DIÁRIO ABERTO
2006 DEZEMBRO 21
Por estes dias, estou a enviar às pessoas dos meus contactos electrónicos uma Mensagem pessoal de Natal 2006. É um grito de alma. E de afecto. E porque o faço deste jeito tão contra a corrente? Entendo que precisamos urgentemente de Lucidez. E para mim que procuro frequentar a Escola de Jesus, o de Nazaré, a Lucidez de que precisamos não é uma nova Ideologia nem uma nova Doutrina, menos ainda uma nova Religião, ou uma nova Igreja: é uma pessoa de carne e osso, um ser humano, melhor, o Ser Humano integral, é o próprio Jesus. Não o menino jesus com que nestes dias os centros comerciais e todos os mixordeiros nos inundam e nos vão ao bolso; nem sequer o menino jesus das liturgias das Igrejas, as quais, no seu sadismo litúrgico, já se preparam para, daqui a uns três meses, o matarem e exibirem morto, mais uma vez; mas o Homem Jesus de Nazaré com a sua Prática política libertadora e integradora que os grandes do Sinédrio e do Templo de Jerusalém e do Império de Roma mataram e constituíram como o Maldito da História (não lhe perdoaram que ele, em lugar de os reconhecer e adorar, os denunciasse a todos perante o povo como o Perverso), mas a quem Deus, o seu Deus, ao ficar incondicionalmente do seu lado contra eles (= ressuscitá-lo dos mortos), constituiu como o Senhor da História. É deste Jesus e do seu Projecto feito Prática política que precisamos. E do seu Espírito em nós! Será que, depois destes dois mil anos de imparável actividade religiosa e eclesiástica para no-lo esconderem e travestirem, ainda conseguiremos chegar a ele? Temos que conseguir. Porque é dele, é de Jesus, o de Nazaré, da Luz/Lucidez que ele é, que precisamos. Não do travesti que, ao longo dos séculos, fizeram dele, para que nunca chegássemos a descobri-lo/segui-lo/ser como ele (O meu livro O outro Evangelho segundo Jesus Cristo, edição Campo das Letras, pode dar uma ajuda para chegarmos até ele). É, pois, com essa Mensagem que vos deixo até aos primeiros dias de 2007. Pensem nisto. E conversem com outras pessoas.
Companheiras / Companheiros,
é este o meu voto teológico de Natal 2006:
1. Confesso que estou cansado do natal que o Templo e o Império em uníssono insistem em impor todos os anos às pessoas e aos povos em todo o mundo. Já não suporto mais estes natais. Enojam-me. Dão-me vómitos. São hipocrisia a rodos. São mentira que nos oprime e aliena. São natais que nos roubam a alma, a identidade, os afectos, a ternura, o tempo. São natais que nos exploram até ao osso. Inclusive, o pouco dinheiro que ainda conseguimos ganhar com o suor do próprio rosto é-nos extorquido nestes dias com requintes de fina selvajaria pelas blasfemas catedrais de consumo, plantadas em espaçosos e feéricos centros comerciais sem um pingo de humanidade, todos a abarrotar de coisas, a maior parte delas inúteis que compulsivamente adquirimos e carregamos para casa, como uma cruz sem redenção, numa desesperada e inconsciente tentativa de enchermos os buracos da alma que só afectos desinteressados e tecidos com os fios da Verdade e da Graça poderão preencher sem nos ficarem a pesar ainda mais. Temos fome de asas para voar e empanturram-nos com embrulhos de papéis coloridos e reluzentes fitinhas, para que nunca cheguemos a descobrir que é de Projecto e de Utopia que precisamos para ser/viver. Verdadeiramente, estes natais do Templo e do Império são o nosso pesadelo, a nossa desgraça, o nosso inferno. Ou nos livramos deles, já este ano e para o resto das nossas vidas, a fim de nos tornamos pessoas constitutivamente livres e festivas, humanas e sororais/fraternas, ou acabamos reduzidos, aos quarenta/cinquenta anos de idade, abaixo de embrulho, abandonado num qualquer lar de terceira idade, desses muitos que o actual Governo de José Sócrates, pelos vistos, está empenhado em espalhar por todo o país, como bidões de lixo à espera de Godot!
2. Confesso que já não percebo nada. Há dois mil anos, o Templo e o Império uniram-se para matar/crucificar o Homem Jesus de Nazaré que então os perturbava e enfurecia, devido às suas práticas políticas libertadoramente solidárias e fecundamente insurreccionais a favor das inúmeras vítimas que ambos produziam em nome de Deus, da Lei, da Religião, da Ordem. E não é que hoje, passado todo este tempo, o Templo e o Império continuam unidos, mas agora para nos fazer adorar como um deus mítico esse mesmo Homem Jesus que os dois furiosamente mataram/crucificaram? O facto, só por si, diz bem do Perverso que são o Templo e o Império e que nós, na ingenuidade e na superficialidade do nosso viver quotidiano, teimamos em reverenciar, na pessoa dos seus poderosos chefes, ao mesmo tempo que acatamos e cumprimos todos os seus decretos, como ordens do próprio Deus. Seremos assim tão cegos, que não vemos toda a marosca que a encenação democrática, em que nos obrigam a viver, habilmente esconde e que, hoje, o Templo e o Império juntos querem impor a todo o custo a todos os povos da terra, nem que seja à custa de criminosas e hediondas guerras como a que continua presentemente em curso no Iraque? Será que já nem com o coração conseguimos ver? E se nem com o coração vemos, ainda somos humanos?
3. Com as coisas neste pé, eis o meu voto teológico de Natal 2006, em cinco alíneas: a) temos, como Humanidade, de resgatar Jesus, o de Nazaré, das garras mentirosas e assassinas do Templo e do Império; b) temos que aprofundar, com a inteligência e o coração porque é que o Templo e o Império juntos tiveram tanta necessidade de matar Jesus e daquela maneira; c) temos que aprofundar porque é que o Templo e o Império correram depois a fazer de Jesus um mítico deus que os seus sacerdotes e teólogos obrigam todos os anos a nascer e a morrer; d) veremos então erguer-se diante da nossa consciência o Homem Jesus em toda a sua originalidade e singularidade, assim como a sua Causa política, a única que, se for acolhida e praticada pelos povos, humanizará/salvará os seres humanos e a própria Natureza, nossa Casa comum; e) começaremos de imediato a ser mulheres, homens ao jeito do Homem Jesus e, em comunhão com o seu Espírito, prosseguimos a sua Causa política entre as vítimas do Templo e do Império, e com elas. Até que Deus, o de Jesus, nos ressuscite/dê razão, como ressuscitou/deu razão a Jesus!
Fiquem com a minha Paz e o meu Afecto.
Mário, presbítero da Igreja do Porto.
P.S.
Podem, obviamente, fazer chegar este meu voto a outras pessoas das vossas relações. Pede-se apenas que refiram a sua origem.
2006 DEZEMBRO 18
Acabo de protagonizar com os meus novos amigos e companheiros, Rita, especialista em restauro de arte sacra, e Alexandre, especialista em medicina veterinária, mais as respectivas famílias e os amigos íntimos de ambos, num total de cerca de 60 pessoas, a bênção matrimonial para a qual os dois me haviam convidado, poucos dias depois do JN me ter dedicado a rubrica semanal, “O que é feito de si?”, editada aos sábados, na última página. Rita, divorciada de um primeiro casamento canónico, realizado em circunstâncias de todo impróprias para fazer dele o sacramento de Deus que o ritual da Igreja católica mecanicamente diz que é, num automatismo manifestamente insensato e irresponsável, e mãe de um filho a entrar já na pré-adolescência, foi a primeira a ler a pequena e despretensiosa crónica do jornal e ligou de imediato ao seu noivo a dizer-lhe da sua expectante alegria e a avançar uma sugestão que logo concretizaram: temos de fazer tudo para encontrar este padre católico, porque um homem que tem este percurso de vida e esta visão da realidade humana e social deverá entender bem a nossa situação e poderá aceitar o nosso convite a acompanhar-nos com a bênção de Deus e da Igreja católica por ocasião do casamento civil que estamos decididos a realizar. Conseguiram o meu contacto telefónico, a partir da minha página na Internet e ligaram de imediato para mim, a marcar um encontro, na casinha alugada onde vivo presentemente, aqui em Macieira da Lixa.
À hora marcada, entraram-me pela porta dentro, como uma primavera e foram logo directos ao assunto. Na circunstância, falou mais a Rita, sempre apoiada pelo Alexandre que lhe bebia as palavras, numa manifestação de intenso afecto e comunhão que não é habitual topar hoje nas pessoas, nem mesmo em circunstâncias como estas. Na cabeça de ambos, tudo batia certo. E diziam-no com convicção e exuberância de gestos e de festa. Escutei-os como ao próprio Deus que me tivesse entrado pela casa dentro e quase chorei com eles de cólera evangélica, quando Rita relatou os passos já dados por ambos junto de alguns párocos, sem que nenhum deles se tivesse revelado capaz de colocar as pessoas de carne e osso que ambos são à frente da lei eclesiástica e do Código de Direito Canónico. Um dos párocos contactados ainda terá admitido a possibilidade de atender o desejo deles, mas em condições objectivas de desumanidade e de indignidade que ambos recusaram liminarmente. Segundo essas condições, os dois teriam de dirigir-se no dia combinado à respectiva igreja paroquial, de madrugada ainda bem escuro, só eles e, uma vez lá dentro com o pároco, fechada a porta, este dar-lhes-ia a solicitada bênção católica. Nada de convidados, nem de familiares, nada de festa, nada de cantos e de danças, nada de banquete nupcial. Apenas a bênção católica na mais cruel das clandestinidades. Fiquei horrorizado com o relato e perguntei com um sorriso na voz: Depois de semelhante experiência eclesial, vocês vêm até mim, na esperança de que eu aceite associar-me ao vosso casamento civil com a festa da bênção da Igreja e de Deus, o de Jesus? Os olhos de ambos brilhavam como outros tantos sóis nos seus rostos expectantes voltados na direcção dos meus. Iluminaram-me a inteligência e aqueceram-me o coração. O curto silêncio que se seguiu foi apenas para melhor se poder ouvir a boa notícia que rebentou dentro de mim e me saltou imparável dos lábios: Mas é óbvio que aceito o vosso convite! Podem, pois, contar comigo e passar a boa notícia às pessoas vossas amigas.
Rita e Alexandre emocionaram-se até às lágrimas abundantes. Levantaram-se numa explosão de alegria e de festa e envolveram-me num abraço, o primeiro de muitos, que já era expressão da bênção de Deus. Foi como se, desde o big-bang, todo o processo evolutivo do Universo tivesse acontecido para se chegar a este Momento de graça e de verdade. Com ele, a Liberdade afirmou-se inequivocamente sobre a Lei. As pessoas de carne e osso afirmaram-se inequivocamente sobre a Tradição eclesiástica. A Graça rasgou o Código de Direito Canónico. A Misericórdia ignorou o Poder eclesiástico. E a Igreja católica que também sou/somos libertou-se do Sistema eclesiástico. Houve ainda mais um encontro aqui em casa, mas apenas para acertarmos alguns pormenores sobre o modo bem adulto de realizarmos/celebrarmos a festa nupcial. Sempre no fecundo e saudável clima da liberdade das filhos, dos filhos de Deus que nos vem de Jesus, o de Nazaré.
E tudo acaba de ser consumado agora, no passado dia 16 de Dezembro 2006, a partir das 17 horas, na conhecida Casa dos Maias, uma sossegada e acolhedora casa de campo, já preparada para acolher acontecimentos desta natureza, na freguesia de Castêlo da Maia, no Grande Porto. A celebração a que presidi foi toda criada de raiz para este Acontecimento único e irrepetível. Todas as pessoas sem excepção fizeram questão de entrar no salão, previamente decorado com simplicidade e aquecido para o efeito. Quando entrei no salão, estranhei a disposição das cadeiras para os noivos e para mim. A que me estava destinada aparecia isolada de frente para a mesa e para as duas cadeiras dos noivos e para a assembleia. As dos noivos colocava-os sentados do outro lado da mesa, de frente para mim, mas de costas voltadas para a assembleia. Não pude aceitar semelhante disposição dos lugares. E modifiquei tudo de raiz. Foi o primeiro sinal de dignidade que dei a todos os presentes, antes de mais, aos noivos. Coloquei as cadeiras destinadas aos noivos, lá onde os organizadores haviam colocado a minha, de frente para a mesa e para a assembleia; e a minha coloquei-a à direita da mesa, ligeiramente à frente e de frente para a assembleia, de onde me poderia dirigir tanto aos noivos como à assembleia.
A nova disposição, só por si, dizia que, naquela celebração/bênção nupcial, os protagonistas principais eram os noivos. Eu estava ali apenas como quem serve, ao jeito da parteira. Toda a atenção deveria estar centrada nos noivos, não em mim, ainda que eu viesse a estar no uso da palavra durante muito mais tempo, mas sempre como quem serve e prepara o terreno para que as palavras e os gestos dos noivos adquirissem visibilidade e se tornassem verdadeiro Sacramento de Deus vivo e criador. E assim aconteceu.
Enquanto falei, Rita e Alexandre, a rebentar de alegria, ali estavam diante de todas as pessoas como os verdadeiros protagonistas do Acontecimento de Salvação que todos celebrávamos em Igreja, longe dos templos e dos altares. Deste modo, todas as pessoas puderam acompanhar com emoção os gestos de ternura que ambos trocavam entre si, com a simplicidade e a naturalidade duma menina e dum menino, enquanto bebiam todas as minhas palavras. Eu próprio me senti como um menino mais, um menino-servo, e as palavras saíram-me de dentro com convicção, simplicidade e transparência. Havia-as escutado e escrito da parte da manhã para as dizer naquele Momento, mas elas brotavam-me de dentro, quentes de ternura, naquela hora.
Emocionante e verdadeira revelação de Deus vivo, foi o Momento em que Rita e Alexandre se disseram, perante mim e toda a assembleia, com as palavras e os gestos que muito bem entenderam e que vinham do mais fundo de ambos, que se queriam como marido e mulher, como esposa e esposo. Alexandre deu a Rita a oportunidade de se declarar primeiro e só depois ele se pronunciou. São palavras e gestos tão densamente humanos e verdadeiros, que não me atrevo a escrevê-los aqui. Prefiro manter umas e outros gravados no meu coração para sempre. Toda a assembleia irrompeu depois numa salva de palmas, acompanhada de risos e outras manifestações de incontida alegria que os corações da Rita e do Alexandre nunca mais deixarão de escutar, também e sobretudo, nos momentos de escuridão e de dor com que a vida dos seres humanos, com maior ou menor frequência na História, habitualmente se tece.
Casamento civil, afinal, não chegou a haver. E ao que me disseram os noivos ainda nem é certo que venha a haver. Pelo menos, por agora. Chegou a estar previsto ser na mesma ocasião, logo a seguir à celebração/bênção. Porém, os próprios noivos, à medida que interiormente se preparavam para o grande Momento, deram-se conta de que a celebração/bênção só por si seria bem mais significativa e decisiva para as suas vidas. E não quiseram fazer misturas. Em qualquer altura da sua vida de casal, o casamento civil poderá ser então realizado, mas apenas como quem regulariza perante a sociedade civil a sua união já celebrada/abençoada e consumada. No mais íntimo da sua consciência, esta celebração/bênção é que os marca para sempre e dá sentido às suas vidas de casal. Fiquei ainda mais feliz, quando percebi que eles, na última conversa que mantiveram comigo aqui em Macieira da Lixa, o que mais queriam valorizar era a celebração/bênção acompanhada maieuticamente por mim. E assim se fez para alegria de todas as pessoas que os acompanhámos neste passo. Essa alegria era bem visível em todos os rostos. E muitas foram as pessoas, entre os familiares dos noivos, convidados e até aquelas pessoas que garantiam o bom funcionamento dos serviços complementares à festa, que se me dirigiram, das mais velhas às mais novas, a testemunhar que a celebração/bênção as havia profundamente tocado e edificado. Tenho a certeza de que todas sem excepção, também a irmã da noiva e o seu companheiro brasileiro que vieram propositadamente do Brasil, serão agora, nos dias que se sucederem arautos da boa notícia, para glória de Deus, o de Jesus, que prefere a Misericórdia à Religião, o Amor a todos os nossos próximos aos rituais de culto nos templos.
A ceia nupcial consumou a inolvidável bênção/celebração, realizada na primeira sala. As pessoas foram distribuídas por diversas mesas redondas, com a do novo casal de frente para todas as outras. Os repórteres de imagem não tinham mãos a medir para fixar pormenores de toda a celebração e da ceia, bem como da dança com que tudo culminou, noite dentro. Um músico tocava e cantava ao vivo para nós. O serviço de mesa foi impecavelmente conseguido, numa comunhão a fazer lembrar o relato evangélico das bodas de Canã. Com uma diferença abissal. Aqui, nunca faltou o vinho, o melhor vinho. Porque, felizmente, desde o princípio ao fim, o Espírito de Deus – o melhor vinho – que historicamente pudemos conhecer/experimentar em plenitude na prática misericordiosa de Jesus, o de Nazaré, crucificado pelos hipócritas cumpridores da Lei de Moisés, pelos moralistas sacerdotes do Templo de Jerusalém e pelo cínico representante do Império de Roma na Judeia, nunca nos faltou do princípio ao fim. Verdadeiramente, este Acontecimento foi de libertação e de salvação. E a prova é que todos os que o protagonizámos, noivos, familiares, amigos, pessoal da casa, repórteres de imagem, músico e eu próprio, demos connosco a crescer em humanidade e em fraternidade/sororidade, em alegria e em paz. Verdadeiramente, este 16 de Dezembro de 2006 foi o primeiro dia do resto das nossas vidas. Bendito seja Deus, o de Jesus, que esconde estas coisas aos clérigos das paróquias católicas e aos teólogos da Cúria romana e do Império, e as desvenda/revela aos que, como meninas, meninos, se abrem ao seu Espírito criador e libertador.
Quando regressei a casa, já perto da meia-noite, vinha fisicamente sozinho na carrinha, mas o meu coração pulava de alegria e continuava ainda na festa que se prolongou até às tantas, sempre animada pela Rita e pelo Alexandre, a explodirem de contentamento. Antes de me ausentar da sala, ainda passei, uma última vez, por cada uma das mesas, por mais uma palavra e por mais um gesto de ternura. E ainda tive oportunidade de dizer para um microfone que um dos amigos do casal me colocou na frente, em jeito de curta entrevista que estava a ser filmada por uma câmara em tudo idêntica às das televisões, da piedade que sinto pelos meus colegas de presbiterado, párocos de profissão, com mais de clérigo e de funcionário eclesiástico do que de presbíteros da Igreja. A sua condição de funcionários eclesiásticos rouba-lhes a liberdade de protagonizarem Acontecimentos de salvação como este que eu acabei de protagonizar juntamente com a Rita e o Alexandre, os respectivos familiares e outras pessoas suas amigas mais íntimas. Por isso, todos eles, duma maneira geral, são tão tristes e ostentam aquele característico ar pesado que já se lhes colou ao corpo e que não tem nada a ver com o Evangelho ou Boa Notícia de Deus que é Jesus, o de Nazaré. Felizmente, para mim, não fiquei a estagnar/apodrecer numa paróquia. Aliás, quando estive em duas pequenas paróquias da diocese do Porto, fui mais anti-pároco do que pároco, até que acabei fora delas, não fora da Igreja que muito amo. E hoje, perante acontecimentos como esta celebração/bênção que acabo de viver, só posso concluir que o Espírito de Jesus é que me tem feito saudavelmente rebelde, para, deste modo, poder ser verdadeiro irmão e companheiro do rebelde dos rebeldes, Jesus, o de Nazaré, a quem Deus ressuscitou e o constituiu Senhor da História.
Deverei concluir aqui esta minha crónica com sabor a reportagem teológica. E faço-o da melhor maneira, com a partilha das palavras que escutei/escrevi para dizer e que efectivamente disse na celebração/bênção nupcial. Elas não são a celebração/bênção. Simplesmente, ajudaram a fazer acontecer a celebração/bênção nupcial, toda ela Acção do Espírito de Jesus ressuscitado, que nos deixou, a mim e a todas as pessoas que a testemunhámos ao vivo, em intensa Eucaristia. Ei-las.
Na minha qualidade de padre/presbítero da Igreja do Porto, a viver longe dos templos e dos altares, mas próximo das pessoas que sofrem toda a espécie de ostracismos e de exclusões, também os ostracismos e as exclusões impostos pelo Código de Direito Canónico da Igreja católica romana, aqui estou a dar-vos a boas-vindas a todas, todos vós, nas pessoas da Rita e do Alexandre. Bem-vindas, bem-vindos a esta celebração/bênção que é acontecimento de salvação. Que a Alegria seja a roupa com que nos vestimos; a Liberdade seja o Ar que respiramos; a Paz seja o Pão que iremos comer juntos ali na sala ao lado desta; e o Amor seja a Música que nos faz cantar e dançar.
Estamos reunidos em nome do Amor que, como suspeitareis, é o verdadeiro Nome de Deus, o de Jesus; não em nome da Lei, menos ainda da lei eclesiástica, nem em nome do Poder, menos ainda o Poder eclesiástico. Apenas em Nome do Deus-Amor. A Lei é para os menores e para os manter menores a vida inteira; o Poder é para os poderosos e para fazer súbditos, vassalos, escravos os povos. Somos filhas, filhos da Liberdade. E é como seres humanos responsáveis, isto é, livres, que aqui estamos. Este é, por isso, um Acontecimento para adultos, onde as crianças também são bem-vindas, porque livres, embora ainda não responsáveis. Sem as crianças no meio de nós, o mundo não teria sentido nem futuro. E futuro é o que mais queremos para a Rita e o Alexandre!
Não trago rituais para fazer convosco. Trago afecto e palavras companheiras, sororais, fraternas. E abraços e beijos. E toda a minha vida de padre/presbítero para dar/partilhar. Sou, quero ser um homem-para-os-demais.
Rita e Alexandre! Soubeste de mim pelo JN, na rubrica “O que é feito de si?”. E correstes a ter comigo em Macieira da Lixa, onde vivo. Convidastes-me para partilhar convosco a bênção matrimonial. Eu disse logo que sim e vós até chorastes de comoção e de alegria. A bênção de Deus que desejáveis já começou a acontecer nesse instante nas vossas vidas e na minha.
Hoje, venho aqui dizer-vos que não sou eu quem vos abençoa. Sois vós quem me abençoa a mim. E a todas, todos quantos aqui estamos a convite vosso. Sou o portador desta boa notícia.
Este é, por isso, um Momento único na História da Humanidade. Irrepetível. E vós sois os protagonistas maiores dele. A bênção de Deus-Amor está a PASSAR por vós e de vós para nós e para toda a Humanidade. A prova irrefutável de que assim é, é que estar aqui convosco faz-nos mais humanos, mais fraternos, mais felizes. Como meninas, meninos. Sede assim todos os dias do resto das vossas vidas!
O amor que vos une e vos faz dar este passo tão fora da Lei e do Poder, mas tão dentro do Deus-Amor e da Humanidade, converte-vos em Sinal, Sacramento de Deus. Neste dia, sabemos mais e melhor quem é Deus, graças a vós: Deus é o Amor que vos une e vos faz Homem e Mulher, esposa e esposo, uma só carne, um só Projecto de vida para bem da Humanidade. Casais, não apenas para vós, mas para a Humanidade. Sede bênção viva de Deus no meio do Mundo! Sei que sereis. E por isso me alegro e louvo a Vida que vos fez nascer e chegar até aqui.
A esta bênção viva de Deus que sois para nós e connosco, deixai que junte, como alimento para vós e para nós que vos acompanhamos como testemunhas desta Páscoa/Passagem de Deus, a palavra inspirada do Livro bíblico Cântico dos Cânticos, capítulo 7, 2-14. Deixai-vos surpreender com ela. Disse “surpreender”, não disse escandalizar. Deixai-vos surpreender e expulsai de vós todas as catequeses terroristas e moralistas da vossa infância sobre Deus, na sua relação com os seres humanos. Escutai com o coração e com a inteligência. E vede-vos assim um ao outro, como o amado e amada do poema bíblico, todos os dias da vossa vida, mesmo quando os anos já pesarem e forem visíveis os desgastes nos vossos corpos, causados pelo peso dos anos.
(Neste momento, pequei na Bíblia que tinha sobre a mesa e proclamei com toda a solenidade, voltado para os noivos)
“Ele:
Quão formosos são teus pés nas sandálias, ó princesa!
As curvas dos teus quadris parecem colares, obra de mãos de artista.
O teu umbigo é uma taça redonda. Que não falte o vinho doce!
O teu ventre é monte de trigo, todo cercado de lírios.
Os teus seios são dois filhotes gémeos de uma gazela.
O teu pescoço, uma torre de marfim.
Os teus olhos, as piscinas de Hesbon, junto às portas de Bat-Rabim.
O teu nariz é como a torre do Líbano, de vigia voltada para Damasco.
A tua cabeça ergue-se como o Carmelo e os teus cabelos são como púrpura; trazem um rei cativo dos seus laços.
Como és bela, como és desejável, meu amor, com tais delícias!
Esse teu porte é semelhante à palmeira, os teus seios são os seus cachos.
Pensei: Vou subir à palmeira, vou colher dos seus frutos.
Sejam os teus seios como cachos de uvas e o hálito da tua boca perfume de maçãs.
A tua boca bebe o melhor vinho!
Ela:
Que o melhor vinho escorra por sobre o meu amado, molhando-lhe os lábios adormecidos.
Eu pertenço ao meu amado, e o seu desejo impele-o para mim.
Anda meu amado, corramos ao campo, passemos a noite sob os cedros; madruguemos pelos vinhedos, vejamos se as vides rebentam e se brotam as romãzeiras. Ali te darei as minhas carícias.
As mandrágoras exalam o seu perfume, à nossa porta há toda a espécie de frutos, frutos novos, frutos secos, que eu guardei para ti, ó meu amado!”
(Momentos depois, prossegui)
Apetece ficar em silêncio e em contemplação perante semelhante Palavra de Deus! Verdadeiramente, o Amor é Deus; e Deus é Amor. Em todas as dimensões. Também na dimensão erótica, sensual, sexual. Vivei esta dimensão do Amor intensamente como casal. Sem esquecer, entretanto, que a dimensão maior do Amor, a sua dimensão mais fecunda e mais decisiva, é a dimensão política. Descobrireis, depressa, que o Amor que termine na soleira da porta da vossa casa, ou, pior ainda, na soleira da porta do vosso quarto de casal, não terá pernas para andar. Vivei então intensamente a dimensão erótica, sensual, sexual do Amor, mas para melhor viverdes todos os dias a dimensão política do Amor. Falo de Política, não de Poder. E por Política entendo o que Jesus, o de Nazaré, também entende, não, evidentemente, o que entendem e fazem hoje os políticos profissionais: cuidar dos seres humanos e da Terra, sublinho a traço carregado, da Terra; bater-se até à exaustão, para que todos tenham vida e vida em abundância; para que os bens produzidos cheguem a todos conforme as necessidades de cada qual; e para que nenhuma criança que nasce fique sem crescer em idade, estatura, sabedoria, cultura e em graça/liberdade.
Vou calar-me, para que a palavra mais decisiva desta celebração/bênção nupcial seja vossa, feita de palavras e de gestos, abraços e beijos, como entenderdes. E para que entregueis reciprocamente as alianças. Sei que estais emocionados. E quando assim é, as palavras saem a custo. Os grandes momentos das nossas vidas são vividos em silêncio. Mas esta é a vossa hora, a hora de dizerdes, perante mim, padre/presbítero da Igreja do Porto, e perante todas estas companheiras, todos estes companheiros que convidastes e que tendes como a vossa família alargada, que vos quereis como marido e mulher, esposa e esposo, para o resto das vossas vidas. Dizei-o, pois, com palavras e gestos, as palavras e os gestos que muito bem entenderdes. E nós que vos acompanhamos com toda a nossa ternura, selaremos esta vossa entrega mútua com as palmas da nossa alegria e da nossa solidariedade incondicional.
(Durante alguns minutos, Rita e Alexandre, de pé, com o filho dela, um amor de menino, junto deles, surpreenderam-nos com os seus gestos e as suas palavras. O Momento foi de revelação de Deus-Amor. Inesquecível e fecundo. E, quando voltaram a sentar-se, prossegui, quase a concluir)
Não há livro de registo deste momento eterno. Nem é preciso. A vida a valer, os actos dos seres humanos, quando são a sério, ficam registados na consciência de quem os protagoniza. Duram para lá da própria morte. São eternos como o Amor. Só os actos hipócritas é que precisam de livro de registo. Para quê? Para poderem ser facilmente rasgados, quando der jeito! Pelo contrário, este vosso acto é carne da vossa carne, sangue do vosso sangue. Por isso, digo aqui solenemente: Não separe o Poder o que o Amor uniu para sempre!
Aproveito ainda este momento, para desde aqui, me dirigir a todos os ostracizados, elas e eles, do país e do mundo e anunciar-lhes este Evangelho de Jesus, que faço meu também:
Vinde a mim todos os que estais sobrecarregados com leis e tradições moralistas e hipócritas e eu vos aliviarei. Porque o meu jugo é suave e o seu peso é leve. Para isto nasci e vim ao mundo: para anunciar a Boa Notícia de Deus à Humanidade, a partir da mais empobrecida e oprimida. Contai comigo sempre. Estarei sempre convosco!
(Quando, já parecia que a celebração/bênção nupcial havia concluído, pedi mais um minuto. E convidei todas as pessoas a rezarem comigo o Salmo 6, do Livro dos Salmos, mas numa versão Século XXI, que ofereci, depois, ao novo casal, juntamente com o meu livro autografado, O outro Evangelho segundo Jesus Cristo. Fez-se então um grande silêncio e aconteceu a oração dita por mim)
SALMO 6
1 Toda a Tua cólera vai inteira contra o Sistema
que me sufoca e não me deixa ser eu própria
eu próprio como Tu queres que eu seja.
2 Cobres-me de beijos quando mais me vês
fraquejar; por isso só Te louvarei se também sou
capaz de cobrir de beijos quem me magoa.
3 A minha consciência passa por momentos
de angústia porque o Sistema me rodeia como
serpente a cuspir veneno contra mim.
4 É então para Ti que me viro e logo me dou
conta que antes de eu Te invocar já Tu me
envolves com a Tua ternura de Mãe/Pai.
5 Tu sabes bem que enquanto estiver prisioneiro
das garras do Sistema não poderei ser mulher
homem para os demais.
6 No Sistema só há privilégios que aprisionam
a Liberdade e manjares que transubstanciam
o Ser Humano em vassalo.
7 Por mais ouro com que eles se cubram jamais
os grandes ricos conseguirão disfarçar a tristeza
e a amargura em que vivem.
8 Não quero nada convosco príncipes do Templo
e do Império; nos soluços das vossas vítimas
é que eu escuto a palavra que me há-de fazer
mais humano.
9 Saiam ao meu caminho todas as vítimas
como a noiva sai ao encontro do seu noivo;
e deixemos os príncipes do Templo e do Império
a falar sozinhos!
2006 DEZEMBRO 15
Hoje, vou dar a palavra à Comunidade Cristã da Serra do Pilar, em VN de Gaia. O Pe. Arlindo de Magalhães é o presbítero que preside à Comunidade há mais de 25 anos. Não se trata duma paróquia católica. Mas é uma Comunidade Cristã canonicamente reconhecida pela Igreja que está no Porto. Congrega cristãs, cristãos do chamado Grande Porto. As celebrações litúrgicas acontecem no Mosteiro da Serra do Pilar, onde a acústica não é das melhores, mas onde os afectos são cultivados e a Palavra de Deus é proclamada e celebrada com inteligência e dignidade. O que, nestes dias que são os nossos, é coisa cada vez mais rara na Igreja católica romana que está em Portugal, com párocos reduzidos à condição tarefeiros em múltiplas paróquias, mais gestores de empresas de religião do que presbíteros da Igreja. E, se são párocos ainda na casa dos 30 e dos 40 anos, é um ver se te avias, no arrecadar/acumular dinheiro e regalias, como qualquer outro gestor, cuja empresa vá de vento em popa. Na Comunidade Cristã da Serra do Pilar, as coisas não são assim. O Pe. Arlindo tem sabido estar à altura dos novos tempos, nunca se instalou na rotina eclesiástica, cultiva a inteligência e procura estar bíblica e teologicamente em dia. Por isso, nestes dias de ateísmo e de idolatria generalizados, e de Igrejas-paróquias convertidas em santuários de missas rotineiras e sem profecia, a Comunidade Cristã da Serra do Pilar é um sinal de Deus levantado sobre o Rio Douro. Mesmo de fronte, do outro lado do Rio, está a Sé Catedral, com a Casa Episcopal ao seu lado e com o Seminário Maior um pouco mais abaixo. Mas quem conhece a Igreja que acontece na Comunidade Cristã da Serra do Pilar e na Sé Catedral, depressa concluirá que na Comunidade Cristã da Serra do Pilar a Fé de Jesus diz-se e vive-se muito mais de acordo com os sinais dos tempos do que na Sé Catedral. É por isso que quem, aos domingos de manhã (a partir das 11 horas), entra no Mosteiro onde a celebração acontece, nem que seja por simples curiosidade, não precisa de deixar a sua inteligência nem a sua dignidade humana à porta. Querem uma pequena prova? Ora deixem-se surpreender com o texto integral da homilia proferida na Missa do passado dia 10 de Dezembro de 2006, 2.º Domingo do Advento. E, se quiserem saber mais pormenores sobre a vida da Comunidade, visitem o seu sítio na net: http://www.serradopilar.com
Ao longo dos séculos, experimentaram-se mil e uma maneiras de comunhão de bens. No entanto, ao menos no nosso Primeiro Mundo, as duas únicas dignas desse nome são e foram a Família e a Igreja. Na Família, uma comunhão de bens muito frágil, apesar de significada na partilha total de corpos e de vidas, mesmo nos tempos em que o casamento foi um negócio de bens ou interesses, políticos ou outros, e mesmo no casamento com separação de bens. E não entramos no capítulo da transmissão de bens, que aí (quase) nunca nem sequer a caridade foi/é admitida. Na Igreja, pela variedade de situações, de necessidades e de possibilidades, apesar de todos os abusos, hipocrisias e mentiras, sempre se tentou realizar o conselho de Jesus: “Vai, vende o que tens, dá-o aos pobres e depois vem e segue-me!” (Mt 19,21).
Mesmo aqui, há um antes e um depois. Desde os discípulos da primeira hora até ao fim do que se convencionou chamar a Idade Média, apesar de tudo, a comunhão de bens (que muitas vezes foi apenas circulação de bens) caracterizou as sociedades que a Igreja informava. Não era perfeito, é verdade. Até porque o Feudalismo, que foi um regime político e social (de grandíssimas implicações económicas), acabou por ser um terrível vício que quase ia matando a liberdade da Igreja. Mas o pior aconteceu com a chegada do capitalismo: a partir daí, de facto, a Igreja nunca mais se encontrou ao nível da Comunhão de Bens. O que não quer dizer que se tenha desprezado a pobreza evangélica. Há muitas ordens religiosas e muitos grupos de cristãos que vivem realmente pobres. Mas, diz a intuição popular melhor que ninguém, os frades são pobres mas a ordem é rica. É que pobreza pessoal é uma coisa e comunhão de bens (interpessoal) é outra. E a comunhão de bens e a sua partilha (e não apenas do supérfluo, que esse não me pertence) é mais difícil que ser e viver pobre.
Por isso mesmo, e apesar de muitos e edificantes exemplos, o ruído de dinheiro à volta do altar (Maritain) foi sempre muito contestado mas também sempre uma realidade. E, na Igreja, ao dinheiro que há, é sempre preciso perguntar: donde vem?, Como vem?, E para que vem? (ou seja: em que se gasta?). Nas dioceses vai havendo dinheiro à custa de missas, emolumentos e taxas de todo o género e feitio, licenças, autorizações, dispensas, etc, mas não há Comunhão de Bens. Nas paróquias, idem aspas. E o Sr. Abade, num sistema que felizmente está a chegar ao fim, tem as côngruas, os emolumentos, os estipêndios, as taxas e as esmolas; quando morrem [os senhores abades] aparecem logo os sobrinhos…; agora fazem-se festas com o P. Borga e outras que tais, para a Igreja, claro, para fazer obras na igreja e noutros sítios e, entretanto, nunca houve nem há dinheiro para pagar ao sacristão e não digo a quem mais!
De facto, a Igreja não é uma Fraternidade, os cristãos não são fraternos, e o Pão da Eucaristia que se parte não é sacramento já não digo de Comunhão de Bens, digo simplesmente de Partilha.
Devia haver uma Lei que obrigasse os cristãos a partilhar e assim se mudaria o sistema - dizem os mais radicais. Nada disso: quem quiser partilhar, faz favor, pode fazê-lo à vontade - respondem logo do outro lado os defensores de um pluralismo tão grande que cabem nele, Deus me perdoe!, os que morrem de indigestão e os que morrem de fome.
E na sociedade? Caridade! - dizem uns, os ricos normalmente. Justiça - dizem os que fazem as revoluções, e todos os que se sentem e são injustiçados de facto. Na prática, possibilitaram-se foi sociedades impossíveis onde a acumulação se tornou monstruosa nas mãos do Estado, senhor de todos os bens, e de todos os poderes, ou de alguns poucos, acumuladores de profissão. O capitalismo a gerar pobres e marginalizados; o socialismo de Estado a reduzir povos inteiros a proletariados colossais; num lado e no outro a minoria privilegiada a acumular Poder e Lucro.
Por mais que o não queiram dizer, por mais que o Estado puxe pelas percentagens, a verdade é que o aumento mensal das reformas da pensão da maior parte não chega para pagar o whisky do senhor ministro no almoço do dia seguinte àquele em que o anunciou.
E a lei não deveria intervir a impedir a acumulação? Mas o que pode fazer a lei para além de fazer leis, de multar, castigar, prender e condenar? O Estado não dispõe do único instrumento que faz o progresso Social: partilhar o produto. Só o amor tornado cultura, isto é, só semeando a terra de Verdade, de Justiça e de Paz, isto é, só o amor a que os cristãos chamam caridade pode dividir o pão e o vinho como sinal duma terra nova. E mesmo aí!... Ou não é verdade que até o sabor do pão é muito mais fácil de dividir que o espírito do vinho?
Eu não queria cair no pecado de jogar com as palavras. Mas é preciso reconhecer, mesmo que nos doa, que a ética cristã peca tradicionalmente por um individualismo exagerado. Se eu me porto bem, mesmo que, depois disso, continue a estar tudo mal, já não é nada comigo. No entanto, modernamente, foi-se tomando consciência de que o indivíduo não pode, com a sua passividade e o seu silêncio, consagrar uma situação social injusta. Os moralistas há já muito que começaram a falar de pecado social, de estruturas de pecado, da dimensão estrutural do pecado. Mas nunca se poderá esquecer que, no fundo, as estruturas de pecado são fruto de uma acumulação de pecados pessoais e que entre a conversão pessoal e a mudança das estruturas há uma grande relação: «a originalidade da mensagem cristã não consiste directamente na afirmação da necessidade de uma mudança de estruturas, mas na insistência na conversão do homem que tem como consequência essa mudança. Não haverá uma terra nova sem novas e renovadas estruturas; mas, sobretudo, não haverá terra nova sem homens novos que, à luz do Evangelho, saibam ser livres e responsáveis» (Medellín, Justiça 3).
A questão é assim: não podemos mudar as estruturas, nem sequer com os nossos votos. E que podemos fazer - se é que podemos! - no nosso quotidiano que inverta o sentido mortal do espírito que corre e informa o tempo e mundo? Ou temos de engatar na cantiga - Gastar como os outros, consumir como quase todos, desperdiçar como hoje se faz, negar ao outro o que a nós nem falta nos faz? Não temos mesmo nada de novo, de evangélico, a instalar no nosso mundo?
Em termos de efectiva partilha, de solidariedade - sim, senhor! - de fraternidade, que é a palavra que define a nossa condição. É costume entre nós, no 2º domingo do Advento, deixarmos para a Partilha Fraterna a totalidade das ofertas da celebração. Assim se fará hoje, apesar do estado lastimoso das finanças da Comunidade. Jesus recomendou-nos que fôssemos pobres. Mas, ao menos, que não acumulemos!
2006 DEZEMBRO 11
1. Ontem houve encontro da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa. É sempre durante a tarde do 2.º domingo de cada mês. Na Casa da Comunidade, que é simultaneamente casa da Maria Laura, a presbítera não-ordenada da Comunidade, e dos seus dois filhos mais novos que ainda vivem com ela. A população da freguesia, na sua esmagadora maioria, continua a ignorar o Acontecimento, que é experimentado/testemunhado por nós como de libertação e de salvação. Inclusive, as pessoas que, ao longo do tempo, mais têm beneficiado da intervenção/missão libertadora da Comunidade na freguesia. Não estranho que assim seja. Pelo contrário, vejo neste facto um sinal que autentica ainda mais a Comunidade. Tem sido sempre assim a postura das populações, através dos séculos, em relação ao Acontecimento de Salvação por antonomásia, que é Jesus Crucificado, constituído o Senhor da História pela sua ressurreição. Toda a revelação bíblica, nomeadamente, o Novo Testamento põe esta postura em realce. A Luz veio ao mundo, mas as populações que fazem parte dele preferem a Treva à Luz. O mundo, na sua visibilidade maior, tem sido e continuará a ser o reino do Império, do Poder. As populações conhecem essa realidade na sua carne e, perante ela, tornam-se instintivamente pragmáticas. Não arriscam meter-se pela via que as torne livres e inevitavelmente à intempérie. Decidem-se sempre pela bênção e pela protecção do Poder e dos poderosos contra a liberdade à intempérie. As populações sabem que quem entre elas não tiver a marca da Besta, do Poder, do Império, ficará sempre sozinho, ou quase. E não querem pagar esse preço. As populações bem intuem que é pela Luz que PASSA a liberdade, mas preferem manter-se na Treva do status quo, para estarem sempre de bem com os do Poder (numa freguesia do interior que coincide com os limites da paróquia católica, o respectivo pároco ainda continua a ser o Poder mais temido, perante o qual até os autarcas se curvam. Quem achar que exagero, que venha verificar). Nunca chegarão, é certo, a ser populações com o brilhozinho nos olhos, prerrogativa das mulheres e dos homens livres como Jesus. Preferem ser populações resignadas e vassalas, a vida inteira, mas saberem ao certo com o que podem contar todos os dias. O próprio Jesus, o de Nazaré, conheceu esta realidade como ninguém. A sua vida tornou-se até paradigmática para todos os seres humanos, em todos os tempos e culturas. Dele diz o Evangelho de João, precisamente aquele que mais e melhor penetrou no âmago de Jesus, que nem os seus conterrâneos nem tão pouco os seus familiares o reconheceram e acolheram. "Veio para o que era seu, e os seus não o receberam. Quase todos preferiam manter-se integrados na multissecular Ordem do Império, do Poder, a deixar-se fazer pelo Espírito de Deus Criador que nos quer livres e que habitou ininterruptamente em Jesus. Ninguém convide as populações a serem livres. A princípio, elas acharão piada e darão alguns passos nessa direcção, mas depressa desistem, e recuam. Se tiverem dado um passo à frente, nos dias da euforia, darão depois dois ou três passos atrás, quando constatarem que os do Poder, que elas têm, erradamente, como os mais abençoados por Deus não vão por esse apelo Boa Notícia que vem do Espírito de Deus. Aliás, se é apelo do Espírito de Deus, então só pode ser de um Deus diferente daquele que os do Poder (re)conhecem e que os abençoa nos seus privilégios. E logo voltam a alinhar por eles e com eles. Como quem pede desculpa pela momentânea infidelidade. No fundo, as populações do que mais têm medo é de serem livres. E o que mais desejam é estar de bem com os poderosos, os influentes, os que mandam no mundo, ou simplesmente na sua aldeia.
Tal como os anteriores, também o nosso encontro de ontem foi uma intensa e fecunda experiência no Espírito de Jesus. Pareceu-nos, até, que ontem ainda foi mais do que noutras ocasiões. Cada encontro mesnal, realizado em nome e em memória de Jesus, é um Acontecimento de salvação. Não tem nada que se assemelhe às tradicionais missas nos templos paroquiais. A Palavra com Espírito inunda-nos e liberta-nos a consciência. Faz-nos nascer do Alto e ficamos cada vez mais interiormente disponíveis para o serviço libertador e para sermos um dom para os demais. No encontro, não fazemos oração. A oração é que nos faz. Não nos dirigimos a Deus. Deus é quem misteriosamente se dirige a nós e nos envia em missão a favor do mundo. O mundo, como tal, não acolhe Deus, mas Deus acolhe-o incondicionalmente. E é sempre para o mundo e para as pessoas que o habitam que Deus envia aquelas, aqueles que aceitam reunir-se em nome e em memória de Jesus, o seu filho predilecto, o único em quem Ele, até hoje, conseguiu ser plenamente Deus.
Toda esta experiência dentro de nós acontece num ambiente de simplicidade. Do princípio ao fim do encontro, a palavra anda à solta entre nós. Somos todos protagonistas à volta da Mesa da Comunidade. Nem damos pelo tempo passar. Cantámos e rimos. E às vezes chorámos emocionados. O Espírito de Jesus é quem conduz o encontro. E sabemos que é Ele, pelos frutos que o encontro produz. Crescem em nós e entre nós a ternura e o afecto. E tornamo-nos mais humanos, à medida que o encontro se desenvolve, e de encontro para encontro. Da fé em Jesus, passámos progressivamente para a Fé de Jesus, a única que nos faz sair (êxodo) da alienação e do medo para a consciência crítica e autocrítica e para a responsabilidade, o outro nome da Liberdade. A Fé em Jesus ainda pode ser religiosa e fonte de alienação. A Fé de Jesus é o ponto mais alto do desenvolvimento do ser humano. Faz-nos homens/mulheres ao jeito de Jesus e no mesmo Espírito. Mais do que elevar-nos até Deus, abre-nos ao Mistério que é Deus (e, nEle, às vítimas e aos últimos da História) para que Ele possa habitar-nos e ser Deus em nós e através de nós. É o que o Evangelho de João chama “adorar o Pai em espírito e verdade”. Uma operação/acção que não tem nada a ver com a religião e tem tudo a ver com a Espiritualidade (que, por sua vez, tem tudo a ver com a Política). Quando toda a Humanidade chegar a este patamar mais elevado do desenvolvimento humano que é a Fé de Jesus, Deus pode já nem ser invocado sobre a terra, porque Ele é para sempre e em todos Deus-em-nós-e-connosco, como aconteceu paradigmaticamente em Jesus, o de Nazaré. É para aqui que cada encontro mensal da Comunidade Cristã de Base de Macieira da Lixa nos “puxa” e nos disponibiliza. Por isso, se quiserem viver connosco esta experiência, não se façam rogadas, rogados. Ao 2.º domingo de cada mês apareçam, depois do almoço, pela Casa da Comunidade, que será também a sua casa.
2. Pinochet. Morreu o ditador chileno. Com ele, morreu a Ditadura. Não de todo, obviamente. Porque a Ditadura que faz os ditadores é mais do que cada ditador em concreto. As populações chilenas celebram de regozijo nas ruas. É compreensível. Mas por mim prefiro fazer memória de todas as muitas vítimas do ditador. Em silêncio. Em meditação. Ao mesmo tempo que choro o desastre humano em que se tornou o ser humano Pinochet. Caiu, desde muito cedo, nas malhas do Poder e do Império norte-americano. E o Império arrancou-lhe as entranhas de humanidade e fez dele um monstro ao seu serviço. O homem que era tornou-se um monstro. Não foi o primeiro. Nem será o último. A História, enquanto for segundo o Poder, em lugar de ser segundo o Amor, sempre produzirá os seus monstros. O Império de turno só subsiste com eles à frente dos destinos das nações. Cabe às nações resistir-lhes e ao Império. E cabe a cada ser humano que se preze resistir às seduções do Poder e do Império. Quando todos os seres humanos formos homens/mulheres ao jeito de Jesus e segundo o seu Espírito, o Império deixará de ter quem se deixe enfeitiçar pelas suas seduções. Nessa altura, a Humanidade terá alcançado o topo do seu desenvolvimento e iniciar-se-á uma Nova Terra, sem males e sem dores, a Terra da Sororidade/Fraternidade.
Com a morte do ditador Pinochet, já está mais perto esse Dia, hoje, ainda distante. Olhemos de frente o ditador que acaba de morrer. Para vermos nele o que poderemos vir a ser, se como ele nos deixarmos seduzir pelo Poder e pelo Império. E eduquemos as novas gerações para serem mulheres e homens ao jeito de Jesus, constitutivamente políticos, não religiosos, bem à altura das responsabilidades que o Planeta e a vida humana e a vida em geral exigem de nós, pilotos que agora somos da Evolução, essa mesma em que um dia acontecemos também, precisamente para assumirmos tão nobre missão política. Os ditadores, quando aparecem, fazem adoecer/apodrecer o mundo e pervertem-no. Só os seres humanos como Jesus salvarão o mundo.
O ditador Pinochet morreu. Será que Bush, o ditador dos ditadores, vai dar-se conta de que o chão que pisa já lhe está a fugir de debaixo dos pés? As vítimas da iníqua guerra do Iraque que ele criminosamente desencadeou contra o sentir dos povos do mundo estão a cavar a sua sepultura. Que já vai funda. A minha esperança é que quando esse dia chegar, o tirano que o Império criou dê finalmente lugar ao ser humano. Formulo o mesmo voto para o ditador Pinochet que acaba de morrer. É impossível? Sem dúvida! Mas o que é impossível aos homens é possível a Deus, o de Jesus! Eu creio. E saibam que esta Fé, que tem o seu fundamento na Fé de Jesus, dá sentido aos meus combates de todos os dias. E às vítimas do Poder e do Império dá Esperança, até se tornar Insurreição.
3. Ainda a lei de despenalização do aborto. Nestes dias, estiveram em Portugal duas mulheres de fala inglesa. Frances Kissling e Norma Corvey. O referendo à lei trouxe-as ao nosso país, a convite de organizações cívicas que defendem o SIM e o NÃO. Não pude estar presente em nenhum dos encontros em que elas estiveram como activistas, respectivamente a favor do SIM e do NÃO. Limitei-me a acompanhar pelos jornais. E devo testemunhar aqui que houve mais sacramento de Deus nas posições e nos argumentos da activista a favor do SIM à lei de despenalização do aborto do que na activista a favor do NÃO. Esta, pelos vistos, já foi activista do SIM e terá contribuído decisivamente há 30 anos atrás para fazer aprovar a lei de despenalização nos Estados Unidos. Converteu-se mais tarde ao catolicismo romano. E, pelos vistos, perdeu humanidade, entranhas de humanidade. Tornou-se dura. Cínica. E cega. Não vê que agora a utilizam e manipulam confrangedoramente. Tão pouco vê toda a hipocrisia que se esconde por baixo do discurso cheio de moralismo e vazio de misericórdia dos frenéticos e nervosos militantes do NÃO. Hoje, ela própria mais parece um farrapo humano da mulher que foi. O catolicismo romano (não confundir com catolicismo/Cristianismo de Jesus) tem o triste condão de tornar as almas mais pequenas. Aliás, todas as ditaduras, também as religiosas e eclesiásticas, são assim. Como são incapazes de promover a consciência e a liberdade/responsabilidade das pessoas, no caso em questão, das mulheres que engravidam e dos respectivos companheiros, querem a toda a força que não seja aprovada uma lei como a lei de despenalização do aborto. No entender dessa gente com alma de fariseu, a aprovação da lei criará uma situação de rebaldaria!... E os abortos passarão a ser feitos com a frequência e o à vontade de quem entra num café depois do almoço! Não são capazes de entender, estes católicos, elas e eles, que a lei, se for aprovada no referendo, passará a estar aí, sim senhor, mas só recorrerá a ela quem, sem ela, não deixaria de recorrer ao aborto clandestino, realizado nas condições inumanas que se conhecem. Porque todas as mulheres, felizmente, a esmagadora maioria, a quem a prática do aborto nunca se lhes coloca, nem sequer como hipótese, continuarão a comportar-se nas suas gravidezes com a mesma dignidade de antes, como se a lei não existisse. Pobre Norma Corvey, minha irmã, o que estão a fazer de ti os meus irmãos católicos do NÃO. Na sua militância moralista contra a lei de despenalização do aborto, já fizeram abortar/secar em ti as entranhas de humanidade. Oxalá voltes a reencontrar-te com a Liberdade que é irmã da Misericórdia.
2006 Dezembro 07
Fui de propósito a Lisboa participar numa conferência-debate sobre a lei de despenalização do aborto que vai a referendo no dia 11 de Fevereiro de 2007. O convite veio de Estudantes da Faculdade de Direito de Lisboa, na Cidade Universitária. A sessão, invulgarmente concorrida, decorreu na tarde do dia 5, num dos seus anfiteatros e prolongou-se por quase 4 horas ininterruptas! Nunca antes eu havia entrado naquela Faculdade. Foi por isso com alguma emoção que cruzei as suas portas e me vi no meio de tantos jovens, elas e eles. Na mesa, havia três defensores do “não”, dois professores da própria Faculdade de Direito e uma senhora que integra um daqueles grupos auto-designados de “defesa da vida” que se agitam muito, sempre que a despenalização do aborto aparece como uma possibilidade na sociedade portuguesa. Não podem ouvir falar em semelhante possibilidade. E batem-se contra ela e pela manutenção do status quo. Do lado do “sim”, éramos apenas dois. O meu companheiro é também professor naquela Faculdade de Direito. De todos os convidados que aceitaram participar no debate, só eu é que fui de longe, aqui de Macieira da Lixa, onde resido. Fui e vim de comboio, Caíde – Lisboa e Lisboa – Caíde. Quando me deitei, eram já 2 horas da madrugada do dia 6. Mas valeu a pena.
Ia a contar ter no debate, a defender o “não”, um colega meu, padre de Lisboa. Mas, segundo os promotores, quando ele soube que eu também tinha sido convidado e aceitara participar do lado do “sim” recusou-se a estar presente. O caso tem algo de insólito, mas é mais uma confirmação do que eu já sei há vários anos: que para a generalidade do clero católico eu sou um presbítero a evitar. Como os leprosos do tempo e do país de Jesus. Aos seus olhos, não passo de um “impuro” que os “puros” ou “não-impuros” devem cuidadosamente evitar. Nem sequer para me contraditarem, aceitam sentar-se comigo. A estratégia da instituição eclesiástica católica é essa. Evitar-me. Ignorar-me. Não me reconhecer, nem sequer para me denunciar ou desacreditar. É mais do que desprezo. É negação pura e simples. Recusam-se a admitir que eu existo. Detestam-me até esse ponto, o que prova que para além de ódio teológico há também ódio eclesiástico! Não são todos assim, felizmente. Eu sei por experiência directa. Mas a generalidade dos clérigos é assim. As poucas excepções só confirmam esta regra. Os que se têm na conta de representar a instituição eclesiástica aceitam com mais facilidade debater com pessoas de outras confissões do que com irmãos da mesma Igreja, quando estes se assumem como dissidentes dentro dela. Deveriam alegrar-se e acolher o desafio da dissidência na Igreja, mas não. Acham, erradamente, que dissentir na Igreja é dissentir da Igreja. E, na prática, excomungam com quem mais deveriam comungar. Ou esquecemos que as cristãs, os cristãos somos discípulos do dissente dos dissidentes, Jesus, o de Nazaré?
Entre os muitos jovens presentes, no espaçoso anfiteatro, deu para perceber que havia uns três diferentes, todos juntos, com o ar de candidatos ao presbiterado na Igreja, porventura, integrados numa congregação religiosa masculina. O modo de vestir, idêntico, e toda a postura dos seus corpos era inconfundível. Pois bem, quando, numa primeira ronda, a palavra me foi dada, logo a seguir a dois outros intervenientes, um do “não” e outro do “sim”, logo aqueles três jovens se ergueram das suas cadeiras e abandonaram a sala, com todo o ar de quem o fazia para não ter de me escutar. Não sei se frequentam aquela Faculdade, ou se vieram propositadamente da Universidade Católica para assistir àquela sessão. Ainda os olhei com afeição, como quem lhes dizia “Fiquem! Não se vão já embora!”, mas não resultou. Foram-se, de semblante fechado, a fazer-me lembrar aquele homem rico dos Evangelhos Sinópticos, a quem Jesus convidou a vender todos os seus bens e a dá-los aos pobres, para depois o seguir e à sua Causa do Reino/Reinado de Deus, mas sem resultado. E fiquei preocupado por eles. Porque se as suas fronteiras se limitam às eclesiásticas, em lugar de coincidirem com as do Reino/Reinado de Deus, onde padres dissidentes na Igreja como eu também têm lugar, temo pelo seu futuro. Como poderão vir a ser arautos do Evangelho de Deus, revelado na prática libertadora e dissidente de Jesus?
O debate causou-me bastante sofrimento. O discurso dos defensores do “não” parece passado a papel químico. Apresentam-se como os “puros”, os “defensores da vida”, os únicos que salvaguardam os princípios da “moral”. No caso concreto deste debate, com uma agravante: Como os que se revelaram mais “falantes” são docentes na Faculdade de Direito de Lisboa, onde decorreu o debate, os seus discursos facilmente resvalavam para o que eu mais temo em pessoas especializadas em leis e não em relação humana, em afecto, em misericórdia. Os seus discursos fizeram-me lembrar os dos fariseus do tempo e país de Jesus. As suas posturas, em relação às mulheres que na sua consciência decidem abortar, foram típicas, neste debate, de quem estava ali com as mãos cheias de pedras para lhes atirar. Nenhuma sensibilidade, nenhuma ternura, nenhuma compreensão, puro dogmatismo, puro moralismo, puro legalismo. Quase chorei de dor, perante tamanha crueldade. E pude entender melhor toda a cólera de Jesus perante os fariseus e os seus sucessivos “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas”. E não resisti a deixar aos jovens estudantes de direito lá presentes o alerta de Jesus, de que a lei é para o ser humano, não o ser humano para a lei. Ou eles assumem, vida profissional fora, que a lei maior é o ser humano de carne e osso e as suas circunstâncias concretas, ou poderão vir a ser eficientes carrascos ao serviço do Poder, da Ordem, da Lei, do Dinheiro.
Deu para perceber, logo de entrada que a minha presença, como padre católico, do lado do “sim” incomodou vivamente os do lado do “não”. Nem que eu não tivesse falado, só a minha presença no debate os perturbou. E terá contribuído para as intervenções dos defensores do “não” serem ainda mais contundentes, a roçar pelo cinismo. Foi por isso que sofri. Porque não há nada que mais me faça sofrer do que o cinismo, a crueldade, o desprezo, a insensibilidade perante as vítimas. A determinada altura, cheguei a dizer, perante o que me era dado ouvir dos do lado do “não” que para eles as mulheres que em consciência decidem abortar não existem como pessoas, sujeitos de direitos e de deveres, são apenas coisas, barrigas de aluguer, objectos que os machos irresponsavelmente engravidam e, depois, ainda lhes exigem que levem a gravidez deles ao fim, sob pena de irem para a cadeia, se se recusarem a fazer-lhes a vontade, expressa em leis que eles escreveram e aprovaram, e em julgamentos a que eles presidem e onde dão as sentenças! Tudo fizeram, com visível diplomacia, para que eu me amedrontasse e me atrapalhasse. Em vão. Felizmente, em ambientes deste género, sempre me apresento e estou como um menino e, quanto mais me tentam humilhar e desacreditar, mais humanamente atrevido eu me torno. Armado apenas com a couraça da verdade, da humanidade, do bom senso, da ternura. Não é também por aqui que vai Jesus, o dos Evangelhos? E não sou eu um discípulo de Jesus? No final, houve jovens que se me dirigiram com muito afecto e gratidão. Haviam-se revisto nas minhas palavras e na minha postura. Nunca mais esquecerão este debate. Quem sabe se ele não vai marcar positivamente as suas vidas profissionais amanhã?
Na impossibilidade de reproduzir tudo o que disse no debate, partilho aqui a comunicação inicial que escrevi durante a viagem no comboio, rumo à Faculdade de Direito de Lisboa. Eis.
Tal como todos os bispos católicos portugueses, também eu, presbítero da Igreja do Porto, sou contra o aborto. Acho, até, que todas, todos os que estamos aqui neste debate também somos. É uma posição que todo o ser humano em seu juízo subscreve. Não é preciso ser crente católico ou ateu. Basta ser mulher, homem.
Mas os bispos católicos em bloco – pelo menos, é esta a imagem que fazem passar para a comunicação social, quando se reúnem em Fátima – são contra a lei de despenalização do aborto (IVG); e eu sou a favor da lei. É aqui que divergimos. Muito legitimamente, aliás. É a lei que nos coloca em campos opostos. No campo dos princípios, eu poderia estar com os bispos católicos. Mas não é isso que está em jogo no Referendo do dia 11 de Fevereiro de 2007.O que está em jogo é se uma mulher, a seu pedido, pode interromper uma gravidez que, no entender da sua consciência, não deve ir em frente; se, no caso dela avançar nessa decisão, pode recorrer aos hospitais públicos para abortar em condições de segurança e sem riscos maiores para a sua saúde e, assim, ficar em condições de poder protagonizar novas gravidezes desejadas e achadas oportunas por ela e seu companheiro; e se, depois de tudo isto, essa mesma mulher não tem de ser presa, levada a tribunal e condenada a vários anos de cadeia.
A lei que vai a referendo pretende abrir esta possibilidade, sobretudo, às mulheres pobres e mais oprimidas, de quotidianos muito difíceis; porque as outras mulheres, de nível social e cultural superior, não precisam que se lhes abra esta possibilidade. Quando decidem abortar, mesmo que votem "não" no Referendo, sabem muito bem onde há clínicas privadas e vão por elas, como quem dá um passeio à nossa vizinha Espanha.
A lei que vai a referendo pretende abrir esta possibilidade às mulheres. Não impõe a nenhuma mulher grávida o aborto! Pretende apenas dar às mulheres grávidas que em consciência decidiram abortar esta possibilidade de escolha e de prática. Para que as mulheres que decidiram abortar, nas primeiras dez semanas, não fiquem condenadas a ter de o fazer na clandestinidade, às mãos duma habilidosa abortadeira, em condições de vergonha e de desumanidade; ou, em alternativa, não tenham de recorrer a clínicas privadas interessadas exclusivamente nos lucros, geralmente chorudos, que arrancam às mulheres, em aflição, que as procuram. À semelhança do que também hoje fazem certas Igrejas recém-fundadas que invadiram o nosso país e que mais não são do que máquinas de fazer dinheiro à custa da dor humana dos mais desvalidos e desamparados da sociedade.
Por mim, não quero que um mulher que em consciência decidiu abortar tenha, como única saída, o aborto clandestino, feito em condições traumáticas que podem tornar infecunda para o resto da vida aquela que o faz, tantas vezes, ainda jovem, ou mesmo adolescente, e que, por razões as mais diversas, engravidou contra a sua vontade. Nem que a razão mais forte tenha sido a irresponsabilidade ou a leviandade ocasionais. Numa sociedade humana, não apenas animal, quero que a mulher embaraçada com uma gravidez não programada e não projectada tenha outra porta aonde bater e que essa porta sejam os estabelecimentos de saúde pública. A lei que vai a referendo é isso que proporciona às mulheres grávidas que em consciência decidam abortar, dentro do período máximo das primeiras dez semanas. Por isso é bem-vinda. Já deveria ter sido aprovada há muitos anos.
Eu sei que há muitas outras questões em jogo, mas também sei que há muita hipocrisia que se esconde por trás dessas muitas outras questões. Não me perco nessa floresta de questões. Prefiro a simplicidade da verdade, o sim-sim/não-não que recomenda o Evangelho. Prefiro ir directo ao assunto. Acho que é mais pastoral e mais evangélico.
Os bispos católicos portugueses, infelizmente, não vêem assim. E escondem-se por trás do que eufemisticamente chamam "defesa da vida". Mas quem defende mais a vida, no caso concreto duma mulher que decidiu na sua consciência abortar? O que a atira para o aborto clandestino e para a prisão, ou o que lhe abre a porta do hospital público, em ambiente de humanidade, de afecto, de diálogo e de menos traumas? Nesta última via, a mulher não fica em melhores condições de saúde para poder programar uma nova gravidez desejada e levá-la ao fim? Aliás, conceber entre seres humanos não há-de ser diferente, não tem de ser diferente de conceber entre animais? Um acto de tamanha importância, como é gerar uma filha, um filho, não exige mais, muito mais do que o simplismo irresponsável de um "aconteceu e agora há que aguentar"?
É hipocrisia ignorar esta realidade e, em alternativa, defender que se deve investir tudo na prevenção, em lugar de ir a correr aprovar a lei de despenalização do aborto. O que eu defendo é: aposte-se tudo na prevenção, mas, enquanto continuar a haver mulheres que abortem às mãos de habilidosas abortadeiras, aprove-se a lei de despenalização e abram-se os hospitais públicos a estas mulheres de carne e osso e de vidas difíceis, como alternativa às abortadeiras e à clandestinidade. Não coloquemos as coisas em dijuntiva: ou-ou, mas em copulativa: e-e; não, prevenção ou lei de despenalização, mas, prevenção e lei de despenalização, pelo menos enquanto esta for necessária como mal menor. Acho que esta minha orientação pastoral está muito mais conforme ao Evangelho de Deus que Jesus, o de Nazaré, nos deu a conhecer mediante a sua prática cheia de misericórdia contra a insensibilidade/crueldade dos fariseus que, em nome da pureza legal, mantinham as pessoas, sobretudo, as mulheres na opressão e na menoridade e na impossibilidade de escolherem em consciência.
Antes de concluir, tenho que dizer aqui, no contexto deste debate sobre a lei de despenalização do aborto, e dizê-lo sem que a voz me trema, que cruel é o Direito Canónico da Igreja católica que condena com pena de excomunhão as mulheres que abortam; e já não condenaria com essa mesma pena as mulheres que, só para não serem excomungadas, decidissem levar a gravidez ao fim e depois matassem o bebé recém-nascido. Espantam-se? Mas é assim a crueldade do Código de Direito Canónico! Mas eu pergunto mais: E porque é que só o aborto tem pena de excomunhão e não todo e qualquer homicídio voluntário, nem as guerras, nem os ditadores? Não é porque só as mulheres podem escolher e decidir abortar, não os homens?
Digo mais: Insensíveis são os bispos católicos, para não dizer cruéis, que não querem que as mulheres sejam sujeito de direitos e de deveres, também em relação ao seu corpo e à sua sexualidade e para decidirem em consciência se hão-de abortar ou não. Querem-nas eternamente menores, súbditas, tuteladas, primeiro pelos pais, depois pelos maridos e, durante toda a vida, pelos párocos, bispos e papa!
Insensíveis são os bispos católicos, e muito pouco humanos, porque não são capazes de se alegrar com a emergência e a crescente afirmação da sociedade civil, feita de mulheres e homens em radical igualdade, que hoje já se revela capaz de legislar em matérias até há pouco reservadas a eles e ao papa de Roma. Por mim, alegro-me com estes avanços e acho que eles dão glória a Deus, o de Jesus, que nos quer cada vez mais adultos e responsáveis, capazes de decidir em consciência.
Vão, pois, por mim. E no dia 11 de Fevereiro de 2007, reconheçam às mulheres o direito a escolherem em consciência se hão-de levar a gravidez ao fim ou se hão-de interrompê-la no ambiente humano e afectivo de um hospital público.
Finalmente, à Igreja católica que também sou, nomeadamente, à sua hierarquia, peço que não se intrometa na consciência das mulheres, nem dos homens. Pelo contrário, ajude sem sectarismos e sem moralismos farisaicos a formar consciências humanas responsáveis. E o resto virá por acréscimo. Aliás, o que não for assim é pecado!
2006 DEZEMBRO 04
Tenho momentos em que só me apetece chorar. E, no entanto, nada nem ninguém me tiram a alegria que me faz e me veste todos os dias. Muito menos a Paz que me faz ser um homem saudavelmente conspirativo a todo o instante. Apetece-me chorar porque o Mundo que eu amo insiste em viver às avessas. Instalou-se na Mentira generalizada, servida por uma infernal máquina publicitária que deixa esmagado e quase sem fala e sem respiração cada menina, menino que vem a este mundo. A Mentira é hoje tão global, que podemos passar a vida inteira, do nascer ao morrer, a pensar que é luz a Treva que nos guia. Em quem tal acontecer, terá conhecido/ofrido o maior dos desastres e a maior das catástrofes pessoais.
À medida que as Igrejas cristãs, tanto as antigas como as recentemente instituídas por influência do perverso Sopro do Império norte-americano, deixam de viver casadas com a Profecia e passam a gastar o melhor do seu tempo, nos templos ou nos media, a blasfemar liturgicamente o Nome de Deus e a fazer fortuna sem quaisquer escrúpulos à custa das dores dos oprimidos e dos pobres, a luz do mundo e o sal da terra que por missão evangélica lhes compete ser, desaparecem progressivamente da História, e o Mundo fica cada vez mais entregue à Treva global e à Corrupção mais desenfreada e mais descarada. Uma Treva tão artificialmente iluminada, que deixa encandeados os olhos dos povos e os mantém cegos a vida inteira.
Perdemos então completamente de vista as vítimas da História e passamos a organizar as nossas vidas sobre a terra como se elas não existissem. E porque já não enxergamos as vítimas da História, apesar delas serem hoje milhares de milhões em todo o planeta, tão pouco somos capazes de escutar os seus gemidos e os seus clamores, pelo menos, daquele jeito tão salutar que nos dê um soco no estômago, nos atinja o coração e nos abra os olhos para vermos a Treva em que estamos a viver permanentemente à deriva e a fugirmos uns dos outros, como quem é puxado/sugado pelo vazio do Abismo, cada vez mais iminente. Só temos ouvidos para a publicidade que ininterruptamente nos invade por todos os lados e que tomamos por Verdade.
Dói-me o coração pelos seres humanos, meus irmãos. Por este andar, nunca chegarão a sair da alienação para a consciência crítica e autogestionária, nem da opressão para a liberdade e responsabilidade perante a História. Vivem, do nascer ao morrer, sob a perversa influência do sopro do Império, correm a encher/frequentar as suas liturgias nas catedrais do consumo, atordoam-se com as suas músicas sem amanhãs, vão de peregrinação a todos os seus lugares sagrados e sonham com o paraíso que está aí ao alcance de sucessivas ingestões de doses de droga.
Quando, por volta do ano 30 da nossa era, aconteceu Jesus nos caminhos da Galileia e na Judeia, as populações suas contemporâneas viram a Luz que saía da sua prática repleta de Misericórdia para com as vítimas e de vigorosa Denúncia/sereno enfrentamento dos seus carrascos, e perceberam, como num relâmpago, que até então sempre tinham andado a viver na Treva e na Mentira. Perceberam também que a paz do Império e do Templo era subjugação e vergonha. A experiência teve o sabor a Nova Criação e pode ter durado pouco mais do que o tempo de um relâmpago. Mas foi suficiente para que a Humanidade caísse na conta de que a luz do Império não passa de densa Treva e que a sua paz é subjugação e vergonha.
É desse Momento histórico ímpar e que tem a força da eternidade que também a Humanidade do século XXI pode resistir ao Império global que nos calhou em sorte, e inventar/criar caminhos de vida humana alternativos na Luz/Verdade e na Paz conspirativa que é Jesus, o de Nazaré. Sem se deixar enganar pelo brilho cada vez mais potente das luzes do Império, as quais mais não pretendem do que manter-nos permanentemente encandeados e cegos, do nascer ao morrer. E surdos perante as vítimas e uns perante os outros. Felizes aquelas mulheres, aqueles homens que se fazem como meninas, meninos e propositadamente se perdem dos mentirosos caminhos do Império, para se encontrarem na Luz que brilha para sempre na prática alternativa e radicalmente humana de Jesus, o de Nazaré. Ou ele não seja o Caminho, a Verdade e a Vida.
2006 DEZEMBRO 01
O que fica de concreto da viagem do papa Bento XVI à Turquia? Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma. Sim, eu sei que, para a História, fica um documento conjunto assinado pelos dois papas, o de Roma e o da Igreja Ortodoxa, mas que, depois de espremido, pouco mais é do que uma inócua declaração de intenções. Insistem, uma vez mais, no delírio eclesiástico das “raízes cristãs” da Europa, como se essa fosse a magna questão com que o velho continente está hoje confrontado. Também os jornais turcos mostram-se, finalmente, rendidos ao charme de Bento XVI, depois de terem assistido ao golpe de rins que ele teve de fazer para tentar ganhar a confiança dos turcos. Mas nada disso é para tomar a sério. Tudo não passa de chavões, de narizes de cera, de inofensivas mentiras, de hipocrisia diplomática, em que o Poder, todo o Poder, também o eclesiástico é perito, perante os seus súbditos. As grandes causas com que a Humanidade hoje se debate e os graves problemas que afligem a Europa bem podem esperar, indefinidamente.
Os dois chefes eclesiásticos mobilizaram à sua volta milhares de polícias, batalhões de jornalistas, trocaram abraços protocolares onde não se viu afecto a valer, nem fraternidade efectiva (o Poder não ama, apenas joga, lança armadilhas, movimenta-se no seu próprio tabuleiro, sempre a ver como há-de enfraquecer, neutralizar e esmagar o seu opositor). Todos os passos que Bento XVI deu, nestes dias, nunca nos fizeram pensar em Jesus, o de Nazaré, nunca nos remeteram para ele. Só houve afirmação do Poder. Nem sequer a liturgia uniu os dois chefes eclesiásticos. O mais que conseguiram foi pôr um, o anfitrião, a presidir a uma “missa” ortodoxa e o outro, o hóspede católico romano, a assistir da bancada. E, no dia seguinte, inverteram-se os papéis e quem ficou na bancada foi o anfitrião turco, enquanto o convidado romano presidia à sua missa católica. Se nem sequer o Deus dos cristãos os uniu, como há-de uni-los o Deus dos muçulmanos? O Poder é assim: não une, apenas divide, exclui, separa. Só o Amor une o que o Poder sempre divide e separa. O Poder não é capaz de orar, mesmo quando parece que sim. Exibe-se, como os fariseus outrora, afirma-se, arma-se como um pavão.
Viram nos telejornais toda aquela ostentação e todo aquele aparato litúrgico? O que havia ali de humano? Por mim, só vi vaidade, humilhação das pessoas que têm de assistir àquela exibição ou show do Poder. Deus presente naquilo? Mas que Deus? O de Jesus é que não é. Só o do Poder que existe para nos humilhar e subjugar a todas, todos. A menos que lhe resistamos com todas as forças. É o que, pessoalmente, procuro fazer, em comunhão com Jesus e o seu Espírito. Mas ainda não é o que fazem as populações em geral, educadas que foram e são para ver Deus no Poder. E, por isso, já nem se mostram capazes de se abrir ao Deus que se nos revelou definitivamente em Jesus, o de Nazaré. Falem-lhes no Deus do Império e do Dinheiro e logo terão fiéis aos milhões.
O Deus de Jesus não tem templos, nem exércitos, nem palácios, nem grandes media. Tem apenas os seres humanos, a começar pelos mais pequeninos e humilhados, dentro dos quais habita sem que ninguém dê por isso, nem os próprios. É a primeira vítima do Poder e do Deus do Poder, esse mesmo que, nestes dias, pudemos ver na Turquia, na pessoa dos dois papas, o católico romano, papa-universal, e o ortodoxo turco, papa regional. Cada qual no seu galho, no seu poleiro, evidentemente. E em aparente respeito mútuo, reconheço-te eu a ti, reconheces-me tu a mim e, assim, poderemos entender-nos e impor-nos aos nossos súbditos e até sermos aplaudidos por eles.
O que ficou desta viagem do papa Bento XVI à Turquia? O Poder eclesiástico católico romano e o Poder eclesiástico ortodoxo tiveram aqui e agora a sua grande epifania perante os muçulmanos da Turquia e do resto do mundo. Os media deram-lhes visibilidade e os povos sabem agora que eles existem e que é preciso tê-los em conta. Não os vimos diminuir e desaparecer, para que crescessem os indivíduos e os povos. Vimo-los afirmar-se com uma arrogância travestida de humildade. Sinal inequívoco que tudo aquilo num ambiente nos antípodas do ambiente onde se faz sentir o Espírito ou Sopro de Jesus.
Agora que os viram tão afirmativos e impositivos (até os turcos acabaram rendidos a seus pés!), os povos da Europa e do resto do mundo que se cuidem. Cuidemo-nos. Se formos pelo Espírito de Jesus, nunca nos renderemos a eles, mas também não os ignoraremos. Resistimos-lhes com toda a inteligência e com todas as nossas forças, sobretudo a força da nossa autonomia. Para que eles deixem de ter quem os sirva e quem se lhes submeta. E assim o nosso hoje se torne cada vez mais humano, mais nosso, mais dos seres humanos, mulheres e homens, e cada vez menos do Poder, de todos os tipos de Poder.
Para alguma coisa serviu então a viagem do papa Bento XVI à Turquia: para que a Europa e o resto do mundo cantem e dancem o Deus que vive em cada ser humano e mandem pró inferno o Poder, todo o tipo de Poder, que, deixado por aí à solta, sempre nos divide, humilha, infantiliza e ainda se faz passar por benfeitor! Maldito seja!