Correio electrónico não confidencial

 

Neste espaço, faço questão de partilhar com todas as pessoas que frequentarem esta minha página, elaborada a partir de Macieira da Lixa, aquele correio electrónico mais substancial que me é endereçado, bem como as minhas despretensiosas respostas. Para salvaguardar a privacidade de quem me escreve, nunca revelo mais do que um dos nomes da pessoa. Assim, só a própria pessoa sabe que o correio enviado para mim é dela, porque se reconhecerá no texto. Decidi-me por esta partilha do correio electrónico, ao pensar que muitas das questões aqui abordadas poderão interessar a mais pessoas. É também uma forma simples de nos ajudarmos uns aos outros, umas às outras. Ou não fosse verdade que mulher alguma, homem algum é uma ilha. Somos seres-em-relação, a caminho da comunhão total. Escrevam, que eu respondo, não como aquele que tem a última palavra, mas como vosso companheiro, amigo e irmão.


2004 Dezembro 31

TMI-Tribunal Mundial sobre o Iraque. Sessão do Porto

SOLICITANDO A RESPECTIVA DIVULGAÇÃO PELA SUA "MAILING LIST"  JUNTO ENVIAMOS A SÍNTESE-ACUSAÇÃO RESULTANTE DA SESSÃO DO PORTO DA AUDIÊNCIA PORTUGUESA DO TRIBUNAL MUNDIAL SOBRE O IRAQUE.

COM AS MELHORES SAUDAÇÕES

PELO GRUPO DO PORTO TMI-AP

FERNANDO LACERDA

JORGE ROCHA

PAULO ESPERANÇA

*******************************

ACUSAÇÃO 

I – INTRODUÇÃO

1-     A Sessão do Porto da AP-TMI foi constituída por duas MESAS – a de DEPOENTES, integrada por Fernanda Araújo, Professora e membro do Grupo do Porto AP-TMI, Nuno Grande, Médico e Professor Universitário, Artur Águas, Médico e Professor Universitário em representação da Associação dos Médicos Portugueses contra a Guerra Nuclear e todas as Guerras, Manuel Raposo, Arquitecto e membro da Comissão Nacional Organizadora da AP-TMI e Padre Mário de Oliveira, Jornalista. A de SÍNTESE foi composta por José Mário Branco, compositor, José Rocha Paiva, Animador Sócio-Ambiental, membro da Direcção do grupo “Terra Viva – Terra Vivente” – Associação de Ecologia Social, Mestre José Rodrigues, Escultor, Luiza Cortesão, Professora Universitária, José António Gomes, Escritor, Rui Pereira, Jornalista e Escritor e Jorge Rocha, membro do grupo do Porto AP-TMI, moderador. Os escritores Mário Cláudio e José Viale Moutinho remeteram reflexões postas à consideração de todos os intervenientes;

2-     A cada um dos DEPOENTES foram lançados previamente alguns quesitos de modo a que pudessem orientar tematicamente as suas intervenções. Aos integrantes da mesa de SÍNTESE foi pedido um COMENTÁRIO geral aos DEPOIMENTOS prestados com possibilidade de acrescentarem pontos, assuntos ou particularidades que considerassem relevantes;

3-     A presente síntese, que deve ser considerada como ACUSAÇÃO – da responsabilidade exclusiva do Grupo do Porto – pretende, assim, reproduzir a fotografia real do que consideramos terem sido as linhas mestras de todo o conteúdo que perpassou pela Sessão de 12 de Novembro. Incluindo o contido na declaração política de abertura da sessão a cargo de Paulo Esperança em nome do grupo do Porto da AP-TMI, nas mensagens, das Direcções do Porto do Bloco de Esquerda e do PCP, da Associação Cultural de Chafé, Viana do Castelo e, naturalmente, das poucas (as que o tempo disponível permitiu) intervenções da assistência.

 

II – SÍNTESE DAS RESPOSTAS AOS QUESITOS

 

QUESITO Nº 1

1-O ATAQUE AO IRAQUE É PRODUTO DE UMA ORIENTAÇÃO POLÍTICA INTEIRAMENTE NOVA ASSUMIDA PELA ADMINISTRAÇÃO DE G.W. BUSH E PELOS CHAMADOS NEOCONSERVADORES?

2-EM QUE MEDIDA, ESSE ATAQUE PROLONGA, COM NOVOS MÉTODOS, A POLÍTICA TRADICIONALMENTE HEGEMÓNICA DOS EUA?

3-OS EUA, PRINCIPALMENTE DEPOIS DA 2ª GUERRA MUNDIAL TÊM SIDO UM FACTOR DE PACIFICAÇÃO NO MUNDO?

 

CONCLUSÃO

a)  FICA PROVADO que a orientação não é nova nem o mundo ficou mais seguro!

Em 1980 James Carter – entretanto Prémio Nobel da Paz – avisava que qualquer tentativa estrangeira para controlar a região do Golfo Pérsico seria considerada um “ (…) ataque aos interesses vitais do EUA (…) ”. Em 1992, Paul Wolfowitz no seu “Guia de Planeamento e Defesa” referia sete pontos críticos à liderança dos EUA – o Iraque era um dos principais. No primeiro semestre de 1998 o grupo que elaborou o “ Projecto para um Novo Século Americano” (PNAC) exigia a Bill Clinton o derrube de Saddam Hussein. Em Setembro de 2000 o relatório “Reconstruindo as Defesas da América” - “PNAC”, defendia ataques preventivos considerando não se poder “ (…) permitir que Coreia do Norte, Irão, Iraque…minem a liderança ou ameacem a pátria americana (…) ”” ;

b) Entretanto, Saddam Hussein passou de aliado a inimigo: a chacina sobre o povo curdo foi considerada irrelevante mas a gradual autonomia iraquiana tornou-se notada por quem mantinha sob vigilância um território de largos recursos.

FICA PROVADO que duas medidas estruturais constituíram o princípio do fim do Iraque enquanto país soberano: a constituição em 1990 do Conselho para a Cooperação Árabe criando acordos de cooperação regionais e a indexação do preço do seu petróleo ao euro, em Novembro de 2000;

c) A herança política americana tem fornecido ao longo dos anos, com presidentes  “burros” (símbolo do Partido Democrata) ou “elefantes” (símbolo do Partido Republicano), uma concepção de política expansionista, cruzada anti-comunista, teorias conspirativas, alucinações colectivas em nome da luta contra o terrorismo. No fim, disputas de esferas de influência e locupletamento dos bens e riquezas alheias.

A vida e os factos PROVAM ainda que os EUA, principalmente depois do fim da segunda Guerra Mundial estenderem ostensivamente os seus tentáculos protagonizando, pelo menos, quarenta e duas intervenções armadas em países soberanos à revelia de qualquer respeito pelas normas do direito internacional.

As centenas de milhar de soldados repartidos por mais de 800 bases espalhadas por todo o planeta – dos 191 países reconhecidos pela ONU 130 têm algum tipo de presença militar norte-americana – PROVAM que o direito internacional para os EUA é para ser usado ao rimo das conveniências e da chantagem económica e financeira;

d) FICA AINDA PROVADO que o velho conceito de acção em “legítima defesa” – ao abrigo do artigo 51º da Carta da ONU – teve revogação tácita e que o seu Conselho de Segurança - à revelia do que estabelecem os artigos 39º e 42º da Carta da ONU – serviu apenas como órgão consultivo, porque não deu jeito.

 

QUESITO Nº 2

1- ANTES DA INVASÃO DO IRAQUE OS EUA ANUNCIARAM VARIADAS VEZES QUE SERIA UMA GUERRA “LIMPA E CIRÚRGICA”. O QUE SE PASSOU A SEGUIR CORRESPONDE A ESSA “PROMESSA”?

2- A LUTA CONTRA O QUE OS ESTADOS UNIDOS TÊM DESIGNADO POR TERRORISMO ACRESCENTOU MAIS ALGUM PERIGO À HUMANIDADE NO QUE TOCA AO USO DE ARMAS DE DESTRUIÇÃO MASSIVA POR PARTE DAS POTÊNCIAS DOMINANTES?

 

CONCLUSÃO

a) OS FACTOS PROVAM que a guerra foi suja e indiscriminada e que as armas de destruição maciça foram utilizadas abundantemente pela coligação invasora causando, criminosamente danos nos intervenientes dos “dois lados”.

Os EUA e restante aliados utilizaram, ou permitiram a utilização, de inúmeras armas ilegais incluindo bombas de fragmentação e bombas com urânio empobrecido;

b) Indicadores resultantes do estudo de dados relativos à chamada “ 1ª Guerra do Golfo – 1991” demonstraram que mais de 180 mil veteranos de guerra são portadores de incapacidades múltiplas – duas vezes e meia mais que no Vietname, e cinco vezes mais que na Guerra da Coreia. As principais doenças – além do inevitável stress pós-traumático – foram as cefaleias e os diversos tipos de cancro. Das crianças concebidas depois do regresso dos pais da “frente de guerra” 67 % nasceram com malformações congénitas raras.

Todos os elementos disponíveis apontam para a acção de elementos nucleares ionizantes especialmente, além do urânio empobrecido – mais barato e fácil de trabalhar – o tungsténio radioactivo;

c) Na invasão de 2003 foram utilizadas novas armas entretanto testadas nas montanhas do Afeganistão durante o ataque ao “regime taliban”: as “mini – nukes” – armas perfurantes com cabeça nuclear. Estas armas, com 5 a 10 megatoneladas de potência são susceptíveis de provocar um buraco de 18 metros de profundidade e uma cratera de 43 metros de raio. A explosão expande-se até um quilómetro;

d) Estudos realizados e publicados na revista médica britânica LANCET para comparar mortalidades durante dois períodos – 6 a 14 meses antes da invasão e 8 a 17 meses depois de Março de 2003 permitiram aferir que o risco de morte da população iraquiana aumentou 2,5 vezes depois da intervenção da coligação liderada pelos EUA. As estimativas apontam para o facto de terem ocorrido, devido à invasão, 98 mil mortes na população iraquiana (fruto essencialmente de ataques aéreos) que – se outrora morria primordialmente de enfarte do miocárdio, doenças cardiovasculares e outras doenças crónicas – passou a morrer devido aos actos de violência das forças da coligação invasora. A maioria das mortes corresponde a mulheres e crianças tendo o risco de morte violenta aumentado cerca de 58%;

e) FICA ASSIM PROVADO que os EUA não engendraram nenhuma “guerra limpa” e que se permitiram utilizar o seu armamento atómico sabendo as consequências criminosas que isso representaria para a humanidade, incluindo os seus próprios soldados. DEVEM POR ISSO SER ACUSADOS de crimes de guerra tipificados, nomeadamente, no artigo 8º do Estatuto do Tribunal Penal Internacional.

Os EUA deverão ainda – pela utilização de armas de destruição maciça e experimentação de material nuclear à revelia das convenções internacionais que se recusam a assinar – SER ACUSADOS de crimes contra a humanidade em face do genocídio que têm vindo a gerar no Iraque.

 

QUESITO Nº 3

1-AO CONTINUAR A APOIAR, NO PLANO POLÍTICO E PRÁTICO, A DECISÃO DOS EUA/GB DE INVADIREM E OCUPAREM O IRAQUE, O GOVERNO PORTUGUÊS PODE DESVINCULAR-SE DOS RESULTADOS DECORRENTES DESSA ACÇÃO?

2-AS PROVADAS MENTIRAS DIFUNDIDAS PELA COLIGAÇÃO INVASORA E POTENCIADAS PELO GOVERNO E PODER PORTUGUESES PODEM INDICIAR MÁ FÉ, SEGUIDISMO E DEFESA DE INTERESSES OBSCUROS QUANTO À “PARTILHA DO BOLO DA RECONSTRUÇÃO” E À PILHAGEM DE RECURSOS NATURAIS IRAQUIANOS?

3-EM QUE MEDIDA O REITERADO APOIO À POLÍTICA DA COLIGAÇÃO OCUPANTE FAZ DO GOVERNO PORTUGUÊS CÚMPLICE DO QUE SE PASSA ACTUALMENTE NO IRAQUE?

 

CONCLUSÃO

a) A escolha do governo português então liderado por Durão Barroso foi um acto consciente de cumplicidade com uma política de guerra que o envolve em todos os actos criminosos subsequentes e cuja suposta periculosidade pretendeu transmitir com políticas internas securitárias roçando o campo da xenofobia.

O governo português DEVE SER ACUSADO formalmente por ter apoiado a invasão de um país soberano reconhecido pela comunidade internacional; DEVE SER ACUSADO de colaboracionismo activo pela sua participação na “Cimeira da Guerra” realizada na Base das Lajes; DEVE SER ACUSADO pela colaboração prática na ocupação do Iraque através do envio de forças da GNR;

b) FICOU PROVADO que a decisão belicista foi deliberada já que, tendo invocado previamente o conhecimento objectivo da existência de armas de destruição maciça no Iraque, o governo português nunca se retractou das falsidades em que incorreu e ajudou a difundir;

c) O governo português agindo contra a maioria – por várias vezes expressa – dos seus concidadãos DEVE SER ACUSADO de cegueira desmedida relativamente aos EUA, porventura confiante na partilha de algumas migalhas do “bolo da reconstrução”.

Ao nomear um seu enviado – José Lamego do Partido Socialista – para “ajudar” a “Autoridade de Governo” nomeada por G.W.Bush o governo português, depois de declarado o “fim da guerra” , terá conseguido a celebração de mais de vinte contratos no sector petroquímico, têxtil e de obras públicas cujo risco financeiro será coberto pelo Banco Millennium BCP que integra um consórcio internacional liderado por entidades bancárias do EUA e cujo risco estará assegurado por um “fundo para a recuperação do Iraque” resultante de dinheiro proveniente do programa petróleo por alimentos ;

d) Todos estes factos provam que HOUVE INTENÇÃO DELIBERADA dos governos de Durão Barroso/Santana Lopes – de ajudar a atacar e pilhar um país independente não podendo eximirem-se à cota – parte de responsabilidade nos acontecimentos que têm vindo à luz do dia como os massacres de Abu Greib, ou os atentados à Convenção de Genebra sobre os direitos dos presos como acontece em Guantánamo.

e) Também o Presidente da República não pode ser afastado de algumas responsabilidades. Sendo certo que a GNR é uma força dependente do Governo poderia e deveria ter sido mais  na denúncia do papel do poder legislativo e executivo português no alinhamento incondicional com a coligação invasora. ACUSA-SE o Presidente da República de ter proferido afirmações diversas e dispersas sem que usasse o direito constitucional de se dirigir ao Parlamento ou aos cidadãos deste país.

 

QUESITO Nº 4 

1-AS ACUSAÇÕES CONTRA O IRAQUE (ADM, EXÉRCITOS INVENCÍVEIS, SUPORTE DE REDES TERRORISTAS INTERNACIONAIS ETC.,) – QUE SE PROVARAM SEREM FALSAS – RESULTARAM DE ENGANOS, DE ERROS DE INFORMAÇÃO – OU FORAM MONTAGENS PARA ILUDIR A OPINIÃO PÚBLICA E FAZER DA GUERRA UM FACTO CONSUMADO?

2-QUEM CONSTRUIU, EM PORTUGAL, ESSA CENTRAL DE INTOXICAÇÃO? SÓ O GOVERNO? A COMUNICAÇÃO SOCIAL – EM PARTICULAR ALGUNS “FAZEDORES DE OPINIÃO” – NÃO PODEM SER RESPONSABILIZADOS POR TEREM ALINHADO PREMEDITADAMENTE NESSA CAMPANHA DE INTOXICAÇÃO E MENTIRA?

3-DEVE-SE -LHES, OU NÃO, EXIGIR UM RETRACTAMENTO PELO QUE DESPUDORADAMENTE ANDARAM A “VENDER”?

 

CONCLUSÃO

a) Em Portugal a comunicação social – não será despiciendo a sua concentração em três ou quatro grupos económicos – funcionou a reboque das posições maioritárias que lhe foram sendo induzidas. Desde oficiais fardados remetidos por Paulo Portas para os estúdios de televisão até às fontes utilizadas – geralmente americanas ou “ocidentais” - de tudo um pouco se viu para fazer realçar tópicos como – “libertar o Iraque”, ou “a inevitabilidade do uso da força bélica”. Poucos se preocuparam com a existência ou não de ADM no Iraque, sobre e legitimidade e legalidade para o acto invasor e para as consequências para o mundo e para a região.

Por isso FICA PROVADO que o sistema mediático português agiu em defesa de uma das “partes”, mentiu na informação pretensamente objectiva que foi transmitindo sem qualquer crivo matrizador ou verificável. Construiu primeiras páginas que indiciavam que os “mauzões” iam ser castigados e que o “mundo livre” estava de volta.

Em nenhum órgão de comunicação social português se viu qualquer espécie de autocrítica ao contrário de alguma imprensa americana que já assumiu publicamente ter feito parte do processo manipulatório; 

b) A par da “iniciativa informativa” desenrolou-se todo um processo de intoxicação que passou por “comentadores” e “fazedores de opinião” omnipresentes e omnipotentes na esmagadora maioria dos órgãos de comunicação social, alguns deles com posições de destaque na respectiva direcção editorial.

Sem se pôr em causa o direito à livre opinião ACUSA-SE, no entanto, a maior parte desses “fazedores de opinião” de a terem dado à estampa fundamentando-a em mentiras e mistificações sem qualquer laivo de arrependimento.

Incitar ao crime é tão bárbaro como cometê-lo!

c) Na generalidade a comunicação social portuguesa DEVE SER ACUSADA de se ter mostrado para além de toda a razoabilidade e aquém de todos os procedimentos de confirmação jornalística imprescindíveis ao contraste da informação, excessivamente compreensiva e crédula perante a informação, os factos e as fontes que lhe chegavam privilegiando a verdade oficial transmitida pela coligação invasora.

Contacto: http://tribunaliraque.no.sapo.pt/ pauloesperanca@netcabo.pt

GRUPO DO PORTO TMI – AP

DEZEMBRO DE 2004


2004 Dezembro 30

E-mail, Fernando

Bom dia padre Mário: Serve a presente para iniciar um diálogo que espero se venha a manter e que seguramente será frutuoso para mim, e espero que para o padre Mário também. Ofereceram-me, a pedido meu, o seu livro "Ouvistes o que foi dito aos antigos. Eu, porém, digo-vos" e ao longo da sua leitura, tenho descoberto que me identifico em absoluto com as suas ideias e com a sua postura existencial; louvo a sua coragem, padre Mário, por ter sido fiel ao espírito de Jesus que impregna todos os evangelhos. Espírito esse, que só uma pessoa com uma inteligência particular consegue captar, o senhor padre teve e tem essa inteligência, eu tenho 37 anos de vida e só agora, começo a descobrir esse espírito. Passando agora às meditações que a leitura do seu livro me suscitou, passo a expor o seguinte: o padre diz a páginas tantas, que Jesus liberta, no verdadeiro sentido da palavra, ou seja, liberta-nos de toda a espécie de grilhões interiores, e aqui surge a minha dúvida que é mais um apelo ao saber e à experiência do padre Mário: para conseguirmos essa libertação através de Jesus, basta a leitura dos evangelhos e a vontade para colocar a sua mensagem em prática? E para ter essa vontade para além da leitura dos evangelhos é preciso recorrer à oração, e como orar, pois, eu sou baptizado e fiz a catequese e a chamada 1ª comunhão, tendo ao longo da minha vida deixado e retomado várias vezes a igreja eclesiástica, mas, agora penso nunca mais lá voltar, pois, nunca me deu a paz interior que eu pensava lá encontrar. Enfim, para ser sucinto, só me encheu das paranóias perante a vida que o padre Mário bem conhece. Assim sendo, penso que nunca aprendi a orar convenientemente, pelo que peço ao padre Mário alguns conselhos neste plano. Por fim, termino esta  missiva electrónica, perguntando ao padre Mário, se aqui na zona onde resido (Sacavém) ou mesmo em Lisboa, existe algum grupo cristão de base, pois, gostaria de frequentar um.

Um abraço em Cristo, irmão padre Mário, Fernando

 

Caro Fernando

Bem-haja pelas suas palavras amigas. São um estímulo. Assim, nem tudo são espinhos, incompreensões, ataques, calúnias. Tenho recebido muito de tudo isso, sobretudo, da parte dos irmãos católicos. Mas também recebo gestos como o seu. Procuro tirar partido de tudo, até das ofensas que me fazem.

Orar? Escutar o Evangelho, enquanto Narrativa com Espírito Santo dentro, já é orar. Deixar-se fazer por esse Espírito ou Sopro, como Jesus se deixou fazer, é levar o acto de orar ao seu ponto máximo.

Muitas pessoas oram, como quem pretende convencer Deus a apoiá-las e a apoiar os seus interesses. Poucas oram, para que os interesses de Deus se realizem nelas. É por aqui que havemos de ir. É claro que as Igrejas não nos falam assim. Elas querem que nós frequentemos os seus cultos e deixemos lá o nosso dinheiro. Mas Deus e Dinheiro são incompatíveis…

Mais do que falar, orar é escutar. Escutar Deus. Deixar Deus ser Deus em nós. O Espírito de Deus fala-nos, vem até nós, nos acontecimentos de que é feita a História e as nossas vidas. O que nos diz, por exemplo, a esmagadora tragédia da Tailândia? Mas não basta escutar. É preciso agir em conformidade. No Mundo. Para que o Mundo seja cada vez mais Reino/Reinado de Deus. Se o orar não nos levar a comprometer-nos politicamente no mundo, é sinal de que não passou duma acção nossa. Orar é Acção de Deus, do Espírito de Deus em nós. E o Espírito de Deus, onde actua, é para fazer novas todas as coisas, não para deixar tudo como está! 

Comunidades cristãs de base na região de Lisboa? Não conheço. Há grupos de cristãos, como NÓS SOMOS IGREJA, CRC-Centro de Reflexão Cristã, sob o patrocínio dos padres dominicanos, mas comunidades de base propriamente ditas não conheço. Seria uma boa ocasião para o Fernando dar origem a uma. Sabe que lá onde dois ou três se reúnem em nome de Jesus, já começa uma comunidade? Oxalá o Fernando faça acontecer uma comunidade de base aí!

Fico por aqui. Um abraço, Padre Mário


2004 Dezembro 21

E-mail, Vasco

 

Olá bom dia. Eu chamo-me Vasco, 28 anos, e estou a responder a uma mensagem sua que o meu pai, o Elísio de Castelo Branco, reencaminhou.

Pois é, muita saliva tenho gasto com o meu pai acerca dos tempos que passaram, passam e passarão... Muita saliva tenho gasto também com familiares, amigos e conhecidos mas poucos se apercebem do que aí vem. E quando pergunto se alguém tem ao menos uma ideia que pense ser válida e concretizável para começar a inverter o processo, nada. Absolutamente nada. O nível de politização da população actual é extremamente reduzido e por isso inquietante. Em plena sociedade da informação esta constatação não deixa de ser um paradoxo... E hoje, a viver e trabalhar próximo de Genebra, numa organização internacional - o CERN, é muito preocupante verificar que a actual alienação afecta todos. E estou a falar de pessoas de diferentes países todas com com estudos superiores!

Muitas vezes disse e digo que o sistema está viciado e sem saída e que para tal temos que repensar os mecanismos de participação após o que, disparando algumas ideias, fica tudo de boca aberta. Desconfio que nem sequer conseguem perceber o que lhes estou a dizer...

Como consequência, propus-me escrever um texto no qual exponho uma dessas ideias. É esse pequeno texto que lhe envio como resposta ao seu apelo "Imaginação política é preciso".

Espero que faça bom uso dele e que esta pequena mensagem que troco consigo seja a primeira de muitas. Eis:

 

O VOTO EM BRANCO COMO MEIO PARA REDUZIR A ABSTENçÃO E RESPONSABILIZAR OS POLÍTICOS

É usual, sempre que se avizinha um novo acto eleitoral, ouvir os candidatos e “fazedores de opinião” apelar à participação dos cidadãos, apelar para que estes não se abstenham. Creio que estamos todos de acordo neste ponto. A participação é essencial.

Mas, o que significa participar? Participar será tão só e apenas “descarregar” o voto?

Até que ponto, hoje, o voto é importante quando nos confrontamos cada vez mais com promessas eleitorais que nunca chegam a passar disso mesmo? Será que o voto existe só para ser “descarregado” naqueles que se nos “impõem” vindos dos aparelhos partidários? Será que existem alternativas? Somos mesmo obrigados a votar nos candidatos que se chegam à frente e que são sempre os mesmos, ora no Governo ora na Oposição?

Quantos de nós, cidadãos preocupados, tiveram a oportunidade de decidir seja o que for fora do período eleitoral? Já nos deram alguma hipótese? Somos uns imbecis? Não temos experiência?

Que se lixe a experiência, julgo ser preferível novos inexperientes mas com ideias e vontade a velhos experientes corrompidos e sem ideias – excepto as que lhes possam proporcionar mais uns anitos no Poder..

Retomando o rumo, o leitor mais atento prontamente dirá: “claro que há alternativa: o voto em branco”. Mas será o voto em branco mesmo uma alternativa? Contará ele para alterar alguma coisa? Será que as pesso que votaram em branco vêem a sua intenção de voto satisfeita?

É fácil verificar que apesar de haver pessoas que participaram votando, todos os lugares do Parlamento foram ocupados pelos partidos. Estará isto certo, sendo que os que em branco votaram o fizeram por não quererem nenhum dos candidatos que se propuseram? É justo todos os lugares do Parlamento serem preenchidos quando uma percentagem dos votos efectivos não escolheu um partido?

Serão as percentagens eleitorais o espelho da participação? Não esquecendo que a abstenção é também uma forma de participar na medida em que constitui um direito.

Relativamente à população recenseada, será que o partido maioritário o é mesmo? Claro que não! Todos sabemos que relativamente à população recenseada se a abstenção se situar na casa dos 30%, a percentagem real do partido maioritário andará na casa dos 35%. Será justo um partido ou coligação ocupar metade dos lugares do Parlamento quando só teve 35% dos votos da população recenseada?

É claro que estas percentagens são distorcidas pelas abstenções. Nisto creio estarmos todos de acordo. Resta então, para melhorar a distribuição dos lugares, combater a abstenção. E como se combate a abstenção? Ora muito bem, era aí que eu queria chegar.

Será que se combate só com apelos? Principalmente com apelos vindos de quem, muitas vezes, está completamente descredibilizado? Eu acho que não. Como se pode combater então?

Voltando um pouco atrás, que tal usar o voto em branco concedendo-lhe expressão eleitoral? Como? Por exemplo, deixando vazios os lugares que lhes correspondem.

Assustado? Porquê? É Democrático! E permite que quem não se reveja nos candidatos e respectivas equipas e programas tenha um meio eficaz para o dizer e mostrar.

Além de que, dar expressão eleitoral aos votos em branco é um meio que permite (a) reforçar a participação, (b) tornar mais realistas as percentagens eleitorais, (c) responsabilizar os políticos que não cumprem o que prometeram e (d) reduzir a influência de lóbis.

Desenvolvendo um pouco mais, vou passar por cada um dos tópicos atrás citados:

(a)   Reforçar a participação: Sabemos que uma considerável percentagem de abstencionistas o é por estar convencido de que já não vale a pena votar. Por estar convencido de que não há maneira de tirar dos poderes sempre os mesmos. Que ora num lado ora no outro os políticos vão rodando e pulando de cargo em cargo durante 20 e mais anos. Que uma vez no Governo pouco fizeram sendo por isso substituídos e mais tarde reeleitos como se não houvesse mais ninguém válido, com ideias e vontade de trabalhar no partido e no país. São precisamente estes que já não participam que serão “salvos” pois terão uma “ferramenta” eficaz para dizer: “vocês não me servem, não vos quero. Para mim mau ou menos mau é ainda mau. Eu quero bom”. É preferível um lugar vazio a um político mau.

(b)   Como consequência do ponto anterior, obviamente que as percentagens serão mais realistas e representativas do sentimento diverso da população. Ou seja, tornar-se-ão mais próximas da realidade as percentagens que correspondem aos partidos, reforçando a representatividade, a equidade e a justiça na distribuição dos lugares no parlamento. Não cabe na cabeça de ninguém que um governo "maioritário" governe com uma percentagem real à volta dos 30%!

(c)   Confrontar um político com aquilo que mais teme - perder o poder - é meio caminho andado para o responsabilizar. Ou seja, Terá de nos convencer de que vale mesmo a pena votar “nele”, de cumprir, ou tentar verdadeiramente cumprir, as promessas que fez e abandonar a demagogia. Porque senão, nas próximas eleições pode ficar de fora...

(d)   Mais uma vez, como consequência do ponto anterior um lugar vazio significa também menos um potencial representante de um lóbi qualquer.

E quanto às moções de censura e confiança ao governo? Os lugares vazios correspondentes aos votos em branco serão sempre contra ambas, o que, mais uma vez, responsabilizará quem governa e decide e quem vota, tornando mais difícil a obtenção de maiorias absolutas e qualificadas, necessárias para fazer passar certas medidas de extrema importância na vida dos cidadãos.

Contudo, será uma moção de censura ou confiança um bom presságio? Será ela reveladora de que tudo vai bem ou mal?...

Então e se todos votarem em branco, o que é que acontece? Esta é uma hipótese muito remota porque, como sabem, estamos a lidar com uma população heterogénea (Distribuição Normal). A estatística (curva de Gauss) mostra-nos claramente que tal, em condições normais, é improvável. Mais, tal só acontecerá se os candidatos forem todos muito, mas mesmo muito maus - e então merecem-no...- ou se a população for toda do contra (o que é muito improvável – mais uma vez: Distribuição Normal).

Mas mesmo assim, se isso acontecer, como é que se descalça a bota? Então temos mais, por exemplo, uma ou duas semanas de campanha e as eleições repetir-se-ão até que os candidatos convençam o eleitorado ou apareçam outros que o façam - que é o que nós queremos, Outros...

Verdadeiramente, embora quase impossível, uma tal situação não é um problema. Actualmente qualquer uma das Democracias mais sólidas atingiu um elevado grau de sofisticação que lhes permite aguentar muitos meses sem governo: As escolas, hospitais, tribunais, etc, não fecham só porque não há governo ou porque ele está de férias. 

Para pôr em prática tal medida esta terá que ser legislada. Estará quem legisla interessado em legislar “contra si próprio”? Duvido que tal aconteça... mas, lembram-se do que aconteceu ao Império Romano? Nada é eterno...

Não há que ter medo de eleições. Não há que ter medo das crises. São elas que potenciam as soluções criativas. Afinal, não foi a nossa Constituição de 1976 forjada num constante entra e sai? Vasco, 28 anos – Cidadão Preocupado.

 

Caro Vasco

Fiquei agradavelmente surpreendido com a sua mensagem. O seu pai já me tinha dito que havia reencaminhado mensagens minhas para outras pessoas. Não poderia esquecer-se do próprio filho. Bem-haja por ter reagido. Assim, o nosso diálogo alarga-se. Saímos todos mais enriquecidos.

Li a sua reflexão. E fico-lhe grato por a ter partilhado comigo. A sua é uma hipótese interessante, que certamente a actual democracia não viabilizará nunca. Seria assinar a sua própria morte. Todos os descontentes, mulheres e homens, passariam a votar em branco. E, se aos votos em branco fossem atribuídas “cadeiras” vazias no Parlamento, haveria legislaturas em que o número de “cadeiras” vazias seria maior do que o número de deputados activos. Por outro lado, a “cadeira” vazia não fala, nem avança propostas inovadoras, de que estamos aflitivamente necessitados. Provocaria a criatividade dos deputados presentes? Duvido. Submetê-los-ia a uma situação de ridículo permanente. E, com o tempo, não haveria candidatos a deputado, por não quererem sujeitar-se a tamanho ridículo.

Tenho para mim que esta democracia está esgotada. Se, inicialmente, até parecia o melhor dos piores sistemas, hoje, com os vícios a que deu lugar, está a transformar-se no pior dos piores. É sempre melhor não ter uma solução para os problemas, do que ter uma má solução. A ausência de solução aguça o engenho. A má solução favorece a preguiça. E preguiça política é o que hoje mais há nos países ocidentais, precisamente, os países da democracia. Ora, quando se desenvolve a preguiça política, todas as outras preguiças começam também a atacar as pessoas e os povos. E hoje é no que estamos. Somos povos caídos em todo o tipo de preguiça. Às vezes, até parece que as novas gerações já nascem cansadas. Mas a pior preguiça é desistir de sermos criadoras, criadores, inventivas, inventivos. Instalamo-nos na rotina e entregamos o nosso futuro nas mãos de meia dúzia de “especialistas” ou “profissionais”. Veja que até na ocupação dos tempos livres, somos consumidores do que o “Mercado” nos oferece, mediante os “craques” pagos a peso de ouro. Os “craques” trabalham que se fartam, levam uma vida quase de cão, para nos proporcionarem “espectáculos”, a troco de muitos euros. Nós pagamos, mas não nos desenvolvemos, a não ser na dimensão do consumo. A continuar assim, pode lá haver futuro para este presente?

Esta democracia está esgotada. É preciso atirar com ela para o lixo. Está centrada nos partidos que confundem Política com conquista do Poder. Anda tudo de pernas para o ar. Os partidos, com os seus núcleos duros, cozinham os seus jogos de interesse e, depois, servem-nos, com publicidade enganosa, às populações que nada mais podem fazer do que comer ou deitar fora. Os próprios membros inscritos nos partidos que pagam quotas, não têm praticamente nenhuma capacidade de alterar os cozinhados confeccionados pelo respectivo núcleo duro. Muito menos as populações.

Precisamos de partidos políticos, mas não destes que temos, carregados de vícios. Precisamos de voltar a valorizar a Política, como serviço maiêutico junto das populações e com as populações e combater o Poder, fonte de toda a corrupção. Partidos políticos que apostem de novo na gratuidade do serviço dos seus militantes e dos seus líderes. Quando crescem os profissionais políticos, que vivem da política e até enriquecem com a política, morre a iniciativa das populações. Por isso, advogo a existência de partidos-parteira das populações, e desconfio dos partidos-poder sobre as populações. Como diz Jesus no Evangelho: Quem quiser ser grande faça-se o servidor/libertador de todos. E quem quiser ser o primeiro, faça-se o último.

Entretanto, e com eleições legislativas marcadas para 20 de Fevereiro, é preciso, imperioso e urgente garantir que Portas e Santa Lopes no Governo do país nunca mais! Ao mesmo tempo, exijamos dos partidos políticos da área da Esquerda que aceitem humildemente pôr-se em causa. Ou somos capazes de criar uma saudável alternativa a esta democracia, ou acabaremos todos escravos dos “especialistas” em jogos de poder e em tecnologia. Reduzidos à condição de robots mais ou menos satisfeitos. Mas sem nenhuma capacidade de liberdade.

Um abraço de muita expectativa. Padre Mário


2004 Dezembro 18

E-mail, Rita

Amigo Mário: estive a ler as suas reflexões políticas; que pena nem todos terem o mesmo entendimento. Melhor: que pena nem todos s aperceberem da força que pode ter a nossa acção para mudar as coisas. Recuando  um pouco mais no raciocínio: que pena estarmos quase todos tão cegos que já nem acreditamos na mudança.  Por último: porque é que já não se acredita? Acreditar no sentido de ter convicções e esperança, mesmo quando nada indica que as coisas podem ser melhores. A propósito vem uma pergunta que lhe que ro fazer sobre os dogmas da Igreja. Não porque o considere um mero entendido no assunto, mas mais do que isso porque o Mário sabe, de facto, desmistificar certas coisas. Afinal o que é isso da Imaculada Conceição e qual a sua opinião sobre isso?

Um grande abraço da sua sempre leal, Rita

 

Bom dia, Rita: A move montanhas. Porque é que hoje as pessoas não acreditam? Se calhar, porque não estão dispostas a mover as montanhas de problemas que têm pela frente. Preferem a preguiça à fé, isto é, à força-em-acção, que é o que quer dizer “fé”, enquanto “virtude teologal”. Alguns, mais beatos, preferem a religião à fé. Isto é, preferem passar a vida a pedir a Deus que mova as montanhas de problemas, em lugar de o fazerem elas. O resultado é o que se vê! A fé não acontece sem nos fazer suar as estopinhas. Exige muito esforço a todos os níveis, intelectual, físico, relacional e afectivo. A publicidade, hoje, apresenta-nos tudo feito. Pede-nos para não pensarmos. Basta ter um telemóvel sempre à mão e gritar SOS, que logo vem o técnico consertar-nos o pneu que acabou de furar na estrada! A malta que acaba de chegar a um mundo assim, nunca pensa que tem que queimar as pestanas para ser. Para se afirmar. Pensa que basta consumir! E é o que faz.

Imaculada Conceição. É um exclusivo da Igreja católica. Desde há 150 anos que a Igreja, pela voz do papa Pio IX, determinou que aquela mulher judia, de nome Maria, que deu à luz Jesus, quando foi concebida no ventre da mulher que foi a mãe dela, ficou isenta do pecado original. Segundo esse mesmo papa Pio IX e a Igreja em geral, todas as mulheres, todos os homens, quando somos concebidos, contraímos automaticamente o pecado original. Apenas Maria, por estar destinada a ser a mãe de Jesus, foi isenta desse pecado. É o que quer dizer imaculada Conceição. Atente nas palavras: Imaculada = sem mácula, sem mancha, sem pecado. Conceição = concepção.

E o que é o pecado original que todos os seres humanos, no ensinar oficial da Igreja católica, contraem ao serem concebidos, em consequência da união sexual de amor dos respectivos pai e mãe? O ensinar da Igreja diz que, no princípio da humanidade, o primeiro casal humano, do qual todos os outros seres humanos procedem, pecou contra Deus e esse pecado de origem (original) não foi apenas desse casal, mas de toda a humanidade que em semente já estava toda nele!... E a sua transmissão a todos os que nascerem depois deles acontece no momento da concepção. Apenas Maria teria sido isenta. Por uma intervenção especial de Deus. Para que o pecado original também não atingisse, que nasceu dela Jesus!...

Isto diz a Igreja na sua catequese oficial. Desde, pelo menos, St.º Agostinho, no século IV. Acontece, porém, que hoje sabemos que o pecado original nunca existiu, nem sequer houve um casal inicial do qual todos os seres humanos provêm, muito menos, esse casal inicial se chamou Adão e Eva. É verdade que tudo isso vem na Bíblia, no livro do Génesis, mas sabemos hoje que é um mito das origens, um forma poética, simbólica, de relatar o começo da Humanidade. Não é um relato científico nem histórico. Como facto histórico, nunca aconteceu!

Por isso, tudo o que a catequese oficial da Igreja católica continua a ensinar é aldrabice. E o chamado dogma da Imaculada Conceição de Maria faz parte dessa aldrabice. A verdade, à luz da Teologia cristã e do Evangelho de Jesus, é que todos fomos concebidos em graça, em amor, em relação e estamos chamados a abrir-nos progressivamente uns aos outros, umas às outras, num amor cada vez maior e mais desinteressado.

Veja a Rita, como são as coisas. Já agora, se quiser aprofundar esta teologia libertadora, leia/estude o meu livro

NEM ADÃO E EVA, NEM PECADO ORIGINAL (Ed. Campo das Letras). Está lá tudo, tim-tim, por tim-tim. E bem fundamentado. Beijinhos, Mário


2004 Dezembro 11

E-mail, João

Padre Mário: Antes de mais dou-lhe  os meus parabéns pela forma como luta para abrir os olhos a esta gente ( será em vão?...) tão agarrada a dogmas religiosos..

Identifico-me plenamente com a sua vontade e tenho pena de ainda não ter conseguido ler outros livros seus que gostaria de ler. Li o seu livro sobre Fátima e pela primeira vez em muito tempo senti que não estava só neste mundo de beatos por conveniência.

Não sou católico, já nem consigo sequer definir-me como tal, nem consigo admitir autoridade nos rituais que passei enquanto criança obrigada a ir á missa, mas penso que compreendo melhor a mensagem de Cristo do que muitos "devotos frequentadores da eucaristia dominical". É que eu acho que se Jesus tivesse hipótese de cá voltar, logo se arrependeria de ter cá vindo, arriscando-se a um verdadeiro ataque de nervos. Para além de ser logo executado sumariamente.....

Mas sinto-me cada vez mais alienado da sociedade onde vivo. Não que as pessoas com quem convivo me ponham à parte, nem eu faço por isso, mas... a hipocrisia faz-me sentir mal. E quanto mais leio e procuro sobre certos assuntos, mais me arrependo, porque sou confrontado com algumas verdades que "espezinham" literalmente tudo aquilo em que em tempos acreditei. Pior ainda é ver muitas pessoas à minha volta nesse estado primário de cegueira verdadeiramente empedernida. Fico triste.

Mas... não desista da sua luta.

Provavelmente deve receber centenas de e-mails, alguns a ofendê-lo, mas não é este o caso.

Eu nada posso fazer para o ajudar, e mesmo que pudesse, de nada adiantava porque não sou ninguém. Nem católico. Nem ateu. Mas assim não me sinto tão isolado. Há mais pessoas a pensar como eu.

Um simples leitor que lhe deseja longa vida cheia de saúde.

 

Caro João: Bem-haja pela sua mensagem solidária. Não recebo tantos e-mails como pensa. Quem simpatiza comigo e com os meus livros, nem sempre se dá ao trabalho de o dizer. E quem me detesta e odeia não gosta de dar a cara. Prefere mais o anonimato. Discordar, é uma coisa e não envergonha ninguém. Odiar, é outra coisa, e não fica bem a ninguém.

O livro Fátima nunca mais é o mais conhecido das pessoas. Mas não é o livro mais completo. Aborda o fenómeno de Fátima e fica-se por aí. Outros livros meus são mais globais e apontam para um tipo de cristianismo e de Igreja que não coincide com o que por aí se apresenta. O que conhecemos da Igreja e do Cristianismo é mais romanismo e paganismo. Jesus, o de Nazaré, não se revê nem numa nem noutro

Para mim, valem muito mais outros livros, infelizmente, menos conhecidos. Por exemplo, Ouvistes o que foi dito aos antigos. EU, PORÉM, DIGO-VOS; ou: E Deus disse: Do que Eu gosto é de Política, não de Religião; ou: Que fazer com esta Igreja?, editados pela Campo das Letras; ou mesmo o livro Como farpas, mas com ternura, editado pela AUSÊNCIA. Nestes livros, muitas das grandes perguntas que acompanham o ser humano, desde o nascer ao morrer, encontram luz bastante, que não é frequente encontrar noutro lado.

Espero, por isso, que continue a frequentar os meus livros e, na medida em que eles lhe forem úteis, fale deles a outras pessoas. A Verdade, como a luz, não é para ficar debaixo da cama: é para proclamar sobre os telhados.

Deixo-lhe o meu abraço companheiro, Padre Mário


A minha reflexão, no Diário Aberto, no dia em que o PR Jorge Sampaio anunciou que vai dissolver o Parlamento e convocar eleições antecipadas (30 Novembro 2004), desencadeou alguns comentários, por parte de quem leu. Eles aqui ficam, pela ordem de chegada.

2004 Dezembro 05

E-mail, Pinto da Silva

Caro Mário: Vou passar meia dúzia de palavras quase só para dizer que, estando deveras contente pelo início do processo de dissolução do Parlamento, estou em quase tudo discordante de pontos de vista teus, mormente na fórmula por ti usada para manifestares o teu regozijo. E a primeira, para começar pelo quase fim, acho absoluto despropósito achares e expressares uma possível ligação do futuro voto, para um lado ou para outro, ao fenómeno de Fátima. Não duvido que muitas centenas de milhar das pessoas que apelam à "virgem de pau" não irão votar na dupla Santana/Portas. Por certo, a grossíssima maioria não votará onde mais gostarias. Irá votar PS, que, para ti, entendo eu, é mais ou menos igual aos anteriores. Eu, por exemplo, não entendo assim. Pontos de vista. O Presidente da República, ainda que descontentando muita e muito boa gente, em Julho tomou uma decisão que é inatacável sob o ponto de vista de uma coisa que se chama CRP. E, que nomes lhe seriam chamados se, em Agosto, ele tivesse marcado eleições, e o PS não tivesse uma maioria parlamentar? Quem tomaria nos braços a criança? Ou, na tua visão, entendes possível um eventual entendimento, mesmo só parlamentar, entre o PS e o PC, ou mesmo BE? Ouviste por certo o que disse o Jerónimo no discurso de encerramento do Congresso que o guindou. Para uma convergência, o PC nunca se poderá descaracterizar. Tem 6%. Pode e deve descaracterizar-se o PS que terá 45/48%, ou quiçá mais? E não achas que o Bloco elevaria a fasquia a uma altura que nenhum atleta passaria? O PS, bom ou menos bom, mais ou menos social democrata, também tem a chamada dead line a partir da qual não pode passar.

A qualidade de políticos é globalmente baixa. Também acho. Mas, no país que escolhemos para viver (e não somos obrigados) o regime suporta-se em partidos que formam um leque aberto de opões. As pessoas, com capacidade, que apareçam neles e "vendam" aos eleitores, mais cultos ou menos, mais explorados ou menos, mais devotos ou menos, as suas caras e suas ideias. E também podem movimentar-se enquanto cidadãos, mas, claro, como na parábola dos vimes, têm que ir juntos. E quando se juntam muitos, logo tendem a fazer mais um partido. Mas mesmo que não façam, se, como cidadãos, atingem algum poder, logo passam a usufruir e a embolsar as benesses que o exercício desse poder vier a dar. Apesar de tudo, o PR tem mantido muita sagesse, do meu ponto de vista. Veremos o que há-de vir a seguir. De certeza que não teremos lá nenhum Jerónimo ou quejando. O que seria trágico, adiante-se. Poderia quase não parar. Mas por aqui me fico. Um abraço.

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2004 Dezembro 05

E-mail, M. Sérgio

Meu caro Padre Mário: O problema principal, no nosso país, não é o Santana Lopes, mas o PS que ainda não socializou a vida política, em Portugal. Reparou como os capitalistas saúdam a saída do Santana Lopes do governo? Os Partidos Socialistas, na Europa, criam a ilusão de que é possível a humanização do capitalismo, sem a substituição da democracia representativa pela democracia participativa. Depois, chegam ao poder  e a sua política é tão capitalista como a dos Partidos de direita. Não esqueça o Dr. Mário Soares e o seu amigo Miterrand, o engenheiro Guterres e o seu amigo Tony Blair. Não valeria a pena um artigo, sobre este tema, no nosso Jornal?

Um abraço.

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2004 Dezembro 01

E-mail, Rui

Caro Mário: Não tem sido fácil a vida do nosso Presidente da República... Abraço-te.

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E-mail, Renato

E agora? Agora, ficamos contentes até vir o próximo Governo. E com a consciência de que pode ser igual, mas pior é difícil.

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E-mail, Elísio

Olhe, lá vai a sua bela reflexão, que acabei de ler e discutir, no bom sentido, com a minha mulher, a caminho dos meus filhos irmãos e amigos.

Penso que a comunicação social, pelas repercussões dos desmandos, não lhes fará o jeito. O meu temor é que Sócrates venha a ser mais do mesmo. A sua curta intervenção de ontem não augura nada de bom.

 Quando deixei o Partido Comunista, olhe, foi por coisas implícitas na sua reflexão. Maquiavélicos. Carreiristas. Enfim, Partidos. Estão esgotados. Outra das minhas preocupações já está concentrada na altura da votação? Em quem? Se não sou consultado, e quando o digo e que o devia de ser, no meu Bairro, depois na freguesia, na aldeia, vila, cidade, respondem-me que o "pessoal não quer mecha..." E não quer. Adormecido consente tudo.

 Mas antes do 25 de Abril isto era tão engraçado: em 5 minutos, aceso o vermelho, despachavam-se milhares de comunicados pelos automóveis e ninguém era apanhado...Havia um objectivo. Atirar com o fascismo de pantanas. Agora parece-me que tendo aprendido a lição, disfarçados de cordeiros, tomaram as rédeas de novo à besta encastelados em todas as forças partidárias. E o pobre povo...

 Bem, como diz, tenhamos esperança. Um abraço.


2004 Novembro 18

E-mail, Rita

Amigo Mário: O meu nome é Rita, tenho 21 anos e escrevo em solidariedade com a sua causa. Antes mesmo de ler o seu livro Fátima Nunca Mais já tinha, instintivamente aderido às suas palavras; porém foi-me necessário lê-lo duas vezes, não para compreender a rejeição do "fenómeno" de Fátima, mas para absorver toda a mensagem de vida que perpassa no seu discurso e que tanto me encanta. Isto que afirmo não é irrelevante! Foi o que me impulsionou a contactá-lo: eu sou agnóstica, não tive qualquer tipo de educação religiosa, tudo o que sei do Evangelho é fruto de investigação minha, e no entanto toda a minha maneira de entender o mundo é convergente com a sua, em muitos aspectos. A importância disto reside no facto de eu ter redescoberto o Evangelho como parte integrante do mundo, do mundo real, quotidiano, por vezes sujo e duro, mas ainda assim o mundo, o nosso mundo humano! e como me satisfaz saber que ainda há quem lute por amor à Verdade ( em sentido amplo ), quem se mantenha lúcido até ao fim, quem insista em abrir os olhos dos iludidos, não importa o preço a pagar. Admiro-o e sinto até um especial carinho por si, por fazer parte desses poucos tão corajosos, e, parece-me, tão raros, que me leva a recear que um dia já não reste mais ninguém assim. Queria alongar-me e ficar aqui a conversar consigo interminavelmente, mas o meu acesso à internet é muito condicionado. Peço-lhe que me indique o que devo fazer para me tornar assinante do Jornal Fraternizar. Um abraço grato, com muita amizade, Rita

 

Querida Rita: Fiquei feliz com a sua mensagem. Vem mesmo na hora. Andam os do Santuário de Fátima e os da Cúria do Vaticano ocupados em mais uma operação de puro obscurantismo e de insulto à nossa inteligência, materializada nessa treta de um novo “milagre” exigido pelo Promotor da Causa dos Santos para a canonização de Jacinta e Francisco Marto, as duas vítimas mortais da Senhora de Fátima e da sua catequese terrorista (entenda-se: vítimas de certo clero de Ourém da altura, das pregações terroristas dos padres da Santa Missão e da aterrorizadora doutrina do livro “A missão abreviada”, então de leitura quase obrigatória nos lares católicos, juntamente com um outro na mesma linha, chamado “Imitação de Cristo”) e eis que me chega o seu e-mail, cheio de jovialidade, de inteligência, de bom senso, de frescura. Nos seus 21 anos e no seu agnosticismo, a Rita consegue ver muito mais longe e muito mais fundo do que o senhor Bispo de Leiria-Fátima, o Reitor do Santuário, o Pe. Condor, o papa João Paulo II e a generalidade dos bispos e dos padres católicos. Prefiro, mil vezes, o seu agnosticismo à crendice da grande maioria dos católicos fatimistas que insistem em confundir Maria, a jovem de Nazaré que veio a ser a mãe carnal de Jesus, com a imagem reciclada da mítica deusa virgem e mãe dos cultos politeístas do velho Paganismo. Na sua cegueira, todos estes meus irmãos católicos nem se apercebem do mal que estão a fazer à causa do Evangelho de Jesus, ao Nome de Deus, à Igreja e – o pior de tudo – à Humanidade, sobretudo, à mais sofrida e deprimida. Depois de séculos e séculos de obscurantismo eclesiástico-católico, voltam de novo à carga com mais e mais obscurantismo. Só que hoje os tempos são outros, felizmente. E, se ainda há quem prefira o obscurantismo à Ilustração e ao Evangelho de Jesus, a esmagadora maioria da Humanidade (dos mais de seis mil milhões de pessoas que vivem actualmente no planeta, não chegam a dez milhões as que passam anualmente pelo santuário de Fátima!...) há muito que se deixa atrair pela Luz, pela Verdade, pelo bom senso, pela dignidade humana. Aliás, esta sua mensagem para mim é reveladora disto mesmo. Por isso, ela me deixou feliz. Bem-haja, Rita!

Quanto ao Jornal Fraternizar, se quiser passar a recebê-lo em sua casa (foi mensal durante cerca de 17 anos, mas agora é apenas trimestral), tem que me enviar o seu endereço de correio normal. Depois de começar a recebê-lo em casa, saberá das condições de assinatura e agirá conforme melhor entender. Pode, inclusive, comunicar que, afinal, não está interessada em recebê-lo mais. Não somos uma empresa, mas uma Associação cultural sem fins lucrativos. Não buscamos o lucro, mas contribuir para abrir os olhos da consciência às pessoas, à medida que os nossos também se abrem. É claro que necessitamos da partilha financeira das pessoas, para podermos fazer face às despesas, mas lucro é coisa que não buscamos nem queremos.

Fico em comunhão consigo. Um beijo, Padre Mário


2004 Novembro 12

E-mail, Fernanda (II)

Querido Mário: De novo o saúdo com alegria, pela forma como me respondeu ao último mail, mas também por ter tido a simpatia de incluir a minha carta no seu site. Sinto-me honrada por isso. Por isso mesmo, envio-lhe um texto meu, já antigo, mas que penso ter qualidade para incluir no seu site (ou noutro local), se assim o desejar. Curiosamente, o texto foi escrito no ano em que me licenciei, ainda a minha mãe era viva. Quanto a mim, continua a ser pertinente, na minha vida, provavelmente na sua e na de muitas pessoas.

Verá que é um texto carregado de metáforas (como a Bíblia), verá que o comportamento de muitas pessoas (dentro e fora da igreja) tem sido o de um rio que nunca quer transbordar, graças ao medo de arriscar. Somos, afinal, nós próprios os principais «culpados» para não irmos mais longe, em pensamentos e acções. Se acreditamos na verdade, porque não procurá-la? Se acreditamos na justiça, porque não defendê-la? Normalmente, é o medo do olhar dos «outros» que nos impede de prosseguir. Os outros mais não são do que uma parte de nós próprios (ou não fôssemos todos feitos à semelhança de Deus...).

Recentemente reli aquela parte do seu livro Fátima Nunca Mais que fala do suposto «milagre» dos pastorinhos a uma senhora paraplégica (também já vi, por diversas vezes, na televisão), e, de facto, se há coisa que nunca entendi é este suposto «privilégio» que as pessoas acham que os santos atribuem a algumas pessoas, mas não a outras. Parece-me que não está nada de acordo com a palavra de Deus no Evangelho. Não seria também isso uma injustiça?...

Não há dúvida de que primeiro acreditamos e depois vemos aquilo em que acreditamos. Não é possível dizer «Desde que vi, acredito». Só acreditando se pode experienciar. É natural que se nos convencemos que vamos ter cura, tenhamos muitas hipóteses de ser curados (por nós próprios), pois estamos abertos a ser tratados. Um «milagre» é explicável. Não me curei da depressão por «milagre», mas porque, embora tenha duvidado de mim e me sentisse em profunda tristeza, acreditei que era capaz de ser uma pessoa melhor e me deixei curar. Acreditar em nós próprios faz parte de qualquer «tratamento», de qualquer processo. Sofrer faz parte do processo, mas não é um fim. Sabemos, por instinto, que nascemos para sermos felizes, e não para sofrer, por isso a vida dos «pastorinhos» não pode fazer sentido. Não está sequer de acordo com as leis da vida. Devemos lutar contra a fome, a sede, a tortura, não divulgá-las para «salvar» o mundo. Se assim fosse, com a quantidade de pessoas que passa fome, com certeza já teríamos salvo o mundo.

Deixo-o com as minhas reflexões, agradecendo sempre a sua disponibilidade para me ouvir e responder. Abençoadas novas tecnologias, que felizmente também servem para nos pôr mais perto do coração uns dos outros...

Um beijo.

 

Querida Fernanda: Gostei da sua reflexão. Poderei vir a inseri-la na próxima edição do Jornal Fraternizar, n.º 156, de Janeiro/Março 2004, na local “Espaço Aberto”. Se não tiver nada a opor, gostaria que me enviasse uma fotografia sua, tipo passe, para dar mais realce ao texto e também para ajudar quem o ler a sentir-se mais próximo de quem o escreveu. Pode enviar a foto por e-mail.

A sua mãe vive. Ela é, desde aquele dia que deixou de vê-la, a sua grande companheira. É uma Presença que “puxa” por si, mais ainda do que antes. O “vazio” que sente é real. Mas a Fernanda saberá transformá-lo em desafio. O “vazio” que sente não é o nada. É a Presença em outras dimensões de superior qualidade. Nós é que somos seres na História, por isso, limitados. Sentimos o “vazio”, em lugar de sentirmos a Presença. Problema nosso. Haveremos de nascer de novo definitivamente, de ressuscitar, e então o “vazio” dará lugar à Presença. E à plenitude da vida.

Não estranhe que muitas pessoas evitem a liberdade. O mais comum hoje ainda é o medo da liberdade. Mas o mais desafiador do Evangelho de Jesus é a liberdade. Por isso são poucas as pessoas que aceitam fazer sua, a via humana que Jesus abriu e em que se constituiu para todo o sempre. Preferem a via religiosa/divina e a segurança que um líder forte, um chefe carismático e autoritário, estilo papa João Paulo II, lhes garante. Preferem ser súbditos com mesa farta e com outros pequenos-grandes privilégios, a ser livres, autogestionários, seres-em-comunhão. O Evangelho de Jesus é tão radicalmente desafiador, que chega a dar tonturas: Liberta-nos para a liberdade! A Cúria romana, como o grande Inquisidor, deu a volta ao Evangelho de Jesus e domesticou-o. Inclusive, fez de Jesus um Deus todo-poderoso para as pessoas adorarem e temerem. Elas, em lugar de resistirem a esta traição, mostram-se agradadas com ela, ao ponto de preferirem ter fé em Jesus, a ter a fé de Jesus! É tudo muito mais cómodo, assim. Mas também é tudo muito mais trágico.

A senhora de Fátima não tem nada a ver com Maria, a mãe de Jesus. Não passa duma imagem actualizada das velhas imagens da grande deusa virgem e mãe dos mitos do passado (pelo menos, 20 séculos antes de Jesus ter nascido) que castra quem lhe presta culto. Basta atentar nos rostos das multidões que ciclicamente se dirigem ao seu santuário e olham para ela com devoção, para logo vermos que são multidões aflitivamente castradas, domesticadas, submissas, resignadas, sofridas. A imagem é morta, mas, devido ao medo que ainda continua activamente presente no inconsciente das pessoas e das populações, acaba por adquirir um poder simbólico tremendo sobre elas, que as oprime, esmaga, castra, infantiliza, sem dó nem piedade. Torna-se no anti-Evangelho de Jesus em acção. Como tal, em lugar de libertar para a liberdade, aterroriza ainda mais quem já anda deveras aterrorizado. Por mim, até nem estranho que as pessoas e as populações não-evangelizadas e não-ilustradas se deixem ir por aí. Já me custa a entender que os responsáveis maiores da Igreja, desde o papa aos bispos e a acabar nos párocos católicos, insistam em orientar por aí as suas catequeses. Des-evangelizam, quando para evangelizar os pobres é que foram investidos no ministério ordenado. Ora, quando até os evangelizadores des-evangelizam as populações, não é de estranhar que a maioria da Humanidade se converta numa espécie de Lázaro colectivo que acaba por morrer da doença que o afecta e, depois, se resigne a viver como morta num mundo-túmulo de pedra, completamente atada de mãos e pés. Mas não desanimemos, porque à medida que o Sopro ou Espírito de Deus está a conseguir libertar para a liberdade a Humanidade, não haverá Cúria romana e santuário de Fátima que se aguentem. Felizmente, é já para um tempo assim que estamos a caminhar, como Humanidade. O que me dá muita alegria, no Espírito Santo.

Fico na comunhão. Um beijo

Mário


2004 Novembro 04

E-mail, Fernanda (I)

Senhor padre Mário de Oliveira: Recentemente li o seu livro «Fátima Nunca Mais». Foi o 1.º livro seu que li, mas tenciono continuar a ler mais livros (e artigos) seus, sobretudo acerca da temática de Fátima, que sempre me intrigou.

   Como não sou crente, e desde há muito me considero agnóstica, é relativamente fácil duvidar de Fátima, ou mesmo não acreditar e achar que tudo foi um embuste com propósitos políticos e económicos. Todavia, fico bastante feliz de encontrar alguém católico que procura a verdade sobre os acontecimentos e não tem medo de o fazer. Os relatos da Irmã Lúcia, que há muitos anos li, são impressionantemente negativos e assustadores. A Irmã Lúcia vive aprisionada, sem contar a verdade dos factos, e há bons indícios que um dia venha a ser aquilo a que a Igreja chama de «Santa». As torturas que os meninos infligiam a si próprios impressionam e reflectem hoje a imagem de Fátima que lhe é mais característica: a ágora do terror, as centenas de pessoas a arrastarem-se de joelhos, a «pagar» promessas. Do pouco que até hoje conheci da Bíblia e da religião, estou em crer que, se a religião fosse isso, mais valia ser ateu, e talvez essa seja a opção de muitos porque só conhecem «essa» igreja, a do medo, a do terror, a do Inferno, a das doenças sem cura, e não conhecem a palavra de Deus. Onde é que, em Fátima, se prega a bondade?

   Em suma, estou a escrever-lhe para o felicitar. Parece-me uma pessoa esclarecida, e isso vai sendo raro nos católicos que conheço. A sua biografia dá provas da sua luta, da sua coragem e do bom discípulo que é. Solicito que continue a pôr a nu todas as incongruências de Fátima, talvez outros membros da Igreja o façam também.

 Com o maior respeito, Fernanda

 

Fernanda: Acabo de ler a sua mensagem. Bem-vinda a bordo! Obrigado pela sua partilha de pontos de vista. Espero que continue. É bom para si e para mim. As suas referências a Fátima são mais do que oportunas. Pena é que grande número de concidadãs, concidadãos nossos não vejam o que a Fernanda já vê. E tinham obrigação de ver, na medida em que se confessam cristãs, cristãos católicos, ao passo que a Fernanda se confessa não-crente e agnóstica. Tomara eu encontrar nas católicas, nos católicos do nosso país e do resto do mundo a mesma Fé que a Fernanda revela no seu agnosticismo. Cada vez me convenço mais que a Fé que move montanhas e dá sentido e dignidade à vida das pessoas não se vai buscar à Igreja, nomeadamente, a esta Igreja patriarcalista de bispos e de padres clericalizados, nem se bebe no leite materno. Acontece misteriosamente na vida daquelas pessoas que se abrem às demais e fazem do seu viver um viver solidário, fraterno/sororal, não só com todas as outras pessoas, mas também com os animais e toda a Natureza.

Quando a Fernanda se declara agnóstica, certamente o que mais pretende é demarcar-se duma certa “fé religiosa e beata” que por aí se vê e que mais não é do que medo dos deuses e das deusas, ou crença num Deus concebido e imaginado pelas pessoas e seus medos. Como paradigmaticamente acontece na nossa actualidade com os norte-americanos. Eles acham-se sob a permanente ameaça duma espada de Dâmocles que, a qualquer momento, pode cair sobre as suas cabeças, e, em lugar de promoverem, em união com os demais povos do mundo, uma gigantesca operação de lucidez à escala planetária que nos libertaria a todos dos nossos medos, preferem, infelizmente, enterrar a cabeça na areia da religião, como se alguma vez os deuses e as deusas ou mesmo Deus valessem a alguém em aflição. O pior é que todos perdemos com este salto para trás na História, quando todos sairíamos a ganhar com o seu salto em frente, se eles tivessem tido a audácia de o dar, nas eleições presidenciais do passado dia 2 deste mês!

Devo dizer a este propósito que dos momentos que eu mais gosto da vida histórica de Jesus de Nazaré, é do momento da sua morte na cruz, quando ele clama: “Meu Deus, meu Deus por que me abandonaste?”, e a resposta que se ouviu foi a de um grande silêncio, e a ajuda que se viu foi a de uma grande ausência! Quer dizer, nenhuma voz lhe respondeu, nenhuma ajuda lhe chegou. Deus – e por isso eu creio nele – nunca foi nem há-de ser para nos substituir. E até Jesus de Nazaré teve que aprender isso, no derradeiro instante da sua vida histórica. Se Deus alguma vez nos substituísse, cresceria Ele e nós diminuiríamos! Mas Deus não é assim. Na História, somos só nós os responsáveis. Essa é a nossa grandeza e também a nossa angústia. Trata-se duma responsabilidade humana que chega a dar tonturas. Por isso, sentimos continuamente a tentação de fugir a ela e corremos quase sempre a refugiar-nos na religião, nos templos, nos deuses e nas deusas inventados, ou num Deus concebido como todo-poderoso que, se o fosse, inevitavelmente se converteria em fonte de alienação para nós.

Deus, só como graça, como dom, é que pode estar na nossa vida. Nunca como necessidade. Deus é o primeiro a querer que nós sejamos e vivamos neste mundo e na História como se Ele não existisse. Felizes, porém, aqueles seres humanos que, por ousarem ser e viver assim, se experimentam, a partir de determinada altura da sua caminhada na História, misteriosa e gratuitamente acompanhados por Deus. A comunhão que conscientemente passam a viver com Ele fará deles mulheres e homens progressivamente humanos, sem nenhuma espécie de medo e com uma alegria que nada nem ninguém conseguirá jamais arrebatar, e que os faz levar até ao limite a sua responsabilidade pessoal perante a História.

É com estas reflexões teológicas que a deixo. Juntamente com o meu beijo. Padre Mário


2004 Novembro 03

Almada, Carlos

Caríssimo Mário: Um abraço amigo, fraternal. Faltaria à verdade se te dissesse que com a regularidade que o deveria fazer, sempre leio aquilo que escreves. O tempo não dá para tudo e mesmo ocasiões há em que os dias passam e depois ... Isto não significa, de modo algum, desinteresse ou divórcio relativamente ao que escreves e até como te pude dizer via telemóvel este último número do Fraternizar foi aquele que mais rapidamente devorei.

Li e imprimi o teu artigo do Diário Aberto, de 29 de Outubro p.p. e muito me sensibilizou todas as referências que nele fazes. Pessoas como a Fatinha, o Pedro, a Maria Laura, são exemplos de vida que não podem deixar de ser objecto de todos os encómios. E isto porque alguém, um presbítero da igreja católica foi capaz de romper com um mundo de tabus, de falsidades e proclamar uma boa nova que, infelizmente, para a maioria continua a ser loucura, mas que para outros - e já serão bastantes - é o caminho certo para encontrar o Jesus de Nazaré. E viver apaixonada, desinteressadamente o Evangelho começa já a ser um pouco raro, porquanto aqueles que o prometeram difundir se preocupam muito mais com o seu bem estar, com o dinheiro, com uma vida sem problemas, sem levantar ondas.

Estas minhas palavras foram pensadas e escritas no dia 1 de Novembro, festa de todos os santos. E direi que foi não sem alegria que ouvi um colega teu no sacerdócio dizer que era o dia de comemorar todos os santos, não apenas os canonizados (e aqui deixou escapar "alguns sê-lo-ão ou não"), mas sim também todos aqueles que pelo exemplo, pelo testemunho de vida, pela "opção preferencial pelos pobres" foram capazes de mais se aproximarem de Cristo. Não do Crucificado, mas Daquele que ressuscitou para que todos pudéssemos ter a vida e tê-la em abundância.

Que felicidade terás sentido em presidir a essa verdadeira eucaristia em que os presentes puderam encontrar a palavra de verdade, a certeza que vale a pena lutar mesmo quando se tem como que a certeza de estar a remar contra a maré. Eu sei que o meio onde resides é pequeno, que a messe é grande e não é possível atingi-la em toda a sua plenitude, mas que quando se tem a consciência de proclamar a verdade se fica mais em paz, mais consciente da tarefa que a cada um incumbe se é motivado a lançar as redes por outras paragens.

Ao ler o teu texto senti-me também participando no seio de toda essa boa e simples gente, que ama, é generosa e sabe abrir de par em par as suas portas para todos os homens (eu tive já a felicidade de entrar em tua casa e na da Maria Laura). No meio da desgraça que reina, em geral no mundo e em especial no nosso pobre país, urge ter a coragem de denunciar a injustiça, a falsidade, aquilo que é a antítese do que Jesus trouxe à terra.

Em Portugal, como sabemos, cerca de 21% da população vive no limiar da miséria e onde estão as vozes da hierarquia a denunciarem a situação, a dizerem que isto é perfeitamente insustentável? O silêncio é mais cómodo e dizer umas palavras de circunstância ou entoar uns cânticos, por vezes idiotas, é menos grave que a verdade. E as pessoas, na sua maior parte incultas, gostam de quem lhes faça festas no coração...

Assim, Mário, prossegue a luta, certo do caminho que percorres e indiferente a vozes como a do teu colega José Luís Borga (ainda gostava de saber quanto ganha na TV e para que se destina o dinheiro) e a de tantos cuja coragem jamais virá à tona de água e se limitam a banalidades. Não estudam, não querem ouvir, não sabem ou fingem não saber. Confia que vale a pena continuar a lutar e todos os dias que tiveres mais uma pessoa contigo, será um dia de felicidade, do aumento do reino do Pai.

Sabes da dificuldade do nosso encontro (poucas idas ao norte, problemas de locomoção e outros) mas sempre que por lá vá (quiçá nos princípios de Dezembro), ligar-te-ei bem como a outros que te são próximos (estou a recordar a Deolinda, de Gulpilhares). Sabes que estou contigo que não tendo deixado ainda muitas das práticas em que fui criado e tenho vivido, jamais deixarei de sentir a mensagem que de ti irradia e que contribuirá para me sentir mais irmão do meu irmão.

Saúdo-te em plena comunhão e peço faças extensivos os meus votos aos que em permanência mais te acompanham.

 

Obrigado, Carlos, pelas tuas palavras. Aceito-as na comunhão que nos alimenta. E em Eucaristia, ou Acção de graças à Mãe/Pai Deus. São grandes as maravilhas que o Espírito faz, quando não lhe colocamos travões. Sobretudo, eclesiásticos. Ou religiosos

Vale a pena ser presbítero longe dos altares e dos templos, onde tudo é faz-de-conta, vaidade, ostentação, arrogância, hipocrisia, beatice. E onde até a Palavra de Deus sempre aparece agrilhoada. O sacerdócio não vem de Deus, do seu Espírito. Muito menos, o sacerdócio clerical e patriarcal que hoje vemos por aí. Do Espírito vem a profecia. Mas da profecia as paróquias católicas e as Igrejas protestantes fogem a sete pés. Em seu lugar, colocam os cultos, com meninos/meninas de coro, diáconos casados (cuidado com as mulheres, que nem para este ministério ordenado podem ser chamadas, apenas para zeladoras de altar, mulheres-a-dias de graça, etc). Sei o que deixei, ao abandonar o ofício de pároco, porque também já passei por esses lugares. Quis mudar tudo, desde dentro, mas não mo permitiram. E colocaram-me na condição de presbítero sem ofício pastoral. Como um não-existente. Desde então, assumo-me cada vez mais como presbítero nas margens com as pessoas e para as pessoas que vivem nas margens.

Macieira da Lixa é uma aldeia pequena, mas nela está todo o mundo. Como qualquer outra aldeia, é um microcosmos. Se aqui acontecer a Palavra de Deus, ela há-de chegar a todo o mundo. Não que eu a leve. Mas porque o Espírito, o Vento ou o Sopro de Deus, a levará! Eu creio.

A via de Jesus é distinta da via da religião, inventada pelos nossos medos. Ora, é pela via de Jesus que quero avançar. Não pela via da religião. À medida que avanço pela via de Jesus, sinto que a vida da religião é esterco, como já reconheceu, no século I, o apóstolo Paulo. Experimenta. E verás que é assim. O Espírito de Deus não engana.

Dou-te o meu abraço, Mário


2004 Outubro 30

Gondomar, Rute

Olá caro padre Mário, como está? Nos últimos dias com toda a confusão do infeliz caso da pequena Joana e do professor Marcelo, não se tem dado a meu ver importância a uma questão que é muito importante para todos: a Constituição europeia. Não quero com isto dizer que aqueles dois últimos casos não são importantes até porque levantaram muitas questões importantes, mas penso que não se tem dado a devida importância à questão da chamada e mais que duvidosa constituição europeia. Começo por lhe dizer a minha opinião. Sou completamente contra por vários motivos:

Esta constituição não foi feita para unir a Europa, para a tornar numa Europa unida em prol dos Valores da Justiça, Solidariedade, Liberdade, Combate à exclusão social e à miséria, porque senão eu estaria mais do que de acordo com ela e com o seu projecto. Seria a primeira a defender uma Europa assim.

O seu verdadeiro intuito é contudo criar (como disse um euro-deputado) um projecto político em que um directório de países, diga-se Espanha, Reino Unido, França e Alemanha controlam todas as decisões e Portugal e os restantes países se tornam, se é que já não são um espécie de "província". Não sei se sabe mas esta constituição pretende oficializar o capitalismo e torná-lo uma espécie de ideologia do futuro Estado europeu. Ou seja esta constituição não foi feita para unir os povos em prol de uma política de Justiça, de compromisso social, nomeadamente desta Europa rica com os seus próprios pobres e com os pobres do chamado terceiro mundo que ela tanto ignora, mas sim para institucionalizar como fizeram os EUA nos anos 50/60 o capitalismo essa "ideologia/religião"que como se pode ver tem fieis seguidores nos líderes desta Europa. Querem institucionalizar o capitalismo, ou seja a ideologia que promove a miséria aos milhões, que ouve os pedidos de meia dúzia de gente, os ricos diga-se de passagem, mas que é completamente surdo para os gritos de fome, de justiça, de ajuda dos milhões que morrem de fome, de doenças facilmente curáveis. Mas que sistema é este, que constituição é esta? É esta Europa que queremos? Que Europa é que queremos melhor dizendo?

2.º Esta constituição é um ataque a todos os progressos  que nas últimas décadas muitos homens e mulheres lutaram arduamente para conseguir. Unamos a Europa, unamos todo o mundo como uma só nação, sem excluídos, sem gente de primeiro e de terceiro mundo, abolamos todos os nacionalismos, fanatismos, diferenças que os separam e que em grande parte das vezes só causam guerras, para nos unirmos e construirmos, aquela chamada Nova Jerusalém, que é a cidade/povo/nação/Estado por excelência, sem excluídos, onde não há mais pranto, nem dor, nem fome nem tristeza (Apocalipse).

Não defendo que se deve atacar ou criticar esta constituição porque ela põe em causa a soberania. A soberania deve ser defendida, mas não deve ser impedimento de os povos se unirem em prol de um outro mundo, uma só nação/Estado, esse argumento é muitas vezes eivado de nacionalismos, esse sentimento que tantos guerras causou como a colonial, a 1º grande guerra e a 2ª grande guerra. Acho que se deve defender os interesses de todos os países, sobretudo dos mais pequenos e com menos poder, porque quando há uniões deste géneros, há sempre a tendência de uns países se sobreporem aos outros e uma união é suposto ser uma união de todos, onde todos têm lugar e voz, exactamente nos antípodas do mundo actual, onde há países que ao que parece são de primeiro mundo e por isso, vá-se lá saber porquê, tem mais voz que os outros e os outros são, por assim dizer, gente de segunda, que só importa para explorar.

Contra esta constituição europeia, por uma outra Europa e Mundo. Diga-me a sua opinião sobre este tema. Já tem a sua opinião formada? Que pensa da minha?

Fique COM DEUS. Um Beijo no Amor e Na Comunhão.

Querida Rute

Não sou tão pessimista como tu, no meu olhar para a Constituição europeia. Só o facto de a maioria dos deputados do PE ter recusado alinhar com o Vaticano de Wojtyla e de Ratzinger, no que respeita às chamadas “raízes cristãs da Europa”, no preâmbulo do texto definitivamente aprovado, já é motivo de alegria para mim e um sinal de que temos o caminho aberto para uma Europa das cidadãs, dos cidadãos. Em substituição da Europa dos clérigos e dos papas, que foi o que ela sempre foi desde Constantino até à Modernidade, para não dizer até ao Vaticano II. Ainda hoje, o sonho deste papa era ser chefe de estado da Europa, ou mesmo do mundo, pelo menos, ao nível das leis morais e do pensamento moral.

De resto, a Constituição europeia é apenas o início de um processo histórico, necessariamente aberto, por isso, capaz de muitas surpresas no seu percurso, umas boas, outras menos boas. As cidadãs, os cidadãos continuamos a ter nas mãos o nosso destino europeu e mundial.

Tu que acabas de entrar na maioridade tens tudo à tua frente. Espero ver-te politicamente empenhada, metida até aos ossos no processo histórico do nosso país e da Europa. Para que o nosso futuro venha a ser de vida e vida em abundância para todas as pessoas e para todos os povos.

Eia, avante, querida Rute! Atira-te de cabeça e com cabeça.

Beijo-te com todo o afecto. Padre Mário


 2004 Outubro 27

E-mail, Elísio

Olá Padre Mário, 

No Sábado passado, a caminho de Lisboa, às tantas dei com o início duma mesa da qual fazia parte, bem como outros nomes conhecidos, uns do Fraternizar e outros doutras bandas, e logo apurei o ouvido. Ouvi até à sua 2ª intervenção, quando lhe cortaram a palavra com o argumento de que se afastava do tema - coisa que não descortinei. Depois, não sei porquê, a minha TSF entupiu. Como não fixei o livro agradeço-lhe a indicação do respectivo título. Acredito que tenha interesse. Se nem o Carreira das Neves achou que não...

Agora um comentário à parte: não sei se seria capaz de participar num debate, conversa, sei lá, em que o jornalista ou quem quer que fosse, depois de me convidar, não me respeitasse e não me deixasse exprimir uma ideia até ao fim. Ficava com a sensação de que me estariam a gozar. Um abraço.

Caro amigo Elísio

Ainda bem que ouviu a TSF. Pena que não ouvisse do princípio ao fim. Foi um bom momento de rádio-debate. Também senti uma estucada no meu peito, quando o Carlos Pinto Coelho me tirou a palavra, sob o pretexto de que estávamos a fugir do assunto. No programa, a palavra foi sobretudo dele e do Pe. Carreira das Neves. Mas o facto do Carlos me ter convidado para estar no programa já foi muito bom. Nunca pensei que ia estar entre todos aqueles doutores catedráticos, na minha condição de simples “presbítero da Igreja do Porto” (foi assim que o Carlos fez questão de me apresentar no início…). Senti-me como o menino Jesus no meio dos doutores. É claro que teria gostado mais de estar todo o programa sozinho com o Carlos a falar sobre Jesus, hoje. Mas isso é impensável, nos tempos que correm.

O livro que esteve na origem do debate é de E. P. Sanders. Título: A verdadeira história de Jesus. Editora: Notícias, de Lisboa.

Falarei dele na próxima edição do Jornal Fraternizar.

Um bom dia. Com o meu abraço companheiro


 2004 Outubro 14

Tribunal Mundial sobre o Iraque (TMI), sessão portuguesa

(Divulgo aqui na íntegra o Manifesto do Grupo do Porto que me foi enviado e que também subscrevi. A sessão pública do Porto será dia 12 de Novembro, 6.ª feira, às 21 horas, na Cooperativa Árvore. Leia o Manifesto e não falte à sessão)

MANIFESTO DO GRUPO DE APOIO À AUDIÊNCIA PORTUGUESA DO TRIBUNAL MUNDIAL SOBRE O IRAQUE (PORTO)

Sim, sr. Bush

Diga, sr. Bush

Como queira,

sr. Bush

O Estado português é cúmplice

dos crimes cometidos no Iraque

 

“NÃO PERGUNTES POR QUEM OS SINOS DOBRAM (…).

(…) ELES DOBRAM POR TI”!

JOHN DONNE (1572-1631)

Desde 2001 quiseram que acreditássemos que o Iraque tinha armas de destruição maciça e, por isso, o ocidente corria perigo! A MAIORIA DE NÓS NÃO ACREDITOU!

Desde 2001 quiseram que acreditássemos que, mesmo não havendo essas armas, o Iraque seria o cadinho do terrorismo internacional! A MAIORIA DE NÓS NÃO ACREDITOU!

Depois quiseram que acreditássemos que a guerra seria limpa, breve e cirúrgica, útil para derrubar um ditador odioso e restituir a liberdade e democracia ao violentado povo iraquiano. A MAIORIA DE NÓS, NÃO ACREDITOU!

Mais tarde quiseram que acreditássemos que a guerra tinha acabado no início de Maio de 2003! A MAIORIA DE NÓS, DE NOVO, NÃO ACREDITOU!

Em desespero de causa quiseram que acreditássemos que o povo iraquiano readquiriria a sua soberania nacional a partir de fins de Junho de 2004! A MAIORIA DE NÓS, AINDA ASSIM, NÃO ACREDITOU!

Disseram-nos, por fim, que queriam velar pelo mundo, defender-nos, proteger-nos, dar-nos paz, garantir a nossa segurança, tornar o planeta mais livre e democrático…e no entanto…CONTINUAMOS TEIMOSAMENTE A NÃO ACREDITAR!

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Desconfiados, achamos que a luta contra os infiéis tinha sido originada pela decisão iraquiana – em Novembro de 2000 – de instituir o euro como moeda de referência para as suas transacções de petróleo o que – a ser seguido pelos restantes produtores – poderia despoletar uma hecatombe na economia americana habituada a fabricar dólares/papel 24 horas por dia.

Desconfiados, a maioria de nós nunca acreditou em nada porque também sabíamos que, como disse o Ministro dos Negócios Estrangeiros britânico nos princípios deste ano, a pacificação era imprescindível para que “os recursos naturais do Iraque, petróleo incluído, pudessem ser utilizados em benefício de toda a gente”! Desconfiados, afirmámos que sabíamos quem era “toda a gente” e dissemos que seria essa gente a beneficiar dos lucros da rapina!

Desconfiados, pusemos em causa as provas – não por termos tido expectativas quanto ao carácter do regime de Saddam Hussein generosamente apoiado durante anos pelas administrações americanas, nomeadamente na chacina ao povo curdo – mas porque tínhamos a certeza que, mais tarde ou mais cedo, um qualquer Colin Powel viria dizer que tinha “dúvidas sobre a veracidade de algumas alegações a respeito de armas de destruição maciça”!

Desconfiados, nunca tivemos ilusões sobre guerras limpas ou cirúrgicas! A reconstrução do Iraque tem permitido o desafogo económico de múltiplas empresas da coligação nomeadamente as afectas a Dick Cheney, actual vice-presidente de W. Bush!

Desconfiados, nunca aceitamos que esta guerra pudesse servir a paz: o mundo não está hoje mais seguro e a violência alastrou a zonas onde antes não tinha guarida! Desconfiados, percebemos o golpe: “ (…) depois de destruir os taliban, depois de destruir o regime de Saddam, a mensagem aos outros é: Vocês são a seguir (…) ” decretava o “Príncipe das Trevas” americano, Richard Perle no início da invasão ao Iraque.

NUNCA ACREDITÁMOS, SEMPRE DESCONFIÁMOS MAS NUNCA PENSÁMOS QUE O DESPUDOR E A IMPUNIDADE PUDESSEM CHEGAR TÃO LONGE!

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Desde a 2ª Guerra Mundial os EUA, enquanto Estado ou clandestinamente intervieram em mais de 30 países soberanos, à bomba ou com acções tipo“Rambo/Rangers do Texas”.

A história tem demonstrado, factualmente, que os Estado Unidos têm uma paranóia compulsivamente imperial, desmedida, funcionando como uma espécie de Rei Midas ao contrário: transformam em guerra, miséria e sofrimento tudo aquilo em que tocam! Sem necessidade de disfarçar ou aparentar tudo se passa em tempo real: é assim porque é assim! Invade-se porque se pode, ocupa-se porque se quer, pilha-se porque é preciso. Para o imperialismo americano e seus apaniguados o mundo é um tabuleiro de xadrez com um só rei e trinta e um peões.

                                       MAS A IMPUNIDADE TEM LIMITES! DESTA VEZ “A CULPA NÃO VAI MORRER SOLTEIRA”!

Em 1946 o Tribunal de Nuremberga julgou e condenou alguns dos principais criminosos nazis dignificando a história e a memória!

Nos anos 60 a opinião pública mundial julgou moralmente – com o Tribunal Cívico Bertrand Russell – os crimes de guerra cometidos pelos Estados Unidos no Vietname.

Pouco tempo depois do 25 de Abril de 1974 o Tribunal Cívico Humberto Delgado organizou-se para julgar, também moralmente, a Pide e os múltiplos agentes da repressão do fascismo.

“Nada pode apagar

o concerto dos gritos(…)

(…) dos povos destruídos

dos povos destroçados (…)”,

escreveu Sophia Mello Breyner (1919-2004) na sua “Cantata da Paz”.Chegou, por isso a altura de construir o dia inteiro e limpo criando condições para julgar (infelizmente só em termos morais) Bush, Blair, Aznar, Barroso e toda a panóplia de comentadores e opinion makers que ajudaram a construir uma monstruosa mentira!

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Na tradição do Tribunal Russell foi constituído em 2003 o TRIBUNAL MUNDIAL sobre o IRAQUE (TMI) com o propósito de investigar os crimes perpetrados contra o povo iraquiano, debater as motivações da agressão e a teia de embustes criada, acusar os autores e seus cúmplices, fortalecer a acção mundial pela paz contra as políticas belicistas.

Este Tribunal (de opinião) é composto de várias sessões a culminarem numa sessão final em Istambul, Turquia, a 20 de Março de 2005 Depois de realizadas iniciativas em Londres, Bombaim, Copenhaga, Nova York e Roma deverão acontecer algumas outras em Espanha, Grã-Bretanha, Egipto, Coreia do Sul e Portugal.

 “Sabemos que o Iraque tem armamento de destruição massivo, biológico e químico. Pode estar na iminência de possuir armas nucleares” afiançava no Parlamento português, em 2002, o actual Presidente da Comissão Europeia, José Manuel Barroso, tirocinando certamente para servir de estalajadeiro na Cimeira da Guerra realizada nos Açores no ano seguinte.

Porque além de não acreditarmos também não esquecemos, “metemos os pés ao caminho”: a 12 de Novembro, pelas 21 horas, na Cooperativa ÁRVORE ocorrerá no Porto uma sessão destinada a analisar e pontuar a mercadoria putrefacta – e respectivos “comissionistas” – que quiseram, e despudoradamente continuam a querer, vender-nos!

Esta iniciativa vai inserir-se na AUDIÊNCIA PORTUGUESA DO TMI a realizar em Lisboa, provavelmente no início de 2005 e à qual deram já o seu apoio centenas de pessoas entre as quais se destacam, António Borges Coelho, historiador, António Capelo, actor, António Reis, actor, António Ramos Rosa, poeta, Assembleia Libertária do Porto (adesão colectiva), Associação dos Médicos Portugueses para a Prevenção da Guerra Nuclear e de Todas as Guerras (adesão colectiva), Avelino Gonçalves, professor, Carlos Vale Ferraz, escritor, Corregedor da Fonseca, deputado, Diana Andringa, jornalista, Eduarda Dionísio, escritora, Fausto, cantor, Fernando Rosas, historiador, Frei Bento Domingues, padre, João Gil, músico, João Semedo, médico, João Teixeira Lopes, professor universitário/deputado, Jorge Silva Melo, encenador, José Leitão, actor/encenador, José Mário Branco, compositor, José Viale Moutinho, escritor, Júlio Cardoso, actor/encenador, Luiza Cortesão, Professora Universitária, Manuel Freire, presidente da Sociedade Portuguesa de Autores, Manuela de Freitas, actriz, Margarida Gil, cineasta, Maria do Céu Guerra, actriz, Maria João Pires, pianista, Maria José Morgado, magistrada, Mário Cláudio, escritor, Miguel Urbano Rodrigues, jornalista, Movimento pela Paz, organização cívica/Porto (adesão colectiva), Nuno Grande, médico, Nuno Teotónio Pereira, arquitecto, Padre Mário de Oliveira, jornalista, Paulo de Carvalho, músico, Pedro Bacelar de Vasconcelos, jurista, Rui Vieira Nery, musicólogo, Saldanha Sanches, jurista, Vasco Lourenço, militar, Vera Mantero, coreógrafa.

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Nem que seja preciso “ressuscitar da morte às arrecuas” que nos querem dar urge dar voz à verdade, responder afirmativamente à indignação! A trapaça e o contrabando não são inevitáveis e muito menos será aceitável fazer de conta que não poderia ser de outro modo. Se a invasão, ocupação, pilhagem e delapidação do Iraque forem deixados impunes saberemos em breve que,

“Ontem comecei

a aprender a falar

Hoje aprendo a calar

Amanhã deixo

De aprender”

(Erich Fried -1921-1988)

PORTO, OUTUBRO DE 2004


 2004 Outubro 06

E-mail, Elísio

Cá estamos nós de novo. Boa tarde. Hoje é para lhe pedir uma pequena ajuda. Lembra-se de há dias lhe ter dito que tinha passado o livrinho a uma jovem colega? Já na sequência da leitura fiquei a saber que costuma fazer yoga, para meditar, e falou de coisas muito confusas que tem na cabeça. Pergunta se acredito se há encarnação, ou reencarnação, por exemplo. O que é o espiritismo. E noutras coisas esotéricas que a preocupam e para as quais não tenho resposta. Não sou muito versado (nada) nessas coisas. Por exemplo, e agora aqui vai a ajuda, contou que, com um grupo se puseram a fazer perguntas a um copo e que o copo respondia e que isso a impressionou tanto que andou umas noites a dormir mal. Conhece estas experiências? Que explicações lhe posso dar sobre isso?