2004 DEZEMBRO 28
A tragédia ocorrida neste Natal na Tailândia e países próximos não pára de nos espantar. E esmagar. São números arrasadores, de mortos, feridos e desalojados. Que nos acusam. E nos interpelam. Acusam-nos, porque continuamos a ser dóceis e mansos para com os grandes grupos económicos e financeiros, em lugar de os travarmos e, se persistirem nas suas cruéis e inumanas decisões, os prendermos como grupos associais e altamente perigosos, ou os internarmos em hospitais psiquiátricos, como doentes mentais. São eles os verdadeiros associais e os verdadeiros loucos. À beira deles, os indivíduos que os tribunais classificam como associais e os psiquiatras como loucos são praticamente inofensivos.
Pelo que se vê, são grupos que já não têm emenda. Já lá não vão com palavras, nem com apelos éticos, seja de que instância for. Já só lá vão com medidas drásticas. Efectivamente, são os grandes grupos económicos e financeiros que actualmente estão a dar cabo do planeta. E todas, todos nós que fazemos de conta que eles são grandes senhores, heróis, importantes, dignos de todas as homenagens, somos os seus cúmplices.
É sabido que os grandes grupos económicos e financeiros só investem lá onde estiverem garantidos, à partida, chorudos lucros. O investimento deveria ser lá onde for mais necessário. Quem for humano, é assim que raciocina e se comporta. Não precisa que haja uma lei a determinar, para assim agir. A lei está inscrita na consciência de cada pessoa que vem a este mundo, enquanto não for abafada pelos grandes interesses financeiros, cujo sopro ou espírito é intrinsecamente demoníaco, perverso, anti-humano. Ora, quando os interesses individuais ou de grupo se sobrepõem ao bem comum, é a hora de soar o alarme, para que toda a humanidade entre em acção. Se ela faz de conta que não vê, não ouve, não sabe, torna-se cúmplice dos crimes dos grandes grupos económicos e financeiros. E, quanto mais tarde actuarmos para nos defendermos deles, pior. Um mal, se atalhado logo ao começo, nunca chega a ter possibilidades de se tornar incontrolável. Ao contrário, se não agimos a tempo e horas, o mal torna-se estrutural e, a partir de então, até deixa de ser olhado como mal. Passa a ser olhado como bem. Geração após geração. Erige-se, inclusive, em Ordem mundial que mantém a verdade cativa na injustiça, mas ninguém diz que assim é, já que somos educados, desde meninas, meninos, a ver nela a única Ordem mundial que respeita a verdade e que garante a justiça possível. Se, a juntar a isto, ainda se escondem sistematicamente as vítimas que essa Ordem mundial produz e se se lhe tecem louvores sobre louvores, dificilmente chegaremos a cair na conta de que uma tal Ordem é a desordem mundial estabelecida.
É por isso que, quando o representante de um grande grupo económico ou financeiro é publicamente homenageado e porventura condecorado, é sinal de que as suas vítimas são muitas e é preciso escondê-las, varrê-las para debaixo do tapete. Para que ninguém, ou quase ninguém, se dê conta do crime estrutural em curso. Tudo o mais fica ao cuidado dos grandes media que a toda a hora e momento habilmente nos distraem do essencial e nos entretêm de mil e uma maneiras, como quem nos anestesia, 24 horas sobre 24 horas. Assim se perpetua a nossa desgraça, por falta de militantes lúcidos e audazes que a combatam e destruam e, em seu lugar, promovam a edificação de uma Ordem mundial verdadeiramente humana que faça crescer em nós a graça, a felicidade e a paz.
Esta tragédia diluviana na Tailândia poderia e deveria ter sido prevista. Mas os grandes grupos económicos e financeiros só investem a pensar nos lucros. Não investem a pensar no bem comum. Querem que o dinheiro produza cada vez mais dinheiro, seja fecundo nos lucros, não na qualidade de vida dos diferentes povos. Para os grandes grupos económicos e financeiros, os povos empobrecidos são carne para canhão. São bocas a fechar para sempre. Pela fome em massa. E pelas doenças endémicas facilmente curáveis, mas que eles não estão interessados em erradicar. Os grandes grupos económicos e financeiros são capazes de investir nos países pobres, mas nunca para porem fim à pobreza e promoverem os pobres a protagonistas. Pelo contrário, se investem nesses países, é sempre e só a pensar nos seus próprios negócios, de modo a obterem uma colossal riqueza no mais curto espaço de tempo, nem que seja à custa de fabricarem mais e mais pobres em massa. Nunca vêem pessoas e povos. Apenas cifrões. Euros e dólares.
Concretamente, nesta tragédia, vê-se que os grandes grupos económicos e financeiros nem sequer cuidaram dos seus próprios hotéis. Nunca lhes terá passado pela cabeça que um dia poderia ocorrer uma catástrofe destas dimensões. Capaz de derrubar não só os barracos dos pobres e os próprios pobres, mas também os seus luxuosos hotéis com os turistas dentro. Não cuidaram, por isso, da instalação de tecnologia de ponta que pré-anunciasse, com antecedência, a catástrofe. Para que pudessem ser tomadas medidas de emergência em conformidade. O descuido saiu-lhes caro. Mas nada que os grandes grupos económicos e financeiros não recuperem rapidamente. Os pobres é que se afundam. E desaparecem, quase sem deixar rasto. Ficam sepultados no silêncio. No mais gritante dos silêncios. Um silêncio que tem tudo de Palavra de Deus. E que, por isso, interpela os donos dos grandes grupos económicos e financeiros e todos os que com eles colaboramos. Nem que seja por omissão: “Onde está a tua irmã, o teu irmão? Que fizeste da tua irmã, do teu irmão?”
Eu sei que esta é uma interpelação que só a consciência humana é capaz de captar. Por isso, uma consciência feita de cifrões, de dólares e de euros, mesmo que se vista de forma humana, como é o caso dos grandes grupos económicos e financeiros, não é capaz de escutar, muito menos, de responder a ela. Para sua desgraça. E para desgraça da Humanidade e do Universo. Mas é aqui que esta tragédia, ocorrida em tempo de natal, pode e deve tornar-se também uma interpeladora meditação, à escala global: Que mundo é este que teimamos em edificar contra a Humanidade? Quem são os rostos humanos concretos que estão por trás dos grandes grupos económicos e financeiros? O que se passa nas suas cabeças? Quando é que a Humanidade é capaz de se ocupar dos crimes dos grandes grupos económicos e financeiros? Quando é que a Humanidade se senta para julgar quem tanto a maltrata e a desfigura? Quando deixaremos de elogiar e de aplaudir e de condecorar quem nos maltrata e desfigura, quem maltrata e desfigura o Universo? Quando arrepiamos caminho e ousamos edificar uma Ordem mundial a partir das vítimas humanas e do Universo que geme em dores de parto, em vez de estupidamente continuarmos a apostar nesta Ordem mundial que temos, feita a partir dos interesses dos grandes grupos económicos e financeiros?
As Igrejas costumam, nestas circunstâncias, rezar e mandar rezar. Como se tudo estivesse nas mãos de Deus e tudo dependesse da sua boa ou má vontade, do seu bom ou mau humor. São Igrejas criminosas, quando assim procedem e assim catequizam as pessoas e os povos. Ainda não perceberam que Deus não faz parte dos grandes grupos económicos e financeiros. Pelo contrário, é uma das suas vítimas, juntamente com todas as outras vítimas humanas e do Universo.
Devido a esse comportamento das Igrejas, Deus passa por ser um dos patronos e ajudantes dos grandes grupos económicos e financeiros. Basta ver que os seus donos muito raramente se confessam ateus. E gostam sempre de associar o nome de Deus aos seus êxitos financeiros. Por outro lado, fazem questão de aparecer ao lado dos grandes das Igrejas, assim como estes fazem questão de os ter ao seu lado, como exemplos concretos de pessoas abençoadas por Deus. Só que o Deus dos grandes grupos económicos e financeiros é o Diabo, a Mentira, o Homicida, o Genocida. Numa palavra, é o ídolo dos ídolos, por isso, o anti-Deus por antonomásia, que se faz passar aos olhos dos pobres como o verdadeiro Deus. Só assim se compreende que os grandes grupos económicos e financeiros financiem tudo quanto é construção de igrejas. Frequentem com assiduidade o chamado mecenato religioso. Contribuam para a restauração de órgãos de tubos, de antigos mosteiros desabitados, estranhamente declarados de utilidade pública. E, nas solenidades religiosas, feitas com pompa e circunstância, alguns deles não se façam rogados e apareçam em clima de grande familiaridade com os bispos, ou outros líderes religiosos.
Convidar as pessoas e os povos a rezar em momentos como o desta imensa tragédia natalícia perfaz um crime contra o santo nome de Deus e contra a Humanidade. Porque deixa na Humanidade a impressão de que tudo o que diz respeito ao Universo está nas mãos de Deus, e isso é a mentira das mentiras. Ao agirem assim, as Igrejas atiram toda a responsabilidade do que acontece na Natureza para Deus, para os “insondáveis desígnios de Deus”. E algumas Igrejas chegam ao cúmulo de levar os povos a pensar que tragédias como esta da Tailândia podem muito bem ser um castigo de Deus por faltas que estariam escondidas, mas das quais é necessário arrepender-se, porque Deus tudo vê e tudo castiga! Com Igrejas que produzam este tipo de discurso moralista, os grandes grupos económicos e financeiros podem esfregar as mãos de contente. E até correr a rezar também. Não lhes custa nada e dá-lhes muito jeito.
O convite das Igrejas tem que ser outro. Mobilizar os povos para a incondicional solidariedade para com as vítimas, não apenas sob a forma de caridadezinha, mas sobretudo sob a forma de lúcida e libertadora intervenção sócio-política que ouse ir à raiz das coisas e às causas do mal. É por isso que não basta às Igrejas convocar os povos para a solidariedade. Para que esta não se fique pela caridadezinha, as Igrejas, ao mesmo tempo que convocam os povos para a solidariedade, hão-de convocá-los também para que tenham a audácia e a lucidez de, em nome das vítimas, investigarem até à exaustão as causas de cada tragédia. Porque uma tragédia com as dimensões desta tem que ter na origem causas que dizem respeito a todas, todos nós, não a Deus.
A Humanidade pode não estar, neste início do terceiro milénio, ainda suficientemente desenvolvida e tecnologicamente apetrechada para já conseguir evitar catástrofes desta grandeza. Mas já estará habilitada a poder saber antecipadamente que elas estão em vias de acontecer. E, porque assim é, tem a obrigação moral de evitar, senão todas e cada uma das tragédias, pelo menos, toda a tremenda dimensão em número de vítimas humanas que a presente tragédia teve. Bastaria ter-se conseguido evacuar atempadamente as populações dos locais do perigo. Não o ter feito, é crime. De omissão, mas crime.
Salvar uma vida humana vale mais que todo o dinheiro do mundo. Não o fazer, por preguiça ou por avareza, porque não se está disposto a gastar milhões sem ao mesmo tempo ganhar muitos outros milhões em troca, é um acto de idolatria que ofende a Humanidade e desonra o santo nome de Deus. Porque a glória de Deus é que os seres humanos, todos os seres humanos sem discriminação, vivam e vivam em abundância e em qualidade.
Os grandes grupos económicos e financeiros não pensam assim. Para eles, o lucro – e o lucro bem chorudo – está sempre primeiro. É o critério n.º 1 de todo o seu investimento. Por isso, as Igrejas jamais podem alinhar com eles. Tão pouco podem desenvolver uma teologia deísta e idolátrica que os favoreça. Muito menos podem promover pastorais que deixem nas pessoas e nos povos a impressão de que uma catástrofe como esta e outras que tais hão-de ser vistas como uma manifestação dos “insondáveis desígnios de Deus”. Não são!
Se ao tempo dos profetas bíblicos que reescreveram sucessivamente o mítico relato do Dilúvio essa visão teológica das coisas foi possível, hoje, dois mil anos depois do assassinato de Jesus, o Cristo, que Deus ressuscitou, insistir em tal visão das coisas será crime sem perdão. Melhor fora que não houvesse Igrejas, se as que hoje temos não são capazes de estar à altura das suas responsabilidades proféticas, dentro da História. Infelizmente, as Igrejas quase não têm feito outra coisa, ao longo dos séculos, senão insistir em tal visão das coisas, como que a confirmar que são Igrejas pré-cristãs jesuânicas e, em muitos casos, até pré-profetas bíblicos.
Quando assim acontece, são Igrejas dos grandes grupos económicos e financeiros, não são Igrejas de Jesus e das suas irmãs, dos seus irmãos, os pobres, as vítimas humanas e do Universo. Melhor fora então que lhes atassem a mó de um moinho ao pescoço e as lançassem ao fundo do mar. Exactamente, o que Jesus diz que se faça a todo aquele, pessoa ou instituição, que escandaliza os pobres e os pequenos deste mundo.
2004 DEZEMBRO 24
Venho partilhar neste meu Diário Aberto a Mensagem de natal 2004 que enviei ontem a todas as pessoas que constam da minha lista de endereços electrónicos. Ao todo, mais de duzentas. Ao mesmo tempo, não resisto a partilhar uma pequena-grande alegria que me aconteceu no mesmo dia de ontem. Começo pela Mensagem:
Um Natal 2004, cheio de fraternura
Um 2005 cheio de militância política
1. Trago-vos uma boa notícia: este natal de calendário não é o natal de Jesus de Nazaré. O natal de Jesus aconteceu apenas uma vez – não é assim, também, com todos os seres humanos que só nascemos uma vez e não todos os anos? – e já no remoto ano 4 ou 7 da chamada era cristã, hoje, também denominada era comum. Aconteceu em Nazaré, e não em Belém, como sempre nos têm enganado as catequeses das Igrejas que, erradamente, leram como históricas as estórias com que se tecem os dois primeiros capítulos dos Evangelhos de Mateus e de Lucas, quando essas estórias não passam de belíssimas narrativas teológicas, com as quais os respectivos autores conseguem apresentar Jesus como a boa notícia para a Humanidade de então. E também para a Humanidade do nosso Terceiro Milénio, assim haja, no correr dele, pequenas comunidades cristãs jesuânicas que, quais parteiras, ponham essas narrativas teológicas a falar para o hoje e aqui de cada geração. Coisa que, infelizmente, quase não aconteceu, ao longo dos últimos dois milénios. O natal que cada ano se repete no dia 25 de Dezembro continua a ser o natal do mítico deus Sol. Acontece, impreterivelmente, no solstício de Inverno. Bem sei que hoje já ninguém olha para o Sol como um deus, mas a verdade é que os nossos genes ainda se não libertaram de todo das concepções míticas que fizeram caminho na Humanidade, desde os seus começos. A Ilustração é uma etapa recente da Humanidade, quase dos nossos dias. E nem sequer aconteceu nem acontece em todas as pessoas ao mesmo tempo. De resto, a existência activa das Religiões e das Igrejas transformadas em religiões, tem impedido, e muito, que a Ilustração se torne efectiva em todas as pessoas e em todos os povos. O que seria dos chefes religiosos e dos chefes das Igrejas, se todas, todos nós já fôssemos ilustrados? Eles sabem que quanto mais obscurantismo, mais religião e mais Igrejas convertidas em novas religiões. Ainda assim, tomara eu que todos os natais do nosso século XXI continuassem a ser natais do deus Sol. Era sinal de que a Humanidade cuidava como nunca do seu planeta azul, que nos últimos tempos tanto tem oprimido e violentado sem dó nem piedade, possessa que tem andado, pelo menos, em alguns dos seus membros, pela febre do lucro sem quaisquer regras. Hoje, sabemos bem que o Sol não é deus e rimo-nos dos nossos antepassados que o idolatraram como tal. Mas a verdade é que conseguimos ser ainda piores do que os nossos antepassados, porque, em nome do deus Mercado e do deus Lucro, estamos a dar cabo do Planeta. E também da vida, que, assim, se vê cada vez mais sem berço para se poder desenvolver em quantidade e, sobretudo, em qualidade.
2. Perguntareis: Mas então, se o natal do solstício de Inverno é o natal do deus Sol – hoje, substituído pelo natal do deus Mercado e do deus Consumo Descontrolado – e não, como nos enganam as Igrejas, o natal de Jesus, que lugar e importância na vida da Humanidade continua a ter esse Jesus, nascido há mais de dois mil anos em Nazaré, um pequeno povoado desconhecido dum pequeno país militarmente ocupado pelo Império romano? Estará já definitivamente ultrapassado, ou tem e sempre terá algo de Novo e de Único a dar à Humanidade que esta não pode de modo algum dispensar, sob pena de cair irremediavelmente na idolatria generalizada e na alienação mais refinada? Eis o que vos anuncio como boa notícia ou como Evangelho: O que a Humanidade, hoje e sempre, pode e deve receber, como Único e Novo, de Jesus de Nazaré, é a sua Memória subversiva e perigosa, juntamente com o seu Espírito ou Sopro que misteriosamente continua aí pronto a tornar-se Emanuel (Deus connosco) em cada uma, cada um de nós, tal como historicamente se tornou Emanuel em Jesus de Nazaré. Para tanto, basta que nós conscientemente consintamos, como Jesus de Nazaré consentiu, que esse mesmo Espírito ou Sopro libertador estabeleça em nós a sua morada, como estabeleceu em Jesus de Nazaré. Sempre que tal acontecer, passaremos a ser mulheres, homens como Jesus, habitados e possuídos pelo Espírito e, como ele, faremos coisas novas na História e novas as coisas antigas, inclusive, transformar-nos-emos de mulheres, homens religiosos, em mulheres, homens políticos, que não descansarão nunca, enquanto não fizerem deste nosso Planeta uma casa global de irmãs e de irmãos, em redor duma mesa comum. Utopia? Queiram ou não os donos das transnacionais e os dirigentes do G-7+1, é para aí que a Humanidade avança, com ou sem natal do deus Sol.
É com este Evangelho ou esta Boa Notícia que vos deixo, na intimidade eucarística duma festiva e sacramental ceia de consoada, aberta a toda a Humanidade e a todo o Universo. Assim alimentados, faremos de 2005 um ano de desenvolvimento de consciência crítica e de entusiástica militância política que enfraqueça a olhos vistos o poder esmagador do Império e levante do chão todos os humilhados e todos os famintos de Pão, de Justiça e de Dignidade.
Vosso irmão, Mário, presbítero da Igreja do Porto.
www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
Passo, agora, a relatar a alegria que me aconteceu ontem: Depois de ler os jornais na Internet, visitei também a página da Diocese de Viseu, à frente da qual está, desde há poucos meses, o Bispo António Marto, que, antes de ser bispo, foi, durante muitos anos, professor da Universidade Católica, no pólo do Porto. Nesses anos, sempre percebi que ele, ao contrário de outros padres doutores da mesma Universidade, me acolhia com simpatia e fraternidade presbiteral, todas as vezes que eu, na minha qualidade de director do Jornal Fraternizar, apareci por lá, ou por outros locais eclesiásticos, a fazer a cobertura jornalística de algum acontecimento digno de interesse para as nossas páginas. Nunca parámos os dois para conversarmos com tempo. Tudo se resumia a um cumprimento afectuoso e mais ou menos apressado, mas o olhar dele e os seus gestos para comigo, nesses momentos, eram sempre de grande comunhão e de grande acolhimento. Para mim, já era bastante, habituado que ando a ser hostilizado e olhado com rancor por parte de certos colegas no presbiterado, os quais, se pudessem, há muito me teriam lançado às feras, numa cova de leões qualquer.
Mas o que ontem me levou a procurar a página daquela Diocese de Portugal foi o facto de ter visto, num dos jornais, uma curta referência à mensagem de natal que o Bispo António Marto dirigiu aos diocesanos, neste que é o seu primeiro natal à frente daquela Igreja que está em Viseu. Como previa, a mensagem está lá na íntegra, acompanhada por um suave fundo musical. Li-a do princípio ao fim. Chamou-me a atenção uma afirmação do Bispo, quando ele diz aos diocesanos que gostaria de se encontrar pessoalmente com cada um neste natal 2004, mas que isso lhe era fisicamente impossível. Essa impossibilidade teria sido até a razão por que ele se decidiu a recorrer àquela forma de contacto com todos.
Foi então que, de repente, me lembrei de um casal de velhinhos, de quem sou amigo há já alguns anos e a quem, mesmo à distância, procuro acompanhar com regularidade. Também já estive, por mais de uma vez, na sua casa arrendada nos arrabaldes da cidade de Viseu, uma casa integrada num bairro social da Misericórdia local. O casal conhece, neste momento, uma grande solidão, a raiar pelo abandono. Ele está já com oitenta e muitos e ela não lhe fica atrás. Ele é quem tem que cuidar dela, que é doente crónica e acamada. Vivem ambos com inúmeras dificuldades, também económicas. Com reformas de miséria e com despesas de farmácia a que não podem fugir, devido sobretudo à doença crónica dela.
Perante a mensagem natalícia do Bispo, senti-me impulsionado a endereçar-lhe um e-mail, para lhe falar, sucintamente, do caso. Ao mesmo tempo, lancei-lhe um repto muito concreto: Que o Bispo António Marto fosse capaz de arranjar tempo para visitar este casal de velhinhos, se possível, nesse mesmo dia, o mais tardar, hoje. Para tanto, confiei-lhe o número de telemóvel do senhor João – é este o nome do meu amigo, velho militante antifascista dos tempos em que o fascismo ainda se não havia disfarçado desta democracia representativa com que hoje somos manipulados e (des)governados – e pedi-lhe que telefonasse para ele, ou encarregasse alguém que o fizesse em seu nome, a combinar uma visita natalícia ao seu pobre domicílio.
O e-mail seguiu. E não é que o Bispo António Marto, da parte da tarde de ontem, portanto, poucas horas depois de ter lido o meu e-mail, foi, em pessoa, visitar o casal à sua casa no Bairro da Misericórdia e, deste modo, tornou muito menos frio o quotidiano viver destes dois velhinhos, feito de tantos abandonos?
Quando o meu amigo senhor João me telefonou, a dar a boa notícia, fiquei a dançar de alegria. Primeiro, pelo próprio Bispo que foi capaz de acolher o meu apelo presbiteral e transformá-lo, de imediato, numa urgente e concreta missão episcopal; segundo, pelo casal de velhinhos, meus amigos, que, a partir de agora, passam a ser muito mais acompanhados pela ternura da Igreja que está em Viseu; e, finalmente, por mim próprio, que, apesar de ser um padre sem ofício pastoral oficial, tenho porventura esta surpreendente missão, entre muitas outras, de chamar à conversão ao Evangelho a Igreja que oficialmente faz de conta que eu não existo, e que eu nem por isso alguma vez deixei ou deixarei de amar no Espírito Santo.
Bem-haja, meu amigo e irmão Bispo António Marto! E já agora, quando voltar a reunir-se, a nível nacional, com os seus irmãos no episcopado (infelizmente, ainda não há mulheres católicas ordenadas de bispo e, por isso, não posso acrescentar: “e com as suas irmãs no episcopado”), partilhe com eles esta sua estória real de natal 2004. Para que eles se alegrem consigo. E, sobretudo, para que se deixem interpelar por ela.
Tenho a certeza que hão-de ser os pobres, nas margens, e todas as perseguidas, todos os perseguidos no interior da própria Igreja, devido à sua fidelidade ao Evangelho de Jesus, que contribuirão decisivamente para regenerar a Igreja católica, à medida que esta, a começar pela sua hierarquia, passar a ouvir todos os seus clamores e correr, sem nunca mais voltar a olhar para trás, a erguer a sua tenda entre eles e com eles.
2004 DEZEMBRO 19
Nestes últimos dias, tenho estado inteiramente ocupado com a edição n.º 156 do Jornal Fraternizar, correspondente a Janeiro/Março de 2005 e, por isso, este meu Diário Aberto tem permanecido fechado. Assuntos a comentar não faltam, mas falta-me o tempo. O Jornal tem que entrar amanhã na tipografia, para, uma semana depois, já poder seguir para o correio, ao encontro das, dos assinantes. É assim desde há 18 anos, quando o Jornal nasceu, numa iniciativa conjunta da Associação Padre Maximino, sedeada em S. Pedro da Cova, e da Fraternidade Grão de Trigo, uma pequenina Comunidade de vida comum, constituída, no início por três pessoas – Maria Celeste, Antónia Celeste e eu próprio – às quais, alguns meses depois, se juntou uma quarta pessoa, Joaquina da Conceição.
O início foi difícil, quase ninguém acreditava que o Jornal mensal tivesse pernas para andar. Mas o núcleo de pessoas que o chamámos à vida acreditou e, por isso, fez tudo o que estava ao seu alcance e até para além do que estava ao seu alcance, para que o jornal se afirmasse entre as outras publicações do país, não apenas como mais uma entre tantas, mas como uma publicação periódica única entre as demais. E assim tem sido até hoje.
Mais recentemente, o Jornal passou de mensal a trimestral, sobretudo por razões financeiras, uma vez que nos foi retirado pelo Governo o direito ao porte-pago. Também pesou, nessa decisão, o facto de a responsabilidade editorial do Jornal estar praticamente toda sobre os meus ombros de jornalista profissional e ter-se tornado fisicamente impossível para mim corresponder ao ritmo alucinante de um Fraternizar por mês, a par da edição de livros e muitas outras actividades pessoais ao serviço do anúncio do Evangelho, a minha principal missão como presbítero da Igreja católica, felizmente, cada vez mais longe dos templos e dos altares, porque cada vez mais próximo das pessoas e das populações não ilustradas e não evangelizadas.
Os primeiros anos de vida do Jornal puderam contar com a entusiástica partilha de bens da Fraternidade Grão de Trigo. As quatro pessoas que a constituíamos vivíamos todas em comum, primeiro, no andar de um prédio, em S. Pedro da Cova, depois, numa casa independente, tipo vivenda construída por uma família de emigrantes em França e adquirida pela Fraternidade Grão de Trigo e logo doada à Associação Padre Maximino, para sua sede definitiva. Os quatro salários da Fraternidade eram postos numa bolsa comum e numa conta bancária comum. O estilo de vida era também de alguma austeridade voluntária e, por isso, todos os meses sobejava dinheiro que, em grande parte, partilhávamos com a Associação e as suas diversas iniciativas culturais, entre as quais, o Jornal Fraternizar tinha a primazia. Tamanha comunhão e tamanha militância tornaram possível a continuação do Jornal e da Associação.
Nesta altura, a Associação está já com novos elementos, tem uma nova direcção e tudo indica que tem condições para caminhar autonomamente, sem a “muleta” das fundadoras, dos fundadores. O Jornal Fraternizar é que ainda continua muito apoiado em mim, seu director. Precisamos urgentemente de alguém, perito em Teologia de Libertação, mulher ou homem, e que também goste de jornalismo, que aceite pegar no Jornal e lhe garanta continuidade. Como é sabido, já estou reformado, como jornalista, e é como voluntário que continuo a ocupar-me de cada edição. O que faço com muito prazer, evidentemente, mas consciente de que a situação é naturalmente provisória. Quando eu chegar à minha condição de definitivamente ressuscitado – está cada vez mais perto com o passar dos anos – não poderei continuar a ser o director do Jornal, porque nessa condição de ser humano plenamente ressuscitado/realizado, a actividade é duma ordem de grandeza tal, que nem os nossos olhos viram, nem os nossos ouvidos ouviram. E à beira dela, as actividades que agora realizo, se bem que historicamente importantes, são apenas como uma sombra. Já S. Paulo o intuiu. E eu também intuo, a partir do que vivo quotidianamente.
Quanto à Fraternidade Grão de Trigo, fez o seu percurso, ajudou as pessoas que a constituíamos a crescer em mais consciência e em mais humanidade, e foi abandonada, quando começou a ser sentida como um certo entrave ao desenvolvimento autónomo de cada uma, cada um de nós. Na altura, houve ainda algum drama, mas hoje todos compreendemos que foi melhor assim. Passou-se com ela o que se passa com a família de sangue: É indispensável para nascermos e crescermos, mas, a partir de determinada altura, ou saímos dela, ou morremos dentro dela, asfixiados, atrofiados. A vida é um processo aberto que exige sempre novas circunstâncias e, embora careça de certas balizas, como o rio que corre para o mar precisa de margens, essas balizas têm que estar sempre a ser mudadas/adaptadas, sob pena de escravizarem e atrofiarem o desenvolvimento da autonomia de cada pessoa em que ela acontece.
No momento da dissolução, repartimos em partes iguais o dinheiro que havia, cada pessoa recebeu a sua parte e deixou para a Associação o que entendeu. A fraternidade prossegue, desde então, entre nós, mais solta ou mais tensa, conforme as pessoas e a sua maneira de ser, mas é manifesto que valeu a pena termos passado por uma tão intensa experiência de comunhão fraterna/sororal. Agora, ao que aspiramos não é mais regressar a esse Passado, mas avançar para a Fraternidade/Sororidade total, que vem do Futuro e que só acontecerá quando o Amor for tudo em todas, todos. Daí, a aspiração que continuamente rebenta dentro de nós: Vem, Senhor Jesus! Vem, Plenitude! Vem, Comunhão!
A feitura do Jornal Fraternizar tem sido para mim, desde o princípio, uma indescritível ocasião de Graça. Cresço interiormente, sempre que me entrego a esta actividade. Acho que é o Jornal que me faz, e não eu que faço o Jornal. A Palavra apodera-se de mim. Não uma Palavra qualquer, mas a Palavra com Espírito. O acto de escrever é um acto de criar. A Palavra que me sai é a mesma que me cria, que me liberta. É impressionante. Sempre me senti o primeiro ouvinte da Palavra que anuncio, de boca ou por escrito. Já o disse, há mais de 30 anos ao Bispo do Porto, D. António Ferreira Gomes. Acusou-me ele – foi um homem grande da Igreja do Porto, mas, por isso mesmo, teve também as suas limitações, sobretudo, ao olhar para aqueles que ousavam fraternalmente dissentir dele, como foi o meu caso – de utilizar o altar, nas celebrações eucarísticas em Macieira da Lixa, enquanto pároco, para converter a palavra do Evangelho em chicote e, daí, zurzir em toda a gente, nomeadamente, nos “opressores” e “exploradores” do povo. (As aspas justificam-se, porque o Bispo sublinhava estas duas palavras num tom de voz que lhes dava um significado para lá do que elas, em si mesmas, contêm). A imagem do “chicote”, utilizada pelo Bispo, a propósito das minhas homilias, tinha a ver com a publicação, meses antes, do meu livro Chicote no Templo e que provocou uma escândalo de todo o tamanho em D. António. Foi então que, pela primeira vez, saiu de mim, inesperadamente, o testemunho que haveria de deixar o Bispo sem fala: Saiba, senhor D. António, que está a interpretar-me muito mal, sinal de que me conhece muito pouco: Saiba que, quando anuncio o Evangelho de Jesus, eu sou o seu primeiro ouvinte. E se a Palavra que anuncio é como um chicote (os profetas bíblicos chegam a dizer que a Palavra de Deus é como uma espada de dois gumes, o que é uma imagem muitíssimo mais violenta!), o primeiro a ser chicoteado por ela, sou eu. Mas, por isso, também sou eu o primeiro beneficiado dela. Porque a Palavra que escuto e que anuncio é Palavra com Espírito, com Sopro libertador e deixa-me cada vez mais liberto, mais solto, mais humanizado, mais eu próprio, mais audaz, mais como um carro de combate diante da Desordem estabelecida que mentirosamente se faz passar por Ordem!
Recordo, como se fosse hoje, o olhar de espanto de D. António. Incrédulo. Com o ar de quem nunca havia pensado em tal hipótese. Por momentos, ainda esperei que ele me caísse nos braços num abraço de irmãos e de discípulos da Palavra, mas infelizmente tal não aconteceu. O Bispo voltou a perfilar-se, colocou a postura e o rosto do Poder eclesiástico e deu a sentença condenatória: Sim, sim, é uma interpretação possível, mas a verdade é que, desde agora em diante, enquanto eu for bispo do Porto, você nunca mais será pároco na diocese!...
Recordo-me de, na altura, o Bispo ainda me dizer que talvez eu pudesse ir trabalhar pastoralmente em França com os emigrantes portugueses. Ele próprio, pelos vistos, até já tinha abordado um bispo de França nesse sentido, mas a receptividade não teria sido por aí além. Outra hipótese levantada pelo Bispo, era eu sair da país e ir tirar um doutoramento, e nunca mais pensar em ser pároco. Da minha parte, um doutoramento longe dos pobres, não quis, nem ele me mandou fazer. E quanto a ir trabalhar com emigrantes, tudo bem, apenas pus uma condição: não seria eu a oferecer-me, mas o senhor Bispo a decidir e a nomear-me para esse serviço. O Bispo não quis o odioso de me fazer sair do país, depois das duas prisões políticas que eu havia sofrido, e tudo ficou em águas de bacalhau. Até hoje.
Todos estes anos depois, estou feliz com o percurso feito. Comecei presbítero dentro dos templos e acabei fora deles. A Palavra que escuto – sou um homem espiritualmente à escuta – faz-me ser todos os dias homem-para-os-demais. Por isso, dificilmente, poderei ter lugar nos templos e nos altares, onde as pessoas não têm voz nem vez, não são!... Os templos não ruíram, como deveria ter sucedido, porque a Palavra com Espírito, quando é lá soprada e anunciada, tem força bastante para os fazer ruir. Foi assim, paradigmaticamente com o Templo de Jerusalém, aquando da actuação de Jesus de Nazaré. Não ficou dele pedra sobre pedra! Como os templos não ruíram, expulsaram-me deles, porque os seus donos ou gestores perceberam que eu não tinha lá mais lugar. Um ser humano, à medida que o for, não cabe nos templos. Ou é expulso. Ou sai por sua iniciativa. Ou vê os templos ruir e alegra-se. Infelizmente, os donos ou gestores dos templos ainda não entenderam isto. E fazem finca-pé, para que os templos se perpetuem e até se construam outros novos. Em lugar de apostarem no crescimento integral das pessoas, dos seres humanos, apostam nos templos. E assim escravizam a humanidade. Deixam de escutar e anunciar a Palavra com Espírito, e passam a fazer religião e mais religião, pregam mentiras e fábulas, entretêm as pessoas que os procuram e financiam tudo aquilo, no equívoco de que é de Deus, quando efectivamente é tudo Mentira, por isso, é demoníaco.
Recordo-me que, depois deste momento de tensão entre o Bispo e eu, senti forte impulso para escrever uma parábola, a que dei o título O Bispo converteu-se. O livrinho saiu e enviei um exemplar com dedicatória a D. António. Sei que ele, nas audiências que concedia aos meus colegas párocos, não se cansava de falar em mim e no livro. Mas não tive nunca a alegria de ver o Bispo descer do seu pedestal – é muito alto o pedestal em que vive um homem da Igreja em Portugal, quando chega a Bispo do Porto e não é capaz de, como primeiro acto seu, derrubá-lo e passar a viver singelamente como um simples ser humano, em tudo igual aos outros, a partir dos mais pobres, evidentemente – para me abraçar nas margens onde, desde então, passei a viver como ser humano, sem privilégios eclesiásticos e canónicos de nenhuma espécie, uma espécie de “padre maldito” que a instituição nem sequer teve a coragem de “excomungar”, e preferiu passar a tratar como “não-existente”.
Acham que exagero? Abram as páginas do Anuário Católico da Igreja Católica em Portugal e verificarão que o meu nome não consta na lista dos padres da Diocese do Porto, nem em nenhuma outra. E se hoje falo nisso aqui, é com alegria. Aquela alegria que é um dos frutos do Espírito Santo e que o Poder eclesiástico, evidentemente, não dá nem sequer conhece, precisamente, porque é Poder. E é próprio de todo o Poder, mais ainda do eclesiástico, matar a alegria, não dá-la ou alimentá-la. É por isso que se pode e deve dizer: Lá, onde estiver o Poder, não está a alegria. E onde estiver a alegria, não está o Poder! Quando é que, em Igreja, entenderemos este Evangelho de Deus?
2004 DEZEMBRO 09
Nestes últimos dias, tive dois convites para ir falar sobre os meus livros em outras tantas sessões públicas. Um convite veio de Vendas Novas do Alentejo. O outro, veio da Casa de Cultura da freguesia de Paranhos, no Porto. Depois de satisfazer estes dois compromissos, segui para Valladolid, Espanha, na companhia de duas amigas e companheiras da Associação Padre Maximino, Maria Celeste e Joaquina, a fim de participar juntamente com elas no XIII Encontro Estatal das Comunidades Cristãs Populares. Deixo aqui o essencial do que vivi, em cada uma destas três situações.
1. A deslocação a Vendas Novas foi um acontecimento. Pela primeira vez, fui falar dos meus livros a uma vila politicamente vermelha, uma espécie de feudo do PCP. Um padre católico, que se alimenta da Teologia da Libertação, no coração do Alto Alentejo! A sessão decorreu no âmbito duma Feira do Livro local, organizada pela respectiva Biblioteca Municipal. Decorreu no auditório da Biblioteca. A dinamização para a sessão deve ter falhado e, por isso, as presenças não foram por aí além. O próprio presidente do Município que fez questão de estar presente e de presidir à sessão – um gesto que calou fundo na minha consciência e que revela quanto o Evangelho de Jesus que anuncio é experimentado por quem ouve como boa notícia libertadora, ao contrário do moralismo e do espiritualismo alienante que geralmente são o “miolo” das intervenções de muitos dos meus irmãos de ministério eclesial, infelizmente, mais clérigos do que bispos e presbíteros da Igreja ao serviço da consciencialização e da libertação da Humanidade – foi o primeiro a reconhecê-lo perante mim. Fê-lo como quem se auto-critica. Pelos vistos, terão confiado demasiado na eficácia do pequeno cartaz anunciador da sessão, colocado à entrada da Feira do Livro, e numa breve notícia da sessão, sem qualquer relevo, num jornal da terra. Assim, a maior parte das pessoas residentes em Vendas Novas só terá sabido da minha presença, no dia seguinte, quando as poucas pessoas que apareceram e participaram no colóquio – prolongou-se por quase três horas! – tiverem dito da agradável surpresa que ele constituiu.
Do Porto para Vendas Novas e de Vendas Novas para o Porto, viajei de boleia com António Lopes, um conhecido militante comunista de Braga que, recentemente, trocou a militância partidária pela causa dos livros, sua dinamização e divulgação, e que esteve na origem desta sessão. Terá sido por sugestão dele que ela aconteceu. Em Vendas Novas, foi também determinante a adesão e o entusiasmo de José Leitão, outro militante comunista. A sua permanência à frente da Biblioteca Municipal fez o resto. E foi muito. Mas nem que não tivesse havido sessão pública, só a viagem de ida e volta, em conversa animada com António Lopes já teria justificado bem a minha deslocação. Não nos conhecíamos, pessoalmente, mas a viagem aproximou-nos tanto, que agora nos reconhecemos companheiros no sonho e na missão, ele como militante comunista, eu como militante do Evangelho de Jesus; ele como ateu, sem mais, eu como cristão ateu de todos os deuses que se alimentam de gente; ele como militante de livros de qualidade que é preciso dar a conhecer e fazer chegar às mãos das pessoas, das mais novas às mais velhas, eu como autor de livros com mensagem, de leitura nem sempre fácil e sempre muito polémica, como polémica é a Verdade, nomeadamente, quando se tem a coragem de a viver e de a proclamar, num tipo de sociedade como a nossa, edificada sobre a mentira. As conversas de ida e volta aproximaram-nos um do outro e deixaram-nos a ambos ainda mais humanos, sem dogmatismos de nenhuma espécie, tolerantes, abertos à diferença, tudo coisas difíceis de encontrar, tanto na estrutura oficial do PCP, como na estrutura oficial da Igreja católica. É por isso que não estranho nada que tanto António Lopes como eu próprio conheçamos hoje grandes dificuldades por parte das “chefias” das respectivas organizações, ele da “hierarquia” do Partido, eu da hierarquia da Igreja católica. O que, no meu entender, é altamente positivo. Não abona negativamente a meu respeito, nem a respeito dele, apenas a respeito da “cúpula”, quer da Igreja, quer do Partido.
Da sessão propriamente dita, registo a atenção com que as pessoas se mantiveram do primeiro ao último minuto, do ar de espanto perante o que lhes era dado escutar da minha boca de padre católico. Apesar de estarmos no Alentejo e numa vila politicamente comunista, a minha voz de Evangelho não só não caiu em saco roto, como até foi experimentada como surpreendente e galvanizadora boa notícia. Por mim, não estranhei que assim tivesse sucedido. Sempre soube que os comunistas e os ateus de boa vontade estão mais próximos do Reino/Reinado de Deus anunciado e vivido por Jesus de Nazaré, do que a generalidade dos católicos tradicionais, mais dados à religião do que à política, ao templo do que ao mundo, ao devocionismo do que à cultura. O ateísmo dos comunistas que não se conformam com este mundo dominado pelas multinacionais é muito mais Fé em Deus do que a fé de muitos católicos que, apesar dela, não deixam de tudo fazer para se tornarem donos de multinacionais, assim como são capazes de chegarem ao cúmulo de ver na riqueza acumulada nas mãos de alguns poucos uma bênção de Deus!
Regressei de Vendas Novas, com vontade de lá voltar. António Lopes garantiu que vai providenciar nesse sentido. Há-de programar uma deslocação, com sessões em diversas localidades, todas em cadeia, de modo que aproveitemos não só o tempo, mas também a viagem. Estou certo que assim irá suceder, já nos primeiros meses de 2005, ou António Lopes não seja um experiente militante comunista, com provas dadas no que respeita a organizar iniciativas com eficácia. Com ele a dinamizar, nada será deixado ao acaso. E, por isso, uma nova incursão minha e dos meus livros em terras alentejanas será ainda mais inesquecível.
2. A sessão na Casa de Cultura de Paranhos foi um pouco diferente. Tinham-me sugerido que preparasse uma intervenção inicial, para “aquecer” o ambiente e provocar a participação no debate. Assim fiz. As pessoas presentes eram em maior número do que em Vendas Novas. E não deixaram os seus pergaminhos por mãos alheias. Verifiquei à chegada que em quase todas é grande o carinho que nutrem por mim. Um homem aproximou-se de mim com um amarelecido exemplar do livro ENCONTRO, publicado pela primeira vez ainda antes do 25 de Abril 74. Conserva-o como uma relíquia, e sublinhado nas afirmações mais acutilantes. Quis que eu o autografasse, todos estes anos depois, e com a data de agora, para, dessa forma me dizer que continua a fazer dele um livro de mesinha de cabeceira!
Houvesse tempo e a sessão prolongar-se-ia madrugada dentro. É nestes momentos que eu confirmo que as populações estão sedentas de Verdade e de Liberdade, só que não se atrevem a organizar mais iniciativas como esta. Tem que haver alguém que o faça, para que elas apareçam. Algumas aparecem a medo, mas ainda mais sedentas que aquelas que organizam a sessão. Basta a sessão ter início, que elas logo descontraem e, depois, na fase das intervenções espontâneas, tomam surpreendentemente a palavra. É uma experiência inolvidável.
Nesta sessão, houve um homem, já entrado em idade, que se manteve sempre muito atento ao que eu dizia, mas também muito hirto, sem se relacionar com ninguém à sua beira. Tomava notas do que eu dizia e tudo registava. Quando a palavra passou para o lado da assembleia, ele manteve-se no seu papel de estar atento e de continuar a registar o que as pessoas diziam e, sobretudo, o que eu comentava a propósito. Até que, lá mais para o final da sessão, já a noite ia adiantada, ele toma a palavra e formula-me várias questões, duma só vez. Mas o que ele mais quer saber é que lugar tem a oração na minha vida e como é a minha oração. Quando iniciei os esclarecimentos, ele interrompeu-me por mais duma vez, para que eu não dissertasse sobre o modo pagão de a nossa Igreja orar, mas que fosse directo ao assunto e dissesse em concreto o que é para mim a oração, e como é que eu faço oração. Foi nesse momento que ele deixou cair a máscara das boas maneiras com que se havia mantido até então e passou a agredir-me com o velho insulto de que eu sou muito hábil no uso da palavra, mas que, apesar disso, não consigo esconder todo o ódio que nutro pela Igreja!
Por mim, não estava nada a contar com semelhante agressão. Apesar disso, acolhi as palavras que me dirigiu, mas não entrei no jogo da provocação e do insulto. Olhei-o até com redobrado carinho e redobrada ternura, ao mesmo tempo que lhe falei com firmeza na voz e olhos nos olhos. Reafirmei, perante ele, todo o meu amor à Igreja. Deixei claro que as críticas que faço nunca foram nem são reveladoras de ódio, apenas de amor. Ódio, é o que experimento da parte de muitos católicos em relação a mim, que não são capazes de suportar a diferença, a dissidência e, sobretudo, a novidade e a força do Evangelho libertador de Jesus que procuro anunciar a tempo e fora de tempo. E quando lhe disse o que é para mim a oração e como faço oração, percebi que o homem deixou transparecer um ar de espanto, comprovativo de que nunca lhe havia passado pela cabeça que a oração alguma vez pudesse ser essa misteriosa actividade do Espírito Santo em mim, em nós!
Era, pois, claro que para ele, a oração não tem passado duma actividade em tudo igual à dos pagãos, que julgam que é no muito dizer coisas a Deus que consiste a oração. Sempre lidaram e lidam com ídolos mortos, obra das suas próprias mãos e da sua própria imaginação, nunca se abriram nem abrem ao Deus Vivo, o de Jesus. Ora, aos ídolos, as pessoas podem dizer tudo o que lhes apetecer e chamá-los à atenção quando eles parecem distraídos sobre o que se passa no mundo. Mas não é, não pode ser assim com o Deus Vivo. Com o Deus Vivo, a postura é de silêncio e de escuta. E para que não aconteça que eu escute o meu próprio pensamento e depois diga que foi a Deus que eu escutei, importa que eu deixe Deus, o Deus Vivo, chegar até mim mediante as vítimas da História, com as quais Ele sempre se identifica e que são sempre o seu rosto e a sua voz, no aqui e agora de cada uma, de cada um de nós.
O homem nunca terá sido tratado assim por ninguém a quem agrediu como ele me agrediu a mim. Vai daí, recolheu a sua agressividade e tornou-se simplesmente humano, iluminado no seu grande silêncio. Ainda não teve a coragem se levantar do lugar e vir ao meu encontro com o abraço da comunhão, mas foi como se o fizesse. Abraçou-me com o seu olhar iluminado e com a sua paz desarmada. E o debate pôde prosseguir com outras intervenções cada vez mais soltas e felizes.
“Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade”. Foi com esta afirmação, atribuída a Jesus de Nazaré, dita pelo próprio ao procurador Pôncio Pilatos, no momento do julgamento sumário que este lhe fez para logo o condenar à morte na cruz e o mandar executar, que eu abri a sessão. Esclareci que o autor do Evangelho de João terá percebido que só o ser humano, assim totalmente desarmado diante do Império, representado na Palestina do tempo de Jesus por Pilatos, poderia proferir tão surpreendente afirmação. E deixar o representante do Império sem jeito, num desconforto do tamanho do mesmo Império. O Império é a Mentira organizada. E o ser humano que o enfrenta desarmado e lhe cai nas mãos, sem jamais sentir necessidade de ir a correr armar-se contra ele é a testemunha viva da Verdade. Põe a nu a mentira do Império. Enquanto mentira, o Império mantém a Verdade cativa na injustiça.
Prossegui depois a minha exposição inicial até ao final. Assim: “A Verdade, como a luz, mostra que as obras do Império são más. Mesmo quando parece que faz o bem, ainda é para melhor se perpetuar como Império. Mas não só são más as obras do Império. Também o são as obras de quantos andam feitos com ele, Igrejas incluídas. Como ainda hoje acontece com a nossa Igreja católica e com as novas Igrejas que por aí proliferam e que funcionam como uma espécie de outros tantos braços moralistas do Império.
Jesus e o Império são incompatíveis. Como a Verdade é incompatível com a Mentira. O mesmo já não se pode dizer das Igrejas e do Império. Quase sempre se entendem entre si. Fazem concordatas. Partilham os privilégios e o Poder. Por isso, o mundo está como está!
Tal como Jesus – acrescentei, depois, com aparente temeridade – também eu digo: Nasci e vim ao mundo para dar testemunho da Verdade. Ele, como o Mestre. Eu, como um dos seus discípulos. Os meus livros – nesta altura, ao todo, mais de 20 – inserem-se nesta dimensão: dar testemunho da Verdade. Ora, quem testemunha a Verdade, num mundo dominado pelo Império e sua mentira, está sempre com a sua vida em risco. Tem um viver martirial. Inevitavelmente. Jamais tem lugar na mesa dos benefícios do Império. Jamais fará carreira. Nem sequer chega a ser nomeado para quaisquer cargos. Não é chamado a partilhar o Poder!
É também esta a minha condição, desde 1973, na Igreja católica. Até essa data, tinha já publicado Evangelizar os pobres – um título programático – Maria de Nazaré e, sobretudo, Chicote no Templo. O livro Maria de Nazaré foi o meu primeiro livro polémico. Obrigou o Bispo da diocese a nomear uma comissão de peritos em teologia e cristologia para analisar o seu conteúdo, o que revela que a perseguição contra mim, por parte de certos católicos de direita, já vem de longe. E não abrandou, antes aumentou em fúria e em ódio, quando os peritos concluíram que o livro em causa não só não continha heresias, como até era inovador na forma de falar sobre Maria, a mãe de Jesus. E isto, apesar de um dos capítulos já então perguntar em título: “A senhora de Fátima ainda será Maria?” Mas o livro mais polémico dessa altura e que levou o Bispo a retirar-me de vez qualquer cargo oficial na Igreja foi Chicote no Templo. Logo, pelo título. E, depois, por o livro ter aparecido cerca de 15 dias após eu estar de novo preso em Caxias. O Bispo D. António – deu-mo a entender cerca de 11 meses mais tarde, quando saí da prisão e fui ao paço episcopal cumprimentá-lo – imaginou que, para isto suceder assim, eu deveria poder contar com uma super-organização clandestina e funcionaria como uma espécie de “cavalo de Tróia” na Igreja, para a derrubar por dentro. Quando, afinal, eu apenas recorria a simples linguagem cifrada – o meu telefone de pároco de Macieira da Lixa estava sob escuta! – sempre que tinha de conversar com a Tipografia do Porto que me imprimiu o livro...
A partir daí, percebi os sinais que me dava o Poder eclesiástico. E só tinha uma de duas escolhas: ou escolhia seguir a Verdade e dar testemunho da Verdade, e era mantido arredado de todos os cargos eclesiásticos que exigem de quem os exerce que faça de conta que está tudo bem e que os chefes – bispos e papa – têm sempre razão; ou arrependia-me das minhas primeiras ousadias, pedia perdão e voltava a ser integrado no sistema, com fortes possibilidades de fazer carreira eclesiástica, coisa que chegou mesmo a ser-me sugerida pelo mesmo Bispo, no decorrer duma conversa particular no paço.
Escolhi a primeira hipótese. E aqui estou, mais de 30 anos depois, feliz e contente, como presbítero da Igreja do Porto, sem quaisquer cargos eclesiásticos, consciente de que nasci e vim ao mundo para dar testemunho da verdade. O que perdi em carreira eclesiástica e em privilégios clericais, ganhei e ganho em humanidade, em alegria, em liberdade, em paz! Na Igreja, como no mundo, sou assim como um menino. E é assim que vivo. Desarmado. Pobre. À intempérie.
Quem for pela Verdade, escuta a minha voz, agrada-se dos meus livros, ouve o meu testemunho. Quem for pelo carreirismo, eclesiástico ou outro qualquer, aborrece-se comigo, odeia-me, pior, despreza-me, pior ainda, comporta-se como se eu já não exista. E não suporta os meus livros. Sabem que há pessoas católicas que não conseguem sequer olhar para a capa de alguns dos meus livros?
Hoje, sei por experiência que o mais difícil na vida duma pessoa é ser simples ser humano. O mais fácil é sermos deuses, sermos como deuses, subir de cargo em cargo, até chegar a César de Roma, presidente do Império, e, na Igreja, bispo, cardeal, papa. Isto de poder ostentar um “D.” antes do nome pesa muito, neste mundo de mentira e de hipocrisia. Mas, para mim, tudo o que impede o desenvolvimento da fraternidade/sororidade é lixo, esterco. Por isso a tudo isso digo: Não, obrigado! Deixem-me ser simplesmente homem, ser humano.
Os meus livros são testemunho da verdade. Como tal, incomodam. E muito. E desencadeiam ódios sem conta contra mim e contra eles. Podem estar muito bem escritos, mas nunca arrebatarão um prémio, desses prémios atribuídos pelos grandes. São muito mais incómodos do que os livros de Saramago, por exemplo. E são-no, tanto para católicos, como para ateus, e também para cristãos da área protestante. Dificilmente, alguém com responsabilidade nas Igrejas se agrada de todos os meus livros. Pode agradar-se, se for da área protestante, por exemplo, de Fátima nunca mais, mas já não suportará, o Que fazer com esta Igreja? E porquê? É que todos eles apontam para um modelo de ser humano e de Igreja que só quem recusar a via do Império e dos privilégios é capaz de aceitar. Mas serão sempre poucos, já que, como diz Jesus, na versão do Evangelho de Mateus, “larga é a porta e espaçoso o caminho que conduz à perdição [= deixar de se ser humano e tornar-se como pequenos deuses] e são muitos os que entram por ele”.
Pensam vocês que quem me persegue e me odeia é por eu, nos meus livros, atacar a Igreja? Não! Perseguem-me e odeiam-me por eu dar testemunho da verdade! E por não poderem vir dizer publicamente que eu minto. Como não podem dizer que eu minto, ainda mais me odeiam. Mas eu, como um menino, caminho pelo mundo como quem leva flores nos olhos e ternura nas mãos. Sempre de braços abertos para quem chega, mesmo para as pessoas que me odeiam. Sou irmão universal. Simples ser humano. Desarmado diante do Império. Leiam-me e deixem que a Verdade vos liberte, vos faça humanos. Seres humanos, simplesmente!
3. Em Valladolid, fui encontrar cerca de 200 cristãs/cristãos delegados de múltiplas comunidades de base do Estado espanhol. Foi uma experiência reconfortante. Aqui, em Portugal, o que sinto é uma espécie de deserto eclesial à minha volta. Lá, senti-me compreendido, integrado, reconhecido. Bem sei que foram apenas alguns dias, mas de intensa relação, dado que o encontro decorreu num colégio e todas as pessoas vivíamos, debatíamos, comíamos juntas. Só para dormir é que algumas pessoas tiveram que ir fazê-lo fora, por manifesta falta de espaço.
O encontro decorreu em forma de trabalho de grupo. “Talleres”, como eles dizem. Não houve qualquer hierarquia. Todas, todos iguais. Mulheres e homens. Com estudos académicos e simples trabalhadores com a escolaridade básica. A Igreja como Jesus poderia tê-la sonhado, se alguma vez tivesse pensado nisso. Não pensou. Nada mais quis que um movimento. Sem chefes. Sem hierarquias. Sem clérigos. Sem papas. Ainda que com líderes, animadores, ministérios/serviços. Tudo na mais completa liberdade e na total igualdade. Sem a mais pequena discriminação.
No final, houve celebração eucarística. Havia capela na casa, mas nós optámos pelo salão de festas. Toda a celebração decorreu sem a visibilidade de um padre a presidir. O padre estava lá, mas era um entre as demais, os demais. Sem paramentos de nenhuma espécie. Não houve colectas de dinheiro, nem a pretexto de solidariedades concretas. Toda a celebração foi uma enorme experiência de comunhão, de fraternidade/sororidade. Com todas, todos como protagonistas.
Que a Igreja dos bispos ponha aqui os olhos. Sejam bispos, mas não sejam, poder. Promovam os ministérios de toda a Igreja, não os abafem. E tenham a audácia de diminuírem, para que a Igreja-Povo-de-Deus cresça e esteja, incondicional e gratuitamente, ao serviço da consciencialização/libertação da Humanidade.
2004 DEZEMBRO 02
“O Pároco tem direito à sua subsistência, que consiste na oferta de um dia de salário de cada família. Podeis fazê-lo no fim das eucaristias, na sacristia. Estará alguém da Fábrica da Igreja. Recordo que quem não o fizer não tem o direito de exigir o que quer que seja do trabalho do pároco.” O recado está dado. Por escrito. Vem na folha paroquial que é distribuída aos domingos, no final das missas, em várias paróquias católicas do concelho de Felgueiras. As famílias que residem nessas paróquias, ou pagam, ou ficam a ver navios, no que respeita à disponibilidade do “seu” pároco.
Alguém me fez chegar às mãos um exemplar da folha em que este recado está escrito. Limitei-me a transcrever. Não me acusem de dizer mal da Igreja. É a Igreja, nestas paróquias concretas, quem diz mal de si própria, ao escrever recados destes numa folha destinada ser posta nas mãos das pessoas que frequentam o templo e a missa dominical.
Recados assim são sobejamente elucidativos. Nem sei como é que os párocos que assim entendem o seu ministério pastoral e assim se comportam no seu exercício, ainda não se lembraram de colocar à entrada do templo paroquial vários ficais privativos com o livro paroquial dos pagamentos na mão, para conferirem se quem vai entrar para a missa efectivamente satisfez o pagamento. A ser verdade o que diz esta folha, a entrada na missa deveria ser condicionada a quem paga. A missa é um trabalho do pároco. Não é só dele, mas a verdade é que sem ele já não há missa. E sem o trabalho das outras pessoas pode haver missa. Menos “solenizada”, mas há missa. Sem ele é que não há.
É sabido que todas as outras pessoas que aceitam ajudar a “fazer” a missa não exigem qualquer pagamento pelos serviços prestados. Ainda se não terão lembrado disso! Mas pela lógica dos párocos que assim procedem, poderiam e deveriam fazê-lo, sejam as meninas, os meninos de coro, sejam os membros do grupo coral, sejam os ministros extraordinários da comunhão, sejam os portadores das cestas que recolhem as ofertas dos “fiéis”, no momento do Ofertório. É sabido que ninguém o faz. Só certos párocos o fazem! O Evangelho bem diz que dêem de graça o que de graça receberam. Mas os párocos que assim se comportam fazem orelhas moucas ao Evangelho. O que querem é dinheiro e mais dinheiro. A instituição que servem não lhes permite que constituam família, que gerem filhas e filhos, mas eles, mesmo assim, com o que sonham é com dinheiro e mais dinheiro. Talvez para compensar a carência de não terem constituído família. Assim, podem ver o dinheiro a crescer, em lugar de verem crescer as suas próprias filhas e os seus próprios filhos. Além disso, estes párocos entendem que têm um status social elevado a salvaguardar e fazem questão de o manter. Se possível, até elevá-lo ainda mais. Esse status exige-lhes que mudem de carro de marca todos os anos, o mais tardar, de dois em dois anos; que façam férias repartidas no estrangeiro, em boas estâncias balneares, nada deste provincianismo das praias portuguesas; que não deixem de frequentar grandes jantaradas e de dar os seus passeios ao estrangeiro; que construam uma ou duas moradias com piscina privativa. Depois, como o seguro morreu de velho, estes párocos ainda têm que fazer tudo, quando estão no activo, para garantirem um bom pé de meia, para o tempo em que já não puderem estar à frente das várias paróquias em que presentemente estão, e, consequentemente, já não receberem, todos os anos, como agora recebem, “um dia de salário de cada família”.
Aos pobres e remediados que se escandalizam com comportamentos assim, estes párocos defendem-se com argumentos rasca, como, por exemplo, que andaram 12 anos a estudar, para além dos primeiros 4 anos do ensino básico; que estão habilitados por um curso superior; que não são menos que os médicos e os engenheiros, por exemplo; e que são funcionários eclesiásticos credenciados, logo abaixo dos bispos! Como quem diz: Quem quer os bons empregos, faz por isso. E eles fizeram. Assim como os pais deles, quando consentiram que eles fossem para padre. Agora, que já são padres, são os primeiros a exigir que quem pretende “o que quer que seja do trabalho do pároco”, tem que se chegar à frente. Ou assim, ou não há nada para ninguém!...
Mas a folha paroquial que traz este recado não se fica por aqui. Também traz um role de “intenções” de missa para toda a semana nas mesmas paróquias onde a folha foi distribuída. Dei-me ao trabalho de contar essas “intenções”. São quase 60 por semana só para um dos párocos! Ora, se quem manda celebrar a missa pagar, pagar no mínimo, 7 euros e 50 cêntimos, por cada “intenção”, o referido pároco celebrante junta, no final da semana, a “módica” quantia de cerca de 450 euros! O que dá, em média, no final de cada mês, só por esse “trabalho”, cerca de 1.800 euros!!! Mas em que consiste o “trabalho” de rezar cada uma destas missas de rotina? Pois simplesmente deslocar-se até à igreja onde ela está anunciada, vestir os paramentos da praxe, que são propriedade da paróquia, avançar para o altar e ai, durante cerca de 20/25 minutos, ler o que está no missal, num tom de voz sem qualquer esforço especial. De resto – e segundo o que oficialmente ensinam as próprias catequeses paroquiais – o efeito da missa a favor das “intenções” está sempre garantido, pois é automático, quer o pároco esteja bem disposto ou mal disposto, ponha empenho no que faz ou esteja completamente alheio ao que faz, pronuncie com nitidez as palavras, ou coma grande parte delas, ponha alguma dignidade no acto, ou o realize no registo da inércia e da rotina!
Sei que estou a caricaturar, mas infelizmente há muitos casos por essas paróquias católicas além, em que a realidade é ainda mais caricata que a caricatura que aqui estou a fazer. Mas o que me deixa mais triste é constatar que, apesar de já estarmos no início do terceiro milénio, ainda continua a haver por aí bastantes pessoas que, na sua boa fé, na sua ingenuidade e nos seus ancestrais medos do além, não deixam de alimentar toda esta engrenagem eclesiástica de mentira e de negócio. Duma maneira geral, são as pessoas menos escolarizadas, menos ilustradas e, sobretudo, nada evangelizadas, que, assim, se mantêm escravas de todo um tradicionalismo católico-pagão, na continuação do que, para seu mal, já fizeram os seus antepassados. E não são só católicos praticantes que o fazem. Também muitos católicos, que hoje se dizem não praticantes, continuam aí a não dispensar as “missinhas” pelas “almas” dos seus familiares falecidos! Deste modo, o negócio das missas continua de vento em popa. Para mal das pessoas que assim continuam sem se libertar dos muitos medos ancestrais que as habitam. E também para mal da nossa Igreja católica que, com esta prática simoníaca, deixa de ser sacramento do Deus de Jesus no mundo onde está implantada, ao mesmo tempo que progressivamente se auto-corrompe e auto-descredibiliza.
É manifesto que os párocos que adoptam este tipo de comportamento pastoral nas paróquias onde são reis e senhores (há uma “Fábrica da Igreja”, eu sei, mas também sei que o pároco é obrigatoriamente o seu presidente e é ele quem escolhe os outros membros, ou, pelo menos, todos têm a confiança dele, o que transforma este organismo numa espécie de claque de apoio!) não estão nada interessados em evangelizar as pessoas e as famílias. Aliás, como poderão fazê-lo, se eles próprios ainda não estão evangelizados? Se eles próprios ainda se comportam como meros funcionários eclesiásticos, tal como outros homens podem ser funcionários públicos ou da administração local? A única diferença entre uns e outros tem apenas a ver com o tipo de “trabalho” que executam, com a empresa a que pertencem e com a entidade patronal que os nomeia para a função. Em tudo o mais, é idêntico. E creiam que, numa Igreja assim, tipo empresa, tudo pode funcionar, mesmo que o pároco não seja crente no Deus de Jesus, nem seja verdadeiro discípulo de Jesus, o Cristo. Aliás, para se ser funcionário eclesiástico assim, a Fé cristã jesuânica só atrapalha, o Espírito Santo só atrapalha, o Evangelho de Jesus só atrapalha. A única coisa que não atrapalha é que haja muito dinheiro em jogo e um mecanismo de funcionamento tal, que esse muito dinheiro reverta, na sua maior fatia, para o respectivo funcionário, o pároco de turno!
Não se escandalizem com o que escrevo. Escandalizem-se com a realidade dos factos. E fujam dela, se quiserem, se forem capazes, se tiverem coragem para assumir a diferença, para dissentir, mesmo que o meio social em que estão a viver, seja um daqueles meios pequenos, como a freguesia de Macieira em que vivo, nos quais toda a gente se conhece, tudo se sabe e é de imediato comentado, criticado e apontado a dedo. Infelizmente, uma coragem assim é coisa rara, muito rara, nestes tempos camaleónicos que vivemos. E dignidade pessoal e verticalidade humana nem se fala. Custa-me ter de o reconhecer, mas não posso deixar de confessar que, no tipo de Igreja católica que hoje somos, mais pagã do que cristã jesuânica, e no meio de toda a simonia em curso, sancionada como coisa boa até pelo Código de Direito Canónico, dignidade e verticalidade são coisas que não se vêem em abundância, a começar nos funcionários mais responsáveis e a acabar nos “leigos” anónimos, mulheres ou homens, os quais, o mais a que podem aspirar é poder andar na órbita do pároco, ou do bispo a aplaudi-los, a fazer-lhes reverências, a fazer de conta que tudo aquilo que tanto um como outro dizem e fazem é importante, é decisivo para a salvação do mundo, quando a verdade é que não vale a ponta dum corno, causa vómitos a Deus, enoja as pessoas com um mínimo de bom senso e de empenhamento no mundo, embora continue a dar muito jeito a certos políticos corruptos que nunca dispensam esses ambientes, sobretudo, em tempo de campanha eleitoral (similes cum similibus = os corruptos e hipócritas dão-se bem uns com os outros).
Entretanto, não sei se repararam num pormenor chocante que a frase que transcrevi da folha paroquial e com a qual abri esta minha reflexão, contém, e que é revelador de que os párocos que assim actuam não olham a meios para obterem os seus fins. E os seus fins é juntar dinheiro e mais dinheiro. Eu reparei e por isso faço aqui o devido destaque. O pormenor é este: Os párocos que assim actuam, afirmam, por um lado, que têm “direito à sua subsistência”; e que esta será garantida com “a oferta de um dia de salário de cada família”. Por outro lado, esses mesmos párocos cobram dinheiro - e que dinheiro! - por cada “intenção” de missa que as pessoas que já lhe dão um dia de salário lhe encomendarem! Quer dizer: para lá da “oferta de um dia de salário”, feita anualmente, para a “subsistência” do pároco, as pessoas que quiserem ter uma ou mais missas pelas suas “intenções”, têm que lhe pagar esse “trabalho” por fora, que, supostamente, já não será para a sua “subsistência”, mas para o seu esbanjamento, para os seus excessos, para os seus luxos! Mas há mais: Se os párocos que assim actuam, exigem que lhes paguem por cada “intenção” de missa a verba que a própria Diocese impõe como “emolumentos”, é também de supor que eles exijam outros pagamentos por outros “trabalhos” que alguém lhes peça, como por exemplo, por cada baptismo, por cada casamento, por cada funeral. E, se assim for, é mesmo um ver se te avias!... E um tal fartar, vilanagem!...
O que mais me dói, no meio de tudo isto, é que continue a haver pessoas que aceitam, como uma fatalidade, toda esta pouca vergonha e não gritem com palavras e com a própria vida: Basta! Na verdade, se a Igreja, nas paróquias católicas, não é capaz de se deixar conduzir pelo Evangelho de Jesus e pelo seu Espírito; se a Igreja, nas paróquias católicas, se comporta como uma empresa de serviços mais, entre as outras empresas de serviços que estão aí no mercado, então que sejam as pessoas a tomar uma posição radical: afastem-se desses espaços duma vez por todas. Não continuem a confundir Deus e Fé em Deus com esta pouca vergonha, com este negócio eclesiástico. E saibam que para poderem viver e alimentar a sua Fé em Igreja, as pessoas não precisam para nada das paróquias católicas transformadas em empresas de serviços religiosos, nem dos párocos-funcionários que, à frente delas, descaradamente as sugam e enganam. A Igreja de Jesus é muito mais simples e gratuita. Basta, como diz o próprio Jesus, no Evangelho de Mateus, que dois ou três nos reunamos em seu nome, seja onde for, até num café, em plena natureza ou na casa de alguma, algum de nós, e ele sempre estará no nosso meio. Sem nos exigir qualquer dinheiro em troca. A pequenina Comunidade cristã de base que assim se congrega pode e deve escutar a Palavra de Deus, Partir/Comer o Pão e Derramar/Beber o Vinho em memória de Jesus e impulsionar-se, e a todos e cada um dos seus membros, para se fazerem próximos das pessoas que mais sofrem e que mais são excluídas e marginalizadas, até que elas se levantem e andem! Experimentem e verão.
Por mim, é assim que vivo como padre/presbítero da Igreja. Longe das paróquias católicas. Longe dos seus templos e dos seus altares. Bem próximo das pessoas, sobretudo, das mais fragilizadas e marginalizadas. E tudo o que faço é de graça, evidentemente, como nos recomenda o Evangelho: “Dai de graça o que de graça recebestes”. Tenho para mim que tudo o que não for assim, é pecado. Como tal, não pode ter a marca, o selo, do Espírito Santo!