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                                                DIÁRIO ABERTO


 

 

2009 AGOSTO 18

 

Enquanto estive de férias (cheguei ontem de manhã, mas, uns dias antes, já havia passado uma semana aqui em casa, ocasião que aproveitei para gravar novos vídeos e colocá-los à disposição no youtube, ao todo, três novos Cantos e 13 outros vídeos com uma extensa comunicação teológica, a que dou o título "Deus não faz milagres"), o país e a Europa prosseguiram nas suas rotinas e nas suas mediocridades habituais de verão, onde não faltam acidentes graves e mortais nas estradas e incêndios nas florestas, juntamente com os chorudos negócios resultantes do combate aos ditos, muitos deles, desses acidentes e incêndios, assessorados por jornalistas estagiários, de repente, transformados em humanos pés-de-microfone, quer junto de comandantes das Brigadas de Trânsito, quer junto de comandantes dos bombeiros. Como diz o Sábio, nada de novo debaixo do sol. O Poder Político, por sua vez, prosseguiu em lume brando, o mesmo é dizer, sem grandes férias, porque vêm aí dois novos actos eleitorais, respectivamente, para as legislativas e para as autárquicas, e todos os inúmeros interessados em lugares e em "tachos" não se podem descuidar, sob pena de deitarem tudo a perder, à vista da praia, ou, dito sem metáforas, à vista do cobiçado lugar. Onde não houve férias, muito pelo contrário, foi na nossa Igreja católica romana, dioceses e paróquias (o papa, esse, sim, foi, como de costume, para Castel Gandolfo, a residência de verão dos papas!), nomeadamente, nas Missas de domingo e nas inúmeras festas religiosas. Um ou outro pároco pode ir de férias, ao longo do ano, mas nunca nesta altura do verão, quando os emigrantes andam por aí de festa em festa, todas elas infelizmente sem festa, aquela que nos faz crescer em sabedoria e em graça, em consciência crítica e em comunhão, e, por isso, nos deixa ainda mais mulheres /homens-para-os-demais. É que os santuários, os das nossas senhoras todas, e outros, rendem muitos milhares, muitos milhões de euros, pelo menos, os mais famosos, como o de Fátima e o de S. Bento da Porta Aberta, na arquidiocese de Braga. E o clero, inclusive o alto clero, não perde pitada e lá está presente, a presidir ao negócio, como a confirmar, com esta sua prática enviesada, que são covis de ladrões os santuários onde eles pontificam e casas de Mentira, de Terror e de Opressão. Os casamentos "pela Igreja" e as chamadas Missas de domingo também não pararam, se bem que com muito menos dos habituais fregueses. E é sobretudo ao caso das Missas de domingo que quero aqui dedicar especial atenção. Pela minha parte, devo declarar, logo de entrada, que ninguém me viu em nenhuma delas. Não fui a nenhuma, nem sequer por curiosidade. A rotina eclesiástica é tal, que já não vale a pena ir a nenhuma, para saber como todas elas são. Numa ou outra vez, ainda calhou de eu ver, da rua por onde fazia a minha caminhada matinal pela saúde, pessoas a assistir à missa, ao fundo do templo. E uma outra vez, deu para ver as pessoas a sair da Missa. Quer a primeira visão, quer a segunda foram ambas suficientemente expressivas e conclusivas. Aquilo não é prática que se recomende a ninguém com um mínimo de dignidade e de bom senso. O rito tem tudo de obrigação semanal. Ninguém vai lá para partilhar a sua semana, a sua vida, as suas aspirações, os seus problemas, as suas expectativas, os seus sonhos. As pessoas vão lá tocadas pelo Medo. Reduzem a Missa a um rito mágico, triste, deprimente, rotineiro. Nem é preciso passar da porta do fundo. Basta estar ali, do princípio ao fim, do lado de fora, sem ver nem ser visto, e ouvir vagamente o que é dito lá dentro pelo clérigo presidente, coisa mais sem sentido, mas a que tu não podes deixar de ir assistir, a exemplo do que, antes de ti, já fizeram os teus pais, os teus avós, os teus visavós, os teus tetra-avós. Até os cantos litúrgicos soam a coisa fúnebre, cheiram a mofo, sabem a doentio. Como se a Missa fosse manjar de milhafres e de outras aves de rapina, coisa de condenados. Disse bem: condenados. São assim os rostos das pessoas, ao saírem da Missa. Pude vê-lo num destes domingos, nomeadamente, em Vila de Praia de Âncora, em cujo largo me encontrava a ler /responder ao correio electrónico, no meu portátil de serviço. De repente, vi as pessoas a sair da Missa, plantada ali ao lado do Café Central que tem internet disponível e gratuita para quem quiser. E eu quis, nestes últimos dias que por lá passei. Todas as pessoas que saíam da missa traziam cara de condenadas. Rosto pesado. Olhar abstracto. Cada qual, fechada sobre si própria. Sem um pingo de alegria. Sem um pingo de relação com as demais. Aquilo, lá dentro, não as aproximou. Não as uniu. Não as humanizou. Muito menos, as sororizou /fraternizou. Foi condenação. Não foi festa, salvação. Foi desastre. Por mim, como já disse, não fui a nenhuma Missa, nem sequer por curiosidade. Mas não pensem que vivi totalmente alheio ao Evangelho que lá é rotineiramente proclamado. Não vivi. O Evangelho, sim, interessa-me, independentemente, do rito e do Missal Romano, obrigatório naqueles sítios nada recomendáveis. E sabem uma coisa? Pela primeira vez, na minha vida de presbítero da Igreja do Porto, tomei consciência de que, em todos estes domingos em que eu estive de férias, e ainda no próximo domingo, em que já não estou de férias, mas a trabalhar, concretamente, no "Movimento d'Artes", a realizar na Casa da Vinha, em Recarei, Paredes (o evento cultural vai da tarde de sexta-feira 21, a domingo 23, ao final da tarde e é aberto a quem queira participar), o Evangelho que foi lido nas Missas foi sempre o de João e sempre o mesmo capítulo 6, que é enorme, exactamente, 71 versículos. Começou a ser lido no último domingo de Julho, 26, e concluirá no próximo domingo, que é o penúltimo de Agosto. Ao todo, cinco domingos seguidos. Deste modo, ninguém pode acusar a hierarquia da Igreja, nomeadamente, a Cúria Romana, de ignorar o Evangelho de João, embora este Evangelho seja o único dos quatro Evangelhos canónicos que, nem mesmo depois do Concílio Vaticano II, viu ser-lhe atribuído um ano litúrgico, como acontece aos outros três, chamados Sinópticos. O Missal Romano, já reformulado depois do Concílio Vaticano II, decorre num ciclo de apenas três anos, não de quatro anos. Ao final de cada ciclo de três anos - A, B, C - volta-se ao princípio, uma geração após outra! Ora, para cada um destes três anos, há um Evangelho em destaque. Em lugar de três anos, o ciclo litúrgico poderia ser de quatro anos e, assim, também o Evangelho de João teria um ano destacado para ele. Mas não. Ficou excluído. Porque é demasiado incómodo. Teologicamente, incómodo. O mais incómodo dos quatro. E, para não ser de todo ignorado, entra aqui e ali, ao longo do ciclo dos três anos. Nunca eu me havia dado conta, nem sequer nos anos em que fui pároco, de que o capítulo 6 do Evangelho de João entra no ano B, que é o ano em que presentemente estamos, durante cinco domingos seguidos. Os do verão, pelo menos, aqui no Ocidente católico romano. A opção não será de todo inocente. O capítulo é tão teologicamente escandaloso, subversivo, revolucionário, demolidor do Poder Religioso-Eclesiástico, o de então, como o de hoje, mais ainda o de hoje, que, como se sabe, tem tudo do Poder imperial romano e do Poder monárquico absoluto, que a Cúria Romana colocou-o nos domingos em que a Cristandade Ocidental anda ainda mais distraída, mais dissipada, mais mediocrizada. Mas a Cúria Romana não se ficou por aqui. Não se limita a dar a ler o capítulo 6 do Evangelho de João em cinco domingos, e domingos de verão, do Ano B, quando todo o capítulo 6 constitui uma unidade que só se entende bem, se for escutado com tempo e de uma vez só, sem quaisquer soluções de continuidade. Ela comete uma outra barbaridade ainda maior. No último desses cinco domingos seguidos, o extracto que dá a ler aos que ainda não dispensam o rito da Missa de domingo, é por ela barbaramente censurado. Os dois últimos versículos do capítulo não entram no Missal Romano. Fica, assim, a impressão, em quem ouve na Missa, que o capítulo acaba no versículo 69. Mas não é verdade. O capítulo 6 do Evangelho de João tem 71 versículos. E o que dizem, de tão teologicamente escandaloso, estes dois versículos censurados pelo Missal Romano, aprovado pela Cúria Romana? Eis, na tradução da Bíblia dos Capuchinhos: "Disse-lhes Jesus: «Não vos escolhi eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo.» Referia-se a Judas, filho de Simão Iscariotes, pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze.". Aí está. É claro que, para entendermos bem este final, temos de ter presente todo o capítulo 6, versículos 1-71. Nele, João apresenta-nos Jesus e o seu Projecto Económico-Político para a Humanidade. para todos os Povos do Mundo. Trata-se, segundo este capítulo, de uma maneira tão original de sermos Seres-Humanos e de organizarmos a Sociedade Mundial e Local, segundo o coração de Deus, nosso Abbá universal, que, pelos vistos, nem a esmagadora maioria dos discípulos dele, grupo dos Doze incluído, se revê, nem em Jesus, nem nesse seu Projecto Económico-Político de Sociedade. A esmagadora maioria dos discípulos, grupo dos Doze incluído, tem outra concepção de ser-humano e outra concepção Económico-Política da Sociedade. Recusam Jesus, como o modelo, o paradigma de ser-humano. E recusam o seu Projecto Económico-Político de Sociedade. Numa palavra, recusam DeusCriador de filhas, filhos em radical igualdade, o Abbá de Jesus e nosso. Vão por outro Deus, o do Templo, o da Lei de Moisés, o dos Antepassados, o dos Sacerdotes, que mais não é que o Deus-Ídolo criado por nós à medida dos nossos desejos e das nossas ambições e também das nossas mediocridades. Não é, pois, de estranhar que, meses depois de tudo isto ter acontecido, Jesus já esteja na condição de preso político, em Jerusalém, seja sumariamente julgado pelo pleno dos Tribunais do país, e condenado no Tribunal de Pilatos, o do Império Romano. Tão pouco é de estranhar que os chefes dos sacerdotes e todos os outros dos privilégios, chamados por Pilatos a ter de escolher entre Jesus, Pão-Partido e Vinho-Derramado pela vida do Mundo, e Barrabás, assassino e ladrão, escolham, em uníssono, Barrabás, em lugar de Jesus. Também não é de estranhar que, depois, de Jesus ter sido executado na Cruz do Império e atirado à vala comum, como o maldito dos malditos, todos os dos privilégios nunca mais tenham querido saber dele para nada. Até hoje. Vejam que até a própria Cúria Romana, responsável em última instância, pelo Missal Romano, houve por bem dar por concluído o capítulo 6 do Evangelho de João com a patética afirmação de Simão Pedro, à inevitável pergunta de Jesus, quando viu que "muitos dos seus discípulos voltaram para trás e já não andavam com ele": «Também vós vos quereis ir embora?». E o que diz essa patética resposta de Simão Pedro a esta angustiada pergunta de Jesus? Exactamente isto: "A quem iremos nós, Senhor? Tu tens palavras de vida eterna! Por isso nós cremos e sabemos que tu és o Santo de Deus". É aqui, com esta proclamação de Simão Pedro, em nome do grupo dos Doze, que termina o capítulo 6 de João, na versão do Missal Romano. E porquê? Porque tanto a Cúria Romana, como toda a Hierarquia eclesiástica, Poder Sagrado, ainda hoje, pensam, apesar de já estarmos no século XXI, que são "os sucessores dos Apóstolos" ou do grupo dos "Doze". O papa de Roma, chefe da Cúria Romana, escolhido por um reduzidíssimo número de cardeais, nenhum bispo-não cardeal, nenhum presbítero, nenhum homem-baptizado, nenhuma mulher-baptizada, vai ainda mais longe e pensa, até, que é o "sucessor de Pedro", deste que aqui é apresentado a dar esta patética resposta à angustiada pergunta de Jesus. Pensam todos eles - o papa de Roma, os cardeais da Cúria Romana e os bispos residenciais - que são "os sucessores dos Doze ou dos Apóstolos". Não são coisíssima nenhuma, pela simples razão de que a Igreja, a de Jesus, não é uma monarquia. Como tal, não tem sucessores. Tem apenas chamados pelo Espírito, o mesmo de Jesus. Tem tudo de Comunhão sororal /fraterna e de radical igualdade. Lá, onde houver Poder, para cúmulo, Poder Sagrado, simplesmente, não há Jesus, nem o seu Espírito! Como tal, também já não há Igreja. Só há o Eclesiástico, o Sistema Eclesiástico! Mas então - perguntar-me-eis, espantadas, espantados - está tudo errado na Igreja? E eu respondo: Está! De modo que o pior que, hoje, podemos fazer é continuarmos a enterrar a cabeça na areia, para não vermos o Monstro em que, com o passar dos séculos, nos tornamos como Igreja católica romana. Uma das formas mais sibilinas de enterrarmos a cabeça na areia é esta cirúrgica censura que o Missal Romano faz ao final do capítulo 6 do Evangelho de João. Com ela, a Cúria Romana tenta esconder o escândalo, aos olhos dos seus próprios membros e de todos os outros hierarcas. Na verdade, sem esse final censurado, as pessoas todas, incluídas as pessoas que integram a chamada Hierarquia, são ingenuamente levadas a pensar que Simão Pedro deu a resposta por que Jesus ansiosamente esperava. Puro engano. Simão Pedro deu a resposta mais desastrada. Por isso é que eu qualifiquei essa sua resposta de patética. Porque o é. Vejamos. Simão Pedro é o primeiro do grupo dos Doze que, neste Evangelho de João, sempre que é referido, é-o de forma abertamente negativa. E Judas é o último do grupo dos Doze. Quer o Evangelho de João dizer /revelar, com esta resposta de Simão Pedro e com a nova pergunta de Jesus, mai-lo comentário adiantado pelo próprio evangelista, que Jesus está absolutamente só, a partir daquele momento. Nem os do grupo dos Doze, escolhidos um a um por ele, o entendem, vão com ele e por ele. Todos os Doze continuam possuídos /possessos de outro Projecto Económico-Político de Sociedade e de outra concepção de Ser-Humano. Nenhum deles se revê em Jesus, como o Ser-Humano por antonomásia, nem tão pouco no seu Projecto Económico-Político de Sociedade. Continuam todos na deles e, se se mantêm fisicamente com Jesus, ainda é para ver se conseguem fazer-lhe a cabeça, fazê-lo mudar de Projecto, deixar de vez essa sua "mania" de querer ser Pão-Partido, Vinho-Derramado, Corpo /Pão-que-se-dá-a-Comer, Sangue /Vinho-que-se-dá-a-Beber pela vida do Mundo. Para, em vez disso, passar a ser o chefe, o messias, o Poder, ou, em palavras do próprio Simão Pedro, em nome de todo o grupo dos Doze, "o Santo de Deus", isto é, outro rei David /Salomão, agora, ao jeito de César Augusto de Roma, ou o Filho de Deus, de que fala o Tentador, a Tentação, nos três Evangelhos Sinópticos, logo no início da sua Missão de Evangelizar os Pobres e os Povos. Tentador /Tentação que, inevitavelmente, sempre aflora no viver crescido de todo o homem /mulher que vem a este mundo! Quantas, quantos de nós lhe resistimos? Será que se contam pelos dedos das duas mãos, as, os que lhe resistimos? Este nosso tempo sócio-político aí está a gritar aos quatro ventos que são poucos, muito poucos, as, os que lhe resistimos. Por isso, Jesus e a sua mesma Fé são hoje tão mal recebidos, neste nosso século XXI, inclusive, por parte das Igrejas que se reclamam do nome de Cristo. Em seu lugar, proliferam todos os tipos de crenças, de religiões, de mentiras religiosas, juntamente com o Ateísmo e o Agnosticismo generalizados, umas e outros como braços do Senhor Deus-Dinheiro: as religiões /crenças, como o seu braço direito (Poder Religioso-Eclesiástico), o Ateísmo e o Agnosticismo, como o seu braço esquerdo (Poder Político). Já a Política Praticada, visceralmente maiêutica, que Jesus é, assim como aquelas, aqueles poucos que comungam da sua mesma Fé, ficam literalmente sozinhos, na estrebaria, porque nunca h(aver)á lugar para eles nas hospedarias do politicamente correcto e do religiosamente / eclesiasticamente correcto. Não pensemos, então, que Jesus se agradou da resposta de Simão Pedro. Isso dizem as catequeses eclesiásticas, feitas de mentira, justificadoras dos privilégios de que usufruem as respectivas hierarquias. Não se agradou. Pelo contrário, ficou ainda mais triste, numa tristeza de morte, porque absolutamente sozinho! E só por isso é que comentou, em reacção: "Não vos escolhi eu a vós, os Doze? Contudo, um de vós é um diabo" [= Inimigo, Antípoda de mim!]. E, para que não restassem nunca dúvidas de que é assim que Jesus vê as coisas, o próprio autor do Evangelho acrescenta, em jeito de comentário explicativo: "Referia-se a Judas, filho de Simão [cá está, de novo, o nome Simão, como a sugerir que Judas é filho /discípulo de Simão Pedro, o chefe do grupo opositor a Jesus], pois esse é que viria a entregá-lo, sendo embora um dos Doze" [de novo, a referência aos Doze, duas vezes, em apenas dois versículos!]. Jesus fica de alma pesada /destroçada. Sabe que, a partir daquele instante, nem com os Doze pode contar. Apenas com algumas mulheres e uns quantos homens de origem etnicamente duvidosa, filhos de imigrantes helenistas, radicados na Galileia, todos olhados de soslaio pelos Judeus de puro sangue, os Judeus do Povo de Deus, do Deus de Abraão, de Isaac e de Jacob, de Moisés e do Templo, onde, de resto, todos eles se metem, logo após a morte Crucificada de Jesus. Não Judeus do sangue de Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, oriundo de Nazaré, de onde, ao que se dizia então, nunca podia sair coisa boa. Muito menos Judeus do Deus de Jesus, o Abbá universal (onde já se viu? Um Deus Abbá universal? Onde já se viu todos os Povos serem o Povo de Deus, em radical igualdade entre si? Onde já se viu os seres humanos sermos todos radicalmente iguais? Onde já se viu uma Sociedade sem hierarquia, sem poder sagrado, sem poder político, sem poder religioso? Onde já se viu uma sociedade sem minorias privilegiadas? Onde já se viu uma sociedade sem Poder, sem ricos e pobres, sem uma minoria rica, muito rica e uma esmagadora maioria pobre, muito pobre? Onde já se viu? Quem, no seu perfeito juízo, quer e trabalha para ajudar maieuticamente a erguer uma sociedade assim, constituída por seres-humanos assim?! Só mesmo Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o louco, o herege, o possesso do demónio, o blasfemo, o maldito dos malditos, cujo nome nunca mais pode(rá) ser pronunciado, muito menos, nas universidades, nas igrejas, nos santuários, nas casas sumptuosas, nos ambientes culturais elitistas, onde é de bom tom o Ateísmo e o Agnosticismo, numa palavra, a Idolatria do Deus-Dinheiro. Em seu lugar, e, mesmo assim, reservado exclusivamente aos espaços das igrejas-sacristia, apenas o nome do mítico Cristo que o Império Romano criou e colocou no lugar de Jesus e bem crucificado na sua Cruz. Para sempre. E não é que até a nossa Igreja católica, na sua Cúria Romana, é sobretudo, ou exclusivamente, ao mítico Cristo do Império que ela continua ainda hoje a seguir? Obviamente, não vou pela Cúria Romana. Não posso ir. É por Jesus que vou, que procuro ir. Nem que, como ele, também acabe sozinho, sem outras pessoas que comam do meu Pão e bebam do meu Vinho, porque não estão de modo algum disponíveis para serem Corpo /Pão-Partido-que-se-dá-a-Comer, muito menos, Sangue /Vinho-Derramado-que-se-dá-a-beber pela vida do Mundo. A única Via Económico-Política que, se for percorrida /praticada até ao fim, garantirá vida e vida em abundância, para todos os Povos, para todas as pessoas, seja qual for a cor da sua pele, a sua etnia, a sua cultura, a sua virtude, a sua saúde, a sua beleza, a sua idade, a sua valia, a sua capacidade, o seu chão de nascimento, o seu chão de trabalho, o seu chão de dormida.

P. S.

1. Provavelmente, não prosseguirei mais com este meu DIÁRIO ABERTO. Os tempos que correm não vão nada propícios a este tipo de escrita teológica. São tempos de demasiada Demência-Demência cada vez mais generalizada. Ando, por isso, a pensar ensaiar outro género teológico que diga melhor com estes nossos desgraçados e desumanizados tempos. Um género teológico a que poderemos chamar, em linguagem bíblica, LIVRO DA SABEDORIA. Se tal vier a acontecer, como espero, logo saberão, nesta mesma página pessoal. Entretanto, prosseguirei, nesta página pessoal, com o CORREIO ELECTRÓNICO NÃO-CONFIDENCIAL (e, também, com o correio confidencial, só que este já não tem lugar nesta página nem noutra, é mesmo confidencial). Prosseguirei, igualmente, com a gravação de novos vídeos para o youtube (para ver /ouvir, escrever, depois de abrir o sítio, Padre Mário da Lixa e clicar em Procurar). Estejam, pois, atentas, atentos. E, se forem capazes, atrevam-se a ser todos os dias mulheres e homens integralmente de Jesus, outros Jesus; e, sobretudo, atrevam-se a dar corpo no vosso viver de todos os dias ao seu Projecto Económico-Político de Sociedade, que é o mesmo de Deus nosso Abbá universal. Amemo-nos, assim, todos os dias, numa comunhão sem fim, numa sororidade /fraternidade alegre e feliz. E saudável, liberta, não-moralista /condenatória, como saudável é tudo o que tem a marca de Jesus e do seu mesmo Espírito.

2. Se tudo correr conforme o previsto, aparecerá, por meados do próximo Outubro 2009, um novo livro meu. Costumo dizer, com humor, que este novo livro, mais ainda do que os anteriores, será um livro para adultos com reservas. Até pelo elevado número de páginas com que ele se tece. Levanto uma pontinha do véu. O livro tem tudo de livro póstumo, embora, ao que espero, seja ainda eu, seu autor, a apresentá-lo, provavelmente, aqui, no Barracão de Cultura, das FORMIGAS DE MACIEIRA (DA LIXA), nessa altura, ainda longe de estar concluído por dentro, mas já minimamente em condições de poder receber este evento. É óbvio que os meus direitos de autor deste novo livro reverterão, integralmente, como os dos outros livros meus, a favor da construção até final do Barracão de Cultura.

3. E já agora, fiquem com a minha paz, esta paz que é Espada, Espada que faz caminhos. De Liberdade. De Autonomia. De pessoas-pessoas Eu-Sou, como Jesus.

 

2009 JULHO 14

 

Em tempo de férias, como são já estes dias de verão que estamos a viver no nosso país e no resto da Europa, poderá parecer, à primeira leitura - sobretudo se for feita a correr e em chave moralista burguesa, não com o coração, que é a nossa mente sapiente e afectiva, e em chave Política, sempre a partir das vítimas da História, as multidões sem conta de empobrecidos e de oprimidos de todo o Mundo - que o extracto do Evangelho de Marcos (6, 30-34), imposto pelo Missal Romano para ser lido nas missas do próximo domingo vem mesmo a talhe de foice para este tempo de férias de verão. Mas não é verdade. Muito menos, vem a talhe de foice relativamente ao tipo de férias que a generalidade das pessoas sonha e planeia, um ano após outro. O extracto do Evangelho em causa, embora fale em "descanso" - "Vinde, retiremo-nos para um lugar deserto e descansai um pouco", diz a tradução da Difusora bíblica; ou, "Vinde só vós à parte, a um lugar despovoado, e descansai um pouco", diz a tradução mais literal do texto original, em grego - não é em férias que está a pensar. O "descanso" de que fala é outro, muito outro e tem tudo a ver com a mudança de projecto e de prática que Jesus pretendia ajudar maieuticamente a nascer, como fonte de água viva, no mais íntimo dos seus discípulos, de modo que eles se tornassem homens novos, homens outros, iguais a ele. É mais do que plausível que os párocos, nas suas impreparadas homilias, levem para aí, para o descanso das férias, o Evangelho que vão ler (também escutar?! Há sobejas razões para admitir que eles, na sua esmagadora maioria, apenas lêem, e lêem muito mal, mas não escutam; outra, muito outra, seria a sua forma de ser-viver, se também escutassem, e escutassem com o coração). Mas, se eles levarem para aí as suas homilias, saibam todas, todos, desde já, que estarão a trair por completo o sentido do texto que tem de ser lido no seu contexto, antes de mais, o contexto de todo o capítulo 6 do Evangelho de Marcos, juntamente com o contexto sócio-histórico-político da Comunidade jesuânica de Marcos, que escreve o Evangelho com este nome. O extracto está em relação com o que foi lido - escutado? - no passado domingo. Lembram-se? Os Doze foram enviados em Missão por Jesus, com a finalidade de os libertar, de raiz, das suas ambições de Poder Político que, enquanto continuassem a encher-lhes a cabeça como um mítico demónio, seriam fatais para eles e, por meio deles, para as pessoas e os Povos do Mundo com os quais eles e os prosseguidores deles haveriam futuramente de entrar em contacto, na Missão, a mesma de Jesus. O contacto, dois a dois, com as pessoas nas casas delas, indistintamente, de preferência, os não-Judeus, e os Judeus tidos como pecadores públicos que já não frequentavam a Sinagoga nem o Templo, e não sabiam nada da Lei de Moisés, muito menos a praticavam, no seu dia-a-dia, haveria de os levar - assim pensava Jesus - a desistirem de vez das suas ambições de Poder Político e /ou Religioso, as quais, nas pessoas e nos Povos onde proliferam, sempre as, os desumanizam e descriam. Esse, porém, o Poder Político, era o único Projecto que os Doze traziam na cabeça e pretendiam, a todo o custo, que Jesus também o fizesse seu. Jesus, no entender deles, tinha todos os atributos para ser proclamado o Messias /Cristo, o filho /prosseguidor de David /Salomão e da sua casa real, o líder invicto, esmagador dos seus inimigos, por isso, o Messias /Cristo que eles esperavam por aqueles dias, na interpretação oficial que os chefes do Templo faziam das Escrituras. Uma boa parte deles havia começado por apostar em João, o Baptista, de quem se fizeram discípulos, mas, depois, o rei Herodes, incomodado com as suas violentas denúncias contra a concentração de Poder Económico-Político que havia acabado de consumar, ao fazer aliança idolátrica com a própria mulher do seu irmão, meteu-no na cadeia e, pouco tempo depois, no final de um jantar que ela e ele ofereceram no seu palácio, a todos os grandes do seu reino, mandou que lhe trouxessem, numa bandeja, a cabeça de João Baptista, para a entregar pessoalmente à filha de Herodíade, que essa filha-escravizada lhe havia exigido, por instigação da própria mãe, que já não podia nem sequer ouvir pronunciar o nome de João Baptista. Desorientados, perante semelhante desfecho, daquele profeta austero que eles tinham como o Messias de Deus, os discípulos de João passaram-se para Jesus que, entretanto, começara a dar nas vistas e parecia corresponder às expectativas das multidões que, já então, o seguem por toda a parte. Depois que Jesus avançou com a constituição do grupo dos Doze, fundamento de um novo Israel que haveria de incluir todos os Povos da Terra, alternativo ao velho Israel que apenas incluía os Judeus, congregados em torno da Lei de Moisés e da Casa real de David /Salomão, ainda mais os Doze escolhidos, todos de origem judaica, se convenceram de que Jesus era o Messias /Cristo de Deus. Pedro, o líder do grupo, não por indicação de Jesus que nunca quis chefes entre os seus, apenas servidores maiêuticos, até darem a própria vida pela vida do Mundo, mas o líder por escolha dos outros onze, foi o que disse, sem gaguejar, quando Jesus lhes perguntou o que é que eles pensavam dele, que expectativas é que tinham a respeito dele, quando decidiram deixar tudo para o seguirem, "Tu és o Messias", ou "Tu és o Cristo". Jesus ficou estarrecido com semelhante confissão. O equívoco dos Doze a seu respeito não podia ser maior. E, por isso, ao ouvir semelhante confissão da boca de Simão, a quem ele havia apelidado de Pedro, precisamente por ter constatado que ele era fanaticamente casmurro como uma pedra - costumam ser assim todos os fanáticos do Poder Político - Jesus proibiu-lhes terminantemente a todos os Doze que dissessem a alguém semelhante disparate, semelhante mentira a seu respeito! Em vão. Porque a verdade é que nem Pedro, nem os seus companheiros de grupo, fizeram caso dessa proibição e continuaram a apostar ainda mais que haveriam de conseguir convencer Jesus a seguir pela via do Poder Político, a deles e da generalidade dos Judeus de então (e também de nós, hoje?). O duelo ideológico /teológico entre eles e Jesus passou a ser constante e, muitas vezes, foi contundente, de parte a parte, como testemunha bem o Evangelho de Marcos (cf. o meu livro O outro Evangelho segundo Jesus Cristo, Edição Campo das Letras ). Neste duelo, Jesus acabou por ser traído por um dos Doze e, logo a seguir, perdeu o grupo dos Doze, em bloco, e, consequentemente, todos os Judeus que eles simbolicamente representavam. E acabou praticamente sozinho, na sua via de Política Praticada e com afectos, bem nos antípodas da via do Poder Político Praticado. E é assim, sozinho, que avança na esperança contra toda a esperança. Nem perante a Cruz do Império, Jesus desiste da sua via, que é a mesma de Deus Abbá, Criador de filhas, filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, não fabricador de súbditos, de escravos, de servos, de idólatras, como faz o Deus-Ídolo Poder, Todo-Poderoso, como ainda hoje, absurdamente, continua a dizer o Credo que todos os domingos é proclamado nas missas católicas romanas, como se as, os das missas fossem papagaios amestrados /domesticados. E não é que Deus Abbá, depois de tudo consumado pelo Império e pelo Templo coligados e pelo seu Deus-Ídolo, surpreendeu tudo e todos, ao colocar-se por inteiro do lado de Jesus, o Crucificado, a quem reconheceu como o seu Filho muito amado, o único ser Humano integral, desde o princípio da Humanidade, o único a quem Ele deu razão e constituiu como o Modelo, o Paradigma, de todos os demais seres humanos, qualquer que seja a sua etnia e a sua cultura? Só depois da Morte Crucificada de Jesus na Cruz do Império e do Templo coligados, é que algumas mulheres que haviam andado com ele, e alguns homens, com destaque para não-Judeus que viviam no país e que também haviam andado com Jesus, vieram, finalmente, a cair na conta de que Jesus é quem estava no certo, era com Jesus que Deus Abbá, Criador de filhas, filhos em estado de Liberdade e de Maioridade, estava por inteiro e para sempre. Deram-lhe então a sua definitiva adesão, bem como à sua via de Política Praticada e com afectos, nos antípodas do Poder Político Praticado. E isso mudou radicalmente as suas vidas. Tornaram-se outros Jesus, amadas, amados de Deus, tal e qual como Jesus, odiados pelo Império e pelo Templo coligados, tal e qual como Jesus. São estas mulheres, estes homens, carregados de Futuro, que estão na origem dos Evangelhos Canónicos. Escreveram-nos para que, ao escutá-los com o coração, as pessoas, das sucessivas gerações, nasçam de novo, do Sopro ou Espírito de Jesus, se tornem outros Jesus, em seus contextos e em seus ambientes sociais, em suas distintas culturas. Até que toda a Humanidade chegue a ser desta via, a de Jesus, isto é, seja constituída por mulheres, homens outros Jesus, nas, nos quais, Deus Abbá, Criador de filhas e de filhos em estado de Liberdade e de Maioridade se revê, ainda que o Deus-Ídolo nunca se reveja e, por isso, os odeie tanto, porque elas, eles, mesmo sem falarem, atestam que são más, perversas, descriadoras do Humano todas as suas obras, todas as suas decisões, todos os seus projectos, a começar pelos económicos. E isso o Deus-Ídolo, servido pelo Império (Poder Político) e pelo Templo (Poder Religioso-Eclesiástico), jamais perdoará. E não hesita nunca em odiar /excluir /ostracizar /matar na sua Cruz, sempre, devida e cientificamente, actualizada no decorrer da História! A esta luz, nunca poderemos pensar, muito menos, dizer, quando neste curto extracto do Evangelho de Marcos, Jesus convida os Doze a retirarem-se à parte, só eles com ele, a um lugar despovoado, sem outras pessoas cheias da mesmas ambições do Poder Político que eles, está a pensar num descanso de férias. Não está. Os Doze haviam acabado de chegar da Missão, de dois a dois, para a qual tinham sido forçados a ir por Jesus. Chegam-se de novo a Jesus que, entretanto, andou sem eles por perto. E relatam tudo o que haviam feito. Ao escutá-los, Jesus volta a ficar estarrecido. Eles haviam feito tudo ao contrário do que ele lhes havia dito. Estragaram tudo. E estragaram-se a si próprios ainda mais. A Missão fora pensada por Jesus, para ver se eles vinham dela mais Humanos, mais despojados das ambições do Poder Político e eles, o que fizeram, foi campanha a favor de Jesus como o Messias /Cristo invicto, vencedor dos inimigos dos Judeus, o Messias de Deus, o do Templo de Jerusalém, o Ídolo que escravizava e aterrorizava tudo e todos. Não era, pois, de estranhar que muitos mais Judeus viessem no encalço de Jesus, para o verem, ouvirem, tocarem. Ele era o tal Messias esperado. Havia que aclamá-lo e levá-lo tomar o Poder Político. Nem é de estranhar todo o sucesso que os Doze tiveram na sua Missão. Foram ao encontro das ambições das populações subjugadas, das suas expectativas messiânicas, na linha da casa real de David /Salomão. Perante semelhante desastre, Jesus só tem uma saída. Forçar os Doze a retirarem-se com ele à parte, sem mais gente por perto. Tinham de ser chamados a capítulo. Eram casmurros, fanáticos. E tinham que cair na conta disso e mudar. Ou a Besta, a do Poder Político, do Poder Religioso e do Poder Económico-Financeiro, prosseguiria esmagadora sobre as populações e os Povos do Mundo, como a única via na História. Não haveria futuro para a Humanidade. Mudar era preciso. Nascer de novo era preciso. Abrir-se à via da Política Praticada e com afectos, a via de Deus Abbá, Criador de filhas e de filhos em estado de Liberdade e de Maioridade. Ou esta via, ou a do Deus-Ídolo. Os Doze tinham que entender isto, duma vez por todas. E mudar. Nascer de novo. É para isso que Jesus se retira com os Doze que ele pretendia que se tornassem na génese de um novo Israel que incluiria todos os Povos do Povo, sem a discriminação de nenhum. O intento de Jesus falhou. Porque as populações que os Doze haviam contactado estavam mobilizadas e atentas. E perceberam para onde eles iam e ainda chegaram lá primeiro. De modo que Jesus viu-se, mais uma vez, impossibilitado de fazer o debate, a discussão, o frente-a-frente que se impunha com os Doze. Teve de se haver, ele só, com a multidão que eles haviam mobilizado com as suas mentiras, com as suas idolátricas doutrinas. Vinham por um Jesus Messias de Deus invicto e vencedor dos inimigos, à altura de estabelecer o Império dos Judeus sobre os demais Povos, todos do Paganismo, por isso, não Povo de Deus. A doutrina que haviam escutado dos Doze levou-os a pensarem assim. Eram por isso uma multidão como ovelhas sem pastor, à procura de um chefe, de um Messias todo-poderoso. E pensavam, pelo que lhes tinham dito os Doze, que já o tinham ali à mão, na pessoa de Jesus. Não tinham. Era tudo mentira. Porque nenhum Messias invicto, nenhum do Poder Político gera salvação, desenvolvimento integral do Humano nos seres humanos. O Poder Político apenas gera súbditos, tolhidos, dissipados, banais, venais, alienados, corruptos. Nunca promove as populações e os Povos a sujeitos, a protagonistas dos seus próprios destinos. Se o fizesse, cavaria a sua ruína, a sua sepultura como Poder Político. Só a Política Praticada e com afectos. É o que Jesus vai tentar dizer à multidão que, por engano, vem à procura do chefe invicto do Poder Político, na pessoa dele. Ele não é esse chefe invicto. Ele é a Política Praticada e com afectos. E é nessa condição que se dirige à multidão, a tentar desmontar o que os Doze haviam andado a fazer na sua campanha de Poder Político. O Evangelho diz que Jesus esteve horas e horas a ensinar contra o mentiroso ensino dos Doze. Tantas horas, que nem deu pelo tempo passar. Os Doze estavam furiosos com ele e com o seu ensinamento. E, a dada altura, não aguentam mais e, malcriadamente, interrompem Jesus e o seu ensinamento, e dão-lhe uma ordem. A rebelião dos Doze é manifesta! Dizem-lhe: Não vês que horas já são? Manda-os embora, para irem comprar de comer. Então Jesus enfrenta-os e desafia-os e dá-lhes uma outra ordem, desafiadora até mais não. Assim: "Dai-lhes vós mesmos de comer!" E a verdade é que Jesus venceu esta batalha. Eles tiveram de dar tudo o que tinham. Só que nem assim a multidão entendeu Jesus e, em lugar de se assumir como povo liberto e igualitário, todos diferentes, todos iguais, organizou-se segundo as leis e as regras impostas pelo Poder Político. À espera que cada um dos Doze fosse o seu chefe a mandar em cada conjunto. Nisto estamos ainda hoje. O Evangelho de Deus Abbá, Criador de filhas e de filhos em estado de Liberdade e de Maioridade é anunciado - infelizmente, muito pouco, porque não há trabalhadores para semelhante Missão, a da Política Praticada e com afectos, só para a do Poder Político Praticado e com Privilégios sem conta - mas as populações e os Povos, de tão mentalizados /formatados que estão pelo Poder Político e suas mentiras publicitárias e pelas suas teologias idolátricas, as do Deus-Ídolo, nem querem ouvi-lo, muito menos, acolhê-lo e praticá-lo. Contudo, a via de desenvolvimento integral do Humano em cada ser humano que vem a este Mundo é por aí que passa. Ou assim, ou o caos, a Descriação. Escolher é preciso. Mas onde estão as Igrejas jesuânicas que pratiquem e anunciem a via que Jesus, historicamente praticou e anunciou e por causa do que foi crucificado na Cruz do Império e do Templo coligados? Eis a magna questão! É com ela que as, os deixo. Pensemos nela, à parte, num local despovoado, concretamente, no nosso mais íntimo. Apenas nós e o Espírito de Jesus. Quem sabe se não nascemos de novo, do Alto, do Espírito, e nos tornamos mulheres, homens para os demais e com os demais? Oxalá!

P.S.

Como já terão percebido, vou de férias. Mas sempre à escuta do Espírito. Por isso antecipei para hoje a crónica que haveria de escrever na próxima sexta-feira, 17. Fico em comunhão com todas, todos. E sempre contactável por telemóvel:

96 80 78 122 / 93 393 65 02. Fiquem, pois, com o meu afecto e a minha paz.

 

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

 


 

2009 JULHO 13

 

Ontem, domingo, 12 de Julho 2009, estive da parte da tarde e até final do jantar de confraternização com as companheiras, os companheiros da Associação San Payo, promotora da iniciativa, em Vila Nova de Cerveira, a terra minhota onde as Artes, desde há bastantes anos, ergueram o seu santuário e o seu altar do Mundo, bem nos antípodas do santuário e do altar do Mundo em que se transformou a pequena cidade de Fátima, a da nossa Idolatria religiosa, para fazer, na respectiva Biblioteca Municipal, a apresentação do livro AURORA DE POETAS, edição Campo das Letras. Os promotores da publicação do livro, cujo produto da venda, reverte integralmente para o Barracão de Cultura das Formigas de Macieira da Lixa, fizeram questão de que, desta vez, fosse eu a apresentar a obra de poetas e de poemas, naquele santuário e naquele altar do Mundo das Artes. E eu, como um menino, incapaz de dizer NÃO a semelhante repto, lá fui. Não fui sozinho - por vezes andamos /viajamos sozinhos, mesmo se rodeados /acompanhados de muitas pessoas - nesta Missão. O Espírito de Jesus levou-me e eu deixei-me levar no seu Sopro, todo fecundidade, que sempre deixa rasto, lá, por onde passar. Um rasto de libertação para a liberdade, um rasto de alegria e de festa, também de combate desarmado, um rasto de lucidez nos olhos e nos ouvidos do coração, mais ainda do que nos olhos e nos ouvidos do rosto e da cabeça. Porque as mulheres, os homens do Espírito, como foi, é, integral e paradigmaticamente Jesus, o de Nazaré, vêem e ouvem o Mundo e a vida, as pessoas e as coisas, sobretudo com os olhos e os ouvidos do coração. Uma impossibilidade absoluta para as mulheres, os homens do Poder, seja do Poder Político, seja do Poder Religioso /Eclesiástico, seja do Poder Económico-Financeiro, este último o mais cego e o mais surdo dos três, ele próprio a Cegueira e a Surdez, e a fonte de Cegueira e de Surdez nos Humanos. Coisa que, pelo que se vê, nem o nosso Saramago, o do Nobel da Literatura, já foi capaz de perceber, apesar de ser o autor do célebre ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA, assim chamado, e não, como poderia /deveria ter sido, ENSAIO SOBRE A CEGUEIRA E A SURDEZ. Porque Aquilo - escrevi Aquilo, com maiúscula, não escrevi Aquele - que cega, também ensurdece. E isto, nem os tidos por doutores e mestres na praça do Grande Capital, sabem, muito menos, praticam. Só mesmo os "pequeninos", dos quais fala /canta /dança Jesus-com-o-seu-Abbá, esses mesmos que os do Poder, de todo o Poder, não só não reconhecem, como ostracizam, odeiam e até matam. "A Luz e a Palavra vieram ao Mundo, o do Poder, de todo o Poder, e os homens, os do Poder, de todo o Poder, preferiram a Treva e a Ideologia /Idolatria à Luz e à Palavra, porque as suas obras, as suas práticas opressoras, não maiêuticas, eram /são más, perversas. De facto, quem pratica o Mal odeia a Luz e a Palavra e não se aproxima da Luz e da Palavra-que-vem-das-vítimas, para que as suas acções /práticas não maiêuticas não sejam desmascaradas" (cf. João 3, 19-20). A sessão revelou-se um Momento de Luz, de Sabedoria e de Graça, nos antípodas das contínuas sessões que os do Poder, de todo o Poder, promovem, a toda a hora e instante, em tudo quanto é sítio. Entre as pessoas que fizeram questão de marcar presença na sala das sessões da Biblioteca, destacavam-se, na sua simplicidade e grandeza, Alfredo Vieira, o Presidente da Associação Convento San Payo; o Escritor maior Luandino Vieira, a Voz-das-vítimas-de-Angola, e o Secretário da mesma Associação, a viver, desde há anos, em Vila Nova de Cerveira; o Mestre Escultor José Rodrigues, meu Amigo do peito; a Professora Manuela Leal, também da Associação; a própria Bibliotecária Teresa; uma jovem Artista, cheia de brilho nos olhos, que, no final da sessão, me veio procurar, vivamente impressionada e saudavelmente afogueada pelo que acabara de experimentar naquela sala e, em consequência, a fazer questão de marcar um encontro comigo, a ser gravado ao vivo, logo a seguir às férias. A jovem Artista estava acompanhada pelo próprio pai, Mário Lima, que - imagine-se! - foi sabedor da sessão pela sua companheira Maria Félix, minha amiga, desde a adolescência dela e os meus primeiros anos de presbítero da Igreja do Porto, a viver, há muitos anos, no Brasil. E mais pessoas, cujos rostos fixei, um a um, mas de quem não cheguei a fixar os nomes. Estavam também quatro companheiras que haviam viajado comigo na carrinha, Maria Laura, sua mãe Isaurinha, Carmo e sua irmã Lurdes. Na mesa da sessão, presidida pela Vereadora da Cultura, estavam, ao lado esquerdo dela, o Poeta maior, Nuno Higino, que me apresentou e, ao lado direito dela, eu próprio que apresentei o Livro. Nuno Higino contou uma experiência que tem tudo a ver comigo, ao tempo em que fui o pároco de Macieira da Lixa e que, pelos vistos, o marcou para sempre, então, nos seus 9-10-11 anitos, a viver em Sendim, Felgueiras. Contou Nuno Higino, como só os Poetas sabem contar, que, quando, em Sendim, havia ajuntamento de alguns párocos da região, por exemplo, na altura das chamadas "Confissões da Quaresma", ele ouvia as pessoas adultas da freguesia dizerem umas às outras, ao mesmo tempo que apontavam o dedo para mim, "É aquele! Aquele é que é o Padre Mário de Macieira da Lixa! Aquele padre, que até os Pides de Lisboa vêm ouvir as suas homilias!" O facto e estas palavras das pessoas adultas que ele e outras crianças da aldeia ouviam com alguma frequência da boca dos adultos, gravaram-se a fogo na sua memória. Tal facto e tais palavras tiveram o condão de o impressionarem tanto, que, para ele, então menino de 9-10-11 anitos, filho de mãe e pai pobres como Job, o padre Mário da Lixa passou a ser olhado "como um gigante". E não é que, depois, o menino cresceu, fez-se, ele próprio, também por influência do Padre Augusto, meu condiscípulo e, na altura, o Pároco de Sendim e de Jugueiros, padre da Igreja do Porto, foi pároco do Marco de Canaveses onde, em parceria com o mestre Sisa Vieira, idealizaram e realizaram a célebre Igreja do Marco, que tem tudo de Arte-que-liberta-e-humaniza e nada de templo-casa-de-terror-e de-covil-de-ladrões? Hoje, é já um padre casado e pai, canonicamente impedido do exercício do ministério, em consequência da estúpida e criminosa Lei do Celibato eclesiástico obrigatório. E eis que "o gigante" padre Mário da Lixa, da sua infância, estava agora ali, ao alcance do seu abraço e do seu afecto, numa parceria de iguais, cada qual na sua rota, numa fraternidade efectiva que esta sessão veio estreitar e solidificar ainda mais. A Palavra passou depois para mim. E eu disse-a tal como a havia escutado da parte da manhã de ontem e como continuei a escutá-la, no acto de a Partilhar com as pessoas que estavam na sala. Foi um Momento emocionante, por inesperado, que o Espírito de Jesus é mesmo assim, lá onde O deixamos ser o Protagonista. Porque, para além da Palavra feita de palavras que escutei-anunciei, à medida que lia-dizia as palavras escritas que já levava comigo, e que aqui Partilho, eu ainda cantei por duas vezes, no decorrer da breve conversa que se estabeleceu imediatamente a seguir. Eis.

 

No princípio, era o Poema. O Poema explodiu e nasceu o Universo. Há uns 13.700 milhões de anos. Desde então, o Universo continua ainda em contínua expansão. E, neste Universo ainda em expansão, apenas Hoje, ao Amanhecer o Dia, Aconteceu a Mulher e o Homem, que é outra maneira de dizermos que o Poema que explodiu há 13.700 milhões de anos, finalmente, se fez carne, se fez Consciência, se fez Entranhas de Ternura, se fez Relação recíproca e também Insurreição Desarmada, a mais fecundamente subversiva e conspirativa. Numa palavra, o Poema fez-se Humano. É verdade. Como seres humanos, Acontecemos apenas ao Amanhecer do dia de Hoje, depois de 13.700 milhões de anos, neste Universo ainda em expansão. Estamos ainda por acabar. Apenas nos Começos. Estamos ainda a fazer-nos. No decurso da História que também nasceu connosco. É por isso que a História é tão importante, decisiva, para o Humano se acabar de fazer /criar, até chegarmos a ser Liberdade, Maioridade. Fora da História não há salvação. O mesmo já não se pode dizer do Templo. Só da História. Porque do Templo temos que dizer: Fora do Templo é que há Salvação. Dentro do Templo não há salvação, porque o Templo, como tal, está fora da História. Por isso, Salvação, só fora do Templo, nunca fora da História! Ainda mal acabamos de Acontecer, relativamente è existência do próprio Universo, em expansão desde há 13. 700 milhões de anos. Somos sobretudo o que seremos. Mas, se já tivermos olhos e ouvidos no coração, nas entranhas, como os Poetas e os Artistas do Essencial têm, não apenas olhos e ouvidos no rosto e na cabeça, já sabemos Hoje o que seremos Amanhã. Seremos todas, todos, outros Jesus, o Poema feito carne, feito Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e Duelos Teológicos Desarmados contra a Ideologia /Idolatria. Porque só à medida que formos outros Jesus, com as mesmas Práticas Maiêuticas, devidamente actualizadas e os mesmos Duelos Desarmados, devidamente actualizados, é que a Idolatria, que está na raiz de todo o Perverso do Mundo, desaparecerá e o Poema que somos poderá finalmente ser dito, porque já é! Este livro, AURORA DE POETAS, que aqui lhes apresento, com meia centenas de poetas e bastantes mais poemas dentro, é, ele próprio, um Poema. Dos mais belos que, nesta fase da Evolução do Universo, acabamos de dar à luz. Porque não é apenas um livro. É um livro com Projecto libertador /fraternizador. Fica para sempre associado ao pequeno-grande Sinal que, nestes dias, estamos, as FORMIGAS DE MACIEIRA DA LIXA, a erguer na pequena e ignota aldeia do mesmo nome, essa mesma que, na década de setenta do século XX, inopinadamente, sem que ninguém estivesse à espera, nem o Bispo do Porto da altura, António Ferreira Gomes, se tornou para sempre um Lugar Teológico de um Deus que, ao contrário de todos os deuses e de todas as deusas, não gosta de Religião, de Templos, de sacerdotes, de cultos-sem-Cultura-e-sem-Profecia. Apenas gosta - imaginem só! - de Política, não de Poder Político, sim de Política Praticada, precisamente, na prossecução das mesmas Práticas Políticas Maiêuticas de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império, por exigência dos sacerdotes do Templo, todos idólatras, e Crucificado em consequência dessas suas Práticas Maiêuticas e desses seus Duelos Teológicos Desarmados. E, se Deus gosta de Política Praticada, não de Poder Político, também gosta de Cultura, a que "desperta", a que "puxa" os Povos para a Liberdade, até à plena Maioridade. E gosta de Poemas, também do Poema que é, já está a ser, o Barracão de Cultura e cujo primeiro fruto mais visível e duradoiro é este livro AURORA DE POETAS que aqui lhes apresento e trouxe comigo, para que o levem com Vocês e façam dele o Pão Nosso de cada dia. Ao levarem-no com Vocês, alimentam-se de Poemas e, ainda, ajudam a alimentar o Poema já levantado, pronto por fora, mas ainda não por dentro, que é o Barracão de Cultura. O meu /nosso Bem-Haja ao meu irmão, amigo e companheiro Nuno Higino, Poeta Maior deste País que ele canta assim no Poema, "A Minha Casa é um País", que ofereceu para este Livro:

 

É branco o meu país da água, branca

a paisagem que nos olhos mora

dói-me o meu país, oh! tão grande mágoa,

o tempo tardio nele se demora

 

É branco o meu país da água, branco

o caminhar na carne da madeira,

quebram-se os passos em quebrar de tábua

branco o meu país, florida roseira

 

É branco o meu país da água, brancas

as pétalas e a jóia do dedo

a ti regresso, meu país de frágua

o teu brilho queima, aceso rochedo

 

O meu /nosso Bem-Haja à Associação Convento San Payo que tornou possível este Momento, com um beijo para Manuela Leal que fez a ponte, via internet, entre Vila Nova de Cerveira e as Formigas de Macieira. O meu /nosso Bem-Haja à Biblioteca Municipal e à Câmara Municipal de Vila Nova de Cerveira por disponibilizarem este espaço e nos presentearem com a sua presença, neste final de tarde de domingo. O meu /nosso Bem-Haja a todas, todos Vocês que nos acompanharam na sessão de apresentação deste Poema, feito livro AURORA DE POETAS, obra de muitas mãos, e dito a muitas vozes. Esperamos por Vocês em Macieira da Lixa, no Barracão de Cultura, a Casa da Liberdade e da Dignidade.

 

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

 


 

2009 JULHO 10

 

Ninguém, dos da banda do Poder Político, seja do Governo, seja da Oposição (e todos os partidos políticos existem e trabalham para chegarem a ser Poder Político, seja no Governo, seja na Oposição; apenas a Política recusa o Poder Político e combate-o como o seu Inimigo, o seu Assassino) me perdoa que eu diga que todos eles são parte dos problemas com que todos os Povos estamos hoje confrontados, não são parte da solução dos problemas. É vê-los aí, numa lufa-lufa, até à exaustão, para ganharem mais um deputado no Parlamento, nem que seja no parlamento /assembleia da freguesia mais ignorada. O Poder Político é tudo para eles. Na sua demência-demência política, os da banda do Poder Político pensam que quanto mais Poder Político tiverem, mais contribuirão para a saúde e o bem-estar dos Povos. Nem vêem - mas o Poder Político, alguma vez, vê? Não é da sua natureza ser cego e ser agente de cegueira dos Povos? - que quanto mais eles crescem em Poder Político, mais os Povos diminuem como Povos-sujeitos-protagonistas-da-História, como Povos Políticos Praticantes. Os do Poder Político nunca são parteiras dos Povos. Sempre são opressores dos Povos. Roubam-lhes a alma, a identidade, o protagonismo. Sugam-nos com impostos. Fintam-nos. Driblam-nos a toda a hora. Mentem-lhes. Enganam-os. O comando do Mundo é sempre deles, nunca dos Povos. São os senhores dos Povos, nunca os seus servos. Servem-se dos Povos, nunca os servem. Constroem uma pirâmide social e eles estão no topo, nunca na base. Têm os pés sobre a cabeça dos Povos, nunca no mesmo chão em que os Povos têm sempre os seus pés. São o Poder Político, e está tudo dito. Nem os meus amigos da chamada Esquerda Política me perdoam este meu olhar-pensar-agir jesuânico-teológico. Eles sabem que este meu olhar-pensar-agir jesuânico-teológico lhes tira o tapete e faz cair a máscara de benfeitores /salvadores dos Povos, com que eles sempre se apresentam vestidos. Por mim, até acho que eles, ao princípio, são bem intencionados. Mas a partir do momento em que lhes tirei o véu ideológico ou a venda ideológica dos olhos, já é difícil acreditar que são bem intencionados. A verdade é que continuam na deles, e têm-me a mim na conta de louco, de sonhador, de ingénuo, de utópico. São cegos que se têm na conta de guias dos Povos. Colocam-me então definitivamente fora das suas vidas, como um louco inofensivo. Ao mesmo tempo que avisam os seus apaniguados que passem a tratar-me como um louco inofensivo, ou como um não-existente. E lá vão, altivos e ufanos, na sua demência-demência política, com as suas mentes totalmente possuídas /possessas pela Ideologia /Idolatria do Poder Político. Erguem tronos, onde depois se sentam. Decretam privilégios, de que depois usufruem. Promulgam leis que, depois, os beneficiam. Criam forças de segurança que, depois, os protegem. Fixam salários principescos que, depois, recebem. E os Povos que paguem tudo, suportem tudo, aguentem tudo, e ainda, por cima, votem neles e, depois, saiam às ruas a aplaudi-los, quando eles passarem nas suas viaturas de luxo, com vidros à prova de bala. Eles fazem tudo isto, e eu é que sou o louco, o ingénuo, o sonhador, o utópico. Vá lá, que ainda não decidiram que eu me constituí num perigo público, porque, nesse dia, sair-me-ão ao caminho, sequestram-me e, se eu não aceitar retratar-me publicamente do que tenho andado a escrever /dizer, matam-me como se mata uma mosca, tal como fez, recentemente, Obama, o do Império, numa entrevista em directo na televisão. A mosca-varejeira era mesmo uma mosca a sério, mas o gesto, porque mediatizado, adquiriu uma inusitada força simbólica, que nem o próprio terá pensado na altura. É assim que o Poder Político, nomeadamente, o do Império, trata os que não dizem com ele e o não reconhecem como o salvador /benfeitor dos Povos. Matam-nos com o mesmo à vontade com que matam uma mosca. Vem tudo isto a propósito do extracto do Evangelho de Marcos 6, 7-13, que será lido nas missas do próximo domingo, o 15.º do Tempo Comum, em tudo quanto é templo católico, no nosso país, na Europa e no resto do Mundo. Jesus, o protagonista deste Evangelho, o praticante deste Evangelho, tinha mesmo de acabar como acabou: crucificado na Cruz do Império e do Templo coligados. Ou o Poder Político não seja assassino. É. Mesmo quando veste de benfeitor /salvador, como se vestiu o Poder Político do Império Romano. É sempre assassino. Não deixa pedra sobre pedra, quando percebe que os Povos, desarmados que estejam, se levantam contra ele. Exige-lhes incondicional adoração. Não tolera nenhuma contestação. E chega a ser feroz. Cruel. Sádico. O extracto do Evangelho de Marcos vem na sequência do outro que foi lido nas missas do passado domingo. Os da sua terra, quando perceberam, na Sinagoga, que Jesus não só não secundava as ambições da casa real de David /Salomão e já apropriadas como suas pelo colectivo do Povo Judeu, de virem a ser o único Povo que estaria mesmo à beira de vir a ter para sempre o completo domínio do Mundo, graças ao mito que aquela casa real de David /Salomão, mil anos antes, criou e pôs a circular entre os demais Povos do Mundo, um mito que apresentava o Povo Judeu como o único Povo eleito, o Povo escolhido por Deus, muito pelo contrário, até as denunciava como perversas e trabalhava maieuticamente e sem descanso para ajudar a dar à luz uma Ordem Mundial outra, intrinsecamente, política, com todos os Povos do Mundo como os únicos sujeitos e protagonistas - é isso a Política que o Poder Político não pode nem ouvir falar! - passaram, quase em bloco, abertamente à ofensiva contra ele. Os próprios discípulos de Jesus, os de matriz judaica, que Jesus havia convocado e constituído como o Grupo dos Doze, ponto de partida para a constituição de um Povo de Povos, como o genuíno Povo de Deus, que incluiria todos os Povos de todas as nações da Terra, sem exclusão de nenhum, cada qual com a sua cultura e a sua originalidade, todos em pé de igualdade, uns perante os outros, rapidamente se manifestaram contra ele e contra semelhante Projecto Político alternativo ao do Poder Político. De modo algum, estavam de acordo com Jesus. E deixam-no completamente sozinho nessa missão política, a única que Deus, o Abbá de todos os Povos, reconhece como sua. Continuam todos bem aferrados à Ideologia /Idolatria do Poder Político, da casa real de David /Salomão, que a Sinagoga, em cada sábado, alimentava nos Judeus que eram obrigados a frequentá-la. Jesus desiste, então, definitivamente da Sinagoga e passa a andar pelas aldeias da região, em contacto directo com as populações. Num primeiro momento, vai totalmente sozinho. Os "Doze" não vão com ele. São os seus mais próximos opositores, com Simão Pedro à cabeça. Este pormenor, absolutamente substantivo, está registado no Evangelho de Marcos, na parte final de um pequeno versículo que o Missal Romano omitiu no passado domingo e que continua a omitir também neste próximo domingo, apesar do extracto deste domingo estar na continuação do extracto do passado domingo. O Missal Romano, pura e simplesmente, passa à frente, como se ele não estivesse lá, no relato de Marcos. Mas está. Precisamente como a segunda parte do mesmo versículo 6, que já deveria ter sido lido inteiro no passado domingo e não foi. Uma omissão /censura não de todo inocente. Só pode ser propositada, pois nem sequer é um novo versículo, mas o mesmo que só foi lido na primeira parte, quando deveria ter sido lido na íntegra. Diz assim o versículo inteiro: "E Jesus estava admirado com a falta de fé do seu Povo. Então, pôs-se a percorrer as aldeias em redor, a ensinar" (o itálico, da minha responsabilidade, é a parte do versículo que foi censurada pelo Missal Romano!). Cá está. A Sinagoga, onde Jesus foi ensinar /dar a conhecer o seu Projecto Político, que é o mesmo de Deus-Abbá, recusou-o liminarmente, e ainda tratou Jesus como louco, um conspirador, um atrevido, como um Dom Ninguém. De modo algum fez seu esse Projecto, menos ainda cooperou com Jesus. Não se envolveu, manteve-se na dele, preferiu o outro projecto, o do Poder Político da casa real de David /Salomão, que mais não era que um mito inventado por ela e difundido por ela entre os demais Povos. Jesus, espantado com a reacção dos seus conterrâneos, deixa duma vez por todas a Sinagoga e vai, então, directamente aos Povos das redondezas, até chegar - o seu objectivo é esse - aos confins do Mundo. Mas teve de ir sozinho nessa Missão. O relato não engana. Diz expressamente que só Jesus se pôs a percorrer as aldeias das redondezas. O grupo dos Doze não o acompanhou. Ficou com a Sinagoga. Ficou com o mito da casa real de David /Salomão, o mito que ensinava, como palavra de Deus, que o Povo Judeu viria a ser, em breve - para isso, é que o Messias iria vir e a sua chegada estava anunciada para aqueles dias, os mesmos em que estava a desenrolar-se a missão de Jesus! - o senhor do Mundo, como o único Povo eleito ou Povo escolhido por Deus para isso mesmo! Seria, então, o Poder Político em todo o seu brilho, em todo o seu esplendor de Treva ilustrada, de Opressão, de Domesticação dos Povos do Mundo. Ora, para que os Doze voltassem a juntar-se a ele, Jesus teve de os convocar de novo, depois de ter actuado uns tempos sozinho. Eles reaparecem junto dele, mas, certamente, na disposição de lhe resistirem e de lhe fazerem a cabeça. Jesus ainda espera que eles mudem e acabem por compreender e aderir ao Projecto Político de Deus, o Abbá Criador e Libertador - não Poder Político, nem sequer na sua dimensão de benfeitor - dos Povos todos do Mundo. E, em lugar de se pôr a ensinar de novo os Doze que havia escolhido e constituído, faz com eles uma experiência nova. Decide enviá-los dois a dois aos Povos, indiscriminadamente, tanto Judeus como Não-Judeus. E envia-os, não à Sinagoga de cada lugar, mas às casas das pessoas, de todas as pessoas, indistintamente. Mas, primeiro, tenta despertar neles a capacidade de eles terem mão, total domínio, total controlo, sobre a Ideologia /Idolatria nacionalista fanática com que eles continuavam possuídos /possessos, apesar de já andarem com ele há bastantes dias, semanas, meses. Envia-os, então, dois a dois, sem bolsa nem alforge. Pobres. Vestidos com a túnica que têm no corpo. Sem pão. Sem dinheiro. E sem bolsa onde guardar o que quer que fosse. Teriam de aceitar a hospitalidade que lhes fosse oferecida, sem imporem quaisquer condições. E entre eles não haveria nenhum superior, nenhum chefe, nenhum Poder. Para isso é que iam dois a dois, em radical igualdade. Mais do que ensinar, deveriam escutar as pessoas, os Povos. Nada de discursos elaborados e previamente escritos, carregados de Ideologia /Idolatria. Teriam de saber escutar. Saber estar. Fazer-se acolher. Confraternizar sem preconceitos, sem tabus. Serem um só com as pessoas e os Povos, na originalidade de cada qual. O surpreendente é que os Doze aceitam a proposta de Jesus. Parecia que esta mudança de estratégia de Jesus estava a resultar em cheio. Puro engano. Diz o relato que eles foram, sim senhor, mas, depois, por lá, fizeram tudo ao contrário do que Jesus lhes havia dito para fazerem. "Puseram-se a pregar às pessoas e aos Povos que se arrependessem /emendassem". E, não contentes com isso, ainda se põem "a expulsar demónios, a ungir com azeite todos os prostrados /desanimados e a curá-los /animá-los". Tudo ao contrário do que Jesus pretendia. Estas suas posturas revelam bem que os Doze aproveitaram a oportunidade que Jesus lhes deu, para espalharem a sua mítica Ideologia /Idolatria messiânica da casa real de David /Salomão e, com isso, suscitaram nas pessoas e nos Povos a ilusão sócio-política de que estava para breve a intervenção de Deus, que constituiria o Povo Judeu como o senhor do Mundo, dos Povos do Mundo, numa espécie de Império global, onde Deus seria o Deus-imperador e o Povo Judeu os seus dois braços, o direito e o esquerdo, o Poder Religioso /Templo e o Poder Político /Império, os dois num só! É claro que, perante uma pregação destas e perante comportamentos destes, os Doze não encontraram nenhuma rejeição, nenhuma oposição, por parte das pessoas e dos Povos. Aparentemente, a missão foi um sucesso, mas apenas como costumam ser as missões-ópio do Povo, que alimentam as ilusões dos prostrados, dos desesperados, dos proscritos, dos fracassados. Aliás, não são assim, ainda hoje, as tradicionais missões sem Missão dos pastores das Igrejas dizimistas e dos missionários das Missões católicas? Não aparecem com Poder e manifestações de Poder e de riqueza? Não começam logo a construir templos, palácios, IPSSs, todo um arsenal de Caridadezinha que serve para encobrir um empório de riqueza cada vez mais acumulada e concentrada nas mãos deles? Despertar os Povos para que os Povos se tornem, eles próprios, os protagonistas, os sujeitos, os donos dos seus próprios destinos? Para que sejam, eles próprios, Povos Políticos Praticantes? Nem pensar. Seria subverter a actual Ordem Mundial e logo os do Poder Político no terreno não perdoariam semelhante subversão. Seriam de imediato expulsos, no mínimo. Porque o mais provável é que nunca mais regressassem a casa, nem sequer como cadáveres! Como se vê, o aparente sucesso da missão dos Doze, enviados dois a dois, redundou para Jesus num completo fiasco. Os Doze, afinal, continuavam ainda mais discípulos de João, o Baptista, do que discípulos dele. Seguiam mais os ensinamentos de João, do que os dele. Não iam com Jesus, nem com o seu Projecto Político, nos antípodas do Poder Político da casa real de David /Salomão. O problema maior e praticamente insolúvel até ao abrupto final da vida de Jesus é que, com este tipo de missão, realizada pelos Doze, Jesus saiu a perder em toda a linha. Porque as populações passaram a entusiasmar-se com ele, mas porque viam nele o tal messias vencedor esperado, através do qual Deus iria, finalmente, restaurar o Reino de David /Salomão, dar corpo ao Império do Povo Judeu que já era sonhado pela casa real de David /Salomão, portanto, pelo menos, desde há mil anos. E só na base desta expectativa é que as multidões correm para Jesus e o aclamam. Na base de um tremendo equívoco, que Jesus tentou tudo por tudo para desfazer, mas sem sucesso. A decepção /desilusão só chega, quando, tempos depois, os do Poder Político do país, que, na altura, eram os mesmos do Poder Religioso do Templo, decidem agir em força contra Jesus. Porque esses, os chefes, nunca se deixaram enganar. Desde a primeira vez que Jesus ensinou na Sinagoga, eles perceberam de imediato que ele não estava com as ambições e os privilégios deles, tão pouco, com a Ideologia /Idolatria do Povo Judeu, como o Povo eleito, o Povo escolhido por Deus para governar o Mundo, essa mesma Ideologia /Idolatria que dava consistência e fundamento às suas ambições e aos seus privilégios, bem como, a eles próprios como chefes incontestados do Povo. Não só Jesus não estava com essas suas ambições, como estava aberta e inequivocamente contra elas, porque, para ele, Jesus, era, é, manifesto que a via do Poder Político é a via da Opressão /Infantilização /Domesticação dos Povos, não a via do seu desenvolvimento Humano integral, até os Povos todos, sem excepção, se tornarem Sujeitos, Protagonistas, Donos dos próprios destinos, numa palavra, Povos Políticos Praticantes, sem mais necessidade de messias, de deuses, de chefes, de intermediários, de sacerdotes, de pastores. Ora, ou avançamos, hoje, Século XXI adiante, lúcida e decididamente, por aqui, ou nunca mais saímos do Infantil, do Subserviente, do Menor-de-idade, do Braço-estendido, do Chapéu-na-mão. Teremos, porventura, segurança, subsídios, mas não saberemos nada de Liberdade nem de Maioridade. Teremos chefes mais ou menos bem-falantes, mais sádicos, uns, mais demagogos, outros, mas não saberemos nada de Autonomia, nem de Política Praticada, nem de Protagonismo. Teremos deuses, deusas, santuários, cultos religiosos, mas não saberemos nada de DeusVivoCriador, o de Jesus, seu e nosso Abbá e de todos os Povos do Mundo por igual. E acabaremos feitos minhocas, vermes, teologicamente prostitutos, isto é, atolados até aos ossos na Idolatria, a do Dinheiro Acumulado e Concentrado. Porventura, ainda adoradores do mítico Cristo do Império Romano, mas sem Jesus, o filho de Maria, a quem até odiamos e matamos na Cruz do Império e do Templo coligados, para que ele não venha nunca mais perturbar-nos nem perturbar a nossa paz-de-charco em que vegetamos /coaxamos, como rãs, como répteis. Escolher é preciso. Cá por mim, já há muito que escolhi. É por Jesus e pela sua via que vou. Só ele é o Caminho, a Verdade e a Vida! Com ele, sou /serei progressivamente Humano, até chegar a ser integralmente Humano. Tudo o mais, fora desta via, por muito brilhante e sedutor que possa ser, é para mim como esterco.

 

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

 


 

2009 JULHO 09

 

Até ao ano 2050, prometem os do G8. O ambiente, hoje cada vez mais pelas ruas da amargura, terá de esperar ainda mais 40 anos pelo início da necessária  inversão de marcha em direcção à calcinação global. Palavra dos chefes de estado ou de governo dos oito países mais industrializados e mais ricos do Mundo. Leram bem. Não são quarenta dias, nem quarenta semanas, nem quarenta meses. São quarenta anos. E ainda nós, as portuguesas, os portugueses, nos queixamos das listas de espera para uma consulta no médico de família, uma consulta externa no hospital, uma intervenção cirúrgica num hospital público. Ponham aqui os olhos. A saúde do Planeta Terra, nossa casa comum, terá de esperar quarenta anos para ver os oito países mais industrializados, mais ricos e mais poluidores do Mundo diminuírem as suas emissões de gases com efeito de estufa em 80 por cento, para, desse modo, se limitar o aquecimento global a dois graus Celsius. Quarenta anos de espera. Pela concretização de uma vaga e simples promessa, feita pelos actuais chefes desses oito países. Uma promessa que não tem nenhuma garantia de vir a ser cumprida, nem pelos que acabam de a assinar e anunciar, nem, muito menos, pelos que lhes sucederem no trono que eles hoje ocupam, e que não é deles. Ontem, já era tarde, para iniciarmos a mais que necessária inversão de marcha do Planeta Terra em direcção à calcinação global em curso. E os oito senhores do Mundo (na verdade, não são eles os senhores do Mundo, eles apenas são os funcionários-mor do Senhor do Mundo, que é o Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado) ainda têm a lata de, a partir de Roma, que foi sede do Império Romano e hoje é a sede da Transnacional da religião católica romana, onde ontem estiveram reunidos em Cimeira para as tvs de todo o Mundo mostrarem, anunciarem esta vaga promessa, para vir a ser concretizada apenas daqui a quarenta anos. Com uma agravante mais e que é esta: Como eles são todos compulsivamente mentirosos e assassinos, sempre que os interesses do Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado assim lho exigirem, ninguém garante que semelhante promessa venha a ser efectivamente concretizada. Perante isto, o que fazem os Povos do Mundo? Como reagem? Ouvem e calam. Encolhem os ombros. Deixam para lá. E ainda fazem pior: Continuam a votar neles. Continuam a respeitá-los. A deixá-los andar à solta, de Cimeira em Cimeira. Nenhum protesto. Nenhum chicote nas mãos. Nenhum lançamento de ovos chocos ou de sacos de plástico cheios de dejectos sobre eles, quando todos juntos como um só, posam para a foto de família. Sim, eu sei, há toda aquela segurança a protegê-los e não permite que os Povos se aproximem deles. Mas os que estão ali, armados até aos dentes a protegê-los da ira e da cólera dos Povos, não são parte integrante dos Povos? Contratados para protegerem mentirosos e assassinos compulsivos, vestidos de Executivos dos oito países mais industrializados, mais ricos e mais poluidores do Mundo, porque não aproveitam esse facto e trocam as armas por protestos, por chicotes, por ovos chocos, por sacos de plástico cheios de dejectos, e os lançam sobre eles, em lugar de os protegerem? Porque não são aquilo que na verdade são, parte integrante dos Povos do Mundo? Porque matam o que há em si de Povos do Mundo, e assumem-se exclusivamente como "Forças de Segurança"? Porque traem os Povos que eles próprios também são? Porque são assim tão dementes-dementes? Porque têm a faca e o queijo nas mãos e viram toda esta força contra si próprios e contra os Povos do Mundo que eles próprios também são? Sim, eu sei, igualmente, que lhes lavaram o cérebro, lhes formataram o cérebro, para eles deixarem de ser o que são e passarem a ser o seu contrário. Mas porque consentiram eles que lhes fizessem tão intolerável operação? Porque não resistiram? Porque não fugiram pela escola fora, pelo quartel fora, pela academia fora, pelo templo fora, pelas aulas de descriação do Humano fora e vieram juntar-se aos seus Povos e contar-lhes tudo o que pretendiam fazer com eles? Porque consentem? Porque até agradecem que os tenham contratado, que tenham confiado neles, na lealdade deles? Homens, sede Homens! Povos, sede Povos! Porque é que este apelo /grito que rebenta no mais fundo dos seres humanos e dos Povos do Mundo não é escutado por eles? Porque, ao contrário, eles se vendem por um prato de lentilhas? Porque traem os seus irmãos, mulheres e homens? Porque traem os Povos dos quais são parte integrante? Porque se traem a si próprios? Porque aceitam perder a alma, a identidade, serem reduzidos à condição de funcionário, de mercenário, de robot, de Caim para si próprios e para os Povos do Mundo? São um nunca mais acabar de perguntas. Todas oportunas. Não! Não digam que são utopia. Não digam que sou eu que estou a delirar. É a saúde do nosso Planeta Terra que está em jogo. São o presente dos nossos filhos que estão hoje a nascer e vão nascer amanhã, e o presente dos filhos dos nossos filhos, que estão em jogo. Andamos estes dias tão preocupados com o vírus da gripe A, que pode vir a afectar a saúde e a vida de uns quantos milhares ou milhões de pessoas em todo o Mundo, e não nos aflige minimamente a saúde do nosso Planeta Terra, nosso útero e nossa casa comum? Porque filtramos com tanto zelo o cisco /vírus da gripe A e continuamos a engolir o camelo /aquecimento global do Planeta Terra? E ainda nos dizemos ilustrados /civilizados /desenvolvidos? "Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra". É a grande palavra de Ordem que os seres humanos ouviram, quando, no decurso da Evolução, aconteceram, um dia, no Planeta Terra. Em lugar de assumirem com alegria essa Prática Política Maiêutica do Cuidado da Terra, assustaram-se perante tão galvanizadora Missão! E, nos seus medos, correram a erguer templos e ermidas nos pontos mais altos em seu redor, e a meter-se lá dentro. Em lugar de se ocuparem da Terra, de cuidarem da Terra, passaram a ocupar-se e a cuidar das deusas e dos deuses. Especializaram-se em Religião Praticada, não em Política Praticada. A Voz bem gritava no mais fundo deles, seres humanos e Povos, "Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra!" Mas os seres humanos e os Povos, assustados, eram para as deusas e deuses da sua imaginação e dos seus medos que olhavam. Era com elas e com eles que se ocupavam. Era delas e deles que cuidavam. Ainda hoje, milhares e milhares de anos depois desses começos, é assim que os Povos do Mundo se comportam. Multiplicam as religiões, os templos, as ermidas, os santuários, frequentam com assiduidade os cultos, os mais tradicionais e os mais recentes, pagam os dízimos, esforçam-se por estar de bem com as deusas e os deuses, e não querem saber nada de Política Praticada, que, na prática, se resume a realizar aquela Palavra de Ordem inicial, "Crescei, multiplicai-vos e cuidai da Terra". Cuidam das deusas e dos deuses, descuidam-se por completo da Terra. E, como a Terra é cada vez mais uma Terra-por-cuidar, por-acompanhar, por-atender, ela adoece de abandono, de descuido, de solidão. Quando a doença se torna mortal, ela morre e, ao morrer, faz morrer com ela os Povos que a habitam. A doença da Terra é a doença dos Povos. Entre a doença da Terra e o vírus da gripe A, não há comparação possível. A doença-morte da Terra é a nossa doença-morte também, como Povos que a habitamos. E, mais do que isso, que somos. Sim, porque não só habitamos a Terra. Somos Terra que, em nós, se tornou consciência, se tornou liberdade, numa palavra, se tornou Política Praticada. Temos de deixar as deusas e os deuses que são Mentira, por isso, Opressão e Morte, e abrirmo-nos à Política Praticada, coisa que os chefes dos oito países mais industrializados, mais ricos e mais poluidores do Mundo não sabem o que é, porque a confundem com Poder Político, o único que lhes interessa, ainda que ele seja mentiroso e assassino. São, por isso, os mais dementes-dementes dos seres humanos. Eles e os que os guardam, os protegem, os defendem, quando deveriam amarrá-los, ter mão neles, reabilitá-los, restaurar neles o Humano que se perdeu de todo. Se nem com os inúmeros erros que, como Povos da Terra, já cometemos até hoje, nós aprendemos, como poderemos sonhar com um Amanhã melhor? Política Praticada, quero, não Poder Político. Política Praticada quero, não Religião. É o que nos diz /grita a misteriosa Presença-Voz que nos habita mais íntima a nós do que nós próprios. É tempo de a escutarmos e de a realizarmos. É tempo de sairmos da criancice, do Infantil(ismo), do Medo. E de passarmos à Política Praticada, com todos os Povos como sujeitos, como protagonistas. Sem mais recursos a intermediários, seja os funcionários-mercenários do Poder Político, seja os funcionários-mercenários do Poder Religioso, seja os funcionários-mercenários do Poder Financeiro. A Terra está doente e chama-nos. Como um planetário Lázaro, o do Evangelho de João. Como Jesus, o Ser Humano por antonomásia, que nunca cuidou das deusas nem dos deuses, apenas cuidou dos seres humanos e dos Povos, levantemo-nos cada dia e cuidemos dela. Ao cuidarmos da Terra, é também de nós que estamos a cuidar! Amemo-nos a nós mesmos e amemo-nos uns aos outros. É isso a Política Praticada que está a fazer ainda mais falta do que o Pão para a boca.

 

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2009 JULHO 08

 

Acaba de ser aberta e difundida a nova carta encíclica de Bento XVI, Caritas in veritate, "sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade". Melhor seria que o papa tivesse partido, nesta sua carta encíclica, da verdade para a caridade. Veritas in caritate. Porque a Verdade Amada e Praticada é que nos faz livres. E só na Liberdade que brota da Verdade Amada e Praticada é que o Amor se torna fonte de desenvolvimento integral do Humano. De contrário, acaba na Caridadezinha, que é a outra face da Exploração. Sem Verdade Amada e Praticada, nem o Amor o chega a ser. Depressa redunda em Submissão, em Subalternidade, em Vassalagem. O Amor só é Amor Criador do Humano, quando nasce da Verdade Amada e Praticada. Do alto do seu trono papal; do alto da sua Cúria Romana; do alto do seu Poder monárquico absoluto, Bento XVI desconhece a Liberdade que brota como fruto da Verdade Amada e Praticada. O Poder Praticado, para mais, monárquico e absoluto, é que discorre, de discorrer, sobre desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade. Porque pensa que é pela Caridadezinha que chegamos a ser humanos. Quando só a Verdade Amada e Praticada nos faz livres. E sem esta premissa, o desenvolvimento nunca chega a ser humano, muito menos integral. Como se vê, a nova carta encíclica do papa Bento XVI nasce torta, desde o início. Como tal, no dizer do Sábio, tarde, mal, nunca se endireita. É um extenso documento, em seis capítulos e 79 parágrafos. Uma espécie de pescadinha de rabo na boca. Nasce na Cúria Romana e regressa à Cúria Romana. Nasce no trono do Poder monárquico absoluto papal e regressa ao Poder monárquico absoluto papal. Sem nunca o pôr em causa. Não chega, por isso, a ver o Invisível. Nem a escutar o Essencial, ambos absolutamente inacessíveis ao Poder monárquico absoluto. Para chegar a tocar o coração das pessoas e dos Povos do Mundo, o bispo de Roma tem de desistir de ser o que historicamente é e, hoje, na pessoa de Ratzinger, faz bem gala de mostrar que é. Tem de desistir de ser Poder monárquico absoluto, do alto do seu trono, com todo o Mundo aos pés, como seu vassalo, seu súbdito. Até aos bispos que presidem a outras tantas Igrejas locais, o papa de Roma trata como seus súbditos e vassalos. Não como iguais. Só a Verdade Amada e Praticada nos faz iguais. O Poder absoluto e a Caridadezinha que dele resulta fazem desiguais, acentuam as desigualdades, radicalizam as desigualdades. Fazem súbditos, vassalos, não iguais, não irmãos. E tal é a Caridade /Amor sem a Verdade Amada e Praticada como Fonte, o mesmo é dizer, sem a Liberdade. O Amor que vem do Poder monárquico absoluto, não da Liberdade que nasce da Verdade Amada e Praticada, acaba sempre Caridadezinha, alimento de desigualdades e fonte de desigualdades cada vez mais acentuadas. Onde há Poder monárquico absoluto, há Exploração do Humano e há Caridadezinha. Só a Liberdade que brota como fruto maduro da Verdade Amada e Praticada nos faz iguais, todos diferentes, todos iguais. Esta realidade está inacessível ao papa de Roma, alcandorado no seu trono, de que não abdica. Quem sobe a tamanhas alturas, nunca mais enxerga a Realidade mais real que só se enxerga na base da pirâmide, a partir dos últimos da História, das vítimas de todas as cúpulas. Decididamente, a base da pirâmide social, não é o universo do papa de Roma. O dele é o do Topo dos topos. Nunca vê iguais. Só vê vassalos e súbditos. E, quando se lhes dirige, é como seus vassalos e súbditos que os vê e os trata. A carta encíclica começa mal, logo nas primeiras palavras que lhe servem de título, em latim, pois claro, como se ainda vivêssemos no tempo de César Augusto de Roma, tido e tratado como o filho de Deus, miticamente nascido de mãe humana e de pai divino, cujo culto público era obrigatório em todo o território, por parte de todos os seus súbditos. Só que a Igreja - eklesia - nasceu do Movimento das, dos de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império de César Augusto de Roma e do Templo dos sumos sacerdotes de Jerusalém, os dois coligados entre si. Não nasceu do Império e do Templo, muito menos, do imperador César Augusto e dos sumos sacerdotes Anás e Caifás, os grandes carrascos ou verdugos históricos de Jesus. Tem, pois, inevitavelmente, na sua matriz, a Rebeldia, a Insubmissão, a Dissidência, a Liberdade que brota da Verdade Amada e Praticada, a Sororidade /Fraternidade Universal. Começa como o grão de mostarda, a mais pequena das sementes, e nunca chega a passar de um arbusto onde só as aves do céu, isto é, só as, os da Liberdade, fazem os seus ninhos, isto é, constroem e aimentam as suas vidas de Resistentes, de Rebeldes, de Insubmissos, de Dissidentes, de Sujeitos, de Mulheres /Homens livres, numa palavra, de Seres Humanos integrais, nos antípodas dos vassalos. Por isso, a Igreja não tem lugar no Império, ainda que viva no seu mesmo chão. Nunca é do Império /Poder Político. Sempre se lhe opõe, sempre lhe resiste. Sempre o desmascara. Sempre lhe diz, Não te servirei; Não te obedecerei; Não te adorarei; Não me coligarei contigo; Sempre te denunciarei e aos teus crimes; Sempre desmascararei a tua Idolatria, o Perverso institucionalizado que tu és. Por isso, é inevitavelmente Igreja Crucificada pelo Império, em lugar de casada /coligada /amancebada com o Império. O papa de Roma não é capaz de ver isto, porque apenas vê o cisco que está nos olhos dos demais, nunca vê a trave que está nos seus próprios olhos. Sempre anda à cata de mosquitos para filtrar, ao mesmo tempo que engole camelos, a vida toda. Faz-se rodear de vassalos que lhe prestam vassalagem todos os dias, a troco de "rebuçados", de privilégios sem conta, de títulos honoríficos com que os próprios se enfeitam como infantis que são por toda a vida. A carta encíclica tenta reler uma outra, de Paulo VI, de seu nome Populorum Progressio (= O Progresso dos Povos), publicada há mais de 40 anos. Não faz dela, como mentirosamente foi anunciado, uma leitura para o século XXI. Faz uma leitura /actualização redutora. Corta-lhe o que ela teve historicamente de asas. Domestica-a. Obriga-a a ser como uma galinha no galinheiro. Admito que o papa Bento XVI não o faça por maldade. Fá-lo por incapacidade. O Poder monárquico absoluto que ele é, domestica e castra tudo o que toca. Até o seu predecessor Paulo VI sai domesticado e castrado nesta carta encíclica de Bento XVI. Que o papa Bento XVI é, ele próprio, um intelectual domesticado, castrado. Por isso, se sente tão a jeito no pedestal. Terá até alguma pena de já não haver na Cúria a famigerada Sede Gestatória, tipo andor, para ele ser transportado nos ombros dos seus embevecidos vassalos. Vontade não lhe faltará de a restaurar e reintroduzir nos usos e costumes papais. O Poder monárquico absoluto não olha a meios. Tudo lhe é permitido. Tudo lhe fica bem. Tudo é tido pelos súbditos como sagrado. Tudo é tido como divino. Nada é Humano, muito menos Humano integral. Os actuais gravíssimos problemas sociais e ecológicos do nosso Planeta e dos Povos, na sua esmagadora maioria, Povos empobrecidos, são tocados apenas ao de leve, como um pano húmido sobre uma mesa com ténues vestígios de pó. A carta encíclica não vai à raiz deles. É "Caritas in veritate", não é "Veritas in caritate"; é Caridade(zinha) na verdade, não é Verdade Amada e Praticada na Caridade. Aquela Caridade que nasce da Liberdade, fruto da Verdade Amada e Praticada, que nunca chega a ser Caridadezinha. A Caridadezinha é um exclusivo do Poder monárquico absoluto e do Poder Político /Eclesiástico em geral. Para o papa Bento XVI ir à raiz dos problemas deste nosso Tempo, teria ele próprio de erguer a sua tenda entre os últimos da pirâmide social. Viver organicamente com eles. Assim, do alto do seu pedestal, não enxerga nada de Essencial. Quando muito, vê umas manchas, umas sombras e faz patéticos apelos a vagos reformismos, que cheiram a Moralismo que tresanda. Uma lástima. Pura retórica papal, para ninguém ouvir, à excepção de alguns intelectuais católicos que, por dever de ofício, eles próprios uma espécie de papas-em-ponto-pequeno, não podem deixar de ler e de comentar, porventura, até reproduzir algumas das suas frases, nas aulas universitárias sobre a chamada "Doutrina Social da Igreja". Escrevo tudo isto com lágrimas. Porque o papa Bento XVI está manifestamente nos antípodas de Jesus, o Crucificado na Cruz do Império e do Templo coligados. Não. Não exagero no que acabo de escrever. Pelos frutos se conhece a árvore. E os frutos do papa Bento XVI estão aí bem à vista de toda a gente. Limpem os vossos olhos de toda a idolatria papal, olhem para a Roma e a Cúria Romana despojados das lentes ideológicas idolátricas que, desde a infância, as catequeses paroquiais alojaram neles para sempre - será que ainda conseguem realizar esta libertação? - e verão a realidade nua e crua, tal e qual ela é. Verterão lágrimas como eu verto. Porque o ministério de Pedro /Maria Madalena, melhor, o ministério de Maria Madalena /Pedro, indispensável na Igreja, a que nasceu do Movimento das, dos de Jesus, está nos antípodas do que vemos hoje no papa Bento XVI. Por isso é que o ministério de Maria Madalena /Pedro deu-nos Jesus, o Evangelho Vivo entre nós e connosco de Deus-Abbá, e o do papa Bento XVI dá-nos cartas encíclicas como esta, vazias de Jesus, a Boa Notícia de Deus-Abbá, e cheias de Nada, de Coisa Nenhuma, apenas palavras, palavras, palavras que o vento leva. Os do Senhor Dinheiro Acumulado e Concentrado têm razões de sobra para esfregarem as mãos de satisfação. E de brindarem ao papa que tão relevantes serviços lhes presta e ao deus deles e dele, o Senhor Dinheiro, o Ídolo dos ídolos, intrinsecamente mentiroso e assassino.

 

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

 

1 Prezado senhor padre Mário

Esperava um comentário à encíclica com argumentação baseada nas palavras da encíclica. Palavra contra palavra e não posição contra posição. Assim cai-se no panfletário e na desinformação, própria também da instituição. De tudo nos podemos aproveitar para puxar a brasa à nossa sardinha. Enquanto os cristãos se atacarem deste modo não poderá haver paz. Ser-se contra a monarquia, mas ter-se o rei na barriga é incoerência. A crítica é positiva se contemplar também a verdade dos outros. A instituição é o pecado original da humanidade. Mas sem pecado não há graça. Temos que nos juntar todos no sentido de defender a pessoa humana no respeito por todos e não viver do ataque de uns aos outros. Isso já há muita gente a fazê-lo. Se os bons são assim então viva os maus! Toda a instituição vive do roubo que faz ao indivíduo. Isto porém não justificará o caos como não justifica a opressão do homem pelo homem através das instituições. Todo o esforço empenhado no sentido de domesticar as instituições sociais, políticas e religiosas é bem justificado pelo que a História nos tem provado. A respeito da Verdade, ela está sempre do outro lado e não do meu!... Atenciosamente

António Justo

PS. Pena não poder postar directamente este comentário no seu site!

 

2 Pena que o António Justo não tenha sido capaz de ler esta minha crónica teológica na postura de quem se deixa surpreender. Esperava outro tipo de comentário? Então deveria alegrar-se por ter deparado com um comentário que não esperava. O "novo" nunca é esperado. Esperado, é sempre mais do mesmo. E disso, já devemos andar mais do que fartos. Pena que não se tenha alegrado pelos caminhos por onde o Espírito me conduziu. Os seus caminhos não são os nossos caminhos. Se a encíclica está mal desde o título, o que esperava que eu dissesse do texto que decorre dessa formulação inicial? De resto, cabe a cada qual ler o texto integral, como eu li. E, só depois, falar. Será que já leu o texto integral?

Seu, Mário

 


 

2009 JULHO 07

 

E ainda dizem que há crise. E que ela é mundial. Olhem só para o que aconteceu ontem, dia de semana e supostamente de trabalho, em Madrid, no estádio de futebol, o dos milhões, do Real Madrid. Com o amoral Cristiano Ronaldo, português da Madeira - para quando a independência desta "colónia", travestida de Região Autónoma?! - como protagonista. Os matutinos de hoje, com a honrosa excepção do PÚBLICO, enchem a primeira página com a foto do amoral Cristiano e falam de 80 mil pessoas nas bancadas, ululantes e dementes-dementes. E os três canais generalistas do nosso país transmitiram tudo em directo, na primeira parte dos telejornais, ao final da tarde de ontem. Uma overdose sem precedentes. Amanhã, quando o amoral Cristiano começar a fazer das dele e a querer, sem o conseguir, que os outros dez atletas do Real que ganham uma "esmola" à beira dele, joguem para ele brilhar como a estrela da companhia no relvado, a mesma multidão gritará, ululante e demente-demente, mas então de raiva e de fúria. São assim os ídolos. Têm todos pés de barro. E caem, quando menos se espera. Os aplausos de ontem converter-se-ão então em insultos, os mais soezes. Nem a mãe dele escapará. E será constantemente chamada à colação, por ter parido uma tal espécie de ídolo, que outra coisa Cristiano Ronaldo não quis ser, desde menino. Martin Luther King, o da América imperial, também teve um sonho. O sonho de acabar com o Império do Senhor Dinheiro, que fabrica diariamente vítimas aos milhões, a começar pelos negros. E fabrica pobreza e pobres em massa, indiscriminadamente. Foi assassinado, porque quis que o seu sonho se tornasse realidade. O Senhor Dinheiro não lhe perdoou, como não perdoa nunca a quem se lhe opõe e desmascara os seus nefandos crimes. O amoral Cristiano perfila-se nos antípodas de Luther King. É um idólatra convicto. Espantou-me ver o humilde Eusébio envolvido em todo este obsceno espectáculo. Mas nem ele resistiu a ser aplaudido, agora que é uma mera recordação do passado. Tenho de concluir, com tristeza, que também ele não soube ser outra coisa na vida que jogador de futebol e um homem do futebol, o dos milhões. Enquanto jogador, não foi. Mas depois consentiu que o Senhor Dinheiro se apoderasse do seu nome e o transformasse em ídolo. O menino moçambicano, que o obsceno regime salazarista manipulou à vontade, inclusive, contra os seus irmãos africanos que lutavam de armas na mão pela independência do seu chão, acabou cativo, para o resto da vida, do futebol dos milhões. E ele prestou-se, tem-se prestado, embevecido, a fazer todos os papéis que ele lhe impuser. Ontem, impôs-lhe que estivesse a apadrinhar a chegada do amoral Cristiano e ele não se fez rogado. Esteve. Como mais um amoral. Em grande destaque. Sem o mais pequeno sinal de inquietação e de preocupação. A ingenuidade é, indiscutivelmente, a porta de entrada para a idolatria. O Senhor Dinheiro aposta tudo, todos os seus trunfos, na promoção da ingenuidade das pessoas e dos povos do Mundo. Ele sabe que só com pessoas e povos ingénuos, pode continuar a ter o Mundo nas suas mãos. A ingenuidade faz parte da demência-demência dos povos. Rima com menoridade. Também rima com Maioridade e com Liberdade, mas, aqui, como antónimos. Onde estiverem ingenuidade e menoridade, não estão, não podem estar, Maioridade e Liberdade. E o Senhor Dinheiro, o que mais teme, são pessoas e povos em estado de Maioridade e de Liberdade. Tudo o que faz, e muito é, dia e noite, tudo quanto investe, e muito é, é exclusivamente para perpetuar, geração após geração, a ingenuidade e a menoridade das pessoas e dos povos. O espectáculo de ontem em Madrid, transmitido em directo para muitas partes da Europa e do resto do Mundo, totalmente vazio de ideias, de palavras com Projecto, de gestos com um mínimo de Cultura e de Humanidade, com um mínimo de Política Praticada, foi mais um dos muitos indecorosos espectáculos que o Senhor Dinheiro promove, todos os dias, sem nunca parar, em toda parte. Madrid teria dado uma lição ao Mundo, se tivesse deixado o estádio do Real às moscas. Não deixou. E era um gesto tão simples. Sem custos. Ao correr a encher o estádio, para aplaudir o amoral Cristiano, revelou que continua a ser a capital de um Estado ainda sem valores, ainda em estado de ingenuidade e de menoridade. Sem capacidade de discernir entre o futebol, como desporto, como prática desportiva, e o futebol dos milhões. E ainda dizemos que somos uma Europa civilizada. O Império romano, no seu tempo, já foi assim. Vae, victis! Ai dos vencidos! Somos seus prosseguidores, no século XXI. Parece que ninguém se aproveita. Ou muitos poucos se aproveitam. Nem os nossos intelectuais, já de si, tão poucos em número, menos ainda em qualidade. Onde se meteram, que ninguém os vê? Puseram-se todos ao serviço do Senhor Dinheiro? Porque não se atrevem a ser, século XXI adiante, prosseguidores de Sócrates, o da Grécia antes de Jesus, o filósofo da Maiêutica, intelectuais orgânicos, pobres por opção, a viverem entre as populações das periferias e com elas? Porque se vendem ao Senhor Dinheiro e se dizem ateus, quando não passam de praticantes da Idolatria, a do Senhor Dinheiro? Porque não se atrevem a regressar a Jesus, o de Nazaré, que o Império e o Templo coligados mataram na sua Cruz, porque ele punha bem a nu que o Deus deles era um Ídolo, era o Senhor Dinheiro? Porque não prosseguem, devidamente actualizadas, as suas Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e os seus Duelos Teológicos Desarmados? São também ingénuos e de menoridade, apesar de intelectuais? Se não distinguem entre Deus e o Dinheiro; se não descobrem o Ídolo dos ídolos que é o Senhor Dinheiro, nem distinguem entre Poder Político e Política Praticada, nem entre Religião e DeusVivo, a Fonte de todo o ser, mais íntimo a nós do que nós próprios, ainda se podem dizer intelectuais? Não acabam por ser tão amorais quanto o amoral Cristiano Ronaldo? Crise Mundial? Onde está ela? Quem a viu ontem? O Senhor Dinheiro não dá ponto sem nó. É a inteligência demente-demente. E nunca dorme! Convenceu o Mundo de que há uma crise mundial, para melhor poder destruir por completo todos os valores conquistados com suor, lágrimas e sangue, por parte dos trabalhadores e dos Povos. Ele percebeu que, de cedência em cedência, aos direitos dos trabalhadores e dos Povos, acabaria reduzido a mero instrumento ao serviço dos Povos do Mundo. E desencadeou a sua Primeira Grande Guerra Mundial Financeira. Ela aí está em força. Da noite para o dia, o Senhor Dinheiro acabou com todos os valores conquistados. As leis mais avançadas e mais humanistas foram todas para o caixote do lixo. Tudo foi incinerado. Com o aval dos Executivos das nações e dos Executivos das Igrejas /Religiões. Não só não lhe resistiram, como ainda correram a oferecer-lhes milhares de milhões de euros e muita caridadezinha. Tudo o Senhor Dinheiro devora. E, agora, devora também as pessoas e os Povos. Não precisa de os matar. Basta roubar-lhes a identidade, a alma. Basta manter as pessoas e os Povos em estado de ingenuidade e de menoridade, por toda a vida, uma geração após outra. É o que está a fazer com visível sucesso. O final do dia de ontem, em Madrid, é disso acabado exemplo. Sem que se levantem vozes de alarme, de sentinelas. Não há sentinelas na cidade. Já que até as sentinelas - os intelectuais e os teólogos - se passaram para o Senhor Deus Dinheiro. Regredimos, quando era imperioso ter dado passos em frente. O Grande Capital, o Senhor Dinheiro, está agora ao comando do Mundo. Veio para ficar. Cabe aos Povos acordar e dar um esticão global. Desempregados de todo o Mundo, uni-vos! Erguei-vos em Insurreição Desarmada. Prendei o Senhor Dinheiro. Amarrai-o bem. E, se for necessário, decapitai-o. Para que até os seus gestores e os seus executivos recuperem o Humano, deixem a demência-demência e cresçam em Sabedoria e em Graça, em Maioridade e em Liberdade. A mim, já me encontrareis a viver na trincheira. Vinde! Derrubemos esta perversa Ordem Mundial do Senhor Dinheiro!

 

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

 


 

2009 JULHO 06

 

Porque no próximo domingo, 12 de Julho 2009, tenho de participar ao vivo numa sessão de apresentação do livro AURORA DE POETAS, no Convento San Payo, em Vila Nova de Cerveira, pedi às companheiras /companheiros da Comunidade jesuânica de Base de Macieira da Lixa que o nosso encontro mensal, habitualmente, ao segundo domingo, fosse antecipado para ontem. As pessoas foram contactadas, uma a uma, todas concordaram e o encontro realizou-se ontem. Um encontro que ficará para sempre na Memória das, dos que o fizemos e na Memória dos Povos, já que, no Mundo da Graça e da Verdade, que é o Mundo do Espírito de Jesus, nada se perde, tudo permanece em contínua transformação, de resto, a única maneira de tudo o que é Essencial permanecer. O Institucional, por demasiado pesado, por demasiado poderoso, por demasiado arregimentado, por demasiado inamovível, por demasiado formatado, dura apenas até que surja o único tsunami capaz de o derrubar, que é nada mais nada menos que o tsunami da Graça e da Verdade, ora brisa, ora ciclone; ora beijo, ora espada; ora festa nos cabelos, ora trovão-e-raio-fulminante; ora abraço, ora chicote; ora Mesa Partilhada, ora Deserto; ora Liberdade, ora Insurreição. Muito menos o Institucional é alguma vez o tsunami, que isso é um exclusivo do Mundo da Graça e da Verdade, por isso, o único fecundamente subversivo, conspirativo, todo sopro, todo movimento, que Poder algum, nem mesmo a trindade dos Poderes que actuam na História como um só - o Poder do Dinheiro Acumulado e Concentrado, ou Poder Financeiro, o Poder Religioso-Eclesiástico e o Poder Político ou Império - pode destruir, mesmo que chegue a matar o corpo das suas inúmeras vítimas, hoje milhares de milhões, com tendência ainda a aumentar mais e mais, cada dia que passa, ou mesmo que chegue a ostracizar e a matar o corpo das, dos Profetas que o desmascaram e denunciam como o Perverso Organizado, como o Ídolo dos Ídolos ou a Idolatria, e que, felizmente, nunca chegam a deixar-se seduzir por ele, pelo contrário, sempre lhe resistem até ao sangue e o combatem sem descanso, com a sua presença sempre activa e desarmada, até que ele seja derrubado de vez. De modo que, em seu lugar, possa crescer o Humano progressivamente habitado pela graça e pela verdade, até alcançar o pleno estado de Maioridade e de Liberdade, que atingiu já em Jesus. Escrevesse eu esta minha crónica teológica no estilo literário Evangelho, e escreveria que no Encontro de ontem éramos cinco mil, que é o número, com a sua base cinco, a que o estilo literário Evangelho habitualmente recorre, para dizer a Comunidade do Espírito, o mesmo de Jesus, feita de graça e de verdade, por isso, nos antípodas do Institucional, todo o Institucional, Eclesiástico que ele se diga; uma comunidade socialmente quase invisível aos olhos, uma comunidade-Ninguém, constituída apenas por algumas, alguns Ninguém, já que até nenhum daqueles inúmeros Ninguém que ainda vivem com aspirações a virem a ter um lugar no Institucional, não lhe querem pertencer, não só porque ela não lhes dá garantia de carreira e de progressão na carreira, como, ainda por cima, pode pôr em risco o emprego ou o subsídio de desemprego que recebem, bem como o destacado lugar que usufruem na família de sangue, no restrito grupo dos amigos, no partido político, na paróquia, no clube, ou mesmo pôr em causa a estima e a consideração que usufruem por parte dos vizinhos, o bom nome, o prestígio, a admiração e a caridadezinha que recebem dos vizinhos e de instituições da dita. A casa e a mesa onde estivemos reunidos foram a casa e a mesa da Comunidade Jesuânica de Base de Macieira da Lixa, simultaneamente, casa de Maria Laura, a presbítera não-ordenada que habitualmente preside à pequenina Comunidade, na continuidade histórica da primeira pequenina comunidade jesuânica de base, iniciada, pouco tempo depois do ano 30 desta nossa era comum, o ano da Morte /Ressurreição de Jesus, na casa da mãe de João Marcos, essa mesma Comunidade que está na origem do Evangelho de Marcos, a única que preservou o Essencial do Ninguém dos Ninguém, Jesus, o de Nazaré, e do seu Movimento político-social radical e universalmente libertador do Humano, de todo o Humano, nomeadamente, depois que ele, em consequência da sua Morte Crucificada na Cruz do Império e do Templo coligados, se tornou, para todo o sempre, o Maldito dos malditos, um Nome absolutamente impronunciável por bocas humanas, porque só o simples facto de o dizermos com todo o nosso ser, não apenas da boca para fora, já abala o Institucional, todo o Institucional, e o deixa à beira de um verdadeiro ataque de nervos, tão subversivo e conspirativo ele é! Maria Laura encheu o Encontro que se prolongou das três da tarde até à hora da Sopa Partilhada, por volta das 8, ao final da tarde. Inclusivamente, foi ela quem Partiu o Pão e o Vinho in persona Iesus (na pessoa de Jesus), foi a sua boca e as suas mãos, nas palavras que, nesse Momento Único e Irrepetível, nos disse e nos gestos que fez para nós e connosco. Palavras e gestos que nos dão a Comer o Pão-Corpo-de-Jesus e a Beber o Vinho-Sangue-de-Jesus, para sermos, nós também, Pão Partido /Repartido que se dá a Comer e Vinho Derramado que se dá a Beber, em Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e em Duelos Teológicos Desarmados, as mesmas Práticas Políticas e Económicas e os mesmos Duelos Teológicos de Jesus. Maria Laura havia chegado de uma Semana de intensa Missão, no Bairro Social de Telheiras Sul, ao Campo Grande, em Lisboa. De segunda a sexta-feira, foi acolhida na casa das Irmãs Amélia e Júlia, ambas Teresianas, que, há anos, se despojaram do conforto, da segurança, da ostentação, do requinte do respectivo Instituto, em cujas casas-fortaleza-e-palácio, se respira o Institucional por todos os poros, e foram, com autorização do respectivo Instituto, viver pobres entre os pobres e com eles, num andar de uma das torres mais ou menos degradadas daquele Bairro. Elas próprias, que já conhecem Maria Laura, de outras duas vezes que ela lá passou, a primeira, comigo, a segunda, já sozinha, como desta terceira vez, convidaram-na e ela não se fez rogada. Viajou sozinha, desde a Lixa, onde apanhou um autocarro que a levou até junto da estação do Oriente, em Lisboa, onde a aguardava a Irmã Amélia, 77 anos de idade, a rebentar Acção e Contemplação por todos os poros. O Encontro abriu com o Canto "Crer /Não crer em Deus", do meu livrinho Canto(S) nas Margens, seguido de umas breves palavras teológicas minhas de saudação, a sublinhar que ali estávamos nós, uns Ninguém, reunidos com o Ninguém dos Ninguém, Jesus, o Crucificado na Cruz do Império e do Templo coligados, inteiramente disponíveis para prosseguirmos, hoje e aqui, a sua via do Reino /Reinado de Deus, em flagrante e em total oposição à via do Reino /Reinado do Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Ídolo dos Ídolos, que, neste século XXI e início do Terceiro Milénio, consegue ter quase toda a gente com ele, inclusive Igrejas e Religiões, cujos chefes, enquanto tais, são todos seus sacerdotes, funcionários-mercenários. Não estranhássemos, então - disse-lhes eu nas minhas breves palavras teológicas de saudação - por sermos tão poucos, tão ostracizados, tão desprezados, tão Ninguém, uma vez que ao Ninguém dos Ninguém que é Jesus, as pessoas não o querem, rejeitam-no, e nem o seu Nome gostam de pronunciar, nem de ouvir outras pessoas pronunciar com convicção e estremecimento cheio de emoção, como o Nome dos Nomes! Como era previsível e expectável, Maria Laura tomou de imediato a palavra e partilhou connosco e, e em nós e por nós, com todos os Povos do Mundo, todas as maravilhas que o Espírito de Jesus que a habita e faz ser Mulher-para-os-demais, realizou, durante estes dias vividos por ela no Bairro das Telheiras Sul, através das suas Mãos, das suas Palavras, sobretudo, através da sua Presença Desarmada, por isso, fecundamente despertadora e libertadora das pessoas com quem esteve e que estiveram com ela. E muitas foram. Pelo que nos partilhou com emoção e a simplicidade da água que brota da fonte, os seus encontros ao vivo sucederam-se, de manhã à noite, ora em casa das Irmãs, a cuja porta muitas pessoas vão todos os dias bater e que logo se abre a todas, crianças, adolescentes, mulheres, homens, velhas, velhos que ainda conseguem andar, ora na casa das pessoas, nomeadamente, pessoas mais velhas e com dificuldade de se deslocarem, a cuja porta Maria Laura ia bater; e também com pessoas mais novas que Maria Laura, sempre atenta e toda Alegria transbordante, encontrava nas ruas do Bairro ou na paragem do autocarro e com as quais metia conversa e, logo, ia com uma delas para onde ela ia. Foi assim, por exemplo, com Luís, um jovem do Bairro, de quem as outras pessoas fugiam, na paragem do autocarro, e que Maria Laura nunca havia visto antes, nem ele a ela. Ao ver que as pessoas o evitavam e se afastavam dele, Maria Laura fez-se logo próxima dele. E acabou por ir com ele e comungou, durante a viagem de ida e volta, toda a sua vida, como uma parteira-com-amor-de-mãe. Ele precisava que o ajudassem a conseguir uma consulta no Centro de Saúde. E ela foi e veio com ele. No Centro de Saúde, sem nunca lá ter estado nem conhecer ninguém, mexeu, com a sua alegria e entrega, as pessoas, e acabou por conseguir chegar à fala com uma das médicas de serviço e Luís lá foi consultado. É um toxicodependente que tomou a irrevogável decisão de deixar a droga, antes que a droga se apodere dele por inteiro. Ele sabe que, ou deixa a droga, ou uma jovem estudante da universidade que há tempos o conheceu e acabou sua namorada, desistirá definitivamente dele. E ele não quer perder nunca mais aquele amor, porque nem a mãe dele que tem vários filhos, um de cada pai e o dele é um pai alcoólico, de manhã a manhã, alguma vez o amaram. De novo no Bairro, o jovem, ainda antes de chegar a noite, foi bater à porta das Irmãs, por Maria Laura. Apresentou-se com a sua namorada, para que ambas se conhecessem e conversassem. E tudo será novo, daqui para a frente, porque aquele foi o primeiro dia do resto da vida de Luís. Sobre a Mesa da Comunidade, para além do Pão e do Vinho, estava também um livrinho de poemas. No seu Partilhar connosco a Missão que havia Acontecido, esta semana, Maria Laura, explicou-nos que livro era aquele e porque é que ele estava ali, como Parte Substantiva da Mesa Partilhada. Leu alguns dos poemas do livro e contou o encontro de várias horas que teve a graça de ter na habitação de um casal de cegos, ambos já na casa dos oitenta anos de idade, frescos ainda como uma alface. Quando lhes bateu à porta e António Páscoa, cego desde os dez anos, ouviu a voz dela, logo estremeceu de emoção e abriu a porta, para que ela entrasse. A voz que ele ouvira era diferente, soava-lhe carregada de Poema, de Ternura, de Alegria, de Paz Combativa, de Força Libertadora. Não se enganou. Que os ouvidos dos cegos vêem bem melhor que os olhos dos que se têm na conta de serem não-cegos. E de facto não são, mas quase sempre, só para verem os mosquitos que estão nos olhos dos demais, sem nunca enxergarem as traves que têm nos seus próprios, e que os leva a filtrarem mosquitos e a engolirem camelos. António Páscoa e a sua mulher-companheira são cegos, mas cegos que vêem pelos ouvidos e pelas mãos. Vêem o que vai dentro das pessoas. E distinguem bem o cordeiro do lobo, inclusive, quando o lobo se veste de cordeiro. Ouvimos, emocionados, como se tivéssemos estado lá, o testemunho vivo que Maria Laura partilhou sobre este encontro, quanto ele a evangelizou a ela e ao casal de cegos. Os três foram ouvintes da Palavra-com-Sopro-Libertador. Tão libertador, que, a dado momento, António Páscoa, já depois de ter contado a espantosa história da sua vida de cego andarilho por todo o lado com a sua viola e a sua voz de Poeta a cantar romances populares e quadras que ele próprio escrevia e interpretava, levantou-se, lesto, saiu da sala da casinha onde se encontravam os três, como num Cenáculo, e foi directo a outra pequena divisão da casa e aparece, logo depois, com uma viola na mão. Afinou-a e pôs a cantar para Maria Laura e a sua Mulher, o que emocionou Maria Laura até às lágrimas e levou a Mulher a dizer, por entre o espanto e a emoção, "Oh! Homem, que há mais de trinta anos eu não te ouvia cantar!" A presença maiêutica de Maria Laura, o seu afecto, as suas mãos nas mãos do senhor António Páscoa e nas mãos da sua Mulher, as suas gargalhadas, as suas perguntas maiêuticas, a sua Ternura na voz e nos gestos, acordaram de vez o Poema que é a vida sofrida deste Homem. E ele nasceu de novo. Nunca mais será o mesmo Homem. Agora, é um Homem acordado, em quem a vida rebentou e canta. O Poema vivo mora naquela casa. E o Bairro irá saber dele. E haverá Páscoa, através deste Homem, ele próprio, de seu nome, António Páscoa. Da próxima vez que Maria Laura vá ao Bairro prosseguir a Missão agora iniciada, haverá Encontro na casa deste Casal de Cegos-que-vêem-o-Invisível-e-escutam-o-Essencial. O próprio António Páscoa Partirá /Repartirá Poemas como quem Parte /Reparte o Pão que se dá a Comer e o Vinho que se dá a Beber para a vida de muitas, muitos. Todos, no Encontro, vibrámos no Espírito de Jesus, e comemos o Pão Partido por Maria Laura e alguns Poemas de António Páscoa, ditos por ela e por mim. E cantámos, cantámos muito, como pequenas pausas, no decurso do diálogo que foi intenso, irreprimível. Nem demos pelo tempo passar. Todos nos experimentámos Eucaristia Viva e é assim que andamos por aí, nascidos do mesmo Espírito de Jesus e enviados por Ele em Missão a todo o Mundo. A Graça e a Verdade são o Futuro da Humanidade. Porque são a Graça e a Verdade que tecem o Humano, até o tornarem integralmente Humano, em estado de plena Maioridade e de plena Liberdade. A Idolatria, a do Dinheiro Acumulado e Concentrado, o Ídolo dos Ídolos, hoje ainda mais por aí à solta, em todo o seu Poder esmagador e assassino, pode manter-se por muitos mais séculos, mas já está condenada ao Nada. Desde o Momento em que ela Matou na Cruz do Império e do Templo coligados, Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria, o Ninguém que nasceu e cresceu em Nazaré, cuja Sabedoria Teológica e cujas Práticas Maiêuticas, os da Idolatria do Ídolo dos Ídolos não suportam e acabaram por fazer dele o Ninguém dos Ninguém, ao matá-lo na Cruz do Império e do Templo coligados. Depois de consumarem esse Crime dos Crimes, e para que nem os Ninguém do Mundo que eles, os da Idolatria, fabricam, todos os dias, aos montes, soubessem dele, de Jesus, muito menos, prosseguissem as suas mesmas Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e os seus mesmos Duelos Teológicos Desarmados, riscaram definitivamente o seu Nome da História e, em seu lugar, colocaram um mítico Cristo pregado numa cruz, e é esse que eles, pelo menos, desde o século IV, dão em adoração a toda a gente e em tudo quanto é sítio. Cumpre-nos resistir até ao sangue a esta Mentira, a esta Montagem, a esta Idolatria. Cumpre-nos sermos das, dos de Jesus, outros Ninguém como ele e com ele. prosseguidores das suas Práticas Maiêuticas e dos seus mesmos Duelos Teológicos. Nem que, por via disso, sejamos progressivamente ostracizados, postos de lado, excluídos, odiados e vejamos o nosso nome ser enxovalhado como infame. O Futuro, embora não pareça, passa por aqui, por vidas assim. Não passa, nunca passará, embora pareça, pelas vidas das Opulências e das Eminências, todas envenenadas pela Idolatria. Nem pelas vidas dos muitos e muitas que se deixam seduzir e enganar pela sua Mentira, pela sua Hipocrisia, pelo seu Ídolo dos Ídolos, o Dinheiro Acumulado e Concentrado.

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt


 

2009 JULHO 03

 

Manuel Pinho acaba de perder o lugar de ministro da Economia do Governo socratino. O seu chefe no Executivo do país, politicamente muito pior do que ele, e muito mais politicamente prejudicial para o país do que ele, demitiu-o quase em directo na tv, durante o debate do estado da nação, ontem, no Parlamento. Demitiu-o. Não se demitiu. Que ele, o primeiro-ministro, pode demitir os ministros. Não pode ser demitido por nenhum deles. Nem por eles todos juntos. É como o papa de Roma. Pode exonerar /excomungar /suspender quem quiser, até os outros bispos que presidem às Igrejas locais. Não pode ser exonerado /demitido /excomungado por ninguém. Nem por Deus, que até em Deus, o da Cúria Romana, não o de Jesus, obviamente, o papa de Roma manda! Manuel Pinho perdeu o lugar e a pasta da economia. Mas, em troca, ganhou, para já, um par de chifres que ele próprio, em pleno debate no Parlamento, colocou na sua testa, um de cada lado, num gesto, cuja fotografia, para nossa vergonha nacional, está a correr mundo e faz, naturalmente, manchete nos matutinos portugueses de hoje. A fotografia é a mais eloquente imagem do Governo socratino que tem dado cabo do país. Impunemente. Todo o Governo deveria demitir-se, juntamente com Manuel Pinho. Não se demitiu. O Poder Politico é assim. Mentiroso, perverso, hipócrita, assassino. Nenhuma fotografia diz mais e melhor tudo o que o Poder Político é, do que a fotografia do gesto do agora ex-ministro Manuel Pinho. Não foi Manuel Pinho que ganhou um par de chifres. Ele apenas explicitou em gesto pessoal o que o Poder Político, todo o Poder Político, é. Também o Poder Político da chamada Oposição, que só o é, porque quer, a todo o custo, derrubar o Executivo, não para acabar com ele de vez, mas para ser Executivo em vez dele, o que sempre rende mais uns milhares de euros por mês e muitos mais privilégios /mordomias, até ao fim da vida de quantos um dia foram o Executivo do país. Basta olharmos para todos os ex-governos do país, os lugares que passaram a ocupar, depois que se tornaram ex-governos. Os deputados da Oposição, do PSD ao CDS e aos Verdes, porque Poder Político em exercício na Oposição, são todos da mesma natureza, sem tirar nem pôr. Todos, assumam-no ou não, são Manuel Pinho. Todos são, sem tirar nem pôr, os principais chifres políticos do Poder Económico-Financeiro, no Executivo ou na Oposição. Não pensem que algum deles se aproveita. Nenhum deles se aproveita, da Esquerda à Direita. Todos são os chifres políticos do Poder Económico-Financeiro, mais rendilhados, se da Esquerda, chame-se Louçã ou Jerónimo, mais brutos, se da Direita, chame-se Sócrates, ou Manuela Ferreira Leite. Nenhum tem salvação. Porque são todos, mais camuflados ou mais explícitos, os chifres políticos do Poder Económico-Financeiro que nos descria e devora a alma, a identidade humana. Sei que escandalizo com estas minhas palavras. E que, por as escrever, ganharei ainda mais inimigos. Porque, infelizmente, não suportamos a Verdade que, se amada /praticada por nós, nos faz livres. Tão pouco suportamos a Liberdade, que vem como fruto natural da Verdade amada /praticada. Preferimos a Mentira. Amamos /praticamos a Mentira que nos faz oprimidos, subservientes, vassalos. Escravos, mas em segurança. A viver a vida toda, na Prisão, mas em segurança. E, quando se prefere a segurança, a rotina, o sempre-o-mesmo, todos os dias, a tudo o mais, não suportamos a Liberdade que vem como fruto natural da Verdade amada /praticada. Estas minhas palavras, se acolhidas /praticadas, conduzem-nos pela via da "porta estreita", pela qual só entram os que optaram por ser pobres ou não-ricos, por toda a vida. Por outras palavras, os que optaram por ser Humanos, simplesmente Humanos, e por toda a vida. É a via da "porta estreita" que poucos acertam com ela e menos ainda aceitam entrar por ela. A esmagadora maioria prefere a via da "porta larga", tão larga, quanto as suas ambições. Tornam-se monstros, se lhes derem oportunidade para isso, mas monstros que impõem reverência, culto, vénias. São monstros com o mundo inteiro a seus pés. À excepção dos que todos os dias frequentam a via da "porta estreita", que lhes resistem e os denunciam. São ricos, são poderosos, são clérigos, são reverenciados, são temidos, são cultuados, são idolatrados pelas populações, mas são monstros. São um desastre do tamanho dos seus privilégios, da sua fortuna, do seu Poder. Não lhes invejo o estatuto de que usufruem. Choro a sua desgraça, a sua desumanidade, a sua acelerada Descriação Humana. Infelizes que são! Não pensem que estou sozinho neste meu pensar-viver assim. Posso ter contra mim, mais de meio Mundo, ou mesmo (quase) todo o Mundo, mas não estou sozinho. O extracto do Evangelho (Marcos 6, 1-6) que será lido nas missas de domingo, 5 de Julho 2009, o 14.º Domingo do Tempo Comum, no dizer do Calendário Litúrgico da Igreja católica romana, é por aqui, por esta via da "porta estreita" que vai. Por isso é que é o Evangelho, ou a Boa Notícia. De Deus, o de Jesus. Não de Deus, o do Império e do Templo coligados. Um e outro, cada qual ao seu jeito, sempre ao incondicional serviço do Senhor Dinheiro que os financia e os descria como Humanos, dia e noite, até ficarem mercenários, sem entranhas, sem afectos. Até ficarem chifres políticos e religiosos /eclesiásticos do Senhor Dinheiro, o Poder Económico-Financeiro, omnipotente, omnipresente, omnisciente. Chifres em acção e em movimento. Não Seres Humanos integrais. Por isso, todos eles ferem, agridem, amedrontam, subjugam, roubam, descriam, oprimem e, finalmente, matam, quem se atreve a ir pela via da "porta estreita" e lhes diz que eles, em toda a sua opulência e idolatria, são monstros, são assassinos. O extracto é do Evangelho de Marcos, o Evangelho mais incómodo para as Igrejas todas. Porque nos testemunha Jesus, o da "porta"estreita", quase em directo. E as Igrejas, em particular, as suas hierarquias, do que mais gostam é de frequentarem a "porta larga" do Poder Eclesiástico e dos Privilégios. Como tal, não podem com Jesus, muito menos, com o Jesus do Evangelho de Marcos, assim tão integralmente Humano e que nos é apresentado quase em directo. Neste extracto, Marcos constrói a narrativa teológica da ida de Jesus à sua terra, a Palestina, no seu todo, não apenas o pequeno povoado de Nazaré, onde havia nascido, trinta e poucos anos antes. É a segunda vez que Jesus, em narrativa teológica, vai à sua terra. Desta vez, é já depois de ter constituído o grupo dos Doze que, simbolicamente, representava então o novo Israel, não apenas o Israel dos Judeus, mas o de todos os Povos do Mundo. O gesto político e teológico, ao contrário do gesto de ontem, do então ainda ministro Manuel Pinho, tem tudo de Abraço Universal, Cósmico, até. Tem tudo de Ternura. Tem tudo de integralmente Humano. Não tem nada de chifres, não tem nada de Poder de um Povo sobre os outros Povos, de um Homem /uma Mulher sobre os outros homens /outras mulheres. Não tem nada de agressão, de violência, de exclusão. Vejam que até os seus familiares de sangue, mãe incluída e irmãos, perante esse gesto político e teológico simbólico, subversivo /conspirativo até mais não, saem todos em busca de Jesus, para o deterem /amarrarem como louco varrido, um louco, social e politicamente, perigoso. A narrativa teológica conta que Jesus, seguido pelos discípulos, esperou pela chegada do sábado, quando todos os Judeus, fiéis ao Institucional, se congregavam lá (hoje, diríamos, os fiéis à Cúria Romana e ao seu chefe, e fiéis ao Império Financeiro, sempre os mais perigosos, porque também os mais fanáticos e mesmo mafiosos, ainda que eles próprios se tenham na conta de que são as melhores pessoas do Mundo!)). O congregar-se lá era obrigatório, sob pena de excomunhão /exclusão social. Jesus foi ao encontro deles, para ensinar. Que atrevimento! Ir à Sinagoga da sua terra ensinar, em lugar de ser ensinado. Seria como hoje ir à missa ao domingo pregar, em lugar de ir ouvir a pregação do pároco ou do bispo residencial, ou do papa de Roma! A Sinagoga, aqui no relato, está por todas as sinagogas dos Judeus espalhadas pelo país, a sua terra, e pela diáspora, a terra dos não-Judeus. Os Judeus estão aqui, na narrativa, por todos os Judeus fiéis, que a frequentam todos os sábados. A Lei de Moisés assim o dizia e impunha. A sua entrada na Sinagoga - o Institucional oficial - depois de ter simbolicamente criado o Israel alternativo, isto é, depois de ter destruído simbolicamente o mito do Israel histórico, que se via a si mesmo como o único Povo de Deus, como o único Povo eleito de Deus e, em seu lugar, ter criado o novo Israel de Deus, que inclui todos os Povos da Terra, sem exclusão de nenhum, já que todos, e não só o Povo Judeu, são o Povo eleito /amado de Deus, foi um escândalo intolerável em todo o Israel. Foi como um tsunami político e teológico, que fez implodir por completo a Sinagoga, isto é, o Institucional e, com ele, o Israel histórico, tal como ele até então se auto-concebia. Jesus podia ter sido de imediato assassinado, ali mesmo. Não foi. Fizeram-lhe ainda pior. Desprezaram-no. Trataram-no abaixo de cão. Como um filho de Ninguém, que nem pai tinha. Como um louco varrido. A partir daí, diga ele o que disser, faça ele o que fizer, não é para ser tomado a sério pelos do Institucional e, mesmo pelos outros, sempre sedentos de algum Institucional, laico que seja. É um louco, dizem todos à uma. E está tudo dito. Para mais, um louco desarmado, inofensivo, um louco carregado de Ternura, como um menino-servo, todo Entranhas de Humanidade, todo Deus-Abbá-connosco-e-entre-nós (é o que quer dizer a designação hebraica /aramaica "filho de"). Por isso, totalmente, inofensivo. Ora, perante alguém assim, sem-Poder, sem-o-Institucional a cobri-lo, Humano simplesmente, o Desprezo é a arma de todos os que se têm por chico-espertos. E o Desprezo mata mais do que a própria Morte, à excepção da Morte Crucificada na Cruz do Império e do Templo coligados. Que esta, naquela cultura e naquela teologia, a da Lei de Moisés, era a única que tornava "Maldito" o homem que morresse nela. E, ser maldito, era mais, muto mais do que ser morto. Era ser para sempre banido da face da terra e, até, da memória dos Povos. Nunca mais semelhante nome seria pronunciado /lembrado por nenhuma boca, nem mesmo pelos seus familiares de sangue, os primeiros a recusar-se a pronunciá-lo /lembrá-lo. É o que os Judeus, conterrâneos de Jesus, fiéis ao Institucional que ele havia simbolicamente derrubado /abolido /destruído, com a criação do grupo dos Doze ou novo Israel que inclui todos os Povos da Terra como o Povo eleito de Deus Criador, nosso Abbá comum, lhe fazem. Desprezo total. Até que chegue a Hora de os sumos sacerdotes, seus máximos representantes, o matarem na Cruz do Império e do Templo coligados, numa aliança de Monstros, em que a Besta do Poder Político e do Poder Religioso mostra os seus chifres políticos /idolátricos, na sua máxima potência assassina. Essa Hora chegou, meses depois, em Abril do ano 30 desta nossa era comum. E ainda perdura, século XXI e terceiro milénio além, sob outras formas, sob outros disfarces. Mas com os mesmos chifres políticos /religiosos /idolátricos, mentirosos, assassinos, descriadores do Humano. Neste desprezo total, ficamos a saber, para alegria dos Empobrecidos e dos Oprimidos do Mundo, e para vergonha dos do Poder Político e do Poder Eclesiástico e dos seus súbditos, que Jesus é "o carpinteiro /artesão /camponês" e "o filho de Maria" (= filho de Ninguém!); é também "irmão de Tiago, de José, de Judas e de Simão"; e ainda ficamos a saber que "as suas irmãs" estavam a viver lá entre os fiéis ao Institucional, agarrados ao mito do Israel histórico, mentirosamente, auto-proclamado "Povo eleito de Deus", em detrimento de todos os demais Povos da Terra. Como se vê, o extracto de Marcos que será lido nas missas deste domingo, 5 de Julho 2009, não pode ser, teológica e politicamente, mais subversivo /conspirativo. Mas podem ficar descansadas as pessoas católicas praticantes, que o são do mesmo jeito dos conterrâneos de Jesus, fiéis ao Institucional, sem nunca se questionarem sobre o que fazem, semana após semana, e sem nunca perceberem a Idolatria em que andam metidas, para sua doença e desgraça, em permanente estado de Menoridade e de Opressão, por isso, carne para alimentar o Poder Político e o Poder Religioso /Eclesiástico, mai-los seus chifres políticos e religiosos. E porque podem estar descansados? Porque os párocos que presidem às missas, todos eles zelosos funcionários /mercenários do Institucional eclesiástico - se não fossem, já teriam sido excluídos, expulsos, excomungados, rotulados como loucos e ostracizados pelos chefes-mor do Institucional, que para isso eles existem e vivem vigilantes no terreno - estão universitariamente bem preparados para esconderem a Verdade que o Evangelho de Marcos nos revela, nos põe a nu. Eles próprios, de resto, estão interessados na Mentira do Institucional, porque é graças a ela que eles são o que são, temidos /respeitados /idolatrados /financiados por todos, inclusive, até pelos agnósticos e pelos ateus e pelos não-praticantes que, apesar de o serem, não se ensaiam nada de lhes confiar as filhas e os filhos em idade escolar, para que frequentem as catequeses paroquiais de Mentira, as Missas paroquiais de Mentira, as Confissões e Comunhões solenes paroquiais de Mentira, os Crismas paroquiais de Mentira. E ainda lhes pagam a obrada todos os anos, e o folar pela páscoa, que só para Jesus é que ela foi de Morte Crucificada na Cruz do Império e do Templo coligados, mas para os párocos católicos é rentável negócio, um tal fartar, vilanagem! Além disso, a própria tradução em vernáculo do Evangelho que o Missal Romano impõe como obrigatória para este e os outros domingos do ano, é uma traição de todo o tamanho ao texto original, escrito em grego antigo. Os tradutores das Bíblias para vernáculo, seguem-lhe as pisadas E as traduções que nos vendem são um desastre mortal para quem as lê. Se, depois, quem as lê, lê juntamente as notas explicativas de pé de página, então fica mesmo sem conserto. Nunca mais se encontra. Fica, por toda a vida, na alienação, na Mentira, a mais infantilizadora e a mais castradora. Por essas traduções e por essas notas, fica-se a saber que, afinal, os irmãos e as irmãs de Jesus não são nem uma coisa nem outra. São apenas uns familiares próximos, já que Jesus, "o filho de Maria" é, segundo essas notas de Mentira, filho único, como, de resto, agora está na moda nas famílias dos países do Ocidente, certamente, por contágio, já que os "bons" exemplos da "Sagrada Família" são para serem seguidos... A tradução /traição deste extracto chega ao cúmulo de traduzir os termos gregos do original, dynameis (no plural) e dynamin (no singular) respectivamente por "grandes milagres" e "milagre algum" que Jesus teria feito ou não-feito. Qualquer de nós, minimamente ilustrado, sabe que aqueles termos gregos dão as nossas palavras "dinamismos" , "dinâmicos" (no plural), e "dinamismo", "dinâmico" (no singular). Porque carga de água, na tradução do Evangelho, os tradutores escolheram os termos "grandes milagres" e "milagre algum"? Com esta falcatrua retira-se todo o fecundo e libertador Escândalo que é Jesus, o Ser Humano integral, o que nunca se vendeu, o que nunca traiu, o que nunca se fez Poder Político, nem Poder Religioso, muito menos, Poder Económico-Financeiro. Apenas Ser Humano integral, por toda a vida! Não lhe perdoaram esta ousadia, este atrevimento. Muito menos, lhe perdoaram que ele trabalhasse incansavelmente - é a Missão ao serviço do Reino /Reinado de Deus, ou Ordem Mundial alternativa - para que todos os Povos da Terra fossem também assim, Seres Humanos integrais, simplesmente, o mesmo é dizer, Políticos Praticantes, Protagonistas na História, senhores dos próprios destinos, Povos, no mais íntimo dos quais, saibam-no eles ou não, Deus-Abbá habita e actua, como paradigmaticamente pudemos ver, pelo menos, naquela plenitude, pela primeira e única vez na História, em Jesus, o carpinteiro, o filho de Maria. Só mesmo na nossa Demência-Demência, é que podemos ir por outro, que não Jesus. Tudo está aí organizado para que vamos por outro. Seremos Sapientes-Sapientes, se formos por Jesus e pelo seu Projecto, pelas suas Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas e pelos seus Duelos Teológicos Desarmados. Com alegria. Como quem vê o Invisível que sempre se faz visível, quando O vemos com o coração sapiente-sapiente. Já sabem. É por esta via da "porta estreita", a de Jesus, a da Política Praticada, que procuro ir. Não pela via da "porta larga", a do Poder Político e a do Poder Religioso /Eclesiástico, menos ainda, a do Poder Económico-Financeiro, a dos chifres que agridem, mentem, caluniam, desprezam, ostracizam, matam na Cruz do Império e do Templo coligados. Venham daí, que não se arrependerão. Seremos Humanos, cada vez mais integralmente. Logo verão por experiência própria.

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

COMENTÁRIOS:

1. Padre Mário,
Acabei de passar pelo seu diário, como faço quase diariamente. Não resisto a manifestar o meu desabafo. Considero que perde credibilidade, ao meter no mesmo saco toda a gente, isto é, todos os políticos. O P. sabe, eu sei que sabe, que não são todos iguais. Que há responsáveis pelo estado a que isto chegou. Que não têm todos os mesmos objectivos. Há os que não têm alma nem princípios e há os que lutaram toda a sua vida e continuam a fazê-lo ao lado dos que menos têm. São os que diariamente são marginalizados, "amachucados", silenciados, discriminados, porque têm alma e princípios. E depois vem uma pessoa (o P.) assumidamente defensor de um outro paradigma, insultar. É caso para dizer que se de um lado faz vento do outro lado chove! De resto, esta sua opinião vem sendo defendida sistematicamente, esquecendo-se que os bois têm nome... Lamento.

José

 

2 Caro José

Bom domingo. Li e coloquei o seu comentário no local respectivo, no DIÁRIO ABERTO do dia 3 de Julho2009. Apenas normalizei o tamanho e a cor da letra. Eu bem adverti, antes da entrada na página deste dia, que era melhor não ler!!! Mas já, agora, se o José voltar a ler a mesma crónica teológica com mais calma e menos preconceito, é capaz de não ficar assim tão “zangado” comigo. Experimente. Porque, muito provavelmente, mesmo esses a quem o seu comentário veladamente se refere, serão os primeiros a não querer que se mude de paradigma. E esse não será, afinal, o “pecado” maior, do qual, infelizmente, nós não queremos sair?

O meu abraço, Mário

 


 

2009 JULHO 02

 

O bispo Ilídio Leandro, titular da Diocese de Viseu, mostrou-se radiante na última celebração a que presidiu há dias, na sua catedral. Motivo: Tinha diante dele, para lá dos habituais frequentadores da catedral, três jovens que, nessa celebração, iam ser ordenados por ele presbíteros da Igreja de Viseu, mais outros dois jovens que estão já à beira da ordenação presbiteral, e ainda dois homens casados que iniciaram o percurso para a almejada ordenação de diácono permanente. À primeira vista, o bispo Ilídio tem razões de sobra para estar radiante. A Diocese de Viseu é pequena em território e, neste particular, faz ver às grandes dioceses, como Braga, Porto ou Lisboa. Parece que os jovens do interior do país se mostram mais disponíveis para o ministério ordenado na Igreja, do que os jovens das grandes cidades. Li a homilia do bispo Ilídio Leandro e não vibrei com a sua vibração. E não é, certamente, por não ter estado lá, ao vivo, na celebração. Acho, até, a vibração do bispo despropositada. Francamente, esperava mais dele, sobretudo, depois de certas declarações suas, bem recentes, com sabor a alguma saudável dissidência episcopal, em relação a certas posições disciplinares moralistas da Cúria Romana e do seu actual chefe, o papa Bento XVI. Terei de continuar a esperar. E é bem provável que tenha de esperar sempre, sem nunca chegar a ver, da parte do bispo Ilídio Leandro, passos ousados, próprios de quem se diz, como ele se diz, habitado pela plenitude do Sacramento da Ordem e, consequentemente, do mesmo Sopro, ou Espírito que habitou Jesus. A razão é simples. É que o bispo Ilídio Leandro, enquanto titular da diocese de Viseu, preside à Igreja que está em Viseu, mas a sua é sempre uma presidência própria de um vassalo da Cúria Romana e do seu actual chefe, o papa Bento XVI. Não é uma presidência soberana, no mesmo Espírito de Jesus. Deveria ser. Mas não é. Enquanto a Cúria Romana existir como cúpula do Poder Eclesiástico - é uma aberração haver Poder Eclesiástico na Igreja que se reclama de Jesus, mas que querem? E não é que nem os bispos que presidem a Igrejas locais são capazes de ver isso? Não é que todos eles passam a vida a filtrar mosquitos e a engolir camelos, e camelos do tamanho da Cúria Romana? - jamais permitirá que os bispos deixem de ser seus vassalos, e passem a presidir com autonomia, no mesmo Espírito de Jesus, à respectiva Igreja local. Teríamos, finalmente, Igreja de Igrejas, como sempre deveria ser a Igreja. Mas para que tal sucedesse, primeiro, teria de morrer e de vez - e ela só morre, se a matarmos - a Cristandade que já dura, há mais de 16 séculos. Nunca ela deveria ter nascido, mas já dura há mais de 16 séculos, sem que os bispos que presidem a Igrejas locais se rebelem contra esse Pecado Institucionalizado. Ora, depois daquelas pequenas dissidências do bispo Ilídio Leandro, o núncio apostólico em Lisboa - uma espécie de chefe de PIDE da Cúria Romana em Portugal, cujo papel principal é vigiar /controlar os bispos, o que eles dizem, o que eles fazem, e mantê-la informada de tudo ao pormenor - deve tê-lo chamado à pedra e advertido. Nem precisou de ser ríspido nessa advertência. Bastou chamá-lo a Lisboa, ou aparecer-lhe pessoalmente em Viseu, sem nenhuma notícia nos jornais e nas tvs, que a Polícia secreta sempre actua sem ninguém saber de nada, ou deixaria de ser secreta. A partir desse momento, o bispo Ilídio Leandro, como vassalo que é da Cúria Romana, já não sabe onde se meter. E faz juras, sobre juras, de que nunca mais cometerá semelhantes "gafes". A partir daí, é um funcionário eclesiástico da Cúria Romana, o funcionário-mor, na Diocese de Viseu. Não é, nunca mais, um bispo da Igreja, habitado /conduzido pelo mesmo Espírito de Jesus. É um bispo mais do mesmo. Sem Boa Notícia. Sem nada que nos surpreenda. Como se não existisse. Limitado a fazer funcionar a empresa eclesiástica, que, assim, sem o mesmo Espírito de Jesus, acaba por ser uma transnacional mais, a maior de todas, porque com sucursais em quase todos os países do Mundo. Não fosse assim, e teríamos visto o bispo Ilídio Leandro mais contido no seu júbilo episcopal, por estar a ordenar de presbíterio três jovens da diocese de Viseu e por ter mais dois a um passo da mesma ordenação e ter dois homens a caminho da ordenação de diáconos casados. E seria mais contido, porquê? Ora, porque, diante de uma tal realidade, o bispo Ilídio Leandro deveria mostrar-se profundamente interpelado por estar ali só com homens na sua frente, e nenhuma mulher, de entre as muitas mulheres baptizadas que são, juntamente com os homens baptizados, a Igreja de Deus que está em Viseu. Assim, o bispo Ilídio Leandro tinha mulheres na celebração, provavelmente, até em muito maior número do que homens, mas nenhuma a caminho do ministério ordenado. Não porque elas não queiram. Não porque o Espírito Santo, o de Jesus, não suscite entre elas a disponibilidade para o ministério ordenado de diácono permanente, de presbítero e de bispo. Simplesmente, porque a Cúria Romana e o seu actual chefe, na esteira dos seus antecessores, não permitem que tal Aconteça na Igreja que, só por isso, deixa de ser Igreja de Jesus, e passa a ser uma empresa transnacional de Religião católica romana, uma espécie de Império Romano prolongado no tempo e no espaço. O meu espanto, de presbítero da Igreja do Porto, é que nem o bispo Ilídio Leandro se dê conta deste pecado. E se apresente cheio de júbilo por ordenar jovens de presbíteros e ter mais dois já na calha, e dois homens casados na calha para serem ordenados diáconos permanentes, quando deveria chorar por não ter nenhuma mulher a caminho do ministério ordenado na Igreja. Nem nunca vir a poder ter, porque a Cúria Romana e o seu chefe de turno, o papa Bento XVI, tal não permitem. O Espírito Santo, o de Jesus, quer, mas os cardeais da Cúria Romana e o papa não querem. E opõem-se abertamente ao Espírito Santo. Sem que os bispos que presidem às respectivas Igrejas locais se rebelem. Nem um para amostra. Todos se comportam como vassalos da Cúria Romana e do papa. Nenhum ousa dizer como a Igreja do princípio disse aos sumos sacerdotes ou sumos pontífices do Templo de Jerusalém, "mais vale obedecer a Deus, do que aos homens". Aos homens do Poder, entenda-se, que é o que são, sempre foram, os cardeais da Cúria Romana e o papa de turno. Mas o meu espanto de presbítero da Igreja do Porto não se fica por aqui. Alarga-se também aos três jovens que foram ordenados de presbítero nessa celebração. E aos outros dois que estão em vias de o virem a ser. Alarga-se igualmente aos dois homens casados que se preparam para serem ordenados de diácono permanente. Todos avançaram e estão a avançar sem quererem saber das mulheres católicas da mesma idade que estão proibidas de avançar, mesmo que o Espírito Santo, o de Jesus, as chame ao ministério ordenado. Até os dois homens casados aceitam continuar a avançar sem se fazerem acompanhar, nesse mesmo passo, das respectivas mulheres /esposas, quando o Sacramento do Matrimónio que ambos celebraram e estão a viver todos os dias, diz inequivocamente que os dois são uma só carne que Poder algum, Eclesiástico que se diga, jamais poderá separar. Mas, aqui, separa. O que perfaz mais uma aberração de todo o tamanho. Quem não vê que é assim como eu aqui digo? Ora, porque vejo as coisas assim, não comungo do júbilo do bispo Ilídio Leandro. Jubilaria, até ao canto e à dança, se visse o bispo de Viseu, em saudável dissidência, ordenar de presbítero e de diácono permanente, jovens mulheres, lado a lado com os jovens homens, e as duas esposas dos dois homens casados, lado a lado com eles. Roma cair-lhe-ia em cima, eu sei. Mas o Bispo da Igreja de Deus que está em Viseu é ele. Não são os cardeais da Cúria Romana, nem o papa, que é o bispo da Igreja de Deus que está em Roma. Poderia ser irradiado, interdito, excomungado. Mas abria o caminho que nunca mais seria fechado, se, entretanto, os outros bispos que presidem às respectivas Igrejas locais, lhe seguissem o exemplo. A decisão tinha tudo de Subversão e de Conspiração. A Subversão e a Conspiração do Espírito Santo, o de Jesus. Quando os bispos que presidem a Igrejas locais forem por esta via, a de Jesus, saibam que eu sairei para a Rua, com o meu corpo cheio de Canto e de Dança. E, de certeza, não estarei sozinho nessa Festa!

P.S.

Não acham um vómito o que estão a fazer com o "rei" (!?) Michael Jackson? A atribulada vida dele foi o que foi e, agora, nem depois dele ter morrido, têm um pouco de respeito pela sua memória?! Do que o Dinheiro é capaz! Uf! Felizes os que decidem ser pobres, por toda a vida. Deles é a Paz /Espada que abre caminhos na Treva e na Demência-Demência generalizada /globalizada. Quando é que chegaremos a esta Sapiência-Sapiência de sermos todos pobres, ou não-ricos, por opção e por toda a vida?!

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

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2009 JULHO 01

 

 A arquidiocese de Braga tem um novo bispo auxiliar. Manuel Linda, de seu nome completo, Manuel da Silva Rodrigues Linda, 53 anos de idade, deixa a diocese de Vila Real, onde era reitor do Seminário, Vigário Episcopal para a Cultura e Coordenador da Pastoral da Diocese, para passar a ser bispo auxiliar da arquidiocese de Braga. Por este andar, a nossa Igreja católica corre sérios riscos de ter bispos e de não ter presbíteros, quando os presbíteros, muito mais do que os bispos, é que são necessários. Os bispos, pelo menos, no actual figurino, oriundo do imperador Constantino (século IV), o principal fundador da Cristandade Ocidental /Imperial, cujos primeiros Concílios Ecuménicos ele próprio convocou, presidiu, aprovou as decisões neles tomadas, difundiu-as por toda a Ecumene de então e deu-lhes carácter de obrigatoriedade, sob pena de excomunhão e de expropriação dos bens dos refractários, são sobretudo, quando bispos residenciais à frente de um determinado território, Poder eclesiástico, em tudo semelhantes aos espinheiros que não produzem frutos que se comam, mas apenas espinhos e abrolhos. Dói-me o coração, sempre que um presbítero da Igreja, convidado para ser bispo, logo atira o seu ministério de presbítero às urtigas e corre a agarrar com ambas as mãos o báculo e a mitra, mais o anel e a cruz peitoral de bispo. Quase sempre começa pelo degrau de bispo auxiliar, mas já na esperança de passar ao degrau superior, o de bispo residencial, de preferência, numa diocese das maiores e de mais nome. Nada de serem, por exemplo, pelo resto da sua vida, bispo de Viseu, ou de Vila Real, ou mesmo das Forças Armadas e de Segurança. Acenem-lhes com a diocese de Leiria-Fátima, de Braga, do Porto, ou de Lisboa, e é vê-los logo a voar para esses feudos do Poder Eclesiástico. Parece disponibilidade e generosidade. É ambição. O Poder, mesmo Eclesiástico, é sedutor. Tem tanto de sedutor como de descriador do Humano. Mas Humano é coisa que quase ninguém hoje quer ser. Queremos ser deuses, entenda-se, ídolos, Poder, e Poder dos poderes. Nem os presbíteros da Igreja resistem à sedução do Poder. Pelo contrário, quando aliciados, seduzidos, contactados, abrem logo as pernas, como prostitutas /prostitutos de serviço, e deixam-se enrolar por ele, dão logo o nó, o sim. É sempre a actualização daquele momento tentador que diz, "Tudo te darei, se, prostrado, me adorares". E os presbíteros da Igreja, em lugar de prosseguirem a mesma postura de Jesus, o Humano até ao limite e para lá do limite, e gritarem, como ele "Retira-te da minha frente, Tentador!", ficam tão encandeados por tanto brilho e tanta gente submissa a seus pés, que logo respondem, Sim, eis-me aqui, utiliza-me, sou todo teu. Pensam, na sua cegueira e na sua demência-demência, que estão a dizer Sim a Deus, e estão a dizer Sim ao Ídolo que logo se apodera deles e faz deles gato-sapato. Veste-os com os seus macabros adereços, o que faz deles mascarados ambulantes, bonecos articulados, actores-bajuladores do papa e da Cúria Romana, pelo resto da vida, nunca mais eles próprios, nunca mais simplesmente humanos. O bilhete de identidade deles continuará a dizer que eles são filhos de Fulana e de Fulano. Na verdade, são filhos da outra, do outro, a mãe e o pai do Poder, a Grande Prostituta, o Grande Prostituto. Na carta que escreveu aos seus súbditos diocesanos, a dar-lhes a notícia de que passam a ter mais um bispo auxiliar para sustentar e aplaudir, o arcebispo Jorge Ortiga, titular de Braga, diz, a dado passo: Sabemos que juntos conseguiremos colocar o fermento da Palavra nas realidades terrestres, tornando visível o Amor de Deus perante este povo profundamente marcado por uma religiosidade cristã intensa, mas ansiosa dum encontro mais personalizado com Cristo. Os sacerdotes serão os nossos imprescindíveis colaboradores. É, manifestamente, o Poder Eclesiástico, em toda a sua dimensão Episcopal, a falar. Também há a dimensão Paroquial do Poder Eclesiástico, não menos perversa que a Episcopal, não menos descriadora do Humano que a Episcopal, por vezes, até mais, porque Poder Eclesiástico-Paroquial-vassalo-do-Poder-Episcopal, é ainda mais atreito a subterfúgios, habilidades, mentiras e a tiques autoritários sobre populações amedrontadas, sem pensamento teológico próprio, totalmente, à mercê do pároco-que-lhes-saiu-na-rifa e à mercê das suas arbitrariedades de trazer por casa ou pela aldeia. O arcebispo, que nunca chega a falar de Jesus, nesta sua carta, apenas de Cristo, o mítico Cristo do Império Romano, fundamento e justificação do seu Poder Episcopal, é o primeiro a reconhecer que a população do seu território diocesano é uma população profundamente marcada por uma religiosidade cristã intensa. Sem querer, fugiu-lhe a boca, ou a mão que escreveu, para a verdade. A população do seu território continua ainda por Evangelizar. Apenas tem uma intensa religiosidade cristã-pagã, a que vem do tempo do Império Romano e, depois, da Cristandade Ocidental Imperial que o prosseguiu, quando ele implodiu. De Jesus, o Crucificado na Cruz do Império e do Templo coligados, a população da diocese de Braga nem sabe que existiu. Sabe apenas, e muito vagamente, do mítico Cristo que o Império impôs urbi et orbi e que ainda hoje permanece nos genes das nossas populações em geral, não-ilustradas e ilustradas, ambas por Evangelizar. A da diocese de Braga é o protótipo duma população profundamente marcada pela religiosidade cristã-pagã, pelos cultos públicos e privados em honra das deusas e dos deuses do Paganismo imperial. O que o arcebispo acrescenta depois é a mais crassa das mentiras, já que a população, ao contrário do que ele escreve, não está nada ansiosa dum encontro mais personalizado com Cristo. E como poderia ela estar, se o Cristo de que ele fala, é totalmente mítico, não tem nada de Humano, de ser real, não é histórico? Histórico, real, de carne e osso, e com Práticas Maiêuticas e Duelos Teológicos Desarmados, é Jesus, o carpinteiro-camponês da Galileia, o filho de Maria, esse mesmo que acabou enjeitado como louco pela família mais próxima, e Crucificado na Cruz do Império e do Templo coligados, como o Maldito de Deus. Deste Jesus e do seu Projecto de Reino /Reinado de Deus, ainda a edificar na História e que carece de obreiros que nessa edificação dêem o seu melhor, como alternativa ao reino /reinado do Império, hoje o Império Financeiro Global, nem o arcebispo de Braga e presidente da Conferência Episcopal quer saber, quanto mais a população do seu território diocesano. Tirem-lhe, a esta população, a senhora do Sameiro, o S. Bentinho da Porta Aberta, o Bom-Jesus, as igrejas e as capelas, as imagens das deusas e dos deuses, a semana-santa, as procissões de velas, a santinha de Balazar, a senhora de Fátima, as promessas e as romarias, as tradições dos antigos, as missas e as catequeses com as suas vaidades festivas, e o que fica? Só que tudo isto, que o arcebispo chama de religiosidade cristã, e que eu digo, pagã, é Alienação, é Perverso, é Ópio, mas é isso, apenas isso, que a população residente no território da diocese quer que perdure e se alimente, de geração em geração. O novo bispo auxiliar é neste ninho de víboras que vai cair e perder-se como Humano. Um ninho de víboras, carregadas de veneno mortal, que é, afinal, toda essa intensa /fanática religiosidade cristã /pagã, mítica, bem nos antípodas das Práticas Políticas e Económicas Maiêuticas de Jesus, e dos seus Duelos Teológicos Desarmados contra a Idolatria, que lhe mereceram a morte na Cruz do Império e do Templo coligados. Ele vai alimentar toda esta religiosidade. Vai ser um dos grandes sacerdotes desta religiosidade. Melhor fora, por isso, que não tivesse nascido. É caso para dizer /chorar: para o que uma mãe cria um filho, quando, mais tarde, esse filho desiste de ser Humano, para se fazer Poder Eclesiástico Episcopal. Eu sei que a mãe do novo bispo, se ainda for viva, será também aliciada para sentir muito orgulho neste seu filho, Poder Eclesiástico Episcopal. Porque o Poder, para além de perverso, é também mentiroso. E engana até as mães que pariram um filho Humano e leva-as a pensar que ele, ao crescer em Poder, fica mais Humano, quando, na verdade, fica tal e qual o pai que o pariu, mentiroso e assassino, chulo, espinheiro, privilégio, ídolo. Parte-se-me o coração de presbítero da Igreja do Porto, perante espectáculos destes, perante descriações do Humano como esta. Porque o nosso século XXI precisa, como de pão para a boca, de presbíteros maiêuticos, mulheres e homens, e de bispos maiêuticos, mulheres e homens. Em vez disso, dão-nos mais Poder Eclesiástico Episcopal e Paroquial. De modo que, em lugar de crescermos em Sabedoria e em Graça, em Maioridade e em Liberdade, diminuímos no Humano e acabamos que nem lesmas e minhocas, ou então, seres agressivos, violentos, mentirosos, corruptos, egoístas, assassinos. Malhas que o Poder Eclesiástico tece.

Nota: Se quiserem comentar, façam-no por e-mail para padremario@sapo.pt

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