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DIÁRIO ABERTO
2008 AGOSTO 28
Uma vaga de violência abateu-se, nestes dias, sobre cristãs e cristãos católicos na Índia e da Índia, acusados de proselitismo por certos líderes locais. A violência subiu de tom e corre até o risco de se generalizar, depois que um conhecido líder fundamentalista da região onde as perseguições se desenrolam, precisamente aquele que mais acusava os católicos de proselitismo, ter sido assassinado não se sabe ainda por quem. Os líderes da Igreja católica apressaram-se a condenar publicamente o assassinato, ao mesmo tempo que dizem que não fazem proselitismo, apenas se limitam a ajudar os muitos pobres do país. É um facto incontestável que a Igreja católica na Índia e da Índia possui, nesta altura, muitas instituições de caridade, nas quais atendem os mais pobres, instituições todas elas na linha da prática seguida pela falecida Madre Teresa de Calcutá, beatificada às pressas pelo maior fabricante de beatos e de santos da história da Igreja católica, o papa João Paulo II. Aliás, nesta vaga de violência e de perseguição contra a Igreja católica na Índia e da Índia, há também algumas irmãs da congregação fundada pela Madre Teresa de Calcutá que, neste momento, se encontram presas. Todos estes actos de violência são objectivamente reprováveis - a violência nunca se justifica, ou apenas em circunstâncias-limite de Opressão e de Humilhação generalizadas dos pobres e dos povos do mundo - mas a verdade é que eles têm por trás causas que não abonam nada a favor da Igreja católica, nomeadamente, das suas cúpulas (é um contra-senso, à luz do Evangelho, mas a verdade é que até a Igreja católica tem cúpulas, e que cúpulas!). Vejamos. Num país como a Índia, tão grande em extensão territorial e em população como em pobreza e em número de pobres, a Igreja católica, se quiser ser jesuânica, não poderá começar, como começou, por o "invadir" e plantar, um pouco por todo o lado, instituições ditas de caridade, centros sociais e pastorais, seminários e catedrais, ordenar bispos eleitos directamente por Roma, criar conferências episcopais e paróquias, construir e abrir conventos e congregações, escolas e igrejas, casas episcopais e até uma Nunciatura apostólica, a representar o Estado do Vaticano e o seu respectivo chefe, o papa, mai-la sua Cúria Romana. Pelo contrário, se ela sempre der ouvidos a Jesus, nomeadamente, o dos Evangelhos Sinópticos - uma postura que ela, enquanto Poder eclesiástico nunca teve nem terá, sob pena de implodir - quando vai em Missão até aos confins da Terra - este mandato recebeu-o ela de Jesus - sempre deverá apresentar-se aos distintos povos do mundo, com outras culturas e outras tradições muito diferentes das europeias e ocidentais, numa postura de discípula, não de mestra nem de mãe, acompanhada de um despojamento total. O mandato de Jesus diz taxativamente: "Recebestes de graça, dai de graça. Não possuais ouro, nem prata, nem cobre em vossos cintos; nem alforge para o caminho, nem duas túnicas, nem sandálias, nem cajado". Obviamente, não é assim, nunca é assim que actuam as chamadas Missões (católicas ou protestantes) da Igreja, nem os chamados missionários. Vão da parte de países do rico e explorador Ocidente, escudados por casas-mãe cheias de propriedades e outros bens, com um exército de benfeitores que lhes dão avultadas ofertas em dinheiro e ainda angariam junto de outras pessoas, nomeadamente, nas paróquias, abundantes "esmolas para as Missões", chegam ao território a missionar, depois deste ter sido prévia e devidamente inspeccionado e estudado ao pormenor, instalam-se com grandes infra-estruturas, as da beneficência, do ensino discretamente confessional e do culto religioso público, e passam à acção, inevitavelmente proselitista, conquistadora. Querem a toda a força congregar fiéis a frequentar os seus cultos religiosos, ter muitos alunos nas suas escolas, ter muitos pobres e doentes a recorrer aos seus centros sociais e hospitais. Estrategicamente, não lhes exigem, de entrada, que se façam baptizar como católicos, membros efectivos da Igreja, mas é isso que pretendem, porque o êxito deste tipo de Missões sem Missão, a de Jesus, mede-se por estatísticas, por isso, pelo número de fiéis que consegue congregar-dominar-influenciar-modelar-formatar. Tanto investimento em dinheiro e em pessoas - algumas delas bem generosas, ingenuamente generosas, diga-se - tem de dar os seus frutos, como qualquer outra empresa. De modo que, ao fim de uma ou duas gerações, a Igreja católica esteja efectivamente instalada no país "invadido" e "ocupado" por ela, tenha prestígio e influência, numa palavra, Poder. Acabará, quase inevitavelmente, por ser reconhecida pelos outros Poderes no terreno, inclusive o das Máfias mais sinistras e perversas, num secreto concubinato de pôr os cabelos em pé ao mais insensível. Nunca fui à Índia, mas pelas notícias que acabei de ler hoje na agência Ecclesia, a Igreja católica naquele e daquele país já é muito assim. Completamente, nos antípodas de Jesus, o de Nazaré. Não tem nada a ver, nunca terá tido nada a ver com aqueles "dois ou três" que se reúnem em nome de Jesus e, desse modo, o tornam e ao seu Espírito misteriosamente presentes e actuantes, sem que os povos do país tenham de se fazer membros da Igreja católica romana, súbditos do papa e da Cúria de Roma, dos párocos-missionários e dos bispos residenciais, apenas sejam, passem a ser povos com a consciência de que o Espírito de Jesus os habita e vive mais íntimo a eles do que eles próprios, para que eles, uma vez libertos do Medo dos deuses e das deusas, os do céu e os do país e do império, se tornem sujeitos, autónomos, praticantes de políticas e de economias libertadoras e transformadoras da sociedade, sempre na linha da justiça e da paz, da liberdade e da igualdade entre todos e, sobretudo, na linha da sororidade / fraternidade universal. Não ignoro - como poderia eu ignorar, se a minha própria vida é um incruento e prolongado testemunho disso? - que viver a Missão assim, ao jeito de Jesus, não evita perseguições de todo o tipo, inclusive, o martírio, como, de resto, o próprio Jesus previu, anunciou e conheceu na sua pele. Porém, as perseguições à Igreja católica que, estes dias, estão em curso na Índia não são do tipo das que Jesus conheceu, previu e anunciou. São de outro tipo, nada nobre e nada edificante. A Igreja católica no país e do país está a tornar-se uma potência ocidental, uma espécie de Estado dentro do Estado, um polvo com muitos tentáculos, uma Máfia que movimenta muitos milhões e, porventura, lava muito dinheiro sujo. Acham que tantas instituições, tantas casas, tantos centros sociais e pastorais, tantas igrejas e catedrais, tantos palácios episcopais, tantos santuários se fazem sem dinheiro? E acham que tanto dinheiro investido é todo dinheiro limpo? Muito dele não era dinheiro sujo que só ficou limpo, depois de ter sido "baptizado" pela Igreja católica? Será que ainda somos assim tão ingénuos que acreditamos que os "bebés" (= o Dinheiro) vêm de Paris, dos diversos países do Ocidente, transportados por uma cegonha? Então não sabem que as Máfias do Dinheiro é que dominam o Mundo? Se a Igreja católica na Índia e da Índia estivesse a ser perseguida estes dias, porque, lúcida e corajosamente, resiste às Máfias, porque as denuncia, porque trabalha para tirar a venda da ingenuidade dos olhos da mente e da consciência aos milhões e milhões de empobrecidos do país; se estivesse a ser perseguida porque está a fazer dos pobres, não uns assistidos, mas sujeitos, praticantes políticos organizados que derrubam os poderosos dos seus tronos e os próprios tronos e desapropriam a riqueza dos ricos, para que ela se converta em vida e vida de qualidade para todos, eu tinha mais do que razões para cantar as palavras de Jesus: "Felizes sereis, quando vos insultarem e perseguirem e, mentindo, disserem contra vós todo o género de calúnias por minha causa. Exultai e alegrai-vos, pois também assim perseguiram os profetas que vos precederam". Mas, infelizmente, não é por a Igreja católica estar a ser como os profetas que alguns dos seus membros estão estes dias a ser perseguidos. É precisamente por não serem como os profetas. Fazem caridadezinha com os milhões de empobrecidos - como também fez a beata Madre Teresa de Calcutá - com o dinheiro sujo das Máfias do Ocidente e do país, sem nunca terem a lucidez e a audácia jesuânicas de as denunciarem e aos seus crimes, o maior dos quais é a fabricação de pobreza e de pobres em massa, para depois essas mesmas instituições católicas assistirem e, assim, adquirirem clientes, enquanto a sua Igreja que as financia adquire a fama de benfeitora, por sinal, a pior coisa - parece que nem a Igreja católica sabe disso - que se pode dizer dela ou de outra Igreja qualquer, da área protestante. Porque para libertar os pobres do Medo e da Pobreza criada e imposta pelas Máfias é que a Igreja é enviada em Missão, e nunca para os alimentar com o ópio da sua caridadezinha. Sei que escandalizo com estas minhas palavras, mas ainda bem. Porque o que tem faltado à nossa Igreja católica, e às outras do ramo protestante, é este tipo de actos escandalosos, iguais aos de Jesus, mentirosamente chamados por ela, por elas, de "milagres". Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 27
Não são os sucessivos e badalados assaltos a bancos que me afligem, ou a caixas multibanco, ou a gasolineiras, ou a ourivesarias, ou a carrinhas blindadas transportadoras de "valores" (mas que eufemismo mais obsceno o Grande Capital arranjou para dizer milhares / milhões de euros concentrados, uma pequeníssima parte do imenso bezerro de ouro que, em cada tempo e lugar do mundo, todos os dias se alimenta do sangue dos empobrecidos e não quer saber para nada das suas aflições e dos seus dramas, nem dos milhões e milhões de desempregados e famintos!). De resto, os próprios telejornais de verão, habitualmente sem assunto, parecem delirar com todos estes pequenos episódios ou faits-divers e matraqueiam-nos os olhos e os ouvidos, como se isso fosse notícia, a notícia por excelência. Não é. Ainda continua a ser o cão que morde um homem, não é o homem que morde um cão. Porém, enquanto durarem as ricas férias dos (des)governantes do país e dos seus opositores(?!) no Parlamento, a quem o mesmíssimo Poder paga bem, ainda que mais a uns, aos governantes, que a outros, os seus opositores e candidatos aos lugares que aqueles hoje ocupam, os poucos jornalistas de serviço nas redacções esfregam as mãos de satisfação. Estes episódios, coisa de pouca ou nenhuma monta, fazem-lhes um jeito do caraças. Chego até a pensar cá para mim que os pequenos assaltantes, apresentados pelos telejornais como heróis por uns minutos, têm tudo previamente combinado com a polícia e com os jornalistas e, sei lá, se calhar ainda são pagos pelos chefes dela e pelos patrões deles, para que os telejornais tenham assunto e se arrastem por mais de uma hora de cada vez que vão para o ar. Mas descansem, que acaba de chegar o famigerado Futebol dos milhões e o pequeno bando de pequenos assaltantes será inevitavelmente subalternizado pelos famigerados craques do dito, promovidos a novos heróis nacionais, europeus e mundiais, juntamente com os seus Jesualdos, os seus Quiques Flores, os seus Paulos Bentos, os seus Josés Mourinhos e quejandos, verdadeiras sumidades da nossa praça audiovisual e escrita e do nosso quotidiano, sem esquecermos, obviamente, os grandes traficantes presidentes das máfias-SADs, qual deles o mais mediático e também o mais demagogo, malcriado, todos muitíssmo mais mafiosos do que os pobretanas assaltantes a bancos, a carrinhas blindadas de "valores" e a caixas multibanco ou ourivesarias. Os fogos florestais também têm andado por aí, no país, de vorar o pouco que ainda resta para arder, mas este ano terão sido dadas ordens aos telejornais para que não fizessem disso notícia, apesar da área ardida já ter ultrapassado em muito a do ano passado. Porém, o que verdadeiramente me aflige não são todos estes pequenos e quase inofensivos faits-divers, ainda que todos eles sejam, possam começar a ser preocupante sintoma - mais um - da nossa gravíssima e endémica doença nacional. O que verdadeiramente me aflige é o País enquanto tal, hoje, cada vez mais envelhecido, cansado e abatido como um rebanho de ovelhas sem pastor, apenas com Executivos e Administradores de empresas ladrões e salteadores, os quais, desde a nossa fundação, em 1143, como nação politicamente independente, sempre têm estado aí para roubar, matar e destruir as populações. Desde que, no início, reconhecemos como "nosso" rei um conquistador de terras (outro eufemismo para dizer ladrão de terras em grande escala), que, para cúmulo, para o poder ser, ainda teve de pagar quatro onças de ouro - onde o foi buscar? a quem é que ele o roubou? - ao riquíssimo e poderosíssimos papa de Roma, nunca mais fomos capazes de sair desta nossa apagada e vil tristeza, desta nossa mediocridade, onde os que roubam muito, até conseguirem acumular e concentrar colossais fortunas, os que matam muito até serem reconhecidos como pais fundadores de nações e os que destroem muito até serem donos e administradores de empresas transnacionais que depois mandam nos respectivos governos das nações e nas suas oposições parlamentares, é que são olhados e tratados como os nossos grandes heróis Por força do calendário, entramos já no século XXI, mas a verdade é que, como país, ainda não saímos do Infantil. Continuamos mais do que nunca agarrados ao biberão dos subsídios do Estado, aos santuários e às suas míticas imagens de nossas senhoras de todo o tipo que carregamos aos ombros e às quais, à despedida, ainda deixamos uma boa parte, senão a totalidade, dos subsídios que recebemos do Estado - é a vergonha das vergonhas e a humilhação das humilhações! - às saias da mãe e às calças do pai, sem audácia para sairmos de casa aos 18 anos e assumirmos, desde então, a nossa vida nas próprias mãos. O grau de Infantil em que hoje nos encontramos é tal, que já nem sequer somos capazes de chamar filhas e filhos à vida, pelo menos, naquele período em que os corpos das mulheres e dos homens estão nas condições ideais para concretizarmos uma decisão de tamanha grandeza e de tão fecundo mistério. E até já esquecemos que são essas nossas filhas, esses nossos filhos, chamados por nós à vida no período ideal do nosso desenvolvimento pessoal, que, à medida que crescerem, nos darão sucessivamente à luz, primeiro, às respectivas mães, aos respectivos pais, e depois ou simultaneamente a todo o resto da sociedade que somos com os demais, já que ninguém, nenhuma mulher, nenhum homem é uma ilha, somos relação, seres-em-relação-e-em-comunhão. Todos estes séculos após a fundação do país, ainda não fomos capazes de matar, no sentido freudiano do termo, o pai conquistador ou ladrão em grande escala que foi o nosso primeiro rei e por isso continuamos como país sem sair do Infantil. Nascer de Novo é preciso. Mais do mesmo não é preciso. Mas atenção! Não basta sairmos do Infantil. Apenas passaríamos a ser todos ladrões e salteadores que só vêm para roubar, matar e destruir os demais e a Natureza. Desses "crescidos" já temos demais. Um que fosse, já seria demais. É preciso nascer de Novo, sim, mas de um outro Espírito, que não o do fundador do país, ladrão e assassino em grande escala. Temos de nascer do Espírito-que-vive-para-fazer-viver. Esse mesmo que, um dia, pudemos ver em plenitude entre nós e connosco no Ser e no Agir de Jesus, o de Nazaré. A este Espírito, nem as Igrejas conhecem, porque todas elas, sobretudo, as suas cúpulas carregadas de privilégios, têm por pai a Mentira e o Assassínio, o Deus-Ídolo do Religioso que mantém as populações no Medo e alimenta dia e noite o Infantil. A esse Espírito outro, só podemos encontrá-lo nos milhões e milhões de vítimas humanas, no meio das quais havemos de erguer a nossa tenda, não como benfeitores, mas como parteiras. Nem que sejam precisos outros 900 anos, vale a pena nascer do Espírito de Jesus, o único que nos faz crescer em Ser e em Liberdade, em Sabedoria e em Graça, em Afecto e em Verdade. O único que nos faz chegar à Maioridade, vivida na Sororidade / Fraternidade universal. Todas, todos constitutivamente políticos, não religiosos. Todas, todos constitutivamente políticos uns com os outros, não polícias uns dos outros. Ou somos capazes de tanto e metemos já mãos à obra, ou prosseguiremos mais ou menos embriagados e anestesiados a caminhar para o Abismo, para o Caos, para a Descriação. Mas não digamos depois que ninguém nos alertou. Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 26
Escreveu-me há dias um amigo do Porto e conhecido homem de Causas, a dizer-me que eu poderia contar com ele e com os seus préstimos nas causas concretas em que estou mais empenhado, nomeadamente, na da Cultura e da construção do Barracão da dita, mas não "em nome de Jesus". Não deveria surpreender-me esta postura do meu amigo, já que sei do seu assumido ateísmo. Mas confesso que fiquei surpreendido, constrangido, até. Não contava de todo com esta sua reserva, muito menos, que ele tivesse sentido necessidade de a explicitar perante mim, o presbítero da Igreja do Porto que ela própria tem como um louco e até como oficialmente já não-existente, precisamente, porque procuro sê-lo e movimentar-me, dentro dela e no mundo, em nome de Jesus, não em nome dela, muito menos, em nome da sua hierarquia ou poder sagrado. E mais do que surpreendido e constrangido, fiquei deveras preocupado. Porque a postura deste meu amigo não é apenas dele. É de muitas outras pessoas, milhares, milhões, na Europa e no resto do mundo ocidental e de influência ocidental. Ateus e agnósticos, hoje cada vez em maior número no mundo - aliás, é já quase chique fazer profissão de fé de agnosticismo e / ou de ateísmo! - prescindem com a maior das leviandades de Jesus, o de Nazaré, como quem prescinde de uns sapatos que já não usa e atira para o lixo. Sem se darem conta de que, ao fazê-lo, estão a prescindir do companheiro humano maior e mais fecundamente radical que alguma vez a História conheceu ou conhecerá e que é para todo o sempre, queiram eles ou não, a medida do Humano que todas, todos havemos de ser. Bem sei que a culpa principal não é dos ateus e agnósticos, eles e elas. É dos que nos dizemos crentes e membros de Igrejas cristãs, nomeadamente, dos respectivos líderes, com destaque para a Igreja católica romana e seus líderes, que não descansaram enquanto não fizeram de Jesus um mítico deus mais, na extensa galeria dos deuses e das deusas. Com esta "promoção" de Jesus a mítico Deus, despromovemos irremediavelmente Jesus do Humano e, com isso, tornamo-lo totalmente dispensável, até prejudicial. Só que quem, das Igrejas ou fora delas, teimar em confessar que Jesus não é Homem, a plenitude do ser humano, a medida definitiva até onde todos os demais seres humanos, mulheres e homens, havemos de chegar, coloca-se fora da Humanidade, e não só da Igreja. Ainda que fisicamente integre uma e outra, é humanidade / Igreja alienada e em permanente estado de alienação, sal que perde a força de salgar e que nem para a esterqueira serve. Hoje, poucas pessoas sabem - infelizmente a esmagadora maioria das pessoas não chega nunca a debruçar-se a sério e com tempo sobre assuntos que não dêem dinheiro a ganhar e não contribuam para se subir na vida até alcançar cargos de poder com privilégios sem conta - que, já no início da Igreja, nas múltiplas Igrejas em que a Igreja passou a subsistir, o mais difícil acerca de Jesus, o de Nazaré, foi admitir que ele é Humano, a plenitude do Humano. Até a chamada Fé na ressurreição de Jesus, que está na origem da Igreja, tem na sua génese uma velada preocupação de dizer aos de "fora" que Jesus não é humano, mas divino, é Deus, não é Homem. O seu aspecto humano seria semelhante a um invólucro que escondia e continha Deus, e nada mais do que isso, tal e qual como o relicário em que, séculos mais tarde, se passou a transportar o chamado "Corpo de Cristo", sob a espécie de pão, perdão, sob a espécie de uma pequeníssima hóstia branca, quase transparente. Sempre o mais difícil sobre Jesus foi, é e será reconhecer que ele é Humano, a plenitude do Humano. A mais perigosa heresia que a Igreja teve e tem pela frente, também no século XXI, é proclamar ao mundo e agir em conformidade com essa proclamação, que Jesus é Deus, em vez de proclamar ao mundo e agir em conformidade com essa proclamação que Jesus é Homem, o Homem, a plenitude do Humano. Felizmente, o Evangelho de Marcos, o mais antigo dos quatro Evangelhos canónicos, é por aqui que vai. Com escândalo de muitas, muitos, que depressa passaram a ignorá-lo até na própria Igreja. Se mergulharmos nele e o lermos / escutarmos com o coração (cf. o meu livro O Outro Evangelho Segundo Jesus Cristo, 2.ª edição Campo das Letras), veremos com espanto e escândalo que toda a narrativa termina com o relato do túmulo vazio, sem se atrever a relatar uma única aparição de Jesus ressuscitado. Mateus e Lucas que conheceram e utilizaram Marcos, já retiram muito dessa humanidade a Jesus e acrescentam-lhe muito de mítica divindade. O Evangelho de João, o mais tardio dos quatro e também o mais dialéctico, consegue testemunhar Jesus como a plenitude do Humano, ao mesmo tempo que testemunha que, nessa precisa medida, Jesus é também a Plenitude de Deus-Abbá que a Humanidade poderá ver e palpar - "Filipe, quem me vê, vê o Pai" - sem, entretanto, jamais O chegar a ver e palpar tal-e-qual-Ele-é, porque "a Deus nunca ninguém O viu", ou, como o próprio Jesus confessa e reconhece, porque "o Pai é maior do que eu". Não. Não pensem que estou empenhado numa cruzada de levar os ateus e os agnósticos para a Igreja. Não estou. Como poderia estar, se até eu próprio estou nela como um louco e como um oficialmente não-existente? Mais. Posso até acrescentar aqui que não me aflijo nada, se as Igrejas que hoje conhecemos, vierem a desaparecer todas da História. Tais como estão, todas elas estorvam, mais do que ajudam maieuticamente. Adormecem as populações, mais do que as acordam. Alienam-nas, mais do que as mobilizam. Tiram as pessoas do Mundo, mais do que as metem nele. Têm pouco ou nada de Jesus, o Homem, e muito ou tudo de um mítico Cristo-Deus. Elas próprias dizem-se cristãs, não se dizem jesuânicas. Por isso, não pensem que eu estou numa cruzada de levar os ateus e os agnósticos para a Igreja. É manifesto que não estou. Mas já estou seriamente empenhado em que Jesus, o de Nazaré, como a plenitude do Humano, chegue a ser companheiro de todas as mulheres, de todos os homens, a começar pelos ateus e agnósticos. Porque o Humano em plenitude que ele é para todo o sempre, é a fecunda e insubstituível Fonte de Humanidade que faz plenamente humanos todos os mais que vimos a este mundo. Nunca seremos tão nós próprias, nós próprios, como quando formos Jesus, outros Jesus, da mesma estatura de Jesus, da mesma Fé de Jesus, do mesmo Espírito de Jesus, da mesma Força anímica e libertadora, subversiva e conspirativa de Jesus. Garanto-lhes que esta minha Missão presbiteral não tem nada de Religioso. Tem tudo de Humano, em dimensões que ainda não conhecemos, mas que Jesus, o de Nazaré, já vivenciou e percorreu até ao limite e até para lá do limite. Digo-lhes ainda mais: Se assim o entenderem, deixem de vez as Igrejas sem pena e sem remorsos. Mas, de modo algum, deixem Jesus. Porque, sem ele por companheiro, ficaremos com muito de aborto, de coxo, facilmente reféns da Idolatria, nomeadamente, do Deus-Dinheiro e do Deus-Poder, gatos-sapatos de luxo que quanto mais correm e promovem iniciativas mais impedem as populações de crescerem em sabedoria e em graça, isto é, em humanidade, apenas crescem em consumo, em demência, em vaidade, em esterilidade. Saibam, porém, que o ser humano que o for cada vez mais na plenitude acabará sempre crucificado / humilhado / desprezado / excluído pelo Inimigo do Humano que está aí organizado e disfarçado de Religioso, de Poder e de Dinheiro acumulado e concentrado. E saibam também que é assim que, como parteiras, fazemos crescer em humanidade e em protagonismo os outros. Esqueçamos, pois, o mítico Cristo das Igrejas / Religiões e descubramos Jesus, o de Nazaré, O Homem, a quem as Religiões e o Império da época tiveram necessidade de matar na cruz, como o maldito dos malditos. Acolhamo-lo hoje e sempre nas nossas vidas como o nosso maior e melhor companheiro, aquele com quem diariamente comemos / partilhamos do mesmo Pão, que nos fará cada vez mais humanos a humanizar o nosso Mundo. Por isso, é tão importante sermos / vivermos / reunirmos / agirmos conscientemente em nome de Jesus, o Humano por antonomásia e na plenitude. A Missão de que reiteradamente falo e que quero ajudar a acontecer ao vivo nas casas e nas terras do país e fora dele é para aqui que aponta. É para aqui que vai. Porque havemos de ter medo dela?! Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 25
A Cúria do Vaticano não tem emenda e acaba de cometer mais um crime de lesa-inteligência, de lesa-investigação bíblico-teológica e de lesa-humanidade, ao proibir Ariel Alvarez Valdés, padre argentino e doutor em teologia bíblica, de continuar a leccionar na Universidade católica e no Seminário daquele país latinoamericano, e de escrever e publicar artigos e livros, ou proferir palestras e comentários em rádios e televisões. Permite-lhe apenas que continue a rezar missas e a presidir a outros ritos sacramentais, obviamente, sem homilias ou sermões, porque, se o fizesse, poderia, no decurso dumas e doutros, reincidir no gravíssimo pecado de ensinar falsas (?!) doutrinas bíblico-teológicas ao povo. O motivo de semelhante sanção - a notícia entre nós foi dada no final da semana passada em primeira mão pelo semanário SOL, na sua edição on-line, e não, como seria de esperar, pela agência Ecclesia que, pelo menos, até agora mantém o mais completo silêncio - é simplesmente este: o padre e doutor em questão nega a existência histórica de Adão e Eva e, consequentemente, do pecado original, expressão inventada no século V por Santo Agostinho, de má memória, pelo menos, neste particular. Outro surpreendente e decepcionante aspecto da notícia é que o padre e doutor em questão acatou de imediato a decisão - há lá infantilidade mais humilhante! - e já anunciou que, de ora em diante, vai limitar a sua actividade presbiteral às missas. Não conheço pessoalmente o padre e doutor em questão. Apenas sei da sua existência, graças à regular colaboração que ele, desde há algum tempo, tem mantido, na conhecida revista BÍBLICA, propriedade dos Padres Capuchinhos portugueses, uma publicação trimestral que recebo em permuta com o Jornal Fraternizar e que leio com interesse, mais ainda, desde que passei a topar nas suas páginas com textos deste perito católico argentino em assuntos bíblicos. A revista ficará, por isso privada, a partir de agora, do seu melhor colaborador. Desconheço como ela irá reagir a semelhante perda e que posição irá tomar perante semelhante sanção canónica aplicada ao padre e doutor em questão. Espero que nem a revista, nem o seu director, o padre Herculano Alves, outro perito em Teologia bíblica, metam a viola no saco e prossigam o seu caminho como se nada tivesse acontecido. Porque estamos perante um crime de lesa-inteligência, de lesa-investigação bíblica e de lesa-humanidade, cometido impunemente pela Cúria Romana, escandalosamente useira e vezeira, ao longo dos séculos, em matérias como esta. Seria a cobardia das cobardias. Já me dói saber que o padre e doutor em questão, apesar de o ser, não tenha tido a humildade e, por isso, a lucidez e a audácia de enfrentar a Cúria do Vaticano e de polemizar cordialmente e olhos nos olhos com ela, num desassombrado duelo bíblico-teológico onde poderia acabar por perder também o direito de rezar missas e, finalmente, sofrer até a excomunhão. Sabemos, pelo menos, desde Jesus, o de Nazaré, o Excomungado por antonomásia, que a causa da Verdade pode levar a tais extremos e a outros ainda mais gravosos. Mas, tal como ele, temos de ser capazes de amar a Verdade, inclusive, até ao limite da perda da própria vida e, mais ainda, até ao limite de chegarmos a ter de vermos colar-se ao nosso nome, por muitos anos ou para todo o sempre, na memória da Igreja católica romana e, porventura, na memória da Humanidade em geral, o incruento, mas ignominioso ferrete de "maldito". A tanto havemos de estar dispostos, não por birra ou masoquismo, mas porque sem Verdade, também não há Liberdade - "amai a Verdade, que a Verdade vos fará livres", revela Jesus, o do Evangelho de João - e sem Liberdade, tão pouco há seres humanos, apenas lesmas, coisas, súbditos, funcionários, sagrados que sejam, realizadores de sucessivos ritos destinados a alimentar ancestrais medos dos deuses e deusas nas pessoas e nos povos, como, pelos vistos, o padre Ariel Valdés, já estará oficialmente a fazer. Para sua vergonha e humilhação. Só mesmo a Cúria do Vaticano, com os seus cardeais e quejandos, cujo principesco estilo de vida e cujas decisões canónicas DeusVivo só pode vomitar sem cessar, é que ainda não sabe que Adão e Eva, como casal histórico, nunca existiram. Menos ainda existiu o Pecado Original. Hoje, qualquer estudante do Secundário sabe que a espantosa e sempre misteriosa criação dos seres humanos aconteceu no decurso da Evolução, a partir da irrupção, ocorrida há uns 3.800 milhões de anos, nas profundidades de um primigénio oceano, ou nos ancestrais pântanos deste minúsculo planeta Terra que hoje habitamos e que está situado na periferia da nossa galáxia, a Via Láctea, a uns 29.000 anos-luz do respectivo centro, da primeira célula viva, uma bactéria, designada pelos cientistas com o nome de Aries. Eu sei que o livro do Génesis com que abrem todas as nossas Bíblias, a Hebraica e a das Igrejas cristãs, também a católica, proclamam outra coisa bem distinta da Ciência, por sinal, em dois relatos míticos das origens, qual deles literariamente o mais belo e poético. Mas não são mais do que isso: relatos míticos das origens, não são Ciência. Ainda assim, os cardeais da Cúria Romana tinham / têm obrigação de saber que a própria Bíblia já se corrige a si própria, pois o segundo desses referidos relatos míticos das origens, precisamente, aquele com que abre o livro do Génesis, conhecido como o da criação em seis dias, escrito 400 anos depois do que se lhe segue, já não fala em Adão e Eva, nem em paraíso, nem em desobediência a Deus, nem na consequente expulsão de ambos do paraíso. Quando eram os Mitos que orientavam os povos e davam sentido às suas vidas na História, estes relatos míticos das origens eram inevitavelmente lidos dum modo totalmente distinto do que deverão ser lidos hoje, século XXI, quando os povos, felizmente, cada vez mais nos orientamos por dados científicos. Por isso, ou as Igrejas acompanham estes nossos tempos científicos, ou ficam fora deles. E fora da vida das pessoas e dos povos do terceiro milénio. Esta condenação por parte da Cúria do Vaticano do padre e doutor em Teologia bíblica da Argentina é intolerável. Mais do que um tiro no próprio pé da Igreja católica, é uma bomba nuclear no seu próprio seio. É sabido que eu próprio escrevi e publiquei há poucos anos um livro com o título NEM ADÃO E EVA, NEM PECADO ORIGINAL, edição da Campo das Letras, Porto. Só não me aconteceu nada, por parte da Cúria do Vaticano, porque para os cardeais da Cúria e para os bispos da Igreja católica em Portugal, eu oficialmente já não existo. Penalizarem-me, dizerem uma palavra oficial e pública contra esse meu livro ou outros livros que tenho escrito e publicado, seria admitir que eu ainda existo. O que eles nunca farão. Apenas continuarão a fazer o que fazem todos os que não têm razão e prosseguem instalados na Mentira Organizada que fundamenta e justifica todos os seus privilégios e todas as suas arrogâncias, ainda que disfarçadas de hipócrita humildade: deitam-me todos ao mais cínico desprezo e a quem, ingenuamente, lhes falar de mim e do bem que a leitura dos meus livros lhes tem feito, apressam-se a dizer-lhes em privado: O padre Mário de Oliveira? Mas então não sabe que ele já não é padre nenhum e que não passa de um louco? E, depois, na maior das calmas, lá seguem para o templo onde presidirão mais um rito de missa, que eles não deixam dia nenhum sem fazer. Tal e qual como o sacerdote e o levita da parábola do Evangelho de Lucas que não faltavam regularmente aos ritos do Templo de Jerusalém, sem nenhum tempo para se ocuparem dos roubados e abandonados meios mortos nas bermas dos caminhos pelos Executivos das nações e das transnacionais que ainda hoje fazem questão de manter boas relações com a Cúria Romana, os seus cardeais e os bispos / pastores das Igrejas. Saibam, porém, que para esse peditório eu nunca dei nem darei. Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 22
Os grandes matutinos de hoje, PÚBLICO incluído, enchem as suas primeiras páginas com o ouro olímpico do atleta africano da Costa do Marfim, Nelson Évora, 24 anos de idade, residente em Portugal e naturalizado português, aos 18 anos. Campeão do triplo salto, com a espectacular marca de 17,67 metros, Nelson Évora, de origem cabo-verdiana, fará subir hoje a bandeira portuguesa no mais alto mastro olímpico de Pequim. Em boa verdade, o feito é fundamentalmente do atleta africano, muito mais do que de Portugal, mas, como se vê e sabe, será a bandeira portuguesa e, com ela, Portugal, a subir ao pódio olímpico mais alto. Não será a África, o continente cujo sangue sobreexplorado corre nas veias do atleta e anda gritantemente estampado na cor da sua pele. Experimento, por isso, um certo constrangimento nesta vitória dita portuguesa e nesta euforia nacional que, de repente, se apoderou dos grandes meios de comunicação social e dos seus profissionais, não apenas dos desportivos, mas de todos. Acho, até, que esta euforia tem muito de roubo. Nelson Évora é africano de origem, ainda que português por naturalização, a seu pedido. A sua primeira mátria / pátria é África, não a Europa, é Costa do Marfim / Cabo-Verde, não Portugal. E a primeira mátria / pátria é aquela que marca mais e para sempre cada pessoa que vem a este mundo e a torna única e irrepetível. Quando ontem vi, na tv, o atleta Nelson Évora a voar para o ouro olímpico, vi nele, naquele seu belo e ágil corpo africano, todo ritmo, todo dança, todo salto e velocidade, o continente africano, cheio de matérias primas, fauna e flora, recantos naturais e preciosidades únicos no planeta, mas sistematicamente roubado, ao longo dos séculos, quer pela Europa, onde também nós portugueses nos incluímos, quer por muitos outros países do resto do mundo, o que faz dele hoje um continente sobreempobrecido, quase condenado a desaparecer do mapa, senão como território, pelo menos, como povo de povos. E, então, em vez de festejar, senti vontade de chorar. E chorei de verdade. Chorei lágrimas de sangue. E ainda choro. Convulsivamente. Porque o continente que tem, inclusive, as melhores pessoas e os melhores povos do mundo, tem depois de as / os "exportar" para a Europa que o devora e empobrece e para outras partes do mundo, para que elas / eles possam ser e afirmar-se nos seus valores. E não é que, depois, esses países "importadores" das filhas e dos filhos de África ainda se apoderam, por força da lei da naturalização que favorece sobretudo quem concede esse estatuto, dos feitos delas e deles, assim como do seu trabalho nas obras, ou nos laboratórios e nos hospitais, e festejam como suas as vitórias delas e deles, conseguidas sobretudo com o seu próprio trabalho, a sua incontida alegria, a sua incrível força de viver, a sua invulgar generosidade e entrega até ao limite e para lá do limite? Desculpem-me, mas não posso deixar de dizer que festejos assim têm algo de obsceno e muito de chocante. Á luz das leis nacionais e internacionais, o atleta Nelson Braga é português. Mas a sua matriz é africana. E a África que o concebeu e deu à luz fica, neste momento de glória olímpica deste seu filho, oficialmente, postergada e até inexistente. Nem o presidente Cavaco, nem o primeiro-ministro Sócrates foram capazes de um pingo de dignidade e de contenção nas suas públicas e hipócritas palavras de congratulação. São tão robotizados, que chegam a ser cruéis. Pior do que eles, só mesmo o ministro dos transportes e comunicações, Mário Lino, a comentar ontem com os jornalistas portugueses a tragédia humana que a empresa de aviação espanhola provocou, estes dias em Madrid, com a sua incúria e a sua incompetência (será que, depois desta tragédia com tudo de crime por incúria e incompetência, nada lhe acontecerá?!). Saibam que, nesses seus comentários, o funcionário ministro não foi capaz de dizer uma única palavra solidária e de simpatia às famílias das vítimas (e são 153 mortos carbonizados, muitos deles irreconhecíveis), nem aos sobreviventes, alguns dos quais com ferimentos gravíssimos. Com o que o funcionário ministro se preocupou foi com defender, mais uma vez, a localização do novo aeroporto, a construir em Alcochete, mais um elefante branco que ajudará a manter por muito mais tempo o nosso país acorrentado ao seu degredo dentro de portas, sem jamais chegar a criar asas para voar, para ser. Vale-nos, ao menos, neste deserto de homens e de estaditas, homens e mulheres como o atleta olímpico Nelson Évora, africano de nascimento, 24 anos de idade, naturalizado português, aos 18. Deste modo, os povos que colonizámos e explorámos durante séculos são ainda agora os nossos salvadores. E dão-nos lições de humildade, de humanidade, de dedicação, de competência, de honestidade, que deixam a milhas de distância os pedantes e arrogantes Sócrates e Cavaco, o ministro Mário Lino e outros que tais que fazem este (des)Governo, todos cheios de nada, pavões armados de coisa nenhuma, já que até as penas que exibem são de plástico. Quem nos libertará desta Mediocridade institucional e desta apagada e vil tristeza nacional? Vem, Revolução! Vem, Revolução! Vem, Revolução! Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 21
Estou espantado com a leviandade com que o bispo Carlos Azevedo, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa e Auxiliar do Patriarcado, acaba de acusar os deputados da Assembleia da República de "leviandade", por terem aprovado, com a legitimidade que o mandato lhes confere, uma lei que introduz grandes e significativas alterações à actual lei do divórcio, e que ontem, surpreendentemente, foi vetada pelo presidente Cavaco, com razões e argumentos retrógrados e moralistas que vão, obviamente, ao encontro da hierarquia católica, da qual ele é, notoriamente, desde a sua meninice, um dos seus mais fiéis súbditos, juntamente com a sua mulher primeira dama, um e outra, neste momento, mais do que empenhados - este veto não podia ser mais revelador - em garantirem um novo mandato presidencial de cinco anos à frente do país, quando o que agora está em curso chegar ao seu termo. "Ainda bem - diz o bispo Carlos Azevedo, na sua hipócrita e leviana reacção ao veto presidencial - que o Presidente da República teve em conta o maior bem das pessoas e é uma consciência ética, crítica da leviandade com que muitas vezes o Parlamento produz leis". O país ficou, assim, a saber que, no sentir do colectivo dos bispos católicos portugueses, o Parlamento português tem sido "muitas vezes" leviano, no acto de produzir leis que regulam a o nosso viver nacional em sociedade. E, pelos vistos, "muitas vezes". A afirmação é gravíssima e poderá abrir uma guerra entre a hierarquia católica e o Estado português. Uma guerra que eu, pessoalmente, saudaria, porque poderia vir a pôr termo - é o divórcio que eu mais desejo - a esta vergonhosa mancebia entre o Estado português e a Igreja católica que vem já desde 1940, quando o ditador Salazar assinou uma Concordata com o Estado do Vaticano. Esse, sim, seria um divórcio ético e exemplar que agradaria muito a Deus, o de Jesus, e que libertaria a Igreja, toda a Igreja católica, para a fecunda profecia martirial e duélica que lhe cumpre viver / protagonizar na História, em vez de apenas insistir neste tipo de denúncias pontuais, para cúmulo, feitas sempre em busca de mais e mais privilégios eclesiásticos, qual deles o mais nojento. Regressaríamos, então, com esse divórcio - e que alegria a minha como presbítero da Igreja do Porto, se tal sucedesse! - a 1911 e à Lei da separação entre a Igreja e o Estado, a única situação verdadeiramente saudável para o Estado português e para a Igreja católica em Portugal. Mas isto já não quer o colectivo dos bispos católicos portugueses. A consciência ética de que fala o bispo Carlos Azevedo, em nome de todos eles, não é deste quilate. Antes fosse. Não passa de uma ética meramente oportunista, à caça de privilégios perdidos. No fundo, o que o colectivo dos bispos católicos portugueses deseja é o regresso em força à velha Cristandade que durou até à implantação da República - clero, nobreza e povo, lembram-se?! - em que os bispos e os seus párocos tinham no Estado o seu braço secular, sempre pronto a fazer cumprir as suas leis, as suas decisões canónicas, o seu Moralismo infantilizador, uma espécie de sacristão sempre disponível para executar a soberana vontade do clérigo no altar, a segui-lo como cão fiel para todo o lado e a obedecer-lhe sem nunca lhe refilar, sem nunca lhe ladrar, sob pena de poder acabar excomungado! O colectivo dos bispos católicos portugueses e os bispos da Igreja católica em geral ainda não sabem viver numa sociedade secularizada, laica, como é hoje a nossa e, infelizmente, ainda muito pouco. Como tal, não perdem uma única oportunidade, para tentarem fazer a sociedade regressar à velha Cristandade que, por sinal, jamais deveria ter existido. O bispo Carlos Azevedo, neste particular, é por demais reincidente e parece que já nem tem emenda. Desde que fizeram dele bispo auxiliar do Patriarcado e porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa e responsável por outras ninharias eclesiásticas mais, o Poder subiu-lhe à cabeça e, de homem da mística e da espiritualidade que era e que eu pessoalmente conheci e apreciei, tornou-se no que hoje está aí bem à vista de toda a gente. Digo-o com tristeza. Melhor ele tivesse continuado pelo resto da sua vida na condição de presbítero, discreto acompanhante espiritual maiêutico das pessoas, um ministério em que foi altamente fecundo. Agora, como bispo-poder eclesiástico, é de uma aflitiva esterilidade, como os espinheiros, porque tudo o que diz e faz tem a marca do Poder, do Privilégio, da Arrogância, não tem a marca do Espírito, o de Jesus. Oxalá ele me oiça e tenha a simplicidade de regressar à alegria e à paz com que anteriormente sempre se apresentava vestido. Quanto ao veto de Cavaco e da sua primeira dama, provavelmente, soprado por algum clérigo com mais entrada na vida do casal católico que ambos fazem questão de dizer publicamente que são, espero que o Parlamento saiba manter-se firme no essencial da lei que já aprovou. Não faça como o primeiro-ministro Guterres que ia por tudo o que lhe dissesse / soprasse o seu confessor Milícias, com um viver muito pouco franciscano, ou não fosse totalmente verdade que o hábito só por si nunca faz o monge, no caso, o franciscano. Em vez disso, saiba resistir com audácia e lucidez a mais esta investida da hierarquia católica, via presidente Cavaco e sua primeira dama. E, já agora, aproveitem também a ocasião para dizerem ao bispo Carlos Azevedo e ao colectivo de bispos de que ele é o porta-voz que, se quiserem ter voto nesta matéria do divórcio civil, comecem por reconhecer àquelas e àqueles que um dia, levados pela pressão da tradição, do medo, do moralismo e, também, pela vaidade, realizara, o chamado casamento canónico ou pela Igreja e, por via disso, ficam para sempre condenados a ter de viver amarrados um ao outro, mesmo que o casamento se tenha convertido num autêntico inferno para ela e para ele, assim como para os filhos e as filhas de ambos. Digam-lhes que, se quiserem ter voto nesta matéria, comecem, primeiro, por acabar com o casamento canónico, em favor do Sacramento do Matrimónio sem a prepotente ingerência do pároco da noiva ou do noivo, e, depois, ainda reconheçam, também no interior da Igreja, que aquilo que o Amor já separou, o Poder eclesiástico não continue, teimosa e sadicamente, a manter unido. Enquanto não forem capazes de um nível ético deste quilate, então que, pelo menos, permaneçam calados e deixem a Sociedade seguir o seu curso. Na Liberdade, rumo à Maioridade Humana! Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 20
A depressão está hoje tão generalizadamente instalada no nosso país, que nem os atletas olímpicos se aguentaram com um mínimo de dignidade em Pequim. A excepção chama-se Vanessa Fernandes, a do trialto, mas mesmo essa era com o ouro que sonhava e teve de fazer a festa com a prata. Não foi por falta de dinheiro do Estado que, para essas coisas do desporto, o Estado e o seu Governo ainda se chegam à frente. As notícias falam em 14 milhões de euros, mas terá sido muito mais o que se gastou. Foi exclusivamente por falta de estímulo. O moral do país anda confrangedoramente em baixo, de rastos. Como país, vamos de derrota em derrota, a caminho da derrota final, e em velocidade cada vez mais acelerada, por isso, já difícil de travar em segurança. E as atletas, os atletas olímpicos ressentiram-se desta doença / depressão generalizada e nacional. Dela, só não se ressentem os craques do futebol de Milhões, porque esses, ao contrário dos atletas olímpicos, já nem mátria / pátria têm, apenas Milhões. São prostitutos que prostituem o país, juntamente com os funcionários-mor do Poder político e económico-financeiro. E a indispensável cooperação dos funcionários do Religioso, o do Paganismo católico e o das outras Religiões ou Igrejas, com destaque para as dos pastores dizimistas e comerciantes de Deus. Como país, perdemos manifestamente o Norte. Somos hoje um barco à deriva. Sócrates e Cavaco são os dois rostos num só da nossa apagada e vil tristeza. Sempre que Sócrates aparece nos telejornais - "o menino de ouro do PS", chama-lhe, despudoradamente, em título de livro, uma profissional de jornalismo bem conhecida na nossa praça (é preciso descaramento!) - apresenta-se com aquele seu esgar sorriso de plástico que dá vómitos a quem o vê e ouve e deixa o país enojado e à beira da agonia, por mais festas sem festa que o Paganismo católico multiplique em tudo quanto é santuário no país, nomeadamente, nas aldeias do Norte, onde ele continua ainda fortemente implantado, como em plena Idade Média! E quanto a Cavaco, o melhor será nem falar. Tudo nele é errado, não só de agora, como presidente da república, mas desde que ele, inopinadamente, ganhou um congresso do PSD, já lá vão muitos anos e, depois, como primeiro-ministro, encheu o chão do país de betão armado e de alcatrão, sem um pingo de cultura e de poema. Hoje, mai-la sua primeira dama que nunca lhe sai da perna, é o rosto mais deprimente e mais cinzento do país. E, se calha de forçar um sorriso, certamente, a conselho dos que cuidam da sua imagem, torna-se um horror vivo, de meter medo às populações, crianças, jovens e velhos. Comigo é assim que acontece. E não acredito que não aconteça o mesmo ou ainda pior com as demais pessoas que fazemos este nosso país do século XXI. A Incompetência, a Sobranceria, a Incultura, a Arrogância, a Insensibilidade, a Inumanidade, a Crueldade, a Demência estão no Poder do Estado, são o Poder do Estado em Portugal. E o país afunda-se de dia para dia. O que se passou nestes dias com as atletas, os atletas olímpicos portugueses em Pequim é o retrato mais fiel do país que hoje somos, que nos obrigam a ser. Um país sem Projecto, sem Sonho, sem Alma, sem Coração, sem Valores, sem Sopro, sem Espírito, sem Espinha dorsal, sem Sapiência, sem Lucidez, sem Audácia, numa palavra, sem Mulheres, sem Homens, sem Política. Feriram-nos de Morte e cada dia que chega apenas serve para prolongar a penosa Agonia em que nos encontramos. Mais uns meses sem mudarmos decididamente de rumo, e a situação pode tornar-se irreversível. As próximas gerações já nascerão em estado de Agonia e nunca chegarão a sair dela, à semelhança daqueles doentes que passam anos e anos em estado de coma numa cama de hospital. Não! Não me digam que sou pessimista, velho do Restelo. Vejo perfeitamente o que poderíamos ser e não somos, só porque nos condenam a ser multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor. Temos de sobra Poder, no Governo e na Oposição, o qual, de sua natureza, é demente e cruel, opressor e castrador, mentiroso e assassino. Falta-nos Política. E Políticos. O Poder acaba sempre por comer a Política e os Políticos e fica sozinho, não a governar, como se diz, mas a infantilizar, roubar, matar e destruir as populações. Não haverá, entre os seus próximos, quem convença Sócrates primeiro-ministro e Cavaco presidente da república a saírem de cena, já? Farão mais, muito mais pelo país, se não fizerem nada, do que com todo o seu imparável frenesim. Mas não só. É também preciso convencer os do Poder na Oposição a saírem de cena. Porque o Poder, onde estiver, sempre vem para infantilizar, roubar, matar e destruir. Só a Política salvará os Povos e a Terra. Obviamente, a Política não se faz sem Políticos, mulheres e homens. Mas apenas aqueles Políticos como Jesus, o Político por antonomásia - é o que significa o cognome "o Cristo" que se colou para sempre ao seu nome histórico - que tenham a sabedoria e audácia de resistirem até ao sangue à tentação do Poder e às suas seduções, bem como aos privilégios com que ele sempre acaba por corromper e devorar a alma das mulheres e dos homens que o servem. Por favor, poupemos os atletas olímpicos portugueses, elas e eles. Olhemos de frente e com olhos de ver para o país. Um país em estado de agonia, como é este (des)governado por Sócrates e Cavaco e pelos chamados partidos da Oposição, não pode gerar atletas olímpicos à altura do século XXI. O mais que poderá fazer é gerar alguns craques do futebol de Milhões, prostitutos sem mátria / pátria, sempre de pernas abertas aos clubes-máfias ou SADs, que mais milhões lhes oferecerem. As populações cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor continuarão a correr atrás desses prostitutos da bola e dos Milhões e tentarão divertir-se com os seus pontapés e os seus obscenos estilos de vida. Só que cada pontapé na bola que eles dão, por mais espectacular que possa ser, é um tiro nos nossos próprios pés, que nos paralisa cada vez mais e nos deixa de rastos, pobres de pedir, de mão estendida por subsídios. E o que é ainda pior, deixa-nos sem Norte. Sem Rumo. Sem Projecto que nos galvanize e humanize. E sem Estrelas na mente. E sem Poemas no peito. Cadáveres ambulantes que se agitam nos estádios de futebol e nos santuários das deusas e dos deuses criados e alimentados pelos nossos ancestrais medos, ainda por superar. Por isso, totalmente incapazes de Política, de Práticas Políticas Maiêuticas e de Afectos Partilhados. À mercê de todos os Sócrates e Cavacos, mais do que muitos, que, autênticos lobos devoradores, nos saem ao caminho e nos deixam como o Mundo nos pôde ver, estes dias, em Pequim. Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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1. Bom dia, meu amigo! “Não! Não me digam que sou pessimista, velho do Restelo. Vejo perfeitamente o que poderíamos ser e não somos, só porque nos condenam a ser multidões cansadas e abatidas como ovelhas sem pastor.” Também eu, em determinada altura, e a propósito da política e dos nossos políticos, lhe disse que não era pessimista mas sim realista. Lembra-se? Pois bem, meu amigo, chegou tarde, mas chegou. Agora já não me sinto uma ave agoirenta. Não vivi o que o Mário viveu; não senti, directamente, o que o Mário sentiu, mas vivi e senti o suficiente para dizer não à crueldade da diferença, quando os homens se impõem pela violência, quer ela seja física ou mental. Julguei, inocentemente, nunca mais voltar a sentir-me violentada. Julguei mal. Estou (estamos) outra vez à beira do abismo e atrás de mim (nós) os abutres. Só que desta vez é bem mais cruel. Somos empurrados e deixamos, somos violentados e até gostamos. Eles, os do poder, usam e abusam, com a nossa conivência, porque sabem que ao povo basta uma côdea de pão para viver em festa. Falta-nos política sim senhor! E falta-nos política porque não temos políticos. Temos usurpadores da política. Mas também falta quem ponha os políticos no lugar. Os “homens” hoje, não querem saber de política, porque a política em si não dá dinheiro. Os “homens” querem poder e o poder está sempre associado ao dinheiro. Muito dinheiro. Dinheiro que nunca mais acaba. O deles, que o nosso é bem contado e mesmo assim muitas vezes não chega para o essencial. É um escândalo sem medida o que se passa no nosso país. E todos sabem. Todos sabem mas ninguém faz nada. Será que voltámos no tempo? Talvez! Ontem, em plena esplanada no café da praceta onde moro, falou-se de política e dos profissionais da política e consequentemente da perversão que entope este país quase a rebentar pelas costuras. Regra geral todos têm a mesma opinião, mas são poucos os que se atrevem a manifestá-la. Estas discussões levam muitas vezes ao exagero da palavra, quando alguém acomodado, porque indiferente, insiste infantilmente em dizer que não há solução. O tom de voz eleva-se, a adrenalina sobe e o que parecia ser uma simples conversa vira comício. Qualquer dia ainda sou presa!... Às perguntas que me faz, no seu último e-mail, [O problema é outro e mais fundo: O que leva tanta gente a não sair do infantil e a gostar tanto do mau gosto? Quem e o Quê provocam estas perversões? É para aí que havemos de apontar baterias e trabalhar para derrubar esses sistemas e esses tronos] não sei responder. E não sei responder, porque não sei a razão que leva tanta gente a comer e a calar. Medo? Talvez! Que o papão está de volta e com ele a força de silenciar. Ana
2008 AGOSTO 19
Ele foi, durante alguns anos, canonicamente casado, mas hoje já era divorciado. Civilmente, apenas. Porque, perante a instituição Igreja católica que o casou, continua oficialmente casado. Uma aberração que o Império eclesiástico tece e, depois, ainda tem o atrevimento de dizer que entre esta sua aberração e Deus não há qualquer diferença. Como se Deus, o de Jesus, alguma vez se pudesse rever em aberrações como esta que o Império eclesiástico tece, quando Deus, como canta Maria, a do Evangelho de Lucas, derruba todos os impérios, todos os poderosos e até todos os seus tronos. Ela era ainda solteira. Ambos, ela e ele, são de matriz católica e até têm amigos padres-párocos. Mais, ela até tem um padre-pároco na família. Sucedeu que o Amor, que não olha às aberrações que o Império eclesiástico tece, colocou-os no caminho um do outro e uniu-os. E os dois decidiram, a uma só voz, ser uma só carne para a vida do mundo. Residem em Lousada, onde ele é conhecida figura pública, vereador da Câmara Municipal, há sucessivos mandatos. Assim já unidos pelo Amor, bateram à porta dos vários padres-párocos amigos e do próprio padre-pároco que é familiar dela. Pretendiam apenas que algum deles estivesse presente no dia em que iam tornar pública a sua união nupcial, com saudável e criteriosa pompa-e-circunstância. Para ambos, este seu passo, protagonizado livremente por eles, era ainda mais decisivo e determinante do que o mero casamento civil que ainda poderão vir a realizar, um dia, lá mais para diante, mas apenas na privacidade da Conservatória do Registo Civil. Faziam questão de serem eles a dar este passo, de assumirem todo o protagonismo e darem perante a sociedade de que são parte integrante esta inequívoca prova de maturidade / maioridade. Sabiam bem que não podiam realizar o chamado casamento canónico, o único que a Igreja católica insiste, absurda e aberrantemente, em fazer e que é simultaneamente casamento civil. Porque, para a Igreja católica, ele continua casado, por força do casamento canónico, realizado há anos e que não levou a lado nenhum, pois abortou quase de seguida. Mas a mulher com quem equivocadamente o realizou continua aí viva, ainda que entre ambos não haja mais qualquer relacionamento nupcial nem de outro tipo qualquer. Fosse ele viúvo e tudo seria completamente diferente. Mas ele é apenas civilmente divorciado. Por isso, embora quisessem mais do que isso, limitaram-se a pedir aos padres-párocos amigos e, sobretudo, ao familiar dela, não um o casamento canónico, com registo no livro paroquial, mas apenas uma bênção pública que ajudasse a dar Sentido Maior ao acto nupcial que ambos estavam determinados a realizar. Nenhum dos padres-párocos lhes fez a vontade, nem mesmo o familiar dela. Todos, à uma, colocaram o Código do Direito Canónico e as normas eclesiásticas acima da vida real, inclusive, acima do amor que faz destes seus amigos, ela e ele, uma só carne, e que Poder algum, nem mesmo o eclesiástico, pode jamais separar. Foi então que os dois se lembraram de mim, padre-presbítero da Igreja do Porto, felizmente, sem paróquia, esse espúrio modelo de Igreja que nunca deveria ter existido, já que tem a sua origem no antigo ordenamento territorial do Império romano, não no Espírito Santo, o de Jesus. Obviamente, disse-lhes logo que sim, que estaria com eles não só nesse dia, nessa hora, mas todos os dias e todas as horas das vidas deles. E fez-se a festa. Foi no passado dia 15 de Agosto, uma sexta-feira, feriado nacional e dia santo para a Igreja católica, numa belíssima e acolhedora quinta numa aldeia das proximidades do centro de Lousada. Ela e ele, como duas pessoas adultas que são, trataram previamente de tudo, sem qualquer interferência minha. Foi a única condição que pus para aceitar o convite deles Eles próprios escolheram os textos que quiseram ver proclamados naquele Momento eterno e irrepetível das suas vidas. E proclamaram-nos, depois, da minha palavra de abertura e de saudação. Ele, um extracto da Carta de S. Paulo aos Romanos, sem dúvida, o Evangelho da maioridade humana; ela, um extracto do belíssimo Cântico dos Cânticos, erótico e sensual q. b., da Bíblia hebraica ou Primeiro Testamento. Escolheram também as palavras e os gestos com que disseram perante mim e perante as outras mais de duzentas pessoas convidadas por eles, o Amor que um dia aconteceu entre ambos e que agora acaba de os fazer para sempre marido e mulher nos momentos mais difíceis e nos momentos menos difíceis das suas vidas. Tudo aconteceu ao ar livre e à luz do sol, longe dos sinistros templos e dos altares do nosso Paganismo católico. Junto de um romântico lago, aberto num dos recantos da quinta alugada por eles para o Acto. Para meu espanto, entre os convidados, estiveram dois padres-párocos, amigos de ambos, um dos quais também familiar da noiva. O que é só amigo de ambos esteve no Momento Maior que foi o do Sacramento ou Mistério que todas, todos fizemos acontecer em comunhão com os nubentes. Ainda nos cumprimentámos à minha chegada, mas depois ele foi-se embora sem chegar a despedir-se de mim. Como iria ele por dentro, depois daquele Sopro impetuoso e fecundo que foi a celebração-festa, um mergulho no Oceano de Amor Criador que é DeusVivo, o de Jesus? Já o padre-pároco familiar da noiva só apareceu depois da celebração, no momento em que começaram a ser servidos os aperitivos e o jantar. Ignorou-me ostensivamente do princípio ao fim. Exactamente, como mandam as regras e as conveniências eclesiásticas e canónicas, já que eu, presbítero sem ofício pastoral oficial e inexistente nas publicações oficiais da Igreja do Porto e do país, sou, no dizer eclesiástico católico romano, pessoa a evitar, não vá a minha dissidência na Igreja contaminar a pureza ritual e hipócrita com que todos os clérigos que o são a sério se vestem. Para sua desgraça. Porque, como seres humanos e presbíteros da Igreja, apenas deveriam vestir-se de humanidade, de ternura, de misericórdia, de afecto sororal / fraterno. É por isso que todos são tão funcionários eclesiásticos e tão pouco homens, seres humanos. São tão religiosos e tão pouco jesuânicos. São tão sacerdotes pagãos e tão pouco presbíteros da Igreja, a de Jesus. As palavras com que abri a celebração foram carregadas de Espírito, o de Jesus. Maiêuticas. Boa Notícia. Geradoras de maioridade humana, por isso, mulheres e homens políticos, não religiosos. Não presidi à celebração. Fui, do princípio ao fim, simplesmente como a parteira. Vestido como ando todos os dias, de calça de ganga, uma camisa azul de manga curta, fralda fora das calças. E muita alegria. Como um menino. Presidiram os nubentes, como ministros da celebração nupcial que são. Sempre de cara para as convidadas, os convidados. E, no final, já depois de ambos se terem tornado marido e mulher com palavras e gestos que inventaram, em lugar de eu os abençoar, como me haviam pedido, quando me convidaram, fui eu quem lhes pediu que me abençoassem a mim e a todos os demais convidados, elas e eles, porque, como ministros da celebração nupcial, a Graça e a Verdade que nos vêm de DeusVivo por meio de Jesus, era por eles que mais passava naquele momento. Ela e ele foram manifesta e agradavelmente apanhados de surpresa, mas nem por isso deixaram de me abençoar (= fazer-me dádiva para os demais) e a todas as demais pessoas que se aproximaram deles com incontida alegria. Eis a Igreja de Jesus em acção. É para que ela seja assim, que eu sou seu presbítero. Porque para ser funcionário eclesiástico, não contem comigo. Nesse caso, só podem contar com a minha saudável e fecunda dissidência. Sempre. Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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2008 AGOSTO 18
Estou de regresso de férias. Foram dias de sol e de mar na praia dos pescadores de Armação de Pêra, no Algarve, seguidos, após alguns dias de intervalo na casinha de Macieira da Lixa, onde vivo, de mais uns quantos dias em duas aldeias, Picote e Bemposta, a poucos quilómetros de Miranda do Douro, com o Rio ibérico ao fundo. Na praia, como na montanha, vivi integrado em dois pequenos grupos de pessoas amigas e pudemos contar, num e noutro lado, com casa emprestada gratuitamente por outras pessoas amigas. Pude constatar, mais uma vez, que Agosto é o mês dos emigrantes e das festas populares em honra de santos e de santas, com destaque para as imagens de nossas senhoras (= nossas deusas) de todo o tipo, a comprovar que continuamos a ser um país estruturalmente pagão, o paganismo católico, porventura o mais perverso dos paganismos religiosos, porque se tem na conta de não-pagão, mas cristão. Está cheio de templos e de santuários e dispõe de párocos - felizmente, cada vez menos - e de bispos - infelizmente, cada vez mais - que, na sua actuação dita pastoral, mais não são do que continuadores dos sacerdotes das deusas e dos deuses do Paganismo religioso que foi florescente por estas terras, ainda antes de Jesus, o de Nazaré, e de Maria, sua mãe, terem nascido. Neste mês de Agosto, o Paganismo andou e ainda anda à solta. Multiplicam-se as festas sem festa. São intensos os ruídos nas aldeias (aqui em Macieira da Lixa, por exemplo, este último fim-de-semana foi um pesadelo e um inferno), provocados por altifalantes com música e dizeres pimba a toda a hora do dia e até altas horas da noite, foguetes a rebentar no ar como outros tantos tiros de canhão de guerra, abundam os comes e bebes, mas sem um pingo de comunhão, há procissões oriundas da Idade Média nas ruas, a dificultar o trânsito, numa manifestação de arrogância católica que só diz mal de quem as promove ou com elas pactua, enfim, uma tortura para quem, já mais ilustrado e mais evangelizado, procura, nestes dias de verão, merecidos momentos de paz, de serenidade, de contemplação, de qualidade de vida, de descanso, de sono reparador, de confraternização, de cultura, de poesia, de alegria, de mesa e de afectos partilhados. Decididamente, o Paganismo católico continua, desde a fundação do país, a desgraçar as populações, a mantê-las alienadas, incultas, infantilizadas, sequestradas, deprimidas, tristes, paralisadas, em estado de prolongada agonia. Para cúmulo, já se anuncia o regresso de Sócrates, não o do filósofo grego, de feliz memória, com a sua mais do que oportuna e fecunda maiêutica, mas o Sócrates tecnológico primeiro-ministro de Portugal, esse insuportável robot humanóide que o Partido Socialista insiste em manter à frente dos destinos do país, sem ser capaz de ver que ele está a levar o país e o seu próprio Partido para o abismo. A depressão é hoje tão generalizada, que o país já nem sequer revela capacidade de reacção. Vejam que agora até já aceitamos sem pestanejar um ministro que manda atirar a matar sobre dois homens desesperados, sequestradores sequestrados dentro de um banco, que tentaram assaltar sem sucesso, e nada de nada lhe aconteceu. É um ministro assassino, já que um dos dois homens assaltantes foi morto com um tiro certeiro sobre os quais ele mandou atirar a matar, mas a verdade é que, depois de tudo isto, esse mesmo ministro continua aí em liberdade e à frente da pasta da Administração Interna, como se fosse um estadista exemplar. E estadista será, mas do número dos estadistas assassinos, tipo, Bush e Putin, os estadistas assassinos por antonomásia. As televisões todas, durante dias e dias, exibiram as obscenas imagens dos tiros e da morte em directo, e as falas do ministro assassino a elogiar o "trabalho" da Polícia. Só que o tiro do polícia especial treinado para matar e para não errar nunca a pontaria foi um tiro no próprio governo a que o ministro assassino pertence. Foi também um tiro no nosso próprio país. Mas nem assim o país reagiu e saiu da sua modorra. Toda a gente terá achado bem que se mate um assaltante de um banco, não, obviamente, o administrador de um banco, ainda que este, no final de cada ano, apresente obscenos lucros e ainda venha anunciá-los em directo e em horário nobre nas televisões. "Sei que pareço um ladrão / mas há muitos que eu conheço / que não parecendo o que são / são aquilo que eu pareço". O nosso maior poeta popular, António Aleixo, de seu nome, já o denunciou, mas nós fazemos orelhas moucas e, em lugar de irmos esforçadamente pela sua sabedoria, vamos preguiçosamente pela mentira dos grandes deste mundo, que, como alertou / revelou Jesus, o do Evangelho de João, sempre vêm e estão aí para roubar, matar e destruir. Ainda hoje, me dói o estômago, só de pensar no caso, porque também eu vi as imagens e todo eu estremeci. Bem sei que os dois assaltantes em causa mantinham com eles duas pessoas e ameaçavam matá-las, caso não vissem satisfeitas as suas reivindicações de fuga sem perseguição policial. Mas a verdade é que eles não mataram. Apenas ameaçaram. Quem matou foi a Polícia, por ordem do respectivo ministro. Não ameaçou matar, e matou. A frio. Logo que conseguiu ter um deles sob a mira telescópica da sua arma assassina. Foi tiro e queda. Como se um homem, assaltante de banco que seja, fosse menos que um rato! Não estranhemos, então, se, no futuro, outros assaltantes sequestradores começarem por matar algum dos reféns e não se limitarem simplesmente, durante mais de oito horas a fio, a ameaçar matá-los. Um ministro assassino de um governo assassino acaba de abrir o caminho à espiral de violência, deste tipo de violência, no nosso país. Aliás, há algum Estado que não seja violento? Se não fosse violento, seria armado? Teria Forças Armadas e de Segurança e Polícias especialmente treinadas para matar? Será que nem assim abrimos os olhos? Quando nos decidimos chegar à maioridade, para a qual Jesus ininterruptamente nos chama com o seu viver crucificado-ressuscitado? Porque teimamos em permanecer na menoridade e na irresponsabilidade, se foi para a liberdade / maioridade que Jesus, o Cristo, nos libertou?! Ousemos seguir os seus passos. E seremos humanos. De contrário, seremos menos que ratos. Menos que lesmas. Que não dispensam o robot Sócrates e todos os outros robots que o Poder no governo e na oposição sempre fabrica para o servirem sem quaisquer escrúpulos. Os quais, uma vez aí, manipulam, maltratam e massacram as populações a seu bel-prazer. Com requintes de sadismo. E de cinismo. Nota: Se quiserem comentar esta crónica teológica, façam-no por e-mail para
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