A propósito da escritura do campo oferecido pela Maria Laura e seus filhos
É viúva e com três filhos, mas deu
um CAMPO para um
Barracão de CULTURA
E se o Jornal Fraternizar lhes
disser que uma mulher viúva de Macieira da Lixa, mãe de três filhos, todos de
maioridade, acaba de doar, em escritura lavrada no Cartório Notarial da Comarca
de Felgueiras, à Associação local "As Formigas de Macieira", um campo, o melhor
que ela possui, para que nele venha a ser erguido um Barracão de Cultura, ao
serviço da população da freguesia e do concelho – qual será a reacção de vocês?
Será uma reacção de alegria e de acção de graças? Ou de espanto e de escândalo?
Ou, pior ainda, será uma reacção de crítica insultuosa, estilo "Essa mulher só
pode estar louca varrida", à mistura com um total repúdio pelo seu inesperado
gesto? Mas o caso é real. A escritura foi efectivamente lavrada na tarde do dia
29 de Janeiro de 2003. A mulher viúva que fez a doação é Maria Laura, a mesma
que há já vários anos preside como presbítera não-ordenada à Comunidade Cristã
de base de Macieira da Lixa. Os filhos são Alberto, casado com Andreia e ambos
pai e mãe de dois filhos, um adolescente e uma menina que ainda não consegue
pronunciar as palavras inteiras, mais o Rodrigo Filipe e Andreia Cristina, ambos
ainda solteiros e estudantes.
A iniciativa da doação partiu exclusivamente da própria Maria Laura, mas contou
com o rasgado acordo dos seus três filhos e nora que, nessa mesma tarde,
deixaram tudo para irem assinar com ela a escritura. Por parte da Associação "As
Formigas de Macieira" e em seu nome, Quina e Miné, respectivamente, a presidente
da direcção e o tesoureiro, assinaram a escritura e receberam a doação.
No final, ao sair do Cartório Notarial, o pe. Mário, que acompanhou todo o acto
solene, sacou do pão/regueifa que havia previamente adquirido a caminho de
Felgueiras, partiu-o mesmo ali, na rua, e todas e todos pudemos comer daquele
Pão-Corpo-de-Cristo, como quem de repente anuncia/revela ao mundo que a salvação
da Humanidade está no Partir/Partilhar os bens ao serviço do Ser e do Viver de
todas as pessoas e de todos os povos, e não no Reter/Acumular os bens ao serviço
dos privilégios de alguns poucos, sem que, entretanto, estes poucos alguma vez
se cheguem a importar com a morte lenta das pessoas e dos povos, em consequência
da falta do Ter para poderem Ser.
O acto da doação do campo, pequenino em si, mas invulgar em sacramento, ficará a
fazer história naquela freguesia e naquele concelho. Também no nosso país e no
nosso mundo. Prova disso é que até a própria Notária, que a tudo presidiu, não
conseguiu esconder todo o seu assombro e todo o seu entusiasmo. E deixou claro
que nunca antes, em todos os anos que já leva de serviço no Cartório, viveu um
momento tão extraordinário como este.
Se você que nos está a ler é do número daquelas e daqueles que se alegram e
ficam em Eucaristia, ao saberem desta Boa Notícia ou Evangelho, então cante e
dance este gesto. E prepare-se para alegremente se juntar à Associação "As
Formigas de Macieira", a fim de a ajudar a erguer o Barracão de Cultura, quanto
mais depressa melhor.
O Jornal Fraternizar, porém, não pode deixar de sublinhar que este invulgar
gesto de Maria Laura e dos seus três filhos não é um gesto totalmente inédito.
Insere-se na linha daqueloutro gesto que o segundo volume do Evangelho de Lucas,
mais conhecido entre nós por Livro dos Actos dos Apóstolos, conta, no final do
capítulo 4. Vejam só o que diz o texto:
"A multidão dos que haviam abraçado a fé tinha um só coração e uma só alma.
Ninguém chamava seu ao que lhe pertencia, mas entre eles tudo era comum. Com
grande dinamismo, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus,
e uma grande graça operava em todos eles. Entre eles não havia ninguém
necessitado, pois todos os que possuíam terras ou casas vendiam-nas, traziam o
produto da venda e depositavam-no aos pés dos apóstolos. Distribuía-se então a
cada um conforme a necessidade que tivesse. Assim, um levita cipriota, de nome
José, a quem os apóstolos chamaram Barnabé, isto é, "filho da consolação",
possuía uma terra; vendeu-a e trouxe a importância que depositou aos pés dos
apóstolos."
Trata-se, pois, de um gesto-sinal ou sacramento que fica a apontar às pessoas e
aos povos a via libertadora e salvadora, paradigmaticamente protagonizada por
Jesus de Nazaré, o Cristo, e que não é outra senão a via da Graça, do Dom, da
Partilha, da Entrega das nossas coisas e de nós, numa palavra, a via da
Eucaristia, por isso, totalmente nos antípodas da via do Mercado Total, segundo
o qual só vale o que for mercadoria em bom estado e só tem direito a ser e a
viver quem tiver poder de compra e de venda.
Trata-se então de um gesto com força e dimensão fundante/fundador duma real
alternativa à estúpida via do Ter acumulado e concentrado, hoje tão em voga, e
que não aproveita a ninguém, nem sequer a quem se tem por seu directo
beneficiário.
Na sua simplicidade e no seu silêncio, este gesto é porventura o maior grito que
fica a dizer ao mundo que, se ele quiser ser um mundo em estado de salvação, tem
que mudar radicalmente de rumo, antes de mais, ao nível da economia: tem que
passar da actual economia do Ter acumulado e concentrado nas mãos de alguns
privilegiados, para a economia do Ter Partilhado e Repartido por todas as
pessoas e por todos os povos, de modo que todas elas e todos eles sejam pessoas
e povos em plenitude.
Não se pense, então, que o gesto de Maria Laura e dos seus três filhos, bem como
o gesto de José/Barnabé, no princípio do Cristianismo, são gestos ditados pela
simples Natureza, o mesmo é dizer, são gestos fáceis de realizar e de
compreender. Não são. Há, é verdade, quem protagonize aí hoje gestos parecidos
com estes de José/Barnabé e de Maria Laura, mas para satisfazer a sua vaidade e,
ainda por cima, poder passar por boa pessoa aos olhos dos seus concidadãos e
concidadãs.
Não é manifestamente o caso nem de José/Barnabé, no princípio do Cristianismo,
nem de Maria Laura e dos seus três filhos, hoje, neste início do Terceiro
Milénio. E por isso dizemos que estes não são gestos simplesmente naturais. Só
podem ser gestos soprados, fecundados e gerados pela força do Espírito Santo,
esse mesmo que se apoderou de Jesus de Nazaré, quando ele saía das águas do
Jordão, logo após ter sido baptizado por João e fez dele um Homem-para-os-demais,
ou – dito em linguagem evangélica – conduziu-o para o deserto, isto é, colocou-o
a viver no meio da sociedade do seu tempo, não mais segundo os estúpidos
critérios do Ter acumulado e concentrado que toda a gente já então tinha e ainda
hoje naturalmente tem como bons, mas segundo os fecundos critérios do Ter
Partilhado e Repartido, a começar pela sua própria vida e pelas suas invulgares
capacidades pessoais, e que ele foi capaz de colocar, como ninguém antes dele
nem depois dele, ininterruptamente ao serviço da
consciencialização/libertação/reabilitação/promoção/salvação/humanização de
todas as pessoas e de todos os povos, sem excepção.
Do gesto de José/Barnabé, regista o 2.º volume do Evangelho de Lucas que ele
vendeu o campo e foi colocar o produto da venda aos pés dos apóstolos. Para que
eles, por sua vez, utilizassem esse produto em prol do ser/viver dos membros da
comunidade cristã de Jerusalém.
Vai ainda mais longe em radicalidade e em sacramento o gesto de Maria Laura e
dos seus três filhos. Ela não vendeu o campo. Deu-o. E deu-o não apenas aos
companheiros e às companheiras da Comunidade cristã de base, para proveito
exclusivo deles e delas, mas a uma Associação de cidadãs e de cidadãos. Em
concreto, deu-o à Associação "As Formigas de Macieira", com o objectivo expresso
de que nele venha a ser erguido um Barracão de cultura, ao serviço do ser/viver
libertador de toda a população, tanto da freguesia de Macieira da Lixa, como das
freguesias em redor, independentemente, de serem cristãs ou agnósticas ou mesmo
ateias.
A novidade e a radicalidade deste gesto são tão grandes, que a própria
Comunidade Cristã de Base ficou como que petrificada, quando ouviu da boca da
própria Maria Laura a sua inabalável determinação de dar o campo para um
Barracão de cultura em prol do seu povo. Nem a esfuziante alegria com que ela
comunicou às companheiras e aos companheiros a decisão que havia tomado, no mais
íntimo da sua consciência e em comunhão com o Espírito Santo, atenuou o impacto
da notícia.
Não faltaram vozes, na altura, a tentar demovê-la de tal "loucura". Que ela se
lembrasse da sua condição de mulher viúva e das dificuldades financeiras que
essa condição lhe acarreta. Que ela se lembrasse dos seus três filhos e do
futuro deles. Que ela se lembrasse que aquele campo era o melhor situado, para
que qualquer dos três filhos nele pudesse vir a construir um dia a sua própria
casa. Que ela se lembrasse que, como boa mãe que procura ser, deveria deixar
esse campo aos filhos como herança. E tantas outras coisas que lhe disseram
nesse dia e nos dias/meses/anos que depois se lhe seguiram até ao dia da
escritura, e muitos foram, dado que a prévia legalização do terreno acabou por
se arrastar ao longo de muito tempo, tantas foram as burocracias a ter de
superar e de vencer!...
A tudo, porém, Maria Laura resistiu, como quem vê o Invisível. E mesmo agora que
a escritura foi finalmente assinada e o campo já é propriedade da Associação "As
Formigas de Macieira", as vozes dissonantes ainda se não calaram de todo, à
mistura com soezes insinuações e estúpidos ataques que põem a nu o tipo de mente
e de coração de quem profere umas e outros. Mas a tudo ela continua a resistir,
e com uma surpreendente e constante alegria que só pode ser fruto do Espírito
Santo que a habita.
Jornal Fraternizar tem acompanhado todos estes passos dela e da Comunidade. E só
pode associar-se à alegria de Maria Laura e dos seus três filhos. Ao mesmo tempo
que não pode deixar de reconhecer o "dedo" de Deus em tudo isto.
Infelizmente, até muitas das mulheres e muitos dos homens que tradicionalmente
se dizem cristãs e cristãos não chegam a entender gestos desta envergadura.
Porque são cristãs e cristãos por tradição, mais do que por obra e graça do
Espírito Santo. São cristãs e cristãos, apenas por terem nascido de mães e de
pais que também o eram, mais do que por terem nascido do Alto, do Espírito
Santo. São cristãs e cristãos, mas como podiam ser pagãs e pagãos, já que nunca
passaram por uma real conversão ao Evangelho de Deus que é Jesus de Nazaré, o
Cristo, muito menos deram a sua entusiástica adesão às Causas e ao Projecto de
vida que foram a sua razão de ser e de viver, ao ponto de o Evangelho de Mateus
dizer que ele nem sequer tinha onde reclinar a cabeça e, quando o mataram, ele
não teve outra herança para deixar que não fosse o exemplo da sua vida
totalmente entregue/doada aos demais. E a verdade é que, na véspera da sua
morte, e na ceia derradeira que fez com as suas discípulas e os seus discípulos,
ele atingiu o extremo do amor, e fez-se Pão/Corpo que se dá a comer e
Vinho/Sangue que se derrama/entrega e se dá a beber pela vida do mundo. E mandou
que, se, através dos tempos e lugares, quisermos ser reconhecidos como seus
discípulos e suas discípulas, havemos de viver/fazer o mesmo que ele viveu/fez,
em memória dele!
Resta, agora, esperar que todo o vendaval que este gesto de Maria Laura e dos
seus três filhos provocou, também no interior da Comunidade Cristã de Base de
Macieira da Lixa e da Associação "As Formigas de Macieira", passe quanto antes.
E que, finalmente, a doação do campo seja reconhecida e acolhida com alegria por
todas e todos. De modo que o Barracão de cultura possa começar a ser projectado
e construído, quanto antes, também como obra de todas e de todos.
É claro que estamos perante um gesto com muito de violento e de provocador. Mas
só daquela violência e daquela provocação próprias do Espírito Santo, que nos
desinstalam, nos soltam, nos empurram como o vento forte, e nos impelem a sermos
mulheres e homens de outra estirpe, de outro ser, de outra qualidade,
radicalmente libertos e fraternais/sororais, interiormente disponíveis para
colocarmos os nossos bens – casa, campos, tempo, dinheiro – e a nossa própria
vida ao serviço do ser/viver dos demais, a começar pelos que mais carenciados de
ser/viver hoje aí estão.
Aceitemos, pois, nascer do Alto, do Espírito Santo. Em lugar de lhe resistirmos,
aceitemos nascer por obra e graça do Espírito Santo. Como sucedeu com Jesus de
Nazaré, a quem por isso muito justamente chamamos o Cristo, isto é, o
Libertador, o Filho de Deus, o Filho do homem, o Homem por antonomásia, com quem
todas e todos havemos de nos parecer.
Se assim acontecer, o Barracão de cultura de Macieira da Lixa será realidade
muito em breve. Porque todas e todos nós, mesmo de outras terras, ao sabermos
desta iniciativa, havemos de correr a dar-lhe todo o nosso apoio, com
pequenos/grandes gestos idênticos aos de Maria Laura e dos seus três filhos