DIÁRIO ABERTO


 

2007 DEZEMBRO 28

 

O ano de 2007 termina com os pequenos partidos políticos - para o legislador todos os partidos que tiverem menos de 5000 aderentes são pequenos partidos, o que é um critério estúpido, como o da chamada democracia representativa, pois apoia-se na quantidade e ignora a qualidade, quando, afinal, mesmo os chamados grandes partidos são como os grandes clubes de futebol, só uma minoria muito pequena é que intervém e decide e os outros ou não aparecem, ou aparecem apenas para votar/apoiar o que a minoria dirigente quer ver aprovado - em desesperado combate político pela própria sobrevivência. Em 2008, podem pura e simplesmente desaparecer. E, pelos vistos, nenhum quer semelhante destino. Mesmo os que se têm na conta de mais revolucionários. E é aqui que não os acompanho, nem aos seus debates orientados para este objectivo. Nunca fui homem de partido. Sempre fui e quero ser homem que toma partido todos os dias pelas vítimas, também dos partidos. Nunca prestei qualquer serviço, nem sequer no estatuto de independente, a nenhum partido. Sou homem de Causas, as da Humanidade e dos povos, não homem de partidos, nem das suas causas. Eles existem, é certo, mas não é por aí que vou, embora respeite e estime e até seja amigo pessoal de algumas pessoas que ainda vão por aí. Ao longo da vida, fui assediado, de múltiplos modos, por diversos partidos da chamada área da Esquerda. Nunca entrei nesse jogo. E, mesmo hoje, depois de tanta resistência pessoal, ainda há quem alimente alguma expectativa em relação a mim, neste domínio. Jamais irei por aí. E gostava que os chamados pequenos partidos, em lugar de reagirem com desespero a esta decisão estúpida e arbitrária do Poder dos grandes partidos, aproveitassem a ocasião para reflectirem profundamente, eles e a sociedade em geral, sobre o Poder em si. O que ele constitutivamente é, mesmo o chamado poder democrático. O que o gerou. O que o mantém. Se deve ser acatado/respeitado/praticado, ou, pelo contrário, duelicamente enfrentado/combatido/destruído. Se é benéfico para os povos que o Poder exista. Ou se o Poder, em vez de ser parte da solução dos problemas do mundo é parte dos problemas, é o principal problema. Esta é a questão. A questão que, pelos vistos, nem os chamados pequenos partidos de esquerda estão dispostos a debater. Porque todos eles, se existem e estão a fazer tudo para continuarem a existir, é porque estão convencidos de que são parte da solução dos problemas e não parte do problema. Todos eles querem o Poder. Não querem que o Poder acabe. Ora, a minha luta humano-política é que o Poder acabe e fique apenas a Política. Poder nunca mais. Política sempre. Só a Política desarmada, portanto sem poder, salvará o mundo e os povos. O Poder sempre oprime e mata os povos. Todo o Poder é mentiroso, demagogo, opressor, corruptor, a começar pelos próprios que o exercem. É apenas uma questão de preço. Todo o poder se vende e compra. É escravo e senhor. Faz lembrar aqueles maridos autoritários e terroristas em casa, com a mulher e os filhos, e lacaios na empresa onde são meros funcionários subalternos. Os chamados pequenos partidos, quando se formaram, sonhavam vir a ser grandes. Sonhavam chegar ao Poder, ser Poder. A História recente do país, após o 25 de Abril 74 é por demais eloquente, também nesta dimensão. E o senhor deus Dinheiro que está por trás da chamada democracia representativa, como antes já esteve por trás da monarquia, da ditadura e do império, esfrega as mãos quando vê os que parecem mais lúcidos e evoluídos da sociedade a movimentar-se para formar um novo partido político legalizado, a juntar aos muitos que já existem legalizados. Ele próprio se disponibiliza para subsidiar as despesas, se tanto for necessário. Porque o senhor deus Dinheiro é que não pode viver sem o Poder. Os povos também pensam que não podem viver sem o Poder, mas porque são levados a pensar assim por ele. A Ideologia do Poder não nasceu sem pecado. Ela é (o) pecado organizado, sob o disfarce de virtude. É uma puta travestida de anja, ou anjo, porque, embora o conceito Ideologia seja um substantivo feminino, sempre se comporta como masculino, pior, como macho. Dela, diz Jesus, o de Nazaré - por isso, o odeiam tanto e não suportam que os povos o reconheçam como ele é, apenas as máscaras que o senhor deus Dinheiro e o seu Poder fizeram dele e que não se cansam de lhes apresentar como se fossem o Jesus da História - que é mentiroso, pai de mentira e assassino, desde o princípio, desde a origem. O mesmo é dizer que já nasceu assim! E, agora, ou os povos a decapitam, ou estão fritos, nunca chegarão a ser povos autogestionários, adultos, senhores dos próprios destinos. Vejam que Jesus não diz que a Ideologia é mentirosa, mãe de mentira, assassina. Diz tudo isso, mas no masculino. Porque ainda que a Ideologia seja do género feminino, o Poder que a veicula, utiliza e difunde a todo o instante e por todos os meios, até através das igrejas, é masculino, é macho. E macho altamente reprodutor. É ele - a Ideologia dele - que faz a cabeça dos povos, a começar pelas minorias mais escolarizadas, mais ilustradas, ou que se têm na conta disso. Porque, bem vistas as coisas, elas são quase sempre as mais vulneráveis à sedução do senhor deus Dinheiro e do Poder que ele próprio pariu para o servir incondicionalmente. Por isso, essas minorias são quase sempre mais estúpidas do que os próprios povos, porque, da noite para o dia - é sempre noite, quando o Poder envolve e tenta as pessoas e as compra; já foi assim com Judas, o dos Evangelhos canónicos; "era noite", escreve o Evangelho de João, quando ele se vendeu ao Poder - elas aparecem a fazer o jogo do Poder e, por isso, a fazer o jogo do senhor deus Dinheiro, mesmo quando pensam que estão a dar decisivos passos para os derrubarem e à sua Ordem Económica Mundial. Da noite para o dia, elas passam de David a Golias. Porque, mesmo que comecem por cortar a cabeça a Golias, é apenas para passarem a ser elas o novo Golias de serviço, de turno. Ao senhor deus Dinheiro (e ao Poder que incondicionalmente o serve) pouco importa qual o Golias de serviço. O que lhe importa é que o Golias esteja lá no posto que ele criou para o servir incondicionalmente. Sem Golias, sem Poder, é que o senhor deus Dinheiro não pode subsistir. Tanto assim, que basta que o Golias de serviço, ou de turno, comece a dar sinais de decadência, ou revele alguns escrúpulos éticos, por diminutos que sejam, que ele, de imediato, sabe o que fazer para o retirar de cena. Porque é mentiroso, pai de mentira e assassino. Sem escrúpulos. E como ele, são todos os que o seguem, lhe fazem o jogo, à direita ou à esquerda. Um mundo sem Poder, eis a utopia política de Jesus, o de Nazaré, não, obviamente, o Cristo do Império romano e da hierarquia eclesiástica que lhe sucedeu. Um mundo de povos autogestionários e irmãos, sem sombra de poder, sem sombra de pecado organizado (o Pecado organizado é o Poder, sem o qual o senhor deus Dinheiro não poderia reinar sobre os povos), eis a Utopia política de Jesus. Ele chamou-lhe Reino/Reinado de Deus, mas do Deus-Amor, do Deus Mãe/Pai, do Deus-Vida, do Deus-Plenitude-do-Humano, do Deus-Ser-e-Liberdade, do Deus-Futuro-dos-seres-humanos-e-dos-povos. Este nosso século XXI, o do senhor deus Dinheiro e do Poder à solta, nem consegue entender esta minha linguagem teológica. Soa-lhe a poesia, no sentido pejorativo do termo. É escândalo e loucura para ele, para as mulheres e os homens que o "fazem". Inclusive, para os membros dos chamados pequenos partidos de esquerda, que, pelos vistos, não suportam a ideia de virem a ser extintos. Por mim, acho que, ao menos, os pequenos partidos da chamada Esquerda, deveriam alegrar-se. Porque o Poder, como tal, só pode ser derrubado por quem o recusa, não por quem aspira chegar a ele, a ser Poder. Só os sem-poder e os que se afirmam todos os dias contra-o-poder podem derrubar o Poder. Como só os pobres que o são por opção e por toda a vida, é que podem fazer frente ao senhor deus Dinheiro e derrubá-lo. Enquanto houver um homem, uma mulher que queira enriquecer, ser rico, e a sociedade achar que essa mulher, esse homem é que pode ser o nosso salvador, em lugar de Jesus, o Pobre por opção e o Não-Poder (ele é a Vida, a Verdade/Liberdade, o Amor, por opção), os povos do mundo estarão sempre em perigo, serão sempre povos infantilizados, oprimidos, empobrecidos, alienados, reprimidos, massacrados, excluídos, assassinados. O senhor deus Dinheiro e o Poder que ele criou para incondicionalmente o servir e aos seus interesses, são assim por natureza. Por isso, em linguagem teológica, a de Jesus e a minha, eles são o anti-Deus-Vivo, que, ao contrário deles, é o Deus-que-vive-para-fazer-viver-as-pessoas-e-os-povos. São por isso o Ídolo por antonomásia, o ídolo dos ídolos. Ou o decapitamos, ou nunca chegaremos a ser Mulheres, Homens, Povos. Apenas coisas em masculino e em feminino. Porventura, muito activos, muito bem vestidos, muito importantes, muito vips, mas coisas. Então, não me convidem para sair por aí a defender a existência de partidos políticos, os grandes e os pequenos, todos de olhos postos no Poder. Não vou por aí. Todos eles, de olhos postos no Poder, são parte do problema do nosso mundo, não parte da solução do problema. Com eles e com o Poder que eles servem à direita e à esquerda, os povos serão sempre o mexilhão. Já o velho profeta Samuel bíblico, quando o seu povo pedia um rei, para ser como os outros povos à volta, povo-com-poder, ele advertiu-o solenemente da desgraça a que ficaria sujeito, se um dia aceitasse um rei sobre ele. O povo no o ouviu. Vingou o Poder, mas é o que se vê. Até David que começou por derrubar Golias com a funda, "virou" Golias, e que golias! Será que tantos séculos, milénios já, de poder, ainda não são suficientes para nós abrirmos os olhos e sairmos por aí a procurar soluções para os problemas dos povos fora do Poder e do seu criador, o senhor deus Dinheiro? A solução dos problemas que hoje e sempre afligem os povos não tem de passar pelos próprios povos, e povos sem-Poder? Como conseguir que os povos pensem um caminho de salvação global que não passe mais pelo Poder nem pelo senhor deus Dinheiro que o pariu? Jesus, o de Nazaré, assassinado pelo Poder, porque lhe resistiu e o desmascarou como o Perverso, o Pecado organizado, juntamente com o senhor deus Dinheiro que o pariu, e que o enfrentou desarmado, como O Homem, simplesmente, constituiu-se historicamente em o Caminho, a Verdade e a Vida. Ousemos, então, neste nosso século XXI, aprofundar o seu ser-viver histórico. Mas bem longe dos templos e dos altares, longe das hierarquias eclesiásticas e das religiões que vivem à pala do seu nome vergonhosamente conspurcado por elas. Ousemos estudar/conhecer/reconhecer/acolher e, sobretudo, ousemos ser Jesus, no século XXI. O senhor deus Dinheiro e o Poder que ele pariu e que sobrevive nos seus homens de mão que são os Executivos do mundo que controlam, dominam e formatam as mentes dos povos, não nos perdoarão tamanha ousadia. Mas o Futuro da Humanidade e do Mundo passa por aí. E isso é o que verdadeiramente importa. Tudo o mais é mais do mesmo. Já de antes do tempo das cavernas. E, no nosso século XXI, mais do mesmo, mais mentira, mais assassínio, mais Ideologia, não, obrigado. Não acham que este é um bom e oportuno tema para debatermos/vivermos em 2008? Teremos a humildade e a audácia de tão radical conversão? Trata-se nada mais nada menos do que de mudar de Deus (também os chamados ateus são convidados a esta conversão!). Trata-se de mudar do senhor deus Dinheiro que pariu e alimenta a Puta é que o Poder, para o Deus Vivo, o de Jesus, que é a Vida entregue/derramada e vida em abundância para todos os povos. É por aqui que vou. Numa viagem sem regresso, rumo ao Futuro. Como quem vê o Invisível.

 


 

2007 DEZEMBRO 27

 

Depois do natal de calendário que - mais uma vez ficou bem à vista de toda a gente - não tem nada a ver com o natal de Jesus, vem agora aí, por proposta do Papa Bento XVI, o Dia Mundial da Paz de calendário que também não tem nada a ver com a Paz de Jesus. O primeiro Dia Mundial da Paz nasceu na mente e no coração do Papa Paulo VI, precisamente, há 40 anos (1968). Recordo-me como se fosse hoje. Estava então, como capelão militar, no coração da Guerra Colonial, em África, concretamente, em Mansoa, Guiné-Bissau. O "Momento" mundial e eclesial que então se vivia fez acontecer na mente e no coração do Bispo de Roma aquela iniciativa que teve um grande impacto junto dos povos e fez estremecer os respectivos Executivos, tanto os grandes como os pequenos, inclusive, o Executivo português em Lisboa. A mim, trouxe-me a alegria da expulsão de capelão militar, já que, em Mansoa, fiz minha a iniciativa papal e anunciei, com lucidez e audácia, a Paz de Jesus aos soldados do meu Batalhão que, juntamente com os soldados dos demais batalhões portugueses, estavam em África a fazer a Guerra contra os povos africanos que se batiam denodadamente pela sua autonomia e independência. A minha homilia da paz desse dia foi entendida pelo comando do Batalhão como um acto de subversão e de conspiração, o que perfazia um crime de alta traição à pátria. Não me surpreendeu, porque já então começava a perceber que a paz de Jesus é absolutamente incompatível com a paz do Império. Mas já me surpreendeu e até escandalizou, quando vi os meus superiores hierárquicos nas Forças Armadas, institucionalmente meus irmãos na Fé, desde o capitão-capelão que chefiava o serviço de capelães em Bissau, ao Bispo castrense, em Lisboa, a subscreverem, todos à uma, a tese do comando do meu Batalhão 1912, quando o legitimamente esperado por mim é que todos eles fizessem corpo comigo e com a Paz de Jesus que eu havia anunciado. A verdade é que, poucas semanas depois, fizeram-me regressar à diocese do Porto, na condição de capelão militar expulso do Exército e de "padre irrecuperável" (esta última classificação é do próprio Bispo castrense, então, António dos Reis Rodrigues). Ora, entre a iniciativa do Papa Paulo VI e a do Papa Bento XVI há um abismo de 40 anos e de História feita de aceleradas transformações. Aquela nasceu na mente e no coração do Papa que havia prosseguido e encerrado o Concílio Vaticano II, convocado por João XXIII. O "Momento" mundial e eclesial de então assim lho exigiu. E ele não lhe soube resistir. A iniciativa aconteceu. Como um kairós, um Momento de Graça e de Verdade, por isso, uma Acção histórica com Espírito Santo. Já a iniciativa do Papa Bento XVI acontece, hoje, por imperativo do Calendário. Por isso, sem inspiração. Sem Sopro, o de Jesus. O "Momento" mundial e eclesial, em 2008, é totalmente outro, do de há 40 anos. E está a pedir/exigir uma outra iniciativa, absolutamente inaudita, não a simples repetição da mesma, ano após ano. Bento XVI tinha obrigação de perceber isso, até porque, ao tempo de Paulo VI, já ele era (tido como) um eminente teólogo europeu. Pelos vistos, deixou-se disso e passou a preocupar-se mais com a sua carreira eclesiástica. O teólogo que era, com muito de profeta - não há Teologia do Deus de Jesus, sem Profecia - deu lugar ao burocrata, ao funcionário eclesiástico, ao escriba, ao doutor da lei, ao teólogo do sistema eclesiástico, ao anti-profeta. Em lugar de "descer" na escala hierárquica, até a fazer implodir, "subiu" por ela. E hoje, está no vértice da pirâmide eclesiástica. Para seu mal. E mal da Igreja, que perdeu um teólogo com Espírito Santo e não ganhou um "servo dos servos de Deus", mas um papa-chefe-de-estado, um Inquisidor, um monarca absoluto, um Executivo eclesiástico que está a fazer regredir a Igreja do Concílio Vaticano II para a Cristandade Ocidental que ela foi durante 16 séculos e que o Concílio quis que deixasse definitivamente de ser. O mais grave é que ninguém dos muitos que o rodeiam e subservientemente o acolitam, tem a audácia de lho dizer olhos nos olhos. E ele lá vai, cego e guia de cegos, para o abismo. Os bispos que se encontram com ele e têm acesso a ele poderiam adverti-lo e corrigi-lo, como manda o amor fraterno. E como Paulo, no princípio da Igreja, paradigmaticamente advertiu e corrigiu Pedro. Infelizmente, a relação entre o papa e os bispos deixou de ser de fraternidade, para ser de poder, de autoritarismo. E até os bispos, perante o papa Ratzinger, comportam-se como meninos de coro, como seminaristas, como assustados putos de catequese. Está a fazer falta na Igreja católica uma Insurreição. Da periferia para o centro. A Insurreição da Lucidez e da Audácia. A Insurreição do Espírito Santo. Da Fé cristã jesuânica. Das fiéis leigas e dos fiéis leigos. Das mulheres e dos homens baptizados e crismados no Espírito Santo. Da base eclesial, onde Deus, o de Jesus, está e vive para o vértice, onde está e vive o Poder, sempre demoníaco. Numa palavra, uma Insurreição do Povo de Deus que faça implodir o sistema eclesiástico. O "Momento" mundial e eclesial está a exigir uma iniciativa assim. Só uma uma iniciativa assim será capaz de abalar de novo este nosso Mundo do século XXI, abalar os povos e os Executivos dos povos, tanto os Executivos nacionais, como os Executivos mundiais. O Dia Mundial da Paz, proposto pelo papa Bento XVI é mais do mesmo. É coisa morta, que já cheira mal. Só serve para desmobilizar as Igrejas locais, para as distrair do Essencial, retirá-las ainda mais da História. Neste particular, a própria mensagem do papa assinada por ele para esse dia, é um confrangedor vazio teológico. É um aborto teológico. Um nado morto. Um moralismo rançoso. A começar pelo título: "Família humana, comunidade de paz". Vê-se logo que o papa não vive neste nosso mundo. Nunca a família, concretamente, no modelo que ele descreve na sua mensagem, esteve tão em guerra, foi tão pouco exemplar, esteve tão em crise, foi tão pouco comunidade de paz. E nunca como hoje a Humanidade foi tão pouco família. Como se pode então falar de "família humana, comunidade de paz"?! A realidade contemporânea não é a negação deste enunciado? E que interesse há em falar de família, se nem Jesus se bateu por a defender, pelo contrário, fê-la implodir? Então não sabemos que Jesus nasceu numa família, pelo menos, teologicamente irregular, e não para a conservar como "sagrada família", mas para a fazer implodir? Não acabou escandalosamente sem família, para que o seu projecto político do Reinado de Deus pudesse progredir e desenvolver-se na História? Aliás, para que haja paz, a de Jesus, a única que brota do coito entre a Justiça e a Verdade, entre a Liberdade e a Sororidade/Fraternidade, a família de sangue não tem de implodir e, com ela, o egoísmo institucionalizado que ela é e alimenta? Nascemos numa família, mas não é para a fazermos implodir e, finalmente, podermos ser irmãs, irmãos universais? A fatalidade do nascimento que faz uns nascidos em berço de ouro e outros em estábulos de animais e outros em ambulâncias de bombeiros, uns ricos e outros pobres, uns-com-tudo, outros-sem-nada, não tem que ser vencida, destruída, superada, para nos reconhecermos todos irmãs, irmãos, com efectivo direito aos bens produzidos pelo trabalho, segundo a capacidade de cada qual? Pode haver paz na terra sem fazermos implodir todos estes mecanismos de opressão, estes esquemas ideológicos, estes modelos de família, esta segregação estrutural, esta fatalidade do nascimento biológico? Não somos mais do que o simples biológico? Não somos mais do que simples Natureza? Não somos essencialmente Consciência, seres-em-relação, seres-em-comunhão, irmãs-irmãos-uns-dos-outros? Não é então preciso romper com a família biológica para sermos universais? A Abraão, o da Bíblia, não foi exigido que deixasse a família, a casa dos pais, para ser homem-irmão-universal? Não exige Jesus a quem o queira seguir e prosseguir o seu Projecto político do Reinado de Deus que rompa com a família? A família biológica não é o egoísmo institiucionalizado? Não é ela que faz com que uns vivam em palácios e outros, mesmo ao lado, em barracos? Uns com mesas fartas e outros ao lado sem nada para comer? Não é isto intrinsecamente perverso? Universalizar isto pode conduzir à paz entre os seres humanos e entre os povos? Não é "isto" universalizado que está na origem de todas as guerras? O "Momento" mundial e eclesial está, pois, a pedir uma iniciativa outra que não esta que Bento XVI propõe. Esta que ele propõe é mais do mesmo. É sal sem força. Nem para a esterqueira serve. Em verdade, em verdade vos digo: Está aí a chegar o "Momento" das grandes Insurreições da História. Dos "Tsunamis" políticos dos povos. Mas dos povos desarmados. Dos "cordeiros", não dos "lobos". A Paz de Jesus vem/resulta destes levantamentos massivos e desarmados. Os povos empobrecidos e das periferias avançarão para os centros. Ocuparão os centros, as grandes cidades. Farão implodir a Ordem Mundial do Dinheiro, intrinsecamente perversa, mentirosa e assassina, assente na família estruturalmente egoísta e nos seus múltiplos sucedâneos, cada qual o mais egoísta e inumano. O papa, se fosse profeta, em lugar de Executivo eclesiástico todo-poderoso, mobilizaria os povos para este feito histórico que está já às portas. Assim, com esta sua iniciativa de calendário, o mais que ele consegue é atrasar este "Momento". Por isso, havemos de lhe resistir em Igreja. E estimularmos, como pudermos, os povos para as grandes Insurreições desarmadas que eles hão-de protagonizar, e das quais nascerá uma Nova Ordem Económica Mundial desarmada, tecida de paz, assente na Justiça e na Verdade, na Liberdade e na Sororidade/Fraternidade. Sem nenhuma pessoa e sem nenhum povo de fora da Mesa Comum. Todos incluídos. Todos iguais. Todos diferentes. Todos irmãs, irmãos. Preparemo-nos em Igreja e fora dela para este Momento mundial. Apressemos a sua chegada! Porque só essa paz de Jesus é também a paz dos povos. Será ela que fará implodir a falsa paz do Império, do Dinheiro e da Religião/Templo que sempre conhecemos desde o princípio da Humanidade, e que, se a deixarmos à solta, depois de nos matar a todos, ainda fará das próximas gerações, coisas, não pessoas! Robots, não povos!

 


 

2007 DEZEMBRO 25

 

Aquela Missa do Papa

cada noite de Natal

é memória de Jesus

ou da Roma imperial?!

 


 

2007 DEZEMBRO 22

 

Nestes últimos dias, têm-se multiplicado as mensagens de natal, inclusive da parte dos nossos bispos residenciais, dirigidas aos seus diocesanos, tal como certos empresários se dirigem aos seus empregados ou funcionários (não acham isto triste?!). O próprio papa Bento XVI é o primeiro a dar o exemplo, numa cerimónia solene - ocorreu ontem no Vaticano - de apresentação de cumprimentos e de boas-festas aos seus súbditos eclesiásticos, todos vestidos a rigor, nas suas batinas negras, com faixas vermelhas em redor da cinta e o solidéu vermelho na cabeça, um ridículo e um infantilismo de séculos, que, pelos vistos, não há na Igreja quem lhes ponha termo (será que estes eclesiásticos nunca se viram autocriticamente ao espelho?!). Nenhuma dessas mensagens, porém, vai directa ao assunto, ao essencial. Todas ficam pelo folclórico e pelo mítico. O mesmo irá suceder, certamente, com a generalidade dos comentários ou homilias das missas que os párocos celebrarão a triplicar, no dia de natal, depois de várias semanas ditas de advento, também elas cheias de banalidades e de mediocridades que não "mordem" nunca o Tempo, nem ajudam a mudar/transformar o curso da História. Decididamente, somos uma Igreja ainda por evangelizar, manifestamente infantil, metida nos templos, em redor de altares, nos antípodas de Jesus, o de Nazaré que viveu longe do Templo e metido na História até aos ossos. Uma Igreja que se invoca de Jesus, mas que não é, não tem a audácia de ser Jesus. O Paganismo religioso continua a ser a nossa casa, muito mais do que o Espírito Santo, o de Jesus. A Tradição que vem do princípio e que se fundamenta sobretudo nos quatro relatos canónicos chamados Evangelho de Mateus, Evangelho de Marcos, Evangelho de Lucas (este em dois volumes: o segundo volume é o conhecido Livro dos Actos) e Evangelho de João, vai directa ao assunto, ao essencial. Tal como esses relatos em que ela se fundamenta, relatos essencialmente teológicos, e da teologia de Jesus, do Deus de Jesus. Nós, ao contrário, Igreja do século XXI, embora não nos cansemos de oficialmente invocar a Tradição e até de a proclamar nas chamadas liturgias - aliás, os únicos contextos em que falamos explicitamente de Jesus, por sinal, mais de Cristo do que de Jesus, já que deste parece que temos vergonha, senão mesmo medo de falar, e, ainda assim, sempre um falar por falar, sem a força, a convicção e a graça do Espírito Santo - não há maneira de regressarmos à fonte. Melhor, de sermos fonte, neste nosso século XXI. Parece que nem vemos que, no decurso dos séculos, à medida que nos afastámos da fonte, acabámos finalmente numa Igreja cheia de tradições sem Tradição e de praticas, todas elas herdadas dos diversos Paganismos e das suas múltiplas religiões. A propósito: sabiam que todas as religiões são pagãs, criação nossa, humana, não de Deus Vivo, que até nem gosta de nenhuma e o que mais quer é que nós O deixemos ser-viver connosco, ser-Deus-connosco-e-em-nós, mais íntimo a nós do que nós próprios, de modo que nos possamos assumir na Sociedade e na História como se Ele não existisse? Aliás, não foi assim Jesus, o Homem em quem Deus Vivo, pela primeira e única vez na História, conseguiu ser integralmente Deus-com-ele, mais íntimo a ele do que ele próprio, ao ponto dele poder dizer (quem mais se atreve?!): "Quem me vê, vê o Pai"? É claro que não se trata de vermos o rosto físico de Jesus, de fixarmos a sua face, possibilidade limitada àquele curto espaço de tempo e àquele quase desconhecido território que foram historicamente os dele. Trata-se de vê-lo/conhecê-lo/praticá-lo, e à sua Teologia não idolátrica. Trata-se de assumirmos, no século XXI, as mesmas causas dele que são as do Pai, o Deus Vivo. Trata-se de sermos outros ele e, como ele, vivermos na História como se Deus não existisse. Ora, esta secularidade ou jeito de ser e de viver sem religião, sem Paganismo religioso, é intrinsecamente jesuânica, vem directamente de Deus Vivo. Porque esse é também o jeito de ser-viver de Deus, o de Jesus. Por isso é que os das religiões, todas elas criação humana, idolátricas, não descansaram enquanto não mataram Jesus e, nele, o Pai-Deus-Vivo, o não-ídolo, o não feito/não criado por nenhum homem, nenhuma mulher, nenhum povo, que Jesus fez, faz visível no mundo. Ir directo ao assunto, ao essencial, no que diz respeito a Jesus, não é, não pode ser quedarmo-nos infantilmente no natal, uma festa do Paganismo religioso que já existia muito antes de Jesus ter nascido em Nazaré. A referência Belém, como local de nascimento de Jesus, é puramente teológica, não histórica; e pretende ligar Jesus à casa de David, ao reino de David, uma visão messiânica que Jesus adulto sempre recusou como demoníaca, mas que certa corrente eclesial do princípio, de origem judaica, como a que chegou a ser liderada por Tiago, irmão de Jesus e demais família, quis fazer prevalecer, sobretudo depois da morte crucificada/Ressurreição dele. Só que Jesus, o de Nazaré, nunca foi por aí. Nem quis que nós alguma vez o víssemos nessa dimensão. A via do Poder, do messianismo do Poder, nunca é via de libertação/salvação dos seres humanos. É sempre a perdição dos seres humanos. Quanto mais divinizados, mais desumanizados, mais fratricidas, mais Caim. Não é o Homem que tem de se fazer Deus. Essa é a tese teológica de todos os Paganismos e das suas religiões. É Deus que se faz Homem, e Homem-para-os-demais. Esta é a tese teológica de Jesus, o de Nazaré. Os Paganismos e as suas múltiplas religiões, todas Mentira e Perversão, obra da mão dos homens, quer os Ninguém-oprimidos-e-em-aflição, quer os Senhores-que-os-oprimem-e-afligem, é que vão pela via do Poder que diviniza/idolatra os que o servem, enquanto humilha todos os demais. Porque o Deus dos Paganismos e das suas múltiplas religiões é sempre um ídolo, não desses (quase inofensivos) ídolos de madeira ou de barro, de prata ou de ouro, como as imagens de todo o tipo que as pessoas compram nas sucessivas feiras das religiões e que depois usam como amuletos, coisa mais imbecil, mas sim o ídolo que se veste de Ideologia que é também Ideolatria, em nome da qual o Intolerável passa a ser não só tolerável, mas até exemplar e abençoado por Deus, o ídolo. Ir directo ao assunto, ao essencial, também nestes dias, é deixarmos, como Jesus deixou, Deus Vivo, o não-ídolo, ser Deus-em-nós-e-connosco, mais íntimo a nós do que nós próprios, para que, assim, tornados mulheres/homens adultos, em estado de maioridade, vivamos a audácia e a alegria de assumir o Mundo e a História como se Ele não existisse. No máximo da Secularidade, que é também o máximo da maiêutica prática política sororal/fraterna contra o Poder, e pela plena e integral soberania das pessoas e dos Povos. Porque o Poder, divinizado/idolatrado-e-deixado-à-solta, infantiliza, aliena, oprime, explora, exclui e mata as pessoas e os povos. Exactamente, o contrário de Jesus - e de quem o segue e prossegue as suas mesmas Causas - que sempre vive para nos fazer viver e viver em abundância e em comunhão universal/global.

 


 

2007 DEZEMBRO 21

 

"O que é que Jesus Cristo hoje denunciaria?" A pergunta, oportuníssima, foi colocada pelo Semanário a oito "dignatários da Igreja Portuguesa" (nota negativa para a designação "dignatários" que a publicação que sai às sextas-feiras dá às oito pessoas ouvidas; e outra nota ainda mais negativa, por só ouvir homens e, destes, nenhum leigo/leiga). São estas as pessoas interpeladas/ouvidas: Os bispos Carlos Azevedo, Januário Torgal Ferreira, Manuel Clemente, e os padres Frei Bento Domingues, Feytor Pinto, Carreira das Neves, Peter Stlwell, Vaz Pinto. Acabo de ler, agora mesmo, as respostas de cada um deles, que vêm publicadas na edição de hoje, todas obrigatoriamente curtas (deve ter-lhes sido exigido que não passassem de uns quantos caracteres) e concluo que, mesmo estas pessoas da Igreja, todas de grande referência na opinião pública portuguesa (por isso terão sido escolhidas) ainda estão muito pouco por dentro do essencial de Jesus, o de Nazaré, ainda são pessoas muito pouco evangelizadas. Todos estes homens da Igreja católica vêem Jesus como uma boa pessoa, quase a roçar pelo ingénuo, um bem-intencionado sem grandes Causas, uma espécie de Madre Teresa de Calcutá da época em masculino, um cidadão judeu muito bem comportado, o que hoje se diz, politicamente correcto. Não vou deter-me a reflectir teologicamente sobre o conteúdo de cada uma das respostas. Seria demasiado extenso. Fixo-me apenas na do Bispo Manuel Clemente, agora bispo titular e residencial da Igreja do Porto e num único ponto da sua resposta que, de certa maneira, está subjacente às respostas de todos os outros, ou todos não tivessem, por base, a mesma catequese, desde a infância, uma catequese infantil, portanto. O Bispo Manuel Clemente chega a invocar o teológico diálogo que o Evangelho de João constrói entre Pilatos e Jesus (aborda-o como se fosse um relato jornalístico!), já preso no Pretório ou Tribunal, para afirmar que "Jesus respeita a autoridade política e até a fundamenta". Imagine-se! Só lhe faltou dizer que, se calhar, foi por isso que ele foi preso, sumariamente julgado, condenado à morte e executado na cruz do Império romano como o maldito!!! Simplesmente intolerável, para mais, vindo de um Bispo em pleno exercício do seu ministério episcopal/eclesial. Em defesa da sua afirmação, o Bispo Manuel Clemente lá invoca as conhecidas palavras de Jesus, na traiçoeira tradução ("tradutore/traditore") que o Novo Testamento faz do original grego: "Nenhum poder terias sobre mim, se não te fosse dado do alto". Parece ignorar o Bispo, e com ele, praticamente todos os que detêm poder na Igreja, que lá, na tradução, onde está "poder", deveria estar "liberdade/responsabilidade de decidir". Porque Poder de alguém sobre alguém é sempre Opressão, é Tirania, é Ditadura. Pelo menos, é a génese de todas essas aberrações que desfiguram os seres humanos que se deixem ir por aí. O Poder - não confundir com a Política - é sempre demoníaco. A grande Tentação dos seres humanos, sobretudo dos constituídos em autoridade/poder, logo a seguir à Tentação número um que é a Riqueza Acumulada/Concentrada, hoje, o Senhor/Deus Dinheiro. Ora, o que Jesus é posto a dizer a Pilatos, neste seu duelo teológico com ele, é exactamente o contrário do que diz o Bispo Manuel Clemente. E pode, até, ter contribuído decisivamente para a sua condenação/execução por Pilatos, que, como todo o Poder institucionalizado, não perdoa que ponham em causa a sua legitimidade e reage de imediato com arrogância, sobranceria e crueldade (olhem, hoje, para o nosso Cavaco e o nosso Sócrates, os dois Pilatos em miniatura que temos de suportar e sustentar nos seus luxos e nos seus passeios pelo país e pelo estrangeiro). Jesus, olhos nos olhos, tira a Pilatos - ao Império romano que ele representa - o tapete ideológico/teológico em que ele se apoiava para tiranizar impunemente e sem remorsos os povos, seus súbditos, seus vassalos, seus contribuintes à força. Ao mesmo tempo que remete o homem Pilatos para o reduto da sua consciência pessoal e para o centro mais íntimo da sua decisão pessoal, a liberdade/responsabilidade, pessoal e intransmissível, de decidir. Era aí, nesse âmbito humano, que tudo se tinha de decidir. Não no âmbito do Poder, sempre demoníaco, sempre perverso, e ainda mais perverso, quando se pretende justificar e aos seus actos/crimes com o Nome de Deus. Jesus não reconheceu o Poder que Pilatos reclamava. Negou-o radicalmente. O que quis - e essa capacidade é que vem de Deus Vivo - foi que Pilatos-Poder tivesse a humildade e a audácia de ser simplesmente homem, ser humano, nunca mais Poder, nunca mais Império. E que decidisse como homem, como ser humano livre e responsável, não como Poder/Império, porque como Poder/Império, o ser humano é sempre um monstro! E monstro foi o que Pilatos foi, ao decidir sobre Jesus, como decidiu. E, com Pilatos, também foram monstros os sumos sacerdotes do Templo e os anciãos, os fariseus e os doutores da Lei/teólogos da época. Todos à uma se colocaram, para decidir sobre Jesus, no âmbito do Poder, quando deveriam ter-se colocado todos à uma com Jesus, o Homem, o Ser Humano por antonomásia, contra o Poder, fonte de privilégios e de discriminação, por isso, intrinsecamente demoníaco e perverso, que tem de ser derrubado, destruído, não acatado/obedecido ("Derrubou os poderosos dos seus tronos", canta o poema teológico de Lucas, logo no início do seu Evangelho, como grande acção política atribuída ao próprio Deus!). Por aqui se vê - e este é, sem dúvida, o grande mérito desta iniciativa do Semanário - que nem os nossos bispos residenciais estão suficientemente evangelizados, nem os nossos teólogos da Universidade católica, nem os nossos párocos. Com lágrimas o digo, vê-se que ainda não foram tocados pelo Espírito/Sopro de Deus, o de Jesus. Estão todos, uns mais outros menos, tocados por outro espírito/sopro, o do Poder (o braço direito do deus-Dinheiro) e o da Religião/Templo (o braço esquerdo do mesmo deus-Dinheiro), em cujo âmbito, de resto, são os respectivos "pontífices" ou Executivos, sem sequer se darem conta de que, com isso, são também perversos e monstros, não seres humanos simplesmente, irmãos universais, em tudo iguais aos demais seres humanos, sem tirar nem pôr. Por mim, já suspeitava, para não dizer, já tinha a certeza de que as coisas ainda estão neste pé, na Igreja católica romana e nas outras Igrejas irmãs. Jesus, o de Nazaré, continua a ser ainda hoje - e por quantas gerações mais o será?! - o grande desconhecido, inclusive e sobretudo dos que se confessam cristãos, elas e eles. Na verdade, o que os que se confessam cristãos conhecem - reparem que escrevi "O que", portanto, coisa, não pessoa viva, e não escrevi "Quem", portanto, pessoa viva e activa - é um tal Cristo, figura mítica das religiões politeístas primitivas, um mítico messias bíblico e não-bíblico, que, segundo a lenda, melhor, a Mentira institucionalizada, haveria de vir safar-a-gente-sem-a-gente-e-em-vez-da-gente, por isso, fonte de preguiça-que-mata-o-criador-que-todos-os-seres-humanos-havemos-de-ser, mesmo os menos dotados à partida, e fonte descriadora dos seres humanos, em vez de fonte potenciadora, desde dentro, de seres humanos intrinsecamente políticos, audazes criadores de Presente e de Futuro à medida de todos, na dignidade e na abundância, na liberdade e na paz, tudo muito bem fundamentado na Sororidade/Fraternidade Universal das pessoas e dos povos, nunca no Dinheiro, nem no Poder, nem na Religião e respectivas Ideologias/Idolatrias. É o que eu mais tenho dito e repetido e ainda ontem escrevi num mail que enviei a alguém que me lembrava que são muitos os milhões de seres humanos que têm Fé, também fora de Jesus, mas Fé, um facto que, segundo esse alguém, eu parecia ignorar. Escrevi-lhe o que já tenho dito e redito: Não basta sermos pessoas de Fé. Disso, há até demais no Planeta! São precisas pessoas que pratiquem a mesma Fé de Jesus até às últimas consequências. Ora, mesmo os que se invocam de cristãos, católicos e não-católicos, não é por aí que geralmente vão. Preferem ter Fé em Jesus, em vez de praticarem a mesma Fé de Jesus, o de Nazaré. E isso faz toda a diferença. Porque só quem pratica a mesma Fé de Jesus acaba homem/mulher como ele, outro Jesus, hoje e aqui, habilitado a fazer as mesmas obras que ele fez no seu tempo e no seu país, e até maiores que essas, segundo ele próprio garante no Evangelho de João, sem dúvida o Evangelho canónico mais teológico e, ao mesmo tempo, mais histórico, o que melhor nos revela Jesus, o de Nazaré e o do Espírito de Deus Vivo, esse mesmo que tirou o tapete teológico/ideológico a todo o Perverso institucionalizado, e que resgatou o Nome de Deus de todo o Perverso institucionalizado, ao qual sempre esteve ligado desde o princípio da Humnanidade, para finalmente O apresentar a todos os Povos, como o incondicional Aliado dos seres humanos e dos povos, de todos os seres humanos e de todos os povos, a partir dos últimos e dos Ninguém, sem discriminações de nenhuma espécie. O problema é que, semelhante Revelação (revelar quer dizer tirar o véu que cobre/esconde algo ou alguém) e semelhante Boa Notícia de Jesus, que o é para todos os povos oprimidos e empobrecidos, excluídos e excomungados, amaldiçoados e escravizados pelo Perverso institucionalizado que sempre cometeu e comete todos os seus crimes de lesa-Humanidade em Nome de Deus (ou da Lei, ou da Ordem, ou do Estado, tudo obras dele, mas apresentadas como sagradas e intocáveis), nem sequer as vítimas creram, crêem nelas. E a verdade é que, manobradas pelas minorias dos Privilégios que dão corpo ao Perverso institucionalizado - a Ordem Mundial fundada no Dinheiro, no Poder e no Templo/Religião, não na Sororidade/Fraternidade dos seres humanos e dos Povos - quando chamadas por elas a pronunciar-se, concretamente no caso de Jesus, que foi também o momento da sua Morte/Ressurreição/Glorificação, juntaram os seus clamores aos das minorias dos Privilégios e exigiram a sua morte na cruz do Império. Só que essa Morte - o crime dos crimes, a abominação das abominações - foi também o Momento mais alto da Revelação de Deus, em Jesus: Ficou a nu, duma vez por todas, o Perverso institucionalizado que é a Ordem Mundial, fundada no Dinheiro, no Poder e no Templo/Religião, em vez de na Sororidade/Fraternidade Universal dos seres humanos e dos povos. E por mais que ela se faça passar por boa e verdadeira, é intrinsecamente perversa, mentirosa e assassina. Matou Jesus, a Vida-em-Acção, a Verdade-que-nos-faz-livres-em-Acção, o Caminho-de-salvação-humanização-em-Acção. E continua a matá-lo, lá onde ele hoje aparecer vestido de Dissidência, de Heresia, de Heterodoxia, de Insurreição, de Insubordinação, de Desobediência, de Subversão, de Conspiração, de Combate-libertador-e-desarmado, de Ateísmo-antiidolátrico. É esta denúncia de fundo, estrutural, este desmascaramento, que Jesus, o de Nazaré fez e o do Século XXI também tem de continuar a fazer hoje. Se, é claro, tiver mulheres/homens que pratiquem a mesma Fé dele, a qual fará delas, deles outros Jesus, agora ao jeito e com a linguagem do Século XXI. Infelizmente, nenhum dos oito católicos interpelados/ouvidos - outra nota negativa desta oportuníssima iniciativa é que não foi ouvido ninguém das Igrejas irmãs da católica, só mesmo católicos - foi por aqui. Todos ficaram no folclore, na rama, no óbvio, nos-lugares-comuns, no politicamente correcto sobre Jesus. Tivessem ido por aqui e, provavelmente, a sua contribuição seria censurada, ou, se fosse publicada e tomada a sério, nunca mais eles teriam paz, a dos poderosos, sempre perversa, só a Paz de Jesus que os poderosos não conhecem e não podem dar. Mas, para se chegar a ver tão longe e tão fundo como Jesus, é preciso, primeiro, ser Jesus Crucificado/Ressuscitado. Porque quem de alguma maneira faz parte do Perverso institucionalizado - o Dinheiro, o Poder/Império e o Templo/Religião, todos os três como um só e sempre de acordo entre si na defesa e na manutenção dos seus interesses e lugares - esse mesmo que Jesus, o de Nazaré, denunciou/desmascarou até à entrega/perda da própria vida (sem dúvida, a Revelação maior e mais fecunda da nossa História passada, presente e futura), nunca chegará a poder ver a Luz, viverá sempre na Treva. Mas se a vir - e quem me dera que todas, todos nós a vejamos, a começar por mim - logo desistirá dos Privilégios que o Perverso institucionalizado lhe garante, e passa ser, lá onde estiver, mulher/homem simplesmente, irmã/irmão universal de todos os demais e até da Natureza. Para escândalo dos seus concidadãos e familiares, elas e eles. E também não se livrará de ser tratado por louco, como Jesus foi. Eis.

 


 

2007 DEZEMBRO 20

 

De 14, ficaram 4. Os outros dez pouco mais terão sido do que figurantes no filme que a PJ e as outras Polícias chamadas a colaborar na Operação "Noite Branca" do Porto, realizaram, à pressa e de forma atabalhoada, dias atrás, com uma preciosa mãozinha da SIC, à qual, depois, se colaram todos os outros canais de televisão, para não perderem audiências, nem, sobretudo, a confiança do Grande Capital que manda no país e no mundo. Já previ que assim seria. E assim foi. Para descrédito deste Estado de coisas que é a administração/governação do país, com o Sócrates num dos comandos, o Cavaco noutro dos comandos, o Jaime noutro dos comandos, como se fossem os três uma orquestra bem (des)afinada. A Tropa também está no seu lugar, mais discreta, mas armada e pronta a deixar a rotina dos quartéis, sempre que os diversos comandos em uníssono a chamaram a intervir. Os Tribunais e o banqueiro-mor do país também cumprem o que lhes está determinado. E nem as Escolas e as Universidades defraudam o chamado "interesse nacional", resmunga aqui, resmunga acolá, mas a verdade é que a respectiva ministra e o respectivo ministro lá seguem com as suas atoardas e a sua falta de valores. E, é claro, os deputados da nação, os da maioria e os da Oposição (?) fazem o resto. Uns aplaudem, a maioria, outros criticam, a minoria, mas todos ajudam o Grande Capital a levar a água ao seu moinho. E outra não é a operação que o Grande Capital persistentemente realiza no seu moinho: a Descriação/Descaracterização dos seres humanos e dos povos. Aqui, em Portugal, como nos outros países da Europa e nos demais países do mundo. Não! Não somos um país. Nem uma Europa. Nem um Mundo. Somos um gang mundial com muitos gangs nacionais. Onde o mais chico-esperto é o rei. Foi sempre assim, desde o princípio. E no que a Portugal diz respeito, foi sempre assim desde a fundação da nacionalidade. Não foi o que nos ensinaram, logo nos bancos da Escola Primária e nas senhoras mestras de catequese das freguesias-paróquias, dominadas pelo Regedor, pelo pároco e pelo professor? Bem me lembro do meu querido Professor Paiva (para nós, crianças assustadas e mal alimentadas, mais parecia um deus!), que nos moldou a mente, desde a primeira classe à quarta classe. Com uma dedicação/devoção ao Regime, então de Salazar, macabramente exemplar. Começava o dia às 9 horas em ponto e só acabava já depois das 17 horas. E tempos de recreio, quase nenhuns. Aliás, nem espaço físico suficiente havia para isso. Foi lá que aprendi, bem papagueado, que o primeiro rei de Portugal foi D. Afonso Henriques, cognominado "O Conquistador". O que, traduzido em miúdos e em português corrente de adulto um pouco ilustrado, quer simplesmente dizer: o mais chico-esperto da altura. O que atropelou todos os outros, para poder chegar onde chegou. Nem os mouros que viviam em grande parte do território, com uma cultura bem mais avançada, mas com armas menos sofisticadas, escaparam. Ou foram mortos. Ou renderam-se e fizeram-se católicos à pressa e à força. Ou fugiram. Ou aceitaram ser expulsos. E tudo, em nome da Nação! Da nacionalidade. Da independência. Da soberania. Da paz. Depressa, o Conquistador ficou sem rivais, sempre chatos, sempre incómodos. Só com súbditos, que também os há em abundância, quando dá para perceber que aquele é agora o rei e, nesse pedestal, pode, de um momento para o outro, mandar prender, expropriar, matar, exilar quem não colabora e não lhe presta vassalagem. Aliás, já foi assim que David, o da Bíblia, apresentado por alguns, como o antepassado de escol de Jesus ("Hossana, hossana, ó Filho de David!"), embora o próprio Jesus, o de Nazaré, tenha recusado liminarmente seguir-lhe as pisadas, conseguiu fundar a sua dinastia. Foi o mais chico-esperto de entre os vários que então se movimentavam no terreno. Decapitou uns, domesticou outros. E, aos menos perigosos, até os tinha a comer com ele à sua mesa, num gesto de aparente deferência, mas que resultava em pura domesticação, puro controlo. Mas alegremo-nos. E festejemos. Depois do "êxito" que foi a Operação "Noite Branca", o Porto é agora uma cidade segura. O Rio, não o Douro, mas o Rui-presidente-da-câmara-do-Porto, já pode dormir descansado. Os bandidos foram apanhados. Estão na cadeia. Eram 14, agora são apenas 4. E, pelo andar da carruagem, se calhar o número ainda vai ser reduzido apenas a um. É verdade que, no meio de tudo isto tão bem concertado - e esse é um senão perturbador - houve alguém, uma mulher, certamente - só pode ter sido uma mulher, com inteligência e sensibilidade - que estragou a Operação "Noite Branca" e mandou 10 dos 14 para casa. Com pedido de desculpas pelo incómodo. "De nada", devem ter dito os visados, "até gostamos de ter entrado neste filme. Se ele serviu para trazer a paz e a segurança ao nosso Porto, carago, não tem nada que nos pedir desculpa. Foi um prazer. Missão patriótica. Estamos profundamente gratos por se terem lembrado de nós, por nos terem dado esse destaque, por nos distinguirem entre tantas centenas de milhar de portuenses, graúdos e miúdos..." Por via disso, agora, a guerra será outra. É entre Polícias e polícias. Porque ninguém quer perder a face. Nem o lugar de comando. A família, lá em casa, já conta com aquele "mais" no vencimento, ao final de cada mês. Já perceberam, com certeza, que hoje acordei com veia de humor. Mais sarcasmo, que humor. Sem dúvida, a melhor maneira de abordar o país que (não) somos. O gang que somos. Com muitos candidatos a rei, a usar galões, a mandar, a ter vencimentos chorudos, a deixar-se subornar e corromper, a estar no topo da pirâmide. Faltam homens, faltam mulheres que percebam que a causa do mal é estrutural. Não se trata de chegar ao topo da pirâmide. A luta não é pelo Poder. A nossa salvação/realização como seres humanos, passa pelo desmantelamento da pirâmide. Não por apoderar-se dela e por conquistar dentro dela os postos mais cobiçados, de mais prestígio, de mais rendimento financeiro. É a pirâmide que nos mata, nos faz ser bestas, em vez de humanos, irmãs, irmãos. Homem, mulher a valer, não é nunca o que sobe. É o que sempre desce. Não é o que defende a pirâmide, mesmo com risco da própria vida. É o que derruba a pirâmide e a destrói, mesmo com risco da própria vida. Enquanto existir a pirâmide e gente a defendê-la e a servi-la, servindo-se dela para subir e ser rei, não há sororidade/fraternidade nacional, europeia e universal. Não há salvação. Não há seres humanos. Nem Povos. Só a Sororidade/Fraternidade praticada salvará o Mundo, porque nos faz humanos, iguais e diferentes, numa complementaridade cada vez mais activa e fecunda. O Grande Capital no seu moinho, hoje global, actua em sentido oposto ao da Sororidade/Fraternidade. É intrinsecamente Perverso e Descriador. E não só. Também é assassino. Genocida. Ecocida. Já o disse/escrevi, vezes sem conta. Mas nunca é demais repetir. Porque, ou mudamos de ser e de rumo, ou perdemo-nos. Tornamo-nos um Mundo de gangs, governados por imbecis, os mais chico-espertos da praça, mentirosos que se fartam (o caso do nosso Sócrates e dos seus ministros e dos seus deputados-vassalos, no parlamento de Lisboa e de Bruxelas, é vergonhosamente e penosamente paradigmático), sem um pingo de capacidade para o Sonho, para a Utopia, para ouvir o Clamor dos Pobres e dos Povos, o mesmo é dizer, sem um pingo de capacidade para transformar a vida e o mundo. Porque os gangs que nos dominam (governam?!) são apenas peritos em desumanização, em descriação, em banalização, em estupidificação. E nós, os povos, suas vítimas, de geração em geração, o que fazemos? Continuamos, como os que nos precederam, a confiar nesse gangs? Continuamos a votar neles? A aplaudi-los, ou a apupá-los? (sim, saibam que os aplausos e os apupos vão dar ao mesmo!). Ou, pelo contrário, vamos nascer de novo, do Alto, de outro Sopro que não o que concebeu e pariu os gangs que sempre têm dominado e continuam a dominar os países e o mundo? Podem achar estranho o que vou escrever, mas em verdade, em verdade vos digo: Só o Sopro ou Espírito que fecundou e deu à luz Jesus, o de Nazaré, é que é infinitamente fecundo para nos fazer/manter simplesmente humanos, irmãs e irmãos. É deste Espírito outro, o de Jesus - esqueçam as Igrejas e as religiões, com as suas mentiras e as suas catequeses sacralizadoras da pirâmide e dos gangs que nos dominam, sob a forma de governo das nações e de hierarquias eclesiásticas - que temos todos, pessoas e povos, de nascer. Ele, só Ele, é o nosso Futuro. Saibam que Ele não nos faz beatos, nem religiosos. Faz-nos simplesmente humanos e sororais/fraternos, por isso, políticos, à escala nacional e global. Faz-nos outros Jesus, o de Nazaré, não o das Igrejas! Oiçam, a este propósito, o que o próprio Jesus - o anti-rei, o anti-gang, por isso, o Homem por antonomásia - nos diz: "Os reis das nações imperam sobre elas e os que nelas exercem a autoridade são chamados benfeitores. Convosco, não deve ser assim: o que for maior entre vós seja como o menor, e aquele que mandar, como aquele que serve (...) Eu estou no meio de vós como aquele que serve" (Lucas 22, 25-27). Foi por isso que os gangs, que não podem existir sem a pirâmide, o mataram. Mas a Verdade que nos faz livres é ele, o Crucificado/Ressuscitado. Não os gangs, por mais poderosos e ricos que sejam! Pensem um pouco nisto. E decidam-se. É hora. Ou mudamos de ser, de Espírito e, assim mudados, mudamos o Mundo e somos salvos, isto é, tornamo-nos humanos e sororais/fraternos, ou o Mundo-feito-gang-à-solta e os gangs que o dominam e controlam, não deixarão pedra sobre pedra. A decisão é nossa. Só nossa. Nunca digam que é de Deus. Seria uma infantilidade, indigna de todas, todos nós.

 


 

2007 DEZEMBRO 19

 

Inesperadamente, 23 Africanos, provenientes de Marrocos, deram esta semana à costa portuguesa, numa pequena ilha de Olhão, Algarve. Deveriam ser acolhidos/recebidos em festa e rodeados de muita ternura. Como heróis. Venceram a distância através do mar, nem sempre ameno, muitas vezes, revolto. Numa embarcação desajeitada, pequena de mais para tantos que eles eram, todos jovens, entre os quais uma linda adolescente de 15 anos. Foi uma aventura, a fazer lembrar a dos portugueses de antanho, quando "descobriram" (?) a África, a Índia e o Brasil. Apresentaram-se cheios de fome. De sede. Gritantemente desidratados. Desarmados. Até assustados. E com ar de perdidos. A necessitar de cuidados médicos imediatos e de alimentos. Eram Africanos. Cidadãos africanos. Seres humanos. Em tudo iguais a nós, excepto na cor da pele e na língua, diferenças que tornam ainda mais bela a Humanidade que todas, todos somos, os Povos que todos somos. Alertadas, nem eu quero saber por quem, as autoridades do lugar apareceram em poucos minutos. Prontas para algemar/prender o grupo dos jovens Africanos a cair de fome. Desidratados. Assustados. Sobreviventes, nem eles sabem como o conseguiram. E assim se fez. Para nossa vergonha. Dias antes, em Lisboa, com toda a pompa e circunstância, o Governo português, com o nosso Pinóquio primeiro-ministro e ainda presidente em exercício da União Europeia, acolheu/recebeu um conjunto bem maior de Africanos, de todos os países de África. Todos tiveram, à chegada ao aeroporto, honras e tratamento de chefes de Estado e de Governo. Vip's. Porque, Diplomacia obriga. Melhor, Hipocrisia política - que outra coisa é a Diplomacia, mesmo a do Estado do Vaticano?! - obriga. Muitos deles (ou todos?) ditadores, assassinos, genocidas dos seus próprios Povos. Todos foram recebidos/acolhidos como chefes de Estado e de Governo. Nenhum deles foi algemado e preso à chegada, nem depois, enquanto permaneceram no nosso país. Pelo contrário, andaram de banquete em banquete, tudo pago pelo Estado português, mais de dez milhões de euros! A Polícia portuguesa, armada até aos dentes, estava presente em peso, à chegada. E depois, enquanto eles permaneceram no nosso país. Mas apenas para os proteger, não fosse a cólera popular - terroristas ou malcriados, dizem os Executivos - manifestar-se e apontar-lhes na cara e aos gritos os crimes de lesa-Humanidade, de lesa-Povos, por que eles são responsáveis. Acham que assim, com comportamentos assim, tão desiguais e tão inumanos, vamos a algum lado? Acham que é deste modo, com Executivos que se comportam assim, que avançamos para um mundo de Povos, uma só Humanidade de Povos, todos iguais, todos diferentes, todos companheiros, todos irmãos? A Cimeira União Europeia-África, realizada dias atrás, pode ter concluído com grandes tratados, importantes acordos assinados por todos os chefes de Estado e de Governo. Todos foram rasgados, desfeitos esta semana nas águas do Mar da ilha Culatra, em Olhão, Algarve, com o que fizeram aos 23 Africanos que inesperadamente deram àquela costa portuguesa/europeia. E porquê? Porque, naquele momento e neste acontecimento não-agendado, ficou claro como água límpida, que a Europa e a África não são, nunca serão os respectivos Executivos, nem os de hoje, nem os de amanhã. A Europa e a África são apenas os Povos. Sem os Povos, não há África nem Europa. A União Europeia, de que alguns politicamente ingénuos tanto se orgulham é dos Executivos dos 27 países que a ela aderiram. Não é a União Europeia dos Povos Europeus. Se fosse, seria de todos os Povos Europeus-em-comunhão-com-os-demais-Povos-do-Mundo, não apenas de 27 países. Porque os Povos do Mundo são potencialmente irmãos. Só o Inimigo dos Povos é que faz com que eles se tornem fratricidas, Caim e Abel em duelo, que nem o chega a ser, porque o atacado Abel é simplesmente vítima, não ataca nem se defende. É sumariamente assassinado por Caim, quando poderia e deveria ser abraço e beijado por ele, acolhido na sua diferença. Mas isto que Caim faz contra o Abel é obra do Inimigo dos Povos e da Humanidade, Inimigo todo-poderoso, perverso, mentiroso, assassino. Disfarçado de deus, de divino. No mito das origens, do livro bíblico do Génesis, vestiu a forma de Serpente-que-fala-e-seduz, a deusa da fecundidade dos Cananeus que os Hebreus foram encontrar no terreno que conquistaram, graças, já então, à superioridade da sua estratégia militar. O que, naquele Mito de origem, a mítica deusa-Serpente diz à Mulher e leva a Mulher a dizer ao Homem, portanto, à Humanidade no seu todo neles representada, é mentira. E o que pretende com essa mentira não é que eles, como seres humanos que são, como Povos que são, vivam e vivam em abundância, na sororidade/fraternidade cada vez mais universal. O que ela pretende, como mítica deusa, como ídolo, é matá-los, roubá-los, destruí-los como Povos iguais e diferentes. Para poder ficar a reinar sobre eles, enquanto Povos mortos-vivos, submissos, vassalos, feitos-lesmas, sem pensamento próprio, sem autonomia, sem Poesia, sem Utopia, sem Liberdade, sem Afectos. Apenas sexos prostituídos, violência, ódios, pragmatismo, rotinas, banalidades, ritos religiosos presididos por sacerdotes de mentira, cultos-em-série-fruto-do-medo-e-alimentadores-do-medo, súbditos alienados e pagantes dos Executivos. Os 23 Africanos que deram à costa algarvia deveriam ter sido acolhidos/recebidos em festa e rodeados de muita ternura. Em vez disso, foram algemados e presos. E, depois de ouvidos pelo Juiz, não pelos seus irmãos/irmãs Portugueses da Ilha de Culatra e de Olhão, aonde haviam acabado de chegar, como sobreviventes de uma incrível e heróica aventura em busca de Pão, de Justiça, de Bem-Estar, de Trabalho remunerado, de Paz, foram recambiados de autocarro, noite já adiantada, como bichos, para o Porto, onde há um Centro construído para receber quem, como estes Africanos de Marrocos, ousar entrar indocumentado o nosso país europeu e civilizado. Por ali ficarão, como estrangeiros/prisioneiros deste tipo, até que o processo judicial chegue ao seu termo. O resultado final, mais do que previsível, é que, depois de cumpridas todas as formalidades legais - vêem o eufemismo dos Executivos e a sua hipocrisia, que invocam leis que eles próprios criaram e aprovaram para defenderem os seus interesses e os interesses do Dinheiro que manda neles, para, desse modo "legal", se dispensarem da prática da sororidade/fraternidade para com os outros Povos?! - todos estes jovens Africanos serão recambiados para Marrocos, de onde vieram em busca de Pão e de Dignidade. Têm de aprender, eles e todos os outros Povos não Europeus, que Portugal e a Europa são para os Portugueses e para os Europeus, não para os Africanos ou Asiáticos, a não ser aqueles que nos der jeito contratar e apenas enquanto nos der jeito, porque depois, rua com eles! Pode ter futuro uma Europa assim? Um Portugal assim? Um Mundo assim? A minha esperança, viva esperança, reside nos Povos. Não nos Executivos. Estes só existem para servir/proteger/defender/zelar pelos interesses do Inimigo da Humanidade e dos Povos. São mentirosos e assassinos como ele. Recorrem a eufemismos, como por exemplo, lei, estado de direito, autoridades legitimamente constituídas, tribunais, democracia, direitos humanos, respeito pelos acordos internacionais. Tudo hipocrisia. Tudo mentira. Tudo folclore. Basta que, inopinadamente, chegue à costa marítima de um deles, ou à fronteira terrestre, ou ao aeroporto, um pequeno grupo de 23 Africanos ou Asiáticos, à procura de viver mais e melhor, mediante trabalho remunerado, para toda essa mentira oficial e institucionalizada ser desmascarada e cair como um baralho de cartas. Foi assim com estes jovens Africanos, provenientes de Marrocos. Mas não nos deixemos desfalecer, porque os Executivos não são eternos. A minha esperança - a nossa esperança - reside, há-de residir, nos Povos do Mundo. E a minha esperança não é uma esperança qualquer. É Esperança Teológica, aquela que rebenta no coração de Deus Vivo, o de Jesus, criador de Povos iguais e diferentes, e que rebenta também no mais íntimo dos Povos, nomeadamente naqueles Povos com fome e sede de Justiça, de Dignidade, de Pão, de Sororidade/Fraternidade. Esta Esperança com fundamento inamovível é que mudará o Mundo. Porque é criadora. E lá, onde estiver actuante, faz-se Política, não Poder. Faz-se Acção Política, não Terrorismo de Estado. Gera Povos inconformados, insubmissos, audazes, desobedientes ao Inimigo, militantes de Causas, fraternos, solidários, unidos. São Povos assim que derrubarão os Executivos que nos humilham a todos e nos maltratam, exploram e desprezam, tratam como descartáveis. E, depois de derrubarem os Executivos, estes Povos também decapitarão o Inimigo deles e da Humanidade. Até agora, têm-no respeitado e aos seus Executivos, porque ele, habilmente, se lhes apresenta como deus, o deus-Dinheiro, todo-poderoso e único que tem de ser adorado por eles. Quando descobrirem que ele é o Inimigo deles, da Humanidade, do Planeta e do Universo, que ele é o anti-Deus, o ídolo por antonomásia, mentiroso e assassino por natureza, os Povos do mundo, em lugar de se lhe submeterem, decapitá-lo-ão, como o frágil David (= os Povos desarmados, mas lúcidos) fez a Golias (= o Dinheiro ou Grande Capital, armado até aos dentes e arrogante quanto ele), uma metáfora bíblica e profética que já sugere, desde então, por onde os Povos devem avançar, sem recorrerem a nenhuma das armas do Inimigo, apenas com as suas inteligências, as suas imaginações criadoras e os seus afectos sem limite, todos Abel, nenhum Caim, como sempre tem feito o Inimigo que sistematicamente nos tem posto a recorrer às mesmas armas dele e uns contra os outros, a única maneira dele se perpetuar no Tempo, com novos Executivos que podem ter começado por o combater, mas depois se tornam depressa nos seus novos aliados. A minha Esperança, que brota do coração de Deus Vivo, o de Jesus, diz-me que os Povos do Mundo estão à beira de dar pela marosca - a Ideologia - do Inimigo e dos seus Executivos. Saberão resistir-lhe e aos seus Executivos todos, também os religioso-eclesiásticos, hoje, de novo, muito activos. E saberão abrir o caminho do Futuro, que é dos Povos irmãos, todos diferentes, todos iguais, uma só e mesma Humanidade em muitas línguas e cores de pele e culturas. E as Igrejas? Ah! Ou se convertem (= mudam de Deus) e correm a tornar-se profeticamente parteiras de Povos assim, ou desaparecerão como todos os outros Executivos do Inimigo. O que, em verdade, em verdade vos digo, só me causará alegria, muita alegria. Porque o que o Deus Vivo, o de Jesus, em última instância quer, não é que haja Igrejas/Religiões, mas que todos os Povos do Mundo sejam um e constituam uma só Humanidade em muitos Povos, constituída na Liberdade e na Sororidade/Fraternidade universal, a única Globalização que nos dignificará a todos, seres humanos e Povos. E ao Planeta.

 


 

2007 DEZEMBRO 18

 

Foi no domingo passado. Não. Não é o início de um fado, mas até parece. E que fado! O do novo Bispo do Funchal, António Carrilho, que durante anos foi auxiliar do Porto, mas, desde há já alguns meses, é o novo bispo residencial da cidade-capital da Madeira, a de Alberto João, esse mesmo que vocês estão a pensar e que, por ser impagável, não consegue que ninguém mais o compre e o transporte para uma outra ilha qualquer, preferencialmente desabitada. Acontece que, pela primeira vez, coube ao Bispo Carrilho presidir à missa do parto que a população da paróquia do Curral das Freiras - já viram nome de terra mais humilhante, curral das freiras, elas no convento, bem repimpadas com as suas rezas ritualizadas e papagueadas que Deus vomita e com todas aquelas suas outras rotinas quotidianas sem aflições, e o povo, sempre ele, no curral das ditas, a ter de viver com o mísero salário mínimo ou, o que é ainda pior e mais vergonhoso, com rendimentos mínimos, sempre num deus-nos-acuda - promove todos os anos nas vésperas do natal de calendário. E o Bispo não faltou. Tudo correu conforme o previsto. Como tal, não seria notícia, muito menos, neste meu Diário Aberto. Mas é por tudo correr como o previsto, apesar do Bispo ser outro, que a não-notícia se torna notícia e merece ser comentada aqui ao meu Diário Aberto. Tudo aquilo foi chocante do princípio ao fim. Nem sequer o Bispo que, pela primeira vez pisou aquele chão e viu aquele povo, se mostrou indignado com esta humilhação que o nome da paróquia diz na eloquência das palavras, nem a população se mostrou minimamente afectada perante ele com o caso em si. Já está tão habituada a ser carne para canhão e para exploração, carne para enganação e para religião, que nem acha ofensa um tal nome. E limita-se a cumprir, resignada e alienada, o seu papel, tal como o Alberto João cumpre o dele, que é estar sempre na mó de cima e no vértice da pirâmide; e tal como o Bispo Carrilho que aceita com naturalidade canónica chegar ali e ser tratado como senhor, como deus-na-terra, como príncipe-da-igreja, a fazer lembrar tempos feudais, historicamente passados, mas ainda praticados no século XXI em certas regiões marcadas por todo este Paganismo católico da nossa vergonha, entre as quais, pelos vistos, se inclui também a paróquia do Curral das Freiras. Perguntar-me-eis: E o que foi o Bispo Carrilho lá fazer, para além de ir receber a homenagem, em jeito de vassalagem, do povo do Curral das Freiras? Ao ler a crónica que um cronista da Região enviou para a agência Ecclesia e que esta publica no seu portal na net, parece que o Bispo Carrilho não foi lá para outra coisa. Só que a homenagem, em jeito de vassalagem, que o povo do Curral das Freiras lhe devia, carecia de um pretexto, para não dar a impressão de que o Bispo do Funchal, à semelhança dos seus colegas das outras dioceses do país, anda aí de paróquia em paróquia a receber a homenagem, em forma de vassalagem, das populações pagano-católicas que, nos seus genes, ainda carregam todas aquelas humilhações que os seus antepassados conheceram e suportaram, quando os bispos do Paganismo católico, ou Cristandade Ocidental eram os donos das terras e recebiam as rendas dos seus servos da gleba que, ainda por cima, tinham de ir assistir, sob pena de pecado mortal - palavra de bispo e do Código de Direito Canónico - à missa de domingo que ele, ou os seus outros-eu, que são os párocos, rezavam e ainda rezam nas igrejas, locais de humilhação popular, onde só o patrão eclesiástico pode ter voz e vez, e todos os mais, adultos e crianças, jovens e idosos, e até os cães que calhar de lá entrarem, têm de estar calados, ouvir e calar. No caso concreto desta visita do Bispo Carrilho, o pretexto foi a missa do parto que todos os anos acontece nas vésperas do natal de calendário. E o calendário, como já se percebeu há muito, tem muita força nesta nossa Igreja pagano-católica, presidida por bispos residenciais e feudais. É o calendário que comanda, não a vida concreta das populações e dos povos, não os acontecimentos concretos de que a História é feita. É a ditadura do calendário e nem sequer o calendário de toda a gente, mas somente o calendário litúrgico. Pelos vistos, missa do parto, no Curral das Freiras, tem de ser presidida pelo bispo do Funchal. E o Bispo Carrilho que agora é o Bispo do Funchal, por autocrática decisão da Cúria do Vaticano, não por escolha da Igreja local, não se fez rogado e lá foi presidir. Foi então que a homenagem, sob a forma de vassalagem, aconteceu, que o povo do Curral das Freiras não é ingrato e sabe receber os seus senhores, os seus donos, os seus chefes, os seus superiores. Logo à chegada, as palavras de saudação do pároco que também é cónego (sabem que na Igreja, sobretudo, na pagano-católica, também há pirâmide e que os padres não são todos iguais, há os que são promovidos a cónegos, a monsenhores, a vigários da vara e por aí adiante. E o da paróquia do Curral das Freiras é cónego. Coube-lhe a tarefa de saudar o Bispo, o servo perante o seu senhor, como manda o manual das boas maneiras eclesiásticas. E o que disse? Esta coisa espantosa e sublime, no mundo do ridículo e da inanidade clerical e eclesiástica, já se vê: "O Curral das Freiras é um local de acolhimento e onde se fazem grandes festas". Assim! E garantiu ao Bispo Carrilho que, durante a visita, o povo seu vassalo - do pároco-cónego e do bispo - iria oferecer-lhe um terço feito em castanhas. Adiantou depois o motivo de semelhante oferta: "Porque esta terra é de trabalho, mas também de oração". Meteu assim os pés pelas mãos, porque confundiu o terço feito em castanhas com a oração e, mais grave ainda, com a Eucaristia. Na cabeça dele, tudo vai dar ao mesmo, isto é, a coisa nenhuma. Nem se deu conta de que não é para estas banalidades e para estas rotinas eclesiásticas, engana-meninos-papa-lhes-o-pão, que existe a Igreja e que se ordenam presbíteros e bispos, e se celebra o sacramento do Baptismo-Crisma. Mas disse mais o pároco-cónego, agora já com um certo ar filosófico. "A castanha está dentro do ouriço, mas não fica dentro dele: abre-se e sai. Queremos ser sempre como o ouriço, que tem lá dentro muito para dar e por isso vamos continuar a ser muito acolhedores a todos os que nos visitam". Quer dizer: Já não basta ao povo da paróquia ter de viver no Curral das Freiras. O pároco-cónego ainda quer que ele seja como um ouriço. Acolhedor como um ouriço? Mas o ouriço não pica e faz sangrar as mãos de quem não lidar cautelosamente com ele? Provavelmente, é assim que o pároco-cónego será, não o povo do Curral das Freiras. Como um ouriço, de difícil acesso (devo dizer que não conheço o pároco em questão, nem a paróquia, apenas analiso as suas palavras e elas é o que nos revelam sobre quem as proferiu!). O que seria de esperar é que, naquela hora, o pároco, se fosse um homem livre e não um mero funcionário eclesiástico, incitasse o povo do Curral das Freiras a ser, não como o ouriço, mas como a castanha. Para que, como ela, não suporte mais ficar encurralado no Curral das Freiras, nem no curral de Alberto João, nem no curral do bispo-senhor-feudal, nem no curral do pároco que o leva a confeccionar terços com castanhas, num artesanato que tem tudo de alienação, quando do que ele precisa é de ser como a castanha e como a criança madura dentro da barriga das mães, que irrompem cá para fora, cada qual ao seu jeito, com força, violência, a força e a violência da vida com fome de justiça, de dignidade e de liberdade sororal/fraterna. Mas está visto que, enquanto o povo tiver a dominá-lo párocos e bispos sem Espírito Santo e sem Evangelho, nem que seja apenas simbolicamente; enquanto estiver condenado a fabricar terços com castanhas ou com contas que, depois, ainda tem de rezar como os pagãos do tempo de Jesus que estavam sempre a repetir as mesmas coisas aos seus deuses-ídolos - à semelhança do que também fazem hoje os muçulmanos que correm aos milhões para Meca e que, estejam onde estiverem, têm de se virar àquelas horas do dia para a cidade e assumir posturas físicas da mais abjecta humilhação humana para assim pronunciarem orações que não são nada, em lugar de serem eles próprios oração viva feita acção libertadora e solidária - não vai a lado nenhum, nem chega nunca a ser povo em autogestão, como Jesus, o de Nazaré, tanto quis e quer que toda a mulher, todo o homem seja. E o Bispo Carrilho, no meio de toda esta mediocridade e alienação, o que fez? Indignou-se? Pegou no chicote da Palavra de Deus grávida do Espírito Santo, como a palavra dos profetas bíblicos? Nem pensar! Aceitou tudo com muita satisfação e lá presidiu rotineiramente à missa do parto, de acordo com o ritual/missal, coisa típica do Paganismo católico. E nas palavras suas que proferiu, durante a chamada homilia, disse apenas palavras. Sem Espírito. Sem Luz. Sem fermento. Não disse nada de nada da Boa Notícia de Deus, o de Jesus. Porque essa é sempre politicamente subversiva e conspirativa. Estimularia o povo a ser como a castanha e como a criança que irrompem, respectivamente, do ouriço e do ventre da mãe, para poderem ser Sujeito/Protagonismo/Pão/Alimento/Revolução/Ternura/Futuro. Fosse por aí o Bispo Carrilho e nesse mesmo dia, ou no dia seguinte, já teria o Alberto João à perna. E, provavelmente, até grande parte do povo do Curral das Freiras, súbdito, vassalo, escravo do Alberto João e de outrquem trabalha e recebe o salário mínimo para si e para a respectiva família nunca chega a conhecer, pelo contrário, é sempre um deus-nos-acuda, sem que ele nunca lhes valha,os caciques menores, mas não menos influentes, entre os quais, certamente, o próprio pároco-cónego. Quem não vê que o terreno da Madeira e do país está todo minado/dominado e que o povo é só para votar nos seus dominadores e depois acolhê-los com honras e prendas, homenagens que são outras tantas manifestações de vassalagem?! Ai, Bispo Carrilho, meu irmão, que tremenda responsabilidade a tua! Deverias fazer acontecer o Evangelho libertador de Jesus e andas pela Região politicamente subordinada/subjugada a distribuir resignação e banalidades, como um qualquer sacerdote pagão de outrora. Só posso chorar por ti. Sabes bem como eu o que diz Jesus a este respeito: "A quem escandaliza um destes pequeninos que crêem em mim - e o que foste fazer ao Curral das Freiras é esse tipo de escândalo - melhor fora que lhe atassem a mó de um moinho ao pescoço e o atirassem ao mar". Não são palavras para te assustar. São palavras para te libertar. Anda, irmão, sê, tu também, como a castanha que faz explodir o ouriço e se dá, fruto maduro e em liberdade, a comer. Faz do teu corpo Pão. Faz do teu sangue Vinho. Faz da tua vida um dom para os demais, como Jesus foi e é, em lugar de seres senhor dos demais, D. António Carrilho! Abraço-te daqui com o meu afecto de irmão.

 


 

2007 DEZEMBRO 17

 

Chamaram-lhe " Operação Noite Branca". E, ao que dizem hoje os jornais, em parangonas na primeira página, terá rendido 14 detenções, todas de elementos do "núcleo duro" que, nas últimas semanas, têm mantido a população da cidade do Porto sob o medo e o terror, já com vários homicídios na conta e ameaças de muitos mais. A Judiciária está eufórica, o seu director-mor apressou-se a dar a cara e a reivindicar o feito. Os detidos serão hoje presentes ao tribunal. É a Ordem constitucional a funcionar em força no Porto. O autarca da cidade respira fundo. O Bispo da Diocese respira fundo. O governo do país respira fundo. Acabou-se, da noite para o dia, com a lei da selva na cidade. Os dias que se seguem serão de paz. Como, de resto, manda a quadra natalícia em curso. Por mim, e perante estas notícias, nem sei se chorar, se rir. Desde logo, pelo nome da operação, "Noite branca". Os militares e os polícias-militares ou paramilitares têm destas coisas que os psicanalistas, sem ser os de turno, deveriam analisar. Os seus comandos gostam de baptizar ou crismar as suas operações, habitualmente violentas, com palavras suaves, como se elas fossem o romance que eles nunca chegarão a escrever, porque não são homens e mulheres dados às letras, muito menos, amantes de Poesia e de Política. Sim, há excepções, mas só confirmam a regra. Ou como se cada Operação por eles desencadeada fosse o filme que os comandos gostariam de realizar e protagonizar. E filme, esta Operação "Noite Branca" também teve o seu pedaço, porque a generosa malta da SIC com as suas câmaras ao serviço da Ordem e da Legalidade esteve lá em força e em exclusivo, a acompanhar/filmar o feito das Polícias, certamente para depois poder mostrar ao país a noite de chumbo, perdão, a noite branca, que tudo aquilo foi, vasculha aqui, vasculha acolá, aponta a arma para aqui, aponta a arma para acolá, não vá o elemento do "núcleo duro" escapulir-se, mesmo nas barbas dos agentes. "Complexa", foi como o chefe máximo da Polícia Judiciária classificou a "Operação Noite Branca". Uma classificação tão prosaica e tão pouco mediática, que bem pode valer-lhe a perda do lugar que ocupa. Vê-se logo que não foi capaz de estar à altura de momento tão solene e tão determinante para a paz e a segurança de quem vive na cidade do Porto, sobretudo para os anónimos e cada vez em maior número Sem-Abrigo que morrem como bichos enregelados, nestas macabras noites de natal (será que as Câmaras da SIC viram algum por perto?! Não farão todos parte do "núcleo duro" que as Polícias procura(va)m?!), os toxicodependentes-arrumadores-de-carros-à-cata-duma-moeda, as crianças da rua e os idosos entregues à sua solidão em casas e andares que são outros tantos pedaços do inferno que os Executivos das nações, ao serviço do grande Capital, o deus-Dinheiro, estão a criar/alimentar com as suas políticas anti-Política e com as suas economias anti-Ecomomia, num ritmo cada vez mais acelerado, de modo que as nossas cidades sejam, a breve prazo, cidades decentes, sem velhos, sem crianças de rua, sem toxicodependentes, sem mendigos, sem deficientes entregues à mendicidade, sem desempregados, sem reformados-a-jogar-às-cartas-nos-jardins-públicos, sem prostitutas a vender-se ao desbarato nas ruas. Simplesmente, porque já não existem, foram todos apanhados em rusgas policiais e em Operações como esta "Noite Branca" A Operação decorreu conforme as regras que a Lei manda. Uma juíza assinou os mandados de busca e foi em pessoa acompanhar a operação, para que o espectáculo fosse ainda mais completo, coisa mais decente. Podem as populações estar, por isso, descansadas. E também alertadas. Quem se atrever a fazer parte de "núcleos duros" que de repente resolvam começar para aí a carregar no gatilho de armas de grande precisão e que se podem adquirir no mercado a qualquer momento, e com elas matar a torto e a direito os seus rivais, já sabe, é melhor mudar de vida, por exemplo, inscrever-se como voluntário na Polícia ou nas Forças Armadas, ou nessas empresas privadas de segurança, a proliferar por aí como cogumelos, tudo muito legal e conforme as regras da Democracia e de um Estado de direito (ou policial?). Aí sim, podem dar largas ao gosto de carregar no gatilho, podem ir em missão para países distantes, cujas populações - para o que lhes haveria de dar! - andam por lá em desacatos sem conta, aos tiros uns aos outros, em lugar de aos abraços e aos beijos. E ainda terão viagens de avião pagas pelo Estado e auferirão salários a triplicar ou a quadruplicar. E tudo o que fizerem tem sempre a cobertura da Lei, e ainda verão os seus currículos pessoais enriquecidos com feitos dignos de heróis. Vá, sejam inteligentes e cautelosos. Se gostam tanto de carregar no gatilho e de o fazer com armas cada vez mais sofisticadas, nunca optem por engrossar as fileiras de núcleos duros de rua ou de bairro ou duma pequena cidade como o Porto. Terão logo a Polícia à perna, porque isso de carregar no gatilho é exclusivo de quem escolhe essa profissão policial armada ou segue a vida militar. Nada de integrar o núcleo duro de um qualquer privado. A não ser que o chefe do "núcleo duro" privado tenha a habilidade e, sobretudo, a capacidade financeira para pôr a Polícia e a malta da tropa a proteger as suas acções e os seus negócios, as suas noites sujas, perdão, as suas "noites brancas", como eu próprio pude constatar na Guiné-Bissau, quando me obrigaram a ir para lá como capelão militar. O "núcleo duro" que lá actuava, roubava, explorava, humilhava, matava impunemente as populações africanas, teve sempre a tropa toda à perna e a Polícia, mas para o proteger nas suas acções, nos seus negócios, nos seus chorudos lucros. Assim sim, vale a pena satisfazer o gosto de carregar no gatilho. É, pois, uma questão de inteligência/demência e de se não enganar na escolha do núcleo duro a integrar. O Grande Capital que domina o mundo e o (des)governa, através dos seus vários Executivos, cada qual o mais eficiente e legal, precisa como de pão para a boca de quem goste de carregar no gatilho. E contrata voluntários, quando não sai por aí a recrutá-los à força, se não houver número suficiente de voluntários para as suas necessidades. Os que se decidem por aí é que acertam em cheio. Mesmo que matem ou morram numa operação noite branca ou num combate de meses e de anos, como a actual Guerra no Iraque, ou no Afeganistão, os seus nomes serão perpetuados como heróis e as suas famílias indemnizadas. Se são daqueles que querem carregar no gatilho, vão por aí, que não se arrependerão. O que digo? Não, não sou eu quem isto diz, nem quem isto aconselha. São eles, os Executivos do Grande Capital e o Núcleo duro do mundo que, qual cérebro e qual mão invisíveis, está por trás deles e que, através deles, manda/governa/explora/destrói/aterroriza/mata as populações indefesas que não sabem distinguir entre um núcleo duro e outro núcleo duro. O que sabem é que estão sempre a apanhar no corpo e a ver o futuro fugir-lhes de debaixo dos pés. Porque esta Ordem Mundial que está aí em vigor é gerida por um núcleo duro, com tanto de invisível como de mentiroso e de assassino. É por isso o único núcleo duro que pode fazer tudo o que lhe der na real gana, pois tem com ele todos os Executivos das nações (há sempre algum que tenta escapar ao seu controlo e ele até consente, enquanto lhe der jeito, porque, quando deixar de lhe dar jeito, derruba-o da noite para o dia e tem sempre o aplauso generalizado da maioria das populações e dos povos, formatados que estamos pelos seus grandes meios de comunicação social). Tem também com ele todos os exércitos, todas as polícias, todas as universidades, todas as hierarquias das Igrejas, todos os chefes das religiões. Pode até parecer que não estão com ele, mas não se deixem enganar. Se o não enfrentam, se o não desmascaram, se acatam as suas leis, se o não combatem como em duelo com sapiente inteligência e sem jamais recorrer às armas dele, estão fatalmente com ele. São seus cúmplices, criminosos quanto ele. Saibam que esse núcleo duro que manda no mundo é que é o verdadeiro Inimigo dos povos, o que nos rouba a paz e o futuro. O núcleo duro que as Polícias prenderam nesta Operação "Noite Branca" é, neste contexto global, puro folclore. A começar pelo nome de código que lhe deram. Por isso, a insegurança e os assassinatos prosseguirão. Enquanto os povos não acordarem e não decapitarem o Grande Capital, o deus Dinheiro, a insegurança e os assassinatos prosseguirão, em guerras, as mais cruéis, e em fomes endémicas, as mais obscenas. Ele é mentiroso e assassino. E o seu núcleo duro também. E não tem escrúpulos, nem moral. E são também assim, com alguma cosmética para disfarçar, todos os Executivos ao seu serviço. Saibam, entretanto, que até hoje, só Jesus, o de Nazaré, viu até à medula que são assim as coisas. Viu a Verdade que, desde o princípio, anda retida/cativa na Injustiça que é esta Perversa Ordem Mundial do deus Dinheiro. E quis que ela, a Verdade que nos faz livres e sororais/fraternos, fosse anunciada a todos os povos, como a Boa Notícia de Deus Vivo, e praticada por todos eles contra a Mentira/a Ideologia do deus Dinheiro. Tem sido sistematicamente traído, ao longo dos séculos, em vez de seguido e prosseguido. Preferimos todos ou quase todos seguir o deus Dinheiro, se possível, integrar o seu núcleo duro, ou, ao menos, algum dos seus inúmeros Executivos que o servem incondicionalmente, geração após geração. Vivemos, como povos, sob o domínio da Treva - a Ideologia do deus Dinheiro - mas achamos que somos os mais ilustrados da História. Entre Jesus e o seu Deus, cujo Projecto político é de vida e vida em abundância para todos os povos, e os Executivos todos do mundo e o seu Deus, o Dinheiro, cujo projecto político é matar, roubar e destruir a vida e o Universo, temos insensatamente escolhido/seguido os Executivos e o seu Deus, o Dinheiro. Ou mudamos do Deus Dinheiro, o dos Executivos, para o Deus Vivo, o de Jesus, ou morreremos no nosso Pecado. Mudemos de Deus. Deixemos o Deus Dinheiro, o dos Executivos, e cooperemos sem descanso com o Deus Vivo, o de Jesus. Façamos assim finalmente acontecer o Big-Bang-da-vida-e-vida-em-abundância-para-todos-os-povos, pelo qual todo o Universo e todos os povos tanto ansiamos. Ou assim, ou acabaremos simplesmente canalhas. Da pior espécie!

 


 

2007 DEZEMBRO 15

 

Deveria ser uma explosão de Humanidade em estado de maioridade e está a ser, de ano para ano, uma explosão de Infantilismo e de Consumismo, de arrepiar. O natal da nossa vergonha está de novo à porta. Em boa verdade, já começou há muito, está a tornar-se num bazar contínuo, de Dezembro a Dezembro. E se o natal, como data de calendário, não dura todo o ano, um certo espírito natalício, feito de Infantismo e de Consumismo, está cada vez presente na mente e nos hábitos das populações e dos povos. O que representa manifestamente um regresso/retrocesso no desenvolvimento dos povos. Não apenas um regresso/retrocesso ao Paganismo, com tudo o que ele tem de pior, particularmente, o Obscurantismo e a Submissão ao Destino e aos chefes divinizados e autoritários, em detrimento do progressivo protagonismo dos povos e das pessoas, e também o Infantilismo, hoje pretensamente ilustrado, como se os povos tivessem deliberado recusar-se a crescer e a assumir-se na História. Esta é - digo-o com toda a convicção - a mais inequívoca manifestação do premeditado Assassinato de Deus, o de Jesus, de modo algum o seu (re)nascimento. Este é o natal ou nascimento em crescendo da idolatria, do culto dos deuses, os conhecidos e os desconhecidos, à excepção do Deus de Jesus, o único a quem os do Dinheiro, do Poder e da Religião não reconhecem, muito menos toleram nos seus feudos ou reinados, hoje, na sua perversa Ordem Mundial. Para o Deus de Jesus e para Jesus que no-lO deu a conhecer, continua a não haver lugar nas hospedarias, entenda-se, nos lares, nas vidas das pessoas, nas paróquias, nas nações, na multiplicidade das Igrejas, inclusive, no Vaticano e na sua demoníaca Cúria romana, numa palavra, na actual Ordem Mundial. De ano para ano, o natal de calendário invade-nos com o que há de pior nos seres humanos. É bem a Demência à solta, o Infantilismo à solta, o Consumismo à solta, a Imbecilidade à solta, o Religioso à solta, a Hipocrisia à solta, o Inumano à solta. Tudo muito bem embrulhado e servido de bondades de plástico, de solidariedades de plástico, de afectos de plástico, de sorrisos de plástico, de acolhimentos de plástico, de festas de plástico, tipo natal dos Hospitais, da RTP. É tudo Negócio. Tudo faz-de-conta. A Humilhação dos seres humanos, no seu pior. É a Hora da Treva, da Estupidez, da Arrogância, da Hipocrisia, do que há de pior nos seres humanos. Nestes dias, viramos (quase) todos garotos, estúpidos, bestas, hipócritas, fingidos, cínicos, sem um pingo de dignidade humana, infantis, descriados, coisas ambulantes carregados de embrulhos a que chamamos prendas, prendinhas, uns infelizes, uns solitários do tamanho da nossa hipocrisia, do nosso cinismo, da nossa pouca-vergonha. É a Inumanidade em movimento. Anunciamos o natal/nascimento do Homem, do ser humano, mulher e homem, e o que nasce cada ano é o seu antípoda, coisas ambulantes que respiram mas não são livres, nem conhecem afectos praticados e recebidos. Estamos, de um natal a outro, a descriar-nos como seres humanos, a tornar-nos coisas, objectos de consumo, utilitários de usar e deitar fora, descartáveis. A Idolatria é o que faz, já que é maior perita em desumanidade, em Inumanidade. E cada natal de calendário é a explosão maior da idolatria. O deus que se anuncia é um palhaço representado por um pai-natal, com tanto de besta quanto de vómito. Aceitá-lo, parar diante dele, admirá-lo, ainda poderia ter alguma utilidade, se fizéssemos dele o espelho onde nos víssemos. Morreríamos de vergonha. Os Executivos do Dinheiro, do Poder e da Religião/Igrejas conseguiram, estão a conseguir cada vez mais descriar-nos como seres humanos e transformar-nos em abjectos pais-natais, desses que estão como bonecos à entrada dos estabelecimentos comerciais, ou como dos que, com vergonha e sem audácia para se assumirem como seres humanos, correm, por isso, como num carnaval antecipado, a disfarçar-se de pais-natais. Todos, quase todos, novos e velhos, jovens e de meia idade, fazemos de conta e achamos piada, rimo-nos, fingimo-nos simpáticos, ternos, amigos, fraternos. É tudo postiço. Convencionado. O deus-Dinheiro formatou-nos para sermos assim. E nós somos assim. Por umas horas. Por uns momentos. Por uns dias. O que faz de nós ainda mais cruéis, se activos, e humilhados, se passivos. Agir neste espírito natalício, alimentado de ano a ano, é ser cruel. Aceitar os gestos de quem age sob este espírito natalício, é ser humilhado. Tudo o que é benfeitor é humilhação e fonte de humilhação humana. E o mais dramático, é que tudo é concebido e realizado, para que jamais desperte em nós o ser humano criador e livre, adulto, maduro, emancipado, sujeito, protagonista, visceralmente irmão universal, concebido pelo Espírito Santo no seio das nossas mães, chamados, desde o primeiro instante da nossa concepção, a assumir responsavelmente as próprias vidas, as vidas uns dos outros em reciprocidade e complementaridade, e a vida do Universo, de modo a conduzi-lo para diante, que para isso é o Tempo, a História, até que cada ser humano, de qualquer cor ou língua, seja protagonista-com-os-demais, sem subalternidades de nenhuma espécie. A Idolatria é um processo histórico descriador dos seres humanos. Só a Fé de Jesus que nos abre uns aos outros com Verdade, por isso, na liberdade e na alegria, e nesse abrir-nos aos outros simultaneamente nos abre ao Deus Vivo, o de Jesus, criador de filhas, filhos em estado de maioridade, bem à altura de levarem a Criação iniciada há uns quinze mil milhões de anos, com o Big-Bang, nos preserva e vacina contra toda a estupidez e todo o infantilismo, contra toda a humilhação e o faz-de-conta que a Idolatria desenvolve, lá onde entrar e medrar. E nunca a Idolatria esteve tão generalizada e tão globalizada. Uma Idolatria refinada, nada como a dos povos primitivos, que se materializava em toscas imagens de deusas e de deuses, em altares onde oficiavam sacerdotes oportunistas e comedores, com rituais e roupas exóticas que os convertiam em feiticeiros-e-mágicos-de-trazer-por-casa. Ainda há por um aí uns restos disso, nos pastores dizimistas das novas igrejas ditas evangélicas e nos cardeais e bispos católicos e nos párocos, quando presidem aos ofícios religiosos nos santuários, coisa mais boba. Mas já nem é desse tido de Idolatria que falo agora aqui. Essa está em vias de extinção, depois de séculos e séculos a reinar. A Modernidade e a Ilustração correram com ela e ainda bem. Há entretanto pequenos focos de resistência, aqui e ali, graças aos funcionários do Religioso que não sabem fazer outra coisa e sem isso nem sequer sobreviveriam, muito menos enriqueceriam como estão a enriquecer (a escassez de funcionários leva os ainda activos a desdobrar-se num frenesim de cultos e de missas, uma aqui, outra acolá e outra mais além, e sempre a facturar sem impostos), mas acabarão por extinguir-se por falta de clientela e de funcionários que se prestem a essa vergonha. A Idolatria que hoje me preocupa já nem é esta. E a Idolatria que a Modernidade e a Ilustração trouxeram no bojo. Primeiro, sob a forma de Ateísmo cada vez mais generalizado e pseudo-científico. Mas hoje é já manifesto que o Ateísmo da Modernidade e da Ilustração virou Idolatria, a pior de todas, a mais inumana de todas as Idolatrias que a História já conheceu. À sua beira, a Idolatria dos povos primitivos, travestida de Religião, chega a ser hoje quase louvável. Porque não produzia os efeitos desastrosos, devastadores que a nova Idolatria, nascida da Modernidade e da Ilustração, está a causar. É a Idolatria do deus-Dinheiro, a Mentira e o Homicídio cientificamente organizados, onde jamais haverá lugar para Deus Vivo, o de Jesus, e, consequentemente, para os seres humanos criadores e autogestionários, livres e sororais/fraternos, cheios de sabedoria e de graça, outros Jesus. A velha Idolatria, a da Religião, já foi isso que quis fazer e fez, quando matou Jesus na Cruz, como o maldito dos malditos. Foi a maneira cultural de então de dizer que ele, e quem ousasse ser outro-eu dele, não teria lugar no mundo dominado/dirigido/governado por ela e pelos seus Executivos, os do Dinheiro, do Poder e da Religião. Mas, depois, algo dele conseguiu passar para as gerações futuras, graças à acção subversiva e conspirativa do Espírito Santo e de pequenas comunidades clandestinas e conspirativas, convocadas e congregadas por Ele em nome e em memória de Jesus. Hoje, porém, a nova Idolatria, a do Dinheiro, é visceralmente mentirosa e assassina, descriadora dos seres humanos. E parece sem Oposição e sem Resistência. Porque compra toda a gente, a começar pelos mais ilustrados, que de ateus que se dizem, passam a idólatras do deus-Dinheiro, num abrir e fechar de olhos. É tudo uma questão de preço. Aos que resistem mais, basta subir a parada e eles acabam por cair de joelhos, perdão, por dizer sim a semelhante contrato, a semelhante lugar, a semelhante emprego. E, em lugar de serem reprovados pelos familiares e amigos, são felicitados, parabenizados. E passam logo a ter o reconhecimento e a admiração dos que lhes são inferiores na escada hierárquica. Até na nossa Igreja católica isso acontece. Já ninguém, ou quase, aceita ser pároco, muito menos presbítero à intempérie como eu, mas, se o convidarem para bispo, nem que seja auxiliar duma grande diocese, todos se mostram disponíveis, sem sequer ter consciência de que estão a cair na Idolatria e a fazer-lhe o jogo, a ser idólatras, a seguir as decisões do deus-Dinheiro, disfarçado de Religioso-Eclesiástico. E lá se vai o Homem livre, dissidente, subversivo, rebelde, conspirativo. Lá se vai o Ser Humano. Cresce em seu lugar o funcionário, zelador da Ortodoxia e da Ortopraxia da Ordem Mundial do Dinheiro que é preciso manter e reforçar a todo o custo, porque é nela e com ela que também até os privilégios eclesiásticos e religiosos estão salvaguardados. É óbvio que não foi para isto que Jesus nasceu. O seu natal/nascimento, há uns dois mil anos, é o anti-natal dos míticos deuses e deusas do Paganismo. Nasce de mulher, em tudo igual às nossas mães. Duma relação sexual fecunda que pode até ter sido sem amor, se tiver acontecido, como afirmam certas fontes tão fidedignas como as outras que negam o facto, uma relação sexual violenta, de um soldado romano sobre a jovem Maria, a de Jesus. O facto, se tiver ocorrido, ainda dá mais força e mais dignidade a Jesus, porque, desse modo, ele teria assumido, desde o primeiro momento da sua concepção, a condição de homem maldito que veio a ter para sempre, quando foi crucificado na cruz do Império romano ("Maldito o homem que morre na cruz", decreta ainda hoje o livro Deuteronómio, da Bíblia hebraica, então entendida como escrita pelo próprio Deus e entregue a Moisés). Os relatos teológicos do seu nascimento, escritos muitos anos depois da sua morte/ressurreição na cruz, pelos autores dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, anunciam claramente o Homem, o ser humano, verdadeira e plenamente humano, que Jesus foi, é, desde o primeiro instante ao último: constitutivamente político, dissidente, subversivo, conspirativo, rebelde, criador, libertador, cheio de espírito não natalício e idolátrico, mas de Espírito Santo, que o fez/faz ser irmão universal, homem-para-os-demais. Por isso, Herodes, rei fantoche e lacaio do Império romano na Judeia, como são hoje os Executivos das nações, é apresentado nesses relatos teológicos, a querer matá-lo à nascença, como a dizer que lá onde há Privilégiosinstitucionalizados, não há lugar para seres humanos iguais e sororais/fraternos, livres e autogestionários. Só para lacaios, funcionários, cínicos, coisas, lesmas, minhocas em forma humana e vestidos a rigor, para melhor disfarçarem os vermes que efectivamente são. Querem continuar a percorrer este caminho para a Descriação total e completa? Então, insistam nestes natais, vivam sob a influência deste espírito natalício que tem tudo de besta e de imbecilidade. Tornem-se vermes bem vestidos e bem perfumados. Vendam-se ao deus-Dinheiro e aos seus Executivos. Apaguem o que ainda resta de humano em Vocês. Tornem-se vermes, simplesmente, em carros de luxo e em palácios blindados. Chegarão mais depressa ao inferno que o deus-Dinheiro está a implantar em todo o planeta e que dá pelo nome de Ordem Mundial. A dele. Já sabem que não vou por aí. Prefiro ser companheiro do Maldito Jesus, o Crucificado/Ressuscitado por ter resistido à Idolatria e aos seus Executivos, com destaque maior para os do Templo/Religião e do Império. Também os do Dinheiro, só que, na altura, estes estavam ainda em fase muito primária e por isso pouco determinante/decisiva, ao contrário de hoje, que são os Executivos mais obscenos, mais cruéis, mais assassinos, e também os mais operacionais, os mais perversos e os mais sedutores. Mas a mim não me apanham, nem apanharão eles. Permaneço com Jesus, o de Nazaré. E com o seu Espírito, mais íntimo a mim do que eu próprio. E com o seu Deus Vivo, nossa Mãe/nosso Pai-que-sempre-nos-leva-ao-seu-colo (cf. o meu último livro Salmos versão século XXI, edição Campo das Letras). A História dos vencidos e das vítimas há-de confirmar que fiz a melhor opção, que tomei a decisão certa. Porque fora de Jesus, o Crucificado/Ressuscitado de Nazaré e fora do seu Deus Vivo (não, evidentemente, o Cristo e o Deus-ídolo das Igrejas e Religiões cristãs, todas idolátricas e possessas do espírito natalício de calendário), não há salvação. Só ele, Jesus, que nunca foi pela via da Idolatria, apenas pela do Ser Humano, a partir do último, é o Caminho, a Verdade e a Vida. Querem vir daí com ele, comigo e com algumas/alguns outros mais? Ou preferem continuar a engrossar a Descriação em curso, até chegarem a ser lesmas?!

 


 

2007 DEZEMBRO 14

 

Ontem, em Lisboa, foi um dia cheio de lugares comuns. De banalidades. Como é timbre dos Executivos das nações. Banais e venais. Cheios de nada, que é o que quer dizer vaidade, vaidosos. E vaidade é o que eles vestem. Pavões engalanados à solta. Até as suas gargalhadas fazem lembrar o cá-cá-rá-cá das galinhas nos aviários. E aviários é o que são os palácios onde eles vivem freneticamente encurralados. Porque, embora dêem sempre aquele ar de descontraídos e de felizes, os Executivos das nações vivem permanentemente sob controlo. Altamente vigiados. Policiados. Para sua segurança, pensam e dizem eles. Para segurança do Grande Capital que tem neles os seus melhores aliados, digo eu e diz quem, como eu já não embarca nas suas mentiras, nem nas suas hipocrisias. Quanto mais fúteis, melhor. Porque também oferecem melhores garantias de serem banais e venais. E o Grande Capital é nisso que está empenhado. Em criar banais e venais. Se o deixarem à solta - e nunca esteve tão à solta como neste início do século XXI e também tão cientificamente organizado - o Grande Capital, ou deus Dinheiro realizará a sua obra, a mais horrenda de todas as obras alguma vez realizadas na História: a Descriação dos seres humanos e dos povos. E o dia de ontem insere-se nesta lógica descriadora e assassina do Grande Capital. "Já está na História", disse o nosso Pinóquio primeiro-ministro e presidente em exercício da União Europeia. E não se enganou. Mas na História que os poderosos sempre mandam escrever e que é uma História de banalidades e de venalidades. Povoada de inúmeras vítimas humanas, genocídios sobre genocídios. Tingida de sangue derramado. Um concerto de gritos esmagados e de dores silenciadas. Multidões de humilhados. De crucificados. De torturados. De escravizados. O Tratado de Lisboa, ontem assinado por todos os figurões da União Europeia, já está na História. A História dos Executivos dos países da União Europeia. Não na História dos povos que fazem a Europa e os outros povos do Mundo. Porque essa nunca chegará a ser escrita. Só a dos Executivos das nações. É por isso que todos somos obrigados a saber tudo sobre eles. Até os pormenores mais caricatos das suas vidas banais e venais. Até as ementas que devoram nos seus esplendorosos banquetes que têm sempre muito de fausto e do que há de melhor, como os banquetes de Herodes, o Executivo político da Judeia ao tempo de Jesus, vassalo-fantoche do Império romano e do seu César, durante os quais, a qualquer momento podia entrar uma jovem bailarina que encantasse os devassos e concupiscentes olhos dele e dos seus anfitriões iguais a ele e, no final do seu show de caca - nunca a arte se degrada tanto como quando aceita enfeitar as banalidades e as venalidades dos Executivos do Grande Capital - descontraidamente pedisse/exigisse que lhe fosse dada num prato a cabeça de João Baptista, o profeta do tempo, armado de lúcida e penetrante Palavra, que, apesar de desarmado de instrumentos de matar e de aterrorizar, conseguia perturbar e até tirar o sono ao pedante Executivo e aos seus cúmplices convivas. Fossem os jornalistas, também os de hoje, profetas e não escribas da corte e do Poder, e certamente, os povos da Europa teriam um presente e futuro bem melhores. O drama dos povos da Europa é que o Grande Capital até os jornalistas - e a generalidade dos intelectuais - comprou e a palavra deles escrita ou dita deixou de ser lúcida e penetrante como a do Baptista, na Judeia de Herodes, para se tornar, também ela, banal e venal. Mostram-nos sempre e com o máximo destaque, o pitoresco, o folclórico, o anedótico dos Executivos, o exterior do copo. Escondem-nos sistematicamente o que está dentro do copo. O que está dentro das palavras e dos gestos. Os Executivos preparam, melhor, mandam preparar (em boa verdade, os Executivos nunca fazem nada de nada, apenas dão a impressão de que fazem, quem faz são os seus assessores e uma multidão de outros funcionários-cães-de-fila-articulados-aos-assessores, que nunca podem ter pensamento próprio, só o pensamento dos assessores, cujos só o pensamento dos Executivos, cujos só os interesses do Grande Capital) encenações de encher o olho aos jornalistas. E eles, quase sempre sem traquejo, acabados de sair da Escola e cheios de febre por uma promoção na carreira, caem que nem patos. E é das encenações que depois falam, são as encenações que se apressam a captar/destacar com as suas câmaras fotográficas e de filmar e venalmente exibem perante os povos, já de si, mais do que anestesiados e deprimidos. Tudo artificial. Tudo mentira. Apenas o exterior do copo. O papel de embrulho que tem o condão de esconder o que está dentro, objectivamente, intragável, puro veneno. Porque - nunca esqueçam na vida este princípio da Verdade que nos faz livres e sororais/fraternos - o que é bom para o Grande Capital é péssimo para os povos. Por isso é que o dia de ontem, da assinatura do Tratado de Lisboa, já está na História, mas apenas na História do Grande Capital e dos seus Executivos. Os Executivos das nações é que pensam - e o nosso Pinóquio primeiro-ministro tinha ontem todo o ar de satisfação, quando proferiu aquele lugar-comum (não confundir satisfação com felicidade!) e até disse numa curta mas venalmente eloquente entrevista a um jornalista da SIC que aquele era um dos dias mais conseguidos da sua carreira política - vêem como a boca lhe fugiu para a verdade? A sua carreira política? Os povos da Europa, incluído o povo português, só lhe interessam como escada por onde ele suba mais e mais em banalidade e venalidade) que só há uma História, a do Grande Capital e dos seus Executivos. Mas há outra, a dos povos, a das vítimas, a dos crucificados que ele e eles produzem em série e em massa. Bem sei que esta outra História nunca chega a ser escrita nem pelos jornalistas nem pelos historiadores da corte, também eles banais e venais. É uma História reprimida, silenciada, nua e crua/cruel e sem encenações. É uma História que só os profetas/os intelectuais que se afastam dos Executivos e dos seus palácios e dos seus templos, das suas banalidades e venalidades e vão habitar entre os povos e com os povos, num tu-a-tu fraterno e solidário, é que chegam a captar e a ouvir e a ler. Porque de gritantes silêncios e de muitas dores reprimidas, de muitos corpos esmagados é feita a História dos povos que nunca chega a ser escrita, mas é a única que tem futuro, a única que é fecunda, como a flor estrangulada que se torna milhões de sementes a florir. Deixem para lá. O dia de ontem já passou e os Executivos europeus do Grande Capital hoje já estão a exibir-se noutra capital da sua Europa unida. Como vêem, não têm descanso, estes Executivos. Vazios, banais e venais, mas sempre numa roda viva, para que nunca se encontrem consigo mesmos, nem se vejam ao espelho, não vá descobrirem os monstros que estão a ser. Talvez um dia, se antes não caírem pela violência de um fulminante ataque cardíaco, e se a segurança apertada que os controla e vigia não falhar, quando forem substituídos por outros, talvez eles venham a cair na conta - é raro, mas já tem acontecido - de que foram obscenamente utilizados, manipulados, funcionalizados pelo Grande Capital. Terão então vergonha do que fizeram. Mas só se redimirão do seu pecado, se tiverem a lucidez e a audácia de, finalmente, revelarem aos povos que enganaram e levaram para o abismo, a Puta cruel e assassina que é o Grande Capital. E, coerentemente, gastarem os dias que lhes restarem de vida a esclarecer os povos e a mobilizá-los para as suas próprias grandes Causas que são também as da Humanidade, contra os interesses genocidas do Grande Capital. Não lhes auguro, mesmo assim, dias fáceis, nem de ternura por parte dos povos. Porque estes, de tão massacrados e enganados que são, desde o princípio da Humanidade, poderão vir a ser os primeiros, nessa altura, a virar-se contra eles. E a matá-los como quem mata uma barata. Basta que o Grande Capital, visceralmente vingança e ódio contra quem o desmascara, lhes acene com um mísero prato de lentilhas, em troca. Agarram de imediato o prato e liquidam o profeta, o mesmo é dizer, o Homem, o ser humano concreto que havia decidido deixar de ser executivo. Não se iludam: o Grande Capital não tem entranhas de humanidade. É Vingança e Ódio. É Mentira e Assassínio. É Banalidade e Venalidade. Que faz banais e venais, odientos e vingativos, mentirosos e assassinos, todos aqueles que, em vez de o combaterem dia e noite com inteligência e audácia, deixam-no para lá, ou até aceitam cooperar com ele a troco de um prato de lentilhas. O dia de ontem, com a assinatura do Tratado de Lisboa, já está na História. A do Grande Capital e dos seus Executivos. Para nossa vergonha. Para vergonha dos povos. Os dias que aí vêm vão dizê-lo/revelá-lo. Porque quando o Grande Capital se reforça e faz aprovar os tratados que mais lhe convém (o de ontem fica para a História como o Tratado de Lisboa, porque o Grande Capital sabe bem quanto os actuais Executivos do nosso país são vaidosos, banais e venais!), os povos do mundo que se cuidem. Só pode vir aí mais repressão, mais alienação, mais banalidade, mais venalidade, mais corrupção, mais mentira, mais polícia nas ruas, mais fabrico de armas, mais tráfico de seres humanos, mais tráfico de droga, mais videovigilância, mais desemprego, numa palavra, mais inferno. Só a Política, senhoras, senhores, salvará os povos. Não o Poder. Ora, o que hoje temos não é Política. Temos Executivos banais e venais. A Política que salva os povos do mundo e o mundo terão de ser os próprios povos a fazê-la. Entregá-la aos Executivos do Grande Capital é como entregar os cordeiros aos lobos, as galinhas às raposas. Neste humilhante nível de subdesenvolvimento cultural/espiritual/político estão ainda os povos do século XXI, inclusive na Europa e no Ocidente, que se têm por muito civilizados e desenvolvidos. Por quantos séculos mais é que iremos continuar a ser assim?! Chorai, povos, chorai! Mas nem isso basta. Ousemos sobretudo mudar de vida. E de Deus. Renunciemos de vez ao deus Dinheiro e acolhamos resolutamente o Deus Vivo, o de Jesus, que, desde sempre, vive em nós mais íntimo a nós do que nós próprios, sempre a ver se nós consentimos que Ele nos faça protagonistas políticos da História, em lugar de continuarmos ingenuamente a confiar esse protagonismo político aos Executivos do Grande Capital. E quanto ao Grande Capital (não confundir nunca com os capitalistas, que urge resgatar e humanizar!), só temos uma coisa a fazer: decapitá-lo, antes que ele, mentiroso e assassino por natureza, mais uma vez nos seduza e engane. E nos mate! Só assim, se isto fizermos, é que haverá História, a dos Povos. Se isto não fizermos, nem História haverá. Só o inferno criado pelo Grande Capital, o deus Dinheiro. Escolher é preciso. Imperioso. E urgente. Já sabem por onde vou. Onde estou. Contem comigo sempre na trincheira.

 


 

2007 DEZEMBRO 13

 

As canetas com que eles hoje vão assinar o seu Tratado de Lisboa, nos Jerónimos, são de prata. Cada qual terá a sua. Depois da assinatura e da "foto de família" (família, aquilo? Hipocrisia e da grossa, e Ódio de estimação e muito, sim!), vão de eléctrico altamente vigiado por Polícia especializada, almoçar noutro palácio com o actual figurante número um da República Portuguesa, o tal que raramente lê jornais e mais raramente ainda consegue ler um poema de Sophia de Mello Breyner, de Fernando Pessoa, ou de Camões. Os 600 jornalistas acreditados pela Organização para darem a notícia do evento aos povos da Europa e do resto do mundo também estão convidados para o almoço. O luxo e o requinte, a ostentação e a vaidade, o show mediático e as banalidades são sempre lei nestas manifestações de Poder por parte dos grandes Executivos das nações e da União Europeia. Os respectivos povos podem estar a apodrecer no desemprego cada vez mais estrutural e demolidor e a morrer sem horizontes, sem condições de vida digna e sem saúde, que aos grandes que muito democraticamente os dominam não pode faltar nada. Como é que eles poderão ser grandes Executivos, se alguma vez dispensarem todos estes rituais, toda esta liturgia? O deus Dinheiro não suporta viver sem liturgias assim. Tal e qual o deus das Religiões. Os dois são um só. Um é o pai, o deus Dinheiro, e o outro, o das Religiões, é o filho. Falta ainda um terceiro, para a trindade ficar completa. É o deus Mentira, também chamado Ideologia, que o Poder político pratica como verdade absoluta. Os três são um só. Não são três deuses, que o deus-Dinheiro jamais admite rivais. Os três são um só. É um deus essencialmente monárquico absoluto, mesmo em regime constitucionalmente republicano. Monoteísta. Ferozmente monoteísta. Por isso, quando surge na História uma voz isolada ou organizada, desarmada, como um menino, pobre, que se atreve a dizer-lhe com a frontalidade sororal/fraterna que só a Verdade é capaz de dar, que há outro Deus que nunca ninguém viu nem verá, e que é exclusivamente a Ele que ouve e segue, cujo projecto político procura praticar na sua vida quotidiana, o deus Dinheiro fica furioso e só descansa quando neutralizar/desacreditar/marginalizar/eliminar semelhante dissidência dentro do seu Reinado ou Ordem Mundial. No princípio, a sua fúria ia sobretudo para os ateus que se diziam tais. Eram um perigo público. Ao negarem a existência de um qualquer Deus, retiravam à Ordem Mundial presidida pelo deus-Dinheiro o seu fundamento maior, a sua legitimidade perante os povos. Se deus não existe, como diziam os ateus, então a Ordem Mundial que assenta sobre ele e dele tira a sua legitimidade, não tem fundamente, pode ser derrubada a qualquer momento. Por isso, guerra total ao ateísmo e aos ateus consequentes que não vergavam a espinha perante nenhum deus. Eram soberanos, não súbditos. Os filósofos que iam por estes caminhos tinham a vida complicada. E muitas vezes acabavam mal. Que o diga o filósofo grego Sócrates, o da maiêutica, mestre de Platão. Hoje, porém, os ateus são bem-vindos dentro da Ordem Mundial do Dinheiro. E, se ilustrados, tanto melhor. O deus Dinheiro deixou de ver neles um perigo público. Integrou-os como seus colaboradores. Promoveu-os a Executivos das suas empresas transnacionais, gestores sem rosto das Bolsas, peritos em roubo/exploração cientificamente executada em grande escala, e a Executivos de Poder político, à frente de cada país. Basta ver como neste início do século XXI, quase todos eles são ateus, ou agnósticos. Só têm olhos e ouvidos para o deus Dinheiro, não querem saber para nada do deus das Religiões. Riem-se deles. E das suas liturgias da idade Média. São ateus ilustrados e, por isso, fazem-se rodear do luxo e da pompa que o exercício do Poder lhes recomenda e exige. Não combatem as religiões, embora não as sigam nem pratiquem. Vivem muito acima dessa gentalha e desses clérigos e pastores que ainda insistem em manter templos e outros santuários abertos e em funcionamento. Restos de um passado obscurantista que não mais voltará. Eles são ateus. Ilustrados. E fazem gala disso. Como se isso lhes conferisse um estatuto social de superioridade. O Dinheiro é o seu único senhor, a sua última referência na vida, senão mesmo a única. É claro que eles, como ateus ilustrados que são, não lhe chamam deus. Chamam-lhe simplesmente Dinheiro. Eu que isto escrevo em chave teológica jesuânica, é que digo deus-Dinheiro. Eles não. De contrário, teriam de assumir que já não eram ateus. Eram simplesmente idólatras, como os povos primitivos, só que agora idólatras ilustrados. Adoradores de um deus que se vê e que pode tudo, até comprar a consciência e matar a identidade dos seus seguidores. Mas ai de quem lhes chamar idólatras. Sentem-se ofendidos como aquelas virgens que o são perante os vizinhos pobres e iletrados, mas que na verdade são reserva de prazer sexual dos grandes Executivos. Púdicas virgens de dia, putas refinadas à noite. Nada que, nos séculos muito recuados, já se não fizesse, ao abrigo dos grandes santuários religiosos, onde residiam virgens que se prestavam a este mesmo papel, então, dito sagrado. Agora, pontificam nos palácios e nos hotéis de luxo, exclusivamente ao serviço dos grandes Executivos do deus Dinheiro, já que o das religiões e os seus Executivos passaram de moda, caíram em desuso, são só para multidões ainda não ilustradas... Os ateus, sobretudo, se ilustrados, já há muito que deixaram de ser problema para a Ordem Mundial do Dinheiro. Já não são mais o inimigo da Ordem Mundial do Dinheiro e dos seus Executivos. É até entre eles que o deus Dinheiro vai recrutar os colaboradores de que necessita para levar por diante a sua política e a sua economia, a sua propaganda e a sua educação. São ateus. E são ilustrados. Por isso, eficientes. Eficazes. Frios. Sem nenhum dos escrúpulos moralistas que o deus das religiões ainda incutia nos seus crentes e que lhes davam um certo ar de moralidade e de humanidade e aos crimes que regularmente cometiam, genocídios que fossem, como sempre foram as guerras, as cruzadas, as conquistas, as inquisições, a caça às bruxas. Dizimavam povos inteiros, mas tudo era feito em nome de deus, o das religiões. Os seus autores, em lugar de criminosos, eram heróis, recebidos, no regresso a casa, como heróis, condecorados como heróis. Não temos nós, os portugueses, orgulho em ter como nosso primeiro rei um tal Afonso Henriques, o Conquistador, por isso, ladrão e assassino? E aqueles que, na recente Guerra Colonial que o ditador Salazar desencadeou impunemente em três frentes de África - ainda há quem resista a chamar-lhe assim - mais se distinguiram em combate e em atrocidades contra os povos africanos não foram condecorados pelos seus chefes? E não aprendemos na História de Portugal a venerar os reis que, durante séculos, em uníssono com o clero católico romano, nos dominaram e viveram à custa do suor e do sangue do povo? E hoje, os Executivos do Poder político não o são com o voto da maioria que vota sistematicamente nos candidatos mais mafiosos e demagogos? Mas o deus Dinheiro jamais será capaz de aceitar na sua Ordem Mundial quem lhe resista e o desmascare e aos seus crimes. Quem testemunhe que ele é deus. Falso deus. Assassino dos povos. Mentiroso e pai de mentira. O ídolo número um. O Inimigo número um dos povos e do Planeta. Jamais ele tolerará a existência de mulheres, homens assim. E tais mulheres, homens, hoje, já não são os novos ateus ilustrados, pelo menos, a generalidade deles, quase todos idólatras, adoradores do deus Dinheiro, como os que integram os seus grandes Executivos. Hoje, tais mulheres, homens são as verdadeiras discípulas, os verdadeiros discípulos de Jesus, o Crucificado-que-vive-ressuscitado-entre-nós-e-connosco e trabalha dia e noite para derrubar a Ordem Mundial do Dinheiro e instaurar na História a Ordem Mundial do Deus Vivo, o Deus dos pobres e dos povos, que nunca ninguém viu nem jamais verá, mas que é mais íntimo a nós do que nós próprios. A Fé de Jesus, ainda mais do que a Fé em Jesus, é a única porta por onde Ele pode chegar a tornar-se consciente em cada ser humano, nos quais habita, desde sempre, sem que eles, na sua esmagadora maioria, tenham consciência disso. Fora desta Fé de Jesus, só há Idolatria, a do Dinheiro, a do Poder, a das Religiões. A Fé de Jesus é a porta por onde o Deus Vivo toca a nossa consciência. E nos faz nascer do Alto, do seu Sopro libertador e auto-gestionário, militante e sororal/fraterno, solidário e promotor de autonomia. Por isso, nada mais politicamente subversivo e conspirativo do que a Fé de Jesus. Onde ela acontecer, acontece o Homem/a Mulher, não mais o lacaio, o súbdito, o tolhido de medo. Nascemos de novo. Como ateus de todos os deuses que se alimentam de gente, o deus-Dinheiro, antes de mais, e os seus outros dois deuses menores, o deus-Poder e o deus-Religião. É por isso que a Fé de Jesus e quem dela já for portador e dela viver não têm lugar nesta Ordem Mundial do Dinheiro, coadjuvada pelos Executivos do Poder e das Religiões, também da Igreja, quando esta se traveste de religião, como sucede, pelo menos, desde o tempo do imperador Constantino. Vive nela, porque hoje não há outra, mas não é dela. Nunca o será. Vive nela, mas para testemunhar que ela é intrinsecamente perversa, mentirosa e assassina, o Pecado Organizado, o Perverso institucionalizado. Se os Executivos da Ordem Mundial do Dinheiro a não matam, nem quem dela é portador, fazem tudo por tudo, para a/o manter sem voz nem vez. Mal sabem eles que é desse modo que a Fé de Jesus mais se expande e frutifica na História. Sob outros nomes, é claro, como é timbre da Verdade que nos faz livres. Dentro da Ordem Mundial do Dinheiro, a Fé de Jesus sempre terá de viver em Deserto, em clandestinidade, sob pseudónimos. Ora, é por esta Fé, a de Jesus, que procuro ir. Em verdade, em verdade vos digo: Desde que ela aconteceu na minha vida, tudo o resto deixou de ter valor para mim. É como esterco. A começar pelos templos e altares, pelos santuários e palácios, pelas vestes talares e pelos títulos, pelos lugares de poder e pelos luxos, pelas liturgias religiosas ou seculares, como a que hoje decorre em Portugal, com os grandes Executivos da União Europeia e os seus cronistas-jornalistas de bordo e de corte, como principais figurões e oficiantes. Tanta ostentação e tanto luxo não conseguem esconder o Perverso que a Ordem Mundial do Dinheiro, que os pariu e alimenta a todos, intrinsecamente é. Mas a minha alegria só será completa, quando os povos da Europa e do resto do Mundo também passarem da fé em Deus, o ídolo, para a Fé de Jesus (que é mais, muito mais do que Fé em Jesus, também ela quase sempre idolátrica) e se tornarem dentro da ordem Mundial do Dinheiro dissidentes quanto ele, conspirativos quanto ele, livres e autónomos quanto ele, sororais/fraternos quanto ele, numa palavra, seres humanos completos quanto ele. É para que chegue progressivamente esse dia, que eu trabalho cada dia, como um menino. Porque Deus Vivo, o de Jesus, também trabalha. Dia e noite.

 


 

2007 DEZEMBRO 12

 

O presidente Lula, do Brasil, está a apodrecer em vida. O Poder entrou nele, apoderou-se dele como um Demónio não-mítico, mas real, e matou o militante operário e sindical que ele foi praticamente toda a sua vida, até chegar a presidente. O Poder fez isto, porque é Poder. Como tal, é mentiroso e assassino. Tem razões que a Razão não entende e muito menos o coração. Quando vi o meu amigo Frei Betto, dominicano leigo que nunca se vendeu por nenhum dinheiro, muito menos por trinta dinheiros, a acompanhar Lula presidente, como seu assessor para lutar contra a pobreza e as suas causas, fiquei surpreendido e cheguei a temer que, também ele, com essa sua decisão, tivesse assinado a sua sentença de morte política. Porque o Poder mata a Política. Come-a. Manipula-a. Corrompe-a. Põe-na ao serviço dele, o qual, por sua vez, está sempre ao incondicional serviço do Dinheiro organizado e acumulado. Quem pensar o contrário pode ter-se na conta de muito ilustrado, mas não passa de um ingénuo ilustrado, sem dúvida o pior e o mais perigoso dos ingénuos. Felizmente, o meu amigo Frei Betto não se vendeu ao Poder. E não aceitou tornar-se num assessor benfeitor, como o Dinheiro gosta que sejam os que vivem-com-os-pobres, mas sem nunca se mostrarem dispostos/determinados a acabar com a pobreza. O mais que o Poder permite é tolerar que tais militantes sejam benfeitores dos pobres, e não de todos, obviamente, mas apenas de alguns. E, ainda assim, é preciso garantir que as câmaras de televisão andem por perto, para mostrar ao país e ao mundo quanto o Poder é amigo dos pobres e quanto os pobres, por isso, devem ser gratos com ele. O meu amigo Frei Betto quis ser, como assessor do presidente Lula, o que sempre havia sido até então: militante com os pobres, mas contra a pobreza, com destaque, para as causas estruturais da pobreza. Depressa percebeu que esta sua postura, correctíssima do ponto de vista económico e a única que é científica (Verdade e Ciência Económica caminham juntas, tal como Mentira e Beneficência, mas só quando a Verdade vai junto com a Ciência Económica é que há humanidade em expansão, porque quando a Mentira vai junto com a Beneficência há humilhação humana em expansão e assassínio em série) era totalmente incompatível com o Poder que, por natureza, está, tem de estar sempre ao serviço do Dinheiro (quando calha de não estar em algum dos seus protagonistas, como aconteceu por exemplo com o presidente Allende, no Chile,