Carta Presbiteral mês a mês

 

Nesta local, divulgarei na íntegra as mensagens que regularmente escrever, em forma de carta, ao povo de Macieira da Lixa e que distribuirei, com o apoio de companheiras, companheiros da Comunidade, pelas casas das pessoas da freguesia. Serão cartas curtas, escritas em linguagem simples, com um tipo de letra que facilite a leitura por parte de pessoas sem hábitos de leitura. Cada carta caberá, como regra, numa folha A4, dobrada a meio em forma de caderno de 4 páginas. A primeira carta foi distribuída dia 22 de Abril de 2004. Em princípio, procurarei escrever e distribuir uma carta por mês.


 

Carta Presbiteral n.º 1, Abril 2004

Desde 15 de Fevereiro de 2004, que estou de novo a viver no meio de Vós. Desta vez, não foi preciso o Bispo da Diocese mandar-me para cá, como aconteceu, em Outubro de 1969, quando, sem nunca nos termos visto antes, aqui entrei como o vosso pároco e logo tive direito a ocupar gratuitamente a casa paroquial, a pontificar no respectivo templo ou igreja, e até a ser sustentado por vós. Desta vez, fui eu que quis vir.

Não posso esquecer que, desde esse tempo, a terra de Macieira da Lixa colou-se para sempre ao meu nome. Como sabeis, foi aqui, a viver convosco e para vós, que passei a ser conhecido como "Padre Mário de Macieira da Lixa". As duas prisões políticas que então tive que suportar em Caxias, juntamente com os dois julgamentos no Tribunal Plenário do Porto fizeram de mim e de Macieira da Lixa notícia nos jornais da época, não só no nosso país, mas também na Europa e em muitos outros países do mundo. Posso, por isso, dizer, que ajudei a pôr Macieira da Lixa no mapa. Mas não foi por mim, evidentemente, nem pela terra em si que isso aconteceu.

Foi tão só pelo Evangelho de Jesus Cristo que aqui, na minha fraqueza humana, vos anunciei e ensaiei viver todos os dias convosco. Os poderes instituídos não me perdoaram e tudo fizeram para silenciarem a minha voz. E a verdade é que nem o 25 de Abril que aconteceu logo a seguir à saída da minha segunda prisão política, em Fevereiro de 1974, conseguiu alterar a situação e trazer-me de volta para o meio de vós. O mesmo Bispo do Porto que me havia dado a vós também me afastou de vós. À força. Sem que eu, na altura, tivesse podido resistir ao seu incomensurável poder canónico-eclesiástico.

Trinta anos depois, aqui estou de novo no meio de vós. E como já então vos disse, também agora volto a dizer: quero ser o vosso companheiro de todas as horas. Para tanto, vivo no meio de vós sem qualquer ponta de poder eclesiástico e sem qualquer privilégio clerical. Como já é do vosso conhecimento, habito uma casinha alugada no Lugar da Maçorra, que me foi disponibilizada pela família José Maia/Huguette/Irene, de quem sou vizinho e amigo.

Continuo a ser padre da Igreja católica que está no Porto, mas agora sem qualquer encargo paroquial directo. Prefiro viver perto das pessoas, particularmente, das mais empobrecidas, oprimidas, excluídas, ridicularizadas, e encontrar-me pessoalmente com elas nas suas casas, nos múltiplos caminhos da vida, longe dos templos e dos altares, fora de todas as estruturas do poder eclesiástico ou outro, despojado dos privilégios que o estatuto de clérigo sempre garante a quem faz questão de o manter. Numa palavra, quero que todo o povo tenha em mim um companheiro, um amigo, um irmão. Mas particularmente as pessoas mais sofridas, mais doentes, mais fragilizadas, mais condenadas à solidão.

Uma coisa vos peço: Não vos escandalizeis pelo facto de eu ser padre católico no meio de vós e nunca frequentar o templo paroquial, nem ir à missa ao domingo. Já quando fui vosso pároco, quis converter o templo paroquial em casa do povo de Deus. Os encontros que realizámos lá dentro, em ambiente de franco e fraternal debate, já era para aqui que apontavam. Mas a verdade é que os templos resistem a essa conversão, porque, desde sempre, foram concebidos pelas pessoas para casas da divindade, destinadas ao culto, inclusive, de imagens mortas de santas e de santos, dentro dos quais nós, os seres humanos, fatalmente nos sentimos constrangidos, estranhos e oprimidos, ao contrário do que felizmente acontece dentro das nossas próprias casas.

Porém, há algum tempo atrás, dei ainda mais um passo na minha consciência e cheguei até à conclusão de que Deus, o de Jesus, não só não gosta dos templos, como nunca habita neles, por mais que a gente pense que sim.

A verdade é que, dentro dos templos, as pessoas são sistematicamente impedidas de ter voz e vez. Só o pároco tem voz e vez, mas enquanto funcionário religioso e responsável pelo templo e pela divindade, não enquanto homem, ser humano, simplesmente.

Imaginem que eu ou qualquer de vós, num qualquer domingo, entrávamos no templo e decidíamos tomar a palavra, como fez Jesus várias vezes, nas sinagogas do seu país. Era um sarilho de todo o tamanho. E dificilmente haveria missa. Se, no domingo seguinte, insistíssemos na mesma atitude, acabaríamos certamente expulsos do templo, como, aliás, Jesus também acabou expulso das sinagogas do seu país, aonde ia para ensinar, não para ser ensinado.

Entretanto, para que Deus Vivo, o de Jesus, se encontre comigo e me faça seu filho e viver como seu filho, não é no templo que alguma vez isso acontecerá. Terei que me reunir com mais duas ou três pessoas em nome de Jesus (cf. Mt 18, 20). Ou na casa onde moro. Ou na casa da Comunidade, que vós conheceis muito bem. Ou na casa de qualquer de vós que me convide também para esse fim. Aqui declaro desde já que estou disponível para entrar nas vossas casas, sentar-me às vossas mesas, ouvir convosco o Evangelho, a partir da Bíblia e dos acontecimentos de que é feita a nossa História actual, e também para Partirmos juntos o Pão e o Vinho em Memória de Jesus, o Crucificado/Ressuscitado. Irei com alegria e de graça. Porque, como diz Jesus: "dai de graça o que de graça recebestes" (Mt 10, 8b).

Aceitai o meu abraço de comunhão. Vosso, sempre, Padre Mário.

ENCONTROS MARCADOS PARA A CASA DA COMUNIDADE

1. Ceia eucarística: todos os segundos sábados de cada mês, com início às 20 horas pontualmente. Cada pessoa que decida participar deverá trazer consigo uma pequena ceia já confeccionada de casa para colocar na MESA COMUM. A Casa da Comunidade garante uma sopa quente.

2. Estudo bíblico: todos os quartos sábados de cada mês, com início às 21,30 horas pontualmente. Para começar, estudaremos ao pormenor o Evangelho de Marcos, para melhor conhecermos Jesus de Nazaré e o seu projecto do Reino/Reinado de Deus. E para melhor sermos suas discípulas, seus discípulos, hoje.

Atenção! Ambas as acções são gratuitas e abertas a todas as pessoas que queiram participar, sejam de Macieira da Lixa, ou de outras terras.

 

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