por aí. São acções perdidas. Jamais atingem o objectivo. O Deus que as missas invocam não é o de Jesus. É o das religiões que mataram Jesus. Quando é que a Igreja acolherá este Evangelho, esta Boa Notícia de Deus, realizada em Jesus, o de Nazaré?
No decorrer do encontro, lemos e ouvimos ler o Evangelho de Marcos. Aquela narrativa do capítulo III, que nos fala de um homem com o braço atrofiado presente na sinagoga, em dia de sábado. Esse mesmo que Jesus colocou no meio da assembleia – foi a subversão completa da rotineira reunião semanal – e interpelou os presentes se em dia de sábado se poderia fazer bem às pessoas que vivem atrofiadas. O escandaloso é que ninguém dos presentes se atreveu a responder nem sim nem não. Nem mesmo o chefe da sinagoga! Mas depois já se atreveram a deliberar matar Jesus, porque ele, em plena reunião na sinagoga, ousou fazer bem às pessoas presentes, representadas naquele homem de braço atrofiado. Foi o bom e o bonito!... É sempre o bom e o bonito, quando Jesus, o de Nazaré, está presente e actua. Ainda hoje é assim. Ele actua pelo Sopro, pelo Espírito. Como actuou, agora, nestas últimas eleições em Portugal.
No diálogo entre nós, percebemos que então a sinagoga, com toda a sua actividade rotineira, com a sua interpretação da Lei de Moisés, é que atrofiava as pessoas, não as deixava ser. Nem as deixava agir. As populações eram populações atrofiadas, sem acção. Cumpridoras das tradições, mas incapazes de se auto-gerir, incapazes de protagonismo social e político. Eram populações esmagadas pelas minorias religiosas e políticas. Em nome de Deus. A sinagoga, em lugar de ser como uma parteira, era como um túmulo. Exactamente, como hoje o santuário de Fátima para quem lá vai e está lá com devoção. E também como as missas nas paróquias católicas. Atrofiam as pessoas. Desviam-nas da História e da Política. Ocupam-nas com ninharias, com actividades sem interesse. Basta ver com que se ocupam os bispos. O que fazem quando visitam as paróquias. E com que se ocupam os párocos. Pior ainda as leigas, os leigos. Tudo contribui para alienar, para atrofiar as populações. Mas então não vêem que foi isto que as Igrejas e as religiões conseguiram ao longo dos séculos? Quem mais frequenta esses locais, mais atrofiado fica. Não dá uma para a caixa! Inclusive, pessoas com cursos superiores. Se são assíduas nas paróquias e, sobretudo, se limitam a sua vida militante a esses ambientes, ficam infantilizadas, dependentes, assustadas, ocupadas em coisas de lana caprina, o contrário de Jesus, o de Nazaré!
Na sinagoga, Jesus teve a audácia de romper com essa opressão. Interveio com força, com Espírito. E dessa intervenção, as pessoas soltaram-se e ficaram libertas para a liberdade. O Evangelho chama a esta intervenção com Espírito “fazer bem”. Não tem nada a ver com caridadezinha. Tem tudo a ver com fazer acender uma luzinha na consciência de cada pessoa. Para que ela passe de ingénua a crítica, de cega a lúcida, de atrofiada a liberta, de pessoa-pau-mandado a sujeito, de subserviente a dissidente, de súbdito a rebelde, de resignado a revolucionário. Por isso, os chefes da sinagoga quiseram logo ali matar Jesus! Pudera!...
3. O regresso ao Lar de idosos da Lixa foi uma festa. As idosas e os idosos, aquelas em muito maior número, parece que já estavam com saudades. Dormitavam, como da outra vez. Acordaram logo. Desta vez, já não me apresentei constipado. Voltei a fazer uma animação. Com um novo canto do meu livro “Canto(S) nas margens”. Todas, todos cantaram, ao seu jeito. A música era alegre. O canto chama-se: “Quadras para chamar a alegria”. À chegada, cumprimentei cada idosa, cada idoso. Àquelas que aproximaram a sua cara da minha, beijei-as. A todas fiz uma festinha nos cabelos. Olhei cada uma, cada um nos olhos. Como irmão e companheiro. Da mesma família. Ninguém se mostrou agastado. Pelo contrário, foi um saudável alvoroço. Com algumas, demorei mais tempo. Quase todas querem falar. Têm confidências a fazer. Cada lar de idosos é um mundo. A Humanidade, no seu ocaso da História está toda ali. É sagrado aquele chão. Deveríamos descalçar-nos antes de entrar. É uma Humanidade abandonada pela família. Algumas das pessoas ainda têm visitas frequentes. Mas outras não. A recordação da família é de imediato acompanhada com lágrimas. Grossas. E abundantes. É de cortar a alma! De que importa viver cá fora, se para viver precisamos de “matar” as mães, os pais? Os lares podem ser uma necessidade dos tempos actuais. Porque os tempos actuais perderam a sua dimensão de humanidade. Humanizemo-nos e os lares desaparecerão. Haverá lar, não lares. Porventura, lar com idosas e idosos que se integram na família. Mas não lares sem família. Só a crueldade humana é capaz de insistir nesta solução de facilidade e, por isso, de desumanidade.
4. A entrevista. Foram 25 minutos a sério. Passaram num instante. Mas Fátima, nesta entrevista, fica ainda mais sem conserto. Fica ainda mais desacreditada. Fátima, não há ponta por onde se lhe pegue. Tudo é perverso. Mesmo o que parece ser razoável e aceitável. A raiz é perversa. Como tal, toda a árvore está inquinada. Só lhe resta desaparecer. A Igreja não tem mais remédio, senão reconhecer a mentira, pedir desculpa ao mundo e afastar-se de tudo aquilo. Também por amor de Maria, mãe de Jesus. Se não o fizer, afunda-se na mentira. E não conseguirá jamais anunciar o Evangelho de Deus, realizado em Jesus, o de Nazaré. E em Maria, como discípula (tardia) dele. Entre Fátima e Jesus, o de Nazaré, a incompatibilidade é absoluta. Onde estiver Fátima e a senhora de Fátima, não está Jesus.
É claro que não estou aqui a reproduzir o que disse nesta entrevista. Mas, se ela for para o ar e escutarmos com ouvidos de ouvir o que lá digo, a conclusão a tirar não pode ser outra. Como sabemos, Fátima não faz parte do Credo católico. Nunca fará! Por isso, qualquer católico pode recusar-se a acreditar em Fátima. Não é por isso que deixa de ser católico. Mas eu digo mais: Fátima é incompatível com o Evangelho. Quem comungar da mesma Fé de Jesus, não pode ver em Fátima sinais do Deus de Jesus. Todos os sinais que Fátima emite são da mítica Deusa virgem e mãe dos cultos primitivos da Humanidade, quando esta ainda era matriarcal. Mas esses eram os tempos da alienação e da consciência ingénua. Da Opressão. O tempo das Trevas. À medida que chegar o tempo da Luz, Fátima desaparece. Só se dá bem no tempo das Trevas. Ela própria é treva!
Eis uma síntese muito breve da minha semana presbiteral. Nesta altura, o papa João Paulo II está de novo no Hospital. Mais uma operação cirúrgica. Abriram-lhe um orifício na garganta para ele poder respirar e ser alimentado com mais facilidade. Os católicos rezam. Em todo mundo. Centenas, milhares fazem vigília toda a noite. Pedem a Deus que o cure. Dão ao resto da Humanidade uma imagem desgraçada da Igreja e de Deus. Parece que Deus é um sádico que está a roubar o papa à Igreja. A quem é preciso convencer com orações para que mude de postura. Como se ter saúde ou estar doente, melhorar ou piorar dependesse de Deus. Não há maneira dos católicos crescerem em dignidade. Uma fé que se afirma à custa da dignidade humana é uma aberração. É causa de ateísmo generalizado. O dramático é que não há um bispo sequer que venha evangelizar os católicos que assim procedem. Os grandes media exploram este pormenor até ao tutano. Fico triste com tudo isto. Mas que hei-de fazer? Infelizmente, ninguém me chama a dar o meu testemunho. É claro que não alinho nesta infantilidade católica, a raiar pela cretinice. Fé cristã é lucidez, é responsabilidade. Não é pedinchice a Deus. É deixar Deus ser Deus em nós. Como Jesus deixou. Não vou pela pedinchice. Ninguém deve ir. Se se tivesse de ir por aí, era melhor ser ateu! Em lugar de exigirmos à Cúria romana que assuma as suas responsabilidades, viramo-nos para Deus. Deixemos o papa em paz. Deixemos o papa morrer em paz. Não queiramos fazer dele um deus. Deixemo-lo passar à etapa seguinte da vida que não acaba na morte, apenas se transforma e nos transforma.
Segue o teu percurso em paz, João Paul!. O Oceano de amor que é Deus espera-te. É Ele a nossa Plenitude. Nele somos. Para sempre. Tu também. E nem sequer são precisas missas. Basta-nos Deus, o Amor, Pura Graça!
22 FEVEREIRO 2005
E o que parecia politicamente impossível aconteceu no dia 20 de Fevereiro de 2005! O país viu-se livre de Paulo Portas e de Santana Lopes. Acabou o circo político nacional. Volta a haver oportunidade para os profissionais do humor realizarem a sua actividade sem a concorrência desleal destes dois ministros, um, o primeiro, e o outro, o de estado e da defesa. A estrondosa derrota que as eleitoras, os eleitores infligiram aos dois partidos que ambos lideravam como palhaços políticos de circo (com pedido de perdão aos palhaços profissionais competentes), pôs fim à mentira e incompetência que eles habilmente tentavam fazer passar por verdade e competência. Paulo Portas percebeu isso logo na noite do dia 20 de Fevereiro e fez o que tinha a fazer: anunciou ao partido e ao país que se ia embora de líder partidário. Vamos a ver se ainda tem estômago para permanecer no país a viver. Pessoalmente, não creio. Penso que ele, depois de arrumar a casa partidária, partirá para o exílio político. Este país é demasiado Esquerda para ele poder sentir-se nele como em sua casa. Será sempre um estranho. Já, Santana Lopes, apesar da derrocada eleitoral sem precedentes, não o fez logo, nessa noite, mas acaba de o anunciar hoje mesmo, ao fim da manhã.
O país apresenta-se agora totalmente iluminado pelas cores quentes da rosa e do vermelho, à excepção do distrito de Leiria, o tal onde se situa o santuário da senhora de Fátima. Em Portugal continental, só mesmo este distrito resistiu à onda da suspirada mudança política (o outro, é a Região Autónoma da Madeira, tiranicamente governada por uma espécie de soba, o impagável Dr. Alberto João Jardim). A cruel senhora de Fátima lá conseguiu, para mal delas, que as populações residentes nas freguesias do Distrito geograficamente mais próximas do seu inumano santuário votassem maioritariamente no partido político laranja que arrastou o país, nos últimos três anos, para o estado de tristeza e de depressão colectiva em que ele hoje se encontra. Fê-lo, porque, como não me canso de o sublinhar, ela não suporta a liberdade, nem a existência de populações dotadas de consciência crítica, muito menos protagonistas e abertas ao prazer de viver e à dimensão responsavelmente erótica e festiva dos seres humanos. Todo o seu perverso deleite vai para populações escravas e sofredoras, masoquistas e sádicas, tristes e desgraçadas como a pequenina Jacinta e o pequenino Francisco Marto, de 1917, e também a mais velhita dos três primitos, Lúcia de Jesus. Na verdade, enquanto os dois irmãos morreram pouco tempo depois das mentirosas “aparições” e assim acabou depressa para eles o sofrimento, por sinal, atroz q. b., já para a prima deles, os clérigos sado-masoquistas que sempre fizeram dela gato-sapato levaram a sua crueldade ao ponto de a manter sequestrada e torturada até ao fim dos seus longos 97 anos, que foi quanto durou a vida dela! Mas terá sido esta a última proeza eleitoral da senhora de Fátima – entenda-se, do clero católico que ininterruptamente manipula o seu culto feito de mentira, uma vez que a senhora de Fátima não passa duma tosca imagem morta de gesso ou de madeira – e a prova é que, nestas eleições legislativas antecipadas, estranhamente, já apareceram por lá muitas pessoas a votar Esquerda e até “Esquerda radical”, como reiteradamente o catolicíssimo e fatimista Dr. Paulo Portas não se cansou de classificar o Bloco de Esquerda, durante esta última campanha eleitoral.
Por isso digo: O reitor do santuário que se cuide, assim como o pe. Lereno, de Lisboa – o tal que, ao abrir a campanha eleitoral, disse na missa de domingo radiodifundida pela Antena-1, que nenhuma católica, nenhum católico podia dar o seu voto a partidos que defendem a lei do aborto e uniões de facto entre homossexuais e entre lésbicas. E porquê? Porque, quando formos um país, finalmente, liberto da pobreza e do analfabetismo que hoje vergonhosamente ainda nos afligem; quando formos um país dotado de eficientes serviços de saúde, prontos a responder às reais necessidades das populações; quando formos um país com trabalho garantido para todas as famílias; e, sobretudo, quando formos um país com populações libertas dos ancestrais e irracionais medos de cruéis nossas senhoras, como a de Fátima, então, tanto o santuário que um dirige, como a missa dominical a que o outro regularmente preside numa conhecida paróquia de Lisboa, correm sério risco de ficar praticamente às moscas. E ainda bem, uma vez que Deus, o de Jesus, o que de nenhum modo nem a nenhum título pode suportar é a pobreza dos pobres, muito menos a cientificamente programada fabricação de pobres em massa que hoje o sistema neo-liberal de mercado tem cruelmente em marcha. Tão pouco pode tolerar, um instante que seja, o sofrimento humano. E só por isso é que, em Jesus de Nazaré, foi até ao extremo de o carregar por inteiro, não para o canonizar ou valorizar, como mentirosamente ensinam as catequeses eclesiásticas, mas para o excomungar e acabar de vez com ele para sempre.
Os inesperados resultados eleitorais de domingo têm, pois, sabor a uma revolução popular pacífica. Nunca como desta vez o voto popular teve tanta força. Removeu o que parecia aí de pedra e cal, pelo menos, a julgar pelo demagogo discurso político de Paulo Portas e de Santana Lopes. Paulo Portas gostou tanto de ter chegado ao governo do país, concretamente, ao cargo de ministro de Estado e da defesa nacional, que já se perfilava para fazer dessa situação o seu modo de vida. E o seu sonho era passar de ministro de Estado a primeiro ministro de Portugal. Foi assim que se mostrou nos cartazes de campanha por todo o país! A sua vaidade pessoal atingiria então o ponto mais alto. Por sua vez, Santana Lopes vestiu com tanto jeito o papel de vítima – apresentava-se como uma espécie de Cristo flagelado, mas, é claro, sem as marcas dos punhais e das facadas que diz ter apanhado pelas costas! – que parece ter chegado a acreditar que estava totalmente inocente, relativamente ao estado em que o país actualmente se encontra, pelo que as portuguesas, os portugueses só poderiam votar nele, para que ele pudesse prosseguir como o primeiro ministro de Portugal até ao fim dos seus dias.
Enganaram-se redondamente um e outro. Sinal de que nem um nem outro conhecem as populações do seu país. Mais parecem estrangeirados que vivem aqui. Mas que não são de parte nenhuma. Só são deles próprios, das suas vaidades, das suas ambições sem limite, dos seus caprichos. Felizmente, as populações portuguesas que conhecem na carne as nefastas consequências dos seus reiterados números de circo político, enquanto membros do governo, é que não embarcaram nos seus discursos feitos de mentira e de demagogia. Revelaram, até, grande dose de paciência para com eles. Mas, no dia de votar, acorreram (quase) em massa às urnas para lhes dar uma lição de política que eles nunca mais esquecerão e que os outros políticos profissionais seus contemporâneos farão bem em ter também sempre presente.
Neste contexto, estou confiante que os partidos políticos de Esquerda, manifestamente vencedores destas eleições, saberão encarar, daqui em diante, a política como ela sempre deve ser encarada: não como poder, nem como fonte de privilégios, mas como serviço maiêutico às populações, para que, com o tempo, elas e não eles, sejam as grandes protagonistas na condução da vida do país.
É verdade que o PS conseguiu o que o seu líder sempre pediu: uma maioria absoluta de deputados no Parlamento. Melhor, quase absolutíssima. Parece que as populações quiseram dizer: agora, não terás qualquer desculpa para falhar. Agora, é proibido falhar. Por isso, confio que o PS, em lugar de cair na tentação do poder absoluto, vai ter a humildade de se abrir à sociedade civil e aos demais partidos e saberá formar um governo de competências e de incorruptos, resistentes até ao sangue à tentação idolátrica do dinheiro. E que, dos privilégios, apenas aceitem este: o de servirem sem reservas e com o melhor do seu saber e da sua generosidade, o país, a começar pelas populações que estão aí em situação de miséria imerecida. Façam-no com determinação e alegria, não mais no jeito da caridadezinha que deprime e humilha, mas no da libertação que cria liberdades e responsabilidades concretas. As populações empobrecidas e marginalizadas têm que ser “puxadas” até ao nível de sujeitos e de protagonistas. Não podem ficar por mais tempo na condição de objectos, de populações assistidas, de coisas. São pessoas e nada está politicamente conseguido enquanto esta condição não vier ao de cima, não for visível e não estiver aí bem activa, em comunhão com as demais pessoas.
Mas que fazer, se o PS, de posse da maioria absoluta, cair na tentação e passar a comportar-se como um clube de amigos que fazem favores aos amigos e aos amigos dos amigos? Uma tal postura seria uma traição sem perdão. Nesse caso, todas e cada uma de nós, todos e cada um de nós haveremos de imediatamente realizar outra revolução: invadir a sede do PS e todos os ministérios do Governo com manifestações ao vivo e com milhões de e-mails, a protestar e a exigir posturas governativas plenamente conformes às exigências da justiça. De modo algum, vamos esperar 4 anos, até outras eleições. E, se eles nem assim arrepiassem caminho nem mudassem de prática política governativa, só nos restava ocupar em massa e pacificamente, distrito a distrito – com excepção do distrito de Leiria – o Parlamento, até que nos fosse garantida uma governação lúcida e corajosamente à Esquerda. É para aí que aponta a esmagadora maioria dos votos das portuguesas, dos portugueses nas eleições legislativas antecipadas do dia 20 de Fevereiro de 2005. Ora, quando os eleitos pelas populações não garantem uma governação de acordo com as suas legítimas expectativas e aspirações, é preciso que as populações se levantem e digam da sua justiça. E não me venham dizer que este é um apelo à subversão das instituições. É tão-só o cumprimento da democracia, em que o soberano, em última instância, é sempre o povo, não os partidos políticos. E se as regras formais proíbem comportamentos como os que aqui sugiro, pois mudem-se as regras formais, mas não se esvazie a soberania do povo.
18 FEVEREIRO 2005
Hoje, é o último dia de campanha eleitoral. Amanhã, é dia de reflexão nacional e domingo é o dia de irmos a votos. Não me abstenho. Não voto em branco. Não voto nulo. Voto Esquerda. Num partido concreto. Dirão que é uma gota de água no oceano, mas a verdade é que sem todas estas gotas de água que são os votos das pessoas não haveria oceano.
É manifesto que não me revejo plenamente nesta Esquerda. Mas é a Esquerda que temos neste momento da nossa História de Portugal. Por isso, entre votar Esquerda, nesta que temos, e não votar ou votar em branco ou nulo, não hesito: voto Esquerda! E tudo farei, a começar no dia 21 de Fevereiro, para que a Esquerda – que espero ver em expressiva maioria no Parlamento – nunca mais seja desunida, seja uma Esquerda em diálogo, em concertação, não só entre si, mas com a sociedade civil.
Os políticos profissionais não esgotam a Política. A Política, e não apenas o voto de tempos a tempos, é do povo, tem que ser das populações. Desde a pessoa mais esclarecida e disponível para participar activamente, à mais ingénua e totalmente absorvida na titânica luta pela sobrevivência quotidiana.
Aos Partidos políticos de Esquerda pertence o importante serviço de "parteira" das populações, para que as populações cresçam em consciência, em todas as dimensões da pessoa humana, sobretudo, na dimensão política. Mais do que fazer pelas populações, os partidos de Esquerda têm que fazer com as populações. O protagonismo político tem que ser cada vez mais das populações, não dos partidos, menos ainda, dos líderes partidários, menos ainda, do líder de cada partido.
Destes três anos de governo de direita moralista e catolicona, que nos desgraçou e atrasou como país, saiu importante lição política a reter para o futuro: os partidos da Direita foram capazes de se unir. É certo que foi por necessidade de assegurar o poder, mas a verdade é que se uniram. E fizeram-no num momento em que nem ao diabo lembrava que o fizessem. Paulo Portas e Durão Barroso não se podiam ver por perto, nem sequer cruzar na mesma rua. Os principais quadros do PSD tão pouco podiam olhar Paulo Portas de frente, recordados dos golpes baixos que ele lhes desferiu, quando foi director do semanário “O Independente”. Mas quando, na noite das últimas eleições legislativas, somaram os votos e concluíram que, juntos, obtinham uma maioria absoluta no Parlamento, que lhes dava para formar governo por tempo indeterminado, logo aí começaram a namorar-se e a dar passos para nunca mais perderem o poder. Tiveram que comer cobras e lagartos, mas avançaram. Obcecados pelo poder, atiraram com todos os ressentimentos ao lixo e avançaram em acordos que acabou em casamento político. Não durou indefinidamente, como eles sonhavam? Ainda bem! Foram tantos os disparates, foi tão grande a imaturidade e a improvisação, era tão fastidiosa a vaidade dos ministros, a par da incompetência de quase todos, que depressa cavaram a sua sepultura. Para cúmulo, Durão Barroso, quando viu que poderia singrar na Comissão Europeia, mandou o país e o cargo de primeiro ministro às urtigas e fugiu. O seu sucessor acabaria por fazer o resto. O desastre foi total. Mas habilmente escondido por doses e doses de demagogia, de publicidade enganosa, de medidas que eram anunciadas como êxitos sociais e, na verdade, foram outros tantos tiros no coração das populações. Tamanha desgraça só podia desaguar em novas eleições antecipadas. E aqui estamos em vésperas delas acontecer.
Pois bem, os partidos de Esquerda não têm entre si, felizmente, esta história de faca e alguidar que havia (e há) entre o PSD de Durão Barroso/Santana Lopes e o PP de Paulo Portas. Mas a verdade é que, já por várias vezes estiveram em maioria no Parlamento, e nunca foram capazes de se unir e de governar o país na justiça e na alegria. Não foram dignos da designação de Esquerda. Não fizeram acontecer História. Desperdiçaram oportunidades, umas atrás das outras.
Chegou a hora de mudar radicalmente de postura. A campanha que hoje termina deu sinais de que os líderes dos partidos de Esquerda estão com outra postura política recíproca. Mesmo assim, as populações que, domingo, votarmos neles não podemos adormecer politicamente, depois de termos votado. Temos que exigir que a Esquerda o seja cada vez, nos seus princípios e nas suas decisões concretas. A Política não pode continuar a ser confundida com Poder. O Poder mente, oprime e mata, desmobiliza e reprime. A Política faz a verdade que nos liberta, promove cidadania, faz crescer cidadãs, cidadãos, desenvolve protagonistas em feminino e em masculino, numa unidade indissolúvel. Temos que exigir aos partidos de Esquerda que, a partir de agora e para sempre, se entendam entre si e com as populações. E pautem todas as suas decisões políticas com um único objectivo: acabar com a pobreza imerecida e pôr fim à existência de pobres, criar condições trabalho e de produção de riqueza equitativamente repartida, garantir a segurança, a saúde e a educação às populações, desenvolver um ambiente de alegria social e de cultura que nos faça solidários e fraternos. Sobretudo, nos faça gostar mais das pessoas que do dinheiro acumulado, de tal modo que depressa cheguemos a um tempo em que ninguém possa sentir-se bem por ser desmedidamente rico improdutivo, quando, no nosso mundo, há maiorias de pessoas desmedidamente pobres e sem futuro para as suas filhas, os seus filhos.
Domingo, é dia de irmos a votos. Vamos. Ninguém fique em casa. Deixemo-nos de falsos pudores e de falsos purismos políticos. Saiamos de casa. Vamos votar. Vamos contribuir para afastar de vez Santana Lopes e Paulo Portas da governação do país. São abutres políticos com penas de pavão. Demos força às forças de Esquerda. E nunca mais deixemos de acompanhar fraternalmente aquelas, aqueles que elegermos. Porque a Política há-de ser protagonizada por todas as pessoas, não apenas pelos eleitos. De agora em diante, façamos da Política a nossa verdadeira identidade humana. Assumamo-la com alegria nas ruas, nas escolas, nos locais de trabalho, nos sítios de lazer, em toda a parte. É pela Política que vamos. É pela Política que somos. Eia, pois, companheiras, companheiros! É hora!
17 FEVEREIRO 2005
Inesperadamente, apareci ontem à noite na RTP-1, no documentário MISTÉRIOS DE FÁTIMA. Digo inesperadamente, porque, ao contrário do que quem viu o programa pode ter ficado a pensar, a RTP não me ouviu nestes últimos tempos. Para me meterem no programa, socorreram-se duma entrevista que me fizeram há mais de três anos e que ficou no arquivo a aguardar melhores dias. Pelos vistos, a oportunidade surgiu agora. A entrevista, quando aconteceu, foi muito longa. Até houve intervalo, para eu poder descansar a meio. O que agora aproveitaram das minhas afirmações de então corresponde a um critério de selecção que não se entende lá muito bem. E nem sequer me avisaram que só agora iriam utilizar partes dessa entrevista. Foi há tanto tempo, que eu já nem me lembrava de nada. Poderiam e deveriam ter-me contactado para actualizarem a entrevista, mediante uma ou duas perguntas sobre o momento actual da questão de Fátima. O bom jornalismo era assim que teria feito. Mas não houve bom jornalismo neste documentário. Houve comodismo e preguiça. O “pivot” bem disse que o documentário era fruto de importante “investigação”. Não é. É fruto de comodismo e preguiça. À mistura com muita beatice. Investigar é ir ao fundo das coisas, é desmontar o que há de interesseiro no que as instituições de poder, eclesiásticas que sejam, dizem e fazem e seleccionam para mostrar às populações, no caso, desmontar o que há de interesseiro por parte da Igreja católica no chamado fenómeno de Fátima. Não é limitar-se a colocar a máquina de filmar diante de alguém, ou de um acontecimento e gravar acriticamente tudo o que oficialmente se diz e se faz. Muito menos pode ser assim, quando se trata de Fátima e da sua senhora sem pés nem cabeça, imagem morta, produzida e alimentada por medos ancestrais, ainda não controlados nem exorcizados, os quais, por isso, continuam aí a condicionar os comportamentos das nossas populações não ilustradas e não evangelizadas.
Ora, foi muito disto que se viu neste documentário, excessivamente longo, lento, medíocre, infantilizado, beato. Assim, não há televisão digna desse nome. Há alienação. Se tivesse havido, da parte da RTP, o cuidado de actualizar a entrevista que me fizeram há mais de três anos, certamente, o total das minhas declarações, as de então e as de agora, teriam adquirido outro impacto. A verdade, para ter impacto e ser mais verdade, carece de actualidade. Não bastam boas declarações de princípio. É preciso contemporaneidade no que se diz e faz. Ou nós não fôssemos seres humanos, situados na História. A verdade não é como um depósito que se mantém inalterável para todo o sempre. Tem que ser verdade historicamente situada. Ou se faz e se vive nas circunstâncias de espaço e de tempo, ou perde força. Desumaniza-se. Torna-se coisa de museu que não “morde” a consciência de quem ouve ou de quem vê. Por isso, adormece, não mobiliza. Embrutece, não humaniza. Aliena, não liberta. Submete, não faz protagonistas.
No dizer do apresentador – a sua postura foi mais que beata, macerada, compungente, de outro mundo não humano – o documentário pretendia esclarecer as gerações mais jovens sobre o fenómeno de Fátima. Mas o que deve ter conseguido foi afastar as gerações mais jovens. Coisa mais sem gosto, mais sem conteúdo, mais caricata, mais infantil e infantilizadora. O documentário pode ter sido concebido para tentar “vender” Fátima, também às gerações mais jovens. Mas pelo que se viu e ouviu, só pode ter fornecido razões para as gerações mais jovens se afastarem definitivamente de semelhantes ambientes. É claro que por mim, só tenho razões para me alegrar com este resultado, porventura, não desejado pelos promotores.
“Mistérios de Fátima”? Melhor seria que o documentário se chamasse “Mentiras de Fátima”. Do princípio ao fim, é um documentário cheio de nada e de coisa nenhuma, no que respeita a conteúdos humanos e a uma visão científica e saudavelmente crente da realidade histórica. Das “aparições” em 1917, o documentário deveria salientar que não há uma única ideia que se aproveite e que nos galvanize como seres humanos. A Guerra mundial estava em curso. Foram muitos milhares os militares portugueses forçados a participar nela e, desses, vários milhares perderam a vida na guerra. As populações, desesperadas, agarraram-se à senhora de Fátima como a uma tábua de salvação. Não lhes valeu de nada. A guerra prosseguiu, os mortos foram aos milhares. As populações deveriam concluir então que a senhora de Fátima é uma deusa cruel e sem sentido de humanidade. Mas não. Cegas pelo fanatismo e pela ânsia de milagres que nunca sucedem, senão sob a forma de boatos habilmente deitados a circular, continuaram a correr mais e mais para Fátima. Os clérigos, que deveriam ser profetas na linha dos profetas bíblicos contra todo o tipo de idolatria, foram mesmo só clérigos e logo se aproveitaram da mentira. Passam então a pregar às populações que para lá correm que, se quiserem milagres e benefícios do “céu”, têm que fazer penitência, frequentar os templos e as missas, rezar mais terços e outras orações, confessar-se e comungar, fazer os primeiros sábados, suportar o sofrimento da vida com resignação, sempre em espírito de sacrifício e de reparação pelos pecados. É um tipo de discurso moralista, tipicamente religioso e eclesiástico, que resulta em cheio junto de populações desesperadas, aflitas, inseguras, cheias de medo. Parece um discurso que vem de Deus, mas vem do Maligno, é um discurso demoníaco. Feito de mentira e assassino. Basta analisar os frutos que produz nas populações. Desmobiliza-as da Política, retira-as das lutas, mete-as nos templos, castra-lhes a capacidade de intervir e de mudar, deixa-as totalmente à mercê das forças alienadoras. Nunca mais chegam a ser elas próprias, enquanto se deixarem reger por ele.
É preciso que se diga sem rodeios e duma vez por todas: Deus, o de Jesus, não é nada assim como os clérigos aproveitadores da mentira das “aparições” de Fátima, ou de outras anteriores muito conhecidas na Europa, como por exemplo a de La Salette ou a de Lourdes, dizem que é nas suas pregações ou catequeses. Tudo o que cheira a moralismo, por mais piedoso que se apresente, não tem a marca de Deus, mas do demoníaco. É mentira. Deus, ou é boa notícia para as populações, ou é um ídolo que aterroriza as populações; ou é libertador das populações, ou é um ídolo que as escraviza e oprime; ou é pura graça que humaniza progressivamente as populações, ou é um ídolo sem entranhas de misericórdia que as torna inumanas e cruéis; ou é salvação para as populações, independentemente dos comportamentos que elas historicamente têm, ou é um ídolo que as perverte e torna egoístas, interesseiras e competitivas, em última instância, assassinas umas para as outras.
O documentário ontem exibido revelou à saciedade que o fenómeno das “aparições” de Fátima não tem nada a ver com Deus, o de Jesus. Tem tudo a ver com um ídolo, disfarçado de Deus, o de Jesus. Sob um discurso religioso e moralista, o Deus a que se referem as chamadas aparições de Fátima, não é o Deus de Jesus, boa notícia para as populações, mas o mais perverso ídolo que as aterroriza; não é o Deus libertador das populações, mas o mais perverso ídolo que as escraviza e oprime; não é o Deus pura graça que humaniza as populações, mas o mais perverso ídolo que as torna inumanas e cruéis, antes de mais, para si mesmas e, depois, para com os próprios familiares e todas as outras pessoas em geral; não é o Deus que salva as populações, independentemente dos méritos ou deméritos delas, mas o mais perverso ídolo que as perverte e as torna egoístas, interesseiras e competitivas, em última instância, assassinas umas para as outras.
Foram deprimentes os testemunhos dos familiares daquelas três crianças que tiveram a desgraça de cair nas mãos dos clérigos católicos e de frequentar as catequeses e os sermões dos pregadores da Santa Missão, concebida e realizada segundo o manual demoníaco, “A Missão Abreviada”. Tais catequeses e sermões deveriam ter levado à instauração de autos aos clérigos da região e aos pregadores da “Santa Missão”. O mal que essas catequeses e esses sermões fizeram às três crianças, segundo os testemunhos dos próprios familiares, perfaziam verdadeiros casos de polícia e de tribunal. Isso só não aconteceu, porque tudo foi feito com a cobertura da religião e da Igreja. O Governador do concelho de Vila Nova de Ourém, da altura, terá percebido que havia crime à mistura e, por isso, havia vítimas, mas errou no alvo, quando se preocupou em interrogar as três crianças, em lugar de interrogar os clérigos da região e os pregadores da “Santa Missão”. Estes é que eram os responsáveis pelo que se passava com as crianças. As catequeses terroristas e os sermões é que levaram as crianças a ter visões e aparições, a viver aterrorizadas, cheias de medo dos castigos de Deus e do inferno.
Infelizmente, nunca em todos estes séculos de cristandade, os clérigos que produziram catequeses e sermões terroristas foram inquietados. Hoje, já são praticamente inofensivos, uma vez que muito pouca gente ainda os escuta e os toma a sério. Mas nos séculos passados, inclusive no início do século XX, as populações viviam sob o mais completo domínio dos clérigos, sem hipótese de autonomia e independência. O exemplo de Lúcia, a sobrevivente das “aparições” de Fátima, é sobejamente eloquente e esclarecedor. Os clérigos puseram e dispuseram dela e da sua vida como muito bem entenderam, até à morte, que acaba de ocorrer, agora, 97 anos depois dela ter nascido! O que eles fizeram com ela só pode ser classificado como um crime, até hoje não pronunciado por nenhum delegado do ministério público, nem julgado por nenhum tribunal, a não ser o da Opinião Pública. E aqui, felizmente, já são milhões os portugueses, entre os quais muitos católicos, que já julgaram e condenaram moralmente este comportamento-crime dos clérigos que lidaram com Lúcia e os seus dois primitos. E, por isso, em lugar de olharem para Fátima, como um local de dignificação da humanidade, experimentam-no como o local mais degrado e degradante de Portugal, onde as pessoas que o frequentam com devoção regressam de lá mais desumanizadas, mais tristes, mais fechadas, mais insolidárias, mais assustadas, mais oprimidas, mais alienadas, mais inseguras, mais desmobilizadas, mais perdidas de si mesmas e dos outros.
Nunca imaginei que me iriam meter num documentário destes. Não me informaram. Nem me pediram autorização. Mas tenho que reconhecer que ainda bem que isso aconteceu. A minha voz acabou por ser, no meio de tudo aquilo, a do bom senso, a da Fé cristã jesuânica, a da dignidade humana. Alguém, não sei quem, terá exigido na RTP que a minha voz aparecesse, a pontuar aqui e ali com inteligência e Fé esclarecida, o documentário, contra a alienação generalizada que os demais intervenientes ostentaram ao longo de todo o programa. Excepção, ao Pe. António Rego, da TVI, que revelou algumas salutares hesitações e dúvidas sobre as “aparições”. De resto, o próprio papa João Paulo II aparece no documentário como o mais alienado de todos os intervenientes, isto, se atendermos à enorme responsabilidade institucional que ele tem na Igreja, no que respeita ao testemunho da singularidade da Fé cristã jesuânica. A sua intervenção, feita de palavra e, sobretudo, de decisões e de posturas muito concretas que as câmaras gravaram e exibiram, é um desastre eclesial e evangélico em toda a linha.
Permito-me destacar dois momentos especiais: o referente à chamada terceira parte do segredo e o referente ao da consagração da Rússia ao imaculado coração de Maria. Pode ter havido um “segredo” escrito, mas o texto primitivo não é de certeza o que veio a ser revelado em Fátima pelo próprio papa João Paulo II. Pelo menos, a interpretação que o papa fez do conteúdo desse texto então divulgado não pode ser a que se teria feito inicialmente, se o “segredo” tivesse sido divulgado em 1960, como pretendia a crédula e delirante irmã Lúcia. Em 1960, o homem vestido de branco nunca poderia ser o papa João Paulo II. Mas o pior, o mais grave em tudo isto, é que não há, nunca houve “segredo” nenhum! Digo-o com toda a segurança que me garante a Fé cristã jesuânica e a respectiva teologia que lhe serve de suporte. E desafio os teólogos cristãos fiéis à teologia de Jesus, a desmentir-me! O Deus de Jesus nunca será capaz de brincar ou jogar aos segredos com a Humanidade. Isso é estratégia dos clérigos e dos líderes das religiões que seguem deuses que são ídolos, cujo prazer é vigarizar os seres humanos, enganá-los, fazer chantagem com eles, aterrorizá-los, arrastá-los para os cultos e para os templos. O Deus de Jesus não é assim. Não humilha os seres humanos, potencia-os à categoria de protagonistas da História, como se Ele próprio não existisse.
Por isso, o papa João Paulo II, ao agir como agiu nesta matéria, contribuiu para a humilhação dos seres humanos, alimentou os medos que as populações não ilustradas e não evangelizadas – a maioria da Humanidade – ainda têm, causou muito mal à Humanidade e à causa do Evangelho de Jesus. Merece severa censura pública. E aqui lha faço. Com humildade e muito afecto. E em intensa comunhão fraterna. Tomara eu que ele ainda se retractasse deste pecado contra a Fé cristã jesuánica e contra a Humanidade, durante os dias de pontificado que insiste em levar por diante. Seria – não tenho dúvidas – o gesto mais evangélico do seu pontificado. E também o gesto que salvaria o seu pontificado, fortemente marcado por um moralismo nos antípodas do Evangelho de Jesus e por uma alienadora idolatria.
O que o documentário mostrou a propósito da consagração da Rússia ao imaculado coração de Maria, exigida pela irmã Lúcia e que foi realizada em sucessivas ocasiões, primeiro, por Paulo VI e depois por João Paulo II atinge as raias do absurdo e do obsceno. Neste capítulo, os delírios da irmã Lúcia e dos seus confessores ou directores espirituais, atingiram o coração da Igreja e da Fé cristã jesuânica. De certo modo, mataram a Fé cristã jesuânica e a Igreja como comunidade do Espírito. E revelaram o tipo de cristãos católicos nada jesuânicos que foram Paulo VI e é hoje João Paulo II. Em lugar de serem e se comportarem como homens já libertos do medo e a viver a liberdade para a qual Cristo Jesus nos libertou, aparecem no documentário como homens dominados e tolhidos pelos ancestrais medos que estão na origem dos cultos politeístas do Paganismo mais primitivo. Foi aviltante e humilhante demais para ser verdade. Mas foi mesmo assim, infelizmente, que as coisas se passaram na altura. Os delírios da irmã Lúcia pesaram mais nestes dois homens da Igreja do que o Evangelho e o Espírito Santo. As posturas de um e de outro, neste capítulo, mais as sucessivas consagrações da Rússia ao imaculado coração de Maria que ambos realizaram, por exigência da delirante irmã Lúcia, correspondem na prática a rasgar o Evangelho e a pecar contra o Espírito Santo. Nunca como nesses momentos a mítica deusa virgem e mãe foi tão cultuada dentro da Igreja católica. Contra o Evangelho. Contra Jesus, o de Nazaré, crucificado pelo templo e pelo Império, mas a quem Deus ressuscitou. Contra o Espírito Santo. E também contra Maria, uma pobre e humilhada mulher de Israel que veio a ser a mãe carnal de Jesus.
14 FEVEREIRO 2005
À hora em que ontem foi oficialmente anunciado o falecimento da Irmã Lúcia no Carmelo de Coimbra, Maria Laura, presbítera não-ordenada da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa, partia o Pão em Memória de Jesus, no âmbito do respectivo Encontro-celebração mensal, relativo ao mês de Fevereiro. Eu soube desta coincidência, apenas poucos minutos depois do nosso encontro ter terminado na Casa da Comunidade, quando Eunice, uma assinante do Jornal Fraternizar muito minha amiga, residente em Leiria, me telefonou de propósito para o telemóvel a querer comentar o facto comigo. O telejornal que se seguiu pouco depois já nos deu a notícia com amplos desenvolvimentos, por sinal, bastante caricatos, a revelar um tipo de jornalismo rasca e beato que ultimamente tem estado em uso no nosso país, certamente, para melhor condizer com o actual Governo demissionário liderado por dois católicos publicamente assumidos, cada qual o mais beato e demagogo, e que, no próximo domingo, dia de eleições legislativas antecipadas, espero ver corridos borda fora das funções governativas, em consequência dos respectivos resultados eleitorais.
Esta coincidência dos dois acontecimentos, embora seja puramente casual, não deixa de ser para mim uma feliz coincidência. Por um lado, a morte da Irmã Lúcia poderá representar também o fim de um certo tipo de cristianismo católico que tem feito muito mal às populações portuguesas e às populações de outros países onde se mantém como a religião dominante, um cristianismo tipicamente deísta e pagão, nos antípodas do Cristianismo libertador de Jesus, o de Nazaré. Por outro lado, o gesto de Maria Laura, no seio da pequenina Comunidade cristã de base de Macieira da Lixa, materializa, na sua simplicidade, um outro tipo de Cristianismo católico, bem mais conforme ao de Jesus, o de Nazaré, em que as mulheres, como os homens, assumem o seu lugar na História e na Igreja sem quaisquer discriminações e em radical igualdade. Trata-se de um Cristianismo católico amigo das populações e ao seu serviço libertador, ao jeito da parteira, por isso, o único que terá pernas para andar, terceiro milénio adiante, como fecundo e discreto fermento na massa, como sal da terra e luz do mundo.
Foi também uma manifestação deste tipo de Cristianismo católico jesuânico que eu tive expectativa de ir encontrar no dia anterior, sábado 12 de Fevereiro, no Porto, mais concretamente, na igreja de Santa Clara, à Sé, no decorrer de um encontro, promovido pela LOC da diocese, de memória e homenagem ao amigo comum, Porfírio Borges, recentemente falecido, e para o qual fui convidado por e-mail por uma das suas filhas. Infelizmente, assim não aconteceu. O encontro resumiu-se a uma celebração eucarística, melhor, a uma enjoativa missa ritualizada, presidida pelo Bispo emérito de Setúbal, D. Manuel Martins que teve o condão, certamente contra a sua própria vontade, de nos silenciar a todas, todos, enquanto durou. Por isso, o que este encontro efectivamente nos proporcionou foi mais do mesmo, na linha do Cristianismo católico tradicional, apenas com ressalva para a homilia episcopal que foi um pouco mais progressista, mas, neste caso, até não muito. Pois bem, é sobre cada um destes acontecimentos que passo agora a tecer algumas considerações muito pessoais. Eis.
1. A morte da Irmã Lúcia. A ser verdadeira a informação oficial, a morte ocorreu no dia 13 de Fevereiro de 2005. O facto de ter ocorrido num dia 13 é coisa absolutamente natural. Mas o facto já está por aí a ser aproveitado por algumas vozes eclesiásticas de responsabilidade que pretendem ver nesta data mais um “sinal do céu”. Não se dão conta estes fatimistas fanáticos que a Irmã Lúcia é uma das três maiores vítimas da mentira de Fátima, em 1917. O seu primo Francisco e a sua prima Jacinta que protagonizaram com ela a mentira das aparições não conseguiram sobreviver a toda aquela catequese terrorista eclesiástica que o clero católico da região, juntamente com o clero da chamada Santa Missão desenvolveram na altura contra umas populações submissas, analfabetas e tolhidas de medo do inferno, dos terríveis castigos de Deus e até da 1.ª guerra mundial em curso. As chamadas aparições mais não são do que um outro “púlpito” dessas catequeses terroristas. As crianças foram apanhadas por essas catequeses e nunca mais conseguiram ver-se livres do terror que elas desencadearam na sua débil e frágil consciência. Em lugar de terem pensamentos e desejos de crescer em idade, estatura, sabedoria e graça, como aconteceu com Jesus de Nazaré, quando passou por essa mesma idade delas, as três crianças das chamadas aparições só pensavam em morrer quanto antes, para irem para o céu, antes de fazerem pecados que as condenassem ao fogo do inferno. A própria senhora que supostamente lhes falava nas supostas aparições era tão cruel, que ainda acabou por contribuir para lhes alimentar muito mais esses terrores. Tanto assim que Francisco, no dizer da prima Lúcia, até deixou de frequentar a escola, para gastar o tempo que lhe restava a rezar terços e a sacrificar-se pela conversão dos pecadores, e assim evitar que eles fossem para o inferno!!! Quando, pouco tempo depois das “aparições” terem terminado, os dois irmãos caíram vítimas da febre pneumónica que grassava na região, os seus corpos de criança, privados de alimentos – davam a merenda às ovelhas e deitavam fora a água em pleno verão, como sacrifício pela conversão dos pecadores!... – e aterrorizados pelas catequeses moralistas do clero, estavam já sem quaisquer resistências para lhe fazerem frente. E ambos acabaram por morrer, para cúmulo, em circunstâncias de quase abandono geral.
As populações que anteriormente haviam acorrido em massa a Fátima, sobretudo, no mês de Outubro de 1917, já não quiseram saber para nada destes dois irmãos “videntes”, quando eles se viram a braços com a doença que acabou por os fazer morrer antes de tempo. Mas não foram só as populações que não quiseram saber. A própria senhora de Fátima que supostamente lhes apareceu e falou – a verdade é que tudo não passou dum tosco teatro popular – também nunca mais quis saber das duas crianças para nada, depois que se encerrou o programado ciclo das “aparições”, previamente traçado pelo clero local. Ela que, ainda hoje, continua a ser olhada pelas populações não evangelizadas como a senhora que faz milagres e que resolve os problemas das pessoas aflitas que a ela recorrem, deixou aquelas duas crianças morrer de febre pneumónica! Não fez o “milagre” de as curar, nem lhes aliviou as dores horríveis, muito menos impediu que elas morressem antes de tempo. Como pode alguém, depois disto, ter ainda respeito por uma senhora assim, tão cruel e tão inumana? E de que vale às pessoas e às populações em geral continuarem a correr para Fátima, atrás duma senhora assim, quando ela nem às crianças com quem supostamente falou livrou de morrer antes de tempo?
Falta ainda dizer, a este propósito, outra coisa não menos grave que as anteriores: Também a hierarquia eclesiástica da altura não quis saber da doença de Francisco e de Jacinta. Deixaram-nos para lá, praticamente entregues a si próprios e à sua família. Afinal, a previsível morte de ambos era bem-vinda aos seus olhos. Por um lado, poderiam sempre fazer constar, mais tarde, que tanto a Jacinta como o Francisco se haviam oferecido a Deus como vítimas inocentes pela conversão dos pecadores e, com isso, poderiam propagandear que ambos morreram em odor de santidade (as futuras beatificação e canonização, aquela ocorrida recentemente, esta ainda em curso, já então estavam presentes nos seus horizontes interesseiros!... pois, como se sabe, trazem sempre inúmeros dividendos materiais e outros à causa de Fátima e à Igreja católica oficial); por outro lado, viam-se definitivamente livres de duas das três crianças manipuladas por eles nas “aparições” de Fátima e, assim, a mentira que haviam construído com a colaboração ingénua das três, poderia ser facilmente mantida para sempre. Para tanto, faltava apenas dar um último passo com a “vidente” sobrevivente, e um passo irreversível. Era preciso garantir que, durante os anos de vida de Lúcia, esta nunca mais pudesse chegar a sair do mundo da consciência ingénua em que se encontrava à altura das “aparições”. Concretamente, que esta nunca mais pudesse crescer e desenvolver-se no mundo, como as demais crianças e jovens da sua idade. Para isso, Lúcia teria que ser retirada da sua terra, do convívio com as outras crianças e jovens normais e saudáveis, de modo que nunca mais viesse a ter dúvidas sobre o papel que o “céu” (entenda-se, o clero católico da sua região) lhe havia destinado.
É por isso que a sobrevivente Lúcia foi, pouco tempo depois da morte dos primos, arrancada da sua família e da sua terra para sempre. Passou a viver em ambientes eclesiásticos, os mais tolhidos da altura, concretamente, internatos de órfãs dirigidos por freiras de afectividade reprimida e recalcada, por isso, sádicas e masoquistas, cruéis, duras, agressivas, violentas, cheias de zelo por um Cristo que elas imaginavam como seu “esposo”, obedientes e subservientes ao clero, sobretudo, aos bispos, cujas ordens tinham que acatar como ao próprio Deus! O primeiro desses ambientes eclesiásticos que Lúcia conheceu foi no Porto, o Asilo de Vilar, porventura, o mais sinistro de todos os asilos existentes na cidade. Aí dentro, Lúcia nem tinha nome, nem terra, nem história. Foi proibida de tudo. O que constituiu o mais eficaz processo de desumanização, de completa despersonalização. Ao mesmo tempo, foi-lhe imposto um confessor, sempre o mesmo, durante longos períodos de tempo, que deveria convencê-la de que ela era uma menina, jovem, mulher predestinada por Deus, escolhida para uma missão importante, uma espécie de outra Maria, mãe de Jesus, não a real, evidentemente, em tudo igual às mulheres do seu país, mas a mítica que hoje por aí continua a ser apresentada nas catequeses eclesiásticas feitas de mentira. Lúcia nunca mais teria oportunidade de se confrontar com outras vidas, com outras experiências, com outras formas de pensar e de sonhar o futuro. Era ela e Deus, Deus e ela. No meio, como intermediário infalível e insubstituível, o confessor e, lá mais longe dela, mas mais perto de Deus – assim o imaginava ela – o bispo. A um e a outro, obediência cega. O que o confessor e o bispo lhe disserem é Deus quem lho diz...
Deste modo, Lúcia nunca mais se encontra consigo mesma, nunca mais consegue ser ela própria. Até ao fim dos seus dias que – ironia da vida! – foram invulgarmente muitos. Ao mesmo tempo que isto é assim e de modo cada vez mais agravado, Lúcia passa a ter aparições sobre aparições, a toda a hora e instante, em qualquer local. A pobre vive num mundo irreal, totalmente alienada, conduzida, manipulada. A mentira de 1917 ganha raízes na sua consciência. Graças a outras “aparições” que ela pensa que continuam a ocorrer pelos anos além, tanto no Porto, como depois em Tui, Espanha, onde fez votos de freira e, finalmente, em Coimbra no Carmelo. E quando a estória do “segredo”, melhor, da terceira parte do “segredo” – as duas primeiras partes, divulgadas muitos anos antes sem qualquer dificuldade, não têm pés nem cabeça! – já estava a ser uma bota difícil de descalçar para a Igreja oficial, eis que entra na dança o Papa de Roma, João Paulo II, um fatimista compulsivo, nascido na Polónia anti-comunista e anti-ateísta primária, onde antes de ser papa exerceu como bispo e cardeal, ao tempo em que o “comunismo ateu” que a senhora de Fátima (entenda-se, a hierarquia católica) tanto combateu – ainda não tinha havido a revolução bolchevique e, pelos vistos, já a senhora de Fátima falava na “conversão da Rússia”!!! – era o regime oficialmente em vigor no país.
Na altura, eram muitas as hipóteses sobre o conteúdo do “segredo” que se aventavam em todo o mundo, qual delas a mais terrorista, a condizer com a matriz de terror divino que Fátima é desde 1917. Com a entrada do papa, tudo se resolveu. De repente, aparece um texto assinado pela Irmã Lúcia que fala de um homem vestido de branco que é morto num atentado. E o próprio papa em pessoa vem a Fátima desvendar o “segredo”. O mundo pasmou com o que ouviu, mas o papa não hesitou em dizer que o “segredo” de Fátima tinha a ver com ele. Ele era o homem vestido de branco, de que falava a estorieta do texto atribuído à Irmã Lúcia. O segredo era nada mais nada menos que a profecia do atentado de que ele havia sido vítima anos atrás, em Roma. Portanto, uma profecia "ex eventu", isto é, (escrita?)/revelada depois de tudo ter acontecido! E, mesmo assim, bastante aldrabada, uma vez que na estorieta preparada à pressa para acabar com a pressão do “segredo”, o homem vestido de branco é assassinado e no atentado de que o papa foi vítima tal não aconteceu (devido à célebre “mãozinha” da Senhora de Fátima que, naquele mesmo instante “desviou” a bala!!!). E a prova é que João Paulo II ainda continua aí como papa em exercício, todos estes anos depois.
Mas que importa? Uma mentira faz outra mentira e tudo é mentira. Só que à força de tudo ser feito à mistura com a invocação até à náusea do nome de Deus e da senhora de Fátima, de contínuas sessões de rezas de terços, de sucessivas peregrinações, presididas por montes de bispos e de padres, em cada 13 de Maio e de Outubro, e alguns cardeais e, ainda, não poucos boatos de milagres, a mentira acaba por ser tomada por verdade.
No meio de tudo isto, a manipulada Irmã Lúcia sempre esteve a jeito e prestou relevantes serviços à mentira. Por isso é que os eclesiásticos que a manipularam nunca consentiram que ela crescesse em consciência crítica e autocrítica. Assim, poderiam manipulá-la à vontade a toda a hora e instante, sempre que fosse conveniente à instituição eclesiástica. A tudo ela, ingenuamente, disse sim, eis-me aqui, faça-se em mim segundo a vossa palavra eclesiástica. Primeiro, ensinaram-lhe que obedecer aos legítimos superiores, isto é, aos bispos residenciais e ao papa, é o mesmo que obedecer a Deus e depois, em nome dessa obediência, puderam fazer com ela o que muito bem entenderam. A tudo Irmã Lúcia se prestou. E muito foi. Agora, em compensação, bem podem beatificá-la e canonizá-la, sem esperar todos aqueles anos que o Código de Direito Canónico deles determina! Quando tal acontecer, a mentira de Fátima ficará plenamente consumada!
Já hoje, a mentira de Fátima, mesmo sem a canonização de Lúcia, está aí, pelo menos, aparentemente, de pedra e cal. Mas é cada vez mais manifesto que é só aparentemente. Porque, como diz o Evangelho de Jesus, é pelos frutos que se conhece a árvore. E os frutos de Fátima são do que há de mais negativo e perverso. Desde o começo. Basta lembrar as duas das três crianças “videntes” mortas precocemente, perante o cinismo mais cruel da senhora de Fátima, que não mexeu a ponta de um dedo para lhes valer. Assim como perante o cinismo da hierarquia católica que as deixou mais ou menos abandonadas à sua sorte, infeliz sorte, diga-se. Aliás, essa mesma hierarquia só passou a interessar-se por essas duas crianças, depois que elas morreram, já na mira interesseira de fazer delas beatas, primeiro, e santas, depois! Basta lembrar igualmente a única sobrevivente das três, condenada a um penoso viver, sempre encurralada em conventos, longe dos familiares, até da mãe que nem sequer pôde visitar quando esta estava em vésperas de morrer e manifestou o desejo de a ver, ou, ao menos, de ouvir a sua voz pelo telefone. Nem isto lhe foi concedido pela cruel superiora do Carmelo e pela crueldade do papa no Vaticano, que sempre tinha que ser ouvido, quando se tratava de desejos e de pedidos da Irmã Lúcia, ou ela não fosse religiosa carmelita de clausura, às ordens do senhor Papa de Roma, por sinal, o maior viajante do Catolicismo por todo o mundo.
Todos os outros frutos perversos de Fátima estão também à vista e são já inumeráveis. Tudo o que lá se faz é pura idolatria, embora haja referências inócuas ao nome de Jesus e se escutem textos do Evangelho. A senhora de Fátima é mentira, não passa duma imagem cega, surda e muda que, para se deslocar de um lado para o outro, tem que ser conduzida em ombros ou em braços pelas pessoas, numa prova indesmentível de que estas valem muito mais do que ela! É uma imagem fabricada por um santeiro. Uma imagem que não tem nada a ver com Maria, mãe de Jesus. Identificá-la com Maria, mãe de Jesus, como teimosamente faz a hierarquia católica, a começar pelo papa João Paulo II, é um insulto sem perdão contra Maria de Nazaré, mulher judia que casou com José e de cuja união veio a nascer Jesus.
Aliás, quando quisermos falar de Fátima, temos sempre que distinguir duas Fátimas: a Fátima de 1917, que não tem nada de nada, para lá do folclore de umas “aparições” feitas de estupidez e de um “milagre do sol” que não passou de pura mentira posta a circular e que quase ninguém dos que lá estavam na ocasião teve coragem para denunciar e contraditar; e a Fátima da Irmã Lúcia e dos seus confessores, do cónego Formigão, durante muito tempo, disfarçado de Visconde de Montelo, e do primeiro bispo de Leiria, que habilmente cozinharam e redigiram o que pomposamente chamaram de “Memórias da Irmã Lúcia”, por sinal, um chorrilho de horrores e de terrores, de delírios sem tom nem som, de invenções do tipo engana-meninos-tira-lhes-o-pão.
Depois, as populações, sedentas de milagres e de fenómenos esotéricos e do “além”, fizeram o resto e continuam ainda a fazer: aceitam tudo acriticamente e comem tudo o que lhe dão com sádico gosto, mesmo que seja perversão e mentira. Ao mesmo tempo que são capazes, em muitos dos seus membros, de se submeter a operações extremas de degradação humana, no chão do recinto do santuário, em cumprimento de promessas sem sentido e pela conversão dos pecadores. Na sua ingenuidade e cegueira, as populações nem sequer se apercebem que os piores pecadores – pecar é mentir contra o Espírito Santo, é apresentar a Mentira como Verdade – são, afinal, os clérigos que, neste caso de Fátima, desde 1917, manipularam as três crianças, desgraçaram-lhes o futuro e, agora, depois que todos já morreram, em lugar de reconhecerem os seus crimes e pecados, ainda fazem tudo para continuar a tirar proveito dos seus nomes. É de bradar aos céus.
Infelizmente, as populações que isto deveriam ver, até porque o santuário de Fátima lhes leva não só a camisa, mas também a pele e sobretudo a dignidade, ainda correm para lá a apoiar. Mas não têm culpa. Continuam cegas pela mítica deusa virgem e mãe dos cultos do Paganismo mais primitivo, que a cruel senhora de Fátima veio ajudar a cavar ainda mais fundo. Com a colaboração da hierarquia eclesiástica que, como já reconheceu a Carta a Timóteo, erradamente atribuída a S. Paulo, prefere continuar a ensinar fábulas e mentiras às populações, em lugar de lhes anunciar a tempo e fora de tempo e com destemor, o Evangelho de Jesus. Ora, sem Evangelho, as populações viram-se para a religião e para a idolatria. Materializada no culto às imagens da mítica deusa virgem e mãe, também a imagem da deusa ou senhora de Fátima.
2. Encontro-celebração da Comunidade de Base de Macieira da Lixa. Foi, como de costume, na tarde de domingo, o segundo do mês. A Política esteve em destaque do princípio ao fim. No nosso entender, Deus, o de Jesus, do que gosta é de Política, não de Religião. Por isso, em tempo de campanha eleitoral no nosso país, quisemos que a Política nos congregasse. Quisemos escutar o que, a este propósito, o Espírito nos tem a dizer. E foi muito importante o Evangelho que ouvimos para o nosso hoje e aqui. Foi também importante o que decidimos, à sua luz. Imaginem só. Já depois do Pão Partido, no decorrer do lanche partilhado com o que cada uma, cada um havia trazido para a mesa comum, prosseguimos o diálogo em ordem a uma acção política concreta no terreno. E o que decidimos? Trabalhar para congregar uma lista de cidadãs, cidadãos independentes que se preparem para concorrer à Junta de Freguesia, como lista alternativa às listas dos partidos políticos. Será uma lista alternativa. Também no modo de conceber a Política. Não como exercício de Poder sobre as populações, mas como serviço maiêutico, por isso, libertador, às populações e com as populações. Será uma lista de pessoas de Macieira e que façam deste serviço um acto de amor ao próximo. Sem substituir as populações, mas despertá-las para que se tornem sujeito e protagonistas.
A ideia aflorou, no decorrer do diálogo, e logo foi agarrada com entusiasmo por algumas, alguns dos presentes. Será um sinal que se dá à sociedade de que a Política, enquanto não for serviço maiêutico, é mais do mesmo e só contribui para infantilizar as populações. O grupo que se sentiu tocado a dar corpo a esta acção estava manifestamente feliz, no final. E comprometeu-se a iniciar contactos desde já para levar por diante esta iniciativa. A ver vamos. Por mim, não integro este grupo – sempre achei e acho que é outra a minha missão como presbítero da Igreja do Porto – mas garantirei todo o meu apoio na rectaguarda, para que o grupo a constituir seja efectivamente alternativo ao que por aí se faz, ao nível dos partidos políticos.
Abri o encontro com estas palavras: Até hoje, tem vingado a tese de que o ser humano – mulher e homem – é um animal religioso. Desde o início da Humanidade “homo sapiens”, há uns 80 mil anos, são inúmeras as manifestações concretas neste sentido. Os estudiosos dos comportamentos humanos debruçaram-se sobre essas manifestações e concluíram que o ser humano é o único que é religioso, que tem religião.
Só que os estudiosos dos comportamentos humanos enganaram-se, quando tiraram esta conclusão. Deveriam ter dito que o ser humano, tolhido por medos que não conseguia controlar, fez-se religioso, tornou-se animal religioso. Mas a religião foi um desvio, uma tentação, foi consequência de muitos medos não controlados. Não é da natureza do ser humano, é fruto de medos não controlados. Porém, aquela tese fez o seu curso na História e ainda hoje é mais ou menos consensual.
Há outra tese que apresenta/define o ser humano como animal político, o único animal que é político. Esta tese é muito posterior à outra – é do tempo em que se organizam as “polis” ou cidades, daí a designação “Política” como o cuidado da cidade – e nunca conseguiu fazer esquecer a tese anterior. Vai daí, a Religião conseguiu impor-se como elemento constitutivo do ser humano (não ter religião, não ser religioso, chegou a ser subversivo, durante muitos séculos…), ao passo que a Política chega até a ser vista como coisa feia, suja, para pessoas sujas, corruptas…
É aqui que estamos, apesar de hoje vivermos num ambiente de generalizado ateísmo e agnosticismo. O que inicialmente foi tentação, desvio, cedência a medos não controlados – a religião – continua aí a ser olhado e acarinhado como coisa boa, elemento constitutivo do ser humano; enquanto que aquilo que melhor identifica o ser humano – a Política – é hoje olhado como coisa má, feia, perversa.
A quem interessará que as coisas sejam vistas assim e consideradas assim? Porque é que a Religião tem tantos defensores e a Política tantos detractores? Porque é que a Religião é tão bem vista e a Política é considerada demoníaca? Porque é que, se as Igrejas fazem religião, são respeitadas, mas, se enveredam pela Política, são atacadas? Porque será que se um padre mobiliza as populações para peregrinações a santuários, para procissões, missas, rezas, romarias, novenas, devoções, é considerado um bom padre, mas se as mobiliza para a Política, para acções que visem resolver os problemas que impedem as populações de ser gente, é logo considerado um mau padre e tratado como um proscrito? A Fé cristã, a Fé de Jesus, vive-se na Religião, exprime-se na Religião, ou na Política? Pode-se dizer que a Fé que se esgota na religião é morta e que só a Fé que se esgota na Política é que é viva? Um ser humano sem política é ser humano, ou ainda não saiu da condição puramente animal? Uma coisa sabemos e é esta: a Religião nasce de medos não controlados, e ocupa-se das deusas, dos deuses. A Política nasce da vida em cidades e ocupa-se da Cidade, da Terra, do Mundo. Por isso, pela Política é que vamos, como seres humanos. Não pela Religião.
Depois destas minhas palavras de abertura, ouvimos quatro breves intervenções que nos proclamaram a Palavra (de Deus). As duas primeiras, vieram do meu livro E DEUS DISSE: DO QUE EU GOSTO É DE POLÍTICA, NÃO DE RELIGIÃO (Campo das Letras, 2.ª edição, Março 2003), respectivamente, o capítulo I, “No princípio era a Política”, e o capítulo 45, “Nova Política, novos políticos”. Não foram lidos integralmente, mas resumidos. As outras duas leituras vieram da Bíblia, primeiro, o profeta Isaías 1, 11-17, depois, o Evangelho de Marcos 10, 42-45.
Se dúvidas houvesse de que Deus, o de Jesus e o do profeta Isaías, do que gosta é de Política e não de Religião, a intervenção de Isaías tinha-as tirado todas. O texto remonta a cerca de 700 anos antes de Jesus, mas continua a ser duma actualidade impressionante, sinal de que a Humanidade tem vivido, para seu mal, mergulhada na Religião e no infantilismo que dela resulta, e continua a fugir da Política, isto é, continua a recusar-se a ser, a crescer, a tornar-se sujeito, protagonista. Não resisto a transcrever aqui o texto de Isaías. Ora atentem nele:
“De que me serve a mim a multidão das vossas vítimas?, diz o Senhor. Estou farto de holocaustos de carneiros, de gordura de bezerros. Não me agrada o sangue de vitelos, de cordeiros nem de bodes. Quando me viestes prestar culto, quem reclamou de vós semelhantes dons, ao pisardes o meu santuário? Não me ofereçais mais dons inúteis: o incenso é-me abominável; as celebrações lunares, os sábados, as reuniões de culto, as festas e as solenidades são-me insuportáveis. Abomino as vossas celebrações lunares, e as vossas festas; estou cansado delas, não as suporto mais. Quando levantais as vossas mãos, afasto de vós os meus olhos; podeis multiplicar as vossas preces, que eu não as atendo. É que as vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, purificai-vos, tirai da frente dos meus olhos a malícia das vossas acções. Cessai de fazer o mal, aprendei a fazer o bem; procurai o que é justo, socorrei os oprimidos, fazei justiça aos órfãos, defendei as viúvas.” [= sede políticos, fazei Política, não Religião!]
Na mesma linha política, não religiosa, vai também o Evangelho de Marcos que escutámos. Diz assim: “Jesus chamou os doze e disse-lhes: Sabeis como aqueles que são considerados governantes das nações fazem sentir sobre elas a sua autoridade, e como os grandes exercem o seu poder. Não deve ser assim entre vós. Quem quiser ser grande entre vós, faça-se vosso servo e quem quiser ser o primeiro entre vós, faça-se o servo de todos. Pois o Filho do Homem [o próprio Jesus] não veio para ser servido, mas para servir e dar a sua vida em resgate por todos.”
No diálogo comunitário que se prolongou por cerca de uma hora, acabámos a perceber que Jesus é o ser humano integral, em quem a Política foi vivida até ao extremo da perda/doação da própria vida pela vida do mundo. Ele teve a audácia de fazer um Novo Começo. Abriu um Caminho ainda por andar. Tornou-se, por isso, “O Caminho”. Infelizmente, as Igrejas, em lugar de o seguirem e prosseguirem a sua Causa, o seu Projecto do Reino/Reinado de Deus, meteram-se a fazer religião que alimenta e mantém as populações nos seus ancestrais medos. É por isso que hoje temos que regressar a Jesus. Se as Igrejas não o fizerem, há-de fazê-lo a Humanidade, soprada/guiada/animada pelo Espírito de Jesus que está aí empenhado em fazer novos céus e nova terra. É por isso também que pela Política é que vamos, não pela Religião. Pela Política é que somos seres humanos, mulheres e homens, não pela Religião.
3. Em memória de Porfírio Borges. Ainda não percebi e nunca perceberei porque é que, quando alguém morre, tem que se celebrar missas por essa pessoa. Ou, quando se pretende fazer memória de alguém que faleceu, essa acção tem que passar por uma missa. Infelizmente, o encontro em memória do meu amigo Porfírio Borges não fugiu à regra. E até meteu bispo, o que, nestes casos de domínio religioso-eclesiástico em que se transformaram as Igrejas, quase sempre piora as coisas. Porque os bispos que temos têm o condão, onde aparecem, de monopolizar a celebração e a palavra. Ao mesmo tempo que inibem a criatividade e a inovação. O ritual é mau. Mas se o bispo preside, é o ritual que se executa, sem se desviar nem um til. Desde o hipócrita, milhões de vezes repetido, “confessemos os nossos pecados”, com que abrem as missas, até à apalermada palavra de ordem final “ide em paz e o Senhor vos acompanhe!”.
Estive presente, mas contrariado, desde o princípio ao fim. Nunca respondi ao ritual. Nem participai na tomada da hóstia. Só gostei do fim. Quando tive oportunidade de ir dar um fraternal abraço ao Bispo Manuel Martins, que estimo e admiro, mas sobretudo, fora destes ambientes de terror e de opressão que são as igrejas ou templos católicos. Ele conseguiu meter-se comigo e, meio a sério, meio a brincar, disse-me que de bom grado subscreve a maior parte das coisas que eu escrevo e publico. Tal e qual! Acrescentou ainda: que são muitas as pessoas que aproveitam com os meus escritos, aliás bem escritos, e bem fundamentados do ponto de vista teológico e bíblico. Apenas lamentou que eu misture estes conteúdos tão bons com críticas e ataques à hierarquia e à instituição eclesiástica. Até parece que nem sequer ele, Bispo Manuel Martins, tem consciência de que a hierarquia não vem de Jesus, nem é da inspiração do Espírito Santo. A Igreja só estará bem quando ela desaparecer. Com ela aí, e tão omnipresente, é impossível a fraternidade/sororidade. Por outro lado, parece também ignorar que a instituição eclesiástica é poder e, como tal, não vem de Jesus, nem tem o seu Espírito. O que vem de Jesus é o Reino/Reinado de Deus. Este é que foi a Causa que consumiu o viver de Jesus, não a Igreja, menos ainda a instituição eclesiástica que temos em lugar da Igreja. Por isso, não sou eu quem erra ao denunciar e atacar, é quem tudo faz para manter o “status quo” que deveria demolir. Ri-me com o Bispo. E ele riu-se comigo. E sempre lhe disse: Não vejo porque há-de lamentar as minhas críticas e denúncias. Eu escrevo para adultos e os adultos sabem discernir o que podem aproveitar e o que podem recusar.
Também gostei de ver, ao sair da igreja de St.ª Clara, depois de ter estado com o Bispo, na sacristia, as pessoas que apareceram ao encontro em memória do Porfírio Borges, todas já cá fora em grande confraternização. Pela primeira vez, naquela tarde, as pessoas eram elas. O que não conseguiram ser durante a missa. Conversavam, riam, gesticulavam em grande animação. Lá dentro, eram múmias, estátuas, robots. Tristes. Caladas. Com ar pesado. Oprimidas. Foi preciso acabar a missa para voltarem a ser elas próprias. Então para que se fazem as missas, se, enquanto elas duram – e duram muito tempo – as pessoas não são elas próprias?
Infelizmente, não pude permanecer no convívio que acontecia cá fora, depois da estupada que foi a missa. O tempo que se perdeu lá dentro não voltou atrás. E eu tinha que regressar a Macieira da Lixa. E regressei. Ainda mais convencido que as missas em memória de alguém só estorvam. São coisa inventada pelo clero, não vêm de Jesus, nem têm o selo do Espírito. São opressão e mentira. O nome de Jesus é invocado, mas de forma blasfematória, para canonizar a opressão, o poder hierárquico e clerical. A Eucaristia, o acto de Partir o Pão e o Vinho não pode ser estas missas que nos impingem. Pelos frutos que produzem, não têm a marca de Jesus e do seu Espírito. Por isso, ou descobrimos de novo o essencial desse Gesto, ou é melhor fugir dessas missas a granel que por aí se fazem. Como agora acontece com a morte da Irmã Lúcia.
São missas a granel. Em Fátima. Nas paróquias. No convento do Carmelo em Coimbra. E vêm cardeais. E juntam-se dezenas de bispos. E centenas de padres. Todos concelebram. Todos dizem as mesmas palavras. Todos repetem o mesmo ritual. Em simultâneo. Pensam, se calhar, que assim impressionam mais a Deus!!! E que o forçam a agir de harmonia com as conveniências e os interesses deles. Nem sequer vêem que com comportamentos assim, dão razões de sobra para os ateus de hoje o serem mais convictamente. A Irmã Lúcia já esteve em milhares de missas, ao longo da longa vida que teve. E agora ainda tem centenas de missas celebradas e concelebradas por gente eclesiástica graúda. O que é que esta gente eclesiástica graúda pretende esconder com tanto alarido, com tantos ritos, com tanta hipócrita invocação do nome de Deus? Eu sei o que é. Quer esconder a mentira de Fátima e a mentira que foi a vida de Lúcia. Mas de nada lhe adianta. A verdade vem sempre ao de cima. À medida que a Humanidade crescer em ciência, em sabedoria, em cultura, em discernimento, todas as fábulas e todas as mentiras, mesmo as mentiras piedosas, desfazem-se como a noite se desfaz coma chegada do dia, do sol. E Jesus, o Evangelho de Jesus, é a Luz, é a Verdade. Por mais missas que façam os bispos e os padres, por mais cardeais que se envolvam e o próprio papa, mais fica a descoberto a mentira. Com Deus, o de Jesus, tudo é diferente desta mentira eclesiástica concertada. Tudo é simples. Ele é Amor e Perdão, Misericórdia, Força Criadora e Ressuscitadora. Com Ele presente, nem o papa, nem os cardeais, nem os bispos residenciais, nem os párocos, nem nenhum dos seus ritos de mentira subsistem. Tudo se esvai como uma nuvem, quando chega o calor. É por isso que eu canto e danço. Como um menino. O Tempo joga a meu favor. A favor da verdade. É por ela que me deixo guiar. Às apalpadelas. Mas com alegria. A liberdade com que vivo e a alegria com que me visto todos os dias são sinal de que caminho ao encontro da Luz. Não sou eu que vivo, é Cristo Jesus que vive em mim. Na luz é que sou. É que seremos quantas, quantos aceitarmos ser simplesmente humanos, irmãs, irmãos universais!
09 FEVEREIRO 2005
Hoje, para Igreja católica é quarta-feira de cinzas. Mas quase só para o pouco clero católico que ainda se mantém ligado à mais que ultrapassada pastoral paroquial. E para mais algumas pessoas devotas da missa diária, poucas, por sinal, que insistem num tipo de catolicismo à margem da História e da vida. E que confundem Fé cristã com religião, e esta com devocionismo desencarnado. Sobretudo, que são alérgicas à Política que consideram coisa do diabo. Felizmente, a sociedade europeia, no seu melhor e no seu pior, é hoje cada vez mais autónoma da Igreja católica. Isso da velha máxima que dividia a sociedade em clero, nobreza e povo, há muito que passou à História, embora a hierarquia da Igreja católica continue a não dar muito por isso. Uma indubitável prova disso é esta celebração rural das cinzas e a manutenção do longo período da Quaresma a que ela oficialmente dá início. Fôssemos uma Igreja em dia com a agenda da sociedade civil e já nos teríamos libertado deste calendário litúrgico completamente desfasado do tempo e da cultura do século XXI. Aliás, se a hierarquia da Igreja sair por aí a perguntar às pessoas o que é que elas entendem por quarta-feira de cinzas e por quaresma, verá que as pessoas não fazem a mínima ideia. Particularmente, as gerações mais novas. E não é por falta de catequese. É porque a Igreja oficial há muito que deixou de sintonizar com a Humanidade e com o mundo em que vive. Continua na Idade Média, no mundo rural, em redor dos campanários, com sinos pacoviamente a tocar as notas do "13 de Maio", de hora em hora e a chamar campos, montes e lugarejos despovoados para missas e para cerimónias como a da bênção e imposição das cinzas que não têm pés nem cabeça, nestes tempos culturais e civilizacionais que são os nossos. A História não parou na Idade Média e no mundo rural. Mas a Igreja católica sim. Para sua desgraça. e para desgraça daquela parcela da Humanidade que ainda lhe dá ouvidos e gasta tempo com algumas das suas iniciativas.
A Igreja católica teima em manter-se de pedra e cal no seu calendário litúrgico, como antigamente. Só que hoje o calendário litúrgico da Igreja não passa de um exclusivo dela. Deixou de ser partilhado com a sociedade que, felizmente, tem outro calendário muito distinto. Outrora, o calendário litúrgico era o calendário da Igreja e da sociedade, simultaneamente. Hoje, não. É exclusivo da Igreja, sobretudo do seu cada vez mais reduzido clero que permanece com responsabilidade na pastoral paroquial. A sociedade já não vai mais por ele. E o que se lamenta não é que a sociedade já não vá mais pelo calendário litúrgico da Igreja. O que se lamenta é que alguma vez tenha ido e assim se tenha mantido durante séculos e séculos. Nunca deveria ter ido. Porque a identificação Igreja/sociedade prejudica tanto a Igreja como a sociedade. Só a autonomia e a independência são saudáveis para ambas as partes. A confusão das duas realidades, como se fossem a mesma coisa, criou a Cristandade. Na Cristandade, nem houve Igreja, nem houve sociedade. Porque a Cristandade é a negação de ambas. Mas foi essa a situação que a Europa conheceu durante séculos, praticamente, os últimos dezasseis séculos. E se hoje a sociedade é cada vez mais autónoma e independente da Igreja católica, esta ainda não se habituou de todo a esta nova condição. Tão pouco a vê com bons olhos. Continua com saudades da Cristandade, porque a confusão das duas reservava à Igreja católica a parte de leão, no que respeita ao poder. Na Cristandade, a hierarquia é quem tinha verdadeiramente o poder, em todas as vertentes da vida humana, ainda que este pudesse ser delegado por ela, em algumas dessas vertentes, ao “braço secular”. A hegemonia era sempre da hierarquia católica.
As coisas hoje já não são mais assim. Teoricamente. Na prática, é ainda visível o medo que os dirigentes políticos da sociedade têm em relação à hierarquia católica. Medo e reverência. Quando o bispo aparece, fala ou preside a um acto público na presença dos dirigentes políticos da sociedade, nem que seja numa simples bênção que, aliás, já não faz hoje qualquer sentido e não deveria sequer acontecer, logo os dirigentes da sociedade se subalternizam. Também há os que, aqui e ali, se tornam sobranceiros e arrogantes, mas isso continua a ser manifestação de falta de maturidade e de naturalidade, por parte dos dirigentes da sociedade, perante a hierarquia católica.
Hoje, é ainda bem visível a falta de autonomia e de independência dos dirigentes da sociedade civil, por exemplo, em tempo de campanha eleitoral. Há um manifesto excesso de cautela e de preocupação destes em agradar aos bispos, em não colidir nunca com os seus pontos de vista, nomeadamente em questões de ética. É como se a Igreja ainda fosse a dona da sociedade e delegasse a gestão da coisa pública nos dirigentes políticos eleitos pela população. Ou como se os dirigentes políticos da sociedade fossem vassalos dos bispos e lhes devessem fidelidade e obediência.
Este excesso de cautela e de preocupação, por parte dos dirigentes políticos da sociedade, é manifesto nas chamadas questões de ética, como a lei do aborto, a eutanásia, as uniões de facto, as uniões entre homossexuais e entre lésbicas. Sobretudo, os dirigentes dos partidos políticos de direita sofrem duma postura que chega a roçar o infantil. Colam-se às posições dos bispos, de preferência, aos mais conservadores e reaccionários. Como se as posições dos bispos fossem as únicas posições éticas. Pior, como se a ética fosse monopólio da hierarquia católica. Ou como se houvesse aí uma ética cristã, previamente codificada em catecismo ou em código e todos os comportamentos que não coincidam com essas normas escritas fossem manifestação de imoralidade. Uma ética cristã, quando é previamente convertida em catecismo ou em código, não passa duma ética de Cristandade. Ainda não é cristã. O que é específico do Cristianismo de Jesus de Nazaré não é a existência duma ética prévia que se aplica depois, quaisquer que sejam as pessoas em causa e as circunstâncias em que elas se movimentam e são chamadas a decidir. O Cristianismo de Jesus coloca a lei sob a decisão do ser humano, nunca acima do ser humano. O ser humano é sempre o centro da decisão, nunca a lei, ou a norma ética. A Cristandade é que criou uma ética cristã católica. Era poder e, nessa sua condição, ditou uma lei moral em conformidade, a que chamou ética cristã, quando deveria ter chamado ética de Cristandade ou de poder eclesiástico. Porque o poder não gosta da liberdade. Menos ainda o poder religioso e eclesiástico. É incapaz de fazer do ser humano o centro. Esse lugar reserva-o a ele próprio, à lei, à norma, à disciplina.
Eu sei que na Igreja católica este princípio ético do Cristianismo de Jesus é de difícil aceitação. Porque ela continua ainda com todos os tiques da Cristandade que foi durante séculos, e ainda não sabe ser Igreja, simplesmente. Mas tem que aprender. Tem que mudar e depressa. Se, evidentemente, quiser continuar aí como companheira da sociedade e da Humanidade. Sempre e só na linha do serviço maiêutico, nunca na linha do poder ou do privilégio. Companheira, nunca mãe nem mestra.
Ainda no passado domingo, um pároco do Patriarcado de Lisboa deu escândalo e do grosso, ao tomar posição em plena campanha eleitoral em curso, contra os partidos de esquerda, em nome do que ele chama a “ética cristã”. Decididamente, o pe. Lereno, prior da paróquia de São João de Brito, ainda não percebe o mundo em que vive e actua. Ainda se pensa pároco em regime de Cristandade, quando a Igreja católica tinha o poder de dizer o que era moral ou ético e o que não era. Esse tempo passou, felizmente, mas, pelos vistos, não para o pe. Lereno que, todos os domingos, entre as 8 e as 9 horas da manhã, partilha a missa a que preside na paróquia e a homilia que pronuncia, com os ouvintes da Antena 1. Nem o facto de poder dispor regularmente dos microfones duma rádio pública lhe tem despertado um mais salutar sentido de bom senso. Quase sempre salta fora da mais elementar conveniência e educação cívica. Mas no passado domingo, ultrapassou todas as marcas. Deverá estar zangado com o tom moderado da nota da Conferência episcopal portuguesa sobre as eleições em curso e exorbitou de forma escandalosa das suas funções pastorais. Pôs a boca no trombone, muito para além dos parâmetros dos bispos portugueses. Arrogou-se, inclusive, do que ele chama uma “ética cristã” e desancou em todos os partidos políticos que porventura aceitem legislar em matérias que ele considera do foro da “ética cristã”, nomeadamente, sobre o aborto, a eutanásia, as uniões de facto, as uniões entre homossexuais e lésbicas.
Felizmente, o pe. Lereno não passa duma voz de um prior do Patriarcado, sobejamente conhecido pelas suas posições conservadoras e até reaccionárias. Mas nem por isso deixa de ser uma voz eclesiástica católica. Por isso, não caiamos na ingenuidade de pensar que o prior da paróquia de São João de Brito, em Lisboa, está sozinho, nesta sua batalha. Não está. Tem com ele toda a direita católica que, no fundo, é a que hoje comanda a Igreja católica em Portugal e na Europa. Mesmo contra alguns bispos mais abertos da Conferência episcopal portuguesa ou europeia. Para ele se atrever a dizer o que disse na rádio pública, tem indubitavelmente as costas protegidas. Aliás, para esse tipo de Igreja com saudades do tempo da Cristandade, o pe. Lereno já é hoje um herói. Se vier a ser perseguido por isso, pior, porque então passa de herói a mártir.
Felizmente, os partidos políticos souberam portar-se bastante à altura. Criticaram, com oportunidade as posições do pe. Lereno, mas não fizeram disso um cavalo de batalha. De modo que o episódio causou algum alarido, mas não terá passado de mais uma anedota eclesiástica. Contudo, é o bastante para que os partidos políticos continuem a inibir-se de aprofundar e de anunciar medidas legislativas sobre as questões em causa, para não se arriscarem a perder votos no próximo dia 20 de Fevereiro. Por parte da hierarquia da Igreja também faltou uma palavra autorizada que separasse as águas e dissesse que a ética não é monopólio da Igreja católica. Aliás, os séculos da Cristandade, de onde provimos, foram tudo menos exemplares em termos de ética. E, se hoje, estamos como estamos, mergulhados na selva do neo-liberalismo desenfreado, é também à Cristandade que o devemos. Ou haverá quem tenha dúvidas?
Entretanto, ao pe. Lereno, meu colega no presbiterado, gostaria de pedir que se preocupe, não com as leis do Estado e da sociedade civil, mas com o desenvolvimento integral das pessoas, porque, se tivermos pessoas integralmente desenvolvidas, o resto vem por acréscimo. Não temos, como Igreja, de nos preocupar com as leis, mas com as pessoas de carne e osso. Elas é que são sujeito das decisões éticas. À Igreja compete ajudar a formar consciências, não fazer leis que regulem a sociedade. A sociedade fará as leis que entender como melhores. As pessoas em concreto posicionar-se-ão perante elas, segundo a própria consciência. Os comportamentos éticos das pessoas não têm que estar pré-definidos. Serão as pessoas que, nas circunstâncias concretas em que vão ser chamadas a decidir, que verão em consciência qual a melhor decisão a tomar.
Aliás, se as pessoas decidirem de harmonia com a lei, porventura, objectivamente boa, mas o fizerem sem convicção, já decidem mal, porque tudo o que se faz sem convicção é pecado. Já São Paulo, no seu tempo, se preocupava em despertar os cristãos de Roma para esta postura profundamente humana e ética. Não é a lei, mas a pessoa humana que conta. A lei vale como “pedagogo”, mas não pode substituir a pessoa, nem a sua decisão em consciência. E a pessoa que vai decidir e agir sempre há-de ter em consideração as circunstâncias concretas em que se encontra. O que é bom para a pessoa A, nas circunstâncias concretas em que ela se encontra, pode já não o ser para a pessoa B, ou mesmo para a pessoa A, se as circunstâncias anteriores se alterarem radicalmente.
À Igreja cumpre, na peugada de Jesus libertador, ajudar a formar pessoas
integralmente desenvolvidas. Consciências livres e esclarecidas. Críticas.
Maduras. Capazes de decidir e de deliberar. O resto virá por acréscimo. Mas é
claro, uma pastoral deste nível e desta qualidade, é uma pastoral de libertação
e de promoção de autonomias. Não é uma pastoral de poder. É uma pastoral de
minorias. Não é uma pastoral de massas. É uma pastoral de pessoas. Não é uma
pastoral de rebanho. A Cristandade (o que resta dela) nem sequer é capaz de
entender uma pastoral assim. Apenas a Igreja-fermento-na-massa a entenderá. Por
mim, é por este modelo de Igreja que vou. É neste modelo de Igreja que aposto.
Nem que a maioria dos meus irmãos católicos me não entenda, estragados que foram
pelo modelo Cristandade. Sei que não estou sozinho nesta via eclesial
humanizadora. Ou não tivesse sido por aí que avançou o Concílio Vaticano II.
Contra dezasseis séculos de Cristandade, de má memória.
03 FEVEREIRO 2005
1. A seca volta a atacar em Portugal. Os efeitos devastadores fazem-se sentir sobretudo no Alentejo e Algarve. Os que vivem da terra e dos rebanhos já desesperam. E já não falta quem se vire para o céu, a pedir a Nossa Senhora que se compadeça de nós e mande vir chuva. (A mítica deusa dos cultos do Paganismo primitivo alojou-se de tal maneira, como um demónio, no inconsciente colectivo da Humanidade, que esta, sobretudo em momentos de grave crise, em lugar de crescer em ciência e em protagonismo no enfrentar/resolver os problemas, entra em pânico e põe-se a reproduzir ritos religiosos mais ou menos irracionais, que só contribuem para nos infantilizar e humilhar ainda mais).
Primeiro, foi uma pastora de gado que lançou a ideia entre as populações. “Voltemos às práticas religiosas que os nossos antepassados faziam em tempos de seca prolongada”, disse. E logo teve a adesão de grande número de pessoas em redor, dispostas a integrar uma procissão pelos caminhos da povoação, a pedir chuva ao céu. Só que a pastora de gado ainda não tinha um pároco católico para presidir ao acto. E o céu, pelos vistos, não atende qualquer bicho careta ou pé descalço, muito menos uma mulher pastora de gado! Tem que haver um pároco católico a presidir. Só a este é que o céu reconhece como interlocutor. Foi então que a pastora meteu pés a caminho à procura de um pároco católico, coisa rara em certas zonas do Alentejo, a região onde ela vive, até que lá conseguiu a anuência de um. A procissão foi marcada para o domingo seguinte, mas, na véspera, o pároco contratado telefonou à pastora de gado a exigir que a procissão fosse adiada por mais oito dias. A pastora de gado ficou decepcionada, mas cancelou a procissão por uma semana. Não foi capaz de avançar sem o pároco. Pelos vistos, o pedido de chuva podia esperar. Não se chegou a saber as razões que levaram o pároco a adiar tudo por uma semana. Mas, provavelmente, terá ouvido as previsões dos meteorologistas a anunciar a continuação do tempo seco, pelo menos, por mais uma semana e não arriscou presidir à procissão a pedir chuva no dia já combinado. Seria fiasco garantido. Uma semana depois, provavelmente, já com outras previsões – como diz o povo, não há bem que sempre dure, nem mal que nunca acabe – lá se fez a procissão, com o pároco a presidir.
Mesmo assim, a seca teima em continuar e ainda não se sabe quando é que virá chuva. Uma coisa sabe-se já: Mesmo que viesse chuva em abundância nos próximos dias, já viria tarde demais, porque os animais estão a morrer como tordos e as culturas nos campos já não têm salvação. Está tudo perdido. Com procissão ou sem ela, o céu foi, mais uma vez, cruel para com a Terra. Entretanto, nem assim a pastora de gado e as populações que foram pela sua sugestão abrem os olhos e deixam de continuar a confiar no céu. Pensam lá com os seus botões: Se do céu não veio a chuva, apesar da procissão que foi feita a pedi-la, é porque as ofensas dos seres humanos a Deus são muitas e muito graves. E o céu exige que os seres humanos se arrependam e mudem de vida, concretamente, passem a ir mais à missa, façam as orações ao levantar e ao deitar, rezem o terço todos os dias e mandem os filhos à catequese. A procissão, só por si, não basta. É coisa pouca para tantos pecados da Humanidade.
Assim é levada a pensar a pastora de gado. O mesmo se diga das populações que ela arregimentou para a procissão. E igualmente do pároco católico que presidiu a tudo como intermediário entre a terra e o céu, entre o céu e a terra. De modo que, apesar da seca continuar – os meteorologistas limitam-se a anunciar mais e mais dias sem chover – nem a pastora de gado desespera do céu, nem as populações deixam de frequentar a missa ao domingo, nem as mães e os pais deixam de mandar os filhos à catequese, nem o pároco católico que presidiu à procissão sem quaisquer resultados práticos deixa de ser o funcionário eclesiástico-mor que sempre foi, desde o dia da sua ordenação às mãos do bispo.
E que dizer do bispo da diocese onde se insere a povoação alentejana que organizou e realizou a procissão? Desenganem-se, se pensam que ele alguma vez poderá sofrer um colapso cardíaco, perante tamanho grau de inumanidade que todo este comportamento irracional por parte das populações católicas, pároco incluído, revela. De modo algum. Por ele, os animais podem continuar a morrer esqueléticos, por falta de rações e de água. Os agricultores podem ver as suas culturas de Inverno perdidas. A saúde das populações pode estar gravemente em risco, por falta de água. Ao bispo isso pouco o preocupa. O que verdadeiramente preocupa o bispo da região é que as populações, se querem que as condições meteorológicas venham a sofrer alteração para que haja chuva, passem, antes de mais, a rezar mais, frequentem mais a igreja, paguem os direitos aos párocos, mandem os filhos à catequese, rezem o terço todos os dias, numa palavra, sejam populações católicas praticantes. Ou será que se permitem abandonar as práticas religiosas católicas e depois ainda querem que o céu se chegue à frente com a chuva sempre que necessário? É bem feito. É para aprenderem. As populações têm que compreender que, muito pior que a seca prolongada, é deixarem de rezar o terço todos os dias, deixarem de ir à missa aos domingos, deixarem de mandar os filhos à catequese, deixarem de pagar “a obrada” aos párocos… Deus não dorme e castiga sem pau nem pedra!, conclui com redobrada satisfação interior o bispo. E aproveita a maré, para anunciar aos seus diocesanos desesperados pela seca prolongada e ainda sem fim à vista, novas procissões a pedir chuva, na esperança de que esta seca prolongada leve as populações a reaprender o caminho de volta às igrejas paroquiais e às missas dos domingos.
Perante orientações pastorais deste teor, as populações, de tão pouco ilustradas e pouco evangelizadas que confrangedoramente estão, ficam pelo menos hesitantes. E algumas haverá que lá voltam a frequentar a igreja, pelo menos, durante mais algumas semanas.
O pior é que assim, que nem os párocos que são os funcionários-mor de várias paróquias, ao mesmo tempo, nem o bispo que preside como um príncipe inacessível à Igreja da diocese, se sentirão na obrigação de procurar outro modo de vida fora dos templos e longe dos altares. As populações com medo de novas secas prolongadas continuarão a frequentar os seus templos e as suas liturgias feitas de mentira. Chovesse regularmente todos os anos, nem de mais, nem de menos, e, provavelmente, as igrejas paroquiais já há muito teriam sido desactivadas por falta de clientes. Ainda bem, pois, para a Igreja católica, que há secas prolongadas com alguma regularidade!... Elas são a desgraça das populações, mas são também a salvação dos párocos católicos e dos bispos. Os quais continuam a ter garantido um razoável número de clientes nas missas e em outras devoções religiosas mais ou menos irracionais!...
Felizmente, as novas gerações já estão noutra, e nem sequer as secas prolongadas e mais ou menos cíclicas os convencem a retomar a tradição religiosa dos antigos. O céu que se lixe. Se não manda chover, é porque está avariado e precisa de conserto. Por isso, em vez dez correrem a meter-se nas paróquias e passarem a frequentar os estúpidos ritos que os párocos repetem até à náusea, as novas gerações preferem meter-se nas universidades e queimar as pestanas a estudar cientificamente os fenómenos naturais, as suas causas e os seus efeitos. Sobretudo, preferem descobrir como é que nós, os seres humanos, podemos corrigir e aperfeiçoar a natureza, para que ela nos seja cada vez mais favorável, em vez de adversa. Em lugar de caírem na tentação de voltarem, como os seus pais e avós aos cultos irracionais do Paganismo primitivo, agora travestidos de religião católica, e ao terror idolátrico dos seus míticos deuses e deusas, as novas gerações preferem mergulhar no futuro, aprofundar os conhecimentos científicos, desenvolver e aperfeiçoar a arte de cuidar da vida e do planeta. E a verdade é que, com estas suas posturas, aparentemente ateias e agnósticas, dão mais glória a Deus, o de Jesus de Nazaré, evidentemente, o qual, de tão Vivo que é, vive exclusivamente para nos fazer viver. Como tal, nem sequer carece de ser nomeado para existir. Tão pouco carece de templos e santuários, cultos e ritos, porque a sua glória é que os seres humanos vivam e se assumam responsavelmente como senhores dos próprios destinos. As novas gerações podem, por agora, nem sequer ter consciência da sua existência e da sua misteriosa e fecunda Presença. A verdade é que acabarão, mais cedo ou mais tarde, por dar por ela, a partir dos efeitos libertadores e humanizadores que ela misteriosamente produz, como Sopro de Vida e de Liberdade que é.
Devo reconhecer que, infelizmente, quem mais tem impedido e atrasado a implementação desta revolucionária mudança antropológica da Humanidade têm sido as Igrejas, com destaque, no nosso país e na Europa, para a Igreja católica. Ela faz tudo para que esta revolucionária mudança antropológica não aconteça, ou aconteça quanto mais tarde melhor. Toda ela está organizada para funcionar como sistema religioso, com funcionários clérigos como intermediários entre o céu e a terra, entre a terra e o céu. Ora, quando esta revolucionária mudança antropológica se globalizar, o sistema eclesiástico católico cairá como um baralho de cartas. Párocos e bispos-príncipes residenciais, frades e freiras, leigas e leigos clericalizados, catequistas e coros litúrgicos das missas de domingo, e demais instituições eclesiásticas de todo o tipo e feitio desaparecerão. Em seu lugar, ficará a Humanidade finalmente ilustrada e evangelizada, aberta ao futuro, com pés bem assentes no presente, cada vez mais científica, sem necessidade sequer da hipótese Deus para viver o seu dia a dia e também sem cultos religiosos com os quais se pretende forçar Deus a ser-nos favorável! Deus estará tão presente e actuante dentro de nós, que não é preciso pronunciar o seu nome, tal como ninguém precisa de se referir ao ar que respira. Basta que o respire. No caso de Deus, basta que vivamos de forma responsável, a cuidar cada vez mais cientificamente da vida e do planeta.
É para atingirmos, à escala global, esta saúde mental e comportamental da Humanidade, que eu tenho trabalhado até ao presente, como presbítero da Igreja de Jesus, e continuarei a trabalhar enquanto tiver forças para isso. A minha alegria é que o sistema eclesiástico intrinsecamente perverso e fabricador de inumanidade desapareça. E, em seu lugar, ganhe corpo a Igreja de Jesus apaixonadamente comprometida com as causas do Reino/Reinado de Deus, que são as causas da Humanidade e do Universo. Sei que não estou só nesta missão.
2. O Papa João Paulo II acaba de recolher de urgência a um hospital de Roma, nas proximidades do Vaticano. Pelos vistos, o hospital tem reservada em permanência para ele uma suite. Um luxo que só mesmo um papa se pode gabar de ter. Ou ele não continue a ser olhado pelo mundo em geral como o intermediário n.º 1 entre o céu e a terra, entre a Humanidade e Deus. Nada chega da terra ao céu que não passe por ele. E tudo o que vem do céu para a terra é por meio dele que vem. Pelo menos, a Igreja católica pretende que seja assim. A verdade é que enquanto esta mentira tiver pernas para andar, a Igreja católica bem se governa. Até se pode dar ao luxo de ter dia e noite uma suite reservada para o seu papa de turno, num dos clinicamente melhor apetrechados hospitais de Roma.
A notícia do agravamento da saúde do papa saltou de imediato para os grandes media de todo o mundo e há já batalhões de jornalistas a viajar até Roma, para o que der e vier. Por um cidadão anónimo, um simples ser humano, ninguém mexe uma palha. Pode apodrecer por falta de assistência médica, que ninguém se escandaliza. Embora esse simples ser humano que não tem onde cair morto seja, no dizer do Evangelho de Mateus (cap. 25), um dos rostos do Emnanuel, ou Deus-entre-nós-e-connosco, a verdade é que ninguém quer saber, nem mesmo os chamados príncipes da Igreja.
Ora, enquanto houver discriminações desta gravidade e deste tamanho entre os seres hu