2009 AGOSTO 18
Enquanto estive de férias
(cheguei ontem de manhã, mas, uns dias
antes, já havia passado uma semana aqui em
casa, ocasião que aproveitei para gravar
novos vídeos e colocá-los à disposição no
youtube, ao todo, três novos Cantos e 13
outros vídeos com uma extensa comunicação
teológica, a que dou o título "Deus não
faz milagres"), o país e a Europa
prosseguiram nas suas rotinas e nas suas
mediocridades habituais de verão, onde não
faltam acidentes graves e mortais nas
estradas e incêndios nas florestas,
juntamente com os chorudos negócios
resultantes do combate aos ditos, muitos
deles, desses acidentes e incêndios,
assessorados por jornalistas estagiários, de
repente, transformados em humanos pés-de-microfone,
quer junto de comandantes das Brigadas de
Trânsito, quer junto de comandantes dos
bombeiros. Como diz o Sábio, nada de novo
debaixo do sol. O Poder Político, por sua
vez, prosseguiu em lume brando, o mesmo é
dizer, sem grandes férias, porque vêm aí
dois novos actos eleitorais,
respectivamente, para as legislativas e para
as autárquicas, e todos os inúmeros
interessados em lugares e em "tachos" não se
podem descuidar, sob pena de deitarem tudo a
perder, à vista da praia, ou, dito sem
metáforas, à vista do cobiçado lugar. Onde
não houve férias, muito pelo contrário, foi
na nossa Igreja católica romana, dioceses e
paróquias (o papa, esse, sim, foi, como de costume, para Castel
Gandolfo, a residência de verão dos papas!),
nomeadamente, nas Missas de domingo e nas
inúmeras festas religiosas. Um ou outro
pároco pode ir de férias, ao longo
do ano, mas nunca nesta altura do verão,
quando os emigrantes andam por aí de festa
em festa, todas elas infelizmente sem festa,
aquela que nos faz crescer em sabedoria e em
graça, em consciência crítica e em comunhão, e,
por isso, nos deixa
ainda mais mulheres /homens-para-os-demais.
É que os santuários, os das nossas senhoras todas,
e outros, rendem muitos milhares, muitos milhões de
euros, pelo menos, os mais famosos, como o
de Fátima e o de S. Bento da Porta Aberta,
na arquidiocese de Braga. E o clero,
inclusive o alto clero, não perde pitada e
lá está presente, a presidir ao negócio,
como a confirmar, com esta sua prática
enviesada, que são covis de ladrões os
santuários onde eles pontificam e casas de
Mentira, de Terror e de
Opressão. Os casamentos "pela Igreja" e as chamadas Missas de domingo
também não pararam, se bem que com muito
menos dos habituais fregueses. E é sobretudo
ao caso das Missas de domingo que quero aqui
dedicar especial atenção. Pela minha
parte, devo declarar, logo de entrada, que ninguém me viu em
nenhuma delas. Não fui a nenhuma, nem sequer por
curiosidade. A rotina eclesiástica é tal,
que já não vale a pena ir a nenhuma, para
saber como todas elas são. Numa ou outra
vez, ainda calhou de eu ver, da rua por onde
fazia a minha caminhada matinal pela saúde,
pessoas a assistir à missa, ao fundo do templo. E
uma outra vez, deu para ver as pessoas a
sair da Missa. Quer a primeira visão, quer a
segunda foram ambas suficientemente
expressivas e conclusivas. Aquilo não é
prática que se recomende a ninguém com um
mínimo de dignidade e de bom senso. O rito
tem tudo de obrigação semanal. Ninguém vai
lá para partilhar a sua semana, a sua vida,
as suas aspirações, os seus problemas, as
suas expectativas, os seus sonhos. As
pessoas vão lá tocadas pelo Medo. Reduzem a
Missa a um rito mágico, triste, deprimente,
rotineiro. Nem é preciso passar da porta do
fundo. Basta estar ali, do princípio ao fim,
do lado de fora, sem ver nem ser visto, e
ouvir vagamente o que é dito lá dentro pelo
clérigo presidente, coisa mais sem sentido,
mas a que tu não podes deixar de ir
assistir, a exemplo do que, antes de ti, já
fizeram os teus pais, os teus avós, os teus
visavós, os teus tetra-avós. Até os cantos
litúrgicos soam a coisa fúnebre, cheiram a
mofo, sabem a doentio. Como se a Missa fosse
manjar de milhafres e de outras aves de
rapina, coisa de condenados. Disse bem:
condenados. São assim os rostos das pessoas,
ao saírem da Missa. Pude vê-lo num destes
domingos, nomeadamente, em Vila de Praia de
Âncora, em cujo largo me encontrava a ler
/responder ao correio electrónico, no meu
portátil de serviço. De repente, vi as
pessoas a sair da Missa, plantada ali ao
lado do Café Central que tem internet
disponível e gratuita para quem quiser. E eu
quis, nestes últimos dias que por lá passei.
Todas as pessoas que saíam da missa traziam
cara de condenadas. Rosto pesado. Olhar
abstracto. Cada qual, fechada sobre si própria. Sem um pingo de
alegria. Sem um pingo de relação com as
demais. Aquilo, lá dentro, não as aproximou.
Não as uniu. Não as humanizou. Muito menos,
as sororizou /fraternizou. Foi condenação.
Não foi festa, salvação. Foi desastre. Por
mim, como já disse, não fui a nenhuma Missa, nem
sequer por curiosidade. Mas não pensem que
vivi totalmente alheio ao Evangelho que lá é
rotineiramente proclamado. Não vivi. O
Evangelho, sim, interessa-me,
independentemente, do rito e do Missal
Romano, obrigatório naqueles sítios nada
recomendáveis. E sabem uma coisa? Pela
primeira vez, na minha vida de presbítero da
Igreja do Porto, tomei consciência de que,
em todos estes domingos em que eu estive de
férias, e ainda no próximo domingo, em que
já não estou de férias, mas a trabalhar,
concretamente, no "Movimento d'Artes", a
realizar na Casa da Vinha, em Recarei,
Paredes (o evento cultural vai da tarde de
sexta-feira 21, a domingo 23, ao final da
tarde e é aberto a quem queira participar), o Evangelho que foi lido nas Missas
foi sempre o de João e sempre o mesmo
capítulo 6, que é enorme, exactamente, 71
versículos. Começou a ser lido no último
domingo de Julho, 26, e concluirá no próximo
domingo, que é o penúltimo de Agosto. Ao todo,
cinco domingos seguidos. Deste modo, ninguém
pode acusar a hierarquia da Igreja,
nomeadamente, a Cúria Romana, de ignorar o
Evangelho de João, embora este Evangelho
seja o único dos quatro Evangelhos
canónicos que, nem mesmo depois do Concílio
Vaticano II, viu ser-lhe atribuído um ano
litúrgico, como acontece aos outros três,
chamados Sinópticos. O Missal Romano, já
reformulado depois do Concílio Vaticano II,
decorre num ciclo de apenas três anos, não de
quatro anos. Ao final de cada ciclo de três
anos - A, B, C - volta-se ao princípio, uma
geração após outra! Ora, para
cada um destes três anos, há um Evangelho em
destaque. Em lugar de três anos, o ciclo
litúrgico poderia ser de quatro anos e, assim,
também o Evangelho de João teria um ano
destacado para ele. Mas não. Ficou excluído.
Porque é demasiado incómodo. Teologicamente,
incómodo. O mais incómodo dos quatro. E, para
não ser de todo ignorado, entra aqui e ali,
ao longo do ciclo dos três anos. Nunca eu me
havia dado conta, nem sequer nos anos em que
fui pároco, de que o capítulo 6 do Evangelho
de João entra no ano B, que é o ano em que
presentemente estamos, durante cinco
domingos seguidos. Os do verão, pelo menos,
aqui no Ocidente católico romano. A opção não será de todo
inocente. O capítulo é tão teologicamente
escandaloso, subversivo, revolucionário,
demolidor do Poder Religioso-Eclesiástico, o
de então, como o de hoje, mais ainda o de
hoje, que, como se sabe, tem tudo do Poder imperial
romano e do Poder monárquico absoluto, que a Cúria Romana
colocou-o nos domingos em que a Cristandade
Ocidental anda ainda mais distraída, mais
dissipada, mais mediocrizada. Mas a Cúria
Romana não se ficou por aqui. Não se limita a
dar a ler o capítulo 6 do Evangelho de João
em cinco domingos, e domingos de verão,
do Ano B, quando todo o capítulo 6 constitui uma unidade
que só se entende bem, se for escutado com
tempo e de uma vez só, sem quaisquer
soluções de continuidade. Ela comete uma
outra barbaridade ainda maior. No último desses
cinco domingos seguidos, o extracto que dá a ler aos que
ainda não dispensam o rito da Missa de
domingo, é por ela barbaramente censurado. Os dois
últimos versículos do capítulo não entram no
Missal Romano. Fica, assim, a impressão, em quem
ouve na Missa, que o capítulo acaba no versículo 69.
Mas não é verdade. O capítulo 6 do Evangelho de João tem
71 versículos. E o que dizem, de tão
teologicamente escandaloso, estes dois
versículos censurados pelo Missal Romano,
aprovado pela Cúria Romana?
Eis, na tradução da Bíblia dos Capuchinhos:
"Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi eu a
vós, os Doze? Contudo, um de vós é um
diabo.» Referia-se a Judas, filho de Simão
Iscariotes, pois esse é que viria a
entregá-lo, sendo embora um dos Doze.". Aí
está. É claro que, para entendermos bem este
final, temos de ter presente todo o capítulo
6, versículos 1-71. Nele, João apresenta-nos
Jesus e o seu Projecto Económico-Político
para a Humanidade. para todos os Povos do
Mundo.
Trata-se, segundo este capítulo, de uma maneira tão original de
sermos Seres-Humanos e de organizarmos a
Sociedade Mundial e Local, segundo o coração de Deus, nosso
Abbá universal, que, pelos vistos, nem a
esmagadora maioria dos discípulos dele,
grupo dos
Doze incluído, se revê, nem em Jesus, nem
nesse seu Projecto Económico-Político de
Sociedade. A esmagadora maioria dos
discípulos, grupo dos Doze incluído, tem outra concepção de ser-humano
e outra concepção Económico-Política da Sociedade. Recusam
Jesus, como o modelo, o paradigma de
ser-humano. E recusam o seu Projecto Económico-Político de Sociedade. Numa
palavra, recusam DeusCriador de filhas,
filhos em radical igualdade, o Abbá de
Jesus e nosso. Vão por outro Deus, o do Templo,
o da Lei de Moisés, o dos Antepassados, o
dos Sacerdotes, que mais não é que o Deus-Ídolo criado por nós à medida dos
nossos desejos e das nossas ambições e
também das nossas mediocridades. Não é,
pois, de
estranhar que, meses depois de tudo isto ter
acontecido, Jesus já esteja na condição de preso
político, em Jerusalém, seja
sumariamente julgado pelo pleno dos
Tribunais do país, e condenado no Tribunal
de Pilatos, o do Império Romano. Tão pouco é
de estranhar que os chefes dos
sacerdotes e todos os outros dos
privilégios, chamados por Pilatos a ter de escolher
entre Jesus, Pão-Partido e Vinho-Derramado
pela vida do Mundo, e Barrabás, assassino e ladrão,
escolham, em uníssono, Barrabás, em lugar de
Jesus. Também não é de estranhar que,
depois, de Jesus ter sido executado na Cruz
do Império e atirado à vala comum, como o
maldito dos
malditos, todos os dos privilégios nunca mais tenham querido saber
dele para nada. Até hoje. Vejam que até a
própria Cúria Romana, responsável em última
instância, pelo Missal Romano, houve por bem
dar por concluído o capítulo 6 do Evangelho
de João com a patética afirmação de Simão
Pedro, à inevitável pergunta de Jesus,
quando viu que "muitos dos seus discípulos
voltaram para trás e já não andavam com
ele": «Também vós vos quereis ir embora?». E
o que diz essa patética resposta de Simão
Pedro a esta angustiada pergunta de Jesus? Exactamente isto: "A quem iremos nós,
Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por
isso nós cremos e sabemos que tu és o Santo
de Deus". É aqui, com esta proclamação
de Simão Pedro, em nome do grupo dos Doze, que termina o capítulo 6 de
João, na versão do Missal Romano. E porquê?
Porque tanto a Cúria Romana, como toda a
Hierarquia eclesiástica, Poder Sagrado, ainda
hoje, pensam, apesar de já estarmos no século XXI,
que são "os sucessores dos Apóstolos" ou
do grupo dos
"Doze". O papa de Roma, chefe da Cúria
Romana, escolhido por um reduzidíssimo
número de cardeais, nenhum bispo-não cardeal, nenhum presbítero, nenhum homem-baptizado, nenhuma mulher-baptizada,
vai ainda mais longe e pensa, até, que é o "sucessor de Pedro", deste
que aqui é apresentado a dar esta patética
resposta à angustiada pergunta de Jesus. Pensam todos
eles - o papa de
Roma, os cardeais da Cúria Romana e os
bispos residenciais - que são "os sucessores
dos Doze ou dos Apóstolos". Não são
coisíssima nenhuma, pela simples razão de
que a Igreja, a de Jesus, não é uma
monarquia. Como tal, não tem sucessores. Tem
apenas chamados pelo Espírito, o mesmo de
Jesus. Tem tudo de Comunhão sororal
/fraterna e de radical igualdade. Lá, onde houver Poder, para
cúmulo, Poder Sagrado, simplesmente, não há Jesus, nem o
seu Espírito! Como tal, também já não há Igreja. Só
há o Eclesiástico, o Sistema Eclesiástico! Mas
então - perguntar-me-eis, espantadas,
espantados - está tudo errado na Igreja? E
eu respondo: Está! De modo que o
pior que, hoje, podemos fazer é continuarmos a
enterrar a cabeça na areia, para não vermos
o Monstro em que, com o passar dos séculos,
nos tornamos como Igreja católica romana.
Uma das formas mais sibilinas de enterrarmos a cabeça na areia
é esta cirúrgica censura que o Missal Romano
faz ao final do capítulo 6 do Evangelho de
João. Com ela, a Cúria Romana tenta
esconder o escândalo, aos olhos dos seus
próprios membros e de todos os outros
hierarcas. Na verdade, sem esse final
censurado, as pessoas todas, incluídas as
pessoas que integram a chamada Hierarquia,
são ingenuamente levadas a pensar que Simão
Pedro deu a resposta por que Jesus
ansiosamente esperava.
Puro engano. Simão Pedro deu a resposta mais desastrada.
Por isso é que eu qualifiquei essa sua resposta
de patética. Porque o é. Vejamos. Simão Pedro é o
primeiro do grupo dos Doze que, neste
Evangelho de João, sempre que é referido, é-o
de forma abertamente negativa. E Judas é o último do
grupo dos Doze. Quer o Evangelho de João
dizer /revelar, com esta resposta de Simão
Pedro e com a nova pergunta de Jesus, mai-lo
comentário adiantado pelo próprio
evangelista, que Jesus está absolutamente
só, a partir daquele momento. Nem os do
grupo dos Doze, escolhidos um a um por ele, o entendem,
vão com ele e
por ele. Todos os Doze continuam possuídos
/possessos de outro
Projecto Económico-Político de Sociedade e
de outra concepção de Ser-Humano. Nenhum
deles se revê em Jesus, como o Ser-Humano
por antonomásia, nem tão pouco no seu Projecto Económico-Político de Sociedade. Continuam
todos na deles e, se se mantêm fisicamente com
Jesus, ainda é para ver se conseguem fazer-lhe a
cabeça, fazê-lo mudar de Projecto, deixar
de vez essa sua "mania" de querer ser Pão-Partido,
Vinho-Derramado, Corpo /Pão-que-se-dá-a-Comer,
Sangue /Vinho-que-se-dá-a-Beber pela vida do Mundo.
Para, em vez disso, passar a ser o chefe, o messias,
o Poder, ou, em palavras do próprio Simão
Pedro, em nome de todo o grupo dos Doze, "o Santo
de Deus", isto é, outro rei David /Salomão,
agora, ao jeito de César
Augusto de Roma, ou o Filho de Deus, de que fala o
Tentador, a Tentação, nos três Evangelhos
Sinópticos, logo no início da sua Missão de
Evangelizar os Pobres e os Povos. Tentador
/Tentação que, inevitavelmente, sempre
aflora no viver crescido de todo o homem /mulher
que vem a este mundo! Quantas, quantos de
nós lhe
resistimos? Será que se contam pelos dedos
das duas mãos,
as, os que lhe resistimos? Este nosso tempo
sócio-político aí está
a gritar aos quatro ventos que são poucos,
muito poucos, as, os que lhe resistimos. Por
isso, Jesus e a sua mesma Fé são hoje tão mal
recebidos, neste nosso século XXI,
inclusive, por parte das Igrejas que se
reclamam do nome de Cristo. Em seu lugar,
proliferam todos os tipos de crenças, de
religiões, de
mentiras religiosas, juntamente com o Ateísmo
e o Agnosticismo generalizados, umas e
outros como braços do Senhor Deus-Dinheiro:
as religiões /crenças, como o seu braço direito (Poder Religioso-Eclesiástico),
o Ateísmo e o Agnosticismo, como o seu
braço esquerdo (Poder Político). Já a Política
Praticada, visceralmente maiêutica, que Jesus
é, assim como aquelas, aqueles poucos que comungam da sua
mesma Fé, ficam literalmente sozinhos, na
estrebaria, porque nunca h(aver)á lugar para eles nas
hospedarias do politicamente correcto e do
religiosamente / eclesiasticamente correcto. Não pensemos,
então, que Jesus se
agradou da resposta de Simão Pedro. Isso
dizem as catequeses eclesiásticas, feitas de
mentira, justificadoras dos privilégios de
que usufruem as respectivas hierarquias. Não
se agradou. Pelo contrário, ficou ainda mais
triste, numa tristeza de morte, porque
absolutamente sozinho! E só por isso
é que comentou, em reacção: "Não vos escolhi eu a
vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo"
[= Inimigo, Antípoda de mim!]. E, para que
não restassem nunca dúvidas de que é assim que
Jesus vê as coisas, o próprio autor do
Evangelho acrescenta, em jeito de comentário
explicativo: "Referia-se a Judas, filho de
Simão [cá está, de novo, o nome Simão, como
a sugerir que Judas é filho /discípulo de
Simão Pedro, o chefe do grupo opositor a
Jesus], pois esse é que viria a
entregá-lo, sendo embora um dos Doze" [de
novo, a referência aos Doze, duas vezes, em
apenas dois versículos!]. Jesus fica de alma
pesada /destroçada. Sabe que, a partir
daquele instante, nem com os Doze pode
contar. Apenas com algumas mulheres e uns
quantos homens de origem etnicamente
duvidosa, filhos de imigrantes helenistas, radicados na
Galileia, todos olhados de soslaio pelos
Judeus de puro sangue, os Judeus do Povo de
Deus, do Deus de Abraão, de Isaac e de
Jacob, de Moisés e do Templo, onde, de
resto, todos eles se metem, logo após a
morte Crucificada de Jesus. Não Judeus do
sangue de Jesus, o carpinteiro, o
filho de Maria, oriundo de Nazaré, de onde,
ao que se dizia então, nunca
podia sair coisa boa. Muito menos Judeus do
Deus de Jesus, o Abbá universal (onde já se viu?
Um Deus Abbá universal? Onde já se viu todos
os Povos serem o Povo de Deus, em radical
igualdade entre si? Onde já se viu os seres
humanos sermos todos radicalmente iguais?
Onde já se viu uma Sociedade sem hierarquia,
sem poder sagrado, sem poder
político, sem poder religioso? Onde já se viu
uma sociedade sem minorias privilegiadas?
Onde já se viu uma sociedade sem Poder, sem
ricos e pobres, sem uma minoria rica, muito rica
e uma esmagadora maioria pobre, muito pobre?
Onde já se viu? Quem, no seu perfeito juízo,
quer e trabalha para ajudar maieuticamente a erguer uma sociedade
assim, constituída por seres-humanos assim?! Só mesmo
Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o louco, o herege, o possesso do
demónio, o blasfemo, o maldito dos malditos, cujo nome
nunca mais pode(rá) ser pronunciado, muito
menos, nas universidades, nas igrejas, nos
santuários, nas casas sumptuosas, nos ambientes
culturais elitistas, onde é de bom tom o
Ateísmo e o Agnosticismo, numa palavra, a
Idolatria do Deus-Dinheiro. Em seu
lugar, e, mesmo assim, reservado
exclusivamente aos espaços das
igrejas-sacristia, apenas o nome do mítico Cristo que o Império
Romano criou e colocou no lugar de Jesus e
bem crucificado na sua Cruz. Para
sempre. E não é que até a nossa Igreja
católica, na sua
Cúria Romana, é
sobretudo, ou exclusivamente, ao mítico Cristo do Império que
ela continua ainda hoje a seguir?
Obviamente, não vou pela Cúria Romana. Não posso ir. É por Jesus que vou,
que procuro ir. Nem
que, como ele, também acabe sozinho, sem
outras pessoas que comam do meu Pão e bebam do
meu Vinho, porque não estão de modo algum disponíveis para
serem Corpo /Pão-Partido-que-se-dá-a-Comer,
muito menos, Sangue /Vinho-Derramado-que-se-dá-a-beber
pela vida do Mundo. A única Via
Económico-Política que, se for percorrida
/praticada até ao fim, garantirá vida e vida
em abundância, para todos os Povos, para
todas as pessoas, seja qual for a cor da sua
pele, a sua etnia, a sua cultura, a sua
virtude, a sua saúde, a sua beleza, a sua
idade, a sua valia, a sua capacidade, o seu
chão de nascimento, o seu chão de trabalho,
o seu chão de dormida.
P. S.
1. Provavelmente,
não prosseguirei mais com este meu DIÁRIO
ABERTO. Os tempos que correm não vão nada
propícios a este tipo de escrita teológica.
São tempos de demasiada Demência-Demência
cada vez mais generalizada.
Ando, por isso, a pensar ensaiar outro
género teológico que diga melhor com estes
nossos desgraçados e desumanizados tempos.
Um género teológico a que poderemos chamar, em
linguagem bíblica, LIVRO DA SABEDORIA. Se
tal vier a acontecer, como espero, logo
saberão, nesta mesma página pessoal.
Entretanto, prosseguirei, nesta página
pessoal, com
o CORREIO ELECTRÓNICO NÃO-CONFIDENCIAL (e,
também, com o correio confidencial, só que
este já não tem lugar nesta página nem
noutra, é mesmo confidencial). Prosseguirei,
igualmente, com a gravação de novos vídeos para o youtube (para
ver /ouvir, escrever, depois de abrir o sítio, Padre Mário da Lixa
e clicar em Procurar). Estejam,
pois, atentas, atentos. E, se forem capazes,
atrevam-se a ser todos os dias mulheres e homens
integralmente de Jesus, outros Jesus; e, sobretudo,
atrevam-se a dar corpo no vosso viver de todos os dias ao seu
Projecto Económico-Político de Sociedade, que é o mesmo
de Deus nosso Abbá universal.
Amemo-nos, assim, todos os dias, numa comunhão sem
fim, numa sororidade /fraternidade alegre e
feliz. E saudável, liberta, não-moralista
/condenatória, como saudável é tudo o que
tem a marca de Jesus e do seu mesmo
Espírito.
2. Se tudo correr
conforme o previsto, aparecerá, por meados
do próximo Outubro 2009, um novo livro meu.
Costumo dizer, com humor, que este novo
livro, mais ainda do que os anteriores, será
um livro para adultos com reservas. Até pelo
elevado número de páginas com que ele se
tece. Levanto uma pontinha do véu. O livro
tem tudo de
livro póstumo, embora, ao que espero, seja
ainda eu, seu autor, a apresentá-lo,
provavelmente, aqui, no Barracão de Cultura,
das FORMIGAS DE MACIEIRA (DA LIXA), nessa
altura, ainda longe de estar concluído por
dentro, mas já minimamente em condições de
poder receber este evento. É óbvio que os meus
direitos de autor deste novo livro
reverterão, integralmente, como os dos
outros livros meus, a favor da
construção até final do Barracão de Cultura.
3. E já agora,
fiquem com a minha paz, esta paz que é
Espada, Espada que faz caminhos. De
Liberdade. De Autonomia. De pessoas-pessoas
Eu-Sou, como Jesus.
2009 JULHO 14
Em tempo de férias, como
são já estes dias de verão que estamos a
viver no nosso país e no resto da Europa,
poderá parecer, à primeira leitura -
sobretudo se for feita a correr e em chave
moralista burguesa, não com o coração, que é
a nossa mente sapiente e afectiva, e em
chave Política, sempre a partir das vítimas
da História, as multidões sem conta de
empobrecidos e de oprimidos de todo o Mundo
- que o extracto do Evangelho de Marcos (6,
30-34), imposto pelo Missal Romano para ser
lido nas missas do próximo domingo vem mesmo
a talhe de foice para este tempo de férias
de verão. Mas não é verdade. Muito menos,
vem a talhe de foice relativamente ao tipo
de férias que a generalidade das pessoas
sonha e planeia, um ano após outro. O
extracto do Evangelho em causa, embora fale
em "descanso" - "Vinde, retiremo-nos para um
lugar deserto e descansai um pouco", diz a
tradução da Difusora bíblica; ou, "Vinde só
vós à parte, a um lugar despovoado, e
descansai um pouco", diz a tradução mais
literal do texto original, em grego - não é
em férias que está a pensar. O "descanso" de
que fala é outro, muito outro e tem tudo a
ver com a mudança de projecto e de prática
que Jesus pretendia ajudar maieuticamente a
nascer, como fonte de água viva, no mais
íntimo dos seus discípulos, de modo que eles
se tornassem homens novos, homens outros,
iguais a ele. É mais do que plausível que os
párocos, nas suas impreparadas homilias,
levem para aí, para o descanso das férias, o
Evangelho que vão ler (também escutar?! Há
sobejas razões para admitir que eles, na sua
esmagadora maioria, apenas lêem, e lêem
muito mal, mas não escutam; outra, muito
outra, seria a sua forma de ser-viver, se
também escutassem, e escutassem com o
coração). Mas, se eles levarem para aí as
suas homilias, saibam todas, todos, desde
já, que estarão a trair por completo o
sentido do texto que tem de ser lido no seu
contexto, antes de mais, o contexto de todo
o capítulo 6 do Evangelho de Marcos,
juntamente com o contexto
sócio-histórico-político da Comunidade
jesuânica de Marcos, que escreve o Evangelho
com este nome. O extracto está em relação
com o que foi lido - escutado? - no passado
domingo. Lembram-se? Os Doze foram enviados
em Missão por Jesus, com a finalidade de os
libertar, de raiz, das suas ambições de
Poder Político que, enquanto continuassem a
encher-lhes a cabeça como um mítico demónio,
seriam fatais para eles e, por meio deles,
para as pessoas e os Povos do Mundo com os
quais eles e os prosseguidores deles
haveriam futuramente de entrar em contacto,
na Missão, a mesma de Jesus. O contacto,
dois a dois, com as pessoas nas casas delas,
indistintamente, de preferência, os
não-Judeus, e os Judeus tidos como pecadores
públicos que já não frequentavam a Sinagoga
nem o Templo, e não sabiam nada da Lei de
Moisés, muito menos a praticavam, no seu
dia-a-dia, haveria de os levar - assim
pensava Jesus - a desistirem de vez das suas
ambições de Poder Político e /ou Religioso,
as quais, nas pessoas e nos Povos onde
proliferam, sempre as, os desumanizam e
descriam. Esse, porém, o Poder Político, era
o único Projecto que os Doze traziam na
cabeça e pretendiam, a todo o custo, que
Jesus também o fizesse seu. Jesus, no
entender deles, tinha todos os atributos
para ser proclamado o Messias /Cristo, o
filho /prosseguidor de David /Salomão e da
sua casa real, o líder invicto, esmagador
dos seus inimigos, por isso, o Messias
/Cristo que eles esperavam por aqueles dias,
na interpretação oficial que os chefes do
Templo faziam das Escrituras. Uma boa parte
deles havia começado por apostar em João, o
Baptista, de quem se fizeram discípulos,
mas, depois, o rei Herodes, incomodado com
as suas violentas denúncias contra a
concentração de Poder Económico-Político que
havia acabado de consumar, ao fazer aliança
idolátrica com a própria mulher do seu
irmão, meteu-no na cadeia e, pouco tempo
depois, no final de um jantar que ela e ele
ofereceram no seu palácio, a todos os
grandes do seu reino, mandou que lhe
trouxessem, numa bandeja, a cabeça de João
Baptista, para a entregar pessoalmente à
filha de Herodíade, que essa
filha-escravizada lhe havia exigido, por
instigação da própria mãe, que já não podia
nem sequer ouvir pronunciar o nome de João
Baptista. Desorientados, perante semelhante
desfecho, daquele profeta austero que eles
tinham como o Messias de Deus, os discípulos
de João passaram-se para Jesus que,
entretanto, começara a dar nas vistas e
parecia corresponder às expectativas das
multidões que, já então, o seguem por toda a
parte. Depois que Jesus avançou com a
constituição do grupo dos Doze, fundamento
de um novo Israel que haveria de incluir
todos os Povos da Terra, alternativo ao
velho Israel que apenas incluía os Judeus,
congregados em torno da Lei de Moisés e da
Casa real de David /Salomão, ainda mais os
Doze escolhidos, todos de origem judaica, se
convenceram de que Jesus era o Messias
/Cristo de Deus. Pedro, o líder do grupo,
não por indicação de Jesus que nunca quis
chefes entre os seus, apenas servidores
maiêuticos, até darem a própria vida pela
vida do Mundo, mas o líder por escolha dos
outros onze, foi o que disse, sem gaguejar,
quando Jesus lhes perguntou o que é que eles
pensavam dele, que expectativas é que tinham
a respeito dele, quando decidiram deixar
tudo para o seguirem, "Tu és o Messias", ou
"Tu és o Cristo". Jesus ficou estarrecido
com semelhante confissão. O equívoco dos
Doze a seu respeito não podia ser maior. E,
por isso, ao ouvir semelhante confissão da
boca de Simão, a quem ele havia apelidado de
Pedro, precisamente por ter constatado que
ele era fanaticamente casmurro como uma
pedra - costumam ser assim todos os
fanáticos do Poder Político - Jesus
proibiu-lhes terminantemente a todos os Doze
que dissessem a alguém semelhante disparate,
semelhante mentira a seu respeito! Em vão.
Porque a verdade é que nem Pedro, nem os
seus companheiros de grupo, fizeram caso
dessa proibição e continuaram a apostar
ainda mais que haveriam de conseguir
convencer Jesus a seguir pela via do Poder
Político, a deles e da generalidade dos
Judeus de então (e também de nós, hoje?). O
duelo ideológico /teológico entre eles e
Jesus passou a ser constante e, muitas
vezes, foi contundente, de parte a parte,
como testemunha bem o Evangelho de Marcos
(cf. o meu livro O outro Evangelho
segundo Jesus Cristo, Edição Campo das
Letras ). Neste duelo, Jesus acabou
por ser traído por um dos Doze e, logo a
seguir, perdeu o grupo dos Doze, em bloco,
e, consequentemente, todos os Judeus que
eles simbolicamente representavam. E acabou
praticamente sozinho, na sua via de Política
Praticada e com afectos, bem nos antípodas
da via do Poder Político Praticado. E é
assim, sozinho, que avança na esperança
contra toda a esperança. Nem perante a Cruz
do Império, Jesus desiste da sua via, que é
a mesma de Deus Abbá, Criador de
filhas, filhos em estado de Liberdade e de
Maioridade, não fabricador de súbditos, de
escravos, de servos, de idólatras, como faz
o Deus-Ídolo Poder, Todo-Poderoso, como
ainda hoje, absurdamente, continua a dizer o
Credo que todos os domingos é proclamado nas
missas católicas romanas, como se as, os das
missas fossem papagaios amestrados
/domesticados. E não é que Deus Abbá,
depois de tudo consumado pelo Império e pelo
Templo coligados e pelo seu Deus-Ídolo,
surpreendeu tudo e todos, ao colocar-se por
inteiro do lado de Jesus, o Crucificado, a
quem reconheceu como o seu Filho muito
amado, o único ser Humano integral, desde o
princípio da Humanidade, o único a quem Ele
deu razão e constituiu como o Modelo, o
Paradigma, de todos os demais seres humanos,
qualquer que seja a sua etnia e a sua
cultura? Só depois da Morte Crucificada de
Jesus na Cruz do Império e do Templo
coligados, é que algumas mulheres que haviam
andado com ele, e alguns homens, com
destaque para não-Judeus que viviam no país
e que também haviam andado com Jesus,
vieram, finalmente, a cair na conta de que
Jesus é quem estava no certo, era com Jesus
que Deus Abbá, Criador de filhas,
filhos em estado de Liberdade e de
Maioridade, estava por inteiro e para
sempre. Deram-lhe então a sua definitiva
adesão, bem como à sua via de Política
Praticada e com afectos, nos antípodas do
Poder Político Praticado. E isso mudou
radicalmente as suas vidas. Tornaram-se
outros Jesus, amadas, amados de Deus, tal e
qual como Jesus, odiados pelo Império e pelo
Templo coligados, tal e qual como Jesus. São
estas mulheres, estes homens, carregados de
Futuro, que estão na origem dos Evangelhos
Canónicos. Escreveram-nos para que, ao
escutá-los com o coração, as pessoas, das
sucessivas gerações, nasçam de novo, do
Sopro ou Espírito de Jesus, se tornem outros
Jesus, em seus contextos e em seus ambientes
sociais, em suas distintas culturas. Até que
toda a Humanidade chegue a ser desta via, a
de Jesus, isto é, seja constituída por
mulheres, homens outros Jesus, nas, nos
quais, Deus Abbá, Criador de filhas e
de filhos em estado de Liberdade e de
Maioridade se revê, ainda que o Deus-Ídolo
nunca se reveja e, por isso, os odeie tanto,
porque elas, eles, mesmo sem falarem,
atestam que são más, perversas, descriadoras
do Humano todas as suas obras, todas as suas
decisões, todos os seus projectos, a começar
pelos económicos. E isso o Deus-Ídolo,
servido pelo Império (Poder Político) e pelo
Templo (Poder Religioso-Eclesiástico),
jamais perdoará. E não hesita nunca em odiar
/excluir /ostracizar /matar na sua Cruz,
sempre, devida e cientificamente,
actualizada no decorrer da História! A esta
luz, nunca poderemos pensar, muito menos,
dizer, quando neste curto extracto do
Evangelho de Marcos, Jesus convida os Doze a
retirarem-se à parte, só eles com ele, a um
lugar despovoado, sem outras pessoas cheias
da mesmas ambições do Poder Político que
eles, está a pensar num descanso de férias.
Não está. Os Doze haviam acabado de chegar
da Missão, de dois a dois, para a qual
tinham sido forçados a ir por Jesus.
Chegam-se de novo a Jesus que, entretanto,
andou sem eles por perto. E relatam tudo o
que haviam feito. Ao escutá-los, Jesus volta
a ficar estarrecido. Eles haviam feito tudo
ao contrário do que ele lhes havia dito.
Estragaram tudo. E estragaram-se a si
próprios ainda mais. A Missão fora pensada
por Jesus, para ver se eles vinham dela mais
Humanos, mais despojados das ambições do
Poder Político e eles, o que fizeram, foi
campanha a favor de Jesus como o Messias
/Cristo invicto, vencedor dos inimigos dos
Judeus, o Messias de Deus, o do Templo de
Jerusalém, o Ídolo que escravizava e
aterrorizava tudo e todos. Não era, pois, de
estranhar que muitos mais Judeus viessem no
encalço de Jesus, para o verem, ouvirem,
tocarem. Ele era o tal Messias esperado.
Havia que aclamá-lo e levá-lo tomar o Poder
Político. Nem é de estranhar todo o sucesso
que os Doze tiveram na sua Missão. Foram ao
encontro das ambições das populações
subjugadas, das suas expectativas
messiânicas, na linha da casa real de David
/Salomão. Perante semelhante desastre, Jesus
só tem uma saída. Forçar os Doze a
retirarem-se com ele à parte, sem mais gente
por perto. Tinham de ser chamados a
capítulo. Eram casmurros, fanáticos. E
tinham que cair na conta disso e mudar. Ou a
Besta, a do Poder Político, do Poder
Religioso e do Poder Económico-Financeiro,
prosseguiria esmagadora sobre as populações
e os Povos do Mundo, como a única via na
História. Não haveria futuro para a
Humanidade. Mudar era preciso. Nascer de
novo era preciso. Abrir-se à via da Política
Praticada e com afectos, a via de Deus
Abbá, Criador de filhas e de filhos em
estado de Liberdade e de Maioridade. Ou esta
via, ou a do Deus-Ídolo. Os Doze tinham que
entender isto, duma vez por todas. E mudar.
Nascer de novo. É para isso que Jesus se
retira com os Doze que ele pretendia que se
tornassem na génese de um novo Israel que
incluiria todos os Povos do Povo, sem a
discriminação de nenhum. O intento de Jesus
falhou. Porque as populações que os Doze
haviam contactado estavam mobilizadas e
atentas. E perceberam para onde eles iam e
ainda chegaram lá primeiro. De modo que
Jesus viu-se, mais uma vez, impossibilitado
de fazer o debate, a discussão, o
frente-a-frente que se impunha com os Doze.
Teve de se haver, ele só, com a multidão que
eles haviam mobilizado com as suas mentiras,
com as suas idolátricas doutrinas. Vinham
por um Jesus Messias de Deus invicto e
vencedor dos inimigos, à altura de
estabelecer o Império dos Judeus sobre os
demais Povos, todos do Paganismo, por isso,
não Povo de Deus. A doutrina que haviam
escutado dos Doze levou-os a pensarem assim.
Eram por isso uma multidão como ovelhas sem
pastor, à procura de um chefe, de um Messias
todo-poderoso. E pensavam, pelo que lhes
tinham dito os Doze, que já o tinham ali à
mão, na pessoa de Jesus. Não tinham. Era
tudo mentira. Porque nenhum Messias invicto,
nenhum do Poder Político gera salvação,
desenvolvimento integral do Humano nos seres
humanos. O Poder Político apenas gera
súbditos, tolhidos, dissipados, banais,
venais, alienados, corruptos. Nunca promove
as populações e os Povos a sujeitos, a
protagonistas dos seus próprios destinos. Se
o fizesse, cavaria a sua ruína, a sua
sepultura como Poder Político. Só a Política
Praticada e com afectos. É o que Jesus vai
tentar dizer à multidão que, por engano, vem
à procura do chefe invicto do Poder
Político, na pessoa dele. Ele não é esse
chefe invicto. Ele é a Política Praticada e
com afectos. E é nessa condição que se
dirige à multidão, a tentar desmontar o que
os Doze haviam andado a fazer na sua
campanha de Poder Político. O Evangelho diz
que Jesus esteve horas e horas a ensinar
contra o mentiroso ensino dos Doze. Tantas
horas, que nem deu pelo tempo passar. Os
Doze estavam furiosos com ele e com o seu
ensinamento. E, a dada altura, não aguentam
mais e, malcriadamente, interrompem Jesus e
o seu ensinamento, e dão-lhe uma ordem. A
rebelião dos Doze é manifesta! Dizem-lhe:
Não vês que horas já são? Manda-os embora,
para irem comprar de comer. Então Jesus
enfrenta-os e desafia-os e dá-lhes uma outra
ordem, desafiadora até mais não. Assim:
"Dai-lhes vós mesmos de comer!" E a verdade
é que Jesus venceu esta batalha. Eles
tiveram de dar tudo o que tinham. Só que nem
assim a multidão entendeu Jesus e, em lugar
de se assumir como povo liberto e
igualitário, todos diferentes, todos iguais,
organizou-se segundo as leis e as regras
impostas pelo Poder Político. À espera que
cada um dos Doze fosse o seu chefe a mandar
em cada conjunto. Nisto estamos ainda hoje.
O Evangelho de Deus Abbá, Criador de
filhas e de filhos em estado de Liberdade e
de Maioridade é anunciado - infelizmente,
muito pouco, porque não há trabalhadores
para semelhante Missão, a da Política
Praticada e com afectos, só para a do Poder
Político Praticado e com Privilégios sem
conta - mas as populações e os Povos, de tão
mentalizados /formatados que estão pelo
Poder Político e suas mentiras publicitárias
e pelas suas teologias idolátricas, as do
Deus-Ídolo, nem querem ouvi-lo, muito menos,
acolhê-lo e praticá-lo. Contudo, a via de
desenvolvimento integral do Humano em cada
ser humano que vem a este Mundo é por aí que
passa. Ou assim, ou o caos, a Descriação.
Escolher é preciso. Mas onde estão as
Igrejas jesuânicas que pratiquem e anunciem
a via que Jesus, historicamente praticou e
anunciou e por causa do que foi crucificado
na Cruz do Império e do Templo coligados?
Eis a magna questão! É com ela que as, os
deixo. Pensemos nela, à parte, num local
despovoado, concretamente, no nosso mais
íntimo. Apenas nós e o Espírito de Jesus.
Quem sabe se não nascemos de novo, do Alto,
do Espírito, e nos tornamos mulheres, homens
para os demais e com os demais? Oxalá!
P.S.
Como já terão
percebido, vou de férias. Mas sempre à
escuta do Espírito. Por isso antecipei para
hoje a crónica que haveria de escrever na
próxima sexta-feira, 17. Fico em comunhão
com todas, todos. E sempre contactável por
telemóvel:
96 80 78 122 / 93 393
65 02. Fiquem, pois, com o meu afecto e a
minha paz.
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
2009 JULHO 13
Ontem, domingo, 12 de
Julho 2009, estive da parte da tarde e até
final do jantar de confraternização com as
companheiras, os companheiros da Associação
San Payo, promotora da iniciativa, em Vila
Nova de Cerveira, a terra minhota onde as
Artes, desde há bastantes anos, ergueram o
seu santuário e o seu altar do Mundo, bem
nos antípodas do santuário e do altar do
Mundo em que se transformou a pequena cidade
de Fátima, a da nossa Idolatria religiosa,
para fazer, na respectiva Biblioteca
Municipal, a apresentação do livro AURORA DE
POETAS, edição Campo das Letras. Os
promotores da publicação do livro, cujo
produto da venda, reverte integralmente para
o Barracão de Cultura das Formigas de
Macieira da Lixa, fizeram questão de que,
desta vez, fosse eu a apresentar a obra de
poetas e de poemas, naquele santuário e
naquele altar do Mundo das Artes. E eu, como
um menino, incapaz de dizer NÃO a semelhante
repto, lá fui. Não fui sozinho - por vezes
andamos /viajamos sozinhos, mesmo se
rodeados /acompanhados de muitas pessoas -
nesta Missão. O Espírito de Jesus levou-me e
eu deixei-me levar no seu Sopro, todo
fecundidade, que sempre deixa rasto, lá, por
onde passar. Um rasto de libertação para a
liberdade, um rasto de alegria e de festa,
também de combate desarmado, um rasto de
lucidez nos olhos e nos ouvidos do coração,
mais ainda do que nos olhos e nos ouvidos do
rosto e da cabeça. Porque as mulheres, os
homens do Espírito, como foi, é, integral e
paradigmaticamente Jesus, o de Nazaré, vêem
e ouvem o Mundo e a vida, as pessoas e as
coisas, sobretudo com os olhos e os ouvidos
do coração. Uma impossibilidade absoluta
para as mulheres, os homens do Poder, seja
do Poder Político, seja do Poder Religioso
/Eclesiástico, seja do Poder
Económico-Financeiro, este último o mais
cego e o mais surdo dos três, ele próprio a
Cegueira e a Surdez, e a fonte de Cegueira e
de Surdez nos Humanos. Coisa que, pelo que
se vê, nem o nosso Saramago, o do Nobel da
Literatura, já foi capaz de perceber, apesar
de ser o autor do célebre ENSAIO SOBRE A
CEGUEIRA, assim chamado, e não, como poderia
/deveria ter sido, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA E
A SURDEZ. Porque Aquilo - escrevi Aquilo,
com maiúscula, não escrevi Aquele - que
cega, também ensurdece. E isto, nem os tidos
por doutores e mestres na praça do Grande
Capital, sabem, muito menos, praticam. Só
mesmo os "pequeninos", dos quais fala /canta
/dança Jesus-com-o-seu-Abbá, esses
mesmos que os do Poder, de todo o Poder, não
só não reconhecem, como ostracizam, odeiam e
até matam. "A Luz e a Palavra vieram ao
Mundo, o do Poder, de todo o Poder, e os
homens, os do Poder, de todo o Poder,
preferiram a Treva e a Ideologia /Idolatria
à Luz e à Palavra, porque as suas obras, as
suas práticas opressoras, não maiêuticas,
eram /são más, perversas. De facto, quem
pratica o Mal odeia a Luz e a Palavra e não
se aproxima da Luz e da
Palavra-que-vem-das-vítimas, para que as
suas acções /práticas não maiêuticas não
sejam desmascaradas" (cf. João 3, 19-20). A
sessão revelou-se um Momento de Luz, de
Sabedoria e de Graça, nos antípodas das
contínuas sessões que os do Poder, de todo o
Poder, promovem, a toda a hora e instante,
em tudo quanto é sítio. Entre as pessoas que
fizeram questão de marcar presença na sala
das sessões da Biblioteca, destacavam-se, na
sua simplicidade e grandeza, Alfredo Vieira,
o Presidente da Associação Convento San
Payo; o Escritor maior Luandino Vieira, a
Voz-das-vítimas-de-Angola, e o Secretário da
mesma Associação, a viver, desde há anos, em
Vila Nova de Cerveira; o Mestre Escultor
José Rodrigues, meu Amigo do peito; a
Professora Manuela Leal, também da
Associação; a própria Bibliotecária Teresa;
uma jovem Artista, cheia de brilho nos
olhos, que, no final da sessão, me veio
procurar, vivamente impressionada e
saudavelmente afogueada pelo que acabara de
experimentar naquela sala e, em
consequência, a fazer questão de marcar um
encontro comigo, a ser gravado ao vivo, logo
a seguir às férias. A jovem Artista estava
acompanhada pelo próprio pai, Mário Lima,
que - imagine-se! - foi sabedor da sessão
pela sua companheira Maria Félix, minha
amiga, desde a adolescência dela e os meus
primeiros anos de presbítero da Igreja do
Porto, a viver, há muitos anos, no Brasil. E
mais pessoas, cujos rostos fixei, um a um,
mas de quem não cheguei a fixar os nomes.
Estavam também quatro companheiras que
haviam viajado comigo na carrinha, Maria
Laura, sua mãe Isaurinha, Carmo e sua irmã
Lurdes. Na mesa da sessão, presidida pela
Vereadora da Cultura, estavam, ao lado
esquerdo dela, o Poeta maior, Nuno Higino,
que me apresentou e, ao lado direito dela,
eu próprio que apresentei o Livro. Nuno
Higino contou uma experiência que tem tudo a
ver comigo, ao tempo em que fui o pároco de
Macieira da Lixa e que, pelos vistos, o
marcou para sempre, então, nos seus 9-10-11
anitos, a viver em Sendim, Felgueiras.
Contou Nuno Higino, como só os Poetas sabem
contar, que, quando, em Sendim, havia
ajuntamento de alguns párocos da região, por
exemplo, na altura das chamadas "Confissões
da Quaresma", ele ouvia as pessoas adultas
da freguesia dizerem umas às outras, ao
mesmo tempo que apontavam o dedo para mim,
"É aquele! Aquele é que é o Padre Mário de
Macieira da Lixa! Aquele padre, que até os
Pides de Lisboa vêm ouvir as suas homilias!"
O facto e estas palavras das pessoas adultas
que ele e outras crianças da aldeia ouviam
com alguma frequência da boca dos adultos,
gravaram-se a fogo na sua memória. Tal facto
e tais palavras tiveram o condão de o
impressionarem tanto, que, para ele, então
menino de 9-10-11 anitos, filho de mãe e pai
pobres como Job, o padre Mário da Lixa
passou a ser olhado "como um gigante". E não
é que, depois, o menino cresceu, fez-se, ele
próprio, também por influência do Padre
Augusto, meu condiscípulo e, na altura, o
Pároco de Sendim e de Jugueiros, padre da
Igreja do Porto, foi pároco do Marco de
Canaveses onde, em parceria com o mestre
Sisa Vieira, idealizaram e realizaram a
célebre Igreja do Marco, que tem tudo de
Arte-que-liberta-e-humaniza e nada de
templo-casa-de-terror-e de-covil-de-ladrões?
Hoje, é já um padre casado e pai,
canonicamente impedido do exercício do
ministério, em consequência da estúpida e
criminosa Lei do Celibato eclesiástico
obrigatório. E eis que "o gigante" padre
Mário da Lixa, da sua infância, estava agora
ali, ao alcance do seu abraço e do seu
afecto, numa parceria de iguais, cada qual
na sua rota, numa fraternidade efectiva que
esta sessão veio estreitar e solidificar
ainda mais. A Palavra passou depois para
mim. E eu disse-a tal como a havia escutado
da parte da manhã de ontem e como continuei
a escutá-la, no acto de a Partilhar com as
pessoas que estavam na sala. Foi um Momento
emocionante, por inesperado, que o Espírito
de Jesus é mesmo assim, lá onde O deixamos
ser o Protagonista. Porque, para além da
Palavra feita de palavras que
escutei-anunciei, à medida que lia-dizia as
palavras escritas que já levava comigo, e
que aqui Partilho, eu ainda cantei por duas
vezes, no decorrer da breve conversa que se
estabeleceu imediatamente a seguir. Eis.
No princípio, era o
Poema. O Poema explodiu e nasceu o Universo.
Há uns 13.700 milhões de anos. Desde então,
o Universo continua ainda em contínua
expansão. E, neste Universo ainda em
expansão, apenas Hoje, ao Amanhecer o Dia,
Aconteceu a Mulher e o Homem, que é outra
maneira de dizermos que o Poema que explodiu
há 13.700 milhões de anos, finalmente, se
fez carne, se fez Consciência, se fez
Entranhas de Ternura, se fez Relação
recíproca e também Insurreição Desarmada, a
mais fecundamente subversiva e conspirativa.
Numa palavra, o Poema fez-se Humano. É
verdade. Como seres humanos, Acontecemos
apenas ao Amanhecer do dia de Hoje, depois
de 13.700 milhões de anos, neste Universo
ainda em expansão. Estamos ainda por acabar.
Apenas nos Começos. Estamos ainda a
fazer-nos. No decurso da História que também
nasceu connosco. É por isso que a História é
tão importante, decisiva, para o Humano se
acabar de fazer /criar, até chegarmos a ser
Liberdade, Maioridade. Fora da História não
há salvação. O mesmo já não se pode dizer do
Templo. Só da História. Porque do Templo
temos que dizer: Fora do Templo é que há
Salvação. Dentro do Templo não há salvação,
porque o Templo, como tal, está fora da
História. Por isso, Salvação, só fora do
Templo, nunca fora da História! Ainda mal
acabamos de Acontecer, relativamente è
existência do próprio Universo, em expansão
desde há 13. 700 milhões de anos. Somos
sobretudo o que seremos. Mas, se já tivermos
olhos e ouvidos no coração, nas entranhas,
como os Poetas e os Artistas do Essencial
têm, não apenas olhos e ouvidos no rosto e
na cabeça, já sabemos Hoje o que seremos
Amanhã. Seremos todas, todos, outros Jesus,
o Poema feito carne, feito Práticas
Políticas e Económicas Maiêuticas e Duelos
Teológicos Desarmados contra a Ideologia
/Idolatria. Porque só à medida que formos
outros Jesus, com as mesmas Práticas
Maiêuticas, devidamente actualizadas e os
mesmos Duelos Desarmados, devidamente
actualizados, é que a Idolatria, que está na
raiz de todo o Perverso do Mundo,
desaparecerá e o Poema que somos poderá
finalmente ser dito, porque já é! Este
livro, AURORA DE POETAS, que aqui lhes
apresento, com meia centenas de poetas e
bastantes mais poemas dentro, é, ele
próprio, um Poema. Dos mais belos que, nesta
fase da Evolução do Universo, acabamos de
dar à luz. Porque não é apenas um livro. É
um livro com Projecto libertador /fraternizador.
Fica para sempre associado ao pequeno-grande
Sinal que, nestes dias, estamos, as FORMIGAS
DE MACIEIRA DA LIXA, a erguer na pequena e
ignota aldeia do mesmo nome, essa mesma que,
na década de setenta do século XX,
inopinadamente, sem que ninguém estivesse à
espera, nem o Bispo do Porto da altura,
António Ferreira Gomes, se tornou para
sempre um Lugar Teológico de um Deus que, ao
contrário de todos os deuses e de todas as
deusas, não gosta de Religião, de Templos,
de sacerdotes, de
cultos-sem-Cultura-e-sem-Profecia. Apenas
gosta - imaginem só! - de Política, não de
Poder Político, sim de Política Praticada,
precisamente, na prossecução das mesmas
Práticas Políticas Maiêuticas de Jesus, o
Crucificado na Cruz do Império, por
exigência dos sacerdotes do Templo, todos
idólatras, e Crucificado em consequência
dessas suas Práticas Maiêuticas e desses
seus Duelos Teológicos Desarmados. E, se
Deus gosta de Política Praticada, não de
Poder Político, também gosta de Cultura, a
que "desperta", a que "puxa" os Povos para a
Liberdade, até à plena Maioridade. E gosta
de Poemas, também do Poema que é, já está a
ser, o Barracão de Cultura e cujo primeiro
fruto mais visível e duradoiro é este livro
AURORA DE POETAS que aqui lhes apresento e
trouxe comigo, para que o levem com Vocês e
façam dele o Pão Nosso de cada dia. Ao
levarem-no com Vocês, alimentam-se de Poemas
e, ainda, ajudam a alimentar o Poema já
levantado, pronto por fora, mas ainda não
por dentro, que é o Barracão de Cultura. O
meu /nosso Bem-Haja ao meu irmão, amigo e
companheiro Nuno Higino, Poeta Maior deste
País que ele canta assim no Poema, "A Minha
Casa é um País", que ofereceu para este
Livro:
É branco o meu país da
água, branca
a paisagem que nos olhos
mora
dói-me o meu país, oh!
tão grande mágoa,
o tempo tardio nele se
demora
É branco o meu país da
água, branco
o caminhar na carne da
madeira,
quebram-se os passos em
quebrar de tábua
branco o meu país,
florida roseira
É branco o meu país da
água, brancas
as pétalas e a jóia do
dedo
a ti regresso, meu país
de frágua
o teu brilho queima,
aceso rochedo
O meu /nosso Bem-Haja à
Associação Convento San Payo que tornou
possível este Momento, com um beijo para
Manuela Leal que fez a ponte, via internet,
entre Vila Nova de Cerveira e as Formigas de
Macieira. O meu /nosso Bem-Haja à Biblioteca
Municipal e à Câmara Municipal de Vila Nova
de Cerveira por disponibilizarem este espaço
e nos presentearem com a sua presença, neste
final de tarde de domingo. O meu /nosso
Bem-Haja a todas, todos Vocês que nos
acompanharam na sessão de apresentação deste
Poema, feito livro AURORA DE POETAS, obra de
muitas mãos, e dito a muitas vozes.
Esperamos por Vocês em Macieira da Lixa, no
Barracão de Cultura, a Casa da Liberdade e
da Dignidade.
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
2009 JULHO 10
Ninguém, dos da banda do
Poder Político, seja do Governo, seja da
Oposição (e todos os partidos políticos
existem e trabalham para chegarem a ser
Poder Político, seja no Governo, seja na
Oposição; apenas a Política recusa o Poder
Político e combate-o como o seu Inimigo, o
seu Assassino) me perdoa que eu diga que
todos eles são parte dos problemas com que
todos os Povos estamos hoje confrontados,
não são parte da solução dos problemas. É
vê-los aí, numa lufa-lufa, até à exaustão,
para ganharem mais um deputado no
Parlamento, nem que seja no parlamento
/assembleia da freguesia mais ignorada. O
Poder Político é tudo para eles. Na sua
demência-demência política, os da banda do
Poder Político pensam que quanto mais Poder
Político tiverem, mais contribuirão para a
saúde e o bem-estar dos Povos. Nem vêem -
mas o Poder Político, alguma vez, vê? Não é
da sua natureza ser cego e ser agente de
cegueira dos Povos? - que quanto mais eles
crescem em Poder Político, mais os Povos
diminuem como
Povos-sujeitos-protagonistas-da-História,
como Povos Políticos Praticantes. Os do
Poder Político nunca são parteiras dos
Povos. Sempre são opressores dos Povos.
Roubam-lhes a alma, a identidade, o
protagonismo. Sugam-nos com impostos.
Fintam-nos. Driblam-nos a toda a hora.
Mentem-lhes. Enganam-os. O comando do Mundo
é sempre deles, nunca dos Povos. São os
senhores dos Povos, nunca os seus servos.
Servem-se dos Povos, nunca os servem.
Constroem uma pirâmide social e eles estão
no topo, nunca na base. Têm os pés sobre a
cabeça dos Povos, nunca no mesmo chão em que
os Povos têm sempre os seus pés. São o Poder
Político, e está tudo dito. Nem os meus
amigos da chamada Esquerda Política me
perdoam este meu olhar-pensar-agir
jesuânico-teológico. Eles sabem que este meu
olhar-pensar-agir jesuânico-teológico lhes
tira o tapete e faz cair a máscara de
benfeitores /salvadores dos Povos, com que
eles sempre se apresentam vestidos. Por mim,
até acho que eles, ao princípio, são bem
intencionados. Mas a partir do momento em
que lhes tirei o véu ideológico ou a venda
ideológica dos olhos, já é difícil acreditar
que são bem intencionados. A verdade é que
continuam na deles, e têm-me a mim na conta
de louco, de sonhador, de ingénuo, de
utópico. São cegos que se têm na conta de
guias dos Povos. Colocam-me então
definitivamente fora das suas vidas, como um
louco inofensivo. Ao mesmo tempo que avisam
os seus apaniguados que passem a tratar-me
como um louco inofensivo, ou como um
não-existente. E lá vão, altivos e ufanos,
na sua demência-demência política, com as
suas mentes totalmente possuídas /possessas
pela Ideologia /Idolatria do Poder Político.
Erguem tronos, onde depois se sentam.
Decretam privilégios, de que depois
usufruem. Promulgam leis que, depois, os
beneficiam. Criam forças de segurança que,
depois, os protegem. Fixam salários
principescos que, depois, recebem. E os
Povos que paguem tudo, suportem tudo,
aguentem tudo, e ainda, por cima, votem
neles e, depois, saiam às ruas a
aplaudi-los, quando eles passarem nas suas
viaturas de luxo, com vidros à prova de
bala. Eles fazem tudo isto, e eu é que sou o
louco, o ingénuo, o sonhador, o utópico. Vá
lá, que ainda não decidiram que eu me
constituí num perigo público, porque, nesse
dia, sair-me-ão ao caminho, sequestram-me e,
se eu não aceitar retratar-me publicamente
do que tenho andado a escrever /dizer,
matam-me como se mata uma mosca, tal como
fez, recentemente, Obama, o do Império, numa
entrevista em directo na televisão. A
mosca-varejeira era mesmo uma mosca a sério,
mas o gesto, porque mediatizado, adquiriu
uma inusitada força simbólica, que nem o
próprio terá pensado na altura. É assim que
o Poder Político, nomeadamente, o do
Império, trata os que não dizem com ele e o
não reconhecem como o salvador /benfeitor
dos Povos. Matam-nos com o mesmo à vontade
com que matam uma mosca. Vem tudo isto a
propósito do extracto do Evangelho de Marcos
6, 7-13, que será lido nas missas do próximo
domingo, o 15.º do Tempo Comum, em tudo
quanto é templo católico, no nosso país, na
Europa e no resto do Mundo. Jesus, o
protagonista deste Evangelho, o praticante
deste Evangelho, tinha mesmo de acabar como
acabou: crucificado na Cruz do Império e do
Templo coligados. Ou o Poder Político não
seja assassino. É. Mesmo quando veste de
benfeitor /salvador, como se vestiu o Poder
Político do Império Romano. É sempre
assassino. Não deixa pedra sobre pedra,
quando percebe que os Povos, desarmados que
estejam, se levantam contra ele. Exige-lhes
incondicional adoração. Não tolera nenhuma
contestação. E chega a ser feroz. Cruel.
Sádico. O extracto do Evangelho de Marcos
vem na sequência do outro que foi lido nas
missas do passado domingo. Os da sua terra,
quando perceberam, na Sinagoga, que Jesus
não só não secundava as ambições da casa
real de David /Salomão e já apropriadas como
suas pelo colectivo do Povo Judeu, de virem
a ser o único Povo que estaria mesmo à beira
de vir a ter para sempre o completo domínio
do Mundo, graças ao mito que aquela casa
real de David /Salomão, mil anos antes,
criou e pôs a circular entre os demais Povos
do Mundo, um mito que apresentava o Povo
Judeu como o único Povo eleito, o Povo
escolhido por Deus, muito pelo contrário,
até as denunciava como perversas e
trabalhava maieuticamente e sem descanso
para ajudar a dar à luz uma Ordem Mundial
outra, intrinsecamente, política, com todos
os Povos do Mundo como os únicos sujeitos e
protagonistas - é isso a Política que o
Poder Político não pode nem ouvir falar! -
passaram, quase em bloco, abertamente à
ofensiva contra ele. Os próprios discípulos
de Jesus, os de matriz judaica, que Jesus
havia convocado e constituído como o Grupo
dos Doze, ponto de partida para a
constituição de um Povo de Povos, como o
genuíno Povo de Deus, que incluiria todos os
Povos de todas as nações da Terra, sem
exclusão de nenhum, cada qual com a sua
cultura e a sua originalidade, todos em pé
de igualdade, uns perante os outros,
rapidamente se manifestaram contra ele e
contra semelhante Projecto Político
alternativo ao do Poder Político. De modo
algum, estavam de acordo com Jesus. E
deixam-no completamente sozinho nessa missão
política, a única que Deus, o Abbá de
todos os Povos, reconhece como sua.
Continuam todos bem aferrados à Ideologia
/Idolatria do Poder Político, da casa real
de David /Salomão, que a Sinagoga, em cada
sábado, alimentava nos Judeus que eram
obrigados a frequentá-la. Jesus desiste,
então, definitivamente da Sinagoga e passa a
andar pelas aldeias da região, em contacto
directo com as populações. Num primeiro
momento, vai totalmente sozinho. Os "Doze"
não vão com ele. São os seus mais próximos
opositores, com Simão Pedro à cabeça. Este
pormenor, absolutamente substantivo, está
registado no Evangelho de Marcos, na parte
final de um pequeno versículo que o Missal
Romano omitiu no passado domingo e que
continua a omitir também neste próximo
domingo, apesar do extracto deste domingo
estar na continuação do extracto do passado
domingo. O Missal Romano, pura e
simplesmente, passa à frente, como se ele
não estivesse lá, no relato de Marcos. Mas
está. Precisamente como a segunda parte do
mesmo versículo 6, que já deveria ter sido
lido inteiro no passado domingo e não foi.
Uma omissão /censura não de todo inocente.
Só pode ser propositada, pois nem sequer é
um novo versículo, mas o mesmo que só foi
lido na primeira parte, quando deveria ter
sido lido na íntegra. Diz assim o versículo
inteiro: "E Jesus estava admirado com a
falta de fé do seu Povo. Então, pôs-se a
percorrer as aldeias em redor, a ensinar"
(o itálico, da minha responsabilidade, é a
parte do versículo que foi censurada pelo
Missal Romano!). Cá está. A Sinagoga, onde
Jesus foi ensinar /dar a conhecer o seu
Projecto Político, que é o mesmo de Deus-Abbá,
recusou-o liminarmente, e ainda tratou Jesus
como louco, um conspirador, um atrevido,
como um Dom Ninguém. De modo algum fez seu
esse Projecto, menos ainda cooperou com
Jesus. Não se envolveu, manteve-se na dele,
preferiu o outro projecto, o do Poder
Político da casa real de David /Salomão, que
mais não era que um mito inventado por ela e
difundido por ela entre os demais Povos.
Jesus, espantado com a reacção dos seus
conterrâneos, deixa duma vez por todas a
Sinagoga e vai, então, directamente aos
Povos das redondezas, até chegar - o seu
objectivo é esse - aos confins do Mundo. Mas
teve de ir sozinho nessa Missão. O relato
não engana. Diz expressamente que só Jesus
se pôs a percorrer as aldeias das
redondezas. O grupo dos Doze não o
acompanhou. Ficou com a Sinagoga. Ficou com
o mito da casa real de David /Salomão, o
mito que ensinava, como palavra de Deus, que
o Povo Judeu viria a ser, em breve - para
isso, é que o Messias iria vir e a sua
chegada estava anunciada para aqueles dias,
os mesmos em que estava a desenrolar-se a
missão de Jesus! - o senhor do Mundo, como o
único Povo eleito ou Povo escolhido por Deus
para isso mesmo! Seria, então, o Poder
Político em todo o seu brilho, em todo o seu
esplendor de Treva ilustrada, de Opressão,
de Domesticação dos Povos do Mundo. Ora,
para que os Doze voltassem a juntar-se a
ele, Jesus teve de os convocar de novo,
depois de ter actuado uns tempos sozinho.
Eles reaparecem junto dele, mas, certamente,
na disposição de lhe resistirem e de lhe
fazerem a cabeça. Jesus ainda espera que
eles mudem e acabem por compreender e aderir
ao Projecto Político de Deus, o Abbá
Criador e Libertador - não Poder Político,
nem sequer na sua dimensão de benfeitor -
dos Povos todos do Mundo. E, em lugar de se
pôr a ensinar de novo os Doze que havia
escolhido e constituído, faz com eles uma
experiência nova. Decide enviá-los dois a
dois aos Povos, indiscriminadamente, tanto
Judeus como Não-Judeus. E envia-os, não à
Sinagoga de cada lugar, mas às casas das
pessoas, de todas as pessoas,
indistintamente. Mas, primeiro, tenta
despertar neles a capacidade de eles terem
mão, total domínio, total controlo, sobre a
Ideologia /Idolatria nacionalista fanática
com que eles continuavam possuídos
/possessos, apesar de já andarem com ele há
bastantes dias, semanas, meses. Envia-os,
então, dois a dois, sem bolsa nem alforge.
Pobres. Vestidos com a túnica que têm no
corpo. Sem pão. Sem dinheiro. E sem bolsa
onde guardar o que quer que fosse. Teriam de
aceitar a hospitalidade que lhes fosse
oferecida, sem imporem quaisquer condições.
E entre eles não haveria nenhum superior,
nenhum chefe, nenhum Poder. Para isso é que
iam dois a dois, em radical igualdade. Mais
do que ensinar, deveriam escutar as pessoas,
os Povos. Nada de discursos elaborados e
previamente escritos, carregados de
Ideologia /Idolatria. Teriam de saber
escutar. Saber estar. Fazer-se acolher.
Confraternizar sem preconceitos, sem tabus.
Serem um só com as pessoas e os Povos, na
originalidade de cada qual. O surpreendente
é que os Doze aceitam a proposta de Jesus.
Parecia que esta mudança de estratégia de
Jesus estava a resultar em cheio. Puro
engano. Diz o relato que eles foram, sim
senhor, mas, depois, por lá, fizeram tudo ao
contrário do que Jesus lhes havia dito para
fazerem. "Puseram-se a pregar às pessoas e
aos Povos que se arrependessem /emendassem".
E, não contentes com isso, ainda se põem "a
expulsar demónios, a ungir com azeite todos
os prostrados /desanimados e a curá-los
/animá-los". Tudo ao contrário do que Jesus
pretendia. Estas suas posturas revelam bem
que os Doze aproveitaram a oportunidade que
Jesus lhes deu, para espalharem a sua mítica
Ideologia /Idolatria messiânica da casa real
de David /Salomão e, com isso, suscitaram
nas pessoas e nos Povos a ilusão
sócio-política de que estava para breve a
intervenção de Deus, que constituiria o Povo
Judeu como o senhor do Mundo, dos Povos do
Mundo, numa espécie de Império global, onde
Deus seria o Deus-imperador e o Povo Judeu
os seus dois braços, o direito e o esquerdo,
o Poder Religioso /Templo e o Poder Político
/Império, os dois num só! É claro que,
perante uma pregação destas e perante
comportamentos destes, os Doze não
encontraram nenhuma rejeição, nenhuma
oposição, por parte das pessoas e dos Povos.
Aparentemente, a missão foi um sucesso, mas
apenas como costumam ser as missões-ópio do
Povo, que alimentam as ilusões dos
prostrados, dos desesperados, dos
proscritos, dos fracassados. Aliás, não são
assim, ainda hoje, as tradicionais missões
sem Missão dos pastores das Igrejas
dizimistas e dos missionários das Missões
católicas? Não aparecem com Poder e
manifestações de Poder e de riqueza? Não
começam logo a construir templos, palácios,
IPSSs, todo um arsenal de Caridadezinha que
serve para encobrir um empório de riqueza
cada vez mais acumulada e concentrada nas
mãos deles? Despertar os Povos para que os
Povos se tornem, eles próprios, os
protagonistas, os sujeitos, os donos dos
seus próprios destinos? Para que sejam, eles
próprios, Povos Políticos Praticantes? Nem
pensar. Seria subverter a actual Ordem
Mundial e logo os do Poder Político no
terreno não perdoariam semelhante subversão.
Seriam de imediato expulsos, no mínimo.
Porque o mais provável é que nunca mais
regressassem a casa, nem sequer como
cadáveres! Como se vê, o aparente sucesso da
missão dos Doze, enviados dois a dois,
redundou para Jesus num completo fiasco. Os
Doze, afinal, continuavam ainda mais
discípulos de João, o Baptista, do que
discípulos dele. Seguiam mais os
ensinamentos de João, do que os dele. Não
iam com Jesus, nem com o seu Projecto
Político, nos antípodas do Poder Político da
casa real de David /Salomão. O problema
maior e praticamente insolúvel até ao
abrupto final da vida de Jesus é que, com
este tipo de missão, realizada pelos Doze,
Jesus saiu a perder em toda a linha. Porque
as populações passaram a entusiasmar-se com
ele, mas porque viam nele o tal messias
vencedor esperado, através do qual Deus
iria, finalmente, restaurar o Reino de David
/Salomão, dar corpo ao Império do Povo Judeu
que já era sonhado pela casa real de David
/Salomão, portanto, pelo menos, desde há mil
anos. E só na base desta expectativa é que
as multidões correm para Jesus e o aclamam.
Na base de um tremendo equívoco, que Jesus
tentou tudo por tudo para desfazer, mas sem
sucesso. A decepção /desilusão só chega,
quando, tempos depois, os do Poder Político
do país, que, na altura, eram os mesmos do
Poder Religioso do Templo, decidem agir em
força contra Jesus. Porque esses, os chefes,
nunca se deixaram enganar. Desde a primeira
vez que Jesus ensinou na Sinagoga, eles
perceberam de imediato que ele não estava
com as ambições e os privilégios deles, tão
pouco, com a Ideologia /Idolatria do Povo
Judeu, como o Povo eleito, o Povo escolhido
por Deus para governar o Mundo, essa mesma
Ideologia /Idolatria que dava consistência e
fundamento às suas ambições e aos seus
privilégios, bem como, a eles próprios como
chefes incontestados do Povo. Não só Jesus
não estava com essas suas ambições, como
estava aberta e inequivocamente contra elas,
porque, para ele, Jesus, era, é, manifesto
que a via do Poder Político é a via da
Opressão /Infantilização /Domesticação dos
Povos, não a via do seu desenvolvimento
Humano integral, até os Povos todos, sem
excepção, se tornarem Sujeitos,
Protagonistas, Donos dos próprios destinos,
numa palavra, Povos Políticos Praticantes,
sem mais necessidade de messias, de deuses,
de chefes, de intermediários, de sacerdotes,
de pastores. Ora, ou avançamos, hoje, Século
XXI adiante, lúcida e decididamente, por
aqui, ou nunca mais saímos do Infantil, do
Subserviente, do Menor-de-idade, do
Braço-estendido, do Chapéu-na-mão. Teremos,
porventura, segurança, subsídios, mas não
saberemos nada de Liberdade nem de
Maioridade. Teremos chefes mais ou menos
bem-falantes, mais sádicos, uns, mais
demagogos, outros, mas não saberemos nada de
Autonomia, nem de Política Praticada, nem de
Protagonismo. Teremos deuses, deusas,
santuários, cultos religiosos, mas não
saberemos nada de DeusVivoCriador, o de
Jesus, seu e nosso Abbá e de todos os
Povos do Mundo por igual. E acabaremos
feitos minhocas, vermes, teologicamente
prostitutos, isto é, atolados até aos ossos
na Idolatria, a do Dinheiro Acumulado e
Concentrado. Porventura, ainda adoradores do
mítico Cristo do Império Romano, mas sem
Jesus, o filho de Maria, a quem até odiamos
e matamos na Cruz do Império e do Templo
coligados, para que ele não venha nunca mais
perturbar-nos nem perturbar a nossa
paz-de-charco em que vegetamos /coaxamos,
como rãs, como répteis. Escolher é preciso.
Cá por mim, já há muito que escolhi. É por
Jesus e pela sua via que vou. Só ele é o
Caminho, a Verdade e a Vida! Com ele, sou
/serei progressivamente Humano, até chegar a
ser integralmente Humano. Tudo o mais, fora
desta via, por muito brilhante e sedutor que
possa ser, é para mim como esterco.
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
2009 JULHO 09
Até ao ano 2050, prometem
os do G8. O ambiente, hoje cada vez mais
pelas ruas da amargura, terá de esperar
ainda mais 40 anos pelo início da necessária
inversão de marcha em direcção à calcinação
global. Palavra dos chefes de estado ou de
governo dos oito países mais
industrializados e mais ricos do Mundo.
Leram bem. Não são quarenta dias, nem
quarenta semanas, nem quarenta meses. São
quarenta anos. E ainda nós, as portuguesas,
os portugueses, nos queixamos das listas de
espera para uma consulta no médico de
família, uma consulta externa no hospital,
uma intervenção cirúrgica num hospital
público. Ponham aqui os olhos. A saúde do
Planeta Terra, nossa casa comum, terá de
esperar quarenta anos para ver os oito
países mais industrializados, mais ricos e
mais poluidores do Mundo diminuírem as suas
emissões de gases com efeito de estufa em 80
por cento, para, desse modo, se limitar o
aquecimento global a dois graus Celsius.
Quarenta anos de espera. Pela concretização
de uma vaga e simples promessa, feita pelos
actuais chefes desses oito países. Uma
promessa que não tem nenhuma garantia de vir
a ser cumprida, nem pelos que acabam de a
assinar e anunciar, nem, muito menos, pelos
que lhes sucederem no trono que eles hoje
ocupam, e que não é deles. Ontem, já era
tarde, para iniciarmos a mais que necessária
inversão de marcha do Planeta Terra em
direcção à calcinação global em curso. E os
oito senhores do Mundo (na verdade, não são
eles os senhores do Mundo, eles apenas são
os funcionários-mor do Senhor do Mundo, que
é o Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado)
ainda têm a lata de, a partir de Roma, que
foi sede do Império Romano e hoje é a sede
da Transnacional da religião católica
romana, onde ontem estiveram reunidos em
Cimeira para as tvs de todo o Mundo
mostrarem, anunciarem esta vaga promessa,
para vir a ser concretizada apenas daqui a
quarenta anos. Com uma agravante mais e que
é esta: Como eles são todos compulsivamente
mentirosos e assassinos, sempre que os
interesses do Senhor Dinheiro Acumulado e
Concentrado assim lho exigirem, ninguém
garante que semelhante promessa venha a ser
efectivamente concretizada. Perante isto, o
que fazem os Povos do Mundo? Como reagem?
Ouvem e calam. Encolhem os ombros. Deixam
para lá. E ainda fazem pior: Continuam a
votar neles. Continuam a respeitá-los. A
deixá-los andar à solta, de Cimeira em
Cimeira. Nenhum protesto. Nenhum chicote nas
mãos. Nenhum lançamento de ovos chocos ou de
sacos de plástico cheios de dejectos sobre
eles, quando todos juntos como um só, posam
para a foto de família. Sim, eu sei, há toda
aquela segurança a protegê-los e não permite
que os Povos se aproximem deles. Mas os que
estão ali, armados até aos dentes a
protegê-los da ira e da cólera dos Povos,
não são parte integrante dos Povos?
Contratados para protegerem mentirosos e
assassinos compulsivos, vestidos de
Executivos dos oito países mais
industrializados, mais ricos e mais
poluidores do Mundo, porque não aproveitam
esse facto e trocam as armas por protestos,
por chicotes, por ovos chocos, por sacos de
plástico cheios de dejectos, e os lançam
sobre eles, em lugar de os protegerem?
Porque não são aquilo que na verdade são,
parte integrante dos Povos do Mundo? Porque
matam o que há em si de Povos do Mundo, e
assumem-se exclusivamente como "Forças de
Segurança"? Porque traem os Povos que eles
próprios também são? Porque são assim tão
dementes-dementes? Porque têm a faca e o
queijo nas mãos e viram toda esta força
contra si próprios e contra os Povos do
Mundo que eles próprios também são? Sim, eu
sei, igualmente, que lhes lavaram o cérebro,
lhes formataram o cérebro, para eles
deixarem de ser o que são e passarem a ser o
seu contrário. Mas porque consentiram eles
que lhes fizessem tão intolerável operação?
Porque não resistiram? Porque não fugiram
pela escola fora, pelo quartel fora, pela
academia fora, pelo templo fora, pelas aulas
de descriação do Humano fora e vieram
juntar-se aos seus Povos e contar-lhes tudo
o que pretendiam fazer com eles? Porque
consentem? Porque até agradecem que os
tenham contratado, que tenham confiado
neles, na lealdade deles? Homens, sede
Homens! Povos, sede Povos! Porque é que este
apelo /grito que rebenta no mais fundo dos
seres humanos e dos Povos do Mundo não é
escutado por eles? Porque, ao contrário,
eles se vendem por um prato de lentilhas?
Porque traem os seus irmãos, mulheres e
homens? Porque traem os Povos dos quais são
parte integrante? Porque se traem a si
próprios? Porque aceitam perder a alma, a
identidade, serem reduzidos à condição de
funcionário, de mercenário, de robot, de
Caim para si próprios e para os Povos do
Mundo? São um nunca mais acabar de
perguntas. Todas oportunas. Não! Não digam
que são utopia. Não digam que sou eu que
estou a delirar. É a saúde do nosso Planeta
Terra que está em jogo. São o presente dos
nossos filhos que estão hoje a nascer e vão
nascer amanhã, e o presente dos filhos dos
nossos filhos, que estão em jogo. Andamos
estes dias tão preocupados com o vírus da
gripe A, que pode vir a afectar a saúde e a
vida de uns quantos milhares ou milhões de
pessoas em todo o Mundo, e não nos aflige
minimamente a saúde do nosso Planeta Terra,
nosso útero e nossa casa comum? Porque
filtramos com tanto zelo o cisco /vírus da
gripe A e continuamos a engolir o camelo
/aquecimento global do Planeta Terra? E
ainda nos dizemos ilustrados /civilizados
/desenvolvidos? "Crescei, multiplicai-vos e
cuidai da Terra". É a grande palavra de
Ordem que os seres humanos ouviram, quando,
no decurso da Evolução, aconteceram, um dia,
no Planeta Terra. Em lugar de assumirem com
alegria essa Prática Política Maiêutica do
Cuidado da Terra, assustaram-se perante tão
galvanizadora Missão! E, nos seus medos,
correram a erguer templos e ermidas nos
pontos mais altos em seu redor, e a meter-se
lá dentro. Em lugar de se ocuparem da Terra,
de cuidarem da Terra, passaram a ocupar-se e
a cuidar das deusas e dos deuses.
Especializaram-se em Religião Praticada, não
em Política Praticada. A Voz bem gritava no
mais fundo deles, seres humanos e Povos,
"Crescei, multiplicai-vos e cuidai da
Terra!" Mas os seres humanos e os Povos,
assustados, eram para as deusas e deuses da
sua imaginação e dos seus medos que olhavam.
Era com elas e com eles que se ocupavam. Era
delas e deles que cuidavam. Ainda hoje,
milhares e milhares de anos depois desses
começos, é assim que os Povos do Mundo se
comportam. Multiplicam as religiões, os
templos, as ermidas, os santuários,
frequentam com assiduidade os cultos, os
mais tradicionais e os mais recentes, pagam
os dízimos, esforçam-se por estar de bem com
as deusas e os deuses, e não querem saber
nada de Política Praticada, que, na prática,
se resume a realizar aquela Palavra de Ordem
inicial, "Crescei, multiplicai-vos e cuidai
da Terra". Cuidam das deusas e dos deuses,
descuidam-se por completo da Terra. E, como
a Terra é cada vez mais uma Terra-por-cuidar,
por-acompanhar, por-atender, ela adoece de
abandono, de descuido, de solidão. Quando a
doença se torna mortal, ela morre e, ao
morrer, faz morrer com ela os Povos que a
habitam. A doença da Terra é a doença dos
Povos. Entre a doença da Terra e o vírus da
gripe A, não há comparação possível. A
doença-morte da Terra é a nossa doença-morte
também, como Povos que a habitamos. E, mais
do que isso, que somos. Sim, porque não só
habitamos a Terra. Somos Terra que, em nós,
se tornou consciência, se tornou liberdade,
numa palavra, se tornou Política Praticada.
Temos de deixar as deusas e os deuses que
são Mentira, por isso, Opressão e Morte, e
abrirmo-nos à Política Praticada, coisa que
os chefes dos oito países mais
industrializados, mais ricos e mais
poluidores do Mundo não sabem o que é,
porque a confundem com Poder Político, o
único que lhes interessa, ainda que ele seja
mentiroso e assassino. São, por isso, os
mais dementes-dementes dos seres humanos.
Eles e os que os guardam, os protegem, os
defendem, quando deveriam amarrá-los, ter
mão neles, reabilitá-los, restaurar neles o
Humano que se perdeu de todo. Se nem com os
inúmeros erros que, como Povos da Terra, já
cometemos até hoje, nós aprendemos, como
poderemos sonhar com um Amanhã melhor?
Política Praticada, quero, não Poder
Político. Política Praticada quero, não
Religião. É o que nos diz /grita a
misteriosa Presença-Voz que nos habita mais
íntima a nós do que nós próprios. É tempo de
a escutarmos e de a realizarmos. É tempo de
sairmos da criancice, do Infantil(ismo), do
Medo. E de passarmos à Política Praticada,
com todos os Povos como sujeitos, como
protagonistas. Sem mais recursos a
intermediários, seja os
funcionários-mercenários do Poder Político,
seja os funcionários-mercenários do Poder
Religioso, seja os funcionários-mercenários
do Poder Financeiro. A Terra está doente e
chama-nos. Como um planetário Lázaro, o do
Evangelho de João. Como Jesus, o Ser Humano
por antonomásia, que nunca cuidou das deusas
nem dos deuses, apenas cuidou dos seres
humanos e dos Povos, levantemo-nos cada dia
e cuidemos dela. Ao cuidarmos da Terra, é
também de nós que estamos a cuidar!
Amemo-nos a nós mesmos e amemo-nos uns aos
outros. É isso a Política Praticada que está
a fazer ainda mais falta do que o Pão para a
boca.
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
2009 JULHO 08
Acaba de ser aberta e
difundida a nova carta encíclica de Bento
XVI, Caritas in veritate, "sobre o
desenvolvimento humano integral na caridade
e na verdade". Melhor seria que o papa
tivesse partido, nesta sua carta encíclica,
da verdade para a caridade. Veritas in
caritate. Porque a Verdade Amada e
Praticada é que nos faz livres. E só na
Liberdade que brota da Verdade Amada e
Praticada é que o Amor se torna fonte de
desenvolvimento integral do Humano. De
contrário, acaba na Caridadezinha, que é a
outra face da Exploração. Sem Verdade Amada
e Praticada, nem o Amor o chega a ser.
Depressa redunda em Submissão, em
Subalternidade, em Vassalagem. O Amor só é
Amor Criador do Humano, quando nasce da
Verdade Amada e Praticada. Do alto do seu
trono papal; do alto da sua Cúria Romana; do
alto do seu Poder monárquico absoluto, Bento
XVI desconhece a Liberdade que brota como
fruto da Verdade Amada e Praticada. O Poder
Praticado, para mais, monárquico e absoluto,
é que discorre, de discorrer, sobre
desenvolvimento humano integral na caridade
e na verdade. Porque pensa que é pela
Caridadezinha que chegamos a ser humanos.
Quando só a Verdade Amada e Praticada nos
faz livres. E sem esta premissa, o
desenvolvimento nunca chega a ser humano,
muito menos integral. Como se vê, a nova
carta encíclica do papa Bento XVI nasce
torta, desde o início. Como tal, no dizer do
Sábio, tarde, mal, nunca se endireita. É um
extenso documento, em seis capítulos e 79
parágrafos. Uma espécie de pescadinha de
rabo na boca. Nasce na Cúria Romana e
regressa à Cúria Romana. Nasce no trono do
Poder monárquico absoluto papal e regressa
ao Poder monárquico absoluto papal. Sem
nunca o pôr em causa. Não chega, por isso, a
ver o Invisível. Nem a escutar o Essencial,
ambos absolutamente inacessíveis ao Poder
monárquico absoluto. Para chegar a tocar o
coração das pessoas e dos Povos do Mundo, o
bispo de Roma tem de desistir de ser o que
historicamente é e, hoje, na pessoa de
Ratzinger, faz bem gala de mostrar que é.
Tem de desistir de ser Poder monárquico
absoluto, do alto do seu trono, com todo o
Mundo aos pés, como seu vassalo, seu
súbdito. Até aos bispos que presidem a
outras tantas Igrejas locais, o papa de Roma
trata como seus súbditos e vassalos. Não
como iguais. Só a Verdade Amada e Praticada
nos faz iguais. O Poder absoluto e a
Caridadezinha que dele resulta fazem
desiguais, acentuam as desigualdades,
radicalizam as desigualdades. Fazem
súbditos, vassalos, não iguais, não irmãos.
E tal é a Caridade /Amor sem a Verdade Amada
e Praticada como Fonte, o mesmo é dizer, sem
a Liberdade. O Amor que vem do Poder
monárquico absoluto, não da Liberdade que
nasce da Verdade Amada e Praticada, acaba
sempre Caridadezinha, alimento de
desigualdades e fonte de desigualdades cada
vez mais acentuadas. Onde há Poder
monárquico absoluto, há Exploração do Humano
e há Caridadezinha. Só a Liberdade que brota
como fruto maduro da Verdade Amada e
Praticada nos faz iguais, todos diferentes,
todos iguais. Esta realidade está
inacessível ao papa de Roma, alcandorado no
seu trono, de que não abdica. Quem sobe a
tamanhas alturas, nunca mais enxerga a
Realidade mais real que só se enxerga na
base da pirâmide, a partir dos últimos da
História, das vítimas de todas as cúpulas.
Decididamente, a base da pirâmide social,
não é o universo do papa de Roma. O dele é o
do Topo dos topos. Nunca vê iguais. Só vê
vassalos e súbditos. E, quando se lhes
dirige, é como seus vassalos e súbditos que
os vê e os trata. A carta encíclica começa
mal, logo nas primeiras palavras que lhe
servem de título, em latim, pois claro, como
se ainda vivêssemos no tempo de César
Augusto de Roma, tido e tratado como o filho
de Deus, miticamente nascido de mãe humana e
de pai divino, cujo culto público era
obrigatório em todo o território, por parte
de todos os seus súbditos. Só que a Igreja -
eklesia - nasceu do Movimento das,
dos de Jesus, o Crucificado na Cruz do
Império de César Augusto de Roma e do Templo
dos sumos sacerdotes de Jerusalém, os dois
coligados entre si. Não nasceu do Império e
do Templo, muito menos, do imperador César
Augusto e dos sumos sacerdotes Anás e Caifás,
os grandes carrascos ou verdugos históricos
de Jesus. Tem, pois, inevitavelmente, na sua
matriz, a Rebeldia, a Insubmissão, a
Dissidência, a Liberdade que brota da
Verdade Amada e Praticada, a Sororidade
/Fraternidade Universal. Começa como o grão
de mostarda, a mais pequena das sementes, e
nunca chega a passar de um arbusto onde só
as aves do céu, isto é, só as, os da
Liberdade, fazem os seus ninhos, isto é,
constroem e aimentam as suas vidas de
Resistentes, de Rebeldes, de Insubmissos, de
Dissidentes, de Sujeitos, de Mulheres
/Homens livres, numa palavra, de Seres
Humanos integrais, nos antípodas dos
vassalos. Por isso, a Igreja não tem lugar
no Império, ainda que viva no seu mesmo
chão. Nunca é do Império /Poder Político.
Sempre se lhe opõe, sempre lhe resiste.
Sempre o desmascara. Sempre lhe diz, Não te
servirei; Não te obedecerei; Não te
adorarei; Não me coligarei contigo; Sempre
te denunciarei e aos teus crimes; Sempre
desmascararei a tua Idolatria, o Perverso
institucionalizado que tu és. Por isso, é
inevitavelmente Igreja Crucificada pelo
Império, em lugar de casada /coligada
/amancebada com o Império. O papa de Roma
não é capaz de ver isto, porque apenas vê o
cisco que está nos olhos dos demais, nunca
vê a trave que está nos seus próprios olhos.
Sempre anda à cata de mosquitos para
filtrar, ao mesmo tempo que engole camelos,
a vida toda. Faz-se rodear de vassalos que
lhe prestam vassalagem todos os dias, a
troco de "rebuçados", de privilégios sem
conta, de títulos honoríficos com que os
próprios se enfeitam como infantis que são
por toda a vida. A carta encíclica tenta
reler uma outra, de Paulo VI, de seu nome
Populorum Progressio (= O Progresso dos
Povos), publicada há mais de 40 anos. Não
faz dela, como mentirosamente foi anunciado,
uma leitura para o século XXI. Faz uma
leitura /actualização redutora. Corta-lhe o
que ela teve historicamente de asas.
Domestica-a. Obriga-a a ser como uma galinha
no galinheiro. Admito que o papa Bento XVI
não o faça por maldade. Fá-lo por
incapacidade. O Poder monárquico absoluto
que ele é, domestica e castra tudo o que
toca. Até o seu predecessor Paulo VI sai
domesticado e castrado nesta carta encíclica
de Bento XVI. Que o papa Bento XVI é, ele
próprio, um intelectual domesticado,
castrado. Por isso, se sente tão a jeito no
pedestal. Terá até alguma pena de já não
haver na Cúria a famigerada Sede Gestatória,
tipo andor, para ele ser transportado nos
ombros dos seus embevecidos vassalos.
Vontade não lhe faltará de a restaurar e
reintroduzir nos usos e costumes papais. O
Poder monárquico absoluto não olha a meios.
Tudo lhe é permitido. Tudo lhe fica bem.
Tudo é tido pelos súbditos como sagrado.
Tudo é tido como divino. Nada é Humano,
muito menos Humano integral. Os actuais
gravíssimos problemas sociais e ecológicos
do nosso Planeta e dos Povos, na sua
esmagadora maioria, Povos empobrecidos, são
tocados apenas ao de leve, como um pano
húmido sobre uma mesa com ténues vestígios
de pó. A carta encíclica não vai à raiz
deles. É "Caritas in veritate", não é "Veritas
in caritate"; é Caridade(zinha) na verdade,
não é Verdade Amada e Praticada na Caridade.
Aquela Caridade que nasce da Liberdade,
fruto da Verdade Amada e Praticada, que
nunca chega a ser Caridadezinha. A
Caridadezinha é um exclusivo do Poder
monárquico absoluto e do Poder Político
/Eclesiástico em geral. Para o papa Bento
XVI ir à raiz dos problemas deste nosso
Tempo, teria ele próprio de erguer a sua
tenda entre os últimos da pirâmide social.
Viver organicamente com eles. Assim, do alto
do seu pedestal, não enxerga nada de
Essencial. Quando muito, vê umas manchas,
umas sombras e faz patéticos apelos a vagos
reformismos, que cheiram a Moralismo que
tresanda. Uma lástima. Pura retórica papal,
para ninguém ouvir, à excepção de alguns
intelectuais católicos que, por dever de
ofício, eles próprios uma espécie de
papas-em-ponto-pequeno, não podem deixar de
ler e de comentar, porventura, até
reproduzir algumas das suas frases, nas
aulas universitárias sobre a chamada
"Doutrina Social da Igreja". Escrevo tudo
isto com lágrimas. Porque o papa Bento XVI
está manifestamente nos antípodas de Jesus,
o Crucificado na Cruz do Império e do Templo
coligados. Não. Não exagero no que acabo de
escrever. Pelos frutos se conhece a árvore.
E os frutos do papa Bento XVI estão aí bem à
vista de toda a gente. Limpem os vossos
olhos de toda a idolatria papal, olhem para
a Roma e a Cúria Romana despojados das
lentes ideológicas idolátricas que, desde a
infância, as catequeses paroquiais alojaram
neles para sempre - será que ainda conseguem
realizar esta libertação? - e verão a
realidade nua e crua, tal e qual ela é.
Verterão lágrimas como eu verto. Porque o
ministério de Pedro /Maria Madalena, melhor,
o ministério de Maria Madalena /Pedro,
indispensável na Igreja, a que nasceu do
Movimento das, dos de Jesus, está nos
antípodas do que vemos hoje no papa Bento
XVI. Por isso é que o ministério de Maria
Madalena /Pedro deu-nos Jesus, o Evangelho
Vivo entre nós e connosco de Deus-Abbá,
e o do papa Bento XVI dá-nos cartas
encíclicas como esta, vazias de Jesus, a Boa
Notícia de Deus-Abbá, e cheias de
Nada, de Coisa Nenhuma, apenas palavras,
palavras, palavras que o vento leva. Os do
Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado têm
razões de sobra para esfregarem as mãos de
satisfação. E de brindarem ao papa que tão
relevantes serviços lhes presta e ao deus
deles e dele, o Senhor Dinheiro, o Ídolo dos
ídolos, intrinsecamente mentiroso e
assassino.
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
1
Prezado
senhor padre Mário
Esperava um
comentário à encíclica com argumentação
baseada nas palavras da encíclica. Palavra
contra palavra e não posição contra posição.
Assim cai-se no panfletário e na
desinformação, própria também da
instituição. De tudo nos podemos aproveitar
para puxar a brasa à nossa sardinha.
Enquanto os cristãos se atacarem deste modo
não poderá haver paz. Ser-se contra a
monarquia, mas ter-se o rei na barriga é
incoerência. A crítica é positiva se
contemplar também a verdade dos outros. A
instituição é o pecado original da
humanidade. Mas sem pecado não há graça.
Temos que nos juntar todos no sentido de
defender a pessoa humana no respeito por
todos e não viver do ataque de uns aos
outros. Isso já há muita gente a fazê-lo. Se
os bons são assim então viva os maus! Toda a
instituição vive do roubo que faz ao
indivíduo. Isto porém não justificará o caos
como não justifica a opressão do homem pelo
homem através das instituições. Todo o
esforço empenhado no sentido de domesticar
as instituições sociais, políticas e
religiosas é bem justificado pelo que a
História nos tem provado. A respeito da
Verdade, ela está sempre do outro lado e não
do meu!... Atenciosamente
António
Justo
PS. Pena não
poder postar directamente este comentário no
seu site!
2
Pena que o António Justo não tenha sido
capaz de ler esta minha crónica teológica na
postura de quem se deixa surpreender.
Esperava outro tipo de comentário? Então
deveria alegrar-se por ter deparado com um
comentário que não esperava. O "novo" nunca
é esperado. Esperado, é sempre mais do
mesmo. E disso, já devemos andar mais do que
fartos. Pena que não se tenha alegrado pelos
caminhos por onde o Espírito me conduziu. Os
seus caminhos não são os nossos caminhos. Se
a encíclica está mal desde o título, o que
esperava que eu dissesse do texto que
decorre dessa formulação inicial? De resto,
cabe a cada qual ler o texto integral, como
eu li. E, só depois, falar. Será que já leu
o texto integral?
Seu,
Mário
2009 JULHO 07
E ainda dizem que há
crise. E que ela é mundial. Olhem só para o
que aconteceu ontem, dia de semana e
supostamente de trabalho, em Madrid, no
estádio de futebol, o dos milhões, do Real
Madrid. Com o amoral Cristiano Ronaldo,
português da Madeira - para quando a
independência desta "colónia", travestida de
Região Autónoma?! - como protagonista. Os
matutinos de hoje, com a honrosa excepção do
PÚBLICO, enchem a primeira página com a foto
do amoral Cristiano e falam de 80 mil
pessoas nas bancadas, ululantes e
dementes-dementes. E os três canais
generalistas do nosso país transmitiram tudo
em directo, na primeira parte dos
telejornais, ao final da tarde de ontem. Uma
overdose sem precedentes. Amanhã, quando o
amoral Cristiano começar a fazer das dele e
a querer, sem o conseguir, que os outros dez
atletas do Real que ganham uma "esmola" à
beira dele, joguem para ele brilhar como a
estrela da companhia no relvado, a mesma
multidão gritará, ululante e demente-demente,
mas então de raiva e de fúria. São assim os
ídolos. Têm todos pés de barro. E caem,
quando menos se espera. Os aplausos de ontem
converter-se-ão então em insultos, os mais
soezes. Nem a mãe dele escapará. E será
constantemente chamada à colação, por ter
parido uma tal espécie de ídolo, que outra
coisa Cristiano Ronaldo não quis ser, desde
menino. Martin Luther King, o da América
imperial, também teve um sonho. O sonho de
acabar com o Império do Senhor Dinheiro, que
fabrica diariamente vítimas aos milhões, a
começar pelos negros. E fabrica pobreza e
pobres em massa, indiscriminadamente. Foi
assassinado, porque quis que o seu sonho se
tornasse realidade. O Senhor Dinheiro não
lhe perdoou, como não perdoa nunca a quem se
lhe opõe e desmascara os seus nefandos
crimes. O amoral Cristiano perfila-se nos
antípodas de Luther King. É um idólatra
convicto. Espantou-me ver o humilde Eusébio
envolvido em todo este obsceno espectáculo.
Mas nem ele resistiu a ser aplaudido, agora
que é uma mera recordação do passado. Tenho
de concluir, com tristeza, que também ele
não soube ser outra coisa na vida que
jogador de futebol e um homem do futebol, o
dos milhões. Enquanto jogador, não foi. Mas
depois consentiu que o Senhor Dinheiro se
apoderasse do seu nome e o transformasse em
ídolo. O menino moçambicano, que o obsceno
regime salazarista manipulou à vontade,
inclusive, contra os seus irmãos africanos
que lutavam de armas na mão pela
independência do seu chão, acabou cativo,
para o resto da vida, do futebol dos
milhões. E ele prestou-se, tem-se prestado,
embevecido, a fazer todos os papéis que ele
lhe impuser. Ontem, impôs-lhe que estivesse
a apadrinhar a chegada do amoral Cristiano e
ele não se fez rogado. Esteve. Como mais um
amoral. Em grande destaque. Sem o mais
pequeno sinal de inquietação e de
preocupação. A ingenuidade é,
indiscutivelmente, a porta de entrada para a
idolatria. O Senhor Dinheiro aposta tudo,
todos os seus trunfos, na promoção da
ingenuidade das pessoas e dos povos do
Mundo. Ele sabe que só com pessoas e povos
ingénuos, pode continuar a ter o Mundo nas
suas mãos. A ingenuidade faz parte da
demência-demência dos povos. Rima com
menoridade. Também rima com Maioridade e com
Liberdade, mas, aqui, como antónimos. Onde
estiverem ingenuidade e menoridade, não
estão, não podem estar, Maioridade e
Liberdade. E o Senhor Dinheiro, o que mais
teme, são pessoas e povos em estado de
Maioridade e de Liberdade. Tudo o que faz, e
muito é, dia e noite, tudo quanto investe, e
muito é, é exclusivamente para perpetuar,
geração após geração, a ingenuidade e a
menoridade das pessoas e dos povos. O
espectáculo de ontem em Madrid, transmitido
em directo para muitas partes da Europa e do
resto do Mundo, totalmente vazio de ideias,
de palavras com Projecto, de gestos com um
mínimo de Cultura e de Humanidade, com um
mínimo de Política Praticada, foi mais um
dos muitos indecorosos espectáculos que o
Senhor Dinheiro promove, todos os dias, sem
nunca parar, em toda parte. Madrid teria
dado uma lição ao Mundo, se tivesse deixado
o estádio do Real às moscas. Não deixou. E
era um gesto tão simples. Sem custos. Ao
correr a encher o estádio, para aplaudir o
amoral Cristiano, revelou que continua a ser
a capital de um Estado ainda sem valores,
ainda em estado de ingenuidade e de
menoridade. Sem capacidade de discernir
entre o futebol, como desporto, como prática
desportiva, e o futebol dos milhões. E ainda
dizemos que somos uma Europa civilizada. O
Império romano, no seu tempo, já foi assim.
Vae, victis! Ai dos vencidos! Somos
seus prosseguidores, no século XXI. Parece
que ninguém se aproveita. Ou muitos poucos
se aproveitam. Nem os nossos intelectuais,
já de si, tão poucos em número, menos ainda
em qualidade. Onde se meteram, que ninguém
os vê? Puseram-se todos ao serviço do Senhor
Dinheiro? Porque não se atrevem a ser,
século XXI adiante, prosseguidores de
Sócrates, o da Grécia antes de Jesus, o
filósofo da Maiêutica, intelectuais
orgânicos, pobres por opção, a viverem entre
as populações das periferias e com elas?
Porque se vendem ao Senhor Dinheiro e se
dizem ateus, quando não passam de
praticantes da Idolatria, a do Senhor
Dinheiro? Porque não se atrevem a regressar
a Jesus, o de Nazaré, que o Império e o
Templo coligados mataram na sua Cruz, porque
ele punha bem a nu que o Deus deles era um
Ídolo, era o Senhor Dinheiro? Porque não
prosseguem, devidamente actualizadas, as
suas Práticas Políticas e Económicas
Maiêuticas e os seus Duelos Teológicos
Desarmados? São também ingénuos e de
menoridade, apesar de intelectuais? Se não
distinguem entre Deus e o Dinheiro; se não
descobrem o Ídolo dos ídolos que é o Senhor
Dinheiro, nem distinguem entre Poder
Político e Política Praticada, nem entre
Religião e DeusVivo, a Fonte de todo o ser,
mais íntimo a nós do que nós próprios, ainda
se podem dizer intelectuais? Não acabam por
ser tão amorais quanto o amoral Cristiano
Ronaldo? Crise Mundial? Onde está ela? Quem
a viu ontem? O Senhor Dinheiro não dá ponto
sem nó. É a inteligência demente-demente. E
nunca dorme! Convenceu o Mundo de que há uma
crise mundial, para melhor poder destruir
por completo todos os valores conquistados
com suor, lágrimas e sangue, por parte dos
trabalhadores e dos Povos. Ele percebeu que,
de cedência em cedência, aos direitos dos
trabalhadores e dos Povos, acabaria reduzido
a mero instrumento ao serviço dos Povos do
Mundo. E desencadeou a sua Primeira Grande
Guerra Mundial Financeira. Ela aí está em
força. Da noite para o dia, o Senhor
Dinheiro acabou com todos os valores
conquistados. As leis mais avançadas e mais
humanistas foram todas para o caixote do
lixo. Tudo foi incinerado. Com o aval dos
Executivos das nações e dos Executivos das
Igrejas /Religiões. Não só não lhe
resistiram, como ainda correram a
oferecer-lhes milhares de milhões de euros e
muita caridadezinha. Tudo o Senhor Dinheiro
devora. E, agora, devora também as pessoas e
os Povos. Não precisa de os matar. Basta
roubar-lhes a identidade, a alma. Basta
manter as pessoas e os Povos em estado de
ingenuidade e de menoridade, por toda a
vida, uma geração após outra. É o que está a
fazer com visível sucesso. O final do dia de
ontem, em Madrid, é disso acabado exemplo.
Sem que se levantem vozes de alarme, de
sentinelas. Não há sentinelas na cidade. Já
que até as sentinelas - os intelectuais e os
teólogos - se passaram para o Senhor Deus
Dinheiro. Regredimos, quando era imperioso
ter dado passos em frente. O Grande Capital,
o Senhor Dinheiro, está agora ao comando do
Mundo. Veio para ficar. Cabe aos Povos
acordar e dar um esticão global.
Desempregados de todo o Mundo, uni-vos!
Erguei-vos em Insurreição Desarmada. Prendei
o Senhor Dinheiro. Amarrai-o bem. E, se for
necessário, decapitai-o. Para que até os
seus gestores e os seus executivos recuperem
o Humano, deixem a demência-demência e
cresçam em Sabedoria e em Graça, em
Maioridade e em Liberdade. A mim, já me
encontrareis a viver na trincheira. Vinde!
Derrubemos esta perversa Ordem Mundial do
Senhor Dinheiro!
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
2009 JULHO 06
Porque no
próximo domingo, 12 de Julho 2009, tenho de
participar ao vivo numa sessão de
apresentação do livro AURORA DE POETAS, no
Convento San Payo, em Vila Nova de Cerveira,
pedi às companheiras /companheiros da
Comunidade jesuânica de Base de Macieira da
Lixa que o nosso encontro mensal,
habitualmente, ao segundo domingo, fosse
antecipado para ontem. As pessoas foram
contactadas, uma a uma, todas concordaram e
o encontro realizou-se ontem. Um encontro
que ficará para sempre na Memória das, dos
que o fizemos e na Memória dos Povos, já
que, no Mundo da Graça e da Verdade, que é o
Mundo do Espírito de Jesus, nada se perde,
tudo permanece em contínua transformação, de
resto, a única maneira de tudo o que é
Essencial permanecer. O Institucional, por
demasiado pesado, por demasiado poderoso,
por demasiado arregimentado, por demasiado
inamovível, por demasiado formatado, dura
apenas até que surja o único tsunami capaz
de o derrubar, que é nada mais nada menos
que o tsunami da Graça e da Verdade, ora
brisa, ora ciclone; ora beijo, ora espada;
ora festa nos cabelos, ora
trovão-e-raio-fulminante; ora abraço, ora
chicote; ora Mesa Partilhada, ora Deserto;
ora Liberdade, ora Insurreição. Muito menos
o Institucional é alguma vez o tsunami, que
isso é um exclusivo do Mundo da Graça e da
Verdade, por isso, o único fecundamente
subversivo, conspirativo, todo sopro, todo
movimento, que Poder algum, nem mesmo a
trindade dos Poderes que actuam na História
como um só - o Poder do Dinheiro Acumulado e
Concentrado, ou Poder Financeiro, o Poder
Religioso-Eclesiástico e o Poder Político ou
Império - pode destruir, mesmo que chegue a
matar o corpo das suas inúmeras vítimas,
hoje milhares de milhões, com tendência
ainda a aumentar mais e mais, cada dia que
passa, ou mesmo que chegue a ostracizar e a
matar o corpo das, dos Profetas que o
desmascaram e denunciam como o Perverso
Organizado, como o Ídolo dos Ídolos ou a
Idolatria, e que, felizmente, nunca chegam a
deixar-se seduzir por ele, pelo contrário,
sempre lhe resistem até ao sangue e o
combatem sem descanso, com a sua presença
sempre activa e desarmada, até que ele seja
derrubado de vez. De modo que, em seu lugar,
possa crescer o Humano progressivamente
habitado pela graça e pela verdade, até
alcançar o pleno estado de Maioridade e de
Liberdade, que atingiu já em Jesus.
Escrevesse eu esta minha crónica teológica
no estilo literário Evangelho, e escreveria
que no Encontro de ontem éramos cinco mil,
que é o número, com a sua base cinco, a que
o estilo literário Evangelho habitualmente
recorre, para dizer a Comunidade do
Espírito, o mesmo de Jesus, feita de graça e
de verdade, por isso, nos antípodas do
Institucional, todo o Institucional,
Eclesiástico que ele se diga; uma comunidade
socialmente quase invisível aos olhos, uma
comunidade-Ninguém, constituída apenas por
algumas, alguns Ninguém, já que até nenhum
daqueles inúmeros Ninguém que ainda vivem
com aspirações a virem a ter um lugar no
Institucional, não lhe querem pertencer, não
só porque ela não lhes dá garantia de
carreira e de progressão na carreira, como,
ainda por cima, pode pôr em risco o emprego
ou o subsídio de desemprego que recebem, bem
como o destacado lugar que usufruem na
família de sangue, no restrito grupo dos
amigos, no partido político, na paróquia, no
clube, ou mesmo pôr em causa a estima e a
consideração que usufruem por parte dos
vizinhos, o bom nome, o prestígio, a
admiração e a caridadezinha que recebem dos
vizinhos e de instituições da dita. A casa e
a mesa onde estivemos reunidos foram a casa
e a mesa da Comunidade Jesuânica de Base de
Macieira da Lixa, simultaneamente, casa de
Maria Laura, a presbítera não-ordenada que
habitualmente preside à pequenina
Comunidade, na continuidade histórica da
primeira pequenina comunidade jesuânica de
base, iniciada, pouco tempo depois do ano 30
desta nossa era comum, o ano da Morte
/Ressurreição de Jesus, na casa da mãe de
João Marcos, essa mesma Comunidade que está
na origem do Evangelho de Marcos, a única
que preservou o Essencial do Ninguém dos
Ninguém, Jesus, o de Nazaré, e do seu
Movimento político-social radical e
universalmente libertador do Humano, de todo
o Humano, nomeadamente, depois que ele, em
consequência da sua Morte Crucificada na
Cruz do Império e do Templo coligados, se
tornou, para todo o sempre, o Maldito dos
malditos, um Nome absolutamente
impronunciável por bocas humanas, porque só
o simples facto de o dizermos com todo o
nosso ser, não apenas da boca para fora, já
abala o Institucional, todo o Institucional,
e o deixa à beira de um verdadeiro ataque de
nervos, tão subversivo e conspirativo ele é!
Maria Laura encheu o Encontro que se
prolongou das três da tarde até à hora da
Sopa Partilhada, por volta das 8, ao final
da tarde. Inclusivamente, foi ela quem
Partiu o Pão e o Vinho in persona Iesus
(na pessoa de Jesus), foi a sua boca e as
suas mãos, nas palavras que, nesse Momento
Único e Irrepetível, nos disse e nos gestos
que fez para nós e connosco. Palavras e
gestos que nos dão a Comer o
Pão-Corpo-de-Jesus e a Beber o
Vinho-Sangue-de-Jesus, para sermos, nós
também, Pão Partido /Repartido que se dá a
Comer e Vinho Derramado que se dá a Beber,
em Práticas Políticas e Económicas
Maiêuticas e em Duelos Teológicos
Desarmados, as mesmas Práticas Políticas e
Económicas e os mesmos Duelos Teológicos de
Jesus. Maria Laura havia chegado de uma
Semana de intensa Missão, no Bairro Social
de Telheiras Sul, ao Campo Grande, em
Lisboa. De segunda a sexta-feira, foi
acolhida na casa das Irmãs Amélia e Júlia,
ambas Teresianas, que, há anos, se
despojaram do conforto, da segurança, da
ostentação, do requinte do respectivo
Instituto, em cujas
casas-fortaleza-e-palácio, se respira o
Institucional por todos os poros, e foram,
com autorização do respectivo Instituto,
viver pobres entre os pobres e com eles, num
andar de uma das torres mais ou menos
degradadas daquele Bairro. Elas próprias,
que já conhecem Maria Laura, de outras duas
vezes que ela lá passou, a primeira, comigo,
a segunda, já sozinha, como desta terceira
vez, convidaram-na e ela não se fez rogada.
Viajou sozinha, desde a Lixa, onde apanhou
um autocarro que a levou até junto da
estação do Oriente, em Lisboa, onde a
aguardava a Irmã Amélia, 77 anos de idade, a
rebentar Acção e Contemplação por todos os
poros. O Encontro abriu com o Canto "Crer
/Não crer em Deus", do meu livrinho
Canto(S) nas Margens, seguido de umas
breves palavras teológicas minhas de
saudação, a sublinhar que ali estávamos nós,
uns Ninguém, reunidos com o Ninguém dos
Ninguém, Jesus, o Crucificado na Cruz do
Império e do Templo coligados, inteiramente
disponíveis para prosseguirmos, hoje e aqui,
a sua via do Reino /Reinado de Deus, em
flagrante e em total oposição à via do Reino
/Reinado do Dinheiro Acumulado e
Concentrado, o Ídolo dos Ídolos, que, neste
século XXI e início do Terceiro Milénio,
consegue ter quase toda a gente com ele,
inclusive Igrejas e Religiões, cujos chefes,
enquanto tais, são todos seus sacerdotes,
funcionários-mercenários. Não
estranhássemos, então - disse-lhes eu nas
minhas breves palavras teológicas de
saudação - por sermos tão poucos, tão
ostracizados, tão desprezados, tão Ninguém,
uma vez que ao Ninguém dos Ninguém que é
Jesus, as pessoas não o querem, rejeitam-no,
e nem o seu Nome gostam de pronunciar, nem
de ouvir outras pessoas pronunciar com
convicção e estremecimento cheio de emoção,
como o Nome dos Nomes! Como era previsível e
expectável, Maria Laura tomou de imediato a
palavra e partilhou connosco e, e em nós e
por nós, com todos os Povos do Mundo, todas
as maravilhas que o Espírito de Jesus que a
habita e faz ser Mulher-para-os-demais,
realizou, durante estes dias vividos por ela
no Bairro das Telheiras Sul, através das
suas Mãos, das suas Palavras, sobretudo,
através da sua Presença Desarmada, por isso,
fecundamente despertadora e libertadora das
pessoas com quem esteve e que estiveram com
ela. E muitas foram. Pelo que nos partilhou
com emoção e a simplicidade da água que
brota da fonte, os seus encontros ao vivo
sucederam-se, de manhã à noite, ora em casa
das Irmãs, a cuja porta muitas pessoas vão
todos os dias bater e que logo se abre a
todas, crianças, adolescentes, mulheres,
homens, velhas, velhos que ainda conseguem
andar, ora na casa das pessoas,
nomeadamente, pessoas mais velhas e com
dificuldade de se deslocarem, a cuja porta
Maria Laura ia bater; e também com pessoas
mais novas que Maria Laura, sempre atenta e
toda Alegria transbordante, encontrava nas
ruas do Bairro ou na paragem do autocarro e
com as quais metia conversa e, logo, ia com
uma delas para onde ela ia. Foi assim, por
exemplo, com Luís, um jovem do Bairro, de
quem as outras pessoas fugiam, na paragem do
autocarro, e que Maria Laura nunca havia
visto antes, nem ele a ela. Ao ver que as
pessoas o evitavam e se afastavam dele,
Maria Laura fez-se logo próxima dele. E
acabou por ir com ele e comungou, durante a
viagem de ida e volta, toda a sua vida, como
uma parteira-com-amor-de-mãe. Ele precisava
que o ajudassem a conseguir uma consulta no
Centro de Saúde. E ela foi e veio com ele.
No Centro de Saúde, sem nunca lá ter estado
nem conhecer ninguém, mexeu, com a sua
alegria e entrega, as pessoas, e acabou por
conseguir chegar à fala com uma das médicas
de serviço e Luís lá foi consultado. É um
toxicodependente que tomou a irrevogável
decisão de deixar a droga, antes que a droga
se apodere dele por inteiro. Ele sabe que,
ou deixa a droga, ou uma jovem estudante da
universidade que há tempos o conheceu e
acabou sua namorada, desistirá
definitivamente dele. E ele não quer perder
nunca mais aquele amor, porque nem a mãe
dele que tem vários filhos, um de cada pai e
o dele é um pai alcoólico, de manhã a manhã,
alguma vez o amaram. De novo no Bairro, o
jovem, ainda antes de chegar a noite, foi
bater à porta das Irmãs, por Maria Laura.
Apresentou-se com a sua namorada, para que
ambas se conhecessem e conversassem. E tudo
será novo, daqui para a frente, porque
aquele foi o primeiro dia do resto da vida
de Luís. Sobre a Mesa da Comunidade, para
além do Pão e do Vinho, estava também um
livrinho de poemas. No seu Partilhar
connosco a Missão que havia Acontecido, esta
semana, Maria Laura, explicou-nos que livro
era aquele e porque é que ele estava ali,
como Parte Substantiva da Mesa Partilhada.
Leu alguns dos poemas do livro e contou o
encontro de várias horas que teve a graça de
ter na habitação de um casal de cegos, ambos
já na casa dos oitenta anos de idade,
frescos ainda como uma alface. Quando lhes
bateu à porta e António Páscoa, cego desde
os dez anos, ouviu a voz dela, logo
estremeceu de emoção e abriu a porta, para
que ela entrasse. A voz que ele ouvira era
diferente, soava-lhe carregada de Poema, de
Ternura, de Alegria, de Paz Combativa, de
Força Libertadora. Não se enganou. Que os
ouvidos dos cegos vêem bem melhor que os
olhos dos que se têm na conta de serem
não-cegos. E de facto não são, mas quase
sempre, só para verem os mosquitos que estão
nos olhos dos demais, sem nunca enxergarem
as traves que têm nos seus próprios, e que
os leva a filtrarem mosquitos e a engolirem
camelos. António Páscoa e a sua
mulher-companheira são cegos, mas cegos que
vêem pelos ouvidos e pelas mãos. Vêem o que
vai dentro das pessoas. E distinguem bem o
cordeiro do lobo, inclusive, quando o lobo
se veste de cordeiro. Ouvimos, emocionados,
como se tivéssemos estado lá, o testemunho
vivo que Maria Laura partilhou sobre este
encontro, quanto ele a evangelizou a ela e
ao casal de cegos. Os três foram ouvintes da
Palavra-com-Sopro-Libertador. Tão
libertador, que, a dado momento, António
Páscoa, já depois de ter contado a espantosa
história da sua vida de cego andarilho por
todo o lado com a sua viola e a sua voz de
Poeta a cantar romances populares e quadras
que ele próprio escrevia e interpretava,
levantou-se, lesto, saiu da sala da casinha
onde se encontravam os três, como num
Cenáculo, e foi directo a outra pequena
divisão da casa e aparece, logo depois, com
uma viola na mão. Afinou-a e pôs a cantar
para Maria Laura e a sua Mulher, o que
emocionou Maria Laura até às lágrimas e
levou a Mulher a dizer, por entre o espanto
e a emoção, "Oh! Homem, que há mais de
trinta anos eu não te ouvia cantar!" A
presença maiêutica de Maria Laura, o seu
afecto, as suas mãos nas mãos do senhor
António Páscoa e nas mãos da sua Mulher, as
suas gargalhadas, as suas perguntas
maiêuticas, a sua Ternura na voz e nos
gestos, acordaram de vez o Poema que é a
vida sofrida deste Homem. E ele nasceu de
novo. Nunca mais será o mesmo Homem. Agora,
é um Homem acordado, em quem a vida rebentou
e canta. O Poema vivo mora naquela casa. E o
Bairro irá saber dele. E haverá Páscoa,
através deste Homem, ele próprio, de seu
nome, António Páscoa. Da próxima vez que
Maria Laura vá ao Bairro prosseguir a Missão
agora iniciada, haverá Encontro na casa
deste Casal de
Cegos-que-vêem-o-Invisível-e-escutam-o-Essencial.
O próprio António Páscoa Partirá /Repartirá
Poemas como quem Parte /Reparte o Pão que se
dá a Comer e o Vinho que se dá a Beber para
a vida de muitas, muitos. Todos, no
Encontro, vibrámos no Espírito de Jesus, e
comemos o Pão Partido por Maria Laura e
alguns Poemas de António Páscoa, ditos por
ela e por mim. E cantámos, cantámos muito,
como pequenas pausas, no decurso do diálogo
que foi intenso, irreprimível. Nem demos
pelo tempo passar. Todos nos experimentámos
Eucaristia Viva e é assim que andamos por
aí, nascidos do mesmo Espírito de Jesus e
enviados por Ele em Missão a todo o Mundo. A
Graça e a Verdade são o Futuro da
Humanidade. Porque são a Graça e a Verdade
que tecem o Humano, até o tornarem
integralmente Humano, em estado de plena
Maioridade e de plena Liberdade. A
Idolatria, a do Dinheiro Acumulado e
Concentrado, o Ídolo dos Ídolos, hoje ainda
mais por aí à solta, em todo o seu Poder
esmagador e assassino, pode manter-se por
muitos mais séculos, mas já está condenada
ao Nada. Desde o Momento em que ela Matou na
Cruz do Império e do Templo coligados,
Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o
Ninguém que nasceu e cresceu em Nazaré, cuja
Sabedoria Teológica e cujas Práticas
Maiêuticas, os da Idolatria do Ídolo dos
Ídolos não suportam e acabaram por fazer
dele o Ninguém dos Ninguém, ao matá-lo na
Cruz do Império e do Templo coligados.
Depois de consumarem esse Crime dos Crimes,
e para que nem os Ninguém do Mundo que eles,
os da Idolatria, fabricam, todos os dias,
aos montes, soubessem dele, de Jesus, muito
menos, prosseguissem as suas mesmas Práticas
Políticas e Económicas Maiêuticas e os seus
mesmos Duelos Teológicos Desarmados,
riscaram definitivamente o seu Nome da
História e, em seu lugar, colocaram um
mítico Cristo pregado numa cruz, e é esse
que eles, pelo menos, desde o século IV, dão
em adoração a toda a gente e em tudo quanto
é sítio. Cumpre-nos resistir até ao sangue a
esta Mentira, a esta Montagem, a esta
Idolatria. Cumpre-nos sermos das, dos de
Jesus, outros Ninguém como ele e com ele.
prosseguidores das suas Práticas Maiêuticas
e dos seus mesmos Duelos Teológicos. Nem
que, por via disso, sejamos progressivamente
ostracizados, postos de lado, excluídos,
odiados e vejamos o nosso nome ser
enxovalhado como infame. O Futuro, embora
não pareça, passa por aqui, por vidas assim.
Não passa, nunca passará, embora pareça,
pelas vidas das Opulências e das Eminências,
todas envenenadas pela Idolatria. Nem pelas
vidas dos muitos e muitas que se deixam
seduzir e enganar pela sua Mentira, pela sua
Hipocrisia, pelo seu Ídolo dos Ídolos, o
Dinheiro Acumulado e Concentrado.
Nota: Se
quiserem comentar, façam-no por e-mail para
padremario@sapo.pt
2009 JULHO 03
Manuel Pinho acaba de
perder o lugar de ministro da Economia do
Governo socratino. O seu chefe no Executivo
do país, politicamente muito pior do que
ele, e muito mais politicamente prejudicial
para o país do que ele, demitiu-o quase em
directo na tv, durante o debate do estado da
nação, ontem, no Parlamento. Demitiu-o. Não
se demitiu. Que ele, o primeiro-ministro,
pode demitir os ministros. Não pode ser
demitido por nenhum deles. Nem por eles
todos juntos. É como o papa de Roma. Pode
exonerar /excomungar /suspender quem quiser,
até os outros bispos que presidem às Igrejas
locais. Não pode ser exonerado /demitido
/excomungado por ninguém. Nem por Deus, que
até em Deus, o da Cúria Romana, não o de
Jesus, obviamente, o papa de Roma manda!
Manuel Pinho perdeu o lugar e a pasta da
economia. Mas, em troca, ganhou, para já, um
par de chifres que ele próprio, em pleno
debate no Parlamento, colocou na sua testa,
um de cada lado, num gesto, cuja fotografia,
para nossa vergonha nacional, está a correr
mundo e faz, naturalmente, manchete nos
matutinos portugueses de hoje. A fotografia
é a mais eloquente imagem do Governo
socratino que tem dado cabo do país.
Impunemente. Todo o Governo deveria
demitir-se, juntamente com Manuel Pinho. Não
se demitiu. O Poder Politico é assim.
Mentiroso, perverso, hipócrita, assassino.
Nenhuma fotografia diz mais e melhor tudo o
que o Poder Político é, do que a fotografia
do gesto do agora ex-ministro Manuel Pinho.
Não foi Manuel Pinho que ganhou um par de
chifres. Ele apenas explicitou em gesto
pessoal o que o Poder Político, todo o Poder
Político, é. Também o Poder Político da
chamada Oposição, que só o é, porque quer, a
todo o custo, derrubar o Executivo, não para
acabar com ele de vez, mas para ser
Executivo em vez dele, o que sempre rende
mais uns milhares de euros por mês e muitos
mais privilégios /mordomias, até ao fim da
vida de quantos um dia foram o Executivo do
país. Basta olharmos para todos os
ex-governos do país, os lugares que passaram
a ocupar, depois que se tornaram
ex-governos. Os deputados da Oposição, do
PSD ao CDS e aos Verdes, porque Poder
Político em exercício na Oposição, são todos
da mesma natureza, sem tirar nem pôr. Todos,
assumam-no ou não, são Manuel Pinho. Todos
são, sem tirar nem pôr, os principais
chifres políticos do Poder
Económico-Financeiro, no Executivo ou na
Oposição. Não pensem que algum deles se
aproveita. Nenhum deles se aproveita, da
Esquerda à Direita. Todos são os chifres
políticos do Poder Económico-Financeiro,
mais rendilhados, se da Esquerda, chame-se
Louçã ou Jerónimo, mais brutos, se da
Direita, chame-se Sócrates, ou Manuela
Ferreira Leite. Nenhum tem salvação. Porque
são todos, mais camuflados ou mais
explícitos, os chifres políticos do Poder
Económico-Financeiro que nos descria e
devora a alma, a identidade humana. Sei que
escandalizo com estas minhas palavras. E
que, por as escrever, ganharei ainda mais
inimigos. Porque, infelizmente, não
suportamos a Verdade que, se amada
/praticada por nós, nos faz livres. Tão
pouco suportamos a Liberdade, que vem como
fruto natural da Verdade amada /praticada.
Preferimos a Mentira. Amamos /praticamos a
Mentira que nos faz oprimidos,
subservientes, vassalos. Escravos, mas em
segurança. A viver a vida toda, na Prisão,
mas em segurança. E, quando se prefere a
segurança, a rotina, o sempre-o-mesmo, todos
os dias, a tudo o mais, não suportamos a
Liberdade que vem como fruto natural da
Verdade amada /praticada. Estas minhas
palavras, se acolhidas /praticadas,
conduzem-nos pela via da "porta estreita",
pela qual só entram os que optaram por ser
pobres ou não-ricos, por toda a vida. Por
outras palavras, os que optaram por ser
Humanos, simplesmente Humanos, e por toda a
vida. É a via da "porta estreita" que poucos
acertam com ela e menos ainda aceitam entrar
por ela. A esmagadora maioria prefere a via
da "porta larga", tão larga, quanto as suas
ambições. Tornam-se monstros, se lhes derem
oportunidade para isso, mas monstros que
impõem reverência, culto, vénias. São
monstros com o mundo inteiro a seus pés. À
excepção dos que todos os dias frequentam a
via da "porta estreita", que lhes resistem e
os denunciam. São ricos, são poderosos, são
clérigos, são reverenciados, são temidos,
são cultuados, são idolatrados pelas
populações, mas são monstros. São um
desastre do tamanho dos seus privilégios, da
sua fortuna, do seu Poder. Não lhes invejo o
estatuto de que usufruem. Choro a sua
desgraça, a sua desumanidade, a sua
acelerada Descriação Humana. Infelizes que
são! Não pensem que estou sozinho neste meu
pensar-viver assim. Posso ter contra mim,
mais de meio Mundo, ou mesmo (quase) todo o
Mundo, mas não estou sozinho. O extracto do
Evangelho (Marcos 6, 1-6) que será lido nas
missas de domingo, 5 de Julho 2009, o 14.º
Domingo do Tempo Comum, no dizer do
Calendário Litúrgico da Igreja católica
romana, é por aqui, por esta via da "porta
estreita" que vai. Por isso é que é o
Evangelho, ou a Boa Notícia. De Deus, o de
Jesus. Não de Deus, o do Império e do Templo
coligados. Um e outro, cada qual ao seu
jeito, sempre ao incondicional serviço do
Senhor Dinheiro que os financia e os descria
como Humanos, dia e noite, até ficarem
mercenários, sem entranhas, sem afectos. Até
ficarem chifres políticos e religiosos
/eclesiásticos do Senhor Dinheiro, o Poder
Económico-Financeiro, omnipotente,
omnipresente, omnisciente. Chifres em acção
e em movimento. Não Seres Humanos integrais.
Por isso, todos eles ferem, agridem,
amedrontam, subjugam, roubam, descriam,
oprimem e, finalmente, matam, quem se atreve
a ir pela via da "porta estreita" e lhes diz
que eles, em toda a sua opulência e
idolatria, são monstros, são assassinos. O
extracto é do Evangelho de Marcos, o
Evangelho mais incómodo para as Igrejas
todas. Porque nos testemunha Jesus, o da
"porta"estreita", quase em directo. E as
Igrejas, em particular, as suas hierarquias,
do que mais gostam é de frequentarem a
"porta larga" do Poder Eclesiástico e dos
Privilégios. Como tal, não podem com Jesus,
muito menos, com o Jesus do Evangelho de
Marcos, assim tão integralmente Humano e que
nos é apresentado quase em directo. Neste
extracto, Marcos constrói a narrativa
teológica da ida de Jesus à sua terra, a
Palestina, no seu todo, não apenas o pequeno
povoado de Nazaré, onde havia nascido,
trinta e poucos anos antes. É a segunda vez
que Jesus, em narrativa teológica, vai à sua
terra. Desta vez, é já depois de ter
constituído o grupo dos Doze que,
simbolicamente, representava então o novo
Israel, não apenas o Israel dos Judeus, mas
o de todos os Povos do Mundo. O gesto
político e teológico, ao contrário do gesto
de ontem, do então ainda ministro Manuel
Pinho, tem tudo de Abraço Universal,
Cósmico, até. Tem tudo de Ternura. Tem tudo
de integralmente Humano. Não tem nada de
chifres, não tem nada de Poder de um Povo
sobre os outros Povos, de um Homem /uma
Mulher sobre os outros homens /outras
mulheres. Não tem nada de agressão, de
violência, de exclusão. Vejam que até os
seus familiares de sangue, mãe incluída e
irmãos, perante esse gesto político e
teológico simbólico, subversivo
/conspirativo até mais não, saem todos em
busca de Jesus, para o deterem /amarrarem
como louco varrido, um louco, social e
politicamente, perigoso. A narrativa
teológica conta que Jesus, seguido pelos
discípulos, esperou pela chegada do sábado,
quando todos os Judeus, fiéis ao
Institucional, se congregavam lá (hoje,
diríamos, os fiéis à Cúria Romana e ao seu
chefe, e fiéis ao Império Financeiro, sempre
os mais perigosos, porque também os mais
fanáticos e mesmo mafiosos, ainda que eles
próprios se tenham na conta de que são as
melhores pessoas do Mundo!)). O congregar-se
lá era obrigatório, sob pena de excomunhão
/exclusão social. Jesus foi ao encontro
deles, para ensinar. Que atrevimento! Ir à
Sinagoga da sua terra ensinar, em lugar de
ser ensinado. Seria como hoje ir à missa ao
domingo pregar, em lugar de ir ouvir a
pregação do pároco ou do bispo residencial,
ou do papa de Roma! A Sinagoga, aqui no
relato, está por todas as sinagogas dos
Judeus espalhadas pelo país, a sua terra, e
pela diáspora, a terra dos não-Judeus. Os
Judeus estão aqui, na narrativa, por todos
os Judeus fiéis, que a frequentam todos os
sábados. A Lei de Moisés assim o dizia e
impunha. A sua entrada na Sinagoga - o
Institucional oficial - depois de ter
simbolicamente criado o Israel alternativo,
isto é, depois de ter destruído
simbolicamente o mito do Israel histórico,
que se via a si mesmo como o único Povo de
Deus, como o único Povo eleito de Deus e, em
seu lugar, ter criado o novo Israel de Deus,
que inclui todos os Povos da Terra, sem
exclusão de nenhum, já que todos, e não só o
Povo Judeu, são o Povo eleito /amado de
Deus, foi um escândalo intolerável em todo o
Israel. Foi como um tsunami político e
teológico, que fez implodir por completo a
Sinagoga, isto é, o Institucional e, com
ele, o Israel histórico, tal como ele até
então se auto-concebia. Jesus podia ter sido
de imediato assassinado, ali mesmo. Não foi.
Fizeram-lhe ainda pior. Desprezaram-no.
Trataram-no abaixo de cão. Como um filho de
Ninguém, que nem pai tinha. Como um louco
varrido. A partir daí, diga ele o que
disser, faça ele o que fizer, não é para ser
tomado a sério pelos do Institucional e,
mesmo pelos outros, sempre sedentos de algum
Institucional, laico que seja. É um louco,
dizem todos à uma. E está tudo dito. Para
mais, um louco desarmado, inofensivo, um
louco carregado de Ternura, como um
menino-servo, todo Entranhas de Humanidade,
todo Deus-Abbá-connosco-e-entre-nós
(é o que quer dizer a designação hebraica
/aramaica "filho de"). Por isso, totalmente,
inofensivo. Ora, perante alguém assim,
sem-Poder, sem-o-Institucional a cobri-lo,
Humano simplesmente, o Desprezo é a arma de
todos os que se têm por chico-espertos. E o
Desprezo mata mais do que a própria Morte, à
excepção da Morte Crucificada na Cruz do
Império e do Templo coligados. Que esta,
naquela cultura e naquela teologia, a da Lei
de Moisés, era a única que tornava "Maldito"
o homem que morresse nela. E, ser maldito,
era mais, muto mais do que ser morto. Era
ser para sempre banido da face da terra e,
até, da memória dos Povos. Nunca mais
semelhante nome seria pronunciado /lembrado
por nenhuma boca, nem mesmo pelos seus
familiares de sangue, os primeiros a
recusar-se a pronunciá-lo /lembrá-lo. É o
que os Judeus, conterrâneos de Jesus, fiéis
ao Institucional que ele havia
simbolicamente derrubado /abolido
/destruído, com a criação do grupo dos Doze
ou novo Israel que inclui todos os Povos da
Terra como o Povo eleito de Deus Criador,
nosso Abbá comum, lhe fazem. Desprezo
total. Até que chegue a Hora de os sumos
sacerdotes, seus máximos representantes, o
matarem na Cruz do Império e do Templo
coligados, numa aliança de Monstros, em que
a Besta do Poder Político e do Poder
Religioso mostra os seus chifres políticos
/idolátricos, na sua máxima potência
assassina. Essa Hora chegou, meses depois,
em Abril do ano 30 desta nossa era comum. E
ainda perdura, século XXI e terceiro milénio
além, sob outras formas, sob outros
disfarces. Mas com os mesmos chifres
políticos /religiosos /idolátricos,
mentirosos, assassinos, descriadores do
Humano. Neste desprezo total, ficamos a
saber, para alegria dos Empobrecidos e dos
Oprimidos do Mundo, e para vergonha dos do
Poder Político e do Poder Eclesiástico e dos
seus súbditos, que Jesus é "o carpinteiro
/artesão /camponês" e "o filho de Maria" (=
filho de Ninguém!); é também "irmão de
Tiago, de José, de Judas e de Simão"; e
ainda ficamos a saber que "as suas irmãs"
estavam a viver lá entre os fiéis ao
Institucional, agarrados ao mito do Israel
histórico, mentirosamente, auto-proclamado
"Povo eleito de Deus", em detrimento de
todos os demais Povos da Terra. Como se vê,
o extracto de Marcos que será lido nas
missas deste domingo, 5 de Julho 2009, não
pode ser, teológica e politicamente, mais
subversivo /conspirativo. Mas podem ficar
descansadas as pessoas católicas
praticantes, que o são do mesmo jeito dos
conterrâneos de Jesus, fiéis ao
Institucional, sem nunca se questionarem
sobre o que fazem, semana após semana, e sem
nunca perceberem a Idolatria em que andam
metidas, para sua doença e desgraça, em
permanente estado de Menoridade e de
Opressão, por isso, carne para alimentar o
Poder Político e o Poder Religioso
/Eclesiástico, mai-los seus chifres
políticos e religiosos. E porque podem estar
descansados? Porque os párocos que presidem
às missas, todos eles zelosos funcionários
/mercenários do Institucional eclesiástico -
se não fossem, já teriam sido excluídos,
expulsos, excomungados, rotulados como
loucos e ostracizados pelos chefes-mor do
Institucional, que para isso eles existem e
vivem vigilantes no terreno - estão
universitariamente bem preparados para
esconderem a Verdade que o Evangelho de
Marcos nos revela, nos põe a nu. Eles
próprios, de resto, estão interessados na
Mentira do Institucional, porque é graças a
ela que eles são o que são, temidos
/respeitados /idolatrados /financiados por
todos, inclusive, até pelos agnósticos e
pelos ateus e pelos não-praticantes que,
apesar de o serem, não se ensaiam nada de
lhes confiar as filhas e os filhos em idade
escolar, para que frequentem as catequeses
paroquiais de Mentira, as Missas paroquiais
de Mentira, as Confissões e Comunhões
solenes paroquiais de Mentira, os Crismas
paroquiais de Mentira. E ainda lhes pagam a
obrada todos os anos, e o folar pela páscoa,
que só para Jesus é que ela foi de Morte
Crucificada na Cruz do Império e do Templo
coligados, mas para os párocos católicos é
rentável negócio, um tal fartar, vilanagem!
Além disso, a própria tradução em vernáculo
do Evangelho que o Missal Romano impõe como
obrigatória para este e os outros domingos
do ano, é uma traição de todo o tamanho ao
texto original, escrito em grego antigo. Os
tradutores das Bíblias para vernáculo,
seguem-lhe as pisadas E as traduções que nos
vendem são um desastre mortal para quem as
lê. Se, depois, quem as lê, lê juntamente as
notas explicativas de pé de página, então
fica mesmo sem conserto. Nunca mais se
encontra. Fica, por toda a vida, na
alienação, na Mentira, a mais
infantilizadora e a mais castradora. Por
essas traduções e por essas notas, fica-se a
saber que, afinal, os irmãos e as irmãs de
Jesus não são nem uma coisa nem outra. São
apenas uns familiares próximos, já que
Jesus, "o filho de Maria" é, segundo essas
notas de Mentira, filho único, como, de
resto, agora está na moda nas famílias dos
países do Ocidente, certamente, por
contágio, já que os "bons" exemplos da
"Sagrada Família" são para serem seguidos...
A tradução /traição deste extracto chega ao
cúmulo de traduzir os termos gregos do
original, dynameis (no plural) e
dynamin (no singular) respectivamente
por "grandes milagres" e "milagre algum" que
Jesus teria feito ou não-feito. Qualquer de
nós, minimamente ilustrado, sabe que aqueles
termos gregos dão as nossas palavras
"dinamismos" , "dinâmicos" (no plural), e
"dinamismo", "dinâmico" (no singular).
Porque carga de água, na tradução do
Evangelho, os tradutores escolheram os
termos "grandes milagres" e "milagre algum"?
Com esta falcatrua retira-se todo o fecundo
e libertador Escândalo que é Jesus, o Ser
Humano integral, o que nunca se vendeu, o
que nunca traiu, o que nunca se fez Poder
Político, nem Poder Religioso, muito menos,
Poder Económico-Financeiro. Apenas Ser
Humano integral, por toda a vida! Não lhe
perdoaram esta ousadia, este atrevimento.
Muito menos, lhe perdoaram que ele
trabalhasse incansavelmente - é a Missão ao
serviço do Reino /Reinado de Deus, ou Ordem
Mundial alternativa - para que todos os
Povos da Terra fossem também assim, Seres
Humanos integrais, simplesmente, o mesmo é
dizer, Políticos Praticantes, Protagonistas
na História, senhores dos próprios destinos,
Povos, no mais íntimo dos quais, saibam-no
eles ou não, Deus-Abbá habita e
actua, como paradigmaticamente pudemos ver,
pelo menos, naquela plenitude, pela primeira
e única vez na História, em Jesus, o
carpinteiro, o filho de Maria. Só mesmo na
nossa Demência-Demência, é que podemos ir
por outro, que não Jesus. Tudo está aí
organizado para que vamos por outro. Seremos
Sapientes-Sapientes, se formos por Jesus e
pelo seu Projecto, pelas suas Práticas
Políticas e Económicas Maiêuticas e pelos
seus Duelos Teológicos Desarmados. Com
alegria. Como quem vê o Invisível que sempre
se faz visível, quando O vemos com o coração
sapiente-sapiente. Já sabem. É por esta via
da "porta estreita", a de Jesus, a da
Política Praticada, que procuro ir. Não pela
via da "porta larga", a do Poder Político e
a do Poder Religioso /Eclesiástico, menos
ainda, a do Poder Económico-Financeiro, a
dos chifres que agridem, mentem, caluniam,
desprezam, ostracizam, matam na Cruz do
Império e do Templo coligados. Venham daí,
que não se arrependerão. Seremos Humanos,
cada vez mais integralmente. Logo verão por
experiência própria.
Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt
COMENTÁRIOS:
1. Padre Mário,
Acabei de passar pelo seu diário, como faço
quase diariamente. Não resisto a manifestar
o meu desabafo. Considero que perde
credibilidade, ao meter no mesmo saco toda a
gente, isto é, todos os políticos. O P.
sabe, eu sei que sabe, que não são todos
iguais. Que há responsáveis pelo estado a
que isto chegou. Que não têm todos os mesmos
objectivos. Há os que não têm alma nem
princípios e há os que lutaram toda a sua
vida e continuam a fazê-lo ao lado dos que
menos têm. São os que diariamente são
marginalizados, "amachucados", silenciados,
discriminados, porque têm alma e princípios.
E depois vem uma pessoa (o P.) assumidamente
defensor de um outro paradigma, insultar. É
caso para dizer que se de um lado faz vento
do outro lado chove! De resto, esta sua
opinião vem sendo defendida
sistematicamente, esquecendo-se que os bois
têm nome... Lamento.
José
2 Caro José
Bom domingo.
Li e coloquei o seu comentário no local
respectivo, no DIÁRIO ABERTO do dia 3 de
Julho2009. Apenas normalizei o tamanho e a
cor da letra. Eu bem adverti, antes da
entrada na página deste dia, que era melhor
não ler!!! Mas já, agora, se o José voltar a
ler a mesma crónica teológica com mais calma
e menos preconceito, é capaz de não ficar
assim tão “zangado” comigo. Experimente.
Porque, muito provavelmente, mesmo esses a
quem o seu comentário veladamente se refere,
serão os primeiros a não querer que se mude
de paradigma. E esse não será, afinal, o
“pecado” maior, do qual, infelizmente, nós
não queremos sair?
O meu
abraço, Mário
2009 JULHO 02
O bispo Ilídio Leandro,
titular da Diocese de Viseu, mostrou-se
radiante na última celebração a que presidiu
há dias, na sua catedral. Motivo: Tinha
diante dele, para lá dos habituais
frequentadores da catedral, três jovens que,
nessa celebração, iam ser ordenados por ele
presbíteros da Igreja de Viseu, mais outros
dois jovens que estão já à beira da
ordenação presbiteral, e ainda dois homens
casados que iniciaram o percurso para a
almejada ordenação de diácono permanente. À
primeira vista, o bispo Ilídio tem razões de
sobra para estar radiante. A Diocese de
Viseu é pequena em território e, neste
particular, faz ver às grandes dioceses,
como Braga, Porto ou Lisboa. Parece que os
jovens do interior do país se mostram mais
disponíveis para o ministério ordenado na
Igreja, do que os jovens das grandes
cidades. Li a homilia do bispo Ilídio
Leandro e não vibrei com a sua vibração. E
não é, certamente, por não ter estado lá, ao
vivo, na celebração. Acho, até, a vibração
do bispo despropositada. Francamente,
esperava mais dele, sobretudo, depois de
certas declarações suas, bem recentes, com
sabor a alguma saudável dissidência
episcopal, em relação a certas posições
disciplinares moralistas da Cúria Romana e
do seu actual chefe, o papa Bento XVI. Terei
de continuar a esperar. E é bem provável que
tenha de esperar sempre, sem nunca chegar a
ver, da parte do bispo Ilídio Leandro,
passos ousados, próprios de quem se diz,
como ele se diz, habitado pela plenitude do
Sacramento da Ordem e, consequentemente, do
mesmo Sopro, ou Espírito que habitou Jesus.
A razão é simples. É que o bispo Ilídio
Leandro, enquanto titular da diocese de
Viseu, preside à Igreja que está em Viseu,
mas a sua é sempre uma presidência própria
de um vassalo da Cúria Romana e do seu
actual chefe, o papa Bento XVI. Não é uma
presidência soberana, no mesmo Espírito de
Jesus. Deveria ser. Mas não é. Enquanto a
Cúria Romana existir como cúpula do Poder
Eclesiástico - é uma aberração haver Poder
Eclesiástico na Igreja que se reclama de
Jesus, mas que querem? E não é que nem os
bispos que presidem a Igrejas locais são
capazes de ver isso? Não é que todos eles
passam a vida a filtrar mosquitos e a
engolir camelos, e camelos do tamanho da
Cúria Romana? - jamais permitirá que os
bispos deixem de ser seus vassalos, e passem
a presidir com autonomia, no mesmo Espírito
de Jesus, à respectiva Igreja local.
Teríamos, finalmente, Igreja de Igrejas,
como sempre deveria ser a Igreja. Mas para
que tal sucedesse, primeiro, teria de morrer
e de vez - e ela só morre, se a matarmos - a
Cristandade que já dura, há mais de 16
séculos. Nunca ela deveria ter nascido, mas
já dura há mais de 16 séculos, sem que os
bispos que presidem a Igrejas locais se
rebelem contra esse Pecado
Institucionalizado. Ora, depois daquelas
pequenas dissidências do bispo Ilídio
Leandro, o núncio apostólico em Lisboa - uma
espécie de chefe de PIDE da Cúria Romana em
Portugal, cujo papel principal é vigiar
/controlar os bispos, o que eles dizem, o
que eles fazem, e mantê-la informada de tudo
ao pormenor - deve tê-lo chamado à pedra e
advertido. Nem precisou de ser ríspido nessa
advertência. Bastou chamá-lo a Lisboa, ou
aparecer-lhe pessoalmente em Viseu, sem
nenhuma notícia nos jornais e nas tvs, que a
Polícia secreta sempre actua sem ninguém
saber de nada, ou deixaria de ser secreta. A
partir desse momento, o bispo Ilídio
Leandro, como vassalo que é da Cúria Romana,
já não sabe onde se meter. E faz juras,
sobre juras, de que nunca mais cometerá
semelhantes "gafes". A partir daí, é um
funcionário eclesiástico da Cúria Romana, o
funcionário-mor, na Diocese de Viseu. Não é,
nunca mais, um bispo da Igreja, habitado
/conduzido pelo mesmo Espírito de Jesus. É
um bispo mais do mesmo. Sem Boa Notícia. Sem
nada que nos surpreenda. Como se não
existisse. Limitado a fazer funcionar a
empresa eclesiástica, que, assim, sem o
mesmo Espírito de Jesus, acaba por ser uma
transnacional mais, a maior de todas, porque
com sucursais em quase todos os países do
Mundo. Não fosse assim, e teríamos visto o
bispo Ilídio Leandro mais contido no seu
júbilo episcopal, por estar a ordenar de
presbíterio três jovens da diocese de Viseu
e por ter mais dois a um passo da mesma
ordenação e ter dois homens a caminho da
ordenação de diáconos casados. E seria mais
contido, porquê? Ora, porque, diante de uma
tal realidade, o bispo Ilídio Leandro
deveria mostrar-se profundamente interpelado
por estar ali só com homens na sua frente, e
nenhuma mulher, de entre as muitas mulheres
baptizadas que são, juntamente com os homens
baptizados, a Igreja de Deus que está em
Viseu. Assim, o bispo Ilídio Leandro tinha
mulheres na celebração, provavelmente, até
em muito maior número do que homens, mas
nenhuma a caminho do ministério ordenado.
Não porque elas não queiram. Não porque o
Espírito Santo, o de Jesus, não suscite
entre elas a disponibilidade para o
ministério ordenado de diácono permanente,
de presbítero e de bispo. Simplesmente,
porque a Cúria Romana e o seu actual chefe,
na esteira dos seus antecessores, não
permitem que tal Aconteça na Igreja que, só
por isso, deixa de ser Igreja de Jesus, e
passa a ser uma empresa transnacional de
Religião católica romana, uma espécie de
Império Romano prolongado no tempo e no
espaço. O meu espanto, de presbítero da
Igreja do Porto, é que nem o bispo Ilídio
Leandro se dê conta deste pecado. E se
apresente cheio de júbilo por ordenar jovens
de presbíteros e ter mais dois já na calha,
e dois homens casados na calha para serem
ordenados diáconos permanentes, quando
deveria chorar por não ter nenhuma mulher a
caminho do ministério ordenado na Igreja.
Nem nunca vir a poder ter, porque a Cúria
Romana e o seu chefe de turno, o papa Bento
XVI, tal não permitem. O Espírito Santo, o
de Jesus, quer, mas os cardeais da Cúria
Romana e o papa não querem. E opõem-se
abertamente ao Espírito Santo. Sem que os
bispos que presidem às respectivas Igrejas
locais se rebelem. Nem um para amostra.
Todos se comportam como vassalos da Cúria
Romana e do papa. Nenhum ousa dizer como a
Igreja do princípio disse aos sumos
sacerdotes ou sumos pontífices do Templo de
Jerusalém, "mais vale obedecer a Deus, do
que aos homens". Aos homens do Poder,
entenda-se, que é o que são, sempre foram,
os cardeais da Cúria Romana e o papa de
turno. Mas o meu espanto de presbítero da
Igreja do Porto não se fica por aqui.
Alarga-se também aos três jovens que foram
ordenados de presbítero nessa celebração. E
aos outros dois que estão em vias de o virem
a ser. Alarga-se igualmente aos dois homens
casados que se preparam para serem ordenados
de diácono permanente. Todos avançaram e
estão a avançar sem quererem saber das
mulheres católicas da mesma idade que estão
proibidas de avançar, mesmo que o Espírito
Santo, o de Jesus, as chame ao ministério
ordenado. Até os dois homens casados aceitam
continuar a avançar sem se fazerem
acompanhar, nesse mesmo passo, das
respectivas mulheres /esposas, quando o
Sacramento do Matrimónio que ambos
celebraram e estão a viver todos os dias,
diz inequivocamente que os dois são uma só
carne que Poder algum, Eclesiástico que se
diga, jamais poderá separar. Mas, aqui,
separa. O que perfaz mais uma aberração de
todo o tamanho. Quem não vê que é assim como
eu aqui digo? Ora, porque vejo as coisas
assim, não comungo do júbilo do bispo Ilídio
Leandro. Jubilaria, até ao canto e à dança,
se visse o bispo de Viseu, em saudável
dissidência, ordenar de presbítero e de
diácono permanente, jovens mulheres, lado a
lado com os jovens homens, e as duas esposas
dos dois homens casados, lado a lado com
eles. Roma cair-lhe-ia em cima, eu sei. Mas
o Bispo da Igreja de Deus que está em Viseu
é ele. Não são os cardeais da Cúria Romana,
nem o papa, que é o bispo da Igreja de Deus
que está em Roma. Poderia ser irradiado,
interdito, excomungado. Mas abria o caminho
que nunca mais seria fechado, se,
entretanto, os outros bispos que presidem às
respectivas Igrejas locais, lhe seguissem o
exemplo. A decisão tinha tudo de Subversão e
de Conspiração. A Subversão e a Conspiração
do Espírito Santo, o de Jesus. Quando os
bispos que presidem a Igrejas locais forem
por esta via, a de Jesus, saibam que eu
sairei para a Rua, com o meu corpo cheio de
Canto e de Dança. E, de certeza, não estarei
sozinho nessa Festa!
P.S.
Não acham um vómito o
que estão a fazer com o "rei" (!?) Michael
Jackson? A atribulada vida dele foi o que
foi e, agora, nem depois dele ter morrido,
têm um pouco de respeito pela sua memória?!
Do que o Dinheiro é capaz! Uf! Felizes os
que decidem ser pobres, por toda a vida.
Deles é a Paz /Espada que abre caminhos na
Treva e na Demência-Demência generalizada
/globalizada. Quando é que chegaremos a esta Sapiência-Sapiência
de sermos todos pobres, ou não-ricos, por
opção e por toda a vida?!
Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt
COMENTÁRIOS:
2009 JULHO 01
A arquidiocese de
Braga tem um novo bispo auxiliar. Manuel
Linda, de seu nome completo, Manuel da
Silva Rodrigues Linda, 53 anos de idade,
deixa a diocese de Vila Real, onde era
reitor do Seminário, Vigário Episcopal
para a Cultura e Coordenador da Pastoral
da Diocese, para passar a ser bispo
auxiliar da arquidiocese de Braga. Por
este andar, a nossa Igreja católica
corre sérios riscos de ter bispos e de
não ter presbíteros, quando os
presbíteros, muito mais do que os
bispos, é que são necessários. Os
bispos, pelo menos, no actual figurino,
oriundo do imperador Constantino (século
IV), o principal fundador da Cristandade
Ocidental /Imperial, cujos primeiros
Concílios Ecuménicos ele próprio
convocou, presidiu, aprovou as decisões
neles tomadas, difundiu-as por toda a
Ecumene de então e deu-lhes carácter de
obrigatoriedade, sob pena de excomunhão
e de expropriação dos bens dos
refractários, são sobretudo, quando
bispos residenciais à frente de um
determinado território, Poder
eclesiástico, em tudo semelhantes aos
espinheiros que não produzem frutos que
se comam, mas apenas espinhos e
abrolhos. Dói-me o coração, sempre que
um presbítero da Igreja, convidado para
ser bispo, logo atira o seu ministério
de presbítero às urtigas e corre a
agarrar com ambas as mãos o báculo e a
mitra, mais o anel e a cruz peitoral de
bispo. Quase sempre começa pelo degrau
de bispo auxiliar, mas já na esperança
de passar ao degrau superior, o de bispo
residencial, de preferência, numa
diocese das maiores e de mais nome. Nada
de serem, por exemplo, pelo resto da sua
vida, bispo de Viseu, ou de Vila Real,
ou mesmo das Forças Armadas e de
Segurança. Acenem-lhes com a diocese de
Leiria-Fátima, de Braga, do Porto, ou de
Lisboa, e é vê-los logo a voar para
esses feudos do Poder Eclesiástico.
Parece disponibilidade e generosidade. É
ambição. O Poder, mesmo Eclesiástico, é
sedutor. Tem tanto de sedutor como de
descriador do Humano. Mas Humano é coisa
que quase ninguém hoje quer ser.
Queremos ser deuses, entenda-se, ídolos,
Poder, e Poder dos poderes. Nem os
presbíteros da Igreja resistem à sedução
do Poder. Pelo contrário, quando
aliciados, seduzidos, contactados, abrem
logo as pernas, como prostitutas
/prostitutos de serviço, e deixam-se
enrolar por ele, dão logo o nó, o sim. É
sempre a actualização daquele momento
tentador que diz, "Tudo te darei, se,
prostrado, me adorares". E os
presbíteros da Igreja, em lugar de
prosseguirem a mesma postura de Jesus, o
Humano até ao limite e para lá do
limite, e gritarem, como ele "Retira-te
da minha frente, Tentador!", ficam tão
encandeados por tanto brilho e tanta
gente submissa a seus pés, que logo
respondem, Sim, eis-me aqui, utiliza-me,
sou todo teu. Pensam, na sua cegueira e
na sua demência-demência, que estão a
dizer Sim a Deus, e estão a dizer Sim ao
Ídolo que logo se apodera deles e faz
deles gato-sapato. Veste-os com os seus
macabros adereços, o que faz deles
mascarados ambulantes, bonecos
articulados, actores-bajuladores do papa
e da Cúria Romana, pelo resto da vida,
nunca mais eles próprios, nunca mais
simplesmente humanos. O bilhete de
identidade deles continuará a dizer que
eles são filhos de Fulana e de Fulano.
Na verdade, são filhos da outra, do
outro, a mãe e o pai do Poder, a Grande
Prostituta, o Grande Prostituto. Na
carta que escreveu aos seus súbditos
diocesanos, a dar-lhes a notícia de que
passam a ter mais um bispo auxiliar para
sustentar e aplaudir, o arcebispo Jorge
Ortiga, titular de Braga, diz, a dado
passo: Sabemos que juntos
conseguiremos colocar o fermento da
Palavra nas realidades terrestres,
tornando visível o Amor de Deus perante
este povo profundamente marcado por uma
religiosidade cristã intensa, mas
ansiosa dum encontro mais personalizado
com Cristo. Os sacerdotes serão os
nossos imprescindíveis colaboradores.
É, manifestamente, o Poder Eclesiástico,
em toda a sua dimensão Episcopal, a
falar. Também há a dimensão Paroquial do
Poder Eclesiástico, não menos perversa
que a Episcopal, não menos descriadora
do Humano que a Episcopal, por vezes,
até mais, porque Poder
Eclesiástico-Paroquial-vassalo-do-Poder-Episcopal,
é ainda mais atreito a subterfúgios,
habilidades, mentiras e a tiques
autoritários sobre populações
amedrontadas, sem pensamento teológico
próprio, totalmente, à mercê do
pároco-que-lhes-saiu-na-rifa e à mercê
das suas arbitrariedades de trazer por
casa ou pela aldeia. O arcebispo, que
nunca chega a falar de Jesus, nesta sua
carta, apenas de Cristo, o mítico Cristo
do Império Romano, fundamento e
justificação do seu Poder Episcopal, é o
primeiro a reconhecer que a população do
seu território diocesano é uma população
profundamente marcada por uma
religiosidade cristã intensa. Sem
querer, fugiu-lhe a boca, ou a mão que
escreveu, para a verdade. A população do
seu território continua ainda por
Evangelizar. Apenas tem uma intensa
religiosidade cristã-pagã, a que vem do
tempo do Império Romano e, depois, da
Cristandade Ocidental Imperial que o
prosseguiu, quando ele implodiu. De
Jesus, o Crucificado na Cruz do Império
e do Templo coligados, a população da
diocese de Braga nem sabe que existiu.
Sabe apenas, e muito vagamente, do
mítico Cristo que o Império impôs
urbi et orbi e que ainda hoje
permanece nos genes das nossas
populações em geral, não-ilustradas e
ilustradas, ambas por Evangelizar. A da
diocese de Braga é o protótipo duma
população profundamente marcada pela
religiosidade cristã-pagã, pelos cultos
públicos e privados em honra das deusas
e dos deuses do Paganismo imperial. O
que o arcebispo acrescenta depois é a
mais crassa das mentiras, já que a
população, ao contrário do que ele
escreve, não está nada ansiosa dum
encontro mais personalizado com Cristo.
E como poderia ela estar, se o Cristo de
que ele fala, é totalmente mítico, não
tem nada de Humano, de ser real, não é
histórico? Histórico, real, de carne e
osso, e com Práticas Maiêuticas e Duelos
Teológicos Desarmados, é Jesus, o
carpinteiro-camponês da Galileia, o
filho de Maria, esse mesmo que acabou
enjeitado como louco pela família mais
próxima, e Crucificado na Cruz do
Império e do Templo coligados, como o
Maldito de Deus. Deste Jesus e do seu
Projecto de Reino /Reinado de Deus,
ainda a edificar na História e que
carece de obreiros que nessa edificação
dêem o seu melhor, como alternativa ao
reino /reinado do Império, hoje o
Império Financeiro Global, nem o
arcebispo de Braga e presidente da
Conferência Episcopal quer saber, quanto
mais a população do seu território
diocesano. Tirem-lhe, a esta população,
a senhora do Sameiro, o S. Bentinho da
Porta Aberta, o Bom-Jesus, as igrejas e
as capelas, as imagens das deusas e dos
deuses, a semana-santa, as procissões de
velas, a santinha de Balazar, a senhora
de Fátima, as promessas e as romarias,
as tradições dos antigos, as missas e as
catequeses com as suas vaidades
festivas, e o que fica? Só que tudo
isto, que o arcebispo chama de
religiosidade cristã, e que eu digo,
pagã, é Alienação, é Perverso, é Ópio,
mas é isso, apenas isso, que a população
residente no território da diocese quer
que perdure e se alimente, de geração em
geração. O novo bispo auxiliar é neste
ninho de víboras que vai cair e
perder-se como Humano. Um ninho de
víboras, carregadas de veneno mortal,
que é, afinal, toda essa intensa
/fanática religiosidade cristã /pagã,
mítica, bem nos antípodas das Práticas
Políticas e Económicas Maiêuticas de
Jesus, e dos seus Duelos Teológicos
Desarmados contra a Idolatria, que lhe
mereceram a morte na Cruz do Império e
do Templo coligados. Ele vai alimentar
toda esta religiosidade. Vai ser um dos
grandes sacerdotes desta religiosidade.
Melhor fora, por isso, que não tivesse
nascido. É caso para dizer /chorar: para
o que uma mãe cria um filho, quando,
mais tarde, esse filho desiste de ser
Humano, para se fazer Poder Eclesiástico
Episcopal. Eu sei que a mãe do novo
bispo, se ainda for viva, será também
aliciada para sentir muito orgulho neste
seu filho, Poder Eclesiástico Episcopal.
Porque o Poder, para além de perverso, é
também mentiroso. E engana até as mães
que pariram um filho Humano e leva-as a
pensar que ele, ao crescer em Poder,
fica mais Humano, quando, na verdade,
fica tal e qual o pai que o pariu,
mentiroso e assassino, chulo,
espinheiro, privilégio, ídolo.
Parte-se-me o coração de presbítero da
Igreja do Porto, perante espectáculos
destes, perante descriações do Humano
como esta. Porque o nosso século XXI
precisa, como de pão para a boca, de
presbíteros maiêuticos, mulheres e
homens, e de bispos maiêuticos, mulheres
e homens. Em vez disso, dão-nos mais
Poder Eclesiástico Episcopal e
Paroquial. De modo que, em lugar de
crescermos em Sabedoria e em Graça, em
Maioridade e em Liberdade, diminuímos no
Humano e acabamos que nem lesmas e
minhocas, ou então, seres agressivos,
violentos, mentirosos, corruptos,
egoístas, assassinos. Malhas que o Poder
Eclesiástico tece.
Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt
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