CORREIO 2005


E-mail, Lenira

2005 DEZEMBRO 30

Querido Mário, li seu "diário-aberto" e me coloco na categoria das católicas e católicos que já desanimaram, não creio ser possível nem ao menos destruir essa instituição, continuará mantida pelos "públicos-cativos"como Opus, Comunhão e Libertação, Focolares e Cia. Quando na época de S.ta Teresa D´Ávila, o terrível Fernando Valdez "proibia" a oração contemplativa, ela escrevia em seu "Caminho da Perfeição", um comentário sobre o Pai-Nosso e dizia "essa oração nunca nos poderão tirar" (como se fosse possível controlar até a oração das pessoas). Pois bem, ele não poderá impedir que meu grupinho se reúna e partilhe a palavra e a eucaristia, não nos impedirá de lermos L Boff, Ivone Gebara, G.Gutierrez. Havermos de ser o que D. Hélder chamava de "minorias abraâmicas", embora eu hoje, diferente dele (Hélder), não tenho esperança na conjuntura desfavorável. Beijos.

Querida Lenira

Mas olhe que não basta limitar-se ao seu grupinho. Nem ficar a ler as teólogas, os teólogos da libertação. É bom, mas não chega. Temos que enfrentar o Sistema eclesiástico, tal como Jesus enfrentou a Sinagoga e o Templo de Jerusalém. A paz de Jesus é vivida em permanente conflito com os dos privilégios. Não esqueça que Jesus, a partir de determinada altura, decidiu deixar a Galileia para ir a Jerusalém. E foi. Foi enfrentar os da Mentira e desmascará-los perante o povo. Esta postura faz parte do viver das discípulas, dos discípulos de Jesus. Pode custar-nos a vida, mas o amor é assim. Não se instala. É duélico e martirial. Beijinhos, Mário


E-mail, Sueli

2005 DEZEMBRO 30

Padre Mário, Que A Paz de Cristo Esteja Sempre Entre Nós!

 Eu Participo do Projecto Evangelizar é Preciso... Com o Padre Reginaldo Manzotti. Mas Também Participo de Uma Filosofia Esotérica. Gostaria de Ter Tua Opinião a Respeito. Se Posso Participar da Igreja Católica e ao Mesmo Tempo da Filosofia Esotérica? Obrigada!

  

Bom dia, Sueli

Mas que lhe hei-de dizer, senão que siga a sua consciência? Quem está na situação é a Sueli. É a Sueli quem tem os dados todos para poder decidir. Se a Filosofia esotérica está a contribuir para a fazer mais humana, mais militante na História, mais dom para os demais, porque haveria de se afastar? Se, pelo contrário, a desvia deste caminho que é, como sabe, o caminho de Jesus – EVANGELIZAR OS POBRES passa por aqui – então para que há-de perder tempo e energias com alienações? O que faria Jesus, se estivesse no seu lugar? Ele sempre esteve com todas as pessoas, mas de modo distinto. Também não basta estar num programa EVANGELIZAR. Com Jesus, Evangelizar é sempre EVANGELIZAR OS POBRES. Para que eles deixem de viver instalados na pobreza e no subsídio e se façam sujeitos, protagonistas da sua própria libertação.

Um beijo, Mário


E-mail, Luís

2005 DEZEMBRO 24

Caro Sr. Padre. Venho, por este meio, e após ter tê-lo visualizado num programa de televisão, manifestar o meu agrado pelo seu acto de coragem, não só contra tudo aquilo que a igreja católica procurou implementar na mentalidade dos povos ao longo de todos estes anos, como pelo seu esforço continuo em querer mostrar que o fanatismo religioso não leva a lado nenhum senão à nossa própria desgraça e perda de auto-estima.

Não sou católico nem crente de qualquer outra religião, mas dou grande valor a quem procura desmistificar tudo o que as várias religiões tem feito para obter crédito mesmo que para isso manipulem as mentes mais fracas em prol do dinheiro que estes lhes podem oferecer, dinheiro esse que sendo escasso mesmo para a normal sobrevivência dessas pessoas, nunca é recusado pelas instituições religiosas que acabam por fazer investimentos que em nada beneficiam quem, a muito custo ofertou o pouco que tem.

Com grande admiração desejo-lhe toda a sorte do mundo na sua caminhada que de fácil não tem nada, promova o amor entre as pessoas e a compreensão entre os povos neste mundo triste e obscuro em que é o próprio Homem que se vai matando lentamente, suicídio esse com embustes aos mais fracos e menos inteligentes. Com os melhores cumprimentos

 

Caro Luís

Bom dia! As suas palavras são um bálsamo, no meio da aridez e do ostracismo a que me vejo votado por grande parte dos membros das Igrejas, a começar por aquela que um dia me baptizou e ordenou presbítero/padre. O Evangelho da libertação para a liberdade que anuncio tornou-se-lhes insuportável, mas como não podem atacá-lo, atacam o mensageiro. Foi sempre assim, ao longo da História. Jesus de Nazaré é o exemplo acabado deste tipo de comportamento. “Veio para os que eram seus e os seus não o receberam”, escreve o Evangelho de João, logo no Prólogo. Felizmente, há sempre alguém que se deixa surpreender e reage com uma palavra de estímulo. É o seu caso. O programa televisivo, que pode ter escandalizado muitos, “disse-lhe” o bastante para o Luís sair ao meu encontro. Fico feliz. Só por si, já valeu a pena ter estado à conversa na televisão. Bem haja. Continue a deixar-se surpreender, ao longo da vida, porque a Verdade é que nos faz livres e humanos, não as religiões, nem as Igrejas. Estas, quando não contribuem para nos fazer livres e humanos, temos que deitá-las fora como o sal que perdeu a força e já não serve para salgar.

Fique com o meu abraço. E, já agora, aceite a mensagem de natal 2005 que enviei por e-mail às pessoas que por uma razão ou outra, me têm contactado electronicamente. Eis:

Dou-vos a minha Paz. Em alternativa à Paz do Império. E à Paz das multinacionais. E à Paz do Consumismo compulsivo. Trago-vos um Natal de Paz. Por isso, em permanente Insurreição.

E um feliz Ano Novo 2006? Também, mas que terá que ser vivido dia e noite na trincheira, porque o lobo disfarçado de cordeiro já nos ronda a porta. O confronto será inevitável. Permaneçamos na linha da frente. Com a arma da Lucidez e da Ternura. E a Couraça da Entrega da nossa própria vida. Será um confronto duélico, onde se pode perder o emprego. Ou mesmo a vida. Mesmo assim, avancemos com a determinação de quem vê o Invisível. Bem ao jeito de Jesus de Nazaré, que foi até explodir em Ressurreição.

Dou-vos a minha Paz. Juntamente com o meu abraço e o meu beijo. Vosso

Mário, presbítero da Igreja do Porto


E-mail, Paulo

2005 DEZEMBRO 13

Caro Padre Mário, sou seu leitor assíduo. Devo reconhecer que quando o conheci na televisão fiquei um pouco chocado com as suas palavras, nomeadamente sobre o tema Fátima. Sou católico o meu bisavô esteve presente aquando o "milagre do sol" tenho até alguns relatos que um dos filhos dele mais velhos (o meu tio-avô) escreveu e obviamente eu como bisneto sou levado a acreditar em Fátima e que pelo menos algo lá aconteceu a não ser que fosse alucinação colectiva... Apesar de tudo não me custa acreditar no aproveitamento político e religioso de tal facto... Mas com o tempo tenho lido os seus comentários no blog (apesar de nunca ter lido os seus livros) e tenho sentido que as inquietações que sinto perante uma Igreja moribunda encontram explicações nas suas declarações, esta Fé que move tantos Católicos é estupidificada com o poder do Clero... Ainda bem que existem vozes como a sua que gritam no deserto! No seu post de hoje diz que "as Igrejas (Templo) estão cada vez mais vazias e ainda bem" a minha interpelação é a seguinte. O Senhor acha que é positivo as pessoas afastarem-se da Igreja, mas a minha inquietação é esta: será que elas se afastam por não concordarem com este ou aquele sacerdote ou Lei da Igreja, ou por não sentirem o chamamento de Jesus? Parece-me que nos dias de hoje reina o comodismo e muitos abandonam os templos por preguiça apenas, porque é mais fácil preocuparem-se com as prendas da Família do que dar um pedaço de pão ao pobre... A Igreja por muito mal que tenha feito e faz, vai ainda relembrando que Jesus existe e devemos fazer dele o nosso Ídolo, se não fosse essa Igreja quase ninguém O conheceria, por isso não sei o que pensar desse templos vazios... Não me considero fanático, bem que também não quero ter uma Religião á minha maneira... Por vezes até costumo sentir-me mais Protestante do que Católico, mas tento á minha volta transmitir a mensagem de Jesus e vejo que hoje nomeadamente em ambientes urbanos reina mais é a indiferença, e acho isso triste e perigoso.

Obrigado pela sua atenção.

 

Bom dia, Paulo

A sua questão é pertinente. Mas ainda demasiado eclesiástica. Não é por causa deste ou daquele padre ou bispo que as pessoas se afastam da Igreja. É por causa desta Igreja enquanto tal. O que hoje se suporta cada vez menos é este modelo de Igreja, anti-Vaticano II e anti-Evangelho de Jesus. Este modelo de Igreja não nos leva a Jesus. Pode levar-nos até à letra da Bíblia em geral e do Novo Testamento em particular, mas não a Jesus, o Vivente. Este modelo de Igreja é empresarial. Tudo pode funcionar e funciona segundo regras empresariais, não segundo o Sopro ou o Espírito de Jesus Ressuscitado. É uma Igreja-Poder, tipo monarquia absoluta. O Poder está no topo da pirâmide, no Papa em Roma e no Bispo em cada diocese, tal como no Império Romano, outrora. Esta Igreja continua o Império Romano, não a primitiva comunidade das discípulas, dos discípulos de Jesus. Num modelo de Igreja assim, o Espírito Santo só atrapalha. É por isso que dentro desta Igreja não há lugar para a profecia nem para os profetas. Só para funcionários eclesiásticos. Também por isso é que escrevo "felizmente", quando constato que é cada vez menor o número de pessoas que frequentam uma Igreja assim. Vale mais não ter solução nenhuma, do que ter uma solução errada/envenenada, na convicção de que se tem a solução acertada.

Mas as pessoas que se afastam da Igreja fazem-no em resposta a um apelo para seguirem Jesus? O que lhe posso dizer é que, enquanto as coisas permanecerem assim, é melhor afastar-se do que permanecer. Ao afastarem-se as pessoas podem, um primeiro momento, ficar a saborear a liberdade de não estarem mais sob o jugo dos clérigos e dos seus moralismos. Mas o Espírito Santo continuará a trabalhá-las na sua consciência, até que elas comecem a abrir-se aos demais e a crescer em humanidade. Não desespere. Creia que enquanto as pessoas se identificarem com este modelo de Igreja e o defenderem, será muito mais difícil que venham a tornar-se pessoas para os demais. Porque não há pior egoísta que o católico que vai à missa e a Fátima, baptiza os filhos na paróquia e dá-se bem com o pároco, e só porque cumpre tudo isso, já se sente desobrigado de praticar a justiça social, de partilhar os bens com as grandes causas da Humanidade, de ser libertadoramente solidário, de se comprometer com a Política e com a criação duma Ordem Económica Mundial ao jeito de Jesus, na qual ninguém, pessoa ou povo, fique excluído da mesa comum.

Dê tempo ao tempo. Mas não tenha saudades dos tempos em que os templos estavam cheios de súbditos dos clérigos. Jesus nunca quis uma Igreja como esta que temos. Com o que Jesus se preocupou foi com que o Reino de Deus se desenvolvesse na História. E quando chamou discípulas, discípulos não foi para com elas, com eles fundar uma Igreja, mas para que nos metêssemos como ele e com ele a cooperar com o Espírito de Deus Vivo no desenvolvimento do Reino de Deus na História. Como o fermento na massa. Como o sal da terra. Como a luz do mundo. Aquelas, aqueles que assim formos e vivermos na História é que seremos da Comunidade de Jesus. Pelos frutos se conhece a árvore, no caso, a Comunidade de Jesus. O meu abraço, Mário


E-mail, Elísio

2005 DEZEMBRO 11

Boa tarde, e muita saúde. "Mas o chamado milagre da freira que teve cancro e agora já não tem arrasta consigo outra perversão. Está a insinuar que Deus de quem gosta é das freiras, não das mulheres casadas, e a quem atende é às freiras, não às outras mulheres, todas mais ou menos pecadoras, por isso, indignas." A esta eu não chegava facilmente, não senhor. Por isso lhe agradeço. Pena que não sejamos muitos a ter acesso às suas justas (para mim, claro) reflexões. Como já um dia contei, muito novo fiquei vacinado, por obra de meu falecido pai, contra a escória. Por força dos livros, então na clandestinidade, de Tomás da Fonseca - Sermões na Montanha, Cova dos Leões, a história de fátima, com nomes e tudo, o Diabo no Espaço e no Tempo, Águas Novas. Claro que permanecem na escuridão.

A Igreja Católica está ao ataque. Cá, através de próceres como João César das Neves, Bagão Félix, e outros. E ameaçadora. Cuidemo-nos. Os tempos que estão em gestação podem ser dolorosos. A Santa Inquisição vive e, com ela e como ela, o fascismo.

E agora? Ainda os consegue ouvir? Estão todos de acordo? Parece-me que o melhor de todos ainda é o Jerónimo. Porque será tão difícil perceber o analfabetismo de Cavaco? E a malvadez que o esgar de esforço não encobre? Será que o poeta perdeu a cabeça? Diz parvoeiras que a gente não entende de tão claras. Porquê? E a explicação de Louçã, justificativa da sua candidatura, convence alguém? Convencê-lo-á? Soares... Ainda não me passou pela goela...

Isto é que está aqui uma sina!... E do outro lado do oceano a Venezuela a fervilhar. E outros povos latino-americanos a ameaçarem tomar o destino nas suas próprias mãos. Um abraço.

 

O problema, Elísio, é que vivemos numa democracia tutelada pelos grandes media. Veja como eles se puseram de acordo entre si para nos impingirem estes 5 candidatos como um facto consumado. Aos outros potenciais candidatos ignoram-nos por completo. É como se não existissem. Bem sei que estamos ainda na fase de pré-campanha e a Lei não obriga a outro tipo de comportamento. Mas invocar este argumento para prosseguir com esta prática discriminatória é uma perversão. Porque as candidaturas nunca mais serão tratadas em pé de igualdade.

O Jerónimo está a fazer um bom trabalho? Sem dúvida. Mas já imaginou o secretário geral do PCP como PR? Acha que o país, com o que ainda tem nos seus genes de anticomunismo primário, alguma vez decidiria ir por aí? O Jerónimo é o bom da fita, mas só para mais depressa vir a ser imolado/sacrificado pelo Regime. É o que se poderá chamar um “crime de mãos limpas”. A malta da pesada assiste ao espectáculo nas televisões, delicia-se com o que vê e ouve, conclui que o camarada secretário geral está a revelar-se uma agradável surpresa e, entretanto, continua toda politicamente desmobilizada. Mas a verdade – verdade dramática, diga-se – é que a “boa prestação” do Jerónimo não representa a mais leve ameaça aos grandes interesses instalados. Se representasse, jamais seria tolerada.

Por mim, ainda não percebi porque é que o PCP avança sempre com uma candidatura, nestas ocasiões. Os seus dirigentes ainda não perceberam que agir politicamente como um partido com aspirações a ser Poder é dar sucessivos tiros no pé? Tenho saudades dos combates políticos do PCP nos tempos da clandestinidade, quando a luta dos camaradas era orientada para derrubar o Regime. O regime agora é mil vezes pior do que aquele, e o PCP em lugar de lutar para o derrubar, luta para ter dentro dele um lugar ao sol. Tanta energia que se gasta para uns estéreis minutos de fama do seu secretário geral.

Não lhe parece, Elísio, que os grandes media estão a tratar o Jerónimo e o Louçã e até o Alegre, como os “bobos” da corte, perdão, do Regime? Nunca esqueça esta regra de oiro em política: Os grandes interesses, ou os combatemos como num duelo, ou acabaremos depressa engolidos por eles. PCPs e BEs, também. Engolem-nos e convertem-nos em “bobos” do Regime. O mal dos das Esquerdas é sonharem que, se um dia forem poder, serão um poder bom. Como se o poder alguma vez pudesse ser bom. O poder é por natureza perverso, mentiroso e gerador de Mentira, e assassino sem escrúpulos. Ou ele não fosse a arma dos poderosos, dos grandes interesses instalados

Quando é que acordamos, perdemos a ingenuidade e mudamos radicalmente de postura política?

O meu abraço fraterno, Mário


E-mail, Rodrigo

2005 DEZEMBRO 02

Caro Padre Mário,

Mais uma vez tomo a liberdade de lhe escrever. Desta feita, faço-o com o objectivo de lhe colocar uma dúvida que vem assolando a minha mente. Em muitas das suas crónicas, tem referido que os evangelhos que constituem a Bíblia, ao contrário da interpretação feita pela Igreja Católica, não se tratam de relatos jornalísticos, mas sim relatos que têm de ser interpretados numa óptica literária e teológica. Dessa forma, o Padre Mário tem tentado desmistificar toda a carga terrorista com que as catequeses católicas enchem as crianças que as frequentam. Ao mesmo tempo demonstra de forma inequívoca que todos os episódios relatados na Bíblia na forma em que o são, foram resultado da cultura da época e desse modo procuravam os seus escritores cativar os leitores para a verdadeira essência da mensagem bíblica.

No seu Livro “Nem Adão e Eva, nem Pecado Original” o Padre Mário de forma muito bem fundamentada revela muito claramente que o Paraíso, Adão e Eva, nunca existiram enquanto local e personagens históricas. São sim criações literárias que visavam adaptar-se à cultura literária da época. A Igreja é que procurando perpetuar o seu poder e privilégios tem interpretado a mensagem bíblica através de uma forma que em última instância mantém os crentes dominados pelo medo e temor a Deus.

Posto isto, atrevo-me a colocar-lhe a seguinte dúvida: não será Jesus, a par de Adão e Eva, uma criação literária? Não será Jesus, a forma mais sublime que os autores dos Evangelhos encontraram para fazer passar a imagem de Ser Humano que pretendiam fomentar no seio da Humanidade? Não será Jesus e todas as descrições a Ele associadas brilhantes artifícios literários criados com o objectivo de levar todas as pessoas por simpatia com as suas acções e palavras, a procederem de igual modo? Não terão pensado os autores dos Evangelhos, que sem a “existência” de Jesus, a sua mensagem seria muito mais dificilmente compreendida e aceite? Não terá sido Jesus o “exemplo paradigmático” do tipo de Ser Humano que se pretendia incentivar e fomentar? Reconheço que esta minha dúvida poderá de certa forma ser considerada como uma provocação a si, que tanto tem defendido e pregado a Verdadeira Mensagem de Jesus. Poderá também pensar-se que procuro desta forma abalar a sua profunda crença em Jesus. Poderá também ser interpretada como uma questão de um ateu. Não se trata de nenhuma destas situações. Revejo-me bastante em todos os seus escritos e nos esclarecimentos que nos presta sobre a mensagem jesuânica. Acredito profundamente na Razão e Verdade do seu conteúdo. E essa Mensagem, não deixa de ter Valor, independentemente de Jesus ter ou não existido. No entanto, não posso deixar de me interrogar se Jesus não tivesse existido, mesmo que literariamente, que outra forma seria encontrada para conseguir cativar a Humanidade para a mensagem que se procura transmitir com a Bíblia?

Agradeço a atenção que queira e possa dispensar a esta minha dúvida. E permita que lhe diga: o que eu valorizo é o conteúdo da Mensagem jesuânica. Independentemente de Jesus ter existido ou não, Ela será sempre Válida! Cumprimentos do Rodrigo

     

Caro Rodrigo

Felizmente, Jesus, o de Nazaré, não é uma criação literária. A sua existência histórica está hoje mais fundamentada documentalmente que a do nosso primeiro rei de Portugal! E do que alguns imperadores de Roma! A questão fundamental é outra. É saber o que é que do Jesus que hoje conhecemos e que as Igrejas anunciam e celebram, ainda é desse homem invulgar que nasceu entre 4 a 7 anos antes da nossa era, provavelmente em Nazaré, e que foi morto no ano 30, às ordens do Império romano, de parceria com o Sinédrio de Jerusalém. Nestes dois milénios de Cristianismo (mais cristianismo do que jesuanismo, diga-se), houve e continua a haver muita construção literária (“O Evangelho segundo Jesus Cristo”, de José Saramago, é prova disso) e, sobretudo, muita criação teológica e cristológica. É neste ponto que havemos de fazer incidir a nossa atenção, porque o da existência histórica de Jesus está hoje completamente fora de questão.

Felizmente, muitos dos estudos e das investigações das últimas décadas do século XX e dos primeiros cinco anos deste nosso século XXI têm-nos ajudado a discernir com bastante precisão o que é do Jesus histórico e o que é do Jesus da Cristologia e da Teologia, ou do Jesus da Literatura, ou das Artes plásticas, ou da Lenda, ou do Exoterismo. Posso-lhe dizer que, apesar de estarmos hoje a 20 séculos de distância da morte crucificada de Jesus, a verdade é que conhecemos mais profundamente o Jesus histórico do que, por exemplo, os membros das Comunidades cristãs de Roma, no tempo do imperador Constantino.

Mas também tenho que lhe dizer que as nossas Igrejas, com destaque para a Igreja católica que também eu sou, continuam a preferir o Jesus das lendas e dos mitos, dos evangelhos apócrifos e da imaginação criadora dos pintores e escultores, nomeadamente, da Renascença, do que o Jesus da História. Porque o Jesus da História é o Jesus da “porta estreita” e não se presta nada ao fausto das liturgias em que as hierarquias eclesiásticas, a começar pelo papa de Roma, se sentem bem demais, muito menos se presta ao poder monárquico absoluto que elas, a começar pelo papa de Roma, exercem e de que desavergonhadamente se reclamam na Igreja.

No meu livro O OUTRO EVANGELHO SEGUNDO JESUS CRISTO, estas reflexões aparecem mais desenvolvidas no texto de abertura. Não sei se já o leu, provavelmente, não, porque se o tivesse lido já não me teria colocado a questão que aqui me coloca. Espero que venha a lê-lo e relê-lo. O livro é basicamente o Evangelho de Jesus segundo S. Marcos, mas numa nova tradução da minha responsabilidade, feita a partir dos dados que a ciência histórica hoje nos oferece sobre Jesus. O texto apresenta ainda informações preciosas e bem fundamentadas cientificamente, intercaladas e destacadas no original, que nos colocam quase em directo perante o ser humano de carne e osso que foi, é Jesus de Nazaré. E veja, meu caro Rodrigo, o primitivo Evangelho de Marcos deverá ter aparecido uns 12-14 anos apenas depois da morte crucificada de Jesus!

Alegro-me com a sua fome de autenticidade e com a sua abertura ao Jesus da Fé, sem desprezar o Jesus da História. Não houvesse o Jesus da História, de carne, osso e sangue, e o Jesus da Fé seria uma mentira. E permaneceríamos na mais completa ignorância sobre Deus Vivo e sobre o ser humano. É por Jesus ser homem de carne, osso e sangue, que o seu testemunho sobre Deus Vivo e sobre o ser humano é absolutamente inultrapassável. De tal modo que podemos dizer que o que sabemos do Mistério que é Deus Vivo e do mistério que é o ser humano, é apenas por Jesus de Nazaré que o sabemos.

Finalmente, quero agradecer-lhe a sábia interpretação que faz dos meus livros e todas as referências que tece a respeito deles e de mim. Bem-haja! Deixo-lhe o meu afecto, num abraço, Mário


E-mail, Maria

2005 NOVEMBRO 25

Bom dia Padre Mário. Bem haja pelas suas palavras sobre a posição ditatorial do papa sobre os homossexuais. É inadmissível como estes senhores não estão atentos à voz do Espírito. Se estivessem, certamente que não teriam estas posições tão ridículas e tão distantes da Mensagem de Amor de Jesus de Nazaré.

Também, através do seu diário aberto, tomei conhecimento do protocolo efectuado com a Universidade do Algarve. É triste que a Mensagem de Jesus tenha perdido todo o seu sentido para a vida. Nem uma interpretação hermenêutica fazem dos escritos, que narram a vida de Jesus de Nazaré, a sua disponibilidade, a sua vida simples, a sua ligação aos mais desprotegidos e excluídos da sociedade. Numa palavra a Sua Humanidade.

A vida em pleno não se constrói com intercâmbios entre entidades ligadas ao poder, mas sim com vivências verdadeiramente humanas e humanizantes. O que estão a tentar fazer é tornar a Igreja e a Universidade numa forma de Poder instituído, que vive de aparências e não de verdade. Quando dizem que a Igreja Católica em Portugal é a que maioritariamente é professada pelos portugueses, concordo plenamente com eles, mas o que não dizem é que esta Igreja não é a Igreja de Jesus de Nazaré. Onde estão as comunidades de base, a partilha, a luta contra as desigualdades, o pôr tudo em comum. Onde está a Igreja pobre e fraterna tão ao jeito de Jesus de Nazaré. Onde estão os valores morais e éticos.

Cada vez mais caminhámos no sentido oposto, pois a Igreja não esclarece e não se quer transformar em vida. Não quer fazer caminho ao andar. O que em conjunto estes duas Instituições deveriam fazer era dar aos nossos jovens uma formação integral, em questões fundamentais para o futuro, ou seja, incentivo à pesquisa e crescimento cientifico com forte aposta numa Educação e Cultura sólidas e verdadeiras.

Embora muitos jovens não se deixem alienar pelos protocolos agora estabelecidos, outros haverá que os seguirão. Estamos numa época em que é necessário agir, mas agir com convicção e com força, lutando por vezes contra tudo e contra todos. Enfim escutar, mas escutar, bem dentro do nosso âmago a voz do Espírito. Um abraço

 

Querida Amiga 

A sua reflexão é bem pertinente. Diz tudo em poucas palavras. Infelizmente, a nossa Igreja é mais uma empresa do que Igreja na peugada das primeiras Comunidades jesuânicas de Jerusalém, nomeadamente da Comunidade que reunia em casa de Maria, a mãe de João Marcos, onde os bens eram postos em comum. Contudo, não podemos nem devemos estar à espera que a grande Igreja se converta ao Evangelho. Provavelmente, ela será a última instituição a fazê-lo. Ousemos, cada uma, cada um de nós ser Igreja do jeito de Jesus. Com simplicidade e alegria. Sem deixar de denunciar, ao mesmo tempo, os graves desvios da grande Igreja, para que as pessoas não tomem por Igreja o que é apenas herança do Império Romano.

Os dias que correm não andam favoráveis à Verdade. O Poder, também o do Império, volta a estar na ordem do dia. É arrasador. Esmaga a Humanidade sem piedade. Mas as cúpulas das Igrejas nem se dão conta. Vivem lá tão em cima, que não vêem as multidões empobrecidas esmagadas nem ouvem os seus gritos, menos ainda os seus silêncios. Enquanto tiverem clientes que frequentem os seus templos, as suas catedrais e os seus santuários e digam Ámen no decorrer dos seus cultos vazios de profecia, elas continuarão a tomar a nuvem por Juno, a árvore pela floresta. São cegos que conduzem as populações para o abismo.

Tamanha insensibilidade, como a que revelam hoje a Cúria de Roma e as conferências episcopais da Europa e do resto do mundo (ninguém vê os bispos residenciais a indignar-se e a sublevar-se contra as inumanas orientações que vêm de Roma) constitui o mais sacrílego anti-sacramento de Deus Vivo, esse mesmo que se nos revelou em definitivo em Jesus de Nazaré. Com bispos assim transformados em “cães mudos” (a expressão é de um profeta bíblico, acerca dos “pastores” do seu tempo), a Igreja só pode ser comparada a uma multinacional, cujos gestores nos remetem para César de Roma, em lugar de nos remeterem para Jesus, o amigo de notórios descrentes e de prostitutas. Um beijo, Mário


E-mail, Artur

2005 NOVEMBRO 18

Caro Amigo e Senhor (deixe-me tratar-lhe assim), pela grande consideração que me merece...

Antes de mais, o Senhor não me conhece, mas isso não interessa, porque vou apresentar-me, o meu nome é A. Neto, tenho 52 anos, sou casado, tenho um filho, vivo na Ilha de São Miguel - Açores e, neste momento, estou desempregado, mas isso também não importa, porque Deus há-de ajudar-me, mas não é por causa disso que estou a escrever-lhe. A razão do meu contacto é para lhe dizer que o admiro desde há muito tempo, por tudo aquilo que pensa e tem a coragem de dizer e escrever, partilho consigo a 100% tudo o que tenho lido e ouvido de si, neste momento estou a ler o livro "Que fazer com esta Igreja?" e estou cada vez mais de acordo consigo e também cada vez mais esclarecido quanto ao estado actual das "coisas" da Igreja Católica Portuguesa e Universal. Fui educado e participei em tudo o que a Igreja Católica "ensina" mas, desde muito novo comecei a pensar pela minha cabeça e a discordar da maior parte das práticas ensinadas por essa Igreja, especialmente pela divergência que encontrava em tudo. Em relação aos ensinamentos de Jesus Cristo, esse sim que eu sempre admirei, continuo a Admirar e a achar também que a Igreja Católica, o seu Papa, Cardeais e Bispos, cada vez mais se vão distanciando do Jesus Cristo de Nazaré. Também quanto à questão de Fátima, não posso estar mais de acordo consigo, acho mesmo que o que se passa naquele "santuário" é mesmo um verdadeiro escândalo.

Peço desculpa por não ter muito "jeito" para escrever, mas estes são os meus sentimentos em relação a tudo isto. Neste momento não tenho possibilidades de me deslocar ao Continente  Português, mas se tivesse, teria muito gosto em conhecê-lo pessoalmente e trocar algumas impressões consigo, porque certamente teria muito mais a aprender consigo... De qualquer maneira, se algum dia visitar os Açores (que eu espero sinceramente), teria muito gosto em contactar consigo e convidá-lo a visitar a minha casa, por isso deixo o meu contacto telefónico para esse efeito.

Receba um forte abraço sincero e verdadeiro do fundo do meu coração, e uma vez mais digo que tem todo o meu apoio e admiração profunda...

 

Caro Artur

Agradeço a sua mensagem. Vê-se que ela lhe brotou do coração. E isso empresta-lhe um valor ainda maior. Deixou-me em redobrada alegria e em Eucaristia. É sinal de que não estou sozinho. Muitas outras pessoas sentem-se identificadas com o que lêem nos meus livros. Esse meu livro de que fala no seu e-mail, QUE FAZER COM ESTA IGREJA, é um daqueles livros que muitas pessoas acham demasiado radical. Por mim, continuo a pensar que o que está mal não é o livro, mas a situação concreta de pecado em que se encontra caída a nossa Igreja católica. O pior é que ela parece tornar-se cada vez mais autista. Já nem os seus próprios membros ela escuta e toma em consideração. As minhas críticas/denúncias/chamadas de atenção são outras tantas manifestações do meu amor à Igreja. Infelizmente, não é assim que sou interpretado. Para mal de todas, todos nós, antes de mais da nossa Igreja. Ou não fosse verdade que o pior cego é o que não quer. E que o pior surdo é o que não quer ouvir.

Bem-haja pelo seu estímulo. Prosseguirei neste bom combate contra o que há de sinagoga e de templo de Jerusalém na nossa Igreja. E contra o que há de idolatria. Para que a Igreja seja progressivamente o que deve ser – Sacramento de Jesus, o Senhor – tal como Jesus é o Sacramento de Deus Vivo. Saiba entretanto que este é um combate difícil, mas oportuno. Não fossem Jesus, o de Nazaré, e as primitivas comunidades cristãs jesuânicas, e ainda hoje estaríamos sob o domínio da Sinagoga e do Templo de Jerusalém. Mas quem tem privilégios sobre os demais, dificilmente aceita as críticas/denúncias/chamadas de atenção, muito menos, quando estas são feitas por irmãs, irmãos de Fé. Aos de fora, podem sempre acusá-los de “inimigos”. E aos de dentro, acusam-nos de “loucos” ou de “traidores”. Nada que a Sinagoga e o Templo de Jerusalém já não tivessem dito de Jesus, de Estêvão proto-mártir, e das demais discípulas, dos demais discípulos da primeira hora.

Fique bem. E que depressa regresse à situação de pleno emprego. Dou-lhe o meu abraço, Mário


E-mail, Paulo

2005 NOVEMBRO 16

Caro P. Mário: Confesso desde já que aquilo que me fez procurar os seus livros e seguir mais atentamente o que dizia foi a descoberta, pelo título e numa feira do livro na pequena vila de Boticas, do “Fátima Nunca Mais”, pois nunca tinha ficado convencido com os dogmas marianos, a arbitrariedade dos supostos milagres, favorecendo uns e esquecendo a maioria, e o respectivo comércio de promessas.

Recordo hoje assustado que em miúdo cheguei a pertencer a uma coisa chamada “Cruzados de Maria”, ou algo parecido, com rituais de iniciação do género mocidade portuguesa…

Há memórias bem antigas de me encontrar a aquecer junto a uma fogueira, na aldeia da minha avó materna, e ficar estarrecido com a possibilidade de “arder nas chamas do inferno”, caso não fosse um bom menino!

Sempre fui fascinado por Jesus Cristo, o homem, e sempre o tentei encarar na sua humanidade, apesar de vezes sem conta nos tentarem fazer acreditar na sua inacessibilidade divina. Quanto mais humano o imagino, maior é a admiração que me desperta! Pois que dificuldade seria para um ser divino passar as atribulações que Jesus teve que suportar? E porque nos mentem sempre com as estórias da sua família, quando se sabe que Jesus teve irmãos de sangue?

Há um filme sobre Jesus que gosto particularmente (Jesus Christ Superstar), já que o revela em situações de fragilidade e dúvida, para além da música ser admirável. Já quanto ao afrontar os poderes instituídos de uma forma activa, liderando movimentos subversivos, as minhas dúvidas são mais que muitas. Um líder revolucionário de mentalidades, é como eu interpreto o Jesus em que acredito. Mais numa visão oriental, pacífica, modificando pela atitude o outro através da sua mestria de Ser.

Enfim, ficaram aqui alguns pensamentos avulsos em jeito de partilha. Obrigado pela atenção e um abraço.

 

Caro Paulo

Agradeço os seus “pensamentos avulsos”. São bem pertinentes e oportunos. Vêm na hora. Agora, que os meus irmãos eclesiásticos voltam a meter-nos a senhora de Fátima pelos olhos dentro. As populações pedem Jesus e o Pão libertador do seu Evangelho e os meus irmãos eclesiásticos, a começar pelo cardeal patriarca de Lisboa, dão-lhes a imagem da senhora de Fátima. É um embuste que se pagará caro. A idolatria nunca dignificou ninguém. E mais do que caminho para o abismo, ela é o abismo! Em lugar de ajudarmos maieuticamente as populações a sair do abismo, empurramo-las para o abismo. E fornecemos-lhe overdoses de ópio, em forma de rezas do terço e de rezas de missas, para elas aguentarem o vale de lágrimas. O mais dramático é que metemos nesta degradação e perversão os nomes de Jesus e de Maria!

Felizmente, o Paulo anda bem avisado. Tem bom pensar. E bom agir. Jesus, o de Nazaré, não o das catequeses eclesiásticas, é o caminho. Quem o seguir chega, não ao céu, mas à terra; não a Fátima, mas ao Próximo que necessita da nossa comunhão e do nosso amor para ser e de quem nós também necessitamos para sermos verdadeiramente humanos.

Fala-me do meu livro Fátima nunca mais. Será que já conhece um outro livro meu, de há poucos meses? Refiro-me ao O outro Evangelho segundo Jesus Cristo. Se ainda o não conhece, tenho a certeza que irá entusiasmar-se com ele. Encontrar-se-á com Jesus, tal qual ele é. O Ser Humano em que todas, todos nos havemos de tornar. Se não o encontrar por aí, poderei enviar um exemplar pelo correio. Custa 10 euros, correio incluído. E ainda irá autografado, se assim quiser. (Os meus direitos de autor revertem para a construção do Barracão de Cultura, da Associação As Formigas de Macieira)

Fique com o meu abraço. Mário


E-mail, Rute

2005 NOVEMBRO 12

Olá querido padre Mário. Como está?

Não lhe tenho escrito muito, porque este ano tem sido infernal em termos de tempo dispendido nos estudos. É um  ano fulcral, porque é o último para atingir o bacharelato.

Falando-lhe da actualidade, escrevo-lhe para constatar o que já parece óbvio sobre José Sócrates: uma fraude, decepção e nulidade. Certamente se lembra da minha opinião sobre ele aquando da sua eleição. Pois bem, confirmou tudo aquilo que dele se dizia de mau. Sócrates revela ser não mais do que uma outra face da mesma moeda Santana Lopes. Sem ideias, demagogo, tão direitista quanto Santana, contudo sem o assumir. Tinha razão quando disse que ele era eleito por parte dos portugueses que nele puseram todas as esperanças para fazer o país sair da crise a todos os níveis a que está mergulhado.

Pois bem, o que fez Sócrates? Não retirou 300 000 idosos da miséria, antes pretende taxar as pensões de muitos deles. Retirou privilégios aos trabalhadores da função pública, aos comuns Zés de Portugal, ao mesmo tempo que distribuía muitos e bons tachos pelos seus comparsas de partido. Nada fez para revogar o pacote laboral do sinistro Bagão Félix, deixando que se inverta aquilo que é a tendência normal da sociedade, que é o aumento de direitos para os mais pobres, os remediados que vivem do seu trabalho, e não para encher os bolsos, dos que já muito têm. E as novas leis do fundo de desemprego? Não está em causa acabar com a fraude que nele se verifica, mas sim no obrigar os cidadãos a aceitar empregos, que ficam a mais de 50 km de casa. A minha tem 46 anos está desempregada, não consegue arranjar emprego devido á idade. Que fez Sócrates por estes portugueses, que são a maioria? Diz que nada se pode fazer, porque o país está endividado e é preciso controlar o défice. E contudo vai gastar centenas de milhões na Ota e TGV.

Que há mais a dizer? Sócrates traiu todas as esperanças dos que nele votaram. Mas não devemos desistir. Devemos sim dar um grande cartão vermelho a Sócrates nas próximas eleições, continuar lutando entretanto e já agora mandar passear aqueles dois  tacheiros cheios de vaidade, Cavaco e Soares, que vão para a presidência tipo jantar de gala e que inclusive já ambos disseram que concordam com este governo. Não será deles que virá a mudança, nem um futuro risonho para Portugal. Nada mais são do que mais do mesmo.

Não precisa de responder. Beijinhos

 

Olá, Rute

Não preciso de responder, dizes-me, mas não resisto a comentar a tua mensagem em poucas palavras.

A realidade é essa que descreves, porque nós, povo português, somos assim. Conformados. Resignados. E sempre à espera de um D. Sebastião, ou duma senhora de Fátima que nos valha. Vê a pouca vergonha que está a acontecer por estes dias em Lisboa, com o ICNE do Patriarcado. Hoje, sábado, até a senhora de Fátima vai ser transportada em ombros nas ruas da capital, para ser adorada. E lá vão estar milhares de pessoas com a vela acesa que os organizadores lhes metem na mão. Se com as velas acesas ainda corressem a incendiar os templos e os altares, como já está a suceder em França… mas não. Ficamos todos muito reverentes e cheios de medo. E à espera dos milagres que nunca chegam, nem chegarão. Assim não vamos lá.

Um cartão vermelho ao Sócrates? E depois? O que vem a seguir? O baixinho do PSD! Ou tens ilusões? Achas que, como país, já estamos maduros para a INSURREIÇÃO CÍVICA de que tenho falado? Nem os da Esquerda se aproveitam. Também são da mesma massa dos outros portugueses. Logo que arranjam um tacho de deputado, ou de adjunto de deputado, ou de secretária de deputado, e se vêem com aqueles privilégios todos, adeus militância política. Só a absolutamente indispensável, em tempo de campanha eleitoral para não perderem mais o tacho que lhes caiu do céu! Fora disso, o país é o hemiciclo. As populações que se lixem. Trabalhar todos os dias para mudar as mentalidades e os comportamentos das populações, faz calos e não dá rendimentos chorudos ao fim do mês.

Bem vejo por aqui. Até o PCP, outrora tão aguerrido e combativo (a tua mãe que o diga, quando era da tua idade), agora é uma sombra do que foi. Por ocasião das eleições autárquicas, ainda se mexeram em acções junto da população, mas como não ganharam nenhum lugar no executivo, já desmobilizaram até às próximas autárquicas. Trabalhar directamente e com regularidade as populações não traz proventos. De resto, as populações também não estão para isso. O que querem é mais novelas na televisão e mais transmissão de jogos de futebol nacional e internacional. E mais casos perversos como o de Joana ou da Casa Pia, para sadicamente se divertirem com as audiências no Tribunal…

Eis. O meu abraço, Mário


E-mail, Paula

2005 NOVEMBRO 11

Querido Padre Mário (desculpe tratá-lo assim. Ainda não o conheço pessoalmente, mas é como se já o conhecesse há muito tempo...). Antes de mais, espero que esteja bem. Escrevo-lhe porque acabei de ver uma reportagem sobre o Mercado Livre em Manágua, no canal Odissea. Um horror!! Tanta miséria humana!! Interrogo-me como é possível (sobre)viver assim. Pessoas que vivem no/do lixo urbano, que se alimentam dele...crianças...muitas crianças, até recém-nascidos no meio de todos aqueles detritos...prostituição...bandos para quem a vida nada vale, que não hesitam em matar ao menor problema... toxicodependentes...quase todos. Até as crianças, que desde cedo cheiram cola. E continuo a perguntar-me como é possível? Em pleno sec. XXI!! Este é um novo (ou talvez não tão novo) problema humano: a miséria das cidades. Como o caso da Índia e de tantos outros países, cujas cidades funcionam como um íman para quem quer melhorar de vida, mas que acaba, quase sempre, por viver em condições degradantes, onde as carências são inimagináveis!

Para onde é que o ser humano está a caminhar? Como é possível os políticos e poderosos ficarem indiferentes? Porque não se tenta mudar o rumo da história? Como é possível todos nós (uns mais, outros menos) vivermos somente preocupados com a nossa vidinha diária quando são cometidas atrocidades destas? Vou mais longe e chamar-lhe-ia genocídios. Somos todos cúmplices. Sobretudo do silêncio. Só nos manifestamos quando nos "mexem" no bolso ou pelo alarmismo social provocado por alguma comunicação social mais sensacionalista. Ou então para bradar publicamente contra programas de televisão apresentados por gays. Aí aparecem pessoas muito indignadas e muito afectadas na sua consciência cristã!!

Somos um país maioritariamente católico e no entanto, onde é que isso nos trouxe? Que consciência crítica, solidária, colectiva temos? Para que serviu os anos de catequese, de missas ao domingo, de procissões, etc? NADA! Estamos alienados! E a Igreja Católica fomenta essa alienação ao ser uma autêntica fábrica de autistas. Afinal as pessoas acham que rezar basta. Um terço por dia e estarão salvas (elas e seus familiares pelos quais intercedem, claro, porque os outros que se lixem!).

Normalmente sou optimista, porque considero que o pessimismo leva-nos a ser derrotistas. A não tentar dar alguns passos que, à partida, consideramos inúteis, como a questão das eleições e da abstenção gritante. Porque uma grande parte acha que o seu voto não vai mudar nada. Como se despertam as pessoas? Qual o caminho?

Desculpe Padre Mário. O mail já vai longo, mas precisava de partilhar estas angústias. E de tentar saber, se não todas, pelo menos algumas das respostas às minhas interrogações. Sinto-me como um bombeiro no meio de milhares de incêndios e não sei qual deles posso/devo apagar. Se terei capacidade para o fazer. E como o devo fazer. Ajuda-me?

 Receba o meu abraço cheio de ternura.

 

Querida Paula

Aqui estou de novo. Vejo que essa reportagem da Odisseia conseguiu tirar-lhe o sono. É sinal de que a Paula ainda não vive por trás duma couraça. Ainda se mantém fecundamente humana. Condói-se. Tem entranhas de humanidade. Mantenha-se assim por todo o sempre. Deixe que a inumanidade deste mundo lhe cause calafrios. E a deixe interpelada. Desassossegada. Pronta para agir.

Agir. Aqui é que bate o ponto. Como mudar o mundo? Como derrubar esta Ordem Económica e Política Mundial intrinsecamente perversa? Como fazer nascer outra, mais decente e mais à medida de todas, todos nós, sem exclusão de ninguém, nem de nenhum povo?

Olho para Jesus de Nazaré e vejo como é que ele fez e o que fez. O Evangelho diz que ele, quando foi totalmente possuído pelo Sopro ou Espírito de Deus, foi para o Deserto. O que significa que não se acomodou à Ordem mundial perversa. Resistiu-lhe activamente. No Deserto, procurou descobrir uma alternativa libertadora e salvadora. Não foi fácil. A Tentação perseguiu-o dia e noite. Em lugar de escolher resistir activamente, o Tentador sugeria-lhe que se acomodasse à situação, como faz a maior parte das pessoas. E que habilmente procurasse tirar partido dela. Nem que, para tanto, tivesse que vender a alma ao Tentador. Felizmente, Jesus resistiu sempre. E acabou por ficar a viver em deserto até à morte e morte de cruz!

Foi assim em deserto que se fez militante. Não da Ordem estabelecida, mas da alternativa a ela e que ele sempre chamou de Reino de Deus. Com esta expressão, queria significar este mundo nosso, organizado segundo os gostos de Deus Vivo e Criador. Uma Família humana universal. Levou tão longe esta sua militância que chegou a escolher 12 homens entre os que o seguiam, para os colocar como colunas dessa nova Ordem Mundial, feita de Justiça e de vida em abundância para todas as pessoas e povos. Não resultou. Ao mesmo tempo, começou a fazer acontecer entre o seu povo essa Nova Ordem Mundial. Não mudou o mundo, da noite para o dia, mas passou a ocupar-se com pessoas concretas, entre aquelas que eram as principais vítimas da Ordem Mundial perversa. Nunca se aliou aos que se governavam dentro dela. Apenas às suas inúmeras vítimas. Aos verdugos que procuravam tirar partido da Ordem Mundial perversa, enfrentava-os, denunciava-os e desmascarava-os. Num combate que atingiu progressivamente contornos de verdadeiro duelo. Nunca lhe tremeu a voz, nem a mão, nem o olhar. E eles não lhe perdoaram nunca. As suas intervenções junto das vítimas pautavam-se pela Ternura e pelo Acolhimento. Mas também pela luta/discussão ideológica/teológica. As vítimas tinham que abrir os olhos e os ouvidos, tinham que mexer as mãos e os braços, tinham que andar sobre os próprios pés, tinham que ser sujeitos activos, tinham que ter voz e vez, tinham que sair das situações-túmulo em que sempre tinham vivido com mais ou menos resignação, ou mais ou menos revolta. Por cada pessoa que abria os olhos e passava a dar-se conta da marosca e da mentira que é esta Ordem Mundial; que saía das situações-túmulo, como por exemplo, o seu amigo Lázaro de Betânia; que passava a andar sobre os próprios pés; que se atrevia a ter voz própria e vez; que contestava e enfrentava os que os oprimiam e roubavam; que desmascarava os seus jogos de interesses – era o Reino de Deus que aí acontecia e que deixava Jesus eufórico. Esse era até o único culto que Jesus dava a Deus, seu Pai/Mãe.

Quando já era difícil prosseguir neste trabalho com as vítimas (nem estas estavam muito pelos ajustes, pois a maior parte delas prefere subsídios e caridadezinha), Jesus vira-se resolutamente para os verdugos, enquanto responsáveis maiores da Ordem Mundial perversa. Sobe  a Jerusalém. É a sua luta final. Vai desmascará-los no seu próprio campo. No Templo. No coração das instituições. Chama-lhes tudo. Hipócritas. Raça de víboras. Guias cegos. Mentirosos. Idólatras. Ao rei Herodes, chamou raposa! E aos chefes máximos dos judeus, que se tinham na conta de justos e de santos, disse que o pai deles não era Deus Vivo, mas o Diabo. E que eles eram como esse pai deles, mentirosos e assassinos. Nunca a voz lhe tremeu. E por fim ainda se atreveu a destruir-lhes simbolicamente o Templo de Jerusalém, que classificou de “covil de ladrões”. Não lhe perdoaram. O ódio foi tanto que o matou da forma mais infamante. Para que nunca mais alguém chegasse sequer a lembrar-se da sua existência. Foi banido de entre os vivos. E a sua memória apagada.

O que fazer e como fazer hoje? A Ordem Mundial que matou Jesus continua aí de pedra e cal. Hoje faz ainda mais vítimas do que no tempo de Jesus. São vítimas em massa. Pobres em massa. Excluídos em massa. E também nos aliena em massa. Até os seus media são de massa e para estupidificar as massas.

Ouse resistir a esta Ordem Mundial perversa, mentirosa e assassina. Crie um estilo de vida alternativo. Oriente-se todos os dias por outros valores, ou melhor, por valores outros. Seja um sinal vivo de contradição. Viva nesta Ordem, mas sem ser dela. Pratique a solidariedade/amizade com as vítimas. Mantenha-se lúcida. Não embarque nunca no discurso/ideologia dominante. Escute os clamores das vítimas. E os seus ensurdecedores silêncios. Convide-os regularmente para a sua mesa. E faça-se próxima deles. O resto virá por acréscimo.

O meu beijo de irmão, Mário


E-mail, Elísio

2005 NOVEMBRO 08

Olá, saúde. Por acaso escutei, ontem à noite, o que o Sr. Cardeal, D. Policarpo, disse no programa Prós e Contras a propósito dos acontecimentos em França e senti uma tremenda angústia invadir-me: "(...) temo que as sociedades tenham que usar a força para se defenderem..." O aplauso coloca-o justamente, e isto sabemos nós há muito tempo, do lado do governador romano de há 2000 atrás. O que significa que se vivesse nessa altura, tal como agora, estaria do lado dos poderosos e teria, na mesma condenado o Cristo. "Que fazer com esta igreja?". O senhor sabe. Mas é preciso varrê-los a todos, não é verdade?

De que lado estará o Senhor Bispo de Evreux, administrador da Diocese de Parténia?

O que está a acontecer em França será o óbvio? Talvez, mas preparemo-nos, porque os deserdados, um dia, mesmo inconscientemente, meterão as pernas ao caminho.

Porque é ignominioso que me digam todos os dias que o país está em crise e não tenham vergonha de nos dar conhecimento dos grandes lucros das grandes empresas. Libertas dos impostos, que ajudariam a Segurança Social a equilibrar-se e a distribuir mais justamente o bolo.

A violência não deverá ser usada, mas recordo-me de, nos finais da década de 60, o Bispo D. Hélder Câmara dizer que a fome não é menos violenta do que a violência do império.

Voltando ao Prós e Contras, apenas Barata Moura se colocou do lado certo. De cada vez que abria a boca, lá vinha o Sr. António Pinto Leite, coitadinho, chorar que tinha acabado de trabalhar 12 horas - porque é que nós não havemos de trabalhar também 12, ou 15, ou 16, ou 27, ou 30,...- das quais 60 % eram para o justo Estado. E a pressurosa Maria Nogueira Pinto, fascista requintada, a apregoar os seus valores. Corroborados, e isso é que dói, por sua eminência. Nenhum, todavia, se prestou, em nome da justiça, da fraternidade, da solidariedade e da liberdade, a baixar os seus salários, por exemplo, para valores humanos, a bem de todos.

O Sr. Pinto Leite, seguramente católico, apostólico, romano, acha apenas que o Estado não tem dinheiro para seguir a exigência da CGTP para o aumento das miseráveis pensões de reforma de 60 contos para 100 contos... Um abraço

 

Meu Amigo Elísio

Aquilo não foi “Prós e Contras”. Foi apenas “Prós”. Com o senhor cardeal presente tinha que ser assim. Suas eminências reverendíssimas têm que ser respeitadas e idolatradas. Aliás, a jornalista apresentou-o como “homem de Deus”. Ficou tudo dito. Só faltou perguntar: Homem de Deus, mas de que Deus?!...

Vi apenas a primeira parte. E também me arrepiei, quando ouvi o cardeal insinuar o que insinuou. É como com a lei do aborto. São contra a lei, mas a favor do aborto clandestino. A clandestinidade e as mortes sem notícia não os afligem. Só a lei que protege as mulheres em aflição. Estão em aflição? Pois que sofram com paciência e em desconto do pecado de terem “gozado” sexualmente!... É esta falta de humanidade que faz da hierarquia da Igreja católica romana um monstro. Mas o Poder de turno esfrega as mãos. Por alguma coisa há uma Concordata entre os dois poderes, o do Estado português e o do Estado do Vaticano. Uns safados!... Uns sem-vergonha, quando se atrevem a pronunciar o nome de Jesus!

O meu abraço, Mário


E-mail, Lurdes

2005 NOVEMBRO 03

Boa noite Padre Mário. Há cinco meses atrás, ofereceram-me um livro, "O Outro Evangelho Segundo Jesus Cristo", li voltei a ler e hoje faz parte dos meus livros de mesa de cabeceira. Pelo seu livro cheguei até si, já conversámos por este meio várias vezes, o seu site faz parte dos meus favoritos, todos os dias o visito. À medida que vou conhecendo a sua vida, as suas obras, junto dos "leprosos" do nosso tempo, mais admiro o Ser Humano, o Jesus no meio de nós, em carne e osso, que é o senhor . Não lhe vou pedir que não mude nunca, porque sei que esse risco não correrá. É o "seu" Jesus de Nazaré, que eu quero para a minha vida, é nesse Jesus que eu acredito. O meu muito obrigada, por me ter tirado algumas vendas que me tapavam os olhos, e não me permitiam ver o essencial. Obrigada. O meu abraço.

 

Querida Lurdes

As suas palavras vêm cheias de afecto. Traduzem um testemunho vivo e sentido que me deixa quase sem jeito. E com o coração perturbado, como o de Maria, a de Nazaré, quando começou a ouvir dizer que o filho das suas entranhas era o Messias ou o Cristo de Deus Vivo. Bem-haja por elas. Perante um testemunho assim, só me resta fazer minhas as palavras todas do Magnificat, o canto da Humanidade liberta e sororal/fraterna: A minha alma engrandece o Senhor e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador. Mas não pense que é fácil o meu viver. Não é. Continuam a ser mais do que muitas as incompreensões que fazem o meu dia a dia. Vivo permanentemente como num deserto. E sinto-me muito frágil. Mas é nesta minha fragilidade que mais sobressai a Graça. E na humilhação a que diariamente me votam, que mais brilha a Dignidade. Cante comigo.

Deixe a Lurdes que o Espírito a habite como em casa própria. Será então Jesus em feminino, no meio de nós. Aliás, para que todas, todos fôssemos Jesus é que o de Nazaré um dia nasceu para nós e nos foi dado. Deixo-lhe a minha paz. E o meu beijo. Mário


E-mail, Joaquim

2005 OUTUBRO 24

O senhor só e apenas é digno de dó, compaixão pelas suas heresias. Nem a idade lhe tem dado bom senso e juízo.

 

Meu caro senhor

Suponho que não nos conhecemos. As minhas “heresias” bem poderiam ter sido pretexto para nos encontramos e conversarmos. Por mim, desde já me declaro aberto a encontrar-me consigo e a conversar olhos nos olhos. Se o meu caro senhor também estiver disposto, é só acertar uma data e um local. É verdade, meu caro senhor, que nem a idade me tem dado “bom senso e juízo”. E logo a mim, a quem, um dia, já lá vão tantos anos, o Bispo que então presidia à Igreja que está no Porto, D. António Ferreira Gomes, me acenou com um doutoramento no estrangeiro, pago pela diocese, e com uma brilhante carreira eclesiástica. Nessa altura, já eu tinha sofrido uma prisão política em Caxias e havia sido julgado no Tribunal Plenário do Porto. Mas resisti à tentação e prossegui com simplicidade a missão presbiteral e eclesial de Evangelizar os pobres. Em consequência, voltei a sofrer nova prisão política em Caxias, voltei ao Tribunal Plenário do Porto e, quando saí, no dia da leitura da sentença, e me apresentei ao referido Bispo, ouvi da sua boca a decisão tomada unilateralmente por ele de que já não era mais o pároco de Macieira da Lixa, nem nunca mais seria pároco na Diocese, enquanto ele fosse o Bispo do Porto. Assim se tem cumprido, desde então. Pensa que, mesmo assim, desisti da Igreja e da missão presbiteral de Evangelizar os pobres? Pelo contrário, percebi que essa missão martirial haveria de ser realizada por mim também no interior da Igreja que um dia me baptizou e me ordenou presbítero. E é o que tenho procurado fazer, oportuna e inoportunamente. É falta de bom senso e de juízo? Mas quem ama a Igreja como eu a amo, nem se importa de passar por essa fama e de sofrer essa e outras calúnias piores do que essa. Saiba que vivo permanentemente de olhos postos em Jesus de Nazaré, o Crucificado pelo Templo de Jerusalém e pelo Império romano, a quem o Deus Vivo de imediato ressuscitou. Por isso, nem que todos me abandonem e me deixem só, eu sei que nunca estou só. O Pai/Mãe Deus está comigo. E eu estou com todos, também consigo, meu caro irmão que ainda não conheço, mas que acaba de me enviar este e-mail. E isso me basta.

Bem-haja por me ter contactado por este meio electrónico. Aceite o meu abraço fraterno, Mário.


E-mail, Rui

2005 OUTUBRO 21

Caríssimo Padre Mário: Provavelmente já não se lembra de mim, mas escrevo-lhe para contestar uma ideia que afirmou.

Em consequência de um mal-entendido de sua parte em relação a umas questões que lhe coloquei há uns tempos, o nosso intercâmbio de pensamentos ficou suspenso. Não obstante sigo com enorme assiduidade as suas ideias e acções através do seu site e dos seus livros porque tenho uma enorme admiração por si.

No seu “Diário Aberto” de 20 de Outubro, escreveu o seguinte:

“Depois de Mário Soares, entra Cavaco na corrida ao palácio de Belém. Pobre povo que é chamado a escolher entre um e outro. E que se resigna a este fado. Não me revejo em nenhum. E como eu, muita outra gente no país. As máquinas de propaganda vão degladiar-se no terreno. E as populações, incautas e indefesas, acabarão por votar num deles, no melhor publicitado. Como se eles fossem um produto de supermercado. Fosse o vencedor apenas isso, porque então utilizá-lo-íamos como tal, a nosso bel-prazer. Mas aquele que vier a ser o próximo Presidente da República não será um simples produto, mas as mãos visíveis dos grandes Interesses Obscuros que estão por trás dele e de qualquer máquina publicitária. Daí a nossa desgraça como povo. Votamos em quem depois nos domina e engana. Em quem nos manipula.

É tempo de fazermos um manguito a tudo isto. Em nome da nossa dignidade. A Política, ou é acção de todas, todos nós, ou é caminho para o abismo. Acabemos depressa com os Cavacos e os Soares. Ousemos ser. Só assim garantimos um futuro de paz e de bem-estar a nós próprias, a nós próprios. É dura esta linguagem? Mas que esperavam? Não sabemos que a “vida fácil” é a via mais curta para a prostituição das pessoas e dos povos? E disso já tivemos demais no nosso país. Se então vamos continuar a querer mais do mesmo, não se poderá dizer de nós que, além do mais, ainda somos estúpidos? Olho vivo, irmãs, irmãos!”

Parece-me que aqui “mete no mesmo saco” o Prof. Cavaco Silva e o Dr. Mário Soares. Bem, não será preciso atentar exacerbadamente para a vida dos dois para facilmente fazer uma destrinça bem balizada. Mário Soares lutou contra o fascismo ignóbil de Salazar. Foi preso, torturado, exilado, privado da convivência com a mulher, filhos e demais família e amigos em prol de um bem comum; o povo português e Portugal. Acho que demonstra um altruísmo e abnegação que é de louvar e denota um humanismo que não vislumbro em Cavaco Silva. Além disso é um político laico. Não mistura política com religião. É um dado importante. Após o 25 de Abril de 1974 foi também de fulcral importância para que não passássemos do “8 ao 80”, derivando para uma outra ditadura, mas agora de extrema esquerda. Parece-me, de facto injusto tratar estas duas personalidades da mesma forma desprestigiante, mesmo que não se concorde com muitas das acções e pensamentos dos supracitados.

Faço este reparo porque sei que o Padre Mário é um formador de opiniões e sei que, principalmente, os mais jovens não têm a noção do que muitas pessoas sofreram para que eles vivessem em liberdade. Os portugueses têm memória curta....

Antes de me despedir, deixo aqui um desejo de melhoras ao “Manelzinho”. Um caso triste, como muitos outros similares de abandono e solidão de idosos que pululam por esse país fora. A propósito envio aqui a minha disponibilidade para prestar uma humilde ajuda; penso que, estando o  Manelzinho acamado, precisa de fraldas de incontinência. Eu trabalho numa empresa que vende, entre outras coisas, as supracitadas fraldas. Se assim entenderem, posso enviar alguns sacos para uma morada que me indiquem se me puderem informar qual o tamanho das fraldas, melhor). É pouca ajuda, mas é de boa vontade.

Despeço-me com os melhores cumprimentos. Rui

 

Caro Rui

Bem sabe que eu seria incapaz de meter Soares e Cavaco no mesmo saco. O que digo é que nenhum dos dois candidatos me convence. Vejo que o dr. Soares o convence a si. Não me convence a mim. Bem sabe que não há salvadores do povo. O povo é quem salva os salvadores!... E estes, depois de salvos por ele, desmobilizam-no até à próxima refrega, põem-no a ver novelas e futebol e – como agora está em moda – ainda o levam de visita à senhora de Fátima, através das autarquias municipais... Pobre povo. É bem carne para canhão. 

Manelzinho. Não é de fraldas que Manelzinho carece. Carece de quem se ocupe com ele. O acompanhe. Fale para ele. Lhe mude a fralda, uma ou duas vezes por dia. Lhe dê banho. Lhe dê a comida na boca. E os medicamentos a horas. Ora, nem os sobrinhos que vivem bem, a poucos metros dele, fazem isso, com excepção da mulher de um deles que vai lá, cada manhã, ajudar Maria Laura a mudar a fralda e a dar-lhe banho. 

Não se deixe iludir: Os grandes Interesses Obscuros não dormem. Acha que eles iam deixar passar as eleições presidenciais sem apresentar um candidato que as vença? O drama é que tudo é encenado e poucos são os que descobrem a marosca. As máquinas publicitárias são para isso. E o povo lá irá votar nos salvadores, contra si próprio. Os grandes Interesses Obscuros esfregarão as mãos de satisfação. São espertos e perversos, e não perdem uma, meu amigo.

O meu abraço, Mário


E-mail, Luís

2005 OUTUBRO 11

Padre Mário: Bom dia. Em primeiro lugar desejo dizer-lhe que admiro a sua coragem, a maneira como se esforça em colocar na vida os ensinamentos de Cristo, em seguir o Seu exemplo. Admiro a maneira como se põe ao lado das pessoas, o caso do Manelzinho Pereira é um bom exemplo). Admiro a força com que diz as coisas e a profundidade do eco interior.

Por outro lado, penso que a vida de cada um tem a ver com as opções próprias, mas também com as circunstâncias que a rodeiam, e parece que no seu caso a vida foi fértil de profundas dificuldades, que contribuíram para um aprofundamento e uma vivência fora do comum: acho mesmo que, nalguns aspectos, estará, talvez, demasiado à frente. E, por isso, o meu bem haja !

Porém, também noto, aqui e além, um certo azedume, me perdoe a franqueza. De facto, também conheço outros padres que, a seu modo,  se esforçam por seguir Jesus Cristo e caminham, dia a dia, na santidade e, por isso, gostaria que não "generalizasse" tanto e que pudesse aceitar mais que cada um possa percorrer o seu caminho... Talvez um pouco mais de caridade, às vezes parece que exagera... desculpe se estou a ser injusto!

Em anexo (P.S.), em jeito de partilha e para que perceba a distância a que me encontro da radicalidade da sua reflexão, envio uma carta há dias escrita a um Padre. Um abraço em Cristo, Luís.

P. S.

Senhor Padre: Um bom dia para si. De novo:  BOM DIA!

Escrevo-lhe constrangido pela dúvida se o devo fazer, mas impelido por um apelo de consciência, como um dever cristão.

No Domingo passado fui à Missa à sua Paróquia: não era a 1ª vez, mas não é frequente ir à Missa à sua Paróquia (é mais frequente ir a outras Paróquias). Sou um simples Cristão, com a minha mediocridade, com os meus receios, os meus medos, a minha ambiguidade, as minhas limitações e fraquezas, os meus defeitos e o meu pecado e, portanto, não será por isso que me resta algum direito de poder dizer o que quer que seja a alguém, de julgar, nem muito menos de concluir alguma coisa sobre o que quer que seja. Também não sou especialista de coisa nenhuma e, por isso, a minha opinião nem sequer é necessário admiti-la como digna de consideração; não procuro resposta e mais me agradaria fazê-lo no anonimato. Desejo que a minha atitude não seja mais que um apelo de consciência e peço perdão se estou a ser injusto, porque me sinto como quem vai dar uma bofetada num Filho de Deus.

No Domingo fui à Missa: Assim mesmo !  Só isso ! Mas gostaria que tivesse sido um pouco mais: Não como quem marca o ponto, ou cumpre uma obrigação, mas como quem deseja, participa, se compromete e descobre rumo, força e sentido para a Vida. Procuro não encarar a Missa como um fim em si mesma, mas, em primeiro lugar, como um encontro, com os outros – em comunidade – na celebração da Fé, e com Deus na Sua Palavra, como descoberta da Sua vontade, e na Eucaristia, como alimento e ânimo, e em segundo lugar como um reenvio para a Vida do dia a dia. (Era assim que eu gostava que fosse!) A Eucaristia, mais do que um fim em si mesma, é um abrir de horizontes, um apelo ao testemunho e um envio em Missão.

Pois o que eu senti foi um cultivo do gesto. O rito pelo rito. O aparato (a aparência) de uma cerimónia, para não dizer uma representação, uma encenação, quase um espectáculo, ... Sim um espectáculo! Muito centrado em si mesmo, como se a sua finalidade fosse o próprio rito. Havia um actor principal, com uma pose irrepreensível, (mesmo que estivesse a contar as 36 vezes que a porta do fundo bateu), mas os gestos, a posição, os tempos, o tom de voz, o ritmo, a marcação, …, tudo estava definido, controlado, aferido, afinado, ensaiado, …, impecável!

A preocupação pelo rito pode tornar-nos ritualistas e escravos do rito. A preocupação pela aparência da função pode tornar-nos funcionários, profissionais no desempenho, mas desligados e alheios do conteúdo. O símbolo toma o lugar do objecto e ele próprio deixa de ser símbolo e esvazia-se: fica em nada!

Se há uma presença que deve ser evidenciada é a de Cristo, (não a do representante), presente na comunidade dos cristãos (se dois ou mais estiverem reunidos…), presente na Sua Palavra, presente na Eucaristia!

Presidir à comunidade é, antes de mais, estar ao serviço da comunhão: entre a comunidade e desta com Deus. Outros protagonismos podem ser um cultivo da pessoa, mas não serão motivo de comunhão!

Muitas vezes, falo por mim, encobrimos os nossos medos e a nossa insegurança com um verniz protector, com um fazer bem feitinho, para os outros gostarem, como uma capa que nos protege e por detrás da qual ocultamos os nossos receios…!!! (É apenas uma sugestão para uma auto-avaliação).

Aceite um abraço em Cristo.

 

Luís: Bom dia!

Agradeço a sua mensagem. E os seus reparos. Mas olhe que as minhas denúncias visam sobretudo o sistema eclesiástico e o secular modelo paroquial de Igreja, herdado não do Movimento de Jesus, mas da divisão administrativa do Império romano. Não visam directamente as pessoas, este padre ou aquele em concreto. Até considero que os padres, nomeadamente, os párocos, são as principais vítimas do sistema eclesiástico. Também são beneficiários dos privilégios que ele lhes garante, para poder continuar a contar com eles. Felizmente, há cada vez menos homens católicos dispostos a ir por aí. Os benefícios são muitos – não só não há desemprego para os novos padres, como há até uma sobrecarga de trabalho, altamente rentável, do ponto de vista financeiro – mas nem assim os jovens se deixam seduzir. As coisas tal como estão não cativam. E os jovens não vivem só de dinheiro e de ritos. Precisam de causas. E causas que valham a pena é o que não se encontra hoje na Igreja, em particular no âmbito dos ministérios ordenados. Nem sei como ainda há quem aceite ser bispo. E quem aceite ser presbítero ou diácono casado. Tão pouco sei como ainda há quem vá à missa ao domingo…

Reconheço que a minha linguagem é radical. Não creio que seja censurável. A radicalidade é constitutiva do Movimento de Jesus. O próprio Jesus é o mais radical dos seres humanos. Radical nas acções e intervenções. Radical na denúncia dos desvios do Essencial, na denúncia da Mentira institucionalizada, na denúncia da idolatria. Aquele seu gesto de chicote em punho no Templo de Jerusalém, ainda hoje me dá calafrios. O que não terá sido no contexto do judaísmo da época!... Podemos imaginar, pelos efeitos imediatos que teve: foi por causa desse gesto que Jesus foi preso, sumariamente julgado, condenado à morte e executado na cruz como um maldito.

No meu livro, Que fazer com esta Igreja?, atrevo-me a responder a esta pergunta-título do livro: Deitem-na fora, que ela, tal como está, nem para a esterqueira serve. Só entenderemos esta radicalidade, se tivermos presente que esta Igreja que temos é uma Igreja em estado de pecado mortal, com mais de Império romano que matou Jesus e perseguiu os cristãos e com mais de Paganismo religioso, com sacerdotes e tudo, do que de Jesus e do seu Evangelho.

Gostei de ler a carta que escreveu ao padre que presidiu àquela missa que tanto o desiludiu. Afinal, o Luís ainda consegue ser mais radical do que eu. Porque não está a falar do sistema eclesiástico em geral, nem dos funcionários eclesiásticos em geral. Está a falar a um padre concreto e a partir duma celebração concreta. O que lhe diz é bastante para ele se cobrir de saco e cinza, se lhe desse ouvidos, como o rei de Nínive deu à mensagem profética de Jonas (é um conto bíblico muito bonito). Provavelmente, o pároco em causa terá apenas esboçado um sorriso amarelo de desdém, proferido um palavrão muito eclesiástico e muito clerical e, no domingo seguinte, aprimorou-se ainda mais na execução dos ritos do Missal Romano. E o Luís que quer? Afinal, para se presidir à missa não basta seguir o Missal Romano e executar tudo o que nele se manda? O que se espera de um funcionário zeloso, senão que ele execute com perfeição a Lei e o Regulamento?

Mas o Evangelho de Jesus é outra coisa? A Igreja é outra coisa? A Eucaristia é outra coisa? Pois é, Luís. Mas os funcionários eclesiásticos, contratados pelo sistema eclesiástico, se começarem a ser sensíveis ao Evangelho de Jesus, se se converterem em discípulos de Jesus, se quiserem criar Igreja-comunhão, na linha do que apontou o Concílio Vaticano II e se quiserem que a Eucaristia faça efectiva Memória viva de Jesus, depressa serão olhados com desconfiança pelo seu bispo e pelos paroquianos tradicionais e, se não acatarem as advertências, acabarão expulsos do templo e do altar. Não tenha ilusões. O sistema eclesiástico não suporta o Evangelho de Jesus. E a Jesus de Nazaré mata-o. Nem que seja para depois dizer que o faz para remissão dos nossos pecados…

Continue a intervir profeticamente com cartas como esta que escreveu, e verá a que conclusões chegará.

Fico na comunhão. E no abraço, Mário.


E-mail, Justina

2005 OUTUBRO 11

Dirijo-me a VOSSA REVERENCIA, nestes termos, porque católica que sou (embora seja muito céptica   em relação a muitos conceitos) admiro-o e a todo o seu trabalho exaustivo com toda a sua comunidade, o caso do Sr Manuel que vivia com os ratos, foi para o hospital e, o SENHOR PADRE identificou-se como sendo da família... os bons conselhos que lhe pedem.... É tão bom saber que ainda existe alguém  que se preocupa e vive os problemas dos outros....

Eu, trabalho numa IPSS, claro será dizer que quem está a frente, digamos assim, é um padre; que não tem a mínima sensibilidade para lidar com idosos, eu não interfiro muito, visto o meu trabalho ser todo no exterior (ainda bem!!!!!!!).

E para mim é tão gratificante a minha entrega, porque afinal de contas, muitos estão sozinhos, sofrem e o facto da nossa presença é um alento. BEM HAJA!

Despeço-me, aguardando uma resposta, dirigida a este e-mail.

 

Bom dia, Justina

Agradeço a sua mensagem. Manelzinho continua no hospital. Ainda ontem voltei a visitá-lo. E consegui falar com a médica que o segue diariamente. Deverá ter alta esta semana. Não regressa ao barraco, pelo menos, enquanto ele estiver como está. Para já, irá ficar numa família de acolhimento, sua vizinha: Albininho do Souto e sua mulher. Creio que é uma boa solução. Quando lho anunciei ontem, ao Manelzinho até os olhos se lhe riram. Sai do hospital, mas para terá que permanecer acamado. Vamos a ver se recupera.

Se trabalha numa IPSS, sabe o que são casos como este. Havemos de cultivar a ternura com as pessoas em situação de carência. Não bastam cuidados técnicos. São precisos oceanos de ternura. É o afecto que salvará o mundo.

O meu colega padre nunca deveria esquecer que o que fazemos ao mais pequenino dos nossos irmãos, elas e eles, é a Jesus que o fazemos. Ajude-o a descobrir este Evangelho de Deus.

Beijinhos, Mário


E-mail, Vítor

2005 OUTUBRO 06

Caro Padre Mário. Na sua resposta às minhas perguntas notei um erro de comunicação! Eu só estou a falar e perguntar mais sobre a igreja católica pelo facto de você ser padre e estar mais à vontade a falar sobre isso que eu. Graças a Deus o Espírito da Verdade dá-me discernimento para ver que na igreja evangélica há também muito lobo devorador e pessoas que de Jesus querem pouco! O facto de eu ter falado que muitas pessoas vão-se perder não quer dizer que não o sinta, antes pelo contrário, se falei é porque é uma coisa que me derrama o coração e sempre nas minhas orações sinto grande paixão pelas almas e por isso mesmo as missões são o meu futuro! Mas a verdade é que a porta é estreita e muitos não vão entrar por ela, e é minha e sua missão mostrar o caminho, a verdade e a vida a elas para que não se percam.

Só queria pôr mais duas questões: 1 - O que você acha dos "mediadores" da Igreja católica?

2 - O que define a nossa Igreja Católica Carismática?

Um abraço, Vítor

 

Meu cara Vítor

É verdade que, no dizer do Evangelho de Mateus, a porta é estreita e são poucos os que entram por ela. Mas não quer dizer que sejam poucos os que se salvam. Nunca podemos colocar as coisas nestes termos. Seria fundamentalismo evangélico, coisa que Jesus nunca praticou, nem o seu Espírito inspira. Para salvar o mundo, não para o condenar é que Jesus nos foi dado. A Missão é exclusivamente para anunciar ao mundo este Evangelho, esta Boa Notícia de Deus!

1. O que acho dos "mediadores"? Desde que Jesus nos foi dado, lá se foram os mediadores. É por isso que todas as Igrejas têm que ser como João Baptista: diminuírem, até desaparecerem, para que as mulheres, os homens cresçam.

2. Não sei bem o que me quer perguntar com esta sua pergunta. Mas sempre lhe posso dizer que o mais carismático dos seres humanos é Jesus de Nazaré. Desde então, não há carisma que valha fora da prática libertadora e humanizadora de Jesus. Se uma Igreja não contribuir para fazer mais humanos os seus membros e todos os seres humanos em geral, então é melhor que não exista. Os "carismas" de que ela se possa reclamar não passam de esterco, de alienação.

Volto a dar-lhe o meu abraço. Mário


E-mail, Vítor

2005 OUTUBRO 05

Caro Padre Mário. De uma coisa me alegro, creio que os dois temos lugar preparado lá em cima, ao lado do nosso Pai! Eu sei que só Jesus é o caminho, verdade e vida, até por isso digo a meu pai (católico...daquele tipo de ir à missa por obrigação) para ele pelo menos ser católico realmente, que creia nos fundamentos base do catolicismo...claro que fica complicado para uma pessoa que nunca pegou na Palavra de Deus ter o discernimento do que está mal ou bem. Acho aliás que esse é o problema do catolicismo, as pessoas são ensinadas de tal maneira que nunca se interessam por pegar numa bíblia para confrontar o que seus líderes falam e como as tradições avançam de geração em geração completamente enraizadas fica complicado para distinguir a verdade no meio dessa selva. Frequento uma igreja evangélica porque após alguma meditação e oração, cheguei à conclusão que lá se prega o evangelho, se não puro, o mais puro que pude achar e lá tenho condições de aumentar minha fé pela Palavra de Deus para transmitir essa Boa Nova ao mundo! É claro que os lobos aparecem no meio das ovelhas, o joio no meio do trigo, Jesus alertou-nos de que sempre existiria e também nos deu a dica "Pelos frutos conhecereis a árvore".Só queria fazer algumas questões:

1 - Você acha que a maioria do povo católico tem a acção transformadora do Espírito Santo nas suas vidas? Eu não vejo isso, por muito que me esforce, infelizmente!

2 - Porque todos os católicos têm uma tão diferente fé? E porque quase nenhuma está de acordo com a bíblia?

3 - Acha que a poeira que existe no evangelho pregado pelo catolicismo tapa a mensagem da salvação de tal maneira que muitos se irão perder?

4- Sei que é complicado num ponto destes os líderes católicos virarem o barco rumo ao verdadeiro evangelho, seria uma volta que muitos passageiros não iam aguentar, mas será que não vale a pena visto que disso depende a fé de muitos por muitos e muitos anos?

Um abraço fraternal, como irmão em Cristo! Deus o abençoe e continue agraciando com sua Graça e Amor.

 

Caro Vítor Costa

Pertencer a uma Igreja, evangélica que seja, não garante mais salvação do que não pertencer a nenhuma. Mais do que um privilégio, em relação aos demais, pertencer a uma Igreja é uma responsabilidade. Por isso, não presuma da salvação assim com tanta facilidade. E, se quiser presumir, inclua nessa presunção de salvação todas as mulheres, todos os homens, ateus e agnósticos que sejam. Porque a salvação acontece por pura graça, não por mérito nosso. É porque Deus Vivo nos ama infinitamente que estamos salvos. Mas não pense que Deus Vivo ama mais os que integram uma Igreja concreta. Aqui, Jesus é taxativo: Não são os sãos que precisam de médico, mas os doentes. E é ainda mais taxativo, quando garante, com escândalo para os fariseus de todos os tempos: Não vim chamar os justos, mas os pecadores. Se nos incluirmos no número dos justos, dos já salvos, só porque fazemos parte duma Igreja concreta, então Jesus não veio para nós! Cuidado! Por mim, entendo que Deus Vivo de quem mais gosta é dos agnósticos e ateus com entranhas de humanidade, que se fazem militantes no mundo e estão apostados em mudar a face da terra. São mulheres, homens assim que têm o Espírito de Deus, esse mesmo que está apostado em fazer novos céus e nova terra.

Agora, os meus comentários às suas perguntas:

1 - Você acha que a maioria do povo católico tem a acção transformadora do Espírito Santo nas suas vidas? Eu não vejo isso, por muito que me esforce, infelizmente!

R. Como acabo de lhe dizer, nem a maioria dos católicos, nem a maioria dos membros das outras Igrejas têm a acção transformadora do Espírito Santo nas suas vidas. O Espírito Santo, que actuou em plenitude e em permanência em Jesus de Nazaré, fez dele um homem-para-os-demais. Não o meteu nos cultos dentro do Templo. E se o levou às sinagogas foi para aí contra-ensinar, para evangelizar os pobres. Não foi muito bem sucedido nesta missão de libertação, porque nem os pobres estão disponíveis para acolher o Evangelho de Deus que Jesus nos trouxe. Preferem continuar na dependência dos chefes, dos ricos, dos benfeitores, dos tutores, dos pastores, dos clérigos. Assumir os destinos nas próprias mãos tem muito que se lhe diga. E poucas são as pessoas que se mostram dispostas a ir por aí. A maioria dos católicos ditos “praticantes” limita-se a ir à missa aos domingos. E a cumprir com as suas obrigações para a sustentação dos párocos. Tal como a maioria dos evangélicos limita-se a frequentar os cultos da sua Igreja, a estudar a Bíblia, segundo a escola da respectiva Igreja, a pagar o dízimo à Igreja. Ora, o Espírito Santo não é para isto. Não foi isto que Ele fez com Jesus de Nazaré. Com o que o Espírito Santo se preocupa é com Política, não com Religião, é com este mundo, não com a Igreja, nem com os eclesiásticos. Lembre-se que no tempo de Jesus quem mais o perseguiu e acabou por o matar foram os que conheciam a Bíblia hebraica, tinham Abraão por pai e Moisés por mestre de referência. Sabiam muito de Bíblia, mas não sabiam ler os sinais dos tempos. Como sabe, a letra da Bíblia pode matar-nos. Só o Espírito é que dá vida. Mas quantos pastores/padres/bispos gostam do Espírito Santo? A grande aposta que fazem, assim como as Igrejas, é na letra e não no Espírito: na letra da Bíblia e na da Tradição. Tornam-se então guias cegos que levam o povo para o precipício.

2 - Porque todos os católicos têm uma tão diferente fé? E porque quase nenhuma está de acordo com a bíblia?

R. Exactamente como os protestantes. Como sabe, a juntar às Igrejas protestantes históricas, há hoje uma floresta de outras mais recentes, para todos os gostos. E cada qual com a sua “fé”. Uma coisa salta à vista: fundar uma Igreja dá muito lucro. As novas Igrejas evangélicas mostram-no à saciedade. Como é que o meu amigo anda assim tão preocupado com a Igreja católica e esquece as Igrejas protestantes? Veja como eu sou: um padre católico muito protestante. Seja também um evangélico muito protestante. Ou acha que pelo facto de fazer parte duma Igreja evangélica já está isento de pecado e de traição ao Espírito Santo? De resto, saiba que a Fé decisiva para a nossa salvação como seres humanos é a fé de Jesus. Ou nos abrimos à Fé de Jesus, ou facilmente caímos na idolatria de Jesus. Só fé em Jesus é insuficiente. E pode acabar em idolatria. Bem sei que os católicos, sobretudo antes do Concílio Vaticano II, fomos muito ignorantes em Bíblia. O Concílio mudou as coisas. E hoje há um grande esforço para que os católicos façam da Bíblia a sua principal biblioteca. Mas a Bíblia correctamente interpretada tem o que se lhe diga. Andam por aí tantos fundamentalismos bíblicos à solta, que às vezes chego a pensar que era melhor que essas pessoas, pastores incluídos, não a frequentassem tanto…

3 - Acha que a poeira que existe no evangelho pregado pelo catolicismo tapa a mensagem da salvação de tal maneira que muitos se irão perder?

R. A poeira é muita, mas não é um exclusivo da Igreja católica. Cada Igreja que olhe por si abaixo. A começar pela católica, evidentemente. O simples facto como me coloca as questões leva-me a concluir que, para si, todo o mal está na Igreja católica e todo o bem está na sua Igreja. E fico aflito. Pelos católicos, primeiro. E por si e seus irmãos de Igreja, depois. Se os pastores das Igrejas evangélicas despertam nos seus fiéis esta consciência, então são um perigo público. Podem estar a formar fariseus, em lugar de discípulos de Jesus. E não há doença espiritual pior que o farisaísmo. Por favor, fuja disso. Já nos basta o desgraçado exemplo das Testemunhas de Jeová, com a sua teoria apocalíptica dos 144 mil eleitos. E todos eles Testemunhas de Jeová. Um vómito!

Muitos se irão perder? Mas quem lhe disse? A sua Igreja evangélica ensina-lhe esta má nova? Acha então que Deus Vivo criou-nos para nos perdermos? Não nos criou para sermos suas filhas, seus filhos? Fala assim com tanto à vontade em muitos que se irão perder? Não sente um frio na espinha? Não chora? Seria capaz de se sentir feliz com Deus, se soubesse que alguém se havia perdido? Não foi para salvar os que estavam perdidos que um dia aconteceu Jesus entre nós e connosco? Como pode falar em muitos que se vão perder sem lhe tremer a voz e sem chorar inconsolável?

4- Sei que é complicado num ponto destes os líderes católicos virarem o barco rumo ao verdadeiro evangelho, seria uma volta que muitos passageiros não iam aguentar, mas será que não vale a pena visto que disso depende a fé de muitos por muitos e muitos anos?

R. O que lhe parece impossível é o que já está a acontecer. Pode parecer impossível aos homens, mas é possível a Deus Vivo. Felizmente, Deus Vivo, tal como no-lo revelou a prática misericordiosa de Jesus para com os pecadores e os perdidos, é um Deus-que-salva, não é um Deus-que-condena. A Igreja católica e as outras Igrejas hão-de abrir-se ao Evangelho de Deus, nem que seja à força. A força do Amor. No fim, Deus Vivo terá conseguido fazer de nós filhas suas, filhos seus. Alegre-se, meu irmão! Cante. Podemos não saber como, mas sabemos que o Amor é assim. Por isso, tente ser como Deus Vivo, um filho de Deus como Jesus. Cheio de Espírito Santo e inteiramente ocupado com as causas do Reino/Reinado de Deus. Um militante do Reino de Deus, em lugar de ser um militante da sua Igreja evangélica. Seja um militante do Reino de Deus neste mundo. Com audácia e lucidez bastantes para enfrentar o anti-Reino e os poderes que estão aí apostados em fazer dos seres humanos súbditos domesticados. Defenda-se deles. Enfrente-os. E defenda deles as suas inúmeras vítimas. Sem ter medo de perder a vida neste combate duélico. E cuidemos em saber se os líderes de cada uma das Igrejas, também da sua e da minha, são como o bom pastor (Jesus) que dá a vida pelas pessoas e pelos povos, ou se, pelo contrário, neste combate duélico, se comportam como mercenários que, ao verem vir o lobo, fogem e vão gozar dos rendimentos que conseguiram através dos dízimos e outras ofertas. Ou, pior ainda, se se aliam ao lobo e passam a fazer-lhe o jogo, sob a capa do Evangelho! Olhos abertos, meu irmão!

Um abraço, Mário


E-mail, Rogério

2005 OUTUBRO 03

CHAMO-ME ROGÉRIO ROSA, SOU DE LISBOA, ESCUTEIRO E UM GRANDE ADMIRADOR SEU. CASADO NA IGREJA DE STA. LEOCÁDIA DA MACIEIRA DA LIXA, DESDE O ANO PASSADO E FIQUEI A SABER QUE OS MEUS SOGROS SÃO SEUS VIZINHOS. O SENHOR PADRE SEMPRE SE REVELOU UMA PESSOA SEM PAPAS NA LÍNGUA, CÁ DOS MEUS, E POLÉMICO, O SUFICIENTE PARA ABRIR NOVOS HORIZONTES, DE UMA IGREJA CATÓLICA QUE CADA VEZ SE MOSTRA MENOS CATÓLICA, SENÃO VEJAMOS, OS ESCUTEIROS CATÓLICOS, SÃO OS QUE SEGUEM UMA DOUTRINA, CATEQUESE, MAS NÃO ENSINA, QUE OS DIVORCIADOS TAMBÉM SÃO FILHOS DE DEUS, E A IGREJA JÁ ANUNCIOU QUE TODOS OS CHEFES OU CAMINHEIROS, QUE SE TENHAM DIVORCIADO, TERIAM DE SE AFASTAR DA IGREJA, ALEGANDO ESTA, QUE QUEM JÁ NÃO TÊM AMOR PARA DAR À SUA MULHER, TAMBÉM NÃO PODE TER PARA DAR ÁS CRIANÇAS, VISTO QUE ESTAS TÊM QUE TER 2 FIGURAS DE REFERÊNCIA. É TRISTE QUE A IGREJA PENSE ASSIM, POIS AS REFERÊNCIAS SÃO AS DE CASA DELES E NÃO ALI, ONDE SÓ ESTÃO AOS SÁBADOS E DURANTE 4 HORAS. VOU QUASE SEMPRE À MAÇORRA, POIS TENHO AÍ OS MEUS CUNHADOS E SOGROS E QUEM SABE SE NÃO NOS POSSAMOS CONHECER. DE QUALQUER FORMA, PODEMOS SEMPRE TROCAR E-MAILS. ROGÉRIO

 

Companheiro Rogério

Seja bem-aparecido! Fico feliz por os pais da sua mulher serem de Macieira da Lixa. E residirem no Lugar da Maçorra, tal como eu. Somos vizinhos. Vou saber quem eles são. Será que me vêem como o Rogério Rosa já me vê?

O que faz a hierarquia da Igreja católica, no que respeita aos casais que se divorciaram e voltaram a casar (pelo Registo Civil) é simplesmente cruel. Vê-se logo que ela é constituída por homens celibatários à força. Nunca entenderam o Evangelho ou Boa Notícia de Deus que Jesus nos fez presente com a sua prática de misericórdia sem limites e de combate sem tréguas contra o farisaísmo e a prepotência da Lei de Moisés. Felizmente, é de Jesus que somos discípulos, não da hierarquia católica!

Dê-lhes combate, sempre que possível. Estes nossos irmãos precisam que nós os enfrentemos com a força do amor fraterno e da Verdade que nos faz livres. Não se deixe acorrentar sob o jugo das suas doutrinas terroristas. Foi para a Liberdade que Jesus, o Cristo, nos libertou (Gálatas 5, 1).

Quando vier por cá, não deixe de aparecer. Para o abraço. E para uma conversa ao vivo. As nossas conversas por e-mail serão muito mais familiares, depois de nos conhecermos cara a cara.

Saúdo a sua companheira, minha conterrânea. E deixo-lhe a si o meu abraço.

Mário


E-mail, Paula

2005 OUTUBRO 03

Boa noite! Esta é a 1ª vez que lhe escrevo. A primeira de algumas, espero (não demasiadas para não o aborrecer). Descobri, "por acaso" a sua página e devorei cada palavra...!

Antes de mais, uma breve apresentação: Chamo-me Paula Cristina, tenho 36 anos, sou enfermeira num centro de atendimento a toxicodependentes, divorciada e mãe de 2 filhos (10 anos e outro 3 meses). Este último fruto de uma união actual com um homem da Igreja evangélica. Eu sou católica (o 1º casamento foi pela Igreja...) mas desde há muito afastada da Igreja (mas não de Deus) por desilusões sucessivas e por, à semelhança de muitas pessoas, não me identificar com muitas posições da Igreja Católica. Acompanhei algumas vezes o meu companheiro a cultos na Igreja Evangélica. Primeiro por curiosidade (até porque queria saber/perceber mais sobre o que era), mas depois por interesse genuíno. De facto, nos cultos, encontrei muitas das coisas que gostaria que existissem na I. Católica. Não me vou alongar nas diferenças, até porque, com certeza, o Padre Mário sabê-las-á melhor do que eu. Queria só dizer-lhe, que apesar de muito me fazer sentido, não me converti à Igreja Evangélica e agora, com este filho, estou com algumas dúvidas acerca do melhor procedimento. Depois de conversar com o meu companheiro, chegámos a acordo que o nosso filhote seria baptizado e frequentaria o equivalente à catequese nas duas Igrejas, sendo que um dia mais tarde escolheria (já com conhecimento de causa) o seu próprio caminho. No entanto tenho muitas dúvidas. Será que não vai ser confuso para ele ouvir coisas distintas e por vezes contraditórias? Ou será que bastaria uma já que as duas são cristãs? E depois, será que ambas as Igrejas vão aceitar e compreender tal situação? É que, para dizer a verdade, nem sei se posso baptizar o meu filho, já que soube que muitos padres se recusam a baptizar os filhos de pessoas que vivem maritalmente. A ser verdade, talvez as minhas dúvidas se desfaçam, pois vou ser eu que não vou querer que o meu filho pertença a uma Igreja que não aceita todos os que a procuram. Não é nessa Igreja que acredito e não é essa a Fé que professo!

Peço-lhe pois ajuda. Se puder e quando puder, já que existem urgências de resposta bem maiores do que a minha. Bem-haja por existir e obrigada por me ler! Calorosamente, Paula

P.S. Como faço para poder receber o jornal em minha casa? Obrigada

 

Querida Paula

1. Para receber o Jornal Fraternizar, apenas terá que me enviar o seu endereço postal. Reencaminhá-lo-ei para o secretário da Associação e ele enviar-lho-á sem demora. E, se quiser, poderá receber duma só vez os 4 exemplares deste ano 2005. (Fomos jornal mensal, durante muitos anos, mas desde que nos tiraram o porte-pago… passamos a trimestral). Se não quiser os 4, receberá apenas o número 159, que está em distribuição.

2. Bem-haja por ter escrito e por partilhar comigo algumas das suas preocupações. Continue, enquanto lhe parecer oportuno. É para isso que estou na net.

3. Não mudou de Igreja e creio que fez bem. Também eu sou padre católico muito protestante e nunca me passou pela cabeça sair da Igreja católica e aderir a outra, ou fundar outra. Como sabe, Jesus não fundou Igreja nenhuma. E nenhuma Igreja, nem nenhuma religião são invenção de Deus. Todas são invenção nossa. O que nos deve levar a ter algum cuidado com cada uma. Podem dizer-se de Deus e não passarem de hábeis comerciantes do nome de Deus ou de Jesus. Quando dois ou três estão reunidos em nome de Jesus, ele está no meio. É verdade. Mas já pode não estar, quando as pessoas se reúnem em nome da Igreja tal ou tal. Entre Igrejas concretas e Jesus não há identificação. Temos que ter isto em atenção, para não cairmos na idolatria eclesiástica! Acho até que hoje as Igrejas estão a ser mais obstáculo do que via para o Deus Vivo chegar a nós. Não são as Igrejas que se dizem evangélicas e cristãs que o são de facto. Só pelos frutos se conhecem as Igrejas. E todas deixam muito a desejar.

4. O seu menino. Baptizá-lo? Mas porquê essa pressa? Porque não proceder como é mais correcto: ajudá-lo a crescer em idade, estatura, sabedoria e em graça e deixar que ele, quando chegar à idade de optar, faça a sua escolha? E esta, antes de ser entre uma Igreja e outra Igreja, deverá ser entre Deus e o Dinheiro, entre Jesus de Nazaré, o Senhor, e o senhor do Império de turno e os outros senhores deste mundo.

5. O ideal será que a Paula e o seu companheiro sejam hoje e aqui outros Jesus, também para o vosso menino. E ele conhecerá por experiência o Sopro ou Espírito de Deus Vivo, à medida que Ele se fizer sentir no vosso viver quotidiano. É também para isto que existem as Igrejas. Desconfie, por isso, quando elas põem o acento tónico nas reuniões de culto. E no dízimo. Quando assim é, as Igrejas não têm o Sopro ou Espírito de Jesus. Porque o Espírito de Deus Vivo com o que se preocupa é com este nosso mundo, o mesmo é dizer, é com a Política, não com a Religião.

Fique com a minha ternura. Mário


E-mail, Vítor

2005 SETEMBRO 28

Sr. Padre Mário: Tenho assistido com muito agrado à sua voz crítica ao Catolicismo em favor do verdadeiro evangelho do Senhor Jesus. É claro que a sua atitude abala com as consciências, tanto da população tão arreigada nas tradições católicas, tanto dos altos representantes da igreja católica. Quero dizer que assim como 95% dos Portugueses, eu era católico (pelo menos de rótulo), mas há cerca de 2 anos recebi a verdadeira Boa Nova de Jesus na minha vida. Jesus mudou a minha vida, abri meus olhos para o Lindo Evangelho do nosso Senhor Jesus e as promessas da Palavra cumprem-se na minha vida diariamente. As tradições e o envolvimento político da igreja católica têm-na afastado dos caminhos de Deus...como você tem constatado. De volta ao original Evangelho de Jesus eu encontrei o verdadeiro "Ser Cristão".

Quero por este meio dizer-lhe que Jesus tem um plano maravilhoso para sua vida. O Espírito Santo de Deus tem ajudado você nessa atitude de descobrir a verdade há tanto tempo encoberta pela poeira criada por tradições e crendices.

Esperando Resposta e com os melhores cumprimentos. Vítor. Deus o Abençoe.

 

Caro Companheiro Vítor

Agradeço a sua mensagem. Como sabe, a minha postura na Igreja católica tem sido a de me manter dentro e não a de sair, para aderir a outra, ou para fundar outra. Foi nesta Igreja católica em que os meus pais me baptizaram, que recebi o Evangelho. E conheci Jesus. Graças, sobretudo, a minha mãe. Muito mais do que aos padres e aos bispos. Muito mais do que à Cúria romana e ao seu Papa-chefe-de-Estado. A Igreja católica é um antro de pecado? E as outras o que são? Um céu aberto? Uma coisa sei: foi no seio da Igreja católica que recebi o Evangelho e que dei a minha adesão pessoal a Jesus de Nazaré, o Cristo. E é graças a esta conversão a Jesus e ao Evangelho de Deus que ele nos deu a conhecer, com a sua prática e palavra, que acabei no que hoje sou: um presbítero católico muito protestante. Tão protestante, que vivo longe dos templos e dos altares. Mas próximo do povo que sofre, do povo humilhado e oprimido, também pelas catequeses mais ou menos terroristas das Igrejas. E sinto-me bem assim. Diz-me que tenho uma missão na terra. É verdade. Não é servir nenhuma Igreja, mas o Reino/Reinado de Deus. Para isso nasci e vim ao mundo: para dar testemunho da verdade. Em comunhão com Jesus, evidentemente. E por força do seu Espírito.

Tenha cuidado, companheiro: Nenhuma Igreja é a verdade, nenhuma Igreja é o caminho, nenhuma Igreja é a vida. Só Jesus: “Eu sou o caminho, a Verdade e a Vida”. Nunca deixe à porta da sua Igreja a consciência crítica. Entre sempre com ela. E esteja vigilante. Porque não faltam por aí mercenários disfarçados de pastores. Nem lobos com pele de cordeiro. Infelizmente, comerciantes de Cristo é o que hoje mais há por aí. Também entre as Igrejas ditas protestantes, evangélicas e cristãs. Estejamos vigilantes, como nos recomenda Jesus. O meu abraço. E o meu afecto. Mário


E-mail, Paulo

2005 SETEMBRO 27

Caro P. Mário: Este episódio surrealista protagonizado por Fátima Felgueiras espelha bem a quão pouco rigorosa é a justiça dos Homens, quando, como em outros processos mediáticos vem sucedendo, diferentes juízes podem deliberar de forma tão díspar, recurso após recurso, no decurso da tramitação dos processos. Faz-me confusão sobretudo o elevado grau de subjectividade das decisões a que temos assistido. A reforma da Justiça é uma das que tarda em concretizar-se.

No meio de tudo isto, aquilo que me prendeu mais a atenção foi a infeliz coincidência (ou não) deste caso com o seu (P. Mário) recente apelo a uma “revolução feminina”. Consola-me pensar que se trata de uma “excepção que confirma a regra” (a de que este mundo seria bem melhor se menos dominado pelos homens). Um abraço amigo do Paulo.

 

Amigo Paulo

Assim é. Quando as mulheres se passam de armas e bagagens para o poder, lá se vai o feminino. E lá se vai a política. O que defendo não é essa via. Defendo a Política contra o poder. E digo também que as mulheres estão em geral mais vocacionadas para a Política. Mas não estão imunes da tentação do poder. Podem deixar-se seduzir por ele. Continuam mulheres, mas perdem a dimensão do feminino. Ficam com os mesmos tiques dos homens que se deixam seduzir pelo poder. E o poder faz delas gato sapato. Os grandes interesses económico-financeiros sempre andam por aí à solta à procura de quem lhes faça o jogo. Se até as mulheres conseguem seduzir, então ficam com o caminho livre, provavelmente, ainda mais do que com os homens que se deixam seduzir por ele. Temos que estar vigilantes. E saber discernir. A corrupção do óptimo dá o péssimo. Daí o meu alerta de fundo: O poder corrompe-nos e corrompe/infantiliza as sociedades. A Política salva-nos e salva/autonomiza as sociedades. Pela Política é que vamos. Pelo poder definhamos. O meu abraço e o meu afecto. Mário


E-mail, Tiago

2005 SETEMBRO 16

Caro Padre Mário, A fé no Deus de Jesus não é uma fé fácil, daquelas que facilmente se compra nos shoppings eclesiásticos existentes tanto ái em