Diário Aberto


2005 DEZEMBRO 30

 

Segundo a ditadura do Calendário

estamos no final de um ano e no início

de um novo ano. O Criador criou-nos

eternos mas nós criamos o Calendário

e acabamos prisioneiros do Tempo

sempre na angústia do fim como

se o Tempo fosse começo e depois fim

 

O Tempo é começo sem fim. O Calendário

que criamos é que nos impõe limites

contamos os dias os meses e os anos

e vivemos na angústia do envelhecimento

como se envelhecer fosse um pesadelo

ou um castigo. Parecemos baratas tontas

a queimar as asas contra a chama da vela

 

Tudo o que nasce morre – ditamos

depois Carrancudos do alto do pedestal

da nossa Ignorância. Nem nos damos

conta que somos seres habitados

pelo Mistério e que nascemos para

explodir como as estrelas num viver

feito de contínua transformação

 

Na angústia do Tempo que se escoa

vivemos frenéticos vazios de Ser

corremos Seca e Meca por um baile

que nos impede de saborear a dança

que quer rebentar no mais dentro de nós

e porque temos mais olhos que barriga

nem vemos que nascemos para voar

 

Não me convidem para essas festas

sem festa para esses manjares sem

Eucaristia. Pela Partilha é que sou

o Sorriso é que me veste e a Paz

é a casa onde vivo todos os dias

com ela resisto ao frenesim e sou

um combatente que nunca se rende

 

Vivo de olhos postos no Invisível

que me acena no Oprimido e no Pobre

e me arranca da solidão e da angústia

até a Noite é feita de estrelas e o Dia

não tem ocaso. Quando expirar

não digam que morri. Digam que explodi

para prosseguir no meu viver sem fim.

 

Rasguem o Calendário que nos aprisiona

atrevam-se a ser no Tempo criadoras criadores

de Sororidade/Fraternidade e de Liberdade

deixem que o Sangue que nos corre nas veias

seja Amor criador que transforme cada mulher

cada homem numa irmã num irmão. E verão

como o Fim só pode ser um Novo Começo


2005 DEZEMBRO 22

Neste Natal de calendário que começou por ser, ainda antes de Jesus ter nascido, o natal do Deus "Sol Invictus" (Sol Vencedor), porventura, a maior festa religiosa pagã do Império Romano, e que a Igreja católica romana, no século IV, abusivamente transformou na festa de Natal de Cristo (não confundir com Jesus, o de Nazaré!...), anunciado pelo Profeta Isaías como o "Sol Iustitia" (Sol da Justiça), partilho aqui um Canto, quase-poema, intitulado NATAL, extraído do meu livro Canto (S) nas Margens, editado pela Ausência. Se quiserem, podem cantá-lo em família na Ceia de Natal, com a conhecida música de “Noite feliz”. É uma boa meditação que pode ser ponto de partida para uma salutar conversa.

Natal

1. Quem vem aí?

Quem há-de ser?

O Amor! A Verdade!

Poderosos fugi! Estais perdidos

Oprimidos cantai Liberdade

Nova Ordem nasceu

Somos irmãos e irmãs!

 

2. Hoje é Natal

nasce Deus-Sol

Céus e Terra cantem-dancem

Ai de quem poluir nossa Terra

Não é digno da Humanidade

Povos todos uni-vos

Por um Planeta azul

 

3. Vem meu irmão

vem minha irmã

vem pôr fim à Opressão

vem erguer um mundo de iguais

em redor duma mesa comum

traz contigo Perdão Paz

e será sempre Natal

 

4. Quem vem pôr fim

à Opressão

faz o mesmo que Jesus

seu agir é poema de amor

onde a festa rima com a dor

é de Paz seu viver

uma Explosão seu morrer

 

5. Como Jesus

também nasci

p’ra acabar co’a Pobreza

os pobres vou evangelizar

e eles hão-de passar a lutar

nasce então Novo Mundo

um mundo de comunhão

 

6. Com tanta dor

em teu redor

teu viver há-de ser

um combate uma festa sem fim

contra as causas de tanto sofrer

serás homem-mulher

bem ao jeito de Jesus

 

7. Quem como tu

já encontrou

o Caminho a Verdade

faz corpo com pobres e pequenos

no combate contra a Injustiça

leva Paz onde há Guerra

Revolução onde à paz

 

8. Queres viver

e ser feliz

mas que fazes tu por isso?

Só quem viva p’ra fazer viver

e fazer felizes outros seres

é que vive feliz

num mundo em transformação

 

9. Não falta quem

pelo Natal

dê ao Pobre um cabaz

esquece que ele nem só de Pão vive

e que é maior sua fome de SER

sê do Pobre irmão

e nunca mais há cabaz

 

10. Foi com Jesus

que eu aprendi

a não ser benfeitor

é preciso ser libertador

atacar as causas da pobreza

e nunca abençoar

quem tantos pobres produz

 

11. Com o teu corpo

e o meu corpo

geraremos Novo Mundo

em que os bens são partidos por todos

à mistura com a Liberdade

vence o medo de amar

e serás tu o Natal


2005 DEZEMBRO 16

Mas às crianças, senhores, porque as perverteis tanto? É este o meu grito de alerta perante o que os senhores dos grandes interesses instalados no país e no mundo estão a fazer com as crianças, a pretexto do natal. Multiplicam-se as festas de natal por toda a parte, com distribuição de prendas. Algumas têm direito a mediatização nas televisões. É um fartar vilanagem de promoção do consumo pelo consumo. As crianças que deveriam ser educadas na austeridade e na contenção de despesas desnecessárias, para garantirmos desde já um futuro alternativo ao nosso inumano presente, são cinicamente estimuladas ao consumo sem regras, o consumo pelo consumo, numa orgia que tem muito de loucura e de imolação colectivas ao deus-Mercado. E tudo apoiado por umas quantas senhoras, uns quantos senhores, com nome e cara na praça das revistas cor de rosa, disfarçados de pais natais, que cantam, gesticulam, distribuem sorrisos de hipocrisia, à mistura com umas lágrimas de crocodilo para português ver, falam em solidariedade natalícia e ainda lamentam que um natal assim não seja todos os dias do ano. As crianças arregalam os olhos, abrem os braços e as mãos e recebem o presente. A magia está sobretudo no invólucro, no papel colorido e no lacinho a condizer. O conteúdo deixa quase sempre a desejar. É um brinquedo sem qualquer valor pedagógico, mais uma bugiganga destinada à destruição quase imediata, muitas vezes, já nem dura até chegar a casa.

Os senhores dos grandes interesses instalados no país e no mundo ficam satisfeitos. Tomaram eles que um natal assim venha a ser todos os dias do ano, para que os seus negócios prosperem e eles fiquem cada vez mais ricos e também cada vez mais inumanos. Por sinal, é já para aí que as coisas estão a ser levadas. Mais alguns anos, não muitos, e o natal será todo o ano, com a distribuição a rodos dos produtos com defeito, ou cujo prazo de validade está a terminar, ou cujo padrão já está fora de moda. Não é para isso que existe já o Banco Mundial contra a fome? Não é para garantir uma boa distribuição de bodos diários aos pobres, às crianças pobres, às famílias pobres, aos sem abrigo, mas sempre, já se vê, sem nunca se atreverem a perguntar porque é que há pobres e quem é que os fabrica em massa? Deste modo, os senhores dos grandes interesses instalados no país e no mundo conseguem matar muitos coelhos com uma só cajadada. Promovem os seus negócios, passam por mecenas e benfeitores, sobretudo, anestesiam e desmobilizam os pobres e transformam as crianças em consumidores compulsivos, hoje de brinquedos e de guloseimas, amanhã de carros e de telemóveis de última geração, e de drogas. É a perversão no seu pior. Mas com os aplausos de toda a gente, mães e pais incluídos. E os apoios dos sucessivos governos.

As escolas e os ATLs, as Igrejas e as famílias, em lugar de resistirem a esta onda de consumismo compulsivo, acabam por alinhar e ainda dão uma mãozinha, cada qual à sua maneira. Ninguém quer saber da qualidade de vida. Apenas que haja cada vez mais coisas para consumir. Deste modo, os senhores dos grandes interesses instalados no país e no mundo são os pais natais da nossa inumanidade. São verdadeiros descriadores dos seres humanos, sem que ninguém lhes peça contas. A Polícia judiciária e as outras polícias nunca lhes saem ao caminho. Onde já se viu prender benfeitores? Benfeitores serão, mas nessa medida também descriadores dos seres humanos. Agem nos antípodas de Deus Vivo, que, como nos revelou Jesus de Nazaré, não desiste de nos criar à sua imagem e semelhança, criadores quanto Ele, livres quanto Ele, protagonistas quanto Ele, festivos quanto Ele, humanos quanto Ele, companheiros quanto Ele. Eles, ao contrário, fazem das crianças e dos adultos consumidores compulsivos, destruidores da harmonia ecológica, poluidores sem controlo, egoístas, violentos, gastadores, manejadores de armas a fingir e a sério, insolidários, escravos do Mercado. E tudo isto, num universo cada vez mais está convertido em imenso caixote de lixo. Mas que querem? É natal, é natal!

A escolha é nossa. Ou continuamos a educar as nossas crianças para serem, vida fora, consumidores cada vez mais compulsivos e egoístas, como querem os senhores dos grandes interesses instalados no país e no mundo, ou passamos a educá-las para serem criadores cada vez mais originais e em comunhão uns com os outros e com o próprio Universo. É que se formos criadores, em lugar de consumidores, também seremos sororais/fraternos e solidários. Seremos humanos. E em lugar de destruirmos o Universo, criamo-lo cada vez mais à nossa imagem e semelhança, por isso, como nossa casa comum, sem que ninguém tenha que ficar de fora. Produzimos e distribuímos/consumimos para viver, nunca mais aceitaremos viver para produzir/negociar e consumir, como sucede actualmente. Para nossa desgraça.

Se formos por aqui, ao fim de uma ou duas gerações, já estaremos a dar outra face ao nosso mundo. A face humana, fraterna e comunitária que hoje gritantemente lhe falta. E poderemos até começar a chamar de novo mais filhas e filhos à vida, por casal, para garantirmos futuros cada vez mais humanos e fraternos aos nossos sucessivos presentes.


2005 DEZEMBRO 10

Quarenta anos bastaram - completaram-se esta semana - para que o Concílio Vaticano II, que quis ser uma revolução copernicana na Igreja, fosse literalmente apunhalado e destruído pela Cúria Romana e por outros grupos católicos poderosos, altamente conservadores e reaccionários, ligados aos grandes interesses financeiros mundiais. Bem sei que houve reformas importantes que foram introduzidas, mas aquelas que foram as suas mais ousadas aberturas e as suas mais ousadas propostas de mudança na constituição da Igreja ficaram por realizar e hoje já ninguém parece acreditar que seja mais possível concretizá-las. A maior manifestação deste crime de lesa-Espírito Santo e de lesa-Igreja reside no facto de, 40 anos depois, a Igreja católica de Roma ter à sua frente, como papa da Igreja universal e como chefe de Estado do Vaticano, o bispo Ratzinger. Na verdade, este homem da Cúria Romana que, durante o longo pontificado de João Paulo II, mais crimes cometeu contra a Fé cristã jesuânica, nomeadamente na perseguição àqueles membros que mais se notabilizaram pela fidelidade ao espírito do Concílio Vaticano II e ao Evangelho de Jesus, acabou, à morte daquele, por ser catapultado para o lugar de chefe máximo da Igreja. Bastaram 40 anos. E  aí temos agora este eclesiástico, antónimo de João XXIII, o papa que sonhou o Concílio e o pôs em marcha, com uma humildade, um sorriso e uma liberdade bem-humorada que ninguém consegue vislumbrar no actual papa Bento XVI. Entre o papa que convocou e abriu o Concílio e o papa que comemora os 40 anos do seu encerramento, há um tremendo abismo.

Tenho para mim que, se Ratzinger também foi escolhido pelo Espírito Santo para ser papa (o que sabemos é que ele foi a grande escolha que João Paulo II fez ainda em vida e que conseguiu impor aos cardeais eleitores como o seu sucessor), então só pode ter sido para, através dele, levar definitivamente à ruína este modelo de Igreja católica romana e todo o aparelho eclesiástico que lhe serve de suporte, os quais se mantêm totalmente à revelia do Concílio Vaticano II. É impossível que o Espírito Santo, o de Jesus de Nazaré, se reveja neste modelo de Igreja católica romana e neste aparelho eclesiástico que lhe serve de suporte. Ora, o ex-presidente da Congregação para a Doutrina da Fé, agora papa de Roma, é a pessoa mais indicada para mostrar urbi et orbi toda a desumanidade deste modelo de Igreja e deste aparelho eclesiástico. Com ele à frente dos destinos da Igreja, o mundo ficará a saber até que ponto e em que medida este modelo de Igreja e o aparelho eclesiástico que lhe serve de suporte andam desprovidos de entranhas de humanidade. Tanto um como outro podem ser comparados àquelas talhas de pedra do episódio teológico das bodas de Canã, no Evangelho de João, totalmente vazias da água da misericórdia e da infinita ternura do Espírito de Deus Vivo.

Neste particular, distancio-me do pessimismo de muitas católicas, de muitos católicos que como eu também são dissidentes na Igreja (não da Igreja). Ratzinger é o papa que fazia falta para levar ao descrédito total este modelo de Igreja católica romana e o aparelho eclesiástico em que ele se apoia. Quanto mais depressa batermos no fundo do descrédito, mais depressa se desenvolverá o modelo de Igreja Povo de Deus e de Igreja comunhão, que o Concílio Vaticano II quis que acontecesse, depois dos 16 desastrosos séculos de Cristandade. Não basta implementar reformas e introduzir mudanças mais ou menos cosméticas neste modelo de Igreja que colocou Ratzinger a conduzir os seus destinos. É preciso substituir este modelo duma vez por todas. O Concílio Vaticano II chegou a apontar para este objectivo, quando disse a Igreja que haveríamos de passar a ser no terceiro milénio. Infelizmente, fê-lo de forma muito tímida e bastante ambígua. Não teve a audácia das grandes decisões que mudam o rumo à História. Quis a quadratura do círculo. E isso ninguém, nem Deus, consegue. Quis uma Igreja Povo de Deus e uma Igreja comunhão, mas entretanto – contradição das contradições! – deixou ficar de pé a hierarquia e os clérigos como uma casta à parte e acima dos leigos. Tão pouco foi capaz de reconhecer as mulheres baptizadas como potenciais candidatas a todos os ministérios e a todos os sacramentos, Ordem incluída, em pé de igualdade com os homens baptizados. Procedeu como aquele insensato proprietário de ovelhas que, depois de garantir boas pastagens aos seus rebanhos, acaba por confiar a guarda deles a uma alcateia de lobos. Como é que alguma vez poderíamos chegar a ser Igreja povo de Deus e Igreja comunhão, quando os bispos hierarcas, todos homens e homens oficialmente sem mulher, a começar pelo de Roma, continuaram a ser os mesmos que eram antes do Concílio, isto é, homens com poder monárquico absoluto em cada uma das respectivas dioceses? E quando os párocos, também eles todos clérigos celibatários por força duma lei eclesiástica que não chegou sequer a ser beliscada pelos padres conciliares, continuaram aí como funcionários eclesiásticos a tempo integral, a dirigir e a dominar, em cada território paroquial, como braços compridos do seu hierarca bispo, os leigos (sobretudo, as leigas, já que os homens que ainda frequentam esses locais são felizmente, cada vez em menor número), em lugar de serem fecundos animadores de comunhão eclesial, atentos aos sinais dos tempos e dóceis ao Espírito Santo, de modo que sempre se faça o que Ele quer e não o que o hierarca da diocese e o de Roma querem que se faça? Com um aparelho eclesiástico assim tão ferozmente piramidal, negação estrutural da comunhão e da sororidade/fraternidade, alguma vez pode acontecer a Igreja de Jesus, Mistério ou Sacramento de Deus Vivo no meio dos seres humanos? O que existe só pode ser uma empresa eclesiástica com funcionários mais ou menos dedicados e obedientes ao hierarca de turno. O que é sempre um desastre sem nome.

Tenho para mim que está cada vez mais próxima a ressurreição da verdadeira Igreja católica. Não será mais romana. Será simplesmente católica, como no princípio, quando, numericamente, ainda não passava de um pequeno resto, como um fermento na massa. Aliás, é assim que pessoalmente me vejo e me experimento em Igreja. Não me revejo neste modelo piramidal de Cristandade. Revejo-me no modelo do Vaticano II, Igreja povo de Deus, constituída por múltiplos povos e múltiplas culturas, polícroma e unida, sem nada que se pareça com a uniformidade católica romana que tem impedido toda a originalidade e toda a criatividade, por parte dos seus membros e das suas comunidades concretas. O "Serviço de Unidade" na Igreja, impropriamente chamado “Serviço de Pedro” (Pedro-Pedra foi o que Jesus nunca quis que o apóstolo Simão, um dos Doze, fosse, mas é o que aqueles que na Igreja Cristandade sempre se reclamaram de seus sucessores, quase sempre têm sido, através dos séculos), verdadeiramente essencial para ela ser Igreja segundo o Espírito de Jesus, só pode ser um serviço maiêutico, despertador e animador de comunidades sororais/fraternas, todas radicalmente diferentes e radicalmente iguais, sem nenhum lugar para o poder, apenas para a comunhão na pluralidade de comunidades concretas e inculturadas.

Ajudemos, pois, o Espírito Santo a acabar a sua obra de destruição do actual modelo piramidal de Igreja que já vem desde o imperador Constantino. Basta de tanta traição ao Evangelho e ao Espírito libertador de Jesus de Nazaré. Basta de Igreja inimiga da Humanidade, infantilizadora da Humanidade, pretensiosa mãe e mestra da Humanidade. Ao mesmo tempo, demos corpo nos nossos corpos à Igreja povo de Deus e à Igreja comunhão que o Concílio Vaticano II nos apontou, mais do que concretizou. Ganharemos em fecundidade o que viermos a perder em visibilidade. A visibilidade irá toda para a Humanidade, finalmente, sujeita e protagonista na História, bem adulta e autónoma, como Deus Vivo, o de Jesus, sempre quis que ela fosse e para isso trabalha dia e noite, sábados e domingos incluídos. Quarenta anos depois do Vaticano II, enterremos de vez o modelo de Igreja cristandade, com os seus hierarcas e os seus clérigos misóginos. Ressuscitemos como Igreja de mulheres e de homens, de discípulas e de discípulos de Jesus, de irmãs e de irmãos, longe dos templos e dos altares, uma Igreja bem metida no mundo e na História como o fermento na massa, como o sal da terra, como a luz do mundo. O resto da Humanidade só terá razões para se alegrar com uma Igreja assim, ainda que os poderes de turno e as minorias dos privilégios, com o passar do tempo, acabem a odiá-la e a persegui-la, e até a matem, como fizeram a Jesus, o de Nazaré.


2005 DEZEMBRO 06

Dizem as notícias que o falecido papa João Paulo II já começou a fazer milagres aos montes. O que, em si mesmo, não é coisa surpreendente por aí além, nem chega sequer a ser objectivamente grave. Porque os milagres, são como a presunção e a água benta: cada qual toma os que quer. O que é grave é um outro pormenor das notícias eclesiásticas. A Igreja de Roma, cardeal da causa dos santos incluído, terá decidido começar a tomar a sério o relato de um desses milagres, ao que se diz, ocorrido em França, a pátria da Revolução Francesa e da Modernidade. (Estão a ver a marosca? E como com uma cajadada se matam dois coelhos?) E que milagre é esse que pode ser capaz de fazer do papa João Paulo II um beato no céu dos católicos? A Agência Ecclesia responde: uma freira francesa sofria até há poucos dias de um cancro. Até aqui, nada de especial. As freiras são mulheres e se há mulheres, como há homens com cancro, também as freiras e os frades e os padres podem vir a ser vítimas dessa doença. O especial vem a seguir. As outras freiras foram ter com ela e rezaram por ela. Pediram a Deus a cura do cancro da freira. Mas meteram uma cunha a Deus. Ao que garantem, pediram a cura dela a Deus, mas por intercessão do papa João Paulo II, já na mira de que ele venha a ser proclamado beato e passe a ter culto nos altares, tal como sempre teve em vida enquanto foi papa. E que culto! Deus, pelos vistos, tem a sua escrita em dia de todas as entradas no céu, e sabe muito bem quem é o papa João Paulo II. Além disso, está manifestamente empenhado em ter mais um beato de categoria na sua corte celestial e, por isso, resolveu atender o pedido das freiras, esposas do seu filho Jesus, suas noras, portanto. Deixou-se corromper. Não sabemos o que é que o papa João Paulo II lhe terá oferecido em troca desse especial favor. Mas o resultado está aí. A freira que tinha um cancro deixou de o ter. E os médicos católicos – diz o relato – garantem que semelhante fenómeno não tem explicação científica. Pelo que só pode ser um milagre. E um milagre obtido por especial intercessão do papa. Ora, se um papa falecido tem semelhante poder diante de Deus, é porque é pelo menos beato. Pelo que a Igreja não tem outro remédio senão proclamá-lo beato urbi et orbi. Para que, daqui em diante, as pessoas com cancro recorram todas a Deus, mas por intermédio do papa João Paulo II (os termos da notícia pressupõem que o papa é sempre papa, mesmo depois de morrer. E que continua a ter privilégios à semelhança do que tinha aqui na terra). Porque sem esta cunha de peso, uma cunha papal, não há hipótese. Deus não se verga a qualquer pé descalço. Só a um papa. E logo a este que veio da Polónia e ajudou a destruir qualquer tentativa de criação duma alternativa humanista ao neo-liberalismo e ao actual Mercado total da nossa pouca vergonha, fabricador de pobreza e de pobres em massa. E sobretudo a este papa que foi um devoto compulsivo da senhora de Fátima de Portugal, a mesma que garantiu que os pecadores continuam hoje a cair nas labaredas do fogo do inferno como tordos. Os pecadores, disse ela às crianças assustadas. Não os papas, nem os bispos, nem os padres, nem as freiras, nem os frades. Os “pobres” pecadores. E pecadores são sempre os outros, sobretudo, os pobres e os não clérigos católicos ou para-clérigos católicos. Porque os clérigos católicos ou para-clérigos católicos tresandam santidade por todos os lados, ou não andassem sempre em redor dos altares, de meninas, meninos de coro, de vestes brancas e efeminadas, ocupados com orações, toalhas, imagens de santas e de santos, nossas senhoras, terços, rosários, missas, jejuns, jaculatórias e coisas que tais. Pecadores são os outros, os que se ocupam deste mundo e das pessoas de carne e osso, em vez de se ocuparem de Deus. Pecadores são os que não crêem em milagres e, por isso, suam as estopinhas para realizarem eles próprios o que há que realizar, nomeadamente, os avanços da investigação científica e o desenvolvimento da vida a todos os níveis. Mas porque não são devotos da senhora de Fátima, nem vão à missa, são inevitavelmente pecadores. E estão condenados ao inferno. Ao passo que o papa João Paulo II, depois duma vida papal longa, toda passada a discriminar as mulheres e a pregar um moralismo imoral, com anos e anos de vaidade e de passeatas em série pelos países do mundo, na sua privilegiada posição de chefe de Estado do Vaticano e da Igreja católica romana, sempre com os dirigentes do mundo a seus pés, tem garantido à partida um trono especial no céu católico e pode até conseguir de Deus a sua vingançazinha pessoal contra aqueles lhe resistiram e não se ajoelharam diante dele a beijar-lhe o anel de ouro. Porque se Deus se deixa corromper com cunhas de papas e outros que tais, para desse modo os promover a beatos e depois a santos do seu céu, também facilmente se deixará corromper por eles para fazer umas vingançazinhas – milagres às avessas – aos que resistem a dobrar os joelhos perante os seus representantes na terra, os senhores papas e os senhores bispos e os senhores cardeais…

O que mais me surpreende no meio de toda esta palhaçada eclesiástica e pateta é o cardeal da causa dos santos chegar a ter a certeza, primeiro, que houve uma cura duma doença incurável, segundo que essa cura foi conseguida graças à intervenção do papa João Paulo II. Porque nem que os médicos católicos (nunca são médicos ateus que se pronunciam nestes casos…) garantam a pés juntos que não há explicação científica para o desaparecimento de um cancro em alguém que antes tinha um (primeiro, é preciso provar que o anterior diagnóstico estava correcto e, se estava, de que tipo de cancro se tratava, uma vez que hoje há certos tipos de cancro que são curáveis), nunca é lícito concluir que foi um milagre, isto é, que estamos perante uma intervenção especial de Deus naquele caso concreto. Jamais estivemos no passado nem no presente e jamais estaremos no futuro!

Dizer que houve um milagre é avançar com uma explicação religiosa, por isso, não científica. E essa é uma explicação que só gente muito crédula, sem a fé de Jesus, é capaz de dar. Mas a explicação religiosa dos fenómenos que acontecem na História nunca é digna de Fé, nunca merece credibilidade nem é séria. É pura pantominice. É a recusa da Ciência! E um Deus que se afirma  pela recusa da Ciência é um Deus beato, sem credibilidade, sem seriedade. É um papão que deixa as pessoas crédulas de joelhos e humilhadas, aterrorizadas, ou de boca aberta de espanto. Não é digno da nossa inteligência nem do nosso bom senso. É um Deus fabricador de ateísmo e de ateus em massa. É um Deus à medida dos interesses eclesiásticos católicos, por isso, indigno dos seres humanos (também dos seres humanos católicos) que se prezam.

O que a fé de Jesus em nós exige é que sempre recusemos explicações religiosas para os fenómenos que a Ciência ainda não sabe explicar. Porque as explicações religiosas são sempre mentira. E a História da Humanidade está cheia de exemplos desses. Todos os fenómenos que começaram por surpreender as pessoas e os povos e foram inicialmente explicados como milagres vieram mais tarde a ser explicados pela Ciência, à medida que esta se desenvolveu. Sempre o avanço da Ciência afugentou as explicações religiosas, todas elas explicações preguiçosas e, por isso, indignas dos seres humanos. Por mim, só me alegro com tais desmascaramentos. A fé cristã jesuânica que me anima é que me exige que recuse as explicações religiosas para os fenómenos deste mundo. E que sempre pergunte pela explicação científica e a exija. Se a Ciência actual ainda não consegue explicar os fenómenos, temos que lhe pedir que ande da perna, para o conseguir fazer. E enquanto ela não consegue, sempre havemos de resistir e recusar as explicações religiosas, nem que estas se apresentem com o aval do cardeal Saraiva, da causa dos santos na Cúria romana, ou do papa. Recusar as explicações religiosas para os fenómenos, também para uma hipotética cura de cancro em alguém, é a única maneira de não invocar o santo nome de Deus em vão.

Por isso, quando o papa ou o cardeal da causa dos santos por delegação dele diz que há um milagre comete, com essa solene e autoritária declaração, o grave pecado de invocar o santo nome de Deus em vão. Atribui a Deus acções que só podem ser realizadas pelos seres humanos. Ofende Deus e ofende os seres humanos. Lá que ofenda Deus, Ele não se importa, porque isso não O afecta. O grave é que ofende os seres humanos, e isso já é gravíssimo, também perante Deus, porque empequenece os seres humanos, faz com que os seres humanos diminuam e Deus cresça. Quando a glória de Deus é que os seres humanos cresçam e Deus diminua. Tanto assim que, se um dia, conseguirmos viver em harmonia e em abundância no mundo e na História, como se Deus não existisse, isto é, sem que a hipótese Deus sequer se ponha, nunca como então Deus estará a ser glorificado.

Mas o chamado milagre da freira que teve cancro e agora já não tem arrasta consigo outra perversão. Está a insinuar que Deus de quem gosta é das freiras, não das mulheres casadas, e a quem atende é às freiras, não às outras mulheres, todas mais ou menos pecadoras, por isso, indignas. Ora, Deus, o de Jesus, de quem verdadeiramente gosta é de mulheres e de homens que se realizem em todas as dimensões da vida, também nas dimensões dos afectos e da sexualidade e que cheguem à mesma estatura de Jesus, capazes por isso de enfrentar os poderosos, papas incluídos, e denunciar/desmascarar os seus crimes. Porque todo aquele que aceita privilégios sobre os demais atenta em concreto contra a igualdade radical dos seres humanos, impede o desenvolvimento da sororidade/fraternidade universal, entra no declive que conduz ao abismo da inumanidade. É claro que o Sistema que sanciona os privilégios nunca quer ser desmascarado. E por isso envereda pela prática da Mentira institucionalizada, até proclamar que os dos privilégios é que são santos, preferidos de Deus. E até serão. Mas do Deus do Sistema que é o nome com que o Demoníaco, ou agente de desumanidade na História sempre se gosta de mascarar. Por isso digo: Se não estamos alerta, caímos que nem patos. Jesus de Nazaré, felizmente, não caiu. E tornou-se para nós, seres humanos, o caminho da dignidade humana, para irmos sempre por ele, em lugar de irmos pela via larga da Mentira. Aos dirigentes judeus do seu tempo e país que se orgulhavam de ser de Deus e de ter Deus por Pai, Jesus contra-atacou e diz: o vosso pai é o Diabo, mentiroso e pai de mentira e assassino desde o princípio!

Por aqui se vê que todo o que aceita viver nos privilégios é agente de desfraternização do mundo. Como tal, não pode ter Deus Vivo por Pai/Mãe. Só o Demoníaco ou a Mentira ou a Religião. Três substantivos diferentes, mas sinónimos, isto é, que dizem a mesma realidade. E é este Deus-Demoníaco-Mentira-Religião, que faz milagres. Para nos humilhar mais e mais como seres humanos. Para nos reduzir à nossa insignificância. Para nos fazer viver de cócoras diante dos poderosos, eclesiásticos, sobretudo! O Deus Vivo, o de Jesus, ao contrário, faz-nos a nós, seres humanos, fazê-los. Só que então nem sequer se chamam milagres. Chamam-se acções científicas, Ciência, desenvolvimento científico, desenvolvimento humano! Ousemos avançar por aqui. E seremos filhas, filhos de Deus Vivo, bem à sua imagem e semelhança. Tal como Jesus, o de Nazaré!


2005 DEZEMBRO 01

1.

Converteu-se em inverno o meu país

e por isso a morte sem ressurreição

anda por aí à solta por mais

que o nosso Nobel dos romances

anuncie o contrário. Somos mortos

que se atropelam e devoram uns aos outros.

 

Converteu-se em deserto o meu país.

Já nem as mulheres são capazes

de parir. Faz-se sexo como nunca

antes, mas para a morte. Não há

crianças que nos saiam ao caminho

e alegrem o nosso coração de velhos.

 

Até a Igreja no meu país está reduzida

à rotina das missas sem profecia

e à idolatria da senhora de Fátima.

Desapareceram do horizonte

as grandes Causas e em sem lugar

instala-se a repelente caridadezinha.

 

A guerra no meu país é de crucifixos

sim ou não nas salas de aula das escolas

dizem uns que sim outros que não

mas ninguém ousa a decisão

verdadeiramente digna e humana

de acabar de vez com toda a cruz.

 

Não me dêem Cavaco nem Soares

nem Alegre nem Jerónimo ou Louçã.

Estou farto de Messias sentados

à mesa dos privilégios nem que sejam

os que decorrem dum lugar de deputado.

Deixem-me ser dono de mim! Em comunhão.

 

2.

Em tempos que já lá vão e que nunca mais deveriam voltar, a Poeta maior da língua portuguesa, Sophia de Mello Breyner Andresen, deu-nos um curtíssimo poema. “O velho Abutre” foi como lhe chamou. E diz assim:

 

O velho abutre é sábio e alisa as suas penas

A podridão lhe agrada e seus discursos

Têm o condão de tornar as almas mais pequenas.

E num outro poema, igualmente curtíssimo, a que chamou “Exílio”, diz assim:

 

Quando a pátria que temos não a temos

Perdida por silêncio e por renúncia

Até a voz do mar se torna exílio

E a luz que nos rodeia é como grades.

São, como disse, dois poemas de tempos que lá vão e que nunca mais deveriam voltar. Pelos vistos, já voltaram. Reciclados. O grande Kapital, que domina o país e o mundo, o que mais teme é que as populações cheguem a ser donas de si mesmas. Faz tudo, desde as Igrejas transformadas em religiões às Escolas e Universidades, desde os Quartéis aos grandes meios de comunicação de massas, desde as diversões estandardizadas às grandes superfícies comerciais, para que sejamos eternamente infantis e dependentes de minorias sabichonas e espertalhonas que não largam nunca os lugares do Poder. Outrora, o grande Kapital impunha-nos essas minorias, pura e simplesmente. E reprimia e neutralizava as poucas pessoas que ousassem rebelar-se contra elas. Hoje, o grande Kapital continua a impor-nos, pura e simplesmente, essas minorias, mas deixa-nos a ilusão que somos nós que as escolhemos com o nosso voto.

É tudo trágica farsa. É tudo pura Mentira. Para nos continuarem a manter eternamente submissos, infantis, mentecaptos.

Quando até as Igrejas que se reclamam de Jesus de Nazaré – o Crucificado pelo Templo e pelo Império, por lhes ter resistido de forma manifesta e por ter desmascarado perante o povo a Mentira que um e outro eram/são – desistem de ser comunidades sororais/fraternas geradoras de subversão, de indignação, de consciencialização, de promoção de protagonismos e de cidadanias pessoais e colectivas, o grande Kapital pode continuar a roubar, a matar/sacrificar e a destruir impunemente. As populações não só não lhe resistem, muito menos lhe cortam a cabeça, como até se lhe submetem reconhecidas, como se ele e os seus homens de mão fossem o Messias, o Salvador.

O Natal já se anuncia outra vez. Não! Não é o natal Jesus. Nem é Jesus quem está a chegar. É o natal do velho Abutre. É o velho Abutre que está a chegar. É o Natal do grande Kapital e das suas minorias espertalhonas e sabichonas. Vem de novo “tornar as almas mais pequenas”.

Por mim, resisto-lhe sem que o corpo nem a voz me tremam. E daqui desta aldeia onde respiro e combato o bom combate, continuarei a chamar as minhas concidadãs, os meus concidadãos para a indispensável Insurreição Cívica do País e da Europa. Cada dia que passa sem que ela aconteça é mais um dia perdido e que nos deixa cada vez mais longe da Dignidade! Mas atenção. Quando formos apenas meros robots em forma humana, já nem sequer haverá possibilidade de Insurreição. Será o Inverno permanente! O Deserto sem esperança!

 

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