A minha missão: Evangelizar os pobres

 

Desde muito cedo que percebi que a minha missão fundamental como padre da Igreja católica era, é Evangelizar os pobres. Não era, não é, nem poderá nem deverá ser uma missão puramente eclesiástica. É missão eclesial, mas não eclesiástica. Como tal, é uma missão para o mundo. Sou padre da Igreja e na Igreja, mas para o mundo. A Igreja não é o motivo final da minha vida de padre. Mas o mundo. Se a Igreja fosse o motivo final da minha vida de padre, então eu não passaria de um funcionário eclesiástico mais. Provavelmente, é isso que a hierarquia pretende, ao ordenar os padres. Para ela, é o mais cómodo. Ser sempre servida pelos padres, quanto mais subservientes e acríticos, melhor. Nunca ser questionada, interpelada por nenhum. Mas se a hierarquia pretende funcionários dóceis e acríticos, quando ordena os padres, o Espírito Santo que actua no Sacramento da Ordem não é isso que quer. Aliás, para instituir funcionários eclesiásticos, nunca havemos de contar com o Espírito Santo. Para isso, a sua presença só atrapalha e incomoda, já que o Espírito Santo é o Sopro mais anti-funcionário que há e também o mais anti-institucional. O Espírito Santo aceita as instituições, mas apenas como se aceita o odre para que não se perca o vinho. Nunca para substituir ou fazer esquecer o vinho. Aceita as instituições, mas para que elas estejam ao serviço dos carismas que Ele sopra onde quer e em quem quer, nunca para os abafar. Aliás, a própria Igreja existe, como povo convocado pelo Espírito, não para si mesma, mas para o mundo. É Igreja para o mundo. Evangelizar os pobres é, pois, no meu entender, a melhor maneira de caracterizar a minha missão presbiteral na Igreja que, ao fim e ao cabo, mais não há-de fazer que actualizar e prosseguir, hoje e aqui, a missão de Jesus de Nazaré, o Senhor.

As comunidades cristãs primitivas que escreveram o primeiro volume do Evangelho de Lucas viram isto muito bem, quando escolheram o cenário da Sinagoga de Nazaré, a terra aonde Jesus se havia criado, para apresentação pública da sua missão dentro da História. O relato é empolgante. De cada vez que me debruço sobre ele, a sua leitura-escuta sempre me impressiona, como da primeira vez que o meditei, quando ainda me sentava nos bancos da capela do Seminário da Sé, como estudante de teologia. Desde então, nunca mais o relato deixou de nortear a minha vida de padre na Igreja. Significativamente, ainda há poucas semanas atrás, pessoa amiga de Leiria, que me conhece bastante bem, embora não conviva muito comigo, telefonou-me e surpreendeu-me com a leitura pausada ao telefone duma parte deste relato. Precisamente, a que cita o profeta Isaías. E, no final, sublinhou: Acabei agora mesmo de ouvir a proclamação deste relato na missa da televisão e logo me lembrei de ti, porque é um relato que define bem a tua vida e a tua missão de padre. É claro que reagi a estas palavras, que não senhora, que era um exagero o que ela me dizia, pois tenho consciência de que não passo de um aprendiz de discípulo de Jesus. Ele sim, e apenas ele, é que se identifica integralmente com o relato. Vou transcrevê-lo de seguida:

"Jesus veio a Nazaré onde tinha sido criado. Segundo o seu costume, entrou em dia de sábado na sinagoga e levantou-se para ler. Entregaram-lhe o livro do profeta Isaías e, desenrolando-o, deparou com a passagem em que está escrito: «O Espírito do Senhor está sobre mim, porque me ungiu para anunciar a Boa Nova aos pobres [= evangelizar os pobres]; enviou-me a proclamar a libertação aos cativos e aos cegos a recuperação da vista; a mandar em liberdade os oprimidos, a proclamar um ano favorável da parte do Senhor». Depois, enrolou o livro, entregou-o ao responsável e sentou-se. Todos os que estavam na sinagoga tinham os olhos fixos nele. Começou então a dizer-lhes: «Cumpriu-se hoje esta passagem da escritura que acabais de ouvir». Todos se ergueram a testemunhar contra ele, escandalizados com as palavras repletas de graça que saíam da sua boca. Diziam: «Não é este o filho de José?» Disse-lhes então: «Certamente, ides citar-me o provérbio: Médico, cura-te a ti mesmo! Tudo o que ouvimos dizer que fizeste em Cafarnaúm, fá-lo também aqui na tua terra». Acrescentou depois: «Em verdade vos digo: Nenhum profeta é bem recebido na sua pátria. Posso assegurar-vos também que havia muitas viúvas em Israel no tempo de Elias, quando o céu se fechou durante três anos e seis meses e houve uma grande fome em toda a terra; contudo, Elias não foi enviado a nenhuma delas, mas sim a uma viúva que vivia em Sarepta de Sídon. Havia muitos leprosos em Israel no tempo do profeta Eliseu, mas nenhum deles foi purificado senão o sírio Naaman». Ao ouvirem estas palavras, todos, na sinagoga, se encheram de furor. E, erguendo-se, lançaram-no fora da cidade e levaram-no ao cimo do monte sobre o qual a cidade estava edificada, a fim de o precipitarem dali abaixo. Mas, passando pelo meio deles, Jesus seguiu o seu caminho." (Lucas 4, 16-30).

Não sei o que mais impressiona neste relato: Se é ver Jesus a identificar-se inequivocamente com um tipo de missão como esta tão marcadamente política e tão fecundamente revolucionária, que já vinha do profeta Isaías (vejam como, mais tarde, as Igrejas cristãs só descansaram quando finalmente conseguiram trair esta missão de Jesus, ao ponto de fazerem dele o fundador duma nova religião); ou, se é ver Jesus a ser de imediato violentamente contestado e pouco depois agressivamente atacado pelos seus concidadãos homens que frequentavam regularmente a sinagoga, os quais, ali mesmo, já pretendiam tirar-lhe a vida; ou, se é registar a espantosa revelação feita por Jesus de um Deus exclusivamente boa notícia para todos os seres humanos sem excepção, por isso, totalmente distinto daqueloutro Deus má notícia que as religiões todas e o próprio judaísmo, texto de Isaías incluído, sempre disseram que Ele é para nós, suas filhos, seus filhos. Aliás, esta revelação revelou-se tanto mais chocante para os conterrâneos de Jesus, presentes na sinagoga, quanto ele, para poder fazer esta revelação de um Deus assim exclusivamente boa notícia para os seres humanos, teve que omitir a alusão à "vingança do nosso Deus" que constava do texto de Isaías que lhe havia sido dado ler.

Para mim, os três aspectos são igualmente impressionantes. Mas o que mais alegria me causa é saber que, a partir daqui, também a minha missão presbiteral Evangelizar os pobres tem que ter a audácia de testemunhar, a tempo e fora de tempo, pela palavra e pela prática de vida, que Deus é sempre e só boa notícia para todos os seres humanos, inclusive, para aqueles que, em todas as culturas, se assemelham aos que, na cultura do país de Jesus, eram então olhados e tratados como pecadores públicos, entre os quais figuravam em primeiro lugar os pobres e os doentes incuráveis, epilépticos, leprosos, ou pessoas com notória deficiência. Os quais, por via disso, eram então considerados dignos de todo o desprezo, não só por parte de Deus, mas também por parte dos seus fiéis mais rigoristas. Mas, a esta luz - e este é o reverso da medalha desta missão Evangelizar os pobres - depressa me dei conta que, infelizmente, a Igreja e a generalidade dos padres/presbíteros que a integram e visibilizam junto do povo, mais não têm feito que contradizer esta boa notícia que Jesus incluiu na sua missão teológico-política e que a sua Igreja terá sempre que fazer sua, em cada tempo e lugar, se lhe quiser ser fiel.

Na verdade, dizer Igrejas, dizer padres, sempre foi, ao longo dos séculos, dizer terror, catequeses terroristas, pregações cheias de ameaças de inferno, de castigos, de desgraças, de referências a um Deus que, ainda hoje, é o pior dos pesadelos no consciente e no inconsciente de muita gente. Podemos até dizer que a maior parte dos livros que se escreveram, ao longo dos séculos, bem como a maior parte das obras de arte que se produziram durante o mesmo período são pura mentira. A mensagem que veiculam é pura mentira. Por isso, são obras que podiam e deviam ser destruídas sem deixar pena. Podem ser obras de arte, segundo os críticos da dita. Mas se veiculam uma mensagem acerca de Deus que é pura mentira, como se pode dizer que são obras de arte? Muitas dessas obras retratam e pintam infernos como criação de Deus, cujo fogo nunca mais se apaga e é alimentado por multidões e multidões de corpos humanos castigados sem dó nem piedade, devido aos seus pecados (para se cair neste mar de tormentos eternos, bastava que alguém viesse a morrer sem se confessar, depois de ter faltado à missa ao domingo, por exemplo, ou que morresse sem baptismo!). E se não são pinturas ou esculturas, ou catedrais, são pautas de música, feitas de sons por onde perpassam todos os horrores de um Deus sádico que se sente glorificado com criaturas infelizes, sofridas, possessas de medos, impossibilitadas de saúde e de paz. Um Deus tão cruel, que até exigiu o sacrifício cruento do seu próprio filho, para, finalmente, nos poder perdoar. E, ainda assim, apenas no caso de nos arrependermos com propósito firme de emenda!

Pois bem, ao tomar consciência deste hediondo desvio da missão Evangelizar os pobres, por parte da Igreja e de muito do seu clero, ou me conformava com ele e fazia de conta, ou o enfrentava com simplicidade e audácia, armado exclusivamente da palavra com Espírito. Evidentemente, foi pela segunda parte da alternativa que me decidi. Não deixei nem deixarei a Igreja, mas também não me cansarei de apontar os seus históricos desvios à missão Evangelizar os pobres que lhe compete, enquanto durar a História, assim como não me cansarei de, dentro dela, nas margens aonde vivo, anunciar o Evangelho, a tempo e fora de tempo, na esperança que, ao menos alguns dos meus irmãos e das minhas irmãs venham a ter a sua estrada de Damasco, caiam do cavalo da arrogância farisaica em que foram levados a instalar-se como outrora Saulo de Tarso (cf. Actos 9), e, finalmente, sejam reencontrados por Jesus, o Senhor.

Depois de todos estes anos que já levo de vida presbiteral, sei de ciência certa que Evangelizar os pobres é missão historicamente difícil, porque vai colidir com inúmeros interesses instalados, inclusive em nome de Deus. A Jesus de Nazaré custou a própria vida. Trata-se de testemunhar com audácia, como Jesus testemunhou até ao fim, que Deus não é o criador do inferno eterno para seres humanos, como mentirosamente as religiões e as Igrejas nos têm ensinado, pelo contrário, Deus é o destruidor de todos os infernos, de todos os holocaustos, de todos os goulags, de todos os Guantánamo, que nós, seres humanos, possamos alguma vez criar para outros seres humanos. Evangelizar os pobres é testemunhar/anunciar a Boa Notícia que da parte de Deus só vem libertação e salvação, paz e vida em abundância para todos os seres humanos sem excepção. É testemunhar/anunciar que Deus continua aí politicamente activo no mundo e na História, determinado a levar a Criação ao seu termo. E, por isso, o que mais espera de nós, suas filhas, seus filhos adultos, é que nos atrevamos a ser mulheres e homens e povos ao seu jeito, alegremente empenhados com Ele na edificação de um mundo sem infernos, sem horrores, sem tortura, sem doenças incuráveis, sem guerras, sem sistemas económicos sacrificialistas, sem vítimas humanas, sem crucificados; ou, dito pela positiva, um mundo-casa-comum-de-toda-a-humanidade, onde cada pessoa, cada povo tenha lugar à mesa, na qual venham a ser servidos/partilhados  - nunca deveriam ser vendidos -  todos os bens produzidos, tanto os materiais, como os culturais e os espirituais, e sempre segundo as necessidades de cada qual.

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