CORREIO NÃO CONFIDENCIAL RECEBIDO/RESPONDIDO EM 2007


Dezembro, Vasco (1)

Pe. Mário: Bom, a mim parece-me que tudo o que nos liga à religião é bizarro, sem sentido... nunca precisei dela, vivo perfeitamente sem ela. E 95% dos intolerantes bacocos que encontrei na minha vida, são religiosos. São sem­pre os primeiros a roer a corda... triste sina a da maioria dos religiosos. Ne­nhu­ma religião merece o meu respeito. O Homem nasceu para viver erecto e não para perder a dignidade de joe­lhos... não para servir um produto da ima­ginação de dementes mercadores de almas. Teologia? O que é isso? Filo­sofia do Nada? Tão difícil é a lógica para tantos... Fé... Fezada, isso sim. Um bom e patético exemplo: Segundo noti­cia o Times Online, o Dalai Lama coloca a hipótese de consultar os seus segui­dores num referendo sobre a sua reen­car­nação. Basicamente, pretende sa­ber se os seus cerca de 14 milhões de seguidores em todo o mundo pre­ten­dem que ele reencarne ou não! Se a maioria achar que não, ele simples­men­te não renascerá; caso contrário, quebrará a tradição centenária e no­mea­rá ele próprio um reencarnado. Pare­ce complicado, mas não é. Afinal, é apenas religião... e tudo é possível!

(...) E também já esteve mais longe o dia em que os “cristões” vão voltar a queimar na cruz os ateus como eu... Como bem o deseja o bombardeiro B16 e a sua clique da Opus Gay, perdão, Gay, perdão, Day (que além de serem inquisidores também têm cara de pedó­filos). E os meus votos para as festas que se aproximam são: que as religiões rebentem de saúde!

 

Vasco: Concordo consigo. Há poucos anos, fui convidado para falar (fazer uma conferência, dizia o convite) sobre Religião. E sabe como comecei? Assim: Trago-vos uma boa notícia: a religião acabou!... Foi um escândalo. Mas ninguém mais arredou pé até ao final. Sabia que Jesus, o de Nazaré, abordou a religião como uma das três grandes tentações da Humanidade - as outras duas são o Dinheiro e o Poder - às quais havemos de resistir para SERMOS? Por isso, os que viviam/enriqueciam e eram poderosos à custa da religião o mataram daquela maneira ignominiosa que sabemos. Por mim, procuro viver a Fé de Jesus, não a religião. A Fé de Jesus não é uma doutrina, nem uma religião, nem um culto. É uma prática. A prática do amor aos demais, se possível, na sua máxima expressão de gratuidade, de abertura/acolhimento/partilha e também de perdão. É o Futuro do Homem, irmão universal, da Mulher, irmã universal! O meu abraço, Mário

Vasco (2)

Bom dia. Quer dizer então que acredita em deus? E que cristo é o seu filho que se sacrificou para nos “mostrar” o caminho? O cristo que aceitou morrer às mãos do seu pai, deus? O deus, pai, que não hesitou em sacrificar o seu filho? Abraço.

 

Olá, Vasco. Como é que, a partir do meu curto comentário ao seu mail anti-religião, que eu de certo modo subscrevi e até reforcei, o Vasco foi congeminar este seu novo mail em forma de pergunta? O que é que encontrou no meu comentário que o levou a formular-me essa pergunta e nesses precisos termos? Ora volte a ler-me e verá que a sua questão, nos termos em que ma formula, não tem nenhuma base de apoio nas minhas palavras. De resto, sempre costumo advertir os que se confessam crentes em Deus e os que se declaram ateus: de que Deus é que vós, crentes, sois crentes? E de que Deus ou de que ideia/imagem de Deus é que vós, ateus, sois ateus? Desse Deus que esta sua pergunta fala obviamente que também eu sou ateu! O meu abraço, Mário

 Vasco (3)

Não me inter­pre­te mal. Reconheço que houve um pouco de malícia da minha parte. Eu sei bem qual é a sua posição relativa­mente ao deus que mencionei. Mas on­de eu queria chegar era: haverá outro? Quanto a deuses, como sabe, essa questão é prefeitamente irrelevante pa­ra um ateu. Eles não existem. E a ques­tão de haver algo que o substitua nem sequer se coloca. Não tem lógica. Um ateu não é ateu por fé. Nem sequer sei o que isso é... apenas conheço a de­finição que vem no dicionário. Podía­mos passar dias a usar semântica para tentar embelezar os nossos pontos de vista, mas eu não o vou fazer. Não ia le­var a lado nenhum. Mas reparei que no fim acabou dizendo: “Desse Deus que esta sua pergunta fala obviamente que também eu sou ateu”. O que quer dizer que acredita num deus... e por isso, por definição, não é ateu. Há uma grande diferença entre fé e método. Mesmo que o objectivo final seja o mes­mo. Essa é uma das coisas  que dis­tingue um ateu dum crente. Obje­ctiva­mente, deuses implicam religião: A=>B cuja negação é ~B=>~A (Não B => Não A) Ser anti-religião é ser anti-deu­ses. Todo e qualquer deus. Um abraço.

 

Bom dia, Vasco. Acho que o específico de Jesus é revelar-nos/avisar-nos de que há sempre outro deus, para lá do deus-que-se-vê, o Dinheiro: É o deus-que-se-não-vê, o Invisível. É conhecida e escandalosa q. b. a sua revelação/boa notícia: “Ninguém pode servir a dois senhores/patrões. Não podeis servir a Deus [o-que-se-não-vê] e ao Dinheiro [o-que-se-vê].” A Religião tem exclusivamente a ver com o deus Dinheiro. Aliás só funciona com Dinheiro e ela própria é uma fábrica de fazer Dinheiro. Que o digam os pastores das novas igrejas-com-sotaque-brasileiro. E os gestores dos santuários católicos, sobretudo, os do santuário de Fátima. Com o outro Deus, o deus-totalmente-outro, que nunca ninguém viu nem verá, a Religião não tem nada a ver. Nem Ele gosta dela. Vomita-a. Do que Ele verdadeiramente gosta é de Política, não a porca Política dos profissionais da dita, vendidos ao deus Dinheiro e aos seus Executivos do Poder e da Religião, mas a Política que, como Sopro libertador e criador de irmãs/irmãos, rebenta ininterruptamente da dor e do clamor do Pobre e do Oprimido, da Vítima e é prática maiêutica e desarmada, sororal/fraterna e solidária, assumida sob a forma duelo, onde se pode perder a própria vida e, antes dela, o emprego, os bens, o bom nome, até acabar pobre-com-os-pobres, oprimido-com-os-oprimidos, vítima-com-as-vítimas, crucificado-com-os-crucificados. E tudo por decisão do deus-Dinheiro e dos seus Executivos do Poder e da Religião. Foi o que sucedeu com Jesus, o de Nazaré!

O ateu tradicional, ilustrado, só anda uma pequena parte do caminho que nos levará a ser humanos e irmãs, irmãos universais. Quando menos espera, já está caído na Idolatria, é um idólatra. O deus-que-se-vê, o Dinheiro, e que é servido pelos Executivos do Poder e da Religião, segue esta estratégia: quem não é contra mim, já por mim. O Vasco conhece muitos ateus ilustrados que sejam contra o deus Dinheiro? Não estão quase todos nos Executivos do Poder, seja no Governo, seja na Oposição, e da Religião? Não comem todos à mesma mesa dos Privilégios? Podem ter um discurso político anti-capitalista, mas a sua prática cai dentro desta Ordem Mundial que ele pariu e vive dela. Não vivem em Deserto, como Jesus sempre viveu. Jesus viveu na Ordem Mundial do deus Dinheiro - não há outra - mas sem nunca ser dela. Nunca cedeu a essa Tentação. Nem integrou nenhum dos seus Executivos. Acabou assassinado pelos Executivos do Dinheiro em uníssono. E banido para sempre da sua Ordem Mundial. Só voltou a entrar nela, quando os seus seguidores se venderam por trinta dinheiros, como se diz de Judas, ao deus Dinheiro, o deus-que-se-vê e fizeram de Jesus um mítico deus chamado Cristo, servido por Executivos religiosos, cheios de privilégios, crucificadores, conquistadores, exploradores, cruzados, inquisidores, etc. Por isso é que eu digo: feliz o ateu, ilustrado ou iletrado, que um dia se abriu à mesma Fé de Jesus, o de Nazaré. Não passa a correr para o Templo, a fazer religião, passa a viver em Deserto, na Ordem Mundial do Dinheiro sem ser dela, sempre contra ela, num duelo onde sabe que pode perder tudo, até a própria vida. Na verdade, não a perde, porque ele é quem livremente a dá. Na mais completa gratuidade! Mas esta Fé de Jesus só acontece, quando deixamos tudo o que o deus Dinheiro nos promete e garante, se o adorarmos/servirmos, e fazemos corpo ininterruptamente com as suas vítimas, contra ele, o deus Dinheiro. Como num duelo. Eis. É por aqui que procuro ir. Como aprendiz. E como um menino. O meu abraço, Mário.


Dezembro, Carla

Senhor Padre Mário: Sou a Carla, tenho 35 anos, licenciada em Química, pequena empresária do ramo têxtil, casada, tenho dois filhos e sou militante do BE.

O meu pai, que, infelizmente, já morreu (com 65 anos, o ano passado), era militante do PCP desde a clandestinidade, e antes do 25 de Abril ia muitas vezes a Macieira da Lixa para ouvir o senhor Padre Mário.

De facto, nessa altura, o senhor era uma referência, mas o certo é que hoje, mesmo para muita gente de esquerda, o senhor já é mal ouvido. Embora eu não seja católica (fui baptizada apenas por tradição), acho que o senhor exagera na crítica à Igreja, pelo menos, na forma como diz. A própria Rosa do Luxemburgo, que era uma marxista convicta, era mais tolerante com a Igreja. Se calhar, na prática o senhor é muito menos radical do que nas palavras.

Há dias fiquei triste, quando um amigo do pai me dizia que no tempo do fascismo o senhor era uma referência porque tudo valia para combater o regime. Por outro lado, o seu livro sobre Fátima - com o qual estou de acordo - foi muito vendido porque eta polémica. Se falasse sobre as causas da fome, o senhor não venderia mais do que 300 exemplares.

Desculpe ser-lhe franca; se digo isto é porque apelo à perfeição da sua atitude. É que o senhor, que eu me lembre, nunca apontou nada de positiva na Igreja da qual diz que é padre. No seu diário, nunca apareceu uma única coisa boa que referisse. Torno a dizer, não sou católica, mas a Igreja, também, coisas boas. Por exemplo, colabora com o BE na integração dos imigrantes de Leste. E aquela do senhor dizer que a Igreja no tempo do fascismo era uma puta de pernas abertas ao regime, é feio! Quem não respeita acaba por não ser respeita. E não me venha dizer que isso é metáfora ou alegoria! Aí o senhor não esteve bem.

Para o senhor fazer valer a sua mensagem, e até teria bastantes seguidores, era o senhor pegar na Bíblia e começar a fazer um estudo teológico e analítico profundo mas acessível, para se poder ver a sua diferença em relação à linha oficial. E nisso o senhor seria bom! O senhor escreve bem e sabe de teologia. É óbvio sem descurar as actividades Barracão da Cultura!

O sr. tem que reconhecer que ninguém conhece o seu pensamento; apenas é conhecido pelo show, mas isso é efémero. Até duvido que o Sr. esteja realmente ligado a Teologia da Libertação, com a qual estou de acordo.

Desculpe a sinceridade. Se falo assim é porque ainda dou valor ao seu potencial de vida. Com os melhores cumprimentos.

 

Olá, Carla

Agradeço a sua mensagem. Fiquei surpreendido. Pelos vistos, sou uma decepção para si. Está no seu direito de me ver assim. Certamente, o seu pai não subscreveria esta sua mensagem, nos termos em que a escreveu. Ele conheceu a clandestinidade, viu-me ao vivo aqui nos tempos do Medo e da Subserviência e isso faz toda a diferença.

Vivo na trincheira, desde que me conheço com consciência. Não luto pelo Poder. Não como à mesa do Poder. Nem dos privilégios que o Poder dá a quem o serve, nem que seja na Oposição parlamentar.

Sou pobre por opção. E sem poder, por opção. Não vou com nenhum Executivo. Nem sequer o da Igreja que integro. Combato-os a todos. Porque todos estão ao serviço do Dinheiro contra os Povos. Uns à direita, outros ao centro, outros à esquerda, outros ainda mais à esquerda da esquerda.

Desagrado. Incomodo. Não sou uma referência. E, quando fui, foi por engano. Pensavam que eu era uma coisa, saí-lhes outra. Mas é por aqui que vou. E prosseguirei. Nem sabe a Carla quanto me agradou ouvi-la dizer que deixei de ser uma referência. Aliás, podia ter dito mais. Podia dizer que já não existo. Pelo menos, é o que diz a Igreja católica, com a qual, pelos vistos e ao que me escreve, aceita trabalhar com o Bloco de Esquerda na integração dos imigrantes de Leste. Pois.

Aconselha-me a pegar na Bíblia e a fazer um estudo teológico com ela e a partir dela. Será que não conhece os meus livros? Concretamente: NEM ADÃO E EVA NEM PECADO ORIGINAL; O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO; EM NOME DE JESUS; NA COMPANHIA DE JESUS E DE ATEUS. LIVRO DOS ACTOS SÉCULO XXI; SALMOS VERSÃO SÉCULO XXI.

Bem-haja por me ter escrito. E criticado. Saiba que sempre tento transformar as críticas em autocríticas. É o que farei também com as suas. Agradeço-lhas. E, se a escandalizo, peço-lhe perdão.

Dou-lhe a minha paz. E o meu afecto. Mário


Novembro, Ana

Boa tarde, Mário! Em pleno Século. XXI, o prazer e a liberdade ainda se medem no masculino. Haja alguém que me explique, de uma forma convincente, que a cultura/civilização deve ser respeitada em toda a linha, independentemente dos valores morais e humanos. Talvez assim eu entenda/compreenda e aceite as atitudes premeditadas do “homem” em relação ao seu semelhante. Perdoo-me, chamar ao assunto, Deus Todo-Poderoso, mas não posso deixar de o invocar, perante a atrocidade/violência do vídeo que me enviou. “Valha-me Deus”, foi a única frase que consegui articular, enquanto via as imagens. Tremi de raiva e de impotência, gelada por dentro e por fora, sentindo cada grito como se fosse meu. Aquela criança nascida mulher sem direitos, foi crucificada em vida à semelhança de Jesus.

Em nome de quê e do quê? Em nome de uma condição menor que os homens estipularam e as mulheres aceitaram porque bichos e não gente. E dizem que somos humanos… Somos humanos vestidos de desumanidade/animais racionais enfeitados de irracionalidade. Nascemos, crescemos e morremos como seres superiores, sem nunca sabermos o que significa superioridade. Um abraço.

 

Mas a realidade é essa, querida Ana.

O mal é que nos ensinaram que já estávamos criados. E não é verdade.

Estamos ainda em processo de criação.

Por outro lado, o nosso lado demens, demente ou demoníaco, está aí hoje cientificamente organizado a puxar por nós e a fazer tudo por tudo para nos des-criar. E não é que nos deixamos todos ou quase todos e quase sempre ir na onda?!

Tenha paciência e continue a dar o melhor de si todos os dias. Mantenha-se humana e sororal. E já é uma boa contribuição para o processo histórico de criação em curso.

O meu beijo, Mário

 

Novembro, A. Vaz

Meu bom Amigo, gostei da vossa companhia. Vós os dois alegrais as gentes do nosso  Povo, que tem a felicidade de conviver assim tão harmoniosamente, como vos é peculiar. Senti muita alegria, quando vi aquela gente receber-vos de braços abertos e sentirem-se á vontade, como se já vos conhecesse há muito tempo. Desabafar. Contar histórias reais da sua mocidade. Fazer o seu "confesso" por livre vontade.
 Recebe esta mensagem. do VELHO A.Vaz que caminha a passos largos para a última Caminhada. Hoje, é um dia a menos que conta a caminho do túmulo.

 

A caminho do túmulo?! Mas como, meu Amigo A. Vaz, se todos os túmulos estão vazios e nos cemitérios não está lá ninguém a morar? O mais que podes dizer/fazer, daqui para diante, meu Amigo, é esta pergunta: Onde é que eu estarei, quando já não estiver aqui? Duma coisa podes estar certo: não estarás no túmulo, porque nos túmulos não está lá ninguém! Achas que os teus amigos e familiares te faziam uma coisa dessas: meter-te num túmulo? O que depositam lá é o cadáver que deixares, quando fores/te tornares definitivamente vivo noutra dimensão que os nossos sentidos e o nosso conhecimento, por mais científico que seja, não conseguem enxergar. Alegra-te! E continua a viver cada dia como se fosse o último, que mais não é do que o primeiro! O teu ateísmo ilustrado e tão companheiro de Jesus, esse mesmo que enfrentou o Império e o Templo, tem de ser capaz de adivinhar/pressentir esta boa notícia/este evangelho de Jesus que aqui te dou e, em ti, dou a todos os homens, a todas as mulheres e a todos os povos.

O meu abraço, Lurdes incluída. Os dois sois uma bela flor. Mário


Novembro, Elísio

Mas em primeiro lugar, bom dia e saúde.

Mas olhe, ontem tinha lido a sua crónica. E agora, depois do Bento, no Público de hoje, voltei a ela. Regressei entretanto à sua sobre o encontro dos bispos com o papa (a letra minúscula é porque não merecem mais e, pelo que vou aprendendo consigo, até a minúscula é de mais). Acho que o Bento está a perder a cabeça e o anda a ler a si. Mas falta-lhe coragem. Bem podia acrescentar ao que diz na sua crónica de hoje, e é secundário, acrescentar, assim sem mais nada, a sua de ontem, o fundamental: os pobres não precisam nem daquela igreja nem daquele deus que os humilha todos os dias pela mão dos homens de mão preparados na Universidade Católica (no nosso caso).

 Esta semana fui ao funeral de um tio da minha mulher, irmão da minha sogra. Durante o acontecimento ouvi coisas que sempre foram pouco inteligíveis para mim,  comentários do género: “(…) disse-me que se tinha preparado…”; 2(…) temos de estar felizes porque agora, pronto, já está a ver tudo…”.

Então pergunto a mim próprio o que será preciso fazer para alguém se preparar e se há um momento preciso para isso. E lembrei-me de um conto de Giovanni Papini sobre esta mesma questão. Então não temos de estar sempre preparados? Poderemos andar a vida inteira a semear desumanidade até em palavras e num segundo limpamos a folha? Que seriedade há nisto? Que raio de Deus seria este se consentisse nisso? Mas acho que à custa destas imagens passadas, em abono de quem vai carreando uns cobres para os cofres desse deus que todos os dia tão bem caracteriza e denuncia nas suas crónicas, a maior parte acha que o céu, a existir, em vez de ser ganho, pode ser comprado. E o que será aquilo do “já está a ver tudo? E ainda há outra, acabou de morrer e já chegou ao céu. Mas como é que se pode saber? Bem me apeteceu perguntar: o quê, já telefonou?...

Sabe que, ateu, cada vez me impressiono mais com a desumanidade das palavras e dos actos de gente que vai todos os dias à missa, uns, outros só aos domingos, e quando necessário, para com os outros, e em especial com os que mais dificuldades têm na vida!?... Um abraço.

 

Caro Elísio

É por essas e por outras ainda piores que eu, quando vou a algum funeral, já não entro na igreja. Vou até à porta de entrada e fico do lado de fora, com muitas outras pessoas que, felizmente, também já fazem o mesmo que eu. Fico do lado de fora, em nome da sanidade mental. E da Fé cristã jesuânica que me anima e que me diz que Deus, o de Jesus, não está ali dentro e no que lá se faz. Aqueles locais são de terror(ismo) e de humilhação das pessoas. Só o facto da palavra pertencer exclusivamente ao clérigo-funcionário que preside ao funeral e ao rito dito litúrgico já é uma humilhação. Naqueles locais, as pessoas que entrarem têm de deixar a sua inteligência e bom gosto à porta. E a voz. Lá dentro são tratadas como pessoas sem voz e sem vez. Por isso, como menores. Ignorantes. Abaixo de crianças de catequese. Assembleia, aquilo? Como, se só um pode falar e intervir e todos os outros têm de comer e calar? Casa de Deus, uma igreja paroquial? Como,se nem chega a ser do povo de Deus? Metam essa peta a outros. A mim, não enganam eles. São meus irmãos no presbiterado, mas não têm praticamente nada de presbíteros ordenados. Têm tudo de funcionários eclesiásticos, de clérigos, e de sacerdotes do paganismo católico romano.

O que esse funcionário eclesiástico disse, naquele funeral, e que o Elísio transcreve é uma confirmação de tudo o que acabo de escrever. O Elísio que se assume como ateu consegue ser mais cristão jesuânico, ou, simplesmente, mais homem jesuânico do que esse clérigo-pároco. O seu ateísmo está mais próximo do Deus de Jesus do que a fé religiosa desse clérigo-pároco. Aliás, um padre que aceita continuar a trabalhar de acordo com o que o Sistema eclesiástico e o Código de Direito Canónico impõem, renunciou a ser homem humano. Situa-se nos antípodas de Jesus, o Homem por antonomásia que, onde estiver, faz falar, faz andar, faz ver, faz intervir, faz autonomias, numa palavra, faz ser. Eu bem lhes digo, aos meus colegas, que mudem de Deus (= que se convertam), mas eles não estão para aí virados. Para seu mal e mal das populações que ainda aceitam ser dirigidas por eles. Provavelmente, só mudarão, quando ficarem a falar sozinhos…

Quanto ao meu amigo Frei Bento, as coisas são bastante diferentes. É um homem lúcido e um teólogo comprometido, crítico, dissidente na Igreja. Aliás, a Universidade católica nunca o quis como seu professor! O que é significativo. Mas às vezes lá tem destas coisas, como todos os humanos. Nem sempre as coisas  nos saem tão bem como gostaríamos. Talvez ele esteja a precisar duma cura profunda, não nas termas, mas nas margens, longe do Convento dos Dominicanos e dos católicos ilustrados que frequentam as páginas do PÚBLICO e gostam de o ler e aos quais ele não quer escandalizar demasiado. Aliás, se escandalizar, ainda poderá continuar a escrever no PÚBLICO?! Também fico perplexo com estas posturas conciliatórias. E o que mais posso desejar é que ele seja como o vinho do Porto: quanto mais velho, melhor, isto é, quanto mais velho mais profético e mais jesuânico. Porque ninguém escandalizou mais e incomodou mais as mentes bem pensantes e bem nutridas do que os profetas bíblicos e do que Jesus …

O meu abraço, Mário 


Novembro, Benedito

Caro Padre Mário: Sou brasileiro, tenho 55 anos e fui seminarista católico durante 4 anos. Na época, meu sonho era ser missionário na África para converter os bugres ao catolicismo. Hoje vejo que não sirvo para esse tipo de trabalho e há muito que venho questionando os dogmas e ensinamentos da nossa igreja católica. Aqui no Brasil me identifico bastante com a chamada Teologia da Libertação e tenho lido as obras do ex frei Leonardo Boff. Faz pouco tempo que descobri, meu caro padre, seus escritos em sites da Internet (venho desde então acompanhando seu Diário Aberto) e que muito me impressionaram, sobretudo os escritos sobre as "Aparições de Fátima", das quais sempre duvidei. Sem estender muito, gostaria de saber se o seu trabalho, por sinal admirável, segue a mesma linha dos Teólogos da Libertação ou se tem outra orientação. Também gostaria de ser orientado sobre o rumo que devo tomar em matéria de religião, já que não estou me identificando com nenhuma e me sinto um peixe fora d'água. Sinto-me muito solitário, espiritualmente falando, e anseio em participar de uma comunidade de pessoas que pensam e vivem conforme a visão de um Cristo rebelde e distante dos poderes deste mundo, mas por aqui não existe nenhuma. Temos um ditado que diz "Uma andorinha só não faz verão". Então como poderia eu vivenciar minhas convicções e crescer nessa espiritualidade que me atrai? Se não for pedir demais, gostaria de receber sua orientação e, no aguardo, envio-lhe meu abraço fraterno em Cristo.

 

Caro Benedito

Acolho as suas palavras amigas. E fico em mais intensa EUCARISTIA.

Afinal, há sempre alguém que descobre Luz onde muitos outros só vêem agressividade e rancor…

O que mais desejo é que ganhe corpo no nosso mundo o Cristianismo de Jesus. Basta de Cristianismo do Império romano.

Se já deu com os meus sítios na net, pois encontrará aí muito que meditar e digerir.

Orientação espiritual? Assim sem olhos nos olhos é sempre mais complicado. E quem sou eu para orientar outrem? Sou discípulo, não mestre. Jesus é o orientador. Vamos por ele. Mergulhemos nele e chegaremos a bom porto. Através dos irmãos, a começar pelos Ninguém do nosso tempo…

Disponha. Dou-lhe a minha paz. Mário

 

Outubro, Fernando

Exmo Senhor

Ao procurar literatura filosófica/teológica séria descobri que no seu site, para meu espanto, o Sr. não trata de religião - no seu puro sentido - mas antes trata de política da maneira mais primária e sacana que em nada abona da sua pseudo espiritualidade. Que percebe o senhor de política para se armar em demagógico ?

Se o senhor foi padre e o seu superior hierárquico o "arredou" foi porque lá tinha as suas razões, mas meu caro senhor porque é que não aborda o sentido mais profundo da fé, da espiritualidade, da figura de Cristo e entra noutros domínios, tal como as aranhas tecem teias para apanharem os patetas e os pobres de espírito ?

Pensava eu que iria encontrar um pouco de inteligência no seu site, ao nível dos artigos de Frade Bento Domingues e outros mas fiquei desiludido.

Na sua prosa encontrei rancor, senão ódio, à estrutura da Igreja Católica, ao seu bispo - se é que o tem - e à figura máxima da Igreja, porquê ?

Não é verdade que a igreja e outras instituições são o resultado da força e poder da história, dos vícios e virtudes moldadas pelo caminhar evolutivo dos humanos ? Então porquê renegá-la ? não seria mais lógico para si aderir à igreja ortodoxa, protestante ou da teologia da libertação ?

Gostaria de ter encontrado um site sério onde pudesse encontrar alimento para a minha espiritualidade, mas lamento não encontrei. Se mistura "alhos com bugalhos" isto tem um nome meu caro senhor, é manipulação. Não era isto que procurava!

O palavreado dos seus sites não foram fonte de esclarecimento espiritual para mim pelo que seguramente não voltarei a lê-los, mas senti que lhe devia este honesto e sério desabafo.

Aceite os meus cumprimentos.

 

Fernando, meu irmão

Pelo que leio no seu mail, terei sido, sem querer, "pedra de tropeço" para si. Não eu, propriamente, porque o Fernando ainda se não encontrou comigo cara a cara, olhos nos olhos, mão na mão, abraço no abraço. Que é, como sabe, uma das melhores maneiras de conhecermos alguém. Apenas leu - e certamente em diagonal, que o tempo é escasso para tudo o que queremos conhecer/fazer - partes do meu sítio na net, um deles, porque tenho mais dois que, provavelmente, também serão para si "pedra de tropeço". Acredite que gostava de ter sido para si mais pedra viva do que de tropeço, mais Espírito do que Letra, mais Liberdade do que Lei. Mas ainda bem que me escreveu. É uma postura que aprecio e que me diz que entre o Fernando e eu ainda não estará tudo perdido, como pareceria concluir-se do teor do seu mail, duro e até injusto comigo quanto baste. Não lhe levo a mal, pode crer. E até compreendo toda essa sua agressividade, a raiar pelo insulto e a calúnia. Compreendo e agradeço que se me tenha dirigido. Antes assim do que o desprezo. E por isso aqui me tem agora - creia que não pude fazê-lo antes - a (cor)responder ao meu jeito e com a minha paz que lhe dou. E com o meu afecto que também lhe dou.

Mal de mim, cidadão de 70 anos de idade e presbítero da Igreja do Porto, desde Agosto de 1962, se não percebesse nada de Política e só percebesse de Religião. Deverei perceber de ambas por igual. Sem que a Política fique atrás e a Religião à frente. Porque, como reza o título de um dos meus livros E DEUS DISSE: DO QUE EU GOSTO É DE POLÍTICA, NÃO DE RELIGIÃO, mal andaria a minha Fé cristã jesuânica se eu, ao contrário de Deus, gostasse mais de Religião do que de Política. Para ser filho de Deus, o de Jesus, obviamente (sabe que há outros deuses e muitas religiões que ensinam toda a espécie de truques que havemos de realizar para chegarmos a ganhar os seus favores e evitar os seus furores, que, ao que dizem todas as religiões, são sempre muitos e frequentes), devo gostar de Política com Espírito e praticá-la (= Espiritualidade), não de Religião. Ou o Fernando esquece que, desde Moisés, no Egipto dos faraós, Deus-Sarça Ardente não pediu outro culto que não fosse arrancar o seu povo da opressão do Egipto e fazer daquele conjunto de escravos um povo de mulheres, homens livres, emancipados de todos os amos e senhores, fraternos e protagonistas na História? Eu sei que depois apareceu Aarão, irmão de Moisés, a reivindicar para si o sacerdócio, como se fosse o próprio Deus a escolhê-lo para semelhante ofício de intermediário. Mas vieram mais tarde os Profetas bíblicos e disseram que tudo aquilo que os sacerdotes faziam no Templo, toda aquela carnificina de animais e aquele ininterrupto churrasco pretensamente sagrado causavam vómitos a Deus, pois do que Deus se agrada é de Misericórdia (outra palavra para dizer Política, não Poder, evidentemente, porque o Poder tem tudo a ver com o Demoníaco e o Perverso), não de Sacrifício (outra palavra para dizer Religião, também a que se faz por aí aos domingos nos templos paroquiais católicos e sobretudo em Fátima). E disseram mais os Profetas: Que Deus se agrada é de quem faz suas as causas das vítimas humanas, dos empobrecidos e dos oprimidos, dos órfãos e das viúvas, as duas categorias de pobres mais pobres no tempo em que eles pregaram e escreveram a sua mensagem. Veio finalmente Jesus, o de Nazaré, filho de Maria, também chamado por alguns dos discípulos como O CRISTO (= O POLÍTICO/O REI/O UNGIDO), que os do Templo e os do Império coligados crucificaram como o maldito dos malditos, porque não suportaram o Evangelho ou a Boa Notícia que ele trazia da parte de Deus, seu Abbá/Pai-Mãe. Ora, desse Evangelho, como se pode ler num outro livro meu, O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, faz parte, logo a abrir (são as primeiras palavras que Marcos coloca na boca de Jesus) esta Boa Notícia: Acabou-se o tempo dos intermediários entre Deus e os seres humanos, que outra coisa não é a Religião. Portanto, acabou-se a Religião! Isto mesmo entendeu o autor da Carta aos Hebreus, quando diz que Jesus é o único sacerdote, mas sublinha que é sacerdote de uma ordem totalmente distinta da de Aarão (sacerdócio cúltico/ritual nos templos), porque é exclusivamente da ordem de Melquisedec, o que quer dizer, feito de vidas humanas historicamente entregues pela vida do mundo (portanto, Política, no seu melhor sentido e no seu melhor exercício), não de Religião/ritos, presidida e imposta por gente especializada/privilegiada que hoje, para cúmulo, se faz pagar bem paga, em templos e basílicas muitas vezes de grande luxo que podem chegar aos 80 milhões de euros, como acaba de suceder com a nova basílica de Fátima!...

Não, Fernando, meu irmão. Não vou, não posso ir pelo seu discurso. Também não lhe exijo que vá pelas minhas palavras, as deste mail, ou as que encontra nos meus sítios na net, ou nos meus livros, ou no Jornal Fraternizar que dirijo há 20 anos. Mas já sou capaz de lhe pedir que pondere serenamente no que aqui lhe digo. Peço-lhe igualmente que, se for capaz, me leia sem preconceitos nos meus sítios na net e nos livros e no Jornal. Eu sei que é difícil, porque também tem sido difícil para mim fazer minha a mesma Fé de Jesus. É muito mais fácil ter Fé em Jesus. Mas o que me faz, fraternal e solidariamente, humano é viver/praticar a mesma Fé de Jesus. Ter Fé em Jesus depressa pode tornar-se Religião e lá se vai tudo por água abaixo, porque, como escreve a Primeira Carta de S. João, quem diz que ama a Deus a quem não vê e não ama o Pobre (= o seu irmão) a quem vê é mentiroso. Nunca esqueça, meu irmão, que foi a Religião e os da Religião que mataram os Profetas bíblicos e que mataram Jesus na Cruz. Para eles poderem continuar à vontade com os seus privilégios e as suas honrarias, em nome de Deus, embora continuem por aí a dizer que são seguidores de um Crucificado que, desse modo, assumiu a condição de escravo, como sublinha a Carta de Paulo aos Filipenses.

Nascemos todas, todos naturalmente religiosos. E só nos tornamos cristãos jesuânicos por Graça, por obra do Espírito, o de Jesus. Mas feliz aquela, aquele que lhe abrir a sua porta, a sua vida, a sua consciência. Porque o Espírito, como reza o Apocalipse (cap. 3), está continuamente a bater à porta de cada qual. E depende só de nós abri-la ou mantê-la fechada. Se abrirmos, Ele entra e senta-se à mesa connosco numa comunhão-diálogo sem fim que nos humaniza e fraterniza e, por nós e pelas nossas práticas políticas, sociais e económicas, humaniza e fraterniza o mundo.

Concluo como comecei: Dou-lhe a minha paz. E o meu afecto. Mário www.padredalixa.org


Agosto, João

Padre Mário. Após ter tido durante vários anos na prateleira (sem nunca o ter lido) o seu livro "Fátima nunca mais" decidi finalmente pegar-lhe hoje. Não o li por completo mas apenas alguns capítulos. No entanto chegou para ter uma ideia do seu posicionamento não só em relação aos acontecimentos de Fátima e do aproveitamento consequente por parte da hierarquia católica, como mais importante ainda, daquilo que seria verdadeiramente seguir o exemplo de Jesus.

Pesquisei um pouco sobre si na Net e descobri o site http://padremariodalixa.planetaclix.pt/ onde li textos da última edição do Fraternizar, que embora não sendo totalmente da sua autoria espelham a sua posição sobre o estado actual da humanidade.

Por mim creio no ensinamento budista que diz que todos os seres desejam a felicidade e procuram evitar o sofrimento. Pode parecer um paradoxo quando se nos deparam aqueles que se infligem auto-sofrimento (caso dos pastorinhos de Fátima), mas a verdade é que o fazem levados pela crença que isso os tornará merecedores de uma felicidade última.

Para a maioria de nós a felicidade que procuramos é a mundana e que pouco dura: desejamos comprar um qualquer bem de consumo para logo pouco depois de o adquirirmos desejarmos algo diferente que nos faz falta, deixamos a nossa fonte de felicidade ser dependente do resultado de um jogo de futebol que nos pode trazer tanto uma euforia efémera como uma desilusão, avaliamos o nosso bem estar pelo destino de férias, pelo carro ou casa que temos e pelo dinheiro que ganhamos, o qual cada vez mais nos custa tempo de qualidade com a nossa família e amigos. No fundo vivemos autocentrados no nosso eu, completamente alheados dos que nos rodeiam e muitas vezes servindo-nos deles para tentar obter mais felicidade. Porque afinal, por detrás do grande Kapital estão seres que mais não desejam do que felicidade. Só que apenas a sua, os outros e os seu sofrimento são completamente olvidados.

Apesar de não me considerar cristão pelo simples facto de não seguir nenhuma igreja cristã, não posso deixar de considerar Jesus como um grande revolucionário, alguém com uma mensagem de fraternidade e amor, alguém que não teve como objectivo criar mais uma religião e tornar os seus seguidores submissos aos seus dogmas e rituais, mas sim trazer felicidade a todos. Pessoalmente acredito nessa causa. É devido a isso que me tornei budista pois creio ser um caminho alcançar a felicidade de todos. É por isso também que sou vegan, pois é uma forma de evitar sofrimento de seres sensíveis que os animais também são. Anteriormente já fui membro da igreja católica, mas ao chegar à adolescência afastei-me desencantado com certas posições dogmáticas desta.

Antes de terminar esta carta gostaria de lhe pedir que me respondesse a uma questão: Tenho uma amiga que é católica e que justifica a veracidade dos acontecimentos de Fátima dizendo que o 3º segredo revelaria que haveria um atentado contra a vida do Papa ao qual este sobreviveria por pouco. Diz também que apenas o Papa e a irmã Lúcia teriam conhecimento deste segredo e que o atentado contra o Papa João Paulo II no dia 13 Maio ao qual este sobreviveu seria a prova da veracidade deste segredo. Gostaria de saber a sua opinião sobre este facto.

Espero ter uma resposta sua! Cumprimentos

 

João

Se possui e leu o meu livro Fátima nunca mais, saberá que há lá um capítulo que diz que o segredo de Fátima nunca existiu. Aliás, nem o segredo, nem as aparições. Tudo aquilo foi cozinhado pelo clero da altura, com o aval das populações católicas não ilustradas e não evangelizadas que, está visto, pelam-se todas por milagres e aparições… Como já escrevi e repito aqui, sem que a mão me trema, Fátima é mentira e crime. O que quer que lhe diga mais? Recuso-me a gastar tempo com essas pantominices e esse anti-Evangelho de Deus.

Ainda assim, bem-haja pelo seu testemunho pessoal que quis partilhar comigo. Quanto à sua amiga, diga-lhe que já é tempo de vivermos centrados no Essencial. Afinal, Fátima não faz parte do Credo católico. Insistir nesse caminho idolátrico é desviar-se de Jesus, o Caminho, a Verdade e a Vida. O meu abraço, Mário


Agosto, Ana 

Boa tarde, Mário!

Acabei de ler, agora com mais atenção, um artigo do seu jornal n.º 166, “Deus Pai e o Problema do Mal”. Parei. Era impossível não parar. O pensamento voou e eu fui atrás dele. Quando o encontrei, disse-lhe: Não me entrego porque ainda tenho dúvidas sobre a omnipotência de Deus! Deus sobre todas as coisas, impávido e sereno, assistindo de camarote à destruição do mundo terreno.

As guerras são fonte de riqueza, para uns, de onde jorra a todo o momento sangue/dinheiro em vez de água, e para outros, fontes a jorrar água por todos os lados, mas contaminada pela soberba dos “homens” que, indiferentes aos seus irmãos de raça e credo, os obrigam a beber fel em vez de mel.

Jesus morreu na cruz, servindo de chacota ao povo que assistia. Já naquela época o povo era cobarde! Tanto povo… tanta gente… e ninguém se adiantou para impedir tal acto! Medo? Ignorância? Ou simplesmente retracção, porque a dúvida existia? Jesus apresentou-se como filho de Deus que veio ao mundo para nos salvar. A mensagem passou, mas emperrou na fraqueza dos “homens”, porque a fé não enche barriga. Entre um bom manjar, de preferência regado com um bom vinho e um prato vazio onde apenas rolam duas ou três azeitonas, o “homem” esquece tudo, até a grandeza de uma entrega. O coração bate, acelera, quase explode, mas a cabeça trava a emoção, porque, entre viver e sobreviver, a escolha é evidente. Todos (quase) viraram as costas ao sofrimento e, muito provavelmente, todos se interrogaram como o Manuel Sérgio “Como acreditar que um pai permita tão cruentos sacrifícios aos seus filhos?”

Falemos então de pais e filhos e falemos do amor/desamor.

Como sabe, sou divorciada. Tenho um filho que preenche 99,99% da minha vida. Este filho que é a minha luz, o meu alento, a minha força, deu-me, assim sem mais nem menos, a razão nua e crua de um viver a gosto. Tenho comigo, nunca me separo dele, o mais lindo poema que alguma vez li e senti. Sem querer ser pretensiosa, atrevo-me a dizer que morri e ressuscitei, porque o filho que não é Deus se encarregou de retirar a pedra que me prendia ao sepulcro.

Sou feliz sem o ser (o meu filho é um presente sempre vivo, muito embora passe por ele um passado que me dói). Parafraseando Manuel Sérgio …” O sofrimento passa a ter sentido, se a vida é um acto de amor! 

Estou a ouvir o último CD do Jorge Palma. Entre uma palavra e um pensamento, paro para beber as palavras que ele diz. Decididamente não fui feita para o que é superficial. Gosto das coisas com corpo/alma/sentido. Gosto de sentir o sangue aflorar, o coração a bater, o corpo a tremer…

Pegando num outro artigo do seu jornal, “Um novo Credo”, escolhi o 7º parágrafo que reza assim: ”Creio no Deus dos maníacos depressivos, das obsessões psicóticas, da esquizofrenia alucinada. Deus da arte que desnuda o real e faz a beleza resplandecer prenhe de densidade espiritual. Deus bailarino que, na ponta dos pés, entra em silêncio no palco do coração e, soada a música, arrebata-nos à saciedade” Lindo!... Tão lindo, que entra em nós e fica!

Fique comigo como eu consigo e não (?) com Deus, porque até lá, ainda há muito caminho para andar. Um abraço.

 

Ana

Se conhecesse Deus, a dádiva ou graça que é Deus, nunca pensaria nem escreveria estas coisas que acaba de me escrever. Até parece que Deus é quem comete os crimes e faz sofrer os inocentes. Ou que é Deus quem os manda cometer. Então não há responsáveis humanos e institucionais? Não há multinacionais? Não há economias e políticas perversas e assassinas, concebidas e conduzidas por seres humanos concretos, de carne e osso? Não são essas economias e políticas que hoje comandam o mundo? Pode um pai impedir que um filho seu adulto decida ser assassino e explorador? A menos que não o deixe crescer e o estrangule antes dele chegar à maioridade! Mas ainda seria pai? Acha que um pai assiste impávido e sereno perante um filho que decide entrar pelo caminho da droga e tornar-se narcotraficante, ou decide meter-se pelo fabrico e tráfico de armas de morte em série? Afinal, que Deus é o seu, melhor, que ideia de Deus é a sua? Quer que Deus seja um pai tirano que não deixa os seus filhos crescer, só para que o Mal que eles possam vir a fazer, depois de crescerem, não chegue a ser feito? Meter-se a criar seres humanos livres e criadores, ao longo de um processo histórico evolutivo, não é necessariamente um risco? Mas não é esse risco que correm também os pais e as mães humanos?...

Tenho para mim que a generalidade das pessoas não conhece Deus. As pessoas apenas conhecem ídolos que elas próprias fabricam à sua medida e à medida dos seus interesses. Em lugar de se deixarem encontrar e surpreender por Deus, o Vivo, preferem inventar ídolos atrás dos quais se escondem e se auto-justificam. Assim não vamos lá. Temos que saber discernir e sermos honestos connosco e com Deus. E nunca O confundir com os ídolos. Saiba que o Deus com que anda escandalizada não passa de um ídolo mentiroso e assassino, e pai de mentira e de assassínios em série. Quem o segue torna-se semelhante a ele: mentiroso, corrupto, perverso, assassino. Saiba que Deus, o Vivo, é o Amor que está empenhado em criar seres à sua imagem e semelhança, mas contando sempre com a cooperação dos próprios. Felizmente e dramaticamente, nós temos a liberdade de lhe fazermos o manguito. Inclusive, temos a liberdade de criar ídolos à nossa medida que O substituem! A Deus então só resta chorar, sofrer e esperar a sua oportunidade. Muitas vezes, esta só surge quando a vida de alguém, atafulhada de ídolos, dá uma grande volta e ela cai do pedestal. Então a pessoa deixa a mentira e a perversão em que vivia e torna-se simplesmente humana e sororal. Deus está aí!

Um alerta, a propósito do que me diz sobre o seu filho. Se ele lhe tirou a pedra que a prendia ao sepulcro, não foi para a Ana ficar reduzida a ele, mas para se tornar um dom, uma dádiva, uma graça para os demais, mulher irmã universal.

Não, não lhe digo que fique com Deus. Digo-lhe: Deixe que Deus, o Vivo, fique consigo e faça de si um dom, uma dádiva, uma graça para os demais. “Eis que estou à porta e bato. Se me abrirem, entrarei, sentar-me-ei à mesa e cearei…”

Um beijo, Mário


Agosto, Céu

Boa noite Padre Mário Oliveira!

Tomei a liberdade de lhe escrever só para lhe dizer que já o vi na televisão e já li algumas coisas suas e admiro a sua forma de pensar... Eu sou daquelas pessoas que já andou de joelhos a rastejar em Fátima, pois fiz uma promessa numa hora de muita aflição, quando a minha mãe estava doente, com cancro no cérebro, doença que a levou à morte. E fui cumprir a promessa. Hoje não sei se faria a mesma promessa. Nossa Senhora de Fátima não me valeu... a minha morreu pouco tempo depois... o "negócio" correu mal... A minha irmã até foi a pé a Fátima a pedir pelas melhoras da minha mãe mas também não resultou... Hoje tenho muitas dúvidas acerca de tudo! Já fui muito crente. Hoje já nem sei se Deus existe. Às vezes parece que ELE anda a dormir...

Tenho uma doença crónica: doença bipolar, não sei se conhece. Estou a ser acompanhada por uma psicóloga e por uma psiquiatra e a tomar anti-depressivos, pois há pouco tempo, tentei o suicídio, pois estava em depressão... Infelizmente já tive várias e já pensei várias em vezes em suicidar-me. Por vezes falta a coragem e uma forma rápida, indolor e eficaz de terminar com a vida. Também sei que não tenho esse direito até porque tenho uma filha de 6 anos que precisa muito de mim. Apesar de ter o pai, mãe é mãe...Eu sinto a falta da minha mãe e não queria que a minha filha viesse a sentir o mesmo... Mas o facto é que estive uma semana em coma nos cuidados intensivos e quase dois meses internada no Hospital por ter tomado várias caixas de comprimidos com o objectivo de pôr termo à vida. Contudo, não morri, ao fim de uma semana acordei e "voltei a viver", feliz ou infelizmente...

Não o maço mais, pois deve ter mais com que se entreter. Desculpe o desabafo. Se quiser responder-me esteja à vontade. Se não quiser, compreendo e peço desculpa pelo incómodo. Um bom fim de semana para si e saúde e paz de espírito é o que lhe desejo. Um abraço.

 

Maria do Céu

Abraço-a com todo o respeito e ternura. É sagrado seu corpo. Porque sofre, mas quer ver-se livre de tanto sofrer. Vejo que a doença tomou conta de si e quer dominá-la por completo. Inclusive, utiliza a Céu contra a própria Céu. Não, não é a Céu que tenta o suicídio. É a doença que se apodera de si e quer acabar consigo, através de si própria. Tem de perceber isto e ficar alerta. Ponha-se em guarda. Porque a doença, enquanto não for erradicada, ou pelo menos não estiver totalmente controlada, continuará a fazer das suas e a tentar destruí-la a si. Saberá resistir-lhe com determinação. Por amor de si própria. E por amor da sua filhinha.

Neste momento, a Céu está já a contar com a cooperação de dois especialistas. O que é bom. Contudo, é necessário que não os olhe como uma espécie de senhora de Fátima. Não. Eles estão na sua vida, mas apenas para cooperarem consigo, não para a substituírem. Nem eles, nem os fármacos que lhe receitam a podem substituir a si. Quem tem de conduzir todo o processo contra a doença é sempre a Céu. Não se reduza à condição de objecto ou de assistida. Tem de ser a protagonista, o sujeito. Olhe sempre os especialistas nos olhos. Discuta com eles. Queira entender toda a situação. E exija deles que lhe forneçam os meios com que a Céu há-de poder fazer frente à doença e combatê-la com sucesso. Não abdique nunca desta postura. É meio caminho andado para a erradicação da doença, ou, pelo menos, para o seu controlo.

A Céu tem uma doença. Não é doente. Nem deixe que a olhem e a tratem como doente. Cresça cada dia em determinação, em audácia, em coragem, em espírito de combate. E tudo será diferente.

A situação é difícil, mas tem de ser a Céu a conduzi-la. Faça-o com dignidade. Os especialistas são apenas para cooperarem consigo, como servos e amigos. Não para a substituir. Não abdique de progressivamente conduzir todo o processo. Cada dia, um pouco mais. Até que a situação fique totalmente sob o seu controlo. Então, a alegria rebentará dentro de si, vai ver.

A partir de agora, estou ainda mais consigo. Para que a Céu o seja cada vez mais. Deixe-se nascer de novo. Do Alto. Do Espírito de Deus que é de insurreição e de combate pela vida de qualidade. E viverá.

Renovo o meu abraço sororal. E dou-lhe a minha Paz, Mário


Agosto, Ana 

1. Boa tarde, Mário!

As visitas à sua página são cada vez mais raras mas penso em si muitas vezes. Como o tempo é escasso e em casa estou sem computador (avariou) e sinceramente nem sei se vou comprar outro. Por enquanto não lhe sinto a falta. No trabalho passo a maior parte do tempo a lidar com estes “bichos” insensíveis e indiferentes aos malefícios que nos fazem, sobretudo a nível da visão. Embora sejam uma excelente ferramenta de trabalho; hoje sem eles pouco ou nada faríamos, também são um vício a que tento fugir porque a saúde é preciosa e já vai faltando.

Mas como ia dizer, penso em si muitas vezes mas tenho-me ficado só pelo pensamento. Hoje está um dia relativamente calmo e por isso resolvi visitá-lo.

Fiquei surpreendida por não ver nada de novo [no seu correio não confidencial]. São sempre as mesmas dúvidas, as mesmas questões, Igreja/Deus/Jesus/Céu/Inferno… enfim, parece que vivemos eternamente atormentados.

Haja paciência… e o Mário no meio do conflito a tentar explicar o que não tem explicação. O presente é uma consequência do passado, e o futuro é tão imediato que quase não existe. Assim e dadas as circunstâncias, estou cada vez mais céptica em relação ao mundo/pessoas, limitando-me a viver cada dia, e tentando, como é óbvio, ser correcta, isenta, educada, leal e amiga. Os que eu conheço e me conhecem, sabem da minha vivência; os outros, os que aparecem apenas para fazer número, não me preocupam; são meras peças decorativas a que vulgarmente costumo chamar montra de saldos. Tal como com nas lojas, estes pretensos amigos, comigo não se safam. Só entro nas campanhas, sejam elas materiais ou humanas, quando o seu sentido me diz alguma coisa. Não perco tempo a tentar decifrar enigmas que pouco ou nada contribuem para o meu bem-estar e para o de todos, em geral. A vida é bela, nós, é que damos cabo dela! E muito embora tenha os seus revezes, é preferível viver olhando em frente do que viver constantemente a olhar para trás. Já estou como diz o outro “Se o passado matasse a fome, e o futuro nos transformasse em seres saciáveis, o presente não existia.”

Deixemos Jesus solteiro ou casado. Deixemos a história como os homens a quiseram contar. Deixemos ao critério de cada um acreditar ou não na sua existência. Será que os que acreditam são mais felizes? Pelo que tenho visto a palavra “felicidade” está cada vez mais sumida. Uns são infelizes porque tendo muito, ainda querem mais; outros são infelizes porque não tendo nada, nada fazem para ter alguma coisa, outros são infelizes porque o egoísmo não lhe permite ver e ouvir o seu semelhante, e há os outros que confundem tudo porque da vida apenas conhecem o próprio umbigo.

O Mário responde a dúvidas, o Mário responde a ofensas, o Mário responde a tudo, mesmo àquilo que não tem resposta. Responde em nome pessoal mas também no colectivo - Deus é único mas abarca toda gente - e responde de uma forma tão suave que chega a doer.

Responda-me pois, se assim o entender, porque continua a caminhar sozinho?! Parece que já estou a “ouvir” a resposta. – Escrever também é uma forma de caminhar. Caminhemos então nos vários sentidos, procurando aqui e ali quem nos leia. Pode ser que o eco se estenda e retorne mais forte e preciso.

Com todo o respeito e admiração, vou continuar a procurá-lo. Pode ser que um dia encontre o que até aqui ainda não encontrei. Um abraço.

 

Ana

Não, não estou sozinho no caminho. A própria Ana não caminha também comigo? Tenho muitas irmãs, muitos irmãos de caminhada em todo o lado. E até tenho muitos outros que não podem comigo, tal como sou, e todos os dias rezam por mim a pedir a Deus a minha conversão!...

Mas não deixo de reconhecer que há uma certa solidão no meu caminhar. Onde estou ninguém mais está. Mas somos sempre seres de relação e por isso até a solidão é ainda comunhão, uma outra forma de comunhão. E toda a comunhão, mesmo a matrimonial, tem sempre uma certa dimensão de solidão.

A Luz atrai-nos cada vez mais para ela. Quem se deixa seduzir pela Luz e vai por ela arrisca-se a ficar sozinho, se os outros, na sua maioria, preferirem viver na duplicidade e na ambiguidade. Mas bendita solidão, quando é uma solidão assim. Depois que alguém viu a Luz nunca mais é a mesma pessoa. O Evangelho de João (8, 29) apresenta-nos Jesus a dizer aos seus concidadãos, os judeus: “Aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou só, porque faço sempre aquilo que lhe agrada.”

Basta-me esta comunhão. Pode parecer solidão aos olhos de muitas, muitos. Mas é a comunhão que o Império e o Templo não têm nem podem dar. Deixe-se também habitar por esta Presença-Ausência e nunca mais estará só.

Um beijo, Mário

 

2. “… Aquele que me enviou está comigo. Ele não me deixou só, porque faço sempre aquilo que lhe agrada” - Frase Bíblica que indica movimento condicional, logo, certeza/dúvida. Os “homens” são assim. Hábeis no escrever/dizer, deixando para quem lê a difícil tarefa de interpretar. Não estou sozinho porque… Há sempre um porquê em tudo, até mesmo nas coisas mais simples.

Passemos à minha interpretação.

Estranho!... Mas fazer aquilo que só agrada aos outros não é renunciar a si próprio?!

Já sei que me vai dizer que Jesus renunciou em nome do bem Mas onde fica o carácter/personalidade, quando por questões divinas e não só, nos assumimos como mensageiros de algo ou alguém superior, relegando para segundo plano a nossa própria ideia?!

Será que Deus quis passar a imagem de senhor absoluto da verdade?! Se assim foi porque é que os “homens” não apreenderam a mensagem? Será que Jesus pecou por omissão?

Nunca gostei muito de divindades. Prefiro o ser comum. Partilhar opiniões/causas é mais estimulante e empreendedor do viver dependente das opiniões/causas dos outros. Partilhar faz parte da vida. Aliás, é a própria vida.

 

Efectivamente, é a sua interpretação, Ana.

Mas porque há-de meter-se por semelhantes atalhos? Não sabe que a simplicidade é que nos humaniza? Se não vos fizerdes como os meninos, as meninas, não chegareis a ser plenamente humanos! É outra palavra atribuída a Jesus. Porque há-de escolher o caminho mais complicado?

Ora veja. “Aquele que me enviou está comigo”. Isto é, ninguém – nenhuma, nenhum de nós – acontece na História, se não for chamado, convocado, dito, enviado. Somos Rio que vem da Fonte a caminho do Mar. Seres em relação e de relação. De comunhão. Ou prefere ser órfã à força a vida inteira e contra a sua própria natureza?

“Ele não me deixou só, porque faço o que lhe agrada”. Pode optar por ser só. Mas depois não se queixe! Fazer o que agrada a quem me enviou é ser genuíno, autêntico, é ser eu própria, eu próprio. O que os outros seres sem liberdade são por natureza, nós havemos de ser por opção, porque somos livres. Amamos. Podemos acolher ou mantermo-nos trancados no nosso eu.

“Eis que estou à porta e bato. Se me abrirem, entrarei, sentar-me-ei à mesa e cearemos juntos”. É do Apocalipse, com que encerra a Bíblia. Ele – alguém distinto de mim – bate à porta da minha vida. A mim pertence ouvir e abrir, ou trancar-me ainda mais. Posso não abrir, trancar-me ainda mais, mas ficarei só. O Rio, sem a ligação à Fonte e ao Mar deixa de ser rio. Torna-se charco. Apodrece. Coisa nauseabunda.

Não gosta de divindades? Faz bem. Mas, cuidado! Não mate o Mistério que é, que somos. Ficaria reduzida a coisa. As divindades alienam-nos. São fruto dos nossos ancestrais medos. Mas é por isso é que eu gosto de Jesus, o crucificado em nome das divindades, frutos dos nossos ancestrais medos. Com ele, percebo ainda melhor o Mistério que sou, que somos. E Deus – dê eu pela sua presença ou não – só mesmo o Abbá, o Pai/a Mãe que é mais íntimo a mim do que eu próprio, como o Sopro ou o Espírito, o puro dom, a pura graça que me faz ser eu própria, eu próprio em plenitude.

Não se precipite, Ana. Escute. E quando, como o Samuel bíblico, ouvir chamar pelo seu nome, diga simplesmente: Eis-me aqui! Nunca mais estará só. Também nunca mais será a mesma.

Um beijo, Mário

 

3. A escolha do caminho não está propriamente nas nossas mãos. O que está nas nossas mãos é tentar abrir caminho sem esmorecer perante as dificuldades. Tal como a linha do horizonte, também nós fazemos parte do imaginário. Quando nos questionamos sobre algo ou alguma coisa é bom sinal. É a prova viva de que não parámos no tempo.

Quando é que interrogação é complicação? Não perguntou, Jesus, ao pai, “Pai, porque me abandonaste?

O rio corre calmo e sereno por entre montes e vales e sem pedir licença a ninguém rasga o ventre da terra num rompante de bravura. Eu não sou o rio que corre, não sou o mar que o acolhe nem um charco nauseabundo. Sou apenas um afluente sem grande caudal. Mas rio que é rio e mar que é mar, não despreza qualquer gota. Toda a água faz falta, nem que seja só para engrossar o leito. As aparências contam. E contam tanto, que de um rio seco ninguém quer saber. O mar, aquele monstro de beleza impar, é o espelho que reflecte a imagem da liberdade. Não se cala quando o maltratam; não adormece quando o espicaçam; não se acomoda quando o desafiam.

Gosto das coisas simples, naturais, espontâneas. Gosto do sopro que me traz vida e com ela o mistério da própria vida. Se ao longo da minha vida conseguir apenas ser uma coisa, tanto melhor. A coisa pelo menos tem definição, não é abstracta.

Vou tentar ouvir mais e falar menos. Vou tentar ser mais relação/comunhão. Se alguém me chamar, não prometo nada. É no meio da multidão que me sinto mais sozinha. Órfã, se quiser, que da vida já colhi muitos ensinamentos.

Obrigada pelo que me dá. Enquanto leio o que escreve e responde com prontidão, nunca me sentirei só. A plenitude não existe. Apenas e tão só a graça de nos sentirmos próximos dela.

  

Querida Ana

Perguntar não é complicar. É ser como um menino, uma menina. Complicar é viver instalado/acomodado em respostas dogmáticas, definitivas que habitualmente criamos à medida das nossas mediocridades e dos nossos egoísmos. Só as pessoas-coisa não perguntam. Vivem acomodadas e satisfeitas com as respostas que arranjaram duma vez por todas, ou que simplesmente herdaram dos antepassados, ou que bebem directamente do meio ambiente. Bem-aventurados os que perguntam. Mas também os que, ao mesmo tempo, têm a simplicidade/audácia de se entregarem à Fonte de onde vêm e ao Mar para onde avançam, nem que seja como simples afluentes do grande Rio. Depois de perguntar, “Meu Deus, meu Deus porque me abandonaste?”, diz o Evangelho que Jesus acrescentou: “Pai (veja a mudança nos termos: passou de “Deus” para “Pai”, sinal duma maior intimidade, a intimidade de filho!), nas tuas mãos entrego o meu espírito”. Soube ser como um menino, uma menina que, na iminência do perigo, corre logo a refugiar-se no corpo, nas pernas e nos braços da Mãe/do Pai.

Faz muito bem em viver mais à escuta. O nosso centro é fora de nós. Somos seres chamados! Só acontecemos, na História, porque num Momento irrepetível, a Palavra-Sopro nos disse! Ela continua a dizer-nos a todo o instante. Nós é que vivemos rodeados de barulhos e de superficialidades/mediocridades e acabamos perdidos, à deriva. Continuar a escutar a Voz/Sopro que nos disse e nos fez acontecer é condição sine qua non para sermos.

Tenho a certeza de que, quando ouvir chamar pelo seu nome, a Ana não resistirá. E o seu quotidiano adquirirá outro paladar bem mais pleno, passará a ser um quotidiano próprio de uma filha que saiu da orfandade.

Estou na comunhão, Mário


 Agosto, Rodrigo

1. Muito boa noite, o meu nome é Rodrigo,,tenho 25 anos e moro em Lisboa. Estou a enviar este mail, porque visitei um site seu e também tenho um livro seu (Fátima nunca mais). Eu não acredito na senhora de Fátima, não acredito no céu, não acredito no inferno nem no purgatório. Acredito que existe uma força (Deus), mas não o Deus das igrejas etc. Também lhe escrevo a dizer que também não vou pelo seu Jesus Cristo. Porque Jesus na Bíblia é um pouco agressivo, por isso também não posso crer num Jesus tão «mau».Por agora é tudo, e se possível gostaria que me desse uma achega acerca do seu Jesus de Nazaré, ao qual o senhor diz que é Amor e perdão infinito. Boa noite e obrigado.

 

Rodrigo

Agradeço a sua mensagem. Está no seu direito de não ir por mim, nem pelo Evangelho de Jesus que dá sentido à minha vida. Embora eu ache que o Rodrigo está ainda longe de ter penetrado no íntimo de Jesus. Se Jesus é assim agressivo como diz, como explica que tenha sido crucificado pelos responsáveis maiores do Império e do Templo? Será que estes que o mataram e fizeram dele o maldito dos malditos, é que são os bons?

O meu abraço, Mário

2. Bom dia novamente, espero não estar a fazer perder o seu tempo. Jesus foi pacifico e misericordioso? "Mandará o filho do homem (o próprio Jesus) os seus anjos que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade, e os lançarão na fornalha acesa, ali haverá choro e ranger de dentes" (Mateus 13:41-42). "E se a tua mão te ofende, corta-a, pois é melhor entrares maneta na vida do que, tendo as duas maos, e ires para o inferno, para o fogo inextinguível" (Marcos 9:43).Isto é amável? É exemplar argumentar com ameaças de violência? O inferno é uma ideia bondosa e pacifica? Muito obrigado e bom dia.

 3. Amigo Pe. Mário, o senhor tem escrito muitas vezes que é preciso entrar pela porta estreita porque não há outro caminho. Então se eu seguir outro caminho (coisa que não acredito) o seu Deus pode punir-me? Porque como o senhor sabe e pode ter alguma razão, raramente vamos por ai. Quanto á questão de Jesus ser agressivo, já lhe enviei um mail, mas ainda não tive uma resposta sua. Obrigado.     

Bom dia, Rodrigo

Sabe bem que não sou uma máquina de produzir respostas. Ninguém é. Ninguém deve ser. Não me diga que agora “virou” perguntador compulsivo e que me quer “obrigar” a ser respondedor compulsivo. Haja modos! Não nos conhecemos de lado nenhum e, assim sem mais, entra em contacto comigo, põe-se a fazer-me perguntas umas atrás das outras que não interessam nem ao menino-jesus e ainda me “exige” que eu responda!... E, se o não faço de imediato, insiste com nova pergunta e “censura-me” por ainda não ter respondido à anterior. Onde já se viu? É assim: Se quer conversar a sério comigo sobre questões de interesse para o sentido da sua vida, dê-se a conhecer pessoalmente. Venha por aí, um dia a combinar. Porque à Verdade que nos faz livres não se chega senão pela via dos afectos, da relação, da amizade, do respeito mútuo, numa palavra, da comunhão. Ninguém liberta ninguém; ninguém se liberta sozinho; libertamo-nos em comunhão.

Quanto às duas últimas perguntas que me coloca, digo-lhe: puxe pela sua inteligência e chegará às respostas. Mergulhe no Evangelho com afecto, despojado de preconceitos, e verá a Luz, melhor, será iluminado por ela.

Seu, Mário


Agosto, Rita

Olá. Não sou muito ligada a estas coisas e nem tenho grande interesse em conhecer a dita doutrina espirita cristã. Mas tenho um grande amigo que acredita, e que acredita profundamente em reencarnação, enviou-me o link de um site de uma fraternidade destas em Portugal. Dei uma vista de olhos por lá, não os conheço  mas achei esta explicação do martírio de Cristo uma delicia. Brilhante.

CRUCIFICAÇÃO: Suplício. Suportar a cruz constitui o sacrifício e a tarefa de sofrer resignada e perseverantemente as provas e as aflições, sabendo que elas se destinam à renovação do ser. Essa cruz implica a renúncia que demonstra o rendimento de valores espirituais em nosso favor e em benefício daqueles que nos cercam, no desapego ao bem próprio pelo bem de todos. A Cruz do Mestre não é um símbolo de passividade à frente da astúcia e da crueldade, mas sim uma mensagem de resistência contra a mentira e a criminalidade, mascaradas de religião, num protesto firme que perdura até hoje.

Bibliografia: KARDEC, Allan: A GÉNESE, Cap. XVII, Itens 3 a 9, FEB, 23ª Edição, Rio de Janeiro, 1980.

 

Olá, Rita

É bom saber disso, mas não chega. Tem de ser mais, muito mais do que isso. De contrário, Jesus não chegaria a ser o Maldito feito pelo Templo e pelo Império, a quem entretanto Deus, o Abbá, surpreendentemente deu razão, ao ponto de fazer dele o seu Filho bem-amado, paradigma de todos os seres humanos! Não se trata de sofrer resignada e perseverantemente as provas e as aflições. Trata-se de acabar com todas as provas e aflições, sem esquecer as causas históricas, cientificamente concertadas, que as provocam. Nem que, por causa disso, tenhamos de acabar também na cruz que o Templo e o Império sempre impõem a quem se coloca do lado das vítimas a granel que ambos produzem sem dó nem piedade! E sempre com a “bênção” de Deus, pelo menos, do Deus dos pastores e dos sacerdotes, das religiões e das Igrejas!...

O pecado organizado que o Templo e o Império historicamente cometem a toda a hora tem a sua máxima expressão na cruz que o Império e o Templo, como um só, impuseram a Jesus, porque ele lhes tirou o tapete e a áurea de divino e de inevitabilidade com que ambos gostam de se apresentar diante dos povos, para assim esconderem que são a Mentira e o Assassínio em acção. Não basta resistir(-lhes). É preciso combatê-los, denunciá-los/desmascará-los. Os dois, juntos, são o pecado organizado. É por isso que Deus nunca está com o Templo e com o Império. Apenas com as suas inúmeras vítimas! Não é o sofrimento que nos salva/humaniza, mas a luta contra o sofrimento. O que não for assim é alienação!

Beijo-te, Mário


Junho/Julho, Guilhermina 

1. O! O meu nome é Guilhermina, e há uns dias vi o seu e-mail num site, durante uma pesquisa minha na internet. e visto que ando com certas dúvidas, ou melhor, tenho algumas questões que me intrigam, resolvi escrever-lhe. Espero não incomodá-lo.
Na verdade, sinto-me um pouco confusa no que diz respeito ao perdão de Deus para os nossos pecados; temos no mundo tantas pessoas que já cometeram crimes, até mesmo matar alguém, e depois de morrerem como é que ficaram perante Deus? Sente Deus o quê por essas pessoas? Perdoa-lhes ou não? Quando eu era mais nova, os meus pais sempre me disseram "porta-te bem para ires para o céu senão vais para o inferno". E sempre vivi com esta ideia na cabeça; isto assusta-me. Será que me pode explicar sobre isto que lhe escrevo, ou dar-me a sua opinião? Obrigada.

 

Guilhermina

Olá. Não deixa de ser um pouco desconfortável para mim ter de responder a alguém que não conheço e que resolve escrever-me só porque viu casualmente o meu mail e a primeira vez que me contacta é logo para me colocar uma questão, sem me dizer nada acerca de si própria. Gosto mais de relações humanas, cordiais, sororais/fraternas, feitas na base da confiança recíproca. 

Quanto à sua questão, que hei-de responder que a Guilhermina não intua também? No seu entender, Deus é para castigar/condenar o que anda perdido, ou para salvar o que anda perdido? Diga-me a sua opinião. Certamente, só poderá coincidir com a minha. Ou então Deus seria ainda pior do que nós, seres humanos.

Já visitou o meu sítio? Quer visitar? Já conhece algum dos meus livros? Deseja conhecer?

Ficam aqui os respectivos endereços:

www.padremariodemacieira.com.sapo.pt

www.padredalixa.org

O meu abraço, Mário

 
2. Boa tarde senhor Padre Mário, li a edição numero 159, e lá vem escrito o seguinte: sem comunhão com o crucificado, a ressurreição é apenas uma possibilidade de sobrevivência, uma referência ambígua, pois pode tanto pode ser para a salvação como para a condenação. A esperança na sobrevivência salvífica participa primeiro na cruz de Jesus e, por derivação, nas cruzes da história (Rodolfo Cardenal). Que condenação será esta? Então Deus não salva todas as pessoas, quer pecadoras ou não? Muito obrigado e bom fim-de-semana.

 

Bom dia, Guilhermina

O texto que refere não é da minha responsabilidade. Saiu no Fraternizar, mas apresenta uma opinião de um teólogo a viver na Nicarágua.

Mais do que entendê-la para o após-morte, havemos de entendê-la como alerta para o nosso aqui e agora. Quem não vive, hoje e aqui, em comunhão com o Crucificado nos Crucificados da Terra ainda pode dizer que é um ser humano? A sua sobrevivência na História não é própria mais de um monstro do que de um ser humano? Como se pode ser humano e viver todos os dias de costas voltadas para os empobrecidos e humilhados da terra? “Onde está o teu irmão? Que fizeste do teu irmão?”, pergunta-nos constantemente Deus, o do Génesis. Os que nos comportamos como Caim ainda podemos dizer que somos humanos?

A questão que se levanta é: como é que Deus vai salvar definitivamente quem, durante a sua vida histórica, tudo parece fazer para se perder como ser humano e fazer perder os seus irmãos. Creio que em definitivo Deus nos salva a todos, mas não sei como! Ninguém saberá!

O abraço, Mário

 

3. Bom dia senhor Padre Mário, eu li a edição numero 151 e li um artigo que eu gostaria de saber se foi o senhor que escreveu. Não nascemos para morrer mas para ressuscitar. Foi o senhor que escreveu? Obrigada.

 

Olá, Guilhermina

Em princípio, os textos que não vêm assinados são da minha responsabilidade, como director do Fraternizar. É da Lei de imprensa.

Seu, Mário

  

4. Boa tarde senhor Padre Mário, concluo com a resposta que o senhor me deu que Deus salva todos. Então será arriscado dizer que Deus também salvou Mussolini, Estaline, Hitler, etc? Muito obrigada e boa tarde.

 

A questão que se levanta é: como é que Deus vai salvar definitivamente quem, durante a sua vida histórica, tudo parece fazer para se perder como ser humano e fazer perder os seus irmãos. Creio que em definitivo Deus nos salva a todos, mas não sei como! Ninguém saberá!

O abraço, Mário 

 

5. Muito boa noite senhor padre Mário, em certas passagens da Bíblia fala-se muito no inferno e no diabo mas também sei que o senhor não acredita lá muito. Mas que explicação o senhor tem para não acreditar? Ou o senhor também não tem a certeza? Muito obrigada e boa noite.

 

Guilhermina

Vejo que insiste em questões que não têm nada a ver com este nosso mundo. O importante é vivermos aqui e agora ao jeito de Jesus. Porque há-de estar preocupada com o inferno e o diabo? Porque não se preocupa com o inferno que é este nosso mundo dominado pelo Império e pelas suas multinacionais, a fazer vítimas em massa, e com o diabo/senhor deste mundo que continuamente nos tenta e seduz para que nem cheguemos a ser humanos, quanto mais fraternos e solidários?

Não lhe basta crer em Deus Abbá/Pai-Mãe? Ainda precisa de crer no diabo e no inferno, fora deste mundo?

Um beijo, Mário

 

6. Muito boa noite senhor padre Mário, gostaria muito que o senhor me explicasse melhor a historia do diabo e inferno. Muito boa noite e obrigada.

 

Bom dia, Guilhermina

Convido-a a ler de novo e com ternura o que lhe disse ontem. Está lá tudo. Resista a ser uma perguntadora compulsiva. Seja simplesmente irmã e amiga. Reflicta com tempo sobre o que lhe escrevi ontem e verá que esta sua nova pergunta não tem sentido. Muito menos têm sentido as conclusões precipitadas que tirou a meu respeito, no mail/reacção que me enviou antes deste.

O meu afecto, Mário

 

7. Boa tarde senhor  padre Mário, para terminar gostaria que o senhor me explicasse o que quer dizer: Jesus desceu ao inferno: Muito obrigada e boa noite.

 

Bom dia, Guilhermina

O meu afecto. A Guilhermina deve ser uma pessoa triste e aterrorizada. Deus na sua vida ainda não será a Boa Notícia que Jesus nos revelou que é. Entrou na minha vida com uma série de questões, cada qual a mais inadequada. Todas passam ao lado da vida real que nos é dado viver cada dia. E não tem sido capaz de se abrir, de me falar de si. Para si, sou apenas um-que-responde-às-suas-perguntas… Não sinto crescer em si o mais leve afecto. Parece um autómato-que-faz-perguntas. O que se passa consigo? O que a leva a ser assim? 

O que quer dizer Jesus desceu aos infernos? Veja como está formulada a nossa Fé católica, que ninguém entende o que diz!... A fórmula diz infernos, não inferno (no singular). Na cultura judaica os infernos (no plural) eram os fundos da terra, onde se pensava que jaziam/viviam os que já morreram. Descer aos infernos significa que Jesus até com esses é solidário. Não deixa ninguém de fora da sua influência boa. É Jesus para todos.

Fique com a minha paz e a minha alegria. Mário

 

8. Muito boa tarde senhor padre Mário, vou falar um pouco de mim. Sou uma mulher assustada, oprimida com medo de tudo. Tive uma infância muito difícil na qual também fui obrigada a frequentar a igreja católica desde muito cedo. Na igreja dizia-se: só Deus é que sabe quem vai para o inferno: sempre disseram isso com uma convicção tremenda. Sim, sinto afecto pelo senhor padre Mário mas também sei que faço muitas perguntas mas não é por mal. Mas o senhor padre Mário me desculpe a minha ingenuidade, se Jesus desceu aos infernos é porque então o inferno existe? Desculpe eu fazer outra pergunta .Muito obrigada e boa tarde.

 

Boa tarde, Guilhermina

Pelos vistos, as minhas suspeitas saíram certas. Preferia ter-me enganado.

Tem de nascer de novo, do Espírito. O passado não pode impor-se ao presente, muito menos ao futuro. 

Leia com atenção o que lhe disse na minha resposta anterior. Gosta tanto de perguntar, que parece que nem lê o que lhe respondo. Vá, ajude-me a ajudá-la. Não lhe falei de inferno, no singular, mas de infernos, no plural (da expressão “desceu aos infernos”). Não é a mesma coisa. Os infernos, na concepção judaica, era o lugar dos mortos, de todos os mortos, por onde, no dizer da Fé cristã primitiva, Jesus ressuscitado também PASSOU. A sua Páscoa não deixou nada nem ninguém de fora. É a boa notícia cristã, ou Evangelho.

Pensar e dizer Deus, só pode ser para a Guilhermina se alegrar e crescer em humanidade e em paz. O medo não vem de Deus, o de Jesus. De Deus, só vem Boa Notícia. Meta isto na sua cabeça. Cante e dance o Deus que a criou, porque a amou e ama.

Beijinhos, Mário

 

9. Muito boa tarde senhor padre Mário, bem sei que faço muitas perguntas e por isso peço-lhe desculpa. Eu sei que o senhor padre Mário está a tentar ajudar-me, mas pode acreditar que isto é muito difícil para mim! Sei também que o senhor diz que Deus é Amor, mas o meu medo é tal que nem penso correctamente. Mas eu ainda fico mais baralhada, porque se Deus é Amor, porque não destrói o diabo? Muito obrigada.

 

E a Guilhermina a dar-lhe com o diabo. Não lhe basta Deus-Amor? Precisa do diabo? Destrua-o a Guilhermina, antes de mais na sua vida! Salte fora desse viver semelhante a uma pescadinha de rabo na boca. Liberte-se dessa prisão que os seus medos criaram. Viva a liberdade. E a responsabilidade. Enquanto anda obcecada pelo diabo, nem consegue ver e combater o diabólico à sua volta e dentro de si. Há lá pior diabo(lico) do que os medos que a tolhem? Seja MULHER na plenitude das suas capacidades, como Jesus.

Bom dia. Mário

  

10. Bom dia amigo padre Mário, agora fora o diabo e o inferno, os pedófilos e os assassinos depois de morrerem não são castigados? Muito obrigada e um bom dia.

 

Bom dia, Guilhermina

E porquê só “depois de morrer” e não já agora? Porque não há-de Deus castigar os pedófilos e os assassinos no decurso do seu acto criminoso? Acha então que Deus é para nos castigar? Se se sim, porque há-de fazê-lo só depois de morrermos?!

Mas que pensamentos mais sinistros os seus acerca de Deus!... Porque não pensa em Deus como Boa Notícia, Deus como Aquele-que-salva? Não é assim Deus, o de Jesus?

Beijinhos, Mário

 

11. Muito bom dia senhor padre Mário, quando eu falei do castigo depois da morte foi porque nós quando morremos não somos julgados por Deus e pelos nossos actos? Deus perdoa todos os nossos actos depois da morte? Muito obrigada e bom dia. Um abraço

 

Bom dia, Guilhermina

Porque insiste doentiamente no mesmo tipo de perguntas? Então na minha resposta anterior, já não lhe disse: “Porque não pensa em Deus como Boa Notícia, Deus como Aquele-que-salva? Não é assim Deus, o de Jesus?” Mas a Guilhermina prefere pensar em Deus como castigador. É lá consigo. Eu não vou por aí. E o Evangelho de Jesus também não. Ou já não seria Evangelho, Boa Notícia.

Um beijo, Mário


26 MAIO, J. Alberto 

Snr. Padre Mário : O Snr é uma figura pública, por isso o conheço . Eu sou um dos da multidão, por isso o Snr. não me conhece .

Embora no final me identifique, adianto desde já que pertenço à sua geração. Poderia ter sido até seu condiscípulo, mas, ainda "putos" , a vida encaminhou-nos para o interior de seminários diferentes. No meu caso, para o das missões . Fui estudante de teologia, fase em que optei por caminhos diferentes . Casei e tenho filhos . Sempre amante de atingir a verdade, porém, o agnosticismo foi sempre  a conclusão das premissas que a teologia me colocou. Posso dizer que nele milito, mas ainda e sempre ávido de aportar a uma réstia da "Verdade".  Sei que o Homem procura a verdade, porque é finito, porque vive sob a égide do medo : penso ser este o motivo por que o homem nasceu um animal religioso, e nunca poderá deixar de o ser, porque ignora a Verdade . Penso que vou morrer agnóstico,  o que não me perturba muito, pois a ideia que tenho do além é o Nada.

Pois, sendo o Snr Pe. uma figura pública , parece-me saber em que águas o Snr. navega. Se melhores ou piores, não sei, pois o tal agnosticismo não me permitir estabelecer qualquer fio da verdade .

Sei que se tornou um padre controverso . Porém para mim, uma figura interessante, como que  um "cisma" dentro da Igreja .

Sinal de coragem, a necessitar de muita força interior para se manter bem viva. Aqui tem o meu aplauso.

Porém, como vivi anos também dentro da hierarquia da Igreja, quando leio ou ouço a sua posição perante a mesma, faz-me um pouco de confusão ter sido ordenado padre por essa mesma hierarquia. Sente-se ser mesmo padre, presbítero, representante de Cristo Nazareno ? Acha que a hierarquia que o ordenou é mesmo a Igreja que Cristo nos quis legar ? Acha que o Chefe do Vaticano  conserva ainda incólume a prerrogativa de representar Cristo na terra ? Que é o seguidor de Pedro ? 

Quer-me parecer que o Snr Padre é bastante céptico quanto a tudo isto, e , assim, sendo um presbítero ordenado por "esta" Igreja, penso que não se deveria assumir , como assume, padre  da  Igreja Católica, em cujas estruturas o Snr Padre não acredita, parece-me .

O Snr Padre, desculpe-me abordar este assunto com o Snr, mas só o faço porque de certo modo o seu pensamento exerce algum fascínio  em mim.

Gostaria , se possível, trocar algumas ideias sobre o conteúdo da sua posição sobre Fátima, e outras matérias, como a divindade ou não de Jesus Cristo, a família  e estilo de vida  de Jesus, os Seus laços afectivos e comportamentais como Homem .

Inclusive, saber se esta sua posição crítica perante os ditames da "sua" Igreja, sobre Fátima, sobre a personagem de Jesus Cristo, etc. é  contemporânea  à sua formação de seminarista e, se sim, porque aceitou ordenar-se presbítero "dessa" Igreja, sonegando a sua posição a quem avaliava da sua vocação, para poder ser ou não ordenado presbítero . O director espiritual tinha aí um papel preponderante nessa decisão . Eu também passei por esse crivo . Ou será que essa contestação só apareceu em si depois de ordenado ? Recordo-me que da formação no seminário fazia parte  uma grande devoção a N. Srª. de Fátima.

Como é que o Snr Padre articulava tudo isto com a sua posição de pensamento  durante a sua formação ?

Snr Padre, se entender que mereço alguma resposta, nem que seja de crítica, aqui fica o meu obrigado antecipado.

 

Meu caro J. Alberto

Bem-haja pala sua mensagem. É um estímulo e uma interpelação. Compreendo as suas dúvidas e as suas interrogações. Nunca saberemos bastante sobre os seres humanos, sobre o mistério que somos. E será bom que não matemos nunca o mistério que somos. As respostas definitivas das Igrejas, das Religiões e das Ideologias às grandes perguntas dos seres humanos – Quem somos? Donde vimos? Para onde vamos? – matam o mistério que somos. De algum modo nos encerram nessas respostas dadas duma vez para sempre. É por isso que eu gosto tanto de Jesus e da Fé de Jesus. Não nos encerra nem condena aos nossos limites. Abre-nos horizontes sem fim. Sempre que aceitamos ser mulheres homens ao jeito dele; sempre que aceitamos viver abertos aos outros e ao mundo; sobretudo, sempre que aceitamos como ele a interpelação que nos vem do mundo do Pobre e da Vítima e fazemos do nosso quotidiano sucessivas e criadoras respostas a essa interpelação, tornamo-nos pessoas abertas, seres em relação, viventes para sempre, numa transformação sem fim.

Não me revejo no agnosticismo. A Verdade não é uma doutrina. É uma postura de vida, uma prática aberta e solidária que nos faz livres. É um ser/viver-em-relação-e-em-resposta. É um ser/viver aberto aos outros e ao Totalmente Outro, cujo rosto e voz me chega e me interpela no rosto e na voz do Pobre e da Vítima. A Mentira é um ser/viver encerrado no seu casulo e nos seus privilégios, poucos ou muitos, como se os outros, nomeadamente, o Pobre e a Vítima não existissem.

O Medo criou os deuses. A tese é conhecida. E verdadeira. Libertar-se do Medo é por isso o mais urgente. Libertar-se do Medo é libertar-se dos deuses. A Religião ocupa-se dos deuses e por isso alimenta o Medo. O contrário do Medo e, consequentemente, da Religião é a Fé. E a Fé é confiar. Nos dias que correm, confiar é um risco. Mas ou confiamos, ou vivemos e morremos no Medo. Confiar é aproximar-se, abrir-se e fazer-se próximo. Cativar. Quem vive habitualmente assim vence o Medo. Cresce em Liberdade. Torna-se humano, um dom para os demais. 

No seminário, prepararam-me para ser funcionário eclesiástico. Homem de privilégios. Homem do templo e do altar. Uma espécie de deus na terra, a quem os outros deveriam escutar e obedecer. Já quase no final da Teologia, a minha consciência passou por uma profunda mudança interior. Abriram-se-me os olhos. Vi que as coisas não podiam ser como me eram oficialmente apresentadas. Percebi já então que o Evangelho que eu meditava todos os dias ia por outros caminhos. Ao jeito do samaritano da parábola contada pelo Evangelho de Lucas. Percebi que o padre/presbítero que eu estava à beira de ser só tinha sentido se fosse para ser diferente do que me era dado ver nos padres que então conhecia. Haveria que ser padre como Jesus, não como os padres que eu conhecia. E foi assim que aceitei ser ordenado. O sacramento da Ordem só o é se dá PASSAGEM ao Espírito Santo. O rito sacramental, só por si, faz súbditos do hierarca de turno, do Poder eclesiástico. O Espírito Santo faz rebeldes, insubmissos, dissidentes ao jeito de Jesus. Não me fiquei pelo rito. Aceitei ser ordenado para deixar o Espírito Santo PASSAR por mim. A minha obediência é a Ele. Também à Igreja, mas na medida em que ela também obedece ao Espírito Santo. Não é nada fácil viver assim. O conflito é inevitável, mas não há outro jeito. Estou na instituição mas obediente ao Espírito Santa que também nos fala através dos Sinais dos Tempos. O Espírito é que me faz. Sou tanto mais presbítero da Igreja, quanto mais o Espírito Santo PASSA por mim e me faz. De contrário, serei simplesmente eclesiástico, um funcionário de empresa como outro qualquer. Mas não foi para ser funcionário de empresa, no caso, da empresa eclesiástica, que fui ordenado. E a Igreja sabe disso, pelo menos, aquela Igreja que faz tudo para não ser mera empresa eclesiástica. As estruturas eclesiásticas têm a sua importância, mas para mim o que conta em definitivo é o Espírito Santo. Sou controverso? É inevitável. Mas só assim é que vale a pena. Também foi para isso que aceitei ser ordenado. Quem detém o poder não gosta. Mas não sou eu quem tem de desistir de ser padre. Quem concebe o ministério presbiteral e eclesial dentro das categorias do poder, em lugar das categorias de Jesus e do seu Evangelho, que são as categorias do Espírito Santo, é que tem de mudar, é que tem de converter-se. Também é para isso que trabalho dentro da Igreja e que permaneço dentro da Igreja. Sempre a querer que ela se converta a Jesus e ao Evangelho.

Que me lembre, a senhora de Fátima contava pouco ou nada no seminário. Então, falava-se mais em Maria, mãe de Jesus. Nunca o seminário organizou uma peregrinação a Fátima. Maria, a de Jesus, sim, contava bastante. Como exemplo histórico vivo de mulher de Fé que acabou por dar a sua adesão ao próprio filho Jesus. Nesse sentido, ainda hoje a tenho na minha vida. A senhora de Fátima é outra coisa: não passa duma imagem da mítica deusa virgem e mãe dos cultos politeístas do Paganismo mais primitivo, dos quais as populações não ilustradas e não evangelizadas nunca se libertaram e que herdam nos próprios genes. É por isso o culto do Medo, o anti-Evangelho de Deus que se nos revelou em Jesus, o de Nazaré. Aliás, como sabe, a própria hierarquia da Igreja que tanto corre para Fátima é a primeira a ter de reconhecer publicamente que Fátima e a sua senhora não fazem parte da Fé cristã católica. Só não se percebe como é que depois os bispos e os párocos – a hierarquia católica – lhes continuam a dar tanta importância. Mas isso é um problema deles, uma contradição que eles têm de esclarecer. Para mim, não tenho dúvidas em dizer: Vivem nessa contradição, porque nem mesmo eles são suficientemente ilustrados e muito menos suficientemente evangelizados. Veja: Alguma vez poderemos imaginar Jesus, o de Nazaré, a correr para Fátima e a presidir àqueles cultos intrinsecamente alienadores e alimentadores do Medo?

Finalmente, quanto a Jesus: Sabe certamente que, no princípio da Igreja, a dificuldade maior não foi admitir e reconhecer que Jesus era Deus, filho de Deus. O que foi difícil de reconhecer é que Jesus era verdadeiro homem. E ainda hoje é assim. Não como mera questão teórica, mas prática. Veja: quem hoje quer ser mulher homem como Jesus historicamente foi? Quem, concretamente, está disposto a ser homem-para-os-demais como ele foi? Quem está disposto a enfrentar o Templo e o Império, os do Templo e os do Império, como ele enfrentou até à perda/entrega da vida? Esta é a questão maior sobre Jesus.

É tudo por agora. Dou-lhe o meu abraço fraterno, Mário


Nota informativa prévia:

As palavras a vermelho e os sublinhados, no e-mail que se segue, são do próprio autor.

24 MAIO, Othon Campos

Ao nada caro e nem um pouco reverendo Padre Mário, pois o carácter sacerdotal é impresso na alma, Salve Maria, a mais perfeita de todas as criaturas.

Eu digo "nada caro", e "nem um pouco reverendo", pois o senhor Padre não querendo honrar o carácter sacerdotal, blasfema ímpia e brutalmente contra a Santíssima Virgem Maria como um mundano, o que é um pecado gravíssimo que só atrairá para si a ira de Nosso Senhor Jesus Cristo.

Padre
, o senhor não poderá fugir de Deus, que sonda os rins e corações. O senhor não poderá fugir do "dies irae", do dia da ira, no qual o senhor Padre irá confrontar-se com o Juiz dos juízes, e naquele dia, não haverá nada que possa apaziguar a ira de Nosso Senhor, porque este Deus derramou todo o seu preciosíssimo Sangue na Cruz, para redimir os seus pecados, e também os meus e de toda a humanidade.

Padre, como o julgamento dos homens difere (e muito) do julgamento de Deus, e sabendo que Ele é misericórdia infinita, irei imediatamente rezar à Dispensadora de Todas as Graças, aquilo que é mais precioso à Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a salvação de sua alma sacerdotal.

Espero assim, Padre, que esta mesma Senhora possa lhe dar a salvação de sua alma, essa mesma Princesa que o senhor Padre chama brutal, blasfema e impiedosamente de "deusa/senhora".

Qui invenerit me, inveniet vitam, et hauriet salutem a Domino (Pr 8,35). [Aquele me encontrar encontrará a vida e alcançará o favor do Senhor]

Padre
, apesar de tudo isto, se o senhor continuar com suas impiedades; se o senhor atrever-se a ultrajar o Coração desta Boa Mãe com mais pecados; se o senhor manchar sua alma sacerdotal com o terrível pecado da blasfémia; se o senhor continuar a ofender a Nosso Senhor Jesus Cristo ao ofender Sua Mãe Puríssima, sou obrigado a informá-lo que cai sobre a sua cabeça a justa ira de Cristo contra seus inimigos. Os Padres da Igreja (certamente o senhor deve desconhecer quem são) são unânimes: "Não presumam agradar a Deus quem ofende Sua Mãe Santíssima". Então, Padre, o senhor chorará e rangerá os dentes... Eternamente.

Eternamente...

Eternamente...

Eternamente... Pelos séculos dos séculos, enquanto Deus for Deus.

Padre, esta mesma Mulher que o senhor blasfema, disse:

“Os sacerdotes, ministros de meu Filho, pela sua má vida, sua irreverência e impiedade na celebração dos santos mistérios, pelo amor do dinheiro, das honrarias e dos prazeres, tornaram-se cloacas de impureza. Sim, os sacerdotes atraem a vingança, e a vingança paira sobre suas cabeças. Ai dos sacerdotes e das pessoas consagradas a Deus, que pela sua infidelidade e má vida crucificam de novo meu Filho! Os pecados das pessoas consagradas a Deus bradam ao Céu e clamam por vingança, e eis que a vingança está às suas portas, pois não se encontra mais uma pessoa que implore misericórdia e perdão para o povo; não há mais almas generosas, não há mais ninguém digno de oferecer a Vítima imaculada ao [Pai] Eterno em favor do mundo."
(Palavras de Nossa Senhora em La Salette)

Padre, o senhor deve saber da gravidade da vida sacerdotal, pois o Doutor da Oração diz:

É extremamente grave o pecado do padre, porque peca com pleno conhecimento: sabem bem o mal que faz. Ensina Santo Tomás que o pecado dos fiéis é mais grave que o dos infiéis, precisamente porque os fiéis conhecem melhor a verdade; ora, as luzes dum simples fiel são bem inferiores às de um sacerdote. O padre é tão instruído na lei de Deus, que a ensina aos outros: Porque os lábios do sacerdote hão de guardar a ciência, e é da sua boca que os outros aprenderão a lei. É muito grave o pecado de quem conhece a lei, porque de nenhum modo pode desculpar-se com a ignorância. (Santo Afonso de Ligório, "A Selva". "Gravidade e castigo dos pecados do padre"; Ponto I - "Gravidade dos pecados do padre")

Que Nosso Senhor Jesus Cristo possa perdoar seus pecados tão funestos e horrorosos.

Othon Souto Campos, escravo de Jesus Cristo pelas mãos de Nossa Senhora, pelo método de São Luis Maria de Montfort.

 

Meu caro irmão

Como é possível escrever-me uma mensagem como esta que acaba de me escrever e enviar? Nunca me viu. Nunca falou comigo. Nunca trocou uma palavra comigo, olhos nos olhos. E mesmo assim, sem me conhecer, decide escrever-me e fá-lo logo nestes termos. O que se passa consigo? Que caminhos tem frequentado para tratar assim um irmão de caminhada? Que Deus é o seu que o faz ser assim tão agressivo e ameaçador para comigo? Não conhece o Deus Ternura, o Deus Amor, o Deus Misericórdia, o Deus Mãe/Pai que Jesus nos revelou com as suas práticas fecundamente libertadoras e a sua Palavra geradora de autonomias e de maioridades, e de filhas adultas, filhos adultos de Deus? Que catequeses moralistas e terroristas lhe ensinaram para que agora me fale de um Deus tão terrível e tão castigador? Afinal, que Fé é a sua? Em que(m) se fundamenta? Não sabe que a Fé de Jesus é totalmente distinta dessa que o faz pensar e falar assim comigo? E o que diz de Maria, a de Nazaré, quem foi que lho ensinou? Alguma vez Jesus, o filho de Maria, falou assim da sua própria mãe? Onde encontra semelhante doutrina no Evangelho ou nas catequeses da primitiva Igreja? E essas palavras que atribui a Maria não são palavras que manifestamente a ofendem? Que mulher, por exemplo, a sua mãe ou a minha, poderia dizer palavras como essas a respeito dos pecadores e das pessoas humanas em geral que a mensagem que me escreveu põe na boca de Maria? Como consegue reproduzir essas aberrações e ficar em paz? Não vê quão perversas são essas catequeses particulares a que se refere? Se Maria fosse assim como essas catequeses particulares dizem que é, acha que ainda