CORREIO RECEBIDO E RESPONDIDO EM 2006
E-mail, Tiago
2006 Dezembro 10
Caro padre Mário, é novamente o Tiago do Brasil que, de tempos em tempos, vos escreve. E desta vez para vários comentários. O primeiro é para lhe parabenizar pela Boa Notícia que nos traz. Num tempo de profunda desventura, suas palavras me tocam profundamente e me fazem perceber o quanto ainda tenho de caminhar para me tornar discípulo de Jesus. Tento, a meu jeito, ser livre e me desfazer de preconceitos. E assim, também aqui por São Paulo, vou ajudando a construir um novo jeito de Igreja, novo no sentido da novidade que Jesus veio trazer. Muito obrigado pela sua militância evangélica. Ou seria evangelho militante? Mas Evangelho militante não seria um pleonasmo? (risos...).
Em relação ao aborto, me vejo em suas palavras. de fato, também por aqui, grupos hipócritas de direito á vida tentam sequer impedir a discussão sobre o aborto. Mas o engraçado é que esses grupos se esquecem da defesa da vida lá onde ela é mais desvalorizada. Nunca vi um desses grupos de defesa da vida postarem-se ás portas de fábricas lutando com os trabalhadores em defesa de melhores salários. Nem auxiliando a mobilização política insurreccional de milhões de excluídos neste país...Mas lá estão os carolas quando se trata de discutir a sexualidade. Jesus não se reconheceria nestes grupos, por mais cruzes que eles carreguem... Aqui no Brasil, ate imagens da Virgem de Fátima já viraram companheiras constante desses grupos...E se ela esta por lá, eu é que não quero estar..risos
No fundo, no fundo, querido Padre Mário, estes grupos representam o que de mais doentio há na Igreja, já que a grande questão é o controle do corpo e da sexualidade humana, especialmente a feminina. Mas esse controle é inconcebível com a própria dimensão dialéctica da criação divina, que nos deu a liberdade para sermos livres plenamente, dispormos do corpo, da sexualidade como um hino ao Deus da Vida. Parabéns pela sua coragem em defender o sim!
Outro coisa que queria lhe falar: da ultima vez que fui á Lisboa, caminhei por várias livrarias á busca de seu livro Fátima nunca mais e acabei encontrando seis exemplares. Pois não é que esses exemplares fazem sucesso entre as comunidades de base de uma paróquia que ..pasme..chama Nossa Senhora de Fátima... aqui na região metropolitana de São Paulo...(risos...) Estamos evangelizando Fátima por aqui. Aliás, seus textos servem de estímulo e reflexão em nossas reuniões. Além dele, em nossas celebrações semanais do ano litúrgico que agora termina utilizamos o seu texto do Evangelho de Marcos. Você nem imagina a emoção de ver as pessoas humildes se reconhecem naquele seu texto que líamos de acordo com a referência bíblica dominical.
Mas outro facto curioso ocorreu em Maio. Enquanto a paróquia comemorava o 13 de Maio, nossas comunidades resolveram comemorar um outro treze de Maio. Nesse dia, todas as nossas comunidades resolveram não aderir aos festejos da paróquia central e participar de um dia de luta e mobilização pelos direitos da mulher. Aqui na zona leste de São Paulo, a violência contra a mulher é enorme..Então o treze de Maio deixou de ser o dia da mulher que aparece na árvore para ser o dia da mulher que aparece na História... (risos...) Mas nem imagina a encrenca em que nos metemos...Nos chamam de tudo o que é nome...Outro dia, fui impedido sequer de participar da assembleia paroquial....Mas lá estamos, testemunhando que o que queremos é uma paróquia com jeito de Igreja e não com jeito de mordoma da Senhora de Fátima numa versão brasileira....Assim, a semana do treze de Maio acabou virando a semana dos direitos da mulher em nosso bairro...Em honra de Maria, a mãe de Jesus...e que Fátima caia da azinheira...aliás, como consegue se sustentar lá tanto tempo? risos... Por que será que o padre da minha paróquia vive dizendo para paramos com isso? (risos ...)
Enfim, gostaria apenas de salientar que, mesmo de longe, estamos unidos pela mesma fé em Jesus libertador. continuamos com todas as nossas mobilizações e, pasme, inspirados nos seus livros que leram, dois pequenos grupos de estudo surgiram para estudarmos formas libertadoras de expressarmos nossa fé e desmascaramos todo tipo de charlatanice e vigairice....
Fique na paz inquieta do Inquieto Jesus! Um abraço.
Tiago, meu amigo e irmão
As suas palavras deixam-me sempre em EUCARISTIA. O Tiago é o meu anjo consolador que sempre me estimula na caminhada. Creia que por aqui não é nada frequente encontrar pessoas que me tratem assim. O frequente, aqui, é o ostracismo a que me votam. Mesmo no interior da Igreja que um dia me ordenou presbítero, vivo como em deserto, por isso, no coração da Liberdade que o Espírito de Jesus é e faz acontecer em nós. Quem vai pelo institucional eclesiástico vive na segurança da Lei, da Tradição, à sombra do Poder que se tem por infalível. Não quero ir por aí. Prefiro deixar-me conduzir pelo Espírito. A Paz que daí resulta não tem nada a ver com a paz dos poderosos nem dos eclesiásticos. Tem tudo a ver com a plenitude do humano sempre novo e sempre criador. As rotinas não têm a assinatura de Deus e do seu Espírito que faz novas todas as coisas.
Ri-me a bom rir com o que me conta sobre os “estragos” que o meu livro Fátima nunca mais tem feito por aí. Aqui, a Comunidade que coordena há muito que teria sido expulsa da paróquia. Aliás, a mim não me perdoam por ter publicado esse livro. Veja bem: Fátima e a sua senhora não fazem parte da Fé católica e, mesmo assim, não me perdoam. O que não me fariam, se fizesse… Como Igreja, não deveriam os meus irmãos presbíteros e os nossos bispos estar abertos e escutar o que o Espírito está a dizer à Igreja, também através de mim e do meu livro? Quando Maria, a mãe de Jesus, é a primeira a anunciar que não tem nada a ver com a senhora de Fátima, porque não acatamos este evangelho?
Fico sensibilizadíssimo com o seu testemunho. Sobretudo, por saber que estou tão dentro da Vossa Comunidade de profetas e de mulheres/homens livres. A minha Alegria e a minha Paz a todas, todos vocês. Mário
E-mail, Fernando
2006 Dezembro 07
“À medida que as Igrejas cristãs, tanto as antigas como as recentemente instituídas por influência do perverso Sopro do Império norte-americano….”
Pois é, até concordo com o presbítero Mário, mas no Império norte-americano a lei ainda é igual para todos os cidadãos (veja-se a jurisprudência norte americana, onde se conclui que muitos ricos e poderosos já foram levados à justiça e condenados) e ninguém é enviado para os calabouços por expressar livremente as suas ideias. Como acontece em Portugal em que existe a desigualdade perante a lei e como acontece em Cuba e aconteceu na ex-União Soviética e continua a acontecer na Rússia com os opositores ideológicos.
“Perdemos então completamente de vista as vítimas da História” As vitimas da História também vêm da ex-União Soviética e da Rússia actual. Como vêm do poder despótico do Fidel e amigos Sul americanos. Contudo não vejo o meu amigo Presbítero falar nesses carrascos da humanidade.
Em suma o Jesus do meu amigo é um Jesus selectivo e portanto, coloco-o na mesma prateleira que coloquei o Jesus da igreja católica e de todas as religiões que se dizem de Jesus.
Já sei que este e-mail não será publicado, como já não o foram dois anteriores (as vitimas dos regimes que usavam o lápis vermelho, tornam-se às vezes advogados desse mesmo lápis – Cabriolas da História).
Meu caro Fernando
Se quer que este seu e-mail seja publicado na rubrica “Correio recebido não confidencial”, é claro que poderá usufruir dessa satisfação. Hoje mesmo colocá-lo-ei na respectiva entrada. Já não tenho presente os outros dois a que se refere. Se mos enviou, não apenas para eu tomar conhecimento do que me dizia, como terei pensado, mas também para que eles viessem a figurar nessa mesma entrada, peço-lhe que, se ainda os conserva no seu computador, mos reenvie e de bom grado colocá-los-ei junto deste.
Surpreende-me que me acuse de praticar censura. Então não tem visto que eu até tenho divulgado mensagens de pessoas que não conheço e que me não conhecem pessoalmente e que, mesmo assim, se me dirigem a insultar-me? Como é que iria censurar este seu e-mail? Ainda assim, agradeço-lhe esta sua observação. Fez bem, sobretudo, em dizer-me desta sua expectativa, relativamente aos e-mails que me envia, que assim eu, de futuro, procurarei agir em conformidade. E, se alguma vez me falhar, manifeste-me de imediato a sua estranheza, para que tudo fique nos conformes. É que eu não tenho secretária e também não sou perito nestas coisas de informática. E pode-me falhar alguma coisa.
É óbvio que quando me refiro às vítimas da História, não sou selectivo, como parece insinuar. Nunca excluí explicitamente as vítimas a que se refere. Por isso, elas, na medida em que o forem, estão todas lá incluídas, mesmo que eu as não refira explicitamente. Agora, haverá de compreender que a minha ênfase vá toda para as vítimas do actual Império de turno e das grandes transnacionais que nos estão a roubar o futuro e o próprio Planeta. Mas nem sequer sou original neste comportamento. Veja que até o próprio Credo se refere explicitamente a Jesus, como vítima do Império romano, na pessoa do procurador Pôncio Pilatos. Havia então indubitavelmente mais vítimas e mais vitimadores, mas a ênfase é toda posta em Jesus, vítima, e no Império de turno da altura, vitimador. E nem por isso acusamos o Credo de ser selectivo.
Entretanto, peço-lhe perdão por não ter sabido interpretar o seu sentir e a sua expectativa. E que, no futuro, me advirta, sempre que entender que falhei. Sou discípulo, não mestre. E embora tudo possa, é apenas naquele que me conforta, o Espírito de Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou.
O meu abraço fraterno. Mário
E-mail, Alexandre
2006 Novembro 27
Exmo. Sr. Padre Mário de Oliveira:
As minhas mais cordiais saudações cristãs, em Jesus Cristo. Tive oportunidade de ler alguns textos seus, publicados na sua página da Internet. Sou católico, e costumo frequentar a Eucaristia, aos Domingos e dias santos. Mudei-me recentemente para Ponte de Lima (+/- 1 ano). Gostaria de lhe poder colocar uma única questão, sobre a prática da Eucaristia. Quando me mudei, para Ponte de Lima, passei a frequentar a Eucaristia, na Igreja Matriz de Ponte de Lima. O padre da igreja (que não conheço, mas que aparenta ter já uma certa idade), tem uma prática, que eu acho esquisita, que é a seguinte: quando faz a celebração, quando chega à parte da saudação dos fiéis, limita-se a dizer «A paz do Senhor esteja sempre convosco.», a assembleia responde «O amor de Cristo nos uniu.», e passa imediatamente para a frente, para a parte em que a assembleia diz «Cordeiro de Deus...», não dizendo «Saudai-vos na paz de Cristo», e não promovendo a saudação entre os fieis presentes. Uma vez, num Domingo de manhã, estava na rua, próximo da igreja, e tive oportunidade de ouvir uma conversa, entre um grupo de escuteiros, que não me pareceram ser de Ponte de Lima, que estavam na rua. Um dos escuteiros perguntava a outro: «Mas afinal porque é que este padre faz isto?», ao que a resposta foi imediata «Ele não faz isto porque diz que isto é uma perda de tempo inútil, que não tem nada que fazer isto.».
Na minha terra de origem, o nosso padre (que é apenas de meia idade, portanto bem mais jovem), faz sempre isto, em todas as celebrações. Já há algum tempo que não vou à igreja, pois prefiro assistir a Eucaristia na televisão, pois na televisão fazem sempre a saudação dos fiéis. Acho que assim estou a ser mais coerente, ao ficar em casa, cumprindo o preceito dominical, com o cânone todo, em vez de ir à igreja, e assistir àquilo que, na minha modesta opinião, acho ser uma mutilação baixa do sacramento da Eucaristia. Acho que não se pode falar em paz e amor entre os fiéis, sem que depois não se fomente essa mesma paz e amor entre os fiéis.
Devo-lhe dizer que gosto de frequentar a Eucaristia (sou praticante), pois fui educado nesta mesma fé e prática religiosa. A minha prática é voluntária, não sendo forçada por ninguém (tenho 30 anos de idade). O senhor poderá dizer-me para procurar outra igreja, mais do meu agrado, mas devo-lhe dizer que não conheço Ponte de Lima muito bem. Qual é a sua opinião, P. Mário? A Eucaristia deve ser sempre feita com a saudação aos fiéis, para que o sacramento esteja sempre completo? Esta parte pode ser suprimida, se o padre assim bem o entender, no decorrer da celebração? Eu penso nisto, e causa-me bastante confusão. Gostaria de poder ter um comentário seu. Pode responder-me na sua excelente página da Internet, ou para o meu e-mail.
Certo da sua melhor atenção, e aguardando uma resposta adequada, brevemente, sem mais, despeço-me, com os meus melhores cumprimentos, as maiores saudações cristãs, em Jesus Cristo, pedra basilar da nossa Fé, e as maiores felicidades para o seu jornal Fraternizar, tanto em papel, como na Net. Já agora, poderia-me explicar porque é que o seu jornal tem este nome, «Fraternizar»?
ALexandre
Acabo de ler o seu e-mail e fiquei preocupado consigo. Veja com que tipo de coisas o Alexandre, que até se confessa cristão, anda preocupado, aos 30 anos de idade! Compare estas suas preocupações com as preocupações de Jesus, quando tinha a sua idade. Sabemos hoje que, pelos 30 anos, Jesus saiu de casa para se fazer discípulo de João Baptista, de quem, mais tarde, se haveria de separar, para se entregar por inteiro à causa do anúncio/realização do Evangelho do Reino/Reinado de Deus, o que lhe valeu a morte na cruz…
A Missa, de que me fala, é hoje pouco mais do que um rito sem Espírito. Com saudação de paz, ou sem ela, não passa de um rito sem Espírito. Cumpre-se o ritual, sob pena de pecado mortal, segundo o mandamento da Igreja ainda em vigor, mas sem que nada aconteça na vida das pessoas que o executam. Tudo gira à volta do clérigo que preside e sem o qual o rito não se poderá realizar… A assembleia não é tida nem achada. Se fosse, o Alexandre teria certamente colocado a questão que me coloca aqui a mim, no decurso da própria assembleia litúrgica. Mas a palavra nunca é dada às pessoas, que se limitam a dizer as respostas que constam no respectivo Missal. É tudo faz-de-conta. Para cumprir o dever dominical.
Nessa paróquia concreta, o clérigo que preside passa à frente o rito da saudação? Porque o fará? Melhor seria que o Alexandre conversasse com ele. O missal prevê que, lá onde o rito da saudação for achado inoportuno, o clérigo que preside passe à frente, sem se lhe referir. Só o próprio saberá porque o faz. Provavelmente, já terá concluído que se trata de um rito vazio, sem sentido, que as pessoas executam por rotina, sem qualquer acolhimento recíproco. Só que, nesse caso, o clérigo deveria ir mais longe e concluir que todo o rito da Missa é um rito vazio e sem sentido. Pela mesma lógica, deveria deixar de o realizar também. E não haveria Missa! Só que assim, o clérigo ficaria sem ganhar o respectivo dinheiro…
O Alexandre prefere a Missa pela tv? Compreendo. Assim, nem sequer tem de percorrer o caminho da sua casa ao templo. Mas será que, em alternativa, percorre o caminho da sua casa à casa dos demais irmãos e irmãs de Fé? E à casa dos demais seres humanos, com quem haverá de viver em diálogo e em Missão? Porque quem diz que ama a Deus a quem não vê, e não ama os seus irmãos a quem vê, é mentiroso. Não sou eu quem o diz. É S. João, nas suas Cartas (cf. Novo Testamento). Pense nisto.
Agradeço-lhe o contacto. E, agora que me encontrou na net, não deixe de frequentar os meus sítios e de os divulgar. E debater. Escreva, sempre que quiser.
Dou-lhe a minha Paz. Num abraço Mário
P.S.
FRATERNIZAR é um neologismo que criámos para título do Jornal. É um verbo que indica o que nos propusemos conseguir com as sucessivas edições do jornal: tornarmo-nos progressivamente irmãs/irmãos uns dos outros. O que só acontecerá, lá onde houver Verdade/Liberdade.
E-mail, Paulo
2006 Outubro 30
Caro amigo Padre Mário. Tenho seguido atentamente os seus passos e tento orientar a minha Fé com um pouco de tudo o que vejo, tentando seguir por ídolo Jesus e tentando fugir à Igreja de Roma (o que não é fácil)...
Creio que muitos limitam-se a ter uma Fé apenas por tradição, tento ter uma Fé mas que seja esclarecida. Como tal, actualmente ando a ler o catecismo da Igreja Católica e reconheço que existem artigos que eu não consigo entender, nomeadamente este ao qual lhe venho pedir ajuda. Também tentarei abordar o "prior" da minha paróquia para saber o que ele acha, mas gostava de saber a sua opinião.
Estamos à porta de um referendo sobre o aborto, ou melhor a despenalização do aborto. Pelo que já me apercebi o senhor é a favor da despenalização, pelo direito à liberdade das mulheres. Por outro lado o Cardeal Patriarca que primeiramente dissera que não era uma questão religiosa, veio desdizer-se e é contra a despenalização... Porque defende que a vida merece respeito desde o primeiro instante. A minha dúvida: Como é que a Igreja defende a vida desde a sua concepção e tem no seu catecismo este artigo "§2267 - O ensino tradicional da Igreja não exclui, depois de com provadas cabalmente a identidade e a responsabilidade de culpado, o recurso à pena de morte, se essa for a única via praticável para defender eficazmente a vida humana contra o agressor injusto."
Honestamente não entendo... Obrigado pela sua atenção.
OLÁ, Paulo
E tem outra coisa que não se entende na cúpula da Igreja, nesta questão da chamada defesa da vida: O Código de Direito Canónico (CDC) aplica a pena de excomunhão à mulher que cometer o pecado grave de abortar, mas já não lhe aplica essa pena, se a mesma mulher, em lugar de abortar, fizer outra acção mais horrenda: Esperar que o filho nasça, para o matar logo a seguir!... Cometerá pecado grave, mas já não sofrerá a pena de excomunhão. Imagine esta contradição! E esta falta de sensibilidade.
Esse parágrafo do CIC, que cita no seu mail foi motivo de escândalo, aquando da publicação do mesmo. A contradição com o princípio doutrinal da defesa da vida, por parte da Igreja, é flagrante. Mas o que está verdadeiramente em jogo, nesta questão, não é que as mulheres abortem com lei ou sem lei (veja que a cúpula da Igreja só sai à liça, quando se coloca a questão de aprovar uma lei sobre o assunto e não, como seria de esperar, sempre que há abortos clandestinos, que, infelizmente, é uma prática de todos os dias!); o que está verdadeiramente em jogo - e a cúpula da Igreja não quer de modo nenhum - é que as mulheres se tornem autónomas e passem a decidir em consciência o que hão-de fazer ou deixar de fazer, neste campo, como em todos os outros que lhes digam respeito. Porque no dia em que as mulheres forem consideradas sujeito em toda a linha, em pé de igualdade com os homens, isto é, pessoas capazes de liberdade e de responsabilidade, e não apenas simples auxiliares dos homens confiadas aos cuidados deles) fica também aberto a elas o acesso aos ministérios ordenados na Igreja, e a todos sem excepção.
Como reconhece no seu mail, pessoalmente demarco-me da cúpula da Igreja nesta matéria. Sou contra o aborto, evidentemente, mas a favor da lei que o despenaliza e oferece àquelas mulheres que, em última instância, decidam ir por aí, as condições de dignidade humana e de segurança, para que elas, particularmente, as mais pobres e as mais marginalizadas/desprezadas, não tenham que continuar a recorrer a habilidosas que as humilham e ainda põem em risco a sua saúde e até a sua vida.
O meu afecto. Mário
E-mail, Alexandra
2006 Outubro 30
Boa tarde Padre Mário de Oliveira. Não sei se vai ler este mail. Só gostava que soubesse que é muito bom divulgar as mentiras da Igreja Católica mas você está tão frio como eles.
Não gosto do nome padre porque Pai há só um Deus. Vá a uma Igreja que pregue o verdadeiro evangelho, salve a sua alma. Só Jesus é o caminho, a verdade e a vida. Quem não pregar isso e só isso é mentiroso, não sou eu que o digo mas a Palavra de Deus. Pense em si, esta vida é curta e quem tem acesso à Palavra de Deus como você tem e não prega só a verdade : está condenado. Está na Bíblia : Os sacerdotes não entram no céu, nem deixam entrar.
Espero de todo o coração que entregue a sua vida a Jesus e que venha fazer parte da grande família de Deus para sempre no céu. Lembre-se do que disse Salomão em Eclesiastes : O resto é tudo vaidade!!
Um grande abraço cheio do amor de Deus porque Ele o ama. Vá a uma Igreja Viva e pregue o Verdadeiro Evangelho. Tem que pregar a Palavra de Deus com o Espírito Santo porque a Palavra mata mas o Espírito vivifica.
Que Deus o abençoe.
Bom dia, Alexandra
Agradeço-lhe a mensagem que me enviou.
Entretanto, esqueceu-se de me dizer qual a Igreja a que devo ir para me salvar, já que, pelos vistos, nem sequer basta eu ser igreja na Igreja católica.
É verdade que a letra mata e só o Espírito é que vivifica. Mas o alerta de Paulo é válido para todas as Igrejas, não apenas para a católica, e alarga-se a todas as instituições criadas por nós, seres humanos.
Por mim, prefiro continuar a ir por Jesus, o de Nazaré, e pelo Deus que a sua prática libertadora e misericordiosa revelou como Pai/Mãe que está para lá de todas as Igrejas e que vive para criar/salvar, não para condenar ninguém.
O meu afecto. Mário
E-mail, Ricardo
2006 Outubro 25
Bom dia amigo Pe. Mário. Gostava muito de visitar a construção do Barracão da Cultura. No fim do mês de Novembro, é quando me dá mais jeito. E ao mesmo tempo conhecia outras pessoas. Já li o seu livro, OUVISTES O QUE FOI DITO AOS ANTIGOS. EU, PORÉM, DIGO-VOS,e é muito bom. Em relação aos meus problemas concordo plenamente consigo, Deus o de Jesus só pode ser AMOR nao destruição. Cabe-nos a nós lutar por um mundo melhor, pois Jesus não faz milagres mas ajuda-nos a ser fortes e nunca desistir.
Só lhe faço uma pergunta: Deus o de Jesus perdoa pois é Amor, mas também perdoará aqueles que matam sem sentir remorso e aqueles que falam mal de Deus ou mesmo perdoa Bush?
Bom dia, Ricardo
Os critérios/pensamentos de Deus não são os nossos. Se Deus é a Salvação em acção, como pode deixar que se percam aquelas, aqueles que criou? Criar é salvar. E essa é a actividade de Deus.
Abra os seus horizontes e os seus critérios para que se tornem como os de Deus. Até Bush se pode salvar, mas o que Deus criou, não o que o Império pariu. O que o Império pariu só pode cair no nada, como o próprio Império!
O meu abraço, Mário
E-mail, José
2006 Outubro 24
Olá padre Mário, conheci-o pessoalmente há uns anos, na Feira do Livro em Lisboa, onde me assinou uma obra sua e conversou um bocado comigo sobre o antigo bispo do Porto, António Ferreira Gomes. Só agora conheci, por mero acaso, o seu site e o seu diário aberto. Li umas coisas interessantes que você escreveu sobre o seu regresso, como residente, a Macieira da Lixa, local de lutas, vitórias e derrotas nos anos 70.
Li outras coisas no seu diário de que, sinceramente, não gostei. Por isso lhe escrevo. Por isso e porque acho que o padre Mário é um bom cristão (por vezes, mais cristão do que alguns bispos) e uma voz livre necessária. A sua antiga posição sobre a guerra colonial foi muito importante. O que escreveu sobre Fátima era necessário que um padre o dissesse também. A sua crítica da hipocrisia do "apoliticismo" oficial da Igreja católica é muito salutar. A sua concepção de uma Igreja viva, lutadora, fraterna, próxima dos não poderosos, há-de ser sempre revolucionária, como o cristianismo, quando posto em prática, muitas vezes o é. Não junto aqui mais do lado "Haver", embora houvesse. Mas acho que o padre Mário resvala e se perde, outras vezes, por não distinguir o que é distinto, por amalgamar realidades muito diversas, por colar igual rótulo em casos, situações e pessoas que um abismo separa. A vida e a sociedade não são a preto e branco, padre Mário, e você sabe-o certamente melhor do que eu, com toda a sua experiência de vida. Esse preto e esse branco são apenas casos extremos. A larga escala de cinzentos que há pelo meio é que é a esmagadora realidade - se não convencionarmos meter lá também toda a escala de cores e suas nuances.
Chamar tirania, por exemplo, ao actual governo de Sócrates, padre Mário, está fora da realidade e da justiça. Um Jesus que gosta de política e que até a prefere à "religião" embalsamada em incenso e hipocrisia - muito bem! Mas um Jesus justo é mais importante do que um Jesus que somente gosta de política, o que, em si, é muito pouco. E a justiça é difícil, como o padre também aprendeu à sua custa. A justiça exige equidade, rigor, trabalho, coragem, honestidade e muita humildade por parte de quem a procura. Há sempre numerosos pontos de vista e, pelo menos, dois lados diferentes a considerar. Seríamos tristes maniqueístas se achássemos que, desses dois lados, um é sempre o bom e o outro é sempre o mau. Aprendi que o bem e o mal existem, em semente, por todo o lado. Que na Igreja também existe o mal. Que a semente da injustiça também existe dentro de cada um de nós. Abandonei há muitos anos a ideia de Deus por a julgar fonte de demasiadas injustiças e cumplicidades com o mal.
Em relação ao bispo António Ferreira Gomes, a quem o padre Mário chama autocrata, também aí me parece injusto. O padre Mário deve ter os seus motivos para dizer o que diz. Mas não pode querer ser juiz em causa própria, nem esperar que nós aderamos acriticamente a juízo tão simples e categórico.
Vou desafiá-lo, padre. Deixe-nos ser imparciais e inteligentes, padre. Deixe-nos ajuizar. Digitalize e ponha on-line a principal documentação relativa à sua destituição de pároco da Macieira. Os antecedentes, as cartas que trocou com o bispo, os documentos essencias, as acusações de parte a parte, o que mais houver. Ponha tudo à vista padre Mário! Seja justo e generoso na escolha dos documentos, padre, mostre os dois lados. Lembre-se que o outro já não está cá. Exponha o processo aos nossos olhos independentes.
Por mim, gostava de ver se o Salazar e o falecido Bispo do Porto eram realmente diferentes ou não. Já agora, se o Sócrates também é diferente do Salazar.
Serão apenas três autocratas, três tiranos que se equivalem?
A quem serve esta confusão padre Mário, esta amálgama?
Com toda a minha consideração
Olá, José
A sua mensagem é uma agradável surpresa. Escreveu-a em duas colunas: o HAVER e o DEVE. Agradeço-lha, também por isso. Há quem me escreva só a dizer bem; há quem me escreva só a dizer mal. O José Barreto exemplifica o que lhe parece bem em mim. É a coluna do HAVER. E exemplifica o que lhe parece mal em mim. É a outra coluna, a do DEVE. Faz-me bem receber mensagens como a sua. Porque sempre procurei acolher e ponderar o que me dizem, sobretudo, quando me criticam. Pondero tudo com a razão e o coração. E transformo a crítica em autocrítica.
Não me vou defender nem justificar perante si. Apenas contribuir com algumas achegas, para que humildemente deixemos a Verdade fazer-se nosso alimento quotidiano.
1. Sei que a realidade não é só a preto e branco. E mesmo assim, escrevi o que escrevi. Porque é assim que vejo o nosso hoje português. É o meu olhar que está desfocado e vê preto o que deveria ver cor-de-rosa? Sei que a realidade não é só a preto e branco. Também há o cinzento. Mas quem vive nas margens é capaz de ver que o rei vai nu e de o gritar aos muitos outros, outras, que, pelo contrário, aplaudem o rei. Qual o olhar mais justo?
Sabe que há uma Ordem mundial que mantém a verdade cativa na injustiça. E que esta Ordem mundial se aguenta, porque chama justiça à injustiça estrutural e chama verdade à Mentira estrutural. Numa Ordem mundial assim, muitas vezes, nem os mais pobres gostam de quem conseguiu ver para lá do manto da ideologia dominante e depois, como um menino, tem a simplicidade de dizer o que vê. E se nem os pobres gostam, como reagirão os que produzem os pobres e a pobreza em massa?
Escrevi “tirano”/“tirania” e “Ditadura”. E ainda alerto que as minorias que hoje detêm o poder (deveriam resistir-lhe, para se manterem seres humanos, mas estão incondicionalmente ao seu serviço, ao mesmo tempo que se servem dele) preferem falar em “democracia” e em “liberdade”. Só porque hoje a tirania e a ditadura fazem-se servir travestidas de democracia e de liberdade. Mas que democracia é esta e que liberdade? Só um cego é que não vê o fosso que separa os muito ricos dos muito pobres. Como é que a democracia e a liberdade levam o país a este estado de quase pré-coma?
2. O Bispo do Porto, António. Sempre lhe fui leal, na verdade do Evangelho, tanto quanto fui/sou capaz, na minha fraqueza humana, de viver aberto a ela. Segui-lhe as pisadas, na medida em que o Bispo António seguia as pisadas de Jesus e do Evangelho de Deus. Resisti-lhe fraternalmente, quando em consciência entendi que devia resistir-lhe, isto é, quando me parecia que estava em jogo a verdade do Evangelho.
O José Barreto sabe que o Poder corrompe. E o Poder sagrado corrompe sacralmente. Faz deuses infalíveis os que são simplesmente seres humanos. Ai de um bispo que viva rodeado de bajuladores, em lugar de irmãos no afecto e no Evangelho! E irmão no afecto e no Evangelho foi o que sempre me senti, em relação ao Bispo António. Sou o primeiro a reconhecer que lhe devemos muito, como Igreja e como país. Mas, por isso mesmo, não havemos de o colocar acima de toda a crítica fraterna. Houve um tempo em que o Bispo António me aceitou como irmão e me acolheu. Mas, quando me tornei demasiado incómodo, vi que ele passou, mesmo em relação a mim, de irmão a poder. E rompeu o diálogo comigo, que eu continuei a procurar até ao fim. Fiquei nas margens, onde ele me colocou. Sem romper com ele, nem com a Igreja do Porto, da qual sou presbítero pela graça de Deus, o de Jesus.
Ao contrário do que o José parece admitir, não tenho muita documentação sobre esse relacionamento. Sempre pautei a minha relação com o Bispo António na base da confiança entre irmãos de afecto e de Evangelho. Nunca tive outro horizonte. Posso ser rotulado de ingénuo. Admito. Mas não estou arrependido de ser assim em Igreja e em sociedade. Quando, mais tarde, me foi dito pelo Bispo do Porto, que se seguiu a D. António, que o meu era o dossier maior da Cúria diocesana, fiquei espantado e pedi licença para o poder consultar. Foi-me terminantemente negado. Ainda houve quem me aconselhasse a recorrer ao poder de um advogado. Mas esse não é o meu caminho. Ninguém me afastará da fraternidade. “E vós sois todos irmãos”, adverte Jesus. Há quem rompa e aceite tornar-se poder sobre os demais? Por mim, não vou por aí. Prefiro seguir o que ensina Jesus: quem quiser ser o maior faça-se o servo de todos, o último de todos. É por aqui que procuro ir, como um menino.
Fiquemos em reflexão. E à escuta. O Espírito de Jesus anda por aí a querer guiar-nos para a verdade. Porque de modo algum ele se reconhece nesta “verdade” legal que faz uns poucos muito ricos e outros – a esmagadora maioria – muito pobres. Só há Verdade onde houver amor. E onde houver amor há verdade. Há fraternidade universal. E há liberdade.
O meu afecto. Mário
E-mail, Ricardo
2006 Outubro 05
Bom dia, Pe. Mário. O senhor diz que este mundo está em edificação. Mas também diz que carece da nossa ajuda. Mas como pode haver um mundo novo sem morte, doença, guerras, sem a intervenção de Deus? Pois como sabemos, este mundo está na mão de terroristas. Assim sendo, Deus tem que intervir, ou não? Um abraço.
OLÁ, Ricardo
Este mundo está nas mãos dos terroristas? Nas mãos dos terroristas de Estado, digo eu. Mas não há-de ser sempre assim. É assim enquanto não crescermos em humanidade e em sabedoria e em graça. Porque, quando chegarmos à estatura de filhas, filhos de Deus como Jesus, o de Nazaré, não haverá mais lugar para Poder de nenhuma espécie. É claro que não é para o nosso tempo, nem para a próxima geração. Mas será. É para aí que estamos a caminhar como Humanidade. A História é um processo aberto. Ainda mal começou, Ricardo! E já quer que termine? Dê tempo ao tempo, homem!
E Deus intervém? Ó Ricardo, mas que pergunta. Então Deus não está continuamente a intervir em nós e connosco? Acha pouco ter-nos criado e confiado a Criação ao nosso cuidado? Disparatamos? É verdade. Mas é assim que crescemos, que aprendemos. A Liberdade é uma aprendizagem, é um processo aberto. E que leva gerações e gerações. Olhe que já andamos nisto há cerca de 15 mil milhões de anos. E ainda só vamos no começo. Tenha paciência. Entretanto, dê o melhor de si próprio, para que isto avance em humanidade e em responsabilidade. Basta de infantilismos e de medos.
O meu abraço, Mário
P.S. Já leu, como lhe recomendei, o cap. 8 da Carta de Paulo aos Romanos? E que lhe parece? Acha que tem a ver com este tipo de questões que me coloca? Abre-nos novos horizontes?
E-mail, Maria
2006 Setembro 21
Padre Mário: Por favor não pense que vou continuar a incomodá-lo! Detesto ser "chata"!...
Mas... não tenho mais ninguém que me saiba responder a esta pergunta que me acompanhou ontem até adormecer e me martela o cérebro desde que acordei: Que dizer a uma mãe que perdeu ontem à noite (cerca das 19 horas), o seu filho de 18 anos, num "estúpido" acidente?
A avó do rapaz é prima direita do meu marido. Gente muito ligada uns aos outros, como são os desta região...
Padre Mário, acha que há "meia dúzia de palavras" que sirvam de bálsamo, nestas circunstâncias, em vez de se ficar muda e calada como eu fico?? Um abraço.
Pois é, Milú, a vida tem destas coisas que nos deixam sem fala.
Sabe que há momentos em que o Silêncio com ternura e com Espírito Santo é a mais fecunda Palavra que podemos partilhar com quem está esmagado pela Dor?
Do que se trata, neste caso e em tantos outros casos similares, é de darmos de imediato a nossa Presença à pessoa, uma Presença carregada de afecto e de respeito pela sua Dor. Uma Presença, feita abraço, beijo e silêncio. Uma Presença à Cireneu, que procura carregar a Dor, fazer sua a Dor da pessoa. Não cair na tentação de consolar a pessoa. Ou de arranjar estúpidos argumentos, no estilo, olhe que ainda poderia ter sido pior!...
Depois, quando este longo momento tiver sido conseguido e começarem a nascer palavras na pessoa esmagada pela Dor, acolher as suas palavras, sem as rebater de modo nenhum. Acolhê-las, juntamente com as lágrimas que porventura continuem a cair em catadupa, de forma espontânea. Tudo é sagrado nessa hora e ali.
Finalmente, será hora de agir. E que tipo de agir? Nada menos do que “ressuscitar” o filho que está morto para o restituir à sua mãe. Como fez Jesus com a viúva de Naím. Para conseguir esta ressurreição, actua-se não sobre o cadáver do filho, mas sobre o corpo esmagado e desfeito da Mãe. É preciso confeccionar uma frugal refeição e comê-la mais ela. E escorraçar com força a Morte de casa e da vida da Mãe, através das palavras de ordem: Não chores! e: Levanta-te! e: Não vês que o teu filho espera-te lá fora, nos filhos, nas filhas dos outros que continuam a chamar por ti, por mim, por nós? Anda, querida: Ousemos deixar os túmulos e mergulhemos em cheio na vida que continua, e que nos chama!
É claro, que estas Palavras de ordem terão de ser ditas, não de rajada, mas mais com gestos de ternura do que com palavras; também com palavras, mas cheias de ternura (é preciso tocar muito o corpo da pessoa que está esmagada pela Dor) e sem nenhuma pressa, porventura, ficar lá de um dia para o outro. Nada se pode fazer como quem despacha ou dita um recado e se vai embora com a consciência do dever cumprido. Não! Temos que carregar com a Dor, fazê-la nossa e sair dela juntamente com a pessoa esmagada por ela. Trata-se de ressuscitarmos com a pessoa esmagada. Concluiremos, depois, que, afinal, fomos ter com a pessoa para a “consolar” e “ressuscitar”, e que foi ela-em-comunhão-connosco quem nos “consolou” e “ressuscitou”.
Beijinhos.
E-mail, José A.
2006 Setembro 14
Caro Mário de Oliveira, espero que tenha tido umas boas férias.
Há muito que desejo fazer-lhe algumas perguntas que eu considero fundamentais para um profundo esclarecimento da ética cristã.
Será a ética cristã antropocêntrica? Será apenas o ser humano feito à imagem e semelhança de Deus? E os outros seres que são a esmagadora maioria? Não deveria a ética cristã ser alargada a todos os seres vivos?
Qual o grau de responsabilidade do cristianismo perante a actual crise ecológica que estamos a viver? Se os animais sentem sofrimento e dor, não será pecado haver matadouros e touradas? Não serão outros holocaustos? É lícito a um cristão comer carne? Não seria melhor que se tornasse vegetariano?
Porque continuam os cristãos a serem indiferentes ao sofrimento dos animais nos matadouros, e continuam a comer a sua carne, os seus cadáveres? Que deve fazer um cristão perante o sofrimento e dor de milhões de seres vivos nossos irmãos que são cruelmente sacrificados para satisfazerem o nosso cruel e demoníaco apetite? Indiferença? Autismo? Faz de conta que não sentem dor nem sofrimento? Foi Deus que mandou? É o papel deles na vida? Faz de conta que não têm alma? Faz de conta que não existem, e que só existe o ser humano à face da terra?
Por favor, responda apenas e só quando tiver tempo disponível, pois penso que estas questões que eu coloco são fundamentais para a própria credibilidade do cristianismo, como paradigma ético do futuro, e por isso, requerem tempo e meditação nas suas respostas. Será este assunto tabu para o cristianismo?
Um abraço
Caro José Alves
Aqui estou a responder. Telegraficamente.
P. Será a ética cristã antropocêntrica? Será apenas o ser humano feito à imagem e semelhança de Deus? E os outros seres que são a esmagadora maioria? Não deveria a ética cristã ser alargada a todos os seres vivos?
R. Certamente que o meu amigo já conhece a resposta a estas perguntas que me formula. Estou de acordo consigo. A ética cristã deverá ser alargada a todos os seres vivos. E já é para aí que se começa a caminhar, com a chamada bioética, ou ética da vida, de toda a vida, não apenas a vida dos seres humanos.
P. Qual o grau de responsabilidade do cristianismo perante a actual crise ecológica que estamos a viver?
R. É enorme! Se bem que a responsabilidade não é tanto do Cristianismo, mas das Igrejas que o interpretaram de forma reducionista. O Cristianismo de Jesus não vai por onde as Igrejas historicamente foram, particularmente, nos últimos séculos, a partir da revolução industrial. E parece que ainda não estamos dispostos, como Igrejas, a mudar para o Cristianismo de Jesus. Hoje, a responsabilidade da crise ecológica global já não é tanto das Igrejas, mas das Multinacionais da nossa vergonha. Os seus gestores não ouvem ninguém: nem Igrejas, nem Estados, nem Parlamentos. O Dinheiro é o pior dos ídolos. Ou o decapitamos, ou é ele que nos decapita a nós. Não vê como ele mata os profetas que denunciam os seus horrendos crimes contra os empobrecidos e a Natureza? As Igrejas têm que ser proféticas e martiriais. Só assim são fiéis a Deus e à Humanidade. E garantem futuro ao nosso presente.
P. Se os animais sentem sofrimento e dor, não será pecado haver matadouros e touradas? Não serão outros holocaustos? É lícito a um cristão comer carne? Não seria melhor que se tornasse vegetariano? Porque continuam os cristãos a serem indiferentes ao sofrimento dos animais nos matadouros, e continuam a comer a sua carne, os seus cadáveres?
R. Sabe tão bem como eu que, no tempo dos profetas bíblicos e de Jesus, os animas eram mortos sobre o altar e queimados em sacrifício a Deus. Parte das suas carnes eram comidas pelos sacerdotes e suas famílias. O próprio Jesus comia o que toda a gente do seu país comia. E não exigiu que fôssemos vegetarianos, para sermos seus discípulos. Bem sei que os tempos hoje são outros e há outra consciência. Mas daí até considerar pecado matar animais para comer a sua carne… Cuidado com os fundamentalismos. Já as sevícias aos animais poderiam (deveriam) ser consideradas pecado. Mas, antes, terá de haver uma revolução cultural em todos os povos do mundo. Acho que os cristãos não são tão indiferentes assim ao sofrimento dos animais. Hoje até há quem adopte animais e deixe as crianças órfãs ao abandono. A crueldade maior, hoje, é contra os seres humanos, nomeadamente os dos países do Sul empobrecido. Veja o mimo e o luxo que muitos cães e gatos nos países do Ocidente desfrutam, em contraste com a fome e as doenças curáveis de milhões de crianças dos países do Sul!... E quem disse que a carne de animais acabados de matar/sacrificar é cadáver? Pode um cadáver alimentar a vida humana? Um pedaço de carne, enquanto não entrar na fase de decomposição, não é um pedaço de vida animal? De resto, toda a natureza está organizada para sermos alimento uns dos outros. Quando comemos a carne de um animal, de certo modo o convertemos em humano. O que é reprovável e condenável é todo o tipo de sevícias e de maus tratos.
P. Que deve fazer um cristão perante o sofrimento e dor de milhões de seres vivos nossos irmãos que são cruelmente sacrificados para satisfazerem o nosso cruel e demoníaco apetite? Indiferença? Autismo? Faz de conta que não sentem dor nem sofrimento? Foi Deus que mandou? É o papel deles na vida? Faz de conta que não têm alma? Faz de conta que não existem, e que só existe o ser humano à face da terra?
R. Antes de formular estas perguntas sobre os animais, gostaria de ver o José A. preocupado com o que fazer perante os milhões de seres humanos, nossos irmãos e irmãs que morrem de fome e de falta de medicamentos, às vezes por falta de uma simples vacina, nos países do Sul empobrecido, quando, nos países do Ocidente, existem alimentos e medicamentos aos montes, respectivamente, nos supermercados e nas farmácias… É por aqui que havemos de começar. “Foi a mim que o fizeste, ou deixaste de fazer”, diz Jesus, em Mateus 25. Será bom alargar este cuidado também aos animais e à mãe-terra. Mas não subvertamos a ordem de prioridades.
Concluo. Faz falta uma revolução global. Mas enquanto as multinacionais mandarem no mundo e nos governos de cada país, a Revolução global não acontecerá. Muito menos a Mudança radical que se impõe e por que aspiramos. Por isso, grito com todas as forças: Vem Revolução!
O meu abraço.
E-mail, Ricardo
2006 Setembro 05
Meu amigo padre Mário, ontem vi no canal história um programa do anti-cristo, no qual falavam que esse homem um dia virá á Terra e haveria a batalha final contra Jesus. O mal seria banido da Terra, e haveria 1000 anos de reinado de Jesus. Falaram da segunda vinda de Jesus, mas sei que nos evangelhos falam da segunda vinda. Como poderei entender isto? O mal alguma vez será banido da terra? DEUS irá intervir? Um abraço para o meu amigo MÁRIO OLIVEIRA!!!
P.S. Onde poderei comprar NEM ADAO E EVA NEM PECADO ORIGINAL ?
Bom dia, Ricardo!
Não se deixe impressionar com esses escritos e programas milenaristas. Sempre os houve ao longo dos séculos. São fundamentalistas que estão por trás. Viva cada dia intensamente. A História é um processo aberto. É neste processo que nos inserimos. Não há nada de verdade nos milenarismos. Os do passado revelam que não passam de delírios. É uma arma mais para manter as populações no medo… Pratique a Liberdade contra o Medo.
O meu livro NEM ADÃO E EVA NEM PECADO ORIGINAL, assim como qualquer dos outros, se não o encontrar nas livrarias e grandes centros comerciais, pode ser encomendado através do meu site www.padredalixa.org
O meu abraço.
Então quer dizer que nunca vamos assistir á segunda vinda de Jesus?
Um abraço e desculpe eu ser tão chato!
OLÁ, de novo.
Como espectáculo mediático, não.
A linguagem apocalíptica o que pretende é remeter-nos para a verdade/intimidade da nossa consciência. O que não acontecer aí, não é humano. E Deus Vivo é só por aí que PASSA (PÁSCOA).
O abraço.
Então quer dizer que não vai acontecer fim do mundo ou juízo final?
Um abraço.
E o Ricardo acha que são precisas todas essas infantilidades? Que Deus seria esse, se fosse por aí? Um faraó? Um Bush? Um monstro? O Deus que se nos revelou em Jesus, o de Nazaré, poderá ir por aí? Deixemos o reino do terror imaginado pelos eclesiásticos e pelos sacerdotes de todas as religiões e abramo-nos ao Deus fonte de Amor, fonte de Graça e de Verdade. Basta de terrorismos em nome de Deus!
O abraço.
E-mail, José
2006 Agosto 26
Antes de mais, os meus sinceros parabéns, pelo seu excelente trabalho.
Acredito que deve receber muitos e-mails e comentários depreciativos mas tenciono aqui fazer exactamente o contrário.
Chamo-me José e nasci em Vila Franca de Xira há 24 anos atrás. Actualmente vivo na pacífica vila de Benfica do Ribatejo onde, como em muito do nosso belo Portugal, a ignorância e falsa verdade abundam.
Tive educação católica e apenas fiz um dos sacramentos: Primeira comunhão. Desde aí que comecei a usar a minha cabeça para pensar em coisas simples e lógicas. Como sou amante de História, pesquiso e interesso-me muito por factos e acontecimentos contraditórios.
Obviamente que a religião não me passa ao lado e graças ao meu irmão mais velho já ter uma maneira de ver as coisas muito mais lúcida do que muito bom jovem que por aí anda a deambular em Fátima (sem saber bem porquê), segui-lhe as pisadas no que toca a analise e conclusão. Sei que caso tivesse nascido noutro lado, sem o meu irmão por exemplo, poderia ser hoje mais uma vítima da "selecção genética" bem aproveitada por Oliveira de Salazar, e seria um fervoroso "temente" a uma entidade superior que oprime todos os que não o agradarem. Foram as "castas" certas para a ilusão perfeita.
Naturalmente que não me posso considerar católico mas sim cristão depois de ler diversos livros, entre os quais, a sua obra "Fátima Nunca Mais".
Sigo com atenção as descobertas científicas do nível mais profundo das origens da religião católica, que acho serem muito reveladoras e até embaraçosas para a Igreja. Obviamente que para se mudar pensamentos são precisos muitos anos e muitas gerações, muita "peneira", se me permite a expressão. Sinto que caso sobreviva a toda a panóplia de perigos de vida constantes na nossa sociedade, e que algum dia tenha a "viabilidade" para criar um filho, lhe transmitirei a minha visão do Mundo. Não como a visão certa e única, mas sempre de uma forma científica e sem absurdos.
Acabei agora de ver um programa na RTP2 sobre Fátima e a farsa gigante que ela é. Obviamente que por o ter reconhecido no programa é que fiz o que já estava para fazer há muito tempo: enviar-lhe um e-mail para lhe agradecer pessoalmente a sua luta. Sua, que também é a minha e é a de todos os que se sentem incrédulos com as mentiras que fazem mover milhões e milhões. Pessoas e dinheiro.
Despeço-me, desejando-lhe muitos anos de vida e uma bela carreira na procura da verdade. Teria muito gosto em poder conversar consigo pessoalmente para lhe dar força para continuar a espalhar o seu trabalho magnífico. Caso algum dia venha até Almeirim, terei muito gosto em me encontrar consigo para lhe aconselhar uma óptima sopa-de-pedra e um bom vinho tinto.
Abraço e até sempre.
Bom dia, José
Gostei de ler a sua mensagem. É de pessoas assim lúcidas e fecundamente subversivas e rebeldes que o nosso mundo precisa. Estas pessoas podem conhecer a incompreensão e a exclusão de muitas outras, mas é sobretudo graças a elas que as sociedades evoluem e progridem em humanidade. Vejo que o José Miguel, embora ainda jovem, já se inclui neste número de pessoas lúcidas e só posso ficar feliz consigo. E em eucaristia. Continue por essa via, que é também a via Jesus, o de Nazaré. Não é a via do sucesso, mas é a via da Verdade, consequentemente, a via da Liberdade responsável.
Quanto a eu ir a Almeirim e à sua terra, é um desafio a ponderar e, porventura, a preparar, desde já. Este ano social que está a começar, gostaria de aparecer mais em sucessivas localidades do país – por isso, a sua pode ser uma delas – para me encontrar ao vivo com aquelas pessoas que queiram aparecer, num local previamente anunciado, e conversarmos juntos a Boa Notícia de Deus para o século XXI, que é Jesus, o de Nazaré (não o das Igrejas e dos pastores). Serão conversas saudavelmente polémicas e subversivas. Libertadoras.
Se o José Miguel quiser começar desde já a pensar nisso e a preparar a minha passagem ao vivo por aí, tem luz verde. Fale com o seu irmão e outras pessoas suas amigas, jovens e mais velhos, como quem apalpa o terreno. Se vir que há condições, avançaremos. De contrário, o encontro será restrito a si e a mais dois ou três.
O meu abraço. E a minha comunhão. Mário
E-mail, Ricardo
2006 Agosto 25
Boa tarde. Daqui fala o Ricardo.
Gostaria de levantar algumas questões, pois gosto muito do que leio de si.1 - O dilúvio universal houve mesmo? 2 - Deus escreveu nas tábuas de Moisés? 3 - A Bíblia foi inspirada por DEUS? Devemos levar a bíblia á letra? Os 4 evangelhos são fiáveis?
Boa tarde e um BOM fim-de-semana!!
Bom dia, Ricardo
As respostas às suas perguntas dariam vários livros. Respondo telegraficamente.
1 Dilúvio: Se o Ricardo ler-estudar o meu livro NEM ADÃO E EVA, NEM PECADO ORIGINAL tem lá a resposta que procura muito bem explicada e fundamentada.
A Bíblia contém dois relatos de Dilúvio sobrepostos e misturados, escritos com cerca de 4 séculos de diferença entre um e outro. Veja se os descobre. E esteja atento sobretudo à mensagem teológica que neles se nos revela/anuncia. Se não nos deixamos “apanhar” pelo Espírito de Deus Vivo que nos fala e sai ao encontro, também através dos acontecimentos de que é feita a História e a Bíblia, de nada vale lermos a Bíblia…
2 Tábuas de Moisés. Deus não escreveu nas tábuas de Moisés. É um modo literário de dizer, para dar mais autoridade à Lei de Moisés. Provavelmente, nem Moisés escreveu. O Pentateuco tal como hoje o conhecemos é obra redactorial dos sacerdotes judeus e foi concluída já depois do exílio na Babilónia. Do pós-exílio são, por exemplo, o relato mítico da criação em seis dias, com que abre a Bíblia, e um dos dois relatos do Dilúvio… (Está tudo nesse meu livro)
3 Inspirada? Pode dizer-se que a Bíblia é inspirada por Deus. Mas que Deus?, é a questão. Só pode ser o Deus das vítimas, como eram outrora os escravos hebreus no Egipto, não o Deus dos vitimadores/verdugos, como era outrora o Faraó do Egipto. Inspirada, quer dizer que tem o Sopro ou Espírito de Deus vivo. Não o sopro ou espírito do Império. Ler a Bíblia é sintonizar com este Sopro, não apenas com a letra. Só os fundamentalistas de todos os credos e até ateus é que gostam de se agarrar à letra…
4 Os Evangelhos. São fiáveis, sim. Desde que saibamos escutá-los como deve ser. Como relatos essencialmente teológicos. Que nos revelam/desvendam a Boa Notícia que Deus Vivo é, presente e actuante em Jesus, o de Nazaré, que acabou crucificado pelos senhores do Templo e do Império.
O meu abraço, Mário
E-mail, Ricardo
2006 Agosto 23
Agradeço muito a sua resposta! Já agora sou Ricardo, resido em Cascais e tenho 30 anos. No que eu leio e vejo, falam muito na segunda vinda de Jesus, e na bíblia Jesus disse que só DEUS sabe o dia e a hora. Estou muito confuso, pois sou uma pessoa muito instável, e por isso ando a ser seguido no hospital Júlio de Matos. Muita coisa me mete confusão pois eu gosto deste Mundo. Um dia fui abordado por testemunhas de Jeová, e elas com toda a sua convicção disseram-me que tal dia viria como ladrão! Será que é assim? As catástrofes serão sinais? As guerras? Peço desculpa de ser tão chato!!! Abraço meu para si!
Bom dia, Ricardo
As guerras e as catástrofes são sinais, mas não no sentido que as testemunhas de Jeová dizem. As guerras são sinais da crueldade e da inumanidade de quem as promove, os poderosos do mundo; as catástrofes são sinais da nossa incompetência política na condução dos destinos do Planeta e da nossa falta de cuidado com ele. A Terra é um organismo vivo e carece de cuidados como os animais e as plantas. Quando a tratamos mal, ela adoece e pode ter reacções que se viram contra nós. Ou aprendemos a ser ecológicos, ou auto-destruímo-nos. Em lugar de co-criadores com Deus, tornamo-nos des-criadores. Depois não nos queixemos das consequências…
Saiba que as Testemunhas de Jeová não são boa companhia para ninguém. Nem para elas próprias. O Senhor Jeová que elas invocam e anunciam de porta em porta é um ídolo perverso que elas manipulam para aterrorizar as populações. Manipulam descaradamente a Bíblia para melhor impressionar as populações. A interpretação que fazem dela não tem a inspiração, o sopro do Espírito Santo. Por isso, é uma interpretação que oprime e mata, quando o Espírito de Deus liberta-nos e faz-nos viver.
Deixe-se acompanhar por Jesus, o de Nazaré. E pelo seu Espírito. E viverá em paz. Será uma presença de Paz.
O meu afecto. Mário
E-mail, Ricardo
2006 Agosto 22
Senhor padre Mário, chamo-me Ricardo e leio alguns sites seus. Ando a ser acompanhado por um psicólogo porque tenho medo do fim do mundo ou juízo final. Gostaria e agradecia imenso uma opinião sua. Será verdade que pode vir o fim do mundo?
Olá, Ricardo.
O meu abraço fraterno.
Se tem andado a ler os meus sites, não encontra neles nada que justifique esse seu medo do fim do mundo e do juízo final. O mundo está ainda em fase de expansão. E, se crê em Deus, como deduzo, só pode pensar nEle como Criador de novos mundos, não como destruidor do mundo existente. E como salvador de cada uma das suas filhas, cada um dos seus filhos, também do Ricardo, não como um juiz que condena. Saiba que para Deus, julgar é salvar, não condenar!
Abra-se então à vida com a simplicidade e o encantamento de um menino. Cante e dance. Cultive a alegria. Descubra a beleza que anda estampada em cada rosto humano. E deixe-se contagiar por ela. Veja se consegue tornar ainda mais belo este mundo. Cuide dele como a nossa casa comum. E o medo que experimenta dará lugar à Paz. A Paz que o Ricardo será onde quer que esteja.
Conte com o meu afecto e comunhão.
Mário
E-mail, David
2006 Agosto 08
Lamento por si. Paz à sua alma. Amén.
Bom dia, David
Estou a chegar de férias. O correio electrónico teve que esperar.
Aqui estou. Preferia ser motivo de alegria para si. Pelos vistos, sou apenas motivo de lamento. Se o David tivesse um coração tão ecuménico como o de Deus, certamente, alegrar-se-ia por eu existir. Como Deus se alegra. Como se alegra por o David existir e ser como é.
Dou-lhe a minha paz. E o meu afecto. Mário
E-mail, Thiago
2006 Agosto 08
Boa noite vi o seu site, sou evangélico e admiro pois a tua vontade de ensinar o evangelho ao invés de como dissestes "fica no lenga-lenga" nas rezas invocando coisas pagãs, não entendi direito o titulo de "padre" é uma ironia? Pois vejo que tens andado no caminho certo ao proferir a verdade, tem um irmão comigo que passou 12 anos no seminário e não sabia bíblia segundo ele "mas um terço eu sabia e como sabia era um de manhã e um de noite" A palavra é uma migalha ali acolá da maneira que se recebe dos superiores. Bem espero tua resposta contanto um pouco sobre você. Deus te abençoe!
Bom dia, meu caro Thiago
Estou a chegar de férias. O correio teve que esperar que eu regressasse.
Se abriu o meu site, já sabe o essencial a meu respeito.
Para lá do site
www.padremariodemacieira.com.sapo.pt
tenho ainda outros dois:
e
Nunca abandonei a Igreja em que fui baptizado e ordenado presbítero. Também nunca fui expulso. Foi dentro dela que me nasceu a consciência que hoje tenho. É manifesto que a generalidade dos meus irmãos não me reconhece e gostaria que eu batesse com a porta. Mas nunca tal decisão me passou pela cabeça. Pelo contrário. Sempre me senti chamado a permanecer na Igreja com toda a minha originalidade e toda a minha liberdade. Também para edificação dos meus irmãos. É o amor que me move. Um amor que chega a parecer violento. Mas como só o amor é capaz de ser.
Bem-haja por ter comunicado. Dou-lhe a minha paz. Mário
E-mail, Fernando
2006 Agosto 07
Boa noite Padre Mário. Como já lhe tinha dito, tenho muitas questões a colocar-lhe. Contudo, não vou colocá-las todas duma só vez. Seria de todo impossível.
Tenho lido com muito agrado o Jornal Fraternizar bem como alguns dos seus livros. Embora nem sempre concorde consigo, como será natural, temos muitas ideias em comum.
Como cristão que sou, ou melhor, tento ser no dia a dia, há muito que desejo viver uma igreja como foi vivida na que foi descrita no Livro dos Actos.
Continuo a acreditar que é possível viver esses tempos maravilhosos, duma simplicidade incrível bem como o poder de Deus. Enfim, viver os Evangelhos. Tenho pedido a Deus, tal como Simeão, que não morra sem que possa ter essa experiência.
Tenho um desejo enorme em conhecer e espero fazê-lo em breve, a vossa comunidade.
Por isso mesmo pergunto-lhe com toda a honestidade e espero não magoá-lo, pois já tenho passado por várias experiências que não deram resultado: o que escreve nos seus livros e no seu jornal é o espelho daquilo que vivem? Como são os vossos cultos? Como se reúnem? Fazem-no como está descrito em Actos 2:42 a 47?
Estas são apenas as primeiras questões que lhe coloco. Outras virão. Contudo, deixe-me dizer-lhe que o admiro pela sua coragem e como vê a igreja. Creio que em breve iremos conversar sobre estas e outras questões.
Fico a aguardar a sua resposta. Um forte abraço deste seu irmão em Cristo.
Meu caro Fernando
1. Não pense que a Igreja no princípio foi um paraíso. O Livro dos Actos não é isso que revela. Bem pelo contrário. Aquilo é quase a negação do Evangelho de Jesus. Veja só o que se passa com a Igreja presidida por Tiago, irmão de Jesus. Nunca foi discípulo de Jesus, muito menos apóstolo. Até terá incluído o grupo dos familiares que quiseram ter mão em Jesus, por acharem que ele estava louco, mas logo que viu que Jesus, depois de crucificado, começou a ser considerado o Cristo/Messias, na linha davídica, não deixou os seus créditos por mãos alheias e correu a reclamar os seus direitos de herança do Messias… E conseguiu ser chefe da 1.ª Igreja. Um escândalo de todo o tamanho! Pelo menos, à luz do Evangelho de Jesus.
Não se escandaliza ao ver que esta é uma Igreja que não sai do Templo de Jerusalém e que se reivindica de Moisés e da Lei de Moisés, mais do que de Jesus, o Crucificado? Então Jesus foi morto por ter destruído simbolicamente o Templo e desrespeitado provocadoramente a Lei de Moisés, a favor da libertação dos seres humanos, e a 1.ª Igreja de Jerusalém mete-se no Templo e segue à letra a Lei de Moisés?
Contra este modelo de Igreja ergue-se a Igreja que se reúne em casa da mãe de João Marcos. O próprio Pedro andou perdido uns anos e amarrado ao judaísmo e à Lei de Moisés. Libertou-se muito a custo e graças, sobretudo, à Igreja que reunia em casa da mãe de João Marcos… E Paulo? Foi um teimoso contra o Espírito Santo. As peripécias que ele protagoniza nos Actos até se converter de verdade ao Espírito de Jesus ocupam mais de metade do livro…
Temos de reaprender a ler o livro dos Actos. A leitura que nos levaram a fazer é light… e cor de rosa. Sem Espírito Santo.
2. Por aqui, somos um pequeno núcleo (quase) insignificante. Longe do templo e do altar. Longe da paróquia. Entusiasma-nos o modelo de Igreja que inicialmente reunia em casa da mãe de João Marcos, o evangelista que nos deixou o Evangelho mais antigo. E o mais genuíno dos quatro canónicos. Também o mais escandaloso. Quem, ainda hoje, se atreve a gostar de Jesus, tal como o Evangelho de Marcos no-lo apresenta?
Quando vier por aqui, conversaremos de viva voz. Como discípulos de Jesus. E com ele como Mestre. Em comunhão com o Espírito Santo.
O meu abraço fraterno. Mário
P. S.
Estive de férias. Só agora li o correio electrónico que estava acumulado na minha “caixa”.
E-mail, Elísio
2006 Agosto 05
(A propósito do que se está a passar no Líbano) Mas por onde andará Deus, Pe Mário?
Mas qual Deus, Amigo Elísio? O que se nos revelou em Jesus de Nazaré é um Deus que onde houver vítimas e verdugos sempre é vítima. A mais anónima. A mais ignorada. A mais maldita. A mais ridicularizada. Por isso, até os ateus costumam recusá-lO. Porque todos nós, crentes e ateus, lá no fundo, queremos um Deus que faça milagres e que nos substitua. Não gostamos nada de um Deus que simplesmente nos potencia. Para sermos nós a agir no mundo e na História, não Ele!
Já cheguei das férias na praia. Restam-me ainda uns dias que vou passar em S. Pedro da Cova, Gondomar, na sede da Associação Padre Maximino. Depois, é a Acção militante que me espera.
O meu abraço. Mário
E-mail, Célia
2006 Julho 12
Você já pensou como Deus faria a oração do Pai Nosso?
Talvez fosse mais ou menos assim:
Meu filho que estás na terra;
Preocupado, solitário, desorientado;
Eu sei perfeitamente o teu nome e o pronuncio, santificando-o, porque te amo.
Não estás só.
Te ofereci a bênção de habitar um plano, onde juntos construiremos o meu reino do qual tu mesmo serás o herdeiro.
Agrada-me e faz a minha vontade;
Porque a minha vontade é que tu sejas feliz tanto nas tuas vivências na terra, quanto na construção do céu em teu coração.
Conta sempre comigo, e terás o pão para hoje.
Não te preocupes.
Peço-te tão somente que compartilhes com teus irmãos o caminho.
Sabes que te perdoo de todas as tuas ofensas, inclusive antes que venhas a cometê-las, porque espero que faças o mesmo, com aqueles que te ofendem.
E assim aprendes a evitar cair em tentação.
Agarra-te com força na minha mão, e te livrarei de todo o mal.
Amo-te hoje e sempre!
Assim se faça!
Querida Célia
Pelo menos, o texto está com imaginação. Mas duvido que Deus, o de Jesus, se ficasse por uma oração assim tão fácil! A luta pela chegada do Reino que traz consigo o Pão Partilhado custou a vida a Jesus. E o bom nome. Como sabe, Jesus acabou como um maldito. E historicamente Deus não fez nada por ele! Nada, Célia!
Com Jesus, ficamos a perceber que não há apenas Reino. Há também o anti-Reino. Portanto, não há Reino que venha sem conflito, e do mais violento. Os senhores do anti-Reino não perdoam a quem os enfrenta e desmascara. E também contam com o apoio do seu Deus. É um ídolo, mas historicamente continua a ter mais êxito que o Deus de Jesus!
Medite nisto e talvez sinta necessidade de reescrever o “seu” “Pai Nosso”/Pão Nosso.
O meu beijo, Mário
E-mail, Filomena
2006 Junho 28
Boa Noite, Padre Mário. Estive a ler o seu diário aberto do dia 2006 JUNHO 08, alusivo ao Mundial de Futebol e devo confessar que o achei um tanto ou quanto exagerado. Não sou adepta de futebol. Poucas vezes vejo um jogo de futebol ... apenas alguns da selecção portuguesa. Não sou conhecedora do jogo, das suas regras e da sua realidade... apenas sou uma espectadora distante que por vezes se empolga com alguns jogos.
Bem sei, que ocorrem muitos exageros em torno do Futebol... claques, contratos "chorudos", paixões exageradas e violência. No entanto ... no fundo bem lá no fundo é apenas um desporto como outro qualquer. E como qualquer desporto, e no fundo como qualquer paixão, desperta também coisas boas no Ser Humano: companheirismo, entreajuda e trabalho de equipa. É necessário olhar para o Futebol e perceber os mecanismos que este dispõem para, por vezes, canalizar esta força ... esta coisas boas que parecem estar adormecidas durante o resto do ano
Não vamos dar demasiada importância ao futebol! Não é a esperança do Mundo mas também não tem de ser necessariamente a sua desgraça. Afinal um jogo de futebol é apenas um jogo de futebol. Às vezes durante 90 minutos é a nossa razão de vida, mas quando o apito final ecoa, tudo volta ao normal...tudo se apazigua.
Um abraço e até sempre.
Filomena (testemunho singelo de alguém que não percebe de Futebol)
Querida Filomena
Bem-haja pela mensagem.
O meu texto vale sobretudo pela alternativa que aponta. É sempre e só um ponto de vista. De quem procura manter a lucidez no meio de tanta barulheira e de tanta alienação. Nunca podemos esquecer a máquina que está por trás de todas estas manifestações e de toda esta mobilização de milhões de pessoas em torno de pouco mais do que nada. Porque não nos mobilizam para as grandes questões europeias e do mundo?
Continuemos a reflectir. Conscientes de que os senhores do Dinheiro, que são também os donos dos grandes media não dormem, nem brincam em serviço. Nem dão ponto sem nó.
Um beijo, Mário
E-mail, José
2006 Junho 21
Caro padre Oliveira:
É com muita prazer que soube que tinha um site na internet, porque desde que há uns anos li o seu livro, Fátima Nunca Mais e com o qual concordo inteiramente, sempre senti curiosidade em conhecer um pouco melhor o escritor , o que posso faze-lo através do seu site, como ex-seminarista que sou, é uma lufada de ar fresco alguém que esteve dentro da igreja, ter a coragem de despir o monstro que se foi enraizado ao longo dos séculos, pessoalmente nunca me senti de acordo e depois de ler alguns autores, com a direcção que a igreja tem seguido e lamento dizê-lo que por esse motivo perdi completamente a fé nela, e com o rumo que a nossa sociedade tem tomado também a estou a perder a fé nos homens, como tal sinto-me perdido neste mundo que põe o dinheiro à frente de tudo o resto, valha-me a minha família e amigos.
Peço-lhe desculpa por este desabafo, mas continuarei a ler os seus conselhos e interpretações da Bíblia, dado que sinto falta duma visão diferente da Palavra e também porque neste momento a eucaristia conforme é recitada na igreja não me diz absolutamente nada, a não ser tédio. Cumprimentos
Bom dia, José
Se só agora descobriu a minha página, então tem muito que ler…
Fico feliz, sempre que alguém começa a caminhar comigo e me deixa caminhar consigo.
Não saí da Igreja. Os meus irmãos eclesiásticos maiores é que me colocaram fora de serviço. Antes me querem oficialmente desempregado na pastoral. Mas continuo presbítero da Igreja do Porto, e muito activo. Impedem-me de ser funcionário eclesiástico, o que só abona a meu favor. Oxalá ninguém na Igreja fosse funcionário eclesiástico.
Uma coisa é a Igreja, outra o Sistema eclesiástico. Sou Igreja e estou na Igreja contra o Sistema eclesiástico. Pela Humanidade.
Boa leitura. Se quiser saber mais sobre os meus livros, abra o sítio
O meu abraço, Mário
E-mail, Filomena
2006 Maio 15
Caro padre Mário. Boa Noite.
Li com muita atenção a sua última mensagem no Diário Aberto. E concordo consigo ao diferenciar abertamente Fátima de Maria da Nazaré. Na realidade, nada é semelhante entre elas. Maria de Nazaré é, para mim, um exemplo de Liberdade, Dávida e Generosidade. A senhora de Fátima, não o é! Não percebo em quê, os sacrifícios físicos melhoraram a vida espiritual de uma pessoa. Não condeno as pessoas que o fazem, pois creio que a Igreja encoraja estes actos e as pessoas não estão prontas a dizer Não. A catequese da Igreja Católica não cultiva o saber, a crítica e auto-reflexão. Encoraja a obediência e desencoraja a pergunta e a questão.
Parece que sempre que a Igreja dá um passo em frente hoje, amanhã dá dois atrás. Basta recordarmos a questão dos preservativos ou dos encontros ecuménicos/inter-religiosos que ocorriam em Fátima!!!
Foram estas incoerências que me afastaram da Igreja e de Deus. Mas penso que devagarinho algo está a mudar ...
Continuarei a estar atenta ao seu site. Até sempre
Bom dia, Filomena
A mim, estas incoerências, de que fala, da Igreja não me afastaram dela. Fizeram-me amá-la ainda mais. E ser Igreja de outro jeito dentro dela. Dissentir na Igreja. Sobretudo, fizeram-me aproximar ainda mais de Jesus. E abrir-me por inteiro ao Deus de Jesus cujo Espírito ou Sopro me faz ser homem-para-os-demais.
Alegro-me com as suas observações tão oportunas e justas. E com os passos que diz estar a dar em direcção à Luz. É na Luz que somos.
Um beijo, Mário
E-mail, Welington
2006 Abril 06
Caríssimo Pe. Mário
Veja que linda mensagem.
Com um grande abraço, Welington.
[A mensagem a que se refere o e-mail deste amigo do Brasil vinha em anexo, com música. Tem por título: “Não desista!”. E abre com estas palavras: “Quando nada deu certo e você já tentou todas as alternativas, não se desespere. Deus proverá uma solução. Ele é um Deus fiel e te guardará de todo o mal!”. (Continua depois em várias outras páginas, com pensamentos dentro deste jeito igreijeiro que me dá vómitos). A esta mensagem dei a resposta que se segue.]
Caro Companheiro Welington
Agradeço a sua boa vontade, mas não me revi nesse Deus a que se refere a mensagem. Creio que não tem nada a ver com o Deus que se nos revelou em Jesus. Jesus é o exemplo acabado de que Deus não é assim. Jesus, o de Nazaré, é o Abandonado de Deus! “Meu Deus, meu Deus, porque me abandonaste?” E morre na cruz como o maldito, sem que se oiça uma palavra da parte de Deus, nem se veja um gesto. Tanto assim, que a Igreja, quando se amancebou com o Império de Roma, teve necessidade de inventar um outro Jesus, muito mais light, que dissesse com um Deus como o da mensagem que me enviou. Só que esse Deus a que se refere a mensagem pode ser o Deus da Igreja, mas não é o Deus de Jesus. Por mim, desde que fui tocado pelo Deus de Jesus, tornei-me ateu de todos os outros deuses, também do Deus da mensagem que me enviou.
Reflicta. Porque anda por aí um Deus deísta que abençoa as Igrejas todas, as quais, por sua vez, abençoam os Impérios e as Multinacionais do Dinheiro. Cuidado, porque semelhante Deus não passa de perigoso ídolo que favorece os ricos e anestesia os pobres.
Desculpe esta frontalidade teológica. Mas é assim que sou amigo.
O meu abraço, Mário
E-mail, Filomena
2006 Março 21
Caro Padre Mário: Li com muita atenção o seu diário aberto do dia 18 de Março. Alegra-me saber que ainda existem pessoas que se reúnem para discutir as importantes questões do Mundo, num ambiente de diversidade, liberdade e respeito pelo próximo.
Contudo desta vez discordo um pouco com o Padre Mário... Na minha opinião penso que generaliza muito quando fala de algumas profissões papéis na sociedade:
"Com o que hoje topamos a toda a hora é com doutores, engenheiros, profes, generais, capitães, banqueiros, financeiros, ministros de um qualquer governo, deputados, clérigos, párocos, pastores, frades, freiras, bispos residenciais, cardeais, patriarcas, economistas, secretários-gerais disto e daquilo, presidentes de Câmara, de república ou de um partido, tudo seres mais ou menos educados e mais ou menos religiosos/idólatras, dóceis aos do Poder ou eles mesmos Poder, que singram na vida, fazem carreira, ganham bem, comem e bebem melhor, viajam muito ao estrangeiro, chegam a chefe, seja de banco ou de polícia e têm o resto do mundo a seus pés, muito atentos, reverentes, subservientes e submissos, quase sempre sem espinha dorsal."
A generalização é sempre perigosa! E no seu texto não encontro qualquer expressão que indique que percebe que nem todos serão na realidade "dóceis ao Poder ...que ganham bem e comem e bebem do melhor". Entendo o que quer dizer, mas como com certeza sabe muito melhor que eu (pela sua condição de escritor) que a força das palavras escritas é incomparavelmente maior que a das palavras ditas. Quando escrevemos temos que salvaguardar a todo o custo que a mensagem é compreendida sem enganos ou malícias.
Eu acredito verdadeiramente que nem toda a politica é maliciosa. Muitos se dedicam à Politica de forma verdadeira, sem preconceitos e sem ganhar nada para si. Se não acredita-se em tal como iria votar? Acredito na vontade sincera de mudança sentida por muitos... e é essa esperança que me move verdadeiramente. Acredito fielmente na Democracia e muitas vezes me entristeço ao pensar que muitos jovens não se envolvem na Politica, não exercem o seu direito de voto, tão bravamente e penosamente conseguido pelas gerações anteriores a 25 de Abril. É por isso achei tão estranha a generalização feita no seu texto... reconheci-a na boca de muitos desses jovens. Não é o descrédito que muitas vezes não faz esses jovens votarem. É apenas um sentimento de "não querer saber"... Entende-me?
Sobre os Professores ...concordo que educar é criar "asas" nos alunos, para que estes sozinhos construam, mais tarde, uma nova sociedade que esperamos sempre que seja mais justa e verdadeira que a actual... No entanto não esqueça o esforço sobre-humano que muitos professores realizam por este país fora. Muitas vezes colocados em escolas sem condições físicas, criam verdadeiros centros de partilha e de saber... esquecem os seus problemas pessoais que não são poucos (ausência da família, problemas financeiros, solidão, etc) em prol dos alunos. E quase sempre são os professores mais jovens e inexperientes que sofrem na pele estes "problemas"... mas não desistem.
Tenho a certeza que não quereria generalizar ... "pôr todos no mesmo saco" pois sei que respeita a diversidade de todos. No entanto penso que o seu texto é pouco claro. Peço desde já desculpas, se o erro de interpretação fora de minha parte. Não tenho qualquer intenção em achar que a minha interpretação é correcta e que não é passível de correcções... mas tive a necessidade de escrever-lhe a contar-lhe estas minhas dúvidas.
Peço desde já desculpa pelo e-mail tão longo... Até sempre
Bom dia, Filomena
Quero dizer-lhe que fui o primeiro a dar-me conta desse pormenor. Quando escrevo, também escuto. E quando falo, também escuto. Escuto e por isso escrevo e falo. Dei-me conta que havia o risco da generalização, ou de meter todos no mesmo saco. Mas nem por isso deixei de escrever e de dizer. Felizes aquelas, aqueles de nós que nos deixarmos inquietar e interpelar com as palavras, aparentemente exageradas, que o Sopro/Espírito nos diz. Porque é sinal de saúde moral. Um mundo como o nosso, que produz vítimas humanas e outras em massa, não tem inocentes. Todos somos culpados, em graus diversos, certamente, mas todos culpados. Todos temos bastante de funcionário e de rotina e, nessa medida, menos de humano.
Por mim, distingo Política de Poder. Serei das poucas pessoas hoje a fazê-lo. Política é Amor-em-acto, ou em-acção. A habilidade dos que buscam o Poder é chamar-lhe Política. Há hoje muita luta pelo Poder. E nessa medida não há Política. Todo o Poder é corrupto e corruptor. Só a Política, como Amor-em-acção, é capaz de revelar o que há de melhor em cada uma, cada um de nós. O Poder revela o que há de pior em nós. E muito é. Neste capítulo, há por aí verdadeiros monstros à solta, aos quais os media (e nós com eles?) prestam culto e dão honras de “personalidade”, de paradigma de homens de sucesso!
Veja. Quando colocamos a função que exercemos à frente da nossa condição humana, nem que seja, a função de simples porteiro de prédio, ou de telefonista, já estamos a desumanizar-nos e a distanciar-nos dos demais. Depois, é só uma questão de mais ou menos carreira. Subir é ganhar poder e privilégio e perder humanidade. Jesus, o de Nazaré, que conhece o ser humano como ninguém, aponta outra direcção e é essa a da autêntica Política: DESCER, em lugar de SUBIR. O que quiser ser o primeiro faça-se o último de todos. O que quiser ser o maior faça-se servo de todos. Não vim para ser servido, mas para servir. Todo o que sobe cresce em poder e privilégios e diminui na sua condição de ser humano.
Por isso mantive aquela afirmação, apesar do risco de estar a ser menos justo com alguém. Mas haverá alguém que tenha entrado pelo poder e pelos privilégios que esteja inocente? Quando aceitamos entrar por aí, só nos safamos, se nos comportamos permanentemente como contra-Poder, como contra-Sistema, como contra-Privilégio. Se começamos aproveitar da função, em detrimento dos demais, e a subir cada vez mais, diminuímos na nossa condição de ser humano irmão e solidário. O Sistema começa a poder contar connosco, cada vez mais incondicionalmente.
As minhas palavras, assim tão contundentes, o que pretenderam foi acordar-nos e fazer-nos ver aonde é que já estamos em desumanização. Porque só se salva quem permanece ser humano e quem cresce como ser humano livre, fraterno, solidário. Numa palavra, quem DESCE TODOS OS DIAS ATÉ AO MAIS PEQUENO DOS SEUS IRMÃOS, DAS SUAS IRMÃS. PARA QUE SE LEVANTEM E ANDEM. COMO SERES HUMANOS.
Um beijo. Mário
E-mail, Elisabete
2006 Março 20
Boa tarde. Chamo-me Elisabete e terminei hoje de ler o seu ultimo livro… confesso que a ideia que tinha de si antes de começar a ler os seus livros não corresponde em nada à que tenho hoje. As suas palavras, por vezes chocantes fizeram nascer em mim uma outra forma de ver as coisas; através de um filtro muito mais crítico.
Sou católica praticante desde muito nova (tenho hoje 23 anos) e nunca tinha pensado que a maior parte das vezes estamos a “fazer religião”através de cultos por vezes pagãos e deixamos de lado o verdadeiro sentido de ser seguidor de Jesus, o crucificado.
Fico muito sensibilizada com a sua forma de vida: evangelizar os pobres e fugir dos templos. Mas fico com muitas dúvidas que antes não tinha: eu gosto imenso de ir e participar na eucaristia dominical da freguesia onde vivo , estará tudo mal nesta motivação?
Mas o ponto que mais me inquieta é a sua posição em relação ao aborto. Eu sei que é contra o aborto mas a favor da sua despenalização… enfim, neste aspecto estamos em completo desacordo. Em tudo o resto comungo das suas posições.
Obrigada pelos eus livros e pela sua coragem. Um abraço terno.
Elisabete
Agradeço a sua mensagem. E a sua tolerância para comigo.
Se a celebração dominical que a Elisabete frequenta estiver a contribuir para a tornar mais humana e a estimular a fazer-se próxima dos demais, particularmente dos que nunca lá tiveram lugar nem alguma vez terão, será bom continuar a frequentá-la. Pelos frutos se conhece a árvore, também uma celebração eucarística. Ela é feita em nome de Jesus. Falta saber de que Jesus se trata. Se o Jesus crucificado pelo templo e pelo império, ou se o Jesus do templo e do império. Analise e auto-analise-se e conclua.
É verdade. Sou contra o aborto, como toda a gente de bom senso. Mas sou a favor da aprovação duma lei que faça diminuir o crime dos abortos clandestinos e proporcione à mulher que decidiu abortar condições de humanidade em que ela seja acolhida e acompanhada na sua tremenda decisão. Muitas destas mulheres, se este acompanhamento previsto na lei a aprovar for bem feito, poderão acabar por desistir de abortar. E, se o não conseguir, será sempre um mal menor abortar em condições de humanidade do que abortar na abortadeira ou em clínicas "toleradas" que enriquecem à custa do desespero de tantas mulheres. Para mim, ser a favor da lei é igual a ser incapaz de atirar pedras a quem, por razões que só as próprias mulheres que decidem abortar conhecem, decide abortar. Um beijo Mário
E-mail, Vítor
2006 Março 07
Caro padre Mário: eu gostava de saber o que o catolicismo define como "Falar em línguas", "Profecias", "segunda vinda de Cristo" na época actual!
Será que o que Jesus definiu como "sinais que seguirão os que crêem" desapareceu?
Porque na igreja se prega uma religião tão fácil onde as pessoas acabam por simplesmente habituar a ir á missa e cá fora viver devassamente e contrária ás vontades do Salvador? Será que isso preocupa os padres, bispos e autoridades católicas? Um abraço.
Meu caro Vítor
As questões que me coloca são tão eclesiásticas e, por isso tão sem actualidade para nós, mulheres e homens do terceiro milénio e do século XXI, que é melhor não gastarmos tempo com elas.
Jesus de Nazaré, o Cristo, está sempre a vir. Assim nós vivamos continuamente abertos ao seu Sopro ou Espírito. “Eis que estou à porta e bato. Se alguém ouvir a minha voz e abrir a porta, entrarei na sua casa e cearei com ele e ele comigo!” (Ap 3, 20) Vivamos o Presente com todas as nossas forças e com toda a nossa inteligência e com todo o nosso Amor. E o resto virá por acréscimo.
Profecias? Importa mais Profecia, no singular. E muito mais que sejamos profetas, cada qual no seu meio. Como Jesus foi no seu tempo e país. Por isso, o mataram. Porque os sacerdotes (e os pastores das Igrejas) gostam pouco ou nada dos profetas seus contemporâneos. Só dos antigos, que já morreram há séculos… E mesmo a esses, só lhes interessa erguer-lhes túmulos e mausoléus. São incapazes de os escutar. Os profetas seus contemporâneos são uma fonte constante de desassossego para os seus privilégios e para o seu Poder sagrado e absoluto sobre o conjunto dos fiéis, a Igreja! (Veja por exemplo o nosso papa Bento XVI)
Falar em línguas? Mas que coisa mais bizarra! O nosso contexto cultural já não suporta esse comportamento esotérico. Hoje, a ambição maior é falar inglês, alemão e francês. Veja que até o 1.º ministro Sócrates está preocupado com as crianças portuguesas. Se dependesse dele, elas já nasceriam a falar inglês. E se não falarem português, não vem daí nenhum mal ao mundo. Importante, é que falem inglês… E o Vítor ainda me vem com essa questão arqueológica? Esquece que já S. Paulo, quando então falar em línguas estava na moda, não hesitou em escrever, desassombradamente, que preferia mil vezes dizer uma única palavra com Sabedoria que fosse entendida por todos e edificasse quem entrava pela primeira vez na assembleia, que falar correntemente em línguas? E esqueceu que ele quase proibiu que essa prática se generalizasse nas suas comunidades, pelo menos naquelas em que não estivesse presente um intérprete? Por mim, já vi, nas transmissões televisivas da famigerada Canção Nova, do Brasil, o Pe. Jonas Abib falar em línguas e concluí que aquilo tem tudo de patético e demoníaco, nada de jesuânico. Diga-me lá, Vítor: alguma vez é capaz de imaginar Jesus, o de Nazaré (ele que até disse que quando orássemos, entrássemos no nosso quarto e fechássemos a porta!) a rezar em línguas como o Pe. Abib, para a tv mostrar? O esoterismo anda de novo por aí à solta, mas é para mais e melhor alienar as pessoas que se deixarem ir por ele. Jesus não vai por aí. Ele é a Lucidez feita ser humano. Por isso os da Alienação/Religião o mataram! Não suporta(ra)m a sua Lucidez!
Sinais que acompanham os que vivem a Fé de Jesus? Mas então não tem olhos para ver e ouvidos para ouvir? Ainda quer mais sinais? Veja o que fizeram ao Bispo salvadorenho, ÓSCAR ROMERO. E aos jesuítas da UCA: foram todos massacrados e, depois de mortos, ainda lhes esmagaram os cérebros, movidos pelo ódio teológico que tinham à Lucidez deles. E que dizer do Sinal por antonomásia, Jesus, o Crucificado que Deus ressuscitou e que as Igrejas em vão tentam domesticar e fazê-lo à medida das suas ambições? Mas quem pode alguma vez domesticar o Vento/Sopro/Espírito de Deus Vivo?
Deixo-lhe o meu abraço. E a minha Paz. Mário
E-mail, Teresa
2006 Março 03
Caro e Estimado Padre Mário: Meu nome é Teresa, tenho 36 anos, vivo em união de facto, e desta união tenho 4 filhos. Sou Engenheira técnica agrária, mais conhecido este curso por regente agrícola. Abdiquei da vida profissional, para acompanhar mais de perto os meus filhos e família.
Numa destas noites, ao carregar nos botões do comando da tv, sintonizei o canal 2, e, deparo-me com um documentário «A fé de cada um», fiquei presa à televisão e assisti estupefacta ao referido programa.
Fui educada sob a igreja católica, mas nunca gostei que me imponham ideias e conceitos pré-definidos, como verdadeiros, sem que me dê espaço e tempo para pensar e meditar. Considero-me minimamente inteligente e com uma certa maturidade, para saber pensar e analisar todas as situações. Gosto sempre de ouvir, ver e meditar sobre os dois lados.
Fiquei tão surpreendida que adorei o que vi e ouvi, mas não fixei o seu nome, nem os seus livros editados. Então, hoje resolvi enviar um e-mail à RTP2 e pedir o seu nome e os referidos seus livros. AQUI ESTOU!!...Tinha tanta coisa que adorava falar, reflectir consigo... mas acho que nada é por acaso !? E agora que o encontrei, primeiro, vou ler e re-ler o seu site... e talvez um dia nos possamos encontrar.
Como já referi anteriormente, sou contra, e sempre fui, até mesmo na adolescência, a tudo o que me é imposto. A igreja em si, é uma hipocrisia, feita por pessoas hipócritas... actualmente vivo o meu próprio cristianismo, com todos os que me rodeiam, não vou á missa, mas dedico-me a tudo e a todos "de corpo e alma"...
Conheci há alguns anos atrás, um padre do Hospital Dona Estefânia, agora já lá não está (tinha 4 filhos, pediu ao Vaticano para se converter na Igreja Católica), que também me mostrou o lado verdadeiro da vida, sem me falar em santos, anjos, pecado, castigo, dor, sofrimento,..., mas sim da realidade das coisas, da Vida, do Amor, da Amizade, do Sofrimento...mas tudo falado, como dois seres humanos,"normais", humildes, sinceros... chorávamos os dois, ríamos, por coisas tão importantes e banais.
FICO MUITO FELIZ, por o ter descoberto, ter uma outra visão das coisas, e conseguir transmitir de um modo tão especial... OBRIGADA PELO SEU TESTEMUNHO.
P.S. Já coloquei o seu site nos meus favoritos.
Bom dia, Teresa
Mas que lufada de ar fresco a sua mensagem! Em poucas palavras, diz tudo. Verdadeiramente, o Sopro ou Espírito de Deus vivo que, um dia, pudemos ver em Acção libertadora e solidária em Jesus, o de Nazaré, anda por aí activo, longe dos templos e dos altares. Sim, porque Ele também não vai às missas que a Igreja insiste em repetir até à náusea e em vender com preços sempre actualizados, ano após ano. Do que o Espírito de Deus Vivo gosta é de pessoas como a Teresa que ousam crescer em dignidade e em liberdade e não têm medo de assumir a sua vida nas próprias mãos. Em comunhão com as demais pessoas.